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WITOLD KULA

TEORIA

ECONÓMICA

SISTEMA

FEUDAL

DO

EDITORIAL

PRESENÇ A

*

LIVRARIA

MARTINS

FONTE S

PORTUGAL.

 

BRASIL,

Título original TEORIA EKONOMICZNA USTROJU FEUDALNEGO PROBA MODELU (g) Copyright by Pánatwowe Wydawnictwo Naukowe, Varsóvia, 1962 Tradução de MARIA DO CARMO CARY

Reservados todos os direitos para a língua portuguesa ã EDITORIAL PRESENÇA, LDA. Rua Auguslo Gil, 35-A — LISBOA

Capítulo I

A QUE PERGUNTAS DEVE RESPONDER UMA TEORIA ECONÓMICA DO FEUDALISMO?

Diz Engels, no Anti-Duhring, que «quem tentasse redu- zir a Economia Política da Terra do Fogo às mesmas leis que regem hoje a economia da Inglaterra nada conseguiria pôr a claro a não ser uns tantos lugares comuns da mais vulgar trivialidade» *. Pode perguntar-se se esta afirmação não contradiz os fundamentos do legado científico de Marx e Engels. Há efectivamente na teoria por eles elaborada muitas teses que, por um lado, tanto se referem à economia da Terra do Fogo como à da Inglaterra dos meados do século XIX,

e que, por outro lado, não são nem nunca foram lugares

comuns para os seus criadores ou para o mundo da ciência da sua época. Pertence a esta categoria a tese de que as relações económicas dependem das forças produtivas e que

as alterações dessas forças revolucionam aquelas relações,

a teoria da mutabilidade e da sucessão ordenada das estru-

turas socioeconómicas, a ideia de que essa sucessão é acom- panhada por uma produtividade crescente do trabalho, e muitas outras ainda. Para que a frase de Engels, atrás citada, fosse congruente com a essência do legado dos cria- dores do socialismo científico, teríamos de aceitar que todas essas teses de aplicação universal pertenceriam não à economia política, mas sim à área correspondente da filo- sofia (o materialismo histórico). Nesse caso, na economia política propriamente dita, caberiam apenas teses válidas no máximo para a área de uma única formação socioeconó- mica. O que implicaria uma concepção partieular dos limites da filosofia e uma concepção particular das dependências

e das relações entre as diferentes disciplinas especializadas

(neste caso, a economia política) e a filosofia. Seja como for que solucionemos , esta dificuldade, é evi- dente — é mesmo um lugar-comum — que das muitas teses que se podem formular sobre a actividade económica huma- na, não poucas têm graus de aplicação cronológica e geográ-

fica diferentes, e que quanto mais vasto é o campo de aplica- ção dessas teses, mais restrito é o seu conteúdo. Embora, se- gundo parece, os criadores da economia clássica não tenham relevado esta verdade, os economistas ocidentais dos nossos dias conseguiram compreendê-la não só através das suas in- vestigações sobre a economia dos países socialistas, como também na economia contemporânea dos países subdesenvol- vidos, semifeudais ou dos povos primitivos. A nota específica do marxismo no que se refere a esta matéria pode resumir-se em duas afirmações: 1) existem relativamente poucas teses gerais de aplicação universal, sendo muito mais numerosas as teses de aplicação limitada no tempo e no espaço (prin- cípio que deriva da concepção da mutabilidade absoluta dos fenómenos sociais em todas as suas formas, incluindo os fenómenos da vida económica) e 2) a limitação no espaço

e no tempo da maior parte das teses económicas é definida

pelos limites dos próprios sistemas socioeconómicos (dado

o carácter integrante destes últimos na vida social).

Na sua forma extrema, a tese de que as leis económicas mudam em simultâneo com a mudança das estruturas socio- económicas desempenhou, como se sabe, determinada e importante função ideológica no período estalinista. Esta concepção iria impedir completamente a utilização de leis económicas universais (mesmo as de aplicação mais ampla, inclusive as marxistas) na análise da sociedade soviética. Por isso è que, em nossa opinião, é de grande transcendência cientifica e social afirmar que há no marxismo (ao contrário do que nos diz a Frase de Engels, atrás citada) toda uma série de teses de importância fundamental e nada triviais, que são de aplicação universal à actividade económica huma- na, ainda que convencionalmente as circunscrevamos ao campo da economia política ou ao da filosofia. Seria suma- mente útil para a ciência que se pudesse «codificar» *, em certa medida, o alcance dessas teses, seleccionando as que resistiram à prova das investigações científicas pós-marxia- nas e especialmente à prova da experiência histórica pós- -marxiana; dando-lhes também, para evitar os perigos do dogmatismo, a forma de indicações metodológicas, roais do que de leis.

Apesar de tudo o que acabámos de dizer, pareee-nos certa, no momento, a tese marxista de que a maior parte das leis económicas e justamente as de conteúdo mais rico, tem um alcance espacial e temporal limitado, geralmente circunscrito a um determinado sistema socioeconómico. Neste sentido Marx criou a sua teoria do sistema capitalista, enquanto Engels tentou criar uma teoria económica do sistema da comunidade primitiva à altura da ciência da sua época. No que se refere à formação de uma teoria económica do sistema socialista, ela foi impedida por fenó- menos bem conhecidos que travaram o desenvolvimento do pensamento científico marxista, obrigando-o a enveredar pela via empírica e pragmática e impondo-lhe o método das aproximações sucessivas, que esperavam em vão por uma síntese teórica. Só hoje é possível vislumbrar uma vira- gem neste campo. Por outro lado, a teoria do sistema feudal foi a que, até agora, menos atraiu a atenção dos investigadores mar-

. O problema é, no entanto, importante, tanto do

ponto de visita teórico, como do ponto de vista prático.

E importante do ponto ae vista teórico, em virtude da uni-

xistas

3

versalidade &ui generis do feudalismo (no sentido mar- xista do termo). Com efeito, todas as sociedades que ultra- passaram já a etapa da comunidade primitiva passam por

uma qualquer forma de feudalismo, enquanto a falta de universalidade do regime esclavagista é uma verdade

comummente admitida pela ciência marxista, depois do triun-

fo alcançado por B. D. Grekov na sua pugna homérica com

Pokrovski. O capitalismo surgiu de uma maneira «espontâ- nea», ou seja, sem que se tenha feito sentir a influência de algum capitalismo preexistente uma única vez na his- tória da humanidade. O mesmo se pode dizer do socialismo. Conhecemos, porém, no mundo diferentes feudalismos, sur- gidos em sociedades e épocas diferentes, independentes uns dos outros 4 .

A teoria do sistema feudal é também importante do ponto de vista prático, devido às suas numerosas e fortes sobrevivêncías em muitas nações; sobrevivências que pesam aind a hoj e n a economi a e n o conjunt o d"a vid a socia l d a maioria dos países a que se costuma chamar subdesenvol- vidos e cujos esforços no sentido de avançar pelo caminho do progresso económico transformam, perante os nossos olhos, a face do mundo. Daí o interesse despertado pelo funcionamento de economias deste tipo tanto entre os inves- tigadores dos países do Terceiro Mundo fa índia), como

entre os dos países avançados (E. U- A., Inglaterra, França, Alemanha, etc, e URSS). A elaboração de uma teoria económica do sistema feu- dal tem grande importância para a investigação histórica. Por um lado, o historiador do feudalismo — se a reflexão metodológica lhe não é totafmente alheia — sente como é inadequada a teoria económica do capitalismo ao abordar

o objecto da

sua investigação 5 ; por outro lado, a seu conhe-

cimento dos feudalismos antigos (menos acessíveis embora

à investigação, devido às muitas lacunas das fontes, mas

que têjn a vantagem de serem «puros», independentes das influências do capitalismo, do imperialismo e do socialismo) permite-lhe dar uma contribuição insubstituível para esta tarefa r \

Tem-se observado ultimamente, no Ocidente, uma recru- descência de interesse pela investigação comparada do

feudalismo. A obra precursora neste aspecto é, sem dúvida,

«La société féodale»

7

de Marc Bloch, e a «última palavra»

da ciência nesta matéria

— a obra colectiva dirigida por R. Coulborn 8 . Na União Soviética, o interesse teórico pelo feudalismo aumentou muito a partir do momento em que Estaline publi- cou os seus «Problemas económicos do socialismo na URSS». Como é sabido, Estaline formulou nessa obra aquilo a que

chamou «leis fundamentais» do sistema capitalista e socia- lista. O que implicava que, entre as muitas leis que é possí- vel descobrir e que regem o funcionamento da economia de cada um dos sistemas, uma e só uma tem «carácter funda- mental». Não se sabe ao certo o que é que Estaline entendia por «carácter fundamental». Tratar^se-ia de um elemento de definição do sistema («chamamos capitalismo ou socia- lismo a um sistema regido por esta ou por aquela lei») ? Ou talvez esse «carácter fundamental» assentasse na superio- ridade desta ou daquela lei relativamente a outras «não fundamentais», que derivariam em certa medida dessa lei

«fundamental» ? 9

(e também os de outros países socialistas) reagiram e puse-

Seja como for, os historiadores soviéticos

ram-se à procura de uma «lei fundamental do feudalismo».

A revista «Voprosi Istorii» abriu as suas páginas a uma

polémica prolixa sobre este tema e, como acontece fre- quentemente na ciência, apesar do ponto de partida e dos

objectivos serem falsos, acabaram por aparecer, no decurso desse debate, observações e generalizações interessantes e

acertadas

". O pressuposto em que se baseava a viagem de

é — pelo menos até este momento

1

Colombo era falso, mas a América que descobriu era dadeira ",

ver-

Se quisermos raciocinar sobre a teoria económica feudal,

teremos de esclarecer primeiro a que perguntas deve res- ponder uma teoria desta natureza, qual deve ser o seu âmbito

efectivo, a que perguntas deve responder qualquer teoria económica de qualquer sistema; e, finalmente, é preciso ver se o carácter específico de cada sistema implica que a sua teoria deva responder a certas perguntas também espe- cificas, inaplicáveis na análise de outros sistemas. De tudo o que anteriormente se disse pode depreender- -se que não é necessário incorporar na teoria económica de um determinado sistema teses relativas à teoria geral da economia (ou teses do materialismo histórico sobre a acti- vidade económica humana). Incluímos também nesta cate- goria a própria definição de sistema (neste caso, o feuda- lismo) , Dizer, por exemplo, que o feudalismo é um sistema assente na grande propriedade rural e em relações de depen- dência pessoal entre o produtor directo e o proprietário latifundista significa dar uma definição de feudalismo, mas esta definição pertence à teoria das formações socio- económicas, ou seja, a um aspecto da ciência geral da acti- vidade'humana. Além disso, a formulação de proposições

deste tipo sob a forma de leis científicas («sempre que encon- tramos o feudalismo, verificamos a existência da grande

propriedade rural evidentes.

Ponhamos portanto de lado todas as afirmações relati- vas a toda a actividade económica ou a formações antagó- nicas, numa palavra, todas aquelas teses cuja aplicação excederia os limites da época feudal, e procuremos formular os problemas essenciais que a teoria económica de qualquer sistema, e portanto também a do sistema feudal, deveria, em nossa opinião, abordar 12 .

determinado

sistema deveria

etc») eonduzir-nos-ia a tautologias

A nosso ver,

a teoria

económica

de um

explicar:

1) as leis que regem o volume do excedente econó-

mico 15

as leis que regem o emprego de métodos extensivos ou inten- sivos de produção, as que regem o grau de utilização das forças e meios de produção, a teoria do rendimento feudal); 2) as leis que regem a distribuição das forças e meios de produção, e sobretudo a do referido excedente (tncluem-se aqui as regras que regem toda a actividade de investimento,

e as modalidades da sua apropriação (por exemplo,

desde o estabelecimento de colonos até aos investimentos feitos na indústria, o problema da utilização produtiva ou improdutiva do referido excedente, etc.); 3) as leis que regem a adaptação da economia às con- dições sociais em mutação, ou seja, a dinâmica a curto prazo (adaptação da produção ao incremento ou à diminuição da população, a passagem do estado de guerra ao estado de paz, etc.); 4) as leis da dinâmica a longo prazo, de modo parti- cular os factores internos de desintegração do sistema em questão e da sua transformação noutro sistema. Nenhuma teoria estará completa se não contiver este elemento. E digno de admiração o facto de Marx ter sabido incluir esta problemática na sua teoria do capitalismo, apesar de esta ter amadurecido no período da primeira juventude do sistema capitalista. Forniulando de outra maneira estas mesmas ideias, poderíamos dizer que a finalidade da teoria económica de qualquer sistema consiste em formular as leis que regem o volume do excedente económico e a sua utilização (ponto 1 e 2), tendo em conta que ambas as questões têm de ser eluci- dadas na sua dupla dimensão: a curto e a longo prazo

(pontos 3 e

4).

Fica ainda por examinar um outro ponto, que consisti- ria na análise do funcionamento dos fenómenos de mercado (interno e internacional) e do seu papel no conjunto da vida económica da época feudal. Este problema deveria ser abordado com outro critério. Os aspectos nele abrangidos estão mais ou menos relacionados (o que depende princi- palmente da fase do sistema feudal que analisarmos) com as questões incluídas nos nossos quatro pontos. A conve- niência de separar esta problemática deve-se ao facto de ela dar origem a muitos mal-entendidos na investi- gação: muitas vezes não se percebe que os fenómenos de mercado na economia pré-capitalista se regem por leis por vezes completamente distintas, e sobretudo que é totalmente diferente a sua influência sobre o outro sector da economia, ou seja, o sector não mercantil, e portanto também sobre a totalidade da vida económica.

Ficam então por determinar:

o) o funcionamento

do mercado num

o mecanismo da influência do sector mercantil sobre

dos

fenómenos

meio não mercantil e não capitalista;

_b)

o não mercantil e vice-versa;

c)

a periodização destes fenómenos

de acordo com a

fase de desenvolvimento do sistema feudal, e especialmente em relação com os factores da sua desintegração, presentes

nos mesmos fenómenos.

Decidimos no entanto não abordar este tema, já que de outro modo o estudo de qualquer dos quatro grupos de pro- blemas atrás mencionados se tornaria irrealizável. Este pro- blema poderia também ser posto de outra maneira. O sis- tema feudal é um sistema em que predominam pequenas unidades de produção e uma economia natural. Pois bem, imaginemos um caso extremo: uma pequena exploração camponesa com uma economia totalmente natural que realizasse, quando muito, a reprodução simples e sem outros encargos além das prestações pessoais de trabalho ias cor- veias"). As possibilidades de análise teórica do fenómeno (en- tre outras razões por falta de fontes) seriam sumamente limitadas. O facto é que na prática, à escala social, um caso desses raramente se verifica. Só fenómenos como os esforços para aumentar o rendimento social, a luta pela sua distribui- ção, os processos de adaptação a curto e a longo prazo, possi- bilitam a análise teórica. E todos eles se processam não sem relação com os fenómenos de mercado. Os objectivos que acabamos de enumerar, que a nosso ver são aqueles que toda a teoria de qualquer sistema social se deveria propor, indicam claramente que antes de mais nada nos interessam os problemas da produção, o seu volume e utilização, a produção para Q consumo imediato e para o consumo futuro (os investimentos) e as alterações que, a curto e a longo prazo, afectam estes fenómenos. A dificul- dade está em que a produção que se efectua numa explora- ção fechada e isolada do mundo dificilmente pode ser investi- gada. De uma maneira geral, só o contacto entre os sujeitos económicos, as relações inter-humanas, que são essencial- mente relações de troca, possibilitam a análise científica, porque só elas criam fontes históricas e, o que é mais impor- tante, porque só elas permitem comparar os efeitos da acti- vidade e do comportamento económico dos diferentes grupos sociais. Ê por isso que a análise dos fenómenos do mercado ocupará um lugar importante no nosso trabalho, mas o seu propósito será sempre penetrar nessa zona oculta da vida económica de que a fontes quase não falam, mas que é a mais importante e decisiva: a produção.

Capítulo II

A CONSTRUÇÃO DO MODELO

A elaboração de uma teoria requer a construção prévia

de um modelo'. Esta questão gera muitos mal-entendidos nas ciências humanas em geral, e na história económica em particular.

A grande maioria dos historiadores não sente qualquer

necessidade de construir um modelo, e quando um deles o constrói, os colegas indignam-se. O mito da história como ciência do concreto, como ciência do acontecimento único,

o

mito da história descritiva e narrativa, a que só interessa

o

individual, tem conduzido ao alheamento e até à hosti-

lidade para com a construção de modelos. Não vale a pena citar exemplos. Até na-s investigações sobre a história dos preços houve autores que consideravam como uma fonte histórica utilizável a notícia de que em tal dia fulano tinha comprado uma quantidade X de arrobas de centeio a este ou àquele preço, enquanto o registo oficial dos preços dos cereais (H. Hauser) ou não era considerado como tal, ou pelo menos não interessava ao historiador. A concepção ideo- gráfica da história não implica apenas um método de inter- pretação dos dados; é uma atitude que determina todos os elementos e etapas do trabalho do historiador, a começar pela crítica das fontes e pela selecção dos factos. A ciência marxista, que em princípio é contrária à história ideográfica, na prática identificou-se mais de uma vez com essa atitude na investigação de épocas passadas. Concebida dogmatica- mente, a tese correcta de que «a verdade deve ser concreta» impediu muitas vezes a procura de novas leis.

Por outro lado, encontramos também na história da ciência uma atitude que peca por um extremismo de sentido

contrário. No Congresso de Heidelberga de 1903, Sombart, irritado com as críticas mesquinhas à primeira parte (que tratava da Idade Média) do seu Der moãerne Kwpitalis- tnus, exclamou: «Para tornar compreensível a vida econó- mica contemporânea, criei uma construção chamada «Idade Média». 32-me absolutamente indiferente a maneira como as

coisas se apresentavam realmente nessa época. Querer inva- lidar as minhas teorias com objecções extraídas de traba-

lhos históricos é absurdo» 2 . Não

letra, como expressão da atitude metodológica de Sombart, mas antes como uma exclamação lançada no fervor da dis- cussão; constituem, no entanto, uma expressão da atitude

que referimos. Para que a teoria a construir possa ser mais do que um

jogo intelectual, o sistema de premissas deve corresponder

a relações realmente existentes nas sociedades que são o

objecto do nosso interesse. A teoria construída só será

válida por referência a sociedades (conhecidas ou a deseo- fcrír no futuro') nas quais apareçam efectivamente os ele- mentos que introduzimos no nosso modelo. Quanto maior for

a quantidade de elementos incorporados no modelo, tanlo

mais rica poderá ser a teoria construída, mas tanto menor será também o número de sociedades por ela abrangidas.

Para os objectivos que pretendemos atingir, devemos considerar aqui as possibilidades de construção de modelos deste tipo a partir da observação de sociedades nré-capita- Ustas do passado, e da investigação das sociedades pré- -industriais atrasadas de hoje, cuja economia apresenta um baixo grau de comercialização. Nas investigações sobre os países atrasados de hoje,

o modelo mais generalizado e de maior utilidade (se bem

de Lewis s . Este modelo

assenta na delimitação de dois sectores: capitalist e de subsistance, segundo a terminologia do autor, que correspondem aos conceitos correntes de «sector comer- cializado» e «sector natural» 4 . No modelo de Lewis, todos os factores do sector comercializado são mais elevados: o capital, o rendimento per capita, a taxa de poupança e a taxa de crescimento. O sector «natural» é totalmente estático. Há uma série de instituições que têm por função manter este estado de desequilíbrio económico entre os dois secto- res. No sector comercializado, nor exemplo, há instrumentos institucionalizados que mantêm os salários a um nível superior ao que resulta da oferta de mão-de-obra. O único contacto entre os dois sectores é praticamente a oferta

que não esteja formalizado) é o

tomemos estas palavras à

de trabalho do sector «natural» ao capitalista, oferta excep-

cionalmente elástica: pode recorrer-se, em qualquer momento,

a massas suplementares de operários, que se podem des-

pedir, quando necessário, com a mesma facilidade, mandan- do-os de volta para o sector «natural». Todo o processo de crescimento deste modelo dá-se no sector comercializado, e o sector «natural» vai-se reduzindo simultaneamente até ser

absorvido por aquele. A utilidade do modelo de Lewis para a investigação dos

países atrasados dos nossos dias é notável, mas em certos aspectos limitada. O aspecto que desperta maiores objecções é a nítida disjunção entre os dois sectores e a sua extrema

contraposição 5 .

Em primeiro lugar, a divisão em sectores do modelo de Lewis coincide com a divisão por tipo de empresa,

sendo pois incluída no sector comercializado toda a indústria

e

a grande propriedade rural. Se adoptarmos como critério

de

classificação a importância que têm na gestão da empresa

os seus vínculos com o mercado, a classificação de Lewis será correcta. E„ no entanto, evidente que uma empresa industrial, e com mais razão ainda uma grande propriedade rural, actuam e calculam de maneiras diferentes no meio típico de um país atrasado. A divisão em dois sectores, a que Lewis atribui muito justamente uma importância primordial,

não corresponde a uma divisão das empresas, uma vez que, na maioria dos casos, a linha divisória passa peio meio de cada uma delas. E tanto assim que muitas vezes podemos pôr razoavelmente em dúvida se uma grande propriedade rural pertence ao sector capitalista ou não. O carácter específico do cálculo económico da empresa numa realidade «bissecto- rial» é aqui o problema mais importante e, sem o compreendermos a fundo, não podemos apresentar uma explicação dos obstáculos fundamentais que travam o cres- cimento económico autónomo da maioria dos países subde- senvolvidos fe particularmente daqueles que incluímos no grupo dos países pós-feudais).

Lewis tem evidentemente razão quando insiste nas possi-

bilidades ilimitadas da oferta de mão-de-obra. Formula no entanto este postulado de um modo demasiado abstracto.

O excesso notório de população do agro que produz essa

oferta de mão-de-obra, teoricamente ilimitada, é geralmente acompanhado por manifestações de extrema imobilidade da referida oferta. Para que essa oferta de mão-de-obra, teoricamente ilimitada, seja efectiva, é necessário que a sociedade camponesa tradicional se encontre num estádio

relativamente avançado de desintegração. Existiam efecti- vamente possibilidades ilimitadas de oferta de mão-de-obra, por exemplo, na Polónia, antes da última guerra, mas não as há, pelo contrário, no México de hoje °. Além disso, nem

sempre é certo que essa oferta de mão-de-obra coincida com factores institucionais que mantenham oa salários do sector comercializado acima do nível determinado, pela oferta. Onde essa oferta ilimitada existe efectivamente e não apenas em teoria, como, por exemplo, na Polónia de antes da guerra, os salários tendem a baixar, embora se mantenham sempre acima dos rendimentos médios da pequena exploração agrí- cola. Por outro lado, os salários mantêm-se a alto nível nos países onde factores institucionais e económicos obstam à transformação da oferta potencial em oferta efectiva. De resto, quando se constrói um modelo, é difícil abstrair de um fenómeno tão significativo e tão difundido na econo- mia dos países subdesenvolvidos como é a enorme ampli- tude do espectro salarial, que chega ao ponto de se poder falar de dois mercados de trabalho. Esta afirmação refere-se sobretudo ao trabalho qualificado (geralmente muito caro nesses países) e ao trabalho não qualificado (geralmente muito barato). Em muitos países, essa divisão é reforçada por diferenças étnicas e privilégios institucionais concedidos

a trabalhadores imigrantes «brancos» em relação aos «indí-

genas». E possível observar certos aspectos desse fenómeno na Polónia do século XIX e dos começos do século XX, por

exemplo, na região de Lodz ou na Alta Silésia, nas condi- ções respectivas do trabalhador alemão e polaco. Nalguns países subdesenvolvidos dos nossos tempos é essa uma das

manifestações de «economia dualista»

Finalmente, levanta também objecções o postulado de

. Se assim

fosse, a perspectiva do desenvolvimento económico desses

países seria mais triste do que o é na realidade,, JJáo é" certo que a pequena exploração agrícola nunca tenha possi- bilidades de reprodução alargada, de investimento e dfi. aumento da produtividade do trabalho. Na Birmânia, o State

T

.

que o sector «natural» é totalmente estável

8

Agricultural

Marketing

Bòcurâ, ao garantir aos agricultores

a venda de qualquer quantidade de arroz a preço fixo (infe- rior, embora, ao preço mundial), deu origem a um aumento

É

da produção da ordem dos 10%

sabido que toda a reforma agrária liberta grandes, possi-

bilidades de crescimento. E também não se pode introduzir

no modelo o fluxo da mão-de-obra do sector «natural» para

o comercializado, negando ao mesmo tempo a possibilidade

no decurso de 4 anos 9 .

de desenvolvimento das pequenas explorações agrícolas; justamente quando estas se libertam do lastro dos «braços supérfluos», elevam o grau de comercialização e acumulação, começam a ter possibilidades de investir e, por conseguinte, de aumentar a produtividade do trabalho e da terra; passam a constituir um mercado de venda para a indústria, ou seja, para o sector comercializado, etc. Por último, Lewis considera como um fenómeno positivo toda a transferência do sector «natural» para o comerciali- zado, uma vez que a produtividade marginal do trabalho no primeiro — devido ao excesso de população — é igual a zero. Dado que esta premissa é impugnável no caso de alguns países subdesenvolvidos, também a conclusão nem sempre será válida. Não se pode afastar «a limine» a existência de factores de crescimento no sector minifundista de um país subde- senvolvido. Esses factores são muitas vezes insignificantes

e actuam lentamente, é geralmente muito difícil fazer um

registo estatístico dos mesmos mas, quando actuam em escala maciça, desempenham frequentemente um papel importante na vida económica do país. A história económica, e especialmente a história econó-

mica marxista, compreendeu há muito o papel da capitaliza- ção, da comercialização e da intensificação da agricultura no período de emergência da sociedade industrial. Sabe- mos alguma coisa quanto a este ponto tanto a respeito da Inglaterra, como da Europa Central ou da Rússia. O histo- riador da economia dá-se perfeitamente conta das dificul- dades ingentes que o estudo dessa problemática encerra.

IS por isso que a colaboração entre o investigador da econo-

mia dos países subdesenvolvidos e o historiador da economia pode ser mutuamente proveitosa. Retenhamos então, do modelo de Lewis, sobretudo a divisão em dois sectores, coneebendo-a de uma forma um pouco diferente. A nosso ver, essa divisão é o ponto de partida da análise económica de qualquer sociedade pré- -industrial. Retenhamos também da crítica que fizemos a Lewis a distinção entre os países em que a desintegração da sociedade rural tradicional está avançada, em que a oferta efectiva de mão-de-obra é praticamente ilimitada e

o seu preço é baixo, e os países em que, apesar de haver

um excesso de população na agricultura, se observa uma mobilidade muito fraca da mão-de-obra e os salários são muito mais elevados.

Podemos citar como exemplo da construção de um modelo deste tipo, feito, neste caso, por um historiador e com finalidades de investigação histórica, a tentativa de F.

Mauro ,0 . O autor constrói o modelo para elaborar uma

do funcionamento da economia da Europa Ocidental, e parti- cularmente da Franqa, nos séculos XVI-XVTIT, que, segundo

ele, constituem o período do capitalismo mercantil, ou seja,

o período no qual a direcção e os lucros da produção estão nas mãos dos comerciantes e no qual — embora, como ê natural, nem toda a vida económica se reduza a isso —

o capital mercantil é o «sector motriz» em torno do qual

gravita a totalidade da vida económica do país. Os trabalhos de Labrousse e dos seus sucessores são, pa-

ra Mauro, a base sobre a qual constrói uma teoria da dinâmica

económica do capitalismo mercantil à escala macroeconómica. Deve-se-lhe seguir uma outra fase, de investigação micro- económica; estudos sobre a contabilidade das empresas, a relação preços-custos, o cálculo dos investimentos, a distri- buição dos rendimentos, etc.

Dada a sua aversão às generalizações teóricas, tão difun- dida entre os historiadores, Mauro julga necessário demons- trar a justeza dos seus postulados, afirmando que o estabe- lecimento de correlações eonstantes permitirá ao historiador compreender os casos em que não há documentação histó- rica, ligar os elementos conhecidos num todo coerente e, principalmente, estabelecer comparações com as leis que actuam no período seguinte (a que dá o nome de capitalismo industrial) e compreendê-las, portanto, melhor, uma vez que «para compreender a economia do presente é preciso compreender a economia do passado.

teoria

Mauro divide as leis económicas em:

1) leis universalmente válidas, que se aproximam mui- to das leis da lógica;

universalmente num dado

sistema socioeconómico, v. gr. o mecanismo do lucro como elemento inerente ao sistema capitalista; , 3) mecanismos próprios daquilo a que chamamos uma estrutura definida, como por exemplo o «capitalismo mer- cantil» no sentido atrás referido, ou seja, um sistema de relações que se manifesta em mais de um país, mas dentro de limites temporais e espaciais muito mais restritos do que os dos grandes sistemas socioeconómicos ".

2)

leis que se manifestam

Segundo Mauro, o método de análise adequado inclui três etapas: 1) macroanálíse estática; 2) microanálise;

3) macroanálíse dinâmica 12 . Daqui poderia deduzir-se que

o elemento impulsionador da economia social reside, segundo

ele, na actividade de entidades economicamente operantes («empresas»). Mas não é assim, porque no seu esquema a microanálise sucede à macroanálíse estática, de maneira que é esta última que deve proporcionar o «sistema social de referência» apto a explicar a actividade das empresas. Mauro constrói o modelo propriamente dito a partir dos seguintes elementos: 1} predomínio quantitativo da agricultura na economia do pais; 2) tendência ,para o esgotamento dessa agricultura; 3) elevado grau de comercia- lização, que proporciona aos comerciantes enormes possibi-

lidades de acção; 4) influência da actividade comercial sobre

a variação incessante dos factores do cálculo económico das

empresas agrícolas e industriais, que dependem grande- mente da comercialização, devido ao significado desta; 5) penetração gradual do capital mercantil na produção. Para os nossos objectivos, este modelo pode servir apenas como «modelo de contraste». Dada a falfa, de experiência neste sentido na ciência actual, resolvemos encarar a nossa tarefa de uma forma relativamente limitada, construindo um esque- ma de funcionamento da economia a partir do exemplo con- creto das relações económicas que prevaleciam na Polónia nos séculos XVI-XVIII, ou seja- na época em que predo- minava o sistema do domínio sennorial assente na servi- dão. Este esquema será aplicável, ao menos parcialmente, na análise de outraa entidades históricas? Não está provado que o não seja (por exemplo, para o caso da Hungria ou da Rússia), mas deixemos esta questão para uma investi- gação ulterior. Do conjunto das relações que prevaleciam na Polónia dessa época, incorporaremos no modelo, sob uma forma sim- plificada, os seguintes elementos: 1) o predomínio avassa- lador da agricultura na economia; 2) o facto de a terra não ser uma mercadoria, principalmente devido ao mono- pólio da propriedade rústica exercido pela nobreza, mas também porque a taxa de juro dos empréstimos em nume- rário supera a rentabilidade da exploração agrícola; 3) distribuição da totalidade das forcas produtivas na agricul- tura entre a aldeia e a reserva senhorial; 4) barreiras ins- titucionais eficientes contra a mobilidade social e geográ- fica, especialmente dos camponeses (servidão da gleba);

5) a maior parte das prestações do campesinato assume

a forma de trabalho; 6) produção artesanal e industrial

integrada quer na grande propriedade rural, quer em orga- nizações gremiais; 7) ausência de restrições jurídicas que

limitem a opção económica da nobreza; 8) forte propensão

da nobreza para o consumo de luxo, determinada por factores

inerentes ao regime social; 9) existência de países econo- micamente mais desenvolvidos num raio acessível à comuni- cação; 10) ausência de intervenção do Estado na vida econó-

mica (nem sequer por intermédio de taxas proteccionistas

ou medidas semelhantes).

A selecção e conveniência destes postulados, e sobre- tudo a sua formulação categórica, poderiam discutir-se inter- minavelmente. Ê certo que houve na Polónia aldeias perten- centes à burguesia, mas não só eram muito pouco numerosas, como ainda não é certo que o proprietário burguês as admi- nistrasse de forma diferente do nobre. Por outro lado sabe- mos com toda a certeza que os elementos de cálculo que tanto o burguês como o nobre tinham de ter em conta eram os mesmos (flutuação das colheitas, nível e flutuação dos preços, custos de transporte, etc). E certo que havia na Polónia uma classe, a que se chamava a pequena nobreza, que não possuía servos, mas esse fenómeno, sendo embora numericamente significativo, só aparecia em regiões bem delimitadas e duvido que a sua introdução no modelo pudesse alterar alguma coisa, fi certo que houve na Polónia campo- neses isentos de prestações, mas ninguém poderá afirmar que foi um fenómeno típico. Também é certo que havia nas cidades artesãos não integrados nas corporações, mas é natu- ral (se bem que a história da actividade artesanal na Polónia esteja pouco desenvolvida) que eles estivessem, por um lado, frequentemente sujeitos a uma dependência pessoal, e que, por outro, tal como o owíswíer face ao trus% não atentassem, até no seu próprio interesse, contra o monopólio das corpora- ções, aproveitando-se dele para venderem os seus produtos a um preço inferior — se bem que não muito inferior — ao estabelecido por aquelas. Poderiam multiplicar-se as objec- ções, mas deixemos ao críticos o ónus -proba-ndi.

Estes postulados poderiam também ser discutidos do ponto de vista da sua limitação geográfica e cronológica. Não se aplicam com toda a certeza aos territórios periféri- cos (Pomerânia, Ucrânia) nem a períodos extremos (pri- meira metade do século XVI e, possivelmente, segunda me- tade do XVTEI). O medo da crítica poderia induzir-nos a redu-

zir os limites no tempo e no espaço. Mas onde situá-los então? Será talvez preferível não o fazermos, e declararmos simplesmente que nos propomos abordar os aspectos domi- nantes da história económica da Polónia na Idade Moderna. A lista de elementos do nosso modelo poderia ser tam- bém muito mais extensa. Mas nessa altura seria necessário investigar se a incorporação dos elementos omitidos altera- ria os resultados da nossa análise, apontando para um fun- cionamento diferente do modelo. E ao pormos o problema dessa maneira, estou certo de que verificaríamos que os ele- mentos enumerados eram suficientes. Como se processa, neste quadro, a vida económica e quais as suas regularidades? Ê o que nos propomos mos- trar no nosso trabalho. E se o nosso raciocínio tiver de assen- tar, em mais de um caso, em bases empíricas relativamente fracas, isso deve-se ao facto de que o abundante material científico relativo à história económica da Polónia nos sécu- los XVI-XVHI não foi compilado do ponto de vista dos numerosos problemas que nos interessam. No caso de inves- tigações ulteriores invalidarem alguma das nossas hipóteses, será para nós motivo de satisfação o termos contribuído para esclarecer «como ê que as coisas se passaram na realidade».

conhece-se ao comer». O mesmo

acontece na construção de um modelo. Permitam-me pois

que cozinhe o manjar

que diga se a minha tentativa foi ou não fecunda.

«O gosto do manjar

e o leitor que aprecie

o sabor,

e

Capítulo IN

 

DINÂMICA

DE CURTO

PRAZO

O cálculo

económico

da empresa

feudal

Afirmações como: «Cada época tem as suas próprias leis económicas» ou «Para investigar um a realidade diferente são necessários instrumentos de investigação também dife- rentes» são frequentemente repetidas, sem que se faça uma reflexão crítica sobre o seu conteúdo exacto. Estas afirma- ções são no entanto correctas, e o facto de nem sempre

se lhes dar a devida atenção tem originado muitos erros. Surgem grandes dificuldades, de que às vezes não nos damos conta, sobretudo na análise do funcionamento econó- mico d a empresa feudal 1 . A análise da empresa devia, em princípio, proporcionar-nos respostas para as seguintes duas perguntas:

1) Quais são os resultados objectivos da actividade da empresa, ou seja, os produtos por ela elaborados repre- sentam um valop-maior do que a soma dos bens utilizados na sua produção? 2) Quais os motivos e a orientação da actividade do sujeito económico observado (e portanto, muito provavel- mente, também da dos sujeitos análogos) ? Neste sentido,

a análise de empresa é um método que pode e deve ser

aplicado a qualquer sistema económico a investigar. Por outro lado, não se pode — como o veremos mais adiante — aplicar, na análise da empresa feudal, métodos elaborados para a análise da empresa capitalista.

Os métodos de análise da empresa capitalista foram frequentemente utilizados na análise de empresas não capi~ talistas, tanto na Polónia como noutros países, e tanto em relação a material histórico como a países contemporâneos economicamente atrasados. O resultado, porém, foi sempre uma reãuatio aã ábsurdvm. Para explicarmos este ponto, passamos a apresentar os dados do balanço económico de uma propriedade senhorial média do sul da Polónia, que compreendia três unidades de exploração, nos anos de 1786-1798 (em zlotys: 1 zloty

= 30 grosz)

Receitas

em

\

dinheiro

(corveias)

,

13 826,20

7 388,27

6 580,03

Despesas em dinheiro

3988,14

3 354,22

4373,06

Lucro em dinheiro

9 838,06

4034,05

2606,27

Prestações pessoais

12 703,10

7 223,18

4180,24

Outras prestações dos camponeses

3 533,04

1290,24

330,15

Soma

das prestações

dos campo-

 

neses

16236,14

8514,12

4511,09

Valor

da

propriedade

-.

160000,—

61000,—

Lucro em dinheiro em % do valor

6,2%

4,3%

Taxa

de

monetarização •

24

%

32%

51

%

1

zloty

gasto anualmente

produz

 

u m

lucr o

anua l

d e

2,5 zl.

1,2 z.I

0,6 zl.

Gastos do senhor em dinheiro

3 988,14

3 354,22

4 373,06

Contribuição

das

prestações

pes-

soais

12703,10

7223,18

4180.24

Soma

dos

custos

de

produção

 

(mínimo)

16691,24

13 826,20

10578,10

8 554 —

Receitas do senhor em dinheiro

7 388,27

6980,03

Perdas

2065,04

3189,13

1573,27

Como vemos, esta empresa é rentável, e em alto grau, seja qual for o ponto de vista que presida à elaboração do cálculo. As duas reservas senhoriais, cujo preço de compra conhecemos, rendem anualmente mais de 5%, e se acrescen- tarmos a esse rendimento as prestações dos camponeses em espécie e em dinheiro, mais de 7%. Cada zloty gasto no decurso do ano rende quase 1,5 zloty, ou seja' 50% dos gastos correntes em dinheiro. O capital circulante é relati- vamente reduzido (11.716 zlotys 12 grosz por ano, enquanto duas das três propriedades custaram 221.000 zlotys!)

* Relagao percentual entre os gastos em dinheiro e a soma dos gastos em dinheiro+valor das prestações pessoais.

mas produz anualmente um lucro líquido de 16.479 zl. 8 gr. Acrescente-se ainda que os gastos em dinheiro no consumo pessoal da família do proprietário são reduzidíssimos, uma

vez que ascendem apenas a 1.948 zl. 2 gr. por ano

A situação apresenta-se, porém, de uma maneira com- pletamente diferente quando a considerarmos do ponto de vista do camponês. Os encargos anuais do camponês equi- valem a quase o dobro do lucro anual líquido do senhor. Os camponeses perdem portanto muito mais do que aquilo que o senhor ganha! O que acontece então ao resto? Calculando o custo social de produção daquelas três propriedades segundo regras capitalistas, teríamos de incluir pelo menos os gastos do senhor destinados à produção e o valor do trabalho com que os camponeses contribuem. O total ascende a 35.824 zl. 4 gr., enquanto as receitas totais em dinheiro só representam 28.195 zl. e 20 gr. E certo que a propriedade dava também um lucro não monetário, sobretudo na forma de consumo próprio do senhor e da família, mas, por outro lado, não incluímos nos custos diver- sos investimentos não monetários realizados tanto pelo senhor como — sobretudo — pelos camponeses. Do ponto de vista do senhor, a propriedade é muito rentável, já que deixa mais de 16.479 zl. 8 gr. de lucro líquido (dizemos «mais de», porque não podemos determinar a ordem de grandeza dos lucros monetários). Mas se incluirmos o custo do trabalho dos camponeses utilizado na produção, o balanço acusará uma perda anual de 7.618 zl. 14 gr., que na realidade é ainda maior, mas não estamos em condições de de- terminar o valor dos investimentos não monetários (por exem- plo, a conservação dos utensílios de trabalho e do gado nas explorações camponesas). E finalmente, se incluirmos o valor das outras prestações dos camponeses (além do trabalho), a perda anual atingirá os 12.782 zl. 27 gr.

Apesar disso esta «empresa» funciona durante anos e não abre falência, nem coisa que se pareça. O seu proprietário leva uma vida luxuosa e não limita os seus gastos monetários. Tem a arca cheia de dinheiro (nela entram anualmente 16.478 zl. 8 gr. de lucro líquido em dinheiro, enquanto os seus gastos em dinheiro para fins de consumo atingem apenas os 1.948 zl. 2 gr.). Nada indica também que a propriedade se vá desvalorizando *. Pode naturalmente admitir-se que se Verifica uma pauperização das explorações camponesas — as fontes nada nos dizem sobre isto —, mas são certamente mais frequentes os casos em que ela se não verifica. O senhor pode vender a sua propriedade em qualquer momento, e o

3

.

preço que receberá por ela dependerá unicamente do jogo da oferta e da procura de propriedades rurais nesse momento. Ao procurarmos índices adequados ao carácter especí- fico da empresa analisada, aplicámos, como se pode ver, alguns coeficientes «inusitados»:

monetários

com fins produtivos e o lucro monetário líquido, ou seja, calculámos o lucro anual líquido produzido por um zloty gasto com fins produtivos; 2) Calculámos aquilo a que chamámos «taxa de mone- tarização da produção», ou seja, o índice que nos mostra a im- portância dos gastos produtivos em dinheiro dentro do conjunto dos gastos produtivos, e, como nos era impossível calculá-lo com uma exactidão absoluta, considerámos como aproximação verosímil a relação entre os gastos monetários e a soma destes mais o valor das prestações pessoais.

1)

Calculámos a

relação entre

os gastos

O primeiro destes índices é relativamente verídico, uma vez que a contabilidade dos nobres — despreocupada em matéria de investimentos não monetários — regista escrupu- losamente as receitas e despesas monetárias. O segundo destes índices é com toda a certeza exagerado, uma vez que conhecemos com bastante exactidão os gastos monetários, enquanto os gastos produtivos globais eram certamente maiores do que a soma dos gastos em dinheiro e do valor do trabalho prestado pelos camponeses. Dado que havia, porém, em todas as propriedades gastos não monetários para além do trabalho, este coeficiente mantém o seu valor informativo. Convém insistir no facto de que os dados apresentados sugerem que existe uma relação inversa não só entre o grau de monetarização do processo de produção e a rentabilidade monetária (o que não é de estranhar, uma vez que tal se depreende do próprio pressuposto), como também entre o grau de monetarização e a rentabilidade em geral. O coefi- ciente de monetarização da produção é de 51% em Moczerady, mas apenas de 24% em Izdebki, porém um zloty investido na produção rende em Izdebki 2,5 zl. de lucro líquido, enquanto em Moczerady rende apenas 0,6 zl., e o rendi- mento produzido pelo capital investido na compra da propriedade equivale a 6,2% em Izdebki, enquanto em Moczerady é só de 4,3%. Esta importante questão exige, evidentemente, uma verificação assente em material mais amplo \

Voltemos porém ao problema da rentabilidade da em- prega. No exemplo citado, a empresa mostrou-se altamente rentável quando considerámos apenas o aspecto monetário,

e claramente deficitária quando incluímos no cálculo uma

avaliação dos custos não monetários. Pode considerar-se este um resultado típico*. Ao analisarmos uma empresa feudal, obtemos quase sempre resultados semelhantes.

Este problema, que aparentemente tem a ver com a técnica de investigação, é, na realidade, muito mais vasto

e toca em questões teóricas fundamentais. Por um lado diz respeito a todo o tipo de empresas cuja actividade não

. Por outro lado, toca

numa questão de carácter essencial: o cálculo económico e a racionalidade das decisões económicas em sistemas que não assentem no livre jogo dos fenómenos de mercado.

Teremos ocasião de, mais adiante, voltar a todas essas questões.

A dificuldade referida não respeita porém apenas ao aspecto do trabalho obrigatório; pode aplicar-se a todos os elementos da produção não adquiridos no mercado. Tomemos o exemplo da madeira. Em 1785 um tal Tor- zewski publicou, em Berdyczow, um manual polaco de fabri-

co de vidro

assenta no trabalho assalariado

7

. Esse manual, redigido sob a forma de diálogo,

começa com uma cena em que o Alcaide (símbolo do pro- prietário fundiário abastado) elogia, perante o senhor Wia- domski (porta-voz do autor), o modo de administração que introduziu nas suas propriedades. Menciona como a maior

vantagem do sistema aplicado, a auto-suficiência das suas propriedades (não precisa de comprar quase nada). Dirige-se

a Wiadomski pedindo-lhe conselho numa única questão:

como aproveitar os muitos bosques que possui, onde as

árvores crescem sem qualquer proveito e a madeira se des- perdiça? Wiadomski apresenta-Ihe então o projecto de cons- trução de uma fábrica de vidros em cujos fornos poderia apro- veitar a madeira como combustível. E interessante o facto

de Wiadomski justificar o seu projecto com o argumento de

que existe um mercado local para artigos de vidro s ; por outro lado, a maneira como o Alcaide formula o problema indica que, nesse período, não havia, nessa região, possibilidade

de vender madeira em bruto. Para o Alcaide, essa madeira é de momento inútil e, portanto, desprovida de valor. Aceita com grande alegria o projecto de a queimar numa fábrica de vidros.

Que lição podemos tirar deste breve diálogo, certamente realista? A situação descrita nesta cena indica que a decisão

8

económica de utilizar a madeira como combustível numa fábrica não é uma opção económica, uma vez que o Alcaide não tem, ou, pelo menos, não vislumbra nenhuma outra possibilidade. A maneira de formular esta tese é evidente- mente um tanto ou quanto paradoxal. A construção da

fábrica de vidros pelo Alcaide é, ao fim e ao cabo, uma opção económica. O que este diálogo inegavelmente demonstra,

é que se pretendêssemos fazer o balanço da fábrica de vidros atribuindo à madeira nela queimada o preço que o Alcaide

ou o seu vizinho teriam de pagar para a comprar, obtería- mos resultados exorbitantes. O proprietário de um bosque situado nas margens de um rio navegável, antes de construir, por exemplo, uma fábrica de vidros, tem de calcular se ganha mais transportando a madeira a flutuar até ao porto ou vendendo o vidro obtido mediante a combustão dessa mesma madeira (tendo em conta a diferença de outros custos rela- cionados com ambas as operações). Mas o Alcaide do manual de Torzewski não raciocinava nestes termos. Que instru- mentos de cálculo devemos pois aplicar às suas decisões

económicas?

A plena possibilidade de escolha só existe num mer- cado «perfeito». Mas o mercado «perfeito» é uma abstrac-

ção teórica da qual se afasta em diferentes pontos, inclusive

a própria realidade capitalista liberal. Aplicar essa abstrac- ção ao estudo da economia feudal é um anacronismo crasso. Mas numa economia pré-capitalista as pessoas também fazem cálculos, ainda que à sua maneira. Sombart não tinha razão ao considerar a contabilidade como uma invenção «do espírito capitalista». Talvez que em épocas pré-capita- listaa se tenham mais frequentemente em conta motivos extraeconõmicos, mas não é certo também que esses motivos sejam de todo dispiciendos no capitalismo. Como investi- gar, então, o cálculo económico pré-capitalista e as leis da actividade económica que lhe são próprias? Com base no estado actual da ciência, podemos formular

a suposição de que, se fizéssemos o balanço de uma «empre-

sa» feudal (latifúndio, grandes propriedades, reserva senho- rial ou manufactura) utilizando os métodos da contabilidade capitalista, ou seja, atribuindo um preço a todos os elementos que entram na produção e adquiridos no mercado 10 (terre- no, edifícios, matérias-primas, etc) , teríamos de concluir, quase sempre, que essa empresa funcionava com perdas. Se, pelo contrário, fizéssemos esse cálculo sem ter em conta esses elementos, o balanço revelaria geralmente lucros enormes.

Daqui poder-se-ia inferir que a diferença entre estas duas grandezas poderia ser a medida do desperdício social. Afirmar tal coisa seria certamente uma simplificação ex- cessiva. O problema é mais complexo. Antes de mais, temos de reconhecer que o primeiro desses resultados é completamente absurdo: todas ou quase todas as «empresas» de um país não podem funcionar durante muito tempo quase constantemente com défice, quando, por outro lado, se não observam indícios de uma decadência económica catastrófica do país. Mas o segundo resultado, no qual todas ou quase todas as empresas apresen- tam constantemente enormes lucros, sem que se observem simultaneamente indícios de um grande progresso da econo- mia nacional, é igualmente inverosímil. No primeiro caso, aplicando o método capitalista de con- tabilidade, obtemos custos manifestamente exagerados. Na economia capitalista é lícito (com certas reservas, por exem- plo, em relação à economia minifundista) calcular a preço de mercado os elementos não comprados que entram na produção, uma vez que a fórmula: «se tivessem passado pelo mercado, o preço de mercado não teria variado» não se afasta muito da realidade. Ou seja, temos razões para supor que o proprietário dos ditos elementos (matéria-prima ou mão-de-ohra), em vez de os utilizar na produção, poderia vendê-los no mercado ao preço corrente. Este raciocínio aplicado ao feudalismo é absurdo. Como vimos para o exem- plo da madeira numa região sem vias de navegação, frequen- temente não havia qualquer possibilidade de vender deter- minada matéria-prima no mercado, e essa matéria-prima não podia portanto ser efectivamente considerada como uma «mercadoria». Suponhamos, por outro lado, que toda a mão- -de-obra da Polónia do século XV111 passava pelo mercado; o seu preço situar-se-ia então muito abaixo dos preços efecti- vamente pagos na época à parte reduzida dâ massa dos trabalhadores que trabalhavam a troco de um salário.

No segundo caso — ou seja, excluindo do cálculo de custos os elementos não adquiridos no mercado — os custos ficariam reduzidos ao mínimo, tendendo para o zero em casos extremos. Na manufactura de panos dos Radziwill em Nieswiez — caso investigado por mim — o único gasto mone- tário relacionado com a sua fundação foi praticamente a compra de corantes em Koenigsberg. Não há dúvida de que este cálculo também deforma a realidade. A deformação será mais evidente se recordarmos um fenómeno muito conhecido

na história do latifúndio polaco, a «degradação» da proprie- dade, tantas vezes motivo de acusações aos admi- nistradores e aos rendeiros. Traduzida em linguagem económica, a «degradação» significa a diminuição da capa- cidade produtiva que essa propriedade representa potencial- mente. Como se sabe, os processos por «degradação» eram extremamente confusos e era muito difícil provar ou refutar a acusação. O que não é de estranhar. A contabilidade de então tinha regras elaboradas e uniformes apenas no que se referia ao aspecto monetário das receitas e das despesas, mas em geral não tomava em conta o valor da propriedade

facto não cons-

titui uma mera expressão da falta de «sentido de cálculo» ou de conhecimentos económico-matemáticos. A avaliação de todos os bens (móveis ou imóveis) que constituíam a proprie- dade a preços de mercado correntes teria sido uma operação injustificada, inclusive teoricamente, nas condições econó- micas da época ia . E ainda que se procedesse a uma avalia- ção desse tipo, seria impossível reduzir a um denominador comum as alterações do potencial produtivo da propriedade em determinado período económico: edifícios e utensílios, número de cabeças de gado, superfície dos bosques, etc. Por todas estas razões era objectivamente insolúvel a ques- tão de saber se a «degradação» se tinha verificado efectiva- mente e, no caso afirmativo, a determinação das suas dimen- sões (o que conferia à nobreza polaca, conhecida pelo seu gosto pelos processos judiciais, possibilidades verdadeira- mente fantásticas).

Na economia de dois sectores (monetário e natural), o sector natural é, em princípio, primordial para o camponês e o monetário, para o nobre. Tudo o que possa aumen- tar as receitas em dinheiro é visto com agrado pelo nobre. Não se pode, no entanto, saber com exactidão, no sis- tema vigente, se esse acréscimo foi conseguido a expensas do património da propriedade. Daí a contradição entre a ânsia de aumentar as receitas em dinheiro e o desejo de evitar a «degradação». De qualquer maneira, se abstraíssemos dos elementos não adquiridos e utilizados na produção, poderíamos consi- derar rentável uma manufactura cujo funcionamento redu- zisse consideravelmente noutros aspectos o potencial pro- dutivo da propriedade. Tyzenhaus, administrador dos bens da coroa na Lituânia nos anos 1768-1780, construiu manufac- turas que aumentaram muitíssimo as receitas do rei, mas

ou as mudanças que podiam dar-se nela 11 . O

também é verdade que esses domínios sofreram uma grande «degradação» durante esse período 13 . O problema complica-se mais em virtude de um elemento adicional de difícil avaliação. Suponhamos o caso de uma

manufactura (como a fábrica de vidro do exemplo anterior) que devasta os bosques de uma determinada propriedade.

A avaliação económica deste fenómeno está dependente do

facto de haver ou não, nesse lugar e nessa época, outras possibilidades de aproveitamento da madeira,, por exemplo, enviando-a por flutuação até uma cidade portuária, o que, como sabemos, nem sempre era possível. No caso de não haver essa possibilidade, a «queima» dos bosques nos fornos

de uma fundição de ferro ou de uma fábrica de vidros cons-

tituiria a única forma economicamente correcta e, de qual- quer maneira, rentável de utilizar essa madeira.

Raciocinando em termos simples de oferta e procura

à escala da economia nacional, é perfeitamente possível uma

situação em que a oferta seja superior à procura no conjunto

da economia, enquanto no sector comercializado se verifica

o contrário: a procura é superior à oferta. Traduzindo esta situação em linguagem gráfica:

A zona riscada

representa a

Oferta

Procura

oferta

e a procura

na

mercado.

Era assim que sem dúvida se apresentava nos fins do século XVIII o problema do factor mais importante da produção, a saber, a mão-de-obra. Por outro lado, temos conhecimento de numerosos exemplos de desperdício de mão-de-obra camponesa na economia latifundista, e, por outro lado, os preços da mão-de-obra livre atingem, no mer- cado, um nível relativamente alto 14 . Atendendo a que a avassaladora maioria dos braços existentes no país estão manietados pela servidão, aparece no mercado de trabalho uma parte proporcionalmente insignificante de mão-de-obra; comparada com ela, a reduzida procura de trabalho assala- riado é relativamente considerável. Se avaliarmos então aos preços elevados do mercado toda a mão-de-obra empregada na reserva, chegaremos forçosamente à conclusão de que esta era deficitária e de que não poderia subsistir sem a

servidão. Aparentemente davam-se situações análogas rela- tivamente a muitos outros factores económicos.

A avaliação monetária — a preços de mercado — dos

elementos que entram no processo de produção sem passa- rem pelo mercado, ou dos frutos da produção que não são oferecidos no mercado, assenta em vários pressupostos que pecam inegavelmente por falta de realismo:

1) Pressupõe-se a existência de um preço de mercado relativamente uniforme para cada um destes elementos,

e em primeiro lugar para a mão-de-ohra; 2) Pressupõe-se que todos os elementos e todas as cate- gorias da mão-de-obra possuem um valor económico e um preço que permite medir esse valor; 3) Pressupõe-se que o «empresário», organizador da actividade económica e proprietário dos meios de produção, tem sempre a possibilidade de escolher entre vender um dado artigo no mercado a preço corrente e utilizar esse artigo no processo de produção. Além disso pressupõe-se ainda que só tomará a decisão definitiva quando tiver razões fundadas para esperar um lucro maior da produção.

Por outras palavras, reconstituir o cálculo económico de uma empresa significa, de certa maneira, verificar a racio- nalidade das decisões do empresário. O cálculo dos custos tem por objectivo reconstituir a soma das perdas sofridas na produção. Nesse cálculo o valor monetário da madeira utilizada na produção, mas não comprada, só pode ser consi- derado como uma perda se essa madeira pudesse ter sido vendida por um dado preço. Mas realmente teria sido possível fazê-lo? Incluir nos custos o valor das prestações pessoais só teria sentido se, ao renunciar à produção, fosse possível vender essas prestações a um determinado preço. Mas seria possível fazê-lo? Quem seguiu outro processo de investigação, poderá apresentar a seguinte objecção. Poderá dizer concretamente que, ao incluir-se, no cálculo dos custos, o valor estimado dos artigos não provenientes do mercado, procura-se não tanto reconstituir o cálculo dos lucros e das perdas do empresário, quanto reconstituir os lucros e perdas sociais. Mas esta objecção também é susceptível de refutação. Qual- quer utilização produtiva de uma madeira que se não pode vender é rentável do ponto de vista social, uma vez que aumenta o rendimento nacional, ainda que em ínfimo grau.

O único limite perceptível neste ponto será a deterioração da

propriedade e da sua capacidade produtiva futura. O con- ceito de «degradação doa bens» desempenhava, e com toda

a razão, uma função importante no raciocínio económico

da nobreza polaca

Tem muito interesse neste particular a análise do sis- tema de contabilidade das reservas senhoriais. Gostomski, cuja importância nunca é demais assinalar, dá os seus con- selhos ao proprietário da reserva também nesta matéria'". Ele — segundo o diz Gostomski no ano de 1588 — devia abrir uma conta separada para cada um dos elementos mate- riais e monetários que constituíam a produção e o consumo

da reserva: para o centeio e as cenouras, as maçãs e o car- vão, os pregos e os aros de barril, os direitos de peagem

e as multas cobradas aos camponeses, etc. No total, 156

contas de valores materiais, todas separadas e, o que é mais,

irredutíveis a um denominador comum! Se todas essas contas

derem lucro, a conclusão será irrefutável: a propriedade dá lucro. E quem tiver dúvidas quanto a esta interpretação da contabilidade recomendada por Gostomski, encontrará no seu livro um enunciado que a confirma exp*ressis verbis: «O

encarregado

falta, mas sobretudo tem de se preocupar por que haja cres- ciment o em- cada. coisa»". Ma s com o aprecia r a activi - dade da reserva quando aumentam as quantidades de trigo armazenadas no celeiro, e diminui simultaneamente a quan-

tidade de maçãs na dispensa?

A primeira impressão que se colhe da leitura de Gos- tomski ou de qualquer das numerosas «instruções» da época, redigidas pelos grandes proprietários para uso dos admi- nistradores dos seus bens, ê a de que todos eles defendem uma economia multifacetada, ou seja, a policultura. E uma impressão superficial. Na realidade trata-se de uma policultura ao serviço da monocultura. A maioria dos arti- gos a produzir não são para vender, mas sim para não ter de os comprar'% ou seja, para aproveitar melhor o dinheiro obtido pelos únicos produtos que interessam verdadeira- mente: os produtos exportáveis. Tudo tem de estar subordi- nado à monocultura do centeio e do trigo, e o dinheiro

obtido por esse centeio e esse trigo será gasto exclusivamente na compra de artigos que não podem ser produzidos na reserva sem dispêndio monetário. Neste sentido será rentável

a produção de qualquer coisa, desde que essa produção se

faça com o que se tem e sem exigir gastos de dinheiro 19 .

Até agora referimo-nos principalmente à análise econó- mica da reserva. Infelizmente, a falta de fontes impede que

15

.

deve zelar não só por que não haja qualquer

procedamos a uma análise semelhante da exploração feudal camponesa, mas tudo indica que o resultado seria análogo.

Indicam-no-lo antes de mais nada os resultados de investi- gações levadas a cabo em países economicamente atrasados dos nossos dias, principalmente na Índia, onde este ponto tem sido objecto de um amplo debate (que lembra, em mais do que um aspecto, os debates económicos na Polónia de antes da guerra).

A análise teórica da exploração camponesa pré- ou

semi-capitalista como tipo de «empresa» reveste-se actualmente de grande significado. A grande actualidade

científica deste problema resulta do facto de se relacionar com um problema candente no mundo dos nossos dias, em que a maioria da população vive em países subdesenvolvidos,

e a maioria da população destes vive precisamente em peque- nas explorações camponesas de tipo familiar, pouco vincu-

ladas ao mercado, que trabalham principalmente para satis-

. A explo-

fazer as suas próprias necessidades de consumo

ração camponesa autárquica (se nos autorizam este termo convencional) é sem qualquer sombra de dúvida a forma mais difundida de organização da actividade produtiva no

mundo. Poder-se-â chamar-lhe «empresa»? Poder-se-á utili- zar na investigação os critérios da análise da actividade

económica da

em que plano deveremos então analisá-la? A ciência actual está longe de ter encontrado respostas para estas perguntas fundamentais.

Os métodos tradicionais de análise da empresa foram

aplicados vezes sem conta a este tipo de exploração. Conhe- cemos já, em termos gerais,, oa resultados que deles pode-

mos esperar. Limítemo-nos a citar um exemplo muito elo- quente: um estudo de 600 explorações, levado a cabo em 1937-1938 em 21 aldeias hindus," demonstrou que essas

explorações produziam, em média, 88 rupias de lucro anual,

a preços de mercado e sem ter em conta o custo da mão-

-de-obra familiar e a amortização do capital. Incluindo, pelo contrário, o custo da mlo-de-obra segundo os salários pagos, nesse lugar e nessa época, aos jornaleiros e acrescen- tando uma percentagem de 3% de amortização do capital, as referidas explorações eram altamente deficitárias (90 rupias de défice anual).

Lembremos que o Instituto de Pulawy, nas suas inves- tigações sobre o minifúndio camponês, efectuadas no ano de

20

empresa 31 ? E se não for possível utilizá-los,

1932

23

, obteve resultados análogos para o campo polaco,

reduzido ao primitivismo económico numa época de crise mundial. Lembremos também que obtivemos praticamente o mesmo resultado (rentabilidade quando se exclui dos custos o valor estimado do trabalho não adquirido, e défice no caso contrário) ao analisarmos uma reserva tipica assente na servidão e muitas manufacturas feudais. Como se pode ver, o problema é de grande importância.

A ciência tradicional não encontraria dificuldades de

maior neste ponto. Responderia que o camponês médio não contabiliza o custo do trabalho da sua família nem a amor- tização do capital, por ignorar esses conceitos e por não saber fazer cálculos correctos. Responderia ainda que o cálculo correcto deve tomar em conta estes dois factores, que a única maneira de os avaliar consiste em aplicar os preços de mercado do lugar e da época em questão, e que

essas explorações são na realidade deficitárias, embora os seus proprietários o não saibam.

A conclusão de que metade da humanidade está empe-

nhada numa actividade produtiva deficitária constitui uma espécie de reductio aã absurãmn. Seria igualmente absurdo afirmar que todas as reservas senhoriais e todas as par- celas dos camponeses servos da gleba na Polónia foram per-

manentemente deficitárias ao longo dos quatro séculos da sua existência. Por outro lado, este método não resiste à crítica nem sequer do ponto de vista da ciência tradicional. Se para

iniciar uma actividade produtiva são necessários, por hipó- tese, A quilos de matéria-prima e B dias de trabalho, e o empresário dispõe de A kg de matéria-prima e de B mais X dias de trabalho, e ao mesmo tempo não há nenhuma outra maneira de aproveitar a mão-de-obra excedente, o valor de toda a força de trabalho incorporada na produção deve ser contabilizado como equivalente a zero. Neste sen- tido poderíamos dizer que o camponês-proprietário faz um

uso correcto da teoria marginalista

Porém, é evidente que em certas condições, é perfeita- mente justificável fazer o balanço económico da exploração camponesa seguindo rigorosamente os métodos capitalistas (avaliando o trabalho familiar a preços de mercado, incluindo a amortização do capital, etc). Para o historiador da economia a questão fundamen- tal é responder à seguinte pergunta: que métodos aplicar em determinadas condições sociais (em relação ao nivel de desenvolvimento socioeconómico) ? Trata-se, como é óbvio,

.

de um tema vastíssimo; aqui não podemos ir além duma

sugestão. Em nossa opinião, poder-se-ia adoptar como critério

a forma de que se revestem os encargos exteriores da explo- ração. Referimo-nos às prestações pagas ao Estado (impos- tos) e ao latifundiário (renda feudal e, por vezes, renda capitalista). Podem incluir-se ainda, na mesma categoria,

as formas de crédito. Quando os impostos, as prestações

ao senhor e os empréstimos forem pagos em espécie (em trabalho ou em produtos), não terá sentido um balanço da exploração camponesa feito em obediência a normas capita- listas e dará quase sempre resultados semelhantes aos que atrás descrevemos (défice quando se inclui o custo do traba- lho não assalariado e a amortização; rentabilidade no caso de não serem incluídos). Nesta situação verifica-se:

1)

que o produtor calcula em unidades naturais;

2)

que os preços de mercado não são válidos nem

para os factores de produção (cujo valor geral- mente exageram), nem para os produtos; 3) que o produtor não reage, em princípio, aos estí- mulos do mercado (aumentos e baixas de preços).

Sempre que o regime socioeconómico impõe o paga- mento em dinheiro dos impostos estatais, das prestações

ao senhor (proprietário da terra) e do crédito, a situação sofre uma alteração radical. Aparece então um fenómeno

a que poderíamos chamar «comercialização forçada». O

camponês precisa de vender a fim de obter o dinheiro necessá- rio para satisfazer todas essas obrigações, pois, caso contrá- rio, arriscasse a perder a sua terra. A sua reacção aos estímulos do mercado é contrária às hipóteses da ciência económica burguesa. Quando os preços aumentam vende menos; e quando os preços descem, tem justamente de vender

mais. Os encargos que tem de suportar são geralmente rígidos, pelo que as quantidades que vende (frequente- mente a expensas do seu próprio consumo) e o nível do£ preços são grandezas inversamente proporcionais. Em mais de um caso, o alto nível dos preços ocasiona um regresso

parcial dessas explorações à economia natural e vice-ver-

. iNo comportamento económico do camponês, b sector

natural prevalece sobre o monetário, e os preços de mercado são inadequados para reconstruir as suas modalidades de cálculo ou avaliar os resultados da sua actividade produtiva.

sa

2S

Só quando a exploração camponesa começa a reagir positivamente aos estímulos do mercado (maior venda no caso de subida,de preços e vice-versa) é que os métodos de contabilidade capitalista podem passar a ser aplicados a este tipo de «empresa». Por outras palavras, só então a explo- ração se transforma numa empresa propriamente dita. Esta reacção positiva aos estímulos do mercado só aparece quando há possibilidades de opção no aproveitamento dos meios de produção existentes (sobretudo quando o trabalho utilizado na exploração agrícola pode ser vendido no mercado, no caso desta ser pouco rentável, e quando a terra pode repre- sentar um investimento de capital como qualquer outro). Em resumo: aplicar uma contabilidade de tipo capita- lista (ou seja, aquela que avalia a preços de mercado os bens

e serviços não adquiridos nem vendidos) a relações econó-

micas pré-capitalistas, equivale a proceder anacronicamente. Aplicar à totalidade da produção de um país os preços de mercado — através do qual passa apenas uma ínfima parte dos bens e serviços produzidos — conduz forçosamente ao absurdo. Este método é particularmente perigoso quando aplicado à mão-de-obra, uma vez que o mercado do trabalho no regime feudal é ex ãefinitione extremamente reduzido, realmente marginal. Como a parte fundamental da mão-de- -obra não tem o direito de se oferecer no mercado, é natural que o preço da mão-de-obra seja, regra geral, extraordina- riamente elevado (ainda que possa haver excepções). Se nos basearmos, pois, nesse preço para avaliar as prestações dos camponeses em favor da reserva, ou o trabalho por eles investido nas suas próprias parcelas, não poderemos estra- nhar o exagero dos resultados quando fazemos os respectivos cálculos dos custos.

A economia

do domínio feudal

Apesar de os estudos históricos sobre o agro polaco — tanto antigos, como recentes — poderem apresentar nume- rosos e indiscutíveis êxitos, não é tarefa fácil proceder a uma análise, ainda que aproximada, da economia do domínio feudal e, muito menos, da economia camponesa. No que diz respeito à reserva, esta afirmação pode parecer paradoxal, se se considerar a grande quantidade

de

monografias e de fontes publicadas (e antes de mais nada

os

inventários e as instruções) de que se pode dispor.

de um tema vastíssimo; aqui não podemos ir além duma

sugestão. Em nossa opinião, poder-se-ia adoptar como critério

a forma de que se revestem os encargos exteriores da explo- ração. Referimo-nos às prestações pagas ao Estado (impos- tos) e ao latifundiário (renda feudal e, por vezes, renda capitalista). Podem incluir-se ainda, na mesma categoria,

as formas de crédito. Quando os impostos, as prestações

ao senhor e os empréstimos forem pagos em espécie (em trabalho ou em produtos), não terá sentido um balanço da exploração camponesa feito em obediência a normas capita- listas e dará quase sempre resultados semelhantes aos que atrás descrevemos (défice quando se inclui o custo do traba- lho não assalariado e a amortização; rentabilidade no caso de não serem incluídos). Nesta situação verifica-se:

1)

que o produtor calcula em unidades naturais;

2)

que os preços de mercado não são válidos nem

para os factores de produção (cujo valor geral- mente exageram), nem para os produtos; 3) que o produtor não reage, em princípio, aos estí- mulos do mercado (aumentos e baixas de preços).

Sempre que o regime socioeconómico impõe o paga- mento em dinheiro dos impostos estatais, das prestações

ao senhor (proprietário da terra) e do crédito, a situação sofre uma alteração radical. Aparece então um fenómeno

a que poderíamos chamar «comercialização forçada». O

camponês precisa de vender a fim de obter o dinheiro necessá- rio para satisfazer todas essas obrigações, pois, caso contrá- rio, arriscasse a perder a sua terra. A sua reacção aos estímulos do mercado é contrária às hipóteses da ciência económica burguesa. Quando os preços aumentam vende menos; e quando os preços descem, tem justamente de vender

mais. Os encargos que tem de suportar são geralmente rígidos, pelo que as quantidades que vende (frequente- mente a expensas do seu próprio consumo) e o nível do£ preços são grandezas inversamente proporcionais. Em mais de um caso, o alto nível dos preços ocasiona um regresso

parcial dessas explorações à economia natural e vice-ver-

. iNo comportamento económico do camponês, b sector

natural prevalece sobre o monetário, e os preços de mercado são inadequados para reconstruir as suas modalidades de cálculo ou avaliar os resultados da sua actividade produtiva.

sa

2S

Só quando a exploração camponesa começa a reagir positivamente aos estímulos do mercado (maior venda no caso de subida,de preços e vice-versa) é que os métodos de contabilidade capitalista podem passar a ser aplicados a este tipo de «empresa». Por outras palavras, só então a explo- ração se transforma numa empresa propriamente dita. Esta reacção positiva aos estímulos do mercado só aparece quando há possibilidades de opção no aproveitamento dos meios de produção existentes (sobretudo quando o trabalho utilizado na exploração agrícola pode ser vendido no mercado, no caso desta ser pouco rentável, e quando a terra pode repre- sentar um investimento de capital como qualquer outro). Em resumo: aplicar uma contabilidade de tipo capita- lista (ou seja, aquela que avalia a preços de mercado os bens

e serviços não adquiridos nem vendidos) a relações econó-

micas pré-capitalistas, equivale a proceder anacronicamente. Aplicar à totalidade da produção de um país os preços de mercado — através do qual passa apenas uma ínfima parte dos bens e serviços produzidos — conduz forçosamente ao absurdo. Este método é particularmente perigoso quando aplicado à mão-de-obra, uma vez que o mercado do trabalho no regime feudal é ex ãefinitione extremamente reduzido, realmente marginal. Como a parte fundamental da mão-de- -obra não tem o direito de se oferecer no mercado, é natural que o preço da mão-de-obra seja, regra geral, extraordina- riamente elevado (ainda que possa haver excepções). Se nos basearmos, pois, nesse preço para avaliar as prestações dos camponeses em favor da reserva, ou o trabalho por eles investido nas suas próprias parcelas, não poderemos estra- nhar o exagero dos resultados quando fazemos os respectivos cálculos dos custos.

A economia

do domínio feudal

Apesar de os estudos históricos sobre o agro polaco — tanto antigos, como recentes — poderem apresentar nume- rosos e indiscutíveis êxitos, não é tarefa fácil proceder a uma análise, ainda que aproximada, da economia do domínio feudal e, muito menos, da economia camponesa. No que diz respeito à reserva, esta afirmação pode parecer paradoxal, se se considerar a grande quantidade

de

monografias e de fontes publicadas (e antes de mais nada

os

inventários e as instruções) de que se pode dispor.

O problema consiste em que essas fontes e os trabalhos nelas baseados apresentam sérios inconvenientes, quando se pretende investigar este aspecto da economia, que é exacta- mente o mais importante numa economia especializada: o seu funcionamento. As antigas investigações sobre a história agrária apoiavam-se principalmente em fontes de tipo normativo, começando pela legislação histórica e acabando nas instru- ções aos administradores das grandes propriedades. Rutkowski, cujos estudos marcaram uma viragem, descon- fiava manifestamente desse tipo de fontes. E tinha toda a razão. Negava-se a tirar conclusões acerca de «como foi» a partir de uma fonte que dizia «como devia ser». Daí que, para Rutkowski, o tipo preferido de fontes fossem os inven- tários (incluindo a categoria especial constituída pelas «actas de inspecção»): descrição positiva do estado de coisas em cada propriedade num dado momento. Dissemos já, noutro trabalho, que Rutkowski não aten- dia suficientemente à presença de elementos normativos nos inventários i . Mas neste momento não é isso que nos interessa. O aspecto que aqui nos interessa principalmente é o carácter por assim dizer «representativo» das infor- mações proporcionadas pelo inventário. Se nalguns casos é possível reunir um certo número de inventários relativos à mesma aldeia e contar por conseguinte com uma série de amostras representativas, entre a multiplicação das amostras e a compreensão da dinâmica das transformações vai uma grande distância s . Ê evidente que a comparação de duas amostras nos informa sobre o rumo das alterações; mas a interpretação causal ou funcional desse rumo só é possível em conexão com o nosso conhecimento geral da época. E aí reside todo o perigo do método. Se compararmos os inventários anteriores ao ano de 1648 com os posteriores ao ano de 1655, veremos em que direcção foi evoluindo a situação no agro. Mas como sabemos, por outro lado, que houve entretanto na Polónia guerras devastadoras e sangui- nárias, poderemos estabelecer uma relação de causa e efeito entre essas alterações e essas guerras. A grande vantagem dos inventários,, particularmente apreciada por Rutkowski, reside na sua abundância, o que permite uma elaboração estatística dos dados que facultam. Mas, como dissemos já, o método estatístico, apesar de todas as suas qualidades, não será suficientemente frutuoso se não for acompanhado por analises individuais. Da mesma manei-

ra, os mais frutuosos estudos maeroanalíticos não retiram

o interesse aos estudos mieroanalíticos. E por isso que nos atrevemos a sugerir que se faça agora um esforço especial no sentido da investigação das fontes até aqui menos exploradas, a saber, as contas das reservas. E certo que ainda falta muito para explorar devida-

mente os invèritâricis7 para elaborar estatisticamente e ana- lisar em grande escala o sêú conteúdo com fins macroeconó- micos. Mas o caminho já foi aberto, sobretudo pelo próprio Rutkowski, e ainda pelas numerosas publicações de fon- tes no pós-guerra. Mas no que se refere às contas das reservas, a experiência metodológica é extraordinariamente pobre s . Só o estudo de séries contínuas de contas (ainda que abranjam períodos curtos) permitirá analisar o funcio- namento da economia da reserva. Só elas podem mostrar efectivamente como era administrada a reserva, qual era

o seu cálculo económico, como reagia às mudanças de situa-

ção, às variações nas colheitas e nos preços, e que alterna- tivas escolhia. Ê nisso justamente que consiste a gestão económica. Dado que as publicações existentes nos não propor- cionam estudos, sequer parciais, de grandes sucessões de contas desse tipo, as considerações que se seguem apoiam-se em bases muito frágeis. É muito provável que investigações futuras deitem por terra mais do que uma das nossas hipó- teses. Apesar disso, atrevemo-nos a propor aqui um modelo de economia do domínio feudal tal como a concebemos neste momento, sem intenção de o apresentar como algo de duradoiro, mas apenas com a esperança de que futuramente se venha a elaborar, e em comum, um outro modelo mais adequado e melhor fundado. Em princípio, a reserva feudal aplica uma economia extensiva. O seu rendimento é função da área cultivada. Quando a área da propriedade era maior do que a que podia ser cultivada pelos servos — a extensão do cultivo dependia do número de braços —, parte da terra ficava por lavrar *. No caso contrário, quando o número de «almas» era superior às necessidades de mão-de-obra (caso que ocorria muito raramente), surgiam fenómenos como a venda de presta- ções pessoais a reservas vizinhas ou a venda livre do traba-

lho pelo próprio servo, que redimia assim a prestação,, como

acontecia no sul da Polónia s . Se bem que a venda de

tações pessoais a reservas vizinhas — caso pouco frequente na Polónia — equivalesse apenas a uma transferência de mão-de-obra de uma propriedade para outra, podemos afir-

pres-

mar que de uma maneira geral, e com algumas excepções de pouca importância (v. g. o sistema de censos), o número de braços disponíveis determinava o volume da produção

agrícola (incluindo a criação de gado, a exploração florestal, etc). Toda uma série de fenómenos, o sistema destinado

a prevenir a fuga de servos próprios, a admissão e estabele-

cimento de servos alheios em fuga, o «sequestro» de servos \

a preferência concedida aos matrimónios em que uma das

partes fosse um servo alheio «transferível» para o próprio domínio, a admissão da servidão «voluntárias', o fomento

da colonização (os chamados «holandeses»

a política «demográfica» da grande propriedade só se explica em função do facto de a produção ser determinada pelo

número de servos e, naturalmente, pela grandeza dos encar-

gos que lhes eram impostos

8

), em suma, toda

B

.

Chamemos «limite fisiológico» à quantidade de trabalho que se pode conseguir dos camponeses em regime de servidão sem os conduzir à ruína; é claro que esse limite será inatin- gível, devido à resistência dos camponeses. Por isso é de introduzir um outro conceito, a que chamaremos o «coefi- ciente de opressão praticável». 0 «limite fisiológico», modi- ficado pelo «coeficiente de opressão praticável», dar-nos-á como resultado o «limite social», que representa os encargos que é possível impor ao camponês em determinadas condi- ções institucionais, tendo em conta o rendimento do traba- lho, a correlação das forças sociais e as possibilidades de sabotagem e de fuga.

iNa prática, segundo parece, não se atingia sequer o limite social. O ritmo sazonal dos trabalhos agrícolas fazia que, nos meses de Inverno, a procura de mão-de-obra na reserva fosse relativamente reduzida. A tendência para a monocultura cerealífera tinha como consequência a re- serva quase não precisar do trabalho das mulheres e das crianças. Temos portanto de ter em conta, além do «limite fisiológico» e do «limite social», um «limite tecnológico», As instruções das grandes propriedades e os tratados agrí- colas da época estão cheios de conselhos e indicações de como elevar o «limite tecnológico», para o aproximar do «limite social». A recuperação dos dias de trabalho obriga- tórios do Inverno em períodos de tarefas agrícolas urgentes era um processo bastante frequente, se bem que fosse consi- derado ruinoso, pois ameaçava a própria existência do cam- ponês, que não ficava assim com tempo para lavrar a sua própria terra. Procurava-se de preferência e na medida do possível, concentrar no Inverno oa trabalhos de desbaste das

florestas para o abastecimento de madeira para todo o ano, os transportes, as obras de manutenção, as reparações, a preparação de materiais para a construção, etc. As manu- facturas proporcionavam simultaneamente possibilidades de intensificação do aproveitamento do trabalho das mulheres

e das crianças camponesas. A redução da superfície das

parcelas camponesas, não afectando o «limite fisiológico», deixava mais tempo livre à família camponesa, elevando por

conseguinte o «limite social».

Seja como for que abordemos o problema, é evi- dente que o limite máximo da produção era definido pela quantidade de trabalho que nele se podia investir. Na prá- tica, a produção só podia tender para esse limite nos anos «normais», isto é, nos anos de paz e de boa colheita, que não eram muito «normais» na época feudal. As flutuações da produção global (que costumam ser enormes) eram geral- mente, a curto prazo, o resultado de factores extra-econó- micos, tais como guerras ou calamidades naturais. O fim da actividade económica consistia justamente na adaptação

a tais contingências. Não se pode, no entanto, pôr de parte a possibilidade de que o limite superior da produção agrícola do país fosse determinado não tanto pela quantidade de trabalho humano, como sobretudo pela quantidade disponível de força de trac- ção animal. Ê indubitável que o problema do gado era, em certas situações, o ponto de estrangulamento da economia feudal. A criação de gado em grande escala deparava então, pelo menos na maior parte do território polaco, com grandes dificuldades técnicas e sociais. Entendemos por dificul- dades «técnicas» o problema da forragem, o problema da ali-

mentação do gado durante o Inverno. Os anos de seca cau- savam assim grandes estragos no gado. As dificuldades sociais eram de vários tipos. Por um lado as guerras, que na época feudal eram tão mortíferas para os seres humanos como hoje, eram-no tanto ou mais para o gado. As «guerras» dos soldados do país contra o gado e as aves de capoeira foram descritas de .forma muito expressiva na

na literatura de circunstância 10 . Por outro lado,

e o que era mais importante ainda, o sistema que trans-

feria para a exploração do servo a parte essencial das fun- ções de reposição da capacidade produtiva da propriedade — refiro-me à alimentação do gado — criava as piores condi- ções para o seu desenvolvimento. A negligência com que os camponeses tratavam o gado, do qual beneficiava o senhor e

sátira e

não eles, era motivo de preocupação constante para aquele ou para o seu administrador. Em anos de más colheitas, o

camponês via-se por vezes perante a alternativa de se ali- mentar a si mesmo ou ao gado. fi fácil deduzir qual era

a opção. O reduzido rendimento do trabalho dos bois obri-

gava a manter muitos animais de trabalho, o que agravava ainda mais o problema forrageiro. Todos estes factores técnicos e sociais fizeram que o problema da tracção animal constituísse, nessa época, um obstáculo importante ao desen- volvimento da actividade económica. Parece, no entanto, que este factor restringia efectiva- mente a produção apenas em momentos excepcionais, pre- cisamente em caso de catástrofes naturais ou de devasta- ções bélicas. Tanto mais que para remediar a escassez do gado era sempre possível recorrer aos bois, que eram objecto de um tráfico internacional intenso, cuja rota passava pelo território polaco, das estepes sul-orientais até para lá da Silésia. Em caso de falta de animais de tracção, parte desse gado podia ser adquirido em trânsito.

Um sistema de economia assente na reserva e no tra- balho obrigatório implica um regime agrário no qual a exploração camponesa não passa, em princípio, de uma

parcela de subsistência"; mas também não pode ser menos

do que isso. A parcela do camponês tinha de produzir o indis-

pensável para satisfazer as suas necessidades básicas, além

do necessário para a continuação da exploração («reprodução

simples») ' 2 . 0 que deveria conduzir a um nivelamento das condições de vida e de trabalho dos camponeses 13 . Mas, na prática, as coisas não se passavam assim, e desde épocas anteriores à organização dominial, pois o senhor também pre- cisava de explorações camponesas maiores, que lhe assegu- rassem a parte essencial da reprodução simples do poten- cial produtivo do domínio e, principalmente, a manutenção

dos animais de tracção, a sua reprodução, a conservação e renovação das ferramentas, etc. Daí o papel fundamental desempenhado no sistema pela divisão das explorações camponesas em «pedestres» e «de junta», de acordo com o tipo de prestação pessoal exigida: sem animais ou com eles.

O caso é que, na prática, é extremamente difícil deter-

minar as «dimensões ideais» da exploração que lhe permi-

.

Isso era tanto mais difícil, quanto a produção agrícola da época se caracterizava por grandes oscilações anuais do rendimento do trabalho e da terra. Das duas uma: ou o ano era bom e a exploração tinha excedentes de produção que

tissem ser uma «parcela de subsistência e reprodução»

14

podia vender no mercado (com o que o senhor se não con- formava facilmente); ou o ano era mau e a produção não chegava para sustentar o camponês, a família e o gado,

e muito menos para a sementeira. Na prática, deve ter-se

verificado portanto uma tendência para reduzir a parcela camponesa, em anos de boas colheitas, a dimensões inferio- res às «ideais», o que tinha forçosamente de se repercutir no processo de reprodução. Como se verá mais adiante, será este um dos elementos essenciais de desintegração da economia feudal.

Em condições ideais, nem a reserva nem a exploração

camponesa podem realizar uma reprodução ampliada

produto excedente (produto global menos autoconsumo e menos o necessário para renovar a capacidade produtiva) deve ir parar na íntegra às mãos do senhor. O que é faci- litado pela divisão do trabalho no espaço: a exploração camponesa produz quase tudo o que é necessário para o seu

próprio consumo (e em parte também para manter a admi- nistração, mediante tributos em espécie) e assegura quase toda a renovação da capacidade produtiva, enquanto, por ou- tro lado, as terras do domínio proporcionam quase exclusiva- mente o produto excedente lfl . Desta forma, a proporção entre a área da reserva e a área das explorações campone- sas equivale simultaneamente à proporção entre o tempo de trabalho consagrado à produção para o autoconsumo

15

. O

e

o tempo destinado a produzir excedentes para a venda ",

e

também entre o autoconsumo juntamente com a reposição

o produto excedente. Numa situação destas, toda a expan- são da propriedade à custa das terras camponesas é um meio para aumentar o produto excedente.

e

A distribuição da terra entre o senhor e a aldeia como base da distribuição do produto entre o autoconsumo e o excedente (e também do rendimento entre o senhor e os camponeses) coincide com a distribuição do trabalho pro-

dutivo dos camponeses entre a reserva e as parcelas. Dado

que a técnica de produção é, em princípio,

carácter extensivo — a reserva não deveria ter motivos para se apropriar de uma quantidade de trabalho camponês superior à que resultasse da distribuição proporcional da terra. Pelo contrário, deveria exigir uma quantidade de tra- balho inferior, considerando que a criação do gado se faz principalmente na exploração camponesa e tendo ainda em conta os tributos camponeses em espécie e em dinheiro. Mas isto não passa de teoria. Quando a mão-de-obra não custa nada, toda a utilização da mesma é proveitosa para

idêntica — de

a reserva, ainda que represente uma dilapidação evidente,

pelo menos enquanto não conduzir os camponeses à ruína. A utilização desse excedente (sempre nas condições clássicas, e adiante veremos como se apresentava essa ques- tão no período da decadência do sistema feudal) reduzia-se, na realidade, ao consumo, em parte directo e em parte indirecto, quando se trocava no mercado parte desse exce- dente por outros artigos de consumo.

uma

tendência ascendente. Aumentava também de acordo com a escala social, que ia da baixa à alta nobreza.

O consumo próprio do dono do domínio e da sua família

é aqui o menos importante. O aspecto importante da questão

era que a posição social do nobre naquela sociedade hierarquizada era determinada pelo número dos clientes

que era preciso dar de comer e beber. Os «parasitas»

os parentes pobres na pequena propriedade 16 , e as grandes

cortes senhoriais: os criados, a milícia, a multidão de nobres hospedados nos palácios e nos castelos dos magnates, são fenómenos da mesma categoria. Um outro elemento que, além da clientela, determinava a posição do nobre na escala hierárquica, era a pompa feudal. Pois bem, este esplendor, inerente ao regime social, estava condicionado pelo consumo indirecto do produto excedente, e na prática, durante o período clássico, pela quantidade daquele produto que era possível transportar até uma cidade portuária e trocar por artigos de luxo importados. E é neste ponto que interfere um factor de mercado sobre o qual o nobre não tinha poder:

e

O consumo directo era importante e manifestava

a

o importante não era apenas a qualidade posta à venda, mas também as condições de troca, ou seja, a relação entre o preço dos produtos vendidos e o dos artigos comprados. Dada a grande oscilação do produto global, a do excedente era ainda mais intensa. O nobre esforçava-se então por transferir os efeitos dessa oscilação para o produto destinado ao autoconsumo.

Nem o volume do produto excedente de que o senhor se apropriava nem, muito menos, as condições de troca que regiam a comercialização desse excedente influíam de modo algum na sua decisão de empreender ou não uma reprodução ampliada. Nada indica que, nos períodos de crescimento do produto excedente (por exemplo, vários anos seguidos de boa colheita em tempo de paz), o senhor se mostrasse mais disposto a investir. Nesse caso limitava-se a lançar uma maior quantidade de produtos no mercado, elevando conse- quentemente o seu nível de vida. Também nada parece indi-

car que o senhor investisse mais em épocas em que as con- digoes de troca eram mais vantajosas para ele. Em determinadas épocas, a situação podia diferir, neste aspecto, do esquema apresentado. Por exemplo, tem que haver alguma relação entre os investimentos extensivos do período de desenvolvimento da reserva assente na corveia (século XV-XVI)—investimentos que se manifestam na expansão da área cultivada — e as possibilidades vantajosas de colocação dos frutos da terra (condições de troca). Por outro lado, nos fins do século XVH e na primeira metade do século XVIII, época em que as condições de troca são menos favoráveis, os esforços da nobreza no sentido de manter o seu «nível de luxo» ameaçado manifestam-se quase exclusi- vamente sob a forma de uma luta para modificar, a seu favor, a distribuição do rendimento nacional, o que — como já dissemos — consistia em alterar a proporção entre a área da reserva e a área das explorações camponesas, em detri- mento destas últimas. Quando a reserva «investe», fá-lo de uma forma não

onerosa

-primas de produção própria (e em primeiro lugar a madeira)

e principalmente certa quantidade de mão-de-obra, utilizan-

do-se para esse efeito a parte das prestações pessoais não aproveitada nas tarefas correntes, ou ainda impondo novos encargos aos camponeses. A decisão de efectuar esses inves- timentos não tinha nada a ver com a situação do mercado, e, quando havia alguma relação, era de carácter muito peculiar. Não constitui qualquer absurdo o facto de o nobre decidir investir não porque as condições do mercado tivessem melhorado (como aconteceria no capitalismo) mas antes porque essas condições tinham piorado, vendo-se portanto obrigado a aumentar a produção global para compensar as perdas e para poder manter o seu nível de vida e a sua posição social,

Esse nível de vida e essa posição eram determinados por dois factores: o volume da produção comercial da exploração

e as condições de troca desta por outros artigos. Uma vez

que o senhor feudal não tinha qualquer influência sobre o segundo factor a °, restava-lhe apenas tentar aumentar a pro-

dução comercíalizável. Se se pode portanto falar aqui de «estímulos ao investimento originados pelo mercado», estes — ao contrário do que acontece no capitalismo — só podem ser negativos; o agravamento das condições de troca esti- mula o produtor a compensar as perdas, vendendo mais. Como o sabemos, na prática procurava-se precisamente o

19

. Os seus investimentos exigem certas matérias-

incremento do volume comerciável. Este objectivo constitui, por assim dizer, a ideia directriz do cálculo económico e da organização do domínio. Para o conseguir recorria-se — pelo menos dos fins do século XVI em diante — não a investimen- tos, ainda que extensivos, mas antes a transferências na dis- tribuição do produto social, em detrimento do camponês. As decisões da nobreza em matéria de investimentos não dependem, portanto, ou dependem apenas em muito pequeno grau, dos fenómenos do mercado, que provocam, quando muito, reacções negativas. Essas decisões parecem estar também totalmente desligadas das flutuações da pro- dução global (por exemplo, uma boa colheita). Nada indica que a reserva estivesse mais disposta a investir em períodos de boas colheitas. Podia até suceder o contrário: um ano de más colheitas, que requeria menor quantidade de mão- -de-obra nos trabalhos agrícolas, principalmente na debulha, libertava excedentes de mão-de-obra utilizáveis em obras de reparação de caminhos, hidráulicas ou de construção. Consideremos agora o problema da elasticidade das dife- rentes receitas e despesas do domínio. A parte comerciável da produção do domínio é extraor- dinariamente flutuante. Isto aparece de forma muito clara e sistemática nos dados empíricos, e nada tem de estranho. 0 rendimento agrícola, como se sabe, regista, nessa época, enormes oscilações de ano para ano. O consumo interno do domínio é, pelo contrario, uma grandeza constante. Pode supor-se que, num ano de boa colheita, os servos se alimen- tavam um pouco melhor e semeavam no ano seguinte um pouco mais, mas os dados conhecidos sugerem que isto não

se revestia de qualquer importância prática. Só no caso de uma colheita particularmente abundante, especialmente

quando o facto se repetia durante vários anos sucessivos,

o volume dos produtos postos à venda parece aumentar

menos do que seria de esperar. Tratar-se-á de esforços de adaptação à situação do mercado, de formar reservas para as vender no ano seguinte a melhor preço? Não. creio.

O que acontecia é que era impossível colocar quantidades tão

grandes no mercado local (os dados em que nos apoiámos aqui não procedem de uma região tipicamente exportadora de cereais). O problema requer, contudo, investigação ulte- rior.

Por outro lado, tem-se a impressão (tentaremos funda- mentar esta hipótese mais adiante, neste mesmo capítulo)

de que as receitas a título de venda de cereais—que represen-

tam a maior parte das receitas totais da reserva

21

— são

muio mais função da colheita do que dos fenómenos de mercado (cotação dos cereais). Por outras palavras: num ano de má colheita o aumento dos preços compensa em pouco a diminuição da quantidade comerciável de cereal. •É possível que algumas reservas, tais como as que per- tenciam à cidade de Poznan, soubessem (ou pudessem) apro- veitar as oscilações de preços da temporada, vendendo os seus produtos nos meses de alta 22 , mas geralmente era muito difícil especular sobre as oscilações a longo prazo, devido às dificuldades e aos perigos inerentes ao armazenamento do grão durante vários anos. Apesar de Gostomski admitir que o «bom administrador pode, por vezes, guardar a colheita de um ano propício à espera de um ano mau», as possibili- dades eram,. neste aspecto, muito limitadas (no máximo um ou dois anos) e o risco era grande 2S . Se estas generalizações são certas, ainda é mais certo que a reserva típica — e com mais razão ainda o camponês — depende não do nível dos preços, mas antes do nível das colheitas (no que toca às oscilações a curto prazo, pois a situação é diferente no que diz respeito às tendências a longo prazo, ponto que abordaremos mais adiante). É tam- bém evidente que a reserva que exporta a sua produção atra- vés do porto de Gdansk não poderá aproveitar — nem sequer dentro dos limites em que o fazem os domínios de Poznan — as oscilações da temporada, uma vez que o cereal terá de ser despachado juntamente com todo o cereal da região, ou seja, quando o estado dos rios o permite ". O camponês ainda menos poderá aproveitar as oscilações da temporada; pelo contrário, é ele, devido ao carácter sazonal da oferta dos seus produtos, o principal responsável pelo fenómeno de oscilação dos preços. A fraca influência dos fenómenos de mercado, ou seja, dos preços — cuja oscilação, aparentemente muito forte, é, no entanto, muito menos acentuada do que a flutuação das colheitas 2S — cria uma situação diametralmente oposta à que observamos no sistema capitalista. Neste sistema, o vaivém dos preços — que depende principalmente da con- juntura e não das colheitas—exerce uma influência pode- rosa e até decisiva sobre as receitas monetárias do campo- nês. A significação deste fenómeno é tanto maior, quanto neste sistema a importância das receitas monetárias (uma yez que os impostos e os créditos são pagos em dinheiro) é incomparavelmente maior, tanto nara o bem-estar do camponês, como para as suas possibilidades de produção e, finalmente, para a própria sobrevivência da sua exploração.

Se os anos de preços altos são propícios para o produtor camponês numa economia capitalista, o facto deve-se a duas causas: 1) a existência de recursos potenciais de pro- dução cujo aproveitamento só se torna rentável graças à alta dos preços; 2) a existência de um sistema de credito que possibilita esse aproveitamento. No sistema feudal essas duas condições não se verificam. O factor limitativo aqui é a quantidade de mão-de-obra disponível, que constituí uma variável independente no que se refere ac movimento dos preços. De tal modo que, abstraindo de casos particulares (anos de guerra, por exemplo), não há aqui reservas de potencial produtivo que a alta de preços possa pôr em acção, enquanto o crédito — devido aos juros elevadíssimos — não tem carácter produtivo. Para o agro feudal — ao con- trário do que acontece em relação ao agro capitalista — os anos de preços baixos são, pois, precisamente os anos «bons». Finalmente, no sistema capitalista, em caso de alta dos preços agrícolas, actua também o mecanismo de transmis- são: o agricultor, ao gastar as suas receitas acrescidas, ocasiona o incremento das receitas de outros grupos pro- fissionais, o accionamento de capacidades latentes de outros sectores da produção,, etc. No regime feudal esses factores não entram em jogo: não há reservas nos outros sectores da produção, e ainda que elas existissem, o aumento da produção não as movimentaria, devido à política monopo- lista dos grémios. Mas principalmente, e como o dissemos já, em caso de alta de preços as receitas monetárias do cam- ponês não aumentam, mas antes diminuem, arrastadas por um outro factor mais potente, o volume à& colheita, que se renercute com redobrada força sobre a parte comerciável da produção. Vem a propósito recordar que a alta conjuntural dos preços numa economia capitalista está ligada funcionalmente sobretudo à descida do rendimento médio do trabalho (acti- vação de empresas que não seriam rentáveis com um nível de preços baixo, ou seja, empresas de menor rendimento) e à descida do salário médio real (se bem que a classe operá- ria, no seu conjunto, ganhe com essa situação, uma vez que a descida do salário real ê mais do que compensada pela redução do desemprego). No regime feudal, a alta de preços implica também uma diminuição do rendimento do trabalho (não importa que isso obedeça a causas extraeco- nómicas, por exemplo, meteorológicas), mas essa diminui- ção não é compensada por nada, implicando, portanto, uma diminuição real do rendimento nacional per oatpita.

O rendimento nacional é o emprego multiplicado pelo

rendimento do trabalho. A relação funcional entre o volume do rendimento e outros factores — como, por exemplo, o volume dos investimentos no sistema keynesiano — deve, a meu ver, ser interpretada da seguinte maneira: «outro factor», neste caso os investimentos, influi sobre um dos dois factores que determinam o volume do rendimento nacional, ou sobre os dois. No sistema feudal, os fenómenos do mercado não influem sobre nenhum desses factores, uma vez mais porque não existem nele reservas potenciais.

Mas põe-se o problema, sujeito ainda à discussão, de

saber como é que as oscilações sazonais e anuais dos preços se repercutem sobre a distribuição do rendimento entre

o

domínio e a aldeia. Na realidade, o vaivém sazonal dos preços não reflecte

a

flutuação do volume do rendimento nacional, mas antes

o

ritmo descoordenado da produção e do consumo. Neste

sentido, as oscilações da temporada constituem apenas um mecanismo que facilita a distribuição do rendimento produ- zido. Só tiram proveito dessas oscilações as poucas reservas que produzem apenas para o mercado local. O camponês perde geralmente com elas, mesmo que esteja vinculado ao mercado. Ganha a burguesia rica, que não vive no dia a dia e que pode abastecer-se de produtos para todo o ano durante a baixa de preços. Perde o trabalhador da cidade, que vive precisamente no dia a dia. A situação privilegiada da cidade em relação ao campo manifesta-se geralmente nas oscilações sazonais dos preços.

Apesar de tudo, essas oscilações relacionam-se, num aspecto, com o volume do rendimento nacional: simplesmente são muito mais fortes nos anos em que o volume da pro- dução baixa e sensivelmente mais fracas quando o ren- dimento está a subir. Neste sentido as oscilações sazonais, consideradas ao longo de vários anos, representam um meca- nismo que permite atenuar os efeitos do decréscimo do rendi- mento nacional sobre a camada mais remediada da popula- ção urbana, transferindo-os em toda a sua extensão para

o camponês.

A evolução dos preços a curto prazo (alguns anos)

manifesta-se numa repetição característica de coincidências entre a diminuição das colheitas e a alta de preços (púnha- mos, por agora, de lado o facto de a influência do comércio internacional atenuar em parte esta dependência). Como já dissemos, o volume da colheita influi aparentemente muito mais intensamente nos lucros da propriedade do que

o nível dos preços. Se assim for, a afirmação aplicar-se-á com muito mais razão à exploração camponesa, quanto mais não seja devido ao facto de os seus contactos com o mercado terem unia importância incomparavelmente menor. A questão merece um exame mais demorado, uma vez que, como sabemo3, o contacto com o mercado — ainda que seja insignificante em números absolutos ou relativos — pode em certas condições converter-se num factor determi- nante, devido à sua importância marginal. Em caso de alta de preços (má colheita), o camponês vulgar, ou seja, aquele que tem um contacto limitado com o mercado, pode permitir-se reduzir, ainda que numa medida muito restrita, a quantidade de dinheiro que vai buscar ao mercado, uma vez que só pre- cisa desse dinheiro para pagar o tributo e para uma ou outra compra indispensável. Obterá a soma necessária para pagar

o tributo sacrificando uma menor quantidade de produtos

do que num ano de boa colheita. Mas como a flutuação das colheitas é mais acentuada do que a dos preços, e atendendo ao baixo nível de vida (em escala absoluta) do camponês e, consequentemente, ao grande valor marginal de cada arroba de trigo no caso de a colheita global diminuir, o sacri- fício dessa quantidade menor num ano mau pode ser — e é geralmente — mais penoso do que o sacrifício de uma quan-

tidade maior num ano bom. E se o camponês, após ter pago

o tributo, tiver ainda de fazer algumas compras indispensá-

veis no mercado (sal, uma foice, etc) , que não possa adiar para um ano de melhor colheita, a sua situação será pior do que no caso do tributo. Porque o tributo é uma quantia

nominal fixa, enquanto os preços dos artigos adquiridos na cidade aumentam em caso de carestia geral (se bêm que, como é evidente, não tão depressa como os dos artigos alimentares).

O camponês também não pode tirar vantagem da alta de

preço dos seus produtos num ano de má colheita, dado que

o ponto culminante dessa alta sobrevem na temporada se-

guinte. É que o camponês não pode geralmente esperar por esse momento e tem de vender os produtos da sua colheita, mesmo inferior, no momento em que a baixa da produção, regional ou nacional, mal começa a repercutir-se sobre os preços. Os poucos dados empíricos de que dispomos e a análise lógica indicam-nos que a flutuação do produto global era mais intensa do que a dos preços, fenómeno natural, dado que a baixa da produção afectava muitos produtores iso- lados, que ofereciam os seus produtos a poucos consumido-

res bem organizados. Se isto é certo, podemos partir do prin- cípio de que a flutuação do produto comercializado era ainda mais intensa. Também neste caso o mecanismo funcionaria a favor do consumidor urbano, em detrimento do camponês.

sentir na economia impri-

mem, pois, os seguintes rumos à actividade da reserva:

As tendências, que se fazem

1)

esforço para aumentar a população adscrita à gleba.

2)

Podemos ignorar este factor, uma vez que não desempenha qualquer função à escala macroeconó- mica: as migrações compensam-se tanto ao nível interno (as fugas de servos prejudicam umas pro- priedades mas beneficiam outras) como ao interna- cional, pois a imigração compensa a fuga de cam- poneses para outros países; incremento quantitativo da parte da produção apro- priada pelo senhor, o que pode conseguir-se me- diante

o)

alterações na distribuição das terras;

6)

agravamento das prestações pessoais (possí- vel e necessário devido à transferência das terras dos camponeses para o domínio):

3)

monocultura de trigo e centeio;

4) transferência das relações mercantis do mercado externo para o interno.

Fica ainda por elucidar a questão dos limites da esfera de opção económica do proprietário do domínio. Como vere- mos, essa esfera era relativamente reduzida.

Neste gráfico, que representa a superfície das terras da reserva, os três sectores iguais AOB, BOC e COA corres- pondem aos três campos do sistema de rotação trienal:

alqueive, sementeira da Primavera e sementeira de Outono respectivamente. Na sementeira da Primavera a área BOa

é reservada à aveia, aOb ao centeio, bOc ao trigo e cOc

à cevada. Na sementeira de Outono, COX indica a área do

centeio e XOA a do trigo. Quanto ao campo AOB (alqueive), não é necessário tomar qualquer decisão económica. A superfície do sector BOa, semeado de aveia, está determinada de antemão: a aveia, cereal não comercializável 2fl , cultivasse apenas em função das necessidades de alimentação do gado e de consumo dos trabalhadores. Põe-se, pois, ao administrador exclusiva- mente o problema técnico (que de resto não é nada fácil, numa época em que a flutuação das colheitas era tão grande) de obter uma produção que não seja nem inferior, nem supe- rior à procura interna do domínio.

A superfície dos sectores aOb e bOc, destinados às sementeiras da Primavera de centeio e de trigo, é deter-

minada pela necessidade de grão de semente para os campos

a semear no Outono e, especialmente no que se refere ao

centeio, pelo consumo interno. Em resumo, toda a superfície analisada até aqui, ou seja, dois dos três campos da rotação, não oferece qualquer possibilidade de opção económica. As suas dimensões são determinadas por necessidades de reprodução no sentido lato do termo, ou seja, incluindo o consumo do senhor e do pessoal do domínio.

Do sector cOa (todo o campo de sementeira do Outono e ainda a sementeira de cevada da Primavera), a parte AOX (trigal) produz para o mercado externo e a parte XOc para o mercado interno: a cevada, sob a forma de farro e

de cerveja, o centeio, sob a forma de farinha e de aguardente (para simplificar, não consideramos a exportação de centeio

e a venda de trigo no mercado interno). A superfície total

do sector AOc também está predeterminada: é o «resto» que

fica, uma vez satisfeitas as necessidades derivadas de impera- tivos técnicos ". A decisão económica consiste na determina- ção do raio OX, que indica a orientação geral da produção:

quando se destina uma parte maior desta ao mercado interno,

o ponto X desloca-se na circunferência em direcção a A, e

quando se favorece a produção para a exportação, X deslo- ea-se em direcção a C.

Uma vez que a superfície destinada à produção comer- cializada (cOa) está determinada, e uma vez que a produ- ção é proporcional à superfície, está portanto também deter- minado o volume do produto comercializado. Mas como, por outro lado, o vendedor (por exemplo, o senhor) não pode influir sobre as eondições de venda, nem tão-poueo sobre as de compra dos artigos que lhe são indispensáveis, o campo da decisão económica é muito limitado. O proprietário do domínio, apesar das aparências, tem uma latitude de decisão limitada quanto à quantidade de produtos a pôr à venda, o prego de venda desses produtos e o preço daquilo que precisa de comprar. Nesta situação, o proprietário só tem uma possibilidade de aumentar o valor real das suas receitas: activar o poten- cial latente de produção das suas terras, ampliar a gama de artigos produzidos, promover a transformação dos mesmos, etc. Quanto mais variado for o sortido de artigos produzidos na sua propriedade, tanto melhor poderá utilizar a soma obtida pelo produto comercializado, cujas dimensões esca-

pam à sua decisão; quanto melhor possa satisfazer a sua

própria procura de artigos industriais com o que é manu-

facturado pelos seus servos, tanto maior será a parte das

suas receitas monetárias que poderá destinar à compra

de artigos de luxo. É precisamente este o processo que obser- vamos na Polónia a partir do século XVI e até aos fins do

século XVm. A segunda opção do senhor consiste em aumentar as terras submetidas ao seu domínio directo, em detrimento das parcelas camponesas, aumentando assim a produção comercializada (processo que se regista durante toda esta época, mas que é mais característico do século XVII). De qualquer maneira era sempre o camponês a pagar os custos de qualquer dessas operações: no primeiro caso, mediante maiores prestações e, no segundo, mediante a diminuição da sua exploração.

Poderia dizer-se que o senhor dispunha, em princípio, de outras possibilidades de escolha. Podia, por exemplo, escolher entre o sistema de trabalho obrigatório e o censo em dinheiro. Mas existiria realmente essa alternativa? Não se registam praticamente decisões desse tipo nos séculos

XVI e XVTI. Porquê? Pessoalmente, desconfio muito das

explicações em que se atribui o fenómeno a factores subjecti-

vos («falta de racionalidade da economia tradicional da

nobreza», etc. 28 ). Se entre todos os nobres não encontramos nenhum que procure uma solução mais ousada, ou se, no caso

de os haver, o seu exemplo não vinga, estou convencido de que isso se deve à existência de uma limitação nas opções caracte- rística do sistema económico vigente. Se, por outro lado, a adopção do sistema censual se torna mais frequente no século XVIII, sabemos também que o sistema deparava com gran- des dificuldades e como a solução era frequentemente efé- mera. A substituição das prestações em trabalho por presta- ções em dinheiro não dependia da vontade do senhor. Para que essa opção fosse realmente possível, o sistema econó- mico vigente no país devia obedecer a uma série de condições já enumeradas por Marx: «um desenvolvimento apreciável do comércio, da indústria urbana, da produção mercantil em geral e, por conseguinte, da circulação monetária pressupõe também que os produtos têm um preço de mercado

e que se vendem mais ou menos de acordo com o seu valor» 2B .

Desde que estas condições se não verifiquem, qualquer refor- ma tendente a estabelecer uma renda monetária está con- denada ao fracasso. Os casos, tardas vezes mencionados nas fontes, de bens de raiz que se não podiam vender ou arrendar por estarem sujeitos ao regime censual são muito signifi- cativos. A apreciação das variantes económicas, o cálculo de qual das alternativas é mais rentável, o trabalho obriga- tório ou o censo, só se tornam correntes e normais na primeira

metade do século XIX. Quando o sistema económico muda,

surgem os critérios e maneiras de raciocinar corresponden-

tes ao .

A exploração camponesa no regime de prestações

pessoais

A exploração camponesa típica ai num sistema de reser- vas assente na prestação pessoal (corveia), é — como já dissemos — uma parcela destinada ao autoconsumo e à «reprodução». As diferenças notáveis entre as dimensões destas parcelas obedecem principalmente à distribuição desigual das funções reprodutivas. Esta afirmação é corro- borada, pelo menos em parte, pelos casos notórios de cam- poneses que se negavam a aceitar explorações de maior superfície. A soma dos encargos que pesavam sobre essas explorações (a grandeza das prestações e a quantidade de gado que o camponês devia manter) era tão grande, que uma exploração assim não garantia ao seu dono um melhor

nível de vida, e menos ainda a possibilidade de enriquecer ss . Além disso, qualquer sinal visível de enriquecimento era perigoso, pois podia provocar a imposição de encargos por parte do senhor. ^Atendendo à oscilação considerável do rendimento do trabalho de ano para ano, uma das características essenciais da parcela do camponês devia ser que num ano o seu rendimento era excedentário e P no outro, deficitário. No caso de haver excedentes, tudo levava o camponês a consumi-los e, no caso de insuficiência, a transferi-la para o senhor. O significado concreto desta flutuação merece um exame maia detalhado. Num ano bom, de colheita abundante, o camponês tinha de reservar a mesma quantidade de produtos de sempre para as prestações em espécie a favor do senhor, uma quantidade um pouco maior para satisfazer as presta- ções em dinheiro (dado que, nssses anos, os preços baixa- vam no mercado urbano e era necessário reservar uma maior quantidade de produtos para obter a mesma quantidade de dinheiro necessário para pagar o tributo e o imposto), uma quantidade proporcional ao incremento da produção para a dízima a pagar à Igreja e, finalmente, uma quantidade cer- tamente também um pouco maior para a «reprodução» (sementeira mais densa, melhor alimentação do gado, incre- mento da criação de aves, etc). Todo o resto do excedente destínava-se, com toda a certeza, em parte ao consumo pessoal e, na maior parte, à troca no mercado por outros artigos de consumo. Esta última parcela era sem dúvida a mais elástica, como no-lo prova, entre outras coisas, a grande flutuação dos preços dos produtos agro-pecuários nos mer- cados urbanos em função do nível das colheitas.

encontram-se

gráfico

Estes da pág. 58.

No caso hipotético de um aumento de 30% na produção (em volume), registado num ano considerado de boa colheita relativamente ao ano anterior, verificam-se as seguintes alterações:

a) os gastos produtivos em principio não variam;

b) as prestações em espécie em princípio não variam;

c) as prestações em dinheiro, invariáveis no seu valor nominal, devido à baixa de preços que acompanha a boa colheita, obrigam à venda de uma maior quanti- dade de produtos (suponhamos que mais 20%);

fenómenos

expressos

no

d)

a dízima aumenta proporcionalmente ao aumento da produção total (ou seja, 30%).

Produto

consumido

 

Dízima.

Prestações em

dinheiro

45 Produto

'3

líquido

Prestações em espécie

Gastos produtivos

(sementeira,

penso do gado, et c .)

H

$ij S

tlNVC ^

Ano N Produt o brut o = 100

Ano

Produt o

N + 1

brut o = 130

a

zona não

Em

unidades

convencionais

o

riscada representa

produto

líquido

No exemplo escolhido, o aumento da produção bruta em 30% implica portanto:

um aumento de 40% da produção líquida um aumento de 55,5% do produto consumido. Como, por outro lado, a parte do produto consumido que o camponês leva ao mercado é a mais elástica, podemos concluir que esta aumenta em mais de 55,5%. Estudos posteriores de verificação poderão obviamente concretizar muitas das grandezas aqui apresentadas a título de hipótese. Neste caso, os nossos objectivos eram oa seguintes:

a) indicar o sentido das alterações em função do nível da colheita;

b) propor um método de análise dos resultados da acti- vidade económica de uma exploração desligada, em princípio, do mercado (método a que poderíamos chamar «vectorial»).

Nos casos de má colheita devia forçosamente

manifes-

tar-se a tendência para transferir o peso das perdas para

o senhor. O camponês tinha grandes possibilidades de o

fazer, pois detinha os elementos essenciais da renovação

do potencial produtivo da exploração e, em certo sentido, era também um desses elementos. Assim, em épocas de má colheita, o camponês podia manter o nível do seu consumo em detrimento da alimentação do gado, cuja manutenção interessava mais à reserva do que a ele. Nessa situação,

o senhor tinha de recorrer às suas reservas para manter o

gado e, no caso de este sucumbir, tinha de o substituir, para evitar que as suas terras ficassem por cultivar. O camponês podia até comer o trigo destinado a semear na sua parcela. Se no ano seguinte não tivesse grão para semear, o senhor não podia permanecer indiferente, pois tal afectaria as possibilidades de produção do domínio, ameaçando-o de «degradação».

As prestações pessoais representavam uma mão-de-obra gratuita para a reserva na medida em que o camponês esti- vesse em condições de trabalhar. Questão tanto mais impor- tante, quanto se não tratava apenas da condição física do camponês, mas também do estado em que se encontravam os utensílios de trabalho e os animais de tracção. Forçar o «limite ideals> de subsistência do servo significava reduzir gradualmente a produtividade e elevar o custo da mão-de- -obra, embora fosse gratuita. Se o camponês tem de for- necer o seu trabalho, é necessário ajudá-lo nos momentos difíceis. E quando a sua exploração diminui ou decai, os momentos difíceis são mais frequentes. Se o senhor o não ajuda, o camponês morre ou foge. Uma solução intermédia consiste em incorporar na reserva (definitiva ou tempora- riamente) a terra abandonada pelo camponês. Mas isso significa cair num círculo vicioso: a expansão da reserva, dada a reduzida superfície das explorações dos camponeses, faz que se torne necessária a intervenção económica frequente do senhor» o trabalho obrigatório começa a es- cassear e, se o fenómeno se repetir amiúde, a reserva terá dificuldades cada vez maiores. Uma parte da terra acabará por ficar inculta. Tudo isto explica as tentativas filantró- picas de organização'de «caixas de auxílio mútuo», tão fre- quentes no campo polaco no século XVTTI. Essas caixas, organizadas por ordem do senhor, constituíam uma reserva de cereais para a qual os agricultores contribuíam todos os anos e que servia de fundo de ajuda aos camponeses arrui- nados. Ê óbvio que se tratava de uma tentativa para trãns-

ferir os encargos dessa ajuda necessária para os ombros dos próprios camponeses. Esse tipo de instituição funcionava bem quando se tratava de socorrer camponeses isolados, mas fracassava quando toda a aldeia precisava de ajuda (anos de más colheitas ou de epizootia). A atitude do cam- ponês, expressa nesta fórmula «Pertenço ao meu senhor,

o meu senhor que me dê de comer» * s era, efectivamente, mais frequente do que poderia parecer. Uma outra forma do camponês mitigar os efeitos das oscilações da produção consistia no atraso do pagamento das prestações. Num sistema ideal, tentar-se-ia transferir

o pagamento de um ano «mau» para um ano «melhor» para

não afectar, em última análise, as receitas globais reais do senhor. Na prática, como se sabe, essas dívidas acumula- vam-se, atingindo dimensões exorbitantes.

Em princípio, como já dissemos, a reserva tendia a reduzir a parcela camponesa a dimensões inferiores ao mínimo indispensável à subsistência. O facto de nos anos «bons» essa exploração dispor de excedentes, que encami-

nhava para o mercado, levava o senhor a reduzi-la, ou então

a impor-lhe encargos maiores. Por conseguinte, quando vinha

um ano «mau», a parcela não permitia sequer que o cam- ponês satisfizesse as necessidades mais prementes. Ao longo da vigência do feudalismo na sua forma económica assente na reserva e na prestação pessoal, os anos «maus» vão-se assim tornando cada vez mais frequentes. E isto acon- tece porque basta um decréscimo muito pequeno da colheita — em relação ao nível médio — para que a exploração não possa cumprir as suas funções de «parcela de subsistên- cia e reprodução». Nos casos extremos, a exploração só as podia cumprir satisfatoriamente nos anos excepcional- mente «bons», e todos os outros eram «maus». Pode depreender-se do que acabámos de dizer que, no sistema clássico, a exploração do camponês sujeito a servi- dão mantinha algum contacto com o mercado, embora muito limitado. O seu âmbito era determinado pelo montante das prestações e dos impostos em numerário. Nos anos «bons», de colheita abundante, esse contacto era maior, pois o exce- dente era trocado no mercado pelos produtos artesanais da cidade. A parte comercializada da produção camponesa {tal como a da reserva) devia oscilar, por conseguinte, muito mais intensamente do que a produção global, se bem que — como sabemos — as flutuações desta última fossem já enor-

mes. Tudo isto não podia deixar de provocar um estado de grande intranquilidade nos mercados urbanos. A oscilação do índice de comercialização difere, no entanto, fundamentalmente nos casos da exploração campo- nesa e da reserva. Para o caso da reserva, formulámos já

a tese de que as enormes variações do produto global coexis-

tem com a tendência para a estabilização do auto-consumo, pelo que o volume comercializado oscila ainda mais intensa-

mente do que a produção global, como no-lo revela o seguinte

esquema:

Produção global liquida Zona riscada: parte da produção destinada & venda

Autoconsumo

Adiante comprovaremos a exactidão deste esquema. No <(ue toca à exploração camponesa, sobre a qual possuímos uma informação muito mais deficiente, duas coisas são certas: 1. a curva da produção global tem de se assemelhar à curva correspondente do esquema da reserva (papel decisivo do clima), 2. a diferença entre o nível de autoconsumo e a curva da produção é incomparavelmente

menor do que no caso da reserva, e nos anos de pior colheita

a produção situa-se abaixo do nívei habitual de autoconsumo, de acordo com o seguinte esquema:

global

Zona

produção destinada & venda

Produção

liquida

riscada:

parte da

Autoconsumo

Este esquema peca no entanto por uma inexactidão importante. Corresponderia à verdade se o camponês não estivesse também subalimentado nos anos medianamente bons. Como sabemos, porém, que isso acontecia com frequên- cia, temos de concluir que o autoconsumo não era tão estável como nos aparece no esquema: nos anos bons elevava-se cer- tamente um pouco, para decair nos anos maus até ao nível determinado peia quebra da produção global (nesses anos não pode vender e não tem com que comprar).

Mas como, no sistema em questão, a comercialização forçada não existe — dado que as prestações em dinheiro

a favor do senhor são reduzidas e em anos maus, como sabe- mos, geralmente nem sequer são pagas, e dado que as com-

pras que o camponês faz no mercado se referem, na sua maioria, a artigos não indispensáveis, pelo que podem ser adiadas—, não há neste sistema lugar para a «oferta de fome» tào usual, por exemplo, nas décadas de 20 e de 30 na Polónia do nosso século, quando o camponês, nos piores anos e nas piores condições, se via obrigado a vender — tirando assim o pão da boca — para não perder a terra, uma vez que os impostos eram pagos exclusivamente, e as dívidas quase exclusivamente, em dinheiro. No sistema que estamos a estudar, mesmo o camponês que costuma comprar

e vender, pode viver perfeitamente um ano ou dois sem nada vender ou comprar. Pode recolher-se à sua carapaça, como

a tartaruga.

Foi talvez precisamente por esta razão que a repetição periódica dos anos desfavoráveis não provocou, na Polónia (pelo menos em grau sensível), alterações irreversíveis e acumulativas na estrutura da aldeia, como as que sem dúvi- da produziu na França do século XVIII (como se de- preende dos trabalhos de C. E. Labrousse) e como as que produziu simultaneamente na estrutura da propriedade nobi- liária da Polónia. Em França, cada ano ds más colheitas gerava alterações irreversíveis, que afectavam certas catego- rias da população camponesa (tudo dependia das dimensões da exploração e do tipo de prestações), enquanto outras não eram afectadas. Esses anos, ao repetirem-se periodicamente, tinham efeitos acumulativos, transformando a prazo a iestru- tura do agro. Na Polónia, depois de um ano mau a tartaruga tirava cuidadosamente a cabeça da sua carapaça, e quase tudo voltava à normalidade. Com uma excepção importante:

fenómeno irreversível, e por isso mesmo parcialmente acumu- lativo, era a redução da superfície média da exploração camponesa e o aparecimento de terrenos baldios. Nem todos os camponeses que se dispersavam por causa da fome regressavam imediatamente à sua aldeia. Nem todas as explorações cujos donos morriam passavam para novas mãos. A redução do número dos animais de tracção em períodos de má colheita impedia alguns camponeses de lavra- rem toda a superfície da sua parcela.

O contacto do camponês com o mercado urbano era sem dúvida constante, mesmo em períodos de predo- mínio absoluto da reserva assente no trabalho obrigatório,

uma vez que o camponês precisava sempre de algum dinheiro para fazer frente aos encargos impostos pelo senhor ou pelo Estado. Mas esse contacto tinha amiúde carácter unila- teral: o camponês vendia, mas não comprava. Por um lado

o facto tinha grande importância para as cidades, condicio-

nando virtualmente a sua existência, uma vez que lhes asse- gurava o abastecimento em víveres, mas, por outro lado, não criava mercado de venda para o artesanato urbano.

O camponês servo só aparecia como comprador dos produtos

da cidade nos anos «bons» e, com o correr do tempo, só nos anos excepcionalmente propícios. O âmbito e a índole dos contactos do camponês servo com o mercado constituem um problema muito interessante

e de grande importância para a síntese da história econó-

mica da Polónia, mas trata-se ao mesmo tempo de um problema mal conhecido e decerto um dos mais difíceis. Existem, no entanto, algumas possibilidades de o investigar mais a fundo. Pode pôr-se agora a questão de saber se o camponês polaco utilizava o ferro, o vidro e outros produtos indus- triais que só se podem adquirir no mercado. Muitos dos poemas satíricos polacos da época do Renas- cimento exploram o tema do camponês no mercado da cidade. Ora este tema raramente aparece na literatura do Ilumi- nismo. Tratar-se-á apenas de uma mudança na moda poética ou reflectirá a desactualização do fenómeno na vida real? Quando Tyzenhaus queria difundir o uso da gadanha nos domínios reais da Lituânia, obrigava os camponeses a com- prarem gadanhas (produzidas não na Polónia, mas na Estí- ria), como lhes tinha imposto já o consumo do sal, dos aren-

ques ou da vodka. Mas essas compras integravam-se obvia- mente no sistema de coacção e de exploração feudal, e os camponeses consideravam-nas como tal. A prova é que proporcionavam lucros chorudos ao tesouro real. Mas os objectos de ferro não eram coisa rara entre os apetrechos de uma casa camponesa dos arredores de Cracóvia, por exemplo 34 . Torzewskí tentava convencer os nobres endinhei- rados a fundar fábricas de vidros, afirmando que «o vidro

é um artigo sem o qual o mais pobre dos camponeses não

pode passar» 9S . A quem vendiam a sua mercadoria os vende- dores ambulantes, chamados «escoceses», porque o eram frequentemente? Apenas aos senhores? Certamente que não.

Os produtos dos oleiros de Hza encontrados nas casas campo-

nesas de Krowodrza 3 ° vinham de muito longe.

que o camponês polaco se vestia essencialmente com panos

E a ideia de

tecidos em casa parece ser — pelo menos em relação à maior

. Apesar das investigações nesta matéria estarem muito atrasadas, podemos arriscar a hipótese de que o contacto do camponês servo com o mercado se orientava principal- mente para o consumo, permitindo-lhe, nos anos de boa colheita, elevar um pouco o seu nível de vida. Quando o camponês investe — apesar de todos os obstáculos inerentes ao sistema — fá-lo sem recorrer ao mercado e sem ter em conta o estado actual das suas relações com o mercado. A sua atitude assemelha-ae, neste ponto, à política adoptada nesta matéria pela reserva.

parte do território — pura lenda

37

Quer isto dizer que o camponês não investe nada? Que não procura o incremento da capacidade produtiva da sua parcela? Tal conclusão seria totalmente errónea. O que acontece é que as possibilidades de investimento do campo- nês não dependem em absoluto nem do volume da sua produ- ção global, nem da conjuntura do mercado, mas sim da mão- nie-obra de que dispõe — principalmente da sua família—, da dimensão das prestações pessoais relativamente a essa mão-de-obra (poderíamos chamar ao conjunto destes dois elementos o saldo da mão-de-obra da exploração camponesa)

e, em menor grau, das possibilidades locais de aumentar a

área cultivada. Este último ponto é, a nosso ver, importante e subesti- mado. Que significavam então esses inventários periódicos das terras dos camponeses, que habitualmente revelavam que uma parte dos camponeses tinha mais terras do que as que figuravam no cadastro precedente? Consideramo-los geralmente como um mero acto de agressão por parte do senhor, com o objectivo de diminuir as explorações campo-

nesas, um acto clássico de violência feudal, disfarçado sob

a

falsa constatação de que as parcelas eram maiores do que

o

«deviam ser» segundo cadastros anteriores, ou seja, que

tinham sido entretanto ilegalmente aumentadas. Tratava-se decerto, nalgumas ocasiões, de uma jogada de má fé por parte do senhor. Não lhe faltavam os meios para tal. Um deles consistia em reduzir gradualmente a medida, e portanto também a superfície. O senhor cortava a vara ^ue servia de medida, confiado na ignorância do camponês, que se não apercebia de nada. Mas o camponês opunha resistência. A aldeia arranjava, por vezes, a sua própria vara de controlo,

o que dava como resultado que, com o tempo, a diferença

entre as duas varas era cada vez maior. Nessa situação, em que o camponês deparava com um atentado às suas condi-

coes de vida, o seu tradicionalismo — por muito paradoxal

que isso nos pareça—era uma forma de luta de classe

Mas, por outro lado, pode-se arriscar a tese de que amiúde sucedia precisamente o contrário. A constatação de que a área das explorações camponesas aumentara era falsa, mas, muitas outras, podia também ser verdadeira. Os cam- poneses, -per fas et per nefa& r aumentavam a área das par- celas. Por um lado, incorporando na sua exploração franjas adjacentes de terras sem dono aparente ou de terras da reserva; por outro, quando conquistava terras à floresta 30 , quando lavrava terras até aí inúteis ou campos de pasto- reio pouco ou nada explorados, etc, quando cultivava terras sem dono, nos cases bastante frequentes em que o abandono fora total >e era já antigo. Assim a sua acção conduzia muitas vezes ao aumento das terras úteis da região.

aB

.

Pois bem, num sistema de economia agrária extensiva,

o incremento das forças produtivas faz-se principalmente através do aumento da superfície cultivada. No período

em que vigorou na Polónia o sistema de reserva assente na prestação forçada, o motor dessa expansão parece ter sido

o próprio domínio. Mas devido às devastações bélicas dbs

fins do século XVII e da primeira metade do século XVIII, acontece muitas vezes que o senhor, não dispondo de gado

nsm de instrumentos de trabalho próprios, e não dispondo também de recursos financeiros, ou não querendo inves- ti-los nesse empreendimento, não está em condições de desem- penhar essa função, transferindo-a para o camponês. Como

é natural, num regime de classes os investimentos •são sempre custeados, em última análise, pela classe explorada. Nesse período isso verificava-se também, mas de uma forma muito peculiar, a que os historiadores não têm prestado até aqui

a devida atenção. Era o camponês quem reconstruía a arrui-

nada economia agrária do país, suprindo com o seu trabalho

a falta de meios de produção, mas os frutos desse trabalho

eram paulatinamente apropriados pela reserva. Os inventá- rios da aldeia sucediam-se mais ou menos ao ritmo de cada geração, no momento em que o herdeiro tomava posse da

herança (por vezes o ciclo era mais longo, mas por vezes também mais breve, quando a reserva estava arrendada). Nessa altura fazia-se também frequentemente uma nova

medição das terras. A superfície adicional de terra útil, que

a última geração de camponeses tinha adquirido à força de

trabalho, era transferida para a reserva. Ora, esse aumento da superfície das terras aráveis coincidia também geralmente com o aumento do valor e do potencial produtivo das explora-

ções camponesas,

nacional a

produtiva s *°. A manifestação mais eloquente desse mecanismo foi o método frequentemente adoptado quando era necessário reconstruir uma aldeia ou reconstituir a produtividade da terra depois de uma guerra. Recorria-se então ao sistema censual; mas depois de reconstruída a aldeia, voltava-se ao sistema das prestações pessoais. Rutkowski tinha razão quando punha em relevo o papel do trabalho assalariado na reconstrução do agro polaco depois da devastação bélica do século XVII. Pica em aberto a questão de saber até que ponto esse recurso foi duradouro. Ê curioso o facto de verificarmos amiúde, nas fontes, que os camponeses servos aceitavam de mau grado explorações mais extensas, sobre as quais pesavam, naturalmente, maiores encargos, mas que arrendariam de bom grado terras senho- riais abandonadas, além de trabalharem nas parcelas que lhes correspondiam. Do ponto de vista macroeconómico (à escala do rendimento nacional) o facto não tem importância: a exploração abandonada por uma família camponesa (que fugiu ou morreu aquando de uma epidemia) viria a ser culti- vada por outra família. Mas a questão é muito interessante do ponto de vista do cálculo económico do camponês e é de admitir que tenha um significado mais profundo. Como sabe- mos já, quando o camponês arrenda uma terra baldia, fá-lo a troco do pagamento de um censo em dinheiro, e nunca em troca de maiores prestações pessoais. As suas possibilidades de prestação de força de trabalho esgotam-se em geral nos encargos que tem de suportar a título da sua posse da par- cela pessoal. Mas como essa parcela satisfaz as necessidades fundamentais de consumo da sua família, a exploração arrendada multiplica as suas possibilidades de comerciali- zação, permitindo-lhe pagar o censo e elevar, ao mesmo tempo, consideravelmente o seu nível de vida. A exploração — que foi assim duplicada — deixa de ser uma parcela de subsistência e reprodução, uma vez que quase toda a pro- dução líquida da terra arrendada pode ser vendida. Isto explica o interesse do camponês por este tipo de transacção. Ê claro que esse interesse só existia realmente quando era possível tomar conta da segunda parcela sem maiores custos, ou seja, sem empregar ganhões (ou recorrendo a eles em pequeníssima escala), por outras palavras, só quando a família camponesa dispunha de reservas de mão-de-obra. Trata-se de mais um indício de que, no sistema que estuda-

representando no conjunto

da

economia

das

forças

parte essencial do desenvolvimento

mos — no qual, como já sabemos, as famílias camponesas mais ricas são as mais numerosas —, as famílias não são nume-

rosas por serem ricas, mas

O que vem apoiar a tese de que o número de braços é o factor

limitativo da produção.

E se a exploração camponesa chegou a ser mais do que

uma parcela de subsistência, se apesar de todos os obstá- culos conseguiu realizar uma reprodução ampliada, foi por- que este método trazia benefícios ao senhor.

O camponês luta porfiadamente para que lhe seja dada

a possibilidade de produzir um excedente e de o vender. A

reserva faz o que lhe é possível para lhe impedir o contacto com o mercado (a não ser o estritamente necessário para que o camponês possa pagar as prestações em dinheiro e os impostos). Mas é justamente esse contacto que determina,

em grande parte, o nível de vida do camponês (e não as suas possibilidades de produção).

O nível de vida do camponês depende, assim, do exce-

dente de produção, este depende do volume da produção global, e este último (dado o carácter extensivo da economia)

da superfície cultivada. O aumento da superfície cultivada depende, por sua vez, da relação entre a mào-de-obra e as condições topográficas (existência de terras incultas, pasta- gens não exploradas, matagais, bosques desaproveitados, etc., nos arredores e sobretudo na vizinhança das terras cultivadas) 42 . Uma vez que o saldo da mão-de-obra da explo- ração camponesa era aparentemente — e apesar de tudo — positivo (não porque os testemunhos sobre o peso dos tra- balhos obrigatórios fossem exagerados, mas sim porque

o camponês subestimava o seu próprio trabalho e o da sua

família), o factor «topográfico» era, em última análise, deci- sivo ".

da

exploração camponesa. Reconstituir esse balanço de uma forma válida para uma exploração típica é tarefa difícil, mas não impossível. Seria evidentemente necessário fazer uma análise das dife- rentes categorias de exploração e da sua evolução. A ten- dência para reduzir as dimensões médias da exploração influía «positivamente» sobre esse balanço. A regra cons- tatada por Rutkowski, a saber, que quanto menor era a exploração, tanto maiores prestações pessoais lhe eram impostas, operava, pelo contrário, «negativamente». Dificil- mente poderemos determinar hoje a resultante dessas tendên- cias opostas. Parece que prevalecia, no entanto, a primeira:

ricas por serem numerosas 41 .

são

Vejamos

mais de perto o balanço da mão-de-obra

isto é, à medida que a superfície cia exploração do camponês diminuía, as suas necessidades de mão-de-obra diminuíam mais rapidamente do que aumentavam os seus encargos de trabalho obrigatório. Esta afirmação é, porém, extrema- mente discutível. O balanço da mão-de-obra da exploração camponesa é a resultante da acção de vários factores extraeconómicos. A quantidade de trabalho que o senhor pode extrair da explo- ração camponesa não é determinada exclusivamente em função da quantidade de trabalho de que a exploração necessita. A reserva não pode monopolizar todo o excedente.

O grau em que o pode fazer depende da correlação das

forças sociais e também — até certo ponto — da resistência que o camponês opõe. Foi este facto que tornou possível maior lentidão no aumento das prestações pessoais relati- vamente à diminuição das parcelas dos camponeses.

Mas a analise do balanço da mão-de-obra, atendendo

ao carácter heterogéneo dos elementos que a compõem e ao

ritmo sazonal da sua procura, tem forçosamente de ter em conta os «factores limitativos». O principal factor deste tipo era com toda a certeza o problema da mão-de-obra mascu- lina adulta nas temporadas de maior acumulação dos tra- balhos agrícolas. Não há dúvida de que coexistiam frequen- temente na mesma exploração um balanço equilibrado ou até negativo dessa mão-de-obra nas referidas temporadas, e um balanço positivo de todas as outras categorias de mão- -de-obra durante o resto do ano.

Mas como o défice temporário de mão-de-obra masculina na exploração camponesa afectava unicamente a produção agrícola, particularmente a de cereais (cuja expansão depa- rava com enormes dificuldades), os possíveis excedentes do balanço global podiam ser canalizados para a produção hor- tícola, a criação de suínos e aves ou ainda para a manu- factura caseira, principalmente de tecidos. Daí a enorme importância do trabalh o feminino n a economia camponesa •". Uma última questão: qual será a reacção da exploração camponesa, a curto prazo, aos altos e baixos da colheita? A concepção por que se rege a reserva assenta na esta- bilidade do valor real das prestações, garantida pela própria natureza destas. O valor real dos dias de trabalho obrigató- rios (cujo número está determinado) e das prestações em espécie é fixo por definição. E se abstrairmos, de momento, das prestações insignificantes em dinheiro, essa concepção implica que o risco inerente à flutuação do produto global camponês recai integralmente sobre a exploração camponesa.

E nessa época o risco, em toda a acepção da palavra, era

muito grande. Uma exploração anémica não estava de modo algum em condições de o suportar. À medida que a área

média da exploração camponesa diminuía, o risco torna- va-se cada vez maior e mais prenhe de consequências. Surge, porém, neste ponto uma das contradições fundamentais do sistema: se o senhor se não decide a compartilhar o risco, pelo menos até certo ponto, a exploração camponesa ficará arruinada, com prejuízo evidente para a reserva. O senhor

— quer o quisesse, quer não — não podia portanto subtrair- -se ao risco.

As relações monetárias do camponês com a reserva resumem-se às prestações em numerário e ao sistema de «dre- nagem» dos recursos monetários do camponês, principal- mente através do monopólio da produção e venda de aguar- dente, reservado ao senhor. Em períodos de maior produção global, o camponês pode vender mais, mas a mais baixo preço. Tudo parece indicar que o maior volume das vendas compensa amplamente a baixa dos preços e que, por conse- guinte, lhe é então mais fácil pagar as referidas prestações.

A reserva beneficia também, ao receber a mesma soma

nominal, de maior poder aquisitivo, devido à baixa dos

preços. De tal maneira que ambas as partes ficam a ganhar,

o que reflecte muito simplesmente o aumento do rendimento

nacional global. Nas relações comerciais entre o camponês e a cidade,

a situação é determinada pela pouca elasticidade dos preços dos produtos manufacturados (monopólio das corporações), juntamente com a grande elasticidade dos preços dos pro- dutos agro-pecuários. Por essa razão, é o camponês que suporta quase por inteiro as consequências de qualquer diminuição do rendimento nacional — por exemplo, um ano de má colheita. O camponês está, porém, em condições de contrair essa tendência, adiando a compra de produtos manufacturados para um ano melhor, o que parece ser uma regra.

A economia da corporação artesanal

O cálculo económico do artesão no regime gremial está

ligado a um sistema

para

funciona num mercado muito limitado", Nas transacções

monopolista-—que

de concorrência muito imperfeito —

lhe não chamarmos

um sistema

do mercado, o habitante da cidade estava organizado face ao camponês, que o não estava, o que constitui um meca- nismo típico da exploração do campo pela cidade í0 .

O grémio, como elemento do sistema social corporativo,

constitui, como se sabe, uma organização que vincula inte- gralmente os seus membros, as famílias destes e os aspi- rantes a membros, em todas as suas funções, actos e necessi- dades sociais. Numa sociedade corporativa só se é membro da sociedade na qualidade de membro de uma corporação.

0 grémio, como organização de produtores, orienta

a sua actividade pelo objectivo de garantir um «preço de

monopólio», limitando, por um lado, a produção do artigo correspondente, e aumentando, por outro, o seu preço até onde for possível, para obter o máximo benefício global.

A tendêneia para aumentar o preço era limitada pela procura

efectiva. A supressão da concorrência através da regula- mentação da corporação (que proibia a publicidade, regula- mentava os preços de venda e os preços da matéria-prima, fixava a remuneração dos oficiais e dos aprendizes e, sobre-

tudo, a quantidade de trabalho que uma oficina podia utilizar, limitando a mão-de-obra auxiliar e o número de dias e de horas de trabalho, o que — dadas as técnicas manuais e uniformes de produção — implicava a imposição de um limite de produtividade a todas as oficinas) tinha por objectivo garantir uma repartição igual dos benefícios obtidos, graças a uma posição monopolista no mercado.

Esta concepção assentava na invariabilidade

ideal dos

preços. A prática ráveis.

introduzia, porém, modificações

conside-

O sistema estava construído de maneira a que «a pro-

dução seguisse sempre o consumo a um passo de distância», ou seja, de modo a que o consumo mantivesse sempre a dian-

teira. Assim seria garantida a relação desejável entre a oferta

e a procura e assegurada a venda da totalidade da pro-

dução

do vendedor», ou seja, aquele em que o vendedor desfruta

de uma posição privilegiada. Só assim tinham sentido eco- nómico as limitações quantitativas impostas à produção. Mas o aumento da procura efectiva coincide, segundo parece (e segundo se depreende dos parágrafos anteriores'), com períodos de aumento do rendimento nacional, de plena uti- lização de todos os factores de produção, com anos de paz

. Só assim podia funcionar cabalmente o «mercado

47

e de boas colheitas, ou seja, com períodos de baixo nível

geral de preços, A baixa geral dos preços significa, natural- mente e antes de mais nada, uma baixa de preços dos pro-

dutos agrícolas, pecuários e florestais (artigos alimentares

e matérias-primas), enquanto os preços dos produtos

manufacturados se mantêm relativamente rígidos. Por isso

o

período de baixa é, em muitos aspectos, vantajoso para

o

artesão, uma vez que:

1)

baixam os preços da matéría-prima;

2)

baixa o custo da mão-de-obra(uma vez que a remu-

neração dos oficiais e aprendizes se fazia principalmente em espécie);

3) aumenta a procura efectiva global, permitindo apro-

veitar toda a capacidade produtiva da

4) a procura cresce mais rapidamente do que a oferta,

oficina;

o que proporciona boas condições para o funcionamento eficaz do «mercado do vendedor».

Mesmo quando — caso nada frequente — a situação for-

çava os grémios a baixarem os preços (por exemplo, devido

à pressão dos compradores: a nobreza, certos grupos da

burguesia), isso acontecia com uma certa demora em rela- ção à acção dos quatro factores enumerados, criando assim uma margem de lucro para os membros do grémio. Pelo contrário, nos períodos de baixa procura global efectiva (que coincidiam com os anos de menor rendimento nacional e da alta de preços), não aparece o «mercado do con- sumidor». Impede-o o sistema corporativo, que tem esta como uma das suas funções essenciais. Nessa situação os preços dos produtos manufacturados têm forçosamente de aumen- tar, dado que:

1)

aumentam os preços da matéria-prima;

2) aumenta o custo da mão-de-obra (novamente devido

à remuneração em espécie); 3) aumentam as despesas de manutenção do próprio mestre.

E tudo isto acontece num momento em que a produção

da oficina está a decrescer. Os preços dos produtos manu-

facturados não podem, porém, aumentar muito, devido à redução da procura. A eficácia do preço de monopólio dimi- nuiu, mas o sistema corporativo continua a funcionar como

sistema de repartição igual dos lucros diminuídos e inclusive

da repartição igual das perdas eventuais.

A curto prazo, a elasticidade do volume da produção

gremial é praticamente nula. O seu limite superior é deter-

minado pelo aproveitamento total da capacidade produtiva das oficinas existentes. A produção pode oscilar apenas até esse limite e, como já o dissemos, em sentido oposto

à oscilação dos preços. A longo prazo, havia naturalmente maiores possibili- dades de modificar o potencial produtivo do grémio consi- derado no seu conjunto. Na prática isso era possível conce- dendo facilidades aos oficiais para se estabelecerem por conta própria ou, pelo contrário, multiplicando ca obstá- culos, o que reduziria forçosamente, a longo prazo, o número das oficinas. Recorria-se também a medidas intermédias, autorizando-se, por exemplo, os mestres a aumentarem o número dos oficiais e aprendizes. Surge, no entanto, a dúvida de se a opção por uma ou outra linha de acção era exclusiva ou sequer parcialmente determinada pelo cresci- mento ou pelo decréscimo da procura, se em geral, dependia dos fenómenos do mercado. Uma vez que o regime gremial clássico recusa altera- ções nas técnicas de produção — e portanto alterações radi- cais do rendimento do trabalho — a produção global do grémio é determinada:

1)

pelo número de oficinas;

2)

pela quantidade de mão-de-obra auxiliar fixada para

cada oficina (ou pela proporção entre a mão-de-obra quali- ficada e a não qualificada, ou seja, entre os oficiais e os aprendizes);

produtiva

da oficina

Em suma, o sistema gremial é um sistema muito pouco sensível aos estímulos do mercado e incapaz de se adaptar

a qualquer mudança na situação. Seria, no entanto, impossível estudar a economia artesanal da época sem analisar outros factores que influen- ciavam a formação dos preços dos produtos manufactura- dos e o cálculo económico do próprio artesão. No sistema capitalista liberal, o preço é uma variável independente do ponto de vista do empresário isolado. Este tem de incluir no seu cálculo o preço efectivamente exis- tente no mercado, modificado de acordo com as previsões sobre a sua evolução futura. A sua acção é demasiado fraca e a quantidade de produto que lança no mercado demasiado pequena para que possa influir, por essa via, sobre o preço.

3)

pelo

e

grau

da

de utilização

da

capacidade

mão-de-obra.

No feudalismo a situação é diferente. A concorrência

é muito imperfeita, sobretudo no mercado que liga a cidade

à comarca circundante. As possibilidades que os diversos

sujeitos económicos têm de influenciar os preços são consi- deráveis e variadas. Num mercado deste tipo, o grémio

ocupa uma posição de monopolista colectivo,, actuando de forma organizada face aos fornecedores camponeses não organizados, o que lhe permite fazer baixar o preço dos artigos que vende, através de regulamentação adequada

e principalmente limitando a produção. Mas os órgãos

representativos da nobreza podem também influir nos preços, promulgando tarifas especiais — ou seja, listas de preços máximos — em cada vowodia (província). Os historiadores influenciados pela concepção liberal da economia, que reco- nhecem valor absoluto às leis que caracterizam a economia mercantil capitalista, têra tendência para não atribuir a devida importância ao significado económico das tarifas e negar a sua eficácia. Se as coisas fossem assim, a aplica- ção continuada dessas tarifas ao longo dos séculos revelaria uma aberração evidente de certas camadas sociais, que por- fiavam em utilizar arma tão ineficaz.

O problema das tarifas requer um estudo completo. A lista de produtos sobre os quais incidem e que mudam com o tempo é por si só muito eloquente. Os estatutos de Warka

de 1423 introduziram uma regulamentação oficial dos preços,

a fim de que uma «manobra» dos burgueses não provocasse

uma baixa artificial dos preços dos artigos alimentares, cujo principal fornecedor era, na época, o nobre. No século XVI, quando os preços estão em acentuado aumento, a consti-

tuição do ano de 1565 exclui os cereais da lista de produtos cujo preço pode ser objecto de regulamentação. Como se vê,

a nobreza quer tarifas para o que compra e o comércio livre

dos artigos vendidos por ela 1S , evidentemente, apenas quando

a tendência altista é geral \ Na Idade Moderna, quando a

tendência altista é quase permanente -— quer devido à con-

juntura internacional, quer devido à inflação, quer ainda por causa das guerras —, a nobreza revela grande interesse

em impor tarifas às bebidas, panos e seda

caso dos cereais, muito raramente apela para esse recurso,

e só quando é necessário prevenir uma baixa iminente de

preços sl

alimentares, é principalmente para ajustar os preços dos artigos manufacturados aos preços da matéria-prima, que

. E quando as tarifas afectam os preços dos artigos

n

°, enquanto no

se considera como uma espécie de «variável independente»:

por exemplo, o ajustamento do preço do pãó ou do farro

ao preço dos cereais ,a . Tratar-se-ia, pois, de uma análise de regulamentação da taxa de lucro dos produtores urbanos.

B por essa razão que os mercadores boicotam muitas vezes

as assembleias municipais convocadas para estabelecer as tarifas ss . Sabemos, por outro lado, de tarifas especiais apli-

cadas aos artigos importados". Além disso, a opinião bur- guesa em vão exigia a regulamentação dos preços do pão e

de outros produtos alimentares

Muitos historiadores polacos negaram qualquer eficá- cia às tarifas. «Toda a legislação relativa à regulamentação dos preços no século XVI — diz Rybacki — não teve impor- tância de maior. O comércio era, em princípio,, livre. As tarifas provinciais foram aplicadas apenas a algumas mer-

cadorias e nem sempre foram eficazes»

ditam na eficácia das tarifas historiadores como Lanowski,

Szelagowski, Hoszowski e com ele todos os investigadores

dos preços de Lvov. A posição mais extremista nesta matéria

é a de Siegel, que passamos a citar no tocante a este ponto. Diz, por exemplo: «Sério estorvo para o comércio polaco dos séculos passados foram as tarifas»"; «o sistema de

tarifas deixava

culadores, expondo simultaneamente o comerciante honesto

a severas penalidades, podendo este ser privado da sua loja

ou oficina no caso de se ver obrigado a exercer as tarifas»

Esta afirmação dificilmente é compatível com a sua tese de que «o ajustamento das tarifas dos artigos alimentares aos preços dos produtores agro-pecuários tinha por objecti- vo evitar as perdas que os comerciantes poderiam sofrer devido a uma política pouco hábil» M . Para avaliar da

eficácia das tarifas, Siegel compara os preços regulamenta- res e reais da manteiga e do sebo. Na sua análise, em que não faltam erros de aritmética 6n , cada resultado obtido parece provar a sua tese. Quando o preço realmente pago se distancia muito do preço da tarifa, diz: «Qual era então

o sentido de fixar preços obrigatórios, quando ninguém

queria nem podia adoptá-los». E quando o preço real quase

coincide com o preço regulamentar, constata: «A diferença

é apenas de 6% a favor dos preços de mercado, o que prova claramente que a imposição de tarifas no século XVTII não

correspondia

pois, estranhar o facto de Siegel concluir as suas conside-

rações afirmando que «as sessões das comissões de tarifas

não passavam de

se pode negar ao autor o dom de saber expor claramente a sua posição.

.

5e

. Também não acre^

o consumidor totalmente à mercê dos espe-

6S

.

a nenhuma necessidade real» 01 . Não se deve,

perda de tempo» 32 . Em todo o caso, não

Mas encontramos também opiniões opostas. 0 primeiro investigador das tarifas, F. Bostel, acreditava até certo ponto na sua eficácia. Erecinski, ao estudar o comércio da cidade de Poznán, diz-nos que «as tarifas eram geralmente respeita- das» es . A posição mais razoável, no estado actual das inves- tigações, é a de Rutkowski, quando diz: «Não há dúvida de que os preços fixados pelas tarifas eram ultrapassados em mais de uma ocasião e de que estas infracções nem sempre eram castigadas. Apesar de tudo isso, as tarifas influencia- vam, até certo ponto, a formação dos preços, constituindo um dos factores que determinaram, na Polónia, uma varia- ção dos mesmos, benéfica para os produtores agrícolas e desfavorável para os operários e para os artesãos» * . Não é necessário demonstrar que as tarifas eram exce- didas, pois trata-se de um facto notório. Mas esse facto não prova a sua ineficácia. A acção das tarifas podia manifes- tar-se de duas maneiras: 1. travando a tendência altista; 2. oferecendo melhores condições de transacção aos comprado- res cuja posição social lhes permitia obrigar o vendedor a respeitar as tarifas. Resta saber se as tarifas provinciais foram ou não uma causa parcial (uma vez que não foram com toda a certeza a única) do facto de os preços dos artigos de artesanato terem aumentado mais lentamente na Polónia dos séculos XVT-XVTO do que os preços dos frutos da berra. O problema merece ser investigado. Outra questão a pôr refere-se aos factores decisivos do cálculo económico da produção artesanal. E. J. Hamilton toma em consideração, em toda a sua obra, um único desses factores, os salários. Segundo ele, o facto de os preços das mer- cadorias aumentarem mais rapidamente do que os salários constitui uma prova do incremento dos lucros. Este raciocí- nio peca porém por não tomar em conta alguns elementos fundamentais,, um dos quais tem para nós, neste momento, um interesse muito especial: o custo da matéria-prima. O peso deste factor no cálculo varia de acordo com os sectores, mas nunca é insignificante. Na situação concreta da Poló- nia da Idade Moderna, o produtor principal — se bem que não o único — das matérias-primas é a reserva, isto é, a nobreza, que é também quem impõe as tarifas. Este duplo aspecto do problema ainda não foi estudado. O facto de, por exemplo, o preço do trigo tender a aumentar muito mais do que o preço da farinha de trigo sugere uma redução da margem de lucro daquele que transforma a matéria-prima fmas pode tratar-se também de uma decadência dos moinhos independentes, provocada pela moenda obrigatória do grão

4

nas reservas). Para progredirmos com segurança neste terreno, seria necessário analisar os preços das matérias- -primas e dos produtos manufacturados em diversos mer- cados e em diferentes períodos de tempo, tendo em conta a condição social do fornecedor de cada uma das matérias-

-primas (como o dissemos já, esse fornecedor era geralmente

o domínio, mas nem sempre).

E, finalmente, é necessário chamar a atenção para o facto de que a rigidez da oferta da actividade artesanal é acompanhada por uma grande elasticidade da procura dos artigos que ela produz, pelo menos na maioria dos sectores. Essa elasticidade deve-se em especial ao elevado grau de auto-suficiência das economias domésticas camponesas e, em parte também, burguesas, que limita as suas relações com

o mercado, em geral, a contactos destinados a satisfazer

necessidades não imperiosas. Se não são imperiosas, quer dizer que a sua satisfação pode ser adiada por um ano ou dois. Ê um dos métodos de entesouramento consiste justa- mente em adiar as compras para um momento mais pro- pício. Em conclusão, a situação económica do artesão caracte- riza-se por uma elasticidade considerável da procura e por uma elasticidade reduzida da oferta.

Confrontações empíricas

A primeira hipótese que temos de submeter à verificação

é a que se refere à tendência do autoconsumo para a estabi-

lidade, e o seu corolário: a flutuação da quantidade comer- cializada é muito mais acentuada do que a flutuação das colheitas, que, por seu lado, também é considerável. Partire-

mos, para este cotejo, de dados sobre a produção e a venda de trigo num dos domínios pertencentes à cidade de Poznan, nos anos de 1588-1610. Utilizámos quatro métodos de repre- sentação gráfica desta questão, e todos eles corroboram as hipóteses formuladas. Obtivemos como resultado a equação

y=a x — b

era que y representa o volume comercializado, x a produção, o tende para um [neste caso concreto a = 1,15] e 6 repre- senta o autoconsumo estável.

Esta conclusão não constitui qualquer revelação, mas para nós é de grande importância. O autoconsumo como objecto de investigação, sobretudo histórica, é um tema muito ingrato. Como saber o que foi produzido e consumido dentro da exploração agrícola, sem passar pelo mercado, sem passar pelas mãos de diferentes pessoas, sem ser objecto de relações inter-humanas, para lá das que se processam no seio da própria «empresa»? Se há razões para afirmar que o consumo é quantitativamente estável a curto prazo, temos por conseguinte o direito de concentrar a nossa atenção sobre a análise das alterações quantitativas e das altera- ções do valor real da parte comercializada da produção.

Elasticidade relativa das colheitas e das vendas à escala mlcro- económica (colheita e venda do trigo no domínio de Wilda entre 1583 e 1610). índice em cadeia: os pontos situados acima do eixo 100 repre - sentam o aumento relativamente ao ano precedente; os pontos situa- dos abaixo desse eixo representam uma diminuição- Nota-se que nos anos de boa colheita o aumento das vendas é maior do que o da colheita, e que nos anos maus a diminuição das vendas é mais pro- nunciada do que a da colheita.

mlasta

Poenama w l, 1582-164$ («Economia do domínio feudal nas aldeias da cidade de Poznan entre 1982 e 1614»), Poznan, 1957.

Fonte:

J.

Majewskl,

Gospod&rka

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Debulha e venda do .trigo no domínio de Wilda, 1582-1610 (em nú-

meros

Fonte: J. Majewstei, Economia do domínio feudal, ap. cit., pp. 284-285. (Um ponto situado sohre o eixo OA significaria que nesse ano se tinha vendido toda a colheita. Se os pontos marcados estão distribuídos mais ou menos paralelamente ao eixo significa que o con- sumo interno do domínio é relativamente estável.)

absolutos).

Na economia feudal, isolada do mundo, o nível geral dos preços é determinado pela variação dos preços agrícolas, e esta última (a curto prazo, em que a procura se pode consi- derar invariável) pela colheita. A flutuação doa preços deve- ria ser, portanto, inversamente proporcional à flutuação das colheitas. E uma vez que quase toda a flutuação do volume da produção global se transmite à parte comercializada, este facto deveria forçosamente traduzir-se por uma flutuação muito forte dos fenómenos do mercado, mesmo que a parte

comercializada da produção seja insignificante, ou precisa- mente por essa razão. As investigações históricas mais recen- tes sobre os preços permitiram estabelecer essa correlação em vários mercados. Para o caso da Polónia, os dados dispo- níveis parecem indicar no entanto que essa correlação é muito menos significativa. O problema tem grande importância e exige uma aná- lise detalhada. Em primeiro lugar temos razões para supor que essa correlação foi na realidade mais íntima do que no-lo mostra o material de que dispomos. A relação efectiva é parcial- mente obliterada, na medida em que o material em questão utiliza o ano civil e não o ano agrícola. A colheita, boa ou má, pode influenciar os preços até à Primavera do ano seguin- te, pelo que uma comparação entre as colheitas e os preços confinada ao ano civil pode falsear a correlação. E dada a forte variação anual das colheitas, fenómeno típico da época, essa correlação pode ser completamente obliterada 85 .

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1600

(índices calculados segundo a lei dos mínimos quadrados) Correlação entre a dehullia e a venda de trigo no domínio de Wilda,

1582-1600.

Fonte: J. Majewskl, Economia

do domínio

feudal—,

op.

cit.

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Correlação da colheita e da comercialização à escala microeco- nômica (colheitas e vendas de trigo no domínio de Wilda entre 1583 e

1600).

Fonte: J.

Majewski,

Economia

do domínio

feudal,

<yp.

cií.

A relação preços-colheitas pode, por outro lado, ter tido uma importância relativamente maior do que aquela que lhe atribuímos nas nossas tentativas de cálculo, pela simples razão de que, para as fazer,partimos dc3 preços nomi- nais. Os resultados podem estar falseados devido à influência de perturbações monetárias; um ano de boa colheita pods coincidir, por exemplo, com uma alta de preços inesperada, devido a fenómenos inflacionistas. Prova de que esse fenó- meno era possível é o facto relativamente frequente do aumento simultâneo da exportação de grãos feita por Gdansk (que pode servir grosso modo de índice das colheitas na bacia do Vístula) e da alta de preços. A diminuição da exportação raras vezes coincide, porém, com a baixa de preços. Não nos pareceu conveniente responder a essa dificuldade atra- vés do recurso ao cálculo dos preços em prata ou em ouro, até porque os dados sobre a cotação da moeda que aparecem nas publicações da «escola de Bujak» nos não inspiram grande confiança. De qualquer modo, é pouco provável que esses dados possam reflectir imediatamente as rápidas mu- danças das cotações.

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— Prego do trigo em Poznan ~— Colheitas num domínio doa arredores de Poznan

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1595

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(domínio de Wilda,

entre 1584 e 1600, em números absolutos).

ano,

dividida pela quantidade semeada no ano precedente), J. Majewski,

, tados ao autor pelo Prof. S. Hoszowki

op. cit.; par a os preços: dados facul-

Economia

Colheitas e prego à

Fontes:

para

as

do domínio

escala mlcroeconómlca

(colheita

de

trigo

colheitas

feudal

de

um

dado

Porém, é irrefutável que a correlação negativa entre as colheitas e os preços não é ideal e que intervêm aqui outros factores para além dos monetários. E é irrefutável apesar de os nossos pontos de apoio serem muito defeituosos, já que, se o conhecimento que temos da história dos preços é bastante completo, conhecemos muito mal as flutuações das colheitas.

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Correlação das colheitas e dos preços à escala microeconômica (domínio de Wilda, entre 1585 e 1600). Fontes: as mesmas que para o diagrama precedente.

Um ponto de apoio muito mais firme desta conclusão resulta da concordância, aparentemente bastante grande, da evolução dos preços de todos os cereais em todas as cidades da Polónia. Este fenómeno também não foi objecto de estudos especiais, mas os resultados que apresentámos, a título de exemplo, nos diagramas aqui inseridos são elo- quentes r, °.

Vejamos alguns números:

Correlação simples

Poznan-Gdansk

0,860

Poznan-Cracóvia

0,699

Gdansk-Cracóvia

0,655

Correlação simples com atraso de um ano

Gdansk-Cracóvia

0,820

Correlação múltipla

Poznan, Gdansk e

Cracóvia

0,879

Gdansk, ÍPoznan e Cracóvia

0,864

Cracóvia, Poznan e Gdansk

0,707

Wisniewski chamou a atenção para a correlação dos preços em Varsóvia e em Gdansk no século XVIII<". Se con- siderarmos provada a relação íntima existente entre os pre- gos dos cereais nas maiores cidades da Polónia — apesar das reduzidas dimensões dos territórios que abasteciam cada uma

delas e das diferenças notáveis do rendimento agrícola exis- tentes de região para região — impõe-se concluir que deviam intervir outros factores na uniformização dos preços. Um deles podia ser, evidentemente, a influência dos preços de exportação, ou seja, do volume da exportação e dos fenó-

menos que ocorriam no mercado mundial

Assim chegamos a um problema muito importante e muito discutido pelos historiadores polacos. Tem-se discutido por mais de uma vez e com grande entusiasmo a função do mercado externo — ou melhor, as funções correlativas do mercado externo e interno — na eco- nomia polaca da Idade Moderna, em particular em torno do debate sobre a origem do domínio assente na servidão. Não se encontrou ainda, em nossa opinião, um método de inves- tigação adequado do ponto de vista da análise económica para este problema.

•Por um lado, os próprios índices quantitativos são discutíveis. Korzon calcula que nos anos posteriores à pri-

meira divisão da Polónia (1772) e à instituição dos direi- tos alfandegários pela Prússia, a exportação de cereais da Polónia (com um território já reduzido) constituía entre

4 e 7,5% da colheita global fl9 ; Hoszowski, que considera este cálculo verosímil, supõe que antes da primeira divisão essa percentagem poderia ter sido o dobro, entre 10 e 15% da

aa

.

produção 70 .

Por outro lado, a influência da exportação sobre a vida económica do país exerce-se unicamente através do meca-

nismo do mercado, e sobretudo através dos preços. Mas para podermos formar uma ideia acerca da possível influên- cia da exportação sobre os preços, deveríamos comparar as quantidades exportadas não com a produção global, mas sim com a produção comercializada. Ora, o volume desta última é muito difícil de determinar. Os «coeficientes de comercialização»calculados porRutkowski a partir das«actas de inspecção» do s fins d o século XVT parecem demasiado

elevados

mente respeito à produção das reservas. Supondo que o índice médio de comercialização da produção camponesa era de 10% e que as explorações camponesas produziam 50% da produção líquida, e aceitando os coeficientes exagerados

71

. Além disso, esses coeficientes dizem exclusiva-

de Rutkowski para as reservas, chegamos, para o conjunto da agricultura polaca dos fins do século XVI, a um coefi- ciente de comercialização da ordem dos 35-40%. Entre o século XVI e o século XVHI duas tendências opostas actua- ram sobre este coeficiente: 1) o aumento da superfície das

reservas relativamente à superfície total das terras cultiva- das, facto que se repercutia favoravelmente sobre o referido coeficiente; 2) a diminuição do rendimento por unidade de superfície, facto que se repercutia negativamente. Supon- do que as duas tendências se anulam mutuamente, pode- mos aceitar também para a segunda metade do século XVHI

o coeficiente de comercialização de 35-40%. Se assim é,

os 10-15% que representam, segundo Hoszowski, a parte da produção global líquida destinada à exportação, significa- riam que as exportações representavam entre 25 e 45% da

produção comercializada

Além disso, como já dissemos, as grandes flutuações da produção global (a curto prazo) eram quase totalmente transferidas para a parte comercializada, que equivaleria a uma percentagem reduzida daquela e cujo volume variava, portanto, ainda mais de ano para ano. Mas se quisermos avaliar a influência da exportação sobre os fenómenos do mercado interno, não podemos limi- tar-nos a determinar a parte exportada da produção global ou da produção comercializada. Até uma exportação relati- vamente reduzida pode (ainda que não necessariamente) exercer uma influência poderosa sobre os preços internos. Podem concorrer para tal uma série de factores difíceis

de prever em abstracto. O único caminho que resta é estudar

empiricamente essa influência. A título de prova, analisemos a questão a partir dos dados do período de 1584-1600 (que escolhemos por ser o único de que possuímos dados contínuos sobre as colheitas) ".

7S

. Tal percentagem é elevadíssima.

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— Prego do trigo em Poanan

Prec» do centeio em Gtlansk

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d a Polónia entre 1584 e

Pontes: Poznan (prjço do cwiprtnia de trigo), dados facultados ao autor pelo Prof. S. Hoszowskl. Gdansk (prego do last de centeio), J. Pele, Ceny w Gãansku, w XVI i XVII w. («Pregos em Gdansk nos séculos XVT e XVII») , Lvov, 1937. Cracóvia (prego d o amertnia de aveia), J. Pele. Geny w KraJcowie te. I. 1369-1600 («Preços em Cracóvia nos anos de 1369-1600»), Lvov, 1935.

são medidas de cereais variáveis segundo

as épocas e a s regiões; equivalem aqui, aproximadamente, a 136 e 3,000 litros, respectivamente.

Pregos doa cereais na s grandes cidades

(em números

absolutos).

1600

Nota: eteiertnia

e last

Ao comparar os dados sobre as colheitas de trigo nos arredores de Poznan com os preços do trigo na cidade ™, observamos que — tal como esperávamos — aparece a correlação negativa característica do regime feudal, mas, neste caso, relativamente fraca.

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calculados segundo a lei dos minimos

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quadradas)

Correlação das flutuações dos preços dos cereais nas grandes cidades da Polónia entre 1584 e 1600. Fontes: as mesmas que para o diagrama precedente.

Comparámos igualmente a flutuação dos preços em três cidades da Polónia durante os mesmos anos. A corre-

lação é extraordinariamente forte, apesar de uma série de

factores de cálculo que tendiam a

enfraquecê-la:

1) foram objecto da nossa comparação os preços em Gdansk, Cracóvia e Poznan, isto é, duas cidades da bacia do Vístula, mas muito distantes uma da outra, e outra, Poz- nan, que não pertence a essa bacia, e que exercia segura- mente grande influência uniformizadora sobre os preços;

2) por falta de dados uniformes e contínuos para esse período, tivemos de recorrer aos dados disponíveis, relativos ao centeio em Gdansk, ao trigo em Poznan e à aveia em Cracóvia. Ê de supor, porém, que a correlação para uma

única espécie de cereais teria sido mais intensa

A intensidade desta correlação não é característica ex- clusiva do período que escolhemos a título de exemplo, como o provam os coeficientes referentes à segunda metade do

7S

.

século XVIII. O cálculo assenta nos preços nominais do cen-

teio. Os resultados são

os seguintes " :

Período

1750-1795

 

Correlação simples

Cracóvía-Varsóvia

0,760

Varsóvia-Gdansk

0,800

Cracóvía-Gdansk

0,872

Correlação

mútlipla

Varsóvia-Cracóvia e Gdansk

0,815

 

Cracóvía-Varsóvia e Gdansk

0,834

Gdansk-Varsóvia e Cracóvia

0,866

Período 1750-1772

 

Correlação simples

Cracóvía-Varsóvia

0,607

Varsóvia-Gdansk

0,509

Cracóvía-Gdansk

0,823

Correlação múltipla

Varsóvia-Cracóvia e Gdansk

0,608

Cracóvía-Varsóvia e Gdansk

0,852

Gdansk-Varsóvia e Cracóvia

0,822

Voltemos ao exemplo de Poznan nos fins do século XVI, uma vez que é o único caso em que dispomos simultaneamen- te de dados sobre os preços locais e sobre as colheitas locais. Tomemos os anos em que, na comparação entre os preços e as colheitas, se não manifestou a correlação negativa que esperávamos, ou seja, os anos em que o preço e a colheita sobem ou descem simultaneamente. São os anos de 1585 (baixa), 1588 (baixa), 1599 (alta) e 1600 (alta). Verifica- mos que em todos estes anos, à excepção do de 1600, a evo- ção do preço do trigo em Poznan, inexplicável em termos da relação com o volume da colheita, coincide com a evolu- ção do preço doa cereais em Gdansk, o porto exportador. Na nossa opinião, estamos perante um fenómeno de grande importância.

Chegamos assim à etapa seguinte: a análise dos factores que determinam o preço de exportação. O passo inicial consistirá forçosamente em estabelecer a correlação entre os preços de Gdansk e os preços nos mer- cados importadores. Infelizmente, a publicação de Posthumus sobre os preços na Holanda fornece-nos, para este período,

dados muito fragmentários. Procuremos cotejar o que é possí- vel. O maior número de dados refere-se aos preços do cha- mado centeio «prussiano> em Amesterdão (prego do last em florins) 7tt . Podemos compará-los com os preços do centeio em Gdansk, segundo Pele (preço do last em ouro) '», nos anos em que dispomos de ambos os dados ao :

 

Amesterdão

Gdansk

1579

78,40

71,79

1580

96,00

83,19

1581

1582

67,90

56,92

1583

1584

73,15

60,00

1585

73,85

61,52

1593

75,60

53,19

1594

93,80

66,90

Correlação simples:

+

0,776

Como se vê, a correlação é elevada, na medida em que é possível emitir um juízo a partir de dados fragmentários. Não é tão elevada como a dos preços dos cereais nas grandes cidades da Polónia, mas é superior à que se verifica entre as colheitas e os preços em Poznan. Temos pois uma correlação relativamente forte entre os preços de Poznan e Gdansk, por um lado, e entre os de Gdansk e Amesterdão, por outro. Tudo isto parece reforçar a tese de que o mercado externo exercia uma grande influência sobre a produção comerciali- zada, mas não sobre a produção global.

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Prece, do centeio em

Amsterdão

•—Preço

do centeio

em

Gdansk

•J94

(Índices calculados segundo a lei dos mínimos Quadrados)

Correlação do prego do centeio em Gdansk e em Amesterdão nos últimos anos do século XVI.

, Inçptiry into the history of privas In Hoílanã, t. I, Ijeiden, 1946.

op. cit. N. W- Poathumus,

Fontes: J. Pele, Os preços em Gdansk

Preço

em

Amsterdão

Correlação •entre aa flutuações do preço do centeio em Gdansk e em Amesterdão entre 1579 e 1594. Fontes: as mesmas que para o diagrama precedente.

Trata-se de um elemento importante de análise, mas não passa de um elemento. Em primeiro lugar, a importância do factor exportação não se manifesta necessariamente numa correlação ideal entre os preços do mercado exportador e os do mercado importador. Em certas circunstâncias é assim, mas noutras pode suceder exactamente o contrário. Em períodos de funcionamento eficiente do comércio, essa corre- lação deveria ser intensa. Mas em caso de interrupção do intercâmbio por esta ou aquela razão, a evolução dos preços nesses mercados pode acusar tendências opostas. A diminui- ção da exportação polaca na época das guerras contra os cossacos (1648-1658) e do «dilúvio» (nome pelo qual é de- signada a devastadora invasão sueca da Polónia de 1655-1660. acompanhada de lutas internas) produziu naturalmente uma alta de preços, tanto em Gdansk, como em Amesterdão. Por outro lado, a peste negra da Holanda de 1664-1665 e aparen- temente também, a peste «marselhesa» de 1720 devem ter ocasionado, e foi esse realmente o caso, uma alta de preços em Amesterdão e uma queda em Gdansk. A flutuação dos preços em sentidos opostos no mercado exportador e no im- portador não denuncia, porém, a debilidade de influência do factor exportação, pelo contrário, revela a sua força 81 .

Mas avancemos um pouco mais. Se se admite, o que é muito provável, que se podiam geralmente vender, em Gdansk, quaisquer quantidades de grão proveniente do inte- rior (excepto nos anos em que o funcionamento do comércio sofria perturbações), podem extrair-se daí consequências importantes:

1) o volume das exportações de Gdansk devia ser

directamente proporcional ao excedente comercializado, isto

é — a curto prazo — à flutuação das colheitas, registando

uma flutuação um pouco exagerada S2

resultante de vectores como a variação do rendimento do

trabalho e da terra, as transferências na propriedade a favor do domínio e em prejuízo do campesinato, as alterações nas

dimensões da zona exportadora

caminhos, às mudanças de fronteiras, etc; 2) o volume das exportações de Gdansk devia ser inversamente proporcional à flutuação dos preços no mer- cado nacional, na medida em que estes preços são, por sua vez, inversamente proporcionais à colheita (vimos atrás que

devidas à construção de

e, a longo prazo, à

8a

o são até certo ponto) ; convém assinalar que a relação inver- sa entre o volume da exportação e a flutuação dos preços no país, embora semelhante a certos fenómenos do capita-

lismo liberal, tem um carácter económico completamente diferente. No capitalismo a exportação pode aumentar precisamente porque baixam os preços nacionais, enquanto aqui não há relação de causa e efeito, uma vez que ambos

os fenómenos se devem a um terceiro, que é uma boa colheita;

3) se o raciocínio precedente está correcto, a exporta- ção deveria actuar como factor nivelador sobre a flutuação dos preços no país.

E isso porque o nosso modelo, levado ao extremo,

supõe: 1. a possibilidade de vender em Gdansk qualquer quantidade de grão levada até esse porto; 2. a influên- cia preponderante do comprador organizado (comerciante estrangeiro, e principalmente o intermediário de Gdansk). Por conseguinte, num ano de má colheita o comprador adqui- rirá menores quantidades de grão (porque a oferta é mais reduzida), mas não terá qualquer motivo para o pagar mais caro. Se assim fosse, o gráfico dos preços pagos em Gdansk deveria apresentar «cumes nivelados» em comparação com outras cidades da Polónia. Como se vê, também este racio- cínio sugere que a exportação exerce uma influência nive- ladora sobre os preços internos. Pelo menos, assim seriam as coisas num plano abstracto. Mas o fenómeno exige um exame mais detalhado.

Se supusermos que o cereal produzido pelo camponês

abastece a cidade e o que é produzido pela reserva é lançado no mercado internacional, e se tivermos em conta que a parte comercializada da produção camponesa é muito infe- rior à da reserva, um ano de má colheita pode facilmente provocar uma escassez catastrófica no abastecimento do mercado urbano, afectando muito menos a afluência do grão aos portos. Isso implicaria: 1. maior flutuação dos preços nas cidades do interior do que nos portos; 2. que a exportação fomentasse essa flutuação no jnterior, em vez de a

nivelar. Mas, por outro lado, o aumento dos preços internos tem um limite, determinado pelos preços vigentes nas cida- des portuárias menos o custo do transporte até essas cidades. Entretanto o preço nas cidades portuárias é, segundo parece, eficazmente rebaixado pelo comprador (comerciante da Euro- pa Ocidental ou intermediário de Gdansk), que o pode fazer devido à sua situação privilegiada. Mais importante ainda é

a intervenção de duas tendências opostas: por um lado,

a diminuição gradual das dimensões médias da exploração

camponesa origina uma redução da produção comercializada, pelo que pode haver o perigo de ela desaparecer completa- mente num ano de má colheita, o que significa que o abaste-

cimento das cidades se torna cada vez mais precário; por outro lado, desenvolve-se paralelamente um outro processo (e pode ser que haja, entre ambos, uma relação recíproca), o da ruralização das pequenas vilas, que tem como conse- quência a dependência do abastecimento camponês. Em última análise, a hipótese da influência niveladora da exportação sobre a evolução dos preços no mercado inter- no parece verosímil. Será por essa razão que as sucessivas ondas de subida e queda dos preços são menos pronunciadas na França continental da mesma época? 64 Pode também acontecer que precisamente este factor, que explica uma menor intensidade da flutuação dos preços do que das colhei- tas, seja, pelo menos, uma das causas para que o rendimento agrícola (tanto o do domínio, como o do camponês) dependa mais das colheitas do que dos preços. Se considerarmos que os preços nos mercados locais dependem: 1) da colheita; 2) dos preços de exportação, seria conveniente analisar, uma por uma, todas as combi- nações possíveis dos dois factores mencionados:

a)

má colheita na região de Poznan, coincidindo com uma tendência altista em Amesterdão;

&)

boa colheita em Poznan, coincidindo com uma ten- dência baixista em Amesterdão;

c)

má colheita em Poznan, coincidindo com uma ten- dência baixista em Amesterdão;

d)

boa colheita em Poznan, coincidindo com uma ten- dência altista em Amesterdão.

A

direcção das flutuações nos casos o) e 6) é evidente,

restando apenas determinar a sua intensidade. Por outro lado, nos casos c) e d), em que actuam forças de direcção oposta, podemos afirmar, com toda a certeza, que a resul- tante será mais débil que cada um dos vectores em questão (isto reforçaria a tese acerca da acção niveladora da exportação sobre os preços internos), mas é impossível pre- ver qual das duas forças terá o predomínio. Os diagramas apresentados no princípio deste capítulo (um relativo às eolheitas e preços na região de Poznan e outro, relativo aos preços em Poznan e em Gdansk) parecem indicar que, na prática, ambos os casos eram possíveis.

Encerrou-se assim o círculo do nosso raciocínio.

à luz do material analisado até aqui, podemos passar

agora, de acordo com o nosso enunciado, à demonstração da tese segundo a qual o crédito agrário (o do senhor e o do camponês) depende mais das quantidades vendidas do que

do preço. Ê inútil dizer que em vez de falar em «demonstrar uma tese», seria mais correcto falar em «mostrar a proba- bilidade de uma hipótese». Como já mostrámos, a grande elasticidade da colheita

repercute-jse quase exclusivamente sobre a parte mercantil da produção, quer do senhor, quer do camponês. Uma vez que

a parte «natural» da produção global, que, como já dissemos,

é relativamente estável no plano quantitativo, é por isso

mesmo realmente estável por definição, as oscilações do rédito real dependerão das oscilações do valor real da parte da produção destinada ao mercado, que oscila muitíssimo no plano quantitativo. As oscilações do valor real da parte

da produção destinada ao mercado serão, por sua vez, a resultante de três factores: 1) quantidades vendidas* 2) preços conseguidos, 3) preços dos artigos adquiridos. Uma vez que os preços dos artigos comprados pelos agricultores são relativamente estáveis a curto prazo (a longo prazo já assim não é, como veremos mais adiante), podemos pres- cindir por agora desse elemento e admitir que o rédito real dos produtos agrícolas, proveniente da parte mercantil da produção, é proporcional à utilidade que se obtém através dela, e que é a resultante dos dois primeiros factores atrás indicados.

Se num regime económico isolado, em que a procura é estável, os preços oscilam de forma inversamente proporcio-

nal às oscilações do volume de mercadorias (da oferta), a re- sultante desses dois factores terá evidentemente menorampli- tude. Não é, no entanto, possível prever qual dos dois facto- res terá mais força, e de acordo com qual dos dois esquemas

a seguir indicados se passarão as coisas.

Preço

Preço x colheita.

Colheita

Preço x colheita

Examinámos já os argumentos a favor da hipótese segundo a qual as quantidades vendidas exerceriam uma influência maior do que os preços. Tentemos agora verificar empiricamente essa hipótese, ainda que no estado actual das investigações a tarefa seja muito difícil. Examinemos, primeiro, o problema no plano miero-ana- lítico e, depois, no plano macro-analítieo. A escolha do objecto da micro-análise é determinada pelo facto de que as únicas fontes à nossa disposição e utilizáveis — embora parcialmente apenas — para os nossos fins se referem às reservas da comarca de Poznan. Como já vimos, as oscilações das colheitas nas reservas da região e as oscilações dos preços na cidade de Poznan estão ligadas entre si por uma correlação negativa. A resul- tante dessas duas curvas drstingue-se naturalmente por uma menor amplitude das oscilações (porque as duas curvas, oscilando em direcções opostas, nivelam-se parcialmente); mas, em úíitma análise, aproxima-se mais da curva das colheitas do que da dos preços. Na realidade, às oscilações violentas dos preços correspondem oscilações ainda mais violentas das colheitas. Poderia dizer-se que são as oscilações do volume das mercadorias, e não as oscilações dos preços, que incidem sobre o volume da s receitas 'em dinheiro d a reserva ; no entanto, e como o demonstrámos já, as oscilações do volume das mercadorias são o reflexo ampliado das oscilações da colheita, uma vez que estas últimas se reflectem quase exclu- sivamente sobre a parte do produto destinada ao mercado. Se constatamos agora que as oscilações da colheita são maiores do que as oscilações dos preços e se sabemos que as oscilações do volume das mercadorias são mais fortes do qua as da colheita, é fácil compreender que as oscilações do volume das mercadorias devem ser, por maioria de razão, superiores às dos preços.

apresentados,

quie, no decurso dos dezasseis anos considera-

verificamos

Examinando mais de perto

os números

dos, a tendência das variações dos preços é oito vezes maior que a tendência das variações da colheita. Estas quase não interessam, porque é óbvio que a resultante destes dois factores deve forçosamente crescer ou diminuir nesses anos. Por outro lado, durante os outros oito anos em que o movimento dos preços segue um movimento contrário ao das colheitas, só dois não confirmam a nossa hipótese (em 1590 a colheita diminuiu relativamente ao ano anterior de 3,1 para 2,5, enquanto o preço aumentou de 40,5 para 51,8:

por conseguinte, o produto de ambos os factores aumen-

de3,2 para 3,1,

enquanto o preço aumentou de 75,0 para 80,5: o produto aumentou aproximadamente 4%). Sublinhemos que, em ambos os casos, as divergências relativamente à nossa hipó- tese são mínimas. Nos restantes seis casos o fenómeno desenrolou-se de acordo com a nossa hipótese: o vendedor, ao vender maior quantidade de mercadorias, ganha mais do que aquilo que perde em consequência da diminuição simul- tânea dos preços.

tou 3% ; em 1596, a colheita diminuiu

7,5

— » Colheita

7.°- —«• Preso >

6,5- •••• Colheita Í preço

6,o-

J.J-

5,0-

4>J-

4.o-

M -

3.o-

3,0-

1.5-

i

(índice

1

r

I 5 8 J

~>—1—

J5°o

'595

calculado «segundo u lei dos mluiinot

quadradtfs)

1600

Correlação entre as colheitas e oa preços à escaia microeconómica.

Fontes: colheitas: dados do domínio de WUda (colheita de trigo do ano indicado, dividida pela quantidade semeada no ano anterior), J.

, preços do trigo em Poznan foram facultados ao autor pelo Prof. S. Hoszowski.

Majewskl, Economia do domínio feudal

op. cít.; os dados sobre os

É evidente que, em condições normais, sobretudo nos períodos em que não hâ sérias perturbações monetárias ou complicações nas trocas internacionais, a curva do produto da colheita multiplicado pelo preço oscila numa escala muito mais limitada do que as duas curvas que a determi- nam. Isso significa que, a curto prazo, os fenómenos do mer- cado conduzem a uma certa estabilização do valor real do rédito dos produtores agrícolas, limitando a incidência das enormes oscilações da colheita. O mesmo problema, sempre à escala microanalitica, pode ainda examinar-se de outra maneira. Consideremos as colhei- tas da região de Poznan (rendimento do trigo na reserva senhorial de Wilda, igual ao quociente da quantidade de grão semeado no ano anterior) dos três melhores e dos três piores anos, e comparemo-las com os preços do trigo na praça de Poznan:

3.J

 

t Primeiras diferenças entre as colheitas

3.o-

 

• Primeiras diferenças entre os presos

3,5-

2,0-

1.3-

1,0-

0,3-

O'

1,0

1666

1680

macroeconó-

mica, entre 1665 e 1680. Fontes: conaiderou-se como índice das colheitas a exportação de cereais através de Gdansk em milhares de last: S. Hoszowsk, Hcwidei Gdanska w okre&le XV-XV1II w. («O comércio de GdanSk aos séculos XV-XVH3), Cracóvia, 1960, Pregos do ceoteio em Gdansk segundo leitura aproximativa dos gráficos pp. 50a, 50b e 50 c. J. Pele, Os preços em Gdansfc,.,, op. cit.

Correlação

entre aa colheitas e os pregos à escala

Anos

melhores

Colheita

Preço

Produto

1592

5,8

40i2

233,16

1593

5,8

49,0

284,20

1603

4 r 6

75,5

347,30

Anos

piores

Colheita

Preço

Produto

1604

2,2