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EMPREZA IJTTERARIA DE LISBOA

M FOBTIIGAl

QUARTO VOLUME

POR

DE

MANUEL DE MACEDO

I

^E. L. de J^.-^M^-

OFFICINA TYPOGRAPHICA DE J. A. DE MATTOS

36, Rua Nova do Almada, 3lj

LI^I^O I

I> . Set>ti»tião

^^cOoc=—

CAPITULO 1

Portugal nos meados do século XVI

Vamos entrar no período mais triste e mais

desgraçado da historia de Portugal.

A epopóa brilhantíssima, que a espada lumi-

nosa de AEFonso Henriques começara a escrever

em Ourique, pára exactamente na época em que

apparece o seu cantor immortal.

Os Lusíadas, essa apothéose homérica d'um

grande povo heróico,

hora da sua fatal queda.

surgem quasi que na

Mais uns annos e a epopéa transformar-sc-ia

em elegia, a apothéose em elogio fúnebre.

Mais uns annos e Camões teria arrancado das

suas estrophes olympicas esses quatro versos:

«Fazei, senhor, que nunca os admirados

Allemães, Gallos, ítalos e ínglezes

Possam dizer, que Scão para mandados

Mais que para mandar, os Portuguczes."'

Ião inúteis quando os descendentes dos ve-

lhos heroes iam vender cobardemente, infame-

menle a pátria humilhada, pobre, agonisante, ao

sinistro filho de Carlos v, o imperador legen- dário.

-\a historia brilhante de Portugal alastram-se

como uma immensa nódoa de azeite esses annos

,de servilismo

e de captiveiro e o sol que se

afunde em nuvens de sangue em Alcacerkivir

mergulha o paiz

em escura e longa noite até

surgir de novo radiante nos campos de Montijo.

Coube-nos a narrativa d'e3sa dolorosa época

de trevas e de lagrimas, illuminada apenas no

seu começo pelos últimos clarões das conquistas

do velho Oriente.

O génio guerreiro que deu a Portugal as pagi-

nas mais gloriosas nas epopéas modernas, o es-

pirito aventuroso, cavalheiresco e batalhador que levou o nosso nome a todas as partes do mundo

e nos deu um logar de honra na vanguarda dos po-

vos europeus, foiomesmoque,apparentemente,

rasgou as quinas ante o crescente victorioso nas

plagas africanas, foi o mesmo que estrangulou

a independência nacional nos laços do capti-

veiro, e a entregou inerte e indefeza nas mãos

do Demónio do meio dia, do lúgubre Filippe ii. Chegado ao apogeu da gloria, Portugal deu-lhe

a vertigem e cahiu nos abysmos da escravidão. Ma hora suprema da agonia, apparece á cabe-

ceira do reino moribundo uma roupeta vermelha.

Portugal teve um sinistro coveiro— o

cardeal

D. Henrique. Mas quem o matou, quem lhe vibrou o golpe

fundo, não foram as imbecilidades perversas do jesuíta covarde, não foram as allucinações peri-

gosas do juvenil rei-cavalleiro: quem assassi-

nou Portugal foi esse rei fanático e estúpido, que abriu os braços estultos á companhia de Jesus,

que enraisou foi-temente no reino essa arvore mortífera, que se chama absolutismo, a cuja

sombra protectora plantou, medrou e floresceu

essa colossal infâmia catholica, a Inquisição: e

no tribunal sereno da historia, quem tem que

responder pela liberdade perdida, pela honra

6

Historia de Portugal

ultrajada, pelo brio espesinhado, pela riqueza delapidada d'esse povo que deu ao mundo o es-

pectáculo mais grandioso dos tempos modernos,

uma nação pequena alastrando pelos dois he-

mispherios o seu poderio, a sua influencia, a

sua gloria, e o seu nome, não é o velho idiota

e ambicioso, que deixou nas chronicas o nome odiado de cardeal-rei, não é a creança heróica,

o imberbe enamorado da Gloria que por ella

morreu, como um paladino audaz, nos areiaes de

Alcacerkivir, não é o cadáver frio e inerte do rei a quem a tradicção deu, como uma ironia

pungente, a alcunha de «Piedoso " e que a his-

toria reconhece pelo nome de João iii.

E um triste previlegio este, o dos reis imbe-

cis, fracos,

6 fanáticos que a fatalidade para

desgraça dos povos collocam nas eminências do

poder: ainda depois de mortos, das suas covas sombrias se estende sobre o povo a sua influen-

cia nociva, e como dos cadáveres dos cholericos

as suas exhalações pútridas envenenam por

muito tempo a atmosphera que os cerca.

Na terrível lógica da historia, Filippe ii era o

herdeiro fatal de João iii. Foi no infeliz reinado d'este estúpido monarcha que se preparou a

ruina de Portugal. A' sua politica interna trans-

formou completamente o govtrno n'um absolu-

tismo feroz sem restricções; a sua politica ex-

terna, uma politica toda neutral no meio dos

confliclos graves que se levantavam entre todas

as nações da Europa, aliènou-lhe todas as sym- pathias dos estados europeus, e mais tarde,

quando Filippe ii cortou do mappa esta pequena

nacionalidade, que escondida no canto do occi-

dente espalhara a sua fama e o seu nome pelo

mundo inteiro, a Europa pagou a Portugal a di- vida de desdenhosa indiQ"erença, que contrahira

com o rei Piedoso.

Os hespanhoes, quando entraram ameaçadores na Lusitânia, encontraram, em vez dum povo

enérgico e valente, defendendo a sua vida e a sua

autonomia, um povo inerte, fraco e humilliado

ao jugo feroz do absolutismo; o fanatisto enros-

cado em todas as almas, a desmoralisação cam-

peando no exercito, o luxo enein'ando as altas

camadas sociaes, a fome e a miséria devastando

o povo; um bando de leOes transformados em

rebanho de cordeiros pela immoralidade, pelo

despotismo, [lela miséria; um bando de cordeiros

governado por um pastor imbecil e desastrado,

pelo nefasto Cardeal D. Henrique. Do mesmo modo que Luiz xvi o infeliz Ca-

peto, D. Henrique e D. Sebastião colheram apenas 03 fructos mortíferos das sementes venenosas lan-

çadas á terra por João iii. A providencia parece que escolhe sempre, u'es-

tes momentos críticos dos povos, uns reis inha-j

beis, fracos, allucinados, que em vez de susterem por algum tempo mais as quedas inevitáveis as

apressam desgraçadamente.

Os germens nocivos lançados por D. João m

teriam desabrochado mais tardios, ou quem

sabe, ter-se-hiam 'completamente annulado, sei

em vez de lhe auxiliarem o desenvolvimento

lhe tivessem applicado um antídoto enérgico e

efíicaz.

>«'este caso o antídoto seria uma administração

rigorosa e intelligente, uma politica hábil e

digna, um amplo e profundo trabalho de reorga- nisação, o insufflamento de novas forças n'es3e

immenso corpo popular abatido e anemico por 35

annos de tyrannia e de fanatismo. D. Sebastião,

uma creança desvairada pelo amor dagloria, uma

intelligencia inutilisada pelo fanatismo caprichoso

d"uma educação deplorável, e D. Henrique um

velho idiota e ambicioso, instrumento cego duma

seita odiada, não poderam oppòr um dique á onda gigante que nos ameaçava, e pelo contrario, fa-

cilitaram-lhe a invasão com os seus desvarios e

as suas inepcias.

É assim que ao fechar a historia do triste rei-

nado de D. João ni e ao ver a coroa pousar na

cabeça infantil d'uma criança de três annos, dis-

putada tenazmente por duas grandes ambições rivaes, a da rainha D. Catharina sua avó, e a do

Cardeal Henrique seu tio, ao ver a Europa a olhar-nos indi9"erente, e a Hespanha a prepon- derar fortemente na nossa politica, não é preciso

ser propheta para vrr n'um futuro próximo o

triste desenlace preparado, pelo fanatismo, pela

tyrannia e pela estupidez do indigno filho do

grande D. ^Manoel, á grandiosa epopéa começada em Ourique; para advinhar a tremenda queda

d'esse colosso que se chamou Portugal.

Antes porem de entrarmos no desgraçadíssimo

reinado de D. Sebastião lancemos ura olhar para

Historia de Portugal

o estado do 1'oi'tugal duraiilo os últimos annos i

da vida de D. João iii e vejamos que rciíio e que

povo, o rei desejado recebia em herança, ao dar aos primeiros passos de creança no mundo em

que Ião triste tradigão havia deixar.

U

reinado de D. João iii é um mixto original

•de explendores e d'amcaças, de riqueza e de mi-

séria.

Ha n'elle luz brillianíe e somiiras implacáveis.

Mas desí^raçadamente, a luz são os últimos cla-

rões da gloria portugueza próxima a exlinguir-

se; as sombras são o gérmen desgraçado da imraensa noite cm que vae mergulbar-se Por-

tugal.

A fortuna lusitana chegou n"es3a época ao

seu apogeu. A handeira poctugueza tremulou nas

mais remotas paragens do rico Oriento, O nosso

commercio arrancou riquesas fabulosas do seio

ubérrimo da velha Ásia. A índia submettcu-se á

conquista: o Brazil começou a povoar-se; a China

e o Japão descobertos, a Oceania avassalada, a

Abyssinia explorada deram forte colheita de gloria c de ouro, de factos heróicos e de dinheiros po-

derosos a Portugal.

Mas esse ouro atravessava apenas o paiz, e em vez de o fecundar ia enriquecer a Inglaterra, opulentar a Itália e Flandres, e encher imbecil-

mente os sempre insaciáveis cofres do Vaticano; essa gloria, em vez de se arvorar em estimulo, era suflocada pelas tyrannias do absolutismo, es-

magada pelo fanatismo torpe dos jesuítas, que se

ostentavam triumphantes e fortes á sombra sinis-

tra da Inquisição.

A época de D. João iii marca distincta e per-

feitamente na historia, a transição das altas emi-

nências do poderio triumphante para os escuros

abysmos da servidão, da vida gloriosa para a

morte humilhante.

As conquistas ca fortuna do Oriente eram as

resultantes dos impulsos anteriores: o que era do

Rei Piedoso era a desmoralisação do exercito, do

povo, o obsecamentodos tyrannos, o relaxamento

dos poderes judiciaes esmagados pela inquisição,

a pobresa dourada do povo, o enervamento da

aristocracia, o afugentamento dos estrangeiros

e do commercio que eram em Lisboa vexados a

todo o passo pelas crueldades infames da inqui-

sição e pelas arbitrariedades estúpidas do poder pessoal.

A gloria toda do seu reinado pertence ao.-í seus

antepassados; a vergonha, o opprobio, a immo-

ralidado e a miséria pertencera-llie a elle, e des-

graçadamente vieram a caber em herança aos

seus successores e ao paiz.

K agora que vamos entrar na terrível tragedia

heróica de Alcacerkivir vejamos o que era Lisboa DO século XVI, no século de João ni e de D. Se-

bastião, Lisboa essa formosíssima cidade que foi a primeira do mundo e que como conta uma lenda

alleniã, foi a que em Jerusalém appareceu, no

espelho magico, ao cavalleiro clirislão, que ape- tecera ver a cidade mais bella da Luropa. "Lisboa, diz Alexandre Herculano, guerreira e

depois mercadora, também teve não uma, mas duas villas novas, abraçadas á sua cinta de mu- ralbas, a primeira ao sul, a segunda ao poente.

Chamava-se aquella Villa Nova de Gibraltar: esta

Villa Nova d'Andrade.

«A segunda, nascida no scculo xv, viveu dois dias apenas; por que Lisboa, ess-dviUa ^ limitada,

nos fias do século xii, a 15:000 habitantes, em-

quanto a mourisca Silves contava 25:000, cres- ceu cora tal rapidez na época dos descobrimentos

que, rompendo, ou antes galgando por cima dos

lanços occídentaes de seus muros, a devorou

ainda no berço, ou, para melhor dizermos, par- tiu-a em fragmentos, e aos seus membros des-

pedaçados chamou Bairro Alto, Chagas, Santa

Catharina. Villa Nova d'Andrade foi uma coisa

fugitiva, sem gloria, sem individualidade. D'ella

poderia dizer-se o que o psalmista dizia do ím- pio: «Vi-a exaltada como o cedro do Líbanio:

passei, e não existia; husquei-a, não lhe acbei

rasto.» Deixémol-a, pois, na paz do esqueci- mento c do nada. Não assim Villa Nova de Gi-

braltar! Fallae-me em Villa Nova de Gibraltar!

Esta sim, que viveu. A sua origem perde-se nas trevas dos tempos chamados bárbaros; entron-

ca-se no berço da monarchia. Assentada á beira

do Tejo, fora do lanço do sul e sueste da mu-

ralha árabe, ou talvez goda (quem poderá boje

dizel-o?!) que cercava Lisboa antes do século xiv,

saudavam-n"a os primeiros raios do sol orien- tal; aqueciam-n'a todos os do alto dia, doira-

vam-n'a os derradeiros que vinham do poente,

1 Évora é chamada no seu foral cidade; Lisboa

no seu villa.

!

8

Historia de Portugal

roçando pela superBcie das aguas. A cidade

lá estava, sombria, entre as torres e altos muros da sua cerca, agachada nas faldas do seu cas-

tello soberbão e mal encarado, prostrada envolta

da

sua

cathedral ampla

e

triste.

Mas

que

importava isso a Villa Nova de Gibraltar? Ahi

não havia nem muros, nem torres, nem castel-

los, nem campanários. EUa mirava-se no rio e achava-sc bella, bella por si e pelo luxo dos seus

atavios, por que Villa Nova de Gibraltar era a

atravessadora de quasi toda a mercancia: a pá- tria dos renieiros e sacadores das rendas e di-

reitos reaes; era rica e potente; e ao sobrecenho

altivo da velha Lisboa, confiada na sua epiderme

de mármore, respondia ella mostrando a sua ar- madura d'oiro e depois punha-se a rir, por que bem sabia já, como nós hoje sabemos, que o

oiro é mais forfe que o mármore.

«D. Fernando i, que foi para com Lisboa como

um amante selvagem, ora querendo anniquilal-a,

porque lhe preferia em amores o alfayate Fernão Vasques; ora lançando-lhe no regaço riquesas,

privilégios, tudo; quiz, n'um accesso de ciúme,

escondel-a aos olhos d'eslranhos. Já ella, a na-

moradeira, sabiudo a Porta de ferro, pelo terreiro

da cathedral. correra para o valle de Valverde e

se reclinara por ahi abaixo, indo espreitar a

barra, da margem do rio; já começava até a

galgar pela encosta fronteira, para o lado do go- thico mosteiro de S. Francisco, e para a ermida dos Martyres, e pela Pedreira do Almirante para

o convento dos santos frades da Redempção.

«Alto ! disse o bom do rei D. Fernando, e cha-

mando os villões sujeitos á adúa por todas as

villas e logares d'arredor, lançou á cintura da

doidinha uma nova faixa de muros para que

não passasse além. Ficou-se, é verdade, espai-

recendo Lisboa pelo valle e pela encosta, mas

ao menos atraz das novas torres e quadrellas,

já não podia fazer gatimanhos de presumida aos

que vinham visitar em som de paz ou de guerra

03 campos das suas circanias, ou as aguas da

sua enseada.

«E que era n'esse tempo feito da Villa Nova

de Gibraltar? estava senhoril e desdenhosa

á beira do Tejo, indifferente aos arrufos de Lis-

Fernando. Pacifica e

boa e aos ciúmes de D.

fiel, não se entremettia em negócios alheios,

não tumultuava, não se namorava d'eslranhos. |

Assim a muralha real que bojava para poente,

passou pé ante pé por entre ella e a cathedral para

não a afíligir; encorporou-se ahi com os antigos

muros para. a deixar, como até então, exposta

á sua tão querida restea de sol. Novas portas,

todavia, a uniram com a antiga cidade que tão

rapidamente crescera e se fizera garrida. Foi'

por ahi que lenta e traçoeiramente Lisboa pôde i chegar a submettel-a e devoral-a.

"E quereis saber por qual rasão e como ? Dir-

vol-hei.

Gibraltar, abaixo do seu diadema rutilante de

Era que na frente de Villa Nova

de

princeza, estava escripta uma lenda fatal e mal-

dita; uma lenda que por muito tempo foi apenas

ignominiosa, mas que nos fins do século xv se converteu em sentença de morte, signal estam- pado pela mão do archanjo do extermínio. Esta lenda encerrava apenas duas palavras blasphe-

mas, que só podiam ser apagadas destruindo-se

a existência individual da povoação que se atre- via a apresental-as diante da luz do céo. Villa Nova de Gibraltar era a Communa dos

Judeus

"A edade média, essa época altamente poética,

porque linha crenças; e profundamente symbo- lica, porque era poética; havia feito de Lisboa

um symbolo d'historia religiosa e politica. O mu-

nicípio christão, partindo do alto alcaçar ao cas- tello, dilatava-se até ás raizes do monte em cujo

topo campeava, a cavalleiro de todos os cabeços

dos arredores, a torre de menagem, guarida do

alcaide-mór, como representante do senhorio real

e da aristocracia: á sombra do alcaçar e a mais

de meia encosta,

a cathedral alçava os seus

dois campanários altivos, quadrangulares, ma- cissos; entre essas duas expressões materiaes da monarcbia, da cobresa e daEgreja, a casa da ca-

mará os paços plebeus do concelho próximo do campanário setemptrional da sé, chãos e humil- des , representavam o povo, que em silencio se pre- parava para ir estendendo os braços endurecidos

pelo trabalho a subjugar algum dia, á direita o

alcaçar, á esquerda a egreja. Na configuração da

cidade resumia-se a historia social do passado e

a prophecia do futuro. Como tantas coisas da

edade média, Lisboa era um verdadeiro symbolo.

"Não o era todavia do pensamento politico,

também o era da idéa religiosa.

No âmago da

povoação, no logar eminente, estava o Christia-

 

a

Historia de Portugal

9

nismo; ao norto, em profundo vallc, o. ii[>iiili;uio

envolta da mesquita apenas tolerada, ficava o

bairro dos Mouros a Mouraria; ao sueste,

quasi ao oriente, lançada ao pé da es» o^^a a Judiaria; uma crenga verdadeira, mas tempo-

rária, do lado donde o sol surgia, na sua as-

cenção para as alturas; a religião de Cbristo,

complementod'aquella, assoberbando-ado monte sobranceiro; o Islamismo, transformação ímpia

e tenebrosa d'ambas, como escondido ao norte

na penumbra da cruz triumphante, e ao longe

as vastas solidões do Oceano, alravez das quaes

os filhos do Evangelho o deviam levar algum

dia ás regiões ainda incógnitas de novos mundos.

O velho Portugal tinha feito da cidade do Tejo um symbolo e uma prophecia sublimes!

«Â monarchia, vencedora da idade média,

esqueceu a poesia d'elía, porque nos seus velhos

hábitos d'organisar, de legislar, de livelar, per-'

dera inteiramente o senso esthetico. A poesia estava principalmente nas idéas, no sentir, nas

fórmulas das classes aristocráticas; o povo era

infeliz e selvagem, e a monarchia positiva, cal- culadora, egoista. Com a victoria final d'esta

desappareceu tudo o que representava o ideal.

Belém é a agonia da arte; é o estrebuxar des-

composto da architectura christã que morria;

e o Cancioneiro de Rezende o ultimo concerto

dos trovadores, em que já se misturam os sons discordes da poesia romana.

«N'este crepúsculo da vida nacional, n'esta passagem da originalidade para a cópia, as ruí- nas tombavam sobre outras ruínas, a nova

sociedade sobrepunha as suas obras incertas,

frias, ou estúpidas aos restos ainda palpitantes

do cadáver do passado; cerzia-as ridiculamente

com remendos e fragmentos das obras e factos

que destruíra; fazia, emfim, por um pensamento

d'ordem e organísaçâo exaggerado, o que nós muitas vezes fazemos hoje por um amor da li-

berdade indiscreto e excessivo.

«E curioso ver como a edificação do célebre

mosteiro jeronymitano de Belém se liga com a

destruição da communa judaica de Villa ]N'ova de

Gibraltar, como esse monumento da transição da

architectura, esse chãos de todos os systemas

que brotavam no principio do século xvi, reuni- dos, e, por assim dizer, petrificados de súbito

n'um edíficio só, traz forçosamente á lembrança

a ruina dum fado da ordem moral que existira

inconcusso entre nós por quatrocenlos annos

tolerância da edade média. De feito, a tolerância

religiosa expirava ao passo que a architectura

christã morria, e as

nham-nos talvez pelo mesmo correio que trazia aos nossos architectos os desenhos puros e ma-

terialmente formosos, mas pagãos e peregrinos,

bulias da Inquisição ví-

de Bramante ou de Raphael.

«Um phenomeno por certo >ín;.'ular nos apre-

senta a historia antiga de

Portugal. Na larga

série de leis, d'artigos de cortes, de factos pú-

blicos até os fins do século xv a crença viva de

nossos avós se limita sempre dentro dos termos

d'aquella intolerância legitima que a verdade

não pôde deixar de ter para com o erro. O Chrís-

tianismo proclaraa-se ahi franca e energicamente

a única religião verdadeira: o christão julga-se

um homem de condição superior ao judeu. O

povo vigia, até com ciúme, que o israelita con-

serve sempre no trajo um distinctivo da sua raça

réproba, das suas doctrinas erradas. Mas a into- lerância acaba n'esse ponto: não se imagina ainda que o desterro, os tratos do potro, e o

cheiro da carne humana queimada subindo da

fogueira expiatória sejam sacríficíos agradáveis

a Deus. Na gente judaica, havia mais, por as-

sim dizer, um caracter de triste fatalidade pe-

sando sobre uma raça condemnada pelo seu

peccado original do Deicidío, que o d'uma raça

maldita por crimes próprios. «Os Judeus, como

testemunhas da morte de Jesus-Christo, devem

ser defendidos porque sãó homens:» estas

palavras de D. AÊfonso ii resumem o pensamento

da edade média acerca d'elles. É o pensamento

de que Lisboa com Villa Nova de Gibraltar fo-

ram a imagem sensível. No alto da sé a cruz,

abrigada á sombra do castello christão, via a

seus pés a synagoga, a humilhada Esnoga, que

testemunhava ali a morte do Cbristo, a victoria

do Evangelho, e a redempção dos homens; e o

que orava na cathedral sentia só despreso e por-

ventura compaixão por aquelle que orava na sy- nagoga. Se o ódio se misturava ás vezes com

esses sentimentos, motivos não religiosos, mas

puramente materiaes o geravam; geravam-n'o

as riquezas dolorosamente accumuladas pela

genta hebréa, os vexames que praticavam como exactores da fazenda publica, as suas usuras

10

Historia de Portugal

como possuidores de capitães, e mil outros mo-

tivos humanos em que naia tinha que vêr a

opposição das crenças.

«E o século XVI, que era erudito, que tradu- zia Cicero e Ovídio e imitava Horácio; o século

da civilisação, das conquistas, de todas as gran- dezas, cuspia nas faces da edade média, que ja-

zia morta a seus pés, o epilheto de barbara I E

D. Manuel, o culto e venturoso monarcha do

Oceano, esquecia-se do que não esquecera a seu

rude e obscuro avô D. Affonso ii; esquecia-se de

que os israelitas estavam condemnados pelo Rei

da Eternidade a vaguearem perpetuamente na terra como testemunhas da morte de Jesu

Christo. Portugal devia ser exceptuado d"esse

decreto de cima, e a conversão violenta dos Ju-

deus foi um dos fados mais estrondosos de tão

estrondoso reinado. «Da communa hebraica, da risonha e opu-

lenta Villa Nova de Gibraltar apenas um vestí-

gio nos resta, a sua synagoga,— melhor diríamos

o sitio d'ellaconvertida em templo christão. E

uma collegiada da ordem de Christo: é a Con-

ceição Velha: velha porque as coisas d'essa

época manuelina, tão fc-stiva, tão transforma-

dora, tão destructiva de tudo o que quer que fosse, bom ou máu, das eras poéticas, já hoje é

caruncho e podridão, os seus monumentos se

cunfundem com que ella desprezava como bár-

baros. Fallae no portal rendilhado da Conceição

Vellia a um vereador, a um politico, a um pas-

casio de melenas, emfim a qualquer inimigo

nato das coisas mais poéticas e santas da pátria

os moDumentos, e responder-vosha torcendo

o nariz e com um ademan parvo de superiori-

dade. «Por diabo! isso é gothico!» Gothico 1

Ouves, século dezeseis, século romântico, século

brilhante, século paralviího? Ouves debaixo

da tua campa, pesada como todos os crimes que commelteste no Oriente, confunlirem-te hoje com os séculos rudes e fortes da nobresa d'alma

na fidulguia e da energia popular? Mudaste a

Índole da nação, tornaste-a de guerreira em

mercadora; de municipal em cortezã; d'austera

em voluptuaria. Acceita de mãos como aquellas

a paga da lua boa obra. » *

i Alexandre Herculano, Panorama, vol. vn, pag.

Wi.

E depois de citarmos o eminente historiador

cuja grande perda Portugal ha pouco soífreu, depois de termos substituído o seu estylo fas-

cinador e opulento á nossa humilde prosa, iremos

acompanhando passo a passo, n'esle rápido es-

tudo sobre a Lisboa do século xvi, estudo que

nos parece indispensável como indispensável é

o scenario ao drtima e a descripção ao romance, um outro escriptor notabilissimo cujo talento ubérrimo e possante, e illustração vastíssima e

opulenta nos merece o maior respeito e admira- ção Pinheiro Chagas, a quem muitas vezes

citaremos entre os escriptores mais eminentes

que se tem occupado da historia pátria.

No explendido trecho de Herculano com que</