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UNIVERSIDADE DE LISBOA

FACULDADE DE DIREITO

UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE DIREITO GÉNESE DAS SOCIEDADES COMERCIAIS A EVOLUÇÃO EM PORTUGAL ATÉ FINAIS

GÉNESE DAS SOCIEDADES COMERCIAIS

A EVOLUÇÃO EM PORTUGAL ATÉ FINAIS DO SÉCULO XIX

Pedro Manuel Osório de Castro Batalha Ribeiro

RELATÓRIO PARA AVALIAÇÃO

NA DISCIPLINA DE METODOLOGIA JURÍDICA

MESTRADO EM DIREITO

CIÊNCIAS JURIDICO-EMPRESARIAIS

2013

UNIVERSIDADE DE LISBOA

FACULDADE DE DIREITO

UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE DIREITO GÉNESE DAS SOCIEDADES COMERCIAIS A EVOLUÇÃO EM PORTUGAL ATÉ FINAIS

GÉNESE DAS SOCIEDADES COMERCIAIS

A EVOLUÇÃO EM PORTUGAL ATÉ FINAIS DO SÉCULO XIX

Pedro Manuel Osório de Castro Batalha Ribeiro

RELATÓRIO PARA AVALIAÇÃO

NA DISCIPLINA DE METODOLOGIA JURÍDICA,

SOB REGÊNCIA DO SENHOR PROFESSOR DOUTOR ANTÓNIO PEDRO BARBAS HOMEM

MESTRADO EM DIREITO

CIÊNCIAS JURIDICO-EMPRESARIAIS

2013

GÉNESE DAS SOCIEDADES COMERCIAIS

A EVOLUÇÃO EM PORTUGAL ATÉ FINAIS DO SÉCULO XIX

Parte I COMÉRCIO E CAPITALISMO

Capítulo I Enquadramento histórico-jurídico das origem do comércio e do capitalismo

1. Razão de ordem e metodologia.

O Planeta oferece-nos uma Humanidade repartida por nações, por Estados e por diversas culturas.” 1 . Podemos acrescentar a esta afirmação incontestada de Menezes Cordeiro outra, mais controversa: o Planeta vive atualmente numa civilização capitalista, à escala global. Fábio Konder Komparato, no seu notável estudo de 2011, “Capitalismo: civilização e poder” 2 , afirma mesmo que, apesar de poucos se darem conta do fenómeno, o capitalismo é hoje em dia a primeira civilização mundial da história. Importa pois compreender o capitalismo em toda a sua riqueza de sentidos, “como uma autêntica civilização, usando esse conceito em sentido eticamente neutro.” 3 / 4 E, para contribuir para a compreensão do fenómeno, antes de traçar os elementos definidores da civilização capitalista, decide Comparato socorrer-se da história do capitalismo numa dupla perspetiva, como civilização e como poder. Parte assim este autor para um profundo ensaio, que analisa o capitalismo desde o seu surgimento, “no final da Idade Média, como fator de desagregação da civilização indo-europeia, não só quanto à mentalidade coletiva predominante, mas também quanto às instituições sociais.”. A segunda vertente do estudo de Comparato é a análise, também histórica, do poder social do capitalismo, historiando como a burguesia mercantil, inserindo-se na sociedade feudal,

1 António Menezes Cordeiro: O Sistema Lusófono de Direito, Revista da Ordem dos Advogados, Ano 2010, Ano 70 - Vol. I/IV 2010. 2 Fábio Konder Comparato, Capitalismo: civilização e poder, Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, Estudos Avançados, págs. 251 e seguintes, vol. 25, nº. 72, São Paulo, 2011, disponível on-line, em

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142011000200020.

3 Idem, pág. 251. 4 Seguiremos o conceito de civilização adotado por Pedro Caridade de Freitas, in Portugal e a Comunidade Internacional, pág. 364: “O conjunto das condições materiais e tecnológicas, das crenças e formas de arte, das ideias e valores de uma sociedade ou de um grupo de sociedades; a própria sociedade ou grupo de sociedades que daí resultam.”.

acabou por sobrepor-se aos estamentos 5 dominantes na sociedade feudal durante a Idade Média:

o eclesiástico e o aristocrático-militar.”. O Autor desenvolve de seguida o seu trabalho de investigação histórico-jurídica numa perspetiva global 6 , ligando o desenvolvimento do comércio ao desenvolvimento do capitalismo, mas sem se ater a um ordenamento jurídico específico. Ora, a nossa proposta é a de adotar a metodologia seguida por Comparato e aplica-la à história do ordenamento jurídico Português, num período delimitado no tempo, por forma a constatar se o nosso Direito acompanhou a referida evolução rumo ao sistema e civilização do capitalismo e, se a resposta for positiva, como. Ao estudar o direito, poderemos também constatar se este revela entre nós a tensão dialética de poderes entre classes sociais, designadamente, a burguesia, o clero e a nobreza, com triunfo, afinal, da primeira. Analisaremos pois, de forma necessariamente sintética, a evolução do comércio e do estatuto dos comerciantes numa perspetiva histórico-jurídica da realidade subjacente; veremos que as formas de organização de empresa previstas no Direito Comercial e no Direito das Sociedades Comerciais vão evoluindo e adaptando-se constantemente às circunstâncias políticas, económicas e sociais das épocas respetivas, pelo que daremos particular atenção à evolução jurídica do conceito de sociedade no nosso ordenamento, em especial das sociedades de capital e necessariamente das sociedades por ações. Atualmente, cada sociedade é titular de um património que é separado dos patrimónios dos seus sócios, pois atualmente a sociedade tem personalidade jurídica e como tal tem autonomia patrimonial. “O clímax da autonomia patrimonial é a responsabilidade limitada dos sócios, ou seja, a limitação da responsabilidade dos sócios ao pagamento das contribuições para a sociedade a que se obrigam ou, por outras palavras ainda, a irresponsabilidade dos sócios pelas obrigações da sociedade. A responsabilidade limitada foi, e continua a ser, um dos principais alicerces do capitalismo” 7 . A limitação da responsabilidade terá sido mesmo a inovação legislativa que mais contribuiu para o desenvolvimento do capitalismo. Veremos pois como evoluiu este tema entre nós.

5 Termo muito utilizado pelos autores do Brasil, para significar uma forma de estratificação social com camadas sociais mais fechadas do que as classes sociais, e mais abertas do que as castas, reconhecidas por lei. Exemplo paradigmático dos resquícios da sociedade estamental entre nós, Pascoal José de Melo Freire (1738 1798), Instituições de Direito Civil Português, 1779, Livro II Direitos das Pessoas. 6 Comparato insere apesar de tudo referências à história portuguesa, v.g. pág. 264, obra citada. 7 Rui Pinto Duarte, Excertos do livro Escritos de Direito das Sociedades, Coimbra, Almedina, citados em Anexo ao Programa da cadeira de Direito das Sociedades Comerciais na FDUNL.

Julgamos assim dar corpo aos ensinamentos do Professor António Pedro Barbas Homem, quando se refere à qualificação da história do pensamento jurídico como uma disciplina histórica e disciplina jurídica 8 . Por razões de ordem, nestas primeiras reflexões sobre o tema 9 , delimitaremos a nossa análise do sistema jurídico português a três períodos essenciais: o da Pré-codificação 10 , que decorre desde a reforma pombalina da Universidade (1772), passando em seguida pela análise dos Códigos do Século XIX com maior relevância para o nosso trabalho o Código Commercial de Ferreira Borges, de 1833, a Lei das Sociedades Anónymas de 22 de Junho de 1867, o Código Comercial de de Veiga Beirão, de 1888 e a Lei das Sociedades por Quotas, de 11 de Abril de 1901. Sem prejuízo do ensinamento do Professor Pedro Barbas Homem 11 quanto à periodificação e proximidade com o presente, por forma a assegurar a distanciação que o bom método recomenda, obriga a atualidade do nosso tema a introduzir um terceiro período, até à recente conclusão da codificação tardia 12 do Direito das Sociedades Comerciais com a introdução das regras do Governo das Sociedades. Concordamos com Fernando Pessoa 13 quando critica a compartimentação da realidade em períodos estanques. Estando obrigados a optar por esta sistematização, não ignoraremos que, “há um largo espaço em que duas “épocas” sucessivas se confundem e se misturam, a ponto de não podermos bem dizer se tal ano ou caso está em uma ou outra delas, ou se não estará, por assim falar, em as duas ao mesmo tempo.” 14 . Aliás, segundo António Manuel Hespanha 15 , “O conhecimento das instituições jurídicas, políticas e sociais dos povos primitivos tem um duplo

8 António Pedro Barbas Homem, História do Pensamento Jurídico, Guia de Estudo, pág. 74. Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, Lisboa, 2004.

9 O presente trabalho é um Relatório de Avaliação, com limite regulamentar de extensão. Seremos pois necessariamente breves na presente exposição, sem prejuízo de desenvolvimentos subsequentes, se o tema merecer interesse académico, como julgamos.

10 António Menezes Cordeiro - O Sistema Lusófono de Direito, ob. cit., ponto 15.

11 António Pedro Barbas Homem, História do Pensamento Jurídico, Guia de Estudo, pág. 78. Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, Lisboa, 2004.

12 As codificações tardias são fruto da terceira sistemática, aplicável também, a nosso ver, ao sistema do Direito Comercial, cfr. António Menezes Cordeiro, Os Dilemas da Ciência do Direito no final do Século XX - Introdução a CANARIS, Claus-Willem: Pensamento Sistemático e Conceito de Sistema na Ciência do Direito, Revista da Ordem dos Advogados, III, 1988, pág 758. 13 Cumpre, porém, e sempre, advertir que a realidade não é uma régua, nem uma série de caixas: não tem marcas distintas, nem conhece separações absolutas. Quando, portanto, estabelecemos, para a nossa conveniência mental, “fases” e “períodos” na vida e na história, e indicamos certos fenómenos como sinais do princípio e do fim dessas fases, não devemos esquecer que esses fenómenos, que nos servem convenientemente de balizas, não são instantâneos mas prolongados; e que, assim, há um largo espaço em que duas “épocas” sucessivas se confundem e se misturam, a ponto de não podermos bem dizer se tal ano ou caso está em uma ou outra delas, ou se não estará, por assim falar, em as duas ao mesmo tempo. Com esta reserva fundamental têm sempre que entender-se as classificações que se fazem na vida e, sobretudo, na história.” Fernando Pessoa, in Evolução do Comércio, Arquivo Pessoa, disponível on-line em http://arquivopessoa.net/textos/97.

14 Idem

15 António Manuel Hespanha, História das Instituições, Idade Medieval e Moderna, Coimbra, Almedina, pág. 59.

interesse. Na perspectiva “genética”, permite averiguar o modo como a organização social dos períodos posteriores foi condicionada (“gerada”) pelas instituições primitivas; numa perspectiva “estrutural”, proporciona o contacto com sociedades organizadas segundo uma lógica diferente, lógica que atribui às instituições isoladas (família, Estado, propriedade, etc.) funções sociais totalmente diversas das que hoje lhe competem. Assim, o estudo das civilizações primitivas contribui para a aquisição de uma perspectiva mais rigorosa … afastando a visão unilateral (mas comum) que consiste em supor que as formas e funções actuais das instituições são aquelas que lhes competem por natureza em qualquer fase da revolução histórica.”. Quando necessário, iremos pois buscar a períodos anteriores o que seja necessário para integrar o fio condutor da nossa investigação. O que faremos já de seguida, com o brevíssimo enumerar dos institutos jurídicos que remontam à Antiguidade e à Idade Média, mas que são essenciais à génese das sociedades por ações, sociedades anónimas e de capitais.

2 Os aspetos histórico-jurídicos essenciais da evolução do comércio. § 1º - Origens do comércio. O comércio na Antiguidade. Existe copiosa e interessante bibliografia sobre a evolução do comércio na Antiguidade, com detalhes históricos essenciais à compreensão do fenómeno da ligação umbilical entre a história do comércio e a história da própria civilização. A vastidão e o interesse do tema permitiriam por si só a elaboração de um trabalho autónomo, pelo que neste parágrafo dedicaremos a nossa atenção apenas aos aspetos histórico-jurídicos essenciais ao nosso tema.

1.1. Antiguidade Oriental e Antiguidade Clássica. Enquadramento espácio-temporal 16 :

O grande período histórico designado por Antiguidade normalmente situado entre 4.000 anos

antes de Cristo (a.C.) e a queda do Império Romano do Ocidente, em 476 depois de Cristo (d.C.),

é um período da História da Europa e do Médio Oriente marcado pelo aparecimento de diversas

Civilizações fundamentais na evolução do Homem e no desenvolvimento de novas práticas civilizacionais, designadamente do Comércio. Distinguem-se dois períodos fundamentais na Antiguidade, a Antiguidade Oriental e a Antiguidade Clássica. As principais Civilizações da Antiguidade Oriental desenvolveram-se no Próximo Oriente

e foram a Civilização Egípcia (no Vale do Nilo), a Civilização Mesopotâmia (que corresponde

16 Utilizaremos no nosso trabalho a periodização clássica da História da Humanidade, que identifica os seguintes períodos: Pré-História: Das origens do homem até c. 4000 a.C.; Antiguidade De c. 4000 a.C. a 476 d.C (queda do Império Romano de Ocidente); Idade Média: De 476 a 1453 (queda de Constantinopla e do Império Romano de Oriente); Idade Moderna: De 1453 a 1789 (Revolução Francesa); Idade Contemporânea: de 1789 aos dias atuais. Estamos cientes das críticas apontadas a esta periodização, mas apesar disso, optamos por utilizar a mesma para efeitos da exposição.

basicamente ao atual território do Iraque, entre os rios Tigre e Eufrates, desaguando no Golfo Pérsico), a Civilização Hebraica (no Vale do Jordão), a Civilização Fenícia (atual Líbano), a Civilização Persa (no Planalto do atual Irão), a Hindu (Planícies do Rio Ganges) e a Chinesa (Vales do Tang-tse e Huang Ho, ou Rio Amarelo). Estas primeiras Civilizações são também designadas Civilizações Fluviais 17 , pois surgiram maioritariamente, como vimos, nas margens de grandes Rios ou nas margens do Mar Mediterrâneo e do Golfo Pérsico, fundamentais para o desenvolvimento das Civilizações mais pujantes da Antiguidade. Todas estas civilizações da Antiguidade apresentaram características comuns como a invenção e desenvolvimento da escrita bem como de novos suportes para a mesma, como o papiro egípcio, a construção de obras monumentais, o desenvolvimento da agricultura extensiva, de sistemas de irrigação para controlar as cheias dos rios e beneficiar a agricultura, e o desenvolvimento das ciências, como a matemática, geometria, arquitetura e construção naval. Foram também responsáveis pelo abandono do sistema de troca direta de mercadorias e a criação da moeda (ou padrões monetários) e sistema de registo fiáveis, pelo descobrimento de sistemas de aferição, como a balança, bem como o estabelecimento de rotas de transporte, designadamente fluvial. Todas estas novas técnicas contribuíram para a criação de excedentes, que poderiam ser comercializados junto de outros povos, ao mesmo tempo que assim obtinham produtos e mercadorias não existentes no país. É pois assim que nasce o comércio, primeiro a nível interno, depois mesmo a nível internacional, como sucedeu por exemplo no Egito, que desenvolveu uma notável rede de comércio exterior, aproveitando o Rio Nilo e o Mar Mediterrâneo. Fundamentais no estudo das origens e desenvolvimento do comércio na Antiguidade são também os Fenícios. Divididos em cidades independentes, no território do atual Líbano, às portas do Mediterrâneo, os Fenícios foram grandes navegadores e comerciantes. Primeiro no Mediterrâneo, através do qual estabeleceram rotas comerciais com o Egito e com Creta. Depois, no I milénio a. C. saem do Mediterrâneo, ultrapassando os Pilares de Hércules (estreito de Gibraltar) e alcançam e exploram a costa ocidental de África, até o golfo da Guiné. Foram o primeiro povo a fundar colónias, como Cartago no Norte de África e Cádis, através das quais desenvolviam relações comerciais com os habitantes locais, na costa africana, na Península Ibérica e na Ásia Menor. Os Fenícios detiveram, desde 1200 a.C até cerca de 800 a.C., o monopólio naval e comercial em todo o Mediterrâneo, fruto da sua frota mercante. Tanto quanto

17 Antonino de Sousa e Flausino Tôrres, Civilizações Fluviais, Construção da Sociedade, I Série, nº 2, Empresa Contemporânea de Edições, Lisboa, impressão de1946.

se sabe, o comércio encontrava-se nas mãos da aristocracia fenícia falando-se mesmo dos “príncipes-mercadores fenícios”. Tradicionalmente, em oposição aos povos de outras civilizações, os Fenícios tinham verdadeira paixão pelo negócio e pelo lucro 18 . Eram exceção ao regime de monopólio comercial do Estado, que é praticamente omnipresente nas restantes civilizações da Antiguidade Oriental, com poucas exceções de comerciantes verdadeiramente “privados”. Recorde-se que o conceito de lucro na Antiguidade era mal visto, por razões filosóficas, e a atividade comercial era considerada indigna. O comércio era “gerido” pelo Estado, Soberano ou Cidade-Estado e os comerciantes eram instrumentos daqueles. A atividade mais digna era a da agricultura, pois esta criava a verdadeira riqueza desta época. A ultrapassagem do estigma do lucro e da atividade comercial 19 só veio a ocorrer muito mais tarde, na Idade Média, e é essencial para o desenvolvimento do comércio e do capitalismo, como veremos mais adiante.

1.1.1 Primeiras manifestações de legislação comercial, na Antiguidade Oriental.

Apesar do monopólio estatal, era inevitável o estabelecimento de regras de disciplina do comércio, sendo que chegaram até nós, desta fase da Antiguidade Oriental, dois 20 Códigos contendo referências às matérias comerciais, especialmente comércio marítimo: o Código de Manu 21 , proveniente da Índia, e o Código de Hamurabi, proveniente da Babilônia, datado de 1700 a.C. Este último, o de Hamurabi, é um código “de peso”, não só pela sua importância histórico- jurídica, mas também porque foi gravado num bloco de diorite, um impressionante bloco de pedra, de 2,25 metros de altura e 1,90 metros de circunferência, que se encontra no Museu do Louvre, em Paris. Este Código ficou conhecido pela consagração da pena de Talião, ou “olho por olho, dente por dentee continha nos seus 282 artigos um conjunto de legislação organizada em capítulos relativos a crimes e penas, matéria patrimonial, obrigações (avultando a consagração do regime de responsabilidade civil e obrigação de indemnização, regras quanto a empréstimos remunerados, contrato de depósito, de comissão e de transporte), família, sucessões, salários,

18 Armando Cortesão, Esparsos, Volume III Carta Náutica de 1424, pág. 39.

19 Os filósofos Gregos Platão e Aristóteles são lapidares na sua condenação às atividades lucrativas, como se sabe. Ver A República de Platão e A Política, de Aristóteles, em especial o notável capítulo “Da propriedade e dos meios de adquiri-la”, parágrafo “A aquisição crematística.”. 20 Em rigor, desta época chegou também um terceiro código, o Código de Ur-Nammu, de origem suméria, provavelmente datado de 2050 a.C., que é primeiro código jurídico escrito conhecido, mas tanto quanto se sabe, não contém disposições especialmente aplicáveis ao comércio.

21 O Código de Manu, colhido ao longo de séculos a.C, contém disposições de direito das obrigações a par das quais surge uma primeira definição de empresa. Ver Livro VIII, artigo 211, tradução inglesa disponível on-line em http://www.sacred-texts.com/hin/manu.htm.

normas especiais sobre os direitos e deveres de classes profissionais, posse de escravos, etc. Entre estas é possível identificar um vasto conjunto de regras aplicáveis aos comerciantes 22 , prevendo designadamente a associação destes a terceiros. Aparecem também como originárias da Antiguidade Oriental as normas costumeiras marítimas, originarias dos Fenícios e dos Gregos 23 , e compiladas já no período do Direito Romano, no Digesto de Justiniano, de que é exemplo máximo a Lex Rhodia de Jactu. A Lex Rhodia é uma das percursoras do Direito Marítimo, talvez a mais conhecida, e ainda hoje citada abundantemente na doutrina do direito comercial marítimo e direito dos seguros. Introduz o conceito força maior, de risco e partição de responsabilidades, consagrando as bases de uma solução jurídica do direito comercial marítimo que vingou até nós, a avaria grossa, prevista no artigo 639º do Código Comercial, na parte que ainda se encontra em vigor. O jurisconsulto Paulus menciona a Lex Rhodia em suas Sententiae (II, 7 ), sob a rubrica ad legem rhodiam, nos seguintes termos: “Em virtude dos princípios reunidos sob essa denominação (Lex Rohdia de Jactu), os proprietários de mercadorias lançadas ao mar (Jactu), em momento de perigo, por tempestades ou pirataria, devem ser indemnizados para que os prejuízos sejam suportados, proporcionalmente, por todos - pelo armador do navio e pelos donos das mercadorias salvas” 24

22 V.g. as célebres disposições de parceria, nos artigos 49 a 52, que se transcrevem em inglês: “49. If a man obtain money from a merchant and give (as security) to the merchant a field to be planted with grain and sesame (and) say to him: "Cultivate the field, and take to thyself the grain and sesame which is produced;" if the tenant raise grain and sesame in the field, at the time of harvest, the owner of the field shall receive the grain and sesame which is in the field and he shall give to the merchant grain for the loan which he had obtained from him and for the interest and

50. If he give (as security) a field planted with [grain] or a field planted with

sesame, the owner of the field shall receive the grain or the sesame which is in the field and he shall return the loan

for the maintenance of the tenant.

and its interest to the merchant. 51. If he have not the money to return, he shall give to the merchant [grain or] sesame, at their market value according to the scale fixed by the king, for the loan and its interest which he has obtained from the merchant52. If the tenant do not secure a crop of grain or sesame in his field, he shall not cancel his contract.”. Tradução de Robert Francis Harper, 1904, disponível em:

http://en.wikisource.org/wiki/The_Code_of_Hammurabi_(Harper_translation).

23 A doutrina divide-se quanto à origem da Lex Rhodia, se Fenicia se da Ilha de Rhodes, Grécia, como o nome parece indicar. Apesar de não fazer parte do objeto do nosso estudo, consultamos com interesse para o desenvolvimento da Lex Rohdia de Jactu, suas origens e versões: Jean-Marie Pardessus, Collection de lois maritimes antérieures au XVIIIe siècle, Imprimerie Royale, 1828.

24 Transcrição de texto de Mário Curtis Giordani, Iniciação ao Direito Romano, 3ª EDIÇÃO, 1996, EDITORA LUMEN JURIS, RIO DE JANEIRO. Volusius Maecianus, jurisconsulto que se dedicou ao ensino jurídico sob Marco Aurélio, (+ 180), narra-nos que Antonino, o Pio, (+161), atendendo a uma petição do grego Eudêmon, cujo navio naufragara em Icária, citou a lex Rhodia como a norma jurídica pela qual devia ser julgado o litígio entre Eudêmon e os publicanos de Icária que se haviam apoderado dos despojos do naufrágio. Eis a resposta de Antonino:

“Eu sou o senhor do orbe, mas a lei Ródia é a senhora do mar; julgue-se esta questão pela lei Ródia marítima no que ela não contrariar alguma de nossas leis. Assim também julgou o divino Augusto” (D. XIV, 2,9) pág. 63.

1.2.

Comércio na Antiguidade Clássica. Grécia.

Não cabe no âmbito deste trabalho a história da Grécia Clássica, tão só o evidenciar dos aspetos relativos à evolução do comércio. Importa por isso considerar que o apogeu da Grécia Clássica se situa aproximadamente no Século IV a. C., ficando a dever-se a Alexandre, o Grande, a colossal expansão do comércio na Grécia, a partir da Cidade de Atenas. Através da colonização, Alexandre dominou o Mediterrâneo desde e Mar Negro até a Sicília e Líbia. Chegou a Itália, a Espanha, à França. Foram fundadas colónias nas ilhas do Mar Jônio e do Mar Egeu, estabelecendo-se intenso intercâmbio marítimo entre colónias e outros países. “Preocupado em aumentar divisas, editou leis que regulavam e garantiam o florescente comércio internacional. Leis quase sem conteúdo comercial, mais de estímulo ao comércio. Ao invés de regular estritamente atividades comerciais, mais se destinavam a atrair povos alienígenas, oferecendo incentivos a quem participasse do crescente intercâmbio grego.”. Apesar da sua grandeza civilizacional (artes, cultura, educação, filosofia, organização das Cidades) a civilização grega assentava em modelos económicos essencialmente rudimentares, como a agricultura de subsistência. Na verdade, apesar do enorme desenvolvimento do comércio, designadamente marítimo neste período na Grécia Clássica, nas rotas entre cidades e com o exterior, constata-se que o comércio é maioritariamente exercido pelo metecos, estrangeiros a Atenas. Não podemos esquecer que na Grécia, os filósofos Platão e Aristóteles defendiam a pouca dignidade das atividades comerciais e criticavam o conceito de lucro, nos termos referidos na nota 19. Não obstante esta visão negativa das atividades lucrativas e da estatização da economia, é na Grécia que pela primeira vez aparece referência à propriedade privada, conceito que será desenvolvido e dará, ironicamente, origem e força ao desenvolvimento do sistema capitalista, tão criticado pelos filósofos Gregos Todo este poderio comercial internacional da Grécia Antiga, que leva os historiadores a classificar a Grécia Antiga como o Primeiro Império Comercial 25 , acabou afinal por não gerar qualquer conjunto ou corpo de legislação especial aplicável ao comércio, o que se poderá explicar pela força que o costume tinha face à lei, no Direito Grego Antigo.

O principal instituto mercantil que chegou à modernidade foi o Nautikon Dancion, ou Nauticum Foenus, ou Foenus Nauticus, que foi posteriormente acolhido no Digesto e chamado empréstimo a risco ou câmbio marítimo. Neste contrato, Nauticum Foenus, que alguns autores

25 Antonino de Sousa e Flausino Torres, Primeiro Império Comercial, I, Evolução Política e Social, Empresa Contemporânea de Edições, Lisboa, 1946.

classificam como comandita, o investidor empresta ao navegante uma determinada quantia em

dinheiro para financiar a viagem de transporte de mercadorias. Depois, das duas, uma: se o navio

e carga chegassem venturosamente (feliz arribada) ao porto de destino, o navegante teria de pagar

ao investidor o capital emprestado, acrescido de juro, variando a taxa de 21% a 30%, consoante a distância, duração e risco da viagem. Em caso de perda da mercadoria, por tempestades e intempéries ou pirataria), o navegador nada teria que pagar ao investidor, perdendo este capital e potenciais juros. Mais do que uma parceria, este contrato afigura-se-nos o antecessor do contrato de seguro, o que aliás é defendido unanimemente na doutrina do Direito Comercial Marítimo.

1.3. Comércio na Antiguidade Clássica. Roma.

Vamos restringir a nossa análise factual do Império Romano aos aspetos mais relevantes para

o nosso estudo, tal a dimensão e riqueza deste período da história da Antiguidade. Em termos

económicos, a agricultura era principal fonte de riqueza do Império Romano e o comércio a segunda. Não podemos esquecer que na época de maior esplendor do Império Romano (Sec. II a.C.), a cidade de Roma tinha já uma população aproximada de um milhão de pessoas. O Império era de dimensão colossal, com regiões e províncias na Ásia (Éfeso, Pérgamo, Esmirna, Sardes e Mileto), Síria (Antioquia, Alepo, Palmira, Damasco e Gérasa), Egito (Alexandria, a segunda cidade do Império), África Proconsular (situada no norte da atual Tunísia

e costa mediterrânica da atual Líbia, sendo Cartago a principal cidade), Portugal (Bracara Augusta,

Pax Julia, Miróbriga, Conímbriga e Aquae Flaviae), Espanha, Gália Narbonense (Provença) Bretanha (Londres), Itália (Arezzo), Macedônia (Díon, Pela, Tessalónica e Cassandreia), Germânia (Colónia), Judeia (Gaza e Jerusalém), Grécia (Acaia), Província Arábica (Petra e Bostra), Dácia, Bitínia (Nicomedia, Nicéia e Prusa), Panónia, Ilíria (no Mar Adriático), e Moesia, nos Balcãs. Entre todos estes lugares tão distantes desenvolveram-se redes de trocas comerciais, sendo que o comércio marítimo teve grande importância. No entanto, os romanos utilizaram a sua rede de estradas por si construídas e pela qual ficaram conhecidos, em paralelo com a sua frota naval, traçando rotas comerciais impressionantes em extensão e pelo número de bens que

conseguiam escoar. As Rotas da Seda, do Incenso, do Âmbar e as rotas de caravanas de camelos que deram corpo ao comércio transariano ficaram célebres. “A rede de estradas, que partia de Roma, o sistema monetário único, a língua e o sistema legal comum para todo o império garantiam o intercâmbio de bens e de pessoas, tanto por terra quanto por mar, para qualquer lugar, formando uma vasta região quase auto-suficiente e sem obstáculos políticos.

Através do comércio realizou-se uma importante ponte cultural dentro do Império Romano e com outras civilizações espalhadas pelo mundo, tendo o comércio desempenhado um grande papel histórico e cultural.” 26 .

1.4. Primeiras manifestações de legislação comercial em Roma.

O Direito romano a que nos referimos no nosso trabalhos corresponde ao complexo de normas vigentes em Roma e no Império, desde a sua fundação (lendária, no século VIII a.C.) até a codificação de Justiniano (século VI d.C.). Discute-se ainda hoje em dia a existência ou não do direito comercial em Roma como ramo especial do direito, pois o ordenamento jurídico romano continha inúmeras disposições relativas a diversos tipos de Societas. Concordamos com Menezes Cordeiro, que vê nas Societas não sociedades comerciais, mas simplesmente um contrato que traduzia uma relação de cooperação entre duas ou mais pessoas 27 . Mas é também de destacar a quase perfeição do sistema jurídico Romano e dos seus intérpretes. Não poderemos deixar de referir a intuição dos juristas romanos, que lhes permitiu a “identificação dos preceitos do direito, que a legislação justinianeia recolhe solenemente no Digesto (D. 1, 1, 10, 1) e nas Instituições (I.1, 1, 3) Os três preceitos do direito são: viver honestamente, dar a cada um o que é seu, não ofender os outros.” 28 . “Iuris praecepta haec sunt: honeste vivere, alterum non laedere, suum cuique tribuere.”, máxima brilhante de Ulpiano, que ainda hoje rege a vida do jurista e de que os sistemas civilizados de Direito são, inevitavelmente, tributários. “Finalmente: o Direito Romano deixou- nos uma Ciência a Ciência do Direito que tornaria possível, muito mais tarde, a articulação de um verdadeiro Direito Comercial.” 29 .

1.4.1. A“societas” do Direito Romano. Enquadramento.

A doutrina tem sido quase unânime no sentido de entender que no Direito Romano não houve um sistema de Direito Comercial 30 , e que este apenas viria à luz nos burgos medievais. Sem prejuízo da bondade dessa tese, consideramos que o Prof Menezes Cordeiro faz a leitura mais correta da situação: “para além de institutos claramente comerciais, deve-se ter em conta que o Direito Romano, mormente após a criação dos bonae fidei iudiciae, nos finais do Século II

26 Pagando, segundo Eco, a dívida pela citação de dados factuais neste parágrafo, citamos Valter Pitta, o Comércio no Império Romano, disponível on-line em http://imperioroma.blogspot.pt/2010/11/o-comercio-no-imperio- romano.html.

27 António Menezes Cordeiro, Direito das Sociedades Comerciais, I Parte Geral, 3ª edição, Almedina, 2011, pág 54.

28 António Pedro Barbas Homem, O Justo e o Injusto, A.A.F.D.L, 2001, pág. 16.

29 António Menezes Cordeiro, Direito Comercial, 3ª edição, Almedina, pág. 51. 30 Idem, pág. 48

a.C., justamente em observância às necessidades do comércio, dotou-se de contratos consensuais flexíveis, equilibrados e acessíveis a cives e peregrinos 31 . A esta luz, podemos afirmar que todo o Direito romano, designadamente no campo das obrigações e dos contratos, era Direito comercial. O Direito romano facultou-nos institutos aptos a desenvolver o tráfego comercial e a profissão do comerciante. (…) Tais institutos não foram articulados em sistema, uma vez que o próprio Direito romano não era sistemático.” Limitamo-nos a acrescentar que na ausência de regras de Direito Comercial, é plausível supor que o Ius Honorarium, criado pela atividade do Pretor supriu perfeitamente as deficiências do Ius Civile, permitindo a existência e regulamentação do comércio, sem outras exigências 32 .

1.4.2. Societas. Classificação.

Como se percebe, as Societas do Direito romano não são equiparáveis às atuais sociedades comerciais. Elas demonstram em simultâneo a sofisticação e as limitações do Direito romano:

por um lado, a sua regulamentação era tão sofisticada que forma a base das atuais sociedades civis e comerciais; por oposição, durante a sua vigência, as Societas não evoluíram para um sistema adequado às entidades comerciais da época 33 . Por duas razões fundamentais: as Societas não tinham personalidade jurídica distinta da dos sócios os bens não transitavam para o património da sociedade - nem existia um regime de limitação da responsabilidade dos sócios. Estes eram responsáveis pelas dívidas das sociedades e tinham a legitimidade de demandar pessoalmente os

devedores da Societas. Veremos posteriormente como estes dois aspetos são fundamentais na evolução das sociedades comerciais. As Societas tiveram origem no antigo consortium erctum non citum. Esta antiga forma de consortium é uma sociedade criada legal e naturalmente - entre os herdeiros para administrarem

31 Idem, António Menezes Cordeiro, ob. cit. 32 Não faz parte do objeto deste trabalho o estudo detalhado das fases de desenvolvimento do Direito Romano, mas que se identificam de seguida: 1ª - Direito arcaico ou quiritário (desde a fundação de Roma até a codificação das XII Tábuas); 2ª - o período de Augusto, poucos anos antes da vinda de Cristo , período de prevalência do jus gentium, o direito comum a todos os povos do Mediterrâneo. Fundado sobre o bonum et aequum e a boa-fé, o direito universal aplica-se a todos os homens livres; constrói-se um sistema jurídico de magistradosl, o jus honorarium que, por influência do jus gentium auxilia o jus civile. 3ª - O período do direito clássico constitui a época áurea da jurisprudência, chegando até o imperador Diocleciano. O direito recebe a maior elaboração científica dos jurisconsultos. O direito dos magistrados é substituído pela administração da justiça assumida diretamente pelo imperador. 4ª - Depois de Diocleciano, no IV século depois de Cristo, começa o direito pós-clássico. Faltam os grandes jurisconsultos, porém o direito se adapta aos novos princípios sociais firmados pela influência do Cristianismo. É nesse período se forma o direito moderno, codificado no VI século pelo imperador Justiniano. Cfr. Thomas Marky, Curso de Instituições de Direito Romano, interessante súmula dos aspetos mais relevantes do Direito Romano. On-line, em motor de busca, Curso de Instituições de Direito RomanoThomas Marky.

Berkeley, disponível on-line, em

http://emlab.berkeley.edu/~ulrike/Papers/Societas_Article_v3.pdf

33

Cfr.

Ulrike

Malmendier,

Societas,

University

of

California,

conjuntamente a herança indivisa de seu falecido Pater ( recorde-se que só este tinha personalidade jurídica e que os herdeiros só a adquiriam com a morte daquele.) As Societas eram um contrato destinado a regular as relações entre os sócios, e poderiam ser constituídas desde que para a prática de uma finalidade não contrária à Lei. Cada sócio deveria contribuir com dinheiro, trabalho , ou outros bens ou direitos . São quatro as principais formas que as Societas poderiam revestir 34 :

a) societas omnium bonorum, pela qual o património individual de todos os sócios, atual ou futuro, se tornava compropriedade de todos os socii;

b) societas omnium bonorum universorum quae ex quaestu veniunt, pela qual se integraria na Societas

apenas o património a ser adquirido pelos sócios após a constituição da sociedade;

c) societas alicuius negotiationes, constituída para exploração em comum de um determinado

negócio, para uma determinada aquisição, ou para uma parceria ocasional;

d) societas unius rei, que tinha por escopo uma única e determinada transação, fosse ela de

natureza comercial ou não. Exemplo de negócios organizados sob a forma de societas são as societas de argentarii (serviços financeiros, bancários), as exercitor (transporte marítimo) e outras parcerias para a comercialização de vinho (vinum), grão (frumentum), ou compra de escravos (mancipium).

1.4.3. O caso especial das societates publicanorum ou vectigalia 35

As societates publicanorum são sociedades de publicanos. Estes eram, originariamente, aqueles a quem o Estado adjudicava a odiosa tarefa da cobrança de impostos. Era o célebre sistema de arrendamento de impostos, pelo qual o Estado assegurava o pagamento dos mesmos, pelos publicanos, que arrecadavam as somas necessárias (e por vezes muito mais do que o devido, daí o sentido pejorativo do termo, tendo ficado célebre a expressão publicani et peccatores). A atividade original de arrecadação de impostos foi-se ampliando e estas sociedades chegaram mesmo a ser incumbidas da realização de grandes obras públicas e de gestão de interesses do estado, como o próprio aprovisionamento do exército, construção de estradas e obras de arte, ou exploração mineira 36 .

Ao contrário de Rui Figueiredo Marcos que traduz vectigalia como imposto, estabelecendo a diferença entre sociedades como de mera terminologia - entendemos que a

34 Cfr. Adolf Berger, Encyclopedic Dictionary of Roman Law, The Lawbook Exchange. 2004, texto original de

1954.

35 Rui Manuel de Figueiredo Marques, Companhias Pombalinas, pág. 16 e seguintes e respetivas notas.

36 Cfr. Geneviève Dufour, Les societates publicanorum de la République romaine : des ancêtres des sociétés par actions modernes ? (Université de Montréal), Revue Internationale des droits de l’Antiquité LVII (2010), Annexe I: Tableau des sociétés de publicains attestées dans les sources Républicaines, pág. 192.

diferença entre societates publicanorum e societates vectigalia reside na natureza do tributo cuja cobrança era adjudicada. Assim, os publicanos cobravam originalmente impostos e as societates vectigalia cobravam taxas aduaneiras devidas pela importação ou exportação de mercadorias e impostos devidos pelas explorações rurais. As vectigalia afiguram assim ser uma espécie do género societas publicanorum 37 . As societates publicanorum suscitam uma questão deveras importante para o nosso trabalho:

alguns historiadores de Direito 38 tem afirmado que desde a República Romana (séculos VI a I a.C.), os empresários publicanos formaram grandes empresas, com ações negociadas publicamente, à semelhança do que hoje se passa com as sociedades anónimas modernas. Seriam pois estas as antepassadas diretas das sociedades por ações. Seriam, numa feliz e impressiva expressão de Rui Figueiredo Marcos, miragens accionistas? 39 A verdade é que, ao contrário do que sucedia nas sociedades “comuns”, acima identificadas, as societates publicanorum detinham personalidade jurídica diferente da dos sócios 40 e tinham uma estrutura funcional complexa, semelhante à atual estrutura das sociedades anónimas: os socii, equivalentes aos acionistas, os decumani, equivalentes ao conselho de administração, e os magistri e pro magistri, equivalentes aos diretores, ou quadros de topo 41 . Havia a possibilidade de serem representadas e, mais importante ainda, havia um fundo comum e ações detidas pelos socii. Os socii recebiam lucros das suas ações e estas seriam transmissíveis sem dissolução da sociedade. Claro está que este tipo de sociedade, excecional, diriamos, só pode ser constituído em casos especiais 42 . Apesar das semelhanças com as sociedades em comandita, julgamos que não é possível, em boa metodologia, considerar estas sociedades como precursoras das atuais

37 Cfr. Neste sentido, W. W. Buckland, A Text-Book of Roman Law: From Augustus to Justinian, Cambridge,

1921.

38 V.g. Bouchaud, apud. Rui Figueiredo Marcos, ob. cit., pág 21.

39 Ob. cit., pág 16.

38 Cfr. Geneviève Dufour, Les societates publicanorum de la République romaine : des ancêtres des sociétés par actions modernes? (Université de Montréal), Revue Internationale des droits de l’Antiquité LVII (2010): “Le Digeste contient une règle énoncée par Pomponius prévoyant que les sociétés de publicains ne sont pas dissoutes par le décès d’un associé, et une autre règle énoncée par Paul prévoyant que le fait d’intenter une action pro socio n’a pas non plus pour effet de les dissoudre, au contraire de ce qui semble être la règle générale énoncée pour les sociétés ordinaires de droit romain”. Cfr, pela autoridade, Pietro Bonfante, Histoire du droit romain, 3e éd., Paris, Recueil, Sirey, 1928, p.323;

39 Para se ajuizar da complexidade estrutural da empresa, constumase identificar os seguintes membros da Sociedade de Publicanos: Manceps, Magíster, Promagistri, Decumani, Actor o Syndicus, Paredes, Adfines, Empregados, assalariados e escravos da sociedade.

40 Cfr. tradução de Gaio, por A. Watson, The Digest of Justinian, vol.1, Philadelphia, University of Pennsylvania Press, 1985: (D.3.4.1pr.-3) Gaius Provincial Edict, book 3 : Pr. Partnerships, collegia, and bodies of this sort may not be formed by everybody at will; for this right is restricted by statutes, senatus consulta and imperial constitutions. In a few cases only are bodies of this sort permitted. For example, partners in tax farming, gold mines, silver mines, and saltworks are allowed to form corporations.

sociedades por ações. Na verdade, mesmo tendo consultado os textos de Gaio, não há dados suficientes para afirmar esta ligação. Concordamos pois que, perante e inexistência de provas irrefutáveis às interpretações de cada autor, “a ânsia de tornar mais facilmente apreensível a descrição de institutos jurídicos antigos leva, por vezes, ao emprego de uma terminologia

desajustada, o que, mesmo salvaguardando a possível ausência de um instituto definitório, pode suscitar assimilações abusivas.” 43 . Teremos assim que buscar as antecessoras das sociedades por ações, como as conhecemos, noutro momento da história, não sem antes fazermos um balanço do período da Antiguidade.

1.5.

Balanço da evolução do comércio na Antiguidade, como rampa de lançamento da Idade

Média:

Em forma de balanço do que fica registado quanto a este longuíssimo período histórico da Antiguidade Oriental e Clássica, entre 4.000 anos a.C. e a queda do Império Romano do Ocidente, em 476 d.C., diremos:

Verifica-se, nestes quatro séculos e meio de história, uma profundíssima evolução civilizacional, face aos tempos pré-históricos. Nas várias civilizações referidas, com maior ou menor intensidade, o homem aperfeiçoa a agricultura com uso de tecnologia inovadora, desenvolve intensamente o comércio, deixa a mera vida rural, fixa-se em cidades com estruturas já de alguma dimensão. Desenvolvem-se as artes, as ciências, a cultura, a filosofia, começam a verificar-se novas formas de organização da sociedade, o pensamento económico vai evoluindo. Tomando como exemplo o Império Romano, o comércio desenvolve-se fruto da criação de moeda metálica, da escrita, da cartografia, das ciências náuticas, dos estabelecimento de rotas comerciais cada vez mais extensas e complexas, das aventuras coloniais, enfim, da utilização de uma língua comum e de um sistema jurídico aplicável a todo o Império. O comércio afirma-se pois como um verdadeiro motor da mudança na Antiguidade, não só pela riqueza que proporciona aos Estados e comerciantes, mas também e talvez essencialmente pela troca de ideias, experiências e cultura fascinantes que proporciona 44 . E, se por exemplo olharmos para o Império Romano, vemos um fenómeno quase semelhante à globalização atual… Não podemos também ignorar a importância estratégica do Mar Mediterrâneo em toda esta evolução, pois domínio político, social, colonial e comercial conseguiram-se precisamente por quem mais se aventurou por esse Mar fora. As Civilizações da Antiguidade admitiam a escravatura como normal, vigorando um sistema de estratificação social rígido, com nobreza,

43 Rui Figueiredo Marcos, ob. cit, pág 21, nota 27.

44 No mesmo sentido, Fernando Pessoa, obra citada, pág 3

clero e povo (a que acresciam os escravos, que não tinham dignidade de pertencer a qualquer classe). Como vimos, a atividade comercial e o lucro eram mal vistos e conceitos como a propriedade privada eram quase embrionários. E os comerciantes eram vistos como seres menos dignos, sendo-lhes vedados direitos tão essenciais como a da propriedade privada, por exemplo de terras. Á medida que os comerciantes foram inevitavelmente enriquecendo, verifica-se uma tendência para a corporização da classe, em busca de estatuto social, leis próprias, em suma, do poder do reconhecimento como classe social. Vimos também que na Antiguidade não se consagrou em especial qualquer sistema de Direito Comercial, apesar das evoluções dramáticas do Direito romano, especialmente no que se refere às sociedades e algumas mais sensíveis do comércio, como o marítimo, bancário, juros. De toda esta época ficou o enorme desenvolvimento da Ciência do Direito que, essa sim, permitiu o futuro surgimento do Direito Comercial e das Sociedades. Veremos como tudo isto evoluiu na segunda parte do nosso trabalho, relativa à Idade Média.

Capítulo II Da Idade das Trevas ao Renascimento do comércio no Século XII

§ 1º Enquadramento socio económico na Idade Média. 1.1. A Idade Média ou Período Medieval é o período histórico de aproximadamente mil anos que se estende entre os Séculos V (queda do Império Romano do Ocidente, em 476) e XV (queda de Constantinopla, tomada pelos turcos em 1453). Para efeitos didáticos, é usual a divisão da Idade Média em dois grandes períodos: a Alta Idade Média, do século V ao século X; e Baixa Idade Média, do século X ao século XV (início da Idade Moderna). 1.1.2. A Alta Idade Média teve início das chamadas invasões bárbaras, invasão de vários povos germânicos (francos, visigodos, álanos, vandalos e suevos, ostrogodos, lombardos, anglo-saxões e hunos) que ocuparam diversas regiões europeias ocidentais. Ãs invasões bárbaras ou germânicas representam (…) uma « acentuação das tendencias anteriores para a ruralização da vida económica, social e política, para a deterioração do comércio e da vida monetária, para a atomização do espaço económico. 45 ”. Foi também um período de profunda crise económica e social, pois fruto da revolução e medo generalizado provocado pelas invasões, as pessoas refugiaram-se nos campos, regressaram à economia ruralizada, em feudos, sob proteção do senhor feudal. O comércio perde o fulgor que tinha na Antiguidade, por força das invasões, desagregação do Império Romano do Ocidente e

45 António Manuel Hespanha, História das Instituições, Idade Medieval e Moderna, Coimbra, Almedina, pág. 81.

da consequente insegurança nas rotas comerciais, escassez de moeda e de excedentes de produção. Verifica-se uma grande supremacia da Igreja Católica e a sociedade deixa de assentar na relação Estado-cidadão, para passar a assentar em laços de servidão ou de subordinação pessoal, com base na recolha das pessoas à proteção dos senhores feudais, nos seus feudos. É o sistema do feudalismo, que acompanhará toda a Idade Média. O pensamento económico da Idade Média foi muito influenciado pela doutrina da Igreja Católica. A propriedade privada era permitida, mas desde que fosse usada com moderação. O conceito de lucro era novamente criticado e severamente restringido. O empréstimo a juros era condenado pela Igreja, ideia que, como vimos, vem dos filósofos gregos Platão e Aristóteles.

Do que antecede é fácil concluir que na Alta Idade Média o Comércio pouco evoluiu, antes pelo contrário. Por isso, não existem identificadas formas jurídicas associativas nesta época.

A

Alta Idade Média foi, certamente, a Idade das Trevas do Comércio. O mesmo já não se passou no período da Baixa Idade Média, onde a partir do Século XII

se

identificam novas formas de associação comercial dignas de destaque.

1.1.3. As formas associativas medievais a partir do Século XII 46 . Durante toda a Baixa Idade média, e até ao surto epidémico da Peste Negra do século XIV, a população Europeia cresceu de 35 para 80 milhões entre os anos 1000 e 1347. Verifica-se um crescimento muito significativo da população urbana, que determina o aparecimento de grandes cidades. A partir do século XI verificou-se grande transformação na vida económica dos povos da Europa, a que não foram estranhas o fenómenos das Cruzadas. A agricultura desenvolveu-se com a introdução de novas plantas e novos processos de cultivo. A economia rural foi substituída pela economia monetária. O Mediterrâneo, fruto da sua predestinação comercial, assim que deixou de ser dominado pelos povos muçumanos, transformou-se no “lago veneziano”, renasceu o comércio e novas rotas foram criadas. Surgiram as feiras, as confrarias, as corporações de mercadorias, as corporações de ofícios, os bancos, especialmente os italianos de Florença, que desenvolveram o cheque, a letra de câmbio, em suma, começa o capitalismo. A todas estas transformações económicas e sociais dá-se o nome de Renascimento do século XII (que não se confunde com a outra época histórica seguinte, o Renascimento ou Renascença), ligado essencialmente ao consagrar do inicio da sociedade capitalista e baseada no comércio.

46 Seguimos neste capítulo as obras de Max Webber, The History of Commercial Partnerships in the Middle Ages, tradução de Lutz Kaeber, Legacies of Social Thougt, Rowman & Littlefield Publishers, Inc., Rui Figueiredo Marcos, Companhias Pombalinas, ob. cit., e Rui Pinto Duarte, Escritos sobre Direito das Sociedades, Coimbra Editora, 2008.

Importa destacar 47 . os casos especiais das explorações de moinhos, designadamente dos moinhos de Toulouse, as explorações mineiras na Alemanha, a indústria metalúrgica, As Corporações de mercadores e as Ghilde, as companhias de navegação na Itália (as comendas, Génova e as societas

maris, Veneza e as collegantia), as Companhia di Terra e a Societas terrae, as Magna Societas Alemanorum ou Haushalt, da Alemanha, os grandes Bancos de Florença, das Famílias Bardi e Peruzzi e Médicis e finalmente a Banca di San Giorgio. Vejamos:

1.1.3.1. Corporações de Mercadores (Ghildes ou Hansas): Na Baixa Idade Média surgiram em vários países da Europa as associações de mercadores, chamadas ghildes ou hansas, para o exercício e defesa mútua das suas atividades mercantis. Ainda que tenham aparecido na França, na Flandres, na Inglaterra, na Espanha e em Portugal, a mais notável de todas foi a célebre Liga hanseática teutónica, na Alemanha, que era uma aliança de inúmeras cidades mercantis 48 , que estabeleceu e manteve um monopólio comercial sobre quase todo norte da Europa e Báltico entre os séculos XIII e XVII. De início com caráter essencialmente económico, a Liga Hanseática Teotónica desdobrou-se posteriormente numa aliança política. 1.1.3.2. Génova e as societas maris, Veneza, Piza e as collegantia: Apesar da similitude jurídica básica das soluções adotadas para as diversas formas de associações empresariais no comércio marítimo italianas, aquelas assumiam designações diferentes nas diferentes cidades portuárias 49 . As societas maris eram contratos que juntavam dois ou mais sócios no comercio marítimo, e se destinavam a obter financiamentos e partilha de riscos do negócio. No regime geral, um dos sócios é o gestor ou tractator, que aportava um terço do capital e ficava responsável pela realização do transporte. O outro sócio é o investidor, que se limitava a aportar dois terços do capital. Na distribuição de lucros finais da expedição, ou trimestralmente, cada sócio recebia metade dos lucros apurados na atividade da societas maris 50 .

47 Rui Figueiredo Marcos, ob. cit., pág. 24 e seguintes.

48 Círculo Sórbio e Pomerano: Lübeck (Cidade líder) Hamburgo, Lüneburgo, Rostock, Estetino, Stralsund, Wismar; Círculo Saxônico, Turíngia e Brandeburgo: Braunschweig (Cidade Chefe), Berlim, Bremen, Erfurt, Frankforte, do Óder Goslar Hildesheim Magdeburgo (Cidade Chefe), Círculo da Suécia, Polônia, Prússia, e Livónia: Danzig (Gdansk, Cidade líder), Breslau (Wroclaw), Dorpat (Tartu), Elbing (Elbląg), Konisberga (Kaliningrad) Reval (Tallinn) Riga, Estocolmo, Thorn, Visby, Cracóvia; Círculo dos Países Baixos, Reno, Vestfália, Colónia, (Cidade líder), Roermond, Deventer, Dortmund, Groninga, Kampen, Osnabrück Soest Casas de Condes Kontore Principal Bergen, Bruges, Londres, Novgorod, Kontore Subsidiário Antuérpia, Boston, Damme, Edimburgo, Hul,l Ipswich, King's Lynn, Kovno, Newcastle, Polotsk, Pskov, Great Yarmouth, York! Fonte Wikipédia.

49 Ver Max Webber, ob. cit., com detalhes preciosos das diferenças de regime, cidade a cidade.

50 Max Webber, ob. cit, pág 69.

1.1.3.3. Commendas ou Collegantias 51 : As comendas diferiam das Societas Maris porque nas commendas, o investidor (socius stantus ou comendador) aportava a totalidade do capital necessário, enquanto que o sócio gestor (tractator ou comendatário) efetuava a expedição marítima. A distribuição de dividendos era de três quartos para o comendador e o quarto remanescente para o comendatário ou tractator. Ao contrário da Societas Maris, na Commenda o socius stantus assume todo o risco da empresa, porque se a expedição não for rentável, arca com a totalidade dos prejuízos. A vantagem desta forma residia no facto de não se saber quem é o investidor, o que poderia ser vantajoso para captar capitais que não pudessem ou não quisessem ser associados ao comércio. A doutrina defende que estas formas de associação foram as predecessoras das sociedades em nome coletivo e das sociedades em comandita. 1.1.3.4. As Compagnia di Terra e as Societas terrae: São contratos que visam igualmente a captação de investidores para o financiamento de atividades não marítimas e partilha de riscos. No primeiro caso, das Compagnias di Terra ou Fraterna Compagnia, de Veneza e da Toscânia, os membros têm normalmente ligações familiares uns com os outros e o contrato rege a remuneração do investimento e do trabalho, bem como a forma de partilha do risco da empresa. As Societas Terrae destinam-se a regular aqueles negócios em que um investidor empresta uma determinada soma de dinheiro, para atividades comerciais, artesanais ou bancárias não marítimas, pois estas eram as societas maris - por um determinado período de tempo, normalmente três anos, recebendo no final o capital emprestado, mais uma percentagem do lucro, normalmente, de 50% do mesmo. As eventuais perdas eram suportadas pelo investidor e este não era responsável face a terceiros. 1.1.3.5. A Magna Societas Alemanorum: no Sul Alemanha surgiram formas associativas também semelhantes às Compagnias. Estas empresas alemãs eram inicialmente de natureza puramente familiar e dedicavam-se à atividade de comércio por grosso, sendo verdadeiras fortalezas comerciais na colocação dos seus produtos no mercado interno e internacional 52 . Inicialmente o capital era aportado pelos sócios familiares, mas rapidamente estas sociedades começaram a admitir a entrada de capital de terceiros, como capital de risco para receberem um lucro variável ou uma taxa fixa de remuneração. Começam a surgir desta forma as Companhias e formas de associação com um significado muito próximo ao da sociedade que hoje conhecemos. No início, essas empresas eram da natureza familiar, eram associações fechadas a terceiros, onde todos os membros da família tinham a representação da sociedade e eram solidariamente responsáveis pelos atos praticados em nome daquela ou especificamente destinadas á exploração de um determinado empreendimento,

52 Além de serem percursoras das sociedades aparecem como percursoras de um importante negócio da atualidade, a distribuição comercial.

com recurso a capitais financiados. É durante este período da história que surgem os verdadeiros antepassados das sociedades comerciais por ações, ou seja em que havia partes ideais do condomínio negocial, que eram transmissíveis, e formas de limitação da responsabilidade aos montantes investidos.

1.1.3.6. Os Banqueiros de Florença. Os banqueiros florentinos tiveram uma relevância essencial,

cabendo destacar os bancos das Famílias Bardi, Peruzzi, Guardi e Strozi e posteriormente os Médicis, que todos suplantaram. Quando os comerciantes chegavam àquela riquíssima zona para se abastecerem, traziam valores em ouro. Era o banqueiro quem fazia a pesagem de moedas, avaliação da autenticidade e qualidade dos metais e os trocava por moeda com curso legal, em

troca de uma comissão, como cambista. Com o enorme desenvolvimento dos negócios, os banqueiros passaram a aceitar depósitos monetários e, em troca, o banco emitia um certificado de depósito. E é aqui que o dinheiro se torna, em si, uma mercadoria: percebendo que nem sempre as pessoas retiravam tudo o que haviam depositado, concluiu-se que sempre haveria dinheiro para circular excedentes - que poderiam ser emprestados a terceiros, mediante o pagamento de juros. Os Bancos passaram a ter o “capital social” com uma dupla origem: de um lado o capital que cada um dos parceiros tinha realizado e, de outro, os depósitos obtidos de terceiros. Esta foi a base para o enriquecimento dos banqueiros, que deixaram de ser simplesmente “cambistas” para passarem a ser negociantes de dinheiro. Importa também notar que, com a queda do feudalismo, os banqueiros passaram a proprietários de terras entregues em pagamento de dívidas dos senhores feudais, o que os transformou numa classe social muito poderosa: a Burguesia 53 , que seria essencial nos desenvolvimentos histórico-económicos seguintes.

1.1.3.7. Banco di San Giorgio. No século XV ocorreu na cidade de Gênova, um grande evento,

como um antecedente direto da sociedade comercial por ações moderna 54 . Em 1407, a grande maioria dos credores das comunas italianas, especialmente de Génova fundiram-se num único organismo, a empresa que ficou conhecida por Casa ou Banco di San Giorgio, mas que se designava efetivamente “monte o la società delle compère e de banchi di S. Giorgio. Este Banco emitiu os luoghi, semelhantes a ações, que atribuíam primeiro um juro fixo e depois variáveis. Concedeu crédito a

particulares, cobrando juros. O surgimento do Banco de San Giorgio é um precedente relevante para a formação da estrutura atual da sociedade por ações.

53 Comparato explica a origem do termo: O renascimento do comércio a partir de fins do século XII, consequente à retomada da navegação marítima no Mediterrâneo e à reconquista das áreas territoriais ocupadas pelos invasores sarracenos, provocou apreciável crescimento demográfico e fez que surgissem novos centros urbanos, chamados “burgos de fora” (forisburgus). Os que nele se instalaram, notadamente os comerciantes, passaram a ser chamados burgueses. 54 Por todos e com desenvlovimentos, Rui Figueiredo Marcos, ob. cit., pág 29 e segs.

§ 2. O Ius mercatorum e o início do Direito Comercial.

2.1. Remonta também a esta época e lugar o aparecimento do Ius Mercatorum, que regula a

atividade dos comerciantes mercadores, mas também e sobretudo porque é direito criado pelos próprios mercadores. O ius mercatorum nasce, portanto, como um direito directamente criado pela classe mercantil, sem a mediação da sociedade política 55 ; nasce como um direito imposto em nome de uma classe, e não eclesiásticos, aos nobres, aos militares. “A razão substancial para tal reside, de modo claro, na ascensão política da classe mercantil. O poder que possui na cidade permite-lhe não apenas desenvolver em benefício próprio o direito e a política municipais, mas também, quando o crê necessário, fundar a sua pretensão hegemónica na mediação das instituições da cidade” 56 , 57 . 2.2. Residem no Jus Mercatorium as origens do Direito comercial. Nesta fase inicial do seu

desenvolvimento, o Direito Comercial é puramente subjetivo, em função de um dos sujeitos das relações comerciais por ele regidas ser um comerciante. Pressuposto da sua aplicação é o mero facto de se haverem estabelecido relações com um comerciante 58 .

3 . A transição para a Idade Moderna. O comércio e os Descobrimentos e Colonização. A Idade Moderna é um período específico da História do Ocidente. Destaca-se por ter sido um período de transição da Baixa Idade Média para o Renascimento, ou Renascença, em especial no que respeita ao nosso estudo pela profunda alteração das formas de comércio, muito influenciadas pelos descobrimentos e colonização. A Idade Moderna inicia-se em 1453 quando ocorreu a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos, e tem o seu termo na Revolução Francesa, em 14 de julho de 1789. Em termos económicos, surge o Mercantilismo, que terá grande impacto na história do Comércio. No início da era mercantilista, ocorreu a referida transformação política na Europa, com o fim do feudalismo e fortalecimento do Estado e centralização da política nacional. Aos poucos, foi-se formando uma economia nacional relativamente integrada, com o Estado central ao comando. O Estado criou universidades e lançou-se em grandes empreendimentos, como as navegações e colonização dos territórios descobertos. No plano geo-estratégico, as descobertas marítimas e o afluxo de metais preciosos

55 Rui Pinto Duarte, Estudos de Direito das Sociedades, A evolução do direito das sociedades português, pág. 82 e segs.

56 Idem, ob cit.

57 Ver também, no mesmo sentido, v.g. Fabio Konder Comparato, ob.cit., António Menezes Cordeiro, Direito Comercial, cit. Págs 51 e segs.

58 Idem, ob.cit.

para a Europa deslocaram o eixo económico do Mediterrâneo para novos centros como Londres, Sevilha e Lisboa. A partir de agora, centraremos a nossa análise no caso português.

Parte II A evolução em Portugal das formas de organização de empresas e do Direito Comercial até finais do Século XIX

Capitulo I Os descobrimentos e as Companhias Privilegiadas até ao Marquês de Pombal.

1. A partir do século XV, o capital revestiu-se de importância fundamental para o

desenvolvimento do comércio, pois os empreendimentos necessários para o desenvolver eram

cada vez mais avultados. Tornou-se assim cada vez mais importante o desenvolvimento de novas formas societárias que permitissem a captação de elevadas somas de capital proveniente de investidores.

2. Em Portugal, verifica-se uma situação anómala digna de destaque. Apesar de ter sido o

primeiro Estado a evidenciar descobrimentos tão significativos quanto a do Caminho Marítimo para a India, foi dos últimos a implementar as grandes companhias mercantis 59 . Fica isto a dever- se ao facto de os Descobrimentos terem sido conduzidos e monopolizados pela Coroa, desde o Infante D. Henrique até a D. Manuel I, numa manifestação clara do designado Comércio de

Estado. Por isso, antes do Século XVII, temos apenas dois ou três assomos de companhias

mercantis, entre as quais a mais importante é a Companhia de Lagos, fundada em 1444 e que tinha o objetivo de incentivar e desenvolver o comércio africano e dar expansão ao tráfico de escravos. Havia também nesta fase em Portugal algumas situações de Concessão individual, como

a do monopólio da exploração de cortiça ao genovês Marco Lomelim, em 1456, por carta de

contrato e obrigação, ou já no século XVI, a concessão do comércio exclusivo de vinte cinco léguas de costa no largo do reino da Cochichina, por D. Sebastião a Pero da Cunha.

3. Em termos europeus, a partir do Século XVII, a figura escolhida para prosseguir a

colonização e delas extrair fortes rendimentos foi a das Companhias Privilegiadas. A primeira foi

a Companhia Holandesa das Indias Orientais, no começo do Século XVII. “Nela se descobria uma

conjugação preciosa de traços típicos: a permanência da corporação, o fracionamento do capital em ações, a índole transmissível dos títulos, a responsabilidade limitada, enfim, a sua vocação para um exercício de grande magnitude empresarial. Não admira pois que comummente se afirme

59 Seguimos aqui Rui Figueiredo Marcos, Companhias Portuguesas de Comércio anteriores ao Século XVII, ob. cit pág 745.

que as Companhias Holandesas assinalam o ponto de partida do espantoso desenvolvimento das sociedades por ações nos séculos XVII e XVIII ” 60 . As Companhias Privilegiadas organizavam-se na Europa segundo dois modelos distintos, o modelo jurídico inglês (East India Company e as chartered companyes) e o continental, representado pelas Companhias holandesas, como a das Índias Orientais, com vários e diferentes níveis de participação societária.

4. Em Portugal, a primeira Companhia de Comércio foi a Companhia da India Oriental, de

1628. Rui Figueiredo Marcos chama muito justamente a atenção para o Regimento de 27 de Agosto de 1628, como marco basilar da história do direito das sociedades em Portugal 61 , que estuda detalhadamente. Nele se consagra a disciplina da vida interna e externa da Companhia e

dali se infere a proximidade da Companhia com as sociedades por ações modernas.

5. Com a Restauração, em 1640, sob o reinado de João IV, iniciam-se novas Companhias de

Comércio, como a monopolista Companhia Geral para o Estado do Brasil (1649), cuja constituição foi rodeada de acesa polémica religiosa, pois se admitia a entrada de capital de cristãos novos. Este facto e ser a primeira, ajudou esta Companhia a nunca se ter verdadeiramente afirmado. Seguiram-se, na segunda metade do século XVII, Companhias no Brasil, África e India, como a Companhia de Cacheu e Cabo Verde, de 1675, a Companhia do Estanco do Maranhão e Pará, de 1682, a Companhia da Índia Oriental (1628), Companhia da Costa da Guiné (Companhia do Porto de Palmida, de 1664 e as pouco relevantes Companhia para o Comércio da China (1687) e a Companhia para o Comércio de Timor (1689).

6. Em todas elas era concedido o monopólio de exploração de uma zona e de um

determinado tipo de produtos, à Companhia, que tinha acionistas investidores ou interessados na exploração. Era atribuída uma remuneração ao capital investido, proporcional aos lucros obtidos pela Companhia e em função do número de ações detidas pelo sócio. Eram também concedidos privilégios, como as isenções fiscais e aduaneiras, sendo também evidente o papel de fomento que o Estado lhes pretendeu incutir. Consagravam também, pela primeira vez expressamente, a limitação da responsabilidade dos sócios, como veremos abaixo. Capítulo II O modelo societário das Companhias Pombalinas. Primeiras sociedades de capitais em Portugal

2.1. A segunda metade do século XVIII representou, para Portugal, um período muito importante, a partir de 1750, quando D. José I assumiu o trono. D. José I constituiu um governo forte e centralizado no Ministro Sebastião José de Carvalho e Mello, futuro Marquês de Pombal.

60 Rui Figueiredo Marcos, As Companhias Pombalinas, ob. cit, pág. 45 e segs.

61 Ob. cit, pág. 132.

2.2. Na economia, o princípio da organização do comércio por Companhias atinge o seu auge. Foram criadas duas para atuar em Portugal, a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro ou Real Companhia Velha (1756-2006) 62 e a Companhia Geral das Pescas Reais do Reino do Algarve. Para operar fora do continente, foram criadas a Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão (1755), a Companhia Geral de Comércio de Pernambuco e Paraíba (1756), a Companhia do Comércio da Ásia Portuguesa (1753) e a Companhia de Comércio da Costa d'África (1780).

2.3. Em temos jurídicos, as Companhias Pombalinas revestiam-se de um fundo comum: eram

de natureza privilegiada, concedendo monopólios e benefícios fiscais e aduaneiros e o fundo social encontrava-se dividido em ações: eram pois Companhias Privilegiadas por ações, de caráter vincadamente capitalístico. Uma vez que temos de delimitar o nosso estudo e esta problemática pertinente ao arco temporal pombalino excede o âmbito do nosso trabalho, remetemos para a monumental obra de Rui Figueiredo Marcos, As Companhias Pombalinas, quanto à disciplina

normativa, capital social, sócios, administração, morfologia e regulamentação jurídica das ações das companhias pombalinas e tributação favorável dos sócios.

2.4. Limitamo-nos a referir um tema essencial para o nosso trabalho, que respeita à autonomia

patrimonial e à limitação da responsabilidade dos sócios, pois este aspeto é fundamental: o tema foi estudado por Rui Figueiredo Marques, ao qual dedica um capítulo inteiro 63 e o tema não é para menos. Na verdade, a doutrina comercialística dá por assente que em todas as Companhias

(não só nas Pombalinas, mas também nas anteriores), existiria o regime da limitação da responsabilidade. No entanto, dos textos que tivemos oportunidade de compulsar, não é assim. Pelo contrário, os estatutos das primeiras Companhias do Século XVII referem mesmo a solução diversa… Por isso, foi necessária a investigação do referido Autor, que conclui que apenas a partir da Companhia Geral para o Estado do Brasil, de 1628) se banalizou o texto do último

artigo dos estatutos, ao consagrar o princípio da limitação da responsabilidade dos sócios ao montante da sua entrada de capital 64 .

2.5. Podemos assim concluir que, dotadas dos mecanismos jurídicos da autonomia patrimonial,

da limitação da responsabilidade dos sócios ao valor da sua entrada, de formas de organização

adaptada a grandes empreendimentos, da divisão de capital em ações, transacionáveis e com

62 Cfr a sua interessantíssima história de 250 anos, em “A Companhia e as relações económicas de Portugal com o Brasil”, em http://www.cepese.pt/portal/investigacao/publicacoes/o-douro-e-a-real-companhia-velha/a- companhia-e-as-relacoes-economicas-de-portugal-com-o-brasil-a-inglaterra-e-a-russia.

63 Rui Figueiredo Marques, Companhias Pombalinas, págs. 555 a 572.

64 Idem, pág. 565. O texto padrão era: “”obrigando, por si em particular, os cabedais com que entram nesta Companhia sómente, e da mesma maneira ao geral de mais Commercio, e pessoas que de fora delle entrarem, para que sua Magestade se sirva de confirmar a dita companhia com todas as cláusulas, preeminências, mercês e condições, contheudas neste papel, ecom todas as firmezas, que para a sua validade e segurança forem necessárias.”.

rendimento associado, logo suscetíveis de atrair capital intensivo, aliado à concessão de monopólios gerais e absolutos do comércio 65 , as Companhias Pombalinas foram as primeiras sociedades de capitais 66 entre nós.

Capítulo III A disciplina normativa do Comércio em Portugal no Século XVIII. Louvor aos comerciantes 3.1.Como temos visto e veremos ao longo deste trabalho, só mais tarde (Século XIX) se conseguiu a tão desejada codificação e sistematização do Direito das Sociedades. Até ao tempo do Marquês de Pombal, as matérias relativas a sociedades apenas apareciam nas Ordenações Filipinas de 1603, sendo omissas nas anteriores, Afonsinas e Manuelinas. A matéria das sociedades aparecia regulada no Livro XLIV, Sociedade e parceria. Ora, sob inspiração do Marquês de Pombal, foi publicada a Lei de 18 Ago. 1769 - ou Lei da Boa Razão, pela quantidade de vezes que esta expressão era utilizada ao longo do texto legal. Este importantíssimo diploma veio reorganizar o sistema das fontes de Direito aplicáveis em Portugal. No campo mercantil, a Lei de 18 Ago. 1769, no seu artigo 9.° 67 , a Lei da Boa Razão remetia, em caso de necessidade, para as Leis das Nações Cristãs. O assento da Casa da Suplicação, de 23 Nov. 1769, veio ainda complementar que as obrigações dos comerciantes e suas formas, não havendo sido reguladas pelas leis do Reino, devem reger se pelas leis marítimas e comerciais da Europa e pelo Direito das Gentes e prática das nações comerciais. Claro está que o Direito e a Jurisdição comerciais chegaram, assim, a um estado lamentável 68 , pelas dificuldades de aplicação de sistemas desconhecidos ou escolha do melhor sistema. Os Assentos da Casa da Suplicação ajudaram à definição mais adequada das regras comerciais aplicáveis a casos concretos. 3.2. Do período Pombalino ressalta, com importância para o nosso trabalho, a Lei de 30 de Agosto de 1770, que alcandora a atividade comercial a atividade muito mais importante para o

65 Aliás, as Companhias ressurgiram em Portugal no final do Século XIX com a designação de Majestáticas ou coloniais, v.g. Companhia de Moçambique (1891), Companhia da Zambézia (1882), e Companhia do Boror (1892) - mas entre as antigas e as modernas companhias encontram-se diferenças assinaláveis. As antigas companhias eram detentoras de um monopólio geral e absoluto do comércio, que foi interdito às companhias do Século XIX.”. Pedro Caridade Freitas, ob. cit. pág 338.

66 Por oposição às sociedades de pessoas, onde também pode haver captação de capital, mas necessariamente em menor escala, por inadaptação estrutural para o efeito.

aquella boa razaõ, que se estabelece nas Leys Politicas, Economicas, Mercantis, e Maritimas, que as mesmas

Nações Christãs tem promulgado com manifestas utilidades, do socego publico, do estabelecimento da reputaçaõ, e do augmento dos cabedaes dos Póvos, que com as disciplinas destas sabias, e proveitozas Leys vivem felices á sombra dos Thronos, e debaixo dos auspicios dos seus respectivos Monarcas, e Principes Soberanos: Sendo muito mais rationavel, e muito mais coherente, que nestas interessantes materias se recorra antes em cazos de necessidade ao subsidio proximo das sobreditas Leys das Nações Christãs, illuminadas e polidas, que com ellas estão resplandecendo na boa, depurada, e sãa Jurisprudencia;

68 Menezes Cordeiro, O sistema lusófono de Direito, ob. cit.

67 (

)

Estado 69 que a indústria ou a administração da justiça, estabelecendo exigentes requisitos para o ingresso e manutenção nesta atividade. Matricula na Junta do Comércio e formação na Aula do Comércio passam a ser essenciais. Note-se que os comerciantes membros da Direção da Junta de Comércio passavam a ser considerados Nobres 70 .

Capítulo IV Do Marquês de Pombal aos Códigos oitocentistas

1. Como vimos, nos tempos de Pombal continuava a faltar entre nós um Código Comercial

que sistematizasse a legislação relativa ao comércio, os comerciantes e as sociedades, o que só

veio a acontecer com os Códigos oitocentistas do Século XIX. A Lei da Boa Razão obrigou a doutrina portuguesa a conhecer e a manusear leis mercantis estrangeiras e a tentar sistematizar a legislação em vigor, “nacional” e estrangeira 71 . O que foi essencial para o aparecimento do primeiro Código Comercial Português, o Código de 1833, conhecido como Código de Veiga Beirão. Não podemos pois deixar de referir, ainda que de passagem, a brilhante e monumental obra de Pascoal José de Melo Freire, as Instituições do Direito Civil Português, que em 1779 “codificou” nesta obra toda a legislação vigente em Portugal, relativa às mais diversas matérias civis. É uma obra essencial ao estudo da história do Direito anterior à mesma 72 .

2. Essencial para a Codificação nacional foi também o Código Comercial Napoleónico, de

1807, que é o primeiro código comercial, com sistematização própria e autonomizado do Direito

Civil. É pois também o marco inicial da autonomia científica do Direito Comercial e das

Sociedades. O Código adota uma visão objetiva do ato comercial, que passa a ser objetivo, largando as teses medievais subjetivas, pelas quais a relação em que intervenha um comerciante era regida pelo direito dos mercadores.

3. O Code de Commerce de 1807 reconhece 73 as sociedades de pessoas e as sociedades de

capital. As sociedades comerciais têm, todas, personalidade jurídica (e são designadas personnes morales). Reconhece também, mas não como sociedade, a associação em participação.

69 Talvez na senda da luta do Marquês de Pombal com os jesuítas e com a nobreza (veja-se o caso dos Távoras), tenha decidido tomar partido por esta classe social emergente… 70 Pascoal José de Melo Freire, Instituições do Direito Civil Português, Livro I, disponível on-line em:

http://www.iuslusitaniae.fcsh.unl.pt/verobra.php?id_obra=76

71 Socorremo-nos neste ponto do ensinamento de Fernando Olavo, Direito Comercial, Volume I, 1979 e de António Menezes Cordeiro, O Sistema Lusófono de Direito, ob. cit 72 A título de exemplo, contem a lei aplicável às sociedades e refere temas como a Lex Rodia de Jactu e a Nauticus Foenus, da Antiguidade, e já referidas neste trabalho. 73 Seguimos aqui o excelente “Code de commerce de 1807, accompagné de notes et observations”, por M. Fournel, Paris, 1807, disponível on-line em:

http://books.google.pt/books?id=UTNSAAAAYAAJ&hl=pt-PT&pg=PR6#v=onepage&q&f=false

4.

O Code de Commerce estabelece e regula três tipos de sociedades, a sociedade em nome

coletivo, as sociedades em comandita e as sociedades anónimas. Quanto à responsabilidade dos sócios, o artigo 22º estabelece a responsabilidade solidária de todos os sócios pelas dívidas da sociedade em nome coletivo, o artigo 26º estabelece que o sócio comanditário não é responsável

por dívidas sociais além do valor da sua entrada e, quanto às sociedades anónimas, o artigo 33º

estatui que os sócios não são responsáveis por dívidas além do valor da sua entrada para o capital da sociedade.

5. As sociedades anónimas são assim designadas porque a sua firma não podia conter o

nome de qualquer um dos sócios, apenas referência à atividade social. O Capital está dividido em

ações. Porém, o artigo 37º estatui que as sociedades anónimas só podem ser constituídas com autorização do governo. Mas ainda assim, é um verdadeiro passo de gigante na legislação das sociedades anónimas e que tanto influenciou o primeiro Código Comercial português, de Ferreira Borges.

Capítulo V As sociedades no Código Commercial Portuguêz de 1833

1. O Código Commercial Português de 1833, aprovado pelo Decreto de 18 de Setembro de

1833, entrou em vigor em 14 de Fevereiro de 1843. Ficou conhecido como o Código de Ferreira Borges, brilhante comercialista português que “ofereceu” a Sua Majestade o respetivo Projeto. Menezes Cordeiro contém no seu Direito Comercial interessantes indicações sobre este Código,

estrutura, dificuldades de elaboração, méritos do diploma e do trabalho complementar ao Código levado a cabo por Ferreira Borges, para onde remetemos 74 o leitor mais interessado.

2. Quanto às matérias mais relevantes para o nosso trabalho, importa destacar o caráter

inovador do código, pois ele é publicado sem o apoio de um Código Civil, (ao contrário do Code

de Commerce de Napoleão, que beneficiou da publicação do anterior Código Napoleónico,

Código Civil dos Franceses), em verdadeira afirmação de autonomia do Direito Comercial.

3. Relativamente às formas de organização societária, o Código de Ferreira Borges distingue, no

artigo 526º as Companhias de Commercio, as Sociedades Commerciaes e as Parcerias Mercantis.

4. As Companhias de Commercio são definidas no artigo 538º, como associação de acionistas

sem firma social, qualificada pela designação do objeto da sua empresa, e administrada por mandatários temporários, revogáveis, acionistas ou não acionistas, assalariados ou gratuitos. Os acionistas de uma Companhia não respondem por perdas além do montante do seu interesse nela, segundo o artigo 543º do Código. O fundo da Companhia é dividido em ações, transmissíveis, tudo nos termos do artigo 544º. Como em França, as Companhias apenas podem

74 António Menezes Cordeiro, Direito Comercial, ob. cit. Págs 95 a 101.

ser estabelecidas por autorização especial do governo e aprovação da sua instituição, conforme dispõe o artigo 546º. 5. Quanto às sociedades commerciais, o artigo 548º do Código distingue as sociedades ordinárias - em nome coletivo, ou com firma, consoante o nome escolhido seja o dos sócios ou uma firma comercial e as sociedades de capital e indústria. Nas sociedades ordinárias, não há personalidade jurídica coletiva, os sócios são havidos como coproprietários dos bens sociais (artº 550º). E, como em França, são solidariamente responsáveis pelas dívidas sociais, conforme disposto no artigo 549º. As sociedades de capital e indústria (para além das sociedades tácitas e das associações em conta de participação) são sociedades em que um sócio aporta capital para uma negociação comercial em geral ou para uma operação mercantil em particular, e o outro ou outros sócios entram somente com a sua indústria. A responsabilidade dos sócios de capital é solidária e estende-se além do capital entrado na sociedade.

6. Finalmente, a parceria mercantil é em geral toda a associação conjunta de comerciantes em

comunhão, sem ânimo de sociedade. Em regra os compartes não são obrigados para além da porção de cabedalcom que entram na parceria mercantil, isto conforme previsto nos artigos 577º e 581º).

7. Este Código foi muito importante, pois veio suprir as deficiências de um ordenamento

disperso resultante da aplicação da Lei da Boa Razão, criando um corpo normativo organizado, inovador e elaborado, destinado a regular as relações jurídicas originadas pelas atividades comerciais. Com a autêntica revolução 75 sócio-económica e política que marcou o século XIX, e

as tentativas de desenvolvimento comercial, industrial, exploração ultramarina e colonial, ouve a necessidade de reforma do código de Ferreira Borges. Mas antes da entrada em vigor do Código Comercial de 1888 (conhecido também como Código de Veiga Beirão) ocorreu uma reforma do Código de Ferreira Borges que nos interessa relevar, pelo interesse que reveste para o nosso tema:

8. Trata-se da Lei de 22 de Junho de 1867, que cria expressamente as sociedades

anonymas 76 . A Lei das Sociedades Anonymas vem afirmar, logo no artigo 1º, que os associados limitam a sua responsabilidade ao capital que cada um subscreve. Mas ainda mais importante que isso, vem alterar o regime até então vigente, de necessidade de autorização governamental sempre

75 Cfr., sobre a extraordinária cadeia de acontecimentos do Século XIX em Portugal, na perspetiva do seu enquadramento económico, por exemplo, Leonor Freire Costa, Pedro Lains e Susana Munch Miranda, História Económica de Portugal, Coleção História Divulgativa, a Esfera dos Livros, sem data. Cfr. também sob a perspetiva comercialística, António Manuel Hespanha, História Económica de Portugal, 1700-1992 Vol. I - Século XIX e Pedro Caridade de Freitas, ob. cit., na perspetiva do Direito Internacional Público e Diplomático.

76 Segundo Rui Pinto Duarte,

correspondem às Companhias do Código de Ferreira Borges. Ob cit, pág. 91

A evolução do Direito das Sociedades Português, as

sociedades

anónimas

que se estivesse a constituir uma sociedade em que a responsabilidade dos sócios pelas dívidas da sociedade é limitada a um determinado montante. E é assim que o artigo 2º da Lei estabelece que “as sociedades anonymas constituem-se pela simples vontade dos associados, sem dependência de prévia autorização administrativa e aprovação dos seus estatutos…”. Esta alteração, em linha com o pensamento politico liberal da época, reveste-se de profunda importância, pois é a partir desta Lei que podemos afirmar que em Portugal existe um tipo de sociedade anónima, semelhante às atuais, com potencialidade de se tornar verdadeira sociedade de capitais, beneficiando de um regime jurídico propício a essa finalidade. De realçar ainda que é definida a estrutura de modelo societário composta por Assembleia Geral, Conselho de Administração e Conselho Fiscal. Nasce aqui pois, entre nós, a sociedade anónima como instrumento do capitalismo. Capítulo VI O fechar do ciclo. Código de Seabra, o Código de Veiga Beirão e a Lei de 11 de Abril de 1901

1. O primeiro Código Civil Português entrou em vigor em 1867. O diploma também

conhecido como Código de Seabra é filho do seu tempo. Ele integra-se no sistema napoleónico, seja a nível de sistemática global, seja pelos princípios, seja, finalmente, em muitas das suas soluções. 77 ”. Na parte que releva para o nosso tema, o Código regula as sociedades civis, nos seus artigos 1240º a 1311º, reconhecendo as sociedades universais, as sociedades particulares e

sociedades familiares. A par destas trata das parcerias agrícolas e pecuária. Reconhece também as cooperativas. No mais, deixa espaço para a concatenação com o Código Commercial ainda em vigor e o Código de Veiga Beirão, que viria a ser publicado em 1888.

2. O novo Código Comercial foi aprovado por carta de lei de 28 de Junho de 1888. Apesar

de enormemente retalhado, partes desse Código, conhecido também por Código de Veiga Beirão, ainda se encontram em vigor. No que se refere às sociedades comerciais, o Código de Veiga Beirão regulava as “associações comerciais”, que poderiam revestir a forma de sociedades em nome coletivo, sociedades anónimas e sociedades em comandita. Referia-se também às sociedades cooperativas, entretanto substituídas pelo Código Cooperativo. Importa esclarecer que esta nova tipologia de sociedades vem revogar as anteriores, pelo que desaparecem do nosso

77 António Menezes Cordeiro: O Sistema Lusófono de Direito, ob. cit.

ordenamento as tipologias do Código de Ferreira Borges, como a parceria mercantil, as sociedades de capital e indústria e as companhias de commercio 78 .

3. Quanto a responsabilidade dos sócios por dívidas da sociedade, manteve-se o regime

existente e que derivava já do Código de Ferreira Borges e da Lei das Sociedades Anonymas.

4. Finalmente, a Lei de 11 de Abril de 1901 vem introduzir no sistema jurídico comercial a

quarta espécie de sociedade comercial hoje existente, as sociedades por quotas, criadas artificialmente para proporcionar aos pequenos empresários uma forma de operar em regime de limitação de responsabilidade ao montante de capital subscrito, sem as exigências formais e de estrutura das sociedades anónimas. 5. Assim, desde o final do século XIX, princípio do século XX, as sociedades comerciais em Portugal podem ser do tipo sociedade em nome coletivo, sociedade anónima, sociedade em comandita e sociedades por quotas. O seu regime jurídico essencial não mudou desde então, 79 . As sociedades do fim de século tinham já personalidade jurídica, autonomia patrimonial, sistemas de limitação de responsabilidade consoante o tipo de sociedade escolhida e propiciavam um conjunto de soluções adequadas quer ao pequeno negócio familiar e pessoal, ao pequeno empresário que pretendia associar-se a outros sem incorrer em custos de estrutura colossais e bem assim às grandes empresas as formas de captar capitais através das sociedades anónimas, estruturadas especificamente para o efeito pelo legislador português.

Parte III

Conclusões

1. A primeira conclusão é que muito teve de ficar por dizer e desenvolver. Não sendo

possível conter nestas páginas todos os temas pertinentes à génese e evolução das sociedades comerciais, fica no entanto parte da investigação feita e a motivação para o futuro desenvolvimento do tema. Na verdade, julgamos muito útil o conhecimento da génese e evolução das sociedades comerciais para a compreensão do sistema comercialístico português. E mesmo essencial para o seu desenvolvimento. Posta esta ressalva, vamos às conclusões temáticas.

78 Rui Pinto Duarte, ob. cit, pág 99, esquece aparentemente a extinção do tipo Companhia, cremos que por considerar que foram substituídas pelas sociedades anónimas da Lei de de 22 de Junho de 1867. A não inclusão das Companhias nas formas de sociedade eliminadas pelo novo código seria uma forma de dar explicação ao reaparecimento da designação de Companhia, a propósito das Companhias Majestáticas, ou modernas Companhias Coloniais do final do Século XIX. Não concordamos, pois para o justificar basta recordar que estas “foram criadas na vigência da Carta Constitucional e após os Actos Adicionais de 5 de Julho de 1885.”, conforme ensina Pedro Caridade de Freitas, ob. cit. Pág. 344. 79 Isto apesar das inúmeras transformações sofridas, máxime com a criação do Código das Sociedades Comerciais, em 1986, com a sua reforma em 2006.

2.

Embora cientes do risco, optamos por percorrer um arco histórico muito alargado,

traçando o essencial da evolução do comércio desde a Antiguidade, a par da indicação da evolução das normas aplicáveis às atividades comerciais e às formas de associação disponíveis em cada momento histórico. Fomos fazendo referência também à liderança do comércio e ao

estatuto sócio-económico que os comerciantes foram assumindo ao longo do arco histórico analisado. E consideramos que esta análise apoia as seguintes conclusões:

3. Evolução do Comércio: a evolução do Comércio passou por três tipos de fases essenciais:

a) fases em que o Estado assumia a liderança do Comércio, como por exemplo na Antiguidade e nas fases Europeias do Comércio de Estado na Colonização. Nestes casos, o Estado estabelecia as regras e definia instrumentos jurídicos, quer de concessão (rotas comerciais, companhias privilegiadas), quer de fomento (regimes de monopólio e isenções fiscais) para potenciar as suas receitas e em simultâneo assegurar a execução de grandes empreendimentos ou cobrança de impostos (Societates Publicanorum ou Vectigália). Nestas fases, as relações comerciais eram muito marcadas pelo papel interventor do Estado, que pretendendo maximizar receitas, pretendia também garantir o seu recebimento. O Direito público e o direito civil eram essenciais nestas fases, pois o que não estava regulamentado especialmente em sede comercial, era regido por um ou por outro.

b) Fase do Comerciante Mercador, no renascimento económico da Baixa Idade Média, nas Cidades-Estado italianas, com o início do reconhecimento sócio-económico dos comerciantes. O jus mercatorum é um direito próprio e subjetivo da classe dos mercadores, que se impõe aos não comerciantes, que nasce da força das corporações, do costume mercantil e da jurisprudência dos tribunais de comércio, constituídos por comerciantes. Neste caso, o Estado abdicou de tentar regular o comércio, aceitando o jus mercatorium, puramente privado, como reconhecimento social da importância cada vez maior dos Comerciantes e da sua capacidade de criar riqueza, em contraste com outras classes supostamente superiores.

c) Fase do Capitalismo, em que o comerciante passa a empresa, fase esta que, em bom rigor, nos acompanha desde a Idade Moderna, e que se desenvolveu até ser hoje a primeira Civilização mundial da história, citando Comparato. Quanto ao Direito, esta longa fase da evolução do comércio caracteriza-se, primeiro, pela seleção e sedimentação das fontes de direito (v.g. a Lei da Boa Razão), pela identificação da necessidade de regulamentação específica das relações civis e comerciais e pelo fenómeno da pré-codificação, em que se

estuda profundamente o modus faciendi, em tratados doutrinais determinantes para a libertação do direito antigo e passagem à codificação. A fase seguinte foi a da codificação efetiva, em separado, das matérias civis e comerciais. Numa primeira fase houve a preocupação de objetivar o Direito Comercial, mas rapidamente este evoluiu para o direito das empresas, ou seja, o Direito das Sociedades.

d) Nesta fase capitalista, o legislador comercial tem a clara preocupação de proporcionar às empresas uma panóplia de soluções adaptadas às circunstâncias e necessidades de cada uma, desde o simples negócio de bairro explorado em sociedade, até às grandes empresas vocacionadas para grandes empreendimentos, com enorme necessidade de captação de recursos financeiros junto de investidores e com estruturas aptas à execução dos seus negócios.

e) O pano de fundo das formas de organização da empresa comercial capitalista assenta na liberdade de associação, autonomia patrimonial da sociedade, concessão da personalidade jurídica e limitação da responsabilidade dos sócios por dívidas das sociedades, como forma de impulsionar a criação de empresas e de possibilitar a captação de capitais.

4. Portugal seguiu as diversas fases acima referidas, tendo desde finais do século XIX, início do século XX, claramente definidas e estabilizadas as formas de organização básicas das sociedades comerciais, e que ainda hoje se mantém: sociedades em nome coletivo, em comandita, por quotas e anónimas.

5. As recentes inovações a nível do direito das sociedades, como a introdução a nível europeu das regras da Corporate Governance são a demonstração da espantosa capacidade de reação do sistema capitalista: perante os recentes escândalos financeiros conhecidos, originados nas maiores empresas mundiais, estabelecem-se agora rigorosas regras de prevenção de conflitos de interesses e de transparência da gestão, como forma de eliminar, ou neutralizar o “contra-poder” dos administradores face aos detentores dos capitais. É esta capacidade de reação à escala global e de adaptação aos fenómenos do seu próprio crescimento que permite já considerar o capitalismo como a primeira Civilização Mundial.

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UNIVERSIDADE

http://www.fd.unl.pt/ConteudosAreasDetalhe.asp?ID=48&Titulo=Biblioteca

NOVA

Faculdade

de

Direito

de

Lisboa,

at

ÍNDICE

PARTE I - Comércio e Capitalismo …………

…………………………………………

1

Capítulo I - Enquadramento histórico-jurídico das origem do comércio e do capitalismo

 

1

 

2.

Razão de ordem e metodologia……………………………

………………………1

 

2.

Os aspetos histórico-jurídicos essenciais da evolução do comércio…………………… 4

§

1º -

Origens do comércio. O comércio na Antiguidade……… ……………………………4

2.1. Antiguidade Oriental e Antiguidade Clássica. Enquadramento espácio-temporal

4

2.2. Primeiras manifestações de legislação comercial, na Antiguidade Oriental. Comércio na

Antiguidade Clássica. Grécia

…………………….…………………………………………………… 6

 

2.3.

Comércio na Antiguidade Clássica. Roma ……………………………………………………. 9

 

2.4.

Primeiras manifestações de legislação comercial em Roma ………………………

10

 

2.4.1.

A“societas” do Direito Romano. Enquadramento . …………………

………

….…

10

 

2.4.2.

Societas. Classificação

………………………………………………

……………

11

 

2.4.3.

O caso especial das societates publicanorum ou vectigalia ……………………………

 

12

 

1.5

Balanço da evolução do comércio na Antiguidade como rampa de lançamento da Idade

Média………………………………………………………………………………………….14

Capítulo II - Da Idade das Trevas ao Renascimento do comércio no Século XII ……………15

§

1º Enquadramento socio-económico na Idade Média……………………………………… 15

1.1.3. As formas associativas medievais a partir do Século XII ……………………………… 16

1.1.3.1. Corporações de Mercadores (Ghildes ou Hansas)……….………………….…………

17

1.1.3.2. Génova e as societas maris, Veneza, Piza e as collegantia. ………………………………. 17

1.1.3.3. Commendas ou Collegantias

……………………………………………………………. 18

1.1.3.4. As Compagnia di Terra e as Societas terrae…………………………………………

18

1.1.3.5. A Magna Societas Alemanorum: …… ……………………………………………… 18

1.1.3.6. Os Banqueiros de Florença. ……………………………………………………………

19

1.1.3.7. Banco di San Giorgio. …………………………………………………………………

19

§

2. O Ius mercatorum e o início do Direito Comercial………………………………………… 20

3 . A transição para a Idade Moderna. O comércio e os Descobrimentos e Colonização……. 20

PARTE II - A evolução em Portugal das formas de organização de empresas e do Direito Comercial até finais do Século XIX ………………………………………

21

Capitulo I - Os descobrimentos e as Companhias Privilegiadas até ao Marquês de Pombal… 21

Capítulo II - O modelo societário das Companhias Pombalinas. Primeiras sociedades de capitais em Portugal ………………………………………………………………………… 22

Capítulo III - A disciplina normativa do Comércio em Portugal no Século XVIII. Louvor aos

comerciantes………………………………………………

……………………

………

24

Capítulo IV - Do Marquês de Pombal aos Códigos Oitocentistas … …………….…………25

Capítulo V - As sociedades no Código Commercial Portuguêz de 1833…….…………….… 26

Capítulo VI - O fechar do ciclo. Código de Seabra, o Código de Veiga Beirão e a Lei de 11 de

Abril de 1901 .………………………

………………………………………………

……

28

PARTE III Conclusões ………………………………………………………………… 29