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Política dos Congelados

A bola da vez, agora, é o governo petista. Assistindo pela televisão a mais um


festival de propaganda política de oposição, acabei lembrando-me de meus tempos de
garoto, do que via e do que sentia quando criança.
Juntamente à essa campanha publicitária veiculada pelos partidos políticos, vale
lembrar, existe outra campanha também em andamento: a campanha do agasalho.
O que chamou-me a atenção nos dois episódios, é que tanto a empreitada da
oposição, quanto a arrecadação anual de agasalhos, nos remetem a um mesmo problema: a
questão dos desiludidos e desamparados dentro da sociedade brasileira. É uma espécie
grotesca de mito do eterno retorno, só que, quem retorna aos mesmos lugares-comuns,
somos nós. Somos nós que crescemos vendo as mesmas histórias de amor em infindáveis
novelas, as mesmas pancadarias nos diversos filmes de ação. Na ficção, o que muda são os
atores, os escritores, mas a história não muda nunca. Na vida real, contudo, é os atores que
deveriam mudar a história. Porém, como na ficção, parece que nós já nos acomodamos com
a nossa realidade.
Se estamos ou não desiludidos com a classe política que tenta, tenta, e não resolve
as dificuldades sociais que só fazem aumentar, a população, não hesita em esperar, esperar,
nutrindo a expectativa de alcançar bem poucas metas na vida. Desejam apenas condições
básicas para sobreviver a mais um inverno.
Eu, você, todos nós, creio, gostaríamos de ter maior crença na organização política,
mas o poder econômico se apresenta sempre superior nas pranchetas da teoria.
Como disse antes, quando era garoto, via as campanhas do agasalho pela televisão e
sempre doava o que podia, algumas vezes, é claro, em troca de algum tipo de benefício
dentro de casa, coisas do tipo “não ter de lavar a louça do jantar”, “não ter de aguar o
jardim”, ou “levar o totó para passear”. Relutante, retinha junto a mim o máximo que podia,
um sapato usado, uma roupa velha, cedendo aos apelos do apego material a bens tão frágeis
quanto era a minha conscientização política ainda imatura.
Já, com relação aos políticos, cresci vendo uns opondo-se aos outros. Ano após ano
eles se sucederam denunciando os problemas da gestão anterior e prometendo sempre uma
solução para as demandas sociais mais urgentes não atendidas pelo governante que o
antecedeu. Fato é, entretanto, que, enquanto os homens e os partidos se sucedem no poder
político, o povo congela de medo e de fome, e a economia é que realmente governa.
O que se espera, apesar da resistência desse ciclo que aparenta nunca se interromper,
não é que se acabe a capacidade humana de ter desilusão, mas que a realidade seja
efetivamente melhor para todo mundo, como sempre nos foi prometido, e que essa
evolução não seja apenas um enfeite sintático na gramática dos discursos políticos.
Essa retórica vazia, além de historicamente nos mostrar que não aquece e não mata
a fome, provavelmente, a partir de agora, também não elegerá a mais ninguém que dela
queira fizer uso.