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André Mansim

André Mansim Nada é realmente o que parece ser 1ª Edição

Nada é realmente o que parece ser

1ª Edição

André Mansim Nada é realmente o que parece ser 1ª Edição

Supervisão:

Kaloã Tuckmantel Habermann

Diagramação:

Habermann Editora

Capa:

Fábio Ghedini de Martini e-mail: faghed@gmail.com

Revisão:

Virginia Maria Tavanielli Bertão Habermann

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação

M286

Mansim, André. Você vai saber por quê : nada é realmente o que parece ser. - 1. ed. Leme: Habermann Editora, 2013. 360 p.

ISBN: 978-85-89206-46-4

1. Romance – Brasil. 2. Romance policial. I. Título.

CDD – 869.3

Proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio ou proces- so, especialmente por sistemas gráficos, microfílmicos, reprográficos, fotográficos, fonográfico, videográfico.

Vedada a memorização e/ou a recuperação total ou parcial, bem como a inclusão de qualquer parte desta obra em qualquer sistema de proces- samento de dados. Essas proibições aplicam-se também às características gráficas da obra e à sua editoração. A violação dos direitos autorais é punível como crime (art. 184 e parágrafo do Código Penal) com pena de prisão e multa busca e apreensão e indenizações diversas (arts. 101 à 110 da Lei 9.610, de 19.02.1998, Lei dos Direitos Autorais).

Conselho editorial

Natália Quatel - Juliana Montagner Augusto do Nascimento - Raíra Tuck- mantel Habermann - Virginia Maria Tavanielli Bertão Habermann - Cláudio Habermann Junior - Rosangela Helena Tuckmantel Habermann - Kaloã Tuckmantel Habermann.

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS À

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS À Habermann Editora Rua: Neida Zencker Leme nº 480 - Cidade Jardim

Habermann Editora Rua: Neida Zencker Leme nº 480 - Cidade Jardim Tel: (19) 3571.5975 - CEP: 13614-240 Leme - SP

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E-mail

habermanneditora@hotmail.com

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Prefácio

Você vai saber por quê é o primeiro livro do escritor André Mansim. Trata-se de um romance policial tragicômico, que segue à risca as características dos clássicos do gênero como medo, mistério,

surpresa, curiosidade, emoção, ação e, sobretudo, muita investigação.

O autor é graduado em História e Geografia, dois elementos bá-

sicos na constituição de qualquer enredo. Professor dessas disciplinas

(ainda que esporádico), o que o tornou um exímio contador de história (algo cada dia mais raro). É um autor prolífero: escreve com grande facilidade e maestria crônica, conto, ensaio, artigo sobre qualquer tema e até poema e publica no blog “Verdades e Bobagens”, que é muito acessado e popular no mundo virtual.

O romance é constituído com uma linguagem acessiva, no en-

tanto, formal. O narrador é extradiegético, mas, muitas vezes, sua voz se aproxima sobremaneira da dos personagens. Às vezes, o narrador onisciente não nos revela tudo que se passa na ação descrita, mas o faz no fim do capítulo. A descrição das cenas é simultânea, como as de um filme, o que nos causa mais emoção. Os protagonistas são Alberto

e Teixeira, dois detetives incrivelmente diferentes, porém formam uma

dupla imbatível e implacável contra o crime. Alberto é culto, prudente,

educado, racional, enfim, apolíneo; enquanto Teixeira é despojado, extrovertido, malcriado, inoportuno, timocêntrico, enfim, dionisíaco, mas intimorato e inteligente. A história se desenvolve entorno de um crime bárbaro contra uma mulher, Laura Soares, cujo motivo é ignoto,

e a explicação, hermética, algo que requer muita aptidão e experiência

detetivescas dos dois heróis Alberto e Teixeira. Você vai saber por quê é um livro que conta uma história que, ao começarmos a lê-la, não queremos mais parar por nos surpreender do princípio ao fim. Faz o leitor se emocionar, rir, e se for sentimental, chorar. Tem-se a impressão de que Ed Mort, Hercule Poirot, Sherlock Holmes, enfim, ninguém, senão a dupla, Alberto e Teixeira, é capaz de solucionar um crime tão intricado e tão bem planejado quanto esse. Com eles, não há crime perfeito nem sem solução. E o escritor André Luis Menezes Mansim está apenas estreando no gênero. Certamente já

está escrevendo o próximo romance.

Bento Sales Prof. de Literatura e Língua Portuguesa.

Índice

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Epílogo

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Você vai saber por quê

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- Infelizmente o TOC prega essas peças com a gente: ele te aprisiona

e entra na sua cabeça de tal maneira que você não consegue se desvencilhar.

Algumas pessoas voltam dez, vinte, trinta vezes até a porta à noite pra verificar se a trancaram direito; outras pessoas arrumam um quadro na parede a vida toda sempre achando que ele está torto; outras pessoas não andam sobre rachaduras no cimento e nem pisam no rejunte entre os pisos. Existem mil maneiras diferentes de TOC, e como você pode ver o próprio nome já diz tudo:

Transtorno obsessivo-compulsivo. Eu tenho o distúrbio do “detetivismo”. Não posso encasquetar com algum mistério que acabo indo até o final pra descobrir. Se eu perceber que alguém está escondendo alguma coisa de mim, algum segredo ou se eu notar alguma atitude suspeita, não vou sossegar até que consiga descobrir. Infelizmente sou assim. Tenho certeza de que alguém armou pra mim. Alguém que me conhece bem. Alguém que sabe da minha doença e quer me ferrar. Enquanto Fausto falava, Teixeira e Alberto, dois investigadores expe- rientes em casos complicados, continuavam mudos, apenas esperando a conclusão da história. Apesar de ela parecer muito convincente, era preciso muita cautela, pois nos vários anos investigando e interrogando criminosos, os dois viram muitos bandidos com atuações dignas de Oscar. Fausto dava sinais de nervosismo, tremendo e gaguejando em algumas palavras, dava a impressão que sua alma estava realmente indignada com a situação em que se meteu. Olhando para os investigadores como se procurasse um olhar de

aprovação, Fausto continuou:

-Faz mais de um mês que tenho recebido e-mails. A pessoa que manda se identificar apenas como “justiceiro.ama@”. Nesses e-mails, não vem escrito

nada, a não ser a frase: você vai saber por quê. Semana passada, eu já estava na cama quando, de madrugada, o telefone tocou. Eu sempre me assusto quando

o telefone toca de madrugada, porque nunca é um bom sinal. Então, atendi

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André Mansim

aflitamente e uma voz metalizada e sussurrante falou: “Você vai saber por

quê”! O safado falou isso e desligou. E na noite seguinte, ligou de novo falando

a mesma coisa e desligando. Na outra e na outra e na seguinte noite, o fato se

repetiu igualzinho, até que parou quinta-feira passada. Na noite de quinta-feira, alguém tocou a campainha de casa às quatro da manhã. Levantei da cama e fui atender. Quando cheguei ao portão, não tinha mais ninguém, mas tinha uma carta dessas escritas com palavras recortadas de revistas e jornais. A pessoa

deixou-a sobre um vaso que tenho bem na entrada da casa. Na carta, estava escrito de novo: “Você vai saber por quê” e um endereço: Rua João Alcides Bartolomeu nº 1130. - Fausto coçou a cabeça, respirou profundamente e após um silêncio que pareceu durar minutos continuou: - Vocês sabem o que isso

significa pra alguém que tem a minha doença? Desde o primeiro telefonema, que eu não dormia mais. Ficava todas as noites esperando o telefone tocar. Quando a campainha tocou na madrugada de quinta, eu sabia do perigo que corria saindo pra atender, mas fui desesperadamente. A compulsão é muito

forte!

Os dois investigadores se entreolharam e atentamente voltaram a encarar Fausto que continuou:

- Eu fiquei com essa carta o dia inteiro debaixo do braço. Não conseguia fazer nada: não conseguia me concentrar, não conseguia desviar o pensamento; briguei demais comigo mesmo. Até que não me contive, peguei meu carro e fui ao tal endereço. Coloquei o destinatário no GPS e pra minha surpresa, ele era no mesmo bairro onde eu fui criado. Cheguei até a porta da casa e voltei para a calçada. A casa não tem muros e nem portão, ela é do estilo que vemos em filmes americanos, com um jardim na frente e um caminho que

leva até a porta principal. Eu rodeei a casa por fora até que encontrei um vitrô entreaberto. Dei uma forçadinha e coloquei a cabeça pra dentro. Quando ia entrar, escutei o barulho de um carro parando e de portas abrindo. Então, eu voltei abaixado, quase rastejando, até a frente da casa pra ver quem morava ali, mas, quando cheguei até a calçada novamente, a pessoa já tinha entrado. Eu estava aflito. Essa doença que tenho me corrói por dentro, eu luto muito contra ela. Na hora, pensei em bater palmas e chamar o dono da casa, porém,

o que diria a ele? Como explicaria a minha ida até ali? Então, entrei no meu carro saí vagarosamente.

Você vai saber por quê

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Durante o depoimento de Fausto, Teixeira escrevia palavras e fazia rabiscos em uma caderneta, enquanto Alberto, munido de um gravador,

registrava tudo. Fausto levantou-se da cadeira, deu uma meia volta pela sala e, num suspiro, continuou, agora com os olhos marejados de lágrimas.

- Eu sei que pra vocês é difícil de entender esse estado de desequilíbrio em que eu estava, mas procurem no Google por “transtorno obsessivo- compulsivo, síndrome do detetivismo”. Vocês vão ver que é uma coisa insuportável e que realmente a gente sai do controle. Teixeira, que anotava tudo na caderneta escreveu: “procurar no Google”

e circundou várias vezes. Fausto deu mais uma andada pela sala e demonstrando um nervosismo excessivo, continuou mais uma vez:

- Eu entrei no carro para ir embora e quando já estava virando a

esquina, vi pelo retrovisor uma pessoa sair correndo da casa em questão.

Então parei o carro fiquei olhando. Eu reparei quando essa pessoa jogou

um objeto na rua e continuou correndo desesperadamente. Encostei o carro

e voltei correndo a pé pra ver o que tinha acontecido, vi que o objeto que

a pessoa havia jogado era uma peça de roupa íntima de mulher cheia de

sangue. Eu, estupidamente, peguei a peça e entrei pela casa que estava com

a porta apenas encostada. Foi quando eu me deparei com a cena.

O investigador Alberto fez um sinal com a mão para que Fausto desse

um tempo e perguntou:

- O senhor quer me dizer que voltou correndo, pegou uma roupa que

estava cheia de sangue no chão e que entrou na casa? E nem pensou que poderia estar se metendo em alguma enrascada?

- Não, na hora nem pensei e nem fiquei com medo de me meter em

nada! Respondeu Fausto esbravejando e batendo na mesa.

- Opa! Calma, aí, senhor Fausto! Replicou Teixeira. - O senhor não

está na sua casa, não, aqui tem que ficar pianinho, senão a borracha come no lombo.

O suspeito levantou os braços se desculpando e tentando se conter,

continuou:

- Realmente eu sei que cometi erros infantis, mas como disse, eu estava fora de controle. Minha doença não me deixa pensar às vezes.

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André Mansim

- Tá bom, então - falou Teixeira. - Continue a sua história!

- Eu entrei pela casa - falou Fausto arregalando os olhos e olhando para

o chão como se visse um fantasma -, ela estava cheia de sangue nas paredes e

nos corredores. O sangue fazia uma trilha que eu segui até o quarto da vítima. Quando olhei, eu me deparei com uma mulher em cima da cama, tremendo como se estivesse tendo convulsões. Foi, então, que percebi que ela estava perdendo muito sangue e que estava com a temperatura corporal caindo

bruscamente; tentei enrolá-la num cobertor e estancar o sangue. Tentei ligar para os bombeiros ou para a ambulância, mas meu celular não funcionou, pois devia estar com a bateria fraca ou sem carga. Foi aí que acabei entrando em pânico. Eu vi um telefone no criado-mudo, mas estava tão nervoso que não

consegui ligar. O cheiro forte de sangue entrava em minhas narinas e enjoava meu estômago, minha cabeça começou a rodar! Não sei quem chamou vocês

e nem sei como vocês chegaram até lá, contudo, na hora em que dei por mim e

voltei do estado de pânico, vocês já estavam me algemando e me trazendo pra

cá. Eu sei que essa história é difícil de engolir e que eu sou o suspeito número

um de ter matado essa moça

um flagrante, porém eu peço que chequem as informações que lhes dei e que

acreditem em mim. Eu sou inocente! Não conhecia essa Laura. Nunca a tinha visto antes. Armaram essa pra mim.

- Quero saber só mais uma coisa – perguntou Alberto insistindo no

assunto para tentar confundir Fausto – você tem idéia de quem chamou a

televisão e os repórteres de jornal que chegaram ao local do crime juntos com

a gente?

Fausto abaixou a cabeça e deixou correr uma lágrima pelo rosto. Era como a lágrima de uma criança quando toma bronca do pai.

- Vocês ouviram tudo o que eu disse? Eu não sei de nada! Não sei como

vocês foram chamados, não sei quem matou a moça, não sei de imprensa, de

rádio, de televisão

a quem possa pedir ajuda. Descubram quem fez isso comigo e me salvem. Meu

futuro depende de vocês. Inclusive eu acho que vocês devam me transferir daqui. Essa imprensa vai ficar em cima e não vai deixar vocês investigarem. Mandem-me pra um centro de detenção provisória. Aqui perto tem o CDP João Gusmão, me mandem pra lá! Mas, se eu ficar aqui, na delegacia, acho que corro

Por favor, me ajudem porque eu não tenho mais ninguém

Laura? Sei também que vocês consideraram

Você vai saber por quê

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risco de vida. Ajudem-me, por favor! Eu até abro mão de ter um advogado porque confio que vocês vão me ajudar e irão esclarecer toda essa história.

2

Teixeira e Alberto anotaram e gravaram tudo o que Fausto havia dito e saíram da sala de interrogatório, deixando-o ali sentado com uma das mãos algemadas numa argola de ferro soldada no canto da mesa. Os dois foram até ao refeitório e se serviram de um cafezinho preto. O silêncio dos amigos até incomodava. Suas cabeças estavam confusas num turbilhão de ideias malucas que afligiam suas almas naquele momento. Nunca eles se viram tão tocados por um interrogatório como agora. O suspeito havia discorrido sobre uma trama digna de roteiro de novela. Agora restava aos investigadores pensar um pouco sobre os prós e os contras de encarar mais essa investigação que prometia ser complicada. Alberto adoçou seu café, tomou-o de uma golada só, depois, como sempre fazia, pegou um cigarro do maço em seu bolso, bateu com o dedo indicador do lado do filtro e acendeu-o, para, em seguida, soltar um cone de fumaça em forma de espiral. Apreciando o gosto da nicotina, olhou para seu parceiro e teve toda a certeza do mundo de que, mesmo que o amigo não acreditasse em nada que ouviu, toparia tudo o que ele resolvesse fazer. Teixeira era um investigador considerado pelos amigos como casca grossa, nunca fugia das adversidades, por isso, em duas vezes foi baleado na troca de tiros com bandidos. Uma bala na coxa e outra que se alojou do lado de seu pulmão esquerdo rendendo-lhe uma semana de coma induzido e quatro meses de férias forçadas. Todos no departamento de polícia amavam ou odiavam esse cidadão filho de nordestinos, que à custa de muito trabalho braçal de seu Zé Teixeira nos canteiros de obras da cidade de São Paulo, acabou criando seus onze filhos muito bem. Nenhum deles virou “dotô” como falava seu Zé, mas todos conseguiram estudar a ponto de alguns fazerem cursos técnicos e especializações em várias áreas. Teixeira foi o único filho que seguiu pelo caminho de ser um agente policial. Alto, magro, forte feito

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um touro, moreno cor de bugre, cabelo liso como se tivesse feito escova; ele era facilmente confundido com um índio. Esses traços, ele herdara de sua bisavó, que dizem, “foi pega a laço”, mas como ele mesmo dizia, referindo- se a essa história familiar: “quem não tem nesse país um parente que não tenha sido apanhado a laço”. Teixeira era sempre o centro das atenções: onde quer que estivesse, um pouco disso se dava pelo seu bom humor contagiante

e ácido; sempre com uma piadinha irônica ou até uma chateaçãozinha para

cutucar o ego de alguém. Outra coisa que chamava atenção em Teixeira eram suas roupas superextravagantes. Sempre com camisas coloridas dessas com estampas havaianas e calças de cores diferentes; raramente ele usava um jeans normal igual a todo mundo e se usava alguma calça jeans, era daquelas cheias de bolsos e zíperes. Seu vocabulário era pobre e cheio de palavrões, por isso era notado em todo momento, inclusive por seu chefe, o delegado Abdala, que vivia lhe dando broncas. Mas era disso que ele gostava. Era do perigo de seu serviço e da alegria de poder ajudar alguém, por essa razão, ele havia escolhido ser policial. Para sua sorte, desde que entrou para a polícia há mais de uma déca- da, Teixeira foi escalado pra trabalhar com Alberto que era o contrário dele

em tudo. Branco feito leite, alto, grande e forte, Alberto tinha a educação de um “príncipe inglês”. Suas roupas eram impecavelmente passadas por dona Carminha sua mãe, que, às vezes, fazia-lhe ir trabalhar de terno ou de blazer, logicamente tudo combinando com a camisa, que, geralmente era de algodão

e a gravata que ajustada à gola da camisa davam a Alberto a aparência de um

personagem saído de um filme de mafiosos italianos. Realmente eles casaram

tão bem como café com leite ou feijão com arroz e, apesar dessas diferenças brutais, foi justamente nelas que os dois encontraram forças para serem os investigadores mais bem sucedidos de todo departamento policial da cidade. Isso, às vezes, dava orgulho aos amigos, mas também causava uma pitada de inveja em ver como esses dois conseguiam ser tão bons no que faziam.

- Cacete! E agora, Alberto? Indagou Teixeira quebrando o silêncio.

- Teixeira, eu nem sei o que penso. Parece que esse cara aí tá falando a verdade, mas essa história dele é maluca demais.

- E que bosta nós vamos dar de relatório agora pro delegado? Vamos falar que acreditamos no papai Noel e no coelhinho da Páscoa?

Você vai saber por quê

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- E vamos fazer o que, então? Mandar o cara pra cadeia sem a chance

de uma investigação? Acho que, pelo menos, temos que checar as coisas que

o cara falou.

- Ai, ai, ai, ai, lá vem a Madre Tereza de novo querendo me ferrar! Toda

vez é a mesma coisa! Você fica com dó das pessoas e a gente só arruma sarna pra se coçar. Pra ajudar, não aparece um, mas pra botar no meu butão, tá cheio!

Alberto conhecia bem Teixeira. Os dois eram parceiros há mais de dez anos e Alberto sabia que, por debaixo dessa boca suja e dessa casca grossa, havia um coração de manteiga. Sempre era assim, Alberto, que sempre funcionava movido à razão: na maioria das vezes, jogava no ar o que deveria ser feito enquanto Teixeira, depois de esbravejar e falar uns palavrões, acabava aceitando o desafio.

*****

- Dá licença doutor - falou Teixeira batendo à porta.

- Podem entrar! - Respondeu Dr. Abdala estendendo as mãos e apon-

tando para as cadeiras à sua frente convidando-os para sentar.

- Dr., a história do rapaz ali é muito louca - falou Alberto resignado - ou ele é mais um daqueles grandes atores ou ele caiu numa cilada digna de um

roteiro de suspense de Hollywood. Tá difícil de “engolir” o que ele falou.

Mais um daqueles casos malucos que só a “dupla dinâmica” aí é

que vai poder resolver? - Falou o delegado com um sorriso sarcástico no canto dos lábios.

- Eu não sei não, doutor, o senhor sabe que eu e o Alberto não corremos

da briga e que já botamos muitos safados pra ver o “sol nascer quadrado”, mas, dessa vez, o caso vai merecer uma investigação mais detalhada. Nós achamos

que o cara pode não ser o culpado e que realmente armaram pra ele. - Ah, tá! - Grunhiu o delegado esbravejando. - E como eu vou falar pra imprensa que já noticiou esse caso como sendo “o caso do monstro do Butantã”, que o principal suspeito é inocente? A imprensa já mostrou a cara do sujeito saindo de dentro da casa da vítima coberto de sangue, já soltou na internet fotos da moça ensanguentada e cheia de facadas pelo corpo. O que

- Hum

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André Mansim

vocês querem que eu faça? Como vou explicar que alguém que é encontrado

desmaiado em cima do cadáver na cena do crime, e que além dessa pessoa, não existe indício nenhum de que outrem estivera ali, que, na casa da vítima, existem impressões digitais dele por todo lado, é inocente? Vocês querem me ferrar? O que eu vou falar pra imprensa? Minha cara vai sair no jornal da Globo, da Record, do SBT e todo mundo vai me chamar de maluco!

- Nós entendemos a sua posição, Dr. - Falou Alberto fazendo cara de

piedade. - Mas nós queremos que o réu espere um pouco para ser julgado até que a gente investigue umas informações.

- Investigar informações? Mas qual é essa informação que vai salvar a pele desse cara?

- Por favor, doutor Abdala! – Falou Teixeira engolindo um palavrão. - É que ele tem uma história convincente e a gente, como policial, tem a obrigação de investigar. O senhor não acha? E aquela coisa de que “todo mundo é inocente até que se prove o contrário”, será que não vale pra ele?

- Tudo bem, seus porras! - Gritou Dr. Abdala. – Mas ele vai esperar o

julgamento dentro de uma grade de penitenciária, aqui, na minha cadeia, eu não o quero nem mais um minuto.

- Mas não seria melhor mandá-lo para um CDP?

- Centro de detenção provisória? Pra que alguém da imprensa descu-

bra e queira levantar o por quê dele estar ali e não numa jaula de verdade?

- Mas todos os detentos que esperam julgamento vão para algum CDP.

Tentou argumentar Teixeira.

- Eu sei, Teixeira, mas nesse caso específico, em que alguém chamou a

imprensa antes da polícia e eles caíram feito urubus na carniça, não sei se esse

é

o melhor caminho. Apesar de quê

– Falou o delegado coçando o cavanhaque

e

repensando a situação - Se a gente for ver o lado do cara e os direitos que ele

tem, até que vocês têm razão. É melhor mandá-lo mesmo para um centro de detenção provisória.

- Então, - falou Teixeira – manda ele pro João Gusmão!

- Boa ideia! – Falou o delegado pensativo - vou mandá-lo aos cuidados

do Dr. Seixas, que é o diretor da penitenciária João Gusmão, que tem a ala da penitenciária pesada e a ala do CDP. Ele me deve uns favorzinhos e eu vou falar

com ele pessoalmente pra que tome conta desse suspeito com muito carinho.

Você vai saber por quê

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Os investigadores se entreolharam satisfeitos e voltaram-se para o delegado que esperava pra ver se tinha mais alguma bomba.

- Obrigado doutor! Falou Alberto. – A gente se sente muito honrado

pelo senhor confiar assim na gente. Ficamos devendo esse favorzinho pro senhor também. - Tudo bem, seus malucos, então, antes que eu me arrependa dessa burrice que fiz, vocês sumam da minha sala e não me encham mais o saco pô!

Alberto e Teixeira voltaram até a sala de interrogatório. Ao entrar, Teixei- ra parou bem de frente a Fausto, colocou as mãos na cintura e depois de um suspiro falou:

- Olha aqui, seu filho da puta, esse maluco do meu parceiro me conven-

ceu a investigar o seu caso! A gente acabou de levar uma bronca do delegado que já queria te mandar pra julgamento. Então, meu amigo, eu quero que você olhe dentro dos meus olhos e me diga se essa história sua é verdadeira mesmo, porque se não for, eu vou te moer no pau antes de te mandar pra gaiola! - Eu juro que a história é verdadeira. Falou Fausto, olhando para Teixeira com os olhos cheios de lágrimas. - Comecem procurando pela minha doença no Google e depois mandem um especialista em computador exami- nar os e-mails que recebi. Um hacker chegaria rapidamente a quem me enviou esses e-mails. Ele poderia checar a conta de onde esses e-mails saíram e assim chegar ao endereço do remetente.

- Porque um hacker? A gente tem especialistas nessas coisas que

trabalham na polícia. – Falou Teixeira fazendo cara feia para o suspeito.

Mas vocês sabem que devido a intromissão da imprensa, todo

mundo já me julgou! – Falou Fausto olhando profunda e tristemente para os investigadores. – Por isso eu sei que se vocês forem investigar esses e-mails da forma legal, seus próprios companheiros vão questioná-los e dizer que vocês querem é aparecer - Pérai meu amigo! – Falou Teixeira mais uma vez grosseiramente. - Não precisa querer ensinar a gente trabalhar também, né? A gente vai começar por onde a gente achar que deve começar, e vai colocar na investigação quem a gente achar que deve colocar! – Depois, virando-se para seu parceiro, Teixeira disse sem paciência. – Alberto, explica aí pra esse cara o que vai acontecer com ele de agora até acabar a investigação, que só de olhar pra cara dele, já me dá

- Eu sei

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André Mansim

vontade de mudar de ideia. - Você vai pra uma penitenciária esperar o julgamento. - Começou a explicar Alberto olhando fixamente para a cara assustada de Fausto. - O delegado já queria mandar o seu processo pra promotoria abrir seu caso, mas nós conseguimos que ele esperasse um pouco até a gente apurar essas coisas que você nos falou. Ele concordou em esperar pra tocar a coisas adiante, mas não quer você preso aqui na cadeia, então, você vai ser transferido.

3

Às três da tarde, uma viatura estacionou na porta da delegacia para levar Fausto para a penitenciária João Gusmão.

A forma animalesca e doentia que Laura Soares foi assassinada ganhou

espaço na mídia. As TVs, jornais e revistas não se sabe por que, estavam no local no momento em que os investigadores prendiam em flagrante o único suspeito

do assassinato. Esses meios de comunicação tiveram acesso ao interior da casa da vítima, mostrando imagens da cena macabra, em reportagens e programas sensacionalistas que vivem de mostrar a desgraça das pessoas, dizendo que isso é a realidade da vida.

O assassino além de estuprar e matar Laura Soares com pelo menos

nove facadas, friamente usou o sangue da vítima como tinta para escrever nas quatro paredes de seu quarto a frase: “Você vai saber por quê”. A imprensa chamou Fausto de “o monstro do Butantã” e pintou-lhe na mídia como um demônio dos tempos modernos. Por esse motivo, várias pessoas e alguns órgãos da imprensa estavam na porta da delegacia esperando a saída de Fausto para sua transferência. Algumas pessoas xingavam, outras cuspiam, outras tinham que ser controladas pela polícia, pois queriam linchá-lo. A imprensa noticiava tudo com suas câmeras e flashes disparando a todo momento. Depois de algum sufoco e empurra-empurra, os policiais conseguiram

passar pelos jornalistas e populares para colocar Fausto dentro da viatura e

Você vai saber por quê

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sair com a sirene ligada em direção à penitenciária. Teixeira e Alberto olhavam todo o tumulto da porta da delegacia. A

investigação seguia em sigilo total e a imprensa tinha apenas a informação de que Fausto estava preso e sendo conduzido a uma cela. Se eles soubessem que os investigadores suspeitavam que o réu fosse inocente, “a casa poderia cair” para o lado deles e a imprensa poderia chamá-los de loucos ou acusá-los de cumplicidade com o crime.

- Tá vendo que merda você arrumou pra gente? Falou Teixeira olhando Alberto de cima abaixo.

- Estou, meu amigo, mas você sabe bem que a gente não iria conseguir dormir direito se a gente não checasse tudo.

- Eu não iria dormir direito? Cê tá maluco mesmo, né? Acho que você tá ficando velho e frouxo!

- Velho, eu tô mesmo, mas frouxo, não, é que meu coração é bonzinho!

Sorriu Alberto soltando fumaça de um cigarro que acabara de acender depois de cumprir seu ritual de fumante. – Olha, acho melhor a gente começar a trabalhar, porque o delegado não vai dar tanto tempo assim pra gente se eu conheço bem a paciência dele, não vai mais do que uns quinze dias.

- Tá bom! Falou Teixeira abanando a fumaça que saía do cigarro do

amigo e fazendo cara de nojo. - E por onde a gente começa a procurar? Alberto coçou a cabeça, deu mais tragada no cigarro, e falou com olhar

pensativo. - Acho que a parte que o Fausto nos falou de colocar um hacker na investigação faz sentido, você não acha?

- Sabe que eu também estava pensando nisso? Acho que o povo aqui vai

cair de pau na gente se souber que a gente vai investigar esse caso

- Então vamos fazer assim: Eu vou dar uma pesquisada na Internet

sobre a doença que o Fausto falou que tem, porque eu nunca ouvi falar nisso antes, e você vai até a casa dele pegar seu computador e levar para o Maicon, aquele hacker que a gente indiciou ano passado, pra ele dar uma checada nos e-mails e ver se descobre de onde eles foram enviados.

- Beleza, mas você sabe que encontrar endereços de verdade por e-mails

é quase impossível, né? Mesmo pro Maicon, que é um puta dum hacker do cacete e vive dando trabalho pra gente.

- Nossa, Teixeira, para de reclamar e falar palavrão e vê se anda logo, pô!

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André Mansim

Vai, vai, vai, vai! Falou Alberto fazendo um gesto de mandar Teixeira embora.

- E, por favor, faça as coisas direito!

***** Depois de duas horas e quarenta minutos, a viatura chegou ao com- plexo penitenciário João Gusmão. Logo na chegada, um policial pediu para que Fausto tirasse suas roupas e colocasse todos os seus pertences numa sacola de papel. Depois, deu a Fausto uma camiseta branca e uma calça amarela de tecido grosseiro, ambas escritas em azul com letras feitas à mão onde se lia: “Penitenciária JG”. Uniformizado, Fausto foi levado até a sala do diretor da penitenciária,

Dr. Seixas. Dentro da sala, dois policiais pareciam fazer a segurança do diretor, que assim que avistou Fausto começou a falar em tom de ironia.

- Olha só quem está aqui, o “Monstro do Butantã”! Como eu fico feliz

e triste ao mesmo tempo por você ter caído aqui na minha arapuca. Fico feliz porque daqui você não sai a não ser dentro de um caixão e triste porque o delegado Abdala me pediu pra não colocar você no meio dos “urubus”, que estão louquinhos esperando você lá no pátio pra comer a sua carne macia.

Você sabe o que fazem com um estuprador na cadeia, não sabe? Fausto olhava atentamente com os olhos bem arregalados para a fala

do diretor Dr. Seixas. Ele sabia que aquilo ali pra ele seria o inferno e que seria caçado até a morte se fosse colocado junto com os outros presos.

- A princípio - continuou o diretor arrumando a camisa pra dentro da

calça -, eu vou colocá-lo numa ala mais calminha, onde existem mais estu- pradores iguais a você esperando julgamento, mas não se iluda porque, nessa

ala, também existem outros caras “legais” como assassinos, formadores de quadrilha, ladrões, raptores, assaltantes e todo tipo de gente da sua laia. Se você marcar bobeira, pode virar mulherzinha ou, quem sabe, “um presuntinho”, porque você está muito famoso aqui dentro.

- Mas doutor - falou Fausto gaguejando –,

eu so

sou i

Inocente!

- Ah, aqui todos são inocentes, meu filho - falou o diretor abrindo os braços simulando um abraço - e eu sou o príncipe da bela adormecida.

sou inocente e a polícia nem apurou o estupro nesse

ca

- Ma

mas eu sô

Caso.

Você vai saber por quê

25

- Mas a imprensa falou que houve estupro, meu filho - falou o diretor

fazendo uma irônica cara de dor - e tudo o que a imprensa fala nesse país

vira verdade absoluta. Então, se eu fosse você, eu cuidaria muito bem do meu bumbum.

- Isso não é justo doutor, eu sou inocente!

- Escrivão! - Falou o diretor virando-se pra um policial que estava

sentado ao computador - toma nota aí. E virando-se novamente para Fausto, o

diretor perguntou: - Me dê aí algum nome de contato da sua família pra gente poder ligar e falar as horas de visitas e as coisas formais, tipo horas em que o seu advogado pode vir falar com você.

- Eu não tenho família, doutor!

- Mãe, pai, irmãos, namorada

namorado.

- Não tenho nada. Minha família era eu, minha mãe e meu pai, mas eles já faleceram.

- Mulher, não tem nenhuma? nem tios?

- Não tenho mulher e nem tios aqui no Brasil, meus pais eram ingleses e vieram pra cá sozinhos há mais de quarenta anos.

- Amigos. Amigos você tem, né?

- Depois que eu saí na TV, meus amigos nem quiseram atender meus

telefonemas. Estou sozinho e nas mãos dos investigadores Alberto e Teixeira.

- Dois malucos de acreditar em você, diga-se de passagem. Soldado

Mello! - Gritou o diretor chamando o policial que estava na porta da sala. - Leva logo esse detento pra cela dele, que só de olhar pra essa carinha de santo, eu já tô ficando enjoado.

4

Alberto voltou pra dentro da delegacia, indo direto pra sua sala. No caminho, alguns companheiros de serviço olhavam pra ele tão incrédulos com a situação que ele sentiu os olhares e pensamentos atingirem sua pessoa. Dava pra ler em seus rostos, que eles estavam achando que Alberto e Teixeira

26

André Mansim

estavam ficando malucos. Alguns pensavam que os dois queriam status, por abraçarem uma causa tão difícil de desenrolar. Mas isso não o abatia. Ele tinha um princípio e agora que comprara a briga: só sairia dela no final. A mesa estava lotada de papéis velhos e anotações ultrapas- sadas. Raramente Alberto se sentava ali. Ele e Teixeira preferiam o trabalho em campo, ir atrás das investigações. Geralmente quem fazia o trabalho burocrático era Elizabeth, a secretária da delegacia que sempre mexia nas papeladas para os dois. Mas dessa vez, ele não poderia confiar uma tarefa tão desacreditada quanto aquela a essa “amiga”. Alberto e Elizabeth eram ex- namorados. Entre idas e vindas desse relacionamento já se passaram mais de dez anos, e por mais que eles tivessem amizade e cumplicidade, dessa vez ele preferiu fazer as coisas sozinho. Alberto ligou seu velho PC empoeirado e enquanto esperava-o ele funcionar, deu uma limpada nos papéis jogando-os no lixo. Pegou uma caneta na primeira gaveta, testou-a e jogou-a no lixo também; pegou outra caneta, testou-a e jogou no lixo junto com a outra até que, finalmente, encontrou um lápis. Pegou uma caderneta que estava no fundo da gaveta e voltou ao PC que já estava funcionando.

*****

Teixeira chegou à casa de Fausto. Era uma casa de muro alto e portão fechado. Da rua, não se via nada, parecia uma fortaleza.

- Que merda, viu! - Pensou Teixeira se preparando pra pular o muro.

- Esses caras ficam fazendo essas casas escondidas e nem sabem que é isso que os ladrões adoram. Depois que pulam o muro, ficam à vontade sem que ninguém veja nada da rua. Teixeira escalou o portão colocando a mão entre ele e o vão do muro. Subiu e pulou pra dentro, como um menino pula num quintal atrás de uma

bola. Dentro do quintal, ele viu o tal vaso onde supostamente deixaram a carta no dia em que tocaram a campainha.

- Puxa vida! - Pensou ele olhando do vaso ao muro repetidas vezes. - Se

alguém tocou a campainha, pulou aqui, deixou a carta e pulou pra fora; esse

cara deve ser um gato!

Você vai saber por quê

27

*****

Na delegacia, Alberto acendeu um cigarro e depois de alguns minutos, finalmente conseguiu acessar a Internet e digitar o endereço do Google. Então, no campo de busca, digitou: “transtorno obsessivo-compulsivo, doença do detetivismo”. Pronto, em fração de segundos, a pesquisa buscou mais de vinte mil resultados para aquelas palavras. Depois de examinar a lista de resultados, Alberto rolou a página do Google pra cima e pra baixo e se embaralhou diante de tanta informação. Deu uma tragada no cigarro, bateu a cinza no canto da mesa, e resolveu seguir as suas intuições de investigador. Foi escolhendo sites e entrando em qualquer um aleatoriamente pra ver o que se falava sobre a tal doença do detetivismo. Na caderneta, o lápis foi trabalhando arduamente, anotando depoimentos de pessoas que tinham essa doença, médicos do Brasil e do exterior que falavam sobre a gravidade dessa compulsão e dos meios de trata- mento. Depois de algumas horas navegando nessa pesquisa, Alberto chegou à conclusão de que realmente essa síndrome compulsiva do detetivismo era uma coisa muito séria e dificílima de controlar. Dos vários depoimentos que leu, Alberto não conseguiu encontrar nenhum doente sequer que tenha se controlado quando se viu diante de alguma situação que despertasse a dúvida em relação a algum segredo ou mistério. Era terrivelmente incontrolável Quando a pesquisa estava ficando quente, o telefone em sua mesa

tocou:

 

- Alô!

- Alberto?

- Sim, investigador Alberto, pois não?

- Aqui é o Cláudio do IML. Preciso falar com você e com Teixeira

agora!

*****

Teixeira pegou uma toalha que estava no varal da casa de Fausto e foi até a porta da cozinha, que era de grades, mas com vidros. Enrolou a toalha na

28

André Mansim

mão para que o vidro não o cortasse e, numa pancada seca, quebrou o vidro

perto da fechadura. A chave estava no tambor pelo lado interno e foi só girá-la

e entrar. A casa de Fausto era muito bem arrumada e limpa. Tudo estava no seu devido lugar. O fogão de inox escovado combinava com a geladeira e o armário debaixo da pia. O revestimento da parede da cozinha tinha uma faixa decorativa também com apliques em inox. Assim como na cozinha, todo o resto da casa era de muito bom gosto: a sala era ladrilhada com piso tipo porcelanato, que brilhava tanto quanto um espelho; os quartos eram de um assoalho tão bem cuidado, que parecia ter sido encerado naquele instante. De cada lado da cabeceira da cama de casal, havia uma cômoda, em cima de uma delas, estava o notebook que Teixeira havia ido buscar e, do outro lado, havia um grande porta-retrato que mostrava três meninos e uma menina loirinha. Teixeira pegou a foto e reparou que, pelas roupas, deveria ser uma foto de uns vinte anos atrás. Os meninos estavam abraçados como bons amigos. Um magrelão alto, outro com traços orientais, um bem gordinho e rechonchudo e a menina loirinha que estava no meio deles fazendo pose de modelo. Certamente era uma foto tirada na escola, porque, ao fundo, via-se uma quadra de basquete com um símbolo pintado na parede que mais parecia um brasão. No meio desse brasão, dava pra ler o nome: “Escola estadual Prof. Adolfo Martins de Araújo”. Teixeira reparou bem na foto porque se lembrou de seus tempos de aluno do colegial. Quando já estava viajando no tempo, seu

celular tocou tirando-lhe do transe tão repentinamente que ele deixou a foto cair no chão e acabou quebrando o porta-retratos. Teixeira olhou no visor do celular e viu que era Alberto.

- Puxa, Alberto, eu estava aqui olhando pra uma foto na casa do Fausto

e “viajando na maionese” e você quase me mata de susto com o barulho do

celular, pô!

- Teixeira, você encontrou o computador dele? Disse Alberto apres-

sadamente.

- Encontrei, cacete! E não foi pra isso que eu vim até aqui?

- É que o Cláudio, lá do IML, me ligou dizendo que já fizeram a perícia

no corpo da vítima.

- Legal! E daí? Tem alguma novidade?

Você vai saber por quê

29

- Ele falou pra gente estar lá. Daqui a meia hora, que tem umas coisas interessantes pra contar pra gente.

- Tudo bem chefinho! – Respondeu Teixeira sarcasticamente virando-

se pra pegar o notebook de Fausto. – Eu já estou indo pra lá. -Beleza, te espero lá!

- Esse Alberto acha que eu sou besta – saiu Teixeira resmungando – ele

tá lá na belezinha só pesquisando as coisas na Internet e eu aqui camelando.

Teixeira ajuntou os cacos do vidro do porta-retratos e jogou no lixinho da cozinha, pegou a foto e colocou-a debaixo da fruteira que estava no centro da mesa e, quando já ia saindo pela porta da cozinha, viu outra coisa que lhe chamou atenção: era um grande molho de chaves que deveria ter mais de vinte ou trinta chaves, inclusive com duas chaves michas entre elas.

- Uai! - Pensou ele olhando para as chaves. - O tal do Fausto não falou

que era chaveiro e nem síndico de prédio pra andar com tanta chave assim.

Ah! Mas isso também não quer dizer nada.

5

O agente penitenciário encaminhou Fausto até sua cela. Durante

a caminhada, deu pra perceber que aquela era uma penitenciária antiga.

As paredes eram pintadas de branco, mas parecia que há muito tempo não ganhavam uma nova demão de tinta. As teias de aranha e as rachaduras na parede desenhavam coisas que, com o passar do tempo, iam ganhando

vida para aqueles detentos que ficavam o dia todo olhando pra isso. O piso era cimentado liso e, em frente a cada cela, havia um banco também de cimento fixado no chão. As celas eram um pouco escuras, na verdade, toda

a penitenciária era um pouco escura, dava pra ver que muitas das lâmpadas

penduradas em bocais no teto estavam queimadas. As grades um dia também

foram brancas, mas agora só alguns resquícios de tinta resistiam ao tempo

e aos detentos que, sem nada pra fazer, acabavam arrumando uma forma de vandalizar seus espaços.

30

André Mansim

Basicamente, a penitenciária era formada por dois grandes corredores cercados de celas. Os corredores ao final desembocavam num hall, que dava saída para um pátio cercado de muros e telas, que era onde os detentos da ala dos moderados tomavam seu banho de sol todos os dias. No final do pátio, havia um muro que separava essa ala mais tranquila, da outra, que era dos presos com alta periculosidade. Nesse muro, havia uma guarita fechada pelos dois lados com portas de aço reforçadas. Um preso, quando era transferido de uma ala pra outra, entrava na guarita, e a porta do lado de cá era trancada, depois, uma fechadura elétrica destrancava a porta do lado de lá. Quando o detento passava, ele tinha que encostar a porta, que se fechava automaticamente. Os detentos mais perigosos chamavam o seu lado de “caldeirão do capeta”, e quando alguém passava para esse “caldeirão”, dependendo do tipo de crime que havia cometido, era julgado e às vezes, até morto. Se fosse estuprador, primeiro ele iria ser “mulherzinha” de todos os detentos, começando pelos mais velhos até os mais novatos. Se aguentasse as curras e alguém se engraçasse com ele, talvez os mais velhos o deixasse viver. Fausto era muito esperado ali, porque já fazia algum tempo que um caso de estupro seguido de morte não tinha tanta repercussão na mídia. Certamente se Fausto caísse nas garras dos detentos, seria como jogar lasanha aos porcos, e todos os porcos dali estavam famintos. O agente levou Fausto até a cela número 75. Deu-lhe uma caneca de alumínio, uma toalha e um rolo de papel higiênico e falou sorrindo:

- Bem-vindo ao seu novo lar, meu amigo. Ali, naquele canto, tem uma privada, essa é diferente, pois é daquelas que você tem que cagar de cócoras, mas não ligue não que logo você se acostuma com isso. Atrás daquela parede, tem uma pia, que é onde você vai escovar os dentes e se lavar nas terças, quintas e sábados, pois nos outros dias, você poderá ir até o chuveiro tomar banho. Debaixo da pia, tem um balde que, é pra você dar descarga: é só encher

o balde com água da pia e jogar na privada. Aquelas duas lajes pregadas na

parede com aqueles colchões em cima são as camas. Esta cela tem duas camas

e quatro detentos. Vocês vão revezando e aproveitando a “mordomia”, porque,

se passarem pro lado de lá, no “caldeirão do capeta”, é uma cama pra cada 15 pessoas, que estão gentilmente hospedados numa cela igual a essa. Do lado de lá, os banhos são só duas vezes por mês. Imagina o cheiro que aquilo tem!

Você vai saber por quê

31

Então, aqui você está no céu, meu caro. O agente empurrou Fausto pra dentro da cela e trancou-a por fora. Depois olhou alegremente e falou:

- Seus “amiguinhos” de cela estão agora no banho de sol, mas não fique

triste que, daqui a pouco, eles vêm te dar as boas vindas. Amarre bem as calças, porque, mesmo aqui sendo o lado do céu, de vez em quando, alguém

fica maluco e faz alguma besteira. Se precisar de alguma coisa, não precisa chamar, porque aqui não tem ninguém pra te ajudar. Um guarda só faz a ronda de todas as celas quando elas estão fechadas, e as câmeras de segurança não funcionam faz muito tempo. Então, se alguém cismar de matar alguém aqui, é muito fácil porque ninguém vê nada, e se alguém vir, não conta nada porque caguetar um “irmão” aqui é o mesmo que pedir pra morrer. Ainda, sorrindo o agente descascou uma bala, colocou-a na boca e perguntou:

- Você tem alguma pergunta?

Fausto que, até então, escutava tudo de cabeça baixa levantou seus olhos e falou:

- Quando vou poder ser julgado e provar que sou inocente?

- Na volta de Jesus Cristo! Mais alguma pergunta?

- Não - falou Fausto encarando o policial nos olhos -, o senhor não

acredita em mim e eu não vou ficar jogando conversa fora. Um dia você vai

saber que eu não fiz nada daquilo que me acusam; nesse dia, você vai se arrepender de ser tão sarcástico comigo.

- Tá bom! Até que esse dia chegue, é melhor você ficar pianinho, senão sua batata assa aqui rapidinho, meu amigo inocentinho! Nesse instante, uma sirene tocou e a porta do hall que dava para o

pátio se abriu. Os detentos entraram em fila indiana cercada por guardas que os mantinham sob as miras de fuzis. Quietos e de cabeça baixa eles voltaram todos pra suas celas.

- Desculpe, aí amigão! Falou o agente dando tchauzinho com a mão. –

Eu vou ter que ir ali ajudar meus colegas de serviço a colocar cada “animal” em sua jaula. Depois a gente conversa mais. Fausto respirou fundo e sentou-se no chão no fundo da cela esperan- do e torcendo pra que nenhum maluco fosse seu “amigo” de quarto.

32

André Mansim

Num instante, sua vida passou rapidamente pela sua cabeça, como

num filme, ele lembrou-se de seu tempo de escola, de sua primeira namorada,

Mas Fausto foi

acordado abruptamente desse transe, quando uma figura alta, magra, negra, com cabelo rastafári e a camisa enrolada no pescoço, de passagem pela porta de sua cela, falou sorrindo com seus poucos dentes:

de seu primeiro emprego, de sua casa e da sua vida toda

- Oba! Tem carne nova no pedaço!

6

Fazia vinte minutos que Alberto esperava Teixeira na porta do IML.

Acabando com o quinto cigarro e com sua paciência, ele agradeceu a Deus quando viu o velho Omega preto do parceiro virando a esquina cantando pneus e com o som altíssimo tocando “Ah, se eu te pego”.

- Puxa vida, Teixeira, - reclamou Alberto abrindo os braços - achei que você não chegava hoje!

- Ah, tá! De certo, eu tenho uma máquina de teletransporte que me

manda lá da zona sul da cidade até aqui, na Zona Norte, assim, num piscar de olhos né, seu porra! Respondeu o amigo fazendo cara de mal e abanando a fumaça que Alberto fabricava com seu cigarro.

- Pra falar a verdade, nem carro você tem - continuou Alberto apon-

tando pro Omega do amigo - porque essa “banheira” aí é velha pra caramba! Eu já te falei que isso aí parece carro de bandido, né?

- Já falou mil vezes, mamãe! - Respondeu Teixeira fazendo cara de

criança quando fica emburrada. - Mas meu Omega não tá nada de velho, não, senhor! Ele pode ser antigo, mas ele é inteiro e lindo: impecável na pintura,

na funilaria e, principalmente, no motor. Então, seu fedido, fumante do cacete, hálito de jiboia, não venha falar mal do meu carro, porque é ele que carrega a gente por aí e nunca deixou a gente na mão!

- Se eu já falei mil vezes, então você deveria ter escutado pelo menos

uma. E vou te falar mais uma coisa: você anda por aí a cem por hora, sem prender

Você vai saber por quê

33

o cinto de segurança e ainda muito louco, escutando as porcarias dessas suas músicas bregas, sem prestar atenção no trânsito; uma hora você entra bem!

- Alberto - ironizou Teixeira -, eu acho que você tinha que arrumar

uma namorada, meu amigo. Você tá ficando ranzinza demais; tá necessitando

urgentemente de dar uns beijos ou tomar uma gelada com uma mulher ou, quem sabe, dançar um forrozinho de rosto colado.

- Ah, vai se ferrar Teixeira!

- O que? Você falou a palavra ferrar? Olha, que, se eu falar pra dona

Carminha, sua mãe, que você falou isso, mesmo você tendo mais de quarenta,

ela vai lavar a sua boca com sabão de coco seu menino mal!

- Ha,ha,ha,ha,ha,ha,ha - gargalhou Alberto abraçando Teixeira. - Vamos

entrar logo pra conversar com o Cláudio e saber o que ele tem de novidade.

- É. - Falou Teixeira entrando pela porta do IML. - Quando as coisas apertam, o cara desvia feito um bagre ensaboado.

*****

Claudio era um dos médicos legistas do IML. Uma vez, há muitos anos, ele se viu em apuros: sua filha estava namorando um traficante da região onde morava. Ele tentou falar para o traficante deixar a sua filha em paz, mas o cara não recuou e ainda o desafiou ameaçando-o de morte. Então Cláudio, que tinha certa amizade com Alberto e Teixeira, resolveu reclamar da situação pra eles e ver se dava pra dar uma intimidada no rapaz. Dois dias depois, o rapaz

foi até a casa de Cláudio falar para sua filha que estava desistindo do namoro

e que realmente ele não era o tipo certo pra alguém como ela namorar e ainda

disse pra moça que até já tinha arrumado outra. Desse dia em diante, Cláudio ficou mais que amigo da dupla de investigadores. Eles o ajudaram a proteger sua família e isso para ele não tinha preço.

- E aí, Cláudio, tudo bem? - Falou carinhosamente Alberto quando encontrou o amigo que já os esperava na recepção.

- Tudo bem, Alberto! E você, Teixeira? Tudo legal também!

- Beleza, velhão! Falou Teixeira colocando a mão no ombro de Cláudio. E aí, o que tem de novidade?

- Venham comigo até a sala dos corpos! Disse o médico indicando o

34

André Mansim

caminho aos dois investigadores. Eu fiz umas descobertas no corpo da Laura. Os três entraram numa sala que parecia ser frigorífica porque a temperatura era controlada pouco acima dos cinco graus. No meio da sala, havia apenas quatro mesas e, encostado na parede, havia um armário de inox cheio de gavetas, onde se guardavam os corpos que faziam parte de alguma investigação. O médico foi até a gaveta de número seis e puxou-a. Dentro da gaveta, estava o corpo de Laura, coberto por um pano branco.

- Pega aí, na perna dela, pra gente colocar ela em cima da mesa! - Falou

o médico para Teixeira.

- Eu, não! Pega aí, Alberto, é que eu tenho medo de gente morta.

- Ahhhh, mas larga de ser bobo, Teixeira, o que ela pode fazer com

você? Falou Cláudio sorrindo e apontando para Alberto pegar o corpo pela perna e colocar em cima de uma das mesas que estavam ao lado. Cláudio, então, descobriu o corpo de Laura. Agora limpo de todo o

sangue que escondia sua beleza no dia em que os investigadores a encontra- ram na cena do crime. Alberto e Teixeira ficaram com mais dó da vítima do que antes.

Caraco! - Falou Teixeira espantado – A mina é bonita pra caramba,

hein!

- É. - Falou Cláudio - Realmente ela é muito bonita e, depois de ver isso, eu não acreditei que ela não tivesse sido estuprada.

-

-

Hum! - Resmungou Alberto. - E aí, ela foi estuprada?

-

Foi. E, pelo que parece, foi mais de uma vez.

-

Mas como foi se não acharam esperma nenhum nela? - Perguntou

Alberto.

-

Talvez o bandido tenha usado camisinha.

- Só faltava essa - grunhiu Teixeira batendo na mesa -, um tarado

prevenido!

- Não tem outra explicação, meus amigos. Respondeu Cláudio olhando

para os dois e dando de ombros.

- Que bosta, viu! - Reclamou mais uma vez Teixeira. - Vamos ter que ir

a casa dela de novo pra olhar mais detalhadamente.

- E tem mais - falou o médico em tom de suspense - eu fiz uns cálculos

e descobri que essa primeira facada aqui na perna, foi dada com umas quatro

Você vai saber por quê

35

horas de diferença das outras, e que essa faca que foi usada aqui, não é a mesma que fez o restante do “serviço”, porque a largura da lâmina aqui é bem maior que do restante dos cortes. Olhem essas marcas aqui no pulso! - Falou Cláudio levantando o braço e virando o pulso do cadáver pra mostrar aos amigos. - E reparem também ali nas pernas: essas marcas todas mostram que ela ficou amarrada bem firmemente por algum tempo. E a julgar como ela se esfolou, dá pra ver que ela tentou se soltar e não conseguiu.

- O bandido teve muito sangue frio, hein gente! - Falou Alberto virando- se para os dois amigos.

- É um filha da puta esse cara! - Xingou Teixeira. - Tem mais alguma

coisa aí pra mostrar pra gente, Cláudio? Porque eu já tô com muita raiva do bandido que fez esse serviço.

- Não! - Respondeu o médico legista. - Por enquanto, é só isso! Se eu

diagnosticar mais alguma coisa, eu ligo pra vocês de novo. Os dois investigadores foram acompanhados por Cláudio até a porta do instituto médico legal, e com um grande abraço de amigos eles se despediram. Quando Cláudio entrou de volta no prédio, Teixeira virou-se para Alberto e perguntou:

- Você encontrou alguma coisa na Internet sobre a tal síndrome que o Fausto falou que tinha?

- Olha, Teixeira - respondeu Alberto em tom grave -, o negócio parece

que realmente é muito sério. Na Internet, tem um monte de relatos falando

que é impossível se desvencilhar quando a doença ataca. O cara fica mesmo maluco e tem que ir atrás do mistério. Os caras não conseguem dormir, comer,

pensar

perturba.

Não fazem outra coisa a não ser querer descobrir o mistério que os

- Vixe! - Teixeira coçou a barba rala. - Será que o cara é mesmo inocente? Ele parecia um bobão no interrogatório. Tô começando a acreditar nele. Alberto acompanhou Teixeira até seu carro e batendo em suas costas

falou:

- É, meu amigo, nós entramos no meio de um caso muito maluco. Agora

veja se leva o notebook do Fausto até a casa do Maicon e fala pra ele achar o endereço de onde os e-mails foram enviados.

36

André Mansim

- Uai, Alberto, isso eu sei que é pra fazer, pô!

- Tudo bem, eu só estou reforçando aí na sua cabeça oca! Enquanto

isso, eu vou até a casa da vítima ver se encontro mais alguma coisa. Depois a

gente se encontra na delegacia.

7

Os detentos se amontoaram na frente da cela de Fausto: virou um

grande empurra-empurra pra ver quem seria a tal “carne nova no pedaço”, mas, logo os detentos foram dispersos pelos agentes penitenciários, que gritavam:

- Opa, vamos andando, vamos andando, que aqui não é a casa da mamãe não moçada! Cada um na sua cela, vamo, vamo, vamo, vamo!

Um dos policiais esperou os curiosos entrarem em seus devidos aposentos e então abriu a cela de Fausto. Os três “companheiros” de detenção entraram sorrindo e festejando que havia alguém famoso entre eles.

- Óia só, irmão, si num é o carinha qui matô a tal da Laura e apareceu

em todos os canais de televisão - falou um detento apontando o dedo na cara de Fausto.

Estuprador na área! Falou o outro detento coçando as

partes íntimas: - Finalmente um divertimento aqui pra gente. Fausto estava assombrado com aquelas figuras. O primeiro era um rapaz alto, sardento de cabelo ruivo e encaracolado. Seus braços pareciam um gibi de tanta tatuagem; seus olhos estavam esbugalhados como se ele estivesse em transe: parecia uma pessoa de atitudes elétricas, pois olhava com seus grandes olhos para Fausto e caminhava inquietamente, indo até o fundo da cela e voltando até onde Fausto estava. O outro era um negrão gordo com o cabelo cheio de trancinhas e boné de lã com as cores da Jamaica; seus dentes eram extremamente brancos e contrastavam com a figura descuidada que ele parecia ser. Atrás de cada orelha, havia uma bituca de cigarro, e sua camisa era tão pequena para o grande barrigão, que o umbigo ficava de fora.

- Hummmmm

Você vai saber por quê

37

- Calma aí! - Falou o terceiro detento com uma voz austera e segura. - O

mais velho aqui na cela sou eu, e vocês sabem que a hierarquia aqui na cadeia

é que manda! O terceiro detento era um senhor de uns cinquenta e poucos anos. Não tinha nada de especial em sua figura que o identificasse com o mundo do crime. Sua pele era vermelha e queimada como a de um caiçara; seus cabelos eram compridos e presos num rabo de cavalo, sua feição era tranquila e seus modos educados. Quando viu o novo “amigo de cela”, ele calmamente olhou pra Fausto e explicou:

- Olha aqui, meninão, eu me chamo Hector, sou o presidente daqui da cela. Aquele negão gordão ali é o Berinjelo e esse outro pintado aí é o Ferrugem; eu estou aqui, nessa penitenciária, há treze anos esperando meu

julgamento e sei que, se você veio pra cá, em vez de ir direto pro “caldeirão do capeta”, é porque ainda não te declararam culpado. Então, a gente vai esperar um pouquinho pra mexer no seu “bauzinho”, mas acho melhor você não ser um cara folgado, porque a gente pode se esquecer de tudo isso que eu falei e resolver não esperar seu julgamento. Enquanto Fausto escutava tudo atentamente sem piscar, Hector continuou coçando o queixo:

- A gente aqui é bom pra julgar os outros quando isso convém pra

gente. Você nem queira saber.

- Pô, Hector! - Falou Ferrugem abrindo os braços reclamando. - Você só sabe cortar o nosso barato! Mó veio chato, credo! - Cala a boca, Ferrugem! - Retrucou Berinjelo pegando um toco de cigarro na orelha. - Agora mesmo o véio libera ele pra gente. Fausto olhava as três figuras atentamente e tremendo de medo. Ele

sabia que a situação dele ali era o mesmo que uma bomba relógio e que, qualquer pequena mancada que desse, essa bomba certamente explodiria.

- O

obrigado s

senhor Hec

Hector! Falou Fausto assombrado. - E

eu so

Hector, então, chegou perto de Fausto imprensando-o contra a parede

e deu-lhe uma lambida no rosto dizendo.

- Meninão, aqui todo mundo é inocente. Mas, por enquanto, nós vamos acreditar em você.

sou

me

mesmo inocente.

38

André Mansim

Berinjelo deu um cutucão em ferrugem e piscando pra ele falou:

- Não falei? Agora mesmo tá liberado, há, há, há, há, há, há.

- Meninão - continuou Hector - como você é o mais novo aqui, então

eu vou te passar quais são as suas obrigações na nossa cela: primeiro você vai dar descarga pra todos nós, depois você vai arrumar as camas de manhã cedo. Quando trouxerem comida, você vai dar a sua mistura pra gente; cada dia pra um de nós, e terá direito a sua própria mistura só aos domingos. Mas,

com o passar do tempo, você vai notar que nunca vai saber em que dia da semana estamos. Uma das camas será sua só uma vez por mês; fora isso, você pode dormir ali, naquele canto, no chão, que é pra não atrapalhar ninguém à noite quando quiser ir ao banheiro. E olhando para o Ferrugem, continuou: - Agora você tá liberado das obrigações, enferrujado!

8

Alberto passou na delegacia e pegou as chaves da casa da Laura. Como o caso estava em investigação e a vítima morava sozinha, a casa era de suma importância para a polícia solucionar o caso, pois servia como prova e cena do crime. Ele estacionou a viatura em frente à casa, e foi até o hall de entrada. Do hall ele olhou pra trás e lembrando-se do depoimento de Fausto, resolveu circundar a casa pra ver se do tal vitrô que o suspeito disse ter forçado não dava mesmo pra ver nada do quarto da vítima. Realmente o tal vitrô ainda estava mesmo entreaberto e, de lá, nem colocando a cabeça pra dentro da casa, não se via nada além de uma sala de televisão. – Bom, Pensou Alberto –, parece que até aqui as informações do Fausto estão batendo com a realidade.

*****

Teixeira chegou ao condomínio de prédios da COHAB de Osasco. Ele

Você vai saber por quê

39

sabia que a barra ali era bem pesada e que os donos do “pedaço” não gostavam de polícia, mas sabia também que sua fama de mal ajudava muito nessa hora.

- Qual o pobrema aí, irmão? Perguntou um rapaz que fazia vigilância na portaria de um dos blocos de prédios.

- “Pobrema” nenhum, seu noinha, eu vim aqui tratar de um assunto

com o Maicon, que mora lá no sétimo andar. Por que, não pode?

- Que isso autoridade, eu não tinha visto que era o sinhor! - Respondeu

o rapaz abrandando a sua voz quando reconheceu o investigador. – Vou passar

um fio aqui pros irmão lá das escadaria e falar que o sinhor veio em missão di

paz!

*****

Alberto entrou na casa da Laura e começou a procurar por alguma coisa que possa ter passado despercebido no dia em que ele e o parceiro vieram prender o assassino. Nesse dia, eles ficaram encabulados porque encontraram Fausto caído em cima do cadáver de Laura totalmente apagado. A impressão de que eles tiveram é que o rapaz havia matado a moça e depois desmaiou de pânico quando se deu conta da besteira que havia feito. Mas agora, depois das coisas que Fausto havia lhes dito, ele resolveu olhar para aquela cena de maneira diferente e, talvez, encontrar algum sentido ou alguma verdade no depoimento do suspeito. Andou devagar pela casa olhando atentamente tudo sem perder nenhu- ma pista. As paredes do quarto de Laura e do corredor que levava ao banheiro estavam marcados com sangue e com as impressões digitais de Fausto. No chão, havia um caminho vermelho que ia desde uma poça de sangue dentro do box do banheiro até a cama. No dia da investigação, os policiais deduziram que a vitima sofreu a primeira facada no banheiro e depois foi arrastada até

o quarto.

Chegando

até

a

porta

do

Teixeira tocou o interfone.

*****

apartamento

de

Maicon,

o

investigador

40

André Mansim

- Quem é? - Perguntou uma voz adolescente do lado de dentro.

- É o investigador Teixeira, moleque, abre logo!

- O que você quer comigo? Eu não estou fazendo nada de errado

ultimamente.

- Abre essa porta, caralho! Não estou atrás de você hoje. Só quero que me faça um favor.

- Favor? Eu?

- Que bosta, Maicon! Eu vou ter que quebrar a porta?

- Peraí!

*****

Alberto foi até o banheiro olhar o box novamente. Olhou o vaso sanitário, abriu o armário da pia, mexeu em tudo e não encontrou nada que já não tivesse visto antes. Dali ele caminhou pela casa e foi até o quarto de Laura. A cena ali ainda era horrível. Com o passar dos dias, o sangue vermelho, que cobria toda a cama acabou ganhando uma cor roxa enegrecida que a deixou com aspecto de filme de terror. O cheiro de carne podre tomou o ar abafado daquele quarto fechado. Alberto teve que colocar sua camisa na frente do nariz improvisando uma máscara.

O investigador olhou a cômoda ao lado da cama mais uma vez sem

encontrar nada, a não ser uma foto antiga, que mostrava alguns amigos de

uma época distante na escola. Na foto, dava pra ver a Laura muito nova com mais três amigos. Em cima da foto, estava o telefone que Fausto havia citado durante o interrogatório.

- pensou Alberto. – Como é que o Fausto foi reparar

no telefone do lado da cama diante de uma cena que o havia deixado tão perplexo? Depois, Alberto tentou levantar o lençol onde o corpo de Laura foi encontrado pra ver se havia alguma coisa que servisse de prova debaixo. O sangue fizera o lençol colar no colchão e Alberto temendo estragar uma prova do crime, desistiu de retirá-lo. Vendo que não tinha nada de novo no quarto, ele resolveu andar por outros cômodos da casa.

– Engraçado

Você vai saber por quê

41

*****

Maicon abriu só um pouquinho da porta e colocando só metade do rosto na fresta perguntou:

- O que o senhor quer de mim? Eu não estou hackeando faz tempo.

- Larga de ser bobo, moleque! Um hacker não para nunca. Isso aí é um

vício de nerd, se você não hackear vai ficar maluco e é capaz de sair dando a bunda por aí.

- Nossa! - Ironizou o rapaz. - Pra quem quer um favor até que você é muito gentil.

- Você vai ver o gentil se não abrir essa porta em três segundos. Um

d

- Tá legal, tá legal, não precisa de violência! - Falou Maicon abrindo a porta. - O que é que você quer de mim?

- Eu tô com um probleminha aqui pra você resolver pra mim. Falou o

investigador esticando a mão com o notebook para o hacker. – Esse computador é de um cara que tá preso esperando julgamento.

- O que ele fez?

- Nós não sabemos ainda se ele fez alguma coisa, e aí é que você entra na história. Falou Teixeira apoiando-se no ombro de Maicon.

- Por que eu?

- Porque você é um puta dum hacker, bom pra caralho e porque me deve

por ter limpado a sua cara no caso da invasão do site da Petrobrás!

- Mas isso foi há muito tempo! Disse Maicon se esquivando do abraço de Teixeira.

- Tudo bem, mas você ainda me deve. - Falou Teixeira encolhendo os

ombros e espalmando as mãos como se estivesse se desculpando. – E dívida é dívida, meu coleguinha.

- Tá legal, já que não vai ter jeito mesmo, né policial? O que eu posso

fazer pra ajudar? - O suspeito recebeu uns e-mails aí nesse computador – falou o investigador apontando para o notebook – e a gente precisa saber quem foi que mandou e o endereço de quem mandou. Segundo ele, os e-mails tinham apenas a frase: “Você vai saber por quê” e mais nada. Segundo o suspeito, quem

42

André Mansim

enviou os e-mails – continuou o investigador pegando sua caderneta – f

um cidadão, ch

ama@hotmail. Então é isso, você só tem que checar essas informações.

foi

Ah, aqui achei! O nome é justiceiro.

chamado, deixa-me ver

- Ah

– retrucou Maicon fazendo cara de bobo – só isso?

*****

Alberto sentou-se numa poltrona que havia no quarto de Laura e começou a raciocinar sobre a cena que via. Tentou mentalmente refazer os passos do criminoso. “Por que havia sinal de relações sexuais na vítima, mas não ha-

via nenhum material genético do agressor?” Pensava Alberto encabulado. “Ele

devia ter usado camisinha

Mas, se ele teve a frieza de colocar camisinha,

talvez tenha tido relações com o consentimento da vítima. Talvez eles fossem namorados. Se eram namorados, poderiam estar tomando banho juntos

quando ela tomou a primeira facada

O investigador voltou ao banheiro, pegou o lixinho e despejou tudo no chão. Começou a mexer nos papéis higiênicos procurando por algo e então, bingo! Encontrou duas camisinhas. “Caramba!” Pensou aliviado. “Agora, sim, o jogo vai começar!”.

Isso!”.

*****

- Eu sei que é difícil encontrar alguma coisa aí nesse computador por-

- falou Teixeira abrindo

o notebook e entregando-o a Maicon. - Mas sei também que você já entrou no site da ONU, do Pentágono, dos Ministérios das Telecomunicações e da

que você não tem as senhas dos e-mails e blá-blá-blá

Petrobrás e ninguém te deu nenhuma senha. Então, se vira seu, porra!

- Tudo bem, policial - disse Maicon com ironia. - Mas não precisa falar assim. Me deixa o computador aqui que amanhã eu te ligo e te falo o que encontrei.

- Tem que ser hoje!

- Hoje é meio difícil, porque pode não parecer, mas esse serviço não é fácil nem pra mim.

- Tudo bem, então - disse Teixeira irritado -, mas amanhã eu volto.

Você vai saber por quê

43

Não precisa me ligar que eu vou adorar vir aqui ver essa sua carinha de nerd espinhento.

*****

Alberto chegou ao laboratório de análise criminalística para entregar os dois preservativos encontrados na cena do crime para que fosse feito um

exame de DNA, e talvez assim, as coisas pudessem clarear nesse túnel escuro que se tornou esse caso.

- Thales! - Gritou Alberto chamando o perito responsável pelo

laboratório. – Como vai você? Tudo bem?

- Olá, Alberto, eu vou bem e você? O que te traz aqui, no instituto de

criminalística onde só se faz bobeira? Thales respondeu ironicamente, porque há algum tempo, ele e Tei- xeira, parceiro de Alberto, haviam discutido sobre as técnicas usadas pelo instituto, que sempre usava a ciência para resolver os casos, enquanto os investigadores usavam de artimanhas e ações que o pessoal da ciência

chamava de atitudes irracionais. No dia da discussão, os dois policiais quase chegaram às vias de fato, mas foram contidos por Alberto.

- Então, Thales! - Respondeu Alberto escolhendo as palavras. – Você

sabe que eu acho que a ciência unida à ação das ruas é a única forma de

resolver as coisas, né? Por isso estou aqui e conto com a sua discrição porque esse caso está sendo investigado em sigilo.

- Ihhh! Agora se lembram do velho Thales, né? Tudo bem, Alberto. O

que manda dessa vez?

- Você sabe aquele crime em que eu e o Teixeira prendemos há uns três

dias um cara que estava desmaiado em cima de um cadáver lá no Butantã?

- Sei, sim, o caso do “monstro do Butantã” E daí?

- Então, o caso ainda está sendo investigado, porque

– Alberto deu

uma pausa para pensar. – Porque a gente acha que tem mais gente envolvida no caso.

- Ah, então, vocês encontraram mais alguma evidência de outro

suspeito? O investigador não poderia falar a história maluca que o suspeito ha-

44

André Mansim

via contado pra ele e seu parceiro, então improvisou:

- É que voltando até a cena do crime, nós vimos que, ao redor da cama

da vítima, havia mais de um tipo de pegada e vasculhando melhor a casa acabamos encontrando isso aqui. - Falou Alberto estendendo a mão até Thales. – Olha aí dentro desse envelope! Thales colocou uma espécie de luva cirúrgica, pegou o envelope das mãos de Alberto e com uma pinça retirou de dentro as duas camisinhas.

- O que é isso? – Falou Thales espantado.

- São duas camisinhas usadas, ué.

- Isso eu sei, né Alberto, eu quero saber quem foi que as usou?

- É isso que eu vim fazer aqui meu amigo, eu quero saber se você

consegue mapear o DNA dessas duas camisinhas pra gente encontrar um norte aqui nessa investigação.

- Você sabe que eu tenho que mandar as camisinhas pro laboratório da

USP e esperar uns dez dias pra isso ficar pronto, né?

- Mas é por isso que vim aqui falar com você pessoalmente, meu amigo,

eu preciso desse exame pra amanhã ou, no máximo, pra depois de amanhã, senão o segundo assassino pode sumir e a gente nunca mais conseguir pegá-

lo.

Thales olhou para Alberto com muita empáfia e depois de sarcas- ticamente sorrir, respondeu:

- Tudo bem, então, vou ver se consigo o exame para dois dias, esse é o prazo mínimo que consigo. Nem uma hora a menos.

*****

Teixeira chegou à delegacia e foi barrado na portaria por Elizabeth que

falou:

- Teixeira, o doutor Abdala mandou você ir até a sala dele assim que

você chegasse. O investigado sabia que esses recadinhos dados assim na portaria da delegacia não eram nada agradáveis: geralmente o delegado tinha algum tipo de bronca ou recado não amigável pra soltar aos convocados pra sua sala. No

caso dos investigadores Teixeira e Alberto, a coisa piorava um pouco, por-

Você vai saber por quê

45

que eles, por várias vezes, insistiam em casos dados por encerrados pelo Dr. Abdala e, na maioria das vezes, provavam que tinham razão. Na delegacia, os amigos de serviço também torciam o nariz para os investigadores, porque, diferentemente de Teixeira e Alberto, os outros queriam fazer somente o básico e mandar a papelada pra frente. Os outros investigadores não estavam atentos aos mínimos detalhes de seus casos:

queriam mesmo é pouco trabalho. Por isso, os dois investigadores eram um exemplo antagônico das suas vontades e isso os deixava antipáticos para a maioria. Andando sem querer chegar e contando até dez mais de uma vez, Teixeira entrou na sala do delegado, que o esperava aflitamente, querendo saber de resultados e desembaraços, porque temia ter dado uma chance errada para os dois subalternos investigarem um caso que mais uma vez ele julgava estar encerrado.

- E aí, Teixeira? Resolveu alguma coisa? Encontrou alguma pista? Tem algo real pra me contar?

- Doutor, nós começamos a investigar hoje. Estamos preparando as

coisas para que as provas surjam. Não é assim, duma hora pra outra, né?

- Mas, pra aceitar uma conversa dessas, de um suspeito tão culpado

como esse, vocês têm que ter um trunfo muito grande.

- E acho que temos – falou Alberto entrando na conversa, pois acabara

de chegar e de receber o mesmo convite de Elizabeth pra ir até a sala do delegado. – Eu voltei até a casa da vítima hoje e encontrei duas camisinhas usadas no lixo do banheiro.

- Ah, é? - Exclamou Teixeira. – E você me deixa aqui na boca do leão sem me falar nada?

- Me perdoe, parceiro! - Disse Teixeira sorrindo e mexendo no maço de cigarros em seu bolso. – É que não deu tempo pra te telefonar.

- E onde estavam essas camisinhas? Como foi que elas não apareceram

na primeira varredura que os peritos fizeram na casa? Perguntou o delegado furioso.

- Doutor, elas estavam no lixo do banheiro enroladas em papel higiênico.

Acho que no dia, alguém olhou o lixo por cima elas passaram despercebidas.

- E por que você as encontrou hoje, então?

46

André Mansim

- Porque o Cláudio do IML disse que há sinal de ato sexual com a vítima,

mas que não encontraram nenhum esperma, então eu deduzi que o assassino usou camisinha, por isso voltei até a cena do crime e fui especificamente procurar por ela.

- E onde estão essas camisinhas agora? – Perguntou o delegado batendo

com a mão fechada na mesa. - Já levei pro Thales no instituto de criminalística, e ele encaminhou pra fazer DNA.

- Justo o Thales! - Se aborreceu Teixeira.

- É, infelizmente, ele é o melhor nesse tipo de questão. – Alberto sorriu

para Teixeira com ar de criança quando faz bagunça. – E ele falou que só entrega o exame se você for buscar junto comigo.

- Mas é um filha da puta esse baixinho escroto! Vou dar um pau nesse

cara ainda!

- Opa! – Reclamou Dr. Abdala. – Mais respeito com a minha sala, seu mal

criado, e podem ir saindo os dois rapidinho, que eu tenho mais o que fazer! E lembrem-se de que eu quero que vocês resolvam esse caso o mais rápido possível. Vocês entenderam o que eu falei? O mais rápido possível! E você aí,

seu vermelhão! Falou o delegado voltando-se para Alberto de dedo em riste. - Pode ir guardando esse maço de cigarros, porque o pessoal tem reclamado da fumaça que você anda fazendo pelos corredores da delegacia.

- Sim, senhor! – Falou Alberto.

- Eu não falei que esse cigarro fedido ainda iria dar em merda pro seu lado? - Ironizou Teixeira.

- É, mas ninguém me chamou de mal criado - falou Alberto indo pra sua sala junto com o amigo.

- Aonde você vai hoje depois do expediente, Albertão?

- Vou continuar a pesquisar a doença do Fausto na internet lá em casa, por quê?

- Hoje você não vai dar uns beijinhos ali? - Falou Teixeira apontando maliciosamente para Elizabeth e piscando para o amigo.

- Não. A gente está dando um tempo.

- Então, a gente vai primeiro tomar uma no bar do Seu Geraldo, ali na Rua Sorocaba, e depois eu te deixo na sua casa, tá legal?

Você vai saber por quê

47

- Mas tem que ser nesse boteco bem ali na Boca do Lixo, Teixeira?

Investigadores têm

que ir aonde seu povo está. – Falou Teixeira sorrindo e entrando no banheiro cantando e fazendo a coreografia do “eu quero tchu, eu quero tchá”.

- Ué, meu velho, você não é investigador? Então

9

Fausto estava sentado no canto da cela almoçando arroz com feijão porque hoje teve de dar sua mistura ao Ferrugem. Os detentos de sua cela já o tratavam com algum princípio de amizade, mas sempre lhe deixando claro que ele era o mais novo, e que, nesta condição tinha que se submeter à vontade dos mais antigos. Hector, o mais velho, portanto o comandante, não aceitava um “não” como resposta nem que lhe contestasse alguma ordem. Outro dia, ele fez Fausto lavar toda a cela, três vezes seguidas porque não havia gostado do resultado das primeiras lavagens. Beringelo, o mais folgado dos três, fazia com que Fausto desse de três a quatro descargas por dia e arrumasse sua cama de manhã e depois do cochilo da tarde. Ferrugem, apesar de ser um rapaz muito magro, vivia com fome e comia metade do almoço e do jantar de Fausto todos os dias. Fausto desconfiava que alguém no banho de sol estivesse passando-lhe maconha, porque quando voltava do pátio, Ferrugem estava sempre faminto e com os olhos vermelhos e esbugalhados. Mesmo no fundo da cela, almoçando, Fausto viu quando um dos agentes penitenciários chamou Hector pra perto das grades e passou-lhe um pedacinho de papel. Hector leu o bilhete e guardou-o no bolso. Depois, olhan- do para Fausto de rabo de olho, cochichou alguma coisa para o agente. Fausto disfarçou olhando para o prato e fez que não tivesse visto

nada.

Durante o passar do dia, Fausto não pensava em outra coisa, a não ser o que estaria escrito naquele bilhete que o carcereiro havia dado para Hector.

48

André Mansim

Tudo piorou mais ainda, em sua mente, quando Beringelo foi até o canto da cela com Hector e os dois conversaram quase sussurrando por mais de meia hora. Esse mistério começou a se tornar uma tormenta na cabeça de Fausto. Hector levou a mão ao bolso e deu o bilhete para Berinjelo, que leu arregalando os olhos, para logo em seguida, guardar o papel. Hoje era dia de banho na penitenciária. Então, ao toque de uma sirene, os detentos saíam em fila indiana, cela por cela, vigiados por um agente armado na guarita e outros dois agentes que organizavam a fila. Desde que chegou à penitenciária, Fausto não havia saído de sua cela

nem para o banho de sol no pátio. Ele não achava seguro e sempre que chegava

a hora da saída, dava um jeito de estar lavando a cela ou lavando as roupas

de seus companheiros ou fazendo alguma coisa que o impedisse de sair. Mas, dessa vez, ele resolveu encarar o perigo, porque nem ele mais aguentava o seu próprio cheiro. - Vai atrás de mim, Fausto. – Falou Hector. – Assim, nessa posição, entre mim e o resto da nossa cela, os outros presos vão saber que você está sob minha proteção e ninguém vai encostar um dedo em você. - Isso aí, irmão! - Continuou Ferrugem empurrando Fausto e colo- cando-o entre ele e Hector. – Porque, aqui na “penita”, a gente tem uns código que os cara das ôtra cela entendi, tá ligado? Eu vô atrais de você e o Beringelo vai no fim da fila. Enquanto iam para o banheiro, todos os detentos que passavam por

Fausto o examinavam de cima abaixo como se ele fosse uma mercadoria na feira, e de vez em quando, algum deles soltava uma fala do tipo: “Hector, libera

o garoto pra gente! Ele é estuprador e a gente tem fome disso!” Mas regra era regra e dentro da cadeia, as regras eram seguidas à risca. Se Hector estava protegendo um preso, é porque algum motivo tinha e isso era inquestionável. Chegando ao banheiro, um guarda que estava na porta deu uma toalha e um sabonete para cada chefe de cela. Logicamente que o mais velho se lavaria e enxugaria primeiro e depois o segundo mais velho e assim consecutivamente. Enquanto cada um se lavava, os outros esperavam atrás de uma parede de azulejos, que separava a ducha da parte seca, onde eles trocariam de roupa. Quando chegou a vez de Fausto se lavar, ele ouviu Hector puxando uma

Você vai saber por quê

49

conversa com Ferrugem.

- O Berinjelo te passou o bilhete?

- Ainda não deu pra fazer isso longe do moleque – respondeu Berinjelo entrando na conversa – parece que o moleque está ligado no assunto.

- Besteira, seu gordão. – Falou Ferrugem. – Como é que ele vai tá ligado? Si ninguém falô nada perto dele, seu vacilão? O assunto chamou atenção de Fausto, que chegou bem perto, escon-

dendo-se atrás de um armário e tentou escutar o máximo que pôde. Ele não poderia perder a conversa nem que pra isso fosse encontrado ali bisbilho- tando (sua curiosidade e a vontade de solucionar esse segredo estavam lhe matando). Fausto iria até as últimas consequências para saber do que se tratava.

- Então, é o seguinte: – Continuou Hector. – O agente vai passar na nossa

cela amanhã à noite. Vai ser rápido e a gente vai ter uns dez minutos pra fazer

o serviço.

- Caraco, velho! Exclamou Ferrugem enxugando os dedos do pé. – Só

dez minuto? É fria, mano. - Eu não acho, não! – Falou Berinjelo. – Acho que esse tempo dá e

sobra!

- E você com esse barrigão vai dá conta de andar depressa? – Sorriu

Ferrugem falando e colocando as calças.

- Parem de brigar vocês dois – disse Hector colocando a mão em sinal

de silêncio na frente dos lábios – o que importa é que o Fausto não pode saber

de nada senão a barra suja.

- É verdade. – Concordou Berinjelo. – A gente não pode correr risco nenhum de dar tudo errado.

Hector então fez uma pausa e inclinando-se para falar bem baixo com os amigos continuou:

O agente vai passar no quarto a meia noite e deixar a cela aber-

ta por dez minutos, depois disso quem estiver de fora tá ferrado. Então nesse dia a gente vai falar pro Fausto dormir na cama, assim ele dorme feito uma pedra e dá tempo da gente fazer o esquema e voltar sem que ele perceba. Nessa hora Fausto apareceu molhado. Pegou a toalha que já estava ensopada e começou a se enxugar. Ferrugem pra disfarçar, puxou conversa

- Então

50

André Mansim

com um detento de outra cela que se trocava a alguns metros de distância. - E aí Zóinho, cê ficô sabeno quanto acabô o jogo do Timão na Libertadores? Os agentes levaro nosso rádio lá da cela porque falaro qui eu fazia muito barulho em dia di jogo! Agora Fausto tinha algumas informações que lhe eram importantes e ele poderia monitorar os segredos dos detentos sem que eles soubessem que ele estava por dentro do assunto. Mas isso não era o bastante. Fausto tinha de dar um jeito de ir com eles, ou pelo menos segui-los no dia combinado com o

carcereiro para ver o que eles iriam fazer, porque ficar ali na cela sozinho seria algo impossível de Fausto controlar.

- Vamos, seus fedidos! – Gritou um agente penitenciário. – Vocês já

tomaram banho demais, agora podem formar a fila novamente que vocês vão voltar pras suas gaiolas!

10

Alberto entrou fumando no carro do amigo para os dois irem até o bar que Teixeira havia falado e foi logo repreendido:

- Ei, ei, ei, ei, ei: apaga esse cigarro aí, pô! O meu carro é cheirosinho e você vai estragar o aroma aqui dentro.

- Quando você anda no meu carro, faz o que quer: peida, arrota, fala

palavrão e coloca essas músicas horríveis que você gosta - respondeu Alberto dando uma tragada no cigarro – então agora aguenta, meu irmão, pois foi você que convidou, portanto, seja um bom anfitrião. E tem mais: como eu sou visitante, você não vai beber nada alcoólico lá no bar porque vai ter que dirigir.

- Putaquipariu! Bem que minha mãe falava pra eu escolher melhor as

minhas amizades! - Respondeu Teixeira falando pra si mesmo. Os investigadores chegaram à região conhecida por eles como Boca do Lixo. Um lugar onde se descobria de tudo, porque a criminalidade toda da cidade passava por ali. Quando acontecia um crime em algum lugar, certamente

ali alguém lhe daria uma pista por onde começar a investigar. Geralmente as

Você vai saber por quê

51

prostitutas formavam uma rede de informações muito confiável, porque todo

o dinheiro fácil ganho pelos criminosos, de uma forma ou de outra, acabava sendo gasto ali, no baixo meretrício. Teixeira e Alberto tinham amigos por ali, amigos que lhes eram úteis

e que, com um pouquinho de incentivo, (que muitas vezes eram ameaças de prisão ou de espancamento) acabavam “soltando a letra”, que é a forma das ruas de dizer que alguém está dedurando ou entregando algo ou

alguém. Por isso, os dois investigadores andavam por ali como os chefes do pedaço. Aqueles que todos respeitavam, pois os meliantes sabiam que sendo amigos e cooperando com os policiais, em algum momento, eles poderiam também colher alguns favores e assim sobreviver em meio daquele lugar tão hostil e desumano.

- Ei, Carlão! - Chamou Teixeira sentando-se à mesa do bar do Geraldo. -

Traz uma gelada e dois copos aqui, pra nossa mesa.

- Eu não falei que você não iria beber? Já esqueceu?

- Ah Alberto, que caralho, porra! Como você é chato! Eu juro que vou só

tomar umas duas e depois começo a beber guaraná. - Tudo, bem então - falou o amigo pegando outro cigarro - mas eu estou de olho e você vai tomar só duas mesmo, senão não vai dirigir. Vai embora de táxi.

Alberto olhou para o cigarro, cheirou-o, deu uma batidinha com o dedo

indicador do lado do filtro e, com seu isqueiro de corpo de marfim, acendeu-o para em seguida, dar uma longa tragada, soltando um cone de fumaça em forma de espiral.

- Alberto! – Falou Teixeira vendo o ritual do amigo. – Você está com

espírito ruim. Se você ver a cara que faz quando acende um cigarro, só pode ser espírito ruim.

- Ah, larga de ser chato, Teixeira! – Falou Alberto olhando para Carlão

que trazia a cerveja e colocava em cima da mesa. – Olha pra essa cervejinha gelada que você ganha mais.

- Eita, que essa tá até branca de tão gelada! - Se alegrou Teixeira vendo

a cerveja em cima da mesa. - O que tá tendo de comestível aí nessa biboca hoje,

Carlão?

- Hoje tem carne seca com mandioca e vaca atolada - respondeu o

52

André Mansim

garçom pegando um bloquinho pra anotar o pedido.

- E aí, o que vai? - Falou Teixeira ao amigo.

- Qualquer coisa pra mim tá bom! – Respondeu Alberto. Depois virando-

se para o garçom, continuou: - Mas, antes, me traz uma caipirinha de pinga e uns torresmos daqueles grandões pra gente ir forrando o estômago. Mas é uma caipirinha porque é só pra mim. O meninão aí, tá de motorista hoje.

- Jura! – Falou Carlão gargalhando. – Isso mesmo Alberto, o motorista não pode beber mesmo. Você também quer torresmo, Teixeira?

- Manda uns três ou quatro e anota aí a carne seca com mandioca.

Mesmo em hora de folga, um investigador treinado se coloca nos lugares mais estratégicos para poder ter uma visão geral do que acontece à sua volta. Ele sabe que, mesmo com o respeito da bandidagem, um investigador sempre tem algum desafeto pronto a golpeá-lo pelas costas. Por isso, a posição em

que os dois parceiros se colocaram, lhes dava uma visão privilegiada, e foi dali que eles viram uma prostituta muito conhecida dos dois atravessando a rua e vindo direto até a mesa que estavam.

- Olha se não são meus policiais preferidos!

Cassandra era uma das prostitutas mais belas da Boca do Lixo. Ela

transitava por ali obrigada pelo seu cafetão. Se quisesse, poderia muito bem, apenas marcar encontros pela Internet e receber seus clientes em algum motel ou pensão da cidade. Mas seu cafetão Jonas, “o grandão”, para mostrar que era o “homem” daquela linda mulher, a fazia desfilar pelas esquinas sujas do bairro apenas para preencher um espaço em seu ego de macho inescrupuloso

e exibido.

- Olá, Cassandra, meu anjinho do mal! – Ironizou Alberto. – Como vai a meretriz mais bela da cidade?

- Não me chama de anjinho do mal, porque eu sou uma moça cristã! –

Retrucou a prostituta. – Me chame só de Cassandra que fica melhor.

- Tome, seu babacão! – Falou Teixeira fazendo a mímica de um coice.

– Liga não, Cassandrinha, o Albertão tá meio enferrujado na conversa com as

mulheres. E aí, tá tudo legal com você? Teixeira conversava com a prostituta como um amigo, pois muitas vezes ela serviu de ponte de informação pra ele e o parceiro. Quando o desfalque que algum criminoso dava na cidade era grande, certamente a Cassandra iria

Você vai saber por quê

53

lucrar um pouco com isso e seu agenciador também. No início, Cassandra apanhava muito de Jonas, “o grandão”, mas uma vez os dois investigadores a encontraram numa esquina toda cheia de hema- tomas e foram, então, ter uma conversinha com seu agenciador. Depois desse dia, ele nunca mais ousou encostar um dedo na moça e os policiais lucraram, porque encontraram uma grande agente dupla. Mas, realmente, os investigadores não acreditavam cegamente no que ela falava, porque,

como dizia Alberto: - Prostitutas gostam de duas coisas: apanhar do cafetão

e dinheiro

O resto é balela!

- Comigo está tudo bem e pelo visto com vocês também!

- Com a gente também? Por quê? – Perguntou Alberto.

- Porque vocês apareceram na TV. Prenderam “o monstro do Butantã”!

- Ah, mas isso não é nada. – Falou Teixeira enchendo seu copo de cerveja.

– Essa é a nossa obrigação, nosso ganha-pão!

- E aí? - Falou Cassandra atropelando a conversa. - O cara estuprou a

menina?

- A gente não sabe ainda, Cassandra, mas tudo indica que sim. –

Respondeu Alberto espetando um pedaço de carne seca e oferecendo para a moça.

- Não, obrigado! – Agradeceu Cassandra para, em seguida, fazer mais

uma pergunta: - encontraram esperma na vítima?

- Uai, caralho! Você virou investigadora agora, é? – Falou Teixeira

olhando para Alberto.

- É que eu sou fascinada por essas histórias de crime e violência. –

Desconversou a prostituta. – Mas vocês acham que ele fez as coisas sozinho?

- A gente não sabe de nada ainda Cassandra. – Disse Alberto olhando

para a bela mulher a sua frente. – Por quê? Você sabe de alguma coisa?

- Não. Dessa vez, eu não sei de nada. O assassino não era aqui da região

da Boca do Lixo, então, eu não tive contato com esse caso. Mas, se aparecer alguma coisa eu, falo com vocês. À medida que ia falando Cassandra, já ia se despedindo com o olhar e com gestos para, em seguida, sumir no meio da multidão.

- Engraçado, né, Albertão? Por que será que ela ficou tão interessada nessa história a ponto de vir aqui falar com a gente?

54

André Mansim

- Não sei não, Teixeira, mas acho que essas cenas de morte com

mulheres bonitas devem mexer com a cabecinha dela. Afinal, ela passa por perigos similares todos os dias.

- É, pode ser. Quer saber de uma coisa: acho que vou começar a tomar

guaraná porque a cerva já começou a dar sinal de vida aqui na minha cabeça.

Carlão, traz um guaraná aí, com limão e gelo! Alberto espetou mais um pedaço de carne seca e, olhando para a mesa, falou para Teixeira:

- Você viu do outro lado da rua encostado na parede, ali perto daqueles moleques fumando crack?

- Vi desde a hora que ele chegou.

- É o tal Jonas, o cafetão da Cassandra. O cara não tirou os olhos dela

enquanto ela conversava com a gente.

- Será que não tem nada de errado mesmo, hein Alberto?

- Acho que não. – Falou Alberto sem raciocinar direito, pois o álcool já

dava sinal dentro de si. - Ele só estava olhando porque tem cisma da gente desde aquele dia em que demos aquele corretivo nele. Talvez seja isso, ou só curiosidade de saber o que sua prostituta estava conversando com dois

investigadores. Teixeira pegou uma torrada, colocou cebola, um pedaço de carne

seca, um pedaço de mandioca por cima, enfiou tudo na boca e falou soltando pedaços de pão pra todo lado:

- É, deve ser isso mesmo.

*****

Logo pela manhã Teixeira já chegava à casa de Alberto com o som do

carro bem alto, tocando o CD da banda Calypso. Ele estacionou o carro em cima da calçada e foi entrando porta adentro gritando:

- Ô de casa, o Teixeirão chegou!

Bóris, o cachorro de Alberto, que detestava a barulheira que Teixeira fazia, já veio doido pra cima do investigador, que só teve tempo de correr até a porta e entrar batendo-a na cara do cachorro.

- O Teixeirão chegou! – Repetiu o investigador já dentro da sala.

Você vai saber por quê

55

- Como se existisse a chance de alguém, na rua toda, não perceber você

chegando, né Teixeira? - Respondeu dona Carminha que estava acabando de

passar o café.

- Oi, dona Carminha! - Falou Teixeira abraçando, amassando e dando vários beijos em sua bochecha. - A veinha mais linda da cidade!

- Velhinha é o seu passado! - Respondeu a mãe de Alberto colocando

uma xícara de café para Teixeira. - Posso saber aonde você e o Albertinho foram ontem, que ele chegou aqui bêbedo? Dona Carmen, mãe de Alberto era uma senhora de 70 anos, lindíssima,

lúcida e trabalhadora. Ela foi uma costureira respeitadíssima da alta costura paulistana e até hoje era lembrada quando alguma noiva precisava de um vestido exclusivo. Baixinha, mas muito esbelta nem de longe lembrava o filho Alberto, que é alto, branco avermelhado, como um alemão saído de uma trincheira da Segunda Guerra. “Puxou ao falecido pai!” Sempre explicava ela, quando alguém via os dois juntos em algum lugar. Seu sonho era fazer o vestido de noiva para a futura mulher de seu filho, mas Alberto, criado como um bibelô pela mãe, com a rigidez e educação esmerada, era um pouco tímido demais, por isso, seus namoros não passavam de poucas semanas ou meses.

- Fomos dar uns rolés por aí. - Disse Teixeira abrindo um pacote de bolo

de fubá que trouxera da padaria junto com pãezinhos e mortadela para dona

Carminha e Alberto. - Quero ver se arrumo uma namorada pro seu filho que já tá passando da hora. Ele anda muito chato.

- Não sei não! -Retrucou dona Carminha - essas meninas periguetes que

você traz aqui em casa, de vez em quando não são boas pro meu filhinho não.

- Seu filhinho? - Falou Teixeira infernizando a velhinha. - Um homem

barbado de quarenta anos? A senhora tem que liberar ele pro mundo e se ligar mais em pegar no pé pra ver se ele deixa de fumar. Ele parece um dragão soltando fumaça pelas ventas.

- Ah, Teixeira - ponderou a senhorinha -, isso aí é meu maior desgosto.

Tanto que eu e o falecido pai dele explicamos que cigarro faz mal pra saúde, e ele nunca deu ouvidos pra gente.

- Como os fofoqueiros adoram falar de mim quando não estou por per-

to, né? - Falou Alberto saindo do banheiro e arrumando a gola da camisa.

56

André Mansim

- Vixe Alberto! Que cara mais amarrotada! Parece até que alguém te

amassou essa noite - Falou Teixeira maliciosamente, para em seguida, virar-se para dona Carmen. – Carminha! Eu acho que a senhora tem mesmo razão: o

meninão aí tá precisando de casamento mesmo.

- Dãããããã, que engraçado que é você, né Teixeira? - Disse Alberto

irritado. - Vamos logo pro trabalho, que dois falando na minha orelha eu não aguento.

- Tchau, Carminha - falou Teixeira dando-lhe um beijo na testa.

- Tchau, mamãe - falou Alberto - a benção!

- Deus te abençoe, meu filho, e cuidado com esse maluco dirigindo por

aí!

Os investigadores resolveram no caminho que, antes de ir para a delegacia, iriam passar na casa de Maicon pra ver se ele havia descoberto alguma coisa no computador de Fausto.

*****

- Meu filho fez algo errado de novo, policiais? - Perguntou a mulher assustada com essa visita matinal.

- Não. - Respondeu Alberto apertando-lhe a mão em cumprimento

de bom dia. - Na verdade, ele está ajudando a gente numa investigação complicada.

- Vocês me assustaram. Esse menino voltou a ficar o dia inteiro no

computador e eu já estou preocupada de novo. Essa noite ele foi dormir depois

das quatro horas da madrugada.

- Fica tranquila! - Falou Teixeira sorrindo. - Por enquanto, a nossa visita é amigável.

- Esperem um pouco aqui, na sala, que eu vou lá chamar o Maiquinho. -

Disse a mulher apontando para o sofá. Vocês aceitam um café? Os policiais fizeram que não com gestos e a mãe de Maicon, então, foi ao quarto do filho. Quinze minutos depois, o adolescente aparece na sala com cara de zumbi cibernético e senta-se na poltrona ainda acordando e tentando

colocar as ideias em ordem. Em seguida, apareceu sua mãe de roupa trocada para ir trabalhar.

Você vai saber por quê

57

- Vou deixar vocês aí conversando, porque eu tenho que entrar em

serviço daqui a dez minutos e, se eu não correr, não vai dar pra bater o ponto.

- Tchau, senhora – disse Alberto educadamente – pode ficar tranquila

que a gente não tem nada contra seu filho! O que a gente falou dele estar ajudando numa investigação, é verdade. Então, a mãe do hacker deu um beijo em seu rosto e saiu apressadamente.

- E aí, espinhento? – Falou Teixeira com o menino. – Descobriu alguma

coisa?

- Acho que descobri. – Falou o hacker pegando um papel dentro do bolso

da calça. – Aqui, ó! Eu tive que entrar nos arquivos temporários da máquina do tal do Fausto e rastrear seus cookies. A partir desse rastreamento, teve

como seguir as pistas de todas as páginas que ele entrou na Internet, até que encontrei uma conta de e-mail que é fausto230stockman@zap.com.

- Tá! E aí, o que você encontrou?

- Entrei no e-mail e

- Como entrou no e-mail sem a senha do cara? – Perguntou mais uma vez Teixeira mostrando apreensão.

- A máquina me falou a senha.

- Como assim, te falou a senha?

Agora quem interrompeu foi Alberto fechando a boca de Teixeira com

a mão e falando:

- Deixa o menino falar, Teixeira, você não cala a boca um segundo, pô! O menino, então, com um sorriso nos lábios, continuou:

- Policial, tem umas coisas que nós hackers sabemos que não dá pra

ficar contando assim para os outros. Uma delas é de onde vem a fala das

máquinas e onde elas escondem as informações que necessitamos. E com uma breve pausa consentida pelos investigadores ele continuou: – então, como eu ia dizendo, entrei no e-mail do Fausto e vi nos seus arquivos que, realmente ele recebeu uns e-mails e entre esses e-mails, estavam lá os do tal justiceiro. ama@hotmail que diziam exatamente o que o cara falou pra vocês: “Você vai saber por quê”.

- Tá! – Não se conteve Teixeira – mas até ai a gente já sabia.

Maicon fez uma cara de poucos amigos e continuou agora abrindo e

58

André Mansim

ligando o notebook:

- Como eu ia falando, rastreei o e-mail desse tal de justiceiro e cheguei

até o provedor dele. Então, foi só invadir os dados cadastrais do provedor e

ver qual o endereço do cara. Simples assim!

- E dá pra confiar em endereços de dados cadastrais de provedores? – Perguntou Alberto.

- Não dá. – Respondeu o menino dando de ombros. – Mas como

ele colocou seu nome corretamente quando se cadastrou no provedor, eu

confrontei com os dados da companhia de telefone e vi que, realmente, aquele era o endereço.

- Você entrou nos dados da companhia de telefones? – Indignou-se

Teixeira. – Que moleque fodido, esse!

- Entrei para concluir a pesquisa, apenas isso. Então, anotei aqui o nome

do cara que mandou os e-mails e o endereço. Maicon, então, passou um pedaço de papel para as mãos de Alberto onde se lia: “Antonio Batistelli do Carmo, Av. João Castor nr. 300 Vila Aurora”. Alberto leu e passou o papel para Teixeira que leu também e anotou em sua caderneta.

- Então, é isso, policiais! – Falou Maicon em tom de despedida. – Eu já fiz o que me pediram e Teixeira cortou a fala de Maicon pela metade dizendo:

- Nananinanão, meninão! Eu quero que você investigue mais esse

notebook aí, até que não fique nada importante escondido. E tem outra coisa:

o suspeito falou que recebia telefonemas de madrugada, falando a mesma coisa: “Você vai saber por quê”, então, eu quero que você entre de novo nos dados da empresa de telefone e veja se essas ligações eram do mesmo local dos e-mails.

- Tá me pedindo pra invadir as ligações que são protegidas por lei como sigilo telefônico?

- Estou apenas investigando um crime de uma forma alternativa. Faz o

que eu mando e não faça o que eu faço que já tá bom demais.

- Isso não fazia parte do nosso combinado! – Reclamou o menino.

- Por isso que eu estou combinando agora, espinhoso! – Falou Teixeira

pegando nas duas bochechas do hacker fazendo um biquinho irônico. –

Você vai saber por quê

59

Maiquinho, menino bonito da mamãe!

*****

Os investigadores saíram da casa do hacker decididos a procurar pelo novo suspeito. Em suas cabeças as coisas começaram a ficar mais confusas a

partir das novas informações, que pareciam testificar a história do suspeito principal. Agora o que parecia apenas um crime de estupro seguido de morte, ganhava contornos diferenciados. Vingança? Formação de quadrilha? Seitas religiosas diabólicas? Essas e outras questões começaram a martelar em suas cabeças. No carro de Teixeira, o clima deveria ser mais feliz, porque na pior das hipóteses, eles estavam no caminho certo, só que o semblante dos investigadores não mostrava esse avanço na investigação.

- Teixeira, - falou Alberto raspando a garganta para ajeitar as cordas

vocais cheias de pigarro - não é isso que a gente queria, ou seja, salvar um inocente de ser indiciado por um crime que não cometeu? Então, é isso que vamos fazer. Não adianta agora a gente ficar de cara amarrada pensando que arrumou sarna pra se coçar; a gente tem é que fazer o nosso trabalho e pronto.

Teixeira abriu o porta-luvas de seu carro, e escolheu um CD entre ao vários CDs piratas que tinha. Optou para o momento, o da DJ Tati Quebra-

Barraco, para o desespero de seu amigo. Colocou-o bem alto e olhando para seu parceiro falou:

- Alberto meu amigo, entramos na chuva e agora temos que se molhar!

- Nos molhar! Corrigiu Alberto.

- Você entendeu, não entendeu? Então, como eu ia falando, e quando

um burro fala o outro abaixa a orelha, vamos atrás do tal do Antonio pra ver qual é a desse cara, e depois a gente vai pulando de galho em galho até resolver todo o caso.

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André Mansim

11

Berinjelo foi até a guarita que fica dentro do pátio usado para o banho de sol dos detentos e olhando tudo ao seu redor, passou furtivamente um papel para o vigia que leu e rapidamente falou algo em seu ouvido. Dali, Berinjelo caminhou tranquilamente até o outro lado do pátio onde Hector se divertia numa animada partida de dominó. Do meio do pátio, Fausto conversava com Ferrugem, mas prestava atenção em tudo o que acontecia. Então, para ter uma visão melhor, ele puxou Ferrugem para um dos bancos de cimento que ficam ao lado da mesa, onde se disputava a animada partida que Hector participava. Disfarçando, Fausto não tirou os olhos do negrão, até que ele parou a uns quatro metros de Hector, que prontamente se levantou e abraçando-se ao amigo grandalhão foi caminhando e conversando baixinho justamente para o local onde antes Fausto e Ferrugem conversavam. “Puxa, que porcaria!” Pensou Fausto tentando não perder nenhuma

ação.

De repente, Berinjelo veio ao encontro de Fausto e Ferrugem falando calmamente:

- Enferrujado, o Hector está te chamando ali, no meio do pátio!

Fausto

fez

menção

de

acompanhar Ferrugem até onde Hector o

esperava e foi contido pelo grandão que lhe segurou pelo braço.

- Aonde você vai, meninão? Perguntou Beringelo em tom de chacota.

- Você não falou que o Hector queria falar com a gente? – Respondeu Fausto dando uma de confuso.

- Ué, garoto, você também se chama Ferrugem?

- Me desculpe, então, Beringelo! Eu entendi errado, só isso.

- Hummmm, tudo bem! Depois você lava minha camisa na hora que

entrarmos para a cela e tá tudo bem. Rapidamente Ferrugem conversou com Hector que voltou para sua partida de dominó e veio ao encontro dos dois amigos.

- Tenso isso, hein, Berinjelão? O pobrema parecia mais facim di resolvê

e agora o bicho tá compricano, véio!

Você vai saber por quê

61

- Calma! Falou o grandalhão, como um touro que rumina calmamente

seu almoço. – A gente dá conta tranquilamente. Você só tem que tomar cuidado

na frente de quem você fala as coisas. – Completou Berinjelo apontando para Fausto com a sobrancelha.

- Opa! Foi mal aí, gordão! Desculpou-se Ferrugem saindo de perto de

Fausto abraçado com Berinjelo e falando bem baixinho o restante do assunto. Isso deixou Fausto ainda mais maluco e confuso. Como é que eles estavam escondendo isso dele? Como é que eles estavam fazendo esse mistério todo? Que coincidência maluca: a doença que poderia lhe tirar das grades, agora o obrigando a investigar uma situação absurda e perigosa. Fausto não sabia o que fazer. A sirene tocou chamando todos para suas celas. Ao entrarem, Berinjelo

não se esqueceu da camisa, por isso foi logo retirando e falando para Fausto:

- Aqui, curiosinho, pode lavar minha camisa pra ver se enche essa sua

cabeça com alguma coisa, porque eu não gosto de gente com zóio comprido pro meu lado, não!

- Como assim, “zóio comprido”? - Falou Fausto tentando disfarçar.

- Não sei, mas acho que você está muito esquisito ultimamente.

“Era só o que faltava - pensou Fausto – agora, além de ficar maluco com essa doença, eu não posso deixá-los perceberem que eu sei que estão tramando algo”. O detento pegou a camisa do seu parceiro grandalhão e foi até o lavatório para lavá-la. Quando iria colocá-la de molho, percebeu que havia alguma coisa no bolso. Então, furtivamente, retirou um papelzinho amarelo que logo reconheceu ser o mesmo do pátio, e abrindo-o vagarosamente para que ninguém o visse, leu: “Mudança”. Sexta- feira às 2 da manhã. Cela 23 (solitária) na ala do “caldeirão do capeta”. A porta que divide os pavilhões vai estar encostada e sem vigia. Tempo para o serviço, 15 minutos.

62

André Mansim

12

O Omega preto de Teixeira estacionou lentamente em frente à casa do primeiro suspeito encontrado na investigação, Antonio Batistelli. Chegando do serviço, Antonio notou aqueles dois sujeitos mal- encarados que estavam parados, olhando para seu portão. Mesmo assim, ele estacionou seu carro em frente de casa, desceu ressabiado e tentou entrar

rapidamente, mas, quando colocou sua chave na fechadura do portão, escutou um homem falar:

- Antonio Batistelli?

O homem virou-se assustado e ao mesmo tempo curioso por lhe chamarem pelo nome.

- Sou eu! – Respondeu Antonio imobilizado pelo medo, mas, depois

de um instante de excitação, devolveu com uma nova pergunta: - Quem é o

senhor?

- Eu sou o investigador Alberto, e este aqui é o investigador Teixeira. Nós podemos lhe fazer algumas perguntas?

- P

perguntas pra mim? – Gaguejou o homem assustado. – Por quê?

- Nós estamos investigando a morte de Laura Soares. Já ouviu falar dessa pessoa?

- Sim, nós estudamos juntos da primeira até a oitava série. Mas, depois

disso, nunca mais nos vimos. Esses dias, eu fiquei sabendo da morte dela pela TV que deu uma ampla cobertura ao crime.

- Você estudou junto com ela!? – Exclamou Teixeira sem conseguir esconder seu espanto do interrogado.

por quê? Vocês não sabiam disso? – Disse Antonio gaguejando e

colocando a chave de novo na fechadura. – Então, onde eu me encaixo nessa investigação de vocês? Teixeira sempre usava a tática de agredir os suspeitos com as palavras

- P

e

quase sempre isso dava muito resultado, pois os criminosos perdiam a calma

e

acabavam falando alguma coisa que pudesse lhes complicar. Foi pensando

Você vai saber por quê

63

assim que o investigador atacou:

- Bela tática essa sua de já soltar que estudou com a moça pra parecer

um coitadinho que não sabe de nada – falou Teixeira batendo palmas – mas comigo isso não cola muito não! -

porque eu estudei com ela

o senhor deve estar me confundindo. Só

Mas in

investigador

Eu não s

sei de nada além do que passou na TV.

- Aí é que está! – Falou Alberto coçando a cabeça encabulado. – Existem indícios de que o senhor sabe bem mais do que parece ou diz saber.

- Nós estamos seguindo uma trilha de pistas que acabaram aqui, na

Avenida João Castor número 300. Não é esse seu endereço? – Perguntou

Teixeira colocando a mão no portão como se fosse segurá-lo para o suspeito não fugir casa adentro.

- Eu não estou entendendo.

- Você tem uma conta de e-mail com nome de justiceiro.ama@

hotmail?

- Gente, vocês estão atrás da pessoa errada. Eu nunca ouvi falar nada sobre isso que vocês estão falando. - O senhor pode nos acompanhar até a delegacia para um interroga- tório mais detalhado? – Perguntou Alberto educadamente.

- Claro que não! Eu não sei de nada e vocês não têm provas de nada

contra mim.

- Olha aqui, seu folgado! – Esbravejou Teixeira perdendo a paciência. –

Agora você não vai, mas, amanhã eu vou voltar aqui com uma ordem de prisão

e com um mandado de busca e apreensão, e tenho certeza que você não me escapa.

Alberto temia que esses rompantes de Teixeira aparecessem justa-

mente agora. Então, ele puxou o amigo que quase estava agredindo o suspeito

e levou-o até o carro. Depois voltou e se desculpando com Antonio que já estava do lado de dentro de casa:

- Desculpe os modos de meu parceiro, ele é meio nervosinho, mesmo!

Mas, realmente, amanhã a gente vai conversar mais formalmente e dentro da lei com esses mandados que ele falou. Acho melhor o senhor ir pensando em clarear bem as suas ideias e num bom advogado, porque existem provas contundentes contra o senhor.

64

André Mansim

O investigador, então, estendeu a mão para Antonio que, com um pouco

de medo, apertou-lhe a mão num cumprimento que procurou demonstrar frieza. Alberto sorriu da tentativa fracassada, e entrou no carro onde Teixeira esperava com seu rádio ligado. Enquanto o carro ia saindo bem devagar, Antonio de seu portão viu que Teixeira o encarou e apontou o dedo pra ele, simulando um revolver atirando, para depois, assoprar as pontas dos dedos sorrindo até virar a esquina.

- Teixeira, você é uma mula, mesmo – falou Alberto transbordando de

raiva – pra que você intimidou tanto o homem?

- Eu já achava que ele tinha culpa no cartório antes de ver a cara dele,

mas agora que fiquei sabendo que ele estudou com a defunta, eu tenho é certeza que ele está no meio do negócio.

Nem falar direito você sabe, poxa!

E se ele fugir até amanhã?

- Que fugir, Albertão! Depois da minha mímica de atirador, ele deve

estar cagando nas calças. Ele não sai dessa casa hoje nem pra voltar pro trabalho. – Falou Teixeira em meio a uma gargalhada.

- Meio do negócio, meio do negócio

- Não estou achando graça nenhuma.

- E o que você acha graça na vida? Jogar vídeo game e assistir futebol.

Mais nada! Vou ter que conversar seriamente com a Carminha de novo viu.

Nesse momento da discussão, o celular de Alberto tocou. Era Thales do laboratório de criminalística. Alberto, antes de atender, virou-se para Teixeira dizendo:

- Abaixa o som aí, que é o Thales! Ele já deve ter alguma resposta dos exames que pedi pra ele. Teixeira abaixou o som e estacionou o carro para prestar atenção na conversa de Alberto, que atendeu o celular:

- Alô, Thales?

- Oi, Alberto, tudo bem?

- Tudo bem! E aí, alguma novidade?

- Tenho duas novidades pra você, meu amigo.

- Duas novidades?

- Sabe o exame dos espermas? Então! Os espermas são de duas pessoas

diferentes. A vítima foi estuprada por duas pessoas e não só por uma.

Você vai saber por quê

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*****

Os olhos do delegado Abdala pareciam não acreditar no que seus dois investigadores mais competentes estavam lhe falando. Até então, ele havia

confiado e atendido o pedido dos dois, e mandado Fausto para um local, onde esperaria um pouco antes de ser requerido seu julgamento, mas o delegado não sabia que a história era tão surreal.

- Peraí! - Falou o delegado colocando o dedo em riste para seus

subordinados. - Vocês dois estão querendo que eu arrume um mandado de

busca e apreensão à casa de um cidadão, só porque um hacker condicionou alguns e-mails enviados ao suspeito com o endereço dele?

- E também um mandado de prisão preventiva para investigação. -

Respondeu Alberto olhando firmemente para o delegado. O delegado bateu com as mãos na mesa e levantando-se da cadeira se aproximou tanto do rosto de Alberto que dava pra sentir seu hálito sabor café.

- Vocês não podem estar falando sério? Como eu vou explicar uma

coisa dessas?

- Olha doutor, - falou Teixeira entrando na conversa - ainda mais agora

que nos exames das camisinhas deu que a tal da Laura foi estuprada por duas

pessoas ao invés de uma, eu acho que a gente tem que ir atrás desse outro estuprador. O senhor não acha?

- Acho

- Então, uai!

- Então, uai? – Falou o delegado imitando Teixeira. - Então uai, que

primeiro tem que aparecer um suspeito de verdade a partir de provas concretas e não de um moleque metido a hacker.

- Mas doutor - falou Alberto em tom suplicante - a gente confia nas

informações do Maicon, e se a gente fizer a busca e não encontrar nada comprometedor na casa do tal Antonio, a gente parte pra outra.

Falou o delegado quase dentro do ouvido do investigador. - Aí o

cara denuncia a gente por abuso de autoridade, e “os home” vem é em cima de mim não de vocês!

- É

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André Mansim

- Mas doutor, como que isso é abuso de autoridade? Eu e o Alberto

estamos numa investigação e o cara é um suspeito, só isso. Então o delegado resolveu fazer o último teste, para ter certeza, de que os investigadores estavam seguros com o caso:

- Vamos supor que eu não arrume esses mandados, o que vocês vão fazer se confiam tanto assim, nas informações desse hacker?

- Vamos conferir se o DNA do suspeito bate com o de alguma camisinha.

- Como que vocês vão “conferir” se por lei nenhum cidadão é obrigado

a criar prova sobre si mesmo?

- Doutor – falou Teixeira fazendo cara de maluco – nem que eu tenha

que arrancar um pouco de sangue dele na porrada pra fazer um exame de DNA. Mas que eu arrumo um jeito, ah, isso eu vou arrumar. Diante dessa afirmativa, o Dr. Abdala sabia que eles estavam falando sério e confiantes no que estavam pedindo. O delegado já os conhecia de longo tempo trabalhando junto e sabia que aquela dupla era determinada. Quando encasquetavam com alguma coisa, nada os tirava o foco, custasse o que custasse.

- Tudo bem, seus dois malucos, eu vou arrumar o mandado de busca

e apreensão, mas mandado de prisão preventiva ou temporária, não. O cara

não foi pego em flagrante e não existe prova nenhuma contra ele. Vocês sabem muito bem que isso não é legal, e que qualquer advogadozinho de porta de

cadeia solta ele em dois minutos com um pedido de habeas corpus. Então, vocês vão lá com o mandado de busca e apreensão, e se acharem alguma coisa que incrimine o suspeito, aí a gente vê quais atitudes temos que tomar. Estamos

combinados?

Alberto olhou para Teixeira, que fez uma cara de descontente.

- Estamos combinados? Repetiu o delegado gritando.

- Sim, senhor! Falou Alberto.

- Teixeira?

- Sim, senhor! – Respondeu Teixeira contrariado e pensando: “Mas que

bosta”!

- Vão embora da minha sala, agora! Amanhã, passem na escrivaninha

da Elizabeth pra saber quando a papelada vai estar pronta. Eu vou fazer uma

Você vai saber por quê

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petição para o juiz Dr. Oscar, que é meu amigo, expedir o mandado o mais rápido possível. Os investigadores sabiam que havia ganhado uma batalha: seu delega- do chefe era um sujeito muito conservador e agia sempre dentro de uma regra

policial e da constituição, que diz que todos são inocentes até que se prove o contrário.

- Alberto, vamos lá, ao refeitório tomar um café?

- Vamos. Tô doido pra acender um cigarro.

- Ixi, lá vem o bafo de cinzeiro velho!

Os amigos chegaram ao refeitório, Alberto correu para a garrafa de café e colocou uma grande porção no copinho de plástico que ficava na

porta-copo ao lado do filtro. Teixeira se serviu de um copo de água gelada e encostando-se de costas junto da pia falou olhando para o nada:

- Rapaz, você sabe que eu dificilmente erro uma fisionomia, mas até

agora eu não estou conseguindo me lembrar de onde, mas eu tenho certeza de que conheço esse tal de Antonio.

- Teixeira, sabe que eu estava com essa mesma impressão!

- Desde a hora que eu vi esse cara, que minha cachola tá a milhão pra

eu ver se lembro de onde é que eu conheço esse verme. Alberto, pegou seu maço de cigarros, retirou um, bateu com o dedo do lado do filtro, como sempre fazia e riscou seu isqueiro de corpo de marfim.

Enquanto a fumaça subia ao teto em forma de espiral, ele falou completando a frase do amigo:

- Engraçado isso de a gente achar que conhece o cara de algum lugar.

Acho que isso pode ser um bom começo. Mas por outro lado, se a gente for à casa do suspeito e não encontrar nada, o delegado vai ficar uma fera com a gente.

- É verdade. - Falou Teixeira, agora enchendo uma xícara de café. - Mas

sabe que eu acho que o “delega” tá sendo bem gente fina com a gente. Porque

se fosse eu, não sei não se acreditava em dois investigadores malucos assim iguais a gente.

- É. Ele tá se arriscando pela gente. Sabe o que eu acho, Teixeira? - Falou

Alberto enquanto deixava o ar irrespirável. - Ele é durão; tá sempre de mau humor, mas isso deve ser assim mesmo, senão a gente monta em cima dele.

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André Mansim

Teixeira, abriu o vitrô que ficava em cima da pia, ligou o ventilador, começou a se abanar, e com uma crise de tosse praguejou:

- Alberto, mas que caralho de cigarro de merda! Você tá falando que o

“delega” é legal porque já deve ter se esquecido da “comida de rabo” que ele te deu sobre esse assunto de fumar aqui na delegacia, né? Se ele entrar nessa fumaceira aqui, você vai ver o “santo-homem” que ele é. Puta que pariu! Vamos lá conversar com a sua namoradinha e falar pra ela agilizar esses papéis pra

gente.

Alberto, sorrindo, apagou calmamente seu cigarro na cuba da pia e

colocou a bituca no lixo. Raspou a garganta para limpar o pigarro, molhou a ponta dos dedos e passou no rosto dando uma refrescada. Depois, ajeitou a gravata e a gola da camisa e falou:

- Vamos lá!

Você vai saber por quê

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70

André Mansim

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Você vai saber por quê

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O livro é intitulado “Os Dias Voláteis”, por se tratar de um

período muito volátil de nossas vidas, que é a transição da juven- tude para a idade adulta. O protagonista, Carlos Manfredo Júnior,

às vésperas de completar a maioridade, vê-se a frente de um perío- do de sua vida que irá marcá-lo profundamente, um período de muitas transformações e descobertas e que, apesar de seu caráter de transitoriedade, deixa marcas profundas e um rastro indelével em nossas memórias em um torvelinho de emoções.

E, em meio a todas estas questões próprias da juventude, ele

se vê dividido entre a amizade e o bom senso, da fidelidade a um amigo ou a supervisão e admoestação paternas e a jovem de per- sonalidade forte que carrega consigo vários segredos ou a menina que é um completo mistério para ele, a qual deseja ardentemente encontrar que pode ser a resposta a todos os seus anseios mais pro- fundos e desejos mais secretos. A partir daí vários conflitos envolvendo Carlos e outros per- sonagens irão se deflagrar em sua jornada pelo autoconhecimento, abordando vários temas: a influência marcante dos amigos nessa época, o primeiro emprego, abismo entre gerações, drogas na es- cola e gravidez na adolescência. Tudo acontece em um ritmo vertiginoso, pois os dias parecem acelerar sua marcha com a conclusão de diversos acontecimentos, revelando o epílogo para todos os personagens e conduzindo a um final inevitável para o nosso protagonista.

Os Dias Voláteis

Autor: Marcelo Rua Edição: 2ª / 2013 Páginas: 350 Formato: 16x23 Acabamento: Brochura ISBN: 978-85-89206-43-3