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Supermercado não é lugar de Felicidade

Assim como tantos brasileiros vou também exercitar o saudável hábito de gastar dinheiro,
tempo e paciência neste fim de ano. Ninguém é de ferro pra sempre. Que digam as damas inglesas.
No meu caso, entretanto, disponho apenas de tempo e de pouca paciência, mas não me sinto
impedido de vasculhar brechós ou de buscar vorazmente pelos classificados saldões e ofertas das
últimas horas. Um imóvel em condomínio fechado, por exemplo, ou ainda um carro na cor
vermelho ferrari. Uma pechincha, um sonho! Meu coração até acelera o ritmo das batidas. A
cantora Márcia Freire já dizia: “a cor do meu batuque tem o toque e tem o som da minha voz –
vermelho”. Quantos são os tons de vermelho desejados neste natal? Meu sonho é vermelho. Papai
Noel é vermelho. O Comunismo é vermelho. A Fraternidade é Vermelha, no filme do polonês
Krzysztof Kieslowski. Na guerra até a Cruz é Vermelha. Marte, o deus mitológico da Guerra, não é
vermelho, mas o planeta é. Parece que há mesmo muita utilidade para a cor vermelha.
Em 1989 derrubaram a marteladas o Muro de Berlim, reunificando as Alemanhas. Foi o fim
da Guerra Fria. Um certo tom ideológico de vermelho saía do episódio um tanto quanto abalado.
Permanecem, ainda avermelhadas, de um lado a pequena Cuba e a grande China. Os paises que são
impérios potenciais para o Papai Noel de mercado, por outro lado, estão órfãos desde anteontem – o
papai EUA foi, anteontem, derrotado pelos pequenos amarelos avermelhados do Vietnã -, no
entanto, ontem, proclamaram a morte por inanição do povo cubano, e hoje, paradoxalmente
celebram diante da maior árvore de natal do mundo no Central Park - mesmo que não seja eles
dirão que é e ninguém contesta - a tão desejada abertura do maior mercado consumidor e vermelho
do mundo – a China. A felicidade no natal parece mesmo uma questão de mercado.
Caetano Veloso, no seu livro Verdade Tropical, de 1997, narra um episódio no qual
aguardava um ônibus, numa parada lotada de passageiros – era época de natal -, e disse em voz bem
alta: “se eu pudesse eu matava o Papai Noel”. O problema era encontrá-lo. Críamos num Papai Noel
“pessoa” humana que apenas existe como máquina veiculadora de ideologias. Era o personagem
ideológico que Caetano queria matar. A ideologia de consumo de massas dispersa o inimigo no
meio da multidão atônita nas filas dos caixas. Apesar de todo o avanço dos meios de comunicação,
antecipamos o óbvio de sempre – é natal. Neste ano a alegoria será diferente. Papai Noel virá do
planeta Marte, atualizado diretamente das páginas da mitologia greco-romana – assim uniremos o
útil do mercado vermelho emergente ao agradável da crucificação da guerra eterna. Vestindo um
modelito camuflagem no deserto Papai Noel desfilará na Praça da Paz Celestial chinesa num tanque
de Guerra Urutu – de fabricação brasileira.
Segundo a Bíblia, Deus é o criador e dono do Mundo. O império-sede do Papai Noel de
mercado acha que é o dono do Mundo e declara guerra contra todos os que sejam contrários. Papai
Noel é o deus do consumo e é a atualização do deus mitológico da guerra – e mora na sede do
império, e não na Lapônia, como se pensava. Pela lógica, os EUA são o Olimpo. Marte – ou Papai
Noel, como queira – é imortal, porque é filho de Deus, e George W. Bush é o deus-pai todo
poderoso encarnado desejando o mundo para si. Completando a santa trindade, o povo, que espera
ansiosamente para ir para o céu. Marx tinha mesmo razão: a religião é o ópio do povo. Enquanto
isso curtam o lado legal da coisa! O céu fica no norte da América e não é preciso morrer para entrar
nele. Enfim, a felicidade em vida. Mas tomemos cuidados. Como diz Zeca Baleiro: “supermercado
não é lugar de felicidade”, mesmo no natal. Depois de todo natal sempre vem um mês de janeiro.

Marcelo Pessoa
Mestrando em Teoria da Literatura
poestylus@bol.com.br