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Saúde Mental & Trabalho, Através de um diagnostico Integrado do trabalho

Wanderley Codo - UnB

1. Uma palavra sobre saúde mental e doença mental.

Em última instância, a doença mental 1 é um conflito do individuo consigo mesmo, diremos entre o individuo e o seu outro. Que seja a hipótese clássica da psicanálise, apenas para exemplificar, o desejo, ao se confrontar com uma moral introjetada que impede a sua realização engendra um dilema que pode ser responsável pela neurose.

A tarefa de um clínico é a de nominar os dois entes em conflito dentro de um

sujeito, seus eus em luta. Entender a dinâmica do conflito, visualizar e intervir em seus modos de apresentação.

Se queremos partir da direção contrária, ou seja, não como este sujeito vive os

dramas e dilemas entre, por exemplo, seu trabalho e sua família, mas como as coisas da vida, o mundo objetivo, afeta a saúde mental, se nossa hipótese admite que o 'trabalho afeta a saúde mental’ (hipótese análoga a de Freud "a sexualidade afeta a saúde mental") precisamos encontrar o outro do trabalho, como Freud encontrou o outro da sexualidade (id

e superego).

Já definimos trabalho como “uma dupla relação de transformação entre o homem e

a natureza, geradora de significados” (Codo, 1997), não é preciso falar mais sobre isto, aqui

é preciso destacar que o sofrimento psíquico e a doença mental ocorrem quando e apenas quando afeta esferas de nossa vida que são significativa, geradoras e transformadoras de significado.

A infância, por exemplo, pode ser portadora de doença mental na medida em que a

atividade que se gera neste período (por exemplo, na relação com a família) gera um outro dentro do infante. Ao dizer ao garoto; ‘isto não se faz’ a mãe está fazendo mais do que interromper um gesto desagradável, constrói para o pimpolho uma referencia do que os

homens e as mulheres devem ou não fazer, o gesto se estende de sua realização para toda a

1 Existe uma diferença qualitativa entre doença mental e sofrimento psíquico (vide Codo, 1994), aqui, no entanto, serão tratados como sinonimos.

vida da criança, para todos os outros, para todo o seu futuro, o signo ficou. Se a mãe diz não faça isto e faz exatamente o que disse para não fazer, gera-se um conflito, potencialmente causador de sofrimento psíquico, ou de doença mental.

A sexualidade também é geradora de significados na medida em que compõe o

modo como o individuo se reconhece, se o coito se iniciasse e terminasse na cama, não seria portador de tanto prazer e de tanto sofrimento, é porque as nossas marcas seguem no outro, em mim, no outro, indefinidamente, porque os signos ficam, é que Freud pode encontrar na sexualidade todas as neuroses.

Quer procurar as causas do sofrimento psíquico, procure nas atividades humanas geradoras de significado. Por isto é preciso procura-las no trabalho também.

A tarefa da teoria psicológica, em qualquer terreno, é a de vasculhar os significados possíveis, os outros possíveis da ação humana, que outros se organizam por dentro do sexo, da infância, do trabalho?

A nossa pergunta passa a ser, que outros se arquitetam dentro do trabalho? A

resposta é a mesma que foi encontrada pelos estudiosos da infância, da sexualidade, da adolescência, etc. TODOS, como em qualquer área fundante de nossa identidade, o trabalho também é potencialmente portador de todos os outros possíveis que carregamos dentro de nós. Ca esta o estudioso do trabalho perante o mesmo dilema de qualquer outro psicólogo, é preciso investigar muito e muitas coisas distintas, porque o significado se esconde em todas elas.

No entanto, a tarefa de compreender a totalidade cabe a Deus, se Deus houver; os cientistas são mais cônscios de sua impotência, sabem que é preciso dividir se quiserem entender algo. Dividiremos este universo enorme em três grandes áreas, claro, de maneira totalmente artificial, sabendo de antemão que se relacionam entre si, que não esgotam o fenômeno.

1. O confronto vis a vis do homem com a natureza não humana (homem-natureza).

2. O confronto do homem com a sociedade, os outros homens (homem-sociedade).

Cada um dos eixos, com exceção do ultimo, é claro, tem suas dimensões subjetivas e objetivas.

O que dissemos até agora é que os três eixos acima constituem o espaço de

investigação em saúde mental e trabalho, são os modos como o trabalho constrói o outro, os outros, dentro de nós, porque são os modos de significar a ação dos homens.

Vejamos algo mais de perto cada um deles.

A relação homem natureza.

Já que compreendemos o trabalho como uma relação de dupla transformação entre o

homem e a natureza, geradora de significados, o primeiro corolário obrigatório desta definição é o fato de se tratar de uma atividade cuja lógica intrínseca se estrutura a partir das possibilidades e formas como o homem controla o seu meio ambiente mediato e imediato e/ou é controlado por ele e o sentido (o significado) que o trabalho tem para este individuo ou para a sociedade.

Estas são as duas dimensões a serem investigadas em um diagnostico de saúde mental e trabalho: Controle sobre o trabalho e sentido que o trabalho adquire.

A questão do controle.

Trabalho só é trabalho quando controla toda e qualquer modificação do meio advinda de sua intervenção: Um copo que não recebe a atividade de beber água, potencialmente, de qualquer ser humano, não se realiza enquanto copo, e não transforma seu artífice em trabalhador. O que deve nos interessar aqui é: Como os modos de produção permitem ao trabalhador a apropriação, real ou simbólica do seu poder de transformação do outro e das coisas, em um extenso e emaranhado contínuo que vai desde a emoção produzida pelo ator em cena, imediatamente visível e sobre controle direto do trabalhador, até a possibilidade, colocada em vigor pela globalização de produção de uma peça, digamos eletrônica, cuja utilização em um produto final qualquer é desconhecida daquele que a realizou.

O outro lado do contínuo é especular: Como o trabalho controla o trabalhador, como que a atividade exige e conforma os gestos, as competências, as intenções. Até onde o trabalhador se transfigura, e como se transfigura pelo exercício mesmo do trabalho. Ritmos,

gestos, tarefas, administração do tempo, ordem dos passos. O que permanece sobre controle do trabalhador? O que é gesto produzido e tiranizado pelo trabalho mesmo.

O controle sobre o trabalho tem como seu contraponto a rotina. Perder controle

sobre o trabalho implica em sofrimento ou doença mental na medida em que as transformações que sofro com meus gestos se perde de mim mesmo. Mas o avesso também dói. Quando meu trabalho é sempre o mesmo, seus passos e ritmos deixam de se converter em aprendizagem, em modificações do sujeito, a ausência da dimensão transformadora pesa sobre os ombros, falamos de rotina.

Os aspectos objetivos a serem analisados em um diagnostico do trabalho são as ações propriamente ditas, a seqüência em que as ações acontecem e o ritmo. Por outro lado, é preciso investigar as instancias de controle: um trabalho pode ser controlado pelo produto, pelo cliente, pela hierarquia ou pelo próprio trabalhador.

Os instrumentos para avaliação destas relações são a observação do trabalho e a velha descrição de cargos e tarefas e uma escala likert para examinr a percepção de controle e rotina, respondida pelo trabalhador (falaremos disto mais abaixo).

O sentido do trabalho, para si, para a sociedade.

Qualquer trabalho tem o mesmo sentido para a sociedade, não existem trabalhos mais importantes do que outros, ou ainda mais significativos do que outros. Como hierarquizar a importância do ladrão e da policia? Ambos se complementam, um se justifica pelo outro, ambos são igualmente importantes.

Produzimos nossa vida em uma extensa trama de produção e consumo planetária, cada qual produzindo e satisfazendo necessidades para todos os outros, o gesto de cada um significando a vida de todos os outros.

O que se observa para o conjunto da sociedade se reproduz dentro de uma

determinada estrutura produtiva, quer seja uma industria ou um escritório, neste nível, também, não é possível hierarquizar importâncias, priorizar significados.

O que ocorre é que o processo de divisão de trabalho pode bloquear, interceptar a

apropriação do sentido do trabalho, tornar inatingível seu significado.

A moribunda linha de montagem fordista pode ilustrar o fato, engenheiros que

decidem os tempos e métodos e operários a operar são igualmente importantes, mas o modo como os postos e as decisões ocorrem faz dos primeiros imprescindíveis e os segundos descartáveis. O movimento por maior autonomia no trabalho, a criação de equipes, o aumento dos ciclos de trabalho, enfim, todo o processo de desmontagem da linha de montagem fordista, recupera, porque sabe ser essencial, o sentido do trabalho para cada qual que o realiza.

Como escrevo para psicólogos é bom alertar. Não estou falando de subjetividade, estou falando de divisão social do trabalho, os valores, afetos, a cultura que exala daqui e transforma o engenheiro em um cidadão respeitável e um operário em um borra-botas é um reflexo subjetivo do mundo real.

O mesmo processo que ocorre dentro de uma unidade produtiva, dizíamos, se

reproduz para a sociedade toda em seu conjunto, assim, o exercito industrial de reserva (os

desempregados) tem tanta importância social quanto os empregados, mas a posição relativa de uns e outros na divisão internacional do trabalho condena os primeiros à inutilidade, e aos inevitáveis sentimentos de inutilidade.

Para um diagnostico centrado na saúde mental e trabalho, pois, é necessário investigar a importância que o trabalho tem para o sujeito, e a importância que o indivíduo percebe do seu trabalho para a sociedade, e coteja-la, é claro, com a divisão do trabalho, nos dois planos complementares, dentro da unidade produtiva e entre as unidades produtivas.

Os instrumentos são os mesmos quanto às dimensões objetivas, subjetivamente se utilizam as escalas de sentido e importância social do trabalho.

A relação Homem/sociedade.

O trabalho não se realiza no vácuo, ocorre em meio a uma sociedade estruturada,

sofre o tempo todo suas injunções, seu regramento, suas determinações. Automóveis são feitos onde e porque há estradas, para que pessoas que se auto-movem, e que valorizam este

bem. Há que ver como a sociedade determina o trabalho, acolhe o produto, se relaciona com ele, com o produto, com as organizações. Estamos falando quer da relação social estrito senso, vis a vis, quer da influência de valores e culturas em uma comunidade fechada que constitui a empresa, em uma comunidade maior mas também delimitada que se compõe da cidade, Estado, País onde a empresa se situa, e também das relações sociais indelimitáveis que a empresa, o produto, estabelecem forçosamente com o conjunto da trama social, nacional e ou internacionalmente.

Por outro lado, é preciso focar a atenção também na forma como o trabalho, o produto engendra e transforma as relações sociais, já que nunca, nenhuma sociedade permanece incólume à presença de qualquer trabalho ou produto. O escopo de análise é o mesmo desenhado no parágrafo anterior, desde a mais estrita vizinhança até as relações econômicas, culturais e políticas entre as nações.

O modo como as famílias operam, os vínculos de gênero, os espaços de exercício do

afeto, ócio, lazer, são organizados pela divisão do trabalho, mas não deste trabalho, desta empresa de hoje. Os tempos são distintos; A entrada da mulher no mercado de trabalho mudou a face da família, mas hoje, os papeis atribuídos a esta mulher e este homem comparecem como facilitadores ou inibidores das relações destas pessoas com seus trabalhos, geradores portanto de mais prazer ou mais sofrimento no trabalho. São estes os resultados que emanam das pesquisas sobre suporte social, suporte afetivo, conflito trabalho-familia.

O modo como a divisão de trabalho se estabelece organiza o cotidiano das pessoas,

determina as possibilidades de vinculo familiar, ir ou não almoçar em casa é um fato social capaz de intervir na dinâmica familiar, importar qualidades distintas aos vínculos afetivos. O que era variável dependente agora tornou-se variável independente, o trabalho afetando o suporte social, suporte afetivo, as relações trabalho-familia.

E por ultimo, uma empresa é um grupo social, as pessoas conversam, porque

precisam ou simplesmente porque estão juntas. Relações desiguais marcadas pela hierarquia interna, relações entre iguais, colegas de trabalho submetidos às mesmas injunções. Muitas teorias foram e são estruturadas a partir da empresa enquanto grupo, não

é preciso demonstrar que as relações com a chefia e os colegas são importantes em termos de preservar ou prejudicar a saúde mental.

Uma atividade só se transforma em trabalho quando se converte em produto para o outro, qualquer outra pessoa.

O homem consigo mesmo.

Sempre se soube que o trabalhador deveria estar satisfeito com seu trabalho, comprometido com sua organização, não se sentir pressionado pela carga mental no trabalho. O que não se sabia era que estas categorias de analise se mostrassem tão complexas, tão difíceis de controlar. Mais salário, mais satisfação, melhor produção, a vida mostrou que as coisas não funcionam assim. As pesquisas então começaram um extenso processo de copilação das possíveis variáveis que poderiam estar intervindo em satisfação, comprometimento e carga mental. Os resultados é que os instrumentos se obrigaram a passear por todas as áreas que o trabalho abrange, mas a compreensão teórica, um modelo explicativo, foi ficando cada vez mais longe.

É que o trabalhador em seu posto, sua empresa, sua categoria profissional comparece ali como um sujeito, não são os seus braços ou o seu cérebro que são apropriados pelo trabalho, é um ser humano que está na em foco, toda a dinâmica entre sua subjetividade e sua objetividade. Afeto e razão em cada gesto produtivo.

Se compreendermos afetividade como as relações imediatas com os outros e as coisas, e razão como a construção de mediações entre o outro ou a coisa e o sujeito, veremos que qualquer trabalho é portador, é construtor e é representante de um duplo significado: ao mesmo tempo imediatamente objetivo e imediatamente subjetivo. Um objeto construído pelo homem, digamos um vaso, é um vaso independentemente do seu uso enquanto tal obedece a normas de construção, pré-definição advinda da lógica arquitetada para sua construção, adquire corporiedade independentemente de sua função. O mesmo vaso nas mãos do seu proprietário é capaz de assimilar, transformar-se, significar qualquer relação subjetiva. A mesma lógica vale para o trabalho ele mesmo, comprado no mercado a preço de um salário ou portador de vínculos afetivos, qualquer vínculo afetivo para o trabalhador e seus clientes ao redor do processo de produção.

As atitudes do trabalhador frente ao trabalho (satisfação, comprometimento e carga

mental) devem ser olhadas como sínteses deste processo multideterminado. Expressões

subjetivas do trabalho, dos vínculos do trabalhador com ele, variáveis a serem investigadas

quando se busca um diagnostico do prazer e do sofrimento no trabalho.

Uma síntese dos três eixos de analise e das categorias que resultam do seu

desdobramento pode ser vista na tabela abaixo:

Homem-natureza Significado do Trabalho

Controle

Controle

Rotina

 

Sentido

Importância social do Trabalho

Sentido do Trabalho

Homem-sociedade Relações Sociais de Produção

No Trabalho

Relacionamento com colegas

Relacionamento com chefias

 

Na vida extra-trabalho

Suporte Social

Suporte afetivo

Conflito trabalho- família

Homem-Homem Sentimentos do Trabalhador

Atitudes frente ao Trabalho

Satisfação

Comprometimento

 

Carga mental no Trabalho

Tempo

Dificuldades

Paralelamente investigamos o sofrimento psíquico ou problemas de saúde mental

dos trabalhadores, através de um instrumento de avaliação de sintomas composto de 7

escalas clinicas (depressão, histeria, paranóia, mania, esquizofrenia, desvio psicopático e

obsessão) e mais a escala de alcoolismo (CAGE)

O método utilizado para construção e validação dos instrumentos foi o mesmo

utilizado por Graham e colaboradores na construção do MMPI 2 (Graham, 1993). Partindo

de 3206 sujeitos acumulados durante os anos pelo laboratório, cada escala foi submetida a

um estudo correlacional, um estudo fatorial, um estudo de redução através do alpha de

Crombach, paralelamente se submetia à análise qualitativa dos itens.

Perguntas com um nível de correlação muito altas entre si foram eliminadas, desde

que a análise do conteúdo confirmasse tratar-se de questões repetitivas. Questões negativas

foram eliminadas ou substituídas por equivalentes afirmativas, baseada em diários de

campo do nosso laboratório que mostraram se percebidas como confusas pelos sujeitos e

porque mostraram baixa carga fatorial em comparação com as questões positivas de uma mesma escala.

O critério considerado aceitável para cada pergunta era o de carga fatorial > que .30, e a escala era reduzida enquanto o alpha de Crombach indicasse que a retirada desta ou daquela pergunta melhorasse o desemprego da escala. Em seguida nova análise fatorial determinaria a estrutura fatorial da escala.

Trata-se então, de cruzar os dados de sofrimento psíquico com aqueles advindos do diagnostico do trabalho e levantar hipóteses a serem melhor investigadas através de entrevistas clínicas.

2. Os instrumentos de diagnostico integrado do trabalho.

Os instrumentos de medida desenvolvidos pelo projeto integrado ‘Saúde mental & trabalho, uma abordagem psicossocial’ são compostos de:

1.

inventário de investigação das condições de trabalho, a ser aplicado sujeito a sujeito.

2.

Um protocolo de observação da situação de trabalho e a analise de tarefas, realizada através de entrevista.

3.

Uma entrevista qualitativa de aprofundamento.

Três procedimentos gerais orientam a formação de escalas:

- Redução de escalas já existem no antigo protocolo de trabalho ou no MMPI

- Criação de escalas novas; através da elaboração de perguntas orientadas teóricamente, um número de três a quatro vezes superior ao necessário, visando a redução por aplicação do método estatístico descrito acima.

- Utilização de escalas já desenvolvidas por outros autores; neste caso, os primeiros pilotos (vide abaixo) apresentavam a versão integral da escala e depois da aplicação a mesma sofria o processo de redução já relatado.

a) O inventário de condições de trabalho e saúde mental

Atualmente, o protocolo de saúde mental e trabalho, depois de várias reformulações em função do processo de validação, é composto por 13 escolas de trabalho, 7 clínicas, e 1 de alcoolismo, além das questões de identificação e caracterização do sujeito/categoria, constantes da primeira parte do protocolo.

b) Protocolo para a realização e registro da observação

A observação é hegemonizada através de treinamento, o critério a ser categorizado é

padronizado para cada observador. As questões que devem compor a observação são produzidas por estudos-piloto.

Trata-se de um instrumento fundamental de análise na medida em que pode fornecer dados que não são viesados pela percepção do sujeito, capaz de revelar contradições entre o discurso e a prática do cotidiano no trabalho.

Como

este

instrumento

varia

de

categoria

para

categoria

profissional,

aqui

escolhemos o exemplo que já está sendo aplicado nas escolas.

Reserva-se, em cada questão, um local aberto para observações específicas que o aplicador julgar necessa’rio, caracterizando a escola em observação.

c) Análise de tarefas

O instrumento de análise de tarefas foi desenvolvido com base em:

instrumentos mais tradicionais utilizados na administração de recursos humanos e na psicologia organizacional para coleta de dados para análise de trabalho (roteiros de entrevista e formulários de coleta de dados para elaboração de descrições de cargos);

observação de problemas e limitações que os instrumentos mais tradicionais apresentam quando aplicados no cotidiano das organizações (foco nas ações e processos realizados e generalização dos requisitos necessários à realização do trabalho);

tendência apontada por especialistas da área para a necessidade de ter uma descrição dos trabalhos realizados voltada para os resultados a serem alcançados - o produto do trabalho - e que permita uma diferenciação dos trabalhos a níveis individuais uma vez que se espera que os trabalhadores, cada vez mais, atuem de forma polivalente, privilegiando a multifuncionalidade.

d) Entrevista para diagnóstico diferencial

Uma vez aplicado e analisado estatisticamente o instrumento de diagnóstico, a entrevista uma entrevista clinica será utilizada para qualificar os resultados encontrados no sentido de dar maior compreensão do problema, como um "diagnóstico diferencial".

A entrevista clínica, para a fase de "diagnóstico diferencial", é semi-estruturada. Ela

consta de uma planilha com os itens básicos sobre todas as escalas de trabalho divididos em 5 tópicos (Produto do Trabalho, Trabalho enquanto tarefa, Trabalho e Subjetividade, Relações Sociais de Produção e Relações Sociais) e sobre as sete escalas clínicas (patologias) com os sintomas mais significativos de cada uma delas. Estes aspectos devem ser obtidos nas entrevistas e pontuados numa escala de 1 a 7, sendo considerado 1 para a ausência do sintoma e 7 para a intensidade máxima de sua ocorrência. Contudo, a forma de condução da entrevista deve ser solta e livre para que o entrevistado se sinta mais a vontade naquele contexto.

Sabemos que existe uma dificuldade básica, nesse tipo de procedimento, em relação ao compromisso clínico do sujeito que é muito diferenciado do compromisso em consultório, onde o paciente vai por uma necessidade determinada, no momento e com o terapeuta por ele escolhido. Esta dificuldade tem sido trabalhada no rapport.

3. Sobre o sofrimento psíquico no trabalho

Até agora, viemos apresentando os eixos centrais de analise e os instrumentos de pesquisa que utilizamos para Ter acesso àquelas informações. Agora é possível incetar a discussão sobre saúde mental e trabalho propriamente dita, ou seja, como o trabalho diagnosticado pode determinar o processo saúde-doença mental.

Avançamos muito pouco com relação à etiologia do sofrimento psíquico ou da doença mental. Não podemos prever sua ocorrência e sequer sabemos de que variáveis é função. Tudo o que será escrito aqui, portanto, é temerário, deve ser visto muito mais como hipótese de trabalho à espera de dados que confirmem ou não as asserções realizadas.

O processo de sofrimento psíquico não é linear. Depende de contexto, de historia de

vida e do encadeamento dos eventos em uma situação concreta. A perda de um pai, por exemplo, pode provocar ou não depressão, dependendo de como está a vida (o contexto),

qual a historia da relação com o pai e como as coisas andavam no momento da perda. Um clínico busca estas inter-relações para chegar a um diagnostico de um caso particular. Mas se o nosso objetivo é o coletivo, o que fazer? Podemos, por exemplo, dizer que a perda de um familiar próximo é um fator de risco para a saúde mental. Estaremos falando a verdade, mas não saberemos dizer se a doença mental surgirá ou não, neste ou naquele caso particular.

O que dissemos acima poderia ser dito de outra maneira: A etiologia da doença

mental só pode ser traçada de forma probabilística. Tem sido assim sempre que as descobertas da psicologia clinica e psiquiatria tem sido chamadas a intervir de forma preventiva: Repressão sexual na infância é um fator de risco para a saúde mental, discriminação na escola, mudanças constantes de cidade, etc. É assim também no trabalho.

Os estudos sobre depressão (por exemplo, Freud, Luto e melancolia e Seligman, Desamparo) aplicados ao trabalho, têm mostrado, por exemplo, que a perda de controle sobre o trabalho é um fator de risco para a saúde mental do trabalhador (vide Síndrome do trabalho vazio entre os bancários, Codo, 1994).

A investigação, portanto, se conduz com a lógica da epidemiologia, cruzando as

variáveis advindas do diagnostico do trabalho com as escalas clinicas, estudando probabilidades de aparecimento dos sintomas, a falta de controle sobre o trabalho aumenta a probabilidade de aparecimento de sintomas depressivos? O excesso de responsabilidade aumenta a probabilidade e sintomas obsessivos?

Depois, apenas depois, se recorre à entrevista clinica, buscando investigar a psicodinâmica (Mas muitas vezes de casos em particular com certas dificuldades para generalizações). Precisamos dela porque o processo saúde-doença mental não foi apreendido com os procedimentos utilizados até agora. Tal processo se realiza na Historia do sujeito e os instrumentos de analise apenas revelam um retrato de como o indivíduo se encontra no momento. Mas não nos serve a entrevista clinica apenas, porque não teríamos idéia de quais fatores de risco do trabalho devemos investigar. Sem um estudo epidemiológico anterior, os dados de historia de vida que um sujeito em particular nos forneça serão apenas isto: Dados de sua historia, particular, idiossincrática, individual.

4. O que não fazer.

Este método de investigação, com seus avanços e recuos foi responsável pela descoberta da síndrome do trabalho vazio entre os bancários, paranóia entre digitadores, histeria em trabalhadoras de creches, e pelo estudo mais completo que eu conheço sobre burnout em educadores (Codo, 2000), entre outras descobertas. No entanto, toda vez que sou chamado a falar ou escrever sobre ele, me sinto como um turista em uma fronteira de dois paises em guerra; apanha dos dois lados sem saber porque: Os quantitativistas nos recriminam por utilizar estudos de caso clínicos, os qualitativistas porque utilizamos estatística, os psicanalistas batem porque falamos em determinação do processo saúde doença, os herdeiros dos behavioristas porque recorremos a um dialogo com a psicodinâmica, os conservadores detestam que falemos da alienação dos trabalhadores, os reformistas igualmente quando falamos em produtividade. Que pelo menos cada feudo saiba porque está batendo.

Para enfrentar o desafio de trazer a área de saúde mental no trabalho ao campo cientifico foi preciso abandonar algumas posições confortáveis que constituem regra geral na atitude dos investigadores em ciências humanas, tais como:

1. A demarcação de território entre as especialidades. Quando se tem o trabalho como

objeto, é preciso aprender que o universo em analise não é psicológico, sociológico, econômico, antropológico, é tudo isto ao mesmo tempo, e não saberemos nunca em que território estaremos em cada momento. O pesquisador do trabalho deve aprender a conviver entre distintas ciências com distintas abordagens e distintos cacoetes metodológicos, sem saber a que terreno pertencem suas conclusões. O Objeto mesmo é inter, multi, transdisciplinar.

2. È comum encontrarmos a distinção entre pesquisa quantitativa e pesquisa qualitativa,

como se fosse possível uma escolha epistemológica do pesquisador, a priori. A duras penas, foi preciso aprender que o método adequado para a investigação é uma imposição do fenômeno a ser investigado à qual o pesquisador deve se submeter. Assim, não se torna possível investigar a psicodinâmica sexual através de um inventario tipo likert, Freud foi obrigado pelo seu problema a utilizar livre associação, da mesma forma que é impossível estudar opções de voto com entrevistas em profundidade, os institutos de pesquisa são obrigados a se valerem de questionários fechados.

3. Ainda sobre a distinção entre pesquisa qualitativa e pesquisa quantitativa, é preciso aprender que não há diferença alguma entre as duas formas de se investigar, exceto no que tange a detalhes técnicos, ademais irrelevantes para o resultado que se atinge. Um numero é uma abstração teórica como qualquer outra, por exemplo, quando conto o numero de homens e o numero de mulheres em uma sala, elegi diferenças pequenas entre os seres humanos que estão ali apagando teoricamente todas as semelhanças evidentes que estão presentes em todos eles (duas pernas, dois braços, etc.) e fiz isto porque uma teoria me garante que as diferenças homem/mulher são a distinção qualitativa que me parece relevante, se contasse o numero de pernas, ou a presença do nariz não estaria fazendo pesquisa quantitativa, estaria apenas cometendo uma estupidez. Por outro lado, ao tomar um caso especifico com uma entrevista única, só o faço porque considero aquele caso como representativo do universo que estou tentando compreender, (quantidades, portanto) se entrevistasse apenas buscando as idiossincrasias deste ou daquele sujeito não estaria fazendo ciência, apenas contando causo, método rico para a literatura e inútil para a ciência. Outra vez, é preciso respeitar o fenômeno, e não as simpatias do pesquisador.

4. A demarcação de universos de investigação entre os fenômenos subjetivos, objetivos e transubjetivos. Um psicólogo clínico pode se considerar atuando sobre a subjetividade, não me importa muito se a sua mãe o rejeitou na infância, me importa que você se sentiu rejeitado (subjetividade). Um administrador de empresas pode definir um plano de salários com base em dados de mercado sem saber, ou sequer sem perguntar, o que os trabalhadores sentem sobre o seu salário (objetividade). Um instituto de opinião publica pode se perguntar se uma sociedade gosta de um determinado candidato sem se perguntar o que sentem cada qual dos sujeitos pesquisados ou que o candidato realmente é ou faz (transubjetividade).

5. A função dos estudos sobre saúde mental e trabalho não é a de reclamar do trabalho, nem a de se eleger como a voz do trabalhador. Até porque os trabalhadores têm voz e não vejo porque substitui-la. Também não é a de inventar outra parafernália qualquer para que todos vivam felizes, cada qual com seu emprego. Saúde mental e Trabalho estuda o trabalho, uma atividade humana por excelência, a mais humana das atividades humanas, por isto é preciso buscar porque, como e quando pode ser fonte de todo o prazer e ao mesmo tempo de todo o sofrimento.

Pois bem, o trabalho é sempre, a cada momento, sob qualquer angulo, imediatamente objetivo, subjetivo e transubjetivo. Assim, por exemplo, controle sobre o trabalho é um fenômeno objetivo: Aonde se determinam os passos necessários para a realização da tarefa, o quanto os resultados são previsíveis. Ao mesmo tempo, é um fenômeno subjetivo; qual o sentimento de controle que eu tenho sobre as tarefas que faço, dependendo, por exemplo, das habilidades que tenho ou penso ter. Ao mesmo tempo, meu trabalho é social, na sua formulação e na apropriação coletiva que se faz do produto, portanto se encontra em permanente dialogo com o outro, uma dimensão como se vê, transubjetiva. Se o fenômeno é assim, deve ser estudado assim, sem perder de vista cada um de seus ângulos.

Os estudos em saúde mental e trabalho surgiram juntamente com a psicologia (v.g. pacaud e psycho ver 1880); antes considerada como forma de contestação das condições de trabalho e/ou da própria psicologia (v.g. LeGuillant ) se transformou em área de pesquisa e intervenção estratégica nos anos noventa, já que os problemas resultantes do sofrimento psíquico nas organizações passaram, a ser responsáveis pela segunda causa de afastamento no trabalho na década de 90 (american psychologist, 1991, march).

Apesar de uma das mais antigas preocupações em Psicologia, e do grande numero de descobertas já disponíveis na literatura (v.g. handbook of health psychology) a área ainda não evoluiu além dos estudos de caso (v.g. dejours e codo). Isto se deve à sua própria complexidade.

O significado do trabalho, ou seja, o controle do trabalhador sobre o trabalho, a importância social do trabalho, rotina, o sentido do trabalho; as relações sociais de produção, ou seja, o relacionamento com colegas e com a hierarquia; as atitudes do trabalhador frente ao trabalho; satisfação e comprometimento; A carga mental no trabalho, as dificuldades no relacionamento social do trabalhador devidas ao trabalho, suporte social, suporte afetivo, conflito trabalho família. Todas elas são variáveis já reconhecidas como importantes para determinar o nível de saúde mental do trabalhador(v.g. Codo 1994).

Como cada uma delas amiúde não atua sozinha e sequer pode ser considerada independente de algumas outras, o resultado é que se encontram estudos de casos parciais enfocando uma ou algumas destas variáveis sem que se conheça a inter-relação entre elas.

Os prejuízos são grandes. Em termos práticos e ou de intervenção, perdemos a comparabilidade, já que cada estudo não pode ser cotejado com outros e/ou generalizado, e se diminui em muito a eficácia, pois aspectos importantes podem não estar sendo examinados e restam sem diagnostico adequado. De um ponto de vista teórico perde-se a inter-relação entre as variáveis de ação já conhecida, ao mesmo tempo em que, pelas mesmas razões, ficamos impossibilitados de traçar uma hierarquia de determinações entre os fatores que afetam a saúde mental do trabalhador.

As pesquisas em psicologia do trabalho e/ou das organizações mostram uma trajetória bastante típica: Toda vez que uma variável é considerada relevante, sofre na literatura especializada um processo de alargamento, na medida em que outras investigações demonstram sua relação com outros fenômenos. Assim, os estudos sobre satisfação no trabalho, comprometimento organizacional, significado do trabalho, controle sobre o trabalho, por exemplo, foram produzindo escalas cada vez maiores em um esforço para abarcar cada vez mais aspectos relacionados com a variável que se quer circunscrever.

O resultado desta estratégia é que as variáveis abandonam o estatuto de fenômenos a serem investigados e passam a ser tratadas como estratégias de abordagem da complexidade do trabalho, espécie de ´fio de ariadne´ condutor da complexidade que o trabalho enquanto objeto de estudo é portador. Ao invés de produzirmos um desenho complexo entre as variáveis, como se indicaria pelo próprio objeto, construímos um cipoal onde todos se degladiam com todos em busca de ´variáveis ônibus´, cada qual em busca de explicar tudo.

Aqui se optou por caminho inverso, reduzir cada uma das variáveis à sua dimensão mais básica e se procura trabalhar com a inter-relação entre elas. Prestando-se menos atenção à pendenga eterna entre as varias divergências entre os pesquisadores e mais atenção à complexidade intrínseca ao diagnostico do trabalho propriamente dito. Na esperança de conseguir abordar um fenômeno complexo com a complexidade que vem reclamando neste 100 anos de esforço para se compreender o trabalho alheio. Quem sabe agora livre, pelo menos potencialmente, do inevitável caráter anedótico dos estudos de caso.

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