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Itamara Moura Contos e Causos do Zé Mirinha 1 JFP
Itamara Moura
Contos e Causos
do
Zé Mirinha
1
JFP

ITAMARA MOURA

ITAMARA MOURA Contos e Causos do Zé Mirinha 1ª Edição Ilustrações JOÃO FRANCISCO PAES 2014

Contos e Causos do Zé Mirinha 1ª Edição

Ilustrações JOÃO FRANCISCO PAES

2014

Texto © Itamara Moura 2014 Ilustrações © João Francisco Paes 2014

Coordenação Editorial: Elisa Carvalho Editoração Eletrônica: Louise Pereira Revisão: Elisa Carvalho Impressão e Acabamento: Comunicare Apoio Cultural: Instituto Baetiba Tiragem: 4.000 exemplares Edição custeada pela autora em parceria com Luiz Carlos de Mira Contato: zemirinha@gmail.com ou itamaramoura@terra.com.br

ISBN:978-85-901574-2-7

Texto © Itamara Moura 2014 Ilustrações © João Francisco Paes 2014 Coordenação Editorial: Elisa Carvalho Editoração
Texto © Itamara Moura 2014 Ilustrações © João Francisco Paes 2014 Coordenação Editorial: Elisa Carvalho Editoração
Para o Cassiano, poesia em forma de gente.
Para o Cassiano,
poesia em forma de gente.

Contos e Causos do

Zé Mirinha

O sol estava muito quente naquele dia vinte e quatro de outubro de 1924.

Vó Caía tinha acabado de almoçar e estava descansando na sua rede, no

fresco da varanda, quando o menino mensageiro chegou a cavalo e disse:

Vó Caía, o seu Zequinha mando avisá que o fio dele vai nascê e que é pra sinhora não demorá.

Ainda sonolenta, Vó Caía levantou-se da rede, deu um grande e barulhen- to bocejo, e coçando lentamente a cabeça, perguntou:

Agora, Zé? Cum esse sór?

Sim sinhora, purque criança não iscoi hora pra chegá nesse mundo, a sinhora sabe disso.

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Ocê tem razão Zé, intão ispera um poco que eu já vorto.

Vó Caía entrou na pequena casa, pegou uma mala cheia de paninhos bran- cos, colocou sobre eles algumas ervas, uns vidros com unguentos, uma tesoura bem limpinha que ela só usava nessas ocasiões, fechou portas e janelas e partiu com o menino.

Para melhor acomodá-la ele havia trazido um silhão, que é uma cela feita especialmente para quando as mulheres precisam andar na garupa do cavalo. Naquele dia Seu Zequinha e Dona Bertina teriam o seu primeiro filho e preci- savam da ajuda da vó Caía. Eles moravam na roça, numa pequena cidade lá de Minas Gerais chamada Cristina, onde não havia médicos nem hospitais e as crianças nasciam em suas casas, com a ajuda de uma parteira. Vó Caía era uma parteira, por isso foi chamada por seu Zequinha.

E lá foram eles pela estrada seca e poeirenta. Enquanto cavalgavam iam proseando e cantando. O sol estava a pino e para proteger-se do calor vó Caía abriu sobre a cabeça duas folhas de bananeira, sempre companheiras nas suas viagens de boas vindas.

Vejam que eles falam de um jeito diferente, é o jeito caipira de falar. O Português, nosso rico idioma, é falado de um jeito na cidade e de outro bem diferente na roça. Ele também muda muito conforme as regiões do Brasil. Um grande escritor brasileiro chamado Guimarães Rosa, que já morreu, ficou tão encantado com essas variações do nosso idioma que escreveu em um dos seus contos que “as palavras tem canto e plumagem”. E se nós observarmos bem,

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vamos ver que ele tinha razão.

  • C hegando à casa do seu Zequinha, vó Caía foi logo para o quarto onde es- tava dona Bertina. Pediu que lhe arranjassem uma bacia com água quente,

fechou a porta e as janelas e permaneceu ali por bem mais de uma hora. Seu Zequinha ficou esperando no terreiro. Ele estava inquieto. Sentava, levantava, andava pra lá e pra cá esfregando as palmas das mãos. Zé, o menino mensagei- ro, ficou com ele.

De repente, um choro de bebê invadiu a casa e escapou pelo quintal. Seu Zequinha ouviu aquilo e respirou aliviado. Muito emocionado, abraçou seu companheiro e logo entraram para ver a criança

No quarto, com calma, vó Caía cuidava da mãe e do menino. Sim, era menino o primeiro filho do seu Zequinha e ele berrava enquanto vó Caía traba- lhava e rezava. Cantando baixinho ela ia limpando, desinfetando e benzendo, tudo ao mesmo tempo.

Quando seu Zequinha entrou no quarto, ela disse:

Esse minino tem um jeito diferente de chorá, meu cumpadi. Tenho pra mim que ele vai sê cantô, quiçá um violero pra alegrá a vida da gente.

Vó Caía era assim, além de ajudar as mães na hora de terem seus bebês, ela gostava de rezar e fazer adivinhações.

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C omo vimos, Zé Mirinha nasceu pelas mãos de uma parteira, a pessoa que ajuda as mães na hora de terem seus bebês.

Isso aconteceu em 1924 e naquela época tudo era muito diferente. Não havia médicos nem hospitais para atender quem morasse na roça, por isso pes- soas como a vó Caía eram muito queridas e importantes.

Zé Mirinha nasceu muito bem, foi crescendo com saúde e logo aprendeu a andar e a falar. Naquele tempo as crianças não eram vacinadas como hoje, e por isso ele teve quase todas as doenças que as crianças podem ter nessa idade. Catapora, sarampo, coqueluche, escarlatina, Zé Mirinha passou por todas, e toda vez que adoecia, vó Caía aparecia com seus remédios.

No começo, ele se assustava e tinha medo quando vó Caía chegava. É que ela era um pouco diferente, bem alta, de pernas finas e compridas, tinha a pele escura e os lábios grandes, mas o medo que Zé Mirinha sentia foi acabando logo que ele percebeu que vó Caía só vinha para fazer o bem.

Um dia o menino foi visitar um tio que estava fazendo uma experiência nova no seu quintal. Ele estava plantando uvas. Enquanto os adultos proseavam na sala Zé Mirinha correu para o quintal para ver como era o pé de uva e ficou encantado quando viu a parreira já cheia de cachinhos pendurados.

Ele ficou morrendo de vontade de experimentar aquelas uvas, mas não pôde porque elas estavam verdes. Olhava aquelas frutinhas suculentas e ima- ginava o gosto que teriam, mas ninguém deixou que ele experimentasse. Vol- taram todos para casa e no dia seguinte Zé Mirinha acordou tristonho, sem

C omo vimos, Zé Mirinha nasceu pelas mãos de uma parteira, a pessoa que ajuda as

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apetite, com um pouco de febre até. Estava desconfiado. À tarde, mandaram chamar vó Caía e explicaram o que tinha acontecido no dia anterior. Ela logo matou a charada:

Criança quando fica cum vontade de cumê uma coisa e não come, logo disconfia.

Então ela pegou o menino no colo, fez umas orações bem em voz baixa, fez o sinal da cruz na cabecinha dele com um pouquinho de raspas de chifre de vaca e deu um chá de hortelã pra ele beber e pronto, no dia seguinte ele já estava bom.

Vó Caía sempre acertava. Ela era uma pessoa muito especial e cuidava das pessoas ao seu redor. Fazia remédios com suas ervas quando alguém ficava do- ente, benzia as crianças quando elas ficavam desconfiadas, rezava o terço nas casas nos dias santos e até matava uma galinha vez ou outra para acarinhar o estômago dos mais chegados. Mas o que Zé Mirinha mais gostava é que depois de fazer tudo isso, geralmente no fim do dia, ela contava muitas histórias para as crianças. E foi ouvindo suas histórias que ele entendeu porque ela era um pouco diferente. É que ela era filha de africanos.

Ele não sabia o que era ser africano, mas aprendeu com vó Caía que a África é um continente que fica bem longe daqui e que para chegar lá tem que atravessar o oceano, que é como um rio gigante, quase sem fim. Aprendeu tam- bém que no Brasil já houve escravidão, que os escravos daqui também vinham da África e que os pais de vó Caía foram escravizados, mas ela não.

Vó Caía contava muitas histórias, algumas verdadeiras, umas inventadas,

apetite, com um pouco de febre até. Estava desconfiado. À tarde, mandaram chamar vó Caía e

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outras misturadas. Histórias tristes, alegres, engraçadas e apavorantes. Das apa- vorantes, Zé Mirinha tinha mais medo era das histórias de fim de mundo.

Um dia ele falou à vó Caía do medo que sentia quando ouvia essas histó- rias, então ela o beijou e disse:

— Pra ocê meu fio, o mundo nunca vai acabá.

Zé Mirinha passou a gostar tanto da vó Caía que até esqueceu que no co- meço ele tinha medo dela:

Caía, a

sinhora é tão bunita.

A

sinhora não qué sê minha vó de verdade, pra

sempre?

 

Vó Caía não respondeu, apenas o abraçou bem forte, sorriu e chorou um pouquinho, que ele viu. Não disse que sim nem que não. E foi aí que Zé Miri- nha aprendeu que o choro, às vezes, também quer dizer sim.

Z é Mirinha gostava de brincar, mas não tinha muitos brinquedos. Então ele usava a imaginação e construía com as próprias mãos um montão deles.

Com um chuchu e sete palitinhos ele fazia um boizinho perfeito: quatro palitos para as pernas, um para o rabicho, dois para os chifres e pronto, do reino vege- tal, o chuchu passava para o reino animal. Para fazer burrinhos e cavalinhos ele usava mandiocas, que eram mais compridinhas, ou um pedaço de madeira chamada cipó de macaco.

O menino montava sua tropa, transformava-se em tropeiro e brincava horas

outras misturadas. Histórias tristes, alegres, engraçadas e apavorantes. Das apa- vorantes, Zé Mirinha tinha mais medo

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a fio levando seus animais de um cômodo para outro da casa como se estivesse percorrendo longas distâncias. Ele nem desconfiava que quando crescesse mais um pouco iria ser um tropeiro de verdade.

Antigamente não havia muitas estradas nem caminhões, então o transporte dos alimentos, dos objetos, das cartas de amor, e de quase tudo, era feito no lombo dos burros. Vários burrinhos formavam uma tropa e o tropeiro era a pes- soa que a conduzia. Muitas cidades que nós conhecemos hoje foram fundadas por tropeiros nos lugares onde eles paravam para descansar.

Zé Mirinha não sabia de nada disso, mas montar tropinhas já era o seu brinquedo preferido. Quando enjoava, brincava de outras coisas: soltava pião, que ele mesmo fazia esculpindo um pedaço de madeira com o facãozinho do seu pai, jogava peteca com os amigos, que eles faziam com penas de galinha, brincava de pega-pega, esconde-esconde e até soltava pipas quando alguém trazia papel da cidade, e sem preocupação, pois na roça não havia eletricidade e muito menos fio de alta-tensão. Era uma delícia.

Z é Mirinha cresceu mais um pouco e, muito curioso que era, sentiu logo uma vontade de estudar, de aprender mais e mais coisas. Mas se lá onde

ele morava não havia hospital para as crianças nascerem, também não havia escola pra elas estudarem. Ele contou à sua mãe sobre sua vontade, mas ela não lhe deu atenção. Então falou com seu pai, que achou a ideia impossível porque,

para ele, filho homem tinha que ajudar a família nos serviços da roça. Tinha

a fio levando seus animais de um cômodo para outro da casa como se estivesse percorrendo

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sido assim com ele e assim seria para seu filho também.

O menino não se conformou e depois de muito matutar resolveu ir falar com o prefeito da cidade. Saiu sem dizer nada para ninguém, bem de fininho, e foi até a prefeitura. Chegando lá pediu para falar com o prefeito e disse que se tratava de uma coisa muito importante. O prefeito mandou que ele entrasse em seu gabinete, curioso por saber o que de tão importante aquele toco de gente teria para lhe dizer.

Zé Mirinha foi logo ao assunto:

Seu prefeito, eu e meus amigo lá da roça queremo uma iscola pra istudá, o sinhô pode ajudá?

Ele não sabia, mas aquele prefeito era um poço de ignorância e por isso respondeu assim:

Criança que nasce na roça

não

tem

nada que istudá, tem é que ajudá

o

pai

na

lavoura e cuidá das criação. Pode vortá pra sua casa. E além do mais, iscola é coisa

de vagabundo.

Zé Mirinha esperava qualquer resposta menos aquela, e ficou sem saber o que dizer. Saiu da sala triste e cabisbaixo, com muita vontade de chorar. De repente pensou em algo, ergueu a cabeça, engoliu o choro, deu meia volta e retornou para a sala do prefeito que logo o viu e perguntou:

De novo? O que você quer agora menino? Não vê que eu sô um homi muito ocu - pado, que não posso perdê tempo com bobage?

sido assim com ele e assim seria para seu filho também. O menino não se conformou

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Eu só quero preguntá uma coisa pro sinhô, seu prefeito. Diga logo. O que é? Sua fia istuda? É claro que istuda, por quê? Intão ela tamém é aquilo que o sinhô falô?

O prefeito ficou furioso! Foi ficando vermelho, parecia que ia explodir de raiva. Tentou pegar Zé Mirinha pelo braço, mas ele escapou e, pernas pra que te quero, fugiu para um mato que tinha ali perto.

A notícia logo se espalhou pela cidade e quando dona Bertina soube man- dou que o procurassem, pois ele levaria uma surra:

Onde já se viu ofendê assim a fia do prefeito?

Zé Mirinha se escondeu o dia inteiro numa gruta no meio do mato, até que foi encontrado e levado para casa. Sua mãe lhe deu uma grande surra, como avisara. Ele tentava explicar o que tinha acontecido, mas Dona Bertina não ou-

via

Zé Mirinha ficou todo dolorido e por alguns dias muito magoado com sua

... mãe, mas depois acabou entendendo porque ela tinha feito aquilo. Conversan-

do com seus burrinhos, ele explicava:

Ela me bateu purque queria o meu bem, só que ela num sabe que o maió bem que

uma criança pode tê é

a educação. Otra coisa que ela num sabe é que surra mais

— Eu só quero preguntá uma coisa pro sinhô, seu prefeito. — Diga logo. O que

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machuca que educa e que pra corrigi um menino deve havê otro caminho, o caminho da cunversa e do carinho.

Z é Mirinha tentou, mas não conseguiu ir para a escola. Então sua infância foi bem diferente da infância de quem mora na cidade. Todo dia de manhã, em vez de ir estudar, ele ia trabalhar na roça.

Um dia plantava arroz, noutro colhia feijão, tirava leite das vacas, cuidava da criação. Mal sobrava tempo para brincar, mas assim mesmo ele dava um

jeito de se divertir. É que Zé Mirinha não era o único menino que vivia naquele lugar. Havia muitos como ele, e quando se encontravam, como todas as crian- ças do mundo, logo começavam a brincar. O milharal, por exemplo, era um ótimo lugar para o pega-pega e o esconde-esconde. Três ou quatro crianças e a farra estava pronta, brincavam e se divertiam muito até que algum adulto os

chamasse de novo para o trabalho. E se chovia, era uma delícia

Corriam para

... um descampado, giravam e giravam de braços abertos, tomando aquela chuva gostosa, até ficarem tontos e caírem no chão. E então outra brincadeira come- çava, pois chuva e chão de terra transformava-se em guerra, guerra de barro, sim senhor. Depois da brincadeira eles mesmos tinham que lavar suas roupas, mas valia a pena. A diversão era tanta que eles nem se importavam, pelo con- trário, se sentiam felizes como qualquer outra criança.

machuca que educa e que pra corrigi um menino deve havê otro caminho, o caminho da

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erta vez Seu Zequinha chamou Zé Mirinha e, meio preocupado, disse:

  • C Fio, os passarinho tão acabanu com o nosso arrozá, chama os minino pra caçá eles e num dexa iscapá nenhum.

Os meninos da roça adoravam caçar passarinhos. Para eles isso era uma brincadeira. Eles se reuniam, fabricavam seus próprios estilingues, armavam arapucas e usavam até redes para capturá-los.

Zé Mirinha também participava da brincadeira, mas quando ele pegava um passarinho sentia dó, disfarçava e dava um jeitinho de soltá-lo novamente. Só que desta vez era diferente. Os passarinhos estavam atacando o arrozal do seu Zequinha e precisavam ser eliminados. Ainda assim, ele não queria matá -los e passou a noite inteira pensando em uma solução.

De manhã chamou os meninos e explicou que seu pai queria que eles saíssem à caça dos passarinhos que estavam destruindo o arrozal. Os meninos adoraram a ideia, mas Zé Mirinha logo avisou:

Acuntece que eu num quero matá os passarinho. Pur quê?

É que eu fico pensanu numa coisa que a vó Caía disse. Ela disse que passarinho é um bichinho semeadô e que a gente não deve matá eles, pra mor de protegê a mata.

Todos estranharam:

Como assim?

erta vez Seu Zequinha chamou Zé Mirinha e, meio preocupado, disse: C — Fio, os passarinho

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É que os passarinho replanta as árvori que os homi tira da floresta. Se a gente sai por aí matando tudo quanto é passarinho, um dia nois vamo ficá sem floresta e o mundo vai virá um deserto.

Explica mió essa história Zé Mirinha, que nóis num tá intendenu nada.

É que os passarinho gosta de comê sementi de árvori. Depois eles avua um po - quinho e logo logo descome ela. Junto com a bostinha deles sai a sementi de novo, que cai no chão, vira outra árvori e desse jeito a mata nunca acaba, purque se um dia a mata acabá o mundo vira um deserto e se o mundo virá um deserto, vai sê o fim do mundo.

As crianças, como Zé Mirinha, morriam de medo do fim do mundo e ime- diatamente concordaram com ele. Então pensaram numa solução.

Em vez de matar os passarinhos como ordenara Seu Zequinha, eles resolve- ram fazer um espantalho para espantá-los. Cada um trouxe de casa uma peça de roupa velha, camisas, calças e alguns botões pra fazer os olhos. Encheram as rou- pas com palha de milho, costuraram as extremidades, pintaram o nariz e a boca, espetaram o boneco num pedaço de bambu e o fincaram no meio do arrozal. No início o plano deu certo. Os bobinhos viam aquele boneco esquisito de braços abertos, sentiam medo e fugiam. Mas rapidinho perdiam o medo e voltavam, e então os meninos tiveram outra ideia. Como os passarinhos vinham em hora certa eles combinaram de cada um pegar uma panela e um pedaço de pau para fazerem o maior barulho quando eles chegassem. Deu certo. Como eles detes-

— É que os passarinho replanta as árvori que os homi tira da floresta. Se a

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tam baru- lho, fugiam apavorados quando ou- viam o panela- ço dos meninos. Para completar o
tam baru-
lho, fugiam
apavorados
quando ou-
viam o panela-
ço dos meninos.
Para completar o
plano e garantir que o arro-
zal estaria a salvo, eles resolveram colo-
car alguns coxos com quirera ao lado dele para atrair as
aves. Elas comiam a quirera e então desistiam de atacar
o arrozal. O plano foi perfeito. Eles fizeram isso até que
o arroz crescesse um pouco mais e deixas-
se de atrair os passarinhos, porque eles só
gostam do arroz novinho. Seu Zequinha
ficou muito satisfeito com o resultado do
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trabalho dos meni- nos e eles se sentiram orgulhosos por terem feito a coisa certa. Z
trabalho
dos meni-
nos e eles se
sentiram orgulhosos
por terem feito a coisa certa.
Z é Mirinha também adorava ficar perto das pes-
soas mais velhas para ouvir suas histórias. De-
pois, quando ele se reunia com os meninos ele as
recontava, e seus amigos adoravam ouvi-lo.
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Era às tardezinhas que eles se reuniam numa pedra que havia ao lado da casa da família Mira para brincar e ouvir as histórias do Zé Mirinha. Uma das preferidas da garotada era a da coruja e da águia.

Ele contava que a coruja e a águia estavam procurando um lugar seguro para terem seus filhotes. Encontraram-se e começaram a conversar sobre a ex- periência da maternidade que ambas experimentariam em breve. Tornaram-se comadres e fizeram um trato: daquele dia em diante uma não comeria mais os filhotes da outra:

Está bem, disse a Águia, mas como vou reconhecer seus filhotes, dona Co- ruja?

Isso é fácil, respondeu a Coruja. Os meus filhotes são os mais lindos desse mundo, não há como confundi-los. E os seus, dona Águia? Como são?

Eles também são lindos, a senhora vai logo perceber quando encontrá-los.

Despediram-se e um mês depois, já com seus filhotes no ninho, saíram em busca de alimentos.

Quando a Coruja se deparou com um ninho cheio de bichinhos pelados e horrivelmente feios, pensou:

Bem se vê que estes não são os filhos da minha comadre Águia, são muito feios, vou levá-los para os meus filhotes.

Mas chegando ao seu ninho, ela não encontrou nenhum filhote. É que a

Era às tardezinhas que eles se reuniam numa pedra que havia ao lado da casa da

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Águia também havia passado por ali e vendo aqueles “bichinhos horrorosos”, devorou-os com a certeza de que não eram filhos da sua comadre Coruja.

Zé Mirinha contava e recontava a história a seu modo e as crianças sempre ouviam como se fosse pela primeira vez. Foi assim, praticando muito, que ele se transformou no seu Zé Mira, um grande contador de “causos”.

U m dia, Zé Mirinha ganhou um violão do seu amigo Pedro e aprendeu as pri- meiras notas musicais. Mas o violão era muito grande e os seus bracinhos quase não conseguiam segurá-lo. Mesmo assim ele se esforçava para aprender.

Vendo a dificuldade do filho e lembrando-se das palavras da vó Caía no dia em que ele nasceu, dona Bertina resolveu: foi até seu quarto, pegou um por- quinho de cerâmica no qual ela guardava suas economias e jogou - o com toda força no chão. As moedas se espalharam pelo quarto e ela chamou Zé Mirinha para catá-las.

Ele quis saber por que ela tinha feito aquilo, mas ela disse que era uma sur- presa. Dois dias depois apareceu o seu Chico com um embrulho e o entregou à dona Bertina.

Naquela noite ela fez um bolo de fubá, cozinhou canjica e chamou os vizinhos para comemorar. Era o aniversário do Zé Mirinha. Quando estavam todos em volta do fogão à lenha proseando e saboreando a canjica, D. Bertina apareceu com o misterioso pacote e o entregou ao menino, que encabulado, o abriu. Era um cavaquinho bem do seu tamanho e ele quase chorou de alegria.

Águia também havia passado por ali e vendo aqueles “bichinhos horrorosos”, devorou-os com a certeza de

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Imediatamente começou a pontilhar seu novo instrumento, que a partir daquele dia tornou-se seu grande e inseparável amigo.

Foi com esse cavaquinho que Zé Mirinha começou a acompanhar as Folias de Reis. Na época do Natal as pessoas se reuniam formando as Folias e durante todo o mês de dezembro iam de casa em casa cantando e tocando suas violas, violões, cavaquinhos e outros instrumentos em homenagem ao menino Jesus. Quanta alegria ele sentia no meio da Folia, tocando seu cavaquinho e cantando a história dos Reis Magos e do Santo Menininho.

Foi assim que ele se tornou um folião e mais tarde formou sua própria Folia de Reis, a Folia do mestre Zé Mira.

  • M uito cedo Zé Mirinha começou a conduzir tropas. Um dia, um antigo tropeiro da região viu-se de repente sem ajudante e pediu à Dona Bertina

que deixasse seu filho acompanhá-lo até a cidade. Dona Bertina relutou um pouco por considerá-lo muito pequeno para sair sem a companhia dos pais, mas acabou cedendo, tantas eram as garantias que seu compadre lhe dava de que cuidaria bem do menino. Zé Mirinha acompanhou-o em algumas viagens e, muito esperto, procurou aprender tudo sobre condução de tropas. Pouco tempo depois lá estava ele indo sozinho para a cidade conduzindo dois burri- nhos cheios de mercadorias .

Zé Mirinha tinha se tornado um tropeiro de verdade. Levava as coisas da roça para a cidade e voltava com as coisas da cidade para a roça.

Imediatamente começou a pontilhar seu novo instrumento, que a partir daquele dia tornou-se seu grande e

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As encomendas eram muitas: novelo de lã preta para dona Zefina, meio metro de pano xadrez
As encomendas eram muitas: novelo de lã preta
para dona Zefina, meio metro de pano xadrez para
madrinha Benedita, licor de cacau
para o seu Chiquito, óleo de
fígado de bacalhau para
dona Rosinha, açúcar
cristal para dona Ge-
ralda (sinal de que ela
receberia visitas). Tudo
ele guardava na cabe-
ça, porque não sabia es-
crever. E na maioria das
vezes dava tudo certo.
Mas nem sempre. Certa
vez, um burrinho que
conduzia dois latões
cheios de leite tropeçou
num buraco e os latões
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se soltaram, esparramando todo o leite pelo chão. Zé Mirinha ficou muito cha- teado e teve um baita trabalho para tirar a pata do burrinho do buraco. Para recolocar os latões de volta no lombo do animal precisou subir num banquinho que, por sorte, estava na carga do outro burrinho. Depois de tudo resolvido ele ficou pensando no que diria ao dono do leite. Se contasse a verdade ficaria de castigo, ou até apanharia, porque naquela época as crianças apanhavam por qualquer motivo. Como ele não teve culpa do que tinha acontecido, resolveu inventar uma mentirinha. Disse a todo mundo que uma cobra atravessara o seu caminho e que o burrinho, de tão assustado, acabou derrubando o leite no chão. Quem poderia culpar a natureza? Ufa! Todos acreditaram na sua história e Zé Mirinha conseguiu escapar de uma surra.

E m uma dessas viagens, talvez a mais importante de sua vida, Zé Mirinha co- nheceu uma linda menina.

Ele ia para cidade com uma enorme lista de encomendas na cabeça quan- do viu vindo em sua direção, na mesma estrada, uma menina que trazia junto de si um menino pequenino. Ela usava um vestido de chita e um chapéu de palha para proteger-se do sol.

Zé Mirinha diminuiu o ritmo do cavalgar do burrinho para não fazer poeira à menina e quando seus caminhos se cruzaram na estrada olharam-se rapida- mente. Os olhos dela eram tão azuis! Zé Mirinha nunca tinha visto olhos tão lindos. Enrubescidos, ambos baixaram o olhar e alguns passos adiante viraram

se soltaram, esparramando todo o leite pelo chão. Zé Mirinha ficou muito cha- teado e teve

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a cabeça para trás, e quando perceberam que haviam feito a mesma coisa vol- taram-se novamente para frente e aceleraram os passos. Ele sentiu seu coração bater forte mesmo depois de muito tempo da menina ter passado. O que estaria acontecendo?

Quando chegou à venda em que faria as compras das encomendas, a pri- meira coisa que fez foi perguntar se alguém conhecia a tal menina e qual seria o seu nome. Logo lhe disseram que ela era a Nair, filha da dona Aurora, que tinha outras filhas, todas lindas.

Zé Mirinha logo pensou:

Nenhuma há de sê tão linda como ela. É cum ela que eu vô casá.

Ele comprou as encomendas e na hora da entrega foi uma atrapalhação total. Dona Zica havia pedido um metro de pano xadrez, ele levou listrado, seu Geraldo que havia pedido um vidro de óleo de fígado de bacalhau recebeu um quilo de sardinha, dona Maricota não soube o que fazer com o carretel de linha azul marinho que ele trouxe, pois ela precisava de um vermelho. Quanta confusão!

O que aconteceu, Zé Mirinha? O sór cozinhô seus miolo?

Estavam preocupados, pois ele nunca errava nas encomendas. Ele pediu desculpas, prometeu desfazer os enganos no dia seguinte e concordou que a culpa de tudo poderia ter sido mesmo do sol. Mas, cá entre nós, o sol estava inocente nessa história. Ele não teve culpa

a cabeça para trás, e quando perceberam que haviam feito a mesma coisa vol- taram-se novamente

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nenhuma. Miolos cozidos? Que nada! Zé Mirinha estava apaixonado.

E o tempo foi passando, Zé Mirinha foi crescendo, crescendo, ficou adulto, ca- sou-se com a menina dos olhos azuis, mudou-se para a cidade de Jambeiro

e depois para São José dos Campos. Teve muitos filhos e fez com que todos eles estudassem, cumprindo a promessa que fizera quando levou uma surra da mãe por ter ido falar com o prefeito. Naquele dia ele disse baixinho ao burrinho de brinquedo:

Fio meu há de istudá, mesmo que eu precise daqui me mudá.

E assim aconteceu. Uns fizeram faculdade, outros não, mas todos apren- deram a ler e a escrever.

Zé Mirinha viveu até os oitenta e três anos. Como não teve escola para es- tudar como tanto queria, elegeu para si uma professora particular.

Muito esperta e charmosa, ela esperava o menino na porta de sua casa logo de manhã quando ele saía para trabalhar e lhe dava as primeiras lições do dia. Todos os dias.

Sem livros nem cadernos, a professora ia lhe soprando as lições ao ouvido. Ele prestava muita atenção a tudo o que a professora lhe mostrava: as plantas, os animais, as pessoas mais velhas, as crianças, o sol, a lua, as estrelas, as nuvens, os rios, os pássaros, as minhocas, o cocô das vacas, tudo era motivo de lição.

Por ter sido um aluno muito aplicado, depois de tanto aprender, um dia sua professora lhe concedeu um diploma com os seguintes dizeres:

nenhuma. Miolos cozidos? Que nada! Zé Mirinha estava apaixonado. E o tempo foi passando, Zé Mirinha

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Concedo ao meu aluno Zé Mirinha o diploma de Mestre por seu excelente desempenho na minha
Concedo ao meu aluno Zé Mirinha o diploma de
Mestre por seu excelente desempenho na minha escola.
Assinado,
Professora dona Vida

O menino crescido passou então a vida toda ensinando às pessoas o que a dona Vida lhe ensinara e foi assim que ele começou a ser chamado de Mestre Zé Mira.

Já idoso, Mestre Zé Mira passou muito tempo visitando escolas e compar- tilhando com as crianças o que havia aprendido durante sua vida. Conversava, tocava viola e dava seus conselhos. E um deles era este:

Ocêis criança, têm duas mãe, uma em

casa

e

otra

na

iscola. A mãe da iscola,

que

é

a

professora, tem que sê amada e respeitada como a mãe de casa. Uma dá

pra ocêis agasalho e alimento, a otra, conhecimento, e nóis não vive sem esses

elemento.

 
FIM 37
FIM
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ITAMARA MOURA é escritora, autora do livro de contos “Lá em cima do piano tem um copo de veneno” e

leva a vida dedicada às delícias da arte de ler e escrever. Fundadora do Núcleo de estudos literários Catar Feijão, coordena projetos de incentivo à leitura e ministra ofici-

nas de escrita criativa em São José Campos – SP, cidade

onde nasceu e vive até hoje. Em “Contos e Causos do Zé Mirinha” ela aproveita para contar mais uma deliciosa história, desta vez inspirada na vida de menino do Mes- tre Zé Mira.

ITAMARA MOURA é escritora, autora do livro de contos “Lá em cima do piano tem um

JOÃO FRANCISCO PAES é artista plástico e mú- sico. Natural de Guaratinguetá – SP, vive em Curitiba há

mais de sete anos e passa os dias criando bonecos, ce- nários, animações, vídeo clipes e músicas. A pedido da autora, usou suas cores e traços para ilustrar os “Contos e Causos do Zé Mirinha” e está na torcida para que mui- tas outras aventuras sejam compartilhadas.

A VIAGEM Numa dessas manhãs de outubro na cidade de Cristina nascia um tal José Mira
A VIAGEM
Numa dessas manhãs de outubro
na cidade de Cristina
nascia um tal José Mira
filho de um outro Zé Mira
e de dona
Albertina.
As crianças davam viva às criações
que naquelas terras chegavam.
Então chega José Mira que
do seu cavalo apeava,
sua mulher o abraça fortemente e
incessantemente o beijava.
Viveu lá sua meninice,
fez traquinagem e tolice
mas cumpriu a sua sina.
Quando fez-se homem
do saber sentiu a fome
e foi-se embora de Cristina.
Enquanto o gado solto
na invernada pastava,
sua tropa no piquete
lá no sítio descansava.
E os amigos e parentes
José Mira rodeavam.
Pegou as trilhas do caminho
como faziam os tropeiros,
soltou seu gado nas trilhas,
carregou bem os cargueiros
e depois de uns trinta dias
foi que chegou em Jambeiro.
Ele contava com proeza
tudo que com ele
naquela viagem se passara.
E depois de tudo contado
tudo estava sossegado.
E numa dessas tardes gostosas,
enquanto o sol se punha
na janela lá do sítio,
seu pai de pensar, roía as unhas.
Num casebre simplesinho
sua mulher o esperava
seus irmãos pequeninos
ali no terreiro brincavam.
Eis que na curva do caminho
surge a primeira rês cujo nome era Barrosa.
José Mira plantou ali sua bandeira,
como todo migrante faz
e naquele momento esqueceu
que seu coração
ficou plantado no chão
da grande Minas Gerais.
Luiz Carlos de Mira,
filho mais velho de Zé Mira

Fontes: Frazzle, Amatic SC, Optima, Yanone Kaffeesatz, Dream Orphans Papel: Couchê 150g Impressão: Comunicare Tiragem: 4.000 exemplares Curitiba, abril de 2014

Contos e Causos do Zé Mirinha foi inspirado na vida de menino do Mestre Zé Mira
Contos e Causos do Zé Mirinha foi inspirado na vida de
menino do Mestre Zé Mira e apresenta momentos marcantes
de sua trajetória no mundo rural valeparaibano. José
Mira foi um dos últimos representantes do tropeirismo
no Vale do Paraíba e sua atuação como agente cultural,
tocador de viola e mestre de folia de reis tornou-o
símbolo de nossa cultura popular. Com prosa poética
e delicada, Contos e Causos do Zé Mirinha nos remete a
um imaginário genuinamente brasileiro encantando
adultos e crianças com todas as cores e sabores das
histórias bem contadas.