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EMPREZA LITTERARIA DE LISBOA

IinOBl DE FDKTEAl

SEGUNDO VOLUME

POR

BERNARDINO PINHEIRO

ILLUSTRAÇÕES

DE

MANUEL DE MACEDO

-^-«^K. L. de L.-^^-S-

OfFICDI» TfPOSRtrMICt DE J. ». DC «ITTOS

3ti, Rua Nova do Almada. :tK

1877

R 0[ D,

POR

OINIZ

iiiiri&i^Dririã P^iffidireií

8

Historia de Portugal

completamenle. Deixava pois ao filho a coroa e

uma lição profunda.

Se foi este reservado pensamento, próprio do

seu caracter doble e sagaz, ou o receio das penas

canónicas e o terror do inferno, que moveram

Affonso Hl à reconciliação com o clero, que pre-

cedeu a sua morte, é assumpto que, além de dif-

ficil, não nos compete a nós averiguar n'este

logar.

O facto foi que os dois juraram a obediência ás

bulias romanas exegida pelo pontificado, e que,

quando, vinte dias depois, o monarcha falleceu,

a tranquilidade publica estava restabelecida,

e a coroa passou ao primogénito, sem contes-

unanime assenti-

tações sérias

mento.

Nenhum dos systemas de governo, hoje defini-

dos e vigentes no mundo culto, governava então

o nosso paiz. Existia, por tácito accordo e direito

geral consuetudinário, a monarchia heriditaria, mas não era neui absoluta nem representativa.

Tinha o governo um caracter mixto, em que pre-

dominavam diversos e poderosos elementos. Era

theocratico, porque todos os poderes, mais ou me- nos, estavam subjugados pelo clero nacional e

pelo grande poderio da santa sé, a que o reino,

desde a fundação, se constituirá censuario, ideia

esmorecida, mas que existia ainda, e porque no

direito canónico consistia em muitos pontos a

única legislação em vigor;— partilhava do feuda-

lismo, porque os ricos-homens, as cathedraes,

os mosteiros e as ordens militares, dividiam en-

tre si grande parte do reino, e nas suas terras

exerciam jurisdição plena, com quasi inteira in-

dependência do poder central;começava, posto que embrionariamente, a tornar-se popular e de-

mocrático, pela importância que, de dia para

dia, adquiriam os municipios e pelo poder cres-

cente das cortes que fruiriam em breve notável preponderância; era monarchico e hereditário, porque, desde o conde D. Henrique, sempre o

poder real se transmittira por herança a um

individuo, que todos reconheciam como chefe

supremo administrativo, judiciário, politico e sobre tudo militar da nação.

A realeza tinha por si a tradição gloriosa de

quasi dois séculos de victorias, em que sempre

se achara á frente de fidalgos e populares para

conquistar o território palmo a palmo aos infiéis,

e

quasi com

e defendel-o das pretensões ambiciosas de Cas-

tella e de Leão ; era o poder ungido e abençoado pelo papa : constituía a unidade da nação, e re-

presentava-a perante as cortes e os príncipes

estrangeiros. Apesar pois do enfraquecimento in-

terno do poder real, o rei era uma entidade em

que o povo d'aquelle tempo, ignaro e semi-bar- baro. resumia as suas esperanças, e de que em

muito dependia o futuro da pátria.

Para apresentar por tanto a historia do reino,

indispensável é monographar o rei. Ambas as

cousas faremos simultaneamente. Nascera D. Diniz em Lisboa aos 9 d'Outubro

de 1261, e tornou-se depois notável no affecto

que sempre dedicou á cidade em que primeiro

viu a luz. Recebeu o nome de Diniz, que não

se encontra em monarcha seu antecessor ou pa-

rente, por nascer no dia em que a egreja comme-

mora S. Diniz, areopagita, e S. Diniz, apostolo

das Gallias, bispo de Paris e martyr. Tomando este por seu patrono celestial, dedicou-lhe, além d'ou-

tras egrejas, o sumptuoso mosteiro d'Odivellas, que elegeu para jazigo : traços característicos

da época fanática e tão ardente nas exteriorida-

des de devoção religiosa.

Era Affonso iii príncipe íllustrado para o sé-

culo e paiz a que pertencera. Viajara, residira

largo tempo em França, que partilhava então com

a Itália os primeiros alvores do renascimento da

civilisação ; e sentira depois, dirigindo os negó-

cios puMicos do reino, a necessidade que o futuro

rei teria de cultura espiritual e de sciencia. Por

tanto esmerou-se quanto poude na educação do

seu herdeiro.

Apenas attingiu o infante a edade própria, deu-

Ihe por ayo Lourenço Gonçalves Magro, espirito

Íllustrado e probo, que tinha por si a mais gloriosa

tradicção do cargo, era terceiro neto de Egas Mo-

niz, o ayo celebre e legendário d'Affonso Henri-

ques.

Exerceu simultaneamente igual missão, junlo

do real pupíllo, Nuno Martins de Chacim, gentil-

homem da primeira nobreza, erudito e pratico^ na sciencia de governar.

a-.i

Foram seus professores alguns ecclesiasticos

distinctos nas letras, que Affonso in mandou vir

de França, nomeadamente o portuguez Domingos

.lardo, estudante da celebre universidade de Pa-

riz, do qual adiante fallareraos mais largamente,

#

|i|i,

rua

Saíí do AlniaJj,

:i().

L). Diniz e o seu mestre Aymeric (i'Ebriird

Historia de Portugal

9

e Aymeric d'Ebrard, uatural dAquitauia, pro- fundo conhecedor e provavclincnlc ciilkir da poesia provengal. '

Foram estes os educadores e mestres do prín-

cipe, que durante quarenta e seisannos, deveria

governar Porlujíal, do único rei erudito e amante

das letras da dymnastia affonsina, do mais iilus-

Ire monarcba dos raros que entre nós souberam

alliar ao ollicio árido e diiliril do governo o sen-

timento do beJio e o culto da poesia.

As vantagens que o monarcba e a pátria colhe-

ram d'esta, relativamente, elevada educação,

alem de as attestar a historia amplamente, pro-

vam-nas também a gratidão nacional que con-

servou na memoria, atravez dos séculos, o nome dos perceptores, e o reconhecimento que sempre por elles mostrou o próprio Diniz, desde que su-

biu ao throno.

Ao descendente d'Egas Moniz, deu a villa de Arega, doação que mui expressamente confirinou

depois, ao revogar todas as doações inoiiiciosas

dos primeiros annos do seu reinado. - A Chacim

nomeou logo mordorao-mór, o mais alto cargo

da gerência da casa real e da administração do

reino, e fel-o mais tarde adiantado, ou fronteiro-

mór das melhores comarcas ou províncias de

Portugal.

Com importantes mitras premiou o,s outros

doús. Ebrard foi bispo de Coimbra e Domingos

Jardo de Lisboa.

A educação dos príncipes deve ser um dos

mais graves cuidados nas monarchias hereditá-

rias. Visto o acaso do nascimento lhes conferir a

elevada missão de dirigir as nações, torna-se in-

em

' D'EbriU'd era lilho do senhor de Saint Sulpice Quercy, e pertencia a uma nobre familia de

Cahors. Amava a sua pátria; e n'ella edificou lun

mosteiro no valle de Paradis d'Espagnac, oiule quiz

ser sepultado. «Ainda liojo, (hzia F. Diniz em 18'i6,

se na egieja do convento o singelo tumulo do

perceptoi' do rei poeta de Portugal, em cujo espirito

tão poderosamente influiu.»

2 Arega, hoje Ai-egos, é uma pequena villa do dis- tricfo de Vizeu, quatro léguas ao poente da cidade de

Lamego, com boas caldas. A respeito d'ella e do caso

que acabamos de referii-, diz Fr. F. Brandão o seguinte:

por ser

aio seu, &. ainda que annos a diante fez geral re-

vogação das mercês que fizera nos princípios de

«Deo-lhe El-Rei D. Deniz esta villa

dispimsavel que o esmero da cultura intellectual lhes facilile o encargo. E imperterivel dar-lhes

o conhecimento das leiras, das cousas reaes da

vida e das noções geraes das sciencias, e sobre tudo inspirar-lhes o amor da pátria, do progresso

(! da justiça. E preci.so emlim instruil-os, e for-

raar-lhes, e avigorar-lhes o caracter.

Nada d'isto faltou a D. Diniz. Na sua natureza

viva e bem disposta, a semente sã da educação fru-

ctilicou quanto os rápidos annos em que lha facul-

taram e arudeza da epocba o podiam permittir. Eis

a principal razão porque elle foi um monarcha no-

tável nos fastos do paiz. '

Cedo, senão talvez prematuramente, o inicia-

ram as circumstancias politicas na pratica de go-

vernar.

Por pertencer á historia do reinado de seu pae,

de passagem diremos que foi em nome de Di-

niz, quando ainda no berço, que Affonso in, para

obter a paz e o senhorio, posto que condicional

e limitado, do Algarve, constituiu este reino na

obrigação de ajudar Castella, com cincoenta lan-

ças em caso de guerra. O infante ficou, naquella

parte de seus futuros estados, sujeito á suzerauia

do avô materno, Affonso x.

Em breves annos se tornou exigível a presta-

ção do feudo. Us mussulmanos d'Hespanha agi-

taram-se contra Castella, e receiou-se seriamente

que os seus correligionários de Africa fizessem

uma suprema tentativa, para ossoccorrerem e re-

cuperarem o antigo império, aquém do Estreito.

O papa acudiu a Affonso x com os seus meios fáceis : concedeu-lhe para a guerra santa a de-

cima das rendas ecciesiasticas, não de Leão e

seu reinado, conservou todavia a Lourenço Gonçal-

ves no senhorio de Arega, como consta d'esta rati-

ficação feita nas Pias a nove de novembro de mil

Como eu desse a Lou-

duzentos óc oitenta & seis

renço Mayro meu amo por criançu, ^' por seniçoj,

que me fez em doaram a Villa de Arega, ff eu revo-

gasse todalas donções, nomfoi entam minha entençom, nem hc que lhe revogasse esta doaçom. Tudo merece

um bom aio & mestre. Esta VUla d'Arega foi po-

voada no anno de lâOO por Pedro AlTonso, fdho bas-

tardo d'EI-rei D. AtTonso Henriques, & n'este próprio

anno lhe deu foral. Seu irmão D. Sancho o primeiro

le deu a terra.»

^fon, Lus. vol. o, L. Í6, c. 3.

Fr. Franc. RrandãoAíoíi. Ltu. cit

10

Historia de Portugal

de (iastella, mas até de Portugal. Fai-a evitar con-

tendas, livrar o reino da invasão do colleilortís

do imposto pontifício, e talvez para dispor o en- sejo de se libertar da suzerania do Algarve,

Aflonso iii enviou Diniz a el-rei de Casleila, eom

numerosos reforços de mar e l,erra.

Contava então o infante quatro para cinco an-

nos. lim Sevilha recebeu-o o avô com affecto, e

posto que se desvanecera jâ a temerosa tempes-

tade f: se escusasse o auxilio, mostrou taes en-

cantos a real creança, com tal graça repetiu as

rogativas insinuadas, e tão commoventes e a pro-

pósito foram as suas lagrimas, que o avô dis-

pensou o neto do feudo das cincoenta lanças, e o

Algarve, ficou, desde então, plena e exclusiva-

mente ligado á nação portugueza. '

. Pueril seria attribuir o bom êxito d'este nego- cio grave á intelligencia do infante de tão tenra

H.dade ; mas que principiou breve a mostrar apti- dão para o governo, parecem mostral-o outros

factos.

Teria pouco mais de dezeseis annos, quando

seu pae o associou à administração do reino.

Tudo se fazia em nome do velho monarcha, mas

era o infanle que despachava com os ministros

as cousas de habitual expediente, e presidia á

resolução dos negócios.

Fará maior esplendor e talvez, como alguns

suppõem, para mais livre desenvolvimento da

sua superior educação, deu-lhe Affonso iii, em

30 de junho de 1278, paço especial para habitar:

constituiu-lhe corte numerosa de dignatarios e servidores, escolhidos entre os mais nobres fidal-

gos do reino; e dotou-o com baixelas e alfaias

valiosas e uma renda de quarenta mil libras an-

nuaes, - que podemos calcular corresponder na

moeda de hoje á sonima avultada de dezenas de

contos de réis. Pouco depois sahiu o infante de Lisboa, onde

havia muito residia seu pae, para visitar o reino

e se mostrar aos povos.

Estes factos, excepcionaes para com o herdeiro da coroa, tiveram no espirito ardiloso e proftmdo

d'AlTonso III razão capital.

Era ambicioso do poder, não para si, mas

também para a sua directa posteridade. Alcan-

çara a coroa a custo, engrandecera-a com mui-

tos trabalhos e dissabores, e ao aproximar-se-lhe

o passamento, sentia-a vacilar na fronte, e co-

nhecia a possibilidade de a perder também para

o filho estremecido. Como vimos, o mesmo su-

premo poder que lha outorgara, tentava tirar-

ih'a agora.

Doente, havia annos que jazia no leito; e,

por conveniência politica, exagerava o mal, para

com elle illudir os adversários.

Manifestava D. Diniz intelligencia precoce; sa-

bido apenas da infância, não podia ter malque-

renças; e era cortez e affavel.

Portanto adestral-o a conservar e gerir a glo-

riosa mas difficil herança que lhe legava; des-

cançar n'ellc parte do pezo do governo com que já não podia; e, sobre tudo, acostumar osportu-

guezes a considerar seu filho primogénito como o

futuro rei por direito, e acceital-o de facto desde

já, destruindo assim possíveis reluctancias, e

suavisando, coma amena innocencia do infante,

os ódios e a opposição dos seus adversários pes-

soai>s tudo foram razões que imperaram no seu

coração de pae, e no seu espirito de rei am-

biciosu e quasi fundador de dynastia coUacte-

ral.

1

Hm públicos documentos, Affonso iii declarou

D. Diniz filho primogénito e herdeiro da coroa, o

que ainda se não fizera com nenhum outro in-

fante.

Para remate do plano, prestaram pae e filho,

como dissemos, o juramento de obediência ás exi-

gências da egreja, pactuando assim a paz com

seus tenazes adversários.

D'est'arte o velho e arteiro monarcha baixou

ao tumulo, conjurando, de sobre a cabeça do suc-

cessor, o vendaval que, nos últimos tempos, re-

demoinhara em torno do seu leito de terríveis

soffrimentos e d'agonia.

p^alleceu Affonso iii em 16 de fevereiro de 1 279.

N'esse mesmo dia, com as solemnidades tradic- cionaes do acto, foi D. Diniz, que completara

' A. Herculano

Hist. de Port. L. 6.

Mon. Lm.

vol. 4, App. Escrit. 33 e vol. 5, L. 6, c. S, App. Escrit. 1.

14 e IS e Doe. da G. 13, M. 9 n." 23 e M. 11, n.» 9 do Arch. Nac. da Torre do Tombo.

í A. Herculano ííisí. de Port. L. 16 Schoef-

Historia de Portugal

11

apenas dezesete annos e quatro mezes d'eda(le,

proclamado rei de Porlufíal. '

Era uma aurora de juventude, levantando a co-

roa de ferro de AfTonso Henriques, e inaugurando

na pátria um largo período de [)az e civilisaçrio.

CAPITULO II

Primeiros actos do novo governo,

oasamento de D. Diniz

Os cuidados que Affonso ni tivera para consoli-

dar no throno seu filho Diniz foram plenemenle

justificados pelos acontecimentos posteriores.

Venceu-os, no momento, o velho rei, usando

dos meios que apontánios, e tainhem por, feliz- mente, não haver entãe no reino personagem

assas poderoso, que se podesse contrapor ao jo-

ven mooarcha. Nos primeiros tempos, a acclamagão de D. Di-

niz, se suscitou alguns murmúrios, foram tão

pequenos e vagos, que não eniliaraçaram o re-

gular andamento dos negócios públicos.

Aventou-se que da condessa de Bolonha, D. Ma-

thilde, primeira esposa de Affonso in, havia um

tilho em França por nome Roberto ; affirmou-se

que em Portugal existia outro chamado Affonso

Diniz; que eram ambos filhos legítimos do falle-

' «Chegado o anuo de nossa repaiação ile uiil

duzentos e setenta e nove, eui uma quinta feira,

que se cõtavaõ desaseis do mes de Fevereiro, sendo

passados sete mezes, c vinte .seis dias, depois que

se deu casa ao Infante Dõ Dinis, levou Deos para si a el Rei Afonso IVrceiro seu pa\. Por iiiorle ilflli^

ticoii logo obedecido o Infante, e jmado em Rey com

as cereinonias costumadas em actos semelhantes.

«No cartório da (Gamara de Lisboa achamosesciiptas

estas palavras, senuio fundamento d'esta \erdaile ; In

Dei iiomitie.

Siih era mccc x un. feriu quinta, de-

eima sesta die Febníarij decessit Doniiiius Rex Al- funsus Portugalios et Algarby et incipit Dominns

RejL- Dionysiiis filins eivs regnare pru eo. Concorda

com esta memoria outra do livro da Noa de Santa

l>HZ de Coimbra nVstas pala\ras: xiiii h'al. Martij

nhije n.

.Mphonsiis lertins inclitnx Rer PurlngiiUiti'

cidiis

anima requiescat in pare, Amen.

e.

.\i. ccc.

xun et in ipsa era regnavi Dõtius ninnysius filitts

eius pro eo.

•Tradnsida em Poituíiues esta memoria, diz assi

«Na era mil e. trezentos e desasete, a quatorze das

eido rei, mais velhos que o infante elevado ao

throno, e que por tanto a qualquer d'elles, e

não a este, pertencia a coroa. Com o tempo e o estudo da questão, dissipa-

ram-sc estas duvidas. D conde Koberto, que

succedera no estado de Holonha, era filho d'nma

tia de Malhilde, e assim primo d'esta, e não

sen tilho; por os não ter a esposa de Affonso ni,

! que Hobeilo recebera o condado em successão

collateral. Affonso Diniz era filho natural e não

legitimo do fallecido rei: elle próprio acceitava

a sua posição inferior, e conservou-se sempre

em amisade submissa com o imperante, seu

irmão. '

Oppofição mais seria, o (|ue no capitulo se-

guinte exporemos, seria porém a que mais tarde

faria o infante D. Affonso, segundo filho varão

da rainha D. Beatriz.

Mas este tinha então upenas 16 annos, não

o adornavam, como ao primogénito, prematuros

dotes d'intelligencia ; e os seus pretendidos di-

reitos á coroa não acharam echo no paiz nos

primeiros dias do novo reinado.

Parece que ainda assim se tomou a precaução

de confirmar, por consultas de jurisconsultos e

canonistas propícios, o bom direito de successão

de D. Diniz. Innutilidade porém. Tinha a seu

favor a suprema rasão politica de todos os tem-

Kalendas de Marco morreo o ínclito Rey de Portii-

^'ai e Algai've D. Afonso Terceiro cuja alma descansa em paz, Amen. E na própria era entrou a reynar em seu lugar Dom Dinis seu fdlio.- A outra da Camará de Lisboa iliz d'esta maneira : "Em iionif de Deos.

Na era mil trezentos c desasete. quinta feira desaseis

dias de Fevereiro morreu o senhoi- Rey de Portu-

gal, e Algarve Dõ Afonso e começa a reynar o se-

Portugal e

Algarve. > Ambas estas memorias estão conformes

ainda que variem no computo dos dias e ambas

concordão em que começou a reynar o nosso Uoni

Dinis de desaseis de Fevereiro do anno de Christo

mil duzentos e setenta e nove adiante, que a esle

mimi^ro de annos c dias vem a responder as me- morias ambas. Com ellas concorda uulia do livro primeiro dos padroados, declarando ser a mort''

del-Rey. Atilo galli rantiim.

nhor

Rey Dom

Dinis seu

fdho

em

(Fr.

Franc. Rrandão. Mn». Lns.

T.

o,

L,

1().

c. 18.)

' Fr. Franc. Hrandáo jWo». Aí/lv. T. fí, .L.-IH,

c 18 e 19.

-liV

1

12

Historia de Portugal

pos: a posse, com o assentimento geral; a von-

tade tacita, mas quasi unanime da nação;

d'esla arte ponde o novo rei, desde logo, entrar

desassomlirado, no exercício do podor real e na administração do reino.

Eram então os negócios graves do estado de-

cididos na cúria, ou junta de ministros, prela-

dos

costumavam todos assignar os mais importantes

diplomas.

homens, residentes na corto, e

e

ricos

D.

Diniz, tomando na dextra juvenil as ré-

deas do governo, acceitou, com levíssimas mo-

dificações, os ministros e dignatarios da corte

do rei seu pae. Conservou a historia os nomes

dos primeiros; eram o bispo d'Evora, D. Durão

Paes, que fora [irebendado da sé de Sevilha, illus-

trára-se em Castella e servira largo tempo, como

clérigo d'Aíronso in, no despacho dos negocies

públicos; D. João d'Al)oim, grande privado do

defunto rei, um dos mais opulentos fidalgos do

reino, fundador da villa de Portel e muito esti-

mado na corte como trovador c poeta; e Fr. Af- fonso Pires Farinha, prior dos hospitaleiros, que

muito viajara no estrangeiro, e era assaz versado

na sciencia de governar.

Nos primeiros tempos, por ser el-rei extre-

mamente moço, pouco pratico nos negócios, e

talvez também, como dizem os chronistas, por

dado em demasia á liberalidade, sua mãe, a rai-

nha D. Beatriz, assistia, por si ou por seu logar

tenente, Ruy Gomes, aos conselhos do governo. '

Em seu nome e no de el-rei, se expediam as

ordenanças, e assignavam ambos os actos pú-

blicos.

Exercia a rainha uma espécie de tutoria para

com seu lilho, ou fielo menos uma parceria no

governo, aliás mui justificada pela pouca edade

do monarcha.

,;,

;.,.;,

/.^

,, v,

Não a soffreu poi'ém, [lor muito tempo o jo-

ven rei, ou por ciúme e impaciência de gover-

nar só, ou pon]ue o animo da rainha começasse

a inclinar-se demasiadamente, em prejuízo do

reino, á politica de seu pae, Affonso de Castella;

em breves mezes se libertou da espécie de coo-

regencia de D. Beatriz, aproveitando o primeiro

1 Duarte Nunes Leão, Chronica d'El-rei M. Di-

niz, c. 1— Fr. Franc. Brandão, Mon. Lus. T. S, L. 16,

c. 26.

.-)

pretexto que se lhe offereceu para se afastar da rainha, e partiu com os ministros para as provin?-

cias do reino a axiministrar justiça, deixando só-

sinha em Lisboa sua mãe. De facto já a 25 do mez

dAbril do mesmo anno em que subira ao throno,

o encontramos em Évora, occupando-se, sem D. Beatriz, nas cousas do governo.

\'erdadeira e natural nos parece a asserção de

muitos escriptores de que se offendeu e maguou

com a exclusão a viuva de Affonso iii; mas é duvidoso o que alguns dizem de ter o rei de

Castella tentado a reconciliação da filha com o príncipe seu neto.

Affirma-o Duarte Nunes de Leão, escrevendo

que veio o castelhano a Badajoz e rogara a Diniz

que fosse a Elvas para se avistarem na fronteira;

acrescenta que accedera o monarcha portuguez

à primeira parte do pedido; em Elvas recebera

os infantes de Castella, Manoel irmão do rei,

Sancho herdeiro da coroa, e seus irmãos Pe-

di'o e Jayme: retivera D. Diniz comsigo os tios

três dias e depois os despedira, dizendo-lhes que

breve se la apoz ellesa verorei. Alvoroçado espe-

rava o velho Affonso o neto, quando soube que se

partira d'Klvas para o interior do reino, achando

menor aggravo o evitar a conferencia do que

recusar o pedido a seu avô. Não teimou o caste-

lhano, vendo Diniz em tão deliberado propósito,

e descontente e sentido se tornou a Sevilha. ' liuy de Pina omitte todo o incidente da adju-

toria da rainha no governo do reino; Fr. Fran- cisco Brandão, admiltindo, senão confirmando a

primeira parte, põe em duvida a segunda da

interferência d'el-rei de Castella, allega porém

factos que não a refutam completamente.

Não podemos, agora, evidenciar o succedido;

mas sendo certa, como os documentos o compro-

vam, a parceria da rainha na gerência publica, provável é que pai-a a sua continuação o rei de Cas-

tella fizesse as possíveis diligencias. Estas in-

tervenções dos estados, nos negócios exclusivos

uns dos outros, eram a praxe internacional da

epocha; ao predomínio d'Affonsox, reconhecido em toda a península desde muito, deveria desagra

dar profundamente o espirito d'isenção rude, mas arteiramente manifestado por uma creança que

acabava apenas de subir ao throno;— além d'is60

:

I

''kIí Duarte Nvuies de Leão, loc. cit

Historia de Portugal

13

'^onvinha ao rei de C.aslella, como em breve os

factos o iam provar, ter em Portugal seguro au-

xilio para a sua politica, e

irtíste só lhe podia

serppnlior o aftccto filial de Beatriz deGuilheii,

que dum lieryo bastardo elevara ao

tlirono.

.Mui

provável nos parece, pois, que empregasse es-

fonjos para oiiter vantagens que forçosamente

Ihcdeviam estar no intuito: O certo, porém, que

as não conseguiu, e que a rainha D. Beatriz, ainda

que mais tarde se recolhesse a Castella, Qcou

em Portugal completamente afastada da gover-

nação do estado. Felizmente, estas desintelligeneias entre a mãe

e o filho conservara{n-se sempre em prudente

reserva,