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Burnout: sofrimento

psíquico dos trabalhadores


em educação
AUTORES
Wanderley Codo
psicólogo, doutor em psicologia social pela PUCSP, pós doutorado em Paris, pela Ecole des hautes études e
na Inglaterra, pela London School of Economics, professor titular no Instituto de Psicologia-IPda UnB
e coordenador do Laboratório de Psicologia do Trabalho LPT/IP/UnB.

Iône Vasques-Menezes
psicóloga do Instituto de Psicologia-IPda UnB, doutoranda em psicologia clínica, pesquisadora e responsáv-
el pela área de psicologia clínica no Laboratório de Psicologia do Trabalho LPT/IP/UnB.
Trabalhadores em educação

Sumário

EDUCAR: O AFETO
INVOCADO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .6

OS TRABALHADORES
E SEU TRABALHO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .15

BURNOUT: O SOFRIMENTO
DO EDUCADOR . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .29

A SI MESMO
COMO TRABALHO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .34

OS ANTECEDENTES
DO BURNOUT . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .48

O PLANETA
COMO CENÁRIO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .49

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Apresentação

Voltado para os trabalhadores e trabalhadoras da educação, esse fascículo da série


“Cadernos de Saúde do Trabalhador” do INST/CUTé resultante de intensos debates entre
sindicalistas da área e de anos de pesquisas conduzidas pelo autor, constituindo-se, por-
tanto, em contribuição de imenso valor para a ação da Confederação Nacional dos Traba-
lhadores em Educação (CNTE) da CUT, sindicatos do ramo e coletivos estaduais e nacio-
nal de saúde no trabalho e meio ambiente da CUT.
O objetivo dessa publicação é sensibilizar os trabalhadores e trabalhadoras da educa-
ção sobre as características da sua atividade e o sofrimento que a mesma pode infringir-
lhes. “Não se pode investir somente energia física quando se realiza um trabalho... ali es-
tão depositadas alegrias, insatisfações, queixas e sonhos, a subjetividade”. Trata-se, por-
tanto de uma reflexão que todos nós devemos fazer, para então buscarmos as soluções
que visam a valorização, o reconhecimento e a satisfação no nosso trabalho.
O conteúdo dos fascículos da série do INST/CUT, abordando os fatores de risco que
afetam a saúde dos trabalhadores e trabalhadoras de diversas categorias profissionais pro-
cura, ao mesmo tempo, capacitar os sindicatos, confederações e coletivos de saúde para a
confrontação e transformação dessa realidade.
Neste fascículo, em especial, são tocados aspectos característicos da atividade de edu-
cadores e educadoras, cujo resultado do trabalho é difuso e distante. O meio de trabalho é
o próprio profissional. O processo de trabalho se inicia e se completa numa relação social
permeada pelo afeto, em que a ação de um resulta no bem estar do outro, onde a profissio-
nalização gera a tensão fundamental: vincular-se ou não vincular-se afetivamente? Esta
tensão impacta fortemente no exercício da profissão, nas condições e nas relações de tra-
balho. Por essa razão, algumas polêmicas são reveladas pelo texto como desafiadoras da
ação sindical, das políticas públicas e do exercício profissional. Um dos temas mais presen-
tes no cenário atual diz respeito à qualidade do trabalho educativo e à avaliação do desem-
penho. Há uma tendência forte por individualizar a valorização do esforço - o texto deixa es-
ta questão aberta e a afirmação clara de que as condições de trabalho são tão importantes
para a consideração do tema quanto o salário e a carreira.
Por isso, esses fascículos constituem-se também em material didático e de referência
para os cursos de formação de dirigentes e militantes, planejados para serem realizados
nas escolas de formação da CUT em todo o país.
Devemos então, a partir desse acúmulo e da prática sindical e educacional, aprofundar
nosso diagnóstico sobre os efeitos do trabalho na saúde das pessoas. Eis aí mais uma ta-
refa transformadora para os profissionais da educação: modificar a realidade das pessoas
a partir da transformação da própria realidade. A tarefa não é fácil! Mas, é nossa!
Portanto, mais uma vez, mãos a obra, companheiras e companheiros.

Carlos Augusto Abicalil Remigio Todeschini


Presidente da 1º Secretário Nacional da CUT
CNTE/CUT Coordenador Nacional do INST/CUT

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Trabalhadores em educação

EDUCAR: O AFETO não raro uniformiza seus alunos com a sua mar-
INVOCADO ca. Agora a educação tem dono, tem autor, tem
começo e fim, tem critério, se mede em núme-
Uma tarefa impossível ros, se avalia. O aluno, ao entrar para a primeira
série do primeiro grau, tem alguém responsável
Dos que sabem sentar-se à mesa, usar ca- pela sua educação; um objetivo pré-traçado; um
da copo e cada talher por sua vez, dos que não programa elaborado onde se imagina que, em
comem com a boca cheia, os que não misturam seqüência, cada habilidade é necessária para a
a comida a esmo, sabem combinar sabores no aquisição da próxima; uma prova ou algo seme-
prato diz-se que são educados. Se educa a lín- lhante que é lida como um indicativo de que as
gua, os olhos, o faro, a sensibilidade, os afetos, metas foram ou não cumpridas; o resultado defi-
o erotismo, qualquer sentido que tenhamos ou nido em porcentagens precisas. Um professor
que venhamos a inventar. faz um curso, um concurso, está habilitado para
É assim que o mundo leigo, o mundo das ensinar, digamos, português ou matemática, tem
primeiras aparências, se refere à educação, ou um programa, define metodologia, estabelece
se tem ou não se tem, ou se tem mais ou me- avaliações, o comportamento esperado em cada
nos: “fulano não tem educação, sicrano é mal uma delas, etc., etc. e etc.
educado, beltrano é muito educado, tem uma Agora a educação comparece como um tra-
educação finíssima”. balho, como qualquer outro: profissionais divi-
Ainda a educação formal, aquela que se dindo as tarefas, cada qual cuidando de seu pe-
aprende na escola não escapa desta miríade daço, o aluno tendo seu trabalho avaliado e ar-
de significados. “O aluno não está aqui apenas bitrado, quantas horas deve se dedicar para
para receber e dominar conteúdos específicos, aprender matemática, biologia ou português.
deve ser educado para a vida”, é uma frase co- Agora vislumbramos uma atividade oposta
mum de se ouvir nas escolas. Os\as professo- àquela que vimos surgir mais acima: “educar é
res\as não raro intervém no modo dos alunos uma tarefa objetiva, finita, mensurável, tem seu
se vestirem, tentam ensinar boas maneiras à lugar (a sala de aula), seu tempo (a duração da
mesa quando há refeições na escola, introdu- aula) e sua medida (as provas)”.
zem discussões sobre religião, arte, literatura Tem mesmo? Que se ouça o professor:
em seus currículos ou aulas. Eles também, os “Não quero que os meus alunos fi -
profissionais especializados em educação, quem apenas decorando os nomes dos
atuam a partir do mesmo pressuposto apontado países, quero que tenham uma noção
acima, e se consideram (ou são) encarregados crítica de História ou Geografia...”
da mesma abordagem ampla geral e irrestrita. “Não basta que os alunos saibam
A educação, além de onipresente e onis- fazer contas é preciso que saibam racio -
ciente é incomensurável. Impossível dizer cinar segundo a lógica matemática...”
quem tem ou quem não tem, quem tem mais ou “Mais importante do que as leis e os
menos, qual é melhor ou pior. símbolos deste ou daquele país, procu -
Mas a educação se faz também na escola, ro ensinar uma ética e uma moral capaz
por profissionais especializados: ‘os professores, de transformá-lo em um cidadão...”
os educadores, os trabalhadores em educação’ “busco desenvolver em meus alu -
em um prédio próprio, mal ou bem aparelhado nos a capacidade de crítica, o sentimen -
para este fim; funciona em horários delimitados; to de justiça...”

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“É preciso que o aluno traga sua nosso passado e do nosso futuro.
realidade concreta para a sala de aula, Se quisermos estudar o desenvolvimento
ou é preciso levar a realidade concreta do homem de sua era mais pré-histórica até ho-
para a sala de aula”. je podemos faze-lo com base num objeto qual-
Bastou aprofundar um pouquinho nas pri- quer, em qualquer ato, por mais banal que seja.
meiras aparências e já estamos outra vez sem Não apenas os objetos, os atos também são
poder medir, diferenciar, definir. Outra vez, históricos. A história existe antes e depois do
mesmo no espaço definido da escola, mesmo ato e provavelmente vamos entendê-lo de uma
na rigidez do resultado numérico, estamos no forma muito mais abalizada no decorrer dos
território do onipresente, omnisciente, incomen- tempos. Apesar de sua historicidade, a maioria
surável. Uma tarefa que não se define, que não dos atos e objetos banais que poderíamos es-
tem começo nem fim, que sequer se saiba o colher para contar a História dos homens são
que seja. mudos, comparecem em nosso cotidiano e não
Mas a vida real é composta de professores, deixam registro. Poucos são os objetos produ-
com muita sorte, com ‘apenas’ 30 alunos em zidos por nós, e os atos praticados por nós, que
quatro horas, por nove meses ao ano. Agora permanecem na História registrada, escrita, do-
sim, também para um mero mortal: “uma tarefa cumentada, ou ao menos lembrada por nossos
impossível”. pares. Os raros que merecem registros, estes
Impossível e muitos vivem a vida como edu- nos orgulham muito, ser citado em um livro, ter
cadores, e muitos ainda gostam disso, talvez escrito um, ser lembrado pelos amigos, pelos
porque seja uma tarefa, um trabalho muito es- entes queridos. Ter tido a sorte ou a coragem
pecial. Qualquer ser humano sonha, pelo me- de fazer a coisa certa, definitiva, ter a certeza
nos por um momento, em escrever seu nome de que as tuas palavras mudaram a vida alheia.
na história, em última instância, em não morrer, Quanto prazer tudo isso nos dá.
em ser lembrado depois que passou. O profes- Inventamos rituais para marcar os gestos
sor, o educador, tem esta chance. que consideramos dignos de freqüentar a me-
mória: um casamento, o nascimento dos filhos,
Uma atividade completa os aniversários que todos queremos memorá-
veis, as formaturas. Realizamos registros para
Ser Humano significa ser Histórico. Com- que permaneçam apesar de nós: um álbum de
preender um ser humano implica em partir do fotografias, as cartas recebidas, objetos pre-
pressuposto de que cada gesto, cada palavra senteados, mesmo que fúteis, um diário. É que
está imediatamente inserido num contexto mui- ao retirar nossa História do anonimato, ao re-
to maior, que transcende a ele e a sua existên- servar-lhe um lugar em nossa memória, com
cia. Escrevendo a História de toda a humanida- sorte na memória alheia, de alguma forma to-
de, todo o passado determina, constroí, recons- mamos posse de nosso destino, do nosso pró-
trói, explica, significa e re-significa o presente; prio ser histórico. Todos sabemos o prazer, o
todo presente engendra, contém e constrói o fu- deleite que isto traz.
turo. Assim, cada ação humana é também por- Aescola é o lugar privilegiado onde os obje-
tadora do futuro, carrega em si toda a História tos e os atos recuperam toda a sua História, to-
da Humanidade e as possibilidades a ser re-de- dos os seus significados. Há um profissional cu-
senhada amanhã. Cada ação humana é uma ja obrigação é a de reconstruir todo o passado
síntese, ao mesmo tempo, única e universal do e todo o futuro: o professor.

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Trabalhadores em educação

Educar, portanto, é o ato mágico e singelo, dora de significados, potencialmente transcen-


de realizar uma síntese entre o passado e o fu- dente, mas apenas alguns poucos gestos tem a
turo. Educar é o ato de reconstruir os laços en- sorte de fazer a História, reservarem seu lugar
tre o passado e o futuro, ensinar o que foi para no futuro. A menos que você seja um/a profes-
inventar e re-significar o que será e o professor sor/a. Nesse caso cada palavra dita, cada mo-
sabe que é um artífice de novos mundos. vimento do olhar tem seu lugar reservado no fu-
Retomar o passado, refazer os vínculos turo do outro, do país, do mundo. Por bem e por
com o presente, reorganizar o futuro, eis o que mal.
o professor faz. Quando se estuda ciências,
história, geografia, português, literatura ou ma- O Produto e o Outr o
temática, física, química ou biologia, o profes-
sor está trazendo o passado para que se possa A primeira lição que um estudioso do traba-
construir o presente dos alunos para que eles lho aprende é: pergunte pelo produto. Aprende-
então possam, através da re-significação, cons- mos muito cedo que ao entender o produto en-
truir o futuro. Essa transformação é produto do tenderemos muito do trabalhador. O marcenei-
trabalho da educação, do ensino, do professor, ro é do jeito que é porque produz cadeiras, me-
dos profissionais da educação no seu vínculo sas, armários, porque tem a madeira como ma-
direto com o passado e com o futuro, os alunos. téria prima, seus braços, seus gestos vão se
Toda ação humana é potencialmente gera- tornando diferentes, portanto sua identidade vai

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se tornando reconhecível. Um médico desen- tais. O que importa é o que mudou nesse aluno,
volve outras sensibilidades, outros hábitos, agora sabe ler, agora sabe consultar um atlas,
também porque o seu produto é outro. agora sabe escrever. Pouco importa se saímos
É que o trabalho pereniza o gesto do traba- todos para plantar árvores em uma manhã de
lhador, imortaliza o trabalho. É que o trabalho é primavera, ou se o professor exerce o terroris-
uma mágica que tem lugar entre o homem e as mo ambientalista em sala de aula, o que impor-
coisas, a coisa faz o homem e o homem faz a ta é desenvolver a consciência ecológica nos
coisa, a madeira faz o marceneiro que faz a alunos, em seus pais, na comunidade.
madeira. Se houvesse um final do processo, te- Se retomarmos a discussão acima, na
ríamos outro mundo e outro homem. O mundo maioria dos trabalhos se pode traçar um esque-
com a face do marceneiro o marceneiro com o ma assim: Modificar a natureza> modificar a si
jeito da madeira. mesmo >produto> modificar o outro.
Pois bem, é isso que permite ao homem, Para o educador a relação é direta: Modifi-
ser histórico, a possibilidade de permanecer car a si mesmo> modificar o outro.
apesar de si cada gesto nosso, através do tra- Que conseqüências essa especificidade
balho, é sempre imortal. O produto do trabalho carreia para o trabalho do professor? Em pri-
é a corporização desta permanência do ho- meiro lugar, um marceneiro, empregado em
mem apesar dele mesmo. Seus vínculos com uma fábrica de móveis pode passar toda a sua
os outros homens, com nosso passado, nosso vida marcenando sem que tenha consciência
futuro. da capacidade de transformar o mundo sem
Mas há ainda uma outra face da mesma que refaça em seu espírito o percurso que o
moeda. Ao representar o homem, o produto do aproxima de Deus. Já ao educador a sua di-
trabalho o re-apresenta. A mesa do marceneiro mensão histórica é posta imediatamente à sua
passa a existir como seu outro ser que se inse- frente. Depois de cada aula é outro, são outros
re na vida da família que se senta na hora do seus alunos, é outro o planeta em que convive.
jantar. O marceneiro, através do seu produto Digamos, o trabalho do educador é imediata-
comparece perante os outros homens materia- mente histórico.
lizado. Ao mesmo tempo, a mesa do marceneiro
Estamos em um jogo de espelhos que em está ali, relativamente imutável ao correr dos
última instância constrói o que chamamos de anos, reconhecível de imediato, permite a todo
identidade social, os modos como o trabalhador o momento a recuperação dos gestos que a
constrói a si e se apresenta perante o outro. realizaram. Para o professor, ficará difícil re-
Mas e o professor? Qual é o produto do pro- compor o trajeto. Raros e felizes são os mo-
fessor? O marceneiro transforma ao outro, os mentos em que é possível reconhecer no aluno
outros, a sociedade através da mesa. O profes- a marca específica do trabalho. Em um plano
sor transforma o outro através do outro mesmo, abstrato, sim, fui eu que o eduquei, ou ajudei a
sem mediações. O seu produto é o aluno edu- educar, mas em um plano concreto, como sa-
cado, é a mudança social na sua expressão ber onde começou e onde terminou a minha in-
mais imediata. tervenção? Como dimensionar a minha potên-
Pouco importa os truques didáticos que se cia? O outro se transforma na mesma velocida-
utilizem em sala de aula, pouco importam os de em que o professor o transformou. A histori-
exemplos, pouco importa que o aluno saiba re- cidade imediata que anima o trabalho do pro-
petir uma lista enorme de países e suas capi- fessor o deixa impossibilitado de se refletir ime-

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Trabalhadores em educação
diatamente, a ausência de um produto, apesar condição principal de sua atividade de trabalho.
da relação mesma, o condena à relação. De- Por isso, os planejamentos de seu trabalho, as
pende, para se reconhecer, que o outro o reco- etapas a seguir no processo de ensino-aprendi-
nheça. zado, são por ele decididas, o ritmo, imposto a
Mas é também a existência concreta do pro- seu trabalho, não escapa completamente a seu
duto que permitiu e permite a alienação do tra - controle, embora existam prescrições externas,
balho, por isso que Marx dizia que o trabalho às quais ele poderá por diferentes motivos re-
alienado rouba do homem sua hominidade, o sistir. Tudo isso, porque ele possui um saber e
transforma em um animal. Na exata medida em porque o produto do trabalho é o outro.
que rouba do homem o seu ser, o seu vir a ser, No que diz respeito o produto do trabalho do
a sua História. O ardil que implicou na hegemo- professor, existem inúmeras especificidades.
nia da mercadoria é o ardil da transformação do Em primeiro lugar, como já se viu, não se trata
trabalho concreto em trabalho abstrato, em de um objeto sobre o qual ele plasma sua sub-
mercadoria, em valor de troca, consiste em últi- jetividade, mais de um outro ser humano. A
ma instância em descarnar o trabalho das mar- parte de seu ser que foi realmente objetivada
cas que importou do trabalhador. no produto- aluno, será sempre alguma coisa
A alienação do processo de trabalho acon- difusa para ele e para os outros. Em poucas pa-
tece na medida em que o capitalista o submete lavras, para o educador, o produto é o outro, os
a seus próprios fins: a consecução do lucro. meios de trabalho são ele mesmo, o processo
Trata-se de um processo paulatino de expro- de trabalho se inicia e se completa em uma re-
priação do controle do trabalhador sobre o pro- lação estritamente social, permeada e carrega-
cesso de trabalho. da da História. Uma relação direta e imediata
A divisão técnica do trabalho esfacela ao com o outro é necessariamente permeada por
trabalhador, convertendo-o num “homem unidi- afeto. E é o afeto como componente tácito do
mensional”. Podemos aplicar esta análise do trabalho que havemos de enfrentar a seguir.
processo de trabalho sob o capitalismo como
atividade alienada, ao processo de trabalho que A tensão entre objetividade
tem lugar nas escolas? . e subjetividade
Em primeiro lugar as escolas não são fábri-
cas capitalistas, não temos patrões capitalistas A palavra afeto vem do latim, affectu, (afe-
nas escolas. Se considerarmos que o Estado é tar, tocar) e constitui o elemento básico da afe-
um representante de classes, no máximo pode- tividade, conjunto de fenômenos psíquicos que
ríamos dizer que a compra do trabalho do pro- se manifestam sob a forma de emoções, senti-
fessor é intermediada pelo Estado, o que lhe mentos e paixões, acompanhados sempre da
transfere propriedades muito particulares, por impressão de dor ou prazer, de satisfação ou
exemplo, a extração de mais-valia não é direta. insatisfação, de agrado ou desagrado, de ale-
Mas, qual a relação do professor com o pro- gria ou tristeza. Costumamos utilizar a forma
cesso ou atividade de trabalho que tem lugar na verbal do termo, afetar, no sentido de influen-
escola, com o planejamento, com a execução, ciar: “o que ele diz sobre mim não me afeta”. Ao
com os instrumentos do trabalho e com o pro- dizer que o ser humano age sobre o meio em
duto do trabalho: o aluno? que vive, estamos considerando também que
Primeira questão a ser colocada: o saber e ele dá significado ao objeto através da sua
o saber-fazer estão nas mãos do professor, ação. Essa significação é a expressão da sub-

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jetividade do trabalhador, enquanto que a alte- possui uma dinâmica própria, onde as possibili-
ração física produzida no ambiente é a realida- dades de expressão da subjetividade, da afeti-
de objetiva. vidade humana vão variar em maior ou menor
O trabalho pode então ser analisado nessas grau.
duas esferas: uma objetiva e outra subjetiva. A O trabalho de um artista plástico, por exem-
esfera objetiva é a da transformação física, on- plo, possibilita a expressão da afetividade num
de a árvore é transformada em cabana para grau muito maior que a de um agente adminis-
proteger o homem das intempéries da nature- trativo que passa o dia em sua mesa de escritó-
za, por exemplo. Mas quando o homem atua rio. Porém, o trabalho deste segundo também é
sobre a natureza, transformando-a para aten- dotado de subjetividade, e esta se expressa de
der às suas necessidades, ele lhe atribui um formas alternativas, seja na nova proposta de
significado. Esta significação é o que caracteri- arquivamento dos documentos, na nova forma
za o subjetivo no homem, pois abre a possibili- de diagramar os gráficos para a palestra que o
dade para que ele possa investir o produto de chefe vai proferir, seja na planta colocada sobre
seu trabalho de energia afetiva. a mesa para deixar o ambiente “mais aconche-
Quando o homem se relaciona com o mun- gante”, seja no papel decorado com o qual foi
do, imprimindo-lhe a sua marca, além da ener- forrada a gaveta ou no porta-retrato com a foto
gia física ele despende também uma energia dos filhos pequenos.
psíquica, enquanto dá significação às coisas. O Apesar dessas duas esferas conviverem
trabalho humano se dá justamente neste terre- juntas na atividade humana, na sociedade oci-
no de dupla troca entre a objetividade do mun- dental afetividade e subjetividade sempre foram
do real, que concretiza o ato para o indivíduo, e consideradas dois universos distintos e, como
a subjetividade do homem, que atribui um signi- veremos, associados à questão da divisão se-
ficado ao mundo real ao modificá-lo através da xual do trabalho. Mesmo que ilusória, sendo
sua ação. que efetivamente é impossível separá-las, esta
Através do trabalho o homem, na relação fragmentação vai influenciar diretamente na for-
com o objeto, entra em contato com o mundo mação da identidade do indivíduo, permeando
real, concreto, descobre-se igual a outros ho- a forma como vai se construir a relação deste
mens, identificando-se enquanto ser humano. com o produto de seu trabalho.
Ao mesmo tempo, dotado de sua subjetividade, O trabalho do educador passou incólume
ele vai se diferenciar de outros seres humanos perante a taylorização, pela expulsão do afeto
e construir a sua individualidade. Se por um la- no trabalho, ao contrário, guarda até hoje uma
do ele compartilha da história da espécie huma- herança muito próxima da família, carrega até
na, por outro ele também desfruta de uma his- hoje a história de um trabalho fortemente mar-
tória individual, que é diferente e única. Suas vi- cado pela divisão do trabalho em público e pri-
vências, experiências, frustrações, afetos e de- vado.
safetos; tudo isso é levado pelo trabalhador pa-
ra a relação de trabalho. A mediação da afetividade
O trabalho engloba, assim, esta tensão en-
tre a objetividade do mundo real e a subjetivida- O cuidado, por definição, é uma relação en-
de do indivíduo que o realiza. O que vai confi- tre dois seres humanos cuja ação de um resul-
gurar esta tensão são as características especí- ta no bem estar do outro. Podemos chamar es-
ficas do próprio trabalho; cada tipo de trabalho ta ação de trabalho porque ela se enquadra

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Trabalhadores em educação
perfeitamente em nossa definição anterior: é dúzia de bocas a alimentar (quem imaginar que
uma relação de dupla transformação entre ho- estamos romanceando, que veja o sucesso que
mem (no sentido de ser humano que cuida) e faz a merenda ou mais atualmente a bolsa es-
objeto (no sentido de externo ao homem; o ou- cola para manter os garotos dentro dela). Ou
tro que recebe o cuidado). Na medida em que ainda, os seus anos de estrada lhe ensinam
cuida de outrem, o cuidador se transforma, na que aquele aluno, logo ali, precisa de uma con-
mesma medida em que transfere para o outro versa especial, talvez chamar os pais para uma
parte de si e vê neste o seu trabalho realizado. reunião, talvez conversar com seus colegas em
Ora, nesta definição podemos colocar também busca de uma estratégia comum. Mas estas
o trabalho doméstico que, em sua extensão, coisas levam tempo, é preciso pegar o ônibus
termina por enquadrar também o cuidado. Nes- logo depois da aula, senão o atraso na próxima
se sentido, trabalho não é necessariamente escola será fatal, mas a reunião tardou-se para
apenas atividade remunerada. discutir aquele relatório (outro?) que a Secreta-
O fato das mulheres terem sido educadas ria de Educação pediu. O que ocorre aqui é que
durante séculos no sentido de dar expressão à o circuito afetivo, construído com tempo e dedi-
sua afetividade, não significa que a profissiona- cação se rompeu por razões externas ao víncu-
lização das atividades por elas antes realizadas lo mesmo, mediações que rasgam a trama
tenha ocorrido de forma direta, sem que hou- construída entre eu e o outro ‘morro de pena,
vesse necessidade de adaptação. Pelo contrá- mas o que eu posso fazer?’
rio, o movimento de profissionalizar uma ativi- Vincular-se versus não vincular-se afetiva-
dade vista como inerente à pessoa, sendo exe- mente, eis a questão.
cutada de forma mediada, pode gerar um con- Quando falamos da relação entre a subjeti-
flito de difícil saída para quem a realiza. Isso, vidade humana e a objetividade do trabalho, su-
porque a lógica do mercado de trabalho não é, pomos haver um ponto de equilíbrio que garan-
e não tem como ser, a lógica do cuidado. te que o homem se relacione com o mundo
As mediações (salário, técnica, hierarquia) real, concreto, que reconheça a ação como sua
impostas pela profissionalização do cuidado e reconheça-se enquanto ser humano, igual a
criam uma tensão entre vincular-se versus não tantos outros e ao mesmo tempo único na sua
vincular-se, onde o circuito da relação homem- individualidade. Um ponto que, digamos, esta-
objeto não pode ser completado de forma satis- ria entre o mundo imaginário e a máquina. É es-
fatória. te equilíbrio que permite que o indivíduo viva
É o que acontece, guardadas as proporções em sociedade, crie, produza, enfim, construa a
quando o afeto se transforma em trabalho, sua identidade.
quando é parte obrigatória do investimento do Na lógica capitalista, onde o trabalho passa
trabalhador. Que seja um professor; se enterne- a ser uma relação homem-natureza permeada
ce pelo esforço honesto de um aluno carente, por uma infinidade de mediadores (salário, téc-
dedica a ele o melhor de suas atenções, de re- nica, hierarquia, burocracia, normas) nos depa-
pente a família o tira da escola, é preciso traba- ramos com a necessidade de objetivação por
lhar, ajudar nas despesas da escola, o mestre parte do trabalhador. O taylorismo, por exem-
chama os pais, tenta argumentar, encontrar al- plo, simplesmente expulsou o afeto das rela-
guma forma...mas quem pode contra argumen- ções de trabalho, para que as atividades fos-
tos tão duramente reais, quem pode lutar contra sem realizadas de forma objetiva.
as dificuldades reais de uma família com meia Entretanto, como o homem é dotado tam-

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bém de um lado subjetivo, por mais
que se tente excluí-lo do trabalho,
mesmo reprimido, ele acaba sendo
expresso de formas desviadas. Não
foi à toa que logo percebeu-se a im-
possibilidade desta exclusão da ativi-
dade no âmbito do trabalho; atualmen-
te sabe-se que trabalhadores mais sa-
tisfeitos produzem mais e com melhor
qualidade.
Entretanto, há determinadas ativi-
dades que apresentam uma maior
propensão de desajuste entre realida-
de objetiva e mundo subjetivo ao qual
estamos nos referindo. Essas ativida-
des são, sem sombra de dúvida,
aquelas onde a demanda afetiva é
muito maior. Inserido numa atividade onde o cuidado é
À primeira vista, esta colocação pode pare- inerente, o trabalhador precisa estabelecer re-
cer extremamente contraditória, pois se esta- lações, criar um vínculo afetivo com os alunos,
mos afirmando a necessidade de um equilíbrio por exemplo. Acontece que, por ser uma ativi-
entre a objetividade e a afetividade no âmbito dade mediada, este circuito afetivo nunca se fe-
do trabalho, estas atividades são justamente as cha: o indivíduo investe no objeto sua energia
que mais espaço teoricamente proporcionariam afetiva mas, esta, ou invés de retornar integral-
para a expressão da afetividade. Entretanto, se mente para o seu ponto de partida, dissipa-se
considerarmos que o afeto é uma relação onde frente os fatores mediadores da relação.
não há lugar para a mediação, poderemos Ora, essa quebra no circuito afetivo coloca
compreender a extensão de tal afirmação. o indivíduo numa situação bastante contraditó-
As atividades que exigem maior investi- ria. Se por um lado lhe é exigido dar-se afetiva-
mento de energia afetiva são aquelas relacio- mente na relação com vistas ao bom desempe-
nadas ao cuidado; estabelecer um vínculo afe- nho de seu trabalho, por outro lado não lhe é
tivo é fundamental para promover o bem-estar possível fazê-lo, pois as mediações da relação
do outro. Para que o professor desempenhe impedem o retorno, para o trabalhador, na mes-
seu trabalho de forma a atingir seus objetivos, o ma medida. Sem esse retorno do investimento
estabelecimento do vínculo afetivo é pratica- afetivo, o circuito nunca se fecha, ou seja, a re-
mente obrigatório. Para as mulheres que traba- lação afetiva não se estabelece de forma a per-
lham com crianças muito pequenas, então, nem mitir que o trabalhador possa se reapropriar do
se fala, assim como para que a enfermeira rea- seu trabalho.
lize seu trabalho de forma satisfatória, é neces- A necessidade de reapropriação de seu in-
sário que o paciente receba a afetividade dire- vestimento subjetivo leva o trabalhador a fazê-lo
cionada a ele. Acontece que este vínculo nunca de forma simbólica, através de mecanismos, es-
é concretizado satisfatoriamente nas relações tratégias das quais o indivíduo se utiliza para
de trabalho formal, o que gera a contradição. manter o equilíbrio psíquico. Alguns fazem uso

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Trabalhadores em educação
destes mecanismos com sucesso, e garantem a xo passar. Quando vejo que não estou
manutenção de sua saúde mental. Outros, po- conseguindo dar uma aula que desperte
rém, acabam utilizando-se de mecanismos nem o interesse do aluno, sinto a consciência
tão saudáveis ou, por vezes, estes mecanismos pesada..."
não são suficientes para garantir esse equilíbrio, "É bom transmitir o conhecimento. Fi -
obrigando o indivíduo a pender mais para um la- co felicíssima quando o aluno aprende."
do que para outro. As formas das quais o traba- Agora, se o ambiente e as condições de tra-
lhador faz uso podem ser mais ou menos efeti- balho são afetivamente hostis, a tendência é
vas no sentido dessa reapropriação. potencializar a possível dificuldade afetiva que
Esse fenômeno vai depender de não haver a o indivíduo venha a possuir, própria de sua es-
possibilidade de vazão da afetividade por outras trutura de personalidade. Esta situação causa
vias no trabalho que possam oferecer alívio à um grande desconforto para o sujeito que, em
tensão. Se as normas não forem tão rígidas, se maior grau, pode ser desencadeadora de sofri-
houver a possibilidade de burlar as determina- mento psíquico.
ções da direção, por exemplo, e oferecer uma Formas mais efetivas são aquelas que ca-
porção maior de sopa para aquele garotinho de minham na direção de reduzir a tensão através
olhos tristes ou fingir que não se vê os alunos da tentativa de modificar a situação. Assim, pro-
que entraram novamente na fila para receber ou- fissionais que atuam no sentido de transformar
tro pedaço de bolo, esta vazão de sentimentos a escola num ambiente mais humanizado, por
estará encontrando um caminho saudável para exemplo, mais próximo à realidade do aluno, de
fluir. Receber com carinho o abraço e o beijo da- suas dificuldades, da comunidade em geral, es-
quelas meninas de aparência nem tão agradá- tão dando vazão a esta afetividade de forma
vel, organizar comemorações na escola para ar- mais efetiva e saudável de ponto de vista da
recadar fundos para complementar a merenda sua economia psíquica. Agora, indivíduos que
ou enriquecer o acervo da biblioteca, confraterni- reduzem magicamente a sua tensão entre vin-
zar-se com os colegas ou mesmo apenas o sen- cular-se versus não vincular-se afetivamente,
timento de cooperação no trabalho. Cada traba- através de um “faz de conta que nada aconte-
lhador, a seu modo, vai encontrar formas de con- ce” (faz de conta que todos esses alunos são
viver e dar vazão a esta tensão. seus filhos de verdade, por exemplo, ou faz de
"Trabalho com oitavas séries e ter - conta que todos me amam acima de tudo e não
ceiros anos do segundo grau. Escolhi a é apenas respeito pela minha função aqui na
profissão porque gosto de trabalhar com escola), tendem a distanciar-se cada vez mais
jovens. Apaciência que devo possuir co - da realidade e mergulhar em seu mundo subje-
mo professor, leva à necessidade de ter tivo.
uma dedicação completa. O salário de - Cria-se a seguinte lógica: para realizar bem
sanima, mas resgato minha opção..." o meu trabalho preciso me envolver afetiva-
"Os alunos são dependentes. De - mente com meus clientes (alunos, pacientes,
pendem do professor para raciocinar, os etc.); porém, se assim eu proceder, certamente
livros não eliciam tal capacidade. Alguns sofrerei, o que me leva a não vincular-me.
procuram para assistência em assuntos Essa impossibilidade de concretização do
pessoais. Um aluno me procurou quan - vínculo afetivo em sua plenitude, nas atividades
do a namorada abortou." de cuidado, é de caráter estrutural. O trabalho
"Algumas coisas chateiam, mas dei - requer um vínculo afetivo, mas a forma de orga-

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nização do trabalho não permite que este circui- sempre, em função das condições do mercado
to afetivo se complete, pois a tarefa requer que e do valor que o trabalhador conseguiu agregar
se obedeça a algumas regras, que são regidas à sua força de trabalho, o mesmo pode alcan-
quer pela técnica, quer pelo cronograma prees- çar tudo que almeja, mas pode, ao menos, evi-
tabelecido, quer pelo programa, quer pelas nor- tar as piores condições.
mas e determinações dos superiores, quer por Pensando dessa forma, vejamos o que se-
questões administrativas, enfim: cuidar não en- ria a pior organização para um trabalhador es-
volve apenas oferecer afeto, mas há princípios colher para se empregar: aquela que oferece
a serem obedecidos quando se fala do cuidado salários muito baixos, remunerando mal a sua
profissionalizado. Por mais que o professor sai- força de trabalho; que não oferece plano de
ba das dificuldades pelas quais a família daque- carreira, que não tem esquema de avaliação
le aluno está passando, que está interferindo que recompense o trabalhador proporcional-
em seu rendimento escolar, ele nada mais pode mente ao seu esforço; que ofereça infra-estru-
fazer a não ser assinar a sua reprovação, ou tura precária para a realização do trabalho e
por mais que a enfermeira esteja solidária à dor pouco conforto para o trabalhador; que tenha
do paciente, ela nada pode fazer até que che- relações burocratizadas, de modo que cami-
gue o horário determinado pelo médico para a nhos intermediários dificultem a realização do
próxima dose da medicação. trabalho e a obtenção de recursos de forma rá-
Posta a questão dessa forma, vemos que pida e eficiente; cujo trabalho implique em alto
esta tensão vincular-se versus não vincular-se nível de responsabilidade sem nenhum privilé-
afetivamente vai estar sempre presente nas ati- gio em retribuição; cujo trabalho seja exigente,
vidades de cuidado, e invariavelmente o traba- desgastante e sem reconhecimento social as-
lhador estará sujeito a ela em maior ou menor sociado.
grau. A dificuldade maior está quando esta ten- Infelizmente, encontramos a maior parte
são desenvolve proporções tais que cria um destas condições na rede estadual de ensino.
conflito que não pode mais ser resolvido pelo Os salários são reconhecidamente baixos.
indivíduo, nas formas alternativas à sua dispo- Mais de 40% dos professores ganha menos de
sição, ou seja, falta-lhe outros modos saudá- 500 reais por 40 horas semanais de trabalho e
veis de dar vazão a essa energia afetiva e en- pouco mais de 10% ganha 1000 reais ou mais.
tão o quadro de sofrimento se instaura. Mesmo entre os professores responsáveis pelo
2o grau, cuja exigência de escolaridade formal
OS TRABALHADORES é de nível superior completo, mais de 30% ga-
E SEU TRABALHO nha menos de 500 reais mensais pelas 40 ho-
ras semanais. Apesar de haver relação entre ní-
A pior organização vel de escolaridade e remuneração de profes-
sores da rede estadual de ensino, apenas 14%
A maioria dos trabalhadores procura traba- dos que têm nível superior tem remuneração a
lhar em empresas que ofereçam boas condi- partir de 1000 reais. Em alguns estados, mais
ções de trabalho, salários adequados, seguran- de 70% ganha menos de 500 reais por 40 horas
ça, estabilidade, possibilidade de crescimento semanais sendo que, entre os professores de
profissional, progressão na carreira, recompen- 2o grau, isto é verdade para mais de 60% e pa-
sa apropriada para seu esforço e reconheci- ra quase o mesmo percentual dos professores
mento social, para listar apenas algumas. Nem com nível superior completo.

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Trabalhadores em educação
A partir de uma comparação com trabalha- ção pela experiência adquirida no exercício da
dores brasileiros em ocupações menos qualifi- função, pelo bom trabalho realizado, a partir da
cadas, alguém poderia argumentar que estes demonstração de empenho e competência,
salários não estão baixos para os padrões na- através da busca de aprimoramento e recicla-
cionais, mas não é uma comparação razoável, gem de conhecimentos? Os professores in-
apesar da desvalorização que o trabalho do gressam por concurso público e o cargo inicial-
professor sofre, já que as exigências de forma- mente ocupado vai ser o mesmo por toda a car-
ção para o professor são claramente definidas reira, com poucas exceções que passam a ocu-
inclusive do ponto de vista legal. Portanto, em par cargos de direção ou coordenação de área
termos salariais, as condições oferecidas ao ou ainda alguns poucos cargos de chefia. A va-
professor não são compensadoras e estão em riação salarial prevista através de benefícios
desacordo com o nível de exigência da função. por tempo de serviço (os anuênios e similares)
Mas não é só de salário que vive o trabalho independem do trabalho e do trabalhador, trata-
e o trabalhador. Este último inclui entre os que- se de uma relação apenas com o tempo na or -
sitos desejáveis para uma empresa as possibi- ganização, o que significa que funcionários ex-
lidades de progressão na carreira, o que signifi- celentes, medianos ou muito ruins têm exata-
ca o reconhecimento social e financeiro do es- mente o mesmo tratamento legal e são igual-
forço deste trabalhador na busca de crescimen- mente remunerados. Portanto, não há um reco-
to profissional. Galgar níveis na carreira repre- nhecimento associado ao desempenho, à com-
senta uma forma importante de concretização petência ou ao esforço individual.
do reconhecimento da competência e do de- O profissional que ingressa nessa carreira
sempenho do trabalhador. Um bom plano de não tem muitos degraus à sua frente dentro da
carreira é tão desejável para o trabalhador a instituição, o que excluí mais uma forma de mo-
ponto de, algumas vezes, o mesmo aceitar um tivação importante para iniciar num emprego
emprego com um salário inicial baixo, mas em com estas condições e, principalmente, para
uma organização que tenha um bom plano de permanecer nele ao longo dos anos. Em ter-
carreira, pela expectativa de um futuro profis- mos de carreira, o emprego do professor na re-
sional promissor. de estadual também não oferece condições de-
O fato é que as pessoas querem ser reco- sejáveis ou compensadoras para o trabalhador.
nhecidas, querem ver seu esforço valorizado. A Tão importantes como salário e carreira são
retribuição para o trabalho realizado tem uma as condições de trabalho. O desgaste a que tra-
dimensão subjetiva expressa através de reco- balho e trabalhador se submetem perante a fal-
nhecimento, status, e uma dimensão objetiva ta de condições para a realização do trabalho
expressa através de dinheiro, currículo; ambas pesam na balança e, nos dias de hoje, tendem
estas dimensões fundamentais para o trabalha- a pesar cada vez mais. Vejamos como se en-
dor. Inclusive, do ponto de vista emocional, to- contram estas condições nas escolas da rede
cando na auto-estima, no sentimento de reali- estadual de ensino.
zação profissional e na satisfação do trabalha- As condições de trabalho dos profissionais
dor. em educação são muitas vezes bastante precá-
E quais são as possibilidades de progres- rias. As condições de infra-estrutura em alguns
são na carreira de um professor da rede esta- lugares estão muito comprometidas, chegando
dual de ensino? Quantos degraus ele pode gal- a faltar material básico como giz, apagador, car-
gar, para onde pode crescer dentro da institui- teiras e cadeiras. Em alguns estados, 57,5%

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das escolas está com suas carteiras e cadeiras estamos falando das más condições de uso
em péssimas condições de uso e, em 47,5%, das instalações sanitárias de alunos e profes-
os quadros negros está desgastado pelo efeito sores, o que ocorre em muitas instituições.
do tempo. Mesmo quando as condições não Não se pode negar que alguns projetos são
chegam a níveis preocupantes, o que se en- desenvolvidos por parte do governo no sentido
contra na maioria das vezes são apenas as de melhorar as condições de ensino (mais fre-
condições básicas para funcionamento, dizen- qüente) e as condições de trabalho (menos fre-
do de outro modo, uma estrutura mínima para a qüente). Na maioria das escolas de todos os
realização do objetivo principal da instituição: o estados, existe, por exemplo, sistema de ante-
processo educacional. Raras são as vezes em na parabólica e aparelhos de televisão e vídeo
que o educador tem ao seu alcance, oferecidos cassete para uso dos professores e repasse
pela instituição, materiais e recursos que vão aos alunos. Muito bem, seria muito bom se pro-
além desse mínimo, para que possam enrique- vidências deste tipo fossem suficientes, mas
cer suas aulas, tornando seu trabalho mais inte- não são. Além disso, ainda pesam as caracte-
ressante, mais eficiente e eficaz. Mais que isso, rísticas de cultura que precisariam ser trabalha-
incentivo e estímulo à essa forma de trabalho, à das para a implementação destes programas e
utilização deste tipo de recurso, muitas vezes seu melhor aproveitamento. Mais ainda, recur-
não fazem parte da cultura organizacional, não sos que melhoram a qualidade das aulas e per-
havendo, portanto, um ambiente propício e re- mitem enriquecer o trabalho do professor faltam
ceptivo para iniciativas dos profissionais nesta em muitos locais. Biblioteca, computadores, ofi-
direção e, muitas vezes, havendo dificuldade cinas de trabalhos especiais não existem em
inclusive para incorporar propostas de progra- muitas escolas de diversos estados. Vamos to-
mas que chegam às escolas a partir de iniciati- mar apenas alguns itens como exemplo: en-
vas governamentais. quanto em alguns estados 90,3% das escolas
Mas será suficiente buscarmos sustentação possuem bibliotecas, em outros somente
somente nesses itens para afirmarmos que as 38,6% as têm; a presença de oficinas de traba-
condições de trabalho dos professores são ge- lhos especiais nas escolas apresenta uma va-
ralmente precárias? Certamente que não. Infe- riação de 3,7% a 33,3%; entre os estados da
lizmente, o aprofundamento da análise piora Federação a presença de copiadoras varia de
nossas conclusões. Espera-se mais do ambien- 5,9% a 93,1%. É importante destacar que a fal-
te de trabalho. O conforto, por exemplo, é algo ta de materiais básicos é diferenciada nas re-
buscado por todos os trabalhadores e a possi- giões geográficas do país, variando de 2,0% de
bilidade de menor produtividade devido a condi- escolas enfrentando problemas com a falta ou
ções desfavoráveis do trabalho não pode ser más condições desses recursos até 10,8%. Po-
considerada uma conseqüência inesperada. de parecer pouco, mas em se tratando de ma-
Apesar da importância das condições de teriais básicos o esperado seria que não faltas-
trabalho para a qualidade do serviço e para o sem em nenhuma escola. Visto dessa forma
bem estar do trabalhador, em mais de 62% dos não podemos considerar que estamos diante
estados ocorre o problema de acesso às esco- das melhores condições.
las e em 70% o problema da agressão aflige a Ainda uma outra característica que merece
professores, funcionários e alunos. Na maioria ser considerada pelo olhar do trabalhador diz
dos estados a falta de higiene externa, isto é, respeito às condições administrativas ou aos
fora das salas de aula, incomoda a todos e nem trâmites burocráticos necessários para o de-

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Trabalhadores em educação
senrolar das atividades diárias da instituição. rencia estes recursos são os secretários de edu-
Obedecendo à lógica do modelo organiza- cação ou os prefeitos das cidades. Para não tor-
cional, que, no serviço público, é a vertical e de narmos cansativo o debate, citaremos somente
hierarquia em linha, nas escolas o poder de to- a escolha do livro didático e a merenda escolar
mar decisões é muito fragmentado. Um diretor para ilustrar o efeito dessa dinâmica administra-
para modificar a grade curricular da escola, se tiva no trabalho diário dos profissionais em edu-
tentasse, não poderia simplesmente reunir os cação. Quanto ao livro escolar, sua publicação é
professores e os pais da comunidade atendida nacional e, de um modo geral, consubstanciado
pela sua escola e, com base nas reivindicações na cultura regional do sul e sudeste do país. Fo-
tanto de caráter sócio-econômicas quanto cultu- tos e exemplos ilustram os textos destinados a
rais, fazer as suas modificações, pois o currícu- alunos que nunca tiveram contato com aquela
lo é único e determinado pelo MEC e vale para realidade, mesmo tendo a televisão diminuído
todo o país. De fato, não poderia ser diferente, esta distância cultural. Sinal de trânsito nos li-
uma vez que o objetivo final, o ponto de chega- vros é semáforo, enquanto para algumas outras
da é o mesmo para todos. Espera-se que, ao fi- localidades chama-se de sinaleiras; assim como
nal do processo, os estudantes estejam em con- para um mesmo típico passatempo infantil te-
dições de se inserirem no mercado e concorrer mos as denominações, conforme a região, de
a empregos em qualquer parte do país, prestar pandorga, pipa e papagaio. Cabe aos professo-
vestibular para as universidades de sua esco- res buscar formas de ensinar a seus alunos con-
lha, exercer integralmente seus direitos de cida- ceitos que não fazem parte ou, pelo menos, são
dão onde queiram, enfim, que todos tenham conhecidos por outra terminologia pelos alunos
acesso e consigam usufruir de um ensino de da sua sala de aula.
qualidade que seja efetivo para as suas neces- Tratam-se de dificuldades geradas pela im-
sidades em qualquer local do país. No entanto, possibilidade de flexibilização do processo de
os caminhos para se atingir estas metas variam. trabalho, pelo não gerenciamento dos próprios
Ora, país gigantesco como o nosso guarda dife- recursos financeiros, pela impossibilidade de
renças regionais que devem ser respeitadas pa- escolher os instrumentos mais adequados para
ra que esse caminho possa ser percorrido, mas o exercício da função, respeitando as especifi-
que muitas vezes são esquecidas e pouco es- cidades das condições locais. Trata-se da difi-
paço efetivo resta para que, regionalmente, os culdade em influenciar no gerenciamento e dis-
devidos cuidados sejam tomados em função da tribuição de recurso, mesmo que seja para o
própria distribuição dos recursos e da distância bem-estar dos integrantes da instituição; condi-
entre a fonte dos mesmos e o usuário. ções muito frustrantes para os profissionais.
O Estado ou a Federação obrigatoriamente Esse afastamento do processo decisório
devem reservar parte de suas receitas e desti- apenas gera dificuldades para o bom desenvol-
ná-las ao sistema educacional. Em outras pala- vimento do trabalho nas escolas, não diminuin-
vras, existe um processo financeiro que determi- do em nada as responsabilidades presentes no
na quanto é o custo operacional–dia por aluno. trabalho do educador. Independente das condi-
Seria razoável que este valor fosse integralmen- ções sob as quais trabalham, o grau de respon-
te repassado às escolas e seu gerenciamento sabilidade para os trabalhadores em educação
feito diretamente pelos beneficiários, não seria? permanece o mesmo. Por terem como tarefa a
Mas isto ainda não acontece. Ainda hoje, apesar preparação do futuro do outro, sendo (principal-
dos esforços do governo, na verdade quem ge- mente) os professores os depositários da con-

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fiança de crianças, adolescentes e adultos, na da; se não, recebe críticas de todos os lados.
esperança que este futuro seja melhor, seus O trabalho de professor é revestido de ca-
respectivos trabalhos, independente das condi- racterísticas tão peculiares que ele não pode se
ções em que são realizados, guardam o peso dar ao luxo de sofrer, de ficar cansado. Um bom
dessa importância. São os desejos, os sonhos, professor deve estar sempre disponível para
os projetos de vida dos outros que, de certo atender aos seus alunos e aos pais deles. Não
modo, estão nas mãos do educador. Qual o pe- pode se dar ao luxo de ficar triste, pois sua tris-
so disso nos ombros do professor? Qual a im- teza certamente prejudicará o desempenho dos
portância, que responsabilidade está em ques- alunos, já que para eles o professor é um ba-
tão? Difícil estimar, difícil descrever. luarte, uma fortaleza. O sorriso tem que estar
Por outro lado, qual o reconhecimento so- sempre presente, mesmo que coração e mente
cial do papel dos professores do ensino públi- sofram. Se o professor não for criativo, não for
co? Atribui-se importância indiscutível à educa- capaz de criar estimulações constantes para
ção, “a escola é uma extensão da família”, os captar a atenção de seu aluno, tal como o publi-
professores assumem não raras vezes o papel citário faz com o consumidor, a monotonia to-
de conselheiros, amigos e confessores, mas mará conta de seu trabalho e a atenção do alu-
nada disso se transforma em recompensas no se dispersará. O professor tem que estar em
concretas: prêmios por produtividade, abonos processo de reciclagem diuturnamente, para,
salariais; estes são mecanismos ainda fora dos quando questionado (e os questionamentos
programas de remuneração do Serviço Público. surgem nas formas e momentos mais inespera-
Quando muito uma plaquinha dos colegas no dos possíveis), ter respostas corretas, atuais.
dia em que se aposenta. Trabalho desgastante Deve ter conhecimentos e habilidades suficien-
e muito exigente, com parcos recursos tanto tes; procurar formas diferentes de dizer a mes-
materiais quanto financeiros, implicando na ne- ma coisa; formas de prender a atenção do ou-
cessidade, em algumas localidades, de recorrer vinte, de tornar interessante coisas que a prin-
à comunidade em busca de suprimentos para o cípio nem sempre seriam; precisa empregar es-
funcionamento das escolas. Professores e de- forço para aproximar do dia-a-dia do aluno
mais trabalhadores em educação têm que se aquilo que vem nos livros a partir de outra diver-
desdobrar para dar ao aluno condições de sidade, deve saber e se empenhar em lidar
aprendizagem e desenvolvimento. com realidades muito diferentes, interesses
Diferente de muitas profissões, o trabalho muito distintos; enfim, cabe ao professor moti-
de educador reveste-se de peculiaridades que var os alunos, construir a cena, independente
não são levadas em conta, não apenas pela ne- das condições do palco.
cessidade do estudo continuado, mas também Ser professor hoje em dia deixou de ser
pelas exigências da própria realização das tare- compensador, pois além dos salários nada atra-
fas. O trabalho do professor continua além da tivos, perdeu também o “status” social que
sala de aula. Provas devem ser corrigidas, figu- acompanhava a função poucas décadas passa-
ras devem ser recortadas para ilustrar os novos das. Os colégios Estaduais de Educação já não
conteúdos, exercícios de fixação devem ser “in- são mais os mesmos “colégios Estaduais de
ventados”. Enfim, as tarefas continuam e nem Educação”. Atribui-se importância indiscutível à
por isso há uma compensação financeira ou educação, mas o reconhecimento não atinge os
mesmo o reconhecimento social merecido. Se profissionais responsáveis por este trabalho.
faz bem feito, nada mais que obrigação cumpri- Salários baixos; condições precárias; falta

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Trabalhadores em educação
de flexibilidade na administração de recursos; trabalha, identifica-se com os objetivos da mes-
pouca perspectiva de progressão na carreira; ma, defende a escola de críticas externas e não
trabalho importante, exigente e sem reconheci- está arrependido por fazer parte dela. Para en-
mento no mesmo nível. Visto dessa forma, em focar essa posição assumida pelos professores
termos organizacionais, tudo o que a escola for- frente à sua organização de trabalho, bem co-
nece ao trabalhador a coloca como uma das mo todo o empenho no atendimento aos clien-
piores organizações para se trabalhar: tes e o envolvimento com a atividade, nada me-
Salário pela metade do que paga o merca- lhor que as falas de alguns deles:
do; carreira sem grandes possibilidades de as- “É impossível prestar uma assistência indi-
cenção; falta de condições básicas para o exer- vidualizada aos alunos e isso é ‘angustiante’, é
cício da profissão; reconhecimento social baixo difícil conciliar os diversos papéis que às vezes
combinado com alta responsabilidade; burocra- a gente tem que desempenhar: professora e
tização excessiva. mãe (que dá suporte ao ensino); a falta de tem-
Ainda assim milhões de jovens fizeram esta po é um problema. Às vezes tenho que usar os
escolha pelo Brasil afora, milhares de jovens fa- horários de coordenação para poder auxiliar os
rão esta escolha amanhã: professores. alunos mais necessitados. Mas é interessante,
porque esses alunos costumam oferecer retor-
O melhor trabalhador no. Tem um menino que apresentava dificulda-
des persistentes na aprendizagem, mas após
Qualquer organização procura e tenta en- algumas horas de reforço, tem conseguido
contrar um trabalhador satisfeito com o seu tra- acompanhar a turma de maneira eficiente. Coi-
balho e comprometido com a empresa. Vários sas desse tipo são muito gratificantes e são
empresários acreditam, e recebem reforço pe- fontes de prazer.”
los profissionais voltados à área de recursos É o envolvimento afetivo que leva esta pro -
humanos, que somente através das atitudes fissional a encontrar alternativas frente à falta de
decorrentes destes sentimentos atinge-se o di- tempo para que o aluno possa ter a assistência
ferencial entre empresas concorrentes, ou seja, mais individualizada que necessita para melho-
aquilo que chamamos de qualidade. rar seu desempenho. Ora, diante de um limite
Os resultados em nossa pesquisa mostra- institucional como o tempo, um profissional po-
ram que 86% dos professores da rede pública de deria simplesmente atribuir à instituição as más
ensino de 1o e 2o graus está satisfeito com seu condições que têm efeito negativo para os alu-
trabalho, apesar das dificuldades enfrentadas. nos. Mas não, a educação desse aluno é assu-
Comprometimento pode ser compreendido mida como objetivo pessoal e esta professora
como uma adesão, um forte envolvimento do encontra um tempo no seu dia para realizar au-
indivíduo com variados aspectos do ambiente las de reforço. Claro que esse nível de envolvi-
de trabalho (Bastos, 1994) e inclui dimensões mento também pode resultar em efeitos negati-
como o desejo de permanecer na organização vos, como conflitos de papéis, investimento afe-
e de exercer as suas atividades, a identificação tivo acima do esperado de forma a tornar-se ina-
com os objetivos e valores organizacionais e o dequado para o desempenho da função, falta de
engajamento e empenho em favor da organiza- retorno equivalente ao esforço empreendindo.
ção. Também nesse caso, os resultados nos Porém, neste caso, a professora em questão
mostraram que mais de 90% dos professores considera gratificante o retorno que tem dos alu-
está comprometido com a organização em que nos e se mostra bastante satisfeita.

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Um outro professor que trabalha com adul- importante afetivamente, a ponto do trabalha-
tos refere:“Gosto da atividade que realizo e não dor esquecer momentaneamente dos seus pro-
me vejo fazendo outra coisa. Quero fazer cur- blemas concretos e mergulhar nos encantos de
sos de aperfeiçoamento no ensino especial de uma função que o coloca como uma pessoa tão
adultos, pois a formação que recebi foi para tra- importante para o outro.
balhar com crianças”. Aqui, empenho e dedicação colocados a
Além da satisfação obtida com a atividade serviço da arte de ensinar é o que vemos nesta
de trabalho, observamos a vontade desse pro- fala, bem como na grande maioria das anterio-
fissional continuar a formação como forma de res. Propiciar a aprendizagem dos alunos é
adquirir mais recursos para melhorar seu de- considerado por esses profissionais algo sério
sempenho e atender mais adequadamente seus e construtivo. Essa visão positiva em relação à
alunos. O professor tem claro que é ele mesmo educação ainda está sendo suficiente para evi-
o principal instrumento do seu trabalho e que do tar que nossos professores caiam na descren-
seu desenvolvimento depende o resultado do ça em relação à instituição escola e mante-
mesmo, de forma que busca qualidade. nham-se comprometidos com os objetivos da
Afala de outro profissional, com 10 anos de mesma.
profissão, ilustra a relação de troca entre profes- O que mais pretende uma organização de
sor e aluno, fonte de satisfação e reforço do trabalho? Funcionários satisfeitos e comprome-
comprometimento desse profissional com seu tidos, com autonomia e controle sobre o traba-
trabalho, além de expressar a valorização do lho, capazes de tomar decisões e assumir res-
seu produto: “Gosto de ensinar, principalmente ponsabilidades na medida certa da necessida-
quando sinto interesse. Quando é assim, não de; profissionais que reconhecem a importância
me importo nem mesmo de passar do horário. do trabalho e do produto que resulta do esforço
Fico satisfeito quando dou uma boa aula, quan- empreendido; pessoas que tem o trabalho co-
do tenho um bate-papo legal com os alunos, mo atividade importante, valorizada, o que apa-
pois sinto que há retorno. Acho que na tarefa de rece através da concentração nas tarefas e do
ensinar deve-se ter ideal, procurar dar aulas mo- esforço para realizá-la bem e além disso que
tivadoras. Não gosto de aulas sem a participa- mantém bom relacionamento e cooperação
ção dos alunos. Quando pergunto alguma coisa, com os colegas.
gosto que todos respondam. Não quero aula pa- São características que se tornam impres-
rada. O salário não é alto, mas dá para fazer mi- cindíveis do ponto de vista de qualquer empre-
nhas coisas, suprir minhas necessidades. Entre- gador em qualquer empresa. Estão presentes
tanto, o ganho é muito suado, o trabalho é mui- no educador e o que seria da educação caso
to. No final do mês fico até com pena de gastar não estivessem e, na falta de um giz, o profes -
o dinheiro, pois foi tão difícil de ganhar”. sor simplesmente se negasse a dar aula por
Apesar do salário não muito atraente, a re- não ter as condições necessárias; se, diante de
lação do trabalhador com o seu trabalho é tão uma dificuldade apresentada por alguns alu-
positiva e gratificante que o salário, mesmo nos, o professor não soubesse criar novas for-
sendo fundamental para a sobrevivência do in- mas de explicar um mesmo conteúdo e se não
divíduo, acaba ocupando um lugar secundário tivesse autonomia para fazer alterações no seu
na sua fala. Não significa que o trabalhador não cronograma; se, diante de uma turma com alu-
sinta o problema com o salário, mas sim que o nos de várias faixas etárias, não usasse sua
prazer que deriva do trabalho ocupa um lugar habilidade e seu talento para tratar cada caso

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Trabalhadores em educação
como um caso; se a toda hora, na busca de apesar das possíveis adversidades. Os resulta-
melhores condições de trabalho, não compare- dos da nossa pesquisa indicaram que boas re-
cesse à escola, comprometendo o conteúdo lações sociais no ambiente de trabalho estão
programático daquele ano; se não tivesse a ini- também associadas com comprometimento. Is-
ciativa de trocar informações com seus colegas so significa dizer que estes aspectos andam
na busca de integração dos conteúdos? juntos: na presença de um, há uma grande pro-
O fato é que os professores da rede pública babilidade de que o outro seja encontrado.
de ensino de 1º e 2º graus se apresentam com O fato é que, no que se refere à cooperação
estas características em níveis que nenhum e ao relacionamento social no trabalho, a ativi-
empregador ousaria se queixar. Entre eles, dade docente, formalmente, não exige contato
quase 90% percebe ter controle sobre o traba- tão freqüente e nem dependência entre profis-
lho, ou seja, realizam com autonomia suas atri- sionais diferentes. Contudo, essas professoras
buições e acreditam que estão nas suas mãos sabem que a integração é fundamental para
as condições para realizar um bom trabalho, que o ensino não seja fragmentado, para que
sentem-se, portanto, responsáveis pela quali- haja troca entre os profissionais e para que di-
dade do produto que oferecem para a socieda- ferentes disciplinas sejam vistas como parte de
de e assumem o mérito e o ônus pelo seu de- um objetivo maior que é a boa formação geral
sempenho. Mais de 90% sabe que realiza um do aluno. Assim, buscam a partir de iniciativa
trabalho importante para a sociedade. O mais própria, a complementação do seu trabalho
espantoso é que isso independe das condições através da união do esforço de um grupo de co-
de infra-estrutura de que dispõem para realizar legas e, o mais importante, são capazes de re-
suas atividades e, mais ainda, independe do ní- cebê-las e de valorizá-las.
vel salarial. Significa dizer que os educadores, Trabalhador muito especial esse do qual es-
apesar de condições muitas vezes desfavorá- tamos falando, que não realiza mecanicamente
veis, estão satisfeitos, gostam daquilo que fa- suas atribuições; não se trata da execução pro-
zem, sentem-se realizados com os resultados tocolar, mas da tentativa de construir o proces-
que produzem, conseguem sentir prazer pelo so com o aluno. Tem iniciativa própria, é ousa-
desenvolvimento do seu trabalho. A satisfação do, cria e assume a responsabilidade de suas
que o trabalho proporciona, associada ao senti- inovações. Onipotente na medida exata, pois
mento de que seu trabalho tem um produto e à ao mesmo tempo em que sabe o valor que tem
realização pessoal através do trabalho é que enquanto educador e da importância do traba-
estão mantendo esta atitude de comprometi- lho que realiza, é capaz de buscar e oferecer
mento do professor com a organização da qual ajuda. Sabe que seu ofício é nobre, grandioso e
faz parte. por isso requer competência de grupo, união.
Outros índices encontram-se na mesma fai- É interessante notarmos a capacidade e a
xa. Mais de 90% dos professores, apesar de re- clareza com que esses profissionais diferen-
conhecer a necessidade da questão financeira, ciam o que sentem pela atividade e pelas ques-
prioriza, em grau de importância, o trabalho em tões institucionais.
si. Os índices se repetem também com relação “Sinto-me totalmente motivado com os alu-
ao percentual de profissionais que não têm pro- nos, o que não acontece quando penso na
blemas importantes de relação social no traba- coordenação ou no governo. Tenho paixão pela
lho, sendo assim capazes de oferecer o melhor minha profissão. Procuro demonstrar isso atra-
de si, além de poder cooperar com colegas, vés da minha dedicação.“

-22-
Ou seja, os professores não ignoram as ad- em recursos humanos, um psicólogo do traba-
versidades institucionais, não estão alienados à lho ou das organizações, afirmará com toda a
ela, mas conseguem usufruir do prazer da ativi- certeza: quanto pior a organização, pior será o
dade independentemente destas questões. trabalhador que ela abriga, quanto melhor a or-
Sem dúvida, a fala destes profissionais re- ganização melhor o trabalhador. Desde 1910
flete o pensamento e atitudes de outros tantos; que estamos, nós, os especialistas, afirmando
os dados da pesquisa oferecem suporte nessa isto. Certo?
direção e é justamente esse conjunto de carac- Errado. Erra o bom senso, erram as opi-
terísticas que compõem: o melhor trabalhador. niões técnicas.
O que vimos até aqui sobre esse trabalho é A prova empírica de que erram é que as es-
que em todos os quesitos considerados, encon- colas continuam existindo, os professores con-
tramos em torno de 90%, ou seja, praticamente tinuam prestando concursos, nossos alunos
a totalidade dos trabalhadores em condições continuam aprendendo a escrever, as condi-
favoráveis. Um índice indiscutivelmente exce- ções que encontramos em alguns lugares des-
lente para qualquer organização pública ou pri- se país seriam mais do que suficientes para
vada. Significa dizer que diretores, gerentes e que o nosso pesquisador se deparasse com
administradores podem contar plenamente com uma placa na porta:” Escola fechada por falta
a grande maioria deste corpo de profissionais de quem queira trabalhar aqui”.
para qualquer empreendimento, pois por estas Erram não apenas porque a vida se mos-
características mostram que são capazes de trou diferente do que prevê a teoria, erram tam-
assumir como uma questão pessoal os proble- bém conceitualmente, um erro, diga-se muito
mas e as dificuldades de trabalho. comum em ciências humanas. Correlação mui-
Ainda em termos organizacionais, temos tas vezes se confunde com determinação.
aqui o trabalhador ideal, o que todo empresário Existe, de fato, uma alta correlação entre
gostaria de ter à disposição para a boa qualida- condições de trabalho e a satisfação e compro-
de do trabalho. Como pode? metimento do trabalhador. Porque as condições
Mesmo para quem nunca se preocupou permitem que o trabalhador possa render ao
com trabalho ou organizações de trabalho a máximo no seu trabalho.
equação não fecha. Nossa pesquisa avaliou a Se quisermos entender a equação impossí-
organização perguntando pelo país afora que vel que relatamos acima, precisamos nos de-
condições de trabalho ela oferecia, resultado: é bruçar exatamente sobre esta questão: O que é
uma das ‘piores’organizações de trabalho pos - o trabalho? Qual o seu sentido?
síveis de se encontrar. Em seguida, avaliamos
os trabalhadores em busca do que está errado, Trabalho:atividade humana
o que é possível melhorar junto aos professo- por excelência
res, resultado: encontramos um dos ‘melhores’
trabalhadores disponíveis no mercado. Ou seja: O trabalho, enquanto atividade criativa e de
Pior organização = Melhor trabalhador. transformação, modifica não apenas o mundo,
Não é preciso ser um especialista para des- mas também o homem que o executa. O ho-
confiar que alguma coisa está errada. Agora, se mem se reconhece no seu trabalho e se orgu-
você for um especialista, então terá certeza de lha daquilo que constrói, se orgulha do fruto do
que algo está errado; se for um gerente, um seu trabalho e também se transforma nesse
empresário, um administrador, um especialista processo. Modifica seus hábitos, seus gostos,

- 23-
Trabalhadores em educação

seu jeito de se vestir, seu modo de comportar- pulado por um técnico da administração,
se. O trabalho enriquece o homem e não esta- medindo a cada tempo o trabalho. Se
mos aqui falando em dinheiro, em acúmulo de por acaso o ritmo da esteira estiver mais
bens (mesmo porque distribuição de renda é lento do que a capacidade física dos tra -
um capítulo à parte), estamos falando em co- balhadores, a esteira será acelerada, e
nhecimento, experiência, habilidades, enfim, a produção se incremente. Quando co -
desenvolvimento da forma mais ampla que po- meça o uso do cronômetro o trabalhador
demos pensar. quebra seu ritmo de 25, e passa a utili -
"Na linha de montagem o trabalho é zar os 35 segundos, cronometrados pe -
dividido e cronometrado eletronicamen - la esteira. Há também um código de éti -
te, por esteiras que passam à frente do ca complicadíssimo entre os trabalhado -
trabalhador e distribuem a tarefa para res, repleto de sanções a quem apre -
cada um deles... A maior parte dos tra - sentar ao cronometrista um tempo mais
balhadores tinha 35 segundos para in - curto que o definido. Se, por um lado, o
serir componentes eletrônicos em uma ritmo da produção é aumentado, ou se -
chapa. Ocorre, que os trabalhadores, na ja, a esteira começa a passar mais rapi -
sua grande maioria mulheres, utilizam damente, o trabalhador erra proposita -
30 ou 25 segundos de forma coordena - damente, fazendo cair o nível de produ -
da para inserção de componentes e ção... Ainda do ponto de vista do tempo
conversam, literalmente, durante os ou - utilizado para produção, um outro local
tros dez segundos, em um "papo" inter - de disputa é o banheiro...o operário pro -
rompido cada vez que a esteira se mo - cura utilizar um pouco mais de tempo do
via. Mas a fábrica, preocupada em con - que lhe é concedido, enquanto a fábrica
trolar esse tipo de inserção de burla do procura meios de controle que denun -
sistema, introduz um cronômetro, mani - ciem se o operário gastou mais tempo

-24 -
no banheiro. É muito comum que o ba - pectiva, as formas de planejamento e execução
nheiro seja utilizado para reuniões rápi - para se obter um produto através da transfor-
das, e já houve casos de movimentos mação da natureza são muitas e não podem
paradistas que foram organizados ali...É ser abstraídas do momento em que acontecem.
fácil compreender quando uma institui - Esse trabalho pode ser completo ou fragmenta-
ção com um número bastante grande de do e, em conseqüência, mais ou menos rico em
pessoas tenha de estabelecer normas significado; o mesmo trabalhador pode ser res-
para a "boa convivência" entre eles. O ponsável pelo planejamento e execução ou, ao
problemas que essas normas, assim co - contrário, pode ser totalmente excluído de uma
mo o produto do trabalho, são elabora - das partes do processo, dependendo do modo
das na ausência radical do trabalhador, como o trabalho está organizado num determi-
que não interfere ou participa na deter - nado momento. As formas de dividir o trabalho
minação de sua própria movimentação (trabalhos diferentes ou o mesmo trabalho) vão
dentro da fábrica..." (Codo, 1985, pg. se configurando a cada etapa do percurso his-
80-83). tórico da humanidade.
Mas o trabalho nem sempre retorna para o Para entender o trabalho nessa dimensão
trabalhador dessa forma tão positiva. Trabalho real, que de acordo com o contexto em que es-
com estas características é trabalho não frag- tá inserido assume características muito distin-
mentado, aquele em que o mesmo trabalhador tas e é vivido de modo diferenciado pelo traba-
pensa e executa, sozinho ou em conjunto com lhador, muitas áreas de conhecimento têm se
outros trabalhadores, mas nunca privado do co- empenhado: Sociologia, Economia, Ergonomia,
nhecimento do todo, mesmo que execute ape- Psicologia, cada uma dentro da sua especifici-
nas algumas das etapas que compõem o pro- dade, oferecendo a sua parcela de contribuição
cesso de trabalho. Porém, nem sempre é assim para a compreensão do fenômeno.
que as coisas se dão no mundo do trabalho. Às A Psicologia Organizacional e do Trabalho
vezes, o produto do trabalho, a parte que per- muito tem apontado sobre os efeitos para o tra-
manece além do trabalhador, esconde as con- balhador da relação do trabalhador com o pro-
dições vergonhosas em que o mesmo foi pro- cesso de trabalho. A idéia de que quanto mais
duzido. criativo e completo for o trabalho, mais o ho-
O objetivo aqui é apenas fazer a distinção mem cria a si mesmo e, quanto mais fragmen-
entre o trabalho enquanto atividade humana tado, mais ele se aliena é amplamente defendi-
que transforma o mundo, criando produtos que da pelos estudiosos da área. Para chegar a es-
permanecem além do trabalhador e as formas ta afirmação, vários fatores vem sendo estuda-
que assume quando inserido num contexto so- dos: o ciclo de trabalho, relação com o produto
cial, econômico e político. do trabalho e controle sobre o trabalho. A ques-
Se pudermos falar sobre o trabalho de for- tão é que os vários conceitos estão interligados.
ma genérica para entendermos melhor sua ex- É impossível falarmos sobre um sem que este
tensão e sua riqueza, por outro lado não pode- seja permeado pela relação do trabalhador com
mos nos furtar de falar sobre o trabalho concre- os demais, e o interessante é que todos pare-
to, aquele que acontece nos campos, nas fábri- cem levar ao mesmo lugar: ao rumo do prazer
cas, nas oficinas, nas casas, nas escolas. Pas- ou ao rumo do sofrimento. Acomplexidade des-
samos a falar, a partir daqui, de diferentes mo- tas inter-relações merece que declinemos um
dos de organização do trabalho e, dessa pers- pouco mais sobre estes temas:

- 25-
Trabalhadores em educação
O ciclo do trabalho que não se pode deixar guardada na gaveta an-
Quanto maior o ciclo, maior a possibilidade tes de sair de casa toda manhã para ir trabalhar.
de um planejamento no qual o trabalhador é se- Quando não há espaço para que se dê va-
nhor de seu trabalho, melhor compreensão das zão a essa afetividade, quando não é possível
vicissitudes do produto, menor a alienação, o reconhecimento do próprio esforço no produ-
maior a satisfação e o comprometimento, a to final, ameaçando a identidade do trabalha-
possibilidade de gerir seu tempo, a possibilida- dor, ele sofre.
de de conseguir retorno (feedback) sobre o tra- Torna-se óbvio que essa relação com o pro-
balho realizado. duto do trabalho só é possível caso o trabalho
O ciclo de trabalho de um professor, à rigor, não seja fragmentado e autonomia e controle se-
leva um ano, permite planejamento, permite jam possíveis durante o processo de produção.
avaliação e reformulação em caso de proble- O Controle sobre o trabalho
ma. Permite, portanto, controle sobre o traba- É certo que há tarefas que pela sua nature-
lho, reconhecimento do produto, portanto me- za permitem maior ou menor flexibilidade, mas,
nos alienação e mais envolvimento. ainda mais importante que as características in-
O Produto do trabalho trínsecas das atividades envolvidas no traba-
O homem que transforma a natureza com lho, é o modo como este se organiza e as con-
suas próprias mãos, deixa ali a sua marca; im- dições do próprio trabalhador frente à esta or-
pregna o meio com sua subjetividade, sendo ganização. Uma determinada atividade pode
possível desta forma reconhecer o fruto da ser executada de várias maneiras, mas se, por
transformação como seu e a si mesmo como exemplo, a organização do trabalho estiver es-
humano. No entanto, quando o homem vende truturada de tal forma que não permita a flexibi-
sua força de trabalho, não é ele quem desfruta lidade, o trabalhador sentir-se-á tolhido na sua
do produto do trabalho, nem pode reconhecê-lo liberdade de ação, o que, em grau bastante ele-
como seu. A subjetividade investida na ação vado, também acarretará sofrimento para este
não pode ser totalmente recuperada, pois en- trabalhador.
tram aí elementos de mediação: salário, técnica Quando se realiza um trabalho não frag-
e normas institucionais. Ao invés do produto de mentado e com longos ciclos, o controle sobre
seu trabalho, o qual o trabalhador pode nunca o processo é inevitável, pois as responsabilida-
chegar a conhecer, numa linha de produção, des automaticamente aumentam, o que colabo-
por exemplo, o homem recebe dinheiro (investi- ra para que se tenha um bom conhecimento do
mento objetivo recuperado na relação de troca). produto final, reconhecendo-o como seu. Quan-
Mas, e o investimento emocional, aquele do se tem uma boa relação com o produto, difi-
que retornava no momento da reapropriação do cilmente temos problemas de controle sobre o
produto, que, em última instância, é o reconhe- trabalho.
cimento de si mesmo enquanto parte da huma- O trabalho do professor
nidade? Voltemos agora para o trabalho do profes-
Acontece que, para o ser humano, não é sor. Viemos constatando que esses profissio-
possível investir somente a energia física quan- nais têm se percebido satisfeitos, comprometi-
do realiza um trabalho; a relação não é e nem dos, com boa relação com o produto do seu tra-
pode ser meramente objetiva. Ali estão também balho e com controle sobre o processo de tra-
depositadas suas alegrias, suas insatisfações, balho. Mas o que o professor faz? Como é o
suas queixas e sonhos, enfim, a subjetividade seu trabalho?

- 26-
O tamanho do ciclo de trabalho, bastante ativo do seu executor, que não só permite como
longo para professores e curto para os outros impõe a criatividade para que a obrigação de
trabalhadores. O professor tem uma série de cada dia seja cumprida. Temos, portanto, um
atividades que realiza numa certa seqüência trabalho cujo controle é eminentemente do tra-
(prepara aula - trabalha em sala o que preparou balhador e que não acontece se este não assu-
- avalia), mas sem rigidez nos detalhes; o inter- mir seu papel ativo no processo. O professor
valo de tempo que leva até repetir uma mesma em sala de aula é o dono da situação, ali quem
atividade é longo, sendo que o trabalho não se define é ele. As negociações, os acordos e de-
torna repetitivo em função disso. Com isso, o sentendimentos acontecem ali sob seus olhos,
trabalho não se torna pobre e repetitivo, man- ao vivo e a cores, e o sucesso depende unica-
tendo-se estimulante para o trabalhador. mente das ferramentas que dispõe para lidar
Quanto à flexibilidade, o professor, tendo com as situações: criatividade, imaginação,
uma série de atividades diferentes para realizar empatia, empenho, garra e amor pelo que faz.
e estando todas sob sua responsabilidade, pode Difícil, sim, tarefa muito difícil, é verdade, mas
organizá-las do modo que lhe parecer mais con- também muito compensadora. O professor sa-
veniente. Não havendo seqüência rígida, nem be que depende diretamente do seu esforço os
pré-definição externa das atividades, as possibi- resultados que obtém. As dificuldades são mui-
lidades de variação são enormes. Exceto nas tas, mas compensadas pela gratificação de um
grandes etapas do processo como preparação trabalho completo, que permite inovação e en-
de aula - aula - avaliação que, obviamente, não volvimento afetivo do trabalhador.
podem ser invertidos conforme mencionado an- Num trabalho que permite a expressão afe-
tes, ou a seqüência da abordagem dos temas, tiva, o professor pode imprimir o seu jeito, dar o
os quais seguem uma ordem de complexidade tom e a cor que melhor lhe pareça na aula mi-
que dificilmente poderia ser modificada com su- nistrada, sabendo que serve como modelo para
cesso; no mais, cabe ao professor a definição os alunos e podendo espelhar-se no desenvol-
do que fazer primeiro em sala de aula e, princi- vimento dos mesmos. Aqui, a capacidade de
palmente, de como fazê-lo. Dada essa flexibili - empatia não é apenas permitida, ela se faz im-
dade, que é inerente ao trabalho do professor, prescindível para que o processo de ensino-
este pode inovar sempre no seu modo de traba- aprendizagem ocorra com maior qualidade. O
lhar. Um professor pode escolher os exemplos professor não consegue ensinar se não fizer
que vai usar, não estando satisfeito com sua es- um vínculo afetivo com os alunos.
colha pode encontrar outros. O produto do trabalho é outra característica
Mesmo as tarefas burocráticas como con- que marca uma diferença muito grande entre o
trole de presença, preenchimento de diário de trabalho do professor e muitos outros trabalhos.
classe, preparação das provas, correção de O professor participa do início ao fim do proces-
provas, cálculo das médias não têm horário e so, com noção sobre cada uma das etapas e
nem seqüência pré-definida. Mesmo sob uma com a possibilidade de reconhecer através do
direção da escola centralizadora com normas sucesso ou não dos alunos o que se passou
rígidas para essas atividades, ainda assim, durante o ano de trabalho e em que resultou o
dentro de sala de aula ninguém rouba a direção seu esforço. No caso do professor, não esta-
da cena, que é necessariamente do professor. mos falando de um produto qualquer, não se
Quanto ao controle sobre o trabalho: Esta- trata de um objeto visível, como é o caso de
mos diante de um trabalho que exige um papel mesas e sapatos ou qualquer outro objeto que

-27-
Trabalhadores em educação
pode ser produzido, mas se trata de um produ- disponha a se dedicar, enfim, que atribua im-
to com valor de uso claro e definido, sendo o portância ao que faz na vida profissional. E por-
professor também responsável por todas as que um trabalhador vai querer um trabalho tão
etapas do processo. Além desses aspectos, é exigente e tão mal remunerado como esse?
inquestionável o valor social das atividades de Porque um trabalho com essas característi-
um professor. O produto do seu trabalho não só cas desafia o trabalhador e estimula seu desen-
é facilmente reconhecido por ele mesmo, como volvimento, explora suas potencialidades e leva-
também por aqueles que estão fora do proces- o a descobrir novas. Num trabalho assim, um
so. Ninguém questiona a importância do ensi- trabalhador consegue ter prazer naquilo que
no, da educação, de aprender e ensinar, e o realiza, não só porque pode ver claramente o
professor sabe que o seu trabalho é peça cen- benefício que está fazendo para o outro, o que é
tral nesses processos. extremamente gratificante, mas principalmente
Vimos portanto que o trabalho do professor porque consegue ver os benefícios que o traba-
é composto por processos variados, em sua lho faz para si mesmo. Consegue ver mudanças
grande maioria envolvendo ciclos longos e fle- na sua pessoa. Após anos de trabalho percebe
xíveis; possibilita ao trabalhador a expressão que mudou, que ficou mais experiente, que as
da sua criatividade, estimulando também seu dificuldades de um tempo atrás, as quais pare-
crescimento pessoal e profissional; a possibili- ciam intransponíveis, puderam ser superadas,
dade de exercício de controle sobre os proces- passa a ver outras que não via antes e que se
sos que compõem esta atividade profissional, tornam agora desafiadoras. Tudo isso faz com
permite que o seu executor sinta-se dono do que as pessoas se sintam ativas, vivas, partici-
processo, responsável pelos resultados e im- pantes efetivas do mundo em que vivem.
portante para aqueles que atende no seu exer- Se o professor tem condições organizacio-
cício profissional. Esse controle dá ao trabalha- nais ruins de trabalho e ainda assim se mostra
dor a dimensão da responsabilidade que está muito bem, então é o próprio trabalho (valor de
sob suas mãos, mas também o prazer de se uso) e não o valor de troca que o move; é o pró-
sentir importante para o outro; a expressão da prio trabalho, e não as condições em que se
subjetividade faz parte do trabalho diário desse realiza, o primeiro e o mais importante preditor
profissional que resulta numa atividade enri- dos altos níveis de satisfação, comprometimen-
quecida do ponto de vista afetivo. to, boa relação com o produto e centralidade no
Boa parte das características do trabalho do trabalho demonstrados por estes profissionais.
professor, as quais levantamos até aqui e que Enquanto muitos trabalhadores suportam o
são desejáveis e desejadas pelo trabalhador, trabalho e através do salário buscam satisfazer
são condições que certamente aumentam a seus desejos, os professores, ao contrário, su-
complexidade do trabalho, as dificuldades na portam os salários para continuar tendo o privi-
sua execução, as responsabilidades que de- légio de satisfazer um desejo que é o de todos
vem ser assumidas e o nível de exigência de nós, mudar o mundo através de sua ação,
dedicação do profissional responsável. A verda- transformar com seu trabalho a si mesmo e ao
de é que flexibilidade do trabalho, possibilidade outro, inventar um futuro a partir de seu próprio
de controle sobre o processo, demanda de ex- gesto.
pressão afetiva, necessidade de criatividade e Enquanto muitos trabalhadores contam com
inovação pedem um trabalhador que esteja pre- excelentes condições de trabalho para suportar
sente de corpo e alma no seu trabalho, que se e compensar um trabalho sem sentido, o pro-

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fessor suporta as péssimas condições de traba- envolver, se emocionar pelo seu trabalho? Não,
lho para preservar a chance de fazer a História, muitas vezes não é capaz mesmo.
a nossa História, com as próprias mãos. O tratamento dessas questões em nível
“Se não precisasse do dinheiro continuaria científico demorou. Apenas na década de 70 é
trabalhando, porque o trabalho ajuda as pes- que começaram a ser construídos modelos teó-
soas a viverem. O trabalho é tudo, não consigo ricos e instrumentos capazes de registrar e
viver sem trabalhar. Faltam dois anos para apo- compreender este sentimento crônico de desâ-
sentar-me. O dinheiro é importante, ajuda, mas nimo, de apatia, de despersonalização. Primei-
não é o mais importante.” ra constatação, trata-se de um problema, uma
“Escolhi o trabalho como professora por op- síndrome que afeta principalmente os trabalha-
ção e apesar de todas as dificuldades que cer - dores encarregados de cuidar (caregivers), em
cam a profissão, como o salário, por exemplo, especial, educação e saúde. Trata-se, portanto,
estou satisfeita com ela. Apenas a questão fi- de um processo de deterioração das relações
nanceira me levaria a cogitar a hipótese de tra- de trabalho que envolvem cuidados e atenção
balhar em outra atividade, mas isto não está em dos profissionais das organizações de presta-
meus planos, por enquanto. Trabalho nesta ção de serviços.
profissão porque gosto.” Burnout, foi o nome escolhido; em portu-
guês, algo como ‘perder o fogo’ ‘perder a
BURNOUT: O SOFRIMENTO energia’ou “queimar para fora” (numa tradução
DO EDUCADOR mais direta). É uma síndrome através da qual o
trabalhador perde o sentido da sua relação com
O que é Burnout ? o trabalho, de forma que as coisas já não o im-
portam mais e qualquer esforço lhe parece ser
Já se viu que o professor faz muito mais do inútil. Esta síndrome afeta, principalmente, pro-
que as condições de trabalho permitem, já se fissionais da área de serviços quando em con-
viu que comparece no tecido social compondo tato direto com seus usuários. Como clientela
o futuro de milhares e milhares de jovens que de risco são apontados os profissionais de edu-
antes dele sequer poderiam sonhar. Mas existe cação e saúde, policiais e agentes penitenciá-
um outro professor habitando nossa memória: rios, entre outros. Schaufeli et al. (1994) che-
um homem, uma mulher cansado abatido, sem gam a afirmar que esse é o principal problema
mais vontade de ensinar, um professor que de- dos profissionais de educação.
sistiu. O que nos interessa aqui são os profes- Asíndrome Burnout é definida por Maslach
sores que desistiram; entraram em Burnout. e Jackson (1981) como uma reação à tensão
Quem tem ou teve filhos na escola, ou emocional crônica gerada a partir do contato di-
quem ainda freqüenta uma, pode ter na memó- reto e excessivo com outros seres humanos,
ria a imagem de um professor desanimado, particularmente quando estes estão preocupa-
queixoso até de detalhes insignificantes sobre o dos ou com problemas. Cuidar exige tensão
seu trabalho, sua clientela, tratando os alunos emocional constante, atenção perene; grandes
como se estivessem lidando com uma linha de responsabilidades espreitam o profissional a
montagem. Será que este profissional não per- cada gesto no trabalho. O trabalhador se envol-
cebe a importância do seu trabalho na forma- ve afetivamente com os seus clientes, se des-
ção de nossos filhos? Não, muitas vezes não gasta e, num extremo, desiste, não agüenta
percebe mesmo. Será que não é capaz de se mais, entra em Burnout.

-29 -
Trabalhadores em educação
A síndrome é entendida como um conceito prias características de personalidade, irão se
multidimensional que envolve três componentes: valer de um enfrentamento mais afetivo do con-
1) Exaustão Emocional – situação em que flito, enquanto as outras de um enfrentamento
os trabalhadores sentem que não podem dar em nível mais racionalizado. Desta forma, o so-
mais de si mesmos a nível afetivo. Percebem frimento vai se manifestar através de uma con-
esgotada a energia e os recursos emocionais junção de sintomas ou de exacerbação da an-
próprios, devido ao contato diário com os pro- siedade vivenciada ou da evitação total desta,
blemas. com o conseqüente endurecimento emocional.
2) Despersonalização – desenvolvimento Quando falamos de Burnout, como vimos,
de sentimentos e atitudes negativas e de cinis- estamos falando de três fatores que podem
mo às pessoas destinatárias do trabalho (usuá- aparecer associados, mas que são indepen-
rios/clientes) – endurecimento afetivo, ‘coisifica’ dentes: despersonalização, exaustão emocio-
a relação. nal e baixo envolvimento pessoal no trabalho.
Falta de envolvimento pessoal no trabalho – Atensão entre a necessidade de estabeleci-
tendência de uma ‘evolução negativa’no traba- mento de um vínculo afetivo e a impossibilidade
lho, afetando a habilidade para realização do de concretizá-lo é uma característica estrutural
trabalho e o atendimento, ou contato com as dos trabalhos que envolvem cuidado. Assim, o
pessoas usuárias do trabalho, bem como com a desgaste do vínculo afetivo leva a um senti-
organização.1 mento de exaustão emocional. Esse esgota-
O que as pesquisas têm demonstrado é que mento é representado pela situação na qual os
o Burnout ocorre em trabalhadores altamente trabalhadores, mesmo querendo, percebem
motivados, que reagem ao stresse laboral tra- que já não podem dar mais de si afetivamente.
balhando ainda mais até que entram em colap- É uma situação de total esgotamento da ener-
so. Algumas definições atribuem o Burnout à gia física ou mental. O professor nesta situação
discrepância entre o que o trabalhador dá (o se sente totalmente exaurido emocionalmente,
que ele investe no trabalho) e aquilo que ele re- devido ao desgaste diário ao qual é submetido
cebe (reconhecimento de superiores e colegas, no relacionamento com seus alunos:
bons resultados nos desempenhos dos alunos, “...eu durmo, mas não adianta nada; o sono
etc.). Na definição de Farber (1991), “Burnout é parece que não me restaura. No dia seguinte já
uma síndrome do trabalho, que se origina da acordo cansada... chega o final de semana, e
discrepância da percepção individual entre es- eu estou morta ... no ano passado, fiquei tão
forço e conseqüência, percepção esta, influen- esgotada emocionalmente que acabei procu-
ciada por fatores individuais, organizacionais e rando a ajuda de uma psicóloga”.
sociais”. O baixo envolvimento pessoal no trabalho,
Lembremos que o conflito advindo das ativi- que também pode ser entendido como baixa
dades de cuidado profissionalizadas configura- realização pessoal no trabalho, ocorre nesta re-
se sob dois canais, sendo um afetivo e outro ra- lação afeto-trabalho, sendo na verdade a perda
cional. Algumas pessoas, devido às suas pró- do investimento afetivo. Não conseguir atingir os

1 Cada um dos componentes deve ser analisado separadamente como uma variável contínua com níveis alto, moderado e
baixo e não como uma variável dicotômica, onde existe ou não existe a presença do sintoma. Pela combinação do nível de cada
um dos três componentes se obtém o nível do Burnout do indivíduo ou categoria. Deve-se observar que um nível moderado de
Burnout já é preocupante do ponto de vista epidemiológico, sendo passível de intervenção, uma vez que o processo já se encon-
tra em curso.

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objetivos aos quais se propõe traz ao professor na-se desprovida de calor humano. Isso acres-
um sentimento de impotência, de incapacidade cido de uma grande irritabilidade por parte do
pessoal para realizar algo que tanto sonhou. Es- profissional, este quadro torna qualquer proces-
te conflito tem como tendência levar a pessoa a so ensino-aprendizagem, que se pretenda efe-
avaliar a si próprio negativamente, particular- tivo, completamente inviável. Por um lado, o
mente com respeito ao próprio trabalho com os professor torna-se incapaz do mínimo de empa-
alunos. Seu trabalho perde o sentido: tia necessária para a transmissão do conheci-
“... ultimamente, tenho sentido um certo de- mento e, de outro, ele sofre: ansiedade, melan-
sânimo em relação à vinda ao colégio. Acho colia, baixa auto-estima, sentimento de exaus-
que isso deve-se ao fato de não sentir uma cor- tão física e emocional.
respondência por parte dos alunos e da escola, Associado a esta forma de se relacionar,
de modo geral. Às vezes, sinto que gostaria de que se manifesta diretamente no trabalho na re-
ter mais tempo livre, incluindo este que dedico lação com o aluno, a dinâmica psíquica do indi-
à escola, para dedicar a outras coisas...” víduo também vai sofrendo alterações. Assim,
A despersonalização ocorre quando o vín- essa dificuldade em lidar com a afetividade se
culo afetivo é substituído por um racional. Po- traduz numa lógica mais depressiva em con-
demos entender despersonalização como a traste com aquele perfil eufórico do início da
perda do sentimento de que estamos lidando carreira. Aquela hiper-agitação que impulsiona-
com outro ser humano. É um estado psíquico va o indivíduo a agir, muitas vezes antes mes-
em que prevalece o cinismo, a crítica exarceba- mo de pensar, é substituída por uma inquieta-
da de tudo e de todos os demais e do meio am- ção mais no sentido de reclamação. O mundo é
biente (integração social). O professor começa mau: os alunos são maus porque são indiscipli-
a desenvolver atitudes negativas, críticas em nados, não se interessam pela escola e não
relação aos alunos, atribuindo-lhes o seu pró- aprendem; a família dos alunos é má porque
prio fracasso. O trabalho passa a ser lido pelo não apoia o seu trabalho; a sociedade é má
seu valor de troca; é a “coisificação” do outro porque não valoriza sua profissão; o governo é
ponto da relação, ou seja, o aluno, em nosso mau porque oferece baixos salários; a direção
caso específico, sendo tratado como objeto, de da escola é má porque não oferece o suporte
forma fria. que ele precisa; os outros profissionais também
“Os alunos chegam à escola com um com- são maus.... Enfim, tudo vai mal. Com o tempo,
portamento que não envolve limites, acham que a frustração emocional tende a se transformar
podem tudo. O professor depara-se com a si- em sintomas psicossomáticos, como por exem-
tuação de ter que transmitir noções básicas de plo: insônia, dores de cabeça, úlcera e hiperten-
educação e ainda assim, levar avante um con- são, além de abuso de álcool ou outras subs-
teúdo programático ... Tal situação é desgas- tâncias químicas e o aumento de conflitos tanto
tante. Sinto que não consigo passar tudo aquilo familiar quanto sociais.
que gostaria para os alunos”. Muitos esforços têm sido feitos no sentido
Um trabalhador que entra em Burnout assu- de traçar um perfil do educador que é mais sus-
me uma posição de frieza frente a seus clien- ceptível ao sentimento de Burnout. De uma for-
tes, não se deixando envolver com seus proble- ma geral, estes estudos têm associado determi-
mas e dificuldades. As relações interpessoais nadas características de personalidade a esta
são cortadas, como se ele estivesse em conta- maior vulnerabilidade: locus de controle exter-
to apenas com objetos, ou seja, a relação tor- no, baixa resistência egóica, intolerância e am-

-31 -
Trabalhadores em educação
bigüidade de papéis. Pessoas que podem ser ideal seria de 20 horas... trabalho 2 turnos e às
consideradas como tendo uma “personalidade 16 h já estou cansada, esgotada... é desgastan-
forte”, que vêem a si mesmas como possuindo te lidar com os alunos... alguns apresentam
uma capacidade positiva de escapar do stress, problemas de disciplina e não há acompanha-
podem acabar sucumbindo ao Burnout. mento dos pais...”
Uma metáfora utilizada por um dos profes- “... até gosto de vir para o colégio mas tem
sores que convive com esse sentimento traduz, dias que me sinto sem vontade de vir por causa
em poucas palavras, o que resume todo este do cansaço, desânimo...”
contexto a que estamos nos referindo: “Sinto- “...sinto-me impotente ao lidar com os alu-
me como se estivesse vendendo uma merca- nos (adolescentes e adultos), pois é algo seme-
doria estragada!”. O professor, ao mesmo tem- lhante a remar contra a maré. Às vezes é possí-
po, sente-se derrotado porque vê que não está vel observar algum esforço por parte de alguns,
conseguindo atingir os objetivos aos quais ha- mas não há retorno, pois as deficiências de
via se proposto em seu trabalho e vê deteriora- aprendizagem e as barreiras são muito gran-
da sua relação com os alunos, aos quais já não des. No total de alunos, cinqüenta por cento é
consegue mais tratar de forma afetuosa. Para totalmente apático, os outros cinqüenta até têm
que fique claro o modo como o Burnout se ma- esforço, mas não possuem base, não absor-
nifesta, transcrevemos alguns trechos de entre- vem. Não vejo resultado em meu trabalho, sen-
vistas dos professores: do que os alunos da noite conseguem ser ainda
“...tenho uma atividade pesada, principal- piores. Estou sendo muito sincera, não consigo
mente porque deparo com problemas dos alu- encontrar nenhum tipo de satisfação no magis-
nos que não posso resolver como dificuldade tério, se existir alguma é quase desprezível.
de relacionamento com a família e problemas Trabalho apenas por obrigação. Ao sair para o
econômicos...” trabalho, consigo perceber apenas o sentimen-
“...meu trabalho é desgastante, cada aula to de obrigação, é como o gado que sai para
exige zero Km; os alunos esperam que o pro- pastar e depois volta para casa...”
fessor ministre cada aula como se fosse a pri-
meira do dia... isso rouba energia... me sinto Burnout uma epidemia
sem energia...” na educação
“...tenho dificuldade de lidar com deficien-
tes... trabalho em turma mista (alunos regulares Farber (1984) e a revista Learnig pergunta-
e especiais) e isso dificulta o ensino; os espe- ram aos professores nos EUA, se estes já ex-
ciais atrapalham e aprendem pouco...” perimentaram algum sentimento de Burnout e o
“...os serviços complementares que tenho resultado foi que entre 77% e 93% dos entrevis-
que fazer como datilografa acarretam em redu- tados responderam que sim. O dado assusta,
ção de tempo para preparar aula... esgotam...” mesmo quando lembramos que isso não signi-
“...todos reclamam muito... parecem não fica que aquelas pessoas estejam sofrendo de
gostar de trabalhar aqui... penso em mudar... Burnout, mas que já o experimentaram.
deficiente exige muito, a atenção tem que ser A ocorrência de Burnout, propriamente dita,
redobrada... dificulta o ensino... eu não possuo nos EUA e em outros países tem se revelado
o nível de atenção requerido para o trabalho preocupante. Entre 10,3% e 21,6% de incidên-
com deficientes...” cia foram os percentuais apontados em um es-
“...trabalho 40 horas semanais, mas a carga tudo de Farber (1984b). A revisão da literatura

-32 -
TABELA 1
Presença dos componentes de Burnout entr e
os Trabalhadores em Educação
Despersonalização Exaustão Emocional Envolvimento Pessoal

Baixa 69,1% 47,9% 31,6%


Moderada 20,2% 27,0% 31,5%
Alta 10,7% 25,1% 37,0%
Total 100% 100% 100%

parece indicar que as porcentagens seriam se- mente disseminado. As tabelas abaixo mostram
melhantes às encontradas por nós no Brasil, sua incidência em todos os cargos que foram
se houvessem estudos do semelhantes em ou- analisados dentro da escola. Em despersonali-
tros países. zação, para nível alto, os números variam de
O que se diz aqui é que Burnout é um pro- 5,6% até 24,9% (com exceção de apoio opera-
blema internacional, não pode ser considerado cional que não apresenta incidência nesta cate-
como privilégio desta ou daquela realidade edu- goria), em exaustão de 16,7% até 32,8% e em
cacional ou social, desta ou daquela cultura, envolvimento pessoal no trabalho, para nível
deste ou daquele país. baixo, de 17,3% a 44,2%.
O presente estudo foi o mais amplo e diver- O mesmo quadro se repete ao analisarmos
sificado já realizado até hoje, veja os resultados os 27 estados da Federação: em despersona-
na tabela 1. lização, para o nível mais alto, a variação foi de
Em uma amostra nacional de quase 39.000 4,2% até 15,3%; em envolvimento pessoal no
profissionais em educação, foram identificados trabalho foi de 19,3% até 41,9% e em exaustão
31,9% apresentando baixo envolvimento emo- emocional foi de 9,9% até 37,3%. A variação é
cional com a tarefa, 25% apresentando exaus- grande tanto entre os cargos, quanto entre os
tão emocional, e 10,7% com despersonaliza- Estados, e o significado destas diferenças será
ção. Os valores associados a um nível modera- explicado mais à frente, por ora basta concluir
do de sofrimento em Burnout, que compõem a que o Burnout está presente em todos os car-
escala de Maslach para cada um dos fatores, gos e em todos os lugares e sempre em por-
são difíceis de interpretar, por esta razão nos centagens preocupantes.
deteremos apenas nos valores que definem, O Burnout é uma desistência de quem ain-
sem dúvida, a síndrome. da está lá. Encalacrado em uma situação de
Se perguntarmos pela incidência, em nível trabalho que não pode suportar, mas que tam-
preocupante, de pelo menos uma das três sub- bém não pode desistir. O trabalhador arma, in-
escalas que compõe Burnout, entre os profis- conscientemente uma retirada psicológica, um
sionais pesquisados, estaremos falando de modo de abandonar o trabalho apesar de conti-
48,4% da categoria. Para efeitos práticos, a nuar no posto. Está presente na sala de aula,
metade de toda a população estudada. mas passa a considerar cada aula, cada aluno,
Burnout não é apenas um fenômeno fre- cada semestre, como números que vão se so-
qüente entre os educadores, é também alta- mando em uma folha em branco:

- 33-
Trabalhadores em educação

TABELA 2
Índices de Burnout por carg o
Despersonalização Exaustão emocional Envolvimento pessoal
no trabalho Total
CARGO baixa moderada alta Baixa moderada Alta Baixa moderada alta
Apoio administrativo 70,10% 17,40% 12,00% 56,50% 22,40% 21,10% 40,10% 28,10% 31,90% 100%
Auxiliar administrativo 67,80% 20,70% 11,50% 58,20% 24,70% 17,10% 34,10% 28,60% 37,20% 100%
Assistente administrativo 72,40% 18,90% 8,80% 60,50% 21,70% 17,80% 29,10% 30,90% 39,90% 100%
Agente administrativo 64,90% 21,80% 13,30% 59,90% 22,50% 17,60% 32,00% 31,40% 36,60% 100%
Secretaria 70,60% 19,00% 10,40% 58,40% 24,10% 17,50% 27,50% 34,20% 38,20% 100%
Diretor 70,30% 21,40% 8,30% 51,40% 28,50% 20,00% 17,30% 33,70% 48,90% 100%
Vice-diretor 71,00% 20,60% 8,40% 49,90% 28,40% 21,70% 29,10% 29,60% 41,30% 100%
Orientador educacional 77,60% 15,80% 6,60% 50,10% 26,60% 23,30% 21,30% 33,80% 44,90% 100%
Supervisor de ensino 72,30% 21,20% 6,50% 53,30% 25,10% 21,60% 23,00% 35,60% 41,40% 100%
Apoio ao ensino 69,10% 20,30% 10,50% 47,20% 28,30% 24,50% 27,60% 34,60% 37,90% 100%
Biblioteca 69,20% 19,50% 11,30% 50,90% 28,30% 20,80% 37,00% 26,50% 36,50% 100%
Prof. da saúde 63,30% 21,30% 12,50% 51,30% 18,80% 30,00% 18,80% 38,80% 42,50% 100%
Especialista em educação 74,20% 20,20% 5,60% 50,80% 24,20% 25,00% 33,10% 31,50% 35,50% 100%
Apoio operacional 58,30% 41,70% - 41,70% 41,70% 16,70% 58,30% 25,00% 16,70% 100%
Alimentação 53,70% 23,50% 22,80% 42,40% 27,10% 30,60% 33,90% 28,90% 37,20% 100%
Vigilância 52,40% 26,50% 21,10% 48,00% 27,00% 25,00% 41,90% 30,40% 27,70% 100%
Portaria 51,10% 28,30% 20,60% 49,30% 20,20% 30,50% 41,90% 27,00% 31,10% 100%
Serviços gerais 57,40% 26,20% 16,40% 45,30% 31,40% 23,40% 35,20% 31,90% 32,90% 100%
Limpeza 56,10% 25,60% 18,30% 46,60% 25,40% 27,90% 44,20% 26,10% 29,60% 100%
Manutenção 54,10% 21,00% 24,90% 43,90% 23,30% 32,80% 38,30% 32,80% 28,90% 100%
Inspetor 59,20% 19,60% 21,30% 49,40% 27,10% 23,50% 41,10% 26,70% 32,20% 100%
Professor 71,60% 19,30% 9,10% 46,40% 27,30% 26,30% 30,60% 32,00% 37,40% 100%
Total 69,10% 20,20% 10,70% 47,80% 26,90% 25,30% 31,50% 31,50% 37,00% 100%

“Tanto faz sobre o que estou dando aula, A SI MESMO


sequer me interessa se foi boa ou não, o que COMO TRABALHO
me interessa é que mais uma aula passou”
“Tanto faz que meus alunos estejam apaixo- Perfil do Professor
nados pelo conteúdo ou que as minhas pala-
vras atravessem seu cérebro como a um deser- Podemos afirmar que o perfil do professor
to, cumpro apenas a minha obrigação” é, sem sombra nenhuma da dúvida, o de um
A vítima de Burnout tem o espírito corroído empreendedor. Se não fosse assim, como ex-
pelo desânimo, a vontade minguando devagar, plicar que mesmo sob condições tão adversas
até atingir os gestos mais banais, até minimizar de trabalho, mais e mais professores sejam for-
as vitórias mais acachapantes, a beleza e a for- mados a cada ano e, em alguns casos, pode-
ça da missão, dando lugar ao mesmo irritante ríamos dizer a cada semestre. Mesmo frente
cotidiano, por mais diferentes que sejam os aos baixos salários, à crise do sistema educa-
dias de trabalho. cional brasileiro, à desvalorização do profissio-

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TABELA 3
Índices dos componentes de Burnout por estado
Despersonalização Exaustão emocional Envolvimento pessoal
no trabalho
Estado baixa moderada baixa moderada alta alta baixa moderada alta
DF 65,90% 21,90% 41,90% 33,00% 24,90% 12,00% 43,70% 25,30% 30,90%
BA 71,20% 18,80% 28,20% 30,00% 41,60% 9,80% 46,80% 29,30% 23,70%
CE 74,60% 16,60% 24,90% 31,20% 43,80% 8,70% 56,00% 27,70% 16,20%
MS 68,60% 19,50% 29,00% 29,70% 41,10% 11,70% 47,60% 25,20% 27,10%
MG 72,70% 19,20% 31,00% 33,40% 35,40% 7,90% 51,10% 31,50% 17,20%
PA 70,60% 19,10% 38,90% 26,90% 34,10% 10,10% 52,00% 26,00% 21,80%
RS 66,00% 21,40% 37,90% 31,10% 30,90% 12,40% 35,40% 27,20% 37,30%
SP 70,60% 21,10% 35,80% 34,10% 30,00% 8,10% 49,30% 27,30% 23,30%
GO 68,80% 20,50% 25,80% 32,10% 41,90% 10,60% 42,50% 27,00% 30,30%
TO 60,70% 24,50% 24,10% 31,80% 44,00% 14,70% 45,60% 26,90% 27,40%
PR 64,00% 23,20% 35,80% 31,40% 32,70% 12,60% 43,30% 26,30% 30,20%
SC 67,90% 20,00% 25,40% 30,20% 44,20% 11,90% 42,10% 25,50% 32,30%
RJ 72,20% 18,20% 35,30% 33,50% 31,10% 9,40% 41,20% 30,10% 28,60%
ES 66,70% 22,70% 37,30% 31,90% 30,70% 10,50% 39,50% 29,30% 31,10%
SE 72,00% 16,50% 29,50% 31,60% 38,80% 11,30% 50,40% 27,40% 22,00%
PE 61,10% 25,30% 37,90% 32,70% 29,20% 13,50% 38,10% 28,70% 33,10%
PB 69,60% 16,90% 19,30% 28,40% 52,20% 13,30% 46,70% 26,00% 27,10%
RN 64,60% 22,70% 32,80% 32,50% 34,50% 12,60% 37,90% 30,50% 31,50%
PI 70,80% 19,80% 24,00% 30,50% 45,30% 9,30% 55,40% 24,70% 19,80%
MA 82,50% 12,50% 31,90% 30,00% 38,00% 4,90% 70,50% 17,80% 11,50%
AM 68,90% 19,70% 28,30% 30,40% 41,20% 11,30% 47,80% 27,10% 25,00%
AP 83,00% 12,70% 38,50% 29,10% 32,30% 4,20% 74,80% 15,10% 9,90%
RR 60,80% 25,40% 40,30% 34,50% 25,00% 13,60% 51,10% 30,20% 18,50%
AC 62,40% 22,20% 27,60% 29,90% 42,30% 15,30% 49,50% 25,20% 25,10%
RO 69,30% 20,30% 25,00% 29,40% 45,40% 10,20% 54,40% 27,00% 18,50%
MT 64,50% 23,30% 30,80% 32,20% 36,90% 12,10% 45,40% 27,00% 27,40%

nal, à falta de recursos materiais, à desmotiva- educação de maneira geral passa por dificulda-
ção dos alunos, à insegurança no ambiente de des. Esse quadro levaria qualquer outro profis-
trabalho, às dificuldades na relação ensino- sional a deixar esse trabalho imediatamente ou
aprendizagem, à todas estas dificuldades e pelo menos procurar outro lugar no mercado
muitas outras, os novos educadores insistem e para uma saída a médio prazo. Mas não esses.
os antigos estão aí, não desistiram. Muitas vezes escutamos alguém dizer que
Do status e do glamour que a profissão ou- educação é uma ‘cachaça’; uma vez bebendo
trora desfrutou, muito pouco ainda resta. As dela, não se pode mais largar. E é isso o que
condições de trabalho, como já foram vistas, ocorre. Por pior que sejam as condições de tra-
não são boas, a infra-estrutura é ruim, o salário balho e salariais estes profissionais estão lá,
é baixo, faltam materiais de apoio ao ensino e a atuando, propondo atividades que venham su-

-35 -
Trabalhadores em educação
perar suas dificuldades mais primárias dentro A relação professor-aluno-escola-pais-co-
da escola, como falta de giz e apagador, proble- munidade indica um modo de trabalho. Sendo o
mas com alunos ou pais, dificuldades no pro- ensino-aprendizagem o grande produto espera-
cesso de ensino-aprendizagem, questões com do, o cotidiano do professor é cercado de con-
a administração central (secretarias e funda- dições específicas para que isso possa ocorrer.
ções educacionais) ou com a administração in- Voltamos aos gestos, às tarefas, às relações in-
terna da própria escola e a violência. Conti- ternas e externas do trabalho. O valor social
nuam atuando, dedicando-se, sentido-se moti- que ele representa e o valor social que repre-
vados, comprometidos, satisfeitos. Ainda bem senta. A identidade do professor é cunhada
que acreditam e apostam numa realidade me- nessa relação de trabalho e subjetividade. Tem
lhor para o ensino. Caso contrário, nossas es- uma marca.
colas logo estariam fechando as portas por fal- A educação pode estar ruim, mas a expec-
ta de professores. tativa por parte do professor é de que eles po-
Mas a pergunta volta imediatamente à nos- dem modificar esta realidade através do traba-
sa cabeça: o que existe de tão especial nesta lho, da atividade exercida. Isso é verdade, se
profissão ou nesses profissionais que conti- uma realidade pode ser mudada isso só ocorre-
nuam atuando apesar das situações adversas?. rá através do trabalho. Eles acreditam nisso e
Volta uma resposta simples e talvez por is- partem no sentido de construir um ideal.
so nunca a tenhamos achado: é um trabalho Nesse sentido, muitas vezes o professor su-
completo, artesanal, desses que são raros em perestima seu poder de fogo e cria altas expec-
mundo de hoje tão cheio de especializações. A tativas. Talvez esse seja o seu erro; a educa-
crença no saber e no saber-fazer. O controle ção, a escola, os alunos, os pais, a economia
sobre o processo de trabalho está nas mãos têm problemas. Com expectativas muito altas,
dos próprios profissionais, como já vimos. Eles as possibilidades de frustração também se ele-
detêm o planejamento, o ritmo, os critérios de vam. Mas ele acredita que, trabalhando muito e
qualidade ou avaliação, enfim, eles detêm o tra- com afinco, da forma como está disposto, será
balho. Isso aumenta a responsabilidade, ele diferente. Começam as frustrações, mas ele
precisa ser mais que um empreendedor. E é, e continua.
gosta de ser. Sob esta perspectiva, ele trabalha ardua-
Cada trabalho imprime um gesto, uma mar- mente. Esmera-se no preparo de recursos didá-
ca, um afeto, uma ação. O trabalho do profes- ticos, mesmo nos mais simples, chegando até
sor transcende a esfera dele mesmo e tem um a utilizar subsídios do próprio bolso. Envolve-se
referencial externo que lhe determina seus mo- e preocupa-se com os alunos que apresentam
dos de produção. Assim como um padre, tem mais dificuldades, propõe novas estratégias pa-
seus ritos e tem que ter uma vocação. As ativi- ra que eles aprendam. Enfim, uma série de me-
dades executadas e a identidade profissional didas para garantir a realização do seu ideal.
não podem ser vistas como coisas distintas ou O idealismo passa a ser a tônica dos profis-
separadas. São condicionantes e condiciona- sionais de educação. Este idealismo alimenta
das mutuamente. Para se entender um trabalho um sonho não só no sentido de ser feliz, mas
há necessidade de se entender seus modos de numa coisa muito maior, na necessidade de fa-
produção. Para se definir o perfil de um profis- zer muito, provocando uma hiperagitação física
sional há necessidade de se analisar como ele e mental que resulta num dinamismo cujas
atua na sua atividade. ações buscam superar as dificuldades, embora

- 36-
às vezes possam atropelar o pensamento. A sua atividade, a se comportar desta forma; ou
impulsividade, ao contrário de colocá-lo em pe- se transforma em um idealista ou não professa.
rigo, o impulsiona para a frente, é a força ne- Pela impulsividade e pela vontade de cons-
cessária para quebrar as adversidades. Um truir o futuro, sempre acaba assumindo mais
educador não pode ser passivo. Ele tem que compromissos e responsabilidades do que real-
enfrentar os desafios diários impostos por seus mente daria conta. São muitas aulas, muitos
alunos, pela escola, pela educação, pelas esfe- trabalhos a serem corrigidos, muitos pais e alu-
ras governamentais. nos a conversar, muito a ajudar e orientar.
Uma das principais características de seu Quantas e quantas noites nosso professor já
perfil passa a ser essa impulsividade. Dotado não ficou acordado até tarde, corrigindo provas
de uma grande energia vital, tem um dinamis- ou preparando aulas? Numa dessas, cônjuge,
mo que o impulsiona para a ação, como a for- namorado e filhos acabaram tendo que esperar
nalha de carvão que movimenta os vagões do para obter a sua atenção. Não é à toa que vive
trem. Areserva de carvão é grande, a fornalha à beira de um esgotamento físico e mental. Mas
está sempre quente, garantindo a constante in- mesmo sentindo todo esse cansaço, ele não
quietude de seu espírito. pára; sua cabeça está sempre cheia de proje-
De onde vem este idealismo? A hipótese tos audaciosos. Os alunos estão ali e precisam
mais simples é a de uma atração da carreira dele.
exercida sobre o jovem no momento da esco- Inquieto no sentido de alguém insatisfeito
lha. O que estaria acontecendo seria que os com o que já sabe, busca sempre mais. Inquie-
idealistas veriam nesta profissão um lugar me- to no sentido de alguém cuja curiosidade su-
lhor para realizar seus desejos de modificar o planta o comodismo, também busca mais. In-
mundo. Simples e provável, esta hipótese me- quieto no sentido de que a vida, a escola, os
rece mais investigação. Nesta pesquisa, no en- alunos trazem desafios e vencê-los é uma ne -
tanto, não estudamos os candidatos, estuda- cessidade, mais uma para enfrentar e se prepa-
mos apenas os professores em exercício, e rar. Investe constantemente em capacitação
existem, na atividade do professor, característi- profissional; compra livros, revistas, pesquisa
cas que, de certa forma, produzem ou reprodu- na Internet, vai a bibliotecas, enfim, toda uma
zem o perfil maníaco. Vejamos. série de material é devorado em prol da melho-
Professar, dar aulas, ensinar, são atividades ria da qualidade do ensino, da educação. Não
que demandam uma certa posição na relação importa se vai ter recompensa financeira ou so-
com os alunos, os clientes, como vimos o pró- cial por isso, nesse momento a ânsia por fazer
prio objeto de trabalho. Quem ensina projeta o e fazer melhor é muito maior e acaba se sobre-
outro; a pergunta que um professor faz a si pondo.
mesmo quando tem pela frente um tópico qual- Por outro lado, a inquietação e o dinamismo
quer do programa é: O que eu quero que os são importantes no domínio das turmas. Não se-
alunos saibam (sejam) desta matéria? ria possível prender a atenção de mais de trinta
A atividade do professor é exatamente a de alunos por muito tempo sem essa garra, essa vi-
construir um projeto para o outro, em última ins- bração. Nos modos de trabalhar, a expressivida-
tância, transformar o outro à sua imagem e se- de parece fluir pelos poros, pois não faltaram
melhança. O professor exerce a profissão de gestos, entonação, movimento necessários ao
ser idealista, tem obrigação de ser idealista, processo de comunicação. Seus gestos motiva-
aqui a lógica se inverte, ele é obrigado, pela rão, ajudarão a elucidar dúvidas, a formar ima-

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Trabalhadores em educação
gens que simplificarão os conceitos transmitidos, de aula, mas que fogem de seu controle. Na
acalmarão os mais exaltados, servirão como verdade, esta é a sua forma de lidar com uma
exemplo para os mais observadores. Serão a realidade que não pode mudar. Nesse ponto,
varinha de condão transformando o imaginário surge a “onipotência” que muitas vezes o trai,
em realidade, o presente no futuro. Mas essa obstruindo, como um viés, a visão de uma rea-
agitação manifesta-se não só em termos de lidade mais prática ou de suas reais limitações.
comportamento, mas também de idéias. Mas ele realmente acredita que pode, com
O professor anima, fustiga, incentiva, propi- suas próprias mãos, modificar o destino dos
cia os elos de ligação entre ele e os alunos, alunos, da escola, da educação, do mundo, do
sem os quais a troca de experiências seria im- planeta... É comum ouvirmos depoimentos de
possível. Escreve e pela escrita seus ensina- professores que, apegados à sua religiosidade,
mentos tornam-se perpétuos e podem ser re- afirmam incluir os alunos em suas orações diá-
capturados, os conteúdos que não ficaram per- rias. E não duvidam de que é esta interseção
feitamente compreendidos podem ser retoma- perante Deus que fará a diferença para os alu-
dos. Pela escrita, os conteúdos são fixados. A nos. Outros, contam com orgulho que encontra-
agitação incessante parece fazer parte da vida ram ex-alunos na rua, que estão trabalhando
do professor; lhe é exigido elevado grau de in- nesse ou naquele emprego. Não é por acaso
fatigabilidade. que os alunos reencontrados são sempre lem-
Por mais que se queira negar, um professor brados como tendo dado bastante trabalho no
é mesmo um professor vinte e quatro horas por passado. Indisciplinados ou pouco dedicados
dia. Ele está em constante estado de atenção e aos estudos, o fato é que o professor sente o
vigilância; nunca consegue relaxar completa- sucesso deste como tendo uma parcela de con-
mente. Tanto é assim, que nenhum letreiro com tribuição sua. Se ele não tivesse tido tanta pa-
erro de ortografia passa-lhe despercebido, ne- ciência... se não tivesse chamado para tantas
nhum deslize de concordância deixa de “doer” conversas... se não tivesse dispensado aquelas
em seus ouvidos. Toda e qualquer notícia de horas a mais de reforço... se não tivesse toma-
jornal e televisão é sempre recebida com vistas do partido da defesa frente à direção que que-
a fins didáticos. O professor simplesmente não ria puni-lo...se não o tivesse punido...
é capaz de “desligar” por completo. Até nas fé- Sim, ele pode mesmo ter operado o milagre.
rias é bem capaz de deliciar-se com um livro de Cria-se um círculo vicioso que se retro-alimen-
literatura brasileira ou juntar conchinhas na ta: por acreditar que pode, ele faz. E por ver
praia visando um trabalho de colagem de seus que fez, ele acredita que pode; vai lá e faz no-
alunos. Se ele não demonstra essa agitação fi- vamente. Não importa se o seu trabalho efetiva-
sicamente, tente penetrar em seu pensamento mente contribuiu para alguma transformação.
que você a verá. Muito provavelmente sim, mas não é isso que
Ele não pára, não desconcentra porque tem estamos discutindo. Referimo-nos à percepção
muito a fazer, não poderia mesmo ser diferente. subjetiva do professor, que orienta, regula e
Tem um ideal a realizar. Não é que o professor motiva a sua atuação.
não perceba os obstáculos à realização de seu Em sua fantasia, ele pode tudo. Envolve-se
trabalho; não é que ele não veja que os alunos tanto em suas atividades, fica tão absorto em
não estão aprendendo, que seu trabalho não seu trabalho, que não mede esforços. Assim é,
está sendo reconhecido, ou que seus alunos que muitas vezes não consegue largar algo que
estão com problemas que interferem em sala está fazendo antes de vê-lo terminado. É co-

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mum perder horas preciosas de sono, deixar – preciso esconder de si mesmo sua impotência,
ou mesmo esquecer – de se alimentar, colocar para seguir trabalhando. Negar a existência das
outros compromissos em segundo plano para adversidades é uma forma de passar por cima
poder dedicar-se àquilo que esteja sendo o fo- sem ter que efetivamente enfrentá-las, pois is-
co de sua atenção naquele momento. so geraria muito desgaste, ansiedade e frustra-
Assim, educar é uma profissão de fé; uma ção. A frustração gera ainda mais ansiedade,
profissão que vislumbra com a possibilidade de pois a estrutura de personalidade que o profes-
uma atuação quase divina, pois nela transfor- sor constrói para si acaba sendo muito pouco
mam-se/formam-se outros indivíduos à seme- resistente aos fracassos.
lhança do profissional educador, os limites são Burnout é o nome da dor de um profissional
infinitos. Essa plenitude de possibilidades pode encalacrado entre o que pode fazer e o que efe-
conduzir o profissional educador aos céus, mas tivamente consegue fazer, entre o que deve fa-
também pode conduzi-lo a um inferno pessoal. zer e o que efetivamente pode, entre o céu de
Necessidade de ser profeta, de professar, possibilidades e o inferno dos limites estrutu-
imposição de não ter limites, obrigação de con- rais, entre a vitória e a frustração.
trole é também identidade ameaçada, por um Nesse jogo contraditório, entre o nirvana
fio a cada tema, todos os dias, em cada pergun- profissional de possibilidades e o inferno da im-
ta, a identidade profissional, o jeito que eu me possibilidade da realização dos seus propósi-
reconheço no espelho. Ou sou um deus ou não tos, é traçado o perfil do educador. A impulsivi-
sou nada. Prazer? Ainda existe, basta ver os dade, a multiplicidade de ações, a inquietação e
dados, por exemplo, sobre satisfação no traba- por que não dizer, o idealismo, o conduzirão a
lho, mas agonia também, e muita. novas descobertas, a novos rumos, a novos ob-
Na consciência de suas limitações, esse jetivos. Mas, esse quadro não permanece inal-
profissional percebe que as metas desejadas terado ao correr dos anos de profissão. O peso
muitas vezes não podem ser cumpridas. A im- das impossibilidades de educar se fará sentir.
possibilidade de realização plena do educador,
o retorno à realidade crua das dificuldades coti- Um trabalho sujeito
dianas o impele para a dor, no sentido de sofri- a muitas frustrações
mento interno, muitas vezes surdo, mas sem-
pre corrosivo. O professor, profissional arrojado, disposto
Dor no sentido da percepção de que ele não a sacrifícios pelo seu ideal, está sujeito a cons-
consegue atingir os seus sonhos, a sua obriga- tantes provações como vimos até agora. Ora
ção de ensinar, na percepção que sua infatiga- são as condições de trabalho ou materiais de
bilidade é uma utopia, pois no final da jornada apoio ao ensino que não são adequados, ora a
de trabalho ele está exaurido e não realizou tu- infra-estrutura das escolas apresentam proble-
do aquilo que pretendia, que precisava. Dor tal mas, ora, ainda, são os alunos que exigem ca-
que, no momento em que percebe suas limita- da vez mais atenção, têm dificuldade de apren-
ções impostas pelas condições de trabalho, se dizagem ou necessitam mais do que qualquer
frustra mais uma vez e esconde de si mesmo professor pode dar. Enfim, toda uma sorte de
seus sentimentos de insatisfação. problemas e dificuldades se apresentam. Junto
Anegação é a estratégia usado pelo profes- a tudo isso há também uma série de satisfa-
sor para se defender, simplesmente porque é a ções e gratificações pelo trabalho executado.
única que lhe permite continuar ensinando. É Estabelece-se, então, uma soma cujo resul-

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Trabalhadores em educação
tado não se chega pela matemática de somar e Sabemos que as condições da escola estão
dividir. Existem valores subjetivos, intervindo de longe de serem boas, além do mais condições
forma diferente, de professor para professor. absolutamente ideais não existem, nem na es-
Não se pode dizer que um professor X, sujeito a cola, nem em nenhum outro local de trabalho do
tal nível de dificuldade e de gratificação vai se mundo, até porque se existissem não seriam
sentir da mesma forma que o professor Y, sujei- ideais. Além disso, de forma geral, o desafio, o
to às mesmas condições. É que, além do que foi ter que superar dificuldades ou pequenos obstá-
dito, muitos outros fatores, subjetivos ou objeti- culos é visto como uma coisa estimulante. Se de
vos, estão presentes e devem ser levados em um lado psicólogos e administradores acreditam
conta ao analisarmos a equação. Se o professor que, ao superar suas próprias dificuldades, o
está passando por uma grande dificuldade pes- profissional tende a ter um crescimento pessoal
soal ou familiar pode apresentar menor resistên- e profissional que o leva a desenvolver um tra-
cia às dificuldades na escola, por exemplo. balho de qualidade cada vez melhor, de outro,
Contudo, sob condições de trabalho muito concordam que condições muito adversas que
adversas e sem uma rede de compensação colocam em risco o objeto de seu trabalho po-
que lhe seja conveniente, o professor passa a dem desviar uma saudável situação de desafio
apresentar problemas; é como se o carvão que para uma série de sucessivas frustrações.
dava propulsão e o levava a agir fosse se esgo- Ninguém gosta de ser contrariado, de não
tando, ou seja, o que lhe fazia superar os pro- ter o seus desejos ou necessidades satisfeitos.
blemas e continuar agindo em nome de um A impossibilidade de realização de um desejo
ideal se escasseasse. ou mesmo de uma expectativa gera ansiedade,
Não podemos nos esquecer que a lógica desprazer.
com a qual o professor trabalha é uma lógica Se o aluno, apesar de ter estudado não ob-
voltada para a ação, o profissional idealista e teve um bom desempenho no teste, ele se frus-
empreendedor, cuja a vontade de atuar naquilo trará por não ter alcançado seu objetivo mas,
que acredita sobrepõe-se a todas as outras coi- por outro lado, seu professor também se senti-
sas. É alguém que acredita nas suas próprias rá frustrado por um aluno seu, objeto de seu afe-
realizações e avalia sempre as situações sob to, não ter atingido, naquele teste, o bom de-
uma perspectiva, senão positiva, pelo menos sempenho. Frustrações todos nós temos. Essas
passível de mudança para situações mais favo- frustrações, entretanto, terão um peso maior ou
ráveis. menor para cada um de nós em função dos re-
Esse modo de agir empreendedor leva, cursos internos e da disponibilidade para lidar
muitas vezes, o professor a alimentar grandes com o sofrimento que estas situações irão cau-
expectativas em relação ao seu trabalho. E por- sar e, em decorrência disso, superá-las ou não.
que não, se o saber e o saber-fazer estão na Quem mais está sujeito a frustrações é
sua mão, como já foi visto? É o detentor do pro- quem mais se expõe a elas, ou seja, quem mais
cesso de trabalho, dos meios de produção. E se arrisca. Quem não atua, se fechando em seu
como ser de outra forma, se mudar o outro é o mundo, não correndo riscos, evita o confronto
seu trabalho? Mas, embora a atividade de ensi- entre atingir ou não o objeto de desejo ou ne-
nar traga toda essa possibilidade de satisfação cessidade evidenciada; evita a frustração. Mas
pessoal, altas expectativas fazem com que os também ‘frustra’ a possibilidade de satisfação
percalços do caminho se transformem em em- daquilo que nega, não assumindo como seu
pecilhos para sua realização. aquele objeto de desejo.

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O professor, com o perfil empreendedor que sucessivas frustrações levam-no a questionar
possuí, atua e corre riscos de ver seus projetos sua competência, tornando a identidade profis-
não realizados. Tem dificuldades e obstáculos sional fragilizada.
estruturais e afetivos; a escola não atende to- A mania que marca o perfil do professor
das as suas demandas, um determinado aluno passa a declinar com o tempo em que atua na
não conseguiu aprender o que foi lhe ensinado, função, como se vê no gráfico que se segue. Si-
ou ainda, a constante convivência com situa- nal maior de que algo está ocorrendo como res-
ções conflitantes decorrentes do dia-a-dia de posta às frustrações que vínhamos apontando.
qualquer atividade. Como está constantemente O professor está diante de uma armadilha.
em atividade, empenhado que está com o ensi- De um lado a imposição de ser um idealista in-
no, acaba não reconhecendo essas frustra- cansável, de outro os mecanismos de preserva-
ções. Passa por cima delas sem sequer perce- ção contra o sofrimento que, igualmente, impõe
bê-las. Com o tempo e freqüência esses ‘incô- um arrefecimento, um pé no freio. O resultado
modos’ não superados, porque sequer foram dessa luta entre duas condições básicas para a
vistos, causam sofrimento. Aquele professor ar- preservação da identidade se chama Burnout.
rojado, que enfrentava com garra todos os de- Exaustão emocional se diferencia do cansa-
safios à sua frente, começa a questionar se va- ço exatamente por isso. Nesse último, para-
le a pena. mos, se não puder parar, pifamos, já a primeira
O professor percebe que nem todos os seus é o resultado de uma exposição constante, co-
esforços estão produzindo retorno: alunos que tidiana, a uma contradição aparentemente sem
não aprendem, a direção da escola cobra, mas saída. É emocional na exata medida em que a
também não colabora, além de tolher toda e própria identidade está ‘encalacrada’entre dois
qualquer iniciativa de inovação pedagógica, os pólos igualmente decisivos.
pais criticam e não reconhecem o valor de seu Despersonalização é uma tentativa de re-
trabalho, os alunos não o respeitam. Mesmo solver o impasse pela eliminação psicológica
sendo um profissional de ação, sempre buscan- de um dos lados. Deixando de considerar os
do alternativas e tendo que superar as adversi- alunos como alunos, o professor não estará em
dades, vai se desgastando tanto física quanto conflito aula por aula, encontrando assim uma
emocionalmente. Afinal, como ficam as ener- maneira de exercitar uma espécie de professor
gias quando o professor está constantemente que professa no deserto.
dando o melhor de si sem ter a mesma contra - Falta de envolvimento no trabalho é, outra
partida de sucessos? A equação entra em de- vez, uma forma de evitar o conflito pela elimina-
sequilíbrio. ção de um dos lados. Dessa vez a tentativa é
O desgaste advém fisicamente das noites de eliminar psicologicamente o professor. In-
mal dormidas ou mesmo em claro preparando ventar um professor que não professa. É que,
aulas e corrigindo trabalhos ou, ainda, das inú- nesse caso são os ideiais do professor que
meras aulas no mesmo dia que levam o profes- saem de cena, seus projetos de ação/interven-
sor, muitas vezes, a assumir até três turnos de ção com os alunos, a comunidade é que desa -
trabalho diários. O desgaste emocional vem do parecem, ele mesmo, enquanto professor, é
esforço sem compensação que leva a um can- que não está mais ali.
saço não só físico. O professor começa a sentir Exaustão, trata-se, portanto, da manuten-
como se suas forças estivessem sendo suga- ção do conflito até quando o professor agüen-
das. Se de um lado isso acontece, de outro, as tar, enquanto despersonalização é a eliminação

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Trabalhadores em educação
simbólica do aluno e baixo envolvimento, a eli- se não está havendo uma reapropriação deste
minação simbólica do professor. Uma síndrome afeto por outras vias, o sentimento é o de que o
de um profissional encalacrado entre uma vida indivíduo está sendo aos poucos esvaziado de
que castra os sonhos um a um, e uma profissão toda a sua subjetividade, como se um pedaço
que tem nos sonhos o seu modo de ser. Esta- de si estivesse se esvaindo.
mos no início do processo de Burnout. Associado a esse sentimento de exaustão,
Tanto física quanto emocionalmente o pro- que se manifesta no trabalho, diretamente na
fessor sente-se exausto, a ponto de não ter relação com o aluno, seu cliente, a dinâmica
mais nada a oferecer. Os alunos passam a psíquica do indivíduo também vai passando por
aborrecê-lo, seu envolvimento pessoal com o alterações. Cansado de doar-se sem obter um
trabalho fica comprometido. É, como se seu retorno do afeto empregado, deixa de investir no
‘combustível’ estivesse faltando. É dessa situa- seu trabalho, acomoda-se. É como se a chama
ção que vamos falar agora. que o impulsionava a agir fosse se apagando.
O baixo envolvimento pessoal no trabalho,
Psicodinâmica do conflito também entendido como falta de realização
afeto x razão pessoal no trabalho, ocorre nessa relação afe-
to-trabalho. Na verdade, é uma forma de evita-
À princípio, tudo são flores, como já vimos. ção do conflito da afetividade na esfera do tra-
O professor se sente em um estado de graça balho. Busca evitar o conflito e também a ansie-
por estar desenvolvendo uma atividade com a dade advinda das frustrações com as quais tem
qual se realiza através do sagrado ato de ensi- que se deparar no seu dia a dia. Seu trabalho
nar. Nesse momento, se sente um deus. Sente perde o sentido, pois já não tem mais a ilusão
que tem nas mãos, na fala, enfim, em si, o po- de que as coisas podem melhorar e não conse-
der de atuar sobre os outros. O tempo passa e gue ver saída para o impasse que se estabele-
as dificuldades aparecem. As frustrações se fa- ce entre o compromisso com o trabalho e o
zem presentes e aquela atuação tão desprovi- conflito advindo dele.
da de medo, prudência, limite, vai ficando ene- Nesse ponto, quer pela exaustão emocio-
voada. Sofre. Sofre a dor da perda da esperan- nal, quer pelo baixo envolvimento, o professor
ça, do incontestável e as questões afetivas do sente que já não consegue atingir os objetivos
trabalho se afloram. Nesse processo de frustra- aos quais se propõe. Esse sentimento leva a
ção e perda se instala o Burnout. outro, o sentimento de impotência, de incapaci-
Um esgotamento vai pouco a pouco toman- dade pessoal para realizar algo tão vital para si,
do conta do trabalhador. Nessa situação, sente- algo que tanto sonhou. Num processo contínuo,
se exaurido emocionalmente, devido ao des- onde a expectativa colocada em si próprio é
gaste diário a que está submetido no relaciona- muita alta, o não cumprimento de seus objeti-
mento com seus alunos. Percebe que já não vos passam a ter um peso insustentável. Como
pode dar mais nada de si afetivamente. É uma resultado, avalia a si próprio negativamente,
situação de total esgotamento da energia física particularmente com respeito ao próprio traba-
ou mental. O processo se inicia. lho com os alunos.
É importante lembrar que a energia afetiva Do ponto de vista da dinâmica do psiquis-
investida no aluno nunca retorna totalmente pa- mo, duas coisas ocorrem paralelamente. Por
ra o trabalhador, pois o circuito da relação afeti- um lado, a elaboração do luto pelo investimen-
va não é um circuito fechado. Isso significa que, to perdido, ou seja, pela parte de si mesmo que

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o indivíduo sente ter sido roubada, coloca-o nu- bro...minhas costas doem...fico toda doída,
ma posição depressiva. Essa posição depres- mas às vezes o dia nem foi tão pesado assim...”
siva é o momento no qual aquilo que não está essa é uma fala comum de qualquer professor.
mais presente é simbolicamente introjetado, de A exacerbação do conflito vincular-se ver-
forma que a sua ausência não provoque mais sus não vincular-se afetivamente impede a rea-
frustração. É um processo simbólico. O indiví- lização de relações afetivas mais estáveis em
duo se fecha em si mesmo e perde o interesse outros níveis, comprometendo outros relaciona-
pelo mundo externo. Afinal, o mundo não é ca- mentos como o suporte afetivo e social. O indi-
paz de retribuir o afeto que este oferece. O víduo sente-se só para lutar contra o que se
mundo é mau; flagela, depaupera, não tem na- apresenta a ele, pois sente que já não tem mais
da interessante a oferecer. energia suficiente para essa luta. Nada mais
Obviamente essa é uma estratégia de defe- parece valer a pena.
sa contra o sofrimento de dar afeto sem ser cor- Fechado em si mesmo, sem perspectivas
respondido. Só que fechado em seu mundo o no trabalho e com a esfera afetiva de vida em
indivíduo se entristece; sente solidão, abando- colapso e o sentimento de que nada mais vale
no, e passa a questionar a relevância de seu a pena, o indivíduo sofre. Sozinho e incom-
trabalho ou a própria competência, passa a preendido, sem encontrar a real causa de seu
questionar o sentido da própria vida. O senti- sofrimento, sofre mais. Questiona sua compe-
mento de impotência paralisa o trabalhador. tência. Nosso professor está exausto emocio-
Assim, essa dificuldade em lidar com a afe- nalmente e não consegue mais envolver-se
tividade se traduz numa lógica mais depressiva com o seu trabalho. Mas tem que continuar.
em contraste com aquele idealismo do início da Existem as crianças, os adolescentes, o ensino.
carreira. Aquela vontade de fazer algo, que fa- Adespersonalização se manifesta quando a
zia com que o trabalhador estivesse sempre energia afetiva fica bloqueada e não é redire-
disposto a se doar, mesmo não tendo retorno, e cionada. Isso acontece porque o mecanismo
que impulsionava o indivíduo a agir, muitas ve- psíquico do indivíduo mantém essa energia re-
zes antes mesmo de pensar, é substituída por presada ao invés de encontrar formas alternati-
uma inquietação que toma o sentido de recla- vas para a sua liberação. Mantendo bloqueada
mação e desânimo. a energia afetiva, o professor precisa distan-
O outro fenômeno que também vai ocorren- ciar-se do objeto que demanda esse afeto. Mi-
do paralelamente a essa elaboração de luto é o nimizá-lo a ponto de não ter expressão suficien-
redirecionamento da energia afetiva, que antes te que lhe ameace: ‘coisificá-lo’, torná-lo impes-
era destinada ao aluno, para o próprio corpo do soal, sem afeto.
trabalhador. Sabe-se que essa energia quando Manter essa energia afetiva trancada, entre-
muda de sentido inverte também a sua polari- tanto, requer um esforço ainda maior por parte
dade, chegando ao indivíduo como uma des- do indivíduo. A prática profissional lhe cobra o
carga de energia negativa. Isso leva à formação afeto, a tensão emocional lhe informa que aque-
de sintomas físicos, principalmente na forma de la prática lhe faz sofrer. Nesse impasse, afasta-
dor. É comum o professor reclamar de dores se do ‘objeto’que lhe causa dor. Mas a afetivida-
nas costa ou coluna, entre outras dores físicas, de contida gera ainda mais tensão. A estratégia
problemas de saúde sem nenhuma explicação de manter a afetividade contida é tão precária,
orgânica; “...ao final de um dia de trabalho pare- que a mera possibilidade de que ela “escape” já
ce que estou carregando mil quilos no om- é geradora de ansiedade. Só lhe resta uma saí-

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Trabalhadores em educação
da, é fechar os olhos e fingir que os conflitos que o professor trava consigo mesmo. Para is-
afetivos não existem; virar as costas e fazer de so, se prepara; entra, dá aula e sai, o mais rápi-
conta que nada acontece. Torna-se insensível do possível para não ser pego no corredor, pa-
com as pessoas por um mecanismo de endure- ra não entrar em contato com o lado mais hu-
cimento emocional. Obviamente, isso se dá em manizado dessa relação, o aluno como gente,
nível inconsciente; sem que o indivíduo tenha como indivíduo que ri, chora, tem problemas e
controle do que está acontecendo. demanda afeto.
Porém, negar a afetividade não significa Os consecutivos insucessos em suas tenta-
que ela deixou de existir. Embora o trabalhador tivas de atingir às expectativas quanto ao pro-
passe a encarar as situações e mesmo as rela- duto do trabalho levam o indivíduo a ser mais
ções interpessoais de uma forma fria e distante, desconfiado, a agir com mais cautela. Como
a dificuldade afetiva está sempre ali, assom- não se encontra em condições de suportar a
brando a cada passo. Mais uma vez instala-se ansiedade, precisam da satisfação imediata de
o conflito entre a afetividade e a racionalidade. suas necessidades para proporcionar a segu-
Como o vínculo afetivo é “supostamente” rança e o alívio da tensão resultante. Esse alí-
substituído por um mais racional, o professor vio se dá pelo afastamento do objeto ameaça-
começa a desenvolver atitudes negativas e crí- dor: o aluno.
ticas em relação aos alunos, atribuindo-lhes a Defendendo-se de tudo e de todos, a ordem
causa do seu próprio sofrimento e fracasso. O é atacar. Passa a apresentar uma tolerância
trabalho passa a ser lido pelo seu valor de tro- muito baixa a todas as coisas que lhe incomo-
ca; é a “coisificação” do outro ponto da relação, dam. O que é ameaçador é entendido como
ou seja, o aluno, em nosso caso específico, mau. E o local exato de onde vem essa amea-
sendo tratado como objeto, de forma fria. O ça não é sabido, assim tem que se precaver se
professor abdica de parte de suas funções para defendendo de tudo. O “mundo” é algo que
ser um professor restrito a “dar aula”, ato mecâ- ameaça a sua pretensa “paz interior”. Qualquer
nico de transmissão de conhecimento. coisa que se interponha ao seu desejo ou con-
Em termos de dinâmica de personalidade, a teste a sua atuação será violentamente repeli-
impulsividade inicial para realizar as muitas ati- do. Como conseqüência, suas relações pas-
vidades que lhe cabiam e propor novos projetos sam a ser apenas superficiais.
vai sendo substituída por uma lógica onde tudo O que significa tornar as relações superfi-
é feito no sentido de evitar a tensão ocasionada ciais numa atividade onde a demanda afetiva é
pela frustração. Sob ameaça de desmanchar o alta? Aenergia mental que o indivíduo é obriga-
seu jogo de faz-de-conta, qualquer possibilida- do a despender para negar a existência de sua
de de manifestação afetiva passa a ser vista emocionalidade, mesmo que seja inconsciente
como ameaçadora. Nesse sentido, os alunos, e que o professor não possa se dar conta, invia-
cuja relação exige necessariamente um investi- biliza envolvimentos de qualquer espécie. O in-
mento afetivo, passam a ser vistos como inimi- divíduo acaba construindo uma carapaça prote-
gos. Eles são a concretização do seu problema. tora; um escudo contra tudo e contra todos, pois
A prova material de seu crime. já não pode discriminar o que é “bom” do que é
A atividade do professor é mediada pelo “mau”. O que é bom tem também conotação
afeto, assim, ele precisa ‘esfriar’ essa relação afetiva, sendo, portanto, também ameaçador.
para evitar a ansiedade. Cada aula, sob essa Dessa forma, o professor acaba evitando
perspectiva, é uma verdadeira batalha interna um compromisso emocional mais profundo, tra-

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tando a todos com uma simpatia aparente e su- do, seu problema está resolvido! Doce ilusão...
perficial. Os alunos, os primeiros ameaçadores, Impossibilitado de aproximar-se dos alunos pa-
passam a ser caracteres passageiros em sua ra não ser descoberto, os problemas deles tam-
vida, que vêm e vão, ou podem ser substituídos bém não interessam, suas dificuldades não
sem muita sensação de perda. Aqui, a ilusão é despertam maior atenção ou cuidado; sentem-
a de proteção à perda. A lógica é simples, se se protegidos...mas sozinhos.
não tenho, não perco, mas na realidade se não O perfil desse professor nós conhecemos
tenho é porque eu já perdi ou perdi a oportuni- bem: é aquele professor durão, insensível fren-
dade de ter, o que é a mesma coisa. te às necessidades do aluno, rígido em suas
Associado a essa frieza frente aos alunos, o normas, autoritário, de um sarcasmo e um cinis-
que evidentemente compromete a relação e o mo que chega a revoltar os desafortunados alu-
próprio trabalho, outras esferas também ficam nos que caem em sua sala de aula. Daqueles
comprometidas. Como forma de defesa frente à que dizem “...10 somente é para o professor,
ansiedade, que é uma ameaça constante, o aluno, no máximo, tem 9...”. É aquele que está
professor vai apegar-se à racionalização, trans- sempre numa posição defensiva em relação a
ferindo a culpa sempre para os outros e não as- tudo e a todos, fazendo da irritação, do mau hu-
sumindo para si a responsabilidade pelos acon- mor e das discussões parte do seu dia-a-dia.
tecimentos. Fora do ambiente de trabalho esse profis-
Ao contrário daqueles que realizam o en- sional tende a estabelecer seu contato com o
frentamento do conflito de forma afetiva e cul- mundo da mesma forma. Só existe uma verda-
pam-se o tempo todo pelo fracasso dos alunos, de, que é a sua. Como não é possível avaliar e
o professor, agora inserido nessa dinâmica, vai optar por conta própria sobre o que é bom ou
colocar a responsabilidade sempre no outro, não, ele agarra-se com afinco aos preceitos e à
quer seja o aluno, quer sejam os pais de alu- concepção de uma fé que dirige sua vida e que
nos, quer seja a sociedade como um todo. As- determina o que deve ou não ser feito. Não ten-
sumir a responsabilidade por qualquer fato ou do que se questionar, o indivíduo mantém a an-
reconhecer os próprios erros significa deparar- siedade bem distante. Mas uma vez se ilude.
se com suas limitações, enfim, com a frustra- Uma certa dose de transgressão também
ção. Como isso é gerador de ansiedade, é ex- pode surgir como estratégia de evitação da
tremamente perigoso qualquer contato com frustração. O desafio à autoridade é uma saída
suas falhas. Assim, em sua fantasia, o trabalha- constante, pois sua estrutura rígida e a sua oni-
dor acredita que fechando-se torna-se onipo- potência não aceitam muito bem o comando
tente, já que, de outra forma, acredita que o mal externo. Acreditando-se intocável, o indivíduo
está fora, mas que o bem também não está assume uma posição de desafio contra a socie-
com ele, uma vez que questiona sua competên- dade. Na verdade, esta é a sua forma de sobre-
cia: “...São os alunos que obviamente não estu- vivência; é o “atacar antes de ser atacado”.
dam, não prestam atenção!” Estamos falando de uma psicodinâmica que
Como não pode se sentir culpado, o que se- tem sua origem nas condições subjetivas e ob-
ria a segunda prova do seu crime, a sua impo- jetivas do trabalho. Falávamos no início da pro-
tência, a tendência é valorizar-se exacerbada- gressiva ‘contaminação’ em função do tempo
mente e colocar seus interesses sempre em pri- de trabalho na função. A mudança de um perfil
meiro lugar. Alunos são alunos, professor é pro- ‘idealista e impulsivo’ para um perfil de esgota-
fessor, e cada um para o seu lado. Desse mo- do emocionalmente no trabalho. As caracterís-

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Trabalhadores em educação
ticas impulsivas e idealistas do professor vão, priedades de qualquer trabalho desaparecem
por um processo corrosivo, sendo minadas. As como por encanto, na sua realização e apenas
frustrações no trabalho, no decorrer dos anos, a abstração pode recuperá-las.
vão somando angústias. São os problemas O trabalhador na fábrica aperta o mesmo
econômicos, são os conflitos trabalho x família, parafuso milhões de vezes durante os dias, os
são as relações sociais no trabalho, são as ca- meses, os anos. É portador de todo o conheci -
racterísticas de gestão, enfim, necessariamen- mento e permanece ignorante até do produto
te toda a vida de trabalho e a vida fora dele es- que faz, faz e não sabe fazer o que faz.
tão envolvidas no processo. O produto sai da fábrica com preço, vai pa-
Estivemos falando de uma tensão entre pra- ra a loja e se vende, em uma medida monetária
zer e sofrimento, muito prazer, muito sofrimen- que o iguala a qualquer outro. O copo que se
to, entre afeto e razão, imposição de afeto tão vende no supermercado não serve para beber
forte como as demandas da razão, estivemos água, ignora o sentido e os afetos que possa ter
no centro de um trabalho que tem a sociedade, para quem o compre e o utilize. A fábrica e o
toda ela, como cenário em uma atividade enca- produto que se construíram em uma enorme
lacrada entre a liberdade do controle radical do comunidade passam a ser, de um lado, pro-
seu meio e a imposição cruel desse mesmo priedade, de outro, preço que apaga quem o
controle, os três eixos que se orquestram para construiu.
produzir o Burnout. Estivemos entre as possibi- O trabalho é transformado em força de tra-
lidades do céu e a ameaça do inferno. Pas- balho, o produto em valor, o conhecimento em
seando entre dilemas básicos, como a vida, máquinas e ferramentas, as relações sociais
contraditórios, como ela. em relações entre coisas.
Quem quiser retomar os sentidos que se
O outro como produto perderam nesse percurso precisa de muita sor-
te, muita competência e muito poder, de prefe-
Analisando o trabalho do educador, particu- rência os três juntos. O artesão que pode se dar
larmente do professor, encontramos um profis- ao luxo de não vender suas peças, ou vender
sional mal remunerado, com salário iníquo, in- pelo preço que lhe der na telha. O metalúrgico
justo e arbitrário, trabalhando muitas vezes em que juntou um dinheirinho para montar sua pró-
condições ruins, desvalorizado socialmente, pria oficina. O esportista que consegue se des-
com um trabalho penoso em um meio ambiente tacar em uma multidão pela sua própria habili-
hostil. Tudo indica que encontraríamos um pro- dade. Quão raros estes são e quão felizes po-
fissional que detesta o trabalho, não se compro- dem ser.
mete com ele, espera a primeira chance para Mas existe um trabalhador, de uma catego-
mudar de emprego, se esforça o mínimo possí- ria profissional que se conta aos milhões e que
vel para defender o parco salário. Paradoxal- quando trabalha se apropria do conhecimento,
mente, nossa pesquisa revelou um profissional cada gesto pode estar prenhe de todos os sen-
apaixonado, dedicado, satisfeito, comprometido. tidos, cada palavra o liga ao destino dos Ho-
Todo trabalho é ao mesmo tempo repositá- mens: o professor.
rio de toda a ciência, a técnica, a arte que a hu- O produto do trabalho do professor é o ou-
manidade produziu até agora, de todos os sen- tro, não há como separar ali o valor de uso e o
timentos humanos e também das relações so- valor de troca. Os meios de produção do pro-
ciais possíveis entre os homens. Estas três pro- fessor estão dentro de sua cabeça, não há pa-

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rafernália eletrônica que substitua sua interven- todas as emoções possíveis, mas para isto foi
ção, não há como expropriar o conhecimento preciso que os operários alugassem sua alma.
que ele possuí. Eis porque o professor ganha Os afetos possíveis de que o trabalho é grávido
tão mal, vive tão mal e adora o seu trabalho. O batem diretamente na face do professor a cada
trabalho do professor é inalienável. Pode ser contato com os alunos, a cada conceito apren-
vendido, mas não tem preço e não pode ser ex- dido ou não. Imediatamente afeto e razão, pre-
propriado. É o trabalho em toda a sua magia, nhe de todos os sentidos que a atividade huma-
em toda a sua potência. É o trabalho perfeito. na pode ter. Impossível constranger o afeto que
O conhecimento da humanidade, o controle o trabalho promove, engendra, inventa, sem
sobre a natureza jaz na fábrica em estado mu- afeto não há razão, sem razão não há afeto.
do, apresentando-se a todos, operários e pa- Por isso mesmo, o controle, as relações so-
trões, como um ser estranho, desumanizado. ciais e o conflito afeto e razão são a origem do
No professor está vivo, falante e falado a cada sofrimento no trabalho. Exatamente estas as
aula ministrada. O controle que a fábrica exerce razões que explicam todo o sofrimento psíquico
sobre a humanidade se trasveste em valor e do professor: o Burnout.
preço, descarnada de sua alma, seus afetos, É que, além de permitir o controle do traba-
suas paixões, no professor a mudança do mun- lhador sobre o trabalho, educar exige o contro-
do e do outro lateja em cada olhar, em cada le. Além de propiciar um amplo leque de rela-
pergunta. O professor realiza o mundo à sua ções sociais, o trabalho obriga às relações so-
imagem e semelhança. Claro, o exercício pleno ciais, além de favorecer o vínculo afetivo com o
do controle que o seu trabalho propicia se produto, impõe o vínculo afetivo.
transforma imediatamente em exigência, em O trabalho do professor é portador de uma
pré-requisito para o trabalho. Impossível reali- exigência que interpela no trabalhador aspec-
zar o controle radical na presença de constran- tos relativos à criatividade, contribuição, contro-
gimentos. le sobre o processo e sobre o produto. Pratica-
Na sala de aula o professor é o artífice, é o mente é o trabalho concebido como indepen-
autor, assina sua obra, obra que o aluno vai dente das condições histórico-sociais em Marx.
carregar por toda a vida, que não se deteriora, Diferente do trabalho alienado, onde os proces-
se acrescenta, se enriquece. Outra vez, a in- sos, produtos, subjetividade são alienados pe-
fluência na sociedade, passando pelos alunos, las relações sociais de produção, o trabalho do
pela comunidade, pelos destinos da sociedade, professor “foge” dessa alienação para alcançar
tem que ter a marca do professor, outra vez, o status de um trabalho desalienado, num con-
qualquer constrangimento implica em assassi- texto de uma sociedade alienada. Pelas suas
nato do trabalho. características intrínsecas, esse trabalho con-
Os afetos que se podem atribuir a um pro- segue “escapar” em grande parte da dinâmica
duto através do trabalho são forçados pelo sis- da obstrução da contribuição do trabalhador.
tema produtivo a percorrer um percurso de de- Fugir do roubo descarnado da subjetividade do
safetivação, re-afetivação. O operário da fábri- trabalhador que o trabalho alienado provoca.
ca de tecidos não produz presentes para a vo- Fugir do arrebato (por um poder estranho) do
vó, produz mercadoria vendida no mercado por controle do processo, etc. Ao fugir da possibili-
10 dinheiros, algum neto em algum lugar do dade de ser alienado, o trabalho se afirma co-
mundo retira o produto da prateleira e o re-sig - mo livre, ou talvez, perfeito. E ao se afirmar
nifica com todos os amores, todos os carinhos, desse modo, tiraniza, em parte, ao professor.

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Trabalhadores em educação
Poderia-se falar da “tirania do trabalho” per- necessidades do outro. Isso faz com que na re-
feito num marco pleno de constrangimentos, lação de trabalho se passe o tempo todo em
que obstaculizam a expressão plena, sem arti- contato direto e imediato com os alunos, em um
fícios da subjetividade do trabalhador. O Bur- espaço afetivo denso, até porque se passa en-
nout, ou seja, a síndrome da desistência, não é tre desiguais; um tem o que o outro precisa.
mais que a expressão psicossocial de um “ab- Mas por outro lado, há uma racionália pré-
soluto” impedido de se manifestar. definida à qual o professor está preso: determi-
A sintonia entre o que implicaria a ativida- nado conteúdo tem que ser assimilado em de-
de do trabalho propriamente dita, para os tra- terminado tempo, em determinada seqüência.
balhadores, e as exigências que emanam do Aimportância de determinados tópicos são pra-
trabalho do professor parecem criar um cam- ticamente impossíveis de serem sentidas agora
po de tensão permanente. Por exemplo, entre e o professor sabe que serão imprescindíveis
as necessidades de objetivar minha subjetivi- amanhã. A atividade mesma de educar envolve
dade, de transformar o mundo e transformar- uma re-flexão, um voltar-se através de coisas
me, e o trabalho de professor, a atividade de experienciadas e sentidas para transformá-las
ensinar, que justamente isso me demanda, em objetos de análise. O cotidiano do trabalho
me exige tiranicamente. O Burnout surge co- é todo ele marcado pela polarização, sempre
mo expressão da impossibilidade de manter tensa, entre trabalho e afeto.
sem alterações esse campo tensional, que faz Como o produto do professor é o outro,
coincidir necessidades do trabalhador e exi- não é possível diferenciar os momentos do
gência do trabalho. trabalho entre valor de uso e valor de troca.
Vejamos melhor como se mostra esse cam- Enquanto valor de troca, o melhor para o pro-
po tensional que determina o Burnout. E agora fessor seria aplicar a mesma prova, objetiva,
estamos em busca de sintetizar o conjunto das para todos os alunos, um gabarito único de
descobertas empíricas a que a pesquisa nacio- correção que poderia ser digitado e cujos re-
nal nos levou. sultados sairiam diretamente pela secretaria;
estamos falando de racionalidade do trabalho.
OS ANTECEDENTES Enquanto valor de uso, o melhor seria uma
DO BURNOUT prova para cada um dos alunos (alguns pro-
fessores fazem isto, através de provas orais),
Conflito Afeto X Razão a correção também deveria ser individualiza-
da, pois um aluno que melhorou muito da últi-
Um primeiro foco de tensão gerador de Bur- ma prova para esta deve ser recompensado,
nout é o conflito afeto X razão. Existem duas ra- enquanto o aluno que manteve o desempenho
zões para que ele ocupe o centro de nossas razoável, mas igual, deve se esforçar mais; e
preocupações, uma da ordem da dinâmica psi- tome pontinhos de participação, entregas de
cossocial do trabalho, e outra da própria inser- provas um a um e todos os outros truques que
ção objetiva do trabalho na organização capita- conhecemos bem. Estamos falando, agora, da
lista. necessidade do outro. Afeto, em sua mais le-
Já viemos apontando várias vezes o caráter gítima expressão.
de cuidado que é inerente ao trabalho do pro- Vale repetir, o trabalho do professor se de-
fessor, o fato de que seu produto é imediata- senvolve em meio a um campo tensional denso
mente o outro e que seu objetivo seja suprir as entre afeto e razão. Bem resolvido, é uma gran-

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de fonte de prazer no trabalho; mal resolvido, Quando as relações sociais falham, quando
exaure emocionalmente o professor, ele se de- a confiança se for, o Burnout virá.
fende através da construção de uma perda do
envolvimento pessoal no trabalho ou através da Controle sobre o meio
tentativa de transformar cada aluno em um nú-
mero a mais, entra em Burnout. O terceiro e último eixo de tensão é o con-
trole sobre o trabalho, sobre o meio ambiente.
Relações Sociais No função do professor, tudo está sob seu con-
trole, imediato, intransferível.
Outro grande campo de tensão são as rela- O professor não apenas pode, mas precisa
ções sociais que o trabalho do professor obriga. ter controle de tudo, é ele quem está no coman-
É que ele funciona como uma espécie de cata- do. Se um aluno faz o trabalho em nome de ou-
lisador obrigatório das relações entre todos e tro, ele precisa saber, se outro aluno está com
todos. Se o presidente Clinton resolve bolinar problemas familiares, ele precisa saber, se o
uma estagiária no outro continente, pronto, vi- colega ensinou a disciplina desta ou daquela
rou assunto da aula no dia seguinte, pouco im- maneira, ele precisa saber. Caso contrário, seu
porta se for de Geografia, Biologia, Educação trabalho gora, seus objetivos se esfarelam,
Moral e Cívica. Se na novela se mostra uma ce- suas aulas desmontam.
na mais instigante, ou se um candidato à qual- A perda do controle sobre o meio, já se viu,
quer coisa comete um erro de concordância, lá é desamparadora, é portadora da desesperan-
está o professor a utilizar como exemplo da sua ça, por isso é determinante de Burnout. O con-
aula de Português. trole sobre o outro, sobre o meio, é, ao mesmo
Acomunidade em torno, quer a escola quei- tempo, uma fonte de prazer e inventora de so-
ra, quer não, invade e participa das aulas o tem- frimento.
po todo; porque a violência está aumentando e Eis as três origens do Burnout: o conflito en-
os alunos devem ser conscientizados do proble- tre afeto e razão, as relações sociais de traba-
ma, porque o uso de drogas começa a se fazer lho, a exigência de controle sobre o meio am-
presente na porta da escola, porque Joãozinho biente. Três forças bipolares que fazem a dife-
engravidou a Mariazinha, porque uma mãe re- rença entre o prazer no trabalho e o sofrimento.
clamou na reunião que bateram no filho dela.
Por último e não menos importante, é falan- O PLANETA
do, se comunicando, se fazendo entender que COMO CENÁRIO
o professor ensina. Os seus meios de trabalho
são, em última instância, a sua sociabilidade. O século que ora finda suas luzes teve seu
O professor professa, e a posição de que fa- início marcado por uma revolução, a segunda
la é a posição da verdade. Depende, portanto, Revolução Industrial, surda para seus coetâ-
da mútua confiança para o seu exercício profis- neos, iluminada depois pelos pensadores que
sional. Imagine, por um momento, um aluno que se debruçaram sobre ela. O século que se ini-
desconfie que o professor mente. Pronto, já não cia ensaia a sua revolução, tão sorrateira e tão
é mais possível o trabalho. O que para a maioria incompreensível quanto a outra para quem
de nós é ‘apenas’ uma fonte de bem-estar, de convive com ela.
bem relacionar-se com o próximo, para o pro- Até o sofrimento ganha significado a seu tem-
fessor é a ferramenta principal de trabalho. po, até nossas dores têm sua história, colada, co-

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Trabalhadores em educação
mo sempre, na forma como os homens sobrevi- se desenvolveram no chão de fábrica; os cochi-
vem. Bater em crianças e mulheres não era cruel- chos no banheiro, as fofocas contra o capataz,
dade há tempos atrás, não passava de mera obri- o ‘corpo mole’ acertado tacitamente entre os
gação do senhor da casa e da vida da família. O trabalhadores da seção. No plano político, a de-
sofrimento no trabalho teve o tempo da úlcera, o mocracia avançando como direito universal, in-
tempo do stress, hoje é tempo de Burnout. corporando o direito à recuperação do controle
A grande fábrica veio cumprir o desígnio de sobre o próprio trabalho, o direito a gostar do
universalização da mercadoria, na medida em que faz. No plano científico, os cientistas a
que deu forma à transformação do trabalho em apontar as mazelas do trabalho alienado, para
mercadoria. Todo o esforço se centrava em o trabalhador e para a própria qualidade da pro-
uma transmutação: o trabalho em força de tra- dução, verdadeiros movimentos de pensamen-
balho: a expropriação do conhecimento, do sa- tos consecutivos, cada qual com seus nomes
voir-faire, a posse privada dos meios de produ- novos a repetir que o trabalhador é o elo chave
ção orquestrados para inventar a força de tra- da produção. Poder-se-ia fazer crescer muito
balho. A palavra inventar não está aqui por for- esta lista, quantos planos houverem, em todos
ça de estilo. Trata-se, se assim se pode dizer, eles a mensagem única: os Homens têm o di-
de algo rigorosamente artificial, no sentido de reito de afetivar o trabalho, os Homens preci-
que era uma experiência nunca d’antes vivida sam sentir o que fazem porque fazem a si mes-
por nenhuma forma social que a antecedeu. mos quando fazem o mundo .
Muitas as vitórias e mazelas a contar, ape- Mas nem só de idéias vive a História. Com a
nas uma nos interessa aqui: a transformação hegemonia das concepções sobre trabalho, o
da força de trabalho em trabalho teve como seu próprio modelo foi se esgotando. Outra vez, nos
corolário imediato a ruptura entre afeto e razão. limitaremos a algumas das razões que exauri-
Foi preciso desenhar a intimidade na casa bur- ram a ruptura entre afeto e trabalho, apenas as
guesa, depois fazê-la hegemonizar a socieda- que nos interessam aqui.
de, foi preciso impedir o afeto no trabalho, pelo Em primeiro lugar, a tarefa de expropriar os
outro, pelo produto, foi preciso descarnar o tra- modos de fazer se cumpriu. O computador vem
balho de sua hominidade. Esse foi um dos as- encerrar definitivamente esse ciclo. Uma má-
pectos mais cruéis do capitalismo com respeito quina capaz de armazenar, reorganizar e reapli-
ao trabalho, como chegamos todos em raro car literalmente todo o conhecimento acumula-
consenso, de Elton Mayo a Karl Marx, de todos do sobre qualquer coisa. Que seja um torno
os críticos do capitalismo, em toda a sua larga mecânico, muito comum em quase todas as
matiz ao seu mais deslavado entusiasta. Desa- metalúrgicas. O operador, o torneiro mecânico,
fetivar o trabalho significou expropriá-lo da pos- se transformou em um operador de mouse, em
sibilidade de significar prazer. um controlador dos resultados, todas as contas
Par e passo com o feito, se inicia o seu fim. e operações a máquina faz sem precisar da in-
No plano moral, ganha força uma ética que tervenção do trabalhador.
abomina a restrição pura e simples como instru- Em segundo lugar, a época de ouro da pro-
mento de acumulação de capital. No plano da dução em massa já passou. Henry Ford adotou
luta dos trabalhadores, as associações e os sin- o modelo único e de baixo preço para vender o
dicatos em luta aberta contra a desumanização máximo de automóveis para o máximo de pes-
do trabalho, a outra luta, mais sorrateira, mas soas possíveis. Hoje não há mais onde enfiar
tão eficaz quanto, as formas de guerrilha que carros e diminuem as pessoas que queiram ou

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possam comprá-los. A saída que as indústrias afeto e trabalho. Nova tarefa, porque vivemos
foram obrigadas a adotar foi a de personaliza- em uma sociedade alienada, e alienada a partir
ção, no limite, um modelo diferente à disposi- do trabalho. Como fundir afeto e trabalho, o que
ção para cada consumidor, e com isto reformu- significa fundir trabalho e prazer, em uma socie-
lam seus processos de trabalho, aumentando dade que aliena o homem do seu trabalho?
em muito a latitude de trabalho e a autonomia Onde esta bomba iria estourar? Em um tra-
do trabalhador. balho ao mesmo tempo ancestral e rigorosa-
A automação reduz brutalmente a mão-de- mente novo: a educação.
obra dedicada à indústria e desloca esta mesma Trabalho ancestral, existe desde que o pte-
mão-de-obra para os serviços. Além da crise en- cantropus erectus balbuciou seus primeiros gru-
dêmica de desemprego, há que notar que os nhidos, passou por todas as formas sociais e
serviços em geral não são taylorizáveis, se nos chega até o presente com a mesma importân-
permitem o neologismo. Entre os setores que cia, a mesma missão, as mesmas tarefas. Novo
crescem estão exatamente educação e saúde, porque, a educação, enfim, é massiva, novo
ambos, como viemos analisando, inalienáveis. porque o mundo se modifica e a educação deve
Ora, se vivemos o fim do emprego, se vive- se modificar com ele, na verdade, sempre nova.
mos o esgotamento do modelo baseado na for- O Burnout é a síndrome do trabalhador es-
ça de trabalho, é preciso também avaliar que vi- premido entre um trabalho inteiro, grávido de si
vemos a reincorporação do afeto no trabalho, a mesmo e dos outros, e um trabalho mercadoria
re-fusão afeto-trabalho. Em certo sentido, vive- comprado na esquina a preço de ocasião. O
mos a mudança de força de trabalho para traba- Burnout é a síndrome do trabalho desalienado
lho, se quisermos ser sintéticos, o final do sécu- e inalienável em uma sociedade que aliena até
lo, o abrir das luzes do terceiro milênio, se fará, a homenagem que fazemos para a mamãe. O
já está se fazendo, pela reinvenção do trabalho. Burnout é a síndrome do trabalhador que expe-
Considerando as forças econômicas, já dis- rimenta a sensação de ser um deus e convive
semos, o caminho que se abre é o de uma so- com a privação de um cachorro magro. O Bur-
ciedade baseada em serviços, o qual é inaliená- nout é a síndrome de um trabalho que voltou a
vel do ponto de vista subjetivo, todas as chama- ser trabalho, mas que ainda não deixou de ser
das novas tecnologias, e aqui se inclui desde as mercadoria. As dores do Burnout são as dores
reflexões sérias em busca da resolução dos di- de um filho que sempre existiu, a força mágica
lemas de trabalho até os modismos do tipo qua- de um trabalho que se afetiva, que afeiçoa, que
lidade ampla geral e irrestrita, vendidos em bal- se parece com a vida, que espanta e pasma co-
cões de soluções pret-a -porter que se acumu- mo um parto, que dói como um parto.
lam em cada esquina, todas as vertentes, repe- Os educadores sempre tiveram a obrigação
timos, de alguma forma buscam tomar o traba- de ser a vanguarda, é deles que emana o nos -
lho carregado do afeto que lhe é inerente. so futuro. Agora estão tendo a obrigação de ser
Ora, fundir afeto e trabalho é uma tarefa ao também uma outra vanguarda, devem ir à fren-
mesmo tempo nova e ancestral. Ancestral por- te, devem nos ensinar a inventar um trabalho
que sempre o trabalho e afeto foram irmãos sia- novo, tão novo que recupera o que temos de
meses, mesmo o mais feroz taylorismo não mais ancestral: a vida vivida pela atividade.
conseguiu cindi-los de forma radical. As comu- Como será o novo trabalho? Como comba-
nidades primitivas, o escravismo, o feudalismo, teremos o Burnout? É cedo ainda para saber.
em todas as suas matizes, nunca romperam O que sabemos até agora é que o trabalha-

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Trabalhadores em educação
dor alienado sofre por repetir mecanicamente o Enquanto as respostas não vêm, enquanto o
gesto esvaziado de si e do outro, sofre por um professor não nos ensina a viver nessa nova rea-
trabalho que deveria desaparecer; o reencontro lidade, que cada qual tome os seus cuidados.
consigo mesmo o obriga a luta contra o traba- Que o cidadão saiba e repita que está dian-
lho. O educador em uma sociedade alienada te de um artífice do nosso futuro, que merece
sofre porque é impedido de realizar a si mesmo respeito. Que o Estado saiba que este é um tra-
em um trabalho grávido de todas as suas possi- balhador especial, que deve ser tratado de for-
bilidades, precisa que a sociedade permita que ma especial. Que os sindicatos saibam que
o seu trabalho exista. O reencontro consigo existem mais dramas entre o professor e os
mesmo depende da existência plena de um tra- alunos do que imaginam as lutas salariais.
balho pleno. E que o educador ouça:
O grito do trabalhador alienado é contra o Parabéns professor, você tem um trabalho
esmagamento de si, o grito do educador é pela completo, cuidado professor, você tem um tra-
possibilidade de realização de si mesmo. balho completo demais.

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