You are on page 1of 9

Divulgação

Ambientes virtuais e
objeto de aprendizagem
como apoio às práticas colaborativas
Patricia Alejandra Behar
Profª. Drª. Patricia Alejandra Behar: mestre e doutora em Ciências
da Computação pela UFRGS. Linha de pesquisa: Informática
na Educação e Educação a Distância. Professora da Faculdade
de Educação/Universidade Federal do Rio Grande do Sul e dos

Divulgação
Programas de Pós-Graduação em Informática na Educação (PGIE)
e Educação (PPGEDU) da UFRGS. Coordenadora do Núcleo de
Tecnologia Digital Aplicada à Educação (Nuted).
pbehar@terra.com.br

Alexandra Lorandi Macedo


Msc. Alexandra Lorandi Macedo: mestre em Educação (com
ênfase em Informática na Educação) e doutoranda em Informática
na Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Pesquisadora do Nuted/UFRGS, bolsista Capes.
alorandimacedo@gmail.com

RESUMO
Este artigo descreve o processo de construção e aplicação de um objeto de aprendizagem intitulado
“Tecnologias de Suporte ao Trabalho Coletivo” e sua integração a ambientes virtuais de aprendizagem.
O material contempla a aplicabilidade desse recurso no ensino superior, apontando possibilidades de
ações pedagógicas no que se refere à constituição da coletividade na web.

Introdução
O objeto de aprendizagem (OA) Nuted2 com o objetivo de fornecer apoiou-se num cenário que mostra a
“Tecnologias de Suporte ao Trabalho suporte ao processo de interação e necessidade de um novo perfil de pro-
Coletivo” 1 foi desenvolvido pelo construção coletiva. Tal preocupação fissional, que esteja em permanente

1 Disponível http://homer.nuted.edu.ufrgs.br/instrumentalizacao_em_ead/escrita_coletiva/
2 Núcleo de Tecnologia Digital Aplicada à Educação – www.nuted.edu.ufrgs.br

74 Fonte
Fonte
Dezembro de 2008

Revista 8.indd 74 20/12/2008 10:50:15


processo de atualização do conhe- O objeto “Tecnologias de Supor- Texto Coletivo). Para garantir a sua
cimento, em função dos constantes te ao Trabalho Coletivo” agrega re- reutilização, esse objeto foi classifi-
avanços científicos e tecnológicos. quisitos metodológicos (viabilizando cado dentro do padrão de metadados,
Porém, acompanhar o exponencial diferentes práticas educacionais); o qual descreve e estrutura as infor-
crescimento da informação não é tecnológicos (no que tange a recursos mações do objeto, sob diferentes su-
uma tarefa fácil e, nesse sentido, o midiáticos); visuais (a fim de agregar portes documentais.
processo coletivo tem-se mostrado design pedagógico e recursos para Este estudo apresenta as etapas de
como uma alternativa viável. Além proporcionar interação tanto com o desenvolvimento do objeto de aprendi-
disso, ter como público-alvo o en- objeto em si, quanto com os demais zagem “Tecnologias de Suporte ao Tra-
sino superior3 justifica-se por preci- sujeitos) e epistemológicos (direta- balho Coletivo”. A seguir, é mostrado
sarem de formação para administrar mente relacionados ao processo de como este foi integrado aos ambientes
este novo cenário como profissionais aprendizagem). Ele foi projetado por virtuais ROODA e ETC. Por fim, ava-
atualizados. Assim, o desenvolvi- uma equipe interdisciplinar4 e apli- lia-se a experiência realizada, trazendo
mento de um material educacional cado no ensino superior, em turmas como resultado de toda a trajetória um
digital sobre o trabalho coletivo vem de graduação da Faculdade de Edu- plano de orientação de como constituir
sustentar um movimento de criação, cação (UFRGS), em 2006 e 2007. a coletividade na web. Esse plano tem
construção, troca, onde todos os par- Essa experiência integrou este OA por objetivo oferecer apoio aos docen-
ticipantes são convocados a agir, in- aos ambientes virtuais de aprendiza- tes que tenham interesse em apoiar
teragir e refletir sobre a importância gem ROODA5 (Rede cOOperativa suas práticas pedagógicas em alguns
da produção coletiva. de Aprendizagem) e ETC6 (Editor de princípios da coletividade.

Apresentando o objeto de aprendizagem


A principal característica de um entidade, digital ou não-digital, que Essa possibilidade permite misturar
objeto de aprendizagem (OA) é a possa ser utilizada, reutilizada ou diferentes unidades de aprendizagem
possibilidade de reutilização de seus referenciada durante o aprendizado e colocá-las juntas para novas finali-
recursos em diferentes contextos. mediado por tecnologias. dades e em novas propostas de apren-
Esta abordagem entende por objetos Para garantir sua reusabilidade dizagem. Os metadados descrevem e
de aprendizagem qualquer recurso e acesso de forma independente do estruturam a informação registrada
digital, como: textos, animação, ví- espaço e tempo, destaca-se a impor- sob diferentes suportes documentais,
deos, imagens, aplicações, páginas tância da utilização do padrão de me- facilitando a localização e descrição
web em combinação. São recursos tadados para seu posterior armaze- desse objeto. Portanto, o OA em ques-
autônomos, que podem ser utilizados namento em repositórios de objetos. tão foi submetido ao padrão LTSC, a
como módulos de um determina- Esse padrão é utilizado para recupe- fim de permitir a sua reutilização em
do conteúdo ou como um conteúdo rar, reutilizar e combinar diferentes outros cursos e por outras instituições
completo. Sua utilização é destinada objetos, promovendo também a in- de ensino (Behar, 2008b).
a situações de aprendizagem tanto teroperabilidade. Para isso, o conte- Entende-se que um objeto de
na modalidade a distância quanto údo é estruturado de forma que cada aprendizagem pode auxiliar o profes-
presencial. Segundo o LTSC7, estes módulo/conteúdo possa configurar- sor em sua ação docente, pois oferece
podem ser definidos por qualquer se como uma unidade independente. diferentes ferramentas que servem de

3 Este objeto foi desenvolvido para alunos de disciplinas presenciais e a distância dos cursos de graduação, pós-graduação e cursos de extensão da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
4 Equipe composta por educadores, programadores e web designers do Nuted.
5 Ambiente virtual de aprendizagem utilizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, por mais de 23.000 usuários. Disponível em http://www.
ead.ufrgs.br/rooda (Behar et al, 2008a)
6 Disponível em http://www.nuted.edu.ufrgs.br/etc (Behar et al, 2006)
7 Learning Technology Standards Committee - http://ltsc.ieee.org/wg12

Fonte
Fonte 75
Dezembro de 2008

Revista 8.indd 75 20/12/2008 10:50:16


apoio ao processo de aprendizagem. envolvidos na construção do material. cada metáfora aos recursos pensados
A utilização de elementos multimí- Objetivamente, o storyboard apre- para o objeto “Tecnologias de Supor-
dia, tais como simulações, imagens, senta um panorama onde é possível te ao Trabalho Coletivo”.
textos, sons, animações e vídeos, de- visualizar a relação e todo o conjunto Por fim, chega-se ao quarto e úl-
sempenham um papel importante na de elementos (teóricos/técnicos) en- timo pilar de sustentação, a avaliação.
aquisição de conhecimento, quando volvidos no projeto. Tal apresentação Esse é o momento em que são testados
bem utilizados. Estes podem ser con- pode ser desenvolvida em diferentes os elementos do objeto, verificando o
siderados como recursos pedagógi- formatos, por exemplo: através de grau de adequação ao público a que
cos que permitem ao aluno acompa- textos com links, planilhas, mapa se destina, bem como o cumprimento
nhar o conteúdo de acordo com o seu conceitual, desenhos, pinturas, todos das metas estabelecidas. Logo, faz-se
próprio ritmo, acessando facilmente representando o desenvolvimento do necessária uma validação do objeto in-
a informação e se engajando de for- objeto e a relação/navegação entre os loco para ter feedback dos “possíveis”
ma independente e autônoma num elementos que o compõem. O objeti- usuários quanto à análise dos quesitos
aprendizado por descoberta. vo é integrar a produção dos profis- técnicos (em nível de programação),
O objeto “Tecnologias de Suporte sionais envolvidos no projeto. funcionais (no que se refere ao layout)
ao Trabalho Coletivo” foi desenvolvi- A importância dada a essa etapa e didáticos (desafios e referencial teó-
do a partir de quatro pilares, são eles: de desenvolvimento do objeto justi- rico) disponíveis no objeto.
(1) concepção do projeto, (2) planifica- fica-se, pois ela é a responsável por Todos os pilares descritos são
ção, (3) implementação e (4) avaliação garantir a liberdade de exploração, desenvolvidos de forma recorrente,
(Amante; Morgado, 2001). apropriação e desenvolvimento das isto é, passaram por uma análise em
O primeiro pilar compreende o atividades por parte dos estudantes. nível de programação, design e con-
momento onde são definidos conteú- O terceiro pilar de sustentação, teúdo, a fim de sofrer a reestrutura-
dos, objetivos, pressupostos teóricos, o da implementação, remete ao de- ção necessária até alcançar um fun-
formato do objeto e sua metáfora vi- senvolvimento propriamente dito do cionamento estável e intuitivo aos
sual. Desde essa etapa, a integração de objeto. Nesse caso, utilizou-se a fer- usuários do objeto “Tecnologias de
uma equipe interdisciplinar mostra-se ramenta de programação Flash8 por Suporte ao Trabalho Coletivo”.
relevante para garantir um objeto com permitir a realização de animações e A partir desse processo, o produ-
qualidade no conteúdo, aparência es- simulações. Essa etapa de desenvol- to final reúne recursos de animação,
tética e facilidade para navegação. vimento exige especial atenção, pois utilizando a metáfora de uma escriva-
O segundo pilar que sustenta é ela a responsável pela adaptação de ninha, conforme mostra a Figura 1.
essa construção trata da planificação
do objeto. Esse é o momento em que
se desenvolvem pesquisas, em nível
de conteúdo, que atendem ao objeto
no quesito teórico. Para garantir me-
lhor qualidade desse produto, faz-se
necessário incluir nessa pesquisa
diferentes tipos de materiais, por
exemplo: textos, vídeos, imagens,
apresentações, entre outros.
Em posse desse material, inicia-
se a construção de um storyboard,
o qual entrelaça conteúdo e metáfo-
ra, planificando, assim, a estrutura
não-linear do objeto. Esse proces-
so mostra-se altamente eficaz por
apoiar as atividades dos profissionais Figura 1 – Tela inicial do objeto “Tecnologias de Suporte ao Trabalho Coletivo”

8 Software para desenvolvimento de animações, aplicações e sites dinâmicos.

76 Fonte
Fonte
Dezembro de 2008

Revista 8.indd 76 20/12/2008 10:50:18


Os elementos visuais são repre- que as canetas foram escolhidas por se criar a noção de uma tecnologia fami-
sentados por livros, canetas personifi- tratarem de uma das tecnologias mais liar, contemplando tecnologias avan-
cadas, notebook e demais tecnologias antigas e conhecidas que possibilitam çadas e novas formas de utilização
que possibilitam a escrita. Destaca-se a escrita. Acredita-se, dessa forma, destas para a escrita coletiva.

O processo de integração do objeto de aprendizagem com o ROODA e ETC


O conteúdo e desafios apresen- escrita coletiva quando apoiada sob ser necessária quando o grupo busca
tados no objeto de aprendizagem recursos digitais e suas implicações um consenso a partir do confronto de
foram trabalhados através dos am- pedagógicas. Os alunos expuseram diferentes perspectivas, próprias da
bientes virtuais ROODA e ETC. Este suas perspectivas sobre o tema, dis- coletividade.
estudo apresenta a sua validação cutiram particularidades, ganhos e A integração dos ambientes
através da aplicação, especificamen- possíveis limitações que podem ser virtuais de aprendizagem ROODA
te, em um curso de pós-graduação ao encontradas ao longo do processo. e ETC ao objeto de aprendizagem
longo de quatro semanas, totalizando O debate continuou na modalidade “Tecnologias de Suporte ao Trabalho
20h/a, entre encontros presenciais e a distância com apoio do ambiente Coletivo” mostrou-se de fundamen-
a distância. ROODA. Os estudantes interagiram tal importância por esses permitirem
O ambiente virtual de aprendi- através das ferramentas bate-papo, não somente a construção propria-
zagem ROODA foi utilizado como fórum, grupos e A2, discutiram os mente dita das produções coletivas,
uma forma de apoio para a ação dos conteúdos e desenvolveram os de- mas, principalmente, por oferecerem
alunos, a fim de proporcionar um safios propostos no objeto. As pro- suporte à interação e comunicação
espaço de discussão através das fun- duções construídas foram postadas síncrona e assíncrona entre os alunos.
cionalidades de interação síncrona no webfólio do grupo, local este que Tais recursos viabilizaram a intera-
(bate-papo e A2), assíncrona (fórum, permitiu que cada participante alo- ção e a construção da coletividade,
diário de bordo e grupos) e para pos- casse seus trabalhos e tivesse acesso oferecendo momentos de colabora-
tagem de arquivos (aulas, webfólio às pesquisas dos demais integrantes ção e cooperação. Nessa perspectiva,
e webfólio do grupo). Já o Editor do grupo, compartilhando os conhe- o processo coletivo articula um con-
de Texto Coletivo (ETC) funcionou cimentos adquiridos. Destaca-se que junto de idéias onde “... a pluralidade
como um ambiente para a construção a ferramenta webfólio do ROODA dos homens encontra seu sentido não
dinâmica de textos escritos de forma permite que uma produção postada numa multiplicação quantitativa dos
coletiva. seja reeditada sempre que necessá- ‘eu’, mas naquilo em que cada um é
Durante os encontros presen- rio, o que favorece sucessivas re- o complemento necessário do outro”
ciais, discutiu-se o potencial da construções. Essa reconstrução pode (Bakhtin, 2000, p. 14 -15).

A análise da prática no contexto educacional


A avaliação da experiência uti- o que cada indivíduo expressava análise é a ação dos alunos. Esta foi
lizando o objeto de aprendizagem quando o tema era o processo de es- realizada através do ambiente ETC
“Tecnologias de Suporte ao Trabalho crita coletiva. A segunda perspectiva e teve por objetivo identificar como
Coletivo” integrado aos ambientes de análise, a escrita, deu-se através da acontece a coordenação de ações en-
ROODA e ETC debruçou-se sobre captura de extrato postado no fórum, tre o grupo. E, ainda, se tais ações
três perspectivas de análise: a fala, a diário de bordo, bate-papo e webfólio eram coerentes com a fala e a escrita
escrita e a ação do aluno no ambiente no ambiente virtual de aprendizagem capturada nos processos anteriores.
virtual, no que se refere à construção ROODA. O objetivo dessa análise Da organização dos diferentes
da coletividade (Macedo, 2005). A foi verificar como ocorre a escrita dados coletados foram identificadas
fala, capturada a partir de entrevista coletiva do grupo no ambiente virtu- algumas categorias de análise, são
semi-estruturada, foi realizada de ma- al e como os alunos descrevem esse elas: conhecimento do grupo (onde
neira individual e buscou identificar processo. A terceira perspectiva de se buscam os valores e atitudes de

Fonte
Fonte 77
Dezembro de 2008

Revista 8.indd 77 20/12/2008 10:50:18


cada aluno a partir de seu perfil e for- necessariamente haver coordenação grupo se organizou, tendo em vista
mação), organização do grupo (mos- de diferentes pontos de vista. Por fim, os diferentes perfis e saberes envol-
tra quais são as ações de organização a terceira atitude identificada revela vidos, bem como a articulação de
do grupo para a construção de uma o receio de alterar a produção do ou- idéias no decorrer do processo de
produção com objetivos comuns) e tro e a não-aceitação da intervenção troca. Este estudo constatou que a in-
elaboração de estratégias em grupo em texto próprio. Nessa aplicação, teração e o diálogo são a base para a
para a execução da atividade (onde somente um aluno manifestou pre- resolução dos conflitos, e que a iden-
se constroem estratégias a fim de co- ferência por produção individual em tificação dos mesmos contribui para
ordenar ações para viabilizar a cons- função da dificuldade que sente em o processo de coordenação de ações/
trução coletiva de um texto). coordenar diferentes pontos de vista. idéias, tendo em vista que são impor-
No que tange ao conhecimento As três atitudes descritas apare- tantes para o enriquecimento e a pro-
do grupo, notou-se que se faz ne- cem no período em que o grupo está dução do grupo, através da solução
cessário proporcionar uma dinâmica se conhecendo. Destaca-se que as de problemas entre os alunos.
para que o grupo se conheça. Para duas primeiras atitudes contribuem Destaca-se que a solução para os
atender a essa demanda, a primeira para o processo de coordenações de conflitos sociocognitivos depende da
atividade proposta no referido obje- ações e a terceira revela a dificuldade coordenação das ações/idéias. Nego-
to consistiu na produção de um texto de descentração9 e falta de interesse ciar diferentes perspectivas requer res-
sobre escrita coletiva, onde os alunos na operação em comum. peito, conexão e troca de conhecimen-
trocavam de computador a cada pau- Após essa etapa de conhecimen- tos para constituir um trabalho rico e
sa de uma música, dando seqüência to dos integrantes do grupo, eles pas- significativo aos integrantes. Nesse
ao texto dos colegas, até voltar ao saram para a etapa de organização. grupo, identificou-se que as produções
seu ponto de origem, ou seja, onde Ao longo do processo de organiza- foram permeadas por constantes diá-
iniciou a produção. A prática seguiu ção, o grupo se integrou e buscou es- logos e que estes contribuíram para
com discussões sobre a dinâmica, tabelecer objetivos comuns e regras um processo gradativo de descentra-
comentários no próprio texto e publi- que facilitassem o trabalho. Nessa ção e desprendimento, favorecendo
cação do mesmo no webfólio, além fase, identificou-se a importância das a construção de novos conhecimen-
de registro no diário de bordo acerca primeiras conversas e exposição dos tos. Ressalta-se que, para alcançar
das impressões da atividade. sentimentos dos alunos para a produ- tais condições, a presença da escala
Nessa etapa de aplicação do ob- ção efetiva do trabalho. Tal processo comum de valores faz-se necessária,
jeto, destacaram-se três diferentes evita que os integrantes sintam-se pois é através dela que se estabelece a
atitudes. A primeira, remete à com- constrangidos para futuras interven- reciprocidade entre os parceiros.
pleta alteração do texto dos colegas e ções na produção coletiva. Com base Ao longo da construção de uma
ao aceite da alteração de seu próprio nessas considerações, destaca-se que escala comum de valores, pode ha-
texto. A aceitação dessa ação reflete a troca de idéias a partir do diálogo ver conflitos e falhas na comunicação
o desprendimento da produção com normatiza as ações em função das re- entre os alunos. Porém, a coordena-
consciência de que a mesma deve ser gras construídas pelo grupo. ção de ações e a redefinição das me-
construída coletivamente com coor- Permeando o processo de orga- tas de trabalho amenizam o processo.
denação de diferentes perspectivas. nização do grupo, foi identificada Salienta-se que, nos grupos em que os
A segunda atitude, identificada na ati- uma fase de conflitos sociocogniti- indivíduos não se conhecem ou nunca
vidade, revela o complemento de um vos. Os conflitos podem ser enten- trabalharam coletivamente, essa difi-
colega no texto do outro, porém sem didos aqui como sendo diferentes si- culdade pode ser ainda maior, neces-
nunca excluir o que já está escrito. Tal tuações acerca da produção coletiva sitando, assim, de maior tempo para
ação revela um senso de colabora- que surgem com o objetivo de fazer discutir e negociar diferentes idéias. A
ção, porém com receio de intervir na os alunos refletirem sobre suas ações seguir, são apresentadas possibilidades
produção do outro. Nesse caso, ocor- e conhecimentos. Sua identificação de ações que visam a apoiar e facilitar
re uma justaposição de trechos sem e resolução dependem de como o a constituição da coletividade na web.

9 Entende-se por descentração quando o sujeito consegue analisar a sua situação e modificar o objeto proposto, considerando diferentes perspectivas que
não somente a sua (Piaget, 1973).

78 Fonte
Fonte
Dezembro de 2008

Revista 8.indd 78 20/12/2008 10:50:18


Coletividade na web: construindo um plano de orientação
Esta seção é o resultado não só (Bitencourt, 2007). A escrita chado, mas, sim, sugestões a do-
da experiência relatada neste estu- está organizada em tópicos que centes ou interessados em geral
do, mas também de outras que se servem como orientadores de ati- que desejarem apoiar a prática
sucederam e que foram realizadas vidade prática. Salienta-se que pedagógica em ambientes virtu-
com outros tipos de público-alvo e não se deseja, nesta abordagem, ais, tendo como foco o trabalho
ambientes virtuais de aprendizagem apresentar um plano de ação fe- coletivo.

Conhecimento do grupo

• Para facilitar a integração do Esse é um momento para que o aluno inicia-se com um dos participantes
grupo, uma possibilidade de ativida- se apresente e fale de sua área de es- sentado com o editor de texto aberto
de para o primeiro encontro é desen- tudo, facilitando, assim, a formação para começar a escrita, enquanto o
volver uma dinâmica envolvendo um de pequenos grupos em momentos outro fica em pé, segurando nos om-
editor de texto coletivo. Uma opção, posteriores. Com um olhar atento, bros do colega. Quando o professor
aqui denominada como “Texto Rit- nesse momento, o professor con- disparar a música, o aluno que esti-
mado”, prevê que os alunos iniciem segue perceber alunos que tenham ver sentado inicia uma escrita alea-
um texto tendo um tema em comum maior facilidade para cooperar. Tra- tória, jogando palavras e caracteres
e, no fundo, uma música bem ritma- ta-se dos que se sentem mais seguros (que não podem ser repetidos) no
da (nesse caso, são necessárias boas tanto para interferir na contribuição editor, enquanto o aluno que está de
caixas de som no computador ou um do colega, quanto para aceitar a in- pé massageia os ombros do colega.
aparelho de som). O professor vai terferência do outro. Além desses, A cada 40 segundos, aproximada-
dando pausas na música e, a cada pau- também é possível identificar alunos mente, a música sofre uma pausa e
sa, os alunos trocam de computador que têm receio de interferir nas opi- os alunos trocam de posição, dando
e continuam o texto do colega. Essa niões de outros colegas ou, ainda, os continuidade à dinâmica. Ao final da
seqüência de ações deve acontecer até que não demonstram interesse algum música (ou quando melhor convier),
que o aluno retorne para o computa- no trabalho coletivo. Nesse momen- os alunos são desafiados a construir
dor em que iniciou a dinâmica. Feito to, a ação do professor é fundamental um texto ou poesia utilizando as pala-
isso, os alunos lêem o texto como um para, através do diálogo, criar condi- vras digitadas ao longo da atividade.
todo e constroem um parecer tanto ções para que os alunos sintam-se à Podem ser apagadas algumas pala-
sobre a impressão final que tiveram vontade e consolidem o trabalho co- vras ou caracteres, mas nunca adi-
do texto, quanto sobre a sensação de letivo. cionadas. Destaca-se que é bastante
vivência da dinâmica em si. A ativida- • Uma variação dessa atividade pertinente que o professor apresente
de segue com a socialização de cada pode ser a construção de um texto em o tema norteador da aula para que os
aluno sobre essas impressões e com a dupla. Essa dinâmica é aqui denomi- alunos possam disparar termos que
apresentação individual de cada um. nada “Fazendo Sentido”. A dinâmica facilitem essa próxima etapa.

Organização do grupo

• Propor que os alunos se reúnam de de opiniões enriquece e diferencia editores coletivos, coordenações de
em grupos conforme interesse e/ou o trabalho. ações, etc.
conhecimentos afins. Sugere-se que • Apresentar um tema geral • Disponibilizar um tempo para
o professor destaque que, indepen- para o grupo, dando liberdade para que o grupo se organize dentro do
dentemente dos interesses, o mais a escolha de tópicos relacionados tema escolhido (sugestão: 2 ou 3
importante é que os alunos tenham ao tema. Por exemplo: Escrita Co- encontros). Nesse tempo, o grupo
vontade de trabalhar coletivamente, letiva, esse tema demanda estudos define objetivos a serem alcançados
já que a troca de idéias e a diversida- na área de cooperação, colaboração, na atividade e criam estratégias de

Fonte
Fonte 79
Dezembro de 2008

Revista 8.indd 79 20/12/2008 10:50:18


operacionalização tais como: defini- grupo, tais como e-mail, comentários grupo, sugere-se subdividi-lo e re-
ção das regras para um trabalho em dentro do texto, etc. organizar a tarefa. Posteriormente, é
comum, organização em relação ao • O número de integrantes de um possível que os integrantes se reagru-
tempo, etapas de ação e, na maioria grupo em geral não obedece a uma pem com os primeiros integrantes.
dos grupos, acontece a escolha de regra. Indica-se que cada grupo não • Ao longo do processo de inte-
um administrador/representante do ultrapasse cinco integrantes, mas o ração entre os participantes, é impor-
mesmo. sugerido são três ou quatro partici- tante que se fique atento aos possíveis
• Nesse momento, também são pantes. Se, ao longo do processo de conflitos, às coordenações de ações e
definidas as ferramentas que apoia- escrita, o professor identificar difi- escala comum de valores para a cons-
rão a comunicação e interação do culdades quanto à organização do tituição da coletividade na web.

Identificação de conflitos

• É comum aparecerem conflitos adaptando-as às novas necessidades. partir da identificação do conflito, é


ao longo de um trabalho em grupo. • Com base no diálogo, os con- importante que o professor propicie
O conflito é identificado principal- flitos são articulados a partir das tempo para que o grupo revisite suas
mente a partir da falta de interação/ coordenações de diferentes pontos metas e trace os novos rumos em
entrosamento do grupo e pode vir de vista, tendo como meta alcançar busca de uma troca de valores equi-
a gerar fortes discussões. Uma vez objetivos em comum. librada, favorecendo a coletividade.
identificado o conflito, sugere-se que • Destaca-se que o professor tem Sem a atenção do professor e a me-
o grupo retome os seus critérios de um papel fundamental para favore- diação desse processo, o grupo corre
organização, revisando as metas e cer a reorganização de um grupo. A o risco de desfazer-se.

Coordenação de ações/idéias

• No início de uma produção co- informações que sejam signi- cada indivíduo, tornando-as
letiva, é comum identificarmos uma ficativas ao grupo; favoráveis para a troca e o en-
junção de pequenas partes, uma col- - criar estratégias para favo- riquecimento do grupo como
cha de retalhos que vai se tornando recer a reflexão, autonomia, um todo;
um todo significativo ao longo das in- produção de saberes e criati- - ter claros os interesses e ne-
terações e coordenações de ações dos vidade dos sujeitos; cessidades dos alunos;
sujeitos. Nesse processo, a mediação - oferecer condições para uma - valorizar e considerar todo
do professor também é fundamental. cooperação efetiva do grupo o processo de construção
Ele pode auxiliar, propondo questões para que o mesmo se envolva do aluno e não centrar-se
que façam os alunos articularem suas com afinco, tanto intelectual- no produto final que, em
proposições, buscando novos signi- mente quanto emocionalmen- geral, não revela as etapas
ficados, tornando o retalho um todo, te; e desafios de desenvolvi-
cooperando. - além da preocupação com os mento;
• Com base em Ramal (2002), conteúdos, ter atenção para - considerar e articular com as
destacam-se alguns apontamentos promover o desenvolvimen- diferentes perspectivas dentro
que se mostram relevantes ao traba- to de habilidades que façam de um mesmo grupo, pois um
lho do professor quando o intuito é o aluno refletir, aprender a trabalho coletivo de êxito não
facilitar o processo de coordenação aprender, construir conheci- é resultado de plena concor-
de ações entre os alunos: mento e trocar experiências dância entre os alunos, mas é
- estar em constante interação com o grupo; produto de análise, de crítica
com os alunos, socializando - respeitar as diferenças de e de reflexão.

80 Fonte
Fonte
Dezembro de 2008

Revista 8.indd 80 20/12/2008 10:50:19


Escala comum de valores

• Alcançar uma escala comum - elaborar questões que reme- participantes, a coordenação
de valores é condição para cooperar; tam ao problema de interação, de ação é alcançada;
nesse sentido, as regras, os valores e favorecendo a reflexão e reor- - proporcionar um ambiente em
os sinais são requisitos desse proces- ganização do grupo; que os sujeitos se sintam à von-
so. Para auxiliar nessa construção, o - subdividir o grupo, para ver tade para participar e contribuir,
professor pode: se, em número menor de sem receio de serem cerceados.

Possíveis estratégias para desenvolvimento da atividade

• De modo geral, cada indiví- - o mecanismo de edição de é apresentar os recursos: histó-


duo cria suas próprias estratégias parágrafos do ETC deve ser rico e lixeira. O primeiro permi-
de aprendizagem diante de um novo um recurso altamente incenti- te analisar o antes e o depois e
desafio. Alguns têm maior facilidade vado pelo professor para uso estabelecer parâmetros na cons-
com a leitura, outros com a oralidade, dos alunos. A troca de idéias trução. Já a lixeira permite que
outros ainda com pequenos resumos no texto, as contribuições e as dados que porventura tenham
ou diagramas, enfim, um conjunto reconstruções sobre o eixo te- sido eliminados indevidamente
diferenciado de possibilidades que mático da escrita são a essên- sejam restaurados;
visam a se adaptar às necessidades de cia de toda a reflexão, de todas - o mecanismo comentários é
cada sujeito. Este item tem por obje- as negociações e construções; um recurso que merece desta-
tivo destacar algumas dessas possibi- - o processo de conscientização que nesse processo. É através
lidades de ação que possam vir a dar de que não há um único autor/ dele que o maior número de
suporte ao processo de aprendizagem dono da escrita se dá de forma coordenações de ações ocor-
dos envolvidos no processo coletivo, lenta e gradual. Nenhum pará- re. Esse é um espaço onde a
especificamente no ETC: grafo pertence a um único in- discussão fica vinculada dire-
- a utilização de ferramentas tegrante do grupo, nem ao pró- tamente ao contexto da produ-
de comunicação/negociação prio autor desse parágrafo, mas, ção, proporcionando uma me-
para apoiar a troca durante sim, ao grupo como um todo. lhora qualitativa da escrita.
a construção coletiva de um Por isso, editar um parágrafo, O plano de ação descrito visa
texto por um grupo é funda- alterar, contribuir de maneira a apontar algumas possibilidades
mental. Ferramentas como significativa é sempre uma ação de ação para o professor que venha
fórum, chat, webfólio e diário bem-vinda e essencial num a orientar um grupo de alunos num
de bordo oferecem excelentes processo coletivo. Uma dica processo de escrita coletiva apoiado
condições de apoio à comuni- para amenizar a insegurança de em ambientes virtuais de aprendiza-
cação de grupos; quem está iniciando o processo gem dessa natureza.

Considerações finais
O processo de implementação público-alvo a que se destinou. se que esse objeto é passível de
e avaliação da experiência utili- Nessa prática, foi observado que o adaptações em nível de desafios,
zando o objeto de aprendizagem OA teve uma linguagem acessível para poder ser adequado a alunos
(OA) “Tecnologias de Suporte e funcionamento compreensível, de cursos de graduação, pós-gra-
ao Trabalho Coletivo” integrado sem necessidade de capacitação duação e extensão. Além disso, o
aos ambientes ROODA e ETC prévia para que o usuário pudesse objeto mostrou-se autoconsistente
mostrou sua viabilidade junto ao interagir com o material. Entende- (Tavares, 2006) na medida em

Fonte
Fonte 81
Dezembro de 2008

Revista 8.indd 81 20/12/2008 10:50:19


que não dependeu de outro objeto Coletivo” se interessou em levar disponibilizados para toda a comu-
para ser utilizado. tanto a metodologia de trabalho nidade acadêmica, através de repo-
A experiência também demons- quanto o próprio material para ins- sitórios como o Cesta10 (Tarou-
trou que o objeto utilizado através tituições onde trabalham, a fim de co et al, 2003).
dos ambientes virtuais de aprendi- apresentá-lo e disponibilizá-lo aos Concluindo, espera-se que a pre-
zagem ROODA e ETC favoreceu a seus colegas, para que os mesmos sente experiência possa ser replicada
interação síncrona e assíncrona entre tivessem a possibilidade de vislum- em outros contextos educacionais,
os alunos, que constituíram uma co- brar novos caminhos nas suas práti- inclusive integrando o objeto apre-
letividade no final de sua aplicação. cas pedagógicas. Cabe destacar que, sentado a outros ambientes virtuais
Destaca-se que um número sig- a fim de atender à demanda do uso de aprendizagem. Abrem-se, assim,
nificativo de alunos que utilizou de objetos de aprendizagem para novas perspectivas de aplicação a se-
o objeto de aprendizagem “Tec- serem utilizados no ensino supe- rem adaptadas a outras necessidades
nologias de Suporte ao Trabalho rior, estes devem ser cadastrados e e outras instituições de ensino.

Referências
AMANTE, L.; MORGADO, L. Metodologia de Concepção e Desenvolvimento de Aplicações Educativas: o caso dos materiais hiper-
mídia, In: Discursos: língua, cultura e sociedade. Portugal: 2001, v. 3, nº. especial, p. 27-44.
BAKHTIN, M. M. Estética da Criação Verbal. 3ª Edição – São Paulo: Martins Fontes, 2000.
BEHAR, P. A.; MACEDO, A.L.; MAZZOCATO, S. B.; BITENCOURT, J. B. ETC: Um Groupware que apóia a escrita coletiva a distân-
cia. In: VIII Congresso Ibero-Americano de Informática Educativa, 2006, v. 1. San José - Costa Rica.
BEHAR, P; BERNARDI, M.; CASTRO, A. P. Virtual Learning Communities: a learning object integrated into an e-learning plataform.
IFIP World Computer Congress, WCC 2008, Milan, Italy, 2008a.
BEHAR, P. A. Modelos Pedagógicos em Educação a Distância, Porto Alegre: Artmed, 2008b (em fase de publicação).
BITENCOURT, J. B. A constituição da coletividade na Web: um estudo das ações no Editor de Texto Coletivo ETC. Porto Alegre: PP-
GEDU/UFRGS. Dissertação de Mestrado, 2007.
MACEDO, A. L. Aprendizagem em ambientes virtuais: o olhar do aluno sobre o próprio aprender. Dissertação (Mestrado em Educa-
ção), Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2005.
PALOFF, R. M.; PRATT, K. Construindo comunidades de aprendizagem, no ciberespaço: estratégias eficientes para salas de aula
on-line. Porto Alegre: Artmed, 2002.
_________. O Aluno Virtual: um guia para trabalhar com estudantes on-line. Porto Alegre: Artmed, 2004.
PIAGET, J. Estudos Sociológicos. Rio de Janeiro: Forense, 1973
PREECE, J. R., e SHARP, H. Design de Interação: além da interação homem-computador. Porto Alegre: Bookman. 2005.
RAMAL A. C. Educação na cibercultura – hipertextualidade, leitura, escrita e aprendizagem. Porto Alegre, RS: Artmed, 2002.
RIVED – Rede Interativa Virtual de Educação. Disponível em: http://rived.proinfo.mec.gov.br. Acessado em: 28/10/2007.
TAROUCO, L.M.R.; FABRE M.J.M., TAMUSIUNAS F.R. Reusabilidade de objetos educacionais. Disponível em: http://www.cinted.
ufrgs.br/renote/fev2003/artigos/marie_reusabilidade.pdf, 2003. Acessado em: 04/11/2007.
TAVARES, R. Aprendizagem significativa, codificação dual e objetos de aprendizagem. Disponível em: http://rived.proinfo.mec.
gov.br/artigos/2006-IVESUD-Romero.pdf. 2006. Acessado em: 12/11/2007.

10 Cesta - Disponível em: http://www.cinted.ufrgs.br/CESTA/

82 Fonte
Fonte
Dezembro de 2008

Revista 8.indd 82 20/12/2008 10:50:19