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Em Busca do Pai

Os fatos a seguir são uma mistura de hilária realidade e de ficção trágica. Ao levar
isso tudo ao conhecimento do leitor devo admitir que já não reconheço mais em minha vida
as fronteiras que divisam o que de fato eu vivi e o que eu simplesmente inventei.
Entretanto, esclareço que isso não deve ter mais nenhuma importância para mim, porque,
de qualquer maneira, já me tornei durante minha atual existência a representação fiel de
tudo o que vou relatar.
Não fui criado com meu pai biológico. Só o reencontrei aos vinte anos de idade. Em
dado momento, por volta dos cinco ou seis anos, não tenho certeza, sempre quando me
perguntavam “menino, quem é seu pai!?”, invariavelmente respondia que eu tinha sete pais.
E emendava, orgulhoso, explicando a alegoria. Um é aviador, outro engenheiro, outro
pedreiro, outro médico, outro policial, havia também um que era escritor e um mágico. À
época minha mãe desposava seu segundo marido – um policial. Penso que esse fato devesse
causar muito constrangimento a ela. Isso porque a sabatina sempre ocorria em ocasiões
festivas, nas quais a casa ficava cheia de visitantes. As respostas eram dadas enquanto eu,
no meio da sala e em voz alta, rodeava a mesa de centro pulando pelado diante das pessoas.
Todo mundo via e ouvia e dava muita risada. Suponho que levavam tudo na base da
brincadeira – menos eu. Fatos sérios e cômicos à parte, a realidade é que, de um jeito ou de
outro, acabei tendo todos esses sete pais. No ressentimento da presença física do pai
biológico, e impotente para resolver a questão, eis que surgem na cena de minha vida real o
seguinte quadro, pintado a sete cores vivas.
Meu primeiro pai, o engenheiro do mundo, aquele que sempre existiu: Deus. Por
morar no céu, talvez ele simbolizasse ainda em minha mente o “pai aviador” que queria ter.
O segundo, o que me fez com minha mãe, deu-me mais nove irmãos com outras mulheres
espalhadas pelo mundo. O terceiro criou-me até os seis anos. Era um policial, e
coincidentemente acabei tornando-me um, por três anos. O quarto, educou-me dos onze até
os dezoito anos de idade, quando aos onze anos deixei a casa de minha avó e fui viver com
eles, pois ele e minha mãe iam dar-me uma nova irmã, a qual estava para nascer. Esse era
um pedreiro que virou marceneiro, depois empresário, e, em seguida, morreu. O quinto, foi
o pai que minha mãe tentou ser para mim. Por uns tempos ela quis ser um tipo de educador
definível como sendo uma mistura de sargento-madrasta-avó. Ela até queria ter estudado
medicina – encarnaria, assim, o pai médico da minha imaginação -, mas acabou mesmo é
sendo enfermeira, por alguns anos apenas, mas foi. Nos intervalos entre as raras
convivências com minha mãe, as temporadas na casa de alguns parentes e de minha avó
materna, minha mãe hospedava-me na casa de pessoas estranhas, e logo desaparecia no
mundo deixando-me ali. É engraçado lembrar disso, porque minha avó tentava ser minha
mãe, a minha mãe tentava ser meu pai, e os estranhos não escondiam o desejo de ser
ninguém importante em minha vida. O sexto pai foi o que nunca existiu, a figura do
ausente, o que me fez aprender sozinho a ser homem pelas ruas e pelas casas estranhas
onde morei, o que esteve também materializado nos desimportantes rostos estranhos e na
figura familiar de cada parente cujas casas habitei temporariamente. E assim, sem
referências, pisando em solos fugazes, respirando ares simbólicos, mesclando
personalidades cambiantes a personagens abstratos, fui crescendo, aprendendo a ser um
escritor, construindo pontes verossímeis entre a realidade e a fantasia humana. O sétimo pai
é único, pois é o pai que eu estou aprendendo a ser para a minha filha desde que ela nasceu.
E devo confessar, isso de ser pai é mesmo um troço mágico.

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