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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS - UNICAMP FACULDADE DE EDUCAÇÃO

TESE DE DOUTORADO

JUVENTUDE TRABALHADORA BRASILEIRA:

PERCURSOS LABORAIS, TRABALHOS PRECÁRIOS E FUTUROS (IN)CERTOS

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas, como parte dos requisitos para obtenção do título de Doutor em Educação, na área de concentração de Ciências Sociais na Educação.

Profª. Drª. LILIANA R. P. SEGNINI

Campinas

2012

ii

FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA DA FACULDADE DE EDUCAÇÃO/UNICAMP GILDENIR CAROLINO SANTOS – CRB-8ª/5447

Si38j

Silva, José Humberto da, 1977- Juventude trabalhadora brasileira: percursos laborais, trabalhos precários e futuros (in)certos / José Humberto da Silva. – Campinas, SP: [s.n.], 2012.

Orientador: Liliana Rolfsen Petrilli Segnini. Tese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação.

1. Formação. 2. Trabalho. 3. Juventude. I. Segnini, Liliana Rolfsen Petrilli, 1949- II. Universidade Estadual de Campinas. Faculdade de Educação. III. Título.

12-181/BFE

Informações para a Biblioteca Digital

Título em ingles: Young Brazilian working class: trajectory of labour, precarious workand (un)certain futures

Palavras-chave em inglês:

Formation Work Youth Área de concentração: Ciências Sociais na Educação Titulação: Doutor em Educação Banca examinadora:

Liliana Rolfsen Petrilli Segnini (Orientador) Gaudêncio Frigotto Ronalda Barreto Silva José Dari Krein Dirce Djanira Pacheco e Zan Data da defesa: 23-08-2012 Programa de pós-graduação: Educação e-mail: zeuneb@hotmail.com

iii

JOSÉ HUMBERTO DA SILVA

JUVENTUDE TRABALHADORA BRASILEIRA:

PERCURSOS LABORAIS, TRABALHOS PRECÁRIOS E FUTUROS (IN)CERTOS

AUTOR: JOSÉ HUMBERTO DA SILVA ORIENTADORA: LILIANA R. P. SEGNINI.

Este exemplar corresponde à redação final da Tese defendida por José Humberto da Silva e aprovada pela Comissão Julgadora. Data: 23/08/2012

iii JOSÉ HUMBERTO DA SILVA JUVENTUDE TRABALHADORA BRASILEIRA: PERCURSOS LABORAIS, TRABALHOS PRECÁRIOS E FUTUROS (IN)CERTOS AUTOR:

Assinatura Orientadora

COMISSÃO JULGADORA

Campinas

2012

iv

Aos jovens trabalhadores

v

AGRADECIMENTOS

Agradecer é um ato de reconhecimento em que, faz necessário, elencar as pessoas que, de certo modo, compuseram a minha trajetória no doutorado. Mas, como toda escolha é arbitrária, correrei o risco, pois o prazer é maior que o medo de esquecer. De início, agradeço a minha orientadora, professora Drª. Liliana Segnini, pela possibilidade de diálogo constante. Pela escuta sensível e respeito diante das minhas limitações e dificuldades. Meu muito obrigado por me ensinar a fazer ciência com o rigor metodológico, que lhe é peculiar, e, sobretudo, desprendida de julgamentos morais. Foi com ela que busquei e encontrei forças onde pensei que não mais existissem. Mesmo nos momentos em que desejei por ela ser compreendido e não o fui, assim aprendi a ser mais forte. Agradeço enormemente minha orientadora do doutorado sanduíche no exterior, professora Drª. Natália Alves, com quem tive o privilégio de partilhar um semestre de intensa orientação, na Universidade de Lisboa. Os momentos ao seu lado, em terras do “além mar”, possibilitaram-me uma melhor compreensão do meu próprio país. Natália tem a virtude das grandes mestres:

sabedoria sem arrogância. Sua humildade é do tamanho de sua grandeza. Agradeço a professora Drª. Ana Miranda, com quem tive o privilégio de dialogar durante os cinco meses vividos em Buenos Aires, em intercâmbio com Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO). Pequena em estatura, mas de enorme grandeza intelectual. A professora Drª. Dirce Zan, pela sua sabedoria e humildade na dose certa. Seu convite para juntos construirmos a ementa da disciplina – Juventudes, Educação e Trabalho – e ministrá- la, no programa de Pós-graduação em Educação na Unicamp, me fez ver que sua humildade é tão grande quanto Minas Gerais, sua querida terra. Minha gratidão à professora Drª. Ronalda Barreto, amiga e orientadora do meu mestrado. Sem o seu apoio e incentivo constante eu não teria chegado até aqui. Ao companheiro de luta, o professor Dr. Darin Krein, pela análise cuidadosa do texto de qualificação. Suas contribuições foram valiosas para reorganização desse texto.

vi

Meu eterno agradecimento a Juliana Barcelar pela coleta e sistematização dos dados estatísticos apresentados nessa tese. Seu trabalho foi de uma grande mestra, ajudando-me a refletir cotidianamente sobre os achados da pesquisa. Agradeço aos meus colegas de doutorado pela convivência, especialmente a Adriano Mastrorosa, Maria Aparecida, Malu, Cacilda, Maria Lúcia, Walquíria, Míriam, Marcos Mesquita, Marcos Soares. Estes, mais que colegas tornaram-se grandes amigos. Aos meus eternos amigos brasileiros conquistados em terras portenhas, Alessandra Canivezi e Marcos Soares e Candi. Obrigado a toda equipe da secretaria do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da UNICAMP, pela atenção, pelo profissionalismo e cuidado com quem chega às terras campineiras. Agradeço aos jovens desta pesquisa, com quem tive a oportunidade de partilhar seus percursos biográficos. Obrigado pela confiança e respeito no trato a todo material coletado ao longo dos cinco anos de pesquisa. Obrigado a minha família, pelo respeito às minhas ausências, apoio e compreensão de sempre, especialmente neste percurso formativo de doutorado. A minha irmã Lúcia, pelo cuidado diário e pelas palavras de afeto. A minha irmã Eliene, pelo incentivo constante ao meu crescimento profissional, desde o início da minha carreira ao doutorado. Ao meu irmão Wilson, pelo silêncio, com que por vezes me acolheu. A minha mãe pela sua forma peculiar de cuidar. Ao meu pai (in memoriam), pelas poucas e boas lembranças deixadas na minha vida. Meu sincero agradecimento à psicóloga Conceição, pela escuta sensível e cuidadosa e, sobretudo, pelo respeito ao meu vivido. Sem ela, a construção desta tese teria sido mais difícil do que já fora. Obrigado aos meus amigos mais próximos de Salvador, André Brasil, Lilo Vieira, Rogério Menezes, José Messias e, especialmente, a Jerbert Mota pela companhia quase sempre presente nesse percurso tão árduo. Por muitas vezes, a forma simples deles viverem a vida me ajudou a enxergar a vida para além da academia. Meu eterno obrigado às minhas amigas Clarice e Monaliza, pela partilha diária e pelas correções desse trabalho. À Avante – Educação e Mobilização Social, pelo apoio de sempre e transparência com que disponibilizou suas reflexões sobre o Consórcio Social da Juventude de Salvador e seus dados estatísticos.

vii

Minha gratidão à Universidade do Estado da Bahia (UNEB) que, apesar das perdas progressivas dos direitos da categoria docente, me possibilitou o afastamento durante os quatro últimos anos. Por último, registro os agradecimentos ao CNPq e a Capes pelo apoio financeiro, sem o qual essa pesquisa seria inviável.

vii

RESUMO

Esta tese é um estudo sobre trajetórias de trabalho vividas por jovens brasileiros. Por meio de singulares percursos laborais, pretende-se realizar um estudo de parte significativa da Juventude Trabalhadora Brasileira, buscando analisar: a reconfiguração da categoria juventude, ao longo da conformação do mercado trabalho e das tensões e contradições construídas nas relações sociais entre capital-trabalho; os investimentos pessoais e financeiros, bem como os arranjos familiares construídos no campo da formação na procura de melhores condições de acesso e permanência no emprego; as formas de inserções laborais observadas, considerando as relações que as diferenciam, tais como as de classe social, de gênero e de raça/etnia. A opção metodológica que informa esta pesquisa pauta-se no que Norbert Elias (2000, p. 16) define como estudos microssociológicos, entendendo que estes podem desvelar aspectos encontrados numa escala maior, na sociedade como um todo: “os problemas em pequena escala do desenvolvimento de uma comunidade e os problemas em larga escala de um país são inseparáveis. Não faz muito sentido estudar fenômenos comunitários como se eles ocorressem num vazio sociológico”. O campo empírico de análise desta pesquisa constituiu-se por nove trajetórias juvenis oriundas de uma política pública de qualificação e inserção no mercado de trabalho, o Consórcio Social da Juventude de Salvador e Região Metropolitana. O caminho metodológico usado neste trabalho aglutinou métodos, técnicas e instrumentos de pesquisa numa abordagem que articula dados estatísticos e entrevistas, analisados enquanto manifestações da vida social, próprias aos sujeitos que interagem em função de significados (individuais, sociais, cultuais, entre outros) e de contextos econômicos e sociais.

Palavras chaves: Trajetórias juvenis. Inserções laborais. Percursos de formação. Juventude.

ix

ABSTRACT

This thesis is a study on work trajectories experienced by young Brazilians. Through singular pathways of labor, we intend to conduct a study of a significant part of Brazilian Youth Workers, trying to analyze: the reconfiguration of the youth category, along the conformation of the labor market and the tensions and contradictions built into the social relations between capital and labor ; personal investments and financial and family arrangements constructed in the field of training in search of better conditions of access and retention in employment, forms of labor insertions observed, considering the relations that differentiate them, such as social class, gender and race / ethnicity. The methodology that informs this research agenda on what Norbert Elias (2000, p. 16) defines as microsociological studies, understanding that they can reveal aspects found on a larger scale, in the society as a whole: "the problems of small scale development of a community and the large-scale problems of a country are inseparable. It makes little sense to study phenomena of community as if they occurred in a sociological vacuum". The empirical field of analysis of this survey consisted of nine juvenile trajectories originating from a public policy of qualification and the labor market, the Consortium of Social Youth and the Metropolitan Region of Salvador. The methodology used in this work coalesced methods, techniques and research tools in an approach that combines statistical data and interviews, analyzed as manifestations of social life of their own subjects to interact on the basis of meaning (individual, social, worship, etc.) and economic and social contexts.

Keywords: Youth Trajectories. Labor insertions. Educational routes. Youth.

x

RÉSUMÉ

Cette thèse est une étude des trajectoires de travail vécues par les jeunes Brésiliens. Au moyen d’un unique parcours du travail, nous avons l'intention de mener une étude de une partie importante de la Jeunesse Ouvrière Brésilienne qu’on voit analyser: la reconfiguration de la catégorie des jeunes, le long de la conformation du marché du travail et les tensions et les contradictions construites dans les relations sociales entre le capital et le travail; les investissements personnels et financiers et les arrengements familiaux construits dans le domaine de l'éducation pour assurer l'accès et le maintien dans l'emploi, les formes d'insertions du travail observée, en tenant compte les relations qui les différencient, comme le sexe et la race / l'origine ethnique . L’option méthodologique qui limite cette recherche basé sur ce que Norbert Elias (2000) définit comme des études microsociologiques, comprendre qu'ils ne peuvent révéler des aspects trouvés sur une plus grande échelle, la société dans son ensemble : "Les problèmes de développement à petite échelle d'une communauté et les problèmes à grande échelle d'un pays sont indissociables. Il n'a guère de sens pour étudier des phénomènes communautaires, comme si elles se sont produites dans un vide sociologique. " Le champ empirique de l'analyse de cette enquête se composait de neuf trajectoires des mineurs à partir d'une politique publique de la qualification et d’insertion dans le marché du travail, le Consortium Social de la Jeunesse de Salvador et de sa Région Métropolitaine. La méthodologie utilisée dans cette étude agglutinées des méthodes, des techniques et des outils de recherche dans une approche qui combine des données statistiques et des interviews d'interagir sur la base de la signification (individuel, social, culte, entre autres) et des contextes économiques et sociaux.

Mots-clés: Trajectoires des jeunes. Insère du travail. Parcours de formation. Jeunesse.

xi

LISTAS DE TABELAS

TABELA 01 – Distribuição da população jovem, segundo a situação de trabalho e estudo e faixa etária. Brasil, 1992-2009 (em %)

 

47

TABELA 02 – Distribuição da população, segundo a situação de trabalho e estudo, faixa etária e sexo. Brasil, 1992-2009 (em %)

48

TABELA 03 – Distribuição da população jovem, segundo a situação de trabalho e estudo, cor e faixa etária. Brasil, 1992-2009 (em %)

50

TABELA 04 – Distribuição da população jovem, segundo frequência à escola e faixa etária. Brasil, 1992-2009 (em %)

56

TABELA 05 – Pessoas adolescentes e jovens de 10 a 29 anos que possuem curso completo segundo grau de ensino e faixa de idade. Brasil, 1940-1960

74

TABELA 06 – Pessoas adolescentes e jovens de 10 a 29 anos que possuem curso completo segundo grau de ensino, gênero e faixa de idade. Brasil,

 

1940-1960

75

TABELA 07 – Taxa de desemprego aberto por faixa etária Brasil, 1999-

 

2008

TABELA 08

Modalidades de Inserção dos

Jovens no Mercado

de

96

Trabalho/Consórcio

Social

da

Juventude

de

Salvador

e

Região

Metropolitana, 2006

106

TABELA 09 – Taxas de desemprego por faixa etária. Região Metropolitana de Salvador – 2006

 

108

TABELA 10 – Taxa de desemprego dos jovens entre 15 e 29 anos segundo nível de escolaridade. Brasil 1 , 2001-2009

116

TABELA 11 – Taxa de desemprego dos jovens entre 15 e 29 anos segundo nível de escolaridade. RM de Salvador, 2001-2009

117

TABELA 12 – Principais Ocupações RMS, 2003

 

124

xii

TABELA 14 – Evolução da educação a distancia por área de conhecimento do curso superior Brasil 2002-2010

147

TABELA 15 – Número de jovens inseridos e taxa de inserção no Consórcio Social da Juventude de Salvador e RMS, ano 2006

152

TABELA 16 – Evolução do rendimento médio real por hora por cor ou raça e sexo. Região Metropolitana de Salvador – 1998/2007

165

TABELA 17 – Taxa de desemprego por faixa etária e cor (%). RMS, 2001-

2011

166

TABELA 18 – Taxa de desemprego por faixa etária e sexo (%). RMS, 2001-

2011

168

TABELA 19 – Evolução da participação dos empregados como operadores de telemarketing, segundo faixa de idade. RMS, 2003-2010

171

TABELA 20 – Tipo de vínculo do emprego formal dos operadores de telemarketing para jovens entre 18-29 anos. RMS, 2003-2010

181

xii

LISTA DE QUADROS

QUADRO 01 – Situação sociodemográfica dos jovens pesquisados. Salvador,

2005-2011

32

QUADROS 02 – Estrutura do Programa Nacional de Estímulo ao Primeiro Emprego

98

QUADROS 03 – Cursos realizados pelos jovens pesquisados no Consórcio Social da Juventude e seus respectivos empregos obtidos. Salvador, 2005-2006 132

QUADRO 04 – Jovens pesquisados e nível de escolaridade por modalidade de ensino. Salvador, 2010

142

xiv

LISTA DE GRÁFICOS

GRÁFICO 01 – Evolução da expectativa de vida ao nascer

58

GRAFICO 02 – Relação percentual empregos/inscritos no PNPE, Brasil e Unidades da Federação. Outubro/2003-abril/2007

108

GRÁFICO 03 – Evolução da participação do emprego formal de operadores de telemarketing. RMS, 2003-2010

170

GRÁFICO 04 – Evolução da participação do emprego formal de operadores de telemarketing por gênero. RMS, 2003-2010

175

GRÁFICO 05 – Evolução da participação do emprego formal de operadores de telemarketing por tempo de emprego (em meses). RMS, 2003-2010

180

GRÁFICO 06 – Evolução da participação do emprego formal de operadores de telemarketing de 18 a 29 anos por escolaridade. RMS, 2003-2010

182

xv

LISTA DE FIGURAS

FIGURA

01

Produtos

artesanais

COORPARTES. Salvador, 2010

construídos

pelos

jovens

da

194

xvi

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

ANDIFES

Associação

Nacional

dos

Dirigentes

das

Instituições

Federais

de

Ensino Superior

 

CAGED

Cadastro Geral de Empregados e desempregados

 

CBO

Classificação Brasileira de Ocupação

 

CFE

Conselho Federal de Educação

 

CLT

Consolidação das Leis do Trabalho

 

CMDCA

Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente

 

CNM/CUT

Confederação Nacional dos Metalúrgicos

 

CONDER

Companhia de Desenvolvimento Urbano

COOPARTES

Cooperativa de Jovens Artesãos do Vale de Pituaçu

 

COOPERJOVENS

Cooperativa de Produção dos Jovens da Região do Sisal

CSJ

Consórcio Social da Juventude

CUT

Central Única dos Trabalhadores

ECA

Estatuto da Criança e do Adolescente

ENEM

Exame Nacional do Ensino Médio

ESFL

Entidades sem Fins Lucrativos

FATRES

Fundação de Apoio aos Trabalhadores Rurais da Região do Sisal

FIES

Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior

IESALC

Instituto Internacional para a Educação Superior na América Latina e Caribe

xvi

IFES

Instituições Federais de Ensino Superior

 

INEP

Instituto

Nacional

de

Estudos

e

Pesquisas

Educacionais

Anísio

Teixeira

ISSO

International Organization for Standardization

 

ITCP/UNEB

Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares

LER

Lesões por Esforços Repetitivos

 

MEC

Ministério da Educação e Cultura

MOC

Movimento de Organização Comunitária

 

MST

Movimento do Sem Terra

 

MTE

Ministério do Trabalho, Emprego e Renda

 

OIT

Organização Internacional do Trabalho

 

ONGs

Organizações Não Governamentais

 

ONU

Organização das Nações Unidas

PEA

População Economicamente Ativa

PED

Pesquisa de Emprego e desemprego

PME

Pesquisa Mensal de Emprego

PNAD

Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio

 

PNE

Plano Nacional de Educação

 

PNPE

Programa Nacional de Estímulo ao Primeiro Emprego

 

ProUni

Programa Universidade para Todos

 

RAIS

Relação Anual de Informações Sociais

 

RH

Recursos Humanos

 

SEADE

Sistema Estadual de Análise de Dados

 

SEDUR

Secretaria de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia

 

xvi

SENAI

Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial

SETPS

Sindicato das Empresas de Transporte de Salvador

SIEDSUP

Sistema Integrado de Informações da Educação Superior

STRs

Sindicatos dos Trabalhadores Rurais

UESB

Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

UFBA

Universidade Federal da Bahia

UNEB

Universidade do Estado da Bahia

UNICAMP

Universidade Estadual de Campinas

UNESCO

Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura

xix

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

 

22

O CONTEXTO DA PESQUISA

 

23

DILEMAS DA INVESTIGAÇÃO: O REENCONTRO COM OS JOVENS

 

29

QUEM SÃO OS JOVENS PESQUISADOS?

 

30

OPÇÕES METODOLÓGICAS E CAMINHOS DA PESQUISA

 

32

CAPÍTULO

I

-

JUVENTUDE

TRABALHADORA

BRASILEIRA:

CONSTRUÇÃO DE UM CAMPO ANALÍTICO

 

39

1.1 JUVENTUDE: UMA CONSTRUÇÃO SOCIAL

40

 

1.1.1 A Juventude como uma mera Etapa de Transição para Vida Adulta – Moratória Social?

42

1.2 O PROLONGAMENTO DA JUVENTUDE NO BRASIL: UM DEBATE CONSTRUÍDO À LUZ DA JUVENTUDE TRABALHADORA?

52

1.3 DE QUE JUVENTUDE TRABALHADORA ESTÁ FALANDO?

 

60

CAPÍTULO II - MERCADO DE TRABALHO, ENFOQUES E AÇÕES PARA JUVENTUDE TRABALHADORA BRASILEIRA: NOVA TRÍADE, VELHAS (RE)CONFIGURAÇÕES

66

2.1

A

CONSOLIDAÇÃO

DO

MERCADO

DE

TRABALHO

E

A

INCORPORAÇÃO DOS JOVENS NO PROJETO DE MODERNIZAÇÃO DO

 

PAÍS

67

2.2 ENTRE BAIXAS E ALTAS TAXAS DE CRESCIMENTO ECONÔMICO O ENFOQUE DO CONTROLE SOCIAL SOBRE OS JOVENS

75

2.3 A DÉCADA PERDIDA E O ENFOQUE DA JUVENTUDE COMO UM

xx

PROBLEMA SOCIAL

 

79

  • 2.4 A DÉCADA DE 1990 E AS PROPOSTAS REFORMISTAS – JUVENTUDE ENQUANTO CAPITAL HUMANO

80

  • 2.5 MERCADO DE TRABALHO NOS PRIMEIROS ANOS DO SÉCULO XXI:

UM NOVO CONTEXTO PARA OS JOVENS E PARA AS POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A JUVENTUDE NO BRASIL?

93

  • 2.5.1 Ações Públicas para a Juventude Trabalhadora

 

97

 

2.5.1.1 Os Consórcios Sociais da Juventude

101

2.5.1.1.1 O Consórcio Social da Juventude de Salvador

 

104

CAPÍTULO III - TRAJETÓRIAS DE FORMAÇÃO PARA O TRABALHO: DAS PROMESSAS ÀS INCERTEZAS

113

  • 3.1 O INVESTIMENTO DA JUVENTUDE TRABALHADORA NA EDUCAÇÃO

 

115

  • 3.1.1 Investimentos, Estratégias e Arranjos Familiares

 

121

  • 3.1.2 Os jovens e a Escola: das Representações às Vivências Concretas

 

126

  • 3.1.3 Os Jovens e o Consórcio Social da Juventude: do Investimento ao Primeiro Emprego?

128

  • 3.1.4 O Investimento no Ensino Superior

 

133

  • 3.1.5 Cursos a Distancia: a Juventude Trabalhadora Brasileira chega à Terra Prometida?

141

CAPÍTULO IV - TRAJETÓRIAS DE TRABALHO: EMPREGOS PRECÁRIOS E INSERÇÕES PROVISÓRIAS

149

  • 4.1 AS

TRAJETÓRIAS

DOS

JOVENS

APRENDIZES:

PASSOS

E

DESCOMPASSOS

 

150

  • 4.1.1 (Des)valorização do Trabalho Realizado pelo Jovem Aprendiz

 

157

  • 4.1.2 O Preconceito de Classe e de Raça no Interior das Relações de Trabalho do Jovem Aprendiz

161

  • 4.1.3 O Preconceito de Gênero no Interior das Relações de Trabalho do Jovem Aprendiz

166

xxi

4.2 TRAJETÓRIAS DE TRABALHO EM TELEMARKETING

169

  • 4.2.1 O telemarketing e as relações de gênero

174

  • 4.2.2 A intensificação do trabalho em telemarketing

177

  • 4.2.3 Os percursos laborais e seu caráter transitório

180

4.3 PERCURSOS LABORAIS E COOPERATIVISMO JUVENIL: DO SONHO À REALIDADE

185

  • 4.3.1 O Contexto da Economia Solidária no Brasil

190

  • 4.3.2 O Sonho que se Sonha Só?

192

  • 4.3.3 A Saída de Daniel da Cooperativa: a Decepção

202

  • 4.3.4 O que ficou do Sonho de Daniel

205

  • 4.3.5 Algumas Reflexões Necessárias

206

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

208

REFERÊNCIAS

217

APENDICE A - Sínteses biográficas dos jovens pesquisados

 

239

ANEXO A – Jovens e trabalho no Brasil

 

261

ANEXO B – PROJOVEM: Principais mudanças introduzidas em 2007

 

263

ANEXO C - Regimento do ProUni

 

265

ANEXO D – Manual de orientação ao bolsista/ ProUni

 

278

ANEXO E – Lei nº. 10.097/ 2000 - Lei do menor aprendiz

290

ANEXO F - Decreto aprendiz

nº. 5.598/

2005

-

Projeto de alteração da lei

do

menor

294

ANEXO G - Classificação Brasileira de Ocupação – Telemarketing

 

302

22

INTRODUÇÃO

23

O CONTEXTO DA PESQUISA

O ponto de partida desta pesquisa deu-se, sobretudo, ao término do trabalho desenvolvido no curso de Mestrado (2004-2007), desenvolvida no Programa de Pós Graduação em Educação e Contemporaneidade, da Universidade do Estado da Bahia. Naquela pesquisa, o objeto de análise eram as trajetórias de formação vividas pelos jovens ao longo dos programas de qualificação para o mercado de trabalho, em um projeto especifico – Consórcios Sociais da Juventude, vertente do Programa Nacional de Estímulo ao Primeiro Emprego (PNPE), implementado pelo Ministério do Trabalho e Emprego e executado por Organizações não Governamentais (ONGs). Tal projeto, desenvolvido a partir de 2004 em quase todas as capitais brasileiras, qualificou aproximadamente 70 mil jovens e inseriu, ao longo de suas edições, 22 mil no mundo trabalho (SILVA, 2009). Os Consórcios Sociais da Juventude se constituem em uma linha de ação do PNPE que estabelece parceria entre o Ministério do Trabalho e Renda e a sociedade civil na execução das atividades, com foco em seus três eixos de organização: fomento à geração de postos de trabalho formais e formas alternativas geradoras de renda; preparação para o primeiro emprego; articulação com a sociedade civil. As limitações que um trabalho desta natureza impõe impossibilitaram o avanço da pesquisa frente a outras importantes questões. A fim de responder a tais questionamentos, um ano depois, ao ingressar no doutorado em Educação, na Universidade Estadual de Campinas, foi proposto o projeto referente à pesquisa que ora se apresenta, cujo objetivo é analisar trajetórias de trabalho. Sendo assim, o interesse estudo volta-se para os jovens participantes dos programas de qualificação para o trabalho, destacadamente o mesmo grupo de jovens oriundos dos Consórcios Sociais da Juventude de Salvador e Região. Desse modo, por meio da singularidade de seus percursos laborais, pretende-se realizar um estudo de parte significativa da juventude trabalhadora brasileira buscando responder: Como a categoria juventude se reconfigura ao longo da conformação do mercado trabalho brasileiro e das tensões e contradições construídas nas relações sociais entre capital-trabalho? Quais são os investimentos pessoais e arranjos familiares construídos, ao longo das trajetórias de trabalho, no campo da formação, procurando o acesso e a permanência no emprego? Quais as diferenciações observadas considerando as relações sociais de classe, de gênero e de raça/etnia?

24

No Brasil, apesar do problema do desemprego se destacar na cena social desde os anos de 1980, é na década seguinte que se transforma em um grave problema estrutural – acompanhado de profundas mudanças ocorridas na sociedade brasileira, de forma contundente nos campos do Trabalho e da Educação. A intensificação, na década de 1990, de uma nova lógica de acumulação “flexível” (HARVEY, 1992) significou mudanças que atingiram o mercado de trabalho de um modo geral, provocando “novas questões sociais” (CASTEL, 1998) que podem ser traduzidas por novas configurações do trabalho e pelo crescente desemprego, especialmente o desemprego juvenil. Nesta década, a precarização do trabalho assumiu dimensões ampliadas em decorrência da reestruturação produtiva e das políticas neoliberais. Desse modo, apesar das diferenças metodológicas utilizadas nas duas pesquisas que aferem o desemprego no Brasil 1 , pode-se constatar que o panorama do desemprego juvenil, na década de 1990, chegava a índices jamais vistos no país. Do total de 7.838.218 milhões de trabalhadores desocupados no Brasil no final desta década, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD, 1999), 4.755.135 milhões eram jovens, ou seja, 60% do total. Segundo Pochmann (2007), para o segmento juvenil, esta década se caracterizou por um duplo movimento: aumento da População Economicamente Ativa (PEA) e com a redução da ocupação

  • 1 Duas pesquisas são realizadas mensalmente no Brasil para medir o desemprego (PED e PME). A Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) é um levantamento domiciliar contínuo, realizado mensalmente, desde 1984, na Região Metropolitana de São Paulo, em convênio entre o DIEESE e a Fundação Seade. Atualmente, a PED é realizada no Distrito Federal e nas Regiões Metropolitanas de São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador, Recife e mais recentemente Fortaleza, constituindo o Sistema PED. Segundo a Pesquisa Emprego e Desemprego (PED) são definidos como “desempregados aqueles indivíduos que se encontram numa situação involuntária de não- trabalho, por falta de oportunidade de trabalho, ou que exercem trabalhos irregulares com desejo de mudança. Essas pessoas são desagregadas em três tipos de desemprego: a) desemprego aberto – pessoas com 10 anos de idade ou mais que procuraram trabalho de maneira efetiva nos 30 dias anteriores ao da entrevista e não exerceram nenhum tipo de atividade nos sete últimos dias; b) desemprego oculto pelo trabalho precário – pessoas de 10 anos ou mais de idade que, para sobreviver, exerceram algum trabalho remunerado de auto-ocupação, de forma descontínua e irregular, ou não remunerado em negócios de parentes, além disso, tomaram providências concretas nos 30 dias anteriores ao da entrevista ou até 12 meses atrás para conseguir um trabalho diferente deste; c) desemprego oculto pelo desalento e outros – pessoas em idade ativa que não possuem trabalho e nem procuraram nos últimos 30 dias, por desestímulos do mercado de trabalho ou por circunstâncias fortuitas, mas apresentaram procura efetiva de trabalho nos últimos 12 meses” (Dieese, 2008). A Pesquisa Mensal de Emprego (PME), é realizada mensalmente nas Regiões Metropolitanas de São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador, Rio de Janeiro e Recife. Além da PME, o IBGE ainda mede o desemprego em todo o território nacional por meio dos censo demográfico realizado a cada dez anos e, anualmente, pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD). Segundo o IBGE, considera-se em desemprego aberto o trabalhador que procurou emprego durante o período de referência da pesquisa, que estava apto ao exercício imediato de uma vaga e que não trabalhava durante a semana da pesquisa. Nesse desenho, inativo é o trabalhador que, no perído de referência da pesquisa, não procurou emprego por qualquer razão. Já o ocupado econsidera-se aquele indivíduo que na semana da pesquisa tenha exercido uma atividade por mais de 1 hora. (SILVA, 2009, p. 90).

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para a juventude 2 . Houve um acréscimo de 1,3 milhões de pessoas economicamente ativa, enquanto a ocupação decaiu em 448 mil postos de trabalho. Como tentativa de resolver os problemas que atingiam a juventude, particularmente o desemprego, no final dos anos de 1990 e início dos anos 2000, um novo quadro começa a ser desenhado no Brasil para políticas de juventude. Naquele contexto, segundo Silva (2009), no lugar de políticas de “integração”, tendo como principio a igualdade social, foram implementadas as políticas de “inserção” 3 que privilegiam uma fração da população e encontram como princípio a equidade social. Tais políticas representam ações focalizadas que procuram minimizar, temporariamente, a pobreza vivida por determinados grupos sociais, especialmente os jovens desempregados 4 . Nesse contexto, “grande parte das iniciativas operou com a imagem de uma juventude perigosa, potencialmente violenta, que necessitava de uma ampla intervenção da sociedade para assegurar seu trânsito para a vida adulta de modo a não ameaçar a certas orientações dominantes”, como destacam Sposito e Carrochano (2005, p. 14). Se por um lado era atribuída a juventude um caráter negativo e ameaçador à ordem vigente, por outro, as ações construídas de formação para o trabalho, a exemplo do Programa Nacional de Estímulo ao Primeiro Emprego, em 2003, demarcam explicitamente, por meio dos seus Termos de Implementação e de Referências (2004 e 2005), outro enfoque: um ator estratégico do desenvolvimento, capaz de gerar riqueza ao país, com o seu “capital humano” 5 . É dentro desse contexto que se difunde, especialmente para os jovens, a compreensão de que o fracasso, a pobreza e o desemprego podem ser resolvidos pelo investimento em educação/formação.

  • 2 Referia-se a faixa etária compreendida de 15- 24 anos de idade.

  • 3 Para um maior aprofundamento sobre as políticas de inserção e integração, ver Castel (2008).

  • 4 Uma demonstração clara da focalização das ações, bem como das “imagens” que se têm da juventude, é o próprio discurso do próprio presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva proferido no dia do lançamento do Programa Nacional de Estímulo ao Primeiro Emprego, em Brasília, 29/06/03. “E por que geração de empregos para a

juventude e não geração de empregos como um todo? Gerar empregos para todo o povo brasileiro é um sonho, uma

obsessão e uma determinação do meu governo [

]

Por que, então, priorizar com o nome Primeiro Emprego o

... lançamento de hoje? É porque a juventude brasileira vive, possivelmente, o maior aumento da incerteza e de angústia que a juventude brasileira já viveu. Nós temos a responsabilidade, enquanto governantes, mas, também, eu diria, toda

a sociedade civil brasileira, de não permitir que o narcotráfico e que o crime organizado possam conquistar um

jovem ao invés de o Estado conquistá-lo [

]

Se este programa for executado com carinho, como eu sonho que ele

... deva ser executado, e se nós investirmos na educação como estamos pensando em investir, inclusive com convênios com empresários para a política de alfabetização, nós vamos apenas constatar o óbvio daqui a alguns anos: que era muito mais barato a gente investir na educação e no emprego do que investir nas prisões que tanto a sociedade reivindica que a gente invista” (Disponível em: <www.radiobras.gov.br/integras/03>. Acesso em: 29 jun. 2003.).

  • 5 A juventude como Capital humano será explorado melhor no primeiro e segundo capítulo deste trabalho.

26

Contudo, as taxas de desemprego associadas aos níveis de escolaridade no Brasil, nos primeiros anos dos anos 2000, já indicavam que a causa do desemprego não encontra na insuficiente escolaridade sua única explicação, contrapondo, assim, o consenso que a relação entre trabalho e educação parece ser portadora. Os dados já indicavam que as condições de ingresso do jovem no mundo do trabalho dependiam consideravelmente do comportamento geral da economia, que define, em última instância, o desempenho do mercado de trabalho. Dentro dessa configuração 6 social, a transição do sistema de ensino para o mercado de trabalho torna-se cada vez mais complexa. Segundo Alves (2008), os estudos produzidos sobre inserção laboral são unânimes em considerar que as transformações registradas nas últimas décadas na esfera econômica têm produzido alterações profundas nos processos de transição da escola para o emprego. Nesse contexto, como elucidam Charlot e Glasman (1998), a inserção deixa de ser compreendida como um momento na história do jovem para ser concebida como um processo que tende a prolongar-se no tempo até a “terra prometida”, isto é, até a obtenção de um emprego estável. Para esses autores franceses, a inserção profissional dos jovens é um verdadeiro “caminho de combates”. Entretanto, os vetores da economia brasileira, no período entre 2004 a 2008, direcionavam para um novo momento histórico na conformação do mercado de trabalho brasileiro. Segundo Baltar (2010) 7 , a economia brasileira após 2004 passou por um crescimento econômico importante, favorecendo o aumento da ocupação, do emprego formal, dos rendimentos do trabalho, das transferências de renda, do aumento real do salário mínimo, alavancando o consumo e o investimento, que também ganharam um impulso decorrente da articulação da elevação da renda familiar com a ampliação do crédito ao consumo 8 .

  • 6 O conceito de configuração será usado na perspectiva de Norbert Elias. Para o autor, “o conceito de

configuração foi introduzido exatamente porque expressa mais clara e inequivocadamente o que chamamos de ‘sociedade’ que os atuais instrumentos conceituais da sociologia, não sendo nem uma abstração de atributos de indivíduos que existem sem uma sociedade, nem um ‘sistema’ ou ‘totalidade’ para além dos indivíduos, mas a rede de interdependência por eles formada. Certamente, é possível falar de um sistema social formado de indivíduos, mas as conotações associadas ao conceito de sistema social na sociologia moderna fazem com que pareça forçada essa

expressão. Além do mais, o conceito de sistema é prejudicado pela ideia correlata de imutabilidade [

...

]”.

1994, p. 249).

  • 7 Baltar et al.

(ELIAS,

  • 8 Um ponto relevante que deve se ter em conta é o fato de que, assim como o movimento dos anos 1990 não se mostraram específicos ao caso brasileiro, o crescimento econômico da segunda metade dos anos 2000 também não. Segundo CEPAL (2010), para a América Latina e Caribe como um todo, alterou-se nesse período o padrão de geração de emprego com destaque para os setores de média e alta produtividade, o que gerou efeitos positivos sobre a relação entre emprego e proteção social. No entanto, para a CEPAL, não se identificou uma redução na diferença salarial entre mulheres e homens, e a tendência de aumento da participação feminina no mercado de trabalho foi

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Tratando-se da condição juvenil em particular, os anos recentes são marcados por alguns avanços e contradições. Se por um lado, os dados atuais informam a expressiva queda na taxa de desemprego, o aumento do emprego formal e protegido pela legislação, redução do peso do trabalho doméstico na absorção dos jovens e também diminuição do trabalho nãoremunerado 9 , por outro, também demonstram que ainda é alta a taxa de informalidade comparada aos adultos e que, a elevação do emprego observada no período 2004-2008 10 , não alterou significativamente a situação de desemprego entre os jovens: estes representando o segmento mais desempregado entre os demais grupos etários. Por sua vez, as alterações recentes do mercado de trabalho brasileiro não atingem de forma homogênea toda a juventude, nem tampouco a juventude trabalhadora brasileira. O território geográfico, a classe social, o sexo e a cor/raça, entre outros, tornam o desemprego juvenil plural, como afirmou Carrochano (2011, p. 52), “assim, como são as juventudes, também são vários os desempregos de jovens, o que fica perceptível tanto nos dados estatísticos quanto nas representações dos sujeitos que vivencia essa situação”. Considerando o local de moradia, a Região Metropolitana de Salvador apresenta-se frequentemente como sendo uma região com maior taxa de desemprego entre jovens, segundo a PED. No que concerne à variável sexo, os dados de 2011 analisados revelam que, independente do agrupamento etário, a situação das jovens é bastante desfavorável em comparação ao segmento masculino juvenil. No referido ano, a taxa de desemprego, na Região Metropolitana de Salvador, era de 20,3% entre os jovens homens e de 30, 6% entre as jovens mulheres. Em 2011, a taxa de desemprego total entre negros era 15, 8%, sendo que entre os jovens negros esse percentual era de 26,0%. O jovem da RMS, embora esteja inscrito num espaço com esmagadora maioria negra, além da sua própria condição juvenil, vivenciam as barreiras raciais de acesso ao mercado de trabalho. Assim, o trabalho como importante espaço da vida em sociedade, como um território importante de trajetórias, se configura, em grande medida, o lugar em que as pessoas vão ocupar na hierarquia social. Conforme evidencia a PED, a taxa de desemprego entre os jovens negros era 26,0 % contra um percentual de 19,0 % de jovens não-

interrompida. Apesar de alguns avanços registrados, diversos fatores demonstram a persistência de desigualdades nos mercados de trabalho.

  • 9 Para um maior aprofundamento, ver Baltar et al. (2010).

    • 10 Ainda assim, para o segmento dos jovens, as principais melhorias do mercado de trabalho brasileiro, nesse período, foram a queda do desemprego e o aumento do emprego formalizado. Além disso, foi reduzido o peso do trabalho doméstico na absorção dos jovens e também diminuiu o trabalho não remunerado, segundo Baltar et al.

(2010).

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negros. Além dos jovens negros constituírem em todas as faixas etárias o grupo com maior taxa de desemprego comparado com os não-negros, também ocupam os lugares na posição ocupacional com maior índice de precariedade. Desse modo, além das barreiras históricas enfrentadas pelos jovens, de um modo geral, no acesso ao mercado de trabalho – mesmo em conjunturas economicamente favoráveis ao emprego, como é a situação que vive o país hoje – as relações que os diferenciam e os singularizam, tais como sexo e cor/raça, intensificam as desigualdades no interior do próprio segmento, sobretudo quando os recortes se sobrepõem 11 ; aprofundando, desse modo, as barreiras ao ingresso e a permanência no emprego e gerando ainda mais sérios obstáculos para a construção de trajetórias de trabalho. Nesse sentido, a própria conjuntura que se inscreve os jovens brasileiros, poderia, por si só, justificar a análise desta tese para o segmento juvenil. Mas, para além dessas questões evidenciadas, a priori, por que priorizar o estudo de jovens? Por que analisar trajetórias laborais da juventude trabalhadora brasileira? Os trânsitos juvenis são significativos para pesquisar as reconfigurações que tomam corpo no mundo contemporâneo, nas diversas esferas sociais. A juventude é o contingente social mais diretamente exposto aos dilemas de nossa sociedade: “o grupo que os torna visíveis para a sociedade como um todo”, (MELUCCI, 1997, p. 8). Dito de outra forma, por Telles (2006, p. 217) “os jovens podem nos informar alguma coisa sobre os vetores e linhas de força que desestabilizam campos sociais prévios, ou os redefinem, deslocam suas fronteiras, abrem-se para outros e também traçam as linhas que desenham as novas figuras da tragédia social.”. Dos vários territórios que transitam a juventude, o trabalho é, para uma grande maioria de jovens brasileiros, um locus construtor de trajetórias. Para a juventude do nosso país, a condição juvenil e, muitas vezes, a própria infância, é fortemente marcada pelo trabalho ou pela busca dele. O trabalho sempre faz parte de seus percursos biográficos, por isso, como afirma Sposito (2005), “o trabalho também constrói a juventude”, especialmente a juventude trabalhadora brasileira. Nesse sentido, com o objetivo de desvelar os percursos laborais construídos pela juventude trabalhadora brasileira, este trabalho pretende, por meio de nove singulares trajetórias, analisar: a reconfiguração da categoria juventude, ao longo da conformação do mercado trabalho e das tensões e contradições construídas nas relações sociais entre capital-trabalho; os

  • 11 As taxas mais elevadas de desemprego encontram-se entre as mulheres negras jovens.

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investimentos pessoais e financeiros, bem como os arranjos familiares construídos no campo da formação na procura de melhores condições de acesso e permanência no emprego; as formas de inserções laborais observadas, considerando as relações que as diferenciam, tais como as de classe social, de gênero e de raça/etnia.

DILEMAS DA INVESTIGAÇÃO: O REENCONTRO COM OS JOVENS

A transformação de um problema social em objeto de estudo sociológico é tarefa fundamental para qualquer processo de pesquisa. Mas esta não é uma tarefa fácil, especialmente quando os esforços estão centrados na análise de percursos laborais. Seja porque investigar trajetórias de trabalho, num recorte de cinco anos é um exercício científico que demanda tempo e disponibilidade por parte de todos os envolvidos no processo, seja porque acompanhar jovens, durante um período longitudinal de investigação, demanda condições materiais e, sobretudo, uma relação de confiança e respeito mútuo entre pesquisador e pesquisados. Os anos de 2009, 2010 e 2011, período imerso em campo, acompanhando os jovens desta pesquisa, seja presencialmente, seja em ambiente virtual se constituíram em grandes desafios. Inicialmente, o esforço esteve centrado na tentativa de reencontrar todos os jovens, dispersos na cidade de Salvador, mais precisamente em lugares denominados periféricos, de difícil acesso e imersos, alguns deles, em regiões comandadas pelo narcotráfico. As primeiras itinerâncias possibilitaram reencontrar três jovens e, com eles, vieram as primeiras pistas de onde reencontrar os demais. A procura pelos demais jovens demandou um esforço de idas e vindas, desvelando nossas rotas e percorrendo labirintos de uma cidade, assim como outras cidades brasileiras, cortada geograficamente por desigualdades sociais. Na busca do corpus que veio a constituir esta pesquisa, um recurso lançado à mão bastante favorável à procura dos sujeitos da pesquisa foi à visita aos sites de relacionamentos, na internet. A partir do perfil dos jovens e, especialmente, do encontro virtual com dois deles, foi possível, paulatinamente, (re)encontrar aqueles que até então não tinha sido possível contatar por meio das visitas domiciliares, visitas aos locais de trabalho e/ou ligações telefônicas 12 . Dos dez

  • 12 Exceto um jovem não foi reencontrado.

30

jovens acompanhados ao longo dos anos de 2005 e 2006, na pesquisa anterior, de mestrado, foi possível reencontrar e desenvolver a pesquisa de doutorado com nove deles.

QUEM SÃO OS JOVENS PESQUISADOS?

Os jovens deste estudo têm em comum a participação em um programa social desenvolvido pelo governo Federal em parceria com algumas ONGs da cidade de Salvador, tal como já anteriormente apresentado. São jovens pobres que mantém e/ou contribuem com as despesas familiares, com idades entre 23 e 26 anos. São residentes de bairros periféricos da cidade de Salvador, na sua maioria considerada favelas de difícil acesso. São quase todos solteiros e residem dentro de uma configuração familiar, de pais, irmãos e/ou avós. No conjunto das nove trajetórias analisadas, oito jovens se auto declaram negros e apenas um se declarou mestiço. O universo analisado predomina o gênero feminino; seis mulheres e três homens. A predominância de mulheres no contingente se deu porque foram, desde o primeiro momento da pesquisa, aquelas que se predispuseram a narrar suas trajetórias de vida, de formação e de trabalho. Interessante seria a possibilidade de narrar detalhadamente cada uma das histórias, com seus trânsitos e labirintos percorridos, mas não será este o caminho neste momento. Uma síntese biográfica desses jovens com maior detalhamento, ainda que sem a pretensão de completude, encontra-se como apêndice desse trabalho. (Apêndice A). A seguir, um quadro ilustrativo com as características sociodemográficas dos pesquisados.

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QUADRO 01

Situação sociodemográfica dos jovens pesquisados Salvador, 2005-2011

NOMES DOS JOVENS

SEXO

IDADE 13

COR 14

ARRANJO FAMILIAR

Daniel

Rocha

dos

M

  • 26 Negra

 

Reside no bairro do Pau da Lima com os

Santos

pais e três irmãos. Sua mãe é aposentada e o pai é vigilante. Daniel é quem assume boa parte das despesas familiares.

Alisson Bonfim

 

M

  • 24 Negra

 

Reside no bairro de Pituaçu com os pais e um irmão. O pai recebe um salário fixo, a mãe faz doces pra vender – mas não é suficiente para contribuir. Alisson arca com boa parte das despesas familiares.

Juthan

Santos

da

M

  • 23 Mestiça

 

Reside no bairro de São Cristovão com a

Rocha

mãe e uma irmã. A mãe é dona de casa. A irmã também trabalha, mas é Juthan que arca com a maior parte das despesas.

Ana Paula Dom Passos

F

  • 23 Negra

 

Reside no bairro do Subúrbio Ferroviário com a avó e uma prima de nove anos. A avó recebe uma pensão de menos de um salário. A jovem que arca com boa parte das despesas familiares

Luciana Santiago Souza

F

  • 26 Negra

 

Reside no bairro de Pau da Lima com a mãe, a avó e quatro irmãos. Ela e um dos irmãos trabalham para manter as despesas da casa.

Iranildes

Paula

dos

F

  • 24 Negra

 

Reside no Bairro da Mata Escura com a

Santos

mãe, que trabalhadora doméstica, os avós maternos e três irmãos. Ela, a mãe e uma das irmãs trabalham e ganha, cada uma, um salário mínimo.

Naiara Cerqueira Silva

F

  • 24 Negra

 

Reside no bairro da Mata Escura com os pais e um irmão. A mãe é professora e o pai que está desempregado é eletricista. Ela e a mãe mantêm as despesas da casa.

Vanessa de Jesus Silva

F

  • 23 Negra

 

Reside no bairro de São Cristovão com a mãe, que está grávida e desempregada, cinco irmãos, o filho e o padrasto. As despesas da casa são custeadas por ela e o padrasto trabalha e ela.

Leidze Cristina as Silva

F

  • 25 Negra

 

Reside no bairro do Cabula com seu esposo e filho. Ela e o marido trabalham e ambos mantêm as despesas familiares.

Fonte: material coletado ao longo da pesquisa. Elaboração própria.

  • 13 2010 foi ano referência para coleta da idade dos jovens.

  • 14 Foi adotada a metodologia de auto declaração.

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OPÇÕES METODOLÓGICAS E CAMINHOS DA PESQUISA

A opção metodológica que esta pesquisa pauta-se no que Norbert Elias (2000, p. 16) define como estudos microssociológicos, entendendo que estes podem desvelar aspectos encontrados numa escala maior, na sociedade como um todo: “os problemas em pequena escala do desenvolvimento de uma comunidade e os problemas em larga escala de um país são inseparáveis. Não faz muito sentido estudar fenômenos comunitários como se eles ocorressem num vazio sociológico”. O caminho metodológico percorrido aqui aglutinou métodos, técnicas e instrumentos de pesquisa numa abordagem que articula dados quantitativos e qualitativos, com os quais procuram trabalhar o conteúdo de manifestações da vida social, próprias aos sujeitos que interagem em função de significados (individuais, sociais, culturais, entre outras) e de contextos econômicos e sociais.

Contudo, o material analisado, neste trabalho, é resultante de dois processos distintos e complementares, tendo sempre como objeto de análise as trajetórias dos jovens participantes do Consórcio Social da Juventude de Salvador e RMS. O primeiro momento, realizado entre os anos de 2005 a 2006, tinha como propósito analisar os Percursos de formação construídos pelos jovens ao longo do Consórcio, neste caso, por meio de dez 10 singulares trajetórias. Naquele momento, foram realizadas entrevistas, observações etnográficas, grupos de discussão 15 e memoriais de percursos construídos pelos próprios jovens pesquisados. Também foi coletado, sistematizado e analisado um conjunto de dados estatísticos (Sistema Estadual de Análise de Dados – SEADE/Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos – DIEESE; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE/Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio – PNAD; Ministério da Educação e Cultura-MEC; e Organização Internacional do Trabalho – OIT, Banco de dados da ONGs envolvida nos consórcios Sociais da Juventude). O resultado desse processo está publicado da dissertação de Mestrado, apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Educação e

  • 15 Segundo Weller (2006), os grupos de discussão passaram a ser utilizados na pesquisa social empírica pelos integrantes da Escola de Frankfurt a partir dos anos 50 no século passado, especialmente em um estudo realizado em 1950-51 e coordenado por Friedrich Pollok, no qual foram realizados grupos de discussão com 1.800 pessoas de diferentes classes sociais.

33

Contemporaneidade, da Universidade do Estado da Bahia, (2007), sob a orientação da professora Drª. Ronalda Barreto da Silva, e no livro os Filhos do desemprego, publicado em 2009, pela editora Liber Livro. O segundo momento, desenvolvido entre os anos de 2008 a 2011, privilegia as trajetórias de trabalho de jovens que participaram do Consórcio Social da Juventude de Salvador, mais especificamente dos mesmos jovens que participaram da primeira etapa dessa pesquisa. Para tanto, iniciou-se o caminho da pesquisa, elaborando uma revisão do referencial teórico, com os conceitos e categorias que circunscrevem os objetivos da pesquisa. Neste momento, tornou-se de fundamental importância a recuperação das produções acadêmicas (dissertações e teses) já existentes que analisam as políticas de qualificação e inserção de jovens no mercado de trabalho. A utilização dessas fontes exigiu compreender que, assim como outros documentos escritos, esses foram produzidos em outros contextos, com outras preocupações e objetivos, questões que devem ser consideradas na análise da pesquisa desenvolvida. Nesse aspecto, é pertinente considerar o argumento apontado por Queiroz ao fazer referência a documentos criados por outros pesquisadores:

O emprego destes documentos, sejam eles oriundos ou não da atividade do pesquisador, requer uma crítica rigorosa para que sejam aplicados com segurança. No caso de já existirem, padecem de dupla influência da subjetividade: a de quem fez o documento e a de quem vai empregá-lo. Urge, pois, saber quando, como e com que intuito foram fabricados; a melhor crítica está em sua comparação com documentos provenientes de outras fontes e versando sobre o mesmo dado, pois as convergências e as disparidades podem reforçar a confiança ou mostrar que as suspeitas estão a exigir novos cotejos. (QUEIROZ, 1999, p. 22).

Dessa forma, a perspectiva adotada para a análise seguiu os pressupostos levantados por Demartini (2001, p. 52), que destaca a necessidade de discussões sistemáticas e contínuas no decorrer do processo investigativo. A partir do trabalho com as diversas fontes e à luz dos referenciais teóricos, buscou-se, constantemente, reflexão sobre as questões já apontadas inicialmente, bem como aprofundamento e ampliação de outros pontos que somente o desenvolvimento da pesquisa permitiu seu desvelamento. Ao considerar que as trajetórias analisadas emergem de uma das políticas de qualificação e inserção no mercado de trabalho que foram desenvolvidas no Brasil para jovens desempregados, realizou-se a análise de documentos que estabelecem relações (in)diretas com o

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objeto de pesquisa, a exemplo dos Termos de Referências e Manuais de Implementação do Programa Nacional de Estímulo ao Primeiro Emprego- Ministério do Trabalho e Emprego; e demais documentos normatizadores das políticas para a juventude da Secretaria Geral da Presidência da República – por meio da Secretaria Nacional de Juventude, do Ministério do

Desenvolvimento Social e Combate à Fome e o Ministério da Educação , entre os anos 2003 a

2010.

Os relatórios do Banco Mundial sobre a pobreza na América Latina (1990-1991, 1997, 2000-2001) e sobre a Juventude (2006-2007), da Organização das Nações Unidas – ONU (1984), bem como os da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO (2004) e da Organização Internacional do Trabalho – OIT (2007, 2010), constituíram fontes desta pesquisa, devido à importância que podem assumir na hipótese de que as políticas implementadas no Brasil que privilegiam, de forma focal, jovens pobres desempregados estão condicionadas às diretrizes maiores dos organismos supranacionais. Propõe-se essa diversificação de documentos, embasados no argumento de Elias, apresentado por Neiburg (2000, p. 9), segundo o qual o tratamento de fontes diversas “permite alcançar o conjunto de pontos de vista e de posições sociais que formam uma figuração 16 social, e compreender a natureza dos laços de interdependência que unem, separam e hierarquizam os indivíduos e grupos sociais”. Nesse aspecto, é importante refletir sobre as especificidades dos documentos analisados nessa pesquisa. Compuseram, para tal, o universo dos documentos oficiais, aqueles que têm relação com as políticas de emprego para jovens, com o Trabalho, com a Educação e com a Juventude. Nesse sentido, foram pesquisados relatórios, pronunciamentos, discursos, recomendações ou mesmo notícias publicadas nos Boletins Informativos elaborados pelos órgãos financiadores, formuladores, implementadores e avaliadores das políticas públicas de emprego para jovens. Assim, reitera-se a abordagem de Le Goff sobre documento:

  • 16 Para Elias (2000), o conceito de figuração refere-se à teia de relações de indivíduos interdependentes que se encontram ligados entre si a vários níveis e de diversas maneiras, sendo que as ações de um conjunto de “pessoas interdependentes interferem de maneira a formar uma estrutura entrelaçada de numerosas propriedades emergentes, tais como relações de força, eixos de tensão, sistemas de classes e de estratificação, desportos, guerras e crise econômicas.

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O documento não é qualquer coisa que fica por conta do passado, é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de força que aí detinham o

poder [

]

O documento não é inócuo. É antes de mais nada o resultado de uma

montagem, consciente ou inconsciente, da história, da época, da sociedade que o produziram, mas também das épocas sucessivas durante as quais continuou a

viver [

].

(LE GOFF, 1996, p. 547).

Para coleta quantitativa foram utilizados os bancos de dados (de jovens qualificados e inseridos) do Ministério do Trabalho e Emprego e das ONGs âncoras 17 envolvidas na execução e avaliação das políticas. Foram adicionados a esta análise os levantamentos estatísticos de emprego e desemprego juvenil, disponibilizados pelo(s): Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE)/Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE); Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)/Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD); Ministério da Educação e Cultura (MEC); e Organização Internacional do Trabalho (OIT). Como já evidenciado anteriormente, a pesquisa de campo, de cunho mais qualitativo, materializou-se na cidade de Salvador e Região Metropolitana/ Bahia 18 , com nove jovens selecionados entre os dez já acompanhados, nos ano de 2005 e 2006, durante o desenvolvimento da primeira etapa. Neste nova etapa, foram utilizadas as seguintes estratégias: entrevistas exploratórias; entrevistas biográficas, cadernos de campo – com as observações etnográficas – elaborados com o objetivo de registrar o não dito, o não gravado nos momentos das entrevistas. A entrevista exploratória, realizada no ano de 2009, possibilitou a elaboração do discurso, compreendido como expressão de um momento histórico, por meio do qual se produzem sentidos, contradições e se constroem versões da realidade. Para tanto, utilizaram-se os encontros exploratórios com o objetivo de definir os temas e reelaborar o caminho da pesquisa, pois outras técnicas e instrumentos de pesquisa foram pensados, a priori, mas, o reencontro com os jovens, fez perceber que se estava diante de um terreno particularmente delicado, pois, para que os jovens investigados pudessem narrar seus percursos laborais, foi necessário que os instrumentos de

  • 17 Conforme Termos de Referências dos Consórcios Sociais da Juventude (2004, 2006), as ONGs âncoras são organizações com maior poder de “gestão”, votadas e eleitas pelas demais ONGs que compõem a rede de executoras e referendada pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

  • 18 A escolha pela cidade de Salvador e Região Metropolitana deu-se pela disponibilidade de alguns dados já coletados dos Consórcios Sociais da Juventude, encontrados ao longo da pesquisa desenvolvida no Mestrado de Educação e Contemporaneidade, defendida em 2007. Ao longo da referida pesquisa, foi elaborado um banco de dados que possibilitou o acompanhamento de jovens que foram atendidos em 2004, 2005 e, mais precisamente, dos que participaram em 2006 do Consórcio Social da Juventude de Salvador e Região Metropolitana

36

pesquisa, inicialmente pensados, fossem substituídos por entrevistas em profundidade [biográficas] – não sobre a totalidade de suas vidas, mas sobre algumas de suas trajetórias, especialmente suas trajetórias de trabalho. 19 Nesse sentido, Segnini 20 (2009, p. 10) evidencia que as entrevistas em profundidade, nas suas diferentes formas – biografias, histórias de vida, trajetórias sociais –, expressam legitimidade científica na compreensão da sociedade; possibilitam a apreensão não só de questões aguardadas pelo pesquisador em decorrência do conhecimento acumulado sobre objeto, mas, sobretudo, “informam aspectos inesperados, constituindo caleidoscópios sociais que informam dimensões da realidade social brasileira”. Durante o percurso investigativo, ao longo os anos de 2009, 2010 e 2011, pediu-se aos jovens que falassem de suas trajetórias de vida, imersos nos múltiplos contextos, de suas trajetórias de formação/escolarização e de seus percursos laborais (à procura) de emprego e seus projetos futuros. A sequência das experiências narradas foi determinada pelos jovens entrevistados, uma vez que:

a história de vida se define como o relato de um narrador sobre sua existência através do tempo, tentando reconstruir os acontecimentos que

[

...

]

vivenciou e transmitir a experiência que adquiriu. Narrativa linear e individual dos acontecimentos que ele considera significativos, através dela se delineiam as relações com os membros de seu grupo, de sua profissão, de sua camada social, de sua sociedade global, que cabe ao pesquisador desvendar. (QUEIROZ, 1991, p. 5).

As observações etnográficas, realizadas durante todo percurso da pesquisa constituíram materiais de maior importância para compreender as configurações presentes nas vidas dos jovens da pesquisa. Assim, as observações presentes nos cadernos de campo nortearam a construção das análises dos percursos laborais dos jovens, num jogo de vigilância constante, por informações exteriores captadas e registradas e as questões que emergiram à medida que o trabalho foi avançando 21 .

  • 19 As entrevistas em profundidade foram desenvolvidas no ano de 2010 e 2011.

  • 20 Para um aprofundamento ver Segnini (2009).

  • 21 Para melhor compreensão do que é o diário de campo, consultar o Guia para pesquisa de campo: produzir e analisar dados etnográficos, BEAUD, Stéfhane; Weber, Florence, 2007.

37

Além das entrevistas biográficas realizadas, foram utilizados também dados importantes, coletados a partir dos grupos de discussão e observações etnográficas, durante a primeira etapa da pesquisa, ou seja, durante os anos de 2005 e 2006, com o objeto de perceber as suas relações com o tempo presente. O material coletado, nesse primeiro momento, e (re)analisado no tempo presente foi cotejado constantemente com os dados coletados nos últimos três anos, com o objetivo de analisar as relações construídas ao longo desse período, as contradições estabelecidas e as (des)continuidades passíveis de explicação dentro de configurações sociais que circunscrevem os jovens desta pesquisa. O material oriundo do grupo de discussão, foi (re)utilizado, nesta pesquisa, por entendê-lo como uma técnica essencial no diálogo com os jovens, sobretudo quando se objetiva analisar as trajetórias de trabalhos, construídas em relações, predominantemente coletivas e dialéticas. O trabalho com grupo de discussão vem sendo estudado pelas Ciências Sociais, pela Psicologia Social, Psiquiatria, e mais recentemente, pela Educação. Esta técnica foi vista como uma forma complementar da entrevista de profundidade, visto que o grupo de discussão teve por finalidade obter a fala em debate, onde vários pontos foram discutidos, gerando conceitos, impressões e concepções sobre os temas tratados, entre os participantes do grupo. Assim, por meio desses métodos e técnicas, construídos e aplicados ao longo dos cinco anos, foi possível construir e analisar nove singulares trajetórias, em uma sequência dos fatos, quase sempre não lineares, ora do presente, ora revisitando o passado, desenvolvendo uma lógica narrativa que procurasse dotar de sentido o que se contava. Cada trajetória analisada foi considerada uma singularidade, um caso de vida de modo que, o objetivo com este conjunto de percursos laborais não foi o de representar o Brasil por meio delas, mas representar uma sociedade na qual muitos casos semelhantes acabam por se refletir. As categorias teóricas construídas estão presentes em todo o trabalho dialogando, ora com os dados quantitativos, ora com as narrativas das trajetórias de trabalho. Por isso, a trajetória da exposição que se segue está organizada em capítulos distintos e complementares, apresentados a partir de uma lógica construída que melhor orientou a construção deste trabalho. O primeiro capítulo – Juventude trabalhadora brasileira: construção de campo analítico – categoriza a(s) juventude(s) dentro dos contextos históricos que a circunscrevem e por sua vez também as definem, estabelecendo uma demarcação teórica para a juventude trabalhadora brasileira – campo analítico desse trabalho.

38

O segundo capítulo – Mercado de trabalho, enfoques e ações para juventude trabalhadora brasileira: nova tríade, velhas reconfigurações – estabelece as relações existentes entre a conformação do mercado de trabalho brasileiro, nos seus diferentes movimentos históricos, a redefinição do que é ser jovem, especialmente jovem trabalhador, e as ações implementadas para juventude brasileira ao longo da constituição da sociedade capitalista brasileira. Trata-se, portanto, de um alinhamento teórico que busca encontrar pistas capazes de elucidar os nexos – existentes entre mercado de trabalho, juventude trabalhadora e políticas para a juventude. O terceiro capítulo – Trajetórias de formação para trabalho: das promessas às incertezas analisa, por meio das nove trajetórias pesquisadas, os investimentos pessoais e financeiros, bem como os arranjos construídos pelos jovens e seus familiares, desde a educação básica até o ensino superior, na perspectiva da garantia do acesso a “um bom emprego” e uma mudança de posição na estrutura social. Várias contradições são analisadas para questionar o consenso que a relação entre trabalho e educação parece ser portadora O quarto capítulo – Trajetórias de trabalho: empregos precários e inserções provisórias analisa as novas reconfigurações do trabalho e as formas de ingresso da juventude, por meio de singulares trajetórias. Prioriza três formas de inserção dos jovens no mercado de trabalho: o primeiro emprego por meio da lei de menor aprendiz, o emprego em telemarketing e o emprego nas cooperativas. Por fim, nas considerações finais recolocam-se as conclusões parciais, à luz das trajetórias analisadas, evidenciando os aspectos centrais nos capítulos anteriores, na tentativa de destacar as singularidades, as especificidades e as contradições que constituem a juventude trabalhadora brasileira e seus percursos laborais.

39

CAPÍTULO I - JUVENTUDE TRABALHADORA BRASILEIRA:

CONSTRUÇÃO DE UM CAMPO ANALÍTICO

40

Desde o final dos anos 1990 e início desta década, verifica-se relevante discussão teórica e analítica acerca da temática juventude e das questões relacionadas aos jovens. Inúmeros são os trabalhos que objetivam definir e categorizar a juventude 22 . No entanto, parece ser consenso, pelo menos para os estudiosos que a analisam à luz da sociologia, que esta é uma complexa tarefa, pois a própria definição da categoria juventude encerra em si mesma um problema sociológico, na medida em que os critérios que a constituem são históricos, econômicos e culturais. Por ser a juventude uma condição social e ao mesmo tempo um tipo de representação (PERALVA, 1997), há uma diversidade na própria definição e compreensão da categoria. As análises, em sua grande maioria, privilegiam recortes específicos – de classe, de idade, de raça, de gênero e de geração, entre outros – que diferenciam e singularizam os jovens. Assim, o objetivo deste capítulo é categorizar a(s) juventude(s) dentro dos contextos históricos que a circunscrevem e, por sua vez, também as definem, estabelecendo uma demarcação teórica para a juventude trabalhadora brasileira – campo analítico desse trabalho.

1.1 JUVENTUDE: UMA CONSTRUÇÃO SOCIAL

O sociólogo Bourdieu (1983, p.113), em seu clássico e provocador artigo sobre juventude – “A juventude é apenas uma palavra” – demonstra como as divisões entre as idades seriam sempre arbitrárias, visto que, segundo ele, “somos sempre o jovem ou o velho de alguém”. Para o autor, os recortes de classe, de idade e/ ou de geração teriam uma variação interna e seriam objetos manipuláveis. A idade é um dado biológico socialmente manipulado e manipulável; o fato de falar dos jovens como se fossem uma unidade social, um grupo constituído, dado de interesses comuns, e relacionar estes interesses a uma idade definida biologicamente já constitui uma manipulação evidente, afirma o sociólogo. Duas décadas depois, o português Pais (1990), na tentativa de sistematizar os estudos já realizados no campo da sociologia da juventude organizou os trabalhos sobre o tema em duas grandes correntes de análise: a geracional e a de classe. A primeira, de mais longa tradição na sociologia da juventude, tem como ponto de partida a juventude como uma fase da vida,

  • 22 Para maior aprofundamento ver: SPOSITO, Marília (2009).

41

enfatizando a busca por aspectos característicos mais uniformes e homogêneos que fariam parte de uma cultura juvenil, unitária, específica de uma geração definida em termos etários. A questão central dessa perspectiva diz respeito à continuidade e à descontinuidade dos valores intergeracionais. Os seus pressupostos teóricos assentam-se na teoria da socialização e na teoria das gerações 23 . Para a segunda corrente, a juventude é tomada como um conjunto social necessariamente diversificado, perfilando diferentes culturas juvenis, em função das diferentes classes sociais às quais pertencem os jovens. Assim, as culturas juvenis são sempre culturas de classe, uma vez que são compreendidas como produto de relações antagônicas entre classe e/ ou de culturas de resistência; culturas negociadas dentro de um contexto cultural determinado por relações de classe. Mesmo os estilos mais exóticos de comportamento apresentados por jovens, a exemplo de um cabelo punk e de lábios pintados de roxo, são vistos como forma de resistência às contradições de classe; forma de desafiar a ordem estabelecida e a ideologia dominante. Numa crítica à corrente apoiada na perspectiva de classe, Pais pontua:

Os processos que afetam os jovens não podem ser unicamente compreendidos como simples ou exclusiva resultante de determinações sociais e posicionamentos de classe. Esses processos têm também de ser compreendidos, por exemplo, à luz das lógicas de participação ao nível dos diferentes sistemas de interação locais, através dos quais se modulam e afirmam as suas trajetórias sociais. Estas, por sua vez, inscrevem-se em percursos de mobilidade social que podem contrariar a ‘causalidade do provável’ na qual os seus destinos de classe os fazem aparentemente mergulhar. (PAIS, 1990, p.159-160).

Sposito (1997) destaca que essa polaridade, evidenciada na sistematização elaborada pelo autor português Machado Pais, se estabelece, a partir dos anos 1960, quando no interior da sociologia se perguntava: a juventude “existe” como um grupo social relativamente homogêneo, ou é “apenas” uma palavra? 24 . Paralelamente a esse contexto de indagações, aqui no Brasil, uma das pioneiras da sociologia da juventude já demarcava sua compreensão analítica sobre a noção de juventude. Para Foracchi (1965, p.303), “menos que uma etapa cronológica da vida, menos que uma potencialidade rebelde e inconformada, a juventude sintetiza uma forma possível de pronunciar-se diante do processo histórico e constituí-lo”.

  • 23 Para um maior aprofundamento consultar Mannheim (1993).

  • 24 Como afirmou Bourdieu (1983) duas décadas depois.

42

Embora sejam diversas e complexas as definições e as perspectivas de análise sobre o tema, há um reconhecimento tácito de que boa parte das análises gira em torno da condição de transitoriedade como um elemento importante para a definição do que seja a juventude 25 . Entretanto, por mais controversa que seja essa categorização, pode-se afirmar que a juventude é um produto histórico da modernidade. De uma modernidade que trouxe consigo a escola de massas e a demarcação de um tempo específico para aprender, que instituiu a crescente intervenção do Estado-Nação na regulação da sociedade e a construção da juventude como uma categoria social; que, especialmente, provocou profundas mudanças sociais e fez nascer um conjunto de problemas que, associado a uma população jovem, contribuiu para que esta se tornasse objeto de consciência social. Foi essa mesma modernidade que solidificou uma concepção de juventude associada ao período de preparação para a vida adulta, principalmente demarcada pelo período de transição da inatividade para o ingresso no sistema produtivo capitalista. Dito de outra forma, a juventude vem, assim, a ser compreendida como uma mera passagem para a maturidade, vivida em uma espécie de etapa moratória social, cuja tarefa é a preparação para a vida adulta, ou seja, um crédito de tempo concedido a este segmento para a aquisição de estruturas necessárias à vida adulta.

1.1.1 A Juventude como uma mera Etapa de Transição para Vida Adulta – Moratória Social?

A compreensão da juventude como moratória social associa-se às transformações ocorridas desde o início do século XX, no modelo de socialização dominante na Europa ocidental, especialmente entre as famílias burguesas; modelo cunhado por Erik Erikson 26 e, décadas depois, atualizado pelos sociólogos argentinos Mario Margulis e Marcelo Urresti. Na perspectiva analítica dos estudiosos sobre o assunto, os jovens eram socializados em meio a

  • 25 Esta compreensão foi pautada pelas formulações funcionalistas que emergiram na sociedade afluentes do pós-guerra. As formulações de Mannhein apresentam contribuições importantes sobre o tema juventude a partir das ideias de transição (MANNHEIM, 1968, 1982).

  • 26 Psiquiatra responsável pelo desenvolvimento da Teoria do Desenvolvimento Psicossocial na Psicologia e um dos teóricos da Psicologia do Desenvolvimento.

43

outras gerações, sendo educados para a vida em contato direto com o adulto. Essa imersão com outros grupos etários não formava a juventude como uma categoria sociologicamente diferenciada. A posteriori, no entanto, os jovens passaram a ser afastados da vida social e separados em escolas com o objetivo de aprender as normas e regras da vida em sociedade. A partir de então, começam a se estruturar como uma categoria social específica 27 . Mantidos fora do sistema produtivo, os jovens passam a viver uma moratória, ou seja, ficam suspensos da vida social, ou, ao menos, do processo produtivo. Para Galland (1996, p. 74), um dos principais representantes da sociologia francesa sobre juventude, neste período de “suspensão” o jovem construiria, assim, “progressivamente, sua identidade social e profissional”. Entretanto, é importante destacar que esta compreensão de juventude, como um tempo de espera e de preparação para uma vida a vir a ser, não é, e nunca foi um privilégio de todos. Mesmo considerando que a juventude já existia, antes da modernidade, no léxico europeu, como afirmou Pais (1993), é também possível afirmar que, durante séculos, esta fase de vida foi um privilégio de grupos sociais específicos. Para a socióloga portuguesa Natália Alves 28 ,

[

...

]

primeiro a aristocracia, depois a burguesia – e que só com a modernidade se

verifica a generalização desta fase da vida, dando origem ao que tem vindo a ser

designado por juventude moderna. É precisamente, o atributo moderno utilizado para qualificar a juventude que permite estabelecer as pontes entre duas posições, que só aparentemente se opõem, distinguindo entre uma experiência juvenil socialmente circunscrita e uma experiência juvenil massificada, característica das sociedades modernas. (ALVES, 2008, p. 18).

Ainda segundo a autora, apesar de ser socialmente minoritária, a juventude aristocrática é a primeira a adquirir visibilidade social, com a publicação de obras consagradas à sua educação 29 , nos finais do século XVII e início do século XVIII. Essas publicações contribuem não só para a construção desta nova categoria social, mas também para definir o espaço social, onde esse processo irá majoritariamente ocorrer: a educação. No entanto, ao mesmo tempo em que algumas obras retratam a juventude como um grupo social impulsionador de mudanças, outras colocam a

  • 27 Para um aprofundamento sobre o assunto ver Gottlie e Reeves (1968).

  • 28 Natália Alves – professora da Universidade de Lisboa e minha orientadora no doutorado sanduíche, no período de Setembro de 2010 a Janeiro de 2011. Muitas das discussões feitas ao longo deste trabalho são resultados dos nossos inúmeros diálogos realizados nas reuniões de orientação e nas aulas que participei como aluno convidado na Universidade de Lisboa.

  • 29 Esta visibilidade social vai ser um elemento essencial na construção da Juventude Moderna.

44

tônica nos problemas que lhe estão associados. Dessa forma, a visibilidade social que a juventude vai, progressivamente, adquirindo joga-se no confronto entre estas duas perspectivas de análise. Circunscritos primeiramente à aristocracia, os problemas ligados à juventude passam a ser associados à nova classe social em consolidação: a burguesia. Os jovens burgueses são os primeiros a usufruir da escola de massas, a investir no prolongamento das trajetórias escolares e a contribuir para que a juventude passe a ser associada a um período de preparação para a vida adulta.

Para Cachón (2000) e Oddone (2006), o conceito de “adulto” colaborou substancialmente com o emprego assalariado e a formação da família nuclear. A definição da “adultez” foi a chave para a estruturação de um modelo de três etapas como modalidade hegemônica de regulação do tempo vital. A primeira etapa estava relacionada à preparação para a vida ativa [niñez-juventud], a segunda, associada com a atividade econômica e o emprego [adultez] e a última, à saída da atividade produtiva [vejez]. Como se pode perceber, este modelo não só consolida um novo processo civilizatório, de controle e autocontrole/ disciplinamento da sociedade, que vai para além do controle econômico, como também a compreensão da juventude como sendo um período de moratória social - período de formação e preparação para a vida adulta. Elias (1998) assinala que no mundo ocidental moderno a noção de tempo é linear, progressiva e fragmentada. Para o autor, os textos clássicos da sociologia têm analisado extensamente a linearidade e a segmentação do tempo como um fenômeno associado à crescente divisão do trabalho e aos processos de urbanização resultantes da expansão do capitalismo. Dessa forma, o trabalho ocupou um lugar central na definição cronológica do tempo ocidental moderno, sobretudo a partir do século XX; a cultura da sociedade moderna ocidental passou a evidenciar mais ainda as noções de tempo, objetivando um controle essencialmente econômico das atividades de trabalho, sobretudo do assalariamento. Contudo, esta mesma modernidade que trouxe para alguns o tempo e lugar para aprender, trouxe para uma grande maioria de jovens problemas construídos no interior de uma sociedade capitalista: pobreza, exploração econômica, delinquência e marginalidade. Porém, é a natureza desses mesmos problemas, a ameaça que eles constituem para ordem social estabelecida e o tipo de jovens sobre os quais eles incidem – o jovem pobre – que permitem afirmar que a constituição social da juventude moderna comporta, em si, uma marca de classe.

45

E, se é verdade que, ao longo do século XX, esses problemas foram se reconfigurando, dando lugar a novos fenômenos sociais, é igualmente verdade que, no início do século XXI, eles não desapareceram nem os problemas, nem o grupo social mais atingido: a juventude. Os problemas foram se metamorfoseando e, junto com eles, a pobreza e a falta de alternativas – sobretudo ligadas à falta do emprego – transformaram muitos jovens em vítimas e agentes de violência. Face ao exposto, é pertinente indagar: será que a compreensão da juventude como uma mera etapa de transição para a vida adulta se aplica à grande maioria dos jovens brasileiros que, desde cedo, são obrigados a trabalhar, a conciliar horas de estudos com horas de trabalho (ou à procura dele) e a lidar com as crises e instabilidades do emprego? Ao observar na tabela a seguir, os dados referentes aos anos de 1992, 2001 e 2009, extraídos da PNAD 30 , pode-se perceber que muitos são os jovens brasileiros, na faixa etária de 15 a 29 anos, que trabalham ou procuram emprego, constituindo um universo populacional, denominado, neste trabalho, de Juventude Trabalhadora Brasileira 31 . Aqui apresentados em três grupos etários, não somente para organizar e condensar os micros dados da análise, mas, sobretudo, porque mantêm características que os diferem e singularizam: jovem adolescente (15- 19 anos); jovens (20-24 anos); e jovem adulto (25-29 anos). São aproximadamente 34 milhões de pessoas, segundo a PNAD (2009), que contribuíam efetivamente para geração de riqueza, na condição de empregado ou não, perfazendo nada menos que 70% da população jovem. Entretanto, ao observar esta mesma tabela percebe-se, nos últimos dez anos, uma redução paulatina de jovens entre 15-19 anos que trabalham ou procuram emprego – de 49, 7% em 2001 para 47,4% em 2009 – ocasionada principalmente pelas políticas sociais de acesso à escola pública. Mesmo assim, foi muito expressiva a quantidade de jovens adolescentes (15-19 anos) que estavam trabalhando ou procurando emprego – 59,7% em 1992 (PNAD), ou seja, 12, 3% a mais que no ano de 2009. Faz-se necessário destacar que a década de 1990 foi um período de recessão econômica 32 e desemprego e, por isso, uma parte significativa da população brasileira, principalmente os jovens, buscaram no emprego as possibilidades básicas de sobrevivência. Para os jovens (20-24 anos) e jovens adultos (25-29 anos) houve, no período em análise, um aumento daqueles que estavam trabalhando ou procurando emprego. Se é possível afirmar que não se pode medir o desemprego a partir do agrupamento jovem entre 15-19 anos, pois, em

  • 30 O objetivo foi fazer um recorte temporal maior de análise.

  • 31 Ver área sombreada na tabela. Denominação do autor.

  • 32 No capítulo seguinte, este período será abordado com mais profundidade.

46

tese, ele estaria frequentando a escola, os jovens entre 20 e 29 anos são representativos para evidenciar o fenômeno do desemprego juvenil. O que se percebe é que o desemprego não diminui significativamente nos últimos anos entre os jovens de (20-24 anos), que era de 11, 4% em 2001 e foi para 11,6% no ano de 2009. Já para os jovens adultos (25-29 anos), de 8,1% em 2001, cresce para 8,4%.

TABELA 01

O

Distribuição da população jovem, segundo a situação de trabalho e estudo e faixa etária. Brasil 1 , 1992-2009 (em %)

Situação

Faixa etária (em anos)

15-19

20-24

25-29

15-29

1992

Trabalha e não estuda

32,0

57,6

68,2

51,4

Trabalha e estuda

19,7

10,1

4,2

11,9

Desempregado e estuda

4,3

1,7

0,4

2,3

Desempregado e não estuda

3,7

6,2

4,8

4,9

Apenas estuda

26,7

5,1

1,1

11,9

Não trabalha, não procura trabalho e não estuda

13,5

19,3

21,2

17,7

Total

100,0

100,0

100,0

100,0

2001

Trabalha e não estuda

16,6

49,0

63,1

41,0

Trabalha e estuda

22,3

14,8

8,6

15,8

Desempregado e estuda

6,9

3,3

1,2

4,0

Desempregado e não estuda

3,9

8,1

6,9

6,2

Apenas estuda

39,7

8,1

2,5

18,3

Não trabalha, não procura trabalho e não estuda

10,5

16,8

17,7

14,7

Total

100,0

100,0

100,0

100,0

2009

Trabalha e não estuda

16,1

52,7

66,3

44,8

Trabalha e estuda

20,3

14,3

9,0

14,5

Desempregado e estuda

6,7

2,8

1,1

3,6

Desempregado e não estuda

4,3

8,8

7,3

6,8

Apenas estuda

43,1

7,2

2,1

17,7

Não trabalha, não procura trabalho e não estuda

9,6

14,2

14,2

12,6

Total

100,0

100,0

100,0

100,0

Fonte: IBGE - PNAD. Elaboração própria. (1) Exclusive áreas rurais da região Norte.

S

47

Os dados da tabela sobre a distribuição da população jovem, segundo a situação de trabalho, estudo e faixa etária, reiteram as singulares trajetórias dos jovens pesquisados, neste trabalho, ao longo dos cinco anos de análise – os quais afirmaram (todos) que, desde muito cedo, tiveram experiências de trabalho, nas suas formas mais precárias de existência. Os dados apresentados na tabela anterior somados aos relatos dos jovens pesquisados 33 revelam que o conceito de juventude como um momento de espera e preparação para a vida adulta – ancorados na noção de moratória social – caso ainda seja aplicável aqui no Brasil, restringe-se a uma parcela da população jovem brasileira que possui o privilégio de ter seus estudos custeados por seus pais e/ou parentes. Dito de outro modo, vê-se que tal privilégio atinge 17,7% dos jovens de idade entre 15 e 29 anos. Tal percentual se torna ainda menor na medida em que a faixa etária vai aumentando: 7,2%, no caso de jovens de 20 a 24 anos, e 2,1% entre os jovens adultos de 25 a 29 anos.

TABELA 02

Distribuição da população, segundo a situação de trabalho e estudo, faixa etária e sexo. Brasil 1 , 1992-2009 (em %)

Situação

 

Masculino

   

Feminino

 

15-19

20-24

25-29

15-29

15-19

20-24

25-29

15-29

 
 
 

1992

Trabalha e não estuda

41,7

73,3

86,5

65,4

22,3

42,1

51,3

37,7

Trabalha e estuda

23,2

10,3

4,3

13,3

16,2

10,0

4,2

10,5

Desempregado e estuda

4,4

1,7

0,3

2,3

4,3

1,7

0,5

2,3

Desempregado e não estuda

3,8

6,3

4,6

4,9

3,7

6,1

4,9

4,9

Apenas estuda Não trabalha, não procura trabalho e não

20,4

3,4

0,5

8,9

33,0

6,7

1,7

14,7

estuda

6,4

5,0

3,7

5,2

20,5

33,4

37,4

29,9

Total

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

 

2001

Trabalha e não estuda

21,0

61,2

78,3

50,9

12,2

37,3

48,8

31,5

Trabalha e estuda

27,5

16,1

9,0

18,4

17,1

13,5

8,2

13,3

Desempregado e estuda

7,1

3,4

1,1

4,1

6,7

3,2

1,4

4,0

Desempregado e não estuda

3,7

7,1

5,8

5,4

4,1

8,9

7,9

6,9

 

35,2

6,1

1,1

15,7

44,3

10,0

3,9

20,7

5,5

6,1

4,7

5,5

15,5

27,0

29,9

23,7

Apenas estuda Não trabalha, não procura trabalho e não estuda

  • 33 As narrativas apresentadas e analisadas constarão no terceiro e quarto capítulos deste trabalho.

48

Total

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

 

2009

Trabalha e não estuda

20,7

63,9

78,2

53,7

11,5

41,5

55,0

36,0

Trabalha e estuda

24,0

14,5

9,2

16,1

16,4

14,0

8,8

13,1

Desempregado e estuda

6,3

2,4

0,8

3,2

7,1

3,3

1,4

3,9

Desempregado e não estuda

4,1

7,2

5,9

5,7

4,5

10,4

8,7

7,8

Apenas estuda Não Trabalha, não procura trabalho e

38,5

5,4

1,2

15,4

47,7

9,0

2,9

19,9

não estuda

6,5

6,6

4,8

6,0

12,8

21,9

23,2

19,3

Total

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

Fonte: IBGE - PNAD. Elaboração própria. (1) Exclusive áreas rurais da região Norte.

No que se refere à distribuição da população jovem segundo a situação de trabalho, estudo e sexo percebem-se algumas singularidades. A situação das jovens é bastante desfavorável em comparação ao segmento masculino juvenil. O desemprego é maior entre as mulheres jovens que entre os homens, em todos os agrupamentos etários – entre as jovens adolescentes (15-19 anos), entre as/ os jovens (20-25 anos) e entre as/ os jovens adultas(os) (25-29 anos). Há um crescimento significativo de desempregadas mulheres nas últimas décadas; de um percentual de 7,1% do total de mulheres desempregadas em 1992 para 11% em 2009. As mulheres jovens não apenas têm contribuído para um maior peso entre os desempregados, como também vivem um crescente distanciamento das possibilidades de inserção ocupacional, quando comparadas aos jovens do sexo masculino. Por outro lado, a elevada participação das mulheres no contingente dos desempregados jovens mostra que uma parcela importante deste grupo populacional sai de uma condição de inatividade para desempregado, configurando o que se convencionou denominar como a feminização do desemprego juvenil 34 . Porém, embora os índices de participação na força de trabalho venham aumentando nas últimas décadas, no grupo dos inativos 35 as mulheres jovens são maioria em todos os agrupamentos juvenis. É importante evidenciar que muitas mulheres aqui “classificadas” como inativas, acumulam a frequência à escola com atividades que lhes são atribuídas desde criança, a exemplo do trabalho doméstico. Sendo assim, não é legítimo afirmar que uma parte significativa da população juvenil do sexo feminino vive a juventude como uma mera etapa de transição para a vida adulta.

  • 34 Termo utilizado por Nogueira (2004).

  • 35 Mulheres que só estudam, mulheres que não trabalham/ não procuram emprego e não estudam.

49

No tocante ao recorte cor, verifica-se, a partir da tabela a seguir, que a juventude trabalhadora se apresenta de forma bastante desigual quanto às condições de acesso ao estudo e ao mercado de trabalho. A inserção diferenciada entre os jovens na população desempregada revela que os jovens negros representam maior número de desempregados que os jovens brancos. Em 2001, o percentual era de 7,1% de jovens brancos para 9,2 de jovens negros; em 2009, esta diferença se mantém praticamente estável.

TABELA 03

Distribuição da população jovem, segundo a situação de trabalho e estudo, cor e faixa etária. Brasil 1 , 1992-2009 (em %)

Situação

 

Branco

 

Negro 2

 

Outros 3

15-19

20-24

25-29

15-19

20-24

25-29

15-19

20-24

25-29

 

1992

Trabalha e não estuda

29,2

56,6

68,3

34,9

58,6

68,1

21,6

60,4

76,6

Trabalha e estuda

20,8

11,6

4,8

18,6

8,4

3,5

26,0

13,0

6,1

Desempregado e estuda

4,6

1,6

0,4

4,1

1,8

0,4

2,8

1,8

0,0

Desempregado e não estuda

3,5

5,5

4,2

4,0

7,0

5,5

3,7

3,9

4,8

Apenas estuda

29,8

5,9

1,2

23,4

4,1

1,0

37,2

11,4

1,6

Não Trabalha, não procura

12,0

18,7

21,0

15,0

20,1

21,5

8,7

9,5

10,8

trabalho e não estuda Total

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

 

2001

Trabalha e não estuda

16,1

49,2

64,5

17,2

48,9

61,6

9,4

33,0

67,5

Trabalha e estuda

22,6

16,6

9,5

22,1

12,8

7,6

19,5

20,9

9,7

Desempregado e estuda

6,7

3,1

1,1

7,1

3,4

1,3

5,5

6,0

1,8

Desempregado e não estuda

3,8

7,0

6,0

4,0

9,2

7,8

1,7

5,5

7,6

Apenas estuda

41,8

8,8

2,6

37,4

7,2

2,4

56,0

16,9

0,0

Não Trabalha, não procura

9,0

15,2

16,4

12,1

18,4

19,2

8,0

17,7

13,4

trabalho e não estuda Total

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

 

2009

Trabalha e não estuda

16,1

51,6

67,8

16,2

53,8

65,0

12,3

43,8

63,1

Trabalha e estuda

20,0

17,3

10,1

20,5

11,5

7,9

16,1

15,1

12,8

Desempregado e estuda

6,6

3,0

1,2

6,7

2,7

1,1

8,8

3,2

0,2

Desempregado e não estuda

3,9

7,4

6,1

4,6

10,0

8,4

6,9

14,2

11,8

Apenas estuda

44,7

8,8

2,1

41,7

5,8

2,0

42,8

7,6

1,7

Não Trabalha, não procura

8,6

11,9

12,7

10,4

16,3

15,6

13,1

16,0

10,4

trabalho e não estuda Total

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

Fonte: IBGE - PNAD. Elaboração própria (1) Exclusive áreas rurais da região Norte. (2) Preto e pardo. (3) Amarelo, indígena e sem declaração.

50

As análises feitas, a partir das tabelas anteriores, evidenciam que a juventude brasileira se apresenta de forma desigual nos quesitos idade, sexo e cor. Por outro lado, os dados apresentados iluminam um aspecto aqui já apresentado: uma parte significativa da população jovem trabalha e ou procura emprego; quase 70% do contingente total de jovens (15-29 anos), segundo a PNAD (2009), que compõem a Juventude Trabalhadora Brasileira. Contudo, por mais que não seja homogênea a juventude inativa brasileira (jovens que só estudam/ jovens que não estudam, não trabalham e não procuram emprego), sobretudo no que se refere a sexo e cor, há, segundo a PNAD (2009), 43,1% de jovens adolescentes entre 15-19 anos, 7,2% de jovens entre 20-24 anos e 2,1% de jovens adultos entre 25-29 anos que só estudam. Para este grupo, a compreensão de juventude como um momento de espera – moratória social – até poderia ser empregada, mas em outro contexto histórico que não este do momento presente. Segundo Melucci (1992) e Vianna (1997), mesmo para esse grupo privilegiado, este fato não se sustenta hoje, pois parte significativa das denominadas condições contemporâneas da vida se inscreve na insegurança e na transitoriedade. Em um dos seus artigos mais recentes “Les Jeunes ont-ils un rapport spécifique au travail?36 , publicado em 2009, na França, o sociólogo Robert Castel, ao analisar as metamorfoses do mercado de trabalho, afirma que houve uma transformação na compreensão do que significa a garantia do trabalho para os jovens deste século, sendo que esta transformação

[

]

é globalmente marcada por uma precariedade crescente da inscrição da

... ordem do trabalho que faz que para esses jovens também – mas não somente para os jovens e não para todos os jovens – as trajetórias profissionais, e mesmo a possibilidade de ter uma trajetória profissional, são continuamente marcadas

pela chancela de insegurança. (CASTEL, 1998, p. 141-142).

Miranda, socióloga argentina, considera que

La idea de una etapa formativa y de espera fue adecuada para pensar procesos de integración a la adultez sincronizados y lineales, cuya finalización se representaba en la figura del adulto normal. Más específicamente, de un adulto que obtenía un empleo a tiempo indeterminado y constituía una familia para ‘toda la vida’. (MIRANDA, 2007, p. 25).

  • 36 Os jovens têm uma relação específica com o trabalho? (Tradução nossa).

51

No final do século XX, um conjunto de processos sociais, econômicos, políticos e culturais contribuíram para a transformação desse modelo, no qual se pensava a juventude somente como um período de trânsito e moratória para a vida adulta. Para Miranda (2007), “las transformaciones afectaron los ámbitos de la educación, la familia e el trabajo y, conjuntamente, modificaron que fue conceptualizado como ‘condición juvenil”. Dentre as principias mudanças podemos destacar: maior acesso e permanência dos jovens no sistema educativo e as metamorfoses do mercado de trabalho. Numa perspectiva crítica a essa compreensão da juventude como sendo uma etapa de moratória social, a autora ainda esclarece: “Los cuestionamentos a la noción de moratória se dieron em contexto de la emergencia de nuevas problemáticas sociales propriciadas por la transformación del modelo de desarrollo capitalista, teles como la crisis del empleo protegido y a tiempo indeterminado”. (MIRANDA, 2007, p. 25). Atualmente, parece ser consenso entre os pesquisadores e estudiosos que não se pode mais resumirem a juventude a uma preparação para a vida adulta. A juventude se alargou no tempo e no espaço e ganhou uma série de demandas próprias:

[

...

]

isto é, deixou de ser um momento breve de passagem, restrito às classes

altas e médias, não só porque a educação foi largamente expandida, pois não é

mais defendida exclusivamente pela condição estudantil, mas por uma série de movimentos de inserção em diversos planos da vida social, inclusive no mundo do trabalho, na vida afetiva/sexual, na produção cultural, na participação social etc. Um momento, portanto, de intensa experimentação e de construção de caminhos de participação na sociedade; é, ainda, um tempo de formação - mas não mais isolado da intensidade da vida social. (ABRAMO, 2008, p. 222).

Assim, o ponto de partida deste trabalho se ancora na compreensão da juventude como parte de um processo de construção maior do sujeito, no seu cotidiano de desejos, aspirações e participações, que se materializa em suas relações e tensões estabelecidas com meio social concreto, produzindo, assim, diferentes modos de ser jovem, que os singularizam e os diferenciam.

52

1.2 O PROLONGAMENTO DA JUVENTUDE NO BRASIL: UM DEBATE CONSTRUÍDO À LUZ DA JUVENTUDE TRABALHADORA?

Existe, nos dias de hoje, um consenso generalizado, entre os sociólogos da juventude, sobre o fenômeno recente do prolongamento da juventude nas sociedades ocidentais, muito embora alguns afirmam que ele não ocorra de forma homogênea e linear 37 . De todo modo, admitir que a juventude tende a prolongar-se no tempo implica aceitar, igualmente, que a adultez ocorre numa idade mais avançada do que em décadas anteriores. Assim, falar no prolongamento da juventude é falar também na postergação da aquisição do estatuto de adulto 38 . Para Alves (2008, p. 38), o prolongamento da juventude “só faz sentido sociológico quando analisado à luz de uma perspectiva teórica específica, precisamente aquela que concebe a juventude como uma passagem para a vida adulta e que se filia na teoria do curso de vida”. Segundo Heinz (1996), na teoria que elege como objeto de estudo “as sequências de transições socialmente reconhecidas”, a juventude corresponde, necessariamente, a uma dessas várias transições que acontecem no curso da vida e durante a qual os jovens assumem diferentes estatutos, resultado da interação entre as escolhas individuais e as oportunidades sociais 39 . Na sociologia francófona, essa abordagem encontra em Galland (1984, 1985, 1996) seu principal expoente e autor do conceito de “entrada na vida adulta”. De acordo com essa teoria, a entrada na vida adulta ocorre nas seguintes dimensões: conclusão dos estudos, início da vida profissional, saída da casa dos pais, formação de uma nova família pela qual se torna responsável ou co-responsável. Como fica evidente, a entrada na vida adulta se dá por vias de dois processos:

um público – a saída da escola para a inserção no mercado de trabalho; e outro privado – caracterizado pelo abandono da família de origem para criação de uma nova configuração familiar 40 . Para os representantes da sociologia anglo-saxônica, a exemplo de Arnett (1997), privilegia-se a designação “transição para a adultez”, e, semelhante à tradição francófona, estuda-

  • 37 Cavalli e Galland (1995), Vallès (1999) e Wallace e Kovatcheva (1998).

  • 38 Para Arnet (1997), o estatuto de adulto é também uma construção social através da qual se definem os critérios que permitem inscrever os indivíduos numa fase específica do ciclo da vida: a adultez.

  • 39 Para um maior aprofundamento consultar Heinz (1996; 1999).

  • 40 Tal abordagem também é partilhada por Mauger (1998, p. 55) ao definir a juventude como “aquela idade, aquela sequência de trajetória biográfica, através da qual se opera uma dupla passagem: passagem da escola para o trabalho; passagem da família de origem à procriação”.

53

se a sequência dos acontecimentos normativos que configuram essa transição, ou seja, fim dos estudos, entrada no mercado de trabalho, casamento e parentalidade 41 . Se olhar para a pesquisa “Perfil da juventude brasileira” 42 (ABRAMO; BRANCO, 2005), patrocinada pelo Instituto Cidadania e pela Fundação Perseu Abramo, realizada em 2003, com uma amostra de 3.501 jovens dos 25 estados, com idade de 15-24 anos, percebe-se que o processo e as dimensões que caracterizam a “entrada na vida adulta” dos jovens brasileiros se tornam complexas. Segundo a pesquisa, 78% dos entrevistados são solteiros, ou seja, a grande maioria dos jovens brasileiros, e apenas 20% casados. Essa situação se diferencia segundo o corte idade e sexo. O número de jovens mais velhos casados é maior que o de jovens mais novos. Todavia, em todas as faixas etárias internas ao universo pesquisado, as mulheres são, em maior proporção que os homens, casadas. As diferenças se tornam mais evidentes quando analisadas as condições de renda e escolaridade. O contingente de casados diminui quanto maior é o nível de escolaridade e renda familiar; apenas 10% dos jovens com ensino superior são casados, contra 43% dos jovens que têm o primeiro segmento do ensino fundamental (até a antiga 4ª série do ensino fundamental) que já compõem uma unidade familiar. A pesquisa também evidencia que há uma forte relação entre independência da família de origem e formação de um novo núcleo familiar. Dos 20% de jovens casados, um quinto não se declara chefes ou casados(as) com o(a) chefe, mas dependentes da família de origem ou da família do(da) cônjuge. Por outro lado, poucos jovens solteiros são independentes: 3% apenas se declaram chefes de família. Os resultados também informam que mais de 20% dos entrevistados já vivem a condição de maternidade/ paternidade. Estes resultados também se diferenciam se analisados em função da idade e gênero. Enquanto 4% dos jovens de 15-17 anos têm filhos, 41% dos jovens com mais de

  • 41 Para um estudo mais aprofundado consultar Greene (1990) e Marini (1978).

  • 42 O levantamento da pesquisa foi realizado entre os dias 22 de novembro e 8 de dezembro de 2003, por meio de um questionário estruturado (138 perguntas), aplicado a uma amostra de 3.501 jovens, com idades entre 15 e 24 anos, distribuídos em 198 municípios, estratificados por localização geográfica (capital e interior, áreas urbanas e rurais), contemplando 25 estados da União. Realizou-se uma amostra de tipo probabilística nos primeiros estágios (sorteio dos municípios, dos setores censitários e dos domicílios), combinada com controle de cotas de sexo e idade para a seleção dos indivíduos (estágio final). A margem de erro desse levantamento é de ± 1,7 ponto percentual para os resultados referentes ao total da amostra, e de ± 2,9 pontos para os resultados da sub-amostra metropolitana, com intervalo de confiança de 95%.

54

20 anos já os têm, proporção ampliada pelas mulheres, que, na mesma faixa etária, já, na sua maioria, são mães (55%). A relação entre filhos e casamentos é alta, mas também neste caso não necessariamente coincidentes. Três em cada quatro jovens casados têm filhos, mas 20% dos solteiros no grupo etário de (21-24 anos) também já têm filhos. Por isso, conclui-se que, nem sempre, a condição de ser pai ou mãe jovem seja, necessariamente, marcada pela saída da casa dos pais e/ ou a construção de laço matrimonial ou algo que se configure como tal. Os dados apresentados na pesquisa “Perfil da juventude brasileira”, corroboram com pesquisas realizadas por Sposito (2003) e Camarano (2003), as quais evidenciam que, cada vez mais, os jovens vivenciam certos elementos de “transição para a vida adulta”. A saída da casa dos pais e a formação de uma nova família pela qual o jovem torna-se responsável ou co-responsável; duas condições que caracterizam a saída para a vida adulta, no Brasil. Diferente da tendência dos países centrais, a exemplo de Portugal, como assinala Alves (2007), no nosso país, conforme os dados pesquisados informam, não tem ocorrido mais tardiamente entre os jovens. Porém, ao se observar os dados da PNAD (1992, 2001, 2009), sobre a distribuição da população jovem, segundo frequência à escola e faixa etária, é possível perceber que houve, nos últimos anos, embora paulatino, um aumento na escolaridade dos jovens brasileiros, sobretudo devido à expansão do acesso à escola pública; é significativo o contingente de jovens que já frequentam a escola e dos que atingiram ou concluíram o ensino médio. Os dados sobre jovens de 15-29 anos informam que houve, em menos de 20 anos, um aumento de mais de 20% do contingente de jovens que já concluíram o ensino médio. Em 1992 eram 10,4%, em 2001, 17% e em 2009 foi para 27,5%. Tendência de crescimento que se manteve em todos os agrupamentos juvenis: entre os jovens adolescentes (15-19 anos), os jovens (20-24 anos) ou entre os jovens adultos (25-29 anos). Outro dado importante é o aumento percentual daqueles que frequentaram ou concluíram o ensino superior. Em 1992, apenas 6% da população juvenil de 15-29 anos tinham ensino médio ou estavam cursando. Em pouco menos de duas décadas, este índice alcançou a casa dos 16 %, PNAD (2009). Todavia, embora o crescimento da proporção de estudantes universitários tenha ocorrido entre todos os jovens, ela foi mais intensa para os jovens adolescentes (15-19 anos) nesses últimos anos – a taxa se elevou de 1, 5% , em 1992, para 5, 8% em 2009, ou seja, quase três vezes mais.

55

TABELA 04

Distribuição da população jovem, segundo frequência à escola e faixa etária.

Escolaridade

Brasil 1 , 1992-2009 (em %) Faixa etária (em anos)

 

15-19

20-24

25-29

15-29

1992

Frequentam/ frequentaram escola

96,0

94,6

93,8

94,9

Fundamental incompleto

71,0

54,5

46,3

58,3

Fundamental completo

4,1

11,9

14,7

9,8

Médio incompleto

20,2

11,4

6,9

13,4

Médio completo

2,2

13,5

17,5

10,4

Superior incompleto

1,5

6,3

4,2

3,9

Superior completo

0,0

1,4

5,6

2,1

Demais Cursos

0,9

0,9

4,8

2,1

Total

100,0

100,0

100,0

100,0

Nunca frequentaram

4,0

5,4

6,2

5,1

Total

100,0

100,0

100,0

100,0

Total geral (em 1.000 pessoas) 2

14.214,4

12.444,4

11.529,4

38.188,2

2001

Frequentam/ frequentaram escola

98,8

97,5

96,6

97,7

Fundamental incompleto

49,9

38,4

44,9

44,6

Fundamental completo

3,1

7,8

9,5

6,5

Médio incompleto

35,9

14,9

9,1

21,3

Médio completo

6,3

24,1

23,1

17,0

Superior incompleto

3,1

11,2

6,0

6,6

Superior completo

0,0

1,8

5,9

2,3

Demais Cursos

1,7

1,7

1,5

1,6

Total

100,0

100,0

100,0

100,0

Nunca frequentaram

1,2

2,5

3,4

2,3

Total

100,0

100,0

100,0

100,0

Total geral (em 1.000 pessoas) 2

17.300,4

15.463,1

13.160,2

45.923,7

2009

Frequentam/ frequentaram escola

99,4

98,9

98,3

98,9

Fundamental incompleto

34,1

19,2

23,8

25,8

Fundamental completo

3,0

6,9

7,5

5,7

Médio incompleto

45,7

14,5

8,9

23,4

Médio completo

10,5

36,6

36,2

27,5

Superior incompleto

5,8

17,6

10,4

11,2

Superior completo

0,0

4,2

11,8

5,3

Demais Cursos

0,9

1,0

1,5

1,1

Total

100,0

100,0

100,0

100,0

Nunca frequentaram

0,6

1,1

1,7

1,1

Total

100,0

100,0

100,0

100,0

Total geral (em 1.000 pessoas) 2

16.353,2

15.739,0

15.674,7

47.766,9

Fonte: IBGE - PNAD. Elaboração própria. (1) Exclusive áreas rurais da região Norte.

(2) Inclusive as pessoas sem declaração de frequência à escola e sem declaração de curso que frequentam ou frequentaram.

Obs.: Em “Fundamental completo”, “Médio completo” e “Superior completo” encontram-se aqueles jovens que concluíram essas etapas e não prosseguiram para o nível imediatamente superior.

56

Se por lado, os números supracitados de frequência à escola elucidam a significativa expansão do acesso à Educação Básica e ao ensino superior 43 , Por outro, é possível concluir que as transformações recentes observadas no segmento juvenil – como o prolongamento de sua permanência na escola e o aumento no número daqueles que fizeram a transição para o mercado de trabalho em detrimento da escola – foram, em grande parte, responsáveis pelas discussões e defesas em prol da ampliação da faixa etária da juventude brasileira. Durante anos predominou, aqui no Brasil, a classificação etária de juventude, como sendo uma fase que correspondia dos 16 aos 24 anos de idade 44 . Essa delimitação estava em consonância, inclusive, com a definição de população jovem estabelecida pela Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), de 1985. Alguns estudiosos 45 e militantes de diferentes tendências questionavam tal classificação e defendiam a postergação da juventude até os 29 anos de idade. Os argumentos estavam centrados nas mudanças ocorridas no Brasil nos últimos anos, a exemplo das mudanças demográficas, maior expectativa de vida do brasileiro, aumento da escolaridade e o ingresso mais tardio no mercado de trabalho. Para Pochmann (2007), a classificação de juventude, até os 24 anos, se justificava em um contexto em que estudar e preparar-se para a vida profissional se caracterizava como uma condição própria da juventude. Não restam dúvidas de que houve, de fato, uma mudança no perfil demográfico da população, pois é notório que, ao longo do século XX, a expectativa de vida do brasileiro ao nascer aumentou consideravelmente. Segundo as projeções elaboradas pelo economista Pochmann (2004), é possível afirmar que, nas próximas duas décadas, a expectativa média de vida do brasileiro alcance a casa dos 80 anos, igualando-se ao que hoje se tem na maioria dos países desenvolvidos. Veja a projeção a seguir:

  • 43 É importante destacar que, embora seja assegurado na constituição brasileira o direito de todos os cidadãos ao ensino fundamental público e gratuito, ainda são significativas as porcentagens dos que interromperam os estudos antes da conclusão da escolarização básica, e persiste um contingente de jovens que nunca frequentou a escola.

  • 44 É importante destacar que, embora fosse uma tendência dos países classificarem a juventude como sendo uma fase compreendida dos 16 aos 24 anos, vários são os países que adotam outras classificações, a exemplo da Itália (14-29 anos) e Inglaterra (16-18 anos).

  • 45 Ver Pochmann (2001, 2007).

57

GRÁFICO 01

Evolução da expectativa de vida ao nascer

57 GRÁFICO 01 Evolução da expectativa de vida ao nascer Fonte: anuário estatístico do Brasil. Projeção

Fonte: anuário estatístico do Brasil. Projeção para o ano de 2030.

A partir do gráfico acima, Pochmann, em um dos seus artigos publicados em 2004, assinala que a tradicional transição da adolescência para a vida adulta, estimada em 9 anos, ou seja, dos 15 aos 24, passaria a ser cada vez mais insuficiente, uma vez que se tornara “fundamental identificar que houve o alargamento da faixa etária circunscrita à juventude para algo entre 16 e 34 anos de idade” (POCHMANN, 2004, p. 221). Ainda para este mesmo 1autor, a classificação da juventude, até os 24 anos, justificava-se em um contexto em que estudar e preparar-se para a vida profissional se caracterizava como uma condição própria da juventude. Assim, acrescentou o autor:

[

...

]

a educação passa a ser identificada cada vez mais como condição

preparatória e sequencial ao longo de toda vida, não cabe mais estabelecer a

conclusão dos estudos como algo próprio de uma fase estritamente juvenil. O ensino continuado tende a tornar-se uma realidade cada vez maior no Brasil, envolvendo pessoas de faixa etária cada vez mais elevadas. (grifo nosso) (POCHMANN, 2007, p. 56).

Assim, em pleno limiar da sociedade do conhecimento, o Brasil precisa abandonar a concepção conservadora e ultrapassada do trabalho como obrigação pela sobrevivência para reconstituir uma nova transição do sistema escolar para o mundo do trabalho. O alongamento da expectativa média de vida está a exigir um novo papel à educação, a estar presente de forma continuada ao longo do ciclo de vida. (grifo nosso) (POCHMANN, 2004, p. 397).

58

Não há dúvidas de que os argumentos usados em defesa da postergação da juventude são

legítimos. Sabe-se que, na melhor das hipóteses, a defesa pela ampliação da juventude trata-se do

reconhecimento necessário de que este momento da vida se tornou mais complexo do que no

passado, impelindo, inclusive, políticas públicas mais específicas para uma faixa etária maior.

Entretanto, vale ressaltar que o aumento por si só da faixa etária juvenil não irá solucionar

grandes problemas que a juventude brasileira vivencia, especialmente a situação do desemprego

juvenil 46 . Assim como, por mais que seja corroborado o argumento de que “estudar e qualificar-

se para o trabalho” é, em tempos de incerteza, uma condição necessária para todos, a juventude é

compreendida como um momento sine qua non de preparação/ formação para vida e inserção no

mercado de trabalho, o que o difere substancialmente de outros momentos da vida. Sendo assim,

acredita-se que a formação durante a juventude e seu prolongamento para o futuro seja um fator

preponderante das condições posteriores de inserções profissionais menos precárias e mais

estáveis, por mais que se compreenda que a juventude não se reduz, unicamente, a um período de

preparação para a vida adulta.

Entretanto, a tese de que – estamos numa sociedade do conhecimento e que a educação é

um processo ao longo da vida e, mais do que nunca, postergar a juventude é uma questão

necessária – traz, subjacente a ela, questões que parece deslocar ao trabalhador a responsabilidade

pelo seu sucesso e/ ou fracasso, contribuindo, assim, para que o desemprego deixe de ser

considerado um problema econômico e político e passe a ser concebido como um problema

59

individual, cuja gênese reside num déficit de conhecimento, ou, no léxico mais comumente

usado, de competências e empregabilidade. É possível afirmar, assim, que a “sociedade do

conhecimento” inscreve o desemprego, sobretudo do jovem que sempre esteve em condições

menos favoráveis de acesso ao trabalho, como algo reversível, propagando a ideia de que a

educação “ao longo da vida” seria um antídoto para superar a crise do desemprego estrutural e do

desmonte da sociedade salarial.

É a partir da propagação da “sociedade do conhecimento” que palavras como

competências e autogestão passam a fazer parte do léxico de todos, expressas no plano

pedagógico e cultural, em consonância com a ideologia do capitalismo flexível – nova estratégia

de intensificar a exploração do trabalho e de “corrosão do caráter”, como bem destacou Sennett

46 Esta discussão será aprofundada no terceiro capítulo desta tese.

59

(1999). Com isso, ganha força a noção de “empregabilidade” 47 , cuja essência reside na

compreensão de que a permanência no emprego ou a mobilidade dos indivíduos no mercado de

trabalho depende, sobretudo, de sua capacidade de se adaptar e (re)aprender as finalidades e os

resultados previstos pela nova metodologia proposta. Assim, mais do que nunca, o jovem deve

aglutinar polivalência, policognição, formação abstrata, formação flexível, traços culturais,

valores e atitudes de integração, de cooperação, empatia, criatividade, liderança, capacidade de

decisão, responsabilidade e capacidade de trabalhar em equipe.

Dessa forma, a discussão em defesa da postergação da juventude ainda é uma questão que

necessita melhor aprofundamento, uma vez que os argumentos construídos não só deixam claras

as marcas ideológicas de um processo hegemônico, como também apresentam lacunas ainda não

superadas até o momento presente, sendo, portanto, um campo de disputa que ainda necessita de

maior consistência teórica.

Contudo, apesar das evidencias ideológicas que circunscrevem o debate em torno da

postergação da juventude no Brasil e da complexidade que envolve a questão, em 2005, passa a

ser considerado jovem o cidadão ou cidadã com idade entre 15 e 29 anos, conforme Lei 11.129

de 30/05/2005 e as diretrizes contidas do Plano Nacional da Juventude da Câmara Legislativa

Federal e do Conselho Nacional de Juventude (CONSELHO, 2006), sendo este o recorte etário

que vai operar os programas de juventude, considerado, por alguns estudiosos da temática, umas

das principais alterações das políticas anteriores para a política atual – o ProJovem.

Ainda que no início desta pesquisa a juventude tenha sido compreendida dos 15 aos 24

anos, assim como as políticas/ ações fossem construídas a partir desse intervalo de tempo, para

efeito deste estudo, a juventude será compreendida, numa perspectiva etária, como sendo um

período que se estende até os 29 anos idade. A adoção desse limite etário se justifica não só por

uma adesão ao marco legal, mas, sobretudo, por acreditar que as análises de dados quantitativos

coletados (até os 29 anos), conjuntamente com as trajetórias investigadas, possam contribuir para

desvelar a real juventude brasileira. Por mais ampliação etária que se faça, só reitera, ainda mais

que juventude de nosso país é, sobretudo, trabalhadora.

  • 47 Conceito cunhado e difundido pelos organismos internacionais para expressar as novas exigências feitas aos trabalhadores frente à nova lógica da concorrência.

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1.3 DE QUE JUVENTUDE TRABALHADORA ESTÁ FALANDO?

Se por um lado a juventude deixa de ser compreendida como uma mera etapa de

transição, por outro, verifica-se (ainda) uma tensão entre as possibilidades de defini-la, seja entre

os discursos normativos/ legais que orientam as políticas públicas para o segmento, seja entre as

áreas do conhecimento que têm a juventude e a adolescência como objeto de estudo. Por mais

similitudes, diferenças e singularidades que apresentem estas duas categorias – distintas e

complementares, o foco deste trabalho estará voltado para compreensão sociológica da juventude,

muito embora se atribua para efeito da análise dos dados quantitativos (PNAD e PED) a

denominação jovem adolescência, dos 15-19 anos, como sendo um momento inicial do ciclo da

juventude.

No Brasil, a temática da adolescência surge com a volta ao regime democrático na década

de 1980, um período de inúmeras discussões pautadas pela necessidade de garantir direitos, ao

tempo em que se vivenciava um período de crise econômica e aumento da pobreza. O interesse

pelo tema é fruto de um importante movimento, em defesa dos direitos da infância e

adolescência, que ganhou corpo na sociedade brasileira e fez emergir uma nova noção social,

pautada na ideia da adolescência como fase importante da vida, que exige atenção e proteção

especiais. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), legislação resultante desta luta, avança

profundamente a compreensão sobre crianças e adolescentes, como sujeitos de direitos; sendo a

adolescência compreendida como a faixa etária que vai dos 12 aos 18 anos de idade, quando

então se atinge a maioridade legal. Esse documento torna-se uma referência no campo legal e tem

influenciado programas com base na doutrina da proteção integral aos adolescentes em conflito

com a lei em contraposição ao arcabouço jurídico anterior que tratava esta situação como o

menor em situação irregular.

Contudo, o termo juventude, assim como os jovens com mais de 18 anos, ficou à parte

deste olhar específico e da atenção social. Somente nos anos 1990, a juventude passa a ser alvo

de maior preocupação e debate político, fruto de uma série de problemas vividos ou

protagonizados pelos jovens, basicamente relacionados ao problema do desemprego, ao aumento

da violência e às dificuldades de inserção e integração social, numa conjuntura marcada por

transformações e mudanças na economia, no mundo do trabalho e nas relações sociais. Mesmo

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com todos esses problemas, diferente do que aconteceu com a adolescência, não se constrói uma