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Capoeira, Caratê e Capitalismo

Algumas pessoas vivem de esperança, outras são necrofágicas.


De alguma maneira, essas pessoas materializam em suas vidas os dogmas
preceituados pelos gurus e livros de auto-ajuda. Nada de ruim nisso. É muito bom que se
pense positivamente, até mesmo porque, é melhor pensar o bem do que o mau.
Um amigo meu, outro dia, em seu escritório, ao receber um cliente que estava com
um semblante triste, logo tratou de levantar o seu astral. “Vamos, fulano”, bradou
efusivamente, “tudo vai melhorar, amanhã será um dia melhor, acredite”. A ladainha do
futuro próspero não parou por aí, mas esse trecho já me basta.
Ao lado dos ditames da auto-ajuda, temos os lutadores de capoeira, caratê, jiu-jitsu,
judô, etc. A auto-ajuda literária é da paz, os guerreiros da auto-ajuda que vestem kimono,
parece que estão sempre se preparando para a guerra.
Historicamente, sabe-se que as lutas que não usam armas, são desenvolvidas por
grupos sociais oprimidos. A capoeira começa como dança nos campos de trabalho escravo
e, atualmente, ganha o status de luta marcial. As orientais seguem mais ou menos as
mesmas origens, acrescidas de uma pitada de filosofia.
As lutas em si não são agressivas. O praticante, às vezes, é que é agressivo, e
imprime à luta que pratica, à roupa que usa, ao carro que tem, à tatuagem que exibe, ao
cachorro que leva para passear, um estereótipo de violência gratuita. Seu prazer parece ser
o de assustar as pessoas, como se fosse um fantasma assustado consigo próprio e fugido do
cemitério. Alguns exageram e acabam até cometendo crimes.
Se as lutas desarmadas são frutos de algum tipo de opressão, esse comportamento
voluntário que os aproxima dos fantasmas pode ter algum sentido. O oprimido, na
sociedade, é o indivíduo que morre todo dia um pouquinho. Morre ao amanhecer quando
pega um ônibus lotado para trabalhar. Na hora do almoço, morre um pouco mais ao abrir a
marmita e ver que não tem mistura. Quer prestar um concurso público para morrer
encostado no paternalismo do Estado, mas é semi-analfabeto, quer ter lazer, mas é
condenado a assistir ao big brother. No big brother as pessoas ganham dinheiro muito fácil.
Durante algumas provas do programa, como aquelas que visam garantir o alimento da
semana, o participante que conseguir ficar mais tempo sem ir ao banheiro, ganha um carro
novo. O oprimido vê tudo isso pela televisão, e o que lhe resta é a catarse. No seu trabalho,
também fica horas privado de suas necessidades e, nem por isso, ganha um carro, um
aumento, um brinde. Assim, ver televisão, embora não saiba, é, para o oprimido, um rito de
morte.
No outro dia que amanhece, o oprimido quer mudar a história de sua vida com base
nos dados do dia anterior. Decide praticar uma arte marcial, fazer uma tatuagem, comprar
um cachorro bravo, e sair pelas ruas assustando pessoas-fantasma iguais a ele. O fato que
não conseguirá mudar é que ele já está morto. O sistema o transformou num cadáver social,
e ele, agora, passa a viver de esperanças e de auto-ajuda, enquanto tem de se dedicar a
transformar o sonho dos outros em realidade.
Paulatinamente, percebe e incorpora a idéia de que, no sistema capitalista, a
principal técnica de auto-ajuda, é o caratê. O “cara tê” dinheiro, o “cara tê” casa, carro,
fazenda...
Sem saber “cara tê”, o indivíduo alimenta-se do próprio cadáver, tendo de inventar
uma nova esperança a cada dia para evitar ser transformado num fantasma.

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