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EDITORIAL

E m 1995, a APPOA começou a preparar seu congresso para o ano seguinte, publicando em sua revista semestral textos sobre o tema proposto. O congresso denominou-se “Adolescência, entre o passa-

do e o futuro”, resultando em um livro sobre o tema, publicado em 1997. Pois, voltamos ao assunto, tentando avançar na direção das questões abertas naquele evento. Em parceria com a UFRGS, a Universidade Paris 13, Le Bachelier – Instituto de Psicanálise da Adolescência (França) e a Prefeitura Municipal de Porto Alegre, estaremos promovendo neste mês o Co- lóquio “Adolescência e construção de fronteiras”, para o qual planejamos e

realizamos encontros quinzenais preparatórios, durante os últimos dois anos. Quem não pôde estar presente nestes encontros, pôde acompanhá- los através das resenhas desses encontros, publicadas mensalmente pelo CORREIO, e pelos textos que os integrantes do cartel preparatório produzi- ram ou reuniram, para discussão, como os que podemos ler neste número. Os novos dados biográficos sobre “a jovem homossexual”, paciente de Freud, continuam a inspirar discussão e novas hipóteses, tema que con- tribui para um dos eixos temáticos do colóquio “O adolescer e seus desti- nos”. Assim como o texto “Amar e trabalhar”, de Maria Cristina Felippi, “A calada da noite”, de Ana Costa, que trata do mutismo, essa particular forma de inibição, que faz sofrer muitos adolescentes. Adolescência aqui entendi- da como um trabalho psíquico e não como uma fase da vida, delimitada por uma idade cronológica, como o texto de Luís Fernando Lofrano de Oliveira vem precisar. François Pommier colabora com seu texto, “O adolescente diante da AIDS: estratégias pessoais de luta contra a doença”, trazendo questões suscitas pela prática clínica. Se neste “Colóquio” privilegiamos a dimensão espaço, não podemos esquecer a dimensão tempo, no que se refere a essa operação psíquica chamada adolescência, tema abordado por Alfredo Jerusalinsky em nossa seção temática.

resenhas especiais, já que se

referem a produções de membros da APPOA: o belo livro de Ana Costa, “Corpo e escrita”, lançado este ano, e a nova tradução do seminário de Lacan, “O desejo e sua interpretação”, realizada pelo cartel de tradução. E aí? Tá ligado?

Temos também neste número, duas

NOTÍCIAS

COLÓQUIO ADOLESCÊNCIA E CONSTRUÇÃO DE FRONTEIRAS

O adolescer se conjuga numa posição fronteiriça entre a infância e a

vida adulta. Mais do que denotar um suposto desenvolvimento individual, refere-se a um momento psíquico de transição em que a definição de limites entre os lugares se torna questão norteadora para o sujeito. Ocasião em que

o jovem se vê chamado a ocupar uma nova posição, precisando para isso

realizar uma passagem da família ao laço social. Tempo de saída de casa para o ingresso no terreno das relações amorosas e das identidades coleti-

vas advindas dos campos sexual, social, profissional, religioso, político, etc.

É fora de casa que o sujeito vai buscar o encontro do parceiro amoroso e

sexual, assim como o reconhecimento de seus pares.

A adolescência, assim, é um interpretante das fronteiras entre o den-

tro e o fora, entre o subjetivo e o social, entre o público e o privado e, consequentemente, pode ser reveladora das patologias vigentes nesses es-

paços. Dessa forma, é o próprio movimento de ultrapassar a borda de um espaço a outro, da subjetividade à cultura, da família ao social, que constitui um limite entre estes, demarcando-os como lugares distintos. Como mo- mento de passagem, portanto, a adolescência comporta uma construção de fronteiras, ao mesmo tempo em que uma dissolução. Mas, o que possibilita a saída da casa paterna? A saída das relações familiares, reguladas estritamente pelas leis do parentesco, permite uma outra forma de relação ao desejo, mesmo que sobredeterminada pelo fantas- ma originária. Quais as conseqüências disso na relação do sujeito com o mundo? O adolescer e seus destinos podem nos ensinar sobre a constitui- ção de um lugar singular no coletivo?

A circulação do adolescente no espaço urbano – violência, formação

de grupos e gangues, etc – pode nos dizer algo sobre a nossa forma de habitar a cultura, bem como a de sermos habitados por ela? Pois sabemos,

a partir da psicanálise, que tanto o irmão/rival, quanto o apelo a uma referên- cia paterna que possa constituir valor fálico social, são os fundamentos de

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pedidos individuais que vão buscar eco no âmbito da sociedade. Trata-se, assim, do enlace entre psicopatologia do espaço e constituição de lugares. Qual a relação do adolescente com o discurso social instituído, que ele encontra na família, na religião, na escola, na política, em casas de passagem, nos conselhos tutelares, na justiça, etc? Quando o “fora” se dá pela exclusão social, como no caso das crianças e jovens em situação de vulnerabilidade, que efeitos produz sobre a passagem adolescente? As ins- tituições que abrigam jovens se inscrevem psiquicamente como casa ou “fora”? A rua pode ser uma casa? Confrontado ao instituído, e ao mesmo tempo convocado a instituir, o adolescente interroga as fronteiras constituí- das. Nesse sentido, as instituições da adolescência podem contribuir para uma compreensão da passagem do privado ao público, do lugar do pai e da referência à lei no nosso tempo?

DATA: 15, 16 e 17 de agosto de 2002 LOCAL: Salão de Atos da UFRGS – Av. Paulo Gama, 110 – Porto Alegre

PROGRAMA

DIA 15 – QUINTA-FEIRA

14h – Inscrições e credenciamento

Eixo temático: PSICOPATOLOGIA DO ESPAÇO E CONSTITUIÇÃO DE LU- GARES 15h – Conferência

O mundo fechado, o universo infinito e a garrafa de Klein – Jean-Jacques

Rassial (Psicanalista, Univ. Paris 13)

17h – Mesa-redonda

A utopia e os avessos da cidade – Edson Sousa (Psicanalista, APPOA,

UFRGS)

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Os territórios, os lugares e a subjetividade: construindo a geograficidade pela escrita no movimento hip-hop – Gisele Santos Laitano (Geógrafa, Pre- feitura Municipal POA, UCS) Espaço psíquico, espaço urbano: fechamento e transgressão – Marie-Claude Fourment (Psicanalista, Univ. Paris 13) “Vamos mudar o mundo só mais uma vez?” Transgressão e criação – Walter Firmo de Oliveira Cruz (Psicanalista, APPOA, Cruz Vermelha)

Intervalo

19h30min – Mesa-redonda

A rua enquanto instituição das populações marginalizadas: uma abordagem

psicanalítica através de grupo operativo – Jorge Broide (Psicanalista/SP)

À porta da rua – Míriam Pereira Lemos (Socióloga, Pesquisadora em Educa-

ção/UFRGS)

A lógica do desafio nos adolescentes da rua – Serge Lesourd (Psicanalista,

Univ. Paris 13) Delinqüência juvenil: do sujeito ao objeto – Rosane de Abreu e Silva (Psica- nalista/RS)

DIA 16 – SEXTA-FEIRA

9h – Mesa-redonda Passagens obstruídas: quartos privativos, sem janela – Analice Palombini (Psicanalista, APPOA, UFRGS) Adolescência: da cena familiar à cena social – Miriam Debieux Rosa (Psica- nalista, USP, PUC/SP) Espaços e seus limiares: sobre uma metapsicologia das passagens de lu- gares e de seus impedimentos na adolescência – Olivier Douville (Psicana- lista, Le Bachelier)

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Eixo temático: O ADOLESCER E SEUS DESTINOS 10h30min – Conferência Apagando marcas: registro e endereço adolescente – Ana Maria Medeiros da Costa (Psicanalista, APPOA,UFRGS)

Intervalo para o almoço

14h – Mesa-redonda “Tá ligado?” Observações sobre as ligações adolescentes – Lúcia Alves Mees (Psicanalista, APPOA)

A injúria adolescente – Luís Fernando Lofrano de Oliveira (Psicanalista,

APPOA, UFRGS) Quando a outra língua é verdadeiramente outra: o adolescente surdo – Maria

Cristina Solé (Psicanalista, APPOA)

O adolescente e a visualidade de seu conforto não-todo – Rodolpho Ruffino

(Psicanalista, APPOA)

16h – Mesa-redonda “Patricinha ou largada”: as identificações na adolescência – Carmen Backes (Psicanalista, APPOA, UFRGS)

A formação do semblante: o original de um limite – Eric Bidaud (Psicanalis-

ta, Univ. Paris 13)

A leitura literária na construção das identidades – Lia Scholze (Letras, Se-

cretaria Municipal da Cultura) “Grande prá andar só”: um caso clínico – Siloé Rey (Psicanalista, APPOA)

Intervalo

Eixo temático: INSTITUIÇÕES DA ADOLESCÊNCIA 18h – Mesa-redonda Uma encruzilhada adolescente: entre a identificação e os ideais – Carlos Kessler (Psicanalista, APPOA, UFRGS)

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Função paterna na adolescência: declínio ou deslocamentos? – Roséli Ma- ria Olabarriaga Cabistani (Psicanalista, APPOA, UFRGS)

A saída de casa – Valéria Rilho (Psicanalista, APPOA, UFRGS)

Momentos psicóticos na adolescência – Didier Lauru (Psicanalista, Le

Bachelier)

DIA 17 – SÁBADO

9h – Mesa-redonda

O conflito de gerações na sociedade atual – Erane Paladino (Psicóloga, Inst.

Sedes Sapientiae)

A adolescência na contemporaneidade: ideal cultural ou sintoma social?

Luciana Gageiro Coutinho (Psicanalista, CPRJ, NAV/UFRJ) Adolescente e/ou instituição – Maria Cristina Poli Felippi (Psicanalista, APPOA) Toxicomanias: uma clínica social – Marta Conte (Psicanalista, APPOA, Se- cretaria da Saúde/Governo do Estado RGS)

10h30min – Mesa-redonda

Escola: adolescência e lugar do professor – Eliana Dable de Mello (Psicana- lista, APPOA) Professores de adolescentes nas periferias: considerações sobre a Brasília amarela no pátio da escola – Maria Cristina Kupfer (Psicanalis- ta, USP)

O adolescente e os transtornos de aprendizagem: uma abordagem interdis-

ciplinar – Marilene da Silva Cardoso (Pedagogia, CEAIA/PUCRS) Adolescência: conceito adolescente? – Tiago Corbisier Matheus (Psicana- lista, PUC/SP, Inst. Sedes Sapientiae)

Intervalo para o almoço

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15h – Mesa-redonda

A transitoriedade do ser jovem ao ser adulto: repensando políticas de atendi-

mento – Adriane Correia Barreto (Serviço Social, FASC/Prefeitura Municipal POA) Adolescência e abrigagem: tentativa de parentalidade no contexto público contemporâneo – Ângela Lângaro Becker (Psicanalista, APPOA)

A subjetividade adolescente numa instituição de acolhimento – Carla Lam

(Acadêmica Psicologia Universidade Paulista) As instituições e a adolescência: quem demanda o quê prá quem? – Emília Estivalet Broide (Psicanalista, APPOA)

Intervalo

17h30min – Conferência Até quando dura a juventude? – Alfredo Jerusalinsky ( Psicanalista, APPOA)

COORDENAÇÃO DO COLÓQUIO:

Ana Maria Medeiros da Costa Carmen Backes Liz Nunes Ramos Lúcia Alves Mees Luís Fernando Lofrano de Oliveira Valéria Rilho

COMISSÃO ORGANIZADORA:

Ana Gageiro (p/APPOA) Carla Bottega (p/Prefeitura Municipal de Porto Alegre) Carmen Backes (p/Instituto de Psicologia/UFRGS) Grasiela Kraemer (p/APPOA) Luís Fernando Lofrano de Oliveira (p/Instituto de Psicologia/UFRGS) Maria Aparecida Pires Nunes (p/DDC/PROREXT/UFRGS) Valéria Rilho (p/Instituto de Psicologia/UFRGS)

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TAXA DE INSCRIÇÃO: Até o dia 09/08 Após o dia 09/08 Profissionais R$ 85,00 R$
TAXA DE INSCRIÇÃO:
Até o dia 09/08
Após o dia 09/08
Profissionais
R$ 85,00
R$ 110,00
Estudantes de graduação e
instituições organizadoras
R$ 45,00
R$ 60,00

LOCAL DAS INSCRIÇÕES:

– APPOA (das 13h30min às 21h): Rua Faria Santos, 258 Fone: 3333.2140

– UFRGS/SOP (das 9h às 14h): Rua Ramiro Barcelos, 2600/térreo

INSCRIÇÕES PODEM SER FEITAS MEDIANTE DEPÓSITO BANCÁRIO PARA: Banco do Brasil, ag. 1899-6, conta 300.000-1, código identificador:

1694-2. IMPORTANTE: a inscrição somente será efetivada mediante remes- sa da cópia do comprovante de depósito para APPOA, fax 3333.7922. Não esqueça de incluir as seguintes informações: nome completo, endereço, cidade, CEP, fone e instituição a qual pertence.

INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES:

– Secretaria da APPOA (à tarde e à noite) pelo fone 3333.2140

– Coordenação do Colóquio: 3316.5458 (à tarde) ou e-mail ppeaeb@ufrgs.br

PROMOÇÃO:

– UFRGS

– Instituto de Psicologia/Programa de Pesquisa e Extensão Adolescência e

Experiências de Borda/ Depto. de Psicanálise e Psicopatologia e Depto. de

Psicologia do Desenvolvimento e da Personalidade

– PROREXT/ Departamento de Difusão Cultural

– APPOA

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– Unidade de Pesquisa Psicogênese e Psicopatologia (Universidade Paris

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– Le Bachelier – Instituto de Psicanálise da Adolescência (França)

– Prefeitura Municipal de Porto Alegre

APOIO:

– Governo do Estado do RS/ Secretaria da Saúde

LANÇAMENTO DE LIVROS:

Seminário 6 – O Desejo e sua Interpretação, Jacques Lacan, publicação interna da APPOA Injúria: a pulsão na ponta da língua, Luís Fernando Lofrano de Oliveira, ed. Unijuí Seminário I e II, Alfredo Jerusalinsky, Lugar de Vida/USP Monstruário: inventário de entidades imaginárias e mitos brasileiros, Mário Corso, ed. Tomo.

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COMENTÁRIO JORNADA DO PERCURSO IV

“Procuro, começo, tento, vou mais longe, mas nunca sei se acabo:

não se diz da Fênix que ela morre,mas apenas renasce (posso então renascer sem morrer?)” Roland Barthes “Fragmentos de um discurso amoroso”

Com essas palavras, a turma do Percurso IV iniciou o texto do folder, anunciando sua Jornada. Elas fazem pensar numa continuidade, constante busca, incessante vontade de encontrar. Mas o que se busca? Questão que só é possível encaminhar individualmente. Pode-se dizer que o momento da apresentação dos trabalhos foi o de dar testemunho da sua experiência, do processo individual elaborado após três anos de Percurso. Pôde-se elaborar os efeitos da transmissão da psicanálise, para os que se dispuseram a esta tarefa, que se não é fácil, é bela. E a beleza está no poder compartilhar. Durante a manhã, todos os trabalhos originaram-se de questões sus- citadas pela prática clínica de cada um. Roberta Bolla nos fez andar com ela nas nuanças de uma escuta em que o sujeito, tomado pelo real, conduz a transferência a uma série de embates. Fez uma retomada histórica dos es- tudos sobre a psicossomática e sobre o lugar da dor e do sofrimento na cultura. A partir da apresentação de um caso clínico compartilhou suas ques- tões: Seria o fenômeno psicossomático uma defesa? Seria uma busca de simbolização? Seria o órgão afetado uma busca de representação de con- teúdos recalcados? Maria Helena Guarani, apresentou um caso clínico de uma adoles- cente adotada, nos conduzindo por uma série de intrigantes questões, como por exemplo, se seria mais difícil para um adolescente, na condição de filho adotivo, fazer a ruptura com as suas origens? Quais as especificidades quando se trata de adolescentes adotivos. Maria Helena nos apontou uma importan-

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te observação, feita por Silvia Molina, sobre o quanto em casos de adoção, filhos e pais sofrem de orfandade simbólica. Alessandra Kuhn Martta, nos falou de sua experiência com pacientes com obesidade mórbida, dentro de com uma equipe de cirurgiões, acompa- nhando aqueles que se submetem à cirurgia bariátrica, ou de redução do estômago. Alessandra apontou para o quanto a constituição corporal des- ses pacientes passa pela questão do olhar, ser olhado. Comentou que a obesidade é uma busca de defesa dos desejos sexuais, já que a gordura aparece nos discursos de muitos pacientes como uma capa, um casulo protetor. Assim, o corpo aparece sem bordas, sem limites. E, coloca, que a cirurgia pode ser vista como um corte real, mas em alguns casos têm um efeito simbólico. É aqui que, para Alessandra, a psicanálise pode contribuir, com a escuta desses pacientes, pois o lugar que a gordura e a cirurgia ocupam para eles, vai além de questões médico científicas, possibilitando que nessa escuta possa surgir a subjetividade de cada paciente, tão impor- tante para o encaminhamento de cada caso. Marli Möller Nedel ao apresentou um caso clínico de anorexia nervo- sa, apontando as saídas encontradas pela paciente. Marli fez uma reformulação no título do seu trabalho, que se intitulava “Papel da mãe na anorexia nervo- sa”, para: “O papel da mãe num caso de anorexia nervosa”. Esta alteração estaria mais de acordo com a sua proposta, ou seja, pensar o papel da mãe, especificamente, no caso que nos apresentou. Durante sua exposição, nos fez acompanhá-la no entendimento do lugar materno na constituição da anorexia da paciente. No período da tarde, os dois trabalhos apresentados foram o resultado de interrogações sobre a contribuição teórica da psicanálise para pensar algumas problemáticas da cultura atual. Tânia Regina A. de Souza, falou da importância de pensar o lugar da religião atualmente. Observou o quanto a religião ainda possui uma importância norteadora de diferentes culturas. Lan- çou a idéia de que a religião pode ocupar um lugar possibilitador, quando produz a ilusão de proteger o sujeito do desamparo. Não no sentido de para- lisar o sujeito a espera da solução divina, mas sim que, sentindo-se mais

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amparado, o sujeito possa ir em busca da solução dos seus problemas. Lúcia S. Pereira alertou para a proliferação de religiões, e do cuidado quando se fala na religião, como única, pois é preciso demarcar as diferenças, já que nem todas as religiões atuais se mantêm da articulação entre real, simbólico e imaginário. Luciano Vignochi nos conduziu nas suas questões sobre como o ho- mem lida com a busca da felicidade e os efeitos dela na clínica, apontando para os limites da psicanálise. Segundo Luciano, a escuta analítica deve estar norteada por uma ética que possibilite a análise, apesar dos apelos narcísicos da cultura atual. Lúcia S. Pereira nos brindou com uma frase que, como ela mesma disse, é uma pérola: “A ética é onde se exercem escolhas. Toda vez que se refere a escolhas se trata de ética”. No final dos trabalhos todos fomos convidados a saborear um delicio- so coquetel, para confraternizarmos juntos esse momento especial. Como salientou Maria Ângela Brasil, momento este em que pode-se pensar os efeitos do ensino da APPOA. Realmente é muito importante que esse espa- ço possa servir para pensar e, principalmente, questionar tais efeitos.

CARTEL DO INTERIOR

Inajara Erthal Amaral

Dando continuidade às discussões sobre a questão da formação psi- canalítica e a transmissão da psicanálise, tivemos no dia 13/07/02 mais uma reunião do Cartel do Interior. Nesta ocasião, a colega Návia Bedin trouxe um relato de como vem pensando a questão da formação analítica e os impasses com que ela e seus pares têm se deparado no Movimento Psicanalítico de Chapecó. Merece destaque no seu relato, o quanto lhes fez questão a per- gunta formulada desde a universidade: “O que é formação analítica?” Num primeiro momento, sentindo-se com dificuldades para responder a esta per- gunta, as colegas de Chapecó endereçaram-na à APPOA, mas não se sen-

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tiram respondidas em sua pergunta. O silêncio da Associação, naquele momento percebido como uma não escuta, produziu o efeito de tomarem esta questão e se porem a trabalhar sobre ela. O relato que foi apresentado por Návia na reunião de sábado, testemunha os efeitos interessantes que a não resposta em relação à demanda de saber endereçada à APPOA, pode produzir nas colegas do Movimento Psicanalítico de Chapecó. Observou-se que, do lado da instituição (APPOA), aquilo que não foi respondido como um saber ou como um dispositivo, ecoou e desdobrou-se em trabalho no interior da Associação, como mostrou o encontro em Canela e as últimas reuniões do Cartel do Interior. Discutiu-se ainda o duplo viés na questão da formação analítica: de um lado, a responsabilidade de cada um com o seu desejo e, de outro, a neces- sidade de não se estar sozinho, de encontrar uma escuta e uma interlocução que permita a cada um construir e sustentar sua trajetória de formação. Seguiremos avançando no desdobramento destas questões, em reu- nião do Cartel a ser realizada no mês de setembro. Na próxima edição do Correio seguirá uma nota com as informações sobre o encontro de setembro.

SÃO PEDRO

Cartel do Interior

No sábado, dia 15 de junho, estivemos reunidos na APPOA para apre- sentação do projeto Morada São Pedro, que está sendo implantado pelo Hospital Psiquiátrico São Pedro, junto com as Secretarias da Saúde, Habi- tação, Trabalho e Educação. O projeto consiste na construção de 36 moradias terapêuticas na Vila São Pedro (localizada atrás do Hospital Psiquiátrico São Pedro). Para este local irão se mudar 144 atuais moradores do Hospital. Esta iniciativa só vem concretizar a atual política de saúde mental que prevê promoção de saúde através da inclusão social. Régis Campos Cruz, diretor do Hospital, pôde nos contar sobre o

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trabalho que a atual direção vem realizando desde o início de sua gestão em 1999. Ele destacou a importância da parceria com diversas instituições de nosso Estado, assim como o apoio econômico e político que o atual governo vem dando ao Hospital. Dentre as ações realizadas estão: criação do Conselho Gestor, contratação de 260 novos funcionários, Residência Integrada, regio- nalização do ambulatório, implantação da Central de Benefícios, criação da Oficina de Artes para adolescentes, criação do CAPS da infância e adoles- cência, reciclagem do uso do Complexo Histórico, participação na segunda Bienal do Mercosul. Simone Frichembruder, diretora de Ensino e Pesquisa do Hospital, nos relatou principalmente sobre as capacitações que foram realizadas nes- se período. Além das capacitações ocorridas dentro do hospital, foram pro- porcionadas visitas à Campinas e Rio de Janeiro, para que a equipe que trabalha no Projeto Morada pudesse conhecer centros de referência no Bra- sil para tais ações. Ela nos deixou claro que, sem a interlocução e reflexão constante, torna-se muito mais difícil mexer nas estruturas rígidas da insti- tuição. A Residência Integrada, que abrange profissionais de ed. física, psi- cólogos, médicos, artes plásticas, t. ocupacional, enfermeiros e assistentes sociais, está sendo essencial nas transformação do pensar e fazer o traba- lho no Hospital. Maria Ângela Bulhões, coordenadora do Projeto Morada São Pedro, contou sobre as ações realizadas até agora para sua implantação. A mudan- ça dos moradores, que acontecerá no mês de Setembro deste ano, está sendo preparada desde 2000. No início, a resistência era muito grande, pois funcionários e moradores sentem-se protegidos dentro dos muros do Hospi- tal. Aos poucos fomos fomentando a idéia e mostrando que a qualidade de vida será alterada e que o aumento da autonomia dessas pessoas proporci- onará mudanças na sua saúde mental. Espaços que já funcionam como casa dentro do Hospital foram criados para facilitar o processo de transição. É essencial a participação dos moradores neste processo, e a equipe, com muita sensibilidade, se propõe como catalizadora das mudanças. No Mora- da haverá uma equipe de saúde que os acompanhará nesta nova “forma de

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morar”. O Morada é um programa de Saúde Mental Externo do Hospital e possui a responsabilidade pelos atendimentos necessários a estes novos cidadãos de Porto Alegre. A discussão que a apresentação suscitou deixou clara a importância da aproximação entre as instituições que tratam da saúde mental pois, como nos lembrou Maria Ângela Brasil, estamos trabalhando no terreno da miséria subjetiva, e todas as iniciativas para modificar as condições desse terreno árido serão bem recebidas. Agradecemos o espaço para a apresentação de nosso trabalho e a gentileza com que fomos recebidos.

Maria Ângela Bulhões

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SEÇÃO TEMÁTICA

O presente número do Correio, convida os leitores à reflexão sobre o tema do Colóquio, Adolescência e Construção de Fronteiras, que se avizinha.

Passaram-se dois anos desde que iniciaram os trabalhos (conferênci- as, seminários, aulas, cartéis, pesquisa e curso de extensão, cine-debate, entre outros) em torno do tema. Muitos foram os momentos instigantes, provocativos, que estimularam pensar, e no qual estiveram conjugados esfor- ços para “construção de fronteiras” que viabilizassem avançar sobre o tema. Tempo no qual pudemos contar também com a contribuição de colegas de diferentes áreas do conhecimento, “pluralidade” que enriqueceu o diálogo, nem sempre simples de conjugar. “A pluralidade adolescente”, nome dado ao nosso último Correio so- bre o tema, no qual apresentamos textos de colegas que trouxeram suas questões ao debate, juntam-se hoje textos de outros que agregam suas contribuições àquelas e a todas as outras que estarão sendo debatidas ao longo dos dias de trabalho que nos esperam. Esperamos que os textos sirvam de estímulo ao trabalho. Boa leitura!

Marcia Helena de Menezes Ribeiro Valéria Rilho

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RILHO, V. M. O adolescer e seus destinos

O ADOLESCER E SEUS DESTINOS

Valéria Machado Rilho

A propósito de um dois eixos temáticos do Colóquio “Adolescência e construção de fronteiras”, intitulado de “O adolescer e seus desti- nos”, retomaremos o caso freudiano “Sobre a Psicogênese de um

caso de homossexualidade feminina” (1920). Faremos referência também a um outro livro, publicado recentemente por duas jornalistas alemãs (Rider e Voigth, 2001), a biografia de uma mulher, chamada Sidônia, a qual foi pacien- te de Freud na juventude e deu origem ao texto mencionado. Começamos interrogando o aparentemente óbvio: a posição feminina ou masculina de um sujeito seria definida pela escolha do seu objeto amoro- so-sexual? No caso em questão, decididamente não. Por um lado, Freud (1920) descreve-nos um amor tipicamente masculino da jovem pela Dama, o amor cortês, que implica na idealização do objeto amado às expensas de um sacrifício do eu e do exercício da sexualidade. Por outro, na biografia, encontramos uma moça de aparência extremamente feminina, perfeitamen- te integrada a sua classe social e aos preceitos sociais da Viena de sua época. Sabemos que há dois tipos de ligação entre duas pessoas: a identifi- cação e o amor (Freud, 1923). A assunção de uma posição sexuada – seja por antecipação, na infância, seja pela confirmação no ato, na adolescência – se dá pela identificação ao Ein Einziger Zug. Traduzido por Lacan (1961- 62) como traço unário, este pressupõe o abandono do objeto amado, por efeito da castração, e a incorporação no eu de um traço significante (ideal- do-eu) da perda deste objeto. O que resta do objeto amado, então, é o objeto parcial, o objeto “a”. E quanto ao amor? Partiremos da hipótese sustentada na Jornada da APPOA, “Relendo Freud”, por Brasil (2002), de que o apaixonamento da jovem pela Dama está sobre, determinado, já que denuncia o que nos pais está recalcado. Para a mãe, a Dama representa um saber sobre o sexo, sobre o enigma do femini-

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SEÇÃO TEMÁTICA

no. para o pai, a Dama é o objeto de desejo degrado e secreto (a outra). Dando continuidade ao debate proporcionado por esta instigante for- mulação, o que segue é fruto das conseqüências que daí tentaremos extrair. Mais especialmente, tratar-se-á de compreender a Dama como um significante, em torno do qual articulam-se o sintoma, o amor e a identificação. A Dama

será, então, como veremos, o ponto articulador do sujeito ao desejo parental,

o ideal-do-eu, no que ele é um traço significante do Outro que indica ao

sujeito desde onde desejar. Ante à interrogação da mãe sobre o que é ser uma mulher, enigma de sua castração, a Dama surge como um lugar representativo do saber sobre

o feminino. Afinal, o que é ser mulher? É ser mãe ou é ser prostituta? Esta

parecia ser uma pergunta da mãe, que interferia fortemente na sua relação com a filha, à diferença dos filhos homens. Havia algo de uma recusa da mãe

em reconhecer-se neste lugar materno e uma rivalidade com a filha. Na bio- grafia, encontramos o relato de uma cena que pode ser esclarecedora disto. Durante uma estadia num hotel de veraneio, quando passeavam juntas mãe

e filha, um homem, visivelmente interessado pela jovem, se aproxima e per-

gunta à mãe se ela era sua filha. Ao ouvir a resposta “Não, ela é filha de uma amiga”, a moça, fora de si, sai correndo em direção ao bosque, onde perma-

nece por algum tempo. A mãe não só disputa com ela o lugar de mulher, como também não a reconhece como filha. No que diz respeito à transmis- são entre mãe e filha parece haver um curto-circuito. Por outro lado, sabemos que essa falha da transmissão da feminilida- de é uma queixa comum que as histéricas endereçam às suas mães. Mas, no caso em questão, seria da mesma ordem de uma demanda de amor? A propósito, ocorre-nos o dado biográfico de que, sob a forte influência da mãe exercida sobre o marido, este afasta-se da filha quando do início de sua puberdade. Por quê? A filha poderia ameaçar seu lugar de mulher junto ao pai? Ser a outra? Nem filha, nem mulher – o que a mãe olhava nela? Eis aí um grande vazio, um enigma. O que se mostra, o que é dado-a-ver é um desejo do olhar do Outro, desejo de desejo do Outro. Identificado ao olhar, ao nada, ao objeto “a”, o sujeito sai de cena, passa ao ato.

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RILHO, V. M. O adolescer e seus destinos

Abrindo um breve parentêses, gostaríamos de introduzir, acerca do ato acima relatado, o tema da passagem ao ato e do acting-out. Não pude- mos evitar aqui a comparação com o caso Dora, que, na cena do lago, dá uma bofetada no Sr. K e sai em disparada, quando este lhe diz que sua

mulher, a Sra. K, não significa nada para ele. Qual a diferença de registro do ato num e noutro caso? O que Dora encontra aí, senão o desejo no Outro e ela como sendo o objeto deste desejo (o falo)? Não seria esta, a fuga de Dora, uma saída fóbica? Pois, a angústia fóbica emerge, justamente, no momento onde ser o falo revela-se apenas um recurso para enganar o desejo do Outro. O sujeito se percebe preso na própria armadilha preparada para o desejo do Outro. Ao se fazer desejável, ao mesmo tempo que captura o olhar do Outro, é capturado por este olhar. De suplente (mais phi) da falta do Outro, o falo passa à significante (menos phi) da castração do Outro. O que Dora trata de preservar, então, é o falo enquanto signo do desejo, o fetiche, que resguarda o sujeito da castração. Por tal razão, sua saída de cena não parece ser da mesma ordem que a da jovem homossexual. Neste caso, o de Sidônia, o que está na iminência de desaparecer não é o falo, mas o desejo mesmo. Seguindo nessa mesma linha da análise de Dora, poderíamos pensar

a função da gravidez na adolescência. Mais precisamente, o ato de dar um filho à mãe, como se este fosse o filho ideal que ela não foi para a mãe. Numa posição de objeto contrafóbico, tal filho aplacaria o desejo da Mãe, permitindo que a adolescente possa separar-se do corpo materno, deixar a condição de filha e assumir uma posição sexuada. Esse assunto da posição sexuada faz-nos retornar ao caso jovem, pois aí parece residir um elemento crucial: a ausência de uma posição sexuada. Na biografia de Sidônia, há referência a um diagnóstico médico, a princípio enigmático: o de ser assexuada. O qual, por sinal, evoca na pacien- te o sentimento de finalmente ter sido compreendida. Freud nos ensina que

é na adolescência que, a posteriori, se confirma ou legitima a castração que teria sido operada pelo significante no complexo edípico. Mas, no nosso caso, a castração, que instaura o desejo, parece ser vivida não como uma

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falta, mas como uma mutilação, uma perda que se projeta sobre o corpo como sendo da ordem da privação. Senão, como pensar a renúncia ao exer- cício da sexualidade e a repulsa ante a aproximação do corpo, seja mascu- lino ou feminino, testemunhadas na biografia? Isto posto, não poderíamos dizer que, em relação à mãe, a Dama está em posição de falo simbólico (o Phi), lugar onde se produz a falta do signi- ficante? Já examinamos acima como entre mãe e filha se jogava a falta de um significante do feminino. Por outro lado, Freud (1923) já nos dizia que, no que diz respeito à diferença sexual, só há um significante para os dois se- xos: o falo. Além do mais, esta falta do significante inscrita pela castração foi formalizada por Lacan como sendo homeomorfa àquela da linguagem através da metáfora. Pois um significante em posição de metáfora, mesmo vindo no lugar de outro, não pode senão contextualizá-lo, posicioná-lo entre outros; e não podendo dizer tudo, sempre deixará um resto (objeto a). E este resto, por nunca se extingüir, será o possibilitador do desejo, da relação ao desejo do Outro. Por isso, Lacan denominará o falo de Nome-do-Pai,

significante primordial, por ser o significante da castração do Outro materno.

A este título, lembremos que Lacan vai dizer mais tarde que A Mulher é um

dos Nomes-do-Pai. Além do mais, será na adolescência, como diz Rassial (1997), que A Mulher é o Outro sexo, enquanto radicalmente Outro, no sen- tido de heterogeneidade irredutível – corpo/linguagem, corpo/desejo, eu/ou- tro, etc. Portanto, não se poderia pensar aqui ser esta a primeira identifica- ção descrita por Freud (1921), a enigmática identificação ao pai, aquela que prepara o terreno para a castração? Quanto à relação ao pai, não seria a Dama o falo, o significante da

falta? Mas, se assim o for, por que razão encontraremos aqui o falo em posição de fetiche (o falo positivado), aquele que, ante à castração, se ofere- ce como sendo o objeto do gozo do Outro? Comecemos por Freud (1920) e

a questão do engano, motivo da interrupção, por ele, do tratamento de sua

paciente, que ali estava a pedido do pai. O autor alega que a jovem estava tentando enganar-lhe no que dizia respeito ao seu objeto de desejo e que, assim, tentava se fazer conforme ao desejo do Outro (seja o desejo do pai ou

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o suposto desejo do analista). Freud a encaminha para seguir a análise com uma mulher, supondo apontar aí o que seria seu verdadeiro objeto de desejo. Somente a partir de Lacan (1964), teremos condições de compreender o verdadeiro alcance desta dimensão do engano. A propósito do mimetismo, Lacan apresenta-nos, naquilo que o sujeito exibe e oferece ao olhar do outro, o falo como um tromper-l’oeil, um engano do olho; um anteparo que, ao situar-se ante o desejo do Outro, pressupõe além um objeto, aquele que

seria, se ele existisse, o verdadeiro objeto do desejo do Outro. Esta função de véu, de positivação da falta do Outro, é aquela do fetiche, o falo ereto da potência do pai. Lembramos aqui o quanto Sidônia fazia-se ver, aos olhos de todos e principalmente do pai, ao lado da sua amada.

O que importa destacar é que, nesta imagem que se oferece ao outro

no mimetismo, não se trata simplesmente de representar ou imitar o outro.

Mais do que isto, a questão é oferecer uma versão (interpretação) do outro; mais exatamente uma interpretação do olhar (desejo) do outro. Donde con- clui-se que mais do que apontar o objeto do desejo do outro, isso mostra o olhar e o desejo no outro; logo, o desejo no Outro.

O que até então acenava como sendo objeto de gozo (o mais phi) do

Outro, na posição de fetiche, surge como o traço significante da falta do Outro (o menos phi). Esta dupla face do falo, parece-nos ser aquela que Backes (2000) vai revelar através do que denomina imagem mimética. Em Freud (1920), encontraremos um pai potente que, no transcurso da puberdade da filha, dá um filho à esposa. Na biografia da jovem, a partir da interdição que a mãe opera na relação pai/filha, um pai potencialmente abusador e sexualizado. Ainda neste texto, um pai, de origem humilde, que prospera na vida tornando-se um rico industrial. Além disso, a família, ao emigrar do leste europeu, renega sua origem e sua tradição judaica, inte- grando-se perfeitamente ao cristianismo e à sociedade vienense. À diferença do culto das tradições que remete à transmissão da falta (desejo) paterna, tal desenraizamento supõe a aposta em um novo pai, desta vez um pai potente. Além do mais, sabe-se que a paixão pela Dama foi um amor à primeira vista, ocasião em que esta foi vista pela jovem ao lado de um ho-

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mem, o seu provedor. Portanto, identificada à potência fálica do fetiche, que

a jovem ostentava na mostração de sua paixão pela Dama, o que o sujeito

trata de sustentar? Ao oferecer-se como isca, como desejável, para o desejo do Outro, não se trataria justamente aí de enganar este desejo, ou seja, sustentar o desejo no Outro ao produzir uma falha na potência do Pai? Agora, retomando o tema da identificação, essa posição de ser o significante da falta do Outro (menos phi), não é a versão que Lacan nos dá do que aparece em Freud (1921) como o segundo tipo de identificação, a identificação ao traço unário? Pois, segundo vimos, é desde o significante da falta (da castração) do Outro (paterno) – a Dama – que o sujeito pode situar- se como faltante. A castração e o desejo no Outro retornam ao sujeito, constituindo a divisão fundamental, a barra, do sujeito. Mas esta não seria a função do ideal-do-eu, qual seja, a de situar um ponto no Outro desde onde desejar? Pois, lembremo-nos que em Costa (2000), se, por um lado, esta ins- tância, na sua versão superegóica, interdita o acesso ao objeto amado, en- quanto objeto de gozo do Outro materno, enunciando que “Assim como o pai

não podes ser!”; por outro, aponta no horizonte o objeto do desejo a ser perse- guido como gozo fálico ao enunciar “Assim como o pai deves ser!”. É assim que, por efeito da castração, a relação do sujeito não pode ser a outro sujeito ou objeto tomado enquanto total, tal como o objeto amado, senão a algum traço,

a alguma parte que resta deste objeto. Parcializado, este resta como objeto a. Após esse exame, poderemos discernir, no sintoma de nossa adoles- cente, a função do significante Dama como sustentador de um lugar na rela- ção ao desejo. Não seria essa a condição infantil do sintoma? A de articular- se justamente no ponto de falta de encontro dos pais e assim dar lugar à constituição do fantasma do sujeito? Como não pensar aqui, no que se refere ao sintoma, a terceira moda- lidade de identificação proposta por Freud (1921): a identificação histérica ou ao sintoma. Segundo o autor, nesta, o que é destacado da pessoa que é tomada como modelo não é o fato dela ser desejável, mas o de ser desejante. “O mecanismo é o da identificação baseada na possibilidade ou desejo de colocar-se na mesma situação” (Freud, 1921, p. 101).

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Para Souza (1994), “Lacan confere a essa modalidade de identifica- ção um papel estruturante na formação do sujeito e da fantasia que o susten- ta como desejante: o de reintroduzir como falta o objeto perdido da segunda identificação, inaugurando o movimento do desejo como busca de reencon- tro” (Souza, 1994, p. 10). Eis aqui, nessa busca de reencontro do objeto perdido (objeto a), a função do amor pela Dama: permitir o exercício do desejo através da relação fantasmática do sujeito ao objeto a. A partir de Lacan (1960-61), no amor, a imagem do objeto amado vem recobrir o objeto de desejo, o agalma, objeto a, enquanto falta. Implica colo- car uma imagem do objeto (eu-ideal, i(a)) no lugar do ideal-de-eu (Souza, 1994). Há uma superposição do eu-ideal e do ideal-do-eu. Isto explicaria a total ausência de crítica em relação ao objeto amado e a sua idealização. No caso de Sidônia, esse recobrimento do objeto a, que o objeto de desejo contém, pela imagem do objeto amado se acentua em função da caracterís- tica do amor dirigido à Dama, o amor cortês. Este denuncia o abismo que há entre o amor oblativo – onde o amado é tomado como outro, como sujeito, i(a) – e o amor dito genital – onde o amado é tomado como objeto de desejo, por portar o objeto a. Na direção oposta, encontra-se a idealização do amor genital do sujeito maduro, o qual não escapa à crítica feroz de Lacan (1956- 57), justamente por elidir o que há de objeto parcial na relação ao objeto amado (eu ideal). Por isso, Souza (1994) afirma que o amor ocupa, então, um lugar intermediário entre a abertura do ideal-do-eu (significante da perda do objeto a, causa de desejo) e o fechamento do fetiche (objeto do gozo do Outro que vem à frente da castração, o falo positivado). Apesar da mínima distância a percorrer entre as duas instâncias, o amor possibilita ao sujeito, mesmo assim, a manutenção de uma margem mínima de exercício significante e do desejo. Não seria esta a função do sintoma? Em todo o caso, agora pode- mos compreender a relevância adquirida pelo amor na adolescência. Quanto a nós, certamente, não é à toa que passamos a vida às voltas com os encon- tros e desencontros amorosos

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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COSTA, Ana. Autoridade e legitimidade. In:

fraterna. Rio de Janeiro : Relume Dumará, 2000, p. 81 – 110.

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(1920). In:

Obras completas. Buenos Aires: 1989. v. 17.

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sexualidad (1923). In:

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FELIPPI, M. C. Amar e trabalhar

AMAR E TRABALHAR

Maria Cristina Poli Felippi

F reud propôs que a capacidade de amar e trabalhar fosse o critério básico de saúde mental de um indivíduo. Como sabemos, era seu hábito deduzir critérios de “normalidade” das condições subjetivas

adversas apresentadas por seus pacientes. Para Freud, saúde e patologia são, muito simplesmente, a exacerbação de estados d’alma corriqueiros. Podemos, então, inferir que, ao menos entre os pacientes de Freud, “amar e trabalhar” eram dois verbos difíceis de serem conjugados na primeira pessoa. Se levarmos em conta a produção cinematográfica e seu sucesso junto ao público, essa parece ser também a opinião dos franceses. Refiro- me a dois filmes lançados em seqüência e com uma temática semelhante:

“Tanguy” e “Irene”. O primeiro filme, um dos maiores índices de audiência do ano passado, apresenta a vida de um “jovem” de 28 anos, estudante talentoso, que se apóia em um infindável e exigente trabalho de tese para não sair nunca da casa dos seus pais. O índice de seu Q.I. e sua extraordinária capacidade de trabalho são tão invejáveis quanto aprisionantes. Na repre- sentação cômica que o filme dá a essa “tragédia” pessoal, são os pais de Tanguy que não suportam mais ter o filho em casa; são eles que se rebelam e fazem a “crise adolescente”, fazendo de tudo para que Tanguy vá embora. O outro filme é a versão feminina de Tanguy: “Irene, 30 anos, ainda solteira”. Como indica a chamada publicitária, trata-se de uma jovem que procura “desesperadamente” um marido. Como “alter-egos” de suas resis- tências, temos a representação caricatural de suas duas amigas: a fogosa mulher fatal, com suas transas “arrasadoras”, e a individualista inveterada, para quem o casamento é um negócio a ser administrado à distância. Para ambas, importa menos a relação amorosa com o parceiro do que a prova compartilhada da manutenção da autonomia. Também para Irene, como para Tanguy, o desejo de casar é apresen- tado de início como uma demanda dos seus pais. Demanda que, obviamen-

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te, ela despreza. É nesse sentido que, apesar da idade avançada, sua posi- ção pode ser legitimamente chamada de “adolescente”, pois é no lugar dos pais que está ainda a representação do desejo. Irene e Tanguy são caricatu- ras da alienação do desejo e da dificuldade do processo de separação própri- os à adolescência. Como já foi dito por alguns analistas, essa dificuldade do processo de separação é correlativa da invenção da adolescência na nossa cultura. Não

faz muito tempo, a passagem dos laços familiares primários a um lugar de representação social era um processo quase sem rupturas, com mediações ritualísticas ou religiosas que garantiam a continuidade da circulação simbó- lica. O adolescente, na nova conjuntura cultural, é a figura que ilustra uma necessária mudança de endereço na relação do sujeito ao Outro.

A reedição dos estágios infantis da constituição do sujeito – o estágio

do espelho e o complexo de Édipo – diz bem dessa nova condição. Na infância, a constituição do fantasma, que permite ao sujeito uma experiência de separação, é sustentada por uma dupla alienação: à imagem especular e ao significante. Esse processo é basicamente sustentado pela família, ten- do os pais uma importante função de encarnação imaginária dos ideais. Já na adolescência, esses processos devem ser repetidos, pois são agora diri- gidos a um outro suporte.

A questão contemporânea que esses filmes parecem ilustrar é que

nessa passagem o sujeito tem que atravessar o vazio. Sem bússola. Muda o discurso, muda o espelho. O complicador é que, no além da família, cons- tata-se o esvaziamento das instâncias imaginárias do Outro. O sujeito tem, então, que reconstruir um suporte representacional sem ideais norteadores. A experiência é parecida com a mudança de língua em uma vivência de exílio. A tendência é que o candidato à imigrante fique por um certo tempo nesse “limbo” que constitui a sub-comunidade do seu país de origem, no país de destino. O que a nova comunidade demanda ao imigrante, a não ser que ele não atrapalhe o bom funcionamento do código social? É preciso que ele se insira na engrenagem e “funcione bem”, de acordo com os novos parâmetros.

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FELIPPI, M. C. Amar e trabalhar

Tomando a comparação, Tanguy e Irene são viajantes perdidos entre a geração hippie e a queda do muro de Berlim. Pois, se “amar e trabalhar” eram ideais na época de Freud, nada garante que continuem sendo. Ao contrário, o que os filmes parecem demonstrar – e quem o negaria da sua própria experiência – é que eles são ainda ideais familiares, mas que na passagem à cultura algo se perdeu. Na esteira do “amor livre” e do “sexo, drogas e rock-and-roll”, a dita “geração X” vive sob a égide do “mercado livre”, onde a atribuição de valor corresponde ao poder de consumir e/ou ser consu- mido.

Menos mal: o adolescente hoje não precisa mais lutar contra ideais sociais opressores. Se ele se insere e respeita as leis simbólicas mínimas de circulação, nada o impede de preencher como quiser seus fantasmas. Não desprezemos as conquistas: a mulher é, finalmente, livre para o exercí- cio sexual e profissional; o filho pode facilmente superar o pai (o que, conve- nhamos, diante do modelo “funcionário público” dos anos 70 não é muito difícil), ganhar mais e ter maior sucesso profissional. Resta saber como reins- crever o desejo nessa conjuntura. Se acreditarmos nos filmes, a aposta está na criatividade de cada um. Ou no gozo da vida em família. Bom trabalho aos analistas!

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ADOLESCÊNCIA COMO TRABALHO PSÍQUICO 1

Luís Fernando Lofrano de Oliveira

D entre as diversas maneiras possíveis de definirmos a especificidade do que se chama de adolescência, há uma que se destaca na medi- da em que faz com que esta se torne uma noção cuja operacio-

nalidade no campo de trabalho em psicanálise tem se mostrado bastante efetiva. Trata-se da proposição mantida por alguns autores deste campo, como J.-J. Rassial, que desvincula a definição da noção de adolescência de qual- quer delimitação do período de idade correspondente a ela. Dispensando-se, portanto, a cronologia como critério de definição desta noção, ela passa a referir-se a um trabalho psíquico específico que pode ocorrer tanto aos 10 anos de idade como aos 20 ou aos 40, por exemplo. A adolescência torna- se, assim, um conceito próprio ao trabalho da psicanálise. Do mesmo modo que a psicanálise apropriou-se da noção de infância, para efeitos do trabalho a ser realizado sob sua competência, ela o faz tam- bém com a de adolescência. De certa maneira, a menção à infância, em psicanálise, não faz referência a um período de idade cronologicamente de- limitado, mas a um certo posicionamento subjetivo. Ou seja, trata-se de uma tomada de posição subjetiva que, mesmo sendo por vezes mais aceitável socialmente quando ocorre numa faixa etária predeterminada em cada cultu- ra, pode ter lugar em idades as mais diversas. Não nos deteremos aqui sobre os detalhes do referencial ao qual a tomada de posição infantil faz apelo, mas lembraremos que esta posição corresponde a um certo posicio- namento do sujeito frente ao pai, determinante do seu discurso e indepen- dente da idade que ele tenha. Importa-nos, antes, considerar que a adoles-

1 Trabalho publicado no Falando Nisso 2, nº 7 Dezembro 2001/Janeiro 2002.

,

Informativo da Clínica de Psicologia da UNIJUÍ Ano

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OLIVEIRA, L. F. L. DE. Adolescência como

cência se torna, no campo da teorização da psicanálise, uma noção tão

efetiva e operacional como a de infância, na medida em que é entendida como uma tomada de posição subjetiva.

A posição subjetiva adolescente é diferente da infantil. Não se trata de

posicionamentos que se sucedem numa espécie de evolução progressiva, mas, sobretudo, de tomadas de posição que se excluem uma à outra e que podem, eventualmente, se alternar em momentos distintos do discurso do

sujeito. A diferença entre essas posições corresponde, em especial, ao dife- rente endereço das formações psíquicas que são produzidas a partir de uma posição ou da outra.

A eleição do endereço apropriado à produção das formações psíqui-

cas situa aqueles que se tornam os interlocutores privilegiados do sujeito. Estes se tornam o suporte do qual o sujeito necessita para arriscar uma tomada da palavra. Na infância, o endereço das produções subjetivas é situ- ado nos pais ou seus substitutos. Na adolescência, na medida em que o sujeito é convocado pelo social a proceder a sua afirmação própria desde uma posição sexuada, os pais deixam de constituir-se como endereço privi- legiado das suas formações psíquicas. De maneira geral, não cabe aos seus pais ou aos integrantes de sua família o reconhecimento da sexualidade do sujeito, uma vez que, por definição, pais e familiares são aqueles em cuja relação fica excluída toda convivência sexual. Portanto, para proceder à afir- mação de um posicionamento sexuado, o adolescente precisa contar com um reconhecimento que não seja o dos seus familiares. Este reconhecimen- to será procurado, então, junto aos seus semelhantes, e em especial aos do sexo oposto. Estes constituirão o endereço privilegiado das formações psí- quicas do adolescente. Tal mudança de endereço caracterizará a chamada passagem adolescente, em que o sujeito deixa a posição infantil e os laços familiares para voltar-se, em outra posição, aos laços pelos quais ele procu- rará inserir no laço social sua atividade pulsional. Nesse sentido, a adolescência inicia a partir do encerramento do pe- ríodo denominado por Freud de latência. De certa maneira, este período cons- titui-se como um tempo para compreender, em que a criança se apropria dos

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traços culturais com os quais ela contará quando da sua inserção no social. O início da adolescência será marcado pela necessidade de uma afirmação própria do sujeito, pela qual ele responderá ao apelo de deixar a latência e inserir-se, desde uma posição sexuada, nos laços sociais. Independente do fato de que os traços da diferença sexual estejam na forma do seu corpo, esta se tornará sede da pulsão a partir de uma posição subjetiva própria ao adolescente. Essa disposição é a de encontrar, no seu semelhante, um olhar que o convoque a tomar uma posição sexuada. Mes- mo que ele atribua a esse olhar uma tentativa de sedução, frente à qual lhe restaria somente reforçar sua posição passiva e infantil, esse olhar desenca- deará os processos da adolescência ao promover a excitação corporal. A pulsão, portanto, colocada em movimento desde o olhar encontrado no se- melhante, será um fator de apressamento para o sujeito; face à excitação corporal, ele será convocado a representar a pulsão. Assim, o fator desenca- deador da adolescência não está na forma do corpo, mas na disposição do sujeito a encontrar-se com um olhar capaz de apressar a determinação da sua atividade pulsional. Em outros termos, essa espécie de “tempo para compreender” pró- prio da latência, durante o qual o sujeito se permite postergar a tomada de posição sexuada, chega ao seu final com o início da adolescência. O que pressiona o sujeito no sentido do encerramento do tempo da latência é a pulsão situada, a partir de uma disposição própria, no corpo do adolescente. Este passa então, como se diz, a ganhar corpo, e o trabalho psíquico espe- cífico do momento subjetivo que assim se inaugura será o de um afazer próprio frente à pulsão. Este trabalho psíquico é decorrente da necessidade, para o sujeito, de fazer alguma coisa com a pulsão. Ele o faz através do processo de repre- sentação, pelo qual ele determina a fonte, o alvo, o impulso e o objeto da pulsão. Essa determinação da atividade pulsional corresponderá a uma to- mada de posição sexuada por parte do sujeito. Esta tomada de posição é, antes de mais nada, de ordem discursiva. Ou seja, a partir de um certo posi- cionamento na tomada da palavra, seja como homem ou como mulher, o

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OLIVEIRA, L. F. L. DE. Adolescência como

adolescente procederá a sua afirmação subjetiva. Através dessa afirmação

própria ele se dedicará a inserir sua atividade pulsional nos laços sociais.

A afirmação subjetiva é característica do adolescente. Ela tem lugar a

partir da proposição de suas formações psíquicas, produzidas desde uma posição sexuada e endereçadas aos seus semelhantes, pelas quais ele trata de inserir seu afazer psíquico no social. Este afazer psíquico é princi- palmente o de representação da pulsão.

A representação da pulsão é operada por meio dos processos psíqui-

cos de recalcamento ou de forclusão. Estes processos são aqueles pelos quais o sujeito se apropria de certas unidades de representação, cujo enca- deamento resultará na produção de suas formações psíquicas. Essas for- mações, como é o caso da dos seus sintomas, são propostas por ele no discurso pelo qual ele se endereça aos outros. Em outras palavras, essas formações são proposições de representação da pulsão avançadas pelo su- jeito no seu discurso, com base na certeza, antecipada, de que elas são passíveis de encontrar um endereço no social. Está em jogo, portanto, no encontro deste endereço, o reconhecimento de uma afirmação subjetiva. Poderíamos dizer que esse trabalho psíquico, muito brevemente des- crito acima, é próprio do que se chama, em psicanálise, de adolescência. Sobretudo na medida em que as formações sintomáticas do dito adolescen- te resultam de um afazer pulsional específico do sujeito. Pelo menos em parte, a especificidade deste afazer está na necessidade da verificação das suas condições subjetivas de enunciação e de afirmação próprias, ou seja, de verificação da viabilidade de inserção das suas proposições de represen- tação no social. Uma vez que consideremos a adolescência como o trabalho psíquico a ser realizado desde uma posição subjetiva específica, não diríamos que ela chega a um final. Da mesma maneira que a infância, a adolescência precisaria ser entendida, conforme propomos, como uma tomada de posição em relação aos referenciais segundo os quais se organiza o discurso do sujeito. Assim como a infância, a adolescência seria um conceito pelo qual se define uma posição discursiva. Nesse sentido, não falaríamos em um final

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de adolescência, como poderíamos não falar de um final da infância, pois se tratam de posicionamentos subjetivos que podem ser recorrentes nos mo- mentos mais distintos da vida das pessoas. Diríamos apenas que o abando- no de uma posição adolescente teria lugar a medida que as condições sub- jetivas se alternassem, ou seja, que não fossem mais aquelas que convo- cam sua adoção. A alteração destas condições nos parece ligada ao fato do sujeito encontrar, na sua língua e na sua cultura, os limites da transmissão entre gerações, pela qual ele é responsável.

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COSTA, A. A calada da noite.

A CALADA DA NOITE

Ana Costa

H á diferentes reações ao encontro de um mutismo: daquilo que – nos momentos de maior crise – põe-nos em contato com a radicalidade de uma falta de expressão (seja verbal, escrita, artística, etc.). Es-

ses encontros não são nada excepcionais, costumam acontecer sempre que se perde um dos suportes responsáveis pela forma como nos represen- tamos nos nossos laços. Essa perda não está em causa para qualquer experiência: pode parecer estranho, pela aparente liberdade de expressão que encontramos hoje, mas um dos principais motores dessa perda diz res- peito a uma dificuldade peculiar do sexual. Saberemos ainda o que nos atinge tão fortemente quando o sexo entra em causa? Ali encontramos o campo tão poluído – para sugerir que se alimenta de poluções – na medida em que se fala demais e se faz demais. Do acetismo vitoriano (de onde Freud precisou se sacar), ao liberalismo dos costumes (sem esquecer a passagem pelo higienismo totalitário), os extre- mos acabam se encontrando. Fazer e falar, por paradoxal que pareça, po- dem camuflar uma radical ausência de expressão. Abordarei uma determi- nada forma de mutismo, encontrada no lugar do apelo ao exercício de uma posição sexuada, na passagem da puberdade para a adolescência. O exemplo de um filme me ajudará a lançar mais rapidamente essa questão. O nome do filme é As virgens suicidas, dirigido pela estreante Sophia Coppola: belo, com muita sensibilidade, mesmo que trágico. Começa pela representação desse artifício que inscreve uma bipartição de identidades – homens/mulheres – que segrega seres a vivê-las como mundos em rotações paralelas, mutuamente excludentes na sua interdependência apaixonada 1 .

1 Lacan tem uma expressão interessante para juntar essa espécie de amor/ódio que é uma paixão: hainamoration.

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SEÇÃO TEMÁTICA

Conta a história de cinco belas irmãs que cometem suicídio: quatro delas em grupo, um tempo depois de ter acontecido o primeiro suicídio, da mais nova. Os suicídios ficam tão enigmáticos quanto a própria vida das garotas. Aparentemente o filme centra a responsabilidade nos pais: seja no homem, de uma ausência patética nas relações; seja na mulher, que é apresentada com uma rigidez religiosa assexuada impressionante 2 . No entanto, essa res- posta não me parece suficientemente satisfatória, na medida em que pode- ria justificar um dos suicídios, mas não todos. Sabe-se muito bem como cada filho, por ocupar um lugar diferenciado na relação ao desejo dos pais, consegue romper barreiras impossível a um irmão, por exemplo. Para além de um defeito de criação, proponho pensarmos essa questão como o encon- tro de um mutismo no lugar mesmo do desejo. É lá onde se situa uma necessidade de transposição – na passagem da puberdade para a adoles- cência – do imaginário materno assexuado, para um exercício sexual, na relação a Outro 3 sexo. A sensibilidade na realização do filme soube captar uma sobreposição de temas para abordar o foco principal. Você, que viu o filme, saberia dizer qual é o seu sujeito? Ele não está do lado dos personagens, porque nenhum deles encarna o drama básico que liga a todos. Não pode ser situado do lado da menina mais jovem, como uma busca das razões de seu suicídio, porque seu ato não é único, é seguido pelos das irmãs. Também não pode ser situado do lado da única que exerceu o sexo, porque suas razões e destino não se diferenciam das outras. O lado dos rapazes também não serve para representa-lo, na medida em que são somente espectadores curiosos e par-

2 Como curiosidade, a atriz que faz o papel da mãe é nada menos que Kathleen Turner:

símbolo erótico/sexual de filmes que marcaram época, como Corpos Ardentes. Para quem guardou essas imagens, impressiona vê-la num papel tão deserotizado. 3 Quando Lacan propõe pensar que o Outro sexo é o feminino deixa uma questão somente sugerida, sem desenvolver completamente: a de que a posição sexuada depende de que o falo saia do campo materno, condição necessária para que as mulheres possam ser erotizadas. Isso que nos indica que o incesto é sempre representado como sendo com a mãe e a erotização do corpo feminino depende da interdição do corpo materno.

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COSTA, A. A calada da noite.

ticipantes, narradores do drama. Pois bem: proponho pensar que o sujeito

do filme é “as virgens” como um enigma. Isso justifica a razão de uma histó- ria tão densa não provocar comoção no espectador.

É interessante que o filme tenha por contexto a década de setenta.

Talvez tenha sido nessa década que se efetiva uma virada decisiva na repre- sentação cultural do corpo assexuado, onde “as virgens” tinham, anterior- mente, a função principal. Quem viveu a adolescência nessa época colocou em ato uma modificação radical na representação social do corpo feminino, onde a virgindade como tabu perderia seu relevo social.

E o que significava que a virgindade feminina se constituísse num tabu

social? Freud escreveu um texto em 1919 4 , propondo que a demanda de um pênis, do lado das mulheres, requeria em algumas sociedades que o desvirginamento fosse mediado por um terceiro, que não o esposo, para que fosse suportável tanto a violência da frustração feminina, quanto o imaginário masculino de castração. Essa interpretação, como construção freudiana, sustenta-se na referência do imaginário do drama edípico. No entanto, como as construções imaginárias resultantes do encontro entre os sexos, não são as mesmas para diferentes sociedades e tempos, valeria a pena precisar melhor essa questão em termos psicanalíticos. Para tanto, partiremos do suposto que o incesto – para ambos os sexos – diz respeito ao corpo mater- no. Ou seja, a possibilidade de encontro de um lugar de representação no mundo depende dessa simples condição: da separação/diferenciação em relação ao corpo materno. Partindo desse suposto, pode-se entender que há um vazio de repre- sentação na passagem do corpo feminino, de uma condição assexuada para uma sexuada. Isso pode ser testemunhado ao longo da história da humani- dade, tanto em sociedades que praticavam o sacrifício de virgens aos deu- ses, quanto nessas, abordadas por Freud, da virgindade como tabu, ou mes- mo no clássico tema cristão da sobreposição virgem/mãe. Neste último – do

4 Freud, S. – El tabu de la virginidad. In: Obras Completas. Madrid: Biblioteca Nueva, 1975.

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SEÇÃO TEMÁTICA

qual nossas representações ocidentais são resultantes – como é possível perceber, a maternidade não é propriamente “sexuada”, abrindo-se um vácuo no lugar que se constituiria a representação do desejo sexual pelas mulhe- res.

Numa recente publicação, Gérard Pommier 5 propõe que a representa- ção do corpo, na pós-modernidade, teria adquirido um estatuto de assexuado, se constituindo como um corpo angelical. O “anjo” é o duplo que se separa de cada um de nós, no momento da perda do lugar de falo materno pelo qual todos passamos. É ali que esse anjo pode ser “da guarda” e pode se tornar acompanhante, como “presença” protetora ou mesmo sinistra. Se concor-

darmos com a leitura do autor, o discurso da ciência – ao substituir o lugar que foi primeiro dos mitos e depois da religião monoteísta – “naturaliza” e higieniza a representação do corpo, excluindo sua representação sexuada.

A partir dessa análise talvez possamos pensar que a virgindade como

um tabu social – representante de uma interdição do corpo feminino como um corpo incestuoso – foi substituída por uma liberação de um exercício, na

condição de uma exclusão do desejo sexual. Nesse sentido, o sexual torna- se mais “higiênico”, instituindo tabu no contato entre indivíduos (é a grande incidência da neurose obsessiva). Curioso destino: mesmo a liberação do exercício mantém o sujeito distante do desejo. Retornando ao tema das virgens como enigma (que situamos a propó- sito do filme), proponho um invariante que independe dos movimentos de representação cultural, pelo menos naqueles até agora constituídos. Esse invariante diz respeito à experiência da menina, de ter de suportar em seu corpo esta passagem mãe/desejo sexual (castração). Os rituais sociais nor- malmente vêm no lugar dos vazios de representação. Com a perda do tabu social da virgindade, cabe a cada uma sua saída singular.

A descoberta freudiana da função dos sonhos tem um lugar bastante

importante, que muitas vezes desconhecemos sua abrangência. A possibili-

5 Pommier, G. – Les corps angéliques de la postmodernité. Paris: Ed. Calmann-Lévy, 2000.

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COSTA, A. A calada da noite.

dade de saída de um trauma, por exemplo, encontra-se primeiro na necessi- dade do indivíduo voltar a sonhar. Ou seja, produzir, durante o sonho, repre- sentantes psíquicos que façam mediação do real. Se tomarmos essa ques- tão de maneira abrangente, poderemos reconhecer no sonho diurno da púbere, as pré-condições de saída do trauma da modificação real de seu corpo, junto a seu estranhamento imaginário. Essas são as pré-condições que preparam um lastro para diferenciação do corpo materno, numa saída futura, onde a adolescente poderá ser acolhida nos joguinhos com seus pares, até a esco- lha amorosa e exercício sexual posterior. O sonho diurno vem no lugar do vazio – de um mutismo constitucional – na passagem do corpo feminino de um lugar assexuado para sua sexuação. No entanto, não basta somente sonhar: é preciso a ligação entre fantasia e troca de endereçamento. A partir dessas proposições, a questão do filme poderia centrar-se no encontro de um vazio, lá onde estariam ritual ou fantasia, fazendo da passa- gem a ato sua única saída. É interessante constatar o contraste entre o mutismo dos belos anjos e a falação dos rapazes. Poderia pensar-se tam- bém numa alegoria em que, socialmente, o sacrifício das virgens teria servi- do a eles para ter acesso às outras mulheres, fazendo dessas interditadas os enigmas para alimento de suas fantasias.

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SEÇÃO TEMÁTICA

O ADOLESCENTE DIANTE DA AIDS:

ESTRATÉGIAS PESSOAIS DE LUTA CONTRA A DOENÇA

François Pommier 1 Tradução: Maria Rosane Pereira Pinto

A observação, no quadro do tratamento psicoterápico de um certo nú-

mero de adolescentes soropositivos do virus da AIDS, levou-nos a

interrogar sobre as condutas defensivas que estes pacientes assu-

mem diante da doença. Tais condutas dizem respeito às transformações corporais, às modificações psíquicas e aos mecanismos de defesa ineren- tes ao processos próprios à adolescência. Estas estratégias defensivas são múltiplas e revelam, como no adulto, fatores estruturais como por exemplo a obssessionalidade, o donjuanismo e, principalmente, passagens ao ato. No entanto, somos obrigados a constatar que elas se organizam, igualmente ,através da busca do alicerçamento da questão central relativa ao segredo, em torno de escolhas bem mais conjunturais que podemos relacionar ao encaminhamento que caracteriza a adolescência ou, mais precisamente, “o pubertário”. 2 A característica principal da transformação pubertária, do ponto de vista psicológico, é que o corpo, que até então foi vivido como portador pas- sivo de necessidades e de desejos, torna-se uma força ativa nos fantasmas e nas condutas sexuais e/ou agressivas. Clivado entre corpo infantil e corpo púbere, o adolescente coloca em ação defesas contra a emergência pulsional que sobrevém no interior dele mesmo e o chama à satisfação. Frequente- mente, o resultado disso é uma espécie de desgaste pulsional.

1 Psiquiatra, psicanalista, professor da universidade Renè Descartes – Paris 5. Autor do livro “La psychanalyse l’èpreuve du sida”, Paris: Aubier, 1996. 2 Gutton, Philippe, Le pubertaire, Paris: PUF, 1991. O autor considera que “a palavra puber- dade é para o corpo o que o pubertário é para a psiquê”. Inverso do movimento de separa- ção, o pubertário se caracterisaria por uma “força anti-separatista que anima o frenesi da criança em direção ao pai ou à mãe edípicos, em uma ‘busca do Graal’”. E durante o tempo seguinte, que P. Gutton chama de “adolescens ”, que se faria o trabalho de separação.

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POMMIER, F. Adolescênte diante da AIDS

Paralelamente, o adolescente encontra-se confrontado com diferen- tes tarefas relativas a seu desenvolvimento. Apesar da diversidade que apre- sentam, tais tarefas têm origem em uma mesma função principal e, portan- to, nao poderiam estar dissociadas. Assim, o adolescente é levado, ao mes- mo tempo em que muda sua atitude em relação a seu próprio corpo, a modi- ficar principalmente sua relação com os objetos edípicos, bem como sua relação com seus contemporâneos. Consequentemente, a adolescência constitui um momento decisivo, no curso do qual o sujeito escolhe sua orien- tação, momento em que o nascimento e a morte tornam-se presentes, um e outro apreendidos ao nível do imaginário e do fantasmático, articulados em torno do problema da sexualidade. Uma das principais características da AIDS é a de levar a uma certa confusão dos gêneros entre o somático e o psicológico, o íntimo e o exposto, o fantasma e a realidade. Por outro lado, a soropositivade à AIDS implica uma rearticulação da vida sexual, ligada, como na adolescência, à uma certa dificuldade de se apropriar do tempo e mesmo ao sentimento de uma ruptura da continuidade da existência. Se levamos isto em conta, compreendemos melhor o fato que a presença imperceptível de um “corpo estranho” mortífero no organismo possa reativar as questões inerentes à adolescência, tornando-as ainda mais complexas, além de sa- cudir um sistema defensivo já fortemente solicitado. Estes pacientes encontram vários meios de sofrer o mínimo possível da presença inevitável do vírus. 3 Interessa-nos comentar aqui, de maneira esquemática, dois tipos de condutas defensivas, entre as que constatamos no quadro de nossas psicoterapias com adolescentes e jovens adultos. Assim, enquanto certos sujeitos escolhem distanciar-se de seu semelhante ou recu- sar toda cooperação terapêutica, como que para se proteger das agressões exteriores suscetíveis de despertar o vírus, outros têm, ao contrário, tendência a se aproximar daqueles que estão, como eles, contaminados, em um movi- mento clássico de regressão e com a esperança de ali encontrar um refúgio.

3 A instauração dos mecanismos que expomos aqui supõe que o sujeito tenha tomado uma consciência pelo menos relativa de que o vírus faz, à partir de então, parte dele mesmo.

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SEÇÃO TEMÁTICA

1. A PROBLEMÁTICA NARCÍSICA ATRAVÉS DA BUSCA DE PROTEÇÃO

DIANTE DAS AGRESSÕES E DAS EXCITAÇÕES EXTERIORES. A partir do momento em que aparece para o sujeito a supeita, em relação ao outro, de uma eventual reticência, ou mesmo o risco de rejeição,

a recusa em dizer torna-se, no fim das contas, banal. O sujeito prefere,

então, distanciar-se do que ser incompreendido ou descartado. No caso da AIDS, este comportamento de autoproteção é todavia particulamente claro,

e os sujeitos soropositivos colocam em ação, por vezes de maneira muito

metódica, um sistema de prevenção contra toda estigmatização da qual ele poderia ser objeto. Assim, frequentemente, estes pacientes ficam à esprei- ta, com o temor permanente que os outros possam ler neles aquilo que eles se esforçam para esconder a qualquer preço, por vezes deles mesmos, quer dizer, o primeiro traço que anunciaria a doença por vir. Considerando seu corpo como estando sempre em vias de traí-los, sentimento que eles já experimentaram no momento da puberdade, estes sujeitos se esforçam as- sim, constantemente, para rejeitar, e mesmo para evitar, uma tal traição, de modo que eles possam manter a ilusão do estado anterior à soropositividade, o que não deixa de evocar a vontade adolescente de preservar o maior tempo possível algo da ordem da onipotência infantil. Aliás, a questão da revelação da soropositividade à família, e em par- ticular aos pais, jamais aparece sem estar ligada à problemática adolescen- te. Assim, a revelação aparece como um momento fundamental e sempre difícil de situar. Na verdade, o que os pacientes exprimem da maneira mais manifesta – o medo que o outro os abandone – parece corresponder antes de mais nada ao medo que eles têm de ver o objeto narcísico parental ataca- do.

Para assegurar esta proteção, alguns sujeitos vão, sobretudo no pri- meiro momento da doença, evitar ao máximo os contatos sociais e se dis- tanciar do ambiente escolar, profissional, afetivo ou familiar. O objetivo aqui implícito é de guardar o segredo o maior tempo possível, em todo caso, enquanto a mudança física não for perceptível, de modo a não correr o risco, em falando de sua soropositividade, de modificar a imagem de si mesmo que

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POMMIER, F. Adolescênte diante da AIDS

ele dá ao outro, mesmo se, explicitamente, os pacientes justificam a atitude deles pela vontade de proteger os que lhes são próximos, em particular os pais. De um ponto de vista psicopatológico, o silêncio mantido a qualquer preço parece ressoar em um duplo registro: o segredo permite não apenas

que o sujeito proteja o objeto narcísico parental, logo, seu próprio narcisismo, mas também que ele encontre uma garantia contra o temor do incesto. Uma tal precaução deve-se ao fato que a agressão da heterosexualidade parental, pelo viés da revelação da soropositividade, arriscar-se-ia, evidentemente, a colocar o sujeito em posição de interlocutor privilegiado do pai ou da mãe. Uma tal hipótese encontra-se confrontada com o fato de que a soropositividade

é raramente anunciada simultaneamente ao casal parental. Ela é revelada

mais frequente, a apenas um dos dois, do qual o sujeito supõe, ou não, que ele transmita a notícia ao outro, e isto se passa geralmente em um momento de intimidade, como se anunciaria um nascimento próximo. De um ponto de vista mais fenomenológico, precisamos sublinhar que entre a justificação do segredo manifestamente alegada por nossos pacien- tes, e o conteúdo latente que este último encobre, perfila-se um outro aspec- to: o de que ele, o paciente, parece alcançar uma possível mestria da evolu- ção dos sintomas da doença. Efetivamente, o segredo aparece para certos sujeitos como um meio de manter mais facilmente a doença à distância, dando-lhes o sentimento de poder assim melhor controlá-la e, por vezes, mesmo de retardar de maneira mágica seu desenvolvimento durante um cer- to tempo. Desvelar o segredo torna-se assim equivalente a, de uma certa maneira, aceitar a evolução imperiosa e crescente da AIDS.

II. A PROBLEMÁTICA DA INDENTIDADE ATRAVÉS DA BUSCA DO DUPLO DE SI MESMO: “O REFÚGIO JUNTO AOS SOROPOSITIVOS” Em um dado momento da doença, coloca-se com freqüência a ques- tão da necessidade do encontro com o mesmo, como se o outro diferente de si, de repente, não pudesse mais ser percebido como verdadeiro interlocutor. Pouco presente na maior parte das outras doenças, cujo prognóstico

é desfavorável, esta busca de conforto no semelhante, pelo viés da vinculação

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SEÇÃO TEMÁTICA

à comunidade dos aidéticos, tem, em seu ponto de partida, uma função narci-cisante evidente. A contaminação pelo HIV se traduz, efetivamente, o mais frequentemente por um apagamento do objeto narcísico, apagamento cujas manifestações podem ser múltiplas – principalmente fragilidade ou desprezo por si mesmo – e provocam a sobrevinda de uma posição depressiva ou persecutória. Os sujeitos vão então colocar-se em busca de um objeto narcísico de substituição através do encontro com outras pesoas contami- nadas, no seio de grupos ou de associações, dos quais eles esperam uma resposta possível à sua necessidade de reconforto, assim como a possibili- dade de reencontrar o sentimento de uma continuidade da existência que, com a doença, foi se dissolvendo progressivamente. Aliás, talvez possamos neste ponto evocar a noção de espaço psíquico ampliado, desenvolvida por P. Jeammet 4 a propósito do funcionamento mental do adolescente, e mais precisamente uma das variantes desta noção: a busca da alma-gêmea, quer dizer, daquele ou daquela com o qual tudo poderá ser partilhado, inclusive e primeiramente a AIDS. Bem entendido, tanto o mecanismo que consiste em colocar a doen- ça à distância mantendo-a secreta, quanto o mecanismo que visa encontrar um objeto de substituição se revelam, um e outro, por excelência, frágeis e suscetíveis de se colocar a serviço da pulsão de desligamento. Depois de um tempo, o refúgio buscado junto a outros soropositivos ou aidéticos pode assim se revelar tão sufocante quanto ele terá se tornado exclusivo ou obri- gatório – no caso de uma hospitalização, por exemplo. Os sujeitos correm então o risco de se verem fechados em um processo onde o objeto narcísico se esconde novamente, o caráter substitutivo deste objeto tornando-se pro- gressivamente perceptível e reduzindo com isto sua funçao inicial de securização. Entretanto, na maioria dos casos, estas estratégias defensi- vas, relativamente precárias, serão, em parte graças ao trabalho psicoterápico,

4 Jeammet P : « Réalité externe et réalité externe, importance et spécificité de leur articulation à l’adolescence » Revue Française de Psychanalyse, 3-4/1980, p. 494.

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POMMIER, F. Adolescênte diante da AIDS

relegadas ou completadas por outros mecanismos mais sólidos, deixando o campo aberto à uma existência cujas fronteiras não seriam mais impostas por este novo saber sobre si mesmo que é a contaminação do HIV.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FABRE, G. 1992. Les adolescents face à la prévention du sida , Revue Révenir, 23. GUTTON , P. Le pubertaire, Paris: PUF, 1991. GUTTON , P. L’adolescens, Paris: PUF, 1996.

JEAMMET, P. Réalité externe et réalité interne, importance et spécificité de leur articulation à l’adolescence, in Revue Française de Psychanalyse, 3-4, Paris:

PUF, 1996. LAGRANGE, H. et Lhomond, B. (sous la direction de). L’entrée dans la sexualité. Le comportement des jeunes dans le contexte du sida. Paris: LA découverte,

1997.

POMMIER, F. La psychanalyse à l’épreuve du sida, Paris: Aubier, 1996. RUFFIOT, A. L’éducation sexuelle au temps du sida, Paris: Privat, 1992.

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SEÇÃO TEMÁTICA

ADOLESCÊNCIA, O TEMPO DO ETERNO RETORNO

Alfredo Jerusalinsky

A dolescência não é um conceito psicanalítico. É a denominação de um tempo da vida. Por isso, quando a abordamos a partir da psicaná- lise, não se trata de produzir uma descrição, mas de responder se

há, ou não há, uma particular posição do sujeito nesse momento. Precisa- mos, portanto, abordar quatro questões: 1) a relação do sujeito com o signifi- cante; 2) a posição do sujeito em relação ao ato; 3) se o sintoma tem uma estrutura característica nesse período; 4) qual é a lógica do fantasma que sobredetermina a posição do inconsciente, ou seja; o tempo lógico, a rela- ção de objeto, a representação do espaço. Uma procura rigorosa para situar a adolescência no campo da psicanálise requer que atravessemos esses campos. O primeiro ponto nos leva a considerar a particular posição da Função Paterna, já que se trata de colocar à prova a consistência da palavra. O confronto entre o Pai Ideal da infância e o real do pai 1 , emergente na adoles- cência, questiona o valor do significante, na medida em que as promessas produzidas pelos pais durante a infância não podem ser garantidas. No que diz respeito ao segundo ponto, visto que o discurso social endereça ao adolescente uma demanda de verificar em ato seus recursos fálicos, ele se vê lançado a explorar a borda do real. Isso o deixa exposto aos riscos (psíquicos e factuais) de tropeçar com os limites de sua potência.

1 Sublinhamos aqui a diferença entre o real do pai e o Pai Real. Este último como o pai residual da horda primitiva, ou seja, um pai sem limite nem lei. Diferentemente ao real do pai que, precisamente, marca o limite de sua potência fálica, a dimensão de seu fracasso comparado com o Ideal.

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JERUSALINSKY, A. Adolescência, o tempo

O sintoma aponta na direção da produção de um sentido que possa

lhe garantir uma certeza. Entre o delírio e o devaneio, as construções imagi- nárias (ideológicas, religiosas, de destino, de grandeza, etc.) procuram fe-

char a fenda da castração. Quando a inibição aparece, ela denuncia o con- traste entre a bateria de recursos fálicos que o jovem dispõe, e a perfeição que ele mesmo demanda para suas realizações.

O quarto ponto nos coloca a questão do objeto na qual o centro está

ocupado pelo seu próprio corpo como agente simbólico da relação com o outro (o semelhante) e o problema do espaço que, nesse período, é funda-

mentalmente representado como fronteira (entre o público e o privado, entre

o familiar e o estranho, entre o permitido e o proibido, entre o próprio e o alheio) onde opera a projeção do eu. Mas, o que é particularmente interes-

sante neste quarto ponto é a lógica temporal. Com efeito, a adolescência é, antes do que nada, um tempo.

A esse tempo – quando adultos – todos queremos voltar e – quando

crianças – todos queremos chegar. Porém, os que estão nele decididamente querem sair. Que tempo é esse, então, que desperta tal controvérsia ? Curioso resulta, em primeiro lugar, que as crianças – que nunca tiveram a experiência do que significa ser adolescente – almejem de modo tão premente atingir essa condição. Isto merece nos determos para procurar uma explicação. Ocorre que as crianças sabem muito bem

o que é ser adolescente, do mesmo modo que sabem da sexualidade, do

fracasso amoroso, do sofrimento dos adultos, da morte, do que significa trabalhar, sem nunca ter passado por isso. Se trata do saber que lhes é transmitido pelo fantasma parental no qual – pelo fato dos pais já terem passado por isso – está inscrito como já vivido o que a criança ainda não viveu. Desse modo, com total autonomia da experiência (eis aqui o principal erro do positivismo), o saber é transmitido como antecipado e, desde essa posição, passa a moldar a experiência mesma. Essa é a razão pela qual as crianças podem desejar ser aquilo que ainda não são, ou não gostar de qualquer coisa que ainda não experimentaram. Essa é também a razão pela qual as experiências que as crianças atravessam

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SEÇÃO TEMÁTICA

têm uma relação tão intensa com o fantasma dos pais. Assim, a adolescência consta no “catálogo” temporal das crianças como o tempo em que “tudo teria sido possível”, ou seja, um tempo que não tem outra existência senão simbólica – o futuro anterior – e que funciona como um “passado” mítico O tempo que, desde o fantasma parental, se conjuga para a posição infantil (a de seus filhos) como “nunca terei sido aquele que sou: o que fracassou”. A sutileza lingüística – operada pelo In- consciente – de lançar ao passado como não acontecido o que já aconte- ceu, mas deixando o sujeito advertido do que acontecerá, na esperança de que ele consiga, por fim, evitá-lo. Que os pais suportem tão mal os pequenos fracassos de seus filhos se fundamenta nessa nuança temporal da lógica do fantasma: os supõem inscritos num saber antecipado pela inscrição que lhes impuseram. Dali surge essa demanda parental de que os pequenos sujeitos demonstrem sua – imaginária – suficiência. É demonstrativo dessa posição do saber inconsciente que os pais esperem deles o que, com toda evidência, a vida ainda não lhes ensinou. Esse saber, antecipado por obra da inscrição do fantasma no peque- no sujeito infantil, é o que legitima que os psicanalistas de crianças formu- lemos para elas interpretações que configuram uma matriz lógica e lingüís- tica que excede a experiência vivida por elas. A interpretação aponta na direção desse saber inconsciente, e não para uma retificação de qualquer vivência factual. O desejo de atingir a época juvenil se inspira nas fantasias de liberda- de à respeito do Outro Primordial, que tiraniza o pequeno sujeito tanto quan- to se inspira na ilusão transmitida pelos adultos de que essa – a adolescên- cia – foi a época dos melhores gozos e da maior liberdade de escolha. Essa idealização, de um tempo suposto de poucos limites, comparece nos adul- tos sob a forma saudosa do momento em que poderiam ter feito a escolha certa, o tempo perdido dos amores perfeitos, o tempo dilapidado das possi- bilidades mais vastas. Por que, então, de um tempo tão idealizado pelos outros, o adoles- cente – que é quem se encontra nele – quer sair? Precisamente porque se

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JERUSALINSKY, A. Adolescência, o tempo

trata de um momento de convergência de todas as formas do ideal. E, simul- taneamente, a exigência de sua realização, com o acréscimo de que é jus- tamente nesse momento que fica, para o adolescente, escancarado o fra- casso de todos os outros em levar adiante a tarefa que lhe é imposta. Haja corpo que agüente!

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SEÇÃO DEBATES

O SEXO DOS ANJOS

Eda Tavares

D iferentemente de outras civilizações e outras épocas, na nossa, o contato sexual com as crianças é considerado um abuso, um cri- me. Até mesmo o que poderia ser um inocente hábito de higiene

familiar, o banho compartilhado de pais e filhos, não costuma ser visto com

“bons olhos”, e facilmente pode ser considerado como uma proposta inde- cente por parte dos adultos. Mas que a questão exige uma perspectiva cul- tural e não meramente moralista se constata quando lembramos que Maomé

– já cinqüentão – casou com uma menina de 8 anos, ou que na antiga

Alexandria – III a.C – a iniciação sexual de meninas acontecia na puberdade. Porém, o que podia ser normal naqueles tempos e lugares hoje não é mais.

No nosso mundo atual, crianças não devem ter contato sexual com adultos, esta é a lei. Embora a lei, tanto simbólica quanto jurídica sejam, nesse ponto, inequívocas, de tempos em tempos surgem histórias horripilantes de algu-

mas criaturas cuja predileção é estuprar, e até mesmo assassinar, esquartejar

e comer partes do corpo de criancinhas. O inquietante é que, freqüentemente,

os personagens são dos mais insuspeitos. O mais recente foi o de Eugênio Chipkevitch, médico de adolescentes reconhecido e celebrado nos meios científicos, uma respeitada autoridade no assunto. Pois, o Dr. Chipkevitch, para surpresa e horror do país e dos pais, se dedicava a sedar e abusar sexualmente de seus jovens pacientes. Outro foi o neurologista americano Daniel Gajdusek um dos nobres exemplares da espécie humana, motivo de orgulho de seus semelhantes, um dos agraciados com o Prêmio Nobel de Medicina, que teve que apressar sua aposentadoria e descansar um ano atrás das grades por ter abusado sexualmente de garotos. Tais acontecimentos macabros causam espanto, e a angústia inevitá- vel em que os “mistérios do mal” invariavelmente nos precipitam. Mas, acal- mamos nossos espíritos e recobramos a cotidiana tranqüilidade quando pen-

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TAVARES, E. O sexo dos anjos.

samos que, no fim das contas, trata-se de aberrações humanas, com as quais não nos encontraremos a cada esquina e, portanto, podemos nova- mente abrir a porta de casa e deixar nossos filhos brincarem com o vizinho. Porém, a insistência e extensão desses fatos nos últimos tempos levanta o interrogante de o quanto se trata meramente de alguns sujeitos aberrantes ou se estamos confrontados com um sintoma social de conseqü- ências graves. Se saímos dos casos de grande repercussão, as ocorrências se ampli- am, e os suspeitos deixam de ser “exemplares raros” para passar a ser qual- quer um – até seu simpático vizinho. A França lançou-se numa operação de

caça aos pedófilos e em poucos dias tinha 600 suspeitos, dos quais foram indiciados 209. Entre eles, havia cidadãos acima de qualquer suspeita: profes- sores, médicos, empresários. Padres dedicados a relações nada espirituais com seus cordeiros provocaram uma crise na Igreja Católica de proporções nunca vistas. Um clube que cultua a pedofilia, chamado ”Espartacus”, possui em torno de 30 000 membros, uma amostra nada pequena da população. A prostituição infantil cresce vertiginosamente em todo o mundo, e, neste quesito, a Organização dos Estados Americanos aponta o Brasil como vergonhoso destaque entre os países exportadores de crianças e adolescen- tes para rotas da prostituição no mundo. A Associação Brasileira Multipro- fessional de Proteção à Infância e à Adolescência aponta um aumento de 180% na incidência de abuso sexual contra crianças e adolescentes. Não passa inadvertido a ninguém que a pedofilia ocupa cotidianamente as pági- nas de jornais e revistas. Tal profusão de casos nos leva a uma inevitável e desconfortante per- gunta: até que ponto a pedofilia forma parte do psiquismo comum? Ou seja,

o quanto esse flagelo pode circular pelo interior de nossas próprias casas? Evidentemente que não se trata de pensar que estamos diante de uma pro- liferação desenfreada de sujeitos estruturalmente perversos. O que sim é pertinente, numa questão que se manifesta de um modo tão vasto, é pensar

o que, nas amarras do laço social, deixa as crianças expostas a serem objeto de gozo sexual dos adultos.

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SEÇÃO DEBATES

Apesar de se comportarem muito pouco como anjinhos e de termos mais freqüentemente a sensação de que aquilo que envolve as lides com os pequenos tem mais a ver com o inferno do que com o céu, o que haveria de paradisíaco em noites em claro, fraldas sujas e esse aroma constante de queijo roquefort fora da geladeira? Mas apesar de tudo isso, insistimos em que as crianças são nossos anjos. E isto por um único, mas não simples motivo: elas estão incumbidas de serem a prova viva que o paraíso existe e que um dia elas nos levarão até lá. São elas o projeto esperança de que as agruras, males, e fracassos vividos pelos adultos, não serão repetidas pelos

nossos rebentos e assim, os miseráveis adultos poderão se sentir vencedores. Assim, refugiado na criança, o narcisismo dos adultos pode encontrar um lugar de ilusão de perfeição, de escapar dos sofrimentos inerentes à vida.

É através da criança – de quem se supõe que vive na “época feliz” – que se

pode sustentar essa ilusão. Não é por outra razão, que toda mulher, apesar da prova contundente de ter “pecado”, vira santa ao ser mãe: ela fabricou um

anjo. Mas para que a criança ocupe tal posição há uma condição necessária

a sustentar, a criança deve estar livre de toda “contaminação, deve ser

assexuada. Somente com uma supressão do sexo ela poderia ser comple- ta, perfeita, e sustentar o ideal. É assim que suas realizações ficam toma- das no campo da brincadeira, mesmo que seja pego com o “pinto” cutucan- do a “perereca” da amiguinha. As evidências do fato não são suficientes para tirá-los da inocência, e por maior que seja o escândalo, não passarão de “brincadeiras de médico”. As crianças são “anjos” porque os adultos assim o impõem. Um imperativo de tal modo necessário que torna qualquer discus- são sobre o sexo dos anjos impossível. É claro que não estamos falando de pequenos seres andróginos ou sexualmente indefinidos. Qualquer um pode olhar para uma criança desde seu nascimento e perceber que ela já porta as insignías de seu sexo: o nome, as roupas, os brinquedos que se lhe oferecem, os enfeites, marcas do corpo (se lhe furarão as orelhas para os brincos ou se será circuncisado). Desde o nascimento, os pequenos estão amarrados a uma posição sexuada. Porém, na infância, a imposição de cumprir um ideal de pureza distancia a criança do ato sexual mesmo.

50 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 105, ago. 2002

TAVARES, E. O sexo dos anjos.

O ser humano ao se encontrar na relação sexual com o outro sexo, ou

mesmo com o próprio, fica inevitavelmente confrontado com a necessidade de outro e, portanto, exposto ao sofrimento da falta. Então, o que se procu- raria evitar ao se relacionar sexualmente com crianças, ou melhor dito, com os anjos? Não seria um tipo de relação onde a inocência – ignorância – do pequeno outro, pouparia o abusador de qualquer dúvida sobre sua potência? Precisamente, numa tal relação sexual não há outro a satisfazer, a satisfa- ção é totalmente a própria, o pequeno é um anjo, sem sexo. Quando Jon Benet Ramsey, a minimiss Colorado foi assassinada, a definiram na imprensa como uma mistura de inocência infantil e perversidade

sexy. Mas, não nos iludamos, não é a produção sexy que as torna irresistíveis objetos de cobiça, como se a fantasia de mulher pudesse enganar aos desavisados, levando-os a pensar que se trata de alguém já pronto para as delícias da vida sexual. Não há um tal engano. Pelo contrário, o tempero está nessa condição, imprescindível à lascívia, de que a mistura seja com a inocência infantil. Um corretor de seguros de 56 anos foi flagrado numa “disneylândia do sexo” com uma menina de 13 anos no colo, dizendo : “Mulher velha já tenho em casa. Meu negócio é franguinha. Quanto mais nova, mais fico arrepiado.” Poderia se pensar, então, que o limite desse ‘quanto mais nova’ estaria imaginarizado no bebê que, no mágico instante de nascer, ainda pode ser o representante de todos os sonhos possíveis, quando ainda é capaz de ser uma representação de plenitude, de promessa do reino dos céus . A velha, certamente já traz nas suas rugas as marcas dos sonhos fracassados, dos sonhos desfeitos, dos sonhos impossíveis, os traços que testemunham uma história comum que devolve ao sujeito seu próprio reflexo, e a lembrança de que a morte é o destino derradeiro de todos, e que sempre nos faltará, irre- mediavelmente, o outro sexo.

A perversão sempre consiste na tentativa de ser a exceção, escapar

ao destino de – como Andrógino – de passar a vida buscando a metade que nos falta. Uma resistência insensata a ser o que somos.

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RESENHA

O DESEJO E SUA INTERPRETAÇÃO PARTE I I

LACAN, Jacques. O desejo e sua interpretação. Seminá- rio 1958-1959. Porto Alegre: APPOA, 2002. 518 p.

Seminá- rio 19 58-1959. Porto Alegre: APPOA, 2002. 518 p. A s lições de 13 a

A s lições de 13 a 19 são dedicadas à aná-

lise estrutural do texto da peça. Partin-

do do enigma que é a impossibilidade

de agir de Hamlet, Lacan busca situar o sentido do desejo, através do drama do desejo mascu- lino, confrontado à angústia do to be or not to be, para indagar: qual é esta verdade sem es- perança do homem moderno? Para Lacan, o que distingue Hamlet é ser, essencialmente, a tragédia do desejo, o desejo do homem está aí articulado nas coordenadas que Freud descobre, o édipo e a castração. Mas as coordenadas desse conflito são apresentadas por Shakespeare de maneira atípica, de forma a demonstrar que o homem não é simplesmente investido pelo desejo, mas precisa situá-lo, encontrá-lo. Ele marca muitas diferenças entre a estrutura de Édipo-rei e Hamlet. Destaca basicamente o fato de o crime de Édipo ocorrer na inconsciência, ao passo que em Hamlet o crime edipiano é sabido por aquele que é a vítima. Além disso, trata-se de um ato a realizar. A diferença estrutural é fundamen- tal. Trata-se das relações de Hamlet com seu ato e de saber o que querem dizer seus sucessivos adiamentos, o que significa o ato que o fantasma do pai lhe propõe como mandato? Como tomar o lugar que lhe foi indicado pelo pai? O fato de pai e filho saberem faz toda a diferença. Afinal, esse ato não tem nada a ver com a revolta edipiana contra o pai. É justamente porque o drama edipiano está aberto no começo e não no fim, como no Édipo, que a escolha se coloca entre “ser” e “não ser”. Então, como articular suas hesita- ções no inconsciente, já que uma formação sintomática como um escrúpulo desta natureza, se foi construída pelos meios da defesa, corresponde a algo inconsciente que deve ser interrogado?

52 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 105, ago. 2002

RESENHA

A ordem que lhe dá o ghost não é qualquer, é algo que põe em primei- ro plano o desejo da mãe, o que é absolutamente essencial. De pronto, entende-se a violência das acusações de Hamlet contra si mesmo e seu desejo sempre cambaleante, o que contrasta com o que se torna possível quando, na morte de Ofélia, ele se identifica ao a, que lhe faz reencontrar pela primeira vez seu desejo em sua totalidade. Mas isso ao preço da morte eminente. Vemos Hamlet dividido entre a tendência imperativa que é coman- dada pelo fantasma do pai e pelo amor que lhe dedica e a tendência de querer guardar sua mãe. Contudo, distinção importante, o repugnante que impede seu ato não é, para Lacan, o desejo por sua mãe, mas o desejo de sua mãe. Este é o ponto pivô. Hamlet o contesta, mas cede a cada passo, perante a potência desse desejo, como valor que não pode ser sublevado. Aí Hamlet não tem mais desejo, Ofélia é rejeitada da forma mais brutal, como objeto indigno. Quando Hamlet está confrontado à pergunta “o que o Outro quer?”, se estabelece um curto-circuito, pela revelação do fantasma paterno sobre sua morte. A questão não se desdobra a nível do inconsciente. Comparando o amante da mãe ao que foi seu pai (o objeto idealizado agora decaído), Hamlet conclui que o amante não é escolhido, ele é objeto de um gozo, a satisfação de uma necessidade interminável. Trata-se de ver como isso repercute sobre o querer de Hamlet. O pai sabia, ele tem a resposta, a resposta não pode ser senão uma e a função da castração está alterada. Por seu pai, Hamlet co- nhece a irremediável traição do amor. Sua verdade é sem esperança, nenhu- ma redenção é possível. Nenhuma palavra poderá sobrepor-se à essa desco- berta, recobrindo a ausência do significante que faz falta ao nível do Outro. Ou seja, não há possibilidade de simbolizar essa falta. Sua disponibilidade é absoluta. Como reencontrar o desejo? Lacan interpola a temática do luto na relação ao desejo, a função dos ritos para reordenar elementos significantes frente ao buraco aberto no real. E inclui Ofélia como o barômetro da posição de Hamlet, ela está aí para interrogá-lo, indagar qual a relação de seu desejo com o desejo do Outro, da mãe. Ofélia se situa ao nível da letra a, a letra enquanto inscrita na simboli-

C. da APPOA, Porto Alegre, n. 105, ago. 2002

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RESENHA

zação de um fantasma, e este sendo o substrato imaginário, suporte de um

desejo. Este outro que é o objeto do desejo responde à uma função na qual, no desejo, o objeto não visa à satisfação de uma necessidade, mas já é algo relativizado, posto em relação com um sujeito barrado.

v a), o objeto toma o lugar daquilo do

que o sujeito é privado. É pelo falo que o objeto toma esta função que ele tem

no fantasma e que o desejo se constitui. Na peça, ocorre, justamente, um desequilíbrio no fantasma de Hamlet e Ofélia é dissolvida como objeto de amor, rejeitada. Sua função como objeto de desejo só é reconquistada quan- do se torna um objeto impossível, reorganizando a economia fálica para Hamlet. A morte de Ofélia vem cumprir uma função quanto à reordenação significante, finalizando o que estava pendente pela impossibilidade de lutos anteriores, não realizados. Basicamente, destaca-se a função do pai como não integrada simbolicamente ao ser situado como devedor, sem poder res- ponder pela dívida. Isso Lacan apresenta como uma diferença importante em relação ao Édipo. A revelação do pai produz uma anulação absoluta da ca-

deia significante que o sustentava, levando à falência a eficácia das insígnias paternas. Da lição 20 à 27, Lacan retoma o que formulou nas lições iniciais para recolocar os passos necessários à constituição do desejo, para que o sujei- to se situe em relação ao Outro não mais como demanda, como amor, mas como falta. Que ganhe sua vida ao consentir que o Outro não detém o falo. Retomando a fórmula do fantasma, desdobra questões relativas à psicose e

à noção de realidade, a função do interdito e da demanda, as funções da

metáfora e metonímia e como o fantasma faz frente a emergência do real por

uma articulação significante. Toda a abordagem é feita na relação aos três registros. Trabalha o processo identificatório e a homossexualidade, discute com Melanie Klein (sobre Dick), Jones, Ferenczi, etc. Esclarece a posição do sujeito e do desejo no fantasma perverso, comparando-o detalhadamente

à estrutura do fantasma na histeria e na neurose obsessiva. A última lição

traz reflexões sobre o que chamamos casos limites. O que ocorre com a organização fantasmática nesses casos que se situam no limite da neurose.

Na articulação do fantasma ($

no limite da neurose. Na articulação do fantasma ( $ 54 C. da APPOA, Porto Alegre,

54 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 105, ago. 2002

RESENHA

A questão pode valer um debate na nossa preparação da temática do ano.

De Spinosa, Lacan retira a citação: “O desejo, cupiditas, é a essên- ”

que considera enigmática na medida em que não define se

o que chama desejo se refere ao que desejamos ou ao que é desejável,

distância que faz muita diferença para o analista. Faz diferença se nossa essência está ligada ao que desejamos, ou que se apresenta como desejá- vel, uma vez que o ser não deixa de ter relação com o vir a ser. De outra parte, para não arredar de seu estilo, e talvez para que não arredemos de nosso lugar, nos deixa enbasbacados com frases contundentes, como esta:

desejo do neurótico, diria eu de forma condensada, é aquilo que nasce

A situação não será mais simples quando houver

um, acrescenta, para nosso alívio. O seminário finaliza sobre questões formuladas de uma maneira mui-

to poética, colocando o que é o problema, o paradoxo da análise: o desejo que o sujeito tem se encontra nessa situação paradoxal, de que esse dese- jo, do Outro, que para nós é o do sujeito, “devemos guiá-lo não em direção ao nosso desejo, mas em direção a um outro”. “Amadurecemos o desejo do sujeito para um outro que não nós”, nos encontramos nessa situação de sermos os mediadores, por nosso desejo de analistas, os parteiros, os que presidem o advento do desejo. Como esta situação pode ser mantida, inda- ga? Pela manutenção de um artifício que é o da regra analítica. Ocorre ser- mos aquele que se oferece como suporte de todas as demandas, sem res- ponder a nenhuma. Concluímos, a partir daí, por nossa conta e risco que, se

o desejo do analista comporta a manutenção de um lugar vazio, não há álibi

que justifique a ausência absoluta, o vazio só faz sentido sobre um fundo de

quando não há Deus

o “

cia do homem

”.

presença. Enfim, o que a análise pode produzir quanto ao desejo senão o aces- so ao significante do seu reconhecimento? Para encerrar, Lacan nos propõe como enigma para deciframento, situando-nos no lugar que é o do analista, o dito do poeta Désiré Viardot, publicado por volta de 1951/52: “A mulher tem na pele um grão de fantasia”. De que se trata? Quem elucida? Pois este grão de fantasia é o que modula

C. da APPOA, Porto Alegre, n. 105, ago. 2002

55

RESENHA

e modela as relações do sujeito com aquele a quem ele demanda, seja

quem for. Se no horizonte encontramos a mãe universal, e por vezes possa- mos nos enganar quanto à relação do sujeito com o todo, Lacan destaca que para nós não é nada disso. Trata-se de um grão. Se não paramos de colocar em jogo, na análise, a abertura ao radicalmente novo que a fala introduz,

de

“não é apenas da mulher que devemos almejar este grão de fantasia (ou

poesia), é da própria análise”. Bem, como poetas, só podem falar os que têm

alguma relação íntima com o desejo, e alguma abertura a sua interpretação.

Liz Nunes Ramos

56 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 105, ago. 2002

RESENHA

CORPO E ESCRITA

RELAÇÕES ENTRE MEMÓRIA E TRANSMISSÃO DA EXPERIÊNCIA

COSTA, Ana.Corpo e escrita. Rio de Janeiro, Ed. Relume Dumará, 2001, 167 p.

D ando continuidade ao trabalho iniciado

em seu primeiro livro, intitulado A fic-

ção do si mesmo-interpretação e ato em

A fic- ção do si mesmo-interpretação e ato em psicanálise, produto de sua tese de doutora-

psicanálise, produto de sua tese de doutora- mento, Ana Costa nos brinda com mais esta belíssima obra – Corpo e Escrita. Um texto ela- borado com tal precisão e rigor conceitual, que produz em nós, seus leitores, uma tarefa que, embora prazerosa, é em nada simples, pois requer uma leitura profundamen- te atenta e absolutamente reflexiva diante da complexidade e das novidades

com as quais somos a cada página confrontados. Ana Costa funda seu trabalho na necessidade de entender o ponto de articulação entre memória individual e coletiva, partindo dos pressupostos da psicanálise freudo-lacaniana, delimitando os campos do inconsciente e, por- tanto, do sujeito e sua singularidade, os quais constituem os legados trans- mitidos de uma geração a outra. Se, por um lado, nos diz a autora, o produto

da experiência compartilhada, “

nhecimento, ou mesmo do entendimento, mas sim, do lado do que é velado,

não entendido, não representado

efeito de nossa forma de representar e, desde esse ponto de vista, nunca é passado. Nunca é passado, porque não é possível representar, de forma absoluta, a experiência, o que faz com a memória esteja sempre aberta a novas representações” (p.25-6). Estabelecendo algumas relações entre memória, registro, identifica- ção, conservação e criação, a autora determina uma orientação específica ao seu trabalho: “a de que registrar inter-relaciona acontecimento e repre- sentação” (p.27).

não

está exclusivamente do lado do reco-

”,

por outro, “

o

que ‘registramos’ sofre o

C. da APPOA, Porto Alegre, n. 105, ago. 2002

57

RESENHA

A obra está constituída de três capítulos, intitulados respectivamente Da experiência como conservação, Da experiência como transmissão e Da representação social da memória. No primeiro capítulo, tomando por base as concepções de Freud e Lacan, a autora nos apresenta um vasto e rico campo conceitual, retomado

e retrabalhado nos capítulos seguintes. Dentre esses, destaco os seguintes

conceitos: conservação, criação, interpretação, função de testemunho, re- petição, tratando-se este último da memória primordial, base e fundamento de toda a construção de memória humana. A repetição é, segundo a autora,

a própria “expressão do movimento pulsional, na sua dupla vertente contradi- tória, de ser ao mesmo tempo conservação e anulação” (p.37). Em suas reflexões acerca da teoria das pulsões e do movimento pulsional como sendo um resultante da relação com o outro/Outro, deparamo-

nos com o jogo do Fort-Da que, segundo Ana Costa, estabelece uma memó- ria de repetição e uma memória de separação, criando o campo represen- tacional como jogo simbólico. Trata-se este, de um a priori necessário, mes-

mo que não garanta a circulação social. “[

começa e termina no corpo” (p.38), através dos orifícios corporais e dos obje- tos pulsionais, objetos de circulação entre a criança e o semelhante, objetos que unem/separam e que deixam em seu apagamento uma representação, sendo eles: o seio, a voz, as fezes e o olhar. Orifícios, bordas que contém as relações “tanto com os semelhantes, quanto com os discursos” (p.40). Se por um lado, o corpo é o lugar e a fonte das inscrições primordiais, por outro, ele se apóia nas bordas, ou seja, “é nessa tentativa de constituir uma borda, que nosso corpo funciona pulsionalmente” (p.39), o que nos remete ao que a autora nomeia como sendo o “sacrifício da coisa pela palavra”, ou seja, é preciso que o objeto caia para que advenha em seu lugar a palavra – palavra que contém, por um lado, a ausência, e por outro, o limite, a borda. No tema sobre a objetação como memória, Ana Costa introduz as concepções de Walter Benjamin, relativas à “função nomeante da língua e à metáfora como produção de semelhanças”, para pensar a animação do obje- to na infância. Esta “animação” é correlativa ao que a autora está designando

]

o princípio do que seja sociável

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RESENHA

como a “objetação” do sujeito, que pode ser entendida de duas formas: por um lado, com um sentido de dar “alma” ao objeto, e por outro, de objeção, de recusa. É pelo fato de restar o que a autora nomeia como um objeto/cicatriz, que o sujeito poderá fazer “escolhas de linguagem para circulação social: ou a escrita, ou a pintura, ou a voz etc.” (p.44). Destes, entende-se a escrita como “veículo de produção de semelhanças” e veículo de “passagem das memórias da infância”; passagem como indicativo da necessidade de produ- zir uma circulação: uma possibilidade de ‘comunicar o incomunicável’, na qual está contido um endereçamento. Dizendo de outra forma, “falar de pas- sagens implica colocar em evidência a possibilidade de inscrição cultural desse objeto/traço resultante da ligação do sujeito/Outro” (p.53). No capítulo II, a questão central diz respeito a como se transmite a experiência e o que dela se transmite. Para refletir sobre isso, Ana Costa convoca o pensamento de Hanna Arendt, Walter Benjamin e Jacques Lacan. De Hannah Arendt, surgem dois elementos: por um lado, a passa- gem, na forma de representação humana, da contemplação à ação e, por outro, uma questão sobre como se dá a necessidade do registro da História. A autora parte de um pressuposto genérico no qual representação é, então, uma ação sobre o real, que passa a funcionar como espelho do sujei- to, mas que precisa do consentimento e do reconhecimento compartilhados” (p.64). E para pensar sobre o tema da transmissão, afirma a importância de um debate sobre as condições de representação e a função de autorização de um valor social, no sentido do que se estabelece como autoridade. Nessa direção, aponta uma estreita inter-relação entre autoridade – experiência – representação nas concepções de Arendt e Benjamin; enquanto que para a primeira a perda da autoridade pressupõe também a perda da experiência, para o segundo, a autoridade é a própria experiência. Acerca das condições de circulação social, a autora destaca que o “reconhecimento fálico, social, não é suficiente para amparar uma circula- ção, ou seja, para que as pessoas consigam legitimar os atos que produ- zem” (p.101). Assinalando que é pelo duplo, sustentado na instituição de um rival, que o sujeito embrenha-se na necessidade de dar consistência a um

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RESENHA

lugar que o represente” (p. 103). “Como comunicar a incomunicabilidade?”, é a pergunta de Ana Costa, para introduzir sua análise a respeito da passagem adolescente e os riscos implicados no apelo fálico de convocação ao eu para se representar . Nesta direção remete-se, por um lado, à análise do filme “A ostra e o vento”, que representa uma versão feminina do apelo ao pai na adolescência e, por ou- tro, à análise do livro de ficção, adaptado ao cinema por Stanley Kubrick,

intitulado “Laranja Mecânica”. No primeiro, as reflexões dizem respeito ao trabalho de reconhecimento/autorização das posições tanto de homem para pai, quanto de filha para mulher, onde o que se coloca em ato é o extremo de um saber privado, incomunicável. No segundo, a autora analisa o lugar da gangue, que aparece “como o primado de uma unificação fálica da infância

]”

(p.110), ou seja, coloca em questão uma “identidade completamente cole-

[

],

reconstituindo coletivamente – no grupo – um corpo sem falhas [

tivizável, comunicável (p.113)” em relação à função do líder. Ana Costa afirma

que o líder representa “um anonimato”, na medida em que “[

coloca em cena, atua – algo que não é propriamente dele, mas que falta para que um grupo (ou uma identidade) seja tomado como verdadeiro” (p.112), constituindo, pois, uma impossibilidade de falar em nome próprio.

“Sair para a rua na adolescência é uma espécie de reedição do jogo do carretel” (p.112). Para situar essas questões do privado, singular, coletivo, anônimo e público, a autora analisa dois movimentos subjetivos importantes:

]

encarna –

RESENHA

xão e análise acerca das formas de representação social da memória, to-

mando com intensidade e densidade teórica o valor e o lugar da letra e do escrito nesse processo.

A autora pergunta: “que lugar ocupa a escrita em um percurso de

análise?” (p.130) e mais adiante pondera que “talvez a escrita possa ser considerada, quando necessária, como um a priori para a construção de um sintoma singular. Essa parece ser a proposta de Lacan, quando se detém na análise da vida/obra do escritor James Joyce. Em “Estética e ato originário”, Ana Costa retoma as referências ao olhar, afirmando que “é no suporte do olhar que se problematiza o referente do lugar do sujeito. Mas é também por essa via que o sujeito se lança na procura da produção de um traço que o represente. Essa condição de repre- sentante somente se efetiva desde que um outro reconheça, na medida em que ele é completamente inconsciente para o sujeito” (p.141). Em “Nome e Marca”, Ana Costa analisa o quanto o capitalismo trans- forma o nome próprio em marca de consumo, do qual destacamos o seguin-

te fragmento: a “experiência da impressão – contida no nome próprio – do traço representante do enigma do desejo do Outro é responsável tanto por construções fetichistas quanto pelos maiores valores culturais que preserva- mos. O que produz fetichismo é a necessidade de apagar o enigma do traço, fixando ali um símbolo universal, comunicável e coletivizável” (p. 144).

A autora ainda nos apresenta as figuras alegóricas de Walter Benja-

a

“subtração a um código e a afirmação fálica”. A matriz do espaço privado é

min, como o flâneur, que é “aquele que ‘registra’ uma ausência de registro”

o

primeiro exercício de constituição de um lugar enunciativo próprio, para

(p.155) e a própria escrita constituindo-se como construção alegórica, além

poder sustentar corpo e nome. E, nessa direção, se de um lado, o “Diário” representa a construção de uma privacidade, de outro, para entendermos a “adolescência como um ‘vestíbulo da História’ – teria de pensar-se na saída de casa como um dos elementos de construção do espaço público, trazendo uma dimensão da cultura que implica compartilhamento e transmis-são” (p.118) – “é preciso transpor a busca de ser o ‘único’”, nos diz a autora. No capítulo III, Ana Costa traça uma extensa e detalhada incursão pela filmografia, reportagens, literatura, arte, armando uma trajetória de refle-

de outros importantes conceitos tais como: compulsão de repetição (Freud), automatismo de repetição (Lacan); negação e mímesis, tomados como veí- culos das representações dos objetos pulsionais, relativos ao conceito de alienação em Lacan; o “não” disjuntivo da negação como produtor de diferen- ça, levando em conta especialmente que a memória que se transmite está no campo da negação; recalque, foraclusão castração, para pensar que “só há registro do que passa pela experiência, naquilo que essa experiência constrói como falta”(p.86); mímesis e registro como produção de semelhan-

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RESENHA

ças – conceito de identificação, obsessão; traço único e apagamento. E não termina por aí! Assumir essa responsabilidade de comentar, na forma de resenha, o livro de Ana Costa, é assumir de antemão uma dívida, pois as palavras que podemos escrever sobre ele sempre serão insuficientes, dada a dimensão e profundidade teórica que lhe concerne. Sendo assim, cabe-nos a tarefa de parar de “falar” para poder lê-lo, tantas e tantas vezes quantas forem neces- sárias, para num aprés-coup, ter o que escrever. Boa leitura!

Maira Brauner

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AGENDA

AGOSTO 2002

Dia

Hora

Local

Atividade

07, 14,

15h

Sede da APPOA

Reunião da Comissão de Eventos

21

e 28

08

e 22

20h15min

Sede da APPOA

Reunião da Comissão de Biblioteca

08

21h

Sede da APPOA

Reunião da Mesa Diretiva

12

e 26

20h30min

Sede da APPOA

Reunião da Comissão do Correio da APPOA

15

e 29

20h30min

Sede da APPOA

Reunião do Serviço de Atendimento Clínico

22

21h

Sede da APPOA

Reunião da Mesa Diretiva aberta aos mem-

bros da APPOA

PRÓXIMO NÚMERO JORNADA DO PERCURSO DE ESCOLA IV
PRÓXIMO NÚMERO
JORNADA DO PERCURSO DE ESCOLA IV

C. da APPOA, Porto Alegre, n. 105, ago. 2002

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EDITORIAL NOTÍCIAS SEÇÃO TEMÁTICA OO ADOLESCERADOLESCER EE SEUSSEUS DESTINOSDESTINOS ValériaValéria MachadoMachado RilhoRilho

1

2

16

1717

AMARAMAR EE TRABALHARTRABALHAR MariaMaria CristinaCristina PoliPoli FelippiFelippi 2525 ADOLESCÊNCIAADOLESCÊNCIA COMOCOMO TRABALHOTRABALHO PSÍQUICOPSÍQUICO

LuisLuis FernandoFernando LofranoLofrano dede OliveiraOliveira

2828

AA CALADACALADA DADA NOITENOITE AnaAna CostaCosta ADOLESCENTEADOLESCENTE DIANTEDIANTE DADA AIDS:AIDS:

3333

ESTRATÉGIASESTRATÉGIAS PESSOAISPESSOAIS DEDE LUTALUTA CONTRACONTRA AA DOENÇADOENÇA FrançoisFrançois PommierPommier ADOLESCÊNCIA,ADOLESCÊNCIA, OO TEMPOTEMPO DODO ETERNOETERNO RETORNORETORNO

3838

AlfredoAlfredo JerusalinskyJerusalinsky 4444

SEÇÃO DEBATES

48

OO SEXOSEXO DOSDOS ANJOSANJOS EdaEda TavaresTavares

4848

RESENHA “O“O DESEJODESEJO EE SUASUA

52

INTERPRETAÇÃO”INTERPRETAÇÃO” 5252

“CORPO“CORPO EE ESCRITA”ESCRITA”

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AGENDA

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N°N° 105105 –– ANOANO IXIX

AGOSTOAGOSTO –– 20020022

ADOLESCÊNCIAADOLESCÊNCIA EE CONSTRUÇÃOCONSTRUÇÃO DEDE FRONTEIRASFRONTEIRAS