ELAS NA POLIANTEIA: OS DISCURSOS SOBRE A EDUCAÇÃO FEMININA NA “POLIANTEIA COMEMORATIVA DA INAUGURAÇÃO DAS AULAS PARA O SEXO FEMININO DO IMPERIAL LICEU DE ARTES E OFÍCIOS” (1881)
Francismara de Oliveira Lelis 1
Resumo: Em 1881, na cidade do Rio de Janeiro, foram abertas as primeiras turmas femininas do Imperial Liceu de Artes e Ofícios. A inauguração dessas turmas mereceu uma publicação específica, a “Polianteia comemorativa da inauguração das aulas para o sexo feminino do Imperial Liceu de Artes e Ofícios” que reuniu diversos intelectuais brasileiros convidados a escrever sobre a importância da iniciativa. Esses autores apresentaram na Polianteia diferentes visões acerca da inserção feminina no sistema de ensino, desde falas sobre autonomia feminina ao discurso de conservação do estereótipo da rainha do lar. O objetivo central é historicizar e analisar esse documento extremamente singular, principalmente por sua temática, já que contém retóricas que constroem e/ou reconstroem o papel feminino, partindo majoritariamente de homens de uma classe privilegiada, que possuem o poder de determinar socialmente o outro sexo. Esses discursos não são só reflexos da sociedade brasileira do século XIX, mas também criam, instituem e legitimam realidades, relações de poder e hierarquias de gênero. Palavras-chave: Mulheres. Educação feminina. Discursos.
No Brasil de hoje, 2013, os estados e municípios são os responsáveis pela educação básica
da população. Ao entrar nessas escolas públicas e em suas salas de aula é possível perceber turmas
mistas com números equiparados de meninos e meninas. Esse fato é considerado como natural por
aqueles que o vivenciam, mas ao olhar para a história da educação brasileira o que se encontra é um
árduo e demorado processo para a inserção de meninas e mulheres no sistema de educação pública,
processo esse que pode ser mapeado através das pesquisas sobre a história da educação e dos
estudos de gênero.
Essa questão é combustível da minha pesquisa que está sendo desenvolvida no mestrado,
onde analiso um documento singular, a Polyanthéa commemorativa de inauguração das aulas para
o sexo feminino do Imperial Lycêo de Artes e Officios, uma coletânea de textos produzida no ano de
1881, no Rio de Janeiro, e que reuniu diversos homens letrados que versaram sobre a importância
da educação voltada para mulheres. O presente texto é fruto das inquietações provocadas pelos
primeiros contatos com essa fonte e os discursos que a constituem.
Esse documento se insere num século de significativas transformações do cenário brasileiro,
inclusive mudanças acerca da educação já que data de 1827 a primeira legislação referente à
1 Mestranda do Programa de Pós-graduação em História da UFRRJ, Seropédica - RJ, Brasil.
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educação feminina, mas que apenas assegurava para as meninas e mulheres o direito de frequentar escolas de formação básica, permanecendo negado o acesso ao ensino superior. E mesmo essa educação elementar permitida pela lei era diferenciada, com ênfase no que se acreditava necessário para uma mulher se tornar uma boa mãe, esposa e rainha do lar. Enquanto os meninos eram educados para o mundo, o político, a ação; as meninas eram treinadas para o doméstico, valorizando as emoções e a passividade. Cabe aqui problematizar que o acesso à educação no Brasil era extremamente precário no século XIX. A maior parte da população continuava analfabeta ou semi-analfabeta. Segundo dados apresentados por June Hahner, em 1872 somente 19,8% dos homens e 11,5% das mulheres sabiam ler e escrever 2 . Grande parte dessa população alfabetizada teve acesso às primeiras letras em casa, com algum instrutor particular ou familiar instruído. A população das cidades tinham maiores possibilidades de frequentar alguma escola se comparada com a população rural, mas mesmo assim, a oferta de escolas era insuficiente. Para as mulheres a situação era ainda mais difícil: se o número de escolas já era inferior à demanda, escolas para meninas ou de ensino misto eram raras. Dentro desse contexto o Imperial Lycêo de Artes e Offícios decide abrir sua primeira turma para mulheres, o que provocou polêmicas e algumas críticas, já que as aulas eram noturnas, o que poderia ofender a honra dessas mulheres. Para entender essa questão é necessário levantar alguns pontos sobre a criação do Lycêo de Artes e Offícios. Idealizada por Francisco Joaquim Bethencourt da Silva, a Sociedade Propagadora das Belas Artes (SPBA) é fundada em novembro de 1856 e tem como carro-chefe de seus projetos a criação de uma escola que juntasse o conhecimento técnico da produção industrial com a criatividade das belas artes. Com esse objetivo, em 9 de janeiro de 1858, o Lycêo de Artes e Officios dá início às suas atividades, sendo uma instituição de ensino com caráter privado mas que recebia subvenção do Estado. As aulas eram oferecidas no turno da noite, gratuitamente, visando atender os trabalhadores fabris. Os professores não recebiam remuneração e o foco principal da instituição eram as aulas de desenho. Gondra e Shueller nos lembram que essa ênfase no desenho não era uma característica exclusiva dessa instituição, já que
A ênfase no ensino do desenho não era uma questão exclusivamente brasileira. O desenvolvimento da indústria, da técnica, da arte e das ciências aplicadas ao progresso econômico e industrial era uma questão amplamente discutida pelos países europeus nas grandes Exposições universais, as “vitrines do progresso”, das quais o Império do Brasil fez
2 BRASIL, Diretoria Geral de Estatística, Recenseamento da população do Império do Brasil a que se procedeu no dia 1º de agosto de 1872. Município Neutro, 21:102. Apud. HAHNER, June Edith. Emancipação do sexo feminino: a luta pelos direitos da mulher no Brasil. 1850-1940. Florianópolis: Ed. Mulheres, Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2003. p.
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parte. Não por acaso o Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro seria fundado em 1856, um ano após a Segunda Exposição Universal, realizada em Paris, 1855. (GONDRA e SHUELLER, 2008, p. 72)
Dentro da lógica dessa proposta de ensino cujo publico alvo era formado por trabalhadores das fábricas, o Lycêo funcionava exclusivamente a noite. Ao propor então em 1881 um pioneiro curso para a instituição, o profissional feminino, o Lycêo e sua mantenedora tiveram que tomar algumas decisões para que ficasse evidente para a sociedade a honradez e nobreza da proposta desse curso feminino. Então transformaram uma das salas de aula numa espécie de sala de espera, onde aqueles que eram considerados responsáveis pelas alunas – seus pais, maridos e noivos, já que proteger e orientar as mulheres eram atribuições de homens, uma forma de exercício do poder masculino – deveriam poder esperar para levá-las de volta para casa em segurança e também para fiscalizar o comportamento delas durante as aulas. Além de resolver uma situação mais prática, a Sociedade Propagadora das Belas Artes – mantenedora do Liceu – decide publicar uma coletânea que reunisse os mais “distinctos homens de lettras” do Império para comemorar e defender publicamente o início das aulas para as mulheres. Assim nasce a Polyanthéa comemmorativa das aulas para o sexo feminino do Imperial Lycêo de Artes e Officios 3 . É importante para as reflexões deste trabalho salientar que essa coletânea de textos é fruto de uma ordem discursiva masculina, masculinizante, heterossexual e branca, onde seus argumentos e retóricas não são aleatórias, mas sim possibilidades permitidas pelos procedimentos de controle dessa ordem discursiva. Entre os literatos convidados para escrever na polianteia 4 figuraram nomes como Joaquim Nabuco, Machado de Assis e Miguel Lemos, sendo ao todo 127 homens de letras, e apenas 4 mulheres. Essa discrepância numérica é sintomática à dificuldade que as mulheres da segunda metade do século XIX tinham para fazer parte dos círculos literários, em publicar seus livros e serem lidas. Já eram poucas mulheres que aprendiam a ler e escrever, e elas eram majoritariamente brancas, pertencentes a grupos economicamente prósperos onde era possível arcar com os custos da sua instrução. Dessas, um número ainda mais reduzido se aventurava no mundo dos livros e publicações, e quando conseguiam adentrar nesse mundo causavam estranheza por estarem invadindo um lugar que não era considerado seu, tornando a sua palavra pública, situação que
3 BELLEGARDE, Guilherme; FERREIRA, Felix; SILVA JÚNIOR, José Maria Velho da (orgs.). Polyanthéa comemmorativa das aulas para o sexo feminino do Imperial Lycêo de Artes e Officios. Rio de Janeiro: Typ. e lith. Lombaerts & c. 1881. 4 Polianteia, s.f. Antologia de obras de um homem ilustre, organizada em sua homenagem. / Antologia referente a algum evento notável. DICIONÁRIO AURÉLIO ON LINE. http://www.dicionariodoaurelio.com/Polianteia.html acessado em 27/06/2013.
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permanecia como privilégio masculino. Para os críticos do período era aceitável, em alguns momentos, a existência de publicações femininas que tratassem de coisas belas e perfumadas. Mas elas deveriam ficar longe dos assuntos políticos e sociais com suas lutas e batalhas, já que não tinham os atributos que eram considerados necessários para uma reflexão séria. Elas até poderiam ser escritoras, mas deveriam permanecer no seu lugar. Das quatro mulheres que escreveram para a polianteia, pouco se sabe até agora. Guilhermina de Azambuja Neves é a mais conhecida, professora, fundou e dirigiu o Colégio Azambuja Neves e publicou livros de didática. Adelina A. Lopes Vieira também era professora e poetisa, além de ser irmã da escritora Júlia Lopes de Almeida. Já Anna Machado Nunes Penna e Laurentina Netto, continuam sendo incógnitas: quais condições permitiram que elas fizessem parte dessa polianteia? Elas são representantes de um grupo relativamente seleto em um Brasil ainda majoritariamente analfabeto e possivelmente eram próximas da elite de literatos e letrados da corte Imperial. Ter quatro mulheres entre mais de cem homens escritores traz férteis questionamentos: participar dessa publicação foi uma conquista de espaço público, de palavra pública, ainda primazia dos homens brancos bem nascidos? Incluir essas mulheres na polianteia serviria como exemplo das potencialidades femininas que poderiam se desenvolver com o auxílio da educação que seria fornecida pelo Lycêo? Incluir escritoras que referendassem os argumentos utilizados pelos outros literatos garantiria uma legitimidade à publicação e aos argumentos do Lycêo e da Sociedade Propagadora das Belas Artes? Questões estas que podem expandir o horizonte da pesquisa.
Os discursos
Para pensar e complexificar os textos e argumentos presentes nessa polianteia utilizo aqui como ponto de partida as análises da socióloga Maria Thereza Caiuby C. Bernardes no seu livro Mulheres de ontem?. Nesse estudo a autora reorganiza os textos da polianteia em subgrupos de acordo com a argumentação utilizada. Dentro da ordem discursiva mapeada por Bernardes, a fala mais recorrente entre os literatos era aquela que considerava a educação feminina como ferramenta para a dignificação da família, da nação e do mundo, ou como a própria autora afirma:
Enfatizando a educação feminina, ora como fator de dignificação ou de grandeza da nação e do mundo, ora referindo-se ao mesmo tempo à elevação da família, da pátria e da humanidade, as opiniões completam-se mutuamente, visando em ultima análise, a elevação do próprio homem. (BERNARDES, 1988, p.31)
Ou seja, a educação feminina seria um elemento importante para a manutenção moral e social da nação ao tornar a mulher mais apta ao seu papel maternal, a primeira educadora do
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homem, esse sim o verdadeiro cidadão brasileiro. Aprofundando esse ponto, June Hahner ressalta que:
Embora o homem tradicional e o progressista assumissem juntos que as mulheres pertenciam ao lar, o segundo admitia ampliar o papel da mulher na família, enfatizando-lhe o poder de orientar moralmente suas crianças e fornecer bons cidadãos ao país. Tais argumentos eram bastante para justificar que a educação das mulheres podia ser ampliada, mas apenas o suficiente para adequá-las às responsabilidades familiares. (HAHNER, 2003, p. 17)
Podemos perceber aí um desencontro com o argumento inicial do Lycêo, que ao abrir o curso profissional feminino, visava instrumentalizar as mulheres trabalhadoras, aquelas que por necessidade ou por vontade iam além do papel de mães de família e esposas carinhosas e que se disponibilizavam a frequentar um curso noturno com o intuito de receber uma formação qualificada. Já o discurso de mais da metade dos colaboradores e colaboradoras da polianteia apontam para a reafirmação da maternidade como o sublime destino feminino, e que a educação que deveria ser ministrada para a mulher garantiria que a mesma orientasse seus filhos de forma à que eles contribuíssem para o progresso da nação brasileira, tonando-os verdadeiros cidadãos. Cabe ressaltar que o foco na maternidade se torna também um reforço da heterossexualidade, ou da chamada heterossexualidade compulsória e a sua naturalização dos gêneros e dos desejos. Indo além do proposto por Bernades, pode-se notar que nesse ponto há um viés positivista onde se imputa às mulheres um papel de regeneradoras da humanidade, ou mais especificamente da pátria brasileira, mas sempre circunscritas ao domínio doméstico. Dentro da lógica do avanço e do progresso onde a nação brasileira tentava imitar as tão civilizadas nações europeias a mulher tinha um papel dentro da hierarquia de gênero muito bem delimitado. Em tom patriótico, as palavras do Dr. Fernando Mendes, um dos 127 homens de letras, delineia esse pensamento,
Educar a mulher é educar a humanidade. Desse ente elevado a quem chamamos mãe depende inteiramente o nosso futuro. Se ela nos incute os verdadeiros princípios, só por infeliz exceção não seremos bons cidadãos, bons pais, bons crentes. (p.92-93)
Miguel Lemos, ilustre adepto do positivismo e que também contribuiu para a polianteia, deixa bem claro que o único papel pertinente para as mulheres é o de mãe e esposa,
Nada mais quimérico do que certas doutrinas hoje em voga sobre uma igualdade mal entendida do homem e da mulher, nada mais desmoralizador do que lançar a mulher na concorrência industrial com o homem. Ser mãe e esposa é quanto basta à sua glória, à felicidade sua e nossa. (p.74)
A felicidade sua e nossa! Esse aspecto reaparece em outros discursos, a possibilidade de ampliação dos ensinamentos fornecidos para as mulheres para que elas se tornem mais agradáveis ao outro, ao homem, permanecendo assim na mesma estrutura hierarquizada entre os gêneros, onde
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o feminino é delimitado de acordo com as necessidades do que é considerado masculino. Arthur Azevedo, poeta e escritor irmão de Aluísio de Azevedo, com a sua poesia oferecida à polianteia descreve a importância de se ensinar às mulheres algo a mais além de “agulhas e linhas”, mas segundo seu texto essa educação permitiria que a mulher se tornasse uma companhia mais agradável, um entretenimento mais interessante
Entristece-me ver uma senhora Formosa, mas obtusa. Seja embora Simplesmente simpática;
Saiba, porém um pouco de gramática. Quando entrar numa sala
A todos saiba dirigir a fala.
Analise toilettes, Mas, como, além de agulhas e alfinetes, Alguma coisa no mundo tem, palestre Sobre estes três assuntos:
Ciências, artes e literatura. (p.40)
Levantando outro ponto de vista, os textos de 23 outros autores defendem a educação feminina como forma de emancipação das mulheres. Dentro desse eixo minoritário da polianteia o discurso de Joaquim Nabuco é significativo, já que é um dos poucos (apenas 3 autores) que falam das mulheres como possíveis trabalhadoras.
A posição social da mulher na vida moderna tende a rivalizar com a do homem; a indústria
não conhece sexos; inteligência, aptidão, honestidade, são grandes qualidades de operários
que a mulher possui em grau elevado. A máquina, igualando as forças, destruiu em grande parte no trabalho o monopólio masculino, e hoje, em vez de depender absolutamente do homem para seu sustento, a mulher luta com ele nas oficinas, ganha como ele o salário com
que ampara a sua família, ou contribui para os gastos do casal. (
pela vida na qual ela aparece como concorrente e não como enjeitada; habilitá-la a conhecer
o seu dever social; dar-lhe consciência das aptidões que ela tem para diversas carreiras nas
quais nunca pensou em penetrar; multiplicar em uma palavra os elementos ativos, produtores, operários da nossa sociedade fazendo neles entrarem as mulheres até hoje com a perspectiva da miséria no dia em que lhes faltar essa proteção nem sempre desinteressada, tudo isso é uma grande obra de moralização pública tanto como de generosidade individual.
(p.67)
prepará-la para a luta
)
Esse trecho escrito por Joaquim Nabuco está em consonância com o propósito de progresso da nação, mas diferentemente do discurso majoritário, o texto de Nabuco insere a mulher enquanto possível trabalhadora, parte ativa da construção desse projeto civilizador. Mas até essa possibilidade de maior participação das mulheres para o desenvolvimento econômico e industrial do país está vinculada com o papel masculino de generosos redentores do sexo feminino. Na própria fala de Nabuco ao utilizar os verbos prepará-la e habilitá-la ainda nos passa a noção de tutela, de uma concessão masculina para a instrumentalização da mulher, a generosidade do homem que realiza uma grande obra. Permanece então o exercício de poder masculino em determinar qual papel as mulheres devem se sujeitar.
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Considerações
Esta pesquisa ainda está se desenvolvendo, mas é relevante ressaltar alguns pontos em relação à proposta de educação do Imperial Lycêo de Artes e Officios e os discursos vinculados pela Polyanthéa commemorativa da inauguração das aulas para o sexo feminino do Imperial Lycêo de Artes e Officios. O Lycêo tinha como proposta pedagógica um ensino técnico profissionalizante com as belas artes aplicadas à indústria. Esse projeto educacional aponta para a formação de uma mão de obra qualificada para a industrialização brasileira dentro de um sistema capitalista, sistema esse masculino e masculinizante, espaço de produção e reprodução de hierarquias de gênero. Gondra e Shueler destacam que a criação do Lycêo “integrava o movimento mais amplo de formação e desenvolvimento da modernidade capitalista, a partir da constituição simultânea do Estado e do mercado.” (2008, p.73). Com este pressuposto podemos ligar a maior parte dos discursos da polianteia com esse esforço civilizador masculino e heterossexual que visava construir as bases do progresso da grande nação brasileira. Mas a forma que os textos apresentam essa contribuição dada pela educação feminina para o desenvolvimento nacional difere da proposta educacional do Lycêo para essas mesmas mulheres, já que o curso se propunha enquanto profissionalizante, oportunizando à essas mulheres uma possibilidade outra além do ambiente doméstico, onde, segundo as relações de gênero construídas no século XIX, era o seu ambiente natural e ideal. A possibilidade de uma carreira profissional para uma mulher continuava sendo malvista, já que o corpo feminino tinha como função primordial a procriação, conquistar um trabalho fora do ambiente doméstico iria prejudicar de alguma forma a exercer plenamente essa função.
As mulheres, seres frágeis, possuidoras de um corpo “doentio” que sangrava mensalmente e que estava sujeito a mudança ligadas à gestação, ao parto e ao aleitamento não poderiam, segundo essa ótica, partilhar com os homens da cidadania instituída. (MORAES, 2003, p.
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Apenas 3 textos levantam a possibilidade das mulheres integrarem de forma ativa os esforços para o progresso nacional e seu desenvolvimento econômico, mas na contramão dessa ideia, mais da metade dos textos da polianteia afirmam que a educação voltada para as mulheres só é interessante e benéfica enquanto possibilitasse o aperfeiçoamento dos papéis de mãe e esposa, para que ao instruir e encaminhar os filhos e ao auxiliar e agradar o marido, essas mulheres iriam contribuir com o estabelecimento de um ambiente saudável e rico para a formação e manutenção dos verdadeiros cidadãos, os homens. Além desse ponto é importante frisar que nenhum autor da polianteia se preocupou com o acesso à educação pelas mulheres de baixa renda, mesmo o Lycêo
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tendo como objetivo melhorar o desempenho de trabalhadores, os literatos e seus discursos
presentes na polianteia não mencionaram a necessidade das mulheres de classe mais baixa terem
acesso à uma melhor capacitação profissional e assim melhorar seus rendimentos.
Referências
Fonte
BELLEGARDE, Guilherme; FERREIRA, Felix; SILVA JÚNIOR, José Maria Velho da (orgs.). Polyanthéa comemmorativa das aulas para o sexo feminino do Imperial Lycêo de Artes e Officios. Rio de Janeiro: Typ. e lith. Lombaerts & c. 1881
Bibliografia
BERNARDES, Maria Thereza Caiuby Crescenti. Mulheres de Ontem? Rio de Janeiro, século XIX. São Paulo: T. A. Queiroz, 1988.
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. 16.ed. São Paulo: Edições Loyola, 2008.
GONDRA, José Gonçalves; SHUELER, Alessandra. Educação, poder e sociedade no Império brasileiro. São Paulo: Cortez, 2008.
HAHNER, June Edith. Emancipação do sexo feminino: a luta pelos direitos da mulher no Brasil. 1850-1940. Florianópolis: Ed. Mulheres; Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2003.
MORAES, Maria Lygia Quartim. Cidadania no Feminino. In PINSKY, Jaime; PINSKY, Carla Bassanezi. História da Cidadania. 2.ed. São Paulo: Contexto, 2003.
TELLES, Norma. Escritoras, escritas e escrituras. In PRIORE, Mary Del (org.). História das mulheres no Brasil. 8.ed. São Paulo: Contexto, 2006.
Polianteia’s women: The speechs about female education in “Polianteia commemorating the inauguration of classes for females at Imperial College of Arts and Crafts”
Abstract: Data from the second half of the nineteenth century the first legislation to deal specifically with female education, although a differentiated education, with emphasis on the housewives. In this context, in 1881, in the city of Rio de Janeiro, were opened the first class of female Imperial College of Arts and Crafts. The opening of these groups received a specific publication, the "Polianteia commemorating the inauguration of classes for females at Imperial College of Arts and Crafts" that brought together many Brazilian intellectuals invited to write about the importance of the initiative. These authors showed in Polianteia different views on the inclusion of women in the education system, from speech to female autonomy to speech of conservation on the stereotype of the home Queen. The central aim is to historicize and analyze this document extremely unique, mainly because of its theme, since it contains rhetorical construct and / or reconstruct the female role, leaving mostly men of a privileged class, which has the power to determine the socially opposite sex . These speeches are not only reflections of the Brazilian society of the nineteenth century, but also create, establish and legitimize realities, power relations and gender hierarchies Keywords: Women. Female education. Speeches.
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