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PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

SECRETARIA ESPECIAL DE DIREITOS HUMANOS


CONSELHO NACIONAL DOS DIREITOS DA PESSOA PORTADORA DE DEFICIÊNCIA
Esplanada dos Ministérios Bloco T, Anexo II do Ministério da Justiça, sala 211
Brasília – DF CEP 70.064-900
Telefone: (61) 2025-9219 / 2025-3673
E-mail: conade@sedh.gov.br Página na internet: www.presidencia.gov.br/sedh/conade

Parecer nº /CONADE/SEDH/PR

Comissão de Acompanhamento, Elaboração e Análise de Atos


Normativos

Nº do Processo: C.A.N. 204/2009

Assunto: Parecer sobre AUDIODESCRIÇÃO

Relatoras: Conselheiras Suplente Ana Paula Crosara de Resende (OAB) e


Titular Laís de Figueirêdo Lopes (OAB)

RELATÓRIO

Processo iniciado pelo Ofício nº 40/2008, enviado pela Associação Brasileira


de Emissoras de Rádio e Televisão – ABERT, em 26/05/2008, ao Ministro de
Estado das Comunicações.

Contêm cópias de peças do processo administrativo instaurado no Ministério


das Comunicações, inclusive diversos ofícios emitidos pela Presidência do
CONADE sobre o assunto, solicitando o imediato cumprimento da Convenção
sobre os direitos das pessoas com deficiência (Decreto Legislativo nº 186/2008
e Decreto nº 6.949/2009).

O tema já foi objeto de manifestação do CONADE, através dos Ofícios nº


327/2008/CONADE/SEDH/PR; nº 357/2008/CONADE/SEDH/PR; nº
309/2008/CONADE/SEDH/PR; nº 140/2009/CONADE/SEDH/PR; nº
159/2009/CONADE/SEDH/PR, todas no sentido de assegurar a implementação
imediata da audiodescrição enquanto política pública para garantir que todos,
inclusive as pessoas com deficiência possam ter acesso às informações
transmitidas pela TV. Nesse sentido, segue adiante nosso parecer.
PARECER

1. CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA:


NOVO PARÂMETRO DE VALIDADE DAS NORMAS BRASILEIRAS

Preliminarmente, cumpre-nos ressaltar a premissa fundamental dessa


análise, que incorpora no ordenamento jurídico brasileiro os novos conceitos
amoldados pela Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência
(CDPD) da Organização das Nações Unidas (ONU) e seu Protocolo
Facultativo, tendo em vista a sua equivalência de emenda constitucional hoje
vigente no Brasil, de modo a embasar as sugestões propostas e o
posicionamento adotado ao longo da presente manifestação.

Com a emenda constitucional nº 45/2004, foi incluído o § 3º no artigo 5º


da Constituição Federal, dispondo que os tratados internacionais de direitos
humanos, quando incorporados ao ordenamento jurídico interno, mediante
votação com quórum qualificado nas duas Casas do Congresso Nacional, em
dois turnos, serão equiparados a emenda constitucional, in verbis:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de


qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à
vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade,
nos termos seguintes: § 1º - As normas definidoras dos direitos
e garantias fundamentais têm aplicação imediata. (...) § 3º Os
tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos
que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional,
em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos
membros, serão equivalentes às emendas constitucionais.

A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência,


juntamente com seu Protocolo Facultativo, foi aprovada, tanto na Câmara dos
Deputados quanto no Senado Federal, com o quórum qualificado determinado
e na forma do § 3º, do art. 5º, da Constituição Federal, tendo sido a sua
promulgação realizada por meio do Decreto Legislativo nº 186, de 09 de julho
de 2008 e do Decreto nº 6.949, de 25 de agosto de 2009.

Os textos dos documentos em português estão contidos nos referidos


atos normativos, que demarcaram a vigência da Convenção no sistema jurídico
nacional, depositados na ONU em 01 de agosto de 2008, completando o
processo de ratificação, o que determinou que a Convenção e seu Protocolo
Facultativo passassem a constituir o primeiro tratado internacional de direitos
humanos adotado pelo Brasil, com equivalência formal a uma emenda
constitucional.

Corroborando o que já disciplina a legislação brasileira, notadamente na


Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo
Facultativo; Constituição Federal de 1988; Lei Federal 7.853/1989; Decreto
Federal 3.298/1999; Lei Federal 10.048/2000; Lei Federal 10.098/2000;
Decreto Federal 5.296/2004; Decreto Federal nº 5.645, de dezembro de 2005;
Portaria nº 310, de 27 de junho de 2006 do Ministério das Comunicações; a
previsão da ACESSIBILIDADE e da audiodescrição, advém de comando com
força constitucional e de aplicação imediata.
2. ACESSIBILIDADE É PRINCÍPIO E É DIREITO - POSITIVADOS NO
ORDENAMENTO JURÍDICO

O modelo social da deficiência com base nos direitos humanos, ao ser


reconhecido como o mais novo paradigma para conceituar as pessoas com
deficiência na Convenção, embasou também a consolidação da acessibilidade
positivada como um princípio e um direito humano no plano constitucional
brasileiro.

O princípio da acessibilidade determina que as concepções de todos os


espaços, formatos de produtos e serviços devam permitir que os cidadãos com
deficiência possam ser seus usuários legítimos e dignos. Considerando a
equivalência de emenda constitucional da Convenção, a acessibilidade como
princípio informador é agora parâmetro de validade das normas nacionais,
alicerce de como devem ser implementados os direitos humanos das pessoas
com deficiência.

É também direito de ter direitos e nenhum serviço pode ser concedido,


permitido, autorizado ou delegado sem acessibilidade plena para não
obstaculizar o pleno gozo e exercício destes das pessoas com deficiência, sob
pena de caracterizar a proibida discriminação com base na deficiência.

Ou seja, a acessibilidade constitui direito dos cidadãos em geral, pois


não se limita a propiciar o exercício dos direitos humanos e a inclusão em
todos os programas apenas das pessoas com deficiência, mas também de
pessoas com mobilidade reduzida, idosos, gestantes e outras pessoas em
situação vulnerável, respeitando à plena participação destas mesmas pessoas
como parte da população brasileira que ao longo da história brasileira também
constroem nosso país.

A obrigação de prover todos os instrumentos e adaptações necessárias


para a efetividade do princípio e do direito à acessibilidade, com equiparação
de oportunidades, demonstra-se pelo imperativo constitucional de atender ao
princípio da igualdade, insculpido no artigo 5º da Constituição Federal,
conjugado com as previsões dos artigos.

No âmbito da Constituição Federal - parâmetro valorativo máximo do


ordenamento jurídico brasileiro - os comandos constitucionais interagem e se
complementam entre si. Neste campo, a acessibilidade é o princípio norteador
da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e, portanto, novo
princípio da Constituição Federal.

3- AUDIODESCRIÇÃO
Inicialmente é preciso destacar que as pessoas com deficiência fazem
parte do conjunto da população brasileira1 e também estão sujeitas a todas as
normas que regem a sociedade, dentre elas a de serem tratadas como sujeitos
de direitos. Para que isso se efetive e a pessoa com deficiência possa exercer
seus direitos, é fundamental que haja equiparação de oportunidades.

Importante destacar inicialmente que o impacto da deficiência na vida de


uma pessoa vai depender muito das barreiras existentes em seu entorno e da
interação entre os limites pessoais e o meio ambiente em que vive. Essa
constatação está na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com
Deficiência, em seu artigo 1º. A equiparação de oportunidades deve ser um
objetivo perseguido por todos, inclusive pela Administração Pública, para que a
deficiência seja apenas mais uma característica da diversidade humana e não
empecilho para o exercício de direitos.

Para o exercício de direitos humanos e insista-se, para garantir a


equiparação de oportunidades, as pessoas com deficiência precisam que seja
assegurado o direito à ACESSIBILIDADE e que tecnologias assistivas
existentes, como a audiodescrição sejam exigidas nas concessões,
permissões, delegações e/ou autorizações realizadas pelo Poder Executivo
para o serviço de radiodifusão sonora e de sons e imagens, conforme art. 223
da Constituição.

A audiodescrição2 é um recurso de acessibilidade que consiste na


descrição clara e objetiva das informações compreendidas visualmente, mas
que não estão nos diálogos: expressões faciais e corporais, ambiente,
figurinos, efeitos especiais, mudanças de tempo e espaço, além da leitura de
créditos, títulos e qualquer informação escrita na tela.

Permite que qualquer usuário, mesmo aquele que não pode ver, receba
a informação contida na imagem ao mesmo tempo em que esta aparece,
possibilitando apreciar integralmente a obra, seguir a trama e captar a
subjetividade da narrativa, da mesma forma que alguém que enxerga.

Pode ser feita em qualquer tipo de programa, evento, atividade


cultural, de lazer, educativa, recreativa, dentre outros e facilita a
percepção de todos da parte visual do conteúdo da mensagem e pode ser
utilizada, por exemplo, para fazer a leitura de textos apresentados no
vídeo, que também ajuda disléxicos, analfabetos, pessoas que, por
qualquer motivo, estão impossibilitadas de fixar o olhar na tela.

As descrições devem ocorrer nos espaços entre os diálogos e nas


pausas entre as informações sonoras do filme ou espetáculo, nunca se
sobrepondo ao conteúdo sonoro relevante, de forma que a informação
audiodescrita se harmoniza com os sons do filme, da cena da TV, do teatro, do
espetáculo de dança ou da aula.

1 De acordo com o Censo Demográfico do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e


Estatística do ano de 2000, as pessoas com algum tipo de deficiência ou limitação representam
14,5% da população brasileira.

2 Para saber mais visite: www.audiodescricao.com.br e www.blindtube.com.br


Outro esclarecimento útil é que a audiodescrição é transmitida
normalmente no segundo canal de áudio. No caso da televisão, através de um
canal que disponibilize esta banda extra de áudio, geralmente acionada pela
tecla SAP (Programa Secundário de Áudio) dos televisores. O que permite que
a opção pela utilização ou não do serviço seja da pessoa usuária e não do
sistema.

A audiodescrição possibilita o acesso à informação e à comunicação,


que são direitos humanos garantidos pela Constituição Federal e,
recentemente, pela Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência,
que vigora com valor de Emenda Constitucional no Brasil.

Portanto, é um recurso essencial para o exercício de inúmeros


direitos, como o acesso à informação e à comunicação, por pessoas com
deficiência visual, deficiência intelectual, disléxicos e idosos, tendo sua
aplicação nas diversas esferas do fazer humano, especialmente nos
campos da educação, trabalho, cultura e lazer.

Pesquisas da Dra. Lívia Maria Villela de Mello Motta3 indicam que esse
recurso aumenta em até 80% o nível de compreensão do conteúdo veiculado.

Vivemos num país onde leis promotoras da dignidade humana são


promulgadas, mas lamentavelmente nem sempre cumpridas, sendo
freqüentemente objeto de procrastinação por parte do Poder Público para
proteger grupos econômicos e/ou interesses de políticos proprietários de meios
de radiodifusão, em detrimento da dignidade inerente às pessoas humanas.

3 Doutora em Lingüística Aplicada e Estudos de Linguagem. Trabalha como consultora na


área de inclusão educacional e inclusão econômica no Instituto Paradigma
(www.iparadigma.org.br). É professora de cursos de extensão universitária na PUC de São
Paulo, ministrando o curso: Educando para Cidadania – Escola e Inclusão
(http://cogeae.pucsp.br/curso.php?cod=250905&uni=SP&tip=RE&le=E&ID=6). É coordenadora
de projetos no Grupo Terra (www.grupoterra.org), ONG cujo objetivo é a inclusão social das
pessoas com deficiência visual, pelo contato com a natureza. Foi responsável, no Grupo Terra,
pelo Projeto de Inclusão Cultural, implementado na VIVO, em 2006, com o objetivo de formar
audiodescritores para o Teatro Vivo. O primeiro curso foi ministrado em 2006 e formou 12
audiodescritores; o segundo em 2007, formou 10 audiodescritores, que atuam hoje em todas
as peças que são apresentadas no Teatro Vivo (O Santo e a Porca, O Andaime – primeira peça
comercial a contar com o recurso de audiodescrição no Brasil, A Graça da Vida, Cartas de
Amor, O Doente Imaginário, Figurinha Carimbada).
http://funcionalidade.blogspot.com/2007/03/teatro-vivo-com-audiodescrio.html Elabora os
roteiros de audiodescrição das peças. Além das peças, foi responsável pela elaboração dos
roteiros de audiodescrição para os filmes: Saneamento Básico, O Ano que Meus Pais saíram
de Férias, O Passado, filmes esses que foram exibidos com audiodescrição ao vivo em sessão
de estréia. Foi, também, responsável pela audiodescrição do kit VIDA EM MOVIMENTO
http://www.vivovoluntario.org.br/site/pagina.php?idconteudo=1134, o qual visa estimular e
contribuir para promover a inclusão de crianças e jovens com deficiência na educação, no
trabalho e em todas as atividades da vida social. O kit se compõe de 4 DVDs, em um total de
25 vídeos, uma realização do Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas e do Departamento
Nacional do SESI - Serviço Social da Indústria e conta com as parcerias do Instituto Vivo,
Laramara - Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual, SEPED – Secretaria da
Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida e Portal Planeta Educação.
A Lei nº 10.098 de 2000 (artigos 17 a 19), materializou o direito à
remoção de barreiras de comunicação para as pessoas com deficiência
sensorial (visual e/ou auditiva), barreiras essas que, por força do Decreto nº
5.296 de 2004, regulamentador da Lei ora mencionada, dizem respeito à
implantação do recurso de descrição e narração, em voz, de cenas e imagens
na programação veiculada pelas emissoras de radiodifusão e suas
retransmissoras, hoje conhecido como audiodescrição.

O Decreto nº 5.645 de 2005, fixou o prazo impostergável de 120 dias


para que o Ministério das Comunicações regulamentasse a matéria, por via de
norma interna, regulamentação esta que veio a lume por meio da Portaria nº
310 (documento anexo), de 27 de junho de 2006, publicada no DOU – Diário
Oficial da União do dia 28 subseqüente que, frise-se, veio a destempo,
porquanto deveria ter sido expedida em abril de 2006.

Importante destacar que antes da edição da Portaria nº 310/2006, a


Portaria 476 de 01 de novembro de 2005, publicada no DOU de 03 de
dezembro de 2005, determinou e o Ministério das Comunicações promoveu
consulta pública para receber sugestões sobre a minuta da Norma
Complementar que estabeleceria os requisitos técnicos necessários para a
promoção da acessibilidade para pessoas com deficiência na programação das
TVs abertas brasileiras, em cumprimento ao que determina o Decreto
5296/2004 e alterações posteriores.

Ou seja, já houve a discussão democrática sobre o assunto, com prazos


estabelecidos anteriormente, e respostas dos participantes às perguntas e
dúvidas sobre os recursos de acessibilidade.

Prosseguindo, a Portaria 310/2006 instituiu a Norma Complementar nº


01/2006 (documento anexo) que, após detida análise da realidade, escalonou
prazos para a implementação dos recursos de acessibilidade, para pessoas
com deficiência, na programação veiculada nos serviços de radiodifusão de
sons e imagens e de retransmissão de televisão. Frise-se, após, ampla
consulta pública.

Essa Norma Complementar nº 01/2006 definiu carência de dois anos


para que as emissoras tivessem tempo para promover as adequações
necessárias em sua programação e ainda estabeleceu o cronograma
progressivo da quantidade diária de programação que deveria ser transmitida
com os recursos de acessibilidade previstos, de tal modo que, somente a partir
de 27 de junho de 2008, estas emissoras estariam obrigadas a produzir duas
horas diárias de programação acessível, aumentando a carga diária um pouco
a cada ano até que, somente depois de passados 10 anos, atingíssemos a
totalidade da programação sendo gerada com os recursos de acessibilidade.

Portanto, o prazo de 24 meses para o início da implementação da


audiodescrição se exauriu em 28 de junho de 2008, mas desde então vem
sendo adiado e os mecanismos de controle social, como consultas públicas e
audiências públicas, vem sendo abusivamente utilizados para protelar o
cumprimento de direitos indisponíveis e que asseguram a equiparação de
oportunidades.
Neste sentido, o Ministério das Comunicações editou a Portaria nº 403,
de 27/06/2008, publicada no DOU do dia 30 subseqüente, suspendendo por 30
(trinta) dias a exigibilidade da audiodescrição, já demonstrando sua intenção de
descumprir os prazos do Decreto nº 5.645, de 2005 e, consequentemente,
interferiu severamente no direito à comunicação e à informação das pessoas
com deficiência, garantidos pela Constituição.

Em 23 de julho de 2008, o Ministério das Comunicações realizou uma


reunião da qual participaram representantes da ABERT – Associação Brasileira
de Emissoras de Rádio e Televisão, representantes da UBC – União Brasileira
de Cegos e profissionais de audiodescrição brasileiros e experientes para outra
tentativa de justificar o adiamento da implementação.

Após os argumentos apresentados naquela oportunidade, em 30 de


julho de 2008, e já sob a égide da Convenção sobre os Direitos das Pessoas
com Deficiência, que trata da acessibilidade na televisão de forma explícita em
seu artigo 30, o Ministério das Comunicações publicou a Portaria nº 466/2008,
restabelecendo a obrigatoriedade do recurso da audiodescrição e concedendo
o prazo de 90 dias para que as emissoras iniciassem a transmissão de seus
programas com este recurso.

Infelizmente, duas semanas antes do dia 30 de outubro de 2008 – data


em que a audiodescrição se tornaria realidade, garantindo o efetivo exercício
dos direitos das pessoas com deficiência, em duas horas diárias, foi
promulgada a Portaria nº 661/2008, suspendendo inconstitucionalmente sua
exigibilidade e determinando a realização de OUTRA CONSULTA PÚBLICA,
sob alegação de esclarecer questões técnicas, que já foram objeto de ampla
consulta.

Vale ainda ressaltar que como apresentado no ofício nº 140 de 8 de


junho de 2009 e no ofício nº 159 de 9 de junho de 2009 a audiodescrição foi
questionada em consulta pública que sequer assegurou acessibilidade aos
documentos, o que foi conseguido através de ordem judicial nos autos do
Mandado de Segurança impetrado por CONSELHO NACIONAL DOS
CENTROS DE VIDA INDEPENDENTE – CVI – BRASIL; FEDERAÇÃO
BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE SÍNDROME DE DOWN – FBASD E
ORGANIZAÇÃO NACIONAL DE CEGOS DO BRASIL – ONCB – BRASIL4 junto
STJ – Superior Tribunal de Justiça.

Ademais, as perguntas formuladas ao final do texto da Portaria


661/2008, também foram objeto de discussão na reunião realizada dia 23 de
julho de 2008 e foram todas refutadas com argumentos técnicos e não
econômicos, a começar pela dúvida quanto à existência de audiodescritores
competentes e em número suficiente, no Brasil.

Esclarecemos também que as perguntas “a título de sugestão”, que


constam do final da Portaria nº 661/2008 exprimem idéias e concepções
errôneas, que já foram debatidas e refutadas na reunião técnica mencionada
anteriormente e na consulta pública realizada para este fim. Tanto é que, ao

4 MS nº 14449/2009 disponível em www.stj.jus.br


final desta reunião, o Ministério das Comunicações, de posse dos subsídios
técnicos que julgou necessários, fornecidos pelos representantes das pessoas
com deficiência, pelos profissionais especializados e pela própria ABERT,
sentiu segurança e embasamento para promulgar a Portaria nº 466, cujo
conteúdo reflete a importância e a viabilidade da implantação deste recurso.

Tanto é assim que foi concedido o prazo de noventa dias para que a
audiodescrição fosse oferecida de forma crescente, iniciando com duas horas
diárias.

A atitude do Ministério das Comunicações é absolutamente ilegal,


na medida em que não detém poderes para suspender prazos legais e,
muito menos, para descumpri-los, principalmente por ferir preceitos
constitucionais especialmente o Decreto Legislativo nº 186/2008 e
Decreto nº 6.949/2009, de aplicação imediata, como preconiza toda norma
que trata de direitos humanos.

Repise-se que a audiodescrição é um recurso essencial para a inclusão


das pessoas com deficiência, processo que está em pleno andamento e que,
apesar de ter o respaldo explícito do próprio Governo Federal, no que se refere
ao conteúdo da Agenda Social, deveria ter diretrizes alinhadas com o mesmo,
sendo o primeiro a dar o exemplo e a cobrar do setor privado o cumprimento
das normas constitucionais.

Ressalte-se também a importância de facilitar a educação e o trabalho


àqueles que têm dificuldade de visualizar ou perceber imagens, direitos estes
que fazem parte dos direitos humanos e são essenciais para o exercício da
cidadania e para a participação na sociedade.

Um dos argumentos inaceitáveis para a cidadania e que consta deste


processo é que por não haver consenso, não poderá ser implementada a
audiodescrição. Elizabeth Sá, em um texto muito elucidativo5 afirma:

Dizem que muitos cegos não querem a audiodescrição. Muitos


cegos resistiram ao computador e, depois, descobriram que não
conseguem trabalhar sem ele. Muitos cegos não vão ao cinema
porque o filme é inacessível. Não se trata de saber quem nasceu
primeiro: o ovo ou a galinha? É preciso assegurar e praticar a
audiodescrição porque este direito é inegociável com qualidade
ou sem qualidade do produto. É a partir da garantia do direito
que se constroem as soluções, as competências, os
aprimoramentos, os novos conhecimentos e a cultura da
audiodescrição ampla, geral e irrestrita.
A audiodescrição é uma inovação e as pessoas cegas só vão
saber se a qualidade é boa ou sofrível se houver uma cultura de
audiodescrição na TV, no cinema, no teatro, em espetáculos, na
escola e em todos os espaços nos quais existam imagens
visuais. Trata-se de um direito no campo da acessibilidade.
Portanto, é para ser cumprido e não negociado.

5 Disponível em http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/2009/11/direitos-
inegociaveis-por-elizabet-sa.html
Por outro lado, necessário destacar que qualquer mudança no
cronograma constante da Norma Complementar nº 01/2006, que não seja
para agilizar a implementação estabelecida para esta tecnologia assistiva
– cujo prazo de implementação final estava previsto para dez anos –
serviria para beneficiar, mais uma vez, as emissoras de televisão, que
seriam desobrigadas do ônus de propiciar acessibilidade, para assegurar
a plena cidadania das pessoas com deficiência.

Reafirma-se que mesmo sendo detentoras de uma concessão,


delegação, permissão ou autorização pública, o fato das emissoras de
telecomunicações ignorarem as especificidades das pessoas com deficiência e
continuar divulgando conteúdos apenas para alguns brasileiros é uma séria
discriminação e, portanto, é absolutamente inaceitável permitir essa prática de
selecionar qual parte da população brasileira poderá assistir televisão. No
mínimo isso é um APARTHEID.

Lembramos, ainda, que em 2005 o Ministério das Comunicações já


promoveu uma consulta pública e uma audiência pública já mencionadas. Qual
seria o objetivo de realizar mais uma consulta? Se ela é imprescindível, por que
não foi feita antes da publicação da Portaria nº 466? Por que as perguntas
sugeridas para a próxima audiência pública revelam desconhecimento do
assunto, ignorando as respostas que já foram dadas?

São provocações para refletir sobre como um único ato administrativo


hierarquicamente inferior provoca o descumprimento de vários preceitos
fundamentais aqui no Brasil.

Importante ainda destacar que além da ação civil pública mencionada


nestes autos, em dezembro de 2008, inconformados com as sucessivas
suspensões do recurso da audiodescrição pelo Ministério das Comunicações, o
Conselho Nacional dos Centros de Vida Independente e a Federação Brasileira
das Associações de Síndrome de Down ingressaram no Supremo Tribunal
Federal com uma Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental
(ADPF nº 160), alegando descumprimento da Convenção sobre os Direitos das
Pessoas com Deficiência que afeta diretamente a população brasileira e os
direitos humanos.

Em 26 de novembro de 2009, o Ministério das Comunicações publicou a


Portaria nº 985, que submete a comentários públicos a minuta de portaria que
altera o subitem 3.3 e o item 7 da Norma Complementar no 01/2006 - Recursos
de acessibilidade, para pessoas com deficiência, na programação veiculada
nos serviços de radiodifusão de sons e imagens e
de retransmissão de televisão, aprovada pela Portaria no 310, de 27
de junho de 2006.

Ou seja, a quarta consulta pública sobre o mesmo assunto sem que o


recurso seja implementado na vida diária das pessoas com deficiência. E, o
que é mais grave, o uso de instrumentos de controle social, como consultas
públicas, no intuito de protelar a exigibilidade do direito.

4. O DESRESPEITO CONTINUADO
É inadmissível que o interesse pessoal das emissoras de televisão e
suas entidades representativas, que detêm concessão, permissão e
autorização do Governo Federal para funcionar leve-as a postergar o máximo
possível o cumprimento de sua obrigação.

Elas se empenham em fazer que os recursos de acessibilidade se


tornem obrigatórios apenas após a implantação da TV digital, para que outros
prazos sejam concedidos, sem que todas as pessoas tenham equiparação de
oportunidades.

Importante esclarecer que ainda não há certeza sobre a data de


implantação e sequer sobre a obrigatoriedade desta forma de transmissão no
Brasil.

Desta forma, sempre com a “desculpa” de um alto custo econômico,


empenham-se em fazer prevalecer seus interesses privados, sobrepondo-s ao
direito das pessoas com deficiência de participar em igualdade de condições
em todos os âmbitos da sociedade brasileira, direito esse amplamente
amparado no arcabouço legal vigente.

No Brasil, segundo dados do IBGE – Censo Demográfico de 2000,


existem aproximadamente 16,5 milhões de pessoas com deficiência visual total
e parcial, que se encontram excluídos da experiência audiovisual, cultural e
cênica.

O direito à acessibilidade aos meios de comunicação e informação é um


tema que está em pauta no mundo todo. Os esforços neste sentido visam não
apenas proporcionar o acesso a produtos culturais a uma parcela da população
que se encontra excluída, como também estabelecer um novo patamar de
igualdade baseado na valorização da diversidade.

O Ministério das Comunicações, um dos órgãos da administração direta


do Poder Executivo, não satisfeito em perpetuar discriminações com base na
existência de uma situação de deficiência utilizando um ato administrativo –
PORTARIA MINISTERIAL –, hierarquicamente inferior à Constituição e demais
leis em vigor, pretende revogar e descumprir preceitos fundamentais.

Uma pergunta básica: por que após terem decorrido quase vinte anos da
promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil ainda não se
vê nas transmissões e retransmissões da TV brasileira sequer um único
programa continuado com todos os recursos de acessibilidade – notadamente
a audiodescrição – que permita que uma pessoa com deficiência, possa
exercer com dignidade e autonomia seu direito à informação como todas as
demais pessoas?

E continuam os questionamentos: até quando vamos continuar com a


impotência de saber que a dignidade humana, independente de qualquer
condição e todos os outros princípios e fundamentos da República não é
prioridade quando há interesses econômicos envolvidos? Até quando vamos
assistir o aprofundamento das desigualdades e a discriminação sofrida pelas
pessoas com deficiência por “fato do príncipe”, que suspende a exigibilidade de
um recurso de tecnologia assistiva e pelo incessante lobby praticado pela
empresas concessionárias, delegatárias e permissionárias de
telecomunicações?

É público e notório que a União Federal, inobstante comando


constitucional e legal neste sentido, não conta com programas na TV com a
audiodescrição para pessoas com deficiência. Ora, se a União tivesse
cumprido todas as suas obrigações, notadamente, fiscalizar as concessões,
delegações e permissões sobre este tipo de serviço essencial, todos os
programas da TV brasileira seriam adequados a todos, com audiodescrição,
legenda oculta e intérprete de Libras (língua brasileira de sinais), como previsto
na legislação nacional e na Portaria 310/2006, o que não condiz com a
realidade vivida.

É ainda público e notório, no Brasil, que as pessoas com deficiência


precisam resolver individualmente a “desestrutura organizada” em que
vivemos, tanto no que se refere ao exercício de direitos sociais, quanto no que
se refere ao exercício da cidadania, com todas as obrigações aí incluídas, o
que é extremamente injusto e reforça as desigualdades entre elas.

Segundo o paradigma social utilizado hoje e adotado pelo Brasil


(Decreto Legislativo 186/2008), a deficiência é o resultado da interação de
deficiências físicas, sensoriais ou mentais/intelectuais com o ambiente físico e
cultural e com as instituições sociais. Quando uma pessoa tem uma condição
que limita alguns aspectos do seu funcionamento, esta se torna uma situação
de “deficiência” somente se ela tiver que enfrentar barreiras de acesso ao
ambiente físico ou social que tem à sua volta.

Isso quer dizer que a definição de quem tem ou não uma deficiência não
depende tanto das características pessoais dos indivíduos, mas também, e
principalmente, do modo como a sociedade onde vive, organiza seu entorno
para atender à população em geral.

Como dito anteriormente, o Censo Demográfico IBGE 2000 verificou que


14,5% da população brasileira possui algum tipo de deficiência. Em termos
econômicos, a deficiência é uma variável endógena à organização social. A
deficiência é tanto uma causa como uma conseqüência da pobreza; estudos do
Banco Mundial indicam que uma em cada cinco pessoas pobres apresenta
uma deficiência, que onera seu já exíguo rendimento. Podemos então dizer
que todas as famílias de uma comunidade pobre são diretamente afetadas
pelos efeitos socioeconômicos da deficiência e necessariamente precisam de
tecnologias assistivas para o enfrentamento desta situação. Mas não é porque
são pobres que não fazem jus a um serviço público essencial, como o de
transmissão e retransmissão de TVs, adequado às especificidades de todos e
de todas.

Ao contrário, as diretrizes adotadas pelo Governo Federal e seus


pronunciamentos evidenciam sua preocupação com as camadas
desfavorecidas da população brasileira e seu empenho em diminuir a
desigualdade social.

Pessoas com deficiência ainda são “invisíveis”, como se não fossem


parte do povo brasileiro, e ficam excluídas da atenção básica necessária para a
sua sobrevivência e da sua família. A essas é que o setor do desenvolvimento
deveria dar prioridade, bem como os criadores e provedores de políticas
públicas, que por princípio, deveriam ser para todos. A única maneira de
chegar até eles é descentralizar e universalizar o acesso a bens e serviços
como um todo, principalmente as telecomunicações.

Importante considerar também que a deficiência é “democrática” e


perpassa todas as classes sociais e econômicas, o que implica dizer que não
só os pobres serão beneficiados com a audiodescrição, mas a integralidade da
sociedade brasileira.

Logicamente que, por estas razões, devem ser asseguradas a estas


pessoas condições para desenvolverem seu potencial de cidadãs e suas
responsabilidades junto ao desenvolvimento nacional.

Outra pergunta: como vamos assegurar outros direitos se as pessoas


não conseguem sequer acompanhar, com todos os recursos de acessibilidade,
os noticiários nacionais, as campanhas de vacinação pública ou de prevenção
da AIDS ou mesmo programas educativos preparatórios, como o Telecurso
2000?

Ou seja, trata-se de um grupo de pessoas que ainda vive sob o manto


da invisibilidade social, mas que por determinação constitucional, estão
incluídas entre os brasileiros e estrangeiros residentes no País e sujeitas aos
mesmos direitos e deveres. Porém, para exercê-los precisam de equiparação
de oportunidades, principalmente no direito à informação e acessibilidade,
potencializadores dos demais direitos humanos.

A comunicação é fundamental para qualquer indivíduo ter acesso a


serviços, benefícios e direitos sociais (trabalho, educação, saúde, lazer, entre
outros). Na verdade é um direito transversal para que outros possam ser
usufruídos. Nesse contexto, quando se tem um sistema de comunicação
coletivo inacessível para um determinado indivíduo ou segmento social, cria-se
o chamado “efeito cascata”, inviabilizando o acesso a todos os outros serviços,
sujeitando a pessoa com deficiência, que já convive com sua limitação, a viver
de forma isolada ou subumana.

Gostaríamos de ressaltar que exibir um programa de televisão que não


garante acesso a todos os cidadãos é prestar um serviço inadequado ao pleno
atendimento dos usuários na forma prevista nas Leis nº 8.987/95, nº 8.078/90 e
nas normas técnicas aplicáveis e em vigor.

Sem um meio de comunicação eficaz, como assegurar condições


laborativas equivalentes, para enfrentar a pobreza e a discriminação? Como
cumprir a Lei de Cotas (Lei nº 8.213, regulamentada pelo Decreto nº 3.298,
garantindo a formação da mão-de-obra qualificada que as empresas
demandam? Como garantir que as pessoas sejam vistas e não apenas a
deficiência? Como dar visibilidade e iguais oportunidades de educação,
trabalho, lazer, saúde, reabilitação, sem assegurar acesso aos meios de
informação?
O Brasil é vasto e seu amplo território caracteriza-se pela diversidade
sócio-econômica-cultural. A televisão é o meio de comunicação por excelência,
daí ser muito utilizada inclusive para campanhas educativas, que muitas vezes
não chegam às pessoas com deficiência por falta de acessibilidade na
comunicação.

O sistema de telecomunicações brasileiro não está considerando os


princípios fundamentais da Constituição Federal, que no seu artigo 1º estatui
como fundamentos da República, dentre outros: a cidadania, a dignidade da
pessoa humana e os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. Como
usufruir disso sem condições reais e equitativas de informações? Importante
destacar que no ano de 1989, a Lei Federal nº 7.853/1989 fixou o prazo de
doze meses para que todos os órgãos federais implementassem ações
necessárias para a integração social das pessoas com deficiência. Neste
período, várias leis, decretos, portarias e instruções normativas foram editadas,
alteradas e publicadas, mas a inacessibilidade e a exclusão de parte da
população permanecem, e o que é mais grave, discriminando com base na
deficiência.

Para que a cidadania da pessoa com deficiência seja respeitada


integralmente e não permaneça como letra morta no papel, faz-se necessário
respeitar suas limitações e necessidades específicas utilizando-se de métodos
tecnológicos para que se alcance a igualdade entre os seres e sejam supridas
as diferenças existentes.

Para a consecução de seus fundamentos, segundo a norma


constitucional, a República deverá atingir os objetivos preconizados no artigo
3º, da CF, para, dentre outros, "construir uma sociedade livre, justa e solidária"
e "promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor,
idade e quaisquer outras formas de discriminação". Não disponibilizar ou não
exigir que suas concessionárias, delegatárias e permissionárias disponibilizem
informação e comunicação acessíveis significa ampliar e ressaltar a
desigualdade fática inerente à pessoa com deficiência e as limitações já
existentes, o que macula os objetivos previstos no artigo 3° da Constituição
Federal de 1988.

A questão da acessibilidade, quando – e apenas se – tratada no


contexto do Desenho Universal, constitui um dos pilares fundamentais para a
construção de uma sociedade verdadeiramente inclusiva, participativa e
sustentável.

Faz-se importante destacar que por se tratar de normas de eficácia


programática, as mesmas determinam princípios que devem ser respeitados
por quaisquer órgãos da administração e até mesmo pelos três Poderes
Constituídos. Não é viável e nem legal permitir que um serviço essencial como
o de televisão não respeite os princípios da cidadania, da isonomia e da
legalidade.

O conceito de desenvolvimento inclusivo aproveita e potencializa a


ampliação dos direitos e capacidades de cada uma das dimensões do ser
humano (econômica, social, política, cultural) na sua diversidade e
especificidade, com base na procura e garantia do acesso universal e da
equidade. Não discrimina e sim, promove a diferença, aprecia a diversidade e a
transforma numa vantagem, um valor, uma oportunidade e um direito.

O artigo 6º da Constituição Federal garante como direitos sociais a


educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência
social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados,
na forma da Constituição.

Reafirme-se que a eqüidade só será conseguida com a disponibilização


de tecnologias para pessoas com deficiência e o sistema de transmissão e
retransmissão de televisão com audiodescrição, legenda oculta e intérprete de
Libras não pode ser excluído, vez que por determinação legal, é para todos e
todas.

Ainda no campo dos princípios gerais, é objetivo precípuo da assistência


social, nos termos do artigo 208, da CF, dentre outros, "a habilitação e
reabilitação das pessoas portadoras de deficiência e a promoção de sua
integração à vida comunitária".

De destacar, por outro lado, que a União e suas concessionárias,


delegatárias e permissionárias do sistema de televisão não se desincumbiram
da promoção da devida assistência às pessoas com deficiência, tal como
preconizado no artigo 227, § 1º, II e § 2º, da Constituição Federal, nem
tampouco lograram materializar plenamente o disposto no artigo 244, das
Disposições Constitucionais Gerais da Constituição Federal de 1988.

Portanto, ao suspender a exigibilidade da implementação imediata dos


recursos de acessibilidade na TV, o Ministério das Comunicações despreza o
importante princípio constitucional da isonomia, preconizado no artigo 5º, da
Constituição da República, que deveria ter aplicação imediata. Ora, o direito à
igualdade é tido como regra de equilíbrio com relação às pessoas com
deficiência, já que na realidade dificilmente se conseguiria equiparar as
condições da vida do cidadão sem deficiência com o daquele outro com
qualquer tipo de deficiência, que vive em condições específicas, resultantes da
mencionada deficiência.

É unânime o entendimento de que esse princípio atinge não só os


cidadãos perante a lei, mas também a norma. Ou seja, o princípio está
destinado tanto ao legislador quanto ao aplicador da lei, significando que as
“desequiparações” fortuitas ou injustificadas, como a deficiência tratada nos
presentes autos, são vedadas, em virtude do princípio da igualdade.

Ademais, o teor do disposto nos artigos 23, II e 24, XIV, da Constituição


Federal estabelece que compete à União, aos Estados, ao Distrito Federal e
aos Municípios, zelar pela proteção e garantia das pessoas com deficiência, e
também concorrentemente aos mencionados entes estatais, legislar sobre a
proteção e integração social das pessoas com deficiência. Vale dizer, é
comando constitucional o zelo dos entes estatais pela proteção, garantia e
integração das pessoas com deficiência.

Direitos humanos não podem ser tidos como simples palavras impressas
em algum papel para que sejam ignoradas ou tratadas como letra fria e
grotesca. Impõe-se que seja resguardada a coerência entre os valores do
sistema constitucional e as relações existentes entre os seres.

Ou seja, o prazo legal para a existência de acessibilidade nos programas


de TV já expirou e sua exigibilidade foi suspensa pela Portaria 661/2008 do
Ministério das Comunicações. Como é uma norma que regulamenta um direito
fundamental e humano, sua vigência passa a ser imediata, tornando sua
eficácia uma cláusula pétrea.

Importante ainda destacar que desde fevereiro de 2005, a NBR 152906,


produzida pela ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas está em
vigor determinando os procedimentos técnicos dos veículos de comunicação, o
que dilui e encerra qualquer discussão sobre a ausência de regulamentação do
assunto.

Não se pode aceitar que prevaleça indefinidamente o custo econômico


em detrimento do custo cidadão ou o lobby das empresas de
telecomunicações, notoriamente financiadoras de campanhas eleitorais, para
prorrogar o cumprimento de obrigações constitucionais, pelas sucessivas
edições de leis, decretos, portarias e consultas públicas sem que sejam
implementadas ou cumpridas.

Vale também frisar a importância da declaração incidental de


inconstitucionalidade de parte do Decreto nº 5.296/2004 quando, ao extrapolar
sua área de competência, concedeu novos prazos para cumprimento de
obrigações constitucionais cujos prazos já haviam vencido e ainda de forma a
permitir que normas inferiores (decretos, portarias, etc.) alterem normas
superiores (Constituição Federal e Estadual, Leis, etc.).

Com o nível atual de conhecimentos disponíveis e os novos paradigmas


sociais e de direitos já citados, que regem esse tema, pode-se afirmar, sem
medo de errar, que a deficiência faz parte do ciclo de vida de qualquer pessoa
e por isso interessa e responsabiliza a todos.

Com a audiodescrição garante-se na condição de cidadãos brasileiros e


titulares de direitos humanos, a possibilidade de utilizar o mesmo sistema de
telecomunicações que todos utilizam, por serem as pessoas com deficiência,
parte da população brasileira. E para isso será fundamental repelir o
descumprimentos dos preceitos fundamentais da República Federativa do
Brasil.

Vale aqui enfatizar que o sistema de comunicações é organizado,


através de concessão, delegação e permissão pela Administração Pública e,
portanto, está sujeito às regras que lhe são peculiares, principalmente no que
se refere ao respeito ao princípio da legalidade e da eficiência para todos.

Durante esses vinte anos que transcorreram da data da promulgação da


Constituição até os dias atuais, período em que empresas obtiveram novas
outorgas ou renovaram as existentes para a prestação dos serviços de

6 http://www.mj.gov.br/sedh/ct/CORDE/dpdh/corde/ABNT/NBR15290.PDF
telecomunicações por meio de concessões, delegações e permissões da
Administração Pública no Brasil; toda a tecnologia já foi substituída da década
de 1980 até os dias atuais e as empresas permanecem fortes e muito
vinculadas ao Poder Executivo e Legislativo no Brasil7, apesar da vedação
constitucional. Porém, a situação de exclusão por falta de acessibilidade
permanece e a pessoa com deficiência é ignorada e seus direitos violados
como em um crime continuado.

Não se trata apenas de postular a inclusão e o acesso universal como


tema de direitos humanos e princípio de eqüidade, mas também de considerá-
los como condições necessárias ao desenvolvimento sustentável e à
viabilidade da convivência democrática nos e entre os Municípios; nas e entre
as pessoas.

Para tornar possível a utilização desse serviço essencial de


telecomunicações, concedido/delegado ou permitido pelo Poder Público,
também pelas pessoas com deficiência e/ou com mobilidade reduzida, dentro
dos princípios da legalidade jurídica nacional e internacional e em consonância
com os valores da autonomia, dignidade, inclusão e equiparação de
oportunidades, para garantir que todos exerçam sua plena cidadania e suas
escolhas, independentemente da condição de deficiência, é que se faz
necessário o cumprimento dos preceitos fundamentais da Carta Magna
brasileira.

Importante lembrar ainda que o problema é a “deficiência” do sistema de


telecomunicações e não a presença da pessoa com deficiência.

Outro fato que merece destaque é que a presença de uma pessoa com
deficiência em ambientes ou serviços inacessíveis “personifica” o problema e
quem não vivencia a situação de deficiência em seu cotidiano prefere sugerir
uma submissão ou um tratamento diferenciado (preconceituoso ou privilegiado
– ambos proibidos) para solucionar o embate naquele momento, ignorando a
“deficiência” do sistema.

São vários os relatos de pessoas que tiveram que ser submetidas a


situações constrangedoras, como ficar alheias à programação da TV brasileira
e dependentes do favor de terceiros para entender o que se passava na tela.
Um exemplo disso é a frase dita em vários programas da TV “Ligue agora para
o telefone que aparece em seu vídeo”.

Autonomia e independência são palavras que ainda não combinam com


pessoas com deficiência no sistema de telecomunicações brasileiro e isso
precisa mudar.

O sistema de telecomunicações adequado a todos e todas deve ser uma


realidade, uma vez que não é possível juridicamente tratar com isonomia e
respeitar a cidadania de pessoas com deficiência e/ou mobilidade reduzida,
sem garantir condições de acessibilidade.

7 Ver www.donosdamidia.com.br
Como conseqüência, queremos inibir imediatamente este desrespeito ao
ordenamento jurídico em vigor, pleiteando a determinação judicial que o
sistema de telecomunicações não exclua nenhum cidadão brasileiro, tornando-
se adequado a todos e que nenhum edital ou contrato de concessão,
delegação ou permissão deste tipo de serviço público seja feito sem a previsão
e exigibilidade de acessibilidade.

Portanto, é cabível que o CONADE, como órgão colegiado nacional exija


da Administração Pública, que cumpra o dever constitucional de zelar não
apenas pela implementação da Constituição e dos tratados e acordos
internacionais, mas principalmente exija o dever de assegurar que os serviços
concedidos, permitidos ou delegados pela Administração Pública sejam para
todos e todas.

Importante destacar que a deficiência permanecerá sendo motivo de


discriminação, quando o serviço é que teria que ser prestado de forma
adequada para todos e todas, exigindo-se imediatamente que as empresas
concessionárias, delegatárias e permissionárias disponibilizem a tecnologia
assistiva.

Esclareca-se que essas empresas não irão fazê-lo até que o Ministério
das Comunicações exija o cumprimento de toda legislação nacional de
acessibilidade nas telecomunicações.

Além disso, as empresas que usualmente são rentáveis continuam


isentas de oferecer serviços adequados a todos e todas, o que é, no mínimo,
uma incoerência e um agravamento das desigualdades sociais, regionais e
econômicas.

5. Conclusões e Encaminhamentos:

Portanto, opinamos pela expedição de ofício, acompanhado deste


parecer, para o STF – Supremo Tribunal Federal nos autos da ADPF nº 160 e
para a 14ª Vara Federal da Seção Judiciária do Distrito Federal nos autos da
Ação Civil Pública nº 2009.34.00.004764-8 recomendando que o Poder
Judiciário determine a imediata exigibilidade da audiodescrição no Brasil.

Recomendamos ainda que sejam agendadas reuniões ou audiências


com o Ministro Relator da ADPF e com o Procurador Geral da República a fim
de demonstrar a necessidade de concessão imediata da liminar.

Opinamos também pela expedição de uma NOTA DE EXIGIBILIDADE


DA AUDIODESCRIÇÃO, encaminhada à Presidência da República e,
posteriormente divulgada da forma mais ampla possível, para que a
Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência seja cumprida,
inclusive com a publicação no Diário Oficial da União.

Ademais, para que surta um efeito imediato, sugerimos a realização de


uma audiência com o Exmo. Ministro das Comunicações, em uma das reuniões
do CONADE, para que sejam explicitados os motivos de tanta protelação da
exigibilidade da audiodescrição e que, ao mesmo tempo, o Ministro possa
entender os argumentos das pessoas com deficiência a favor da efetivação dos
direitos humanos.

Por fim, necessário expedir ofício à Imprensa Oficial para que torne o
conteúdo do site e do diário oficial da união acessível a todos e todas, inclusive
para as pessoas com deficiência.
Salvo melhor juízo, é o nosso parecer.
De Uberlândia para Brasília, 02 de novembro de 2009.

Ana Paula Crosara de Resende


Conselheira Suplente pela OAB

Laís de Figueirêdo Lopes


Conselheira Titular pela OAB
Coordenadora da Comissão de Atos Normativos
Complementado em Plenário e aprovado por unanimidade na II Reunião Extraordinária do CONADE
realizada em Brasília dia 1 de dezembro de 2009

Denise Granja

Presidente do CONADE
Para uso interno do CONADE

O presente parecer deve ser indexado na seção de perguntas freqüentes


no site do CONADE:
( ) não
( x ) sim, na(s) area(s) de:

( ) educação ( ) saúde ( ) trabalho ( ) assistência social ( )


previdência social ( x ) acessibilidade
( ) conceito de pessoa com deficiência ( ) transporte ( ) tributos ( )
esporte, cultura e lazer
( ) pl em trâmite () conselhos
( ) outros ____________________ (sugerir nome de nova seção se for o caso)