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TRAÇOS ROMÂNTICOS NA COMPOSIÇÃO DE BRÁS CUBAS EM MEMÓRIAS PÓSTUMAS

Marcelo Alves Silva (UEMS/PIBIC) marcelo.ca.i@hotmail.com Danglei de Castro Pereira (UEMS, UUNA) danglei@terra.com.br

RESUMO O trabalho investiga a presença de aspectos da tradição romântica na composição do personagem Brás Cubas, protagonista do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Dedicaremos especial atenção à caracterização do narrador em relação à personagem, procurando, neste percurso, demonstrar a heterogeneidade da obra. A preocupação não é caracterizar o romance como realista ou romântico, mas apontar para a presença de traços híbridos no processo de construção desta obra. Com esta postura pretendemos apresentar uma proposta que oportunize a revisão do cânone literário nacional, fato que contribui para discussão da heterogeneidade na obra do escritor.

Plavras-chave: personagem romântico, realismo, Machado de Assis

ABSTRACT

The present work investigates the presence of the romantic tradition aspects in the composition of Brás Cubas, character protagonist of the novel Memórias Póstumas de Brás Cubas, of Machado de Assis. We shall dedicate special attention to the narrator’s characterization, in relation to character, trying, in this way, to demonstrate the work’s heterogeneity. The concern is not to characterize the novel as realistic or romantic, but to aim to the presence of hybrids traits in the construction process of this work. With this stance we intend to submit a proposition that gives the opportunity of reviewing the national literary canon, which contributes for the discussion of the heterogeneity in the writer’s work.

Keywords: romantic character, Realism, Machado de Assis

INTRODUÇÃO

O trabalho tem como objetivo estudar os traços românticos na obra do escritor Machado

de Assis, mais especificamente, a personagem Brás Cubas em Memórias Póstumas de Brás

Cubas. A preocupação central é discutir a presença de traços estilísticos do movimento romântico

na obra de Machado de Assis. A metodologia para desenvolver o projeto previu a discussão de

aspectos teóricos como a caracterização da personagem de ficção e as implicações da tradição romântica no delineamento da personagem Brás Cubas, no romance homônimo. Dessa forma, podemos dizer que um dos principais percursos metodológicos foi o cotejo da obra à luz das fontes teóricas selecionadas para dar sustentação à investigação. Lembramos que dedicamos especial atenção à heterogeneidade da obra em discussão. Em um primeiro momento, nossa atenção esteve voltada para a construção de um paralelo crítico entre o romance romântico e o romance realista para, posteriormente, abordarmos as marcas românticas na caracterização do personagem em discussão.

O ROMANCE ROMÂNTICO E O ROMANCE REALISTA: CONSIDERAÇÕES

Iniciado na Alemanha no fim do século XVIII, o movimento romântico logo se espalhou por toda Europa e em pouco tempo conquistou também as literaturas americanas. O Romantismo surge como expressão do universo burguês que ascende socialmente dentro do contexto histórico mundial ao final do século XVIII. Tendo como pano de fundo a desarticulação da aristocracia absolutista, a burguesia exige seu espaço no cenário social opondo-se política e artisticamente aos valores vigentes. A arte romântica opõe-se aos modelos clássicos que, devido a essas mudanças, encontra- se quase esgotados. A revolução cultural faz surgir uma nova concepção artística representada pela burguesia emergente. O Romantismo configura-se como reflexo dessa sociedade ao buscar novos caminhos para a expressão artística, agora, subjetivos e individuais.

A arte clássica não quer diferenciar e individualizar, seu propósito é sempre chegar ao geral e ao típico. Na pintura e na escultura, sua busca é a do universal. Na literatura, esquiva-se de descer a distinções psicológicas, muito minuciosas. Em todas as suas formas de expressão tenta fixar o universalmente humano. (ROSENFELD/ GUINSBURG, 2002, p. 263)

O Romantismo opõe-se fortemente a estes pressupostos da estética clássica, e, naturalmente, encontra dificuldades para se consolidar como movimento de prestigio no século XIX. Embora a poesia o gênero que mais evidencia as características do Romantismo, o romance, constitui-se no gênero que melhor atende as necessidades expressivas da sociedade oitocentista,

uma vez que este não se prendia a modelos fixos, possuindo assim, um caráter aberto capaz de abranger de forma mais direta os vários aspectos da vida burguesa. Cândido (2000) nos lembra que

O romance, com efeito, exprime a realidade segundo um ponto de vista diferente, comparativamente analítico e objetivo, de certa maneira mais adequado às necessidades expressionais do século XIX. (CANDIDO, 2000, p. 97)

O autor agora deixa aflorar os sentimentos mais profundos do “eu”, na busca por respostas a todas as indagações que dilacera o homem romântico. Tanto na poesia quanto na prosa, o amor à pátria, a nação, o saudosismo, o espírito reivindicador, são algumas das características que podem ser citadas como marcas da arte romântica. A transcendência entre sujeito e objeto leva, em determinados momentos, o individuo romântico a sucumbir à natureza desenvolvendo uma inclinação ao ufanismo e ao idealismo, grades marcas da tendência romântica. Assim, há uma quebra na harmonia EU/MUNDO e a dissonância entre sujeito e universo predomina nas obras românticas.

Os românticos vêem, e no sentido mais profundo, o homem como um ser cindido, fragmentado, dissociado. Em função disso, sentem-se criaturas infelizes e desajustadas, que não conseguem enquadrar-se no contexto social e que tão pouco querem fazê-lo porque a sociedade só iria cindi-las ainda mais. “Entre consciente e inconsciente, deveres e inclinações, trabalho e recompensa a brecha só poderia crescer, com parte de um afastamento cada vez maior entre natureza e espírito”. (ROSENFELD/GUINSBURG, 2005, p. 272)

No Brasil o Romantismo tem sua aparição em 1830, com publicação dos Suspiros Poéticos de Gonçalves de Magalhães. O movimento romântico foi uma das bases que, de certa forma, consolidaram uma literatura nacionalista que tematizava as particularidades da então incipiente sociedade brasileira. Poetas e escritores como Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Joaquim Manoel de Macedo, José de Alencar, entre outros, abriram caminho para a independência política e literária do país. No contexto brasileiro, o Romantismo não advém das revoluções como na Europa, mas como lá, surge em meio às contradições da burguesia. Diferente da poesia, que evidencia uma realidade transfigurada pelo olhar subjetivo por excelência, o romance possui um maior comprometimento com a realidade objetiva. Indo de um pólo a outro, a prosa romântica

fundamenta-se tanto nos sonhos de ideais utópicos quanto na observação empírica dos fatos, na busca da elaboração de uma realidade humana, construída, antes de tudo, pela imaginação e, sobretudo, pelo ideal.

O veículo ideal. A emoção fácil e o refinamento perverso; as presenças das visões e o amor ao detalhe; os vínculos misteriosos, as simplificações dos caracteres, a incontinência verbal – tudo nele se fundiu, originando As contradições profundas do Romantismo encontram neste gênero uma catadupa de obras do mais variado tipo que vão do péssimo ao genial. (CANDIDO, 2000, p. 98)

Há, no romance romântico, uma preocupação com a realidade local, um compromisso com o verossímil aliado a um determinismo histórico. Dado o caráter individual, o romance dá preferência aos conflitos interiores dos indivíduos, abordando aspectos da sociedade burguesa

como o comportamento humano, a constituição da família e as relações sociais engendram reflexões moralizantes e de reforço aos valores modelares da sociedade burguesa, quais sejam: a moral e a ética no convívio social, a harmonia familiar e os valores cristãos. Por conta destas tendências o romance romântico prioriza a vida privada, dá preferência aos assuntos familiares e amorosos, destacando as inquietações de indivíduos que, em um ambiente conturbado por tantas mudanças, buscam realizar seus anseios particulares. Apesar de não se prender a normas fixas, a prosa romântica, diferente da poesia, esforçou-

se por seguir um “modelo,” em cujas composições desfilam uma galeria de personagens-padrões.

A presença do bem e do mal, os tipos sociais honrados e de bem com a moral e a ética são

características marcantes do discurso romanesco no qual o individuo se modula pela bondade e confiança na recuperação dos valores sociais, fato que implica na construção de um universo utópico que em muito difere da realidade empírica do início do século XIX.

Por vezes constrangedor entre este acentuado realismo (em nada inferior muitas vezes ao dos nossos naturalistas e modernos, tão marcados de romantismo) estabelece no romance romântico uma contradição interna, um conflito realidade e sonho. (CANDIDO, 2000, p.

102)

O senso de objetividade perde-se muitas vezes, em favor do idealismo, fato que leva a

“restabelecer certas tendências profundas da escola para o fantástico, o desmesurado, incoerente

na linguagem e na concepção.” (CANDIDO, 2000, p.102). O romance romântico evidenciou, de

maneira ampla, as diversidades estruturais da sociedade do século XIX. Sua temática fixa-se nas

relações sociais, descrevendo o comportamento de homens que se encontravam inseridos em um contexto em constante transformação. A pesar do senso de objetividade, o discurso romântico não pretende a fidelidade ao real, busca antes transfigurá-lo ao estabelecer, por meio da ficção, uma verdade mais profunda e completa dos fenômenos que se apresentam. A partir da segunda metade do século XIX, inicialmente na Europa, o mundo passa por novas transformações, devido, em grande parte, aos avanços da ciência, considerada agora, grande detentora do saber. Com o aumento das grandes indústrias, o capitalismo passa por um novo estágio dando novas direções a economia mundial. O surgimento da mão de obra assalariada e o aumento da população urbana podem ser citados como índices para o aumento das diferenças sociais. Por certo a literatura, segundo João Pacheco (1971), não se isentaria de refletir este novo contexto social. Inicia-se um novo movimento literário, no qual a arte deveria copiar a realidade tal como esta se apresenta. A concepção cientifica pressupõe a idéia de que a razão deve suplantar o idealismo e o sentimentalismo dos românticos. Nomes como de Comte, Darwin, ente outros, promovem o triunfo da ciência, introduzindo a “idéia” de transferência “do metafísico, incognoscível a mente humana, para o natural, acessível ao nosso conhecimento” (PACHECO, 1971, p. 12). As indagações do ser humano deixam o âmbito do sobrenatural para guiar-se pela razão objetiva, renunciando aos pressupostos espirituais e idealizantes tão caros aos românticos. Em seu lugar ganha força o campo da experiência, da observação empírica e a focalização à experiência concreta em uma sociedade corrompida pela cobiça do capitalismo emergente. O senso de observação e a adoção do raciocínio lógico suplantam o idealismo romântico. Publicado em 1857, o romance Madame Bovary (1857), do escritor francês Gustave Flaubert, é considerado, pelos manuais literários, marco inicial do realismo na literatura. O homem passa a ser visto como produto e resultado do meio no qual está inserido, é retratado com fidelidade a realidade circundante. O artista assume um posicionamento distanciado, evita expressar um envolvimento afetivo com o relato.

No romance realista, o escritor tenta desvincular-se de qualquer fator subjetivo, trabalhando apenas com fatos observáveis, avesso a fantasias e aos excessos da imaginação. Cabe ao romancista lidar com questões do seu tempo, sendo capaz de analisar e criticar de maneira racional e impessoal seu meio social “não lhe cabe ir além

do “como”, renunciando ao “porque” dos fenômenos, que também escapam ao cientista”. (PACHECO, 1971, p. 130).

No Brasil, sob as influencias de escritores europeus, nossos romancistas começam a aderir ao novo estilo. “Pouco a pouco, ao sopro de novas correntes que nos vinham da Europa, entraram os nossos românticos a compreender a necessidade de abrir mais os olhos para o mundo da observação” (PACHECO, 1971, p. 132). Surgem os primeiros escritores, considerados pela crítica, como precursores do Realismo/Naturalismo. Visconde de Taunay (1843-1889), Franklin Távora (1842-1888) entre outros, publicam obras cujo estilo começa a afastar-se dos pressupostos do Romantismo. Cronologicamente, marca-se como início do novo movimento literário em nossas letras, a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) de Machado de Assis e O Mulato de Aluízio Azevedo (1881). Ao lado desses escritores despontam outros nomes como Adolfo Caminha, Inglês de Sousa, Julio Ribeiro, entre outros. Picchio (1997) comenta que cada autor assimila lições dos europeus e dos últimos românticos fato que daria ao nosso realismo uma face singular, pois os elementos da tradição romântica ficariam arraigados em nossa tradição realista.

Busca-se a verdade expressiva, a pintura fiel das situações e personagens concretas, a objetividade da descrição à qual o autor se recusa a por o carimbo de um juízo seu. Dá- se ênfase ao ambiente, à raça, ao momento (seria o mesmo dizer o “contexto”). Os modelos do passado, prediletos dos românticos, são preteridos em favor dos fatos e das pessoas da vida contemporânea investigados em cada uma de suas “particularidades.” (PICCHIO, 1997, p. 251)

Tais romances nos apresentam personagens criadas à semelhança de pessoas comuns, uma vez que os escritores fugiram a criação de figuras idealizadas. As atitudes das personagens estão sempre ligadas ao meio que estas se encontram. Este meio físico e social oferece as condições para que o conflito se desenvolva, e determine, aliado aos fatores hereditários e biológicos, o desfecho da estória e também a trajetória das personagens, que se encontram subordinadas a fenômenos exteriores. “O amor é sempre físico, a sensualidade triunfa sobre o sentimento, o animal domina o homem.” (PACHECO, 1971, p. 138).

Objetivamos até aqui, apontar as principais características do romance romântico e do romance realista, a fim de verificar aspectos predominantes a cada discurso, uma vez que estes são fundamentais para o desenvolvimento do trabalho. Para darmos prosseguimento a linha

analítica aqui delineada, achamos prudente, mesmo que sucintamente, comentar alguns aspectos concernentes a personagem ficcional, priorizando, dado o tema do texto, a personagem do romance.

O PERSONAGEM DE FICÇÃO: ENTRE O IDEAL E O REAL

Lembrando Antonio Candido (2007), a personagem de ficção exerce um papel fundamental dentro do romance, uma vez que uma narrativa nos apresenta uma série de acontecimentos organizados em torno desses seres ficcionais, os quais vivem os fatos mais variados e têm sua trajetória traçada conforme certa duração temporal referida à determinada condição de ambiente. Além das personagens, devemos considerar de grande importância, em um romance, o seu enredo, pois é este que as movimenta, dando-lhes vida configurando-se assim, em sua realidade, da qual não podem se separar. Personagens, enredo e “idéias” constituem-se como elementos fundamentais do romance, pois estas representam o seu significado, aqueles a sua matéria, que articulados de maneira coerente e indissociável, concorrem para seu sucesso.

Antonio Candido (2007) afirma que o grau de verossimilhança de um romance depende do quanto uma personagem pode comunicar uma existência verdadeira, do quanto esta se assemelha aos seres vivos em seus variados aspectos, cujas diferenças e afinidades, são de suma importância na criação do sentimento de verdade. Concernentes a proximidade e distanciamento entre o ser ficcional e o ser real/empírico, Antonio Candido (2007) nos lembra que o conhecimento que temos dos seres reais é sempre fragmentado, já que não somos capazes de conhecer de maneira integral a personalidade do outro, restando-nos assim apenas um conhecimento exterior, impreciso e imprevisível. A noção de fragmentação e imprevisibilidade do ser sempre permeou a criação da personagem de ficção, ganhando maiores proporções a partir do século XIX, período em que alguns escritores procuraram, conscientemente, desvendar os mistérios da consciência humana se empenhando em solucionar questões metafísicas da existência.

Diferente da vida real, onde podemos estabelecer variadas interpretações acerca do comportamento das pessoas, no romance essas interpretações tendem a se limitarem, visto que o

romancista, para alcançar seus objetivos precisa traçar um determinado percurso na composição do romance, preestabelecendo, assim, os limites à existência das personagens e com isso criar seres coerentes, semelhantes aos da realidade. A capacidade de elaboração dos elementos estruturais, empregados na criação das personagens, faz com que estas nos pareçam tão vivas e complexas quanto os seres reais.

A compreensão que nos vem do romance, sendo estabelecido de uma vez por todas, é

muito mais precisa do que a que nos vem da existência. Daí podemos dizer que a

personagem é mais lógica, embora não mais simples, do que o ser vivo.(CANDIDO, 2007, p. 58)

Apoiando nas colocações de Antonio Candido verificara-se que a evolução do romance, aliado ao esforço de se criar seres cada vez mais semelhantes às pessoas reais, fez com que se estabelecessem, ao longo dos tempos, dois tipos de personagens, denominadas pelos estudiosos de “personagem plana” e “personagem redonda”. A primeira corresponde aquelas cujas características são marcadas por traços facilmente identificáveis, expressos, sobretudo, em seus gestos e atitudes exteriores, traços estes que tendem a se manterem inalteráveis permitindo assim o fácil reconhecimento desta personagem. A segunda diz respeito aquela cujos traços vão alem de fatores exteriores, se destacando, antes de tudo, pela sua natureza intima que nem sempre é passiva de verificação. Geralmente são dotados de um alto grau de complexidade interior, dificultando assim, a sua compreensão por parte do leitor que pode ser

surpreendido a qualquer momento pela personagem. Dessa forma,

A personagem deve dar a impressão de que vive, de que é como um ser vivo. Para tanto

deve lembrar um ser vivo, isto é, manter certas relações com a realidade do mundo, participando de um universo de ação e de sensibilidade que se possa equiparar ao que conhecemos na vida. (CANDIDO, 2007, p. 65)

Embora a personagem apresente as características acima, não se pode afirmar a possibilidade de que esta seja copiada de maneira fiel a realidade e transplantada para a ficção, conservando todos os aspectos do modelo real. Tais afirmações se justificam na medida em que não se pode, como foi visto, estabelecer um conhecimento total de uma pessoa, logo, fica impossível copiá-la por inteiro e caso isto ocorra, “uma copia desta não permitiria aquele conhecimento especifico, diferente e mais completo, que é a razão de ser, a justificativa e o encanto da ficção” (CANDIDO, 2007, p.65). O romancista, ao tomar um modelo da realidade, acrescenta-lhe sempre uma marca pessoal, procurando assim, desvendar a incógnita da pessoa copiada, sem construir uma explicação correspondente ao mistério da pessoa viva, mas sim uma

interpretação deste mistério, elaborada pela sua capacidade de criar.

Tendo em vista que uma personagem nos parece real na medida em que esta se aproxima ao máximo possível da realidade, transmitindo-nos a noção de um ser inteiramente explicável, cabe verificar o processo empregado pelo autor para criar estas personagens, que de acordo com Antonio Candido (2007) são reproduzidas ou inventadas não existindo, as duas alternativas em estado puro. Tomando a personagem como um ser fictício, cabe observar que uma das funções da arte é desfigurar a realidade, portanto, a criação de um ser ficcional se da antes por modificação que por aproximação. Isso posto podemos dizer que por mais que uma personagem se assemelhe a uma pessoa real, jamais será igual a esta, uma vez que o modelo submete-se à força inventiva do criador, no qual o desejo de fidelidade ao real faz com que se estabeleçam dois tipos predominantes de personagens que:

Ou é uma transposição fiel de modelos, ou é uma invenção totalmente imaginária. São estes os dois limites da criação novelística, e a sua combinação variável é que define cada romancista, assim como, na obra de cada romancista, cada uma das personagens. (CANDIDO, 2007, p.70)

São variados os pontos de partida de criação de personagens, como por exemplo, aquelas que exprimem atitudes e até aparência física de pessoas existentes. Há as que são transpostas com certa fidelidade de modelos colhidos pelo romancista através da experiência direta. Aquelas que são transpostas de modelos anteriores, reconstituída pelo escritor indiretamente. Também há as que são construídas a partir de um modelo real, familiar ao autor, mas é desfigurada por este, embora seja possível identificar o modelo. Personagens que são construídas em torno de um modelo dominante, servindo assim de eixo, ao qual se junta modelos secundários, e são refeitas e construídas pela imaginação. Há também aquelas que são elaboradas a partir de fragmentos de modelos variados, cujo resultado se constitui em uma nova personalidade. Antonio Candido lembra-nos que, além dessas personagens, originadas mais ou menos da realidade, é preciso ressaltar aquelas cujas origens desaparecem, ficando impossível a sua identificação a partir de modelos reais.

O elemento principal para a criação de tais personagens é a força criadora do autor, uma vez que elas nascem da capacidade inventiva do romancista, em que “a memória, a observação e

a imaginação se combinam em graus variáveis, sob a égide das concepções intelectuais e

morais”. (CANDIDO, 2007, p.74). A natureza de uma personagem depende do que propõe o autor, que para obter o êxito, precisa ajustar coerentemente todos os elementos que dispõe para elaboração do romance.

Percebe-se então que uma personagem nos parecerá verossímil, não apenas na medida em que imita pessoas reais, pois verificamos que depende, sobretudo, da função que lhe é dada pelo escritor na estrutura do romance. Portanto, o que pode determinar a verossimilhança de um romance é a maneira como este está organizado, pois o resultado da análise de sua composição deve ser considerado o fator principal para determinar a sua “verdade.” Assim, reconhecemos a verossimilhança de um romance na medida em que este apresente uma estrutura organizada, de modo a formar um todo coerente. Uma vez alcançada essa coerência interna, será aceito como verossímil até mesmo aquilo que nos foge a concepção de veracidade. Com isso, não é apenas a fidelidade ao real que confere verossimilhança a um romance, pois os critérios estéticos escolhidos pelo escritor é, antes de tudo, o que define o grau de verdade.

Estabelecidos os pontos de partida do nosso trabalho, passaremos ao tema central da pesquisa, que é discutir os traços românticos na composição do personagem Brás Cubas. Vale

lembrar que não pretendemos, com isso, classificar o personagem em discussão como romântico

e tampouco por em duvida o caráter realista que norteia sua composição. Limitar-nos-emos a discussão da presença de traços românticos em sua composição.

TRAÇOS ROMÂNTICOS EM BRÁS CUBAS

Apesar de narrado em primeira pessoa, o livro Memórias Póstumas de Brás Cubas possui um narrador onisciente, uma vez que este “não pertence ao mundo dos vivos.”. O narrador- personagem Brás Cubas decide, após sua morte, escrever suas memórias e relatar os acontecimentos de sua vida, mas adota um percurso livre de encadeamento das cenas descritas, começando, inclusive, pela morte. As marcas temporais são organizadas sobre a ótica do narrador que através da memória vai relatando acontecimentos e fazendo comentários ao longo da narrativa. O texto, repleto de digressões analépticas e prolépticas antecipa, prolonga e, por

vezes, retoma acontecimentos subordinados à memória do narrador projetado na personagem Brás Cubas. Lembrando as observações de Reis e Lopes (1988) percebe-se que se trata de uma narrativa ulterior.

Assim o narrador das Memórias, nos fala do “além túmulo” com a autoridade de quem já se encontra livre das convenções e tabus do mundo dos homens, dando assim a impressão de onisciência, mesmo em um narrador autodiegético. Machado parece ter consciência do caráter inovador de sua obra e da estranheza que esta poderia causar no leitor, fato que contribui para a caracterização do leitor como narratário no romance. Está idéia se confirma na medida em que o narrador por vezes estabelece um diálogo com o leitor, caracterizado ironicamente como uma figura feminina afetada pelas convenções românticas da época. O narrador parece não se importar com as impressões que o leitor terá com a leitura. O resultado é a ironia comentada há pouco: “se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se não te agradar pago-te com um piparote, e adeus.”(ASSIS, 2007, p. 16).

Dado a inusitada posição do foco narrativo, é necessário estabelecer um pacto entre leitor e narrador, pacto este que se dá sem grande prejuízo, dado a coerência da composição da trama, e também, segundo Roberto Schwarz (2000), a condição de “defunto autor” não desmancha a verossimilhança, apesar de desrespeitá-la. Brás não busca afirmar outro mundo, mas sim discutir aspectos da realidade a qual pertenceu. O romance possui uma forma biográfica que foca vida de Brás. Este personagem é brasileiro, rico, descompromissado com o trabalho e repleto de aspirações pessoais como, por exemplo, os estudos na Europa, os amores, as ambições políticas, as veleidades literárias e filosóficas, entre outros anseios. Suas ações encontram-se subordinadas ao capricho de sua ordem social, cuja marca do privilegio de classe está presente em muitos momentos. Ao marcar a inconstância da personagem e transformar as finalidades mestras do universo burguês em meros caprichos, o livro promove uma discussão dos valores vigentes na sociedade oitocentista, configurando-se de certa forma em uma crítica a essas convenções.

Nosso objetivo é evidenciar no interior do texto os momentos em que o narrador utiliza-se dos aspectos românticos da personagem Brás Cubas para ironizar a ingenuidade das convenções burguesas, uma vez que a personagem é analisada por um defunto-narrador, cujas impressões são

sempre construídas por uma visão realista. Este percurso dicotômico provoca no narrador uma postura irônica diante dos acontecimentos que narra, com a intenção explícita de desqualificar o convencionalismo da classe dominante. Assim, o narrador incorpora a figura do herói-irônico, cujo discurso se reveste de grande ironia.

Antes de prosseguirmos com a discussão, é necessário mencionar alguns aspectos acerca da ironia em Machado de Assis, e enquanto conceito de figura de retórica. Segundo Massaud Moisés (1974), o vocábulo ironia, derivado do grego eironéia, originalmente designava a arte de interrogar no intuito de provocar o surgimento das idéias. Assim a praticou Sócrates, que quando interrogado, ao invés de responder ao interlocutor adotava postura dissimulada simulando ignorância e propondo-lhe questões aparentemente ingênuas, buscando confundi-lo, mostrando- lhe assim a fragilidade de suas opiniões e raciocínio. Com isso surge o conceito de ironia socrática, que adquiriu certa conotação satírica, uma vez que ao denunciar as fragilidades das opiniões o filósofo ridicularizava seus adversários. Contudo, entre os discípulos de Sócrates, a ironia representava um instrumento de ampliação das consciências, contribuindo assim para o aperfeiçoamento do conhecimento humano.

Com o Romantismo, o termo ironia passa a ser designado, também, como categoria literária, tornando-se um conceito crítico em cujo escritor toma maior consciência do papel de sua obra. Dessa forma o texto irônico traz em si os elementos que permite revelar truques da ficção e romper com ilusões, possibilitando com isso um distanciamento crítico promovido pelo diálogo entre obra e leitor que esse tipo de texto promove. Em sua tese de doutorado, Andréia Perrot (2007) afirma que:

A escrita irônica provoca um deslocamento entre real e imaginário, ou seja, eles se confundem, na medida em que autor e leitor identificam, na obra de arte, todo o processo de construção da mesma, todo o seu caráter ficcional. Revela-se, assim, toda a intencionalidade do autor que, nesse caso, apresenta-se como um observador severamente crítico de si, de sua obra e do mundo. A ironia representa, portanto, a consciência máxima do ironista e a conseqüente suspensão da ilusão criada pela obra de arte. (PERROT, 2007, p. 66)

Com o decorrer dos tempos a ironia vincula-se a denominação de figura de pensamento e de palavra, cuja definição mais simples consistiria em dizer algo querendo significar outro. Assim o conteúdo exposto tende a diferenciar-se do pensamento que o elabora, pensamento este que por

sua vez deixa-se entrever através do discurso. Lembrando Massaud Moisés (1974), verifica-se que a ironia estaria situada entre duas formas de pensamento, sendo assim capaz de aproximá-los. Posta no limite entre duas realidades, a ironia seria precisamente a noção de balanço e sustentação do ponto de vista básico da estrutura. Dessa forma emerge da estrutura textual um discurso ambíguo que acaba por gerar certa “perturbação” no interlocutor, exigindo deste uma atenção redobrada diante dos fatos que se apresentam. Segundo o crítico, essa perturbação dá-se por um viés humorístico, que apesar de se caracterizar pela agudeza crítica, não visa apenas destruir, quer também, ao contrapor diferentes realidades, apontar para uma nova concepção face às convenções burguesas oitocentistas.

Podemos dizer que Memórias Póstumas de Brás Cubas apresenta essa duplicidade discursiva. A postura irônica do narrador das memórias contribui para um sentido ambíguo, dando a entender que o mesmo muitas vezes está mentido e dissimulando seu discurso. Através do dialogo narrador e leitor, são postas em questão as estéticas romântica e realista, cujo discurso parece embaralhá-las deixando o leitor em estado de tensão. Dessa forma, a ironia pode ser a chave para a interpretação da obra, que, contrapondo valores distintos, parece apontar, por meio do diálogo narrador e narrátario.

Feitas essas observações, doravante tentaremos evidenciar os momentos em que o narrador da obra em questão evidencia os aspectos românticos da personagem Brás, ironizando em alguns momentos o convencionalismo burguês.

BRÁS CUBAS: UMA PERSONAGEM EM TRANSIÇÃO

Como já mencionado a narrativa tem um encadeamento temporal inusitado: começa a partir da morte do personagem central. Esta é descrita com minúcias: ocorreu em uma sexta- feira chuvosa do mês de agosto de 1869, em sua chácara. Homem rico, experimentado na Europa onde se bacharelou em direito, Brás Cubas pertence a “boa família” carioca representada pela alta sociedade oitocentista. Ao falecer, solteiro com sessenta e quatro anos “rígidos e prósperos”, Brás é acompanhado ao cemitério por onze amigos. Um dos presentes discursa em homenagem ao

morto, proferindo ao pé da cova de Brás um discurso carregado de louvores.

Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de uns dos mais belos caracteres que têm honrado a Humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem com crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói a Natureza as mais intimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado. (ASSIS, 2007, p.17-

18)

Têm-se aqui um exemplo da ironia que perpassa a obra, pois o narrador faz o seguinte comentário ao fim do relato: “bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei.” (ASSIS, 2007, p.18). Com este comentário o narrador deixa evidente o tom irônico que permeará a obra. Podemos dizer que é a visão irônica do narrador que contempla as ações da personagem. Este deixou apólices ao amigo, mas aqui, quem justifica a ação é a ironia do narrador que valida a ação não pela amizade e dedicação do palestrante fúnebre, mas pela

existência do discurso em muito repleto de clichês e convenções da época. É a auto-análise irônica do narrador que revela a fragilidade do relato. Se aqui, mesmo ironicamente, o narrador valida as ações da personagem Brás Cubas, em outros momentos da narrativa suas ações são expostas como ingênuas e, por vezes, decorrentes da falha de caráter que o narrador faz questão

de

evidenciar na personagem.

Com este procedimento narrativo, o discurso desvela a fragilidade moral da personagem.

O

narrador ri de si mesmo ao relatar a sua vida. Ironiza suas próprias atitudes e a das demais

personagens ao revelar, enquanto membro de uma sociedade, a diluição dos valores morais e éticos ao final do século XIX no Rio de Janeiro. Sabemos que este comportamento discursivo demanda uma reflexão mais detalhada e, inclusive, a discussão de aspectos sociológicos inerentes a organização social e política do Brasil neste período histórico. Ao relatar a causa da morte da personagem, o narrador faz o seguinte comentário:

Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma idéia grandiosa e útil, a causa da minha morte, é possível que o leitor não me creia, e, todavia é verdade. (ASSIS, 2007, p. 19)

A personagem é movida por um ideal utópico “invenção de um medicamento sublime” que traria alivio a “nossa melancólica Humanidade”. Da mesma sorte ao lado da utopia surge o mecanismo irônico, pois o narrador faz questão de evidenciar “todavia, não neguei aos amigos as

vantagens pecuniárias que deviam resultar da distribuição de um produto de tamanhos e tão profundos efeitos”. Brás almeja a glória, alimentando o desejo de ver seu nome impresso nos jornais, fato que estabelece a adoção do duplo e a presença do duplo como construção dos elementos descritos ao longo da trajetória do personagem. A ingenuidade da utopia, nesse sentido, é motivo de riso aos olhos do narrador e, conseqüentemente, leva o leitor a desconfiar da bondade inata e legitimidade das ações da personagem.

Esta “legitimidade das ações”, muitas vezes, entendida como percurso honrado e eticamente aceitável é um dos pressupostos no delineamento da personagem romântica. Brás Cubas parece adotar posturas românticas em nível de organização de ações enquanto personagem, porém o narrador irônico e, por vezes sarcástico, faz questão de evidenciar a fragilidade das convicções morais de Brás Cubas.

Assim a minha idéia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, a outra para mim. De um lado filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos amor da glória. (ASSI, 2007, p. 19)

Brás Cubas ao trazer em si um ideal de bondade humana aliada ao capital aproxima alguns valores muito presentes na estética romântica ao viés irônico que caracteriza o percurso realista. O ideal utópico do Emplasto Brás Cubas pode ser entendido metonimicamente como evidência de que a personagem carrega em si aspectos românticos, mas estes são diluídos pelo olhar cético do narrador que, constantemente, evidencia a fragilidade do ideal e da moral da personagem. A infância de Brás com suas travessuras de menino criado a solta com todos os privilégios, o primeiro beijo, o amor por Marcela seriam exemplos desse personagem romântico que as duras penas será marcado pelo meio e levado ao ceticismo ao longo de sua trajetória. “[ ] Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos.” (ASSIS, 2007, p.

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A observação monetária associada ao termo “amou-me” dá a dimensão do que propomos enquanto mecanismo de leitura. É a intervenção do narrador que retira do termo “amor” sua pureza ao atribuir valores monetários ao relacionamento de Brás. E, neste percurso, expõe a fragilidade do amor puro preconizado pelo ideal romântico. Este é corrompido pelo interesse financeiro de Marcela e, mais que isso, motivado pela ingenuidade do jovem Brás Cubas.

Brás deixa a tristeza que o envolvia após a morte da mãe e da noiva, últimas ilusões do personagem, reiteradas ironicamente no encontro com Quincas Borba, no qual o amigo rouba-lhe

o relógio. O fim das ilusões conduz ao sonho do emplastro e a compreensão da política de das

mulheres, ambos frustrados. A rápida mudança de conduta da personagem demonstra logo de inicio a volubilidade que a marcará durante a obra. Brás troca a morbidez pelo ideal de gloria conseguido, segundo o personagem, com a confecção do emplastro. Em outros termos, a flor da

melancolia dá lugar à flor do interesse, metaforizada ironicamente na presença da “flor da moita”

e em sua altivez irônica ao final do romance. O narrador parece insinuar interesse de Brás por

Eugênia, mas esta impressão é desfeita mais tarde com o reencontro das personagens. Eugênia procura manter certa distancia de Brás. Sua postura é firme e altiva, apesar de sua condição social

inferior.

A moça dá provas de sua condição simples, realçando assim as diferenças sociais e, ao mesmo tempo, reitera sua dignidade, uma vez que não busca impressionar Brás com ornamento algum. Os dois vivem alguns momentos de felicidade no campo e o episodio parece caminhar para um desfecho comum a literatura romântica da época: o casamento motivado por um amor casto que supera todas as adversidades: diferenças sociais e a deficiência física de Eugênia. Porém o narrador deixa claro que apesar do afeto de Brás não desposará a jovem que compreende seu papel na sociedade e resigna-se a condição que lhe é imposta, porém sem perder a dignidade.

Com isso, é negado o desfecho romântico ao par Eugênia e Brás Cubas, pois Machado parece ter consciência que tal desfecho destoaria muito de uma realidade marcada pelo privilégio de classes. O narrador das Memórias dirige-se ao narratário, deixando claro o processo de transformação de Brás Cubas em direção ao ceticismo e a ironia “não havia ali a atmosfera somente da águia e do beija-flor; havia também a da lesma e do sapo.” (ASSIS, 2007, p.75). Lembrando Schwarz (2000), na metáfora da “flor da moita” Brás deixa para trás Eugênia como deixara a melancolia da morte da mãe e a ingenuidade do amor de Marcela.

Brás gravita às margens de seus anseios, não consegue cumprir os desejos paternos de glória e reconhecimento social e tem em Lobo Neves o antagonista que lhe rouba uma a uma as glorias sociais. Não alcança o sucesso político, não se casa com Virgínia e mergulha em uma

crise existencial em muito romântica, posto que motivada pela entrega ao sentimento de ruína dos últimos capítulos, nos quais, a idéia de morte toma conta da narrativa.

Entregue a imaginação e a sonhar com um amor puro e casto, um casamento com uma mulher adorável e um filho, Brás reencontra os ideais românticos, mas este encontro é conduzido pelo narrador, portanto, é resultado da ironia e do percurso dialógico. Uma vida feliz em comunhão com a natureza, fugindo assim das aventuras torrenciais da vida é vedada ao personagem, porém, é o narrador que aponta para a ingenuidade contida nessa busca.

Podemos dizer, pensando nas colocações feitas até este momento do trabalho, que pautado em uma visão realista o narrador assume um posicionamento crítico em relação ao meio social no qual está inserido. Contudo, o personagem Brás Cubas é ambíguo dentro do romance, pois é através dele que o narrador expõe a ingenuidade do universo burguês. É uma grande ironia dizer que Brás Cubas é romântico, mas o é se pensarmos na necessidade de exposição da fragilidade dos ideais burgueses e, neste contexto, figura as representações românticas na construção do personagem Brás Cubas.

Cientes das várias possibilidades de leitura da obra em questão, assim como dos limites do presente trabalho, nosso objetivo foi evidenciar aqui os momentos em que o comportamento da personagem Brás reflete os valores românticos. Fugindo a qualquer intenção classificatória, procuramos discutir os momentos cujas atitudes de Brás revelam traços presentes nas personagens românticas, o que demonstra a permanência de alguns recursos românticos na composição da obra realista de Machado de Assis.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Acreditamos que a pesquisa promoveu reflexões capazes de demonstrar a permanência de alguns recursos da estética romântica na personagem Brás Cubas. Pensamos também que nossa postura permitiu compreender o romance como uma obra heterogênea dentro da fase realista do escritor. Demonstramos que em determinados momentos do livro existem pontos confluentes entre o Realismo e o Romantismo, sobretudo no que diz respeito ao delineamento da personagem

Brás cubas no romance.

AGRADECIMENTOS

Agradecemos à Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul pela concessão de uma

bolsa de Iniciação Científica no período de agosto de 2008 a agosto de 2009, sem a qual o

desenvolvimento deste trabalho ficaria comprometido.

REFERÊNCIAS

ASSIS, Machado de. Obras completas: o conto. Rio de Janeiro: Aguilar, 1962.

CANDIDO. A. O personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 2007.

GUINSBURG, J. (org.) O Romantismo. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 2002.

MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. 1 ed. São Paulo: Cultrix, 1974.

PACHECO, João. O realismo. São Paulo. 1968.

PERROT, A. Grzarnobay. Machado de Assis e a Ironia: estilo e visão de mundo. Tese de doutorado em Letras, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2006.

REIS, C.; LOPES, M. C. A. Dicionário de teoria da narrativa. São Paulo: Ática, 1988.

PICCHIO, Luciana Stegagno. História da literatura brasileira. 1 ed. Rio de Janeiro: Nova Aguillar, 1997.

SCHWARZ, R. Um mestre na periferia do capitalismo. 4 ed. São Paulo: Duas Cidades, 2000.