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ANGELA MARIA LA SALA BATÀ O EU E O INCONSCIENTE Tradução de PIER LUIGI CABRA
ANGELA MARIA LA SALA BATÀ
O EU E O INCONSCIENTE
Tradução
de
PIER LUIGI CABRA
ScU
Poediti“
& Ante
B
Tel: 4436-0602
EDITORA PENSAMENTO
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SAO PAULO
Título do original: IL SÉ E L’INCONSCIO Copyright © Angela Maria La Sala Batà Edição
Título do original:
IL SÉ E L’INCONSCIO
Copyright ©
Angela Maria La Sala Batà
Edição
Ano
•3-4-5-Ò-7-8-9
-89-90-91-92-93
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SUMÁRIO ; Prefácio 7 i Capítulo I O Homem: Entidade Psicológica e Entidade Espiritual 9
SUMÁRIO
;
Prefácio
7
i
Capítulo I
O
Homem: Entidade Psicológica e Entidade Espiritual
9
Capítulo II
Consciência e Inconsciente
Capítulo III
Relações Entre Consciente e Inconsciente
Capitulo IV
19
29
O Simbolismo do Inconsciente
37
Capitulo V
Os Sonhos
45
Capítulo VI
A
Neurose como Sintoma de Crescimento Interior
57
Capitulo VII
O Eu e Sua Máscara
65
Capitulo VIII
Poderes Secretos do Inconsciente
75
Capitulo IX
A
Técnica das Sugestões ao Inconsciente
83
i Capitulo X
A Técnica do Relaxamento
91
Capitulo X I
Evocação do Superconsciente
99
Capitulo XII
O Despertar
107
PREFÁCIO A psicanálise, vista com os olhos de quem acredita na essência espiritual básica do
PREFÁCIO
A psicanálise, vista com os olhos de quem acredita na essência
espiritual básica do homem, apresenta-se como uma ciência que
pode, aos poucos, atrave's do conhecimento dos níveis mais profun­
dos e autênticos da psique, conduzir à descoberta dessa essência
espiritual, o verdadeiro Eu, que ainda é, para a maior parte dos
homens, latente, velado, “inconsciente”.
Esse é, a meu ver, o aspecto construtivo, benéfico, da psicaná­
lise, ciência ainda jovem, mas que promete tomar-se, no futuro, o
meio mais sólido, mais concreto, mais confiável de conhecermos,
pela experiência direta, a nossa realidade profunda.
Com este livro, a minha pretensão foi oferecer, a quem deseja
se conhecer, aquele pouco que tive possibilidade de experimentar em
mim mesma nessa direção, desculpando-me pelas falhas e, talvez,
pelas incorreções que possam ser nele encontradas; isso se prende ao
fato de que tudo o que escrevi é o resultado imediato de reflexões e
experiências subjetivas e pessoais que, como qualquer outro resul­
tado desse tipo, é naturalmente suscetível de ampliação, de aprofun­
damento e de modificações.
O campo do conhecimento interior, a dimensão do nosso
mundo psíquico, apresenta-se à investigação de quem pretende
entrar em contato com ele como um planeta novo e desconhecido a
7
ser explorado, com realidades insuspeitas, mistérios a serem desco­ bertos, forças e tesouros a serem
ser explorado, com realidades insuspeitas, mistérios a serem desco­
bertos, forças e tesouros a serem utilizados.
Por esse motivo, quem quer que se inicie no caminho da pró­
pria descoberta pode experimentar somente aquilo que é possível
à sua capacidade de visão, ao seu grau de penetração e, sobretudo, à
sua capacidade de interpretação exata, que é proporcional ao seu
nível evolutivo.
Minha esperança é que o que escrevi, mesmo sendo inevitavel­
mente incompleto, possa ao menos servir para estimular o interesse
pelo autoconhecimento e pelo trabalho de harmonização, e levar a
um ulterior aprofundamento desta pesquisa interior.
Roma, janeiro de 1974
Angela Maria La Sala Batà
Capítulo I O HOMEM: ENTIDADE PSICOLÓGICA E ENTIDADE ESPIRITUAL Se observarmos o mundo com a
Capítulo I
O HOMEM: ENTIDADE PSICOLÓGICA
E ENTIDADE ESPIRITUAL
Se observarmos o mundo com a intenção de entender o que
está por trás dos acontecimentos exteriores, das inquietações, das
lutas, dos sofrimentos e mesmo das conquistas e das metas que o
homem atingiu em épocas mais recentes, sentiremos que deve haver
um impulso, um móvel mais profundo, que leva a humanidade para
uma meta de que talvez ela não tenha consciência.
Indubitavelmente, o homem está à procura de algo, lutando,
sofrendo, trilhando por vezes caminhos errados, movido por uma es­
pécie de ânsia que não permite descanso ou paralisações.
Essa ânsia, esse impulso que leva a humanidade para a frente
são os sintomas da força evolutiva.
Hoje, o conceito de evolução acha-se universalmente difundido
e reconhecido, não apenas no que diz respeito aos reinos inferiores
da natureza, mas também para a humanidade.
Todavia, ainda há muitos que duvidam da possibilidade ine­
rente ao homem de progredir, de melhorar, de evoluir.
Essa dúvida surge por várias causas, entre as quais as principais
são duas:
1)
a ignorância do homem em relação à sua verdadeira
natureza; 2 ) a idéia confusa e pouco clara que se tem do conceito
de evolução.
9
Parece quase absurdo pensar que, numa época como a atual, de formidáveis progressos técnicos e
Parece quase absurdo pensar que, numa época como a atual,
de formidáveis progressos técnicos e científicos, num momento em
que se tentam os mais ousados empreendimentos espaciais e em que
se começa a conhecer de perto o cosmo, ainda haja tantas pessoas
que náo conhecem a natureza íntima do homem. Conhecemos o
espaço exterior, o cosmo, mas não o espaço interior, o mundo mis­
terioso mas real da nossa psique, que na verdade assemelha-se a um
cosmo, a um universo, pela extensão, profundidade e pelas infinitas e
ocultas possibilidades de descoberta que ele esconde em si.
Entretanto, mesmo que o homem não tenha disso uma cons­
ciência exata, o mundo interior está se aproximando de sua cons­
ciência, e faz sentir a sua presença e a sua vitalidade através de sinto­
mas e mensagens que aprenderemos pouco a pouco a decifrar.
Há, por exemplo, alguns estudiosos da psicologia de profun­
didade que apresentam a sugestiva hipótese de que até mesmo os
empreendimentos espaciais escondem um significado muito mais
misterioso do que meramente técnico. A Lua, de acordo com a psica­
nálise, representa o inconsciente; então, a aspiração ousada e quase
irrefreável do homem em alcançá-la, conhecê-la e conquistá-la não
representaria uma “projeção” de uma necessidade (ou melhor, de
uma exigência do indivíduo de integrar-se com o seu eu mais
profundo?). Se assim fosse, afirma Emilio Servadio, a corrida espacial
não será, como irracionalmente se teme, uma ulterior manifestação
do homem de fugir de si mesmo e de seus problemas, mas exata­
mente o oposto
(
],
e continua auspiciando que a conquista do
espaço poderia tornar-se uma conquista clara e consciente; sobre­
tudo de novas dimensões do espaço interior do homem.
Essa hipótese merece ser levada em consideração, pois é evi­
10
dente que o homem procura tomar consciência de si mesmo; e evo­ lução significa exatamente
dente que o homem procura tomar consciência de si mesmo; e evo­
lução significa exatamente isso: tomarmo-nos conscientes e apro­
fundar e ampliar a consciência até descobrirmos quem realmente
somos.
Evolução, portanto, não significa um movimento no tempo
visando a um fim exterior, mas um amadurecimento, um cresci­
mento interior do conhecimento rumo à auto-realização.
O homem progride interiormente e, a seguir, projeta no
exterior o seu amadurecimento subjetivo, no campo social, cultural,
moral e religioso.
Eis por que é tão importante nos conhecermos a nós mesmos e
tomarmo-nos conscientes de nossa essência íntima e real.
O interesse
pelos
estudos
psicológicos — e sobretudo
psicanálise —demonstra que a humanidade começa a sentir, incons­
cientemente, a exigência de conhecer-se a si mesma e de encontrar
a realidade dentro de si.
A psicanálise, ou psicologia de profundidade, é uma ciência
um tanto recente, mas a sua afirmação e a sua difusão foram rapi­
díssimas, justamente porque ela responde à atual necessidade evolu­
tiva do homem, que é a de entender, enfim, que a realidade não é o
que ele percebe com os cinco sentidos, mas “algo” que está sob,
ou melhor, “dentro” das coisas.
A descoberta do inconsciente e de suas energias, com as suas
misteriosas faculdades, com as suas infinitas possibilidades latentes,
foi de um valor inestimável e acarretou uma espécie de revolução no
conceito psicológico do homem, abrindo a porta para um mundo
desconhecido que talvez possa realmente conduzir-nos para a
revelação da realidade.
Ficou claro que a região consciente do homem é incompleta,
11

pela

defeituosa e limitada, não passando de uma parcela mínima do homem integral. Esta descoberta trouxe
defeituosa
e
limitada,
não passando de uma parcela mínima do
homem integral.
Esta
descoberta
trouxe
muitas
conseqüências positivas nos
campos social, educativo e moral.
De fato, como afirma Gerard Lauzun em seu livro Sigmund
Freud e a Psicanálise, “A nossa sociedade não é mais a mesma;
em menos de meio século, assumiu novas dimensões, deu lugar
àquelas partes da mente e do corpo que Freud soube reconhecer,
restituindo-as a nós, posto que nossas. Os problemas sexuais não
mais ficaram em silêncio —a pedagogia e o ensino renunciaram ao
seu caráter autoritário para se tomarem mais compreensivos
— a justiça procura compreender ou recuperar os indivíduos; a
doença mental não constitui mais aquela barreira de horror, vergo­
nha e escândalo entre os seres aparentemente sãos, os quais, quase de
maneira selvagem, tendem a ignorá-la, da mesma forma que a subuma-
nidade
que eles mesmos criam e ao mesmo tempo aprisionam
— a idéia de felicidade assume um sentido novo; todas essas con­
quistas são devidas à psicanálise, que apontou o caminho correto a
ser seguido.”
Tudo isso é verdade, mas ainda há mais.
A psicanálise,
ou
psicologia
de
profundidade,
acha-se
em
evolução, e vai se delineando uma conseqüência ainda mais impor­
tante e significativa para ahumanidade, em decorrência das indagações
sobre o inconsciente: está se descobrindo a natureza espiritual do
homem.
Em
trinta
anos, desde a morte de Sigmund Freud até hoje,
o conceito
de
inconsciente
ampliou-se
gradativamente, cada vez
mais, e se aprofundou significativamente. Ele não é mais considerado
somente um receptáculo de energias sexuais “reprimidas” , ou de
12
impulsos instintivos primordiais, mas um amplo e misterioso mundo, repleto de forças latentes, de possibilidades
impulsos instintivos primordiais, mas um amplo e misterioso mundo,
repleto de forças latentes, de possibilidades desconhecidas, que se
estende, por assim dizer, a todos os níveis, dos mais baixos aos mais
elevados.
Não se fala mais apenas de um subconsciente, mas também de
um superconsciente, para indicar aquela parte do inconsciente de
onde provêm as inspirações mais elevadas, os impulsos mais nobres,
as intuições mais profundas, as tendências superiores do homem.
Ao lado da “psicologia de profundidade” , vai se formando
também uma “psicologia das alturas”, como diz Maslow.
Estão sendo descobertas exigências religiosas e espirituais,
nas profundezas do homem, tão fortes quanto os instintos e capazes
de
gerar neuroses quando não-satisfeitas.
Vemos Carl Gustav Jung afirmar que, no inconsciente, encon­
tra-se a imagem de Deus; e Caruso, Daim, Baruk e outros desco­
brirem que o homem sofre de uma profunda e angustiante “nostalgia
do Absoluto” .
E todas essas afirmações não são fruto de fantasias ou de
ilusões, mas da análise e das pesquisas efetuadas não só em indiví­
duos tomados por neuroses, mas também em indivíduos sãos.
De certa forma, Freud foi o pioneiro do mundo do incons­
ciente. Segundo as palavras de Pfister ele foi “o Cristóvão Colombo
da psique” , mas deixou-se envolver e quase se perder pelas primeiras
e desconcertantes descobertas que fez. A riqueza, a vitalidade, a
poliedricidade das energias subconscientes o estontearam, e ele viu
somente aquilo que podia ver, segundo sua natureza, seu tempera­
mento e seus próprios problemas psíquicos.
Sem querer, ele nos forneceu a prova de uma lei fundamental
do comportamento do homem: cada um projeta-se a si mesmo em
f
13
suas pesquisas e vê somente aquilo que é o reflexo de sua alma (segundo as
suas pesquisas e vê somente aquilo que é o reflexo de sua alma
(segundo as palavras de Jung).
Todavia, os méritos de Freud são muitos e a ele devemos a
descoberta do dinamismo das formas instintivas e de algumas impor­
tantíssimas leis do inconsciente, tais como o mecanismo da repressão,
da fixação,
da transferência, etc.
Seus métodos de análise ainda hoje são válidos e seu espírito
científico, seu afã de conhecer eram tão autênticos e sinceros que o
levaram a admitir, nos últimos anos de sua vida, que o inconsciente
encerrava ainda, escondidas, infinitas possibilidades a serem desco­
bertas, pois ele o considerava como uma misteriosa porta aberta
para um mundo desconhecido e lastimava não poder viver por
muito tempo ainda para investigar ulteriormente aquelas profundezas.
Podemos dizer, então, agora, que a psicologia de profundidade
está pouco a pouco se tomando uma ciência dotada de alma, que
talvez não tenha sido inútil ou prejudicial o homem ter sido colo­
cado, pelas primeiras e desconcertantes descobertas de Freud,
frente ao lado mais infernal de sua natureza, e ter tido de admitir
a existência de uma parte obscura em si mesmo.
Não é possível progredir se não se traz à tona o mal oculto,
fim de conhecê-lo e transmutá-lo, e se se quiser ignorar que o
homem é uma dualidade de matéria e espírito, de luz e sombra,
de corpo e alma.
Pascal afirma: “É perigoso mostrar em demasia como o
homem se assemelha aos animais sem mostrar também a suagrandeza.
a
Ê
também perigoso mostrar-lhe a sua grandeza sem a sua baixeza.
E mais perigoso ainda é deixá-lo na ignorância de uma e de outra.
Mas é muito vantajoso apresentar-lhe ambas. "
De fato, o homem é o único ser da natureza que participa de
14
dois reinos, o terceiro e o quarto, isto é, o reino animal e o reino
dois reinos, o terceiro e o quarto, isto é, o reino animal e o reino
humano, e talvez seja a partir dessa dualidade, transcendida e trans­
formada, que poderá emergir um quinto reino, o reino espiritual.
A filosofia chinesa também afirma que o Uno, o Tao, surge da
união dos contrários, dos opostos que se encontram em todo o
cosmo sob infinitos aspectos,
i No sentido psicológico, o homem é uma dualidade entre o
consciente e o inconsciente, e é somente do equilíbrio entre esses
dois aspectos da psique que pode surgir o verdadeiro homem, o Si, o
Selbst, conforme o chama Jung.
Eis por que, para assumirmos uma atitude equilibrada e sábia,
deveríamos sempre levar em consideração essa dualidade e essa
contraditoriedade fundamental de nossa natureza, sem nos esque­
cermos de que existe, ao lado de nossas características humanas e
materiais, nem que seja somente a possibilidade hipotética de um
lado espiritual e hiperfísico.
Por que querer negar a hipótese de o homem ser não somente
uma entidade biopsicológica, isto é, um composto de corpo e
psique, mas também uma entidade espiritual?
Por que querer afirmar com segurança que a realidade é
somente aquilo que provamos com os nossos cinco sentidos e que
não pode haver uma realidade mais profunda e verdadeira?
Muitos são, todavia, os que hoje começam a perceber que deve
existir algo por trás das aparências fenomênicas e que sentem a exi­
gência de procurar esse algo mais.
O
interesse
acima, é um claro sintoma de tudo isso.
0
15

pela psicologia de profundidade, conforme disse

eu racional, a parte consciente do homem, sente que deve conhecer “a outra face” de si mesmo, a parte inconsciente, para tomar-se completo e aproximar-se da verdade.

Todavia, para ser realmente útil nesse sentido, a psicologia de profundidade deve ser entendida como
Todavia, para ser realmente útil nesse sentido, a psicologia
de profundidade deve ser entendida como uma verdadeira ciência,
livre de dogmatismos e sistemas, aberta às novas descobertas
possíveis. Somente se entendida dessa maneira, ela poderá oferecer ao
homem o caminho e os meios para conhecer e servir de ponte com
aquela metade de si mesmo que até agora havia ignorado e que, no
entanto, faz-se vitalmente presente e ativa; além disso, poderá forne­
cer um método concreto para experimentar a realidade substancial
do mundo psíquico, sob o qual se oculta uma realidade mais pro­
funda e misteriosa.
Para chegar a essa realidade mais profunda, é preciso, porém,
passar por todos os níveis do mundo psíquico, introverter-se para
aprender a olhar dentro de si e descobrir pouco a pouco as ener­
gias, as faculdades, as potencialidades do próprio ser psicológico.
De certa forma, devemos nos sensibilizar com a complexa,
rica e variada atividade da nossa psique consciente e, em seguida,
acostumarmo-nos a reconhecer também as mensagens e os símbolos
que o nosso inconsciente nos transmite.
Devemos nos considerar exploradores de um mundo desconhe­
cido, com as suas misteriosas leis, as suas regras e os seus precisos
caminhos de expressão.
Não podemos tomar consciência do verdadeiro Homem se
antes não nos familiarizarmos com o caminho que leva até ele,
e que pode parecer, de início, obscuro e cheio de inesperadas possibi­
lidades e de sucessos imprevistos.
Alguém poderia perguntar a esta altura: “Por que deveria eu
me preocupar tanto em conhecer o meu mundo psíquico e esforçar-
me em encontrar um hipotético Si espiritual?”
A resposta é muito simples.
16
A procura de si mesmo não é um encargo imposto pela von­ tade própria ou
A procura de si mesmo não é um encargo imposto pela von­
tade própria ou de outrem. É uma exigência natural e inata, que
cedo ou tarde se manifesta à consciência do homem.
Mesmo que ele a ignore ou não queira admiti-la, há alguma
coisa dentro dele que continuamente o leva á frente, em direção
a alguma meta.
Insatisfação, angústia, sensação de vazio e de impotência
serão os sintomas que cedo ou tarde farão com que ele compreenda
que não pode haver paz e felicidade na vida se não reconhecer o
apelo vital e profundo do verdadeiro Eu, que pede, que grita para
ser reconhecido e levado à luz da consciência.
Somente quando respondermos a essse apelo compreende­
remos que evoluir significa “tomar-se aquilo que já somos”, e reco­
nheceremos, de acordo com as filosofias orientais, que o Verdadeiro
Homem —cujo símbolo, antiqüíssimo, é uma árvore —tem raízes
no céu: então poderemos entender o significado das palavras:
A árvore etema tem suas raízes no alto e enterra no chão os
seus galhos. {Upanixade, VI-I.)
Capítulo II CONSCIÊNCIA E INCONSCIENTE Quando começamos a olhar para dentro de nós, a fim
Capítulo II
CONSCIÊNCIA E INCONSCIENTE
Quando começamos a olhar para dentro de nós, a fim de nos
analisarmos e nos conhecermos, deparamos com algumas dificul­
dades, pois em geral o mundo psíquico é, para nós, um território
desconhecido, uma dimensão misteriosa a que não estamos
acostumados.
Todavia, as dificuldades não devem nos abater, pois a familia­
ridade e a sensibilidade com os estados subjetivos é adquirida pelo
exercício e a constância. Na realidade, tudo é questão de atenção.
A atenção é como um feixe de luz que podemos dirigir para onde
queremos, mas em geral nós o dirigimos para o exterior, para os
objetos, as pessoas e a atividade prática. Mas, se o dirigirmos para
o nosso interior, pouco a pouco descobriremos a realidade do
mundo psíquico.
A primeira coisa que aparecerá, naquilo que inicialmente
poderá nos parecer um mundo confuso e desordenado, é o fato de
nossa psique não ser unitária, mas, ao contrário, muito complexa.
De fato, a psicologia reconhece diversos aspectos ou funções da
psique, os quais poderiam ser subdivididos em quatro grupos:
19
1) sensações; 2 ) sentimentos; 3) pensamentos; 4) vontades. A segunda coisa que aparecerá é
1)
sensações;
2 ) sentimentos;
3) pensamentos;
4) vontades.
A
segunda coisa que aparecerá é o fato de nem sempre estar­
mos conscientes de todas essas funções, pois o nosso campo de
consciência é limitado, mutável e variado.
A
esta altura, devemos nos deter no termo “consciência”,
pois é indispensável entender bem o que se quer dizer com ele, o que
nos ajudará também a compreender por que acontecem determinadas
modificações, determinadas variações justamente no campo da
consciência.
Na realidade, o termo “consciência” é um dos vocábulos de
significação mais incerta e ampla, prestando-se a inúmeras definições.
De
qualquer maneira, podemos distinguir três significados prin­
cipais: o moral, o espiritual e o psicológico.
No que diz respeito ao assunto de que tratamos, interessa-nos
sobretudo o significado psicológico do termo, com o qual por
“consciência” pretende-se entender o conhecimento dos fatos
internos, das modificações psíquicas, em contraposição a todos
aqueles estados psíquicos de que, ao contrário, não temos
conhecimento.
Desse ponto de vista, a consciência poderia ser denominada
mais corretamente de “o consciente” (ou o cônscio), como fazem
os psicanalistas. A consciência, nesse sentido, é suscetível de apro­
fundamentos e de crescimento, podendo tomar-se cada vez mais
sensível, mais ampla e mais elevada. De fato, de acordo com Ranzoli:
“Perceber uma determinada modificação que se operou em nós
20
mesmos é somente o aspecto inferior da consciência, enquanto 1 que o aspecto superior se
mesmos é somente o aspecto inferior da consciência, enquanto
1 que o aspecto superior se manifesta como distinção entre o sujeito
i
que sente e o objeto sentido e se toma, dessa forma, autoconsciência,”
Então, o grau de consciência varia de pessoa para pessoa, e
também no próprio indivíduo, dependendo do momento, dos
estados de espírito do momento e das atividades que estão sendo
desenvolvidas.
Cada um de nós tem um nível e uma “qualidade” de cons­
ciência diferentes, dependendo do temperamento, do grau de matu­
ridade, das tendências e faculdades próprias e do poder de atenção
e concentração de que somos dotados.
Um artista, por exemplo, terá uma faculdade de consciência
diferente da de um cientista, e assim também uma criança da de um
adulto. Um indivíduo ativo, extrovertido, prático, terá um campo
de consciência diferente do de um estudioso de problemas filosó­
ficos ou religiosos
A consciência, portanto (ou o consciente), é suscetível de mu­
danças, de ampliações e até mesmo de “deslocamentos” . Este último
termo significa que podemos deslocar, conscientemente se qui­
sermos, a atenção para estados psíquicos diferentes, pois a atenção é
o fulcro da consciência. Dissemos que a atenção é como um feixe de
luz que podemos concentrar num determinado ponto do nosso mundo
subjetivo para percebermos essa área. De fato, quando nos concen­
tramos num determinado pensamento, ou nos deixamos absorver
1 por um sentimento, todo o restante da nossa vida psíquica tomba na
penumbra e se torna, portanto, ainda que temporariamente,
inconsciente. Essa parte inconsciente, porém, pode tomar-se facil­
mente consciente, se deslocarmos a atenção para ela; podemos,
portanto, considerá-la “pré-consciente”.
21
Nessa área pré-consciente estão todas as funções psíquicas de que é dotada a nossa personalidade,
Nessa área pré-consciente estão todas as funções psíquicas de
que é dotada a nossa personalidade, das quais, porém, não podemos
ter uma consciência total e simultânea.
Portanto, entrando em contato com a nossa consciência
interior, começamos a nos dar conta de que ela não pode perceber
toda riqueza e amplitude da vida psíquica, e começamos a aceitar a
idéia de que podem existir em nós áreas psíquicas que escapam ao
nosso conhecimento.
De fato, a menos que tenhamos feito uma experiência a respei­
to, consideramos absurdo e estranho que existam processos psíqui­
cos, impulsos, sentimentos de que não se tem consciência, pois,
mesmo aceitando teoricamente a idéia da existência do inconsciente,
na prática sentimos uma resistência e quase uma rebelião quando
somos colocados frente a um reconhecimento concreto.
E por que isso?
Talvez justamente porque o inconsciente seja constituído,
sobretudo, pelo que o eu consciente não quer reconhecer ou acos­
tumou-se a não reconhecer.
Eis, portanto, a utilidade de se proceder por etapas, procu­
rando, na medida do possível, “sentir” e experimentar aquilo que
aos poucos estará sendo exposto, lembrando sempre que a psico­
logia não é uma filosofia, mas uma ciência experimental.
Voltando agora à área pré-consciente, que envolve, num certo
sentido, o nosso campo de consciência, podemos dizer que ela é
constituída por funções psíquicas e estados subjetivos um tanto
recentes, ou mesmo atuais, mas que permanecem latentes, posto
que nem sempre utilizados. Essa área poderia ser definida também
como “inconsciente médio” , para distingui-la de uma parte mais
profunda da psique, na qual todo o nosso passado está registrado,
22
• arquivado, estratifícado, por assim dizer, mas não morto e inerte, ao contrário, ainda pulsante
arquivado, estratifícado, por assim dizer, mas não morto e inerte, ao
contrário, ainda pulsante de vida e continuamente desejoso de voltar
à
luz. E qual é esse nosso passado?
O
instintos atávicos ocultos no inconsciente, mas sempre vivos e exi-
I
gentes, os quais constituem as forças vitais do nosso ser, e que,
mesmo sem aparecerem à nossa consciência, têm uma profunda
e inegável influência sobre o nosso comportamento e sobre as nossas
tendências.
Além do mais, o nosso passado é constituído por todas as
experiências, lembranças, eventos, sofrimentos, traumas que se
imprimiram indelevelmente no magma sensibilíssimo do inconsciente
desde a primeiríssima infância.
Poderíamos chamar essa área do nosso inconsciente de “incons­
ciente inferior” ou “subconsciente”, aquela região descoberta e
estudada por Freud e pelos psicanalistas do primeiro período, pois
é exatamente nela que têm origem os complexos, os distúrbios e as
manifestações patológicas genericamente denominadas neuroses. Não
podemos esquecer que a psicanálise observa o inconsciente sobre­
tudo nos casos patológicos, e não o inconsciente das pessoas sãs.
Entre esse inconsciente inferior e a consciência, não é fácil a
comunicação, pois há como que um espesso diafragma dificultando
'
a relação, diafragma esse inconscientemente criado por nós mesmos,
1
primeiramente pela repressão e, em seguida, por um mecanismo
automático de “remoção” .
Sobre esse ponto da repressão e da remoção falaremos mais
detalhadamente no próximo capítulo, quando analisarmos as
relações entre o consciente e o inconsciente.
23

nosso passado é formado, antes de mais nada, pelos nossos

Existem, portanto, uma área média e uma área inferior do inconsciente; mas não podemos deixar
Existem, portanto, uma área média e uma área inferior do
inconsciente; mas não podemos deixar de lado uma outra parte
muito importante do inconsciente, que é a superior.
Se existe em nós um passado gravado no fundo do incons­
ciente, existe também um futuro, por assim dizer, do qual, por
enquanto, não temos consciência, mas que potencialmente está
sempre pronto a ser anexado à nossa consciência, se soubermos nos
elevar em sua direção. Esse inconsciente futuro é o Superconsciente,
formado por todas as faculdades, as qualidades mais elevadas do
homem, as suas possibilidades mais altas que ainda não chegaram à
superfície de sua consciência comum, mas que fazem parte da sua
natureza humana pelo seu lado mais nobre, o lado que reflete o
divino. A presença dessa área superconsciente foi postulada por
numerosos psicólogos e estudiosos da psicologia de profundidade,
pois, às vezes, em momentos excepcionais, esse “futuro” se torna
atual e se revela ao indivíduo por impulsos elevados, intuições,
inspirações, sentimentos nobres e altruístas, atos de sacrifício e de
heroísmo, estados de consciência que, em situações normais do
cotidiano, não lhe ocorreriam.
Às vezes, o divino se manifesta ao homem através de sua pró­
pria natureza, dando-lhe, assim, a prova de sua presença.
São essas as “experiências das alturas” (peak experiences) de
que fala Maslow, que elevam a nossa consciência até a área que
normalmente é superconsciente e nos aproximam da nossa reali­
dade, o verdadeiro Si, o Eu espiritual.
Jung também teve oportunidade de observar em diversas
pessoas, especialmente nas de meia-idade, a existência desse lado
inconsciente mais elevado, que tendia a manifestar-se e provocar
sofrimentos e incômodos, caso não fosse reconhecido. Assim,
24
I Victor Frankl fala em “neuroses noógenas”, que derivam da repressão das exigências espirituais. Por
I
Victor Frankl fala em “neuroses noógenas”, que derivam da
repressão das exigências espirituais.
Por enquanto, pretendemos fornecer uma descrição simples e
sucinta das diferentes regiões do inconsciente que, resumindo, pode­
ríamos delinear da seguinte maneira:
a)
inconsciente inferior ou subconsciente;
b) inconsciente médio ou pré-consciente;
c) inconsciente superior ou Superconsciente.
Apresentamos, a seguir, um desenho esquemático (idealizado
pelo Dr. Roberto Assagioli, cultor da “Psicossíntese”) muito útil
para a compreensão da estrutura do inconsciente.
6
N
\
!
\
.
.
.
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i
\
I / ------------------ 7 i -----------------t
1. Inconsciente inferior ou
/
\
subconsciente
/In
I
.
j
/ 4
'
1
,
2 . Inconsciente médio ou
7
3.
Inconsciente superior ou
1
Superconsciente
/
/
4. Campo da consciência
\
1
/
7
\ \
/
5 , Eu consciente
6 . Eu espiritual
7.
Inconsciente coletivo
25
Com base nesse esquema, verifica-se que existe, alem do inconsciente pessoal, também um inconsciente coletivo,
Com base nesse esquema, verifica-se que existe, alem do
inconsciente pessoal, também um inconsciente coletivo, cuja pre­
sença foi intuída recentemente por Jung e muitos outros.
Essa descoberta poderia trazer uma confirmação às teorias
espiritualistas de que existe uma psique coletiva de toda a humani­
dade, uma dimensão subjetiva comum que não pode ser percebida a
não ser através do inconsciente, e que, na realidade, une os homens
em um contínuo e misterioso intercâmbio de energias, de influên­
cias, de experiências, de mensagens telepáticas, em uma unidade
vivente.
O mundo inconsciente é, na realidade, um mistério, uma terra
desconhecida repleta de forças, energias, perigos e surpresas que
ainda serão totalmente descobertos.
Sri Aurobindo também afirma: “O subconsciente de que fala
a moderna psicologia é somente parte de um mundo quase tão amplo
como o supraconsciente ”
De fato, ele atribui máxima importância ao Superconsciente, a
que chama supraconsciente, afirmando: “O supraconsciente é o
verdadeiro fundamento, não o subconsciente. Não é analisando
o segredo da lama de onde nasce o lótus que será possível explicar a
sua existência; o segredo do lótus está no arquétipo divino que flo­
resce eternamente no alto, na luz.”
Nós, todavia, para evoluirmos e chegarmos, enfim, a realizar a
nossa verdadeira natureza, devemos conhecer os meandros obscuros
do inconsciente inferior para nos libertarmos do passado, desman­
char as incrustações, resolver os conflitos e, sobretudo, libertar as
poderosas energias que estão presas e que fervem nele, e canalizá-
las em direção a objetivos úteis e benéficos.
“Ninguém pode alcançar o céu se não tiver passado pelo
26
. inferno.” De fato, o Cristo desceu aos Infernos “para libertar os ; vivos e
.
inferno.” De fato, o Cristo desceu aos Infernos “para libertar os
;
vivos e os mortos” antes de subir ao Céu, e essa descida simboliza
!
exatamente o caminho evolutivo interior do homem, que deve pene­
trar nas profundezas de si mesmo e trazer à luz todas as suas nega-
tividades e impurezas para transmutá-las e sublimá-las, antes de
“subir ao Céu”.
f
No início desta lição, dissemos que a nossa consciência é
!
suscetível de desenvolvimento, e, de fato, à medida que progredimos,
ela se desloca em direção àquilo que agora é superconsciente, aban­
donando o passado e tomando atual até mesmo o futuro.
Na realidade, não é exato dizer que “se desloca” , pois, ao con­
trário, é o superconsciente que penetra nela, a luz que a permeia
pouco a pouco, dispersando toda e qualquer sombra e vencendo
toda resistência.
“É o porvir que nos impele, não o passado, é a luz do alto que
pouco a pouco penetra em nossa noite.”
É o nosso verdadeiro Si que nos orienta e dirige, mesmo que
ainda não esteja agindo a nível inconsciente, ou melhor, supercons­
ciente, e aquilo que ora reconhecemos como “eu” é somente o seu
reflexo distorcido e limitado.
Todavia, a verdade destas afirmações, para ser aceita e
acreditada, deve ser experimentada, realizada, e o único caminho que
temos para chegar a essa realização direta é o conhecimento de nosso
I
mundo interior, dos vários níveis de nossa psique, o contato com a
realidade subjetiva, que nos abrirá o caminho para aquela camada da
consciência que, por enquanto, parece-nos desconhecida, duvidosa e
inalcançável.
27
Capítulo III RELAÇÕES ENTRE CONSCIENTE E INCONSCIENTE Chegamos, portanto, hoje em dia, a uma concepção
Capítulo III
RELAÇÕES ENTRE CONSCIENTE E INCONSCIENTE
Chegamos, portanto, hoje em dia, a uma concepção “pluri-
dimensional” da psique humana em que todos os aspectos, supe­
riores e inferiores, conscientes e inconscientes, têm a sua função
específica e a sua importância.
0 eu pessoal, com o seu campo de consciência, já não é sobe­
rano na psique, mas toma-se somente um “ponto de encontro” de
vários estímulos, de várias energias, e o instrumento movido e acio­
nado por impulsos e exigências a ele inconscientes ou super-
conscientes.
Todavia, devemos não mais ser autônomos, mas donos, não
mais marionetes acionadas por forças inconscientes, mas senhores do
drama que encenamos nesta vida.
Devemos passar do estágio em que somos vividos para o está­
gio do eu consciente e, para tanto, é necessário que conheçamos
todas as energias e todos os níveis de consciência que constituem a
nossa personalidade, a fim de transformar o nosso “eu” limitado,
condicionado, passivo, em consciência livre, autônoma e inclusiva
do Si, que é a nossa verdadeira essência.
Tal realização é a meta para a qual tende inconscientemente
29
todo o nosso ser, é o objetivo final de todos os conflitos, de todos os
todo o nosso ser, é o objetivo final de todos os conflitos, de todos os
sofrimentos da nossa vida, e a tanto chegaremos somente quando
tivermos reunido, numa unidade superior, a antítese entre o cons­
ciente e inconsciente, e tivermos estabelecido uma harmoniosa cola­
boração entre as exigências e os impulsos desses dois aspectos de
nós mesmos.
Eis por que é muito importante que aprendamos a estabelecer
relações entre o consciente e as várias regiões do inconsciente, e que
cheguemos a um equilíbrio entre esses dois pólos para que possa
emergir, de sua integração, a totalidade do nosso ser, o Si.
Na realidade, entre consciente e inconsciente existe uma
relação de polaridade. De fato, representam eles os dois pólos opostos
de nossa psique: o consciente, com a sua racionalidade, a sua vontade,
é o pólo positivo; o inconsciente, com os seus impulsos, as suas emo­
ções, as suas intuições, a sua carga de vitalidade, a sua ambigüidade,
o pólo negativo. O equilíbrio, a harmonia do indivíduo, surge de um
fluxo harmonioso, livre, rítmico, da energia psíquica entre esses dois
pólos. Jung chama a este fluxo e refluxo interior, semelhante ao
movimento das sístoles e diástoles do coração, de “progressão” e
“regressão” . A progressão é o movimento em direção ao exterior,
isto é, a adaptação ativa ao ambiente, e a regressão é o movimento
em direção ao interior, isto é, a adaptação às próprias exigências
interiores.
Esses opostos que estão em nós têm uma função reguladora e
estabilizadora, de acordo com a lei de “enantiodromia” (já desco­
berta centenas de anos atrás por Heráclito) que se poderia formular
da seguinte maneira: “Transformação reversível de condições natu­
rais ou artificiais”.
30
Todavia, o homem, antes de alcançar o equilíbrio entre esses dois movimentos interiores da energia
Todavia, o homem, antes de alcançar o equilíbrio entre esses
dois movimentos interiores da energia psíquica, deve passar por um
longo processo de amadurecimentos, por várias fases e tomadas de
consciência.
A relação harmoniosa entre consciente e inconsciente repre­
senta uma meta a ser alcançada, não sem dificuldades, pois muitos
são os que, inconscientemente, criam um obstáculo, um anteparo
entre o eu consciente e as regiões profundas de sua psique.
Esse anteparo foi produzido pela “repressão”, sobretudo no
que diz respeito ao inconsciente inferior.
A remoção é um mecanismo inconsciente que se formou
pouco a pouco em conseqüência da repressão voluntária, repetida e
contínua, de impulsos instintivos, desejos, estados de espírito,
lembranças que por uma razão ou outra repugnam ao consciente.
Essa repressão, voluntária num primeiro momento, dada a tendência
inata para formarmos hábitos, toma-se uma reação automática
inconsciente que impede o eu de perceber não somente o impulso
ou o estado de espírito, mas também a repressão, a ponto de acon­
tecer de o indivíduo acreditar não ter mais determinados desejos,
determinadas emoções, determinadas exigências.
Ao contrário: ainda subsistem nas profundezas do incons­
ciente, vivos e pulsantes, mas um complexo mecanismo de resistência
os impede de se manifestarem à consciência.
Esse mecanismo inconsciente de resistência foi chamado por
Freud “remoção”.
É preciso dizer, no entanto, que, mesmo quando nío há remo­
ção, o inconsciente inferior pode ser percebido com certa dificuldade
por um processo natural de aparente esquecimento, fazendo-se
necessárias “associações” para fazer com que se manifeste novamente
31
à consciência. Sabe-se que o mecanismo psicológico que normal­ mente serve para evocar as lembranças
à consciência. Sabe-se que o mecanismo psicológico que normal­
mente serve para evocar as lembranças é a associação de idéias.
“A associação de idéias é o instrumento, senão necessário,
pelo menos
ordinário da memória
Como quer que reapareça, o
passado é normalmente lembrado através de uma mediação, A
relação existente entre o passado e o seu mediador é aquilo que
chamamos associação de idéias”, diz Maurice Pradines em seu
Traité de psychologie. E já que o inconsciente inferior, como vimos,
representa sobretudo o passado, é necessária a mediação das associa­
ções para fazer que reapareça.
Essa também foi uma descoberta de Freud, que a transfor­
mou num método de análise, e foi justamente através deste método
que ele se deu conta da resistência que se opõe, em alguns casos, ao
reaparecimento de determinadas lembranças, o que ele chamou
justamente de “remoção” .
Um outro obstáculo à percepção do inconsciente deriva do
fato de sermos quase sempre extrovertidos em demasia, por demais
concentrados na ação, no agir, gerando uma “hipertrofia” do aspecto
consciente, virando as costas, por assim dizer, à vida inconsciente,
que, para poder manifestar-se, necessita de calma, relaxamento,
silêncio.
O inconsciente,
todavia,
mesmo
se
reprimido,
esquecido,
ignorado, procura sempre, por tendência natural, manifestar-se à
consciência, e infiltrar-se de mil maneiras nas atividades conscientes.
Os lapsos, as amnésias, os erros, as ações sintomáticas, tão
bem-estudados e observados por Freud1, são todos tentativas do
1 Quem deseja aprofundai-se no assunto, deve ler o livio: Psicopatologia
da vida cotidiana, de Freud.
32
inconsciente de fazer com que sintamos a sua presença e que esta transpareça na consciência
inconsciente de fazer com que sintamos a sua presença e que esta
transpareça na consciência através de mensagens e símbolos que nem
sempre compreendemos.
O caminho principal, porém, através do qual o inconsciente
procura manifestar-se ao consciente são os sonhos.
Desde a Antigüidade o homem percebeu que os sonhos deviam
ocultar um mistério, mas somente muito mais tarde é que ele foi se ocu­
par desse problema de maneira científica, podendo-se dizer que somen­
te com Freud o estudo dos sonhos observou um efetivo progresso.
Entretanto mesmo Freud e a sua escola não entenderam a
importância do sonho em sua verdadeira extensão, pois viram nele
somente a manifestação de instintos e desejos reprimidos que procu­
ram satisfação sob forma simbólica.
Foi exatamente-Jung, com a sua Psicologia Analítica, quem
abriu um novo horizonte à interpretação da vida onírica, sendo o
seu conceito do sonho bem-sintetizado por uma aluna sua, Ania
Teillard (também psicanalista), ao afirmar que todos os sonhos,
sem exceção, devem ser considerados uma emanação psíquica
proveniente da totalidade da psique e do conjunto da vida. O sonho
conduz até a consciência do sonhador elementos desconhecidos,
cumprindo, dessa maneira, uma função complementar e compen­
satória” (// simbolismo dei sogni, p. 17).
O
sonho, portanto, nos coloca frente não apenas às regiões
inferiores da psique, ao subconsciente, ao passado ou aos instintos
reprimidos, mas também ao inconsciente médio, ao superconsciente
e ao inconsciente coletivo2.
2 O assunto dos sonhos será tratado mais detalhadamente num dos pró­
ximos capítulos.
33
Uma outra maneira de estabelecer ou de tomar mais fluida a relação entre consciente e
Uma outra maneira de estabelecer ou de tomar mais fluida a
relação entre consciente e inconsciente é utilizando-a. Sabemos
que já existe uma relação de colaboração entre o eu consciente e
a psique inconsciente, pois é esta última que comanda todos os
automatismos, todos os hábitos que se formaram em nós e que
facilitam a nossa vida. É por um mecanismo automático inconsciente
que a criança aprende a escrever e, da mesma forma, o adulto a tocar
um instrumento, a dirigir o automóvel, a escrever à máquina, etc.
Além disso, mesmo quando pensamos, escrevemos ou falamos,
é o lado inconsciente de nossa mente que faz a maior parte do
trabalho, mesmo sem nos darmos conta, e nos apresenta as idéias
e os conceitos já prontos e elaborados. Na mente consciente, vemos
somente os resultados de uma elaboração inconsciente.
Podemos utilizar conscientemente essa tendência do nosso
inconsciente para cooperar com a consciência e, assim, nos abrir
a um mundo de infinitas possibilidades e potencialidades.
O inconsciente, por natureza, é eminentemente plástico, influen­
ciável, impressionável e tem o hábito de reelaborar, organizar e
realizar o que recebe.
Utilizando essas características do inconsciente, alguns psicó­
logos (como Couè, Baudoin, Assagioli, etc.) elaboraram métodos e
técnicas de cooperação consciente com as energias profundas.
O inconsciente
é como uma terra fértil que recebe
uma
semente; depois de um determinado tempo, faz que ela germine e
amadureça. Há nele uma parte que já semeamos, e freqüentemente
com sementes nocivas, e uma outra parte que deve ainda ser revol­
vida e cultivada que está sempre ao nosso alcance e pronta para ser
fertilizada, sendo, portanto, da máxima importância fecundá-la com
sementes positivas e construtivas.
34
Veremos, em seguida, como isso pode ser realizado de maneira técnica. Para encerrar agora este
Veremos, em seguida, como isso pode ser realizado de maneira
técnica.
Para encerrar agora este capítulo, não devemos nos esquecer
das relações entre o consciente e o Superconsciente, que representam
as nossas potencialidades mais elevadas, a ponte que nos liga à
nossa parte espiritual latente.
Mesmo entre o Superconsciente e o consciente, às vezes há um
espesso diafragma, porque pode acontecer, com mais freqüência do
que se supõe, de o homem negar a sua natureza divina, de “remo­
ver” da consciência os impulsos espirituais, nobres, elevados, que
provêm do Si. De fato, mesmo os conteúdos do Superconsciente
podem ser reprimidos e removidos pelo eu pessoal, que não qyer
ceder a sua supremacia e superar o seu egoísmo, o seu orgulho, a sua
exclusividade.
Se ignoramos com certa freqüência ou queremos ignorar os
instintos da nossa natureza humana, da mesma forma quase sempre
ignoramos os impulsos e as exigências da nossa natureza divina, a
ponto de provocarmos em nós mesmos crises, sofrimentos, neuroses,
pela repressão de exigências espirituais, como afirmam Frankl,
Caruso, Daim, Jung e muitos outros.
Devemos, então, aprender a estabelecer relações de cola­
boração e de equilíbrio entre a nossa parte consciente e as várias
áreas do inconsciente, percorrendo um caminho de amadurecimento
por vezes difícil e áspero, por vezes perigoso e ingrato, mas que nos
levará, enfim, à auto-realização. Esse caminho é chamado por Jung
de “processo de individuação” , sendo, na realidade, o mesmo cami­
nho percorrido pelos místicos, os santos, os espiritualistas e todos
aqueles que aspiram reencontrar a Divindade dentro de si para se
tomar verdadeiros homens.
35
I
I
Capítulo IV O SIMBOLISMO DO INCONSCIENTE Para começar a estabelecer relações harmoniosas entre o consciente
Capítulo IV
O SIMBOLISMO DO INCONSCIENTE
Para começar a estabelecer relações harmoniosas entre o
consciente e o inconsciente, a primeira coisa a ser feita é procurar
entender a sua natureza, as suas características e, sobretudo, a
sua “linguagem” . De fato, o inconsciente se exprime de uma forma
totalmente particular, não-direta e não-racional, e sim indireta,
irracional e críptica. Em outras palavras, exprime-se através de
símbolos.
Mas o que significa realmente a palavra “símbolo”?
Etimologicamente, o termo símbolo vem do grego symbolon,
que significa “juntar”, “confrontar”, “colocar em relação”, indi­
cando, portanto, a conexão lógica de dois termos ou dados, em que
cada um participa, juntamente com o outro, de uma determinada
relação.
Jung diz que “o que chamamos ‘símbolo’ é um termo, um
nome ou mesmo uma representação que pode ser familiar na vida
de todos os dias, mas que possui aspectos específicos, além de seu
significado óbvio e convencional” . Podemos dizer, de fato, que qual­
quer coisa pode assumir o significado de símbolo.
O homem se serve continuamente de símbolos, porque
37
“o símbolo é humano é uma formação natural que irrompe da própria natureza psicológica do
“o símbolo é humano
é uma formação natural que irrompe da
própria natureza psicológica do homem, na qual exerce um papel de
elemento de integração” (Marchesini).
Todavia, surge espontaneamente a pergunta: “Por que o
inconsciente se exprime por símbolos?”
Os psicanalistas freudianos afirmam que o inconsciente, sobre­
tudo nos sonhos, se exprime por símbolos porque existe uma
censura, criada pela remoção, que faz com que os desejos reprimidos,
as instâncias, os impulsos instintivos não se manifestem claramente,
mas de uma forma disfarçada, mascarada, de modo a não serem reco­
nhecidos pela censura interior, o Superego, que é, como dissemos
anteriormente, a consciência moral interiorizada.
Trata-se de uma resposta muito limitada, mesmo contendo
uma parte de verdade, pois não podemos considerar o inconsciente
somente como um receptáculo de instintos “reprimidos” ou de
lembranças traumáticas adquiridas. Como vimos, o inconsciente é
muito mais que isso. Chega a ser um mundo, uma outra dimensão
que se estende em profundidade e em altura, por assim dizer, e que
nos coloca em contato com estados de consciência e de vida ainda
inexplorados. Para o Zen-budismo, o inconsciente é mesmo a “fonte da cria­
tividade infinita”, pois ele faz coincidir tudo o que está além da
nossa consciência limitada e ilusória com o inconsciente. “O incons­
ciente, na acepção Zen, é sem dúvida o mistério, o desconhecido
Mas isso não significa que ele esteja além do alcance da consciência,
isto é, algo com que nada temos a ver. Ao contrário, ele é efetiva­
mente o que temos de mais íntimo, sendo justamente por isso que é
tão difícil agarrá-lo, da mesma maneira que o olho não pode ver a si
mesmo.” (Psicanalisi e Buddismo Zen, de Fromm, Suzuki, De
Martino, p. 27.)
38
i Portanto, voltando ao simbolismo do inconsciente, nSo pode­ mos considerá-lo somente como uma necessidade
i Portanto, voltando ao simbolismo do inconsciente, nSo pode­
mos considerá-lo somente como uma necessidade de disfarce, mas
devemos enxergá-lo como expressão de uma tendência inata que
surge da própria natureza do inconsciente, que é irracional, imagina­
tivo, carregado de emotividade e plasticidade.
O inconsciente se exprime através de símbolos, porque o sím­
bolo é a linguagem espontânea e natural da alma humana, livre das
ilações da lógica, do intelectualismo, do tecnicismo asséptico.
O homem primitivo e a criança estão, freqüentemente, mais
próximos do entendimento da linguagem simbólica do que o homem
civilizado e o adulto, bem como o artista e o místico, pois a mente
racional impede a compreensão dos símbolos que surgem da intuição.
É
extremamente importante que o homem readquira sua sensi­
bilidade para a linguagem simbólica, sensibilidade que talvez lhe
tenha pertencido em épocas remotas, se deseja conhecer o incons­
ciente e criar uma ponte com ele.
O inconsciente se exprime através de símbolos não apenas nos
sonhos, mas também na vida de todos os dias, por sinais, sintomas,
manifestações de diversos tipos.
Por exemplo, muitos distúrbios e mal-estares físicos que nos
afligem periodicamente sem apresentar uma causa fisiológica pato­
gênica são mensagens de desarmonias inconscientes que se exprimem
de maneira simbólica.
, Se sentimos, em determinadas ocasiões, dificuldades para en­
golir, isso significa que talvez não tenhamos conseguido “engolir"
uma determinada situação. Conscientemente, não reconhecemos
essa dificuldade, mas é o nosso inconsciente que insiste em que
entendamos a realidade das coisas.
Distúrbios digestivos, especialmente o enjôo, que se manifesta
39
ciclicamente, querem nos fazer entender que “há uma determinada situaçSo, ou uma determinada pessoa, que
ciclicamente, querem nos fazer entender que “há uma determinada
situaçSo, ou uma determinada pessoa, que não podemos digerir”.
Assim, também a asma, em determinados casos, pode significar
que a atmosfera de casa é irrespirável.
A medicina psicossomática baseia-se justamente nesses dis­
túrbios, que, se nío-compreendidos, podem conduzir a verdadeiras
doenças orgânicas com o tempo.
Os lapsos, os esquecimentos, as ações não-executadas etc., a que
se refere Freud em seu livro Psicopatologia da vida cotidiana,
também sío, na realidade, mensagens simbólicas do inconsciente.
Além disso, na arte, sobretudo na pintura e no desenho livres,
o inconsciente se manifesta de maneira muito evidente, a ponto de o
desenho espontâneo ser utilizado, inclusive, como método de
diagnóstico e, às vezes, terapêutico.
Nío devemos nos esquecer de que a maneira por que o incons­
ciente se exprime em todos os níveis é a imagem, e por esse motivo
tanto o desenho como a pintura podem ser veículo de comunicação
entre as profundezas e a consciência.
Essa tendência do inconsciente para exprimir-se através de ima­
gens foi utilizada também no método introduzido por Roger
Desoille, método chamado do rêve evéillé, ou seja, “sonho desperto”,
o qual é controlado.
Tal método consiste em sugerir ao paciente, estendido em
posição relaxada, em um quarto semi-escuro, uma imagem ou uma
cena que ele, em seguida, deve ampliar segundo a sua imaginação,
sempre, porém, guiado e sustentado pelo psicólogo nos momentos
mais difíceis.
Essa técnica, que inicialmente pode parecer quase uma brinca­
deira, proporcionou, no entanto, resultados extremamente inte-
40
j ressantes e, em inúmeros casos, levou o paciente à cura, pois ela é “catalisadora”
j
ressantes e, em inúmeros casos, levou o paciente à cura, pois ela é
“catalisadora” de conteúdos simbólicos provenientes do subcons­
ciente e aciona as energias psíquicas autocurativas.
Na realidade, é um sonho de indivíduos acordados que tem
todas as características do verdadeiro sonho, com a vantagem de ter
a qualidade terapêutica de todos os processos de auto-reconheci-
mento, pois a consciência está presente e pode produzir uma catarse.
As imagens que afloram espontaneamente são inteiramente
semelhantes às do sonho e possuem natureza idêntica à dos símbolos
oníricos.
Todavia, deve-se reconhecer que a presença da consciência
pode, em determinados casos, produzir modificações e alterações
na “mensagem” proveniente do inconsciente; eis por que, afinal,
quando o objetivo não é uma visão integral, devemos admitir que é
somente no estado de sono que o inconsciente tem maior liberdade
para se manifestar, e é somente então que, através das imagens dos
sonhos, afloram os símbolos mais interessantes e autênticos, car­
regados de significado e forças específicas.
Os símbolos do inconsciente que aparecem nos sonhos contêm
de fato energia vivente. Eles vivem. NSo sío meras representações
abstratas e mentais, mas um condensado de energia psíquica prove­
niente do reservatório vital do homem; têm, portanto, uma intensi­
dade de vida específica e são capazes de produzir efeitos específicos
no indivíduo.
Os símbolos oníricos, contrariamente ao que afirmava Freud,
não são símbolos fixos, mas variam tanto de conteúdo como de
significado, de indivíduo para indivíduo, dependendo do tempera­
mento, da educação, do nível cultural e moral etc.
Um artista, por exemplo, terá em seus sonhos imagens extre-
41
mamente diferentes das de um matemático; um místico produzirá símbolos oníricos diferentes dos de um
mamente diferentes das de um matemático; um místico produzirá
símbolos oníricos diferentes dos de um militar; assim, um homem
grosseiro e inculto nunca poderá sonhar o mesmo que um filósofo
Todavia, ao lado desses símbolos individuais variáveis, há tam­
bém símbolos fixos, que Jung chama de “arquétipos”, os quais
têm um caráter e um significado diferente dos outros símbolos,
porque contêm uma energia muito mais intensa e colocam o homem
em contato com camadas mais profundas do inconsciente, camadas
atávicas primordiais e coletivas que pertencem a toda a humanidade.
Essas camadas mais profundas têm um conteúdo que pode ser primi­
tivo, arcaico, proveniente de idades remotas, ou então um conteúdo
muito elevado, religioso, místico e esotérico, proveniente do lado
mais elevado da humanidade, do seu patrimônio coletivo de sabe­
doria e espiritualidade.
Jung diz que somente os arquétipos estão “carregados de emo­
ções”,já que são, ao mesmo tempo, “imagem e emoção”.
Quando na imagem está implicada a emoção, a imagem
adquire um caráter numinoso (ou seja, uma energia psíquica): esta se
tom a dinâmica e deve produzir efeitos de alguma monta.”
Um aspecto extremamente importante dos símbolos do
inconsciente é que eles têm uma função e uma finalidade, e podem
ser utilizados. Se os símbolos oníricos são entendidos e assimilados
pela consciência, podem acarretar modificações na personalidade e
favorecer o processo de transformação e amadurecimento.
Um símbolo pode ser catalisador de energias e favorecer a
sublimação.
Eis por que, se um sonho vem a ser especialmente significativo
e carregado de simbolismo, torna-se necessário refletir sobre ele
durante alguns dias e procurar meditar sobre esses símbolos, que
42
, certamente estão cheios de significado e têm uma finalidade auto- formativa e evolutiva para
, certamente estão cheios de significado e têm uma finalidade auto-
formativa e evolutiva para a nossa personalidade.
“A descoberta do significado real de um símbolo pode des­
vendar ao homem forças latentes em sua alma, das quais, até então,
ele ignorava a existência.” (Ania Teillard: O simbolismo dos
sonhos.) É, portanto, de suma importância desenvolver a capacidade de
interpretar os símbolos para compreender a nossa verdadeira natu­
reza e as nossas verdadeiras exigências, que jazem no mais profundo
de nós mesmos, e para poder utilizar as formidáveis energias encer­
radas em nosso inconsciente.
Seria demasiado exaustivo e até mesmo extremamente comple­
xo tentar uma enumeração e uma descrição, mesmo que sumária,
desses símbolos arquetípicos que aparecem nos sonhos, inclusive
considerando o fato de que existem livros especializados que tratam
desse assunto1.
Interessa-nos, sobretudo, a implicação espiritual que decorre
de tudo o que foi dito até agora, isto é, que se o inconsciente se
exprime através de símbolos em todos os níveis, mesmo no superego,
que é, por assim dizer, o reflexo do Si, exprimir-se-a' através de
símbolos e procurará enviar mensagens e ensinamentos ao nosso
eu consciente por esse meio.
É preciso, então, que nos tomemos sensíveis a essa linguagem
simbólica e críptica, o que é possível pelo desenvolvimento da
intuição. O homem, muitas vezes, não dá importância a essa faculdade
1 Por exemplo, o belíssimo livro, L ’uomo e i suoi simboli, de Carl Jung,
Editore Casini.
43
inata que nele existe, chegando mesmo, às vezes, a se envergonhar dela (segundo palavras de
inata que nele existe, chegando mesmo, às vezes, a se envergonhar
dela (segundo palavras de Van der Leeuw), pois está por demais habi­
tuado a dar importância à mente lógica, ao raciocínio, que lhe
parecem mais sólidos e certos.
Mas a realidade - nío somente a nossa, mas de tudo o que nos
envolve e de todas as manifestações —nunca poderá ser alcançada
sem que o intelecto seja iluminado pela intuição.
O estudo dos símbolos nos levará a desenvolver a intuição
e a entender, portanto, o mundo dos significados.
Tudo o que nos envolve é símbolo de uma Idéia Divina;
nós mesmos somos símbolos de uma Realidade Espiritual, e isso
o nosso inconsciente sabe perfeitamente e procura transmitir-nos
continuamente.
Portanto procurar decifrar os símbolos provenientes do incons­
ciente não é somente um trabalho de auto-análise, mas também de
transformação de nós mesmos, de tomada de consciência da nossa
natureza e de integração com aqueles aspectos superiores latentes
que constituem a nossa herança divina.
Eis por que nas escolas espiritualistas dá-se tanta importância
ao estudo dos símbolos e à meditação sobre os símbolos, o que não é
somente uma técnica cognoscitiva, mas um verdadeiro processo
interior de transformação de energias acionado pelo próprio sím­
bolo examinado.
Portanto,
mais
uma
vez,
devemos
reconhecer
a misteriosa
sabedoria oculta em nosso inconsciente e sua qualidade de interme­
diária entre o mundo dos significados e das causas, mundo que ainda
nos parece nebuloso e irreal, mas que, no entanto, é o mundo da
luz e da realidade.
44
; Capítulo V OS SONHOS O homem, desde a Antigüidade, sempre se sentiu atraído pelos
;
Capítulo V
OS SONHOS
O homem, desde a Antigüidade, sempre se sentiu atraído pelos
sonhos, considerando-os um misterioso intermediário dos mundos
hiperfísico e divino, mas somente muito mais tarde começou a
estudá-los cientificamente e a entender a sua verdadeira função e a
sua real importância.
Foi exatamente a descoberta do inconsciente que trouxe uma
nova luz ao conhecimento da vida onírica, livrando-a das supersti­
ções e das fantasias, abrindo um novo horizonte para a compreensão
do espírito humano e de seus problemas profundos.
Além da psicanálise, a medicina também contribuiu para escla­
recer ainda mais o problema dos sonhos, com as investigações, os
estudos e as experiências efetuadas sobre o mecanismo do sono, que
sempre interessou muito os cientistas devido às numerosas questões
e perplexidades que suscita.
A
ciência, na verdade, ainda hoje nío sabe com certeza por que
o homem dorme, por que ele passa um terço de sua vida dormindo,
muito embora os estudos específicos sobre o mecanismo do sono
dessem interessantes resultados e respostas, nío tanto sobre o “por
que” se dorme, mas sobre o “como” se mergulha do sono, sobretudo
sobre a função dos sonhos.
45
A primeira descoberta de fato importante que resultou dessas investigações foi a de que todos,
A primeira descoberta de fato importante que resultou dessas
investigações foi a de que todos, indistintamente, sonhamos, pelo
menos duas horas todas as noites, e se temos a impressão de não ter
sonhado é porque não gravamos isso em nossa memória.
A segunda descoberta, esta também de enorme relevância, é
a de que os sonhos têm uma importância vital para a saúde psíquica
do indivíduo.
As investigações e as observações sobre o mecanismo fisioló­
gico do sono têm possibilitado esclarecimentos inclusive sobre a
vida onírica e sobre seu verdadeiro significado. Todavia é preciso
dizer que essas investigações puderam ser realizadas somente depois
da descoberta de que o córtex cerebral é sede de ininterruptas mani­
festações bioelétricas, as quais podem ser amplificadas e gravadas
através de um eletroencefalograma.
Por esse meio, entre outros, os estudiosos puderam constatar
que o sono notumo se caracteriza por dois estágios extremamente
diferentes, pelos quais passamos sem nos dar conta.
O primeiro estágio do sono é chamado slow sleep (“sono
lento”), pois, quando um indivíduo adormece, o quadro eletroence-
falográfico típico do estado de vigília, caracterizado por ondas
rápidas e regulares, transforma-se gradativamente num quadro onde
aparecem ondas cada vez mais lentas e irregulares. Esse primeiro
sono é um tanto leve e provém do córtex cerebral.
Pouco a pouco, a influência inibidora que provoca o sono
desce, através de ondas sucessivas, até a parte baixa do cérebro, onde
então entra em ação o segundo estágio de sono, chamado sono pôn-
tico, justamente porque depende de um ponto existente no tronco
cerebral que se chama, exatamente, “ponte” . Esse segundo sono é
muito mais profundo que o primeiro e produz, estranhamente, sobre
46
0 eletroencefalograma, ondas muito rápidas, formando um quadro muito semelhante ao do estado de vigília.
0 eletroencefalograma, ondas muito rápidas, formando um quadro
muito semelhante ao do estado de vigília. Esse estágio do sono foi
denominado “sono paradoxo”, ou fast sleep (“sono rápido”).
Os sonhos aparecem exatamente durante o sono paradoxo.
De fato, os indivíduos que despertavam em meio a essa fase
diziam todos, indistintamente, que estavam sonhando, ao passo que
os despertados em meio ao primeiro sono relataram nío estarem
sonhando ainda.
As descobertas avançaram ainda mais, já que foi também
verificado, em decorrência de numerosas investigações e observações
que não deixam possibilidades a dúvidas, que o sono paradoxo
(o sono acompanhado de sonhos) é necessário para a saúde e o equi­
líbrio do indivíduo. Portanto os cientistas chegaram à conclusão de
que o sono não é somente um período de descanso, em que o
homem tempera novamente as suas forças, mas um estado indispen­
sável e necessário, justamente porque permite a atividade onírica,
que se revelou um fator fundamental para a saúde psíquica do
homem.
Afirma o prof. Ludovico Julio, da Universidade de Turim:
“Talvez a propalada indispensabilidade do sono paradoxo
esteja justamente relacionada com o seu conteúdo onírico, teste­
munho de uma libertação, através do mecanismo do sonho, do
inconsciente bloqueado no estado de vigília.”
Não devemos nos esquecer, como já dissemos anteriormente,
de que a relação entre consciente e inconsciente é, na realidade,
uma relação de polaridade, e que a energia psíquica corre entre esses
dois pólos. 1
1 Ver capítulo III.
47
Durante o dia, dirigimos a nossa energia psíquica para o exterior, focalizamo-nos no consciente, enquanto
Durante o dia, dirigimos a nossa energia psíquica para o
exterior, focalizamo-nos no consciente, enquanto à noite nos reti­
ramos para o mundo psíquico, sendo os sonhos exatamente testemu­
nhos e lembranças da atividade desse mundo.
De fato, dizem os psicólogos, muito freqüentemente a insônia
se deve a um medo do inconsciente, a uma resistência do eu cons­
ciente em entrar em contato com o outro pólo de si mesmo, talvez
porque exista algum conflito ou problema não-resolvido que o cons­
ciente náo quer ou náo sabe enfrentar.
O sonho, portanto, nos revela as exigências, os problemas, as
atividades do nosso inconsciente, muito mais complexos e multi-
formes do que se supõe. A vida do inconsciente, na realidade, tem
uma extensão muito mais ampla do que se julgou nos primeiros
tempos da psicanálise, colocando-nos em contato com dimensões
e níveis nío somente individuais, mas também coletivos e universais.
Quando estamos despertos, somos prisioneiros do nosso “eu”
consciente e das limitações de lugar, espaço e tempo, mas, quando
dormimos, entramos numa nova dimensão, diferente, onde nos senti­
mos livres, onde espaço e tempo são anulados, onde as distâncias não
existem, onde há o eterno presente.
Eis por que é quase sempre possível, através dos sonhos, ter
percepções, sensibilidades telepáticas, premonições, visões que nos
deixam atônitos e perturbados. Por esse motivo, a parapsicologia
também se interessa muito pelo problema dos sonhos, desenvolvendo
estudos e investigações a seu respeito.
Devemos nos convencer, conforme as palavras de Oliver
Queant, de que “toda a vida passa através de nosso corpo, mas que
não estamos no nosso corpo”. De fato, o nosso verdadeiro Eu,
mesmo servindo-se do corpo como instrumento de manifestação,
48
tem uma sua vida que se estende para lá dos limites da dimensão física, que
tem uma sua vida que se estende para lá dos limites da dimensão
física, que é somente o último precipitado de sua atividade.
Portanto, a vida onírica é importante por várias razões, que
poderíamos sintetizar da seguinte maneira:
i
1 ) é importante de um ponto de vista psicológico, pois tem
por função reequilibrar a vida psíquica do indivíduo, compensando
eventuais repressões e estabilizando a atividade excessiva do
consciente;
2 ) é importante como fonte de cooperação, de ajuda e inspi­
ração, pois contém as premissas reais e as exigências autênticas do
nosso ser e a memória arcaica de toda a sabedoria da humanidade;
3) é importante porque nos coloca em contato com as
camadas superiores da nossa psique, como o superconsciente,
podendo, portanto, constituir fonte de revelações e iluminações;
4) é importante porque nos prova que não existe separação
entre os indivíduos no plano subjetivo e que espaço e tempo são
parâmetros que se exercem somente no plano físico.
Os pontos apresentados nos permitem entender que existe
uma enorme variedade de sonhos, desde aqueles aparentemente
mais banais até os que contêm um ensinamento, uma revelação ou
um significado especial.
Portanto não é fácil tentar fazer uma subdivisão dos sonhos
em categorias. Conta-se que Plínio subdividiu os sonhos em duas grandes
categorias: os comuns e os “enviados pelos deuses”.
Hoje em dia, essa subdivisão ainda seria válida, pois também
nós passamos pela experiência dos sonhos comuns, aparentemente
49
banais, e dos sonhos mais raros, que parecem conter uma mensagem ou uma revelação. Todavia,
banais, e dos sonhos mais raros, que parecem conter uma mensagem
ou uma revelação.
Todavia, já foi comprovado pela psicologia de profundidade,
especialmente pela escola de Jung, que nío existem sonhos banais,
que todos os sonhos são psicologicamente importantes. A diversi­
dade, portanto, dos sonhos, é dada somente pelas diferentes camadas
do inconsciente que através deles se manifesta. De fato, quanto mais
nos aprofundamos, mais os sonhos se tomam impessoais, simbólicos,
carregados de significados universais.
Além do mais, mesmo as assim chamadas percepções extra-
sensoriais, isto é, a telepatia, a premonição etc. verificam-se todas
através do inconsciente, que não é somente pessoal, mas também
coletivo, constituindo uma espécie de matéria condutora e unifi­
cadora de todas as unidades psíquicas individuais.
Portanto a única subdivisão lógica que podemos fazer é a
seguinte:
1 ) sonhos que derivam do inconsciente individual:
a) inferior;
b) médio;
c) superior.
2 ) sonhos que derivam do inconsciente coletivo;
a) inferior;
b) médio;
c) superior.
Como distinguir os sonhos que provêm do inconsciente indi­
vidual daqueles que derivam do inconsciente coletivo?
50
Não é fácil dar indicações exatas: a única coisa certa é a diferença dos símbolos
Não
é
fácil
dar indicações exatas: a única coisa certa é a
diferença dos símbolos que aparecem.
Em geral, os símbolos dos sonhos pessoais são foijados a partir
da vida cotidiana. Todas as coisas, todos os objetos, todas as pessoas
que aparecem nesses sonhos podem assumir um caráter de símbolo.
Além disso, a ação que se desenvolve no sonho parece ser a repetição
da vida cotidiana, mesmo que às vezes pareça um tanto ilógica e
absurda. Freqüentemente, o indivíduo, justamente por essa razão,
não dá maior importância a esses sonhos, pois julga que sejam
somente uma manifestação de imagens e lembranças do dia. No
entanto eles têm muita importância de um ponto de vista psico­
lógico, pois não são apenas a repetição mnemônica de ações desen­
volvidas no estado de vigília, mas a reelaboração subconsciente
destas, a motivação profunda e real daquilo que fizemos e sentimos
no estado consciente.
Além do mais, não devemos nos esquecer da função compensa­
tória e complementar dos sonhos, que se revela oniricamente em
detalhes, em atos que podem parecer insignificantes mas que, ao
contrário, são extremamente importantes.
Afirma Ania Teillard, aluna de Jung, em seu livro, O simbo­
lismo dos sonhos: “Todo detalhe dos nossos sonhos tem por finali­
dade nos comunicar algo de especial e se exprime por uma linguagem
simbólica.”
Nos sonhos que derivam do inconsciente pessoal, além do
mais, os símbolos são individuais, isto é, não são os mesmos para
todos, mas mudam, dependendo do indivíduo que sonha. Cada
pessoa tem símbolos convenientes ao seu psiquismo, ao seu grau
de maturidade, ao seu temperamento, às suas experiências.
Pelo
contrário,
os
símbolos
que
provém
do
inconsciente
coletivo são símbolos universais, portanto “fixos”.
51
Tais símbolos universais e fixos são os que Jung chamou “arquétipos” (falamos a respeito no
Tais símbolos universais e fixos são os que Jung chamou
“arquétipos” (falamos a respeito no capítulo precedente), pois
pôde constatar, através da análise de milhares de sonhos de seus
pacientes, que eles são imagens primordiais, míticas ou religiosas,
“que sempre existiram e que se renovam eternamente”, pois simboli­
zam a alma humana em seu caminho evolutivo. O inconsciente
conservou essas imagens primordiais e arcaicas e as reproduz nos
sonhos, pois nós, seres humanos, náo somos apenas portadores das
nossas experiências individuais, mas também das de nossos ante­
passados e de toda a humanidade.
Uma coisa extremamente importante que devemos mencionar
é que os sonhos provêm das camadas mais profundas e elevadas do
inconsciente, seja pessoal ou coletivo, revelando que no homem
está em curso um constante e gradativo (se bem que muito lento)
processo de evolução e de transformação que parece conduzi-lo
a uma meta, talvez ignorada pelo eu consciente, mas muito conhe­
cida do inconsciente.
Esse processo foi denominado por Jung de “processo de
individuação”, pois, através de sucessivas acomodações e ama­
durecimentos, conduz o homem à sua verdadeira individualidade,
ao seu Si (Selbst), que é síntese dos dois pólos e totalidade
perfeita.
Nisso também vemos uma semelhança e uma analogia
com o que afirmam as doutrinas espiritualistas e esotéricas,
isto é, que a vida do homem, suas experiências, seus conflitos,
seus sofrimentos têm uma finalidade bastante precisa: fazer que ele
amadureça e se tome consciente de seu verdadeiro Eu, o Si, após
52
gradativas e sucessivas harmonizações e integrações de todos os aspectos do eu inferior, a personalidade2.
gradativas e sucessivas harmonizações e integrações de todos os
aspectos do eu inferior, a personalidade2.
Então, nos sonhos do indivíduo que atingiu um certo grau
de amadurecimento, revelam*se as diferentes fases desse processo
de inviduação, através de imagens simbólicas e carregadas de
significado e energia, estranhamente semelhantes aos símbolos
da alquimia3. Por exemplo, há uma infinidade de símbolos que representam
os nossos princípios feminino (o inconsciente) e masculino (o cons­
ciente).
Como se sabe, em cada um de nós existem os princípios femi­
nino e masculino (Yin e Yang, de acordo com a filosofia chinesa), ou
seja, Eros e Logos, os quais devem ser harmonizados e integrados
para que possa emergir a totalidade do nosso ser, o homem integral4.
Com base no que foi dito, toma-se claro o fato de que não é
fácil interpretar os sonhos, de que é preciso uma grande experiência
no assunto para arriscar uma explicação.
Por exemplo, seria preciso levar sempre em conta que um
sonho jamais é único, mas que faz parte de uma série e, além disso,
que cada figura, cada personagem do sonho representa sempre uma
parte de nós mesmos.
2 Aconselhamos
ler,
a esse
respeito, o interessantíssimo livro do
Dr.
Assagioli: Para a harmonia da vida, a psicossíntese.
3 Sobre esse assunto, existe um livro de C. G. Jung, Psicologia e d alchimia
(Ed. Astrolabio).
4 Ver o livro de C. G. Jung: O homem e seus símbolos, e o livro de R.
Wilhelm e C. G. Jung: O mistério da flor de ouro.
53
É certo, porém, que o sonho pretende sempre fazer-nos enten­ der alguma coisa, transmitir*nos, em
É certo, porém, que o sonho pretende sempre fazer-nos enten­
der alguma coisa, transmitir*nos, em linguagsm críptica e simbólica,
uma mensagem, uma advertência, uma sugestão.
Mesmo quando o sonho parece ser a satisfação imaginária de
um desejo reprimido, de uma aspiração insatisfeita, ele nos sugere
estranhamente também a maneira de resolver aquele problema e o
seu verdadeiro significado.
Há como que uma misteriosa sabedoria em nosso inconsciente,
talvez justamente porque ele não apenas se reporte às raízes autên­
ticas do nosso ser, mas a toda natureza e história da humanidade e,
afinal, porque há nele aquela camada superior, o superconsciente,
que contém em potencial todas as qualidades superiores possíveis
ao homem.
Os sonhos que poderíamos chamar metafísicos também se
tomam possíveis pelo nosso inconsciente, como já dissemos, e
podem, portanto, entrar naquela categoria de sonhos derivados do
inconsciente coletivo. De fato, constatou-se que, inclusive, fenô­
menos telepáticos podem ser obtidos através de contatos por inter­
médio do inconsciente, que, repetimos, não conhece limitações
de espaço e de tempo.
O que dissemos até aqui já seria suficiente para fazer do estudo
dos sonhos algo da máxima importância e despertar o nosso inte­
resse.
Mas como fazer isso se pertencemos àquela categoria de
pessoas que normalmente não se lembram de seus sonhos?
Se não nos lembramos dos sonhos, isso significa que a barreira
entre o consciente e o inconsciente é em nós muito consistente, ou
que somos demasiado extrovertidos, ou que temos alguma repressão.
De qualquer maneira, foi constatado que, se se começa a dirigir
54
a atenção para a vida onírica, esta pouco a pouco surge na memória e se
a atenção para a vida onírica, esta pouco a pouco surge na memória e
se toma mais clara e consciente.
O nosso inconsciente só espera a oportunidade para se revelar,
mas é o eu consciente que quer ignorá-lo, seja por temê-lo, seja por
não querer ceder o seu domínio.
Uma ajuda considerável para a lembrança da atividade onírica
está na maneira pela qual adormecemos.
Precisamos aprender a adormecer. Essa é uma verdade que a
maioria ignora, e que, no entanto, tem a maior importância.
A melhor maneira de adormecermos é imaginar que estamos
prestes a passar para um outro nível de consciência, onde existe uma
vida real, um mundo rico e fascinante, onde poderemos conhecer e
aprender inúmeras coisas.
Em outras palavras, ao adormecer, não se deve pensar que
estamos mergulhando na inconsciência e no vazio absoluto, mas sim
nos dirigindo para um outro nível de consciência, para uma outra
dimensão do nosso próprio ser.
Para isso, é preciso ter a convicção de que existe esse outro
nível de consciência, que existe uma outra face de nós mesmos, isto
é, o inconsciente, onde poderemos encontrar a solução para muitos
dos
nossos
problemas,
e
as causas ocultas de tantos impulsos
inexplicáveis.
Aceitar o inconsciente, reconhecer a sua importância, desejar
conhecê-lo, são todas atitudes úteis para criar a ponte necessária
entre o nível consciente e as camadas profundas de nossa psique.
Isso é verdade também no que diz respeito ao superconsciente,
a nossa parte mais espiritual:é a aspiração a ele que produz a resposta.
É o apelo que provoca a revelação, pois somos prisioneiros do
estreito limite da consciência pessoal somente porque o eu,
f
55
encerrado em seu orgulho, nío admite estar circunscrito e incompleto. Portanto procuramos fazer do nosso
encerrado em seu orgulho, nío admite estar circunscrito e incompleto.
Portanto
procuramos
fazer
do
nosso
sono
um
verdadeiro
período de contato e de tomada de consciência das outras dimensões
do nosso ser, e de temporária e vitalizante imersão em uma realidade
mais ampla.
56
Capítulo VI A NEUROSE COMO SINTOMA DE CRESCIM ENTO INTERIOR “Na neurose, reflete-se de mil
Capítulo VI
A NEUROSE COMO SINTOMA DE
CRESCIM ENTO INTERIOR
“Na neurose, reflete-se de mil maneiras o destino trágico
da existência, que sofre dos seus próprios limites e pro­
cura ultrapassar a situação paradoxal da participação
concomitante no ser e no não-ser.” (Caruso, Psicanalisi
e sintesi delia esistenza.)
O que significa ser “normal”?
Essa é uma pergunta à qual os psicólogos sempre procuraram
uma resposta, sem, porém, conseguir plenamente, pois o conceito de
normalidade é um pouco vago e insuficiente.
Talvez a melhor resposta seja a que define a normalidade como
“estar em paz consigo mesmo”.
|
Todavia, surge-nos espontaneamente a pergunta: “É um bem,
i do ponto de vista evolutivo, ‘estar em paz’? ”
A
menos que se tenha chegado ao ápice do caminho evolutivo
humano, à plena integridade e perfeita harmonia, a paz náo significa
mais do que paralisação e acomodação passiva a uma posição
alcançada. De fato, Jung afirma:
57
“Ser ‘normal’ é ura esplêndido ideal para quem não consegue sê-lo, mas, para todos aqueles
“Ser ‘normal’ é ura esplêndido ideal para quem não consegue
sê-lo,
mas,
para
todos
aqueles
que
possuem
dotes
superiores
à
média (
),
a normalidade significa restrição, um ‘leito de Procusto’,
um
peso
insuportável,
uma
terrível
esterilidade
sem esperança.”
(De O homem moderno à procura de sua Alma.)
Não há progresso, a bem da verdade, sem conflitos, sem crises
interiores, sem sofrimentos, sem luta contra a adaptação inimiga
da renovação, da evolução. E isso é verdade também no que toca à
evolução das formas materiais, a qual foi possível justamente por ter
havido periodicamente organismos e formas que “não se adaptaram”
e
que procuraram, talvez lutando e sofrendo, uma nova maneira de
se
exprimir.
A neurose é justamente isto: a tentativa de uma nova expressão
de vida que se choca contra cristalizações, apegos ao passado, confli­
tos emotivos não-resolvidos etc,
Essa maneira de considerar as neuroses poderá parecer
arriscada a quem se acostumou a considerar os distúrbios psicoló­
gicos, as desarmonias, os desequilíbrios do comportamento, os con­
flitos interiores somente como expressões de imaturidade, como
minoração, ou até mesmo como sintoma de loucura.
Tal conceito de neurose, limitado e unilateral, já está ultrapas­
sado, e a atitude atual de quase todas as escolas mais avançadas
da psicologia de profundidade, mesmo não ignorando determinados
aspectos negativos das neuroses, é a de considerá-las sobretudo como
uma oportunidade de crescimento interior, como um esforço da
personalidade por se libertar das ligações com o passado. Um esfor­
ço, diga-se, nem sempre vitorioso, mas que, todavia, indica a presença
de poderosas energias evolutivas.
A saúde psíquica, como dissemos anteriormente, é dom de
58
quem está em paz consigo mesmo, mas certamente a paz não permite progredir, enquanto que
quem está em paz consigo mesmo, mas certamente a paz não permite
progredir, enquanto que o conflito, a dor, a infelicidade são, às
vezes, mais necessários para a saúde da alma do que a paz.
Nos tempos de Freud, pensava-se que a neurose tivesse as suas
raízes apenas no passado, e que fosse originada por complexos
infantis que permaneceram sem solução, sendo, portanto, conside­
rada como um sinal de imaturidade e de desarmonia psíquica. Mas
jamais alguém havia questionado por que tais complexos formavam-
se em alguns garotos e não em outros.
Falou-se de constituição psicopática, de hereditariedade etc.,
mas ninguém pensou na possibilidade de que talvez a causa pudesse
residir numa determinada sensibilidade, numa natureza diferente,
mais rica, mais complexa, mais aberta ao sofrimento e, portanto,
mais dotada de possibilidades de desenvolvimento
E não são, de fato, o artista, o místico, o gênio, normalmente
as pessoas com maiores tendências à anormalidade, àqueles sofri­
mentos, àquelas crises que as pessoas medíocres não conhecem?
É
como se a maior riqueza interior, a presença de energias
criativas, de faculdades paranormais constituísse, ao mesmo tempo,
um dom e um perigo, uma oportunidade de progresso e umainsídia,
um patrimônio de forças poderosas que seria necessário saber usar,
canalizar, para transformá-las em instrumento de evolução.
De qualquer maneira, aceitamos, essa visão otimista das neuro­
ses como uma hipótese e tratamos, antes de mais nada, de entendê-
las de um ponto de vista médico.
A neurose é considerada uma doença sem causa fisiológica
conhecida, portanto uma doença “funcional” , sem lesões orgânicas,
que, todavia, pode provocar também distúrbios físicos.
A neurose não deve ser confundida com a psicose.
59
Essa é uma distinção extremamente importante e que deve ser levada em consideração para náo
Essa é uma distinção extremamente importante e que deve ser
levada em consideração para náo se incorrer em mal-entendidos e
confusões.
Pelo termo “psicose”, costumam-se indicar genericamente
todas as doenças mentais verdadeiras (por exemplo, psicose esquizo­
frênica, psicose maníaco-depressiva etc.), nas quais o eu é comple­
tamente obnubilado e submerso pelas forças obscuras da psique,
enquanto que, nas neuroses, o eu conserva as suas capacidades de
autocrítica, de julgamento, quando não de autocontrole, e resiste,
luta, não se entrega.
Esse é um critério de distinção fundamental, muito importante
para saber se os distúrbios psíquicos de um indivíduo (que às vezes
podem ser muito semelhantes em ambos os casos) são psicóticos
ou neuróticos.
Além do mais, a neurose pode ser curada e, muito freqüente­
mente, tratada através da psicoterapia, enquanto que a psicose quase
sempre não tem cura.
Existe uma ampla gama de sintomas neuróticos, dós mais
leves aos mais graves (ansiedade, timidez, angústia, depressão, incapa­
cidade para o trabalho, incapacidade para amar, fobia, idéias fixas
etc.). Todavia, não posso, no momento, deter-me sobre esse aspecto
estritamente médico da neurose neste volume, pois a minha intenção
é enquadrar essa doença na concepção psicoespiritual do homem e
procurar compreender as suas causas profundas e reais.
Hoje, a ciência psicológica oficial redimensiona o conceito de
neurose, não só porque a concepção de inconsciente se ampliou
e se aprofundou, mas também porque começa a se admitir no
homem a presença de uma Alma, de um quid espiritual, de um
centro de consciência superior.
60
A primeira coisa que se constatou foi o fato de que as raízes da neurose
A primeira coisa que se constatou foi o fato de que as raízes
da neurose não devem ser procuradas somente na infância longínqua,
no passado, mas também no presente; por isso se fala de “neuroses
atuais”, geradas por conflitos recentes ou atuais, por problemas
psicológicos contemporâneos, próprios do momento evolutivo que o
indivíduo atravessa.
Jung admite também uma “neurose da meia-idade”, que atinge
os indivíduos maduros que julgam ter chegado a um ponto morto
e não sentem mais qualquer satisfação em seu trabalho, em sua
maneira de ser, sem saberem por quê.
De acordo com Jung, essas neuroses da idade madura são
extremamente importantes e significativas, pois são o sintoma de
um crescimento interior, de uma reviravolta na vida, provocados por
uma exigência profunda de se chegar a uma harmonia e a uma tota­
lidade do ser. Em outras palavras, é o Si que pressiona para se mani­
festar, é o lado espiritual que, negligenciado, provoca o sofrimento
e os sintomas neuróticos.
“O homem possui uma espécie de função religiosa natural”,
afirma Frieda Fordham, aluna de Jung, “e (
]
a sua saúde psíquica
e a sua estabilidade emotiva estão em relação com uma expressão
adequada desse sentimento, justamente como se verifica com a
expressão do instinto.”
Também Victor Frankl, conhecido psicanalista alemão, fala em
“neuroses noógenas”, querendo indicar com esse termo aquelas
neuroses que derivam da aspiração frustrada de encontrar um “sen­
tido” para a vida.
Caruso, em seu livro já citado, Psicanalisi e sintesi deli’esis-
tenza, afirma: “ [
]
Trata-se
(
)
de reconhecer, da maneira mais
explícita, o caráter metafísico e teológico da neurose, de modo que
61
a neurose será sem dúvida isenta de finalidade e de sentido se não for interpretada
a neurose será sem dúvida isenta de finalidade e de sentido se não for
interpretada como uma fuga frente ao Absoluto, quase uma nostalgia
do Absoluto ”
Muitos estudiosos mais modernos consideram a neurose até
mesmo um sinal de uma evolução maior e de uma maior riqueza de
possibilidades, que, todavia, se chocam com resistências e obstáculos
inconscientes inerentes ao indivíduo.
É como se o neurótico não quisesse reconhecer essas suas
maiores possibilidades, como se tivesse medo de obedecer à força
evolutiva, que requer dele superações, aceitação e sacrifício do eu
egoísta. Eis por que (sempre citando Caruso) “ [
]
a neurose é,
ao mesmo tempo, uma traição contra a vocação e inflexível confir­
mação do chamado.”
Esse é o aspecto negativo da neurose, que se poderia sintetizar
nos seguintes erros:
1) orgulho;
2) sentimento de culpa;
3) agressividade;
4) absolutização do relativo.
O primeiro erro, isto é, o orgulho, ou soberba neurótica,
característica comum a todas as pessoas que sofrem de neuroses,
“consiste no fato de que o neurótico identifica-se com a própria
imagem ideal e recusa, no inconsciente, os movimentos incompa­
tíveis com essa imagem ideal ”
Isso acontece provavelmente porque o neurótico tem, mais do
que os outros indivíduos, a percepção daquilo que deveria ser o
homem perfeito, o Si, mas não percebe que, antes de realizá-lo na
própria consciência, é preciso percorrer um longo caminho e
62
reconhecer, inclusive, os próprios lados obscuros e aceitá-los. O sentimento de culpa, de que o
reconhecer, inclusive, os próprios lados obscuros e aceitá-los.
O sentimento de culpa, de que o neurótico sofre continua­
mente, surge justamente desse orgulho, que, todavia, ele não quer
reconhecer, mas que lhe impede tomar consciência de sua própria
realidade e estabelecer uma hierarquia exata dos valores.
A agressividade, que muitos estudiosos consideram o traço
principal do neurótico, deriva justamente do sentimento de um
ego supervalorizado que se choca contra a realidade da vida e se
sente frustrado e não-correspondido.
De tudo isso deriva a absolutização do relativo, que o envolve
cada vez mais na mentira, causa de penosos conflitos e sofrimentos.
Em outras palavras, o neurótico é um indivíduo que luta
com tendências opostas, que pressente o divino mas é levado por
essa revelação a não aceitar o seu destino de pioneiro e precursor,
mas mesmo assim sente-se impelido para altas metas.
“A vocação do neurótico poderia ser chamada de vocação
para a existência trágica. É contra essa vocação que ele se debate.
Ele não quer reconhecé-la, como o fez um homem, que era um
homem de Deus, e que, todavia, estava em luta com o próprio
Deus: Jó” (Caruso, op. cit.).
Para quem está acostumado a considerar as neuroses somente
como manifestações de uma psique doente, imatura, desarmônica,
tudo o que foi dito poderá parecer exagerado e sem base concreta.
Todavia, as opiniões acima expostas são as de estudiosos muito
conhecidos e apreciados como Jung, Victor Frankl, Assagioli,
Caruso, Daim e muitos outros, portanto dignas de confiança.
Assim, podemos inserir o sofrimento que brota da neurose no
quadro do caminho evolutivo do homem para a lenta e gradativa
harmonização e composição da dualidade que está na base de sua
63
natureza e que constitui uma luz da consciência e a totalidade do ser. 0 homem
natureza e que constitui uma luz da consciência e a totalidade do ser.
0 homem
deve
reconhecer
essa
sua
dualidade
para poder
progredir, deve reconhecer que somente através da síntese entre
consciente e inconsciente, luz e sombra, Espírito e matéria, poderá
alcançar a unidade do Si.
Por isso, o movimento evolutivo é uma espiral, seguindo-se
a cada progresso um aparente regresso.
Por esse motivo também, somos sempre colocados em face da
necessidade de conciliar os opostos, que se apresentam de infinitas
maneiras e aspectos em nossa vida, sobretudo em nós mesmos.
Reconhecer e aceitar a natureza inferior, o nosso “lado obs­
curo”, para transformá-lo e aceder à natureza superior, é a atitude
correta que deveríamos sempre adotar para sair da prisão da falsa
consciência que o eu pessoal criou para si, julgando-se soberano na
psique, encerrado em seu orgulho, e sem saber dos condiciona­
mentos, das ilusões, dos automatismos que o sufocam como uma
túnica de Nesso. Caso contrário, nós mesmos criaremos doenças psí­
quicas que irão dificultar e provocar um enorme atraso no despertar
da verdadeira consciência.
64
Capítulo VII O EU E SUA MÁSCARA “A consciência do homem médio é essencialmente uma
Capítulo VII
O EU E SUA MÁSCARA
“A consciência do homem médio é essencialmente uma
‘falsa consciência’, consistindo em fingimentos e ilusões,
enquanto justamente aquilo de que ele não tem cons­
ciência constitui a realidade.” (Erich Fromm: Psicanalisi
e Buddismo Zen, p. 115.)
Não foi por acaso que a antiga filosofia chinesa escolheu como
símbolo do Absoluto, da Totalidade Divina e do Homem auto-reali­
zado a figura do Tao, que pretendia significar a união dos dois pólos
do Espírito e da Matéria, síntese dos contrários, do Yang e do Yin
(masculino e feminino), do consciente e do inconsciente, da luz e da
sombra e, portanto, completamento e totalidade.
De fato, todo o processo evolutivo do homem tem por finali­
dade fazer com que ele alcance esta perfeição global, que surge do
equilíbrio e da síntese dos dois pólos de sua natureza dual. Não é
fácil, porém, alcançar tal meta, pois, antes de alcançar o equilíbrio,
oscilamos longamente entre os dois pólos e passamos por fases alter­
nadas de preponderância de um ou de outro aspecto.
Nós, ocidentais, em geral temos a preponderância do pólo que
representa o consciente, isto é, sofremos de uma hipertrofia do
consciente, seja porque somos por natureza extrovertidos, seja
65
porque vivemos numa sociedade que nos condiciona, que nos deter­ mina e que nos obriga
porque vivemos numa sociedade que nos condiciona, que nos deter­
mina e que nos obriga a criar um eu inautêntico, feito de acomo­
dações e compromissos, automatismos e hábitos.
Infinito é o número de pessoas que se encontram nessa situação,
conscientemente ou não, e que, em conseqüência dela, sofrem de um
mal-estar desconhecido, de um profundo desconforto, pois estão
alienadas das raízes autênticas do seu ser, separadas do outro pólo
de sua natureza, que não representa somente o lado instintivo e
espontâneo, mas também todas as potencialidades mais altas, o lado
espiritual inconsciente.
Assim, em numerosos indivíduos, cria-se uma situação para­
doxal, isto é, aquilo que eles chamam “consciência” é, ao contrário,
uma “falsa consciência” , condicionada e ilusória, enquanto aquilo
que chamam “inconsciente” esconde o seu verdadeiro ser, a sua
autenticidade.
A sua verdadeira individualidade é inconsciente e, se tenta
se exprimir, é continuamente impedida pela falsa consciência, pelo
eu inautêntico, a “pessoa”, conforme as palavras de Jung, ou a
“personalidade frontal” de Aurobindo, semelhante a uma máscara
que recobre o semblante do verdadeiro Eu.
Como se deu isso?
Como se formou esse eu inautêntico?
Nós nascemos livres, espontâneos, autênticos, não-condicio-
nados. De fato, a criança é instintiva, desinibida, verdadeira, mas não
tem uma individualidade distinta, não tem um sentido do eu. Ela
não distingue entre si e os outros: tem uma consciência ego-cósmica,
por isso oferece as condições ideais para ser influenciada, condicio­
nada, plasmada de acordo com as pressões exteriores que lhe são
transmitidas pelos pais, pelo ambiente, pela educação, pela sociedade
em que vive
66
if Assim, pouco a pouco, sem se dar conta disso, ela reprime a f sua
if Assim, pouco a pouco, sem se dar conta disso, ela reprime a
f
sua verdadeira natureza, as suas verdadeiras faculdades, sendo obri­
gada a construir um eu fictício, como que uma personagem que
recita o seu papel.
Mais tarde, na idade adulta, a necessidade de alcançar uma
posição, de inserir-se numa sociedade, num sistema, continua a
t obrigar o indivíduo a se reprimir, a seguir as exigências coletivas, ao
invés das exigências individuais, de modo que a “máscara” se conso­
lida e a cisão se toma cada vez mais profunda.
A
sua verdadeira individualidade, porém, existe, ainda que de
maneira inconsciente, e pressiona continuamente para se manifestar,
para se exprimir.
A
tendência para a auto-realização, para a atuação de si, que
representa justamente a exigência do verdadeiro eu por se mani­
festar, é, no entanto, um fato já observado por todas as escolas
modernas de psicologia, uma exigência que não pode ser sufocada e
ignorada. De fato, chega um momento em que essa pressão do nosso
Si se manifesta, mais ou menos forte e conscientemente, e então tem
início o mal-estar, o conflito, a crise que cedo ou tarde leva à supe­
ração da “falsa” consciência e ao reencontro com a realidade do ser.
Talvez a humanidade inteira experimente hoje essa crise, pois
as forças autênticas, espontâneas, verdadeiras, foram por muito
tempo reprimidas nos séculos passados por um sistema de regras, de
esquemas, de condicionamentos que levaram o homem à alienação
e à criação de um falso eu.
É
um período de reação, de rebelião, que pode parecer exces­
sivo e negativo se encarado somente do exterior, mas que revela, a um
exame mais atento, a tremenda luta que todo indivíduo, por si só,
e a sociedade, coletivamente, travam para reencontrar os verdadeiros
valores e as fontes autênticas do ser.
67
Hoje está acontecendo (conforme afirma o Dr. Assagioli em seu escrito Spiritualità dei 1900, citando
Hoje está acontecendo (conforme afirma o Dr. Assagioli em
seu escrito Spiritualità dei 1900, citando o pensamento de Keyser-
lyng) “uma revolta das forças telúricas. O despertar das forças instin­
tivas primordiais e irracionais, mas sãs e vivas, que constitui uma
reação, uma volta à origem, necessária para abandonar aquele cami­
nho sem saída, para salvar a civilização de uma perigosa decadência e
decomposição” .
A dificuldade reside no fato de que nem sempre há uma
consciência do que realmente está oculto por trás da rebelião, da
desmistificação, da dessacralização, de quais sejam as energias que
querem se manifestar. Se existisse uma clara tomada de consciência
do problema, tais energias poderiam ser corretamente canalizadas e
se tomariam construtivas e benéficas.
No dia em que isso acontecer, a humanidade terá chegado à
revelação de novos e mais autêntivos valores, de mais altos e genuí­
nos ideais, e entenderá a verdadeira finalidade da vida, a verdadeira
natureza do homem. Por enquanto, somente uma minoria chegou
a essa tomada de consciência, demonstrando, com sua clareza de
visão e com a sua maturidade, como isso é possível.
No indivíduo, isoladamente, a luta entre o impulso para a
realização autêntica de sua natureza espiritual e o eu superficial e
fictício, como dissemos, provoca graves crises, que podem ser
reconhecidas conscientemente ou, então, se desenvolverem sob o
nível da consciência.
Todavia, quanto mais grave é a crise, mais próximo está o
momento da vitória, pois significa que o Si, o Eu real, com todas as
suas faculdades e energias, está a ponto de se manifestar e a pressão
que dele provém produz um sofrimento que, simbolicamente é
semelhante ao das dores do parto. E, de fato, a revelação do nosso
68
verdadeiro ser é exatamente como um nascimento, um “vir à luz” , e podemos dizer
verdadeiro ser é exatamente como um nascimento, um “vir à luz” , e
podemos dizer que não nascemos completamente enquanto não
nos tomamos conscientes da nossa verdadeira natureza, e não alcan­
çamos aquela totalidade e aquela integridade que nos tornam aptos a
sermos chamados homens.
“O nascimento não é um ato único, mas um processo”, diz
Erich Fromm. “A finalidade da vida consiste em nascermos comple­
tamente, mesmo que a sua tragédia esteja no fato de a maioria de
nós morrer antes de ter conseguido nascer.” (Psicanalisi e Buddis-
m oZen,$.91.)
Aqueles que “jamais conseguem nascer completamente” são os
que se identificaram completamente com o eu superficial, com a
“máscara” . Estão completamente separados da consciência real e
aceitaram plenamente o seu papel social, e não sofrem com isso.
Não têm crises. São pessoas que vivem numa feliz inconsciência.
No outro extremo, ao contrário, estão aqueles que rejeitam
totalmente o eu inautêntico, rebelam-se contra ele e se tomam ina-
daptados, desenraizados, incapazes de inserir-se na sociedade, de
cumprir um trabalho, de instaurar relações construtivas. São infeli­
zes, pessimistas, isolados.
Não aceitam o compromisso, a máscara, mas tampouco são
capazes de exprimir as suas verdadeiras possibilidades, o seu
verdadeiro Eu.
Entre esses dois extremos, está o grande número daqueles que
procuram permanecer em equilíbrio, com um grau menor ou maior
de sofrimento e de compromisso, até que, justamente devido ao
atrito entre duas exigências, a coletiva e a individual, comece a
despertar a ‘Verdadeira” consciência, a individualidade, que não é
nem a “pessoa” nem o inconsciente, mas uma síntese superior dos dois.
69
Então o homem começa a entender o que significa auto-reali­ zar-se, o que significa “despertar
Então o homem começa a entender o que significa auto-reali­
zar-se, o que significa “despertar da consciência”, no que consiste a
integridade e a totalidade do ser.
Ele percebe subitamente que a única felicidade é saber realizar-
se na própria autenticidade e verdade, as quais provêm de uma cons­
ciência nova e superior, a da sua natureza espiritual e divina: o Si.
Hoje, a psicologia oficial também está se orientando nesse sen­
tido, como já mencionamos, fazendo-se cada vez mais uma psico­
logia otimista, uma “terceira força” (como é chamada nos Estados
Unidos), que se contrapõe às duas principais escolas psicológicas
precedentes, a freudiana e a behaviorista.
Essa psicologia otimista vê o homem como um ser em contí­
nuo crescimento, voltado à sua auto-realização, ao “ser” plenamente,
e, neste ser, reencontrando não somente a totalidade e a harmonia,
mas a realidade de sua natureza divina.
Como então conciliar esse impulso para a nossa auto-reali­
zação, para sermos nós mesmos, no verdadeiro e mais amplo sentido
da palavra, com a necessidade de nos inserir na sociedade, de nos
adaptar à coletividade e ao ambiente em que vivemos?
Como evitar que sejamos condicionados, vítimas de influências
que nos induzem ao compromisso e à construção de um personagem
fictício?
A única solução é saber encontrar o equilíbrio entre esses dois
pólos, em saber regular a oscilação entre essas duas exigências,
criando um fluxo rítmico de energias entre o interior e o exterior,
entre o consciente e o inconsciente.
É preciso saber evitar o contraste dramático, a tensão desgas­
tante, e criar, ao contrário, uma relação dialética, num primeiro
momento, e, enfim, a harmonia.
70
, A marca da pessoa realmente madura é o equilíbrio e a harmonia. O indivíduo
, A
marca
da
pessoa
realmente
madura é o equilíbrio e a
harmonia.
O indivíduo que se pode chamar maduro é interiormente livre,
procura auto-realizar-se escolhendo o caminho mais apto para
exprimir as suas reais potencialidades e não um caminho que o
obrigue a limitar-se ou a falsificar-se. Isso pressupõe o conheci­
mento de si mesmo e das próprias qualidades e tendências, além de
um conhecimento geral da natureza do homem. Além do mais, o
indivíduo maduro e harmonioso, mesmo que deva, em parte,
adaptar-se e limitar-se, procura não criar para si um eu fictício,
procura não identificar-se com o seu personagem. Em outras pala­
vras, não se aprofunda totalmente em seu “papel”, mas o reconhece
somente como um papel e só. Não se deixa levar completamente,
não perde a sua liberdade interior, e não esquece o que ele é real­
mente. É fiel a si mesmo.
Dizia um grande mestre zen da época Tang: “Um homem que
seja dono de si, seja onde for mantém-se fiel a si mesmo.”
Trata-se, portanto, de desenvolver um alto sentido de objetivi­
dade e de capacidade de separação intema, de desidentificação com
aquilo que é somente instrumental, sabendo que se pode muito bem
ser o que se é, mesmo levando em consideração as exigências dos
outros e do ambiente.
Pode-se chegar a isso pela compreensão da verdadeira função
da “pessoa” e também de sua utilidade,
i De fato, o homem, ao lado do impulso para auto-realizar-se
como indivíduo, tem em si, inata, inclusive, a exigência de sociali-
dade, como foi constatado por Alfred Adler e Pierre Janet, que falam
de um profundo e angustiado “sentiment d ’incomplètude” que se
forma no espírito do homem quando se verifica uma adaptação
falha à coletividade.
71
Portanto nío devemos nos esquecer de que, se é verdade que há em nós o
Portanto nío devemos nos esquecer de que, se é verdade que
há em nós o impulso para realizar a nossa autenticidade e liberdade,
há também o impulso de inserção no ambiente e de instauração de
relações com os outros.
“O homem é um ser que vive de relações e através de relações,
e se toma freqüentemente o que é através de ligações com aquilo
que lhe é distinto.”
Portanto a verdadeira função da “pessoa” não é a de mascarar,
alterar, esconder a sua verdadeira natureza, mas tomá-la conhecida,
aceitável, compreensível aos outros. É um meio de relação, de
relacionamento e de expressão das nossas energias.
Somos nós, que, ainda inconscientes da nossa verdadeira
natureza, nos identificamos com esse meio de relação o qual julga­
mos ser o verdadeiro eu, justamente porque ainda não conhecemos
o eu verdadeiro e nos deixamos condicionar pelo ambiente, pois a
nossa verdadeira consciência ainda não despertou.
Portanto a personalidade, ou “pessoa”, deveria tomar-se,
à
medida que toma consciência de si mesma, não algo que nos sufoca
e que nos impede de exprimir o que sentimos, mas o instrumento
de união e de expressão, não sem alguma adaptação e “redução”,
necessária ao ambiente.
Deveria ser como todos os outros meios de expressão de que
nos servimos para exteriorizar a nossa realidade e para nos comuni­
carmos com os outros, mesmo não conseguindo pleno sucesso,
como, por exemplo, a palavra, que procura exprimir o pensamento,
e o adapta e o restringe na passagem da idéia para o conceito
Nós vivemos de relações e devemos aprender a “ciência das
relações” , que exprime uma tentativa por parte do homem de
conciliar as exigências do desenvolvimento individual com as
exigências do grupo humano ao qual ele pertence.
72
Mesmo que essas duas exigências pareçam contraditórias a ponto de criar momentos de conflito e
Mesmo que essas duas exigências pareçam contraditórias a
ponto de criar momentos de conflito e de crises, na verdade há entre
elas uma misteriosa relação de interdependência. De fato, se é
verdade que o indivíduo não pode criar uma adaptação sadia ao
ambiente se antes não tiver se realizado, é também verdade que, para
realizar-se, deve saber manter relações com os outros.
Há aspectos positivos e negativos em ambas essas exigências
do homem, pois a adaptação social pode levar à criação da “falsa”
consciência e da máscara, e o impulso à auto-realização pode levar
ao individualismo excessivo, ao isolamento, à exclusividade e à
inadaptação. É preciso prestar atenção para não confundir auto-realização
com auto-afirmação, isto é, imposição do próprio eu egoísta e
inautêntico aos outros.
A verdadeira auto-realização leva automaticamente ao senso
de sociabilidade, de abertura para os outros, à capacidade de ins­
taurar relações harmoniosas, pois somente quem criou relações
corretas para si pode instaurar relações justas com os outros.
Com base no que foi dito, podemos deduzir que existe uma
pseudo-adaptação social, fundada sobre o compromisso e o condicio­
namento, e uma verdadeira adaptação baseada numa real e autêntica
capacidade de relação e de equilíbrio que dá possibilidade de viver
contemporaneamente a vida individual e a vida coletiva.
A “máscara” nasce da pseudo-adaptação social e existe ate'
quando o nosso verdadeiro eu permanecer inconsciente, mas, quando
despertamos e reencontramos a nossa verdadeira essência, essa
máscara já não mais serve. Ela desaparece ou, então, ajusta-se
perfeitamente aos lineamentos do nosso verdadeiro semblante.
Portanto o problema do ser na coletividade resolve-se pelo
73
reconhecimento dos dois pólos da nossa natureza, que se exprimem por duas exigências fundamentais: a
reconhecimento dos dois pólos da nossa natureza, que se exprimem
por duas exigências fundamentais: a dos desenvolvimentos individual
e social, os quais não podem ser ignorados; antes, devem ser equili­
brados e conciliados por serem interdependentes.
É preciso evocar o “terceiro fator”, capaz de proporcionar
objetividade e agir como elemento estabilizador e conciliador, e que
saiba ver o homem não somente como um eu que procura atuar
e exprimir-se individualmente, mas também como parte de uma
coletividade humana.
Eis por que o Si, que exprime a natureza espiritual do homem, a
sua parte divina, é síntese dos dois pólos, pois sabe conciliar o
indivíduo em sua singularidade e toda a humanidade, consciência
autônoma e consciência de grupo.
Essa é a revelação maior que o homem atinge ao reencontrar-se
a si mesmo, a revelação de que o eu não tem uma consciência
exclusiva, fechada em si mesma, mas uma consciência estreitamente
relacionada por misteriosos fios a todos os outros homens e a todo o
cosmo.
74
Capítulo VIII PODERES SECRETOS DO INCONSCIENTE Chegou o momento de falarmos a respeito de um
Capítulo VIII
PODERES SECRETOS DO INCONSCIENTE
Chegou o momento de falarmos a respeito de um outro
aspecto muito importante do inconsciente, aspecto que talvez tenha
sido deixado um pouco de lado pela maioria dos estudiosos do
íntimo da alma, mas que, entretanto, é de máxima utilidade,
e poderia nos fornecer o meio de resolver inúmeros problemas
e abrir o caminho para novas possibilidades e faculdades.
Esse aspecto é a utilização voluntária do inconsciente e das
potencialidades e energias nele existentes.
Os iogues orientais, desde tempos remotos, conhecem os
métodos e as técnicas para se obter a colaboração do subconsciente
e sabem que nele se ocultam poderes secretos e faculdades misteriosas.
O homem ocidental, ao contrário, tendo reforçado a parte
consciente, e sendo mais polarizado na mente racional, sem se dar
conta produziu uma fissura entre os dois pólos da sua natureza;
e não somente isso: como vimos no capítulo precedente, fez de si
mesmo um personagem inautêntico e dificultou o seu caminho
para recarregar-se de energia e de vitalidade e para ter a preciosa
colaboração da nascente inesgotável de força oculta nas profundezas
de si mesmo.
75
“Dentro de cada um de nós, um Criador Onisciente colocou uma maravilhosa reserva de coragem,
“Dentro de cada um de nós, um Criador Onisciente colocou
uma maravilhosa reserva de coragem, de energia, de sabedoria que
raramente utilizamos. Essa reserva é o subconsciente, ou, mais
exatamente, o inconsciente”, escreveu o Dr. Balton, eminente
psiquiatra norte-americano.
E isso é verdade, pois o inconsciente, como já dissemos em
outras oportunidades, não é constituído somente por energias
psíquicas reprimidas, instintos primordiais removidos, ou lembranças
estratificadas, mas também por forças e potencialidades de todos os
níveis, sendo, inclusive, a ponte que nos liga com a nossa parte
espiritual, com a Mente Universal e com o Divino.
O conhecimento integral de nós mesmos e a anexação do
inconsciente à consciência não tem, portanto, somente a finalidade
de fazer com que nos auto-realizemos em nossa integridade e
autenticidade, mas também a de nos colocar em contato com um
manancial de força, de sabedoria, de criatividade, de inspiração,
que se esconde naquela dimensão de nossa consciência ainda
inconsciente, mas que, se for corretamente utilizada, poderá fazer
do homem um novo ser.
Mas como abrir-se a tal nascente?
Como superar a barreira que nós mesmos criamos entre
consciente e o inconsciente?
Como utilizar as potencialidades latentes e a infinita sabedoria
oculta no mais profundo de nós mesmos?
É
um trabalho lento e gradual, que inicialmente pode parecer
difícil mas que, na realidade, é somente um treino para alcançar
uma determinada atitude interna, inabitual para nós ocidentais:
a atitude de abandono, de silêncio, de abertura interior
Trata-se de fazer com que o eu consciente se cale, de colocar
76
de lado a racionalidade e permitir o aparecimento e a operação das forças espontâneas, “verdadeiras”,
de lado a racionalidade e permitir o aparecimento e a operação das
forças espontâneas, “verdadeiras”, profundas de nossa natureza.
Podemos começar a sentir a eficácia dessa atitude quando
temos algum problema grave para resolver, quando nos deparamos
com uma situação aparentemente sem saída, quando devemos tomar
uma decisão importante e não sabemos que caminho seguir.
Em todos esses casos, ao invés de continuarmos a nos debater,
a nos agitar, a pensar em várias soluções, é preciso saber esperar
sem fazer nada.
Alguém poderia ter a impressão de que esse é um comporta­
mento passivo, negativo, de pessoas incapazes ou pessimistas. Ao
contrário, se soubermos esperar com um profundo sentimento
de confiança, de completo abandono, de “obediência interna” às
forças misteriosas que existem em nós, cedo ou tarde será possível
encontrar a resposta ou a solução para o nosso problema, com
um lampejo repentino, semelhante a uma iluminação. Pois terá
sido o nosso inconsciente que trabalhou para nós em silêncio,
atingindo a infinita fonte de sabedoria e de inspiração que jaz
escondida no profundo do homem.
Nós somos mais fortes, mais sábios, mais inteligentes do que
julgamos ser, pois a nossa mente inconsciente está em contato com
a
Mente Universal, e o nosso verdadeiro Eu faz parte do Eu-Total,
e
nós, se soubermos nos abrir, poderemos nos relacionar com
poderes e energias que transcendem a consciência ordinária limitada
e ilusória.
Jung
também
admite
isso
quando
afirma, em seu livro O
mistério da flor de ouro (p. 17), escrito em colaboração com o sinó-
logo alemão Richard Wilhelm:
77
“Precisamos deixar que a alma opere.Essa é uma verdadeira arte para nós, sobre a qual
“Precisamos deixar que a alma opere.Essa é uma verdadeira arte
para nós, sobre a qual uma infinidade de homens nada compreen­
dem, já que, continuamente, a sua consciência intervém para ajudar
a corrigir, a negar e, de qualquer maneira, não é capaz de deixar
sem perturbações o simples desenvolvimento do processo psíquico”
(p. 17).
De fato, trata-se simplesmente de um “processo psíquico”
natural, que permite às forças do inconsciente atuar, ajudando-nos
e fazendo aparecer a solução de problemas aparentemente insolúveis,
de maneira tão justa e sábia como a mente consciente jamais
conseguiria.
Na realidade, a verdadeira natureza do inconciente é um pouco
misteriosa e obscura, mas devemos procurar apreendê-la para
entender suas leis e suas faculdades, pois, uma vez compreendido
isso, teremos em mãos uma verdadeira técnica para utilizar as formi­
dáveis forças que estão sem uso dentro de nós.
Jung afirma, em seu livro Psicologia e Alquimia, que o
inconsciente pode ser comparado à “matéria primordial” dos antigos
alquimistas, substância misteriosa, cheia de poderes latentes, que
permeia todo o cosmo: a Mãe, em sentido universal, o aspecto
feminino da manifestação, o Yin da filosofia chinesa, a Shakti do
hinduísmo: obscura força de infinitos poderes, adormecida em todas
as coisas, inclusive no homem, pronta a ser evocada e utilizada.
De fato, a parte consciente, como já mencionamos, representa
o
pólo masculino (o Yang), da nossa natureza, e o inconsciente
o
pólo feminino (o Yin), receptivo, plástico, criativo.
Se conseguíssemos nos abrir para esse pólo feminino e nos
tom ar donos de sua força latente, não somente chegaríamos à
78
harmonia e à auto-realização, mas seriamos capazes de contar continuamente com a sua colaboração, que
harmonia e à auto-realização, mas seriamos capazes de contar
continuamente com a sua colaboração, que agora excluímos de nossa
consciência fechando-nos na prisão do nosso eu racional.
A atitude a ser tomada é, como já dissemos, a de abertura,
de abandono, de silêncio interno: atitude que, para as pessoas
extrovertidas, ativas e acostumadas a resolver tudo com a mente,
não só não é fácil, como não inspira confiança.
É preciso, então, antes de mais nada, conquistar essa
confiança, fazer experiências e tentativas, procurar compreender
a natureza “científica” e técnica dessa atitude.
Os iogues orientais, como dissemos no início deste capítulo,
ministram aos seus alunos, desde a infância, exercícios, práticas
e treinamentos destinados a obter a colaboração do inconsciente,
que eles consideram um poderoso amigo interior.
Eles ensinam aos seus discípulos que dentro de cada um há
um colaborador silencioso, mas poderoso, um manancial profundo
de energias e de sabedoria a que podem ter acesso continuamente, e
não somente colocando-se na atitude de abertura e abandono, mas,
também, dando-lhe ordens precisas e obrigações para resolver
problemas e interrogações, para preparar trabalhos intelectuais
e ajudar de todas as formas a mente consciente em seu trabalho.
No Ocidente, o primeiro estudioso que promoveu a utilização
do inconsciente foi Emile Couè, que o utilizou para fins auto-
educativos e terapêuticos.
Ele teve o mérito de provar que “através de uma técnica
psicológica extremamente simples, sem ocultismos e sem elementos
de mistério, podemos alcançar em nós mesmos, somente com o
nosso próprio pensamento, realizações benéficas para a nossa saúde
e para o nosso caráter e cumprir com surpreendente facilidade as
79
funções da mente”. (Do prefácio ao livro O domínio de nós mesmos, de Emile Couè.)
funções da mente”. (Do prefácio ao livro O domínio de nós mesmos,
de Emile Couè.)
Pouco tempo depois, o conhecido psicólogo suíço Charles
Baudoin estudou e experimentou esse método de uma forma mais
precisa e mais científica, ilustrando-o amplamente em seu livro
Psychologie de la sugestion.
A palavra “sugestão” não deve nos induzir a enganos ou
provocar mal-entendidos, pois o método estudado por Couê e
Baudoin nada tem a ver com aquele praticado por determinadas
escolas, como a de Nancy, por exemplo, que utilizavam a hipnose
e a imposição da vontade do médico sobre o paciente. Este é muito
diferente, pois constitui-se na instauração de uma colaboração
harmoniosa com o subconsciente em plena consciência e em plena
liberdade.
O método da sugestão (ou da auto-sugestão, quando praticada
pelo próprio indivíduo) poderia ser chamado mais adequadamente
“método das sugestões ao inconsciente”, pois na realidade trata-se
exatamente disso.
Ele aproveita a sensibilidade e receptividade do inconsciente,
sua tendência a receber “impressões”, a obedecer a estímulos e
sua faculdade de reelaborar e realizar em expressão concreta qual­
quer idéia ou imagem que o atinja.
“Nós somos como uma câmera cinematográfica que funciona
ininterruptamente, de modo que, a todo momento, um novo trecho
de filme virgem é impressionado por imagens que se encontram
à
frente da objetiva. E as impressões assim formadas não são inertes;
elas operam em nós, são forças vivas que estimulam e provocam
outras forças interiores e que tendem a produzir os estados de
espírito, os estados físicos e os atos exteriores que lhe corres­
pondem.” (R. Assagioli: Venenos e remédios psicológicos.)
São exatamente essa extrema sensibilidade e plasticidade do inconsciente, juntamente com seu dinamismo e criatividade,
São exatamente essa extrema sensibilidade e plasticidade do
inconsciente, juntamente com seu dinamismo e criatividade, que
tomam a sua natureza misteriosa e fazem com que ela seja associada
ou relacionada a algo de universal e cósmico.
De um ponto de vista prático, parece-nos óbvio que podería­
mos utilizar de maneira inteligente e voluntária essa característica
da parte inconsciente de nossa natureza, ao invés de deixar que
influências, impressões, estímulos sejam absorvidos por ela incons­
cientemente, provocando efeitos ás vezes úteis, mas quase sempre
nocivos e condicionantes em nosso espírito e em nosso comporta­
mento.
Estamos imersos, por assim dizer, num oceano de influências,
que agem continuamente sobre o nosso inconsciente, mesmo que
não tenhamos consciência disso, e mesmo que nos julguemos não-
iníluenciáveis.
Em sentido psicológico, verifica*se uma sugestão ao incons­
ciente toda vez que uma idéia entra em nossa consciência sem um
esforço consciente de nossa parte e, às vezes, até mesmo, contra
a nossa própria vontade.
Portanto deveríamos conseguir reproduzir voluntariamente
aquilo que acontece esporádica e eventualmente em conseqüência
de influências externas, do ambiente ou de outras pessoas.
De fato, visando a uma maior clareza, poderíamos subdividir
as impressões que o nosso inconsciente pode receber em:
a) sugestões espontâneas;
b)
sugestões voluntárias.
As primeiras se verificam espontaneamente, sem que saibamos,
81
e penetram em nosso inconsciente de forma despercebida. As segundas são produzidas de maneira voluntária
e penetram em nosso inconsciente de forma despercebida. As
segundas são produzidas de maneira voluntária e consciente por nós
mesmos, com a finalidade de obter a colaboração das forças sub­
conscientes, imprimindo-lhes urna idéia a ser realizada.
Visto que essa técnica das sugestões ao inconsciente é extrema­
mente útil, queremos dedicar-lhe o próximo capítulo, com vistas a
descrevê-la de maneira suficientemente detalhada.
Devemos ter confiança na reserva de energias que temos dentro
de
nós, procurar superar a barreira da separação que o nosso orgulho
racional e a ilusão da auto-suficiência do eu consciente criaram, e
livrar o circuito que canaliza a inesgotável força do inconsciente
através do abandono, da calma e da abertura.
Devemos procurar, de todas as maneiras, abrir o caminho de
comunicação entre consciente e inconsciente e permitir, assim, a
passagem da energia e a instalação de uma harmoniosa colaboração
entre os dois pólos.
82
Capítulo IX A TÉCNICA DAS SUGESTÕES AO INCONSCIENTE É preciso esclarecer, antes de passarmos à
Capítulo IX
A TÉCNICA DAS SUGESTÕES AO INCONSCIENTE
É preciso esclarecer, antes de passarmos à ilustração da te'cnica
das sugestões voluntárias ao inconsciente, que a atitude indispensável
e fundamental para o seu sucesso é a confiança.
Há muitas pessoas que, frente ao tema da sugestão e da auto-
sugestão (que preferimos chamar “sugestões ao inconsciente”),
não conseguem superar um sentimento de perplexidade e descon­
fiança, pois julgam que ser “sugestionáveis” indique fraqueza, falta
de caráter e vontade e, além disso, que tudo o que se obtém através
da sugestão seja ilusório e passageiro.
Na verdade, não é bem assim.
Como já dissemos, a sugestionabilidade, a impressionabilidade,
a plasticidade do inconsciente em todos os níveis (fisiológicos,
emotivos e mentais) são características naturais da própria substância
que o compõe e, portanto, mesmo sem nos darmos conta, somos
“sugestionáveis”. Ao contrário, sinal de anormalidade é não o ser.
Tanto
que existem paranóicos a tal ponto fechados, aprisionados
por um muro de incomunicabilidade, que não conseguem receber
“sugestões”, sendo seu inconsciente incapaz de receber impressões,
idéias, sugestões. A falta de “sugestionabilidade” é, portanto, sinal
de
anormalidade.
83
Cabe a nós assumir essa faculdade do inconsciente e utilizá-la voluntária e conscientemente para fms
Cabe a nós assumir essa faculdade do inconsciente e utilizá-la
voluntária e conscientemente para fms úteis e construtivos, saindo
da condição de passividade que nos torna abertos a todas as
influências, a todos os condicionamentos, causa da formação da
nossa personalidade inautêntica.
Se nos tomarmos donos do mecanismo das sugestões ao
inconsciente, poderemos nos desidentificar do conjunto de
automatismos e condicionamentos a que chamamos “personali­
dade” , reencontrar o centro de autoconsciência autêntico - o nosso
verdadeiro eu - e transformar a falsa consciência em plena
consciência.
Dessa forma, a personalidade se libertará das antigas sugestões
e se tomará, ao contrário, canal das “sugestões” do Si, que a recriará
“à sua imagem e semelhança”, exprimindo através dela as suas
verdadeiras faculdades, tendências e planos.
De fato, através do método das sugestões ao inconsciente
podemos formar o nosso caráter, desenvolver qualidades latentes,
nos libertar de tendências indesejáveis e abrir-nos à intuição.
Todavia, antes de chegar a isso, devemos entender, de uma
maneira que eu diria quase científica, como se desenvolve o meca­
nismo das sugestões ao inconsciente e nos apoderarmos dele.
Os estudiosos que se dedicaram a esse método, após nume­
rosas experiências e testes, chegaram a formular leis bem precisas.
I. Lei da atenção concentrada:
“A
idéia
que
tende
a
realizar-se
no
subconsciente
é
sempre uma idéia sobre a qual a atenção espontânea se concentrou.”
II. Lei da emoção auxiliar:
Quando,
por
uma
razão ou
outra, uma idéia é envol­
84
vida por uma poderosa emoção, a realização dessa idéia tem maior probabilidade de sucesso.” III.
vida por uma poderosa emoção, a realização dessa idéia tem maior
probabilidade de sucesso.”
III. Lei do esforço convertido:
“Quando uma idéia se impõe à mente a ponto de provocar
o surgimento de uma ‘sugestão’ ao inconsciente, todos os esforços
conscientes que
o sujeito faz para combater essa sugestão não só
não
têm efeito, como tendem
a intensificar a própria sugestão.”
IV. Lei da finalidade subconsciente:
“Quando
o fim é sugerido ao inconsciente ele encontra
os meios para realizá-lo sozinho.”
Com a palavra “ideia”, pretende-se significar qualquer coisa
que atinja a nossa atenção, seja ela uma imagem, uma representação
mental, uma frase etc.
A primeira lei se refere à condição indispensável para a
realização de uma sugestão ao inconsciente, que é da atenção
concentrada.
De fato, Baudoin afirma que a idéia que queremos imprimir
no inconsciente “deveria ter uma notável intensidade, uma intensi­
dade que é resultado da atenção. Uma ideia sobre a qual a atenção
se concentra especialmente é uma idéia que tende a realizar-se” .
(Charles Baudoin,Psychologie de la sugestion.)
Portanto, para que o fenômeno da sugestão ao inconsciente se
verifique, a nossa atenção deve ser atraída por alguma coisa de
maneira específica, a fim de que em nossa mente se forme uma
representação mental, isto é, “uma idéia”.
A segunda lei se refere ao fato de que a atenção deve ser
85
acompanhada por um certo grau de emotividade para que a “sugestão” adquira força e vigor.
acompanhada
por
um
certo
grau
de
emotividade
para
que
a
“sugestão” adquira força e vigor.
De fato, uma idéia que permaneça puramente intelectual e
não envolva também uma emoção, permanece fria e distante, sem
vida e sem dinamismo.
Em outras palavras, a idéia não deve ser somente “pensada”,
mas também “amada” e vivificada pelo calor da emoção e da afetivi-
dade, para poder ser acolhida pelo inconsciente, pois ele é impressio­
nado somente por aquilo que é “sentido”, “vivido” e, portanto,
somente por aquilo que é espontâneo, genuíno, autêntico.
A terceira lei é também extremamente importante, e deve ser
sempre lembrada, porque nos ajudará a evitar os obstáculos, e a
compreensão e a superar as eventuais dificuldades e resistências que
poderiam apresentar-se durante a realização de tal prática.
Essa lei nos ensina que quando se quer agir sobre o incons­
ciente não é preciso usar-se a vontade, porque “os esforços (da
vontade) invertem-se espontaneamente (no subconsciente) de modo
a reforçar o efeito da idéia dominante”.
Para esclarecer melhor o conceito, é bom exemplificarmos:
se usamos a técnica das sugestões ao inconsciente para superar
o medo dos exames, não devemos nos impor a vontade de ser cora­
josos, seguros de nós mesmos, esforçando-nos para inibir o estado
de timidez e desânimo, porque aquele esforço só faria acrescer
o nosso medo, certamente originado, por sua vez, de uma longínqua
“sugestão” de natureza espontânea ao inconsciente.
No entanto é preciso utilizar a doçura, a persuasão e, sobre­
tudo, a imaginação, pois o nosso inconsciente é extremamente
sensível às imagens, tanto como às emoções.
“Não é a vontade que nos faz agir, mas a imaginação”, afirma
86
Coué, que percebeu o enorme poder da imaginação sobre o incons­ ciente. Muitos casos de
Coué, que percebeu o enorme poder da imaginação sobre o incons­
ciente.
Muitos casos de insucesso na prática das sugestões se devem
justamente a esse erro de técnica, pois acontece com freqüência,
mesmo que casualmente, que nos servimos da vontade, suscitando
dessa forma a oposição das forças inconscientes.
A vontade deve servir somente para criar em nós o firme propó­
sito de observar com cuidado e constância esse método, mas em
seguida deve ser colocada de lado e esperar confiante.
A quarta lei se refere ao poder maravilhoso do inconsciente
de encontrar os meios, os expedientes e o caminho para levar à
realização da idéia sugerida.
Freqüentemente, o inconsciente nos surpreende com sua
esperteza e perspicácia, mas quer ser deixado livre e sem pertur­
bações para executar o seu trabalho sozinho.
Nicola Gentile, em seu livro La medicina psicologka (p. 83),
afirma: “Ele (o inconsciente) não deseja ser guiado num trabalho
que a consciência não compreende, mas somente receber o impulso
e em seguida ser deixado em paz.”
Vamos passar agora à parte prática e procurar descrever, em
suas várias fases, o método que se deve seguir.
I. Primeira fase. Alcançar um certo relaxamento físico,
colocando-se numa posição cômoda que permita a todos os mús­
culos, articulações e nervos de nosso corpo se distenderem, se
soltarem, se relaxarem completamente.
II. Segunda fase. Procurar preencher a nossa natureza
emocional com um estado de confiança, de abandono, de calma
espera. A confiança é extremamente importante para produzir
uma condição de abertura e de receptividade, enquanto um estado
87
de dúvida, de ceticismo ou de ansiedade produziria o efeito contrário. III. Terceira fase. Formular
de dúvida, de ceticismo ou de ansiedade produziria o efeito contrário.
III. Terceira fase. Formular uma frase que exprima da maneira
mais clara, concisa e simples a idéia que queremos que o nosso
inconsciente realize e, em seguida, pronunciá-la de forma audível, em
voz baixa, lenta, docemente, mas com firmeza, imaginando “entregá-
la” ao nosso subconsciente.
Ramacharaka, em seu livro Raja yoga, aconselha até mesmo
imaginar-se que, entre o consciente e o inconsciente, existe uma
espécie de passagem secreta que abrimos ao pronunciar a frase a
ser realizada para fazer que a nossa mensagem desça às profundezas
do
inconsciente.
As imagens, conforme já dissemos, são muito mais gratas
ao inconsciente, como também as palavras que ele ama ouvir repetir
várias vezes.
Por esse motivo, aconselha-se a repetir umas três ou quatro
vezes a frase que se deseja ver realizada, sempre lenta e docemente.
IV. Quarta fase. Não prestar mais atenção e deixar que o
inconsciente aja sem ser perturbado.
Para não mais prestar atenção e esquecer, pelo menos durante
um certo período de tempo, a idéia sugerida, aconselha-se a prática
deste exercício à noite, antes de adormecer, para possibilitar às
forças inconscientes agirem sem ser perturbadas enquanto dormimos.
A esta altura, poderíamos nos perguntar: “Em que direções
pode o nosso inconsciente nos ajudar? Quais são os campos nos quais
ele pode agir?”
A
resposta é que não há limites ao poder do inconsciente,
pois, como repetimos muitas vezes, ele é algo muito mais amplo
e profundo do que comumente se julga, estende-se não somente
em profundidade mas também em altura, por assim dizer, e nos
88
põe em contato com dimensões espirituais e universais, dando-nos a possibilidade de entrar em contato
põe em contato com dimensões espirituais e universais, dando-nos
a possibilidade de entrar em contato com o Divino.
Por
isso,
podemos
perguntar
tudo
ao
nosso
inconsciente,
desde a solução de problemas práticos até a ajuda para o desenvolvi­
mento de qualidades que nos faltam; desde a colaboração em
trabalhos intelectuais e criativos até a inspiração necessária às
decisões importantes a serem tomadas
O segredo está em nos tornarmos donos da técnica e em sabê-la
utilizar corretamente, colocando-nos na correta atitude interior.
É
neste ponto que a visão espiritualista vai além dos estudos
e das experiências já feitas por Couè, por Boudoin e por todos os
outros que pesquisaram a este respeito, porque não encara a técnica
das sugestões ao inconsciente somente como um método psicoló­
gico, útil para os problemas de todos os dias, mas também como
um meio de superar a cisão entre o limitado e ilusório campo de
consciência do eu pessoal e o infinito, amplo, iluminado campo
de potencialidades, inspirações e energias do inconsciente cósmico,
em que vive e vibra também o nosso Si Real, enquanto não o relacio­
narmos com o conhecimento de vigília.
Todavia, devemos adquirir a confiança de nosso inconsciente
pouco a pouco e gradativamente. Por isso é bom começarmos a
pedir a sua ajuda para coisas mais próximas e tangíveis. Teremos,
assim, a prova de seu poder e de sua proximidade.
Comecemos, então, a exercitar o método, que poderá nos
ajudar a formar a nós mesmos, a desenvolver nossas qualidades
latentes, a alcançar maior serenidade e harmonia e a utilizar todas
as nossas energias e possibilidades.
r
89
Capítulo X A TÉCNICA DO RELAXAM ENTO Alguém, após ter lido o que foi escrito
Capítulo X
A TÉCNICA DO RELAXAM ENTO
Alguém, após ter lido o que foi escrito até aqui, poderia ter
a impressão de que julgamos o inconsciente e tudo o que dele
provém como superior à parte consciente e racional do homem,
e achar excessiva essa confiança incondicional nas forças profundas
da
psique.
Na realidade, não é bem assim.
Se pretendemos sublinhar a importância do inconsciente, a
riqueza de potencialidade e energias que estão em suas profundezas,
e a necessidade de criar uma ponte com ele, é por uma única razão:
a
de que estamos no Ocidente.
É
preciso reconhecer que nós, ocidentais, somos geralmente
extrovertidos e temos mais desenvolvida a parte consciente da
psique, a parte racional, intelectual e lógica, sendo, portanto,
necessário reequilibrarmos os dois pólos da nossa natureza, reconhe­
cendo a importância do inconsciente, do irracional e do intuitivo,
que, sem nos darmos conta, sufocamos e negamos.
A verdadeira auto-realização nasce da complementação, como
sempre dissemos, da integração dos dois aspectos da nossa natureza
humana: o racional e o irracional, o consciente e o inconsciente,
91
Logos e Eros, integração que leva à manifestação de um novo elemento, ao mesmo tempo,
Logos e Eros, integração que leva à manifestação de um novo
elemento, ao mesmo tempo, tese e antítese, e que exprime a
totalidade do nosso ser: o Si, o centro unificador de todos os
dualismos, de todos os contrastes.
Para nós, ocidentais, é sobretudo difícil alcançar aquele estado
de abandono de que falamos no Capítulo VIII, de confiança nas
forças profundas, indispensável para fazer penetrar na consciência
a energia do inconsciente e permitir que ele nos ajude.
“Deixar a alma agir”, conforme as palavras de Jung em seu
livro O mistério da flor de ouro, representa para nós uma espécie
de exercício difícil, uma técnica que devemos aprender em virtude
de
treinamentos específicos e repetidos.
Essa técnica, todavia, é necessária, não somente para
concretizar as sugestões ao inconsciente, mas também para favorecer
a integração dos dois pólos consciente e inconsciente e chegar a
um desenvolvimento global.
Por isso julgamos oportuno nos deter um pouco na descrição
dessa atitude interior e no aconselhamento de alguns detalhes
e métodos para consegui-la.
Na realidade, não se trata somente de alcançar o completo
relaxamento do corpo físico, mas também de abrir-se, de aban­
donar-se interiormente, em todos os aspectos da nossa personalidade:
acalmar as emoções, desfazer a ansiedade e a angústia, fazer que a
mente cale as suas mil perguntas e dúvidas, abandonar-se completa­
mente, com confiança, como uma criança nos braços da mãe
Não é uma atitude de passividade, de inércia, de abulia, mas
uma preparação interior necessária, feita conscientemente e com
lucidez, para que aconteça dentro de nós “alguma coisa”. É uma
espera que antecede uma transformação, a passagem para uma
92
outra fase de desenvolvimento em que os antigos condicionamentos e automatismos se desfazem, deixando uma
outra fase de desenvolvimento em que os antigos condicionamentos
e automatismos se desfazem, deixando uma espécie de “virgindade
psíquica” que permite ao Si criar novas direções e novas orientações.
Assim, pois, de simples atitude psicológica, a técnica do
relaxamento e do abandono se torna uma preparação para algo
de mais espiritual e esotérico: a revelação do Si, que agora é incons-
, ciente, ou melhor, superconsciente.
Entretanto, por ora, interessa-nos sobretudo o lado psicológico
dessa técnica, que nos permite entrar em contato com o aspecto
profundo da nossa psique e superar a tenaz barreira que criamos
ao cindir em duas a nossa natureza.
Devemos, antes de mais nada, procurar alcançar o completo
relaxamento do corpo físico, pois, se não conseguirmos desfazer
a tensão muscular e nervosa, não conseguiremos tampouco alcançar
a calma interna.
Existe uma estreita e misteriosa conexão entre a psique e o
corpo, conexão que foi objeto de observação e de longos estudos
por parte de numerosos pesquisadores e que sempre atraiu o
interesse de psicólogos e cientistas, e que, todavia, permanece
ainda obscura para a ciência.
Já o filósofo Espinoza descobriu, no século XVII, o paralelis­
mo existente entre o corpo e a mente, paralelismo que o fez então
pensar se não seria possível encontrar, para toda manifestação
externa, uma energia psíquica correspondente.
À luz das doutrinas esotéricas e espiritualistas, essa inter-
relação entre psique e corpo é uma demonstração prática da
efetiva unidade escondida por trás do aparente dualismo entre
Espírito e Matéria.
Eis por que o relaxamento do corpo físico é tão importante
para se alcançar também a calma interior.
93
A tensão física, a incapacidade de relaxar-se não são, de fato, uma causa, mas um
A tensão física, a incapacidade de relaxar-se não são, de fato,
uma causa, mas um efeito. 0 corpo só faz refletir uma tendência
psíquica, um estado de ansiedade e agitação emotiva, uma
“contração” mental. Todavia, já que freqüentemente não conse­
guimos individuar e reconhecer essa causa interna, devemos agir sobre
a sua manifestação mais externa, sobre o seu efeito no físico, sobre
o seu “sintoma”.
“Mas como”, poderíamos perguntar, “removendo o sintoma,
fazemos cessar também a causa que o produziu”?
Esse é um outro aspecto da interação entre psique e soma,
entre interior e exterior, e nos faz pensar que, na realidade, não há
uma clara separação entre espírito e corpo.
“O espírito e o corpo não são dois mundos distintos, mas um
composto tão estreito e íntimo que nunca se sabe onde começa um
e onde termina o outro
(De Peon, L^ducazione deicarattere, p.
163.)
De qualquer maneira, não queremos nos aprofundar aqui
num argumento que requer uma longa exposição. Procuramos dar
o primeiro passo em direção da realização da atitude de abandono,
de confiança e abertura às forças superconscientes por meio da
técnica do relaxamento físico. Aqueles que o praticaram por um
determinado tempo provaram que ele é extremamente eficaz para se
chegar a um estado de calma emotiva, para libertar de angústias
e ansiedades, e até mesmo para curar distúrbios neuróticos e
psíquicos de diversos tipos.
Basta mencionar a técnica do “training autógeno”, introduzida
por Shultz, e que é uma terapia para vários distúrbios psíquicos
e nervosos baseada no relaxamento físico.
No Oriente, o relaxamento físico é muito praticado, sobretudo
94
como preparação para a meditação e como técnica comum para libertar-se da identificação com o
como preparação para a meditação e como técnica comum para
libertar-se da identificação com o invólucro físico.
No que diz respeito ao objetivo, que é nos colocarmos na
condição mais propícia para permitir às energias da psique agirem em
nós e se tornarem receptivas às nossas mensagens e sugestões, o
relaxamento é condição indispensável a ser conseguida, conforme
dissemos anteriormente.
Devemos começar com exercícios de relaxamento simples,
os quais devem ser feitos com constância e perseverança todos os
dias, mesmo que seja por uns poucos minutos, até se alcançar um
completo domínio para distender os nossos músculos e soltar toda
contração nervosa do nosso corpo.
Aconselhamos, em seguida, alguns exercícios preliminares:
I
Exercício.
tapete estendido no chão e procure relaxar completamente.
Enquanto faz isso, pense que seu corpo está pesado como chumbo.
Repita essas palavras mentalmente, várias vezes, procurando
sentir realmente o peso do corpo.
Em seguida, levante os braços e deixe que caiam novamente
ao lado do corpo, por seu próprio peso.
Repita o exercício com as pemas.
À primeira vista, tudo isso pode parecer um exercício muito
fácil, mas para algumas pessoas ele será muito difícil, porque elas
se darão conta, ao deixar cair os braços, da tensão que há neles;
também no que diz respeito às pemas.
Esse exercício preliminar é aconselhado por Ramacháraka
em seu livro Hathayoga, na página 177.
II Exercício. Deitado sobre uma cama, ou mesmo sentado
comodamente numa poltrona, procure alcançar um estado de
95

Deite-se de costas sobre a cama ou sobre um

relaxamento e calma, fazendo, como complemento auxiliar, algumas respirações profundas e regulares. Em seguida,
relaxamento e calma, fazendo, como complemento auxiliar, algumas
respirações profundas e regulares.
Em seguida, começando pelas extremidades inferiores, procure
relaxar todos os músculos, murmurando em voz baixa:
“Todo músculo se relaxa, se relaxa, se relaxa.
Todo nervo começa a descansar, descansar, descansar.
Toda tensão física desaparece.
Paz, repouco, abandono, relaxamento completo.
Paz, repouso, abandono, relaxamento completo.”
Repita várias vezes essas palavras, em voz baixa, lenta e
claramente.
O nosso inconsciente é muito sensível às palavras repetidas,
absorvendo-as com maior facilidade se as repetirmos muitas vezes.
A
esta altura é interessante observar algumas dificuldades que
poderão ser encontradas ao se executarem esses exercícios.
A
primeira é não conseguir desfazer a tensão física; e o
remédio é somente a repetição e a perseverança, e não ter pressa
em obter resultados. A pressa gera um estado de ansiedade, o que,
por sua vez, influi sobre a tensão muscular e nervosa.
“Sem pressa, sem trégua”, é a palavra de ordem daquele que
quer alcançar uma finalidade elevada e também para quem se propõe
alcançar a condição ideal para reequilibrar-se a si mesmo e encontrar
o seu verdadeiro Eu.
A segunda dificuldade pode ser o adormecimento enquanto se
está praticando o relaxamento. Isso não faria mal algum se o exercício
tivesse como objetivo uma completa distensão física, se fosse um fim
em si mesmo, ou tendo em vista o descanso. Mas nós queremos
96
alcançar o relaxamento físico somente como uma condição preliminar para o sucesso da técnica das
alcançar o relaxamento físico somente como uma condição
preliminar para o sucesso da técnica das sugestões ao inconsciente e
para favorecer uma abertura, um estado de perfeito abandono
de toda a personalidade. Portanto devemos prestar atenção para
não cair no sono.
Baudoin afirma, em seu livro já citado, Psychologie de la
sugestion, que, enquanto se pratica a sugestão ao inconsciente,
a atenção deve estar concentrada. Pareceria, portanto, que há uma
contradição entre o estado de abandono do relaxamento necessário
à prática e a concentração da atenção.
Mas não é bem assim, pois a atenção necessária nesse caso
é de um tipo especial. Ela não é concentração, pois não é
acompanhada de esforço, e sim uma espécie de “contemplação”
da idéia a ser realizada, mantê-la em face da mente, repousando
sem tensão. Um ótimo método e que poderia ajudar a alcançar
esse estado de “atenção concentrada, mas sem esforço” é o
de escrever num pedacinho de papel a palavra ou a frase que
queremos sugerir ao inconsciente e simplesmente olhá-la, sem
sequer procurar pensar para entendê-la ou desenvolvê-la.
Isso pode parecer difícil, mas na realidade não é, pois, se
estivermos realmente relaxados fisicamente, será espontânea e
natural essa maneira de estarmos “concentrados” na idéia, porém
sem qualquer esforço.
Portanto é óbvio que a condição preliminar indispensável
é o relaxamento físico.
Ele permitirá que nos conservemos calmos emotivamente e
capazes de manter a mente fixa numa idéia, com serenidade e
lucidez, num estado de completa tranqüilidade interior, de “silêncio”
consciente e alerta, relaxados mas atentos.
97
Esse estado interior que, como disse no início deste capítulo, parece ser tão difícil para
Esse estado interior que, como disse no início deste capítulo,
parece ser tão difícil para nós ocidentais, cedo ou tarde deverá ser
alcançado, pois é a condição necessária para o desenvolvimento
da consciência autêntica.
Pouco a pouco, se praticarmos estes exercícios, perceberemos
por experiência direta que o relaxamento, a calma, o abandono
confiante a algo ainda inconsciente, mas superior, transformam-se,
de simples exercício psicológico, numa técnica de despertar e amadu­
recimento, pois, no silêncio e no aparente vazio, tomar-se-á clara
uma nova presença, quente, viva, luminosa: o Ser psíquico de que
fala Sri Aurobindo, o Si, o verdadeiro Homem, que nós obrigamos,
com a nossa inconsciência, a permanecer oculto e latente.
98
Capítulo XI EVOCAÇÃO DO SUPERCONSCIENTE Fica evidente, com base no que foi dito a respeito
Capítulo XI
EVOCAÇÃO DO SUPERCONSCIENTE
Fica evidente, com base no que foi dito a respeito da técnica
das sugestões ao inconsciente, que esta oferece grandes possibilidades
de utilização, mais amplas e profundas do que parece à primeira
vista, e isso depende, além do grau de maturidade e de evolução
alcançados pela pessoa que a utiliza, sobretudo da finalidade para a
qual é praticada. De fato, pode acontecer que a idéia que sugerimos
ao nosso inconsciente seja de ordem elevada, o que provocará
o
aparecimento
da
ajuda
e
da
inspiração
da área mais elevada,
de
nosso inconsciente: o Superconsciente.
Como vimos no esquema mostrado no Capítulo II, o
inconsciente pode ser imaginado como dividido em vários níveis,
dependendo de seus conteúdos, isto é :
a) Inconsciente Superior, ou Superconsciente;
b)
inconsciente médio, ou pré-consciente;
c) inconsciente inferior, ou subconsciente.
Em geral, com a técnica das sugestões ao inconsciente procura­
mos utilizar conscientemente o inconsciente médio, que está, digamos
99
assim, mais próximo do campo da consciência comum e nela penetra mais facilmente. Na realidade,
assim, mais próximo do campo da consciência comum e nela penetra
mais facilmente. Na realidade, há um contínuo intercâmbio de
energias entre o consciente e o inconsciente médio, e este último
sempre colabora conosco, mesmo sem nos darmos conta disso.
De fato, como já tivemos oportunidade de mencionar, toda
a nossa maneira de ser, de agir, todas as nossas tendências e
faculdades humanas são o produto do incessante trabalho de reelabo-
ração do nosso inconsciente.
Aprendemos a caminhar, a falar, a escrever e a ler, desde
criança; a tocar um instrumento, a dirigir o automóvel, a falar uma
língua estrangeira etc. quando adultos, sempre e invariavelmente
com a ajuda e a cooperação do inconsciente médio, que acolhe
as idéias, os esforços e todo impulso proveniente do eu consciente,
reelabora-os, encontra os meios para concretizá-los e os transforma
em faculdades e capacidades que podemos exteriorizar sem ter
mais necessidade do concurso da vontade consciente. Essa é a gênese
dos hábitos e dos automatismos.
Com as sugestões ao inconsciente, tudo o que fazemos é
utilizar conscientemente uma lei natural de nossa psique.
Quando em nós tiver se desenvolvido a intuição, entende­
remos que esses ritmos e ciclos que acontecem dentro de nós, essas
leis que se referem ao nosso mundo subjetivo, são, na realidade,
algo de uma ordem universal e cósmica. Nós só fazemos repetir
a nível microcósmico aquilo que acontece no macrocosmo, pois,
na realidade, não há separação entre o homem e o cosmo.
A intuição, porém, desperta quando nos abrimos para os
níveis mais altos do nosso inconsciente:o Superconsciente.
Como já tive oportunidade de afirmar anteriormente, o Super­
consciente pode ser evocado também pela técnica das sugestões
100
ao inconsciente, se a idéia sobre a qual concentramos a atenção tem um caráter de
ao inconsciente, se a idéia sobre a qual concentramos a atenção
tem um caráter de espiritualidade, de universalidade ou apela às
nossas potencialidades mais elevadas.
De fato, o Superconsciente representa o nosso “futuro”
evolutivo, isto é, todas as qualidades, capacidades e possibilidades
mais altas presentes em nós, ainda latentes mas prontas para serem
usadas.
0 homem é, na verdade, um ser espiritual, divino, e sua
verdadeira natureza ainda está oculta, potencial.
A realidade de nós mesmos é dominada pela “falsa consciência”
do nosso eu superficial e condicionado, com o qual nos identifi­
camos. Eis por que dizemos que o nosso verdadeiro eu é incons­
ciente.
Portanto, se conseguirmos entrar em contato com o Super­
consciente, evocar o inconsciente superior, abriremos caminho para
a
revelação do Si, que não é uma abstração metafísica mas sim
o
centro vivo, autêntico e real do nosso ser.
É
consolador constatar que hoje em dia a psicanálise também
está se aproximando dessa visão espiritual do homem por meios
científicos e experimentais.
Fala-se do Si, do Eu Real, da Alma e aceita-se a idéia de que
a verdadeira e única finalidade para a qual o homem tende,
consciente ou inconscientemente, é a realização dessa realidade mais
íntima.
Termos como auto-realização, individuação, aperfeiçoamento
são utilizados para exprimir essa exigência natural e irrefreável
do homem; e, pelo exame de numerosas experiências de pessoas
auto-realizadas, pôde-se constatar que a descoberta do centro autên­
tico do ser traz consigo qualidades, dotes, estados de consciência
101
que sem dúvida alguma tém um caráter espiritual e divino1. O estudo da psique, portanto,
que sem dúvida alguma tém um caráter espiritual e divino1.
O estudo da psique, portanto, pouco a pouco está confir­
mando aquilo que as antigas doutrinas espiritualistas sempre
intuíram e afirmaram: o homem, em sua essência, é uma criatura
divina.
Mas o caminho para se chegar a essa realização é longo e
tortuoso, cheio de dificuldades e também de sofrimentos, pois
devemos passar por um penoso processo de renascimento interior,
de
amadurecimento e transformação, antes de passar da escuridão
em que estamos imersos para a verdadeira consciência do nosso Si.
Um dos meios que podem nos ajudar para alcançar essa
finalidade é “evocar” , exatamente como dissemos, o nosso incons­
ciente superior, e procurar fazer com que os conteúdos do Super-
consciente penetrem em nossa consciência habitual.
É exatamente nesse ponto que as doutrinas espiritualistas
se
diferenciam da psicanálise ortodoxa, que sublinha a importância
de
se explorar sobretudo o inconsciente inferior para fazer que se
manifestem os assim chamados “complexos” e que sejam removidas
as resistências inconscientes provocadas por exigências instintivas
reprimidas, sem levarmos em consideração os perigos que poderiam
advir de uma “irrupção” , na consciência ainda não-desperta, dessas
poderosas forças primordiais.
0 inconsciente inferior é composto sobretudo por lembranças
estratificadas, por instintos atávicos, por problemas não-resolvidos,
por energias bloqueadas, e representa o nosso passado evolutivo,
o nosso “lado obscuro”, e deve ser, cedo ou tarde, libertado,
1 Veja-se a esse respeito, o livro de A. H. Marlow, Verso una psicologia
delVessere, editado pela Casa Editrice Astrolabio, Roma.
102
“limpo” e anexado à consciência, mas somente quando tivermos alcançado um determinado grau de firmeza
“limpo” e anexado à consciência, mas somente quando tivermos
alcançado um determinado grau de firmeza interior e de verdadeira
consciência, caso contrário há o perigo de sermos arrastados e
submersos.
Não deve ser o “passado” que volta, que sobe, que invade
o fraco e vacilante círculo de consciência do eu pessoal, mas o
“futuro” que há em nós, a luz que provém da verdadeira consciência,
que desce, penetra gradualmente todas as camadas do nosso ser,
consciente e inconsciente, afugentando as sombras, iluminando
todos os recessos mais obscuros e recônditos, desfazendo todas as
resistências, todos os nós e incrustações e provocando uma
completa e vital transformação e sublimação das energias inferiores.
Isso é algo extremamente importante e que deve ser levado
em consideração se queremos nos abrir para o inconsciente, a fim de
utilizá-lo e de anexá-lo à consciência.
Para evocar o Superconsciente, há muitos meios e estratagemas
além daquele que já descrevemos das sugestões ao inconsciente,
destinado a finalidades elevadas. Muito freqüentemente acontece
de ele aflorar espontaneamente em momentos de recolhimento
e de aspiração, ou então quando se verifica um estado de necessi­
dade, de pedido, expresso ou não.
As intuições, que às vezes, num lampejo, nos iluminam
a mente, as inspirações sobre como resolver determinados problemas
ou determinadas situações aparentemente sem saída, os impulsos
criativos no campo artístico ou intelectual, as ondas de amor
universal ou de alegria espiritual que sem razão inundam o nosso
coração em determinados momentos
são todos sinais e “mensa­
gens” provindos do nosso Superconsciente.
Todavia podemos favorecer essas manifestações de maneira
103
voluntária e consciente, colocando-nos na atitude interna mais ade­ quada em termos de abertura e
voluntária e consciente, colocando-nos na atitude interna mais ade­
quada em termos de abertura e receptividade, de invocação silen­
ciosa; invocação que se transforma em evocação, por um processo
oculto espontâneo.
Além do mais, devemos levar em consideração que o supercons­
ciente, mesmo sendo de natureza mais refinada e mais elevada do
que os outros níveis do inconsciente, é, afinal, sempre inconsciente,
isto é, obedece às mesmas leis que regulam as energias da psique e
tem as mesmas características gerais destas (isto é, a plasticidade, a
capacidade de reelaboração, a tendência em exprimir-se por sím­
bolos etc.).
Da mesma forma que o inconsciente médio, o Superconsciente
também pode ser evocado através de palavras, imagens, frases repe­
tidas; revela-se através de sinais simbólicos e através de “sinais” e
“sintomas” da vida cotidiana que devemos saber interpretar.
Freqüentemente se manifesta através da linguagem da arte:
na poesia, na música, na pintura, que podem conter inspirações e
idéias intuitivas de caráter universal e espiritual
Ajuda o cientista em suas invenções, dando-lhe capacidades
intuitivas e inventivas, e o filósofo em suas indagações metafísicas,
iluminando o seu intelecto com a luz da intuição.
Aparece nos momentos de elevação mística, dando ao devoto
o senso do divino e fazendo-o sentir-se uno com Deus.
Acompanha o homem por toda a sua vida, pronto para
irromper na consciência ordinária, transformando um indivíduo
comum num herói, em momentos de extrema necessidade; o artista
medíocre em gênio; a garota fraca e incerta em mulher cheia de
coragem e de sabedoria; assim que ele encontrar uma brecha na casca
do eu ordinário, ou assim que seja atraído por uma invocação,
mesmo que inexpressa
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Todos nós temos poderes, faculdades, qualidades de ordem su­ perior. Todos nós somos potencialmente santos,
Todos nós temos poderes, faculdades, qualidades de ordem su­
perior. Todos nós somos potencialmente santos, heróis, gênios, mas
devemos aprender a nos abrir ao manancial divino que existe em nós,
atingir aquela parte de nós mesmos que guarda em si potencialidades
tão ricas e profundas a ponto de superar toda imaginação.
Como, então, favorecer o aparecimento de nosso Super-
consciente?
O método principal é a meditação, prática que requer uma
atitude especial e subjetiva de silêncio, de abertura, de receptividade,
semelhante, em certo sentido, àquela descrita como preparação para
a técnica das sugestões ao inconsciente. Na meditação, porém, deve
haver também a consciência da finalidade a ser alcançada, que é a de
favorecer o despertar da consciência do Si.
Na realidade, essa atitude interior de receptividade é somente
a primeira fase da verdadeira meditação, e sobre a qual não temos
ainda necessidade de falar. Interessa-nos, para a nossa finalidade,
evocar as forças superconscientes, sobretudo essa fase de prepara­
ção, de abertura,que é a condição indispensável para obter resultados
favoráveis.
As nossas ambições, os nossos desejos, as nossas sensações, e
até mesmo os nossos pensamentos devem ser silenciados e acalmados
se queremos que em nossa consciência ordinária, tão libertada e
“esvaziada”, se manifeste e apareça a parte mais elevada e mais
verdadeira de nós, e que, mesmo estando sempre presente, não pode
ser percebida, pois estamos imersos no “estrondo” e no turbilhão
contínuo das nossas modificações psíquicas.
Somente provocando o vazio em nós mesmos poderemos atrair
as energias do Superconsciente, substituindo com elas, em certo
sentido, aquelas energias caóticas e desordenadas da consciência
105
pessoal, e somente no silêncio poderemos ouvir a “Voz sem som” que continuamente fala conosco,
pessoal, e somente no silêncio poderemos ouvir a “Voz sem som”
que continuamente fala conosco, sem que possamos ouvi-la.
É necessário, portanto, aprendermos a provocar em nós
mesmos esse vazio e esse silêncio, para permitir à parte mais real da
nossa natureza que se manifeste, bem como à Luz que penetre em
nós e nos faça despertar, do sono da semi-inconsciência em que
estamos imersos, para a completa consciência.
Capítulo XII í {s l O D E SP ER T A R i “Somente
Capítulo XII
í {s
l
O
D E SP ER T A R
i “Somente quando começa a lembrai-se de si é que pode o
homem realmente despertar.” (Gurdjieff.)
O que acontece quando, depois de ter conseguido provocar o
vazio e o silêncio na personalidade, manifesta-se em nós a cons­
ciência do Si real?
Quais são as conseqüências dessa revelação?
A
primeira sensação que se tem é a de um “despertar”, e
aqueles que tiveram contato com a sua essência espiritual são cha­
mados os despertos.
Julgamos estar despertos, conscientes, e que agimos segundo a
nossa vontade; no entanto somos como as máquinas, movidos por
impulsos que não podemos controlar, vítimas de emoções, de pensa­
mentos, de energias que nos obrigam a agir, a nos comportar de
uma determinada maneira, a tomar decisões, a provar sentimentos,
e, de fato, freqüentemente acontece que nós mesmos nos surpreen­
demos com as nossas ações, com os nossos estados de espírito, com
as nossas escolhas, quase “impostas” por ditames inconscientes,
em relação aos quais somos passivos e inertes.
Quase nunca agimos “conscientemente” e em estado de plena
lucidez. Estamos adormecidos e não sabemos.
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Nos damos conta disso somente quando nos atinge a luz e a energia do nosso
Nos damos conta disso somente quando nos atinge a luz e a
energia do nosso Si real superconsciente, e somente então acordamos
do sono, e com surpresa e alegria nos reconhecemos, tomamos
consciência da realidade e nos sentimos, enfim, “nós mesmos”.
Aí está por que a realidade espiritual, o centro do nosso ser, é
chamada “eu” . Ele não poderia ser chamado de outra forma, pois é
a nossa autenticidade, a nossa profunda e verdadeira subjetividade, a
nossa essência real.
Portanto o despertar da consciência leva, antes de mais nada,
ao auto-reconhecimento e à descoberta de que o estado em que está
imersa a maioria dos homens é um estado de sono e de incons­
ciência.
Esse despertar é como um segundo nascimento, pois nos torna
novos, puros, inocentes como crianças recém-nascidas em um mundo
desconhecido. De fato, características fundamentais do “desper­
tado” são a espontaneidade, a alegria, o frescor, a vitalidade, a auten­
,
nado, alterado, deformado pelas influências inibidoras externas.
A essas características de pureza e de inocência, acrescenta-se
uma profunda sabedoria, um estado de completa consciência e paz
absoluta.
Na nova dimensão em que a nossa consciência despertada vem
ticidade
dotes esses próprios do adolescente ainda não-condicio-
a se encontrar, tudo se resolve, tudo é simples, tudo aparece em sua
verdadeira essência e em sua realidade de perfeita harmonia e com­
pleta justiça. E se, por um lado, isso é um fato maravilhoso que dá
paz e alegria completas, de outro, pode produzir algumas dificuldades
no que diz respeito à ação externa e às necessidades da vida prática.
Quando o homem se liberta da falsa e ilusória identificação
com a personalidade imersa no vir-a-ser, ele percebe um estado de
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completa e perfeita paz interior e de separação, pois se lhe revela o Ser, que,
completa e perfeita paz interior e de separação, pois se lhe revela
o Ser, que, por natureza, é Imóvel, fora do tempo, livre da Forma.
“O Si é o Imóvel, o que não produz ação
nem participa
dela”, afirma Aurobindo. E acrescenta que a sua consciência “
está
em repouso, inativa, amplamente concentrada sobre a pura per­
cepção do próprio ser, que não produz ativamente nenhum vir-a-ser.”
É a fase da desidentificação, da separação, da libertação do
aprisionamento na dimensão espaço-temporal, do reconhecimento
da transcendência. Nessa fase, está oculto um sutil perigo que
devemos reconhecer e procurar evitar, se queremos dar um passo
ulterior e alcançar a verdadeira meta que o Espírito, ao se encarnar
na matéria, se propôs: a de reunir os dois pólos da dualidade uni­
versal em um novo ser: o Homem Real, e fundir nele divino e hu­
mano, céu e terra.
Portanto o despertar da inconsciência leva à desidentificação
e à libertação do “pólo” matéria (toda a personalidade pode ser con­
siderada matéria frente ao Si), mas, num segundo momento, deve
levar à superação da dualidade, à unificação dos dois aspectos,
através de uma obra gradual de “espiritualização da matéria e de
materialização do Espírito”.
Não devemos nos esquecer de que aquilo que chamamos
“matéria”, na realidade, não é outra coisa senão “espírito” na vibra­
ção mais baixa, é energia condensada e tem uma função extrema­
mente importante: ela representa o aspecto feminino da manifes­
tação, a Mãe, que, fecundada pelo Espírito (o Pai), deve dar à luz
o Filho (a consciência).
Toda personalidade (física, emotiva e mental) representa o
aspecto feminino frente ao Espírito, que é o pólo positivo, mascu­
lino. O homem, todavia, em seu estado de inconsciência, ignora
109
essa realidade, identifica-se com a personalidade e lhe dá um papel positivo, que se opõe,
essa realidade, identifica-se com a personalidade e lhe dá um papel
positivo, que se opõe, sem saber, à Vontade Superior. Eis por que é
necessário passar por um período em que a personalidade se torna
dócil, passiva, condescendente. Dessa forma, manifesta-se a verda­
deira positividade, a verdadeira Vontade: a do Espírito, e a matéria
dos três veículos pessoais toma-se realmente capaz de ser a Mãe, a
terra fértil que, recebendo em si a semente, poderá dar à luz o Filho.
“Sem ísis nío teria nascido Hórus, nem Cristo sem Maria”,
afirma uma máxima ocultista.
No homem, é a personalidade que se torna “Maria” e oferece
a sua natureza receptiva para que a energia do “Espírito se sirva dela
como berço onde desenvolver-se e nascer à consciência”.
“Toda evolução é uma transformação da energia em cons­
ciência” , diz Aurobindo, e essa frase exprime sinteticamente aquilo
que deve acontecer através do homem.
Portanto, a consciência tem uma função unificadora, é ela que
cria a “relação” entre o Pai e a Mãe, e não pode, portanto, satisfazer-
se com o primeiro objetivo alcançado, que é o de reconhecer-se
enfim como Entidade livre dos condicionamentos do espaço-tempo,
das falsas identificações, das ilusões dos desejos, das paixões que não
são mais que automatismos
Ela deve exercer o seu encargo e,
mesmo permanecendo livre e separada, dar ao homem a possibilidade
de superar a dualidade, de criar uma perfeita harmonia e integração
entre os dois pólos de sua natureza.
A
consciência, representando o Filho, isto é, o produto da
união do Pai com a Mãe, participa da natureza de ambos, sendo, ao
mesmo tempo, ativa e passiva, e capaz de restabelecer a relação
entre os dois.
O Si, portanto, que é pura consciência é, segundo palavras de
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Jung, “tese e antítese” ao mesmo tempo, representando o ponto de encontro e de resolução
Jung, “tese e antítese” ao mesmo tempo, representando o ponto de
encontro e de resolução dos opostos.
Portanto, somente depois do despertar do Si real o homem é
capaz de perfazer o equilíbrio e a integração dos dois pólos de sua
natureza e de alcançar aquele estado que é descrito no Bhagavad
Gita com as palavras “ação na inação e inação na ação” ; palavras
que exprimem muito bem, mesmo que sinteticamente,
a coexis­
tência de paz e separação interiores e de atividade externa. É um
perfeito equilíbrio entre ser e vir-a-ser que permite á consciência
do Si permanecer imóvel, sem, todavia, participar ativamente da vida
da personalidade.
Tal coexistência pode parecer muito difícil de se alcançar,
quase impossível, mas, se pensamos que ela representa a expressão
de uma realidade cósmica e universal condenada no homem, parece-
nos evidente que alcançá-la não significa outra coisa senão entrar
em sintonia com essa realidade superior.
Tal como acontece a nível psicológico, com o equilíbrio do
movimento de progressão e regressão da energia psíquica entre os
dois pólos consciente e inconsciente, também deve acontecer a nível
espiritual entre os dois pólos de Espírito e Matéria, pois ambos
fazem parte do Uno e representam as duas faces de uma mesma
realidade.
Mesmo a nível puramente material, vemos no homem os dois
movimentos de expiração e inspiração, as sístoles e diástoles das
batidas do coração, e isso simboliza, por analogia, a necessidade
dessa alternância rítmica do fluxo da energia universal que se verifica
em toda a manifestação, para que possa haver vida.
Ser e vir-a-ser, contemplação e ação, introversão e extroversão,
consciente e inconsciente, positivo e negativo
representam sempre
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os dois aspectos eternos da totalidade que o homem reencontra em si à medida que
os dois aspectos eternos da totalidade que o homem reencontra em si
à medida que persevera no caminho da auto-realização.
Tudo o que foi exposto no decorrer deste livro tem por fina­
lidade
levar-nos a compreender essa realidade, fazer-nos agarrar o
segredo e o significado real da dualidade que está na base da nossa
natureza e que, uma vez resolvida, nos dá a chave da nossa auto-
realização.
Os obstáculos, as dificuldades, os problemas, os sofrimentos
que devemos enfrentar enquanto procedemos ao nosso amadureci­
mento interior são provocados quase exclusivamente pela falta de
equilíbrio e de harmonia entre os dois pólos do nosso ser, e pelo
fato de que nós mantemos separado e dividido, na nossa incons­
ciência, aquilo que na realidade é uno.
Inicialmente nos identificamos com o pólo “matéria”, com a
personalidade ilusória e, durante muito tempo, ignoramos até mesmo
a existência do outro pólo, e mergulhamos completamente na
extroversão, na ação indiscriminada, no vir-a-ser. Criamos para nós
uma falsa consciência, um eu inautêntico, e erigimos, portanto, uma
barreira ante a realidade profunda de nós mesmos, a qual permanece
inconsciente.
Em seguida, pouco a pouco, através da dor, das provações, das
crises gradativas do despertar, nos damos conta de que somos limi­
tados, incompletos e começamos a sentir a exigência de “tomar
consciência” da nossa realidade profunda; tem início, então, o
período de amadurecimento interior e de gradativa harmonização e
integração com o outro pólo da nossa natureza: o Si Real.
Esse segundo período é o da “dualidade reconhecida” e do
conflito interno. Há uma alternância de luz e sombra, de imersão no
aspecto “matéria” e de subseqüente misticismo e ascetismo
112
0 homem oscila continuamente entre os dois pólos, incapaz ainda de encontrar um equilíbrio e
0 homem oscila continuamente entre os dois pólos, incapaz ainda de
encontrar um equilíbrio e resolver a dualidade.
Enfim, verifica-se o despertar, depois da “rendição” da perso­
nalidade e de um necessário período de renúncia, de silêncio e
aquiescência das energias do pólo “matéria” (como dissemos), e
então “nasce” o Filho, o centro unificador capaz de estabelecer a
relação entre os dois e de resolver o conflito numa unidade superior.
Somente após esse despertar o homem pode passar para a fase
que o levará à transformação de si mesmo em um novo ser, plena­
mente harmonizado, e que pode cumprir a finalidade para a qual foi
criado: restabelecer em si o uno, ser o símbolo e ao mesmo tempo a
demonstração dessa integração e totalidade.
Naturalmente essa fase também tem as suas dificuldades, as
suas vicissitudes periódicas, suas provas e suas crises, mas agora
há um fato novo que ampara o homem e lhe dá coragem e força:
a plena consciência da meta a ser alcançada, a visão clara do signi­
ficado de seu sofrimento e de sua luta interna. Ele não é mais vítima
inconsciente das energias nele existentes, compreende a razão e a
causa de suas oscilações e das alternativas de sua consciência e,
pouco a pouco, chega àquele estágio tão bem-descrito na Voz do
silêncio, com as seguintes palavras:
“Os galhos de uma árvore são agitados pelo vento,
o tronco permanece imóvel;
ambas, ação e inação, podem
encontrar-se em ti
O teu corpo pode ser agitado,
mas a tua mente está tranqüila,
e a tua Alma límpida como um lago nas montanhas.”
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0 homem plenamente realizado é a mais perfeita manifestação da harmonia e o ritmo é
0 homem plenamente realizado é a mais perfeita manifestação
da harmonia e o ritmo é a sua força. Esse é o segredo do wu-wei,
do “agir sem agir”: o ritmo.
Devemos descobrir e realizar a força operativa e harmonizante
do ritmo certo sobre todos os planos, sob todos os aspectos, come­
çando por aquilo que está mais próximo de nós sobre o plano físico,
e alargando cada vez mais a nossa consciência, até nos inserirmos
nos grandes ritmos e ciclos cósmicos.
Expiração e inspiração, vigília e sono, vida e morte, consciente
e inconsciente, manvântara e pralaia
sempre a energia flui entre os
dois pólos, ritmando a batida do coração da vida universal, da qual o
homem não somente participa, mas da qual é a expressão mais plena
e perfeita quando realiza a si mesmo e descobre que o Uno é “(
)
ao
mesmo tempo, ativo e passivo, pura essência do Espírito em estado
de descanso, pura matéria em estado infinito e condicionado”.
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Leia também GUIA PARA O CONHECIMENTO DE SI MESMO Angela Maria La Sala Batà É
Leia
também
GUIA PARA O CONHECIMENTO DE SI MESMO
Angela Maria La Sala Batà
É este um livro que leva em conta a necessidade básica de
cada indivíduo conhecer-se a Si mesmo, analisar-se com objetivi­
dade, enquanto procura trazer à luz energias ocultas, a fim de
que, pouco a pouco, possa revelar a essência íntima de sua na­
tureza, o verdadeiro Eu.
Desejos
em
conflito,
instintos,
emoções,
pensamentos,
so­
nhos, o inconsciente, tudo é considerado material de trabalho de
formação e autoconhecimento.
A Autora se formou no ambiente espiritual da Escola Arca-
na de Alice A. Bailey e na atmosfera de pesquisa psicológica
criada por Roberto Assagioli. Além dos vários trabalhos de Psi­
cologia Espiritual, Angela Maria La Sala Batà muito tem con­
tribuído com ensinamentos esotéricos aplicados à terapia dos
desajustamentos psíquicos e das enfermidades nervosas.
No GUIA PARA O CONHECIMENTO DE SI MESMO,
que a Editora Pensamento lança no Brasil, tendo em vista apre­
sentar ao leitor de língua portuguesa a obra dessa Autora, de
forma clara e didática são traçadas diretrizes pelas quais o estu­
dioso de Psicologia Espiritual poderá atingir o verdadeiro Eu, ou
a Alma. A consecução desse objetivo, como diz A. Bailey, o
levará a “descobrir a verdade mais profunda e luminosa da exis­
tência humana, experimentada, comprovada e vivida por todos os
místicos, iluminados e intuitivos, ou seja, que, encontrando-se a
Si
mesmo, encontra-se Deus”.
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