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NOSSA GUERRA DE CADA DIA

Estamos num futuro igual ao passado e ao presente. Vivemos a expectativa de mais


uma guerra mundial. Tudo é igual ao sempre.
Apesar dos avanços tecnológicos e da inegável sofisticação dos armamentos, a
humanidade acaba de descobrir um poder incalculável na anatomia humana, localizado na
região dos olhos: o olhar.
O domínio desse recurso pode fazer novos vencedores no campo de batalha. O novo
aliado é carregado no próprio corpo do combatente – o que barateia a logística. Basta um
disparo sincero do olhar e os adversários caem por terra, derrotados – a precisão do tiro
reduz a quantidade de munição sobressalente. É a espantosa e econômica guerra do futuro.
É importante, no entanto, para o êxito total dos disparos, que os olhares se cruzem,
indubitavelmente, num flerte de morte.
Os treinamentos militares mais intensos cuidam para que os soldados lutem às
cegas, no escuro, durante a noite, e com vendas nos olhos, durante o dia. E, se, num
descuido, a bandagem dos olhos cair ou for esquecida no acampamento, basta fechar os
olhos e não ter que atirar à vontade.
O paradoxo disso tudo é que, descobrindo nos olhos uma artilharia mortal, as armas
convencionais ainda não foram dispensadas. É uma garantia para combater um efeito
colateral. O mesmo olhar que mata, dizem os pesquisadores, pode perdoar. O que seria
inaceitável, principalmente no calor de uma luta deflagrada há muito tempo e já
considerada sem sentido por todos. Isso seria gravíssimo, ressaltam. O perdão, nessas
circunstâncias, seria pior que uma bomba atômica. Ninguém deve desejar a guerra, mas, se
começá-la, disseram, melhor que se chegue até o limite das últimas conseqüências.
Imaginem que, apenas olhando umas para as outras, as pessoas podem se matar ou
se entender. O normal é que se matem! É a ética da guerra e a coerência com o niilismo.
Medidas drásticas se fazem necessárias – diziam os noticiários da manhã.
Primeiro será preciso evitar que as pessoas se olhem durante a execução de hábitos
do cotidiano: no trabalho, na escola, no supermercado, etc. Depois, é de extrema
importância que ninguém observe o aparelho do Estado vigiando a vida das pessoas. Pode
ser que o cidadão, ao perceber o governo governando, ou o tente matar, ou possa ser morto
por ele. Como não se sabe, é aconselhável que se evite o cruzar de olhos com o Estado.
Outro comportamento que pode ser interessante de ser estudado é o que diz respeito
à condição de que, ainda não se sabe como, quem é que mata primeiro quando os olhos se
cruzam. É um mistério. Tentando dar uma explicação, os estudiosos dizem que morre
primeiro quem assim o desejar.
Outros estudos indicam que pode existir uma pré-disposição congênita e o guerreiro
não sabe ser portador desse gene letal: o desejo de morrer ou o instinto de matar. No
entanto, já foi verificada uma tendência. Todo aquele que já matou alguma vez com o olhar,
tende a seguir matando sempre. Em contrapartida, todo aquele que já perdoou, seguirá
perdoando.
Dizem os cientistas, finalizando os relatos sobre os primeiros estudos, que matar,
viver ou perdoar parece ser mesmo uma questão de bom senso, e pedem, então, que cada
um faça uso do seu na medida do que conseguir desejar.