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PROUT: a Teoria da Utilização Progressiva

“Para a felicidade e o bem-estar geral de todos”

Sumário

por Mahesh 1

2008-2011

Florianópolis - SC

 

Resumo

2

Contexto

2

P

A R T E 1 : PROUT, Neo-humanismo e Sócio-economia proutista

3

Introdução

3

Teoria do ciclo social e uma sociedade para o bem-estar de todos

3

Desenvolvimento humano integral

6

Sadvipras e síntese social

7

Cooperação coordenada e cooperação subordinada

8

Princípio da igualdade social e Fraternidade cósmica

9

Herança cósmica e os princípios sócio-econômicos de PROUT

10

Democracia econômica e descentralização econômica

11

Planejamento de área

11

Unidades mestras

12

Descentralização da economia

12

Unidades sócio-econômicas e autosuficiência econômica

12

Alguns conceitos adicionais de sócio-economia proutista

13

Sistema econômico em três níveis

13

Economia Equilibrada

13

P

A R T E

2 : Projetos sócio-econômicos de inspiração proutista na área de

Florianópolis

15

Cooperativa na UFSC, Projeto Ágora (Compras Coletivas e Feira da UFSC)

15

Histórico ( I ): Cooperativa da UFSC e início das Compras Coletivas

15

Funcionamento das compras coletivas

15

Histórico ( II ): Feira da UFSC

16

PROUT e economia solidária

16

Dinamismo: uma tentativa de aplicação prática

16

Histórico ( III ): Feira da UFSC e Projeto Ágora

17

Desenvolvimentos diversos / embrião da Rede de Economia Local

18

Rede de Economia Local, Compras Coletivas: Horizontes e Características

18

Aspectos que diferenciam as compras coletivas de uma empresa distribuidora de produtos ordinária . 20

21

REFERÊNCIAS

1 Engenheiro mecânico. Coordenador do Grupo de Estudos e Práticas de PROUT e Neo-humanismo (GEPRONEO), colaborador do NESOL (Núcleo de Estudos e Práticas em Socioeconomia Solidária) – UFSC.

1

Resumo

Este artigo é dividido em duas partes:

Parte 1: PROUT, Neo-humanismo e Sócio-economia proutista. Parte 2: Projetos sócio-econômicos de inspiração proutista na área de Florianópolis.

A Parte 1 é uma rápida introdução a PROUT, Neo-humanismo e Sócio-economia proutista. Assim, o

artigo primeiro introduz a teoria PROUT e situa-a em relação aos dois tipos principais de teorias existentes, conforme a classificação de P. R. Sarkar. Depois introduz a teoria dos ciclos sociais, uma parte

essencial de PROUT, e apresenta o tipo de personalidade caracterizado como sadvipra. Menciona a estagnação do ciclo social como causa básica da exploração social, e explica a importância do dinamismo com uma conclusão derivada da prática, pelo exemplo das cooperativas e empreendimentos de economia solidária. Aborda os conceitos de cooperação coordenada em contraposição à coordenação subordinada, o princípio do prazer egoísta em contraposição ao princípio da igualdade social, o conceito de fraternidade cósmica em relação à filosofia do Neo-humanismo e, decorrente deste, o conceito de herança cósmica. São então enumerados e brevemente explicados os 4 princípios sócio-econômicos de PROUT. Aborda-se depois o conceito de democracia econômica, e o embasamento desta na descentralização econômica, e desta por sua vez no planejamento de área. Menciona-se o objetivo de auto-suficiência econômica de regiões sócio-econômicas, e alguns pontos relativos a isto. Depois introduz-se a estruturação da economia proutista em três níveis principais, com ênfase nas cooperativas e redes de cooperativas, e explica-se o conceito de economia equilibrada.

A Parte 2 é uma introdução a Projetos sócio-econômicos de inspiração proutista na área de Florianópolis,

Brasil. Esses projetos de pequena escala são: uma cooperativa informal de consumidores e uma feira situada dentro de uma universidade federal, com destaque para produtos agroecológicos e economia solidária, além do projeto emergente de uma rede de economia local. Apresenta-se um histórico desses projetos e explica-se o modo básico de funcionamento dos mesmos. Também fala-se um pouco da relação destes projetos com outros semelhantes e das perspectivas de evolução dos mesmos.

Contexto

A versão inicial da primeira parte deste artigo foi escrita em 2008 com intenção de compôr um artigo

maior, submetido e apresentado por um dos dois outros autores no Fórum de Tecnologias Sociais em Brasília, 2009, sob o título de “Consumidores e produtores tecendo novas redes de sustentabilidade: os desafios de uma experiência de extensão universitária em Florianópolis”.

A presente versão deste artigo foi elaborada com vistas à realização de um seminário interno promovido

em Junho de 2011 pelo grupo da Rede de Ecologia Urbana, integrante do NMD (Núcleo Transdisciplinar de Meio-ambiente e Desenvolvimento) – UFSC.

2

. P A R T E

1 : PROUT, Neo-humanismo e Sócio-economia proutista .

Introdução

PROUT significa Teoria da Utilização Progressiva, acrônimo de PROgressive Utilization Theory, em inglês. Foi criada e elaborada por Prabhat Rainjan Sarkar. As primeiras exposições literárias de vários aspectos de PROUT foram feitas através dos livros A Sociedade Humana [Sarkar, 1999], que apareceu em duas partes (Mánuśer Samája 1, 1959, e Mánuśer Samája 2, 1963), e Idéia e Ideologia [Sarkar, 2008. Cap. 10 e 11], em 1959.

P. R. Sarkar discriminou entre dois tipos de teoria (tattva, em sânscrito 2 ): (1) saeddhantik tattva e (2) prayogbhaumik tattva. O primeiro tipo é baseado em hipóteses, inferências estreitas, generalização indevida, e falácias, e é desligado da observação prática. A questão de aplicação prática desse tipo de teoria é posterior à sua criação, e portanto uma tal teoria pode tanto conseguir ser materializada quanto não. O segundo tipo está baseado no teste pragmático cotidiano, e em sólidos fundamentos lógicos e científicos. Ou seja, seus processos e fenômenos estão baseados em condições objetivas, e em fenômenos históricos. Em outras palavras, a prática precede a teoria. Sua aplicabilidade é universal e além de dúvidas, e pode ser feita com relativamente pouco esforço. [Nirmalananda, 1972]

PROUT originou-se do estudo objetivo da história humana - e não apenas das condições objetivas prevalescentes em certas épocas e lugares, posteriormente generalizadas. Está baseada em uma abordagem sintética da sociedade humana, ao mesmo tempo reconhecendo sua diversidade. [Nirmalananda, 1972] Fundamenta-se também na observação e entendimento aprofundados das potencialidades e realizações humanas nas três esferas da existência: física, mental e espiritual.

Teoria do ciclo social e uma sociedade para o bem-estar de todos

Dos 16 princípios de PROUT [Ánandamúrti, 2007], a primeira parte dos mesmos expressa a lei dinâmica da sociedade humana, ou teoria do ciclo social, referente a certos padrões básicos que Sarkar identificou na evolução sócio-psíquica da humanidade como um todo, e que também podem ser verificados em coletivos humanos de qualquer dimensão. Essa teoria do ciclo social distingue quatro tipos básicos de mentalidade humana, que ao longo da história desenvolveram-se e sucedem-se ciclicamente na forma de psicologias coletivas dominantes. São elas as mentalidades de (com os respectivos termos conceituais em sânscrito, entre parênteses):

“trabalhador braçal” (shúdra); “guerreiro” (ksáttriya); “intelectual” (vipra); e “aquisidor” (vaeshya). 3 O termo conceitual para designar cada um desses padrões mentais é varna, em sânscrito, significando literalmente “cor” – mas como refere-se basicamente à psicologia humana, figurativamente denota “cor mental”.

“Um exame da história revela que o sistema social das quatro varnas existiu por todo o mundo, e que ele continuou, e ainda está continuando, de acordo com um tipo especial de evolução periférica do ciclo social.” [Sarkar, 1999. p. 176] [tradução minha]

Em outras palavras, sempre há o domínio de uma dessas quatro mentalidades (ou varnas) em cada sociedade ou grupo social, e a mentalidade dominante em certa época influencia a psicologia coletiva da sociedade. [Sarkar, 2008. Cap. 10] O ciclo social apresenta um sentido preferencial ou principal de movimento, mas há a possibilidade de eventuais retrocessos, ou movimentos no sentido contrário, de duração relativamente curta. [Ánandamúrti, 2007] O economista Ravi Batra fez uma análise detalhada da

2 Tattva também pode significar “princípio”, conforme o contexto.

3 Segundo Ánandamúrti, o reconhecimento de três das varnas – com exceção da varna shúdra – foi uma contribuição da antiga civilização védica-ariana ainda antes de sua entrada na Índia. Entretanto, esse significativo conhecimento foi aplicado de forma distorcida como base para a constituição da estrutura de castas naquela antiga civilização védica-ariana. O reconhecimento da quarta varna surgiu quando o povo ariano entrou em contato belicoso com os povos nativos da região da atual Índia, ocupando a região por força militar e integrando os prisioneiros dessa conquista como escravos, que então formaram a casta mais baixa da sociedade védica: os shúdras. [Ánandamúrti, 1959.]

3

história e evolução da civilização ocidental – e de mais outras duas civilizações – com o enfoque da teoria dos ciclos sociais, na referência [Batra, 1990].

da teoria dos ciclos sociais, na referência [Batra, 1990]. Figura 1: Representação do ciclo social indicando

Figura 1: Representação do ciclo social indicando o seu sentido natural de movimento e a sequência cíclica de sucessão das mentalidades básicas (varnas).

Quando há movimento no ciclo social, passando-se de uma mentalidade dominante para a seguinte, o coletivo em questão experimenta um período de expansão, ou dinamismo, trazendo novas formas de expressão, novos desenvolvimentos sociais. Basicamente de acordo com a intensidade do esforço interno ou das influências externas sobre o ciclo, o seu movimento pode ser classificado como evolução ou revolução (em ordem crescente de intensidade) quando o movimento é no sentido natural do ciclo, e como contraevolução e contrarevolução quando é no sentido reverso. Uma rotação completa do ciclo social é denominada de evolução periférica. A causa principal da exploração na sociedade é a estagnação da psicologia coletiva em uma mentalidade dominante, ou seja, quando há um retardamento do movimento do ciclo social. [Sarkar,

1999]

Comumente os seres humanos limitam-se ou especializam-se em apenas alguma dessas mentalidades básicas, apesar de todas as varnas encontrarem-se em forma latente, ou como potencialidade, em cada indivíduo. Cada uma das varnas pode ser expressada em inúmeras formas e atividades, mas cada uma possui certas características. Por exemplo: a concentração individual de influência sobre a psicologia coletiva é máxima quando a mentalidade “guerreira” está dominando a vida coletiva, e é mínima no período de domínio da mentalidade de “trabalhador braçal”. Isto equivale a dizer que pessoas nas quais predomina a mentalidade shúdra têm um mínimo de capacidade de exercer liderança sobre outras pessoas. No período em que há o domínio da mentalidade aquisidora sobre a sociedade, o controle do poder econômico (o mais importante nesse período) é bastante concentrado em pequeno número de indivíduos ou grupos, mas por outro lado é difuso no sentido de que as pessoas em geral podem não conseguir perceber facilmente quem são os líderes efetivos da sociedade e de que formas controlam o coletivo. Por exemplo atualmente, na maior parte do mundo, temos o domínio do sistema sócio-econômico capitalista – significando que pessoas de mentalidade predominantemente aquisidora (vaeshyas) controlam a sociedade em geral, e a economia em particular. A influência dessas pessoas até mesmo sobre líderes políticos máximos ou os governos de nações podem não ser facilmente perceptíveis e rastreáveis. É próprio desse tipo de mentalidade operar “por trás das cortinas”, exercendo algum tipo de manipulação das lideranças nominais, manipulando a opinião pública através dos meios de comunicação em massa e comprando os votos das pessoas. A democracia política é um sistema de governo propício aos capitalistas, porque nesse sistema político as pessoas comuns são levadas a achar que exercem controle sobre o destino dos seus países ao elegerem suas lideranças políticas. Ou como diz nossa Carta Magna:

“Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente ” [Constituição, 1988. Art. 1 o , V, § único] Suas consciências podem começar a livrar-se dessa ilusão quando começam a sentir que não faz sentido votar, pois essencialmente nada muda. Sarkar apontou que a democracia política com centralização econômica é simplesmente uma farsa – isto é, se não há democracia econômica e as pessoas não têm garantidas suas necessidades básicas. E assim exortou as pessoas a usarem o lema: “Nós exigimos a democracia econômica, e não a democracia política." [Sarkar, 2009. Cap. 22]

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Como dito há pouco, o mais comum é que os indivíduos especializem-se em uma única varna ao longo de suas vidas, deixando as demais subdesenvolvidas. Como um efeito colateral disso, pode-se ter uma dificuldade de empatia entre as pessoas, especialmente quando suas mentes são dominadas por varnas diferentes. Mencionemos a título de ilustração uma pesquisa feita [Costa, 2002] que tratou de um fenômeno muito difundido na sociedade, a que se chamou de “invisibilidade pública”: como parte de sua pesquisa, um estudante universitário trabalhou como funcionário de limpeza pública (gari) por 6 anos, em tempo parcial, no campus universitário e inclusive no próprio departamento de psicologia a que estava vinculado por sua pesquisa. E assim constatou empiricamente, em primeira pessoa, um certo distanciamento psíquico contundente entre pessoas, a saber: os garis (ou seja, trabalhadores braçais) eram sistematicamente ignorados pelas demais pessoas; ocasionando que mantivessem um tipo de comportamento de defesa em reação a essa “invisibilidade”; e, enfim, deixando ambos os grupos de tratarem-se propriamente como seres humanos. Vários podem ser os fatores para essa “invisibilidade pública” dos garis por parte das demais pessoas em geral, tais como: diferenças de ocupação profissional, de status social, de grau de afluência material etc. Poderia-se destacar que é corriqueiro ver-se as ocupações profissionais das pessoas acabarem moldando fortemente suas ocupações mentais e, portanto, também as suas afinidades sociais e o convívio mais restrito ou mais intenso com um grupo de pessoas com ocupações mentais semelhantes. 4 Numa rápida análise, podemos concluir que o fenômeno de invisibilidade pública tal como observado nessa pesquisa dizia respeito basicamente à ocupação profissional dos garis, sem poder ser generalizada para outras ocupações que se enquadram na varna de “trabalhadores braçais”. E inclusive o fenômeno era abrandado no caso de garis que não estivessem vestindo uniforme de trabalho, de modo que uma sugestão do autor para mitigar-se esse problema de discriminação seria a dispensa do uniforme. Já com relação aos “trabalhadores braçais” enquanto varna, é muito comum, por exemplo, os trabalhadores braçais não receberem reconhecimento social sincero por suas contribuições à coletividade – ou, tal como evidenciado na pesquisa citada, nem mesmo um simples cumprimento, que dirá cordial.

“Existem dezenas de milhões de pessoas no mundo que vivem apenas para o desfrute físico. [ ]

Essas são os shúdras. Elas vivem e morrem despercebidas, e despercebidas elas carregam o fardo

Ainda que elas vivam no mundo, elas são incapazes de deixar qualquer rastro

das suas vidas. [

no coração do mundo.” [Sarkar, 1999. p. 167] [tradução minha]

]

shúdras permanecem incógnitos, porque ainda que as suas contribuições sejam registradas

nas páginas do tempo, eles não causam impacto nas mentes das pessoas.” [Sarkar, 1999. p. 214] [tradução minha]

Em contraste com isso que se pode considerar como uma situação de negligência geral com os seres humanos mais comuns, Sarkar indica que:

“[

]

“Construir alguma coisa baseada no humanismo significa construir algo com base no amor real pela humanidade. Não é possível construir uma sociedade genuína – uma que seja verdadeiramente dedicada ao bem-estar coletivo – se os seus membros mais inteligentes e ativos, ou aqueles que são mais desenvolvidos que as pessoas comuns, constantemente avaliarem as suas contribuições à sociedade em termos de lucros e perdas. Quando o amor pela humanidade é o foco principal, a questão de perda ou ganho individual torna-se secundária. […] Em uma sociedade saudável, na qual o único elemento de ligação é amor genuíno, como poderão a coerção ou a compulsão legal conseguir manifestar esse amor, a verdadeira expressão da sociedade?” [Sarkar, 1999. pp. 59-60] [tradução minha] [grifo meu]

Podemos dizer que o desenvolvimento desse amor leva uma pessoa a sentir profunda empatia pelas demais pessoas, ficando triste com as suas dores e alegrando-se com as suas alegrias; leva-a também a pensar no bem-estar das demais, e a buscar determinadamente e metodicamente como promovê-lo. É

4 Nas palavras de Sarkar [1999. p. 111] [tradução minha]:

“Requer-se muito pouco pensamento para entender que as diferentes ocupações criam divisões entre os seres humanos. Como resultado, as pessoas que carecem de ideais elevados usualmente formam grupos. A razão psicológica é que os sentimentos das pessoas são moldados pela natureza das suas ocupações. E esses sentimentos, juntamente com a natureza idêntica das ocupações mentais das pessoas, encorajam a formação de grupos. Não importa quão intenso seja o ciúme ou rivalidade profissionais, um advogado irá procurar pela companhia de outro advogado, um soldado a de outro soldado, um doutor a de outro doutor e um renunciante a de outro renunciante.”

5

algo muito diferente de um amor romântico ou de um mero sentimentalismo. Portanto, trata-se em essência de algo que precisa ser firmemente cultivado em contato com os aspectos práticos da dura realidade humana. Mais adiante voltaremos a tocar neste assunto, quando falarmos da atuação de sadvipras. (Veja-se principalmente a seção após a seguinte.)

Desenvolvimento humano integral

Entretanto, é importante neste ponto destacar claramente a visão de Sarkar a respeito dos seres humanos que subjaz a teoria PROUT: Sarkar entende que os seres humanos são seres físico-psíquico- espirituais. Porém, apesar de todos em geral serem bem desenvolvidos fisicamente e de terem mentes

relativamente bastante desenvolvidas em relação aos demais seres (em particular os animais), suas mentes ainda são pouco desenvolvidas ou expandidas em relação ao potencial que têm para isso. E sem essa expansão mental – que gradualmente possa livrá-los de tendências egoístas, divisivas; de sentimentos

e de

dogmas (formas diversas de rigidez mental) – o desenvolvimento espiritual permanecerá como algo tal qual uma luz no fim do túnel, ou como uma potencialidade ignorada ou rejeitada talvez com base em medo ou pré-concepções intelectuais.

Segundo Sarkar, os seres humanos possuem uma estrutura físico-psíquica humana e uma natureza animal plenamente desenvolvida. Entretanto, em geral resta-lhes ainda desenvolverem apropriadamente as suas qualidades e potencialidades, efetivamente tornando-os seres humanos em uma estrutura humana:

“Quando a animalidade termina, a humanidade começa; e onde a humanidade termina, a divindade começa. O ponto de encontro entre a mais elevada realização humana e o desabrochar da divindade é a base sobre a qual os princípios [ou valores] humanos cardinais estão estabelecidos.” [Sarkar, 2010a] [tradução minha]

Sarkar dizia que “os seres humanos são crianças divinas”. [2008. p.165] Aqui, divindade é sinônimo de espiritualidade, ou de uma consciência claramente refletida, e os valores humanos cardinais podem ser expressos como uma ética ou moralidade universal fundamentada na própria natureza humana. 5 Para Sarkar [2010b. Cap. 1: “Moral”], a moralidade assim concebida constitui o ponto de partida essencial para o desenvolvimento humano individual e coletivo, e guia esse desenvolvimento até o seu ponto culminante, ou meta da vida humana. E explica: “Espiritualidade não é um ideal utópico, mas sim uma filosofia prática, que pode ser aplicada e realizada na vida cotidiana, mesmo quando a pessoa está lidando com assuntos mundanos. A espiritualidade promove a evolução e a elevação e não as atitudes supersticiosas ou pessimistas.” [Sarkar, 2008. p. 89] [grifo meu] Portanto, dito em outras palavras: “Moralidade é a base, sádhaná [práticas espirituais] é o caminho e vida divina é a meta”. [Sarkar, 2001. p. 167] Leonardo Boff fala assim, resumidamente, sobre a natureza humana e seu desenvolvimento (em conexão com PROUT):

“Em cada pessoa atuam três dimensões: o físico, o mental e o espiritual. As três têm que ser

desenvolvidas articuladamente, caso contrário, ou não há desenvolvimento ou o desenvolvimento produz injustiças e muitas vítimas. O método PROUT foi pensado exatamente para criar o

e com harmonia. O resultado é o bem-estar e a felicidade de

estreitos; de complexos mentais dos mais diversos (inferioridade, superioridade, medo, culpa

);

desenvolvimento com equilíbrio [ todos.” [Sarkar, 2009. p.7]

]

Em contraste com isso, vemos por exemplo o atual sistema capitalista globalizado fomentando o individualismo, a competição, o consumismo etc. nos mais diversos setores da sociedade: economia, educação, artes e meios de comunicação de massa, política e assim por diante. Ou seja: estimulam-se os instintos animais dos seres humanos, tendendo a fazer as pessoas comportarem-se como animais, e não propriamente como humanos. Cria-se escassez artificial em relação a artigos de necessidade básica, mantêm-se um sistema econômico vinculado a desemprego estrutural, e assim a maioria das pessoas passa boa parte ou a quase totalidade de seu tempo preocupando-se com a sua sobrevivência ou sua segurança material – ou seja, ocupando-se em pensamentos relacionados aos seus instintos básicos, a

5 Veja-se sobre isto: ANANDAMURTI, Shrii Shrii. Um Guia para a Conduta Humana. São Paulo: Ananda Marga Publicações, 2001 (1977). 4 a ed.

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saber: alimentar-se, descansar, proteger-se e reproduzir-se. E mesmo as pessoas com segurança material muitas vezes não conseguem elevar-se além dos prazeres sensoriais ou de uma vida luxuriosa. Portanto, é basicamente de pessoas que tenham alguma compreensão clara desse sistema de exploração, e que estejam descontentes com o mesmo, que se depende para efetuar mudanças positivas na sociedade. Essas pessoas também deverão preparar-se pessoalmente para essa tarefa, estabelecendo-se nos valores humanos essenciais, e formando uma visão clara da transformação a ser feita – ou seja:

devem também poder contar com uma teoria apropriada. O desenvolvimento espiritual tem uma importância fundamental nessa tarefa. Como nos lembra Sarkar:

“Deve-se ter em mente que nenhuma teoria jamais trará a salvação às pessoas. Na verdade, é a força interior obtida através de práticas espirituais 6 que ajuda a expandir a mente individual. A tremenda força adquirida com práticas espirituais ajuda a cruzar a distância entre as duras realidades da existência humana e a meta suprema da vida humana.” [Sarkar, 1999. pp. 62-63] [tradução minha]

Ainda com relação à distância entre teoria e prática, e novamente sobre a importância do amor, o médico Bernie Siegel aponta para algo semelhante no campo da medicina clínica:

“Se eu dissesse a meus pacientes que aumentassem os seus níveis de imunoglobulinas ou de células T citotóxicas, nenhum saberia como. Mas se consigo ensiná-los a amarem a si mesmos e aos outros plenamente, as mesmas mudanças acontecem automaticamente. A verdade é que o amor cura.” [Siegel, 1986. p. 181] [tradução minha] [grifo meu]

Sadvipras e síntese social

Apesar de comparativamente menos frequente ou até mesmo rara, pode-se observar na história humana a ocorrência de indivíduos que desenvolveram-se em duas, três ou até nas quatro varnas. O desenvolvimento e aproveitamento desse potencial humano é ressaltado na teoria PROUT como um ponto-chave para o bem-estar geral, e em especial através do lugar central que ocupam na dinâmica do ciclo social as pessoas qualificadas como sadvipras. 7 [Sarkar, 2008. Cap. 10: “Posição dos Sadvipras no Ciclo Social (Samaja Cakra)”] Como dito anteriormente, o domínio de uma varna sobre a psicologia coletiva por tempo muito prolongado implica, por um lado, na má utilização ou subdesenvolvimento de certos recursos e potencialidades, e por outro, na exploração ou uso abusivo de outros. Consequentemente, tem-se a necessidade de manter um dinamismo ou movimento no ciclo social para que as correspondentes mudanças na psicologia coletiva propiciem uma melhor utilização e desenvolvimento de recursos e potencialidades das pessoas, individualmente e coletivamente, e do seu ambiente. Indivíduos possuem um papel fundamental em promover e catalisar esse movimento – mas, para isso, eles devem apresentar certas características. Portanto, a aceleração do movimento do ciclo social requer, em nível individual, a formação de personalidades integradas que idealmente apresentam um desenvolvimento dinamicamente equilibrado de todas as varnas, com expressões no campo da ação que estão otimamente ajustadas às circunstâncias. Pessoas que apresentam-se com esse dinamismo interno, ou que estão desenvolvendo-no, podem ser qualificadas como sadvipras, ou como aspirantes a tal. Fazendo-se uma analogia, e lembrando que varna tem o sentido de “cor mental”, é como um disco multicolorido com as sete cores do arco-íris, que, quando girado rapidamente, parece ser de cor branca. (Ou seja, um processo de síntese, sendo que o processo

6 Pode ser necessário esclarecer que práticas espirituais não são sinônimo de práticas religiosas, assim como a espiritualidade não é sinônimo de nenhuma religião. Segundo a visão de PROUT, a expansão mental e o desenvolvimento espiritual são potencialidades inerentes a todos os seres humanos, independentemente de qualquer circunstância individual ou social – como por exemplo afiliação religiosa (ou ausência dela), gênero ou qualquer outra circunstância ou condicionante da vida humana. Pode-se consultar por exemplo o seguinte artigo a respeito da espiritualidade não-dogmática de que PROUT trata:

[Maheshvarananda; Branch, 2009].

7 Segundo Sarkar [1999. p. 273] [tradução minha], o significado da palavra sadvipra é “uma pessoa que é moralista, espiritualista e que luta contra a imoralidade.”

7

inverso, de análise ou decomposição da luz branca, pode ser visto por exemplo quando a luz branca passa por um prisma.) Sadvipras são apontados como o modelo de liderança ideal para a formação de uma sociedade coesa, dinâmica e orientada para o bem-estar de todos. O efeito da sua atuação na sociedade é a tendência de que todas as pessoas recebam uma posição digna na sociedade e oportunidades para desenvolverem-se integralmente. Vemos como conseqüência disto que PROUT opõe-se por princípio ao sistema de castas, em qualquer forma. 8 Normalmente, sadvipras originam-se dentre as pessoas insatisfeitas com a exploração existente na sociedade (chamadas vikshubdha shúdras). A existência e atuação de sadvipras na sociedade cria pressão adicional para que o ciclo social avance, ajudando a sociedade a sair de um eventual período prolongado de estagnação e exploração social. [Sarkar, 1999] Sadvipras apresentam mentes essencialmente transdisciplinares 9 , pois reconhecem a unidade fundamental subjacente a todos os objetos e processos, e inspiram-se nela. 10 Essa inspiração torna mais fácil a aceitação e ajuste às diversidades do mundo objetivo. Em especial, tais pessoas promoverão a união da humanidade enfatizando os pontos comuns entre as pessoas, sem deixar de reconhecer e de lidar apropriadamente com as suas diferenças. As ações de um ou de uma sadvipra são inspiradas no ideal de bem-estar de todos os seres (do qual se falará na seção após a seguinte) e, em um estágio mais avançado, no sentimento de amor universal, ou amor por todos os seres. [Sarkar, 1999; 2001]

Cooperação coordenada e cooperação subordinada

A manutenção do dinamismo no ciclo social é um processo relevante e aplicável também em pequena escala social. Dando agora maior atenção ao campo da economia, tomemos por exemplo o caso particular dos chamados empreendimentos solidários que funcionam coletivamente. Nestes, tipicamente há algum sistema de resolução de problemas e tomadas de decisões por autogestão. 11 Assembléias gerais dos membros são a instância decisória máxima, podendo definir os membros que ocupam cargos de administração, e estipulando as diretrizes administrativas. [Singer, 2001] O rodízio dos membros nesses cargos pode ser desejável por vários motivos, dentre os quais: evitar a acomodação de membros em cargos administrativos e também de membros que não assumem tais cargos; e delegar responsabilidades a outros membros, incentivando o aprendizado e exercício de novas funções. A manutenção do dinamismo interno desses empreendimentos pode ser realizada também de outras formas. Em seu livro Após o Capitalismo, Dada Maheshvarananda explica que: “A experiência tem mostrado a importância de ensinar aos trabalhadores de cooperativas um comportamento ético para que eles possam participar da administração. As cooperativas mais bem-sucedidas são aquelas em que os administradores são também treinadores, capazes de despertar nos trabalhadores uma compreensão do

8 Segundo Sarkar [1999], o uso distorcido da divisão das quatro varnas para servir como base para uma sociedade rigidamente hierarquizada em castas transmitidas hereditariamente foi um ato da mentalidade vipra (intelectual) exploradora, querendo perpetuar seus privilégios. Vide também a nota 2.

9 A referência a disciplinas é num sentido amplo de atividade intelectual, e não em sentido limitado de disciplinas acadêmicas. Além disso, o intelecto pode ser entendido como apenas uma das camadas da mente, a qual engloba ainda outras camadas – relacionadas com a percepção sensorial, a criatividade, a intuição etc.

10 Esse aspecto característico de sadvipras está relacionado com o desenvolvimento dos potenciais psíquico e espiritual dos seres humanos, dos quais se trata especialmente em uma terceira parte dos princípios de PROUT: os seus princípios fundamentais.

11 No caso de empreendimentos solidários individuais, por definição não surge a questão se a organização é por autogestão (isto é, quando as principais decisões referentes ao empreendimento partem do coletivo) ou por heterogestão (as principais decisões partem de poucos indivíduos situados no topo da hierarquia interna). Neste caso, o adjetivo “solidário” qualifica a forma de relacionamento do indivíduo (através de seu empreendimento) com o seu entorno e com as demais pessoas e grupos. Ou seja, a solidariedade de um empreendimento pode-se referir tanto às relações internas quanto às externas ao mesmo. Por exemplo, o sexto e sétimo princípios do cooperativismo, claramente enfatizam uma solidariedade externa:

“6. Cooperação entre cooperativas – As cooperativas atendem seus sócios mais efetivamente e fortalecem o movimento cooperativo trabalhando juntas através de estruturas locais, nacionais, regionais e internacionais. 7. Preocupação com a comunidade – As cooperativas trabalham pelo desenvolvimento sustentável de suas comunidades, através de políticas aprovadas por seus membros.” [http://www.ica.coop/coop/principles.html. Acessado: 28 maio 2011] [tradução minha]

8

sistema de cooperativas e como ele funciona.” [Maheshvarananda, 2003. p. 121] (Note-se que as cooperativas aqui não se limitam nem são idênticas com o que é estabelecido na legislação brasileira a respeito.) É importante destacar que dentro de PROUT, as cooperativas em particular, e as atividades sociais em geral, são organizadas conforme o espírito da cooperação coordenada [Sarkar, 2009. Cap. 15, seção “Cooperação Coordenada”], ou seja, visando o desenvolvimento equilibrado de todos os seres, reconhecendo-se as suas diferenças e valorizando-se as potencialidades plenas de cada qual. Em contraste, a cooperação subordinada [idem] caracteriza-se pela acentuação ou criação de diferenças entre as pessoas ou entre os seres em geral, podendo levar à inferiorização de uns em relação a outros, supressão, opressão, exploração e mesmo criação de fissuras e divisões sociais. Tal forma de relacionamento entre os seres é típica, por exemplo, dos empreendimentos do sistema capitalista, por estarem baseados no princípio do prazer egoísta (atma shukha tattva) [Sarkar, 2001. Parte 1, cap. 6], o qual manifesta-se em tal sistema na forma de busca pelo lucro ou acumulação de riqueza acima de tudo. Ou seja, neste caso em particular: através da exacerbação ou estagnação na mentalidade aquisidora, em sua variante “capitalista”. Tal princípio pode assumir outras formas conforme a mentalidade ou varna motivada por ele.

Princípio da igualdade social e Fraternidade cósmica

PROUT, por outro lado, está fundamentado no princípio da igualdade social (sama samaj tattva), que visa o bem-estar de todos os seres, tanto humanos quanto não-humanos. Tal fundamentação é melhor elaborada dentro da filosofia do Neo-humanismo, criada também por P. R. Sarkar [2001]. (O antes mencionado amor por todos os seres, ou amor universal, também é aqui denominado de sentimento neo- humanista.) Um dos 16 princípios de PROUT estabelece que “A diferença, e não a igualdade, é a lei da natureza.” [Ánandamúrti, 2007] A referida igualdade social refere-se ao reconhecimento do valor existencial, e não meramente utilitário, de todos os seres, sejam animados ou inanimados. Todos os seres possuem uma mesma origem comum, uma mesma essência e um mesmo ponto culminante de suas existências. Isto é caracterizado dentro do Neo-humanismo como sendo a fraternidade cósmica – ou seja, todos os seres são irmãos e irmãs nesta mesma jornada cósmica ou evolução deste universo. [Sarkar, 2008. Cap. 11] De forma semelhante, Sarkar declara que a sociedade humana é una e indivisível, exortando assim todas as pessoas a sobrepujarem as tendências divisivas que criam divisões artificiais entre os seres humanos, e reconhecendo que todos os seres humanos possuem essencialmente uma mesma natureza. Um dos elementos dessa natureza 12 manifesta-se crescentemente com o desenvolvimento humano e impulsiona a tendência dos seres humanos unirem-se: trata-se do serviço (altruísta) aos demais seres – ou seja, a prática de ações que visam o bem-estar dos outros, sem que haja em tais ações qualquer motivação de obter benefício próprio em retorno. 13 Essa disposição naturalmente relaciona-se à capacidade de abrir- se mão dos próprios confortos e a assumir riscos pessoais em favor dos outros – o que Sarkar denomina de “sacrifício”. O zelo revolucionário de um ou uma sadvipra – ou seja, o seu esforço para criar e impulsionar movimentos contra a injustiça e a exploração, e para acelerar o movimento do ciclo social – depende desse altruísmo, mas também de um grau elevado de auto-desenvolvimento. Isto é precisa haver uma combinação apropriada ou equilíbrio dinâmico do que Sarkar chama de “desenvolvimento subjetivo e ajustamento objetivo”.

12 São quatro elementos: vistara (expansão), rasa (fluxo cósmico), seva (serviço altruísta) e tadsthiti (estabelecimento no Supremo) – este último sendo resultado dos três primeiros. [Ánandamúrti, 2010.]

13 Notemos, de passagem, o contraste dessa perspectiva social com a ênfase ao individualismo e ao egoísmo que fundamentam a doutrina do liberalismo econômico:

“Não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover seu próprio auto-interesse.” “Assim, o mercador ou comerciante, movido apenas pelo seu próprio interesse egoísta [self-interest], é levado por uma mão invisível a promover algo que nunca fez parte do interesse dele: o bem-estar da sociedade.” [http://pt.wikipedia.org/wiki/Adam_Smith Acessado em: 29 maio 2011]

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Um autor procurou resumir a essência de PROUT dizendo que o seu espírito interno está em “pensar como uma família e agir como um herói” (lutando contra a exploração e todo tipo de imoralidade). Naturalmente trata-se de uma família expandida a ponto de englobar todos os seres, sem exclusão de nenhum – ou seja: uma família universal. [Krsnasevananda]

Herança cósmica e os princípios sócio-econômicos de PROUT

Como conseqüência da fraternidade cósmica, segue-se o conceito de herança cósmica, que estabelece que nada é propriedade exclusiva de ninguém, e que todos os seres têm direito ao usufruto do universo. Disto decorre a segunda parte de PROUT: os princípios sócio-econômicos [Ánandamúrti, 2007], enumerados a seguir:

(

I ) a garantia das necessidades básicas a todos os seres humanos; e

(

II ) a distribuição do excedente às pessoas meritórias.

Essas necessidades básicas não são definidas de uma vez por todas, mas dependem de fatores como a disponibilidade local de recursos e do grau de avanço científico e tecnológico da sociedade, o qual pode implicar em aumento de produtividade, melhor utilização de recursos e descoberta e aproveitamento de novos recursos. Após a distribuição das necessidades básicas, o excedente pode ser utilizado para “premiar” ou servir de incetivo para as pessoas que trabalharam mais para o bem-comum, como também para ajudá-las a desenvolver trabalho em prol da coletividade. O papel dos sadvipras em todo esse processo é fundamental. (E especialmente também com relação ao princípio IV, logo a seguir.) Isto significa que as lideranças benevolentes que trabalham determinadamente pelo bem-estar de todos os seres é que têm competência para assumir responsabilidades sociais. A entrega de cargos de responsabilidade a pessoas que não visam o bem-estar comum corresponde a permitir que a sociedade seja degradada. [Sarkar, 2001. Parte 2, cap. 19] Naturalmente que tais sadvipras, orientados para o progresso humano integral, irão esforçar-se para desenvolver a cooperação coordenada entre as pessoas, promovendo a sua consciência social, política e econômica – a exemplo do que ocorre nas cooperativas mais bem-sucedidas, como antes citado. Um terceiro princípio sócio-econômico afirma que:

( III ) o aumento do padrão de vida das pessoas é indicador da vitalidade da sociedade.

Adicionalmente, PROUT estabelece que:

( IV ) ninguém deve poder acumular riqueza material sem a aprovação clara do corpo coletivo – ou

seja, sem consentimento daquelas pessoas engajadas e organizadas em torno do bem-estar comum da sociedade.

Este último princípio sócio-econômico é também o primeiro dos cinco princípios fundamentais de PROUT. Ele implica que deverá haver um limite ou teto máximo para os salários ou pagamentos feitos a cada indivíduo (ou seja, dos bens recebidos por cada pessoa). Por outro lado, a garantia das necessidades básicas implica em um patamar mínimo, a exemplo da definição de um salário mínimo. Essa diferença entre esse mínimo e um máximo – correspondente à aplicação do segundo princípio sócio-econômico (citado acima) – é essencial para a manutenção do dinamismo da economia e reflete um entendimento apropriado da psicologia humana. É interessante notar que a Constituição brasileira refere-se a um “salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com

reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo [ [Constituição, 1988. Art. 7 o , inc. IV.]

Porém, por outro lado, não menciona um salário máximo ou limitação à acumulação material por parte de indivíduos ou grupos – omissão essa que indiretamente acaba dando espaço, ou implicitamente apoiando, o liberalismo econômico. Pode-se considerar isto como um bom indício de por que o salário mínimo no Brasil não é realmente mínimo para uma vida digna; ou, em outras palavras: "A consciência nacional sabe que o trabalhador brasileiro, com o mínimo, não atende nem ao mínimo. Faz mágica de sobrevivência.” [Limongi França. pp. 452-457, verbete "Salário"]

].”

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Democracia econômica e descentralização econômica

PROUT defende a democracia econômica, na qual o poder econômico seja transferido às pessoas de uma região, juntamente com o poder de decisão sobre as questões econômicas locais. O objetivo disso é que todas as pessoas tenham acesso aos bens estipulados como mínimos – como já declarado no primeiro princípio sócio-econômico proutista. Como comentado há pouco, no sistema capitalista isto não ocorre porque não é estabelecido nenhum teto máximo para a acumulação individual, mesmo que um governo legalmente reconheça o direito a uma vida digna de seus cidadãos, e assim aparentemente tenha vontade política para garantir um salário mínimo para sua população. E no socialismo de estado, em nome da igualdade social, as diferenças individuais não são reconhecidas, e tampouco o mérito individual de pessoas que porventura assumam maior responsabilidade e realizem mais trabalho pelo bem-estar social. Desta forma, a centralização da economia no estado socialista ou partido comunista pode terminar como outra manifestação do sistema capitalista, ou seja, um capitalismo de estado. Na teoria PROUT são apontados quatro requisitos para que haja uma democracia econômica [Sarkar, 2009. pp. 194-195]:

(1) garantia de que as necessidades mínimas estejam disponíveis para todos; (2) garantia de poder aquisitivo; (3) economia descentralizada – onde os habitantes locais devem ter o direito de tomar todas as decisões a respeito da economia local; (4) pessoas “de fora” não devem interferir nos negócios da respectiva economia local.

Tanto o sistema capitalista, quanto o comunista, caracterizam-se por uma centralização do poder econômico. 14 Em contraposição a isso, PROUT propõe que haja uma descentralização econômica [Sarkar, 2009; Thury, 1999a], cuja idéia-chave é que a população organizada torne-se responsável pelo funcionamento da economia da sua localidade, visto que em geral estas conhecem melhor do que ninguém as particularidades de onde vivem e sentem diretamente os efeitos positivos ou negativos da forma de utilização dos recursos locais. Como as pessoas precisam estar capacitadas para fazerem um bom gerenciamento da sua economia local, elas podem precisar do apoio de outras pessoas para essa capacitação e gerenciamento. Neste sentido, são definidas como pessoas locais aquelas que uniram seus interesses econômicos com os da localidade em que vivem. [Sarkar, 2009. p. 177] De passagem, acrescentemos que, segundo PROUT, cada pessoa tem o direito de estabelecer-se em qualquer lugar que queira, independentemente de seu lugar de origem ou consideração de qualquer tipo. E para que seja considerada uma “pessoa local”, bastaria que ela satisfizesse a definição acima.

Planejamento de área

Em PROUT, um passo importante para esse empoderamento local é a elaboração do chamado planejamento de área. 15 [Sarkar, 2009; Caetanya, 1992; Thury, 1999b] Na delimitação de cada área deve-se observar, entre outros aspectos, que ela tenha suficiente potencial de desenvolvimento econômico e um tamanho razoável para viabilizar seu planejamento – com uma população da ordem de 100 mil pessoas, por exemplo. O objetivo é que a população torne-se tanto quanto possível economicamente autosuficiente. Entretanto, dependendo dos problemas econômicos enfrentados e do padrão de vida mínimo da população local, pode revelar-se necessário encontrar soluções – factíveis ou ótimas – através do trabalho coordenado entre diferentes áreas, e eventualmente também por intercâmbios em maior escala. Neste sentido, PROUT propõe a formação de unidades sócio-econômicas, as quais efetivamente poderão alcançar sua autosuficiência econômica.

14 Segundo Sarkar:

“Nas democracias liberais o poder econômico é controlado por uma meia dúzia de capitalistas, enquanto que nos países socialistas o poder econômico está concentrado num pequeno grupo de líderes de partido.” [Sarkar, 2009. p. 194]

15 Block-level planning, em inglês.

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Unidades mestras

Outra forma básica de empoderamento e autosuficiência econômica local proposta por PROUT são as chamadas unidades mestras [Guia, 2000. Cap. 6, seção 3], que podem ser constituídas em espaços territoriais possivelmente bem menores que as “áreas” e ser iniciadas com número bem menor de pessoas. Trata-se de uma proposta significativamente semelhante à das chamadas ecovilas em geral. 16 Nessas unidades mestras, realiza-se um planejamento que guarda certa semelhança com o planejamento de área, mas uma diferença importante é que Sarkar deixou um conjunto de diretrizes bem definidas sobre como organizar a divisão e ocupação do espaço em uma unidade mestra, e quais as instalações e atividades básicas que elas deveriam incorporar. Um bom exemplo disso constitui-se o planejamento feito na unidade mestra recentemente constituída nas proximidades de Brasília - DF. [Aradhana, 2010. pp. 9-13]

Descentralização da economia

Em suma: para que a democracia econômica possa ser alcançada, um dos requisitos definidos por

Sarkar é a descentralização da economia, que depende, em boa parte, da realização de um planejamento apropriado nas diferentes áreas que forem delimitadas para isso – o chamado planejamento de área.

A descentralização econômica baseia-se em 5 princípios, a saber [Sarkar, 2009. pp. 177-180]:

(1) todos os recursos de uma unidade sócio-econômica (USE) devem ser controlados pelas pessoas locais – e, em particular, “os recursos naturais devem ser protegidos porque o padrão de vida das pessoas do local depende diretamente deles”; [Sarkar, 2009] (2) a produção deve ser dirigida para o consumo e não para o lucro; (3) a produção e a distribuição devem ser organizadas através de cooperativas; (4) as pessoas locais devem se empregar nos empreendimentos econômicos locais, que, por sua vez, devem dar emprego às pessoas locais; (5) as mercadorias não produzidas no local devem ser abolidas do mercado local.

Pode-se notar que os cinco princípios acima constituem diretrizes que são diretamente relevantes para a elaboração de um plano de uma dada área. Também nota-se que os mesmos são instrumentais para atender-se o primeiro, o segundo e o quarto requisitos para a democracia econômica. Um comentário sobre o quinto princípio acima: a valorização dos produtos da economia local, por parte da própria população local, pode implicar até mesmo em se preferir a aquisição de produtos de qualidade inferior e a um preço maior do que aqueles produzidos de forma alheia aos interesses da população local, ou mesmo importados de outros locais. Naturalmente isto demanda a elevação da consciência sócio-econômica da população.

Unidades sócio-econômicas e autosuficiência econômica

Para organizar a descentralização econômica em maior escala, PROUT propõe a formação de

unidades sócio-econômicas (USEs) [Sarkar, 2009. Cap. 2: “Agrupamentos Socioeconômicos”], há pouco mencionadas.

A delimitação geográfica dessas USEs depende de certos fatores, podendo ou não coincidir com

fronteiras nacionais existentes – muitas vezes criadas com base em considerações políticas. [Guia, 2000. Cap. 6, seção 1] Sarkar apontou cinco fatores, entre os quais: similaridade étnica, legado cultural comum

e língua comum. [Sarkar, 2009. pp. 26-27; Thury, 1999a] Quando tais fatores não são devidamente observados, isto pode implicar na exploração de um povo por outro, em particular, na exploração cultural e linguística (digamos, quando a cultura e língua de um povo sofrem inferiorização, supressão ou repressão e uma pseudo-cultura de exploração e a língua do povo dominante são introduzidos em lugar) e exploração psicoeconômica (quando ocorre subjugação ou manipulação psíquica visando a exploração econômica). Como possível reação a isso, vê-se a formação de movimentos separatistas.

O objetivo de tais USEs é atingir a autosuficiência econômica, tornando-se assim unidades sócio-

econômicas autosuficientes (USEAs). Isto requer que a população local organizada de tais USEAs, através de governos mais ou menos locais, seja responsável em administrar seus recursos e atividades

16 As quais não necessariamente seguem as mesmas diretrizes (em caso de tê-las explicitadas), apesar de que, através do movimento global de ecovilas, as experiências bem-sucedidas em uma ecovila tendem a ser aplicadas ou adaptadas em outras.

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econômicas, e não basicamente um governo central, tampouco indivíduos e grupos que defendem interesses econômicos privados ou escusos. Diferentes USEs devem ser incentivadas a realizar comércio e trocas entre si, mas somente sob determinadas condições cujo propósito seja beneficiar todas as partes envolvidas. [Thury, 1999a] Entre essas condições, destacamos:

- as transações devem ser realizadas entre e através de cooperativas, sem intermediadores;

- intercâmbio econômico entre as USEAs deve ser feito sempre que possível na forma de trocas

em lugar de comércio;

- a exportação voltada para lucro não deve ser tolerada;

- e em se tratando de matérias-primas, o ideal é que elas sejam processadas ou utilizadas o mais

localmente possível – podendo excepcionalmente ser exportadas para suprir necessidades básicas na unidade importadora, desde que comprovadamente sejam excedentes na unidade de origem;

- condições análogas às relativas a matérias-primas devem ser observadas com relação à exportação de produtos processados.

Alguns conceitos adicionais de sócio-economia proutista

Nosso objetivo com relação ao sistema sócio-econômico de PROUT, no presente artigo, não é apresentá-lo sistematicamente nem inteiramente, e sim – como já dito no resumo ao início – apresentar seus princípios e vários de seus conceitos-chave, princípios e conceitos subsidiários, com alguma pequena discussão ou explicação ocasionais. Prossigamos ainda um pouco mais com essa apresentação.

Sistema econômico em três níveis

PROUT indica que deve haver uma estruturação da economia em três níveis principais, da seguinte forma:

(1) micro ou pequena escala: os pequenos empreendimentos de iniciativa privada – nível esse que deverá ficar restrito a pequenos negócios, sem que ocupem-se do provimento das necessidades básicas às pessoas; (2) média escala: as cooperativas, que deverão ocupar-se da maior parte da atividade econômica; e (3) grande escala e/ou grande complexidade: as empresas estratégicas, ligadas ao governo mais local possível e operando sob o lema “sem lucro, sem prejuízo”.

Como se pode notar, a estruturação acima é radicalmente diferente do que se vê no capitalismo e também no países comunistas: respectivamente, de um lado, os empreendimentos privados têm escopo para crescerem tanto quanto queiram, e tendem a controlar todos os tipos de atividades econômicas, inclusive a extração e beneficiamento de matérias-primas, e a produção de artigos e serviços de necessidade básica – como produtos agrícolas, serviços de saúde, meios de comunicação de massa, educação etc. E de outro, a economia como um todo é controlada a partir de um governo central, inibindo ou impedindo a livre iniciativa econômica mesmo em pequena escala, como também a operação autônoma de cooperativas. A organização da economia segundo os moldes de PROUT implicará na formação de redes de cooperativas, abrangendo os diversos setores econômicos: agrícola, agroindustrial (processamento de matérias-primas agrícolas), agricoindustrial (equipamentos e insumos para agricultura), industrial não- agrícola, comércio e trocas, e atividade intelectual ou de escritório. Em particular, este último setor inclui também atividades como cooperativas de consumidores, administração, prestação de serviços e serviços públicos.

Economia Equilibrada

PROUT dá lugar destacado ao desenvolvimento equilibrado em todas as esferas da existência, seja individual ou coletiva, humana ou ambiental, e da mesma forma, prevê o equilíbrio entre essas diferentes esferas. [Sarkar, 2009. Cap. 6] No caso da economia equilibrada de PROUT [Maheshvarananda, 2003. pp. 138-141; Sarkar, 2009. Cap. 4], para que a economia seja saudável, é importante observar um equilíbrio quanto à

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proporção de pessoas de uma nação, ou de uma unidade sócio-econômica, dedicadas a cada um dos setores da economia acima mencionados. Neste sentido, Sarkar inclusive apresenta certas faixas ótimas de percentuais da população trabalhando em cada um desses setores. Além disso, recomenda que o beneficiamento de matérias-primas e o consumo de bens seja feito tão próximo quanto possível do ponto de obtenção dessas matérias-primas. Isto está relacionado com o fortalecimento das economias locais e a busca de autosuficiência das mesmas, o que previne problemas decorrentes da economia desequilibrada, por exemplo na forma de áreas rurais distantes de áreas urbanas e industrializadas, com a conseqüente migração de pessoas das regiões economicamente mais pobres para as mais ricas; ou na forma do colonialismo, com países fornecedores de matéria-prima e consumidores de bens industrializados, de um lado, e países industrializados ou superindustrilizados de outro; ou na forma da economia globalizada, com corporações transnacionais operando em diversos países, conforme suas conveniências de redução de custos e aumento de lucros.

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. P A R T E

2 : Projetos sócio-econômicos de inspiração proutista na área de Florianópolis .

Cooperativa na UFSC, Projeto Ágora (Compras Coletivas e Feira da UFSC)

Histórico ( I ): Cooperativa da UFSC e início das Compras Coletivas

A proposta inicial que conduziu ao Projeto Ágora foi de criação de uma cooperativa na UFSC [Universidade Federal de Santa Catarina, sediada em Florianópolis - SC], tendo sido apresentada publicamente no segundo semestre de 2005. Um documento preliminar foi distribuído pelos elaboradores da proposta, contendo em especial

um esboço de princípios que poderiam orientar o funcionamento da cooperativa quanto à sua relação com o público e o tipo de produtos ofertados. Tal documento serviu para motivar as discussões nas reuniões que seguiram-se, as quais versaram bastante sobre dificuldades implicadas por esses princípios. Após essa fase, duas tendências principais manifestaram-se nas reuniões: uma, a criação da cooperativa na forma de uma entidade jurídica – como “associação” ou “cooperativa” –; e outra, a ênfase em seguir os passos de formação de uma cooperativa popular, iniciando com a construção de uma identidade do grupo, incluindo objetivos comuns aos seus membros. A primeira tendência pareceu predominar por um período, mas depois foi apontada a falta de clareza quanto aos objetivos visados pelo grupo com esse processo, em especial por parte de seus impulsionadores. Quer dizer, não havia uma resposta clara à pergunta de “Para que formar uma entidade jurídica ?” A culminação dessa fase deu-se com uma certa desagregação do grupo, combinada com interrupção das reuniões por motivo de férias de final de ano. Com a continuidade das reuniões em período subseqüente, outras pessoas passaram a integrar o grupo remanescente, e as reuniões adotaram um enfoque prático, de iniciar-se a realização de algum projeto. As reuniões não demoraram muito para convergirem na proposta de formação de um grupo de compras coletivas. Uma inspiração para essa proposta foi o contato com participantes de um grupo semelhante atuando em Franca - SP, inspirado por PROUT. Foi feito contato com participantes de outro grupo de compras coletivas que havia funcionado também em Florianópolis [Biomassa Tropical], por volta de 2003, e numa das reuniões uma das participantes desse grupo compartilhou sua experiência a respeito. Contatos foram feitos com alguns fornecedores, e fez-se opção de inicialmente trabalhar com uma cooperativa de produtores de agricultura familiar agroecológica, ainda que com um número reduzido

de produtos ofertados.

Funcionamento das compras coletivas

Convém aqui descrever o esquema básico de operação dessas compras coletivas, especificamente no caso do presente projeto. Após a organização inicial da proposta

por parte de um grupo inicial ou impulsionador e

a escolha de um ou mais fornecedores de

produtos, forma-se um grupo – no caso, aberto –

de pessoas que fazem seus pedidos com base na

correspondente lista de produtos disponíveis. Essas pessoas podem ser contactadas, ou convidadas a participarem, pelos mais diversos meios; elas também podem entrar em contato manifestando interesse de participarem. A soma dos seus diversos pedidos constitui então o pedido coletivo geral – o qual é dividido em pedidos coletivos correspondentes a cada fornecedor, em seguida repassados aos fornecedores. Estes providenciam o envio dos produtos solicitados para a organização da

o envio dos produtos solicitados para a organização da Figura 2: Vista frontal da recepção e

Figura 2: Vista frontal da recepção e dos produtos a serem distribuídos em uma das partilhas das Compras Coletivas (ano 2010).

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compra coletiva. Esses produtos são enfim distribuídos aos consumidores conforme seus pedidos individuais, tipicamente em um dia combinado para tal fim, no qual realiza-se uma partilha dos produtos. O pagamento dos produtos, correspondente a cada pedido, é feito para a organização, e então repassado para os fornecedores dos produtos como pagamento da compra coletiva. No caso de produtos vindo de outras cidades mais distantes, o transporte dos mesmos pode ser feito por uma empresa de transportes ou por outro meio conveniente. Tendo sido formado um grupo organizador desse processo, ou núcleo gestor das compras coletivas, é possível que as várias tarefas sejam divididas entre seus membros, ficando cada membro encarregado de focalizar uma ou mais dessas tarefas.

Histórico ( II ): Feira da UFSC

Com o andamento das Compras Coletivas, voltaram a ser feitas reuniões retomando o assunto inicial da cooperativa na UFSC. As reuniões nessa nova fase acabaram sendo focadas no que veio a ser chamado, mais tarde, de Projeto Ágora. Tratava-se da proposta de um espaço amplo de atividades diversas, inspirado no espaço democrático de cidades gregas antigas, denominado “ágora”. Outra inspiração semelhante foi a feira do Brique da Redenção, em Porto Alegre. Com várias reuniões e discussões subseqüentes, foi sendo formada a proposta de uma Feira na UFSC. Esta foi inspirada pela proposta inicial da cooperativa na UFSC, em particular seus princípios, mas em um formato diferente. Ou seja, deslocada para um espaço físico aberto e agregando feirantes de diversas áreas – como alimentos, produção orgânica e agroecológica, artesanato etc. Por outro lado, a proposta de se constituir um espaço de convivência, educativo, de promoção de consumo consciente e responsável, e com atividades tanto comerciais quanto de troca, foi basicamente mantida. Procuraria-se cuidar para que o comércio e as trocas, em especial, além das etapas anteriores da cadeia de produção dos produtos oferecidos, estivessem tanto quanto possível de acordo com o enfoque de economia solidária.

PROUT e economia solidária

Neste ponto, é apropriado mencionar que PROUT pode ser entendido também como contendo uma teoria de economia solidária, que estaria incluída em sua proposta de sistema sócio-político- econômico. Tal teoria poderia ser uma ferramenta útil para avaliar quais atividades e produtos propostos para integrarem a Feira qualificariam-se como sendo de “economia solidária”. Paralelamente aos princípios propriamente econômicos de PROUT tem-se o seu conjunto de princípios fundamentais, que reconhecem e se referem aos recursos e potencialidades nos três níveis de existência: físico, psíquico e espiritual, relativos a todos os seres: humanos e não-humanos, individualmente e coletivamente. Nesses princípios também se dispõe sobre a forma de utilização de tais potencialidades: buscando-se uma harmonia ou equilíbrio apropriados. Em especial, o quinto princípio fundamental de PROUT indica que “O método de utilização deve variar conforme as mudanças de tempo, lugar e pessoa, e a utilização deve ser de natureza progressiva.” [Ánandamúrti, 2007] Isto significa que o equilíbrio a ser buscado é de natureza dinâmica. Além disso, “progressiva” refere-se ao sofisticado conceito de progresso de PROUT. 17 Podemos apontar que para atender-se tanto ao aspecto do dinamismo quanto ao aspecto progressivo, a componente ou dimensão espiritual é essencial. Em outras palavras, para ser possível conseguir-se um ajustamento objetivo adequado, é preciso que este seja acompanhado por um desenvolvimento subjetivo correspondente, e vice-versa.

Dinamismo: uma tentativa de aplicação prática

O supra-citado princípio inspirou que os ativistas de PROUT presentes no processo da cooperativa da UFSC (que terminou inconcluso), e posteriormente na formação da Feira na UFSC, enfatizassem o dinamismo como ponto importante a ser inserido no caráter da Feira. Além disso, enfatizaram também a orientação desse dinamismo ou movimento para um objetivo claro, que foi entendido pelos participantes desse processo, em geral, como sendo a constituição de uma sociedade justa e solidária, em equilíbrio apropriado com o ambiente. Este objetivo comum foi delineado de forma apenas aproximada, mas

17 Sobre esse conceito de progresso, veja-se a referência [Batra, [2006]].

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também sem maiores dificuldades, devido ao embasamento dos demais participantes, conectados com movimentos e/ou concepções de agroecologia e economia solidária, em especial. A pertinência do aspecto de dinamismo manifestou-se, em especial, na questão de discutir e decidir quais produtos poderiam ser incluídos nas atividades da Feira (e também da cooperativa, quando estava-se discutindo sobre a criação da mesma). Em certo momento, alguns produtos foram consensualmente considerados impróprios para essa inclusão, enquanto houve debate acalorado sobre outros produtos. Assim, foi colocada ênfase em que as decisões sobre os produtos – quais incluir e quais não – não deveriam estar fechadas de uma vez por todas, mas deveriam ajustar-se ao andamento ou desenvolvimento da Feira, e a conscientização das pessoas. Ou seja: os produtos oferecidos deveriam adaptar-se a mudanças nos critérios de seleção (inclusão e exclusão) e os feirantes e o público poderiam propor ou pressionar por mudanças nesses critérios conforme alterações fossem acontecendo no nível individual. Outra questão afim também abordada foi a seleção de novos candidatos a feirantes: diferente de várias outras feiras existentes na própria cidade, nas quais o aspecto comercial é predominante e o aspecto pessoal talvez seja levado em conta apenas em casos de indivíduos antissociais, Após muitas reuniões feitas sobre esse tema – isto é, a definição de critérios e procedimento de seleção de produtos e de feirantes para entrarem na Feira –, em uma reunião dos feirantes em final de 2008 foi formada uma comissão para elaborar uma proposta sobre o assunto, a partir de orientações definidas em reuniões anteriores. Após vários meses a comissão concluiu a elaboração de uma proposta, que foi então apresentada ao coletivo dos feirantes em nova reunião geral, e aprovada, entrando em funcionamento no início do segundo semestre de 2009. Esse processo sugere uma certa forma de autogestão assumida pela organização dos feirantes, pois, por um lado, não havia interferência externa direta na organização da Feira, e por outro, as decisões principais da Feira eram tomadas de comum acordo, ocorrendo reuniões mais ou menos frequentes para tratar-se de problemas e assuntos de interesse comum.

Histórico ( III ): Feira da UFSC e Projeto Ágora

A Feira na UFSC iniciou suas atividades no segundo semestre de 2006, após a definição de um espaço físico para sediá-las, através da elaboração de sua proposta na forma de um projeto de extensão, aprovado pela UFSC. No primeiro semestre de 2008, foi elaborado um novo projeto de extensão, denominado Projeto Ágora, e desta vez englobando tanto a Feira na UFSC, quanto as Compras Coletivas. Após um período de férias na passagem de ano 2006 para 2007, e uma gradual diminuição no número de feirantes, culminando com uma parada nas atividades no meio de 2007, a Feira voltou a funcionar no segundo semestre de 2007, em novo espaço físico. Desde então, tem funcionado ininterruptamente. A

escolha desse novo espaço foi motivada pela busca de um local com maior circulação de pessoas e maior visibilidade para o público potencial. Até aqui, a Feira funciona em um dia por semana, portanto com periodicidade semanal. No primeiro semestre de 2008 foi conseguida uma sala para sediar atividades relacionadas ao Projeto Ágora, e onde começaram a ser realizados encontros de estudo e discussão sobre práticas de PROUT. Esta sala também serve como depósito para materiais e produtos de alguns dos feirantes da Feira

na UFSC. Outro espaço físico também é utilizado especificamente com o mesmo propósito, ainda que pertencente a uma entidade estudantil.

Figura 3: Vista parcial de uma das bancas de alimentos orgânicos na Feira Ecosolidária da UFSC.

entidade estudantil. Figura 3: Vista parcial de uma das bancas de alimentos orgânicos na Feira Ecosolidária

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Desenvolvimentos diversos / embrião da Rede de Economia Local

Em janeiro de 2008, foi elaborada a proposta de construção de uma Rede de Economia Local. Este assunto – do qual falaremos na próxima seção – foi retomado em nova reunião, posteriormente. Nessa mesma reunião decidiu-se também começar a realizar os encontros de distribuição de produtos do projeto de Compras Coletivas (as chamadas “partilhas”) paralelamente ao funcionamento da Feira da UFSC. A nova sala obtida pelo projeto Ágora, localizada próxima do espaço da Feira, passou então a servir também como depósito dos produtos recebidos da Compra Coletiva. Em geral o evento de partilha dos produtos era realizado no mesmo local em que esses produtos ficavam armazenados, após serem recebidos – o que acontecia em locais variados. Além disso, em 2009, essa sala do Projeto Ágora passou a sediar as partilhas das Compras Coletivas. Anteriormente as partilhas eram realizadas em locais diversos, incluindo casas de participantes, uma escola e um sindicato da UFSC, e por último, junto à Feira da UFSC. O espaço físico da sala serve agora como ponto de armazenamento dos pedidos coletivos recebidos até o dia da partilha, e também para a própria partilha, à qual todos os participantes comparecem para retirar seus pedidos individuais.

Em meados de 2008, as Compras Coletivas começaram a funcionar com novos produtos, fornecidos por novos fornecedores. Inicialmente, a Compra Coletiva possuía um núcleo em Florianópolis, e seu único fornecedor era uma cooperativa de agricultores familiares agroecológicos sediada em Mondaí, no extremo oeste de SC. Mais tarde, funcionou por algum tempo um outro núcleo de compra coletiva na localidade de Pedra Branca, município de Palhoça, situado na Grande Florianópolis. Através de intermediação de uma pessoa de Criciúma, foram integrados aos fornecedores da compra coletiva duas famílias de agricultores orgânicos, de diferentes cidades do litoral sul de SC. Outro núcleo de compra coletiva, inicialmente dependente do núcleo de Florianópolis, funciona agora de forma autônoma na cidade de Itajaí, no litoral norte de SC, após um período de “incubação”.

Rede de Economia Local, Compras Coletivas: Horizontes e Características

O propósito de formação de uma Rede de Economia Local é promover ou aumentar a interação entre produtores e prestadores de serviços locais, especialmente indivíduos ou pequenos grupos, de um lado, e consumidores, de outro. Naturalmente um consumidor de certos produtos e serviços pode também atuar como produtor ou prestador de outros produtos e serviços. Entende-se que essa rede de economia local não requeira espaços convencionais de comercialização para operar, ainda que, em seu movimento, possa integrar-se também com tais espaços. Um dos pontos-chave dessa rede é a atuação de impulsionadores da mesma, começando por fazer um levantamento de produtores e prestadores de serviços locais, criando uma lista dos mesmos, e posteriormente

divulgando essa lista entre essas mesmas pessoas como também a um público mais amplo. Prevê-se a possibilidade de que, mesmo com um fluxo pequeno de atividades dessa rede, haja a tendência à formação de uma logística própria. Tal sistema de transporte da rede pode ser incrementado para viabilizar ou melhorar a eficiência no transporte de produtos, e mesmo de pessoas, de um ponto a outro da rede. Espaços físicos próprios da rede podem também ser organizados – conforme demanda, expectativa de demanda, ou interesse em ofertar produtos e serviços. Tem-se a expectativa de que essa rede possa, pelo menos parcialmente, vir a funcionar fazendo uso de algum sistema de comércio ou trocas locais – possivelmente uma moeda social local ou um sistema como LETS (Local Exchange Trading System – significando ‘sistema de intercâmbio e comércio local’).

Figura 4: Reunião de fortalecimento dos projetos de Compras Coletivas e Rede de Economia Local, realizada na UFSC.

Figura 4: Reunião de fortalecimento dos projetos de Compras Coletivas e Rede de Economia Local, realizada

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Tal rede pode utilizar-se do modo de operação de compras coletivas, pelo menos para funcionar parcialmente. Ou seja: conforme a demanda de certas pessoas, na forma de um pedido coletivo, os produtores podem produzir de acordo com esse pedido, diminuindo o risco de uma comercialização incerta de seus produtos, no caso em que a oferta antecedesse a demanda. Nas compras coletivas, até

certo ponto ocorre o contrário: a demanda antecede-se à oferta, ainda que, no caso de produtos agrícolas, em geral ocorre que a produção é feita primeiro, e depois a sua comercialização – pelo menos em parte sem compra ou encomenda antecipada. Entretanto, prevê-se a possibilidade de aumento da escala das compras coletivas, bem como de estabelecimento de uma regularidade nas mesmas, de modo que os produtores possam ajustar uma produção de acordo com as mesmas. Algo semelhante já ocorre há anos em Fortaleza - CE e em outras cidades do Nordeste, com o projeto Empresa 21 desenvolvido pelo NEPA (Núcleo de Ensino e Pesquisa Aplicada). [Grosso, 2003] Neste projeto são organizadas alianças sociais entre famílias consumidoras urbanas e agricultores familiares, tanto rurais, quanto urbanas. As famílias urbanas iniciam o processo investindo no desenvolvimento da atividade agrícola das famílias agrícolas, e depois de certo período começam a receber os resultados dessa produção, que pode ser na forma de cestas semanais de alimentos orgânicos.

O investimento é feito na forma de mensalidades regularmente pagas. Com isso é dada aos agricultores

familiares a segurança de que sua produção terá um destino certo, além de ajudar muitas dessas famílias a

sairem de uma situação de miséria. Assim, com a organização dos consumidores e estabelecimento de uma demanda previsível, contribui-se para a estabilidade econômica dessas famílias. Os benefícios psicológicos de um arranjo como esse também podem ser consideráveis – em contraposição à volatilidade dos arranjos de produção e comercialização nos quais a estabilidade de relações comunitárias não tem tanta importância (ou talvez nenhuma) em comparação com a diminuição de custos e maximização de lucros.

Por outro lado, as compras coletivas podem contribuir para dar impulso à rede de economia local,

ao iniciar encomendas coletivas de produtores locais. Inicialmente o intervalo de tempo entre uma compra

coletiva e a seguinte não era regular – no caso particular de nosso projeto, descrito na seção anterior –, mas gradualmente observou-se que poderia assumir uma periodicidade mensal. Existe também a possibilidade de iniciar-se compras coletivas semanais, operando com produtos da economia local e também dos produtores da Feira na UFSC, que incluem agricultores familiares produzindo alimentos orgânicos. Essa periodicidade semanal seria possível devido ao intervalo de tempo menor de que necessita-se desde a encomenda dos produtos até a chegada dos mesmos, devido à menores distâncias envolvidas, e também por aproveitar-se que os feirantes da Feira na UFSC realizam semanalmente seu deslocamento até a mesma.

Uma iniciativa que possui semelhanças notáveis com a Rede de Economia Local acontece dentro

da Rede EcoVida de Agroecologia: trata-se de uma organização de agricultura familiar agroecológica que

estende-se pelos três estados do sul do Brasil (RS, SC e PR), articulada e composta em muito núcleos subregionais, e que agora também está expandindo-se para o estado de SP. A iniciativa a que nos referimos é o Circuito Sul de Circulação de Alimentos. [Magnanti, 2008] Trata-se de um projeto em plena expansão, que realiza reuniões regulares de articulação e que integra diversos núcleos da Rede EcoVida através do deslocamento de três caminhões pertencentes à Rede, levando produtos de um núcleo para outros, promovendo assim o intercâmbio de produtos entre os núcleos situados no percurso do Circuito. Isto tende a aumentar a auto-suficiência de alimentos da Rede EcoVida como um todo, fazendo com que produtos excedentes de um núcleo sejam levados a outros núcleos onde há disponibilidade pequena ou nula dos mesmos. Também incentiva que cada núcleo desenvolva melhor suas potencialidades de produção, evitando o esforço excessivo de que tenha que produzir todos os produtos que consome – inclusive porque pode não dispôr de clima ou meios adequados para isso –, e que podem estar disponíveis em outros núcleos. Esse circuito tende a ser ampliado para percorrer outros núcleos inicialmente não integrados ao mesmo. Através dos contatos havidos entre o núcleo de Compras Coletivas de Florianópolis e uma cooperativa ligada à Rede EcoVida, situada na região serrana de SC (com sede em Lages), e integrada ao Circuito Sul de Circulação de Alimentos, fortaleceu-se a possível extensão do Circuito até Florianópolis. Isto visou tanto fornecer produtos para a compra coletiva, quanto também a possibilidade de inserir novos produtos no Circuito – através do contato com o núcleo de Florianópolis e de seus produtores e fornecedores locais.

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Atualmente essa extensão do Circuito a Florianópolis ocorre através das demandas da Feira da UFSC, e não das Compras Coletivas. O motivo disto é que o Circuito tinha dificuldades de oferecer regularmente produtos pouco perecíveis (como por exemplo grãos: soja, trigo, feijão etc.) para as Compras Coletivas, tendo por outro lado maior oferta de produtos perecíveis, com os quais a Feira lida normalmente.

Existe a tendência, com o fortalecimento da compra coletiva, de que haja a criação de novos núcleos de compra coletiva em outras localidades, a exemplo de Pedra Branca (que ficou inativo), do núcleo emergente de Criciúma e do núcleo agora ativo e autônomo de Itajaí. Também podem surgir

outros núcleos no próprio município de Florianópolis. Aliás, está sendo feito o estudo e a articulação para

a criação de um novo núcleo independente em outra cidade da Grande Florianópolis, e também de outro

núcleo – talvez inicialmente dependente do núcleo atualmente ativo – na parte sul de Florianópolis. Até certo momento, as compras coletivas aconteceram de forma centralizada no núcleo de Florianópolis, mas com o crescimento de um núcleo, este pode passar a operar independentemente, fazendo e recebendo seu próprio pedido coletivo diretamente dos fornecedores – como já é o caso do núcleo de Itajaí.

Aspectos que diferenciam as compras coletivas de uma empresa distribuidora de produtos ordinária

Até aqui, no caso específico do projeto de Florianópolis, as compras coletivas funcionam com um núcleo gestor formado por pessoas que trabalham voluntariamente.

Novas pessoas têm se interessado em colaborar nos trabalhos do núcleo gestor e também nos eventos de partilha. Incentiva-se que as pessoas integrem-se à compra coletiva e, assim, organizem-se como uma cooperativa informal de consumidores. Isto permite tornar mais acessíveis produtos de cidades distantes, porque, quando comprados coletivamente, há divisão dos custos de frete ou transporte – basicamente conforme a proporção do peso de cada pedido individual em relação ao peso do pedido total.

A qualidade dos produtos, em sentido amplo, também é visada por participantes da compra

coletiva, através de pessoas que buscam praticar o consumo consciente e responsável – e há estímulo para

que pessoas com este perfil integrem-se às compras coletivas, ou para que seus participantes desenvolvam essa abordagem.

O incremento de interação social e criação de ambiente amistoso e de fraternidade entre tais

pessoas, também faz parte do propósito da compra coletiva.

Busca-se ainda estabelecer laços mais próximos com produtores ou organizações de produtores – escolhidos com o propósito de aproximação e fortalecimento de suas iniciativas.

As iniciativas que se busca fortalecer incluem:

(1) quanto à origem social (ou aspectos sociais da produção): produção agrícola familiar, organizações de produtores em cooperação coordenada (por exemplo na forma de cooperativas);

(2) quanto à origem geográfica dos produtos: produzidos localmente, isto é, próximo do local de

consumo;

(3) quanto às técnicas de produção: produzidos de forma ambientalmente mais equilibrada:

produção orgânica ou agroecológica; (4) quanto à natureza dos produtos: que promovam a saúde física e mental dos consumidores.

Tem-se claro que a atuação de intermediadores entre produtores e consumidores deva ocorrer com

o objetivo de cumprir este trabalho de intermediação de forma socialmente eficiente e economicamente

justa, ou seja, evitando que o propósito principal de intermediadores esteja na obtenção de lucro com essa atividade.

Além disto, busca-se também o ideal proutista de estabelecimento da democracia econômica, através da formação de uma rede de cooperativas atuando nos diversos setores da economia. Dentro deste horizonte amplo, o incentivo à formação e multiplicação de núcleos de compras coletivas, ou cooperativas de consumidores, faz parte da proposta deste presente projeto de Compras Coletivas. Isto pode ser incrementado com a divulgação da iniciativa, e, através da sistematização de seu funcionamento, com a divulgação das informações sobre como iniciar e operar um tal projeto. Entretanto, o simples exemplo do projeto, com seu funcionamento, difunde-se e alcança pessoas mesmo em locais

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relativamente distantes, através da comunicação por parte de pessoas que participaram, participam ou têm conhecimento do projeto. De acordo com isto, foi articulado o funcionamento de um núcleo independente de compras coletivas em Itajaí-SC, através de intercâmbios e colaboração mútua entre uma ativista local e o núcleo gestor de Florianópolis.

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