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ALETHEIA

Revista de Psicologia

o N 26 - Jul./Dez. 2007 ISSN 1413-0394 Presidente Delmar Stahnke Vice-Presidente João Rosado Maldonado
o
N
26 - Jul./Dez. 2007
ISSN 1413-0394
Presidente
Delmar Stahnke
Vice-Presidente
João Rosado Maldonado
Reitor
Ruben Eugen Becker
Vice-Reitor
Leandro Eugênio Becker
Pró-Reitor de Administração
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Pró-Reitor de Graduação da Unidade Canoas
Nestor Luiz João Beck
Pró-Reitor das Unidades Externas
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Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação
Edmundo Kanan Marques
Pró-Reitor de Desenvolvimento Institucional e Comunitário
Jairo Jorge da Silva
Pró-Reitora de Ensino a Distância
Sirlei Dias Gomes
Conselho Editorial
Dra. Ana Maria Benevides Pereira (UEM, Maringá/BR)
Dra. Ana Maria Jacó-Vilela (UERJ, Rio de Janeiro/BR)
Dra. Antonieta Pepe Nakamura (ULBRA, Canoas/BR)
Dr. Carlos Amaral Dias (ISMT/Lisboa/PT)
Dra. Dóris Vasconcelos Salençon (Sorbone, Paris/FR)
Dr. Eduardo A. Remor (UAM, Madrid/ES)
Dr. Francisco Martins (UnB, Brasília/BR)
Dr. Hugo Alberto Lupiañez (UDA, Mendoza/AR)
Dra. Isabel Arend (UG, Bangor/UK)
Dr. João Carlos Alchieri (UFRN, Natal/BR)
Dr. Jorge Béria (ULBRA, Canoas/BR)
Dr. Jorge Castellá Sarriera (UFRGS, Porto Alegre/BR)
Dr. José Carlos Zanelli (UFSC, Florianópolis/SC)
Dra. Jussara Maria Körbes (ULBRA, Canoas/BR)
Dra. Maria Lúcia Tiellet Nunes (PUCRS, Porto Alegre/BR)
Dra. Maria Inês Gasparetto Higuchi (CEULM, Manaus, BR)
Dra. Marília Veríssimo Veronese (UNISINOS, São Leopoldo/RS)
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Dr. Ramón Arce (USC, Santiago de Compostela/ES)
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Dra. Rita de Cassia Petrarca Teixeira (ULBRA Gravataí/BR)
Dr. Vicente Caballo (UG, Granada/ES)
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ALETHEIA
Revista de Psicologia da ULBRA
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ISSN 1981-1330
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(BIREME); IBSS; PsycINFO (APA); PePSIC; Latindex; CLASE Editora Profª. Dra. Mary Sandra Carlotto Editores

Editora Profª. Dra. Mary Sandra Carlotto

Editores Associados Prof. Dr. Mauro Magalhães Profª Dra. Sheila Gonçalves Câmara

Apoio Editorial Profa. Dra. Tânia Rudnicki Profa. Dra. Lígia Braun Shermann

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Matérias assinadas são de responsabilidade dos autores. Direitos autorais reservados. Citação parcial permitida, com referência à fonte.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP

A372

Aletheia / Universidade Luterana do Brasil. - N. 1

(jan./jun. 1995)- v. ; 27cm.

. - Canoas : Ed. ULBRA, 1995.

Semestral

ISSN 1413-0394

1. Psicologia - periódicos. I. Universidade Luterana do Brasil

CDU 159.9(05)

Setor de Processamento Técnico da Biblioteca Martinho Lutero

Aletheia REVISTA DE PSICOLOGIA DA ULBRA Consultores 2007 Adelma do Socorro Gonçalves Pimentel Universidade Federal

Aletheia

REVISTA DE PSICOLOGIA DA ULBRA

Consultores 2007

Adelma do Socorro Gonçalves Pimentel Universidade Federal do Pará (UFPA)

Adriana Leônidas de Oliveira Universidade de Taubaté (UNITAU)

Adriane Vieira Centro de Gestão Empresarial (FEAD)

Adriano Furtado Holanda Faculdade Alvorada – Brasília Instituto de Educação Superior de Brasília (IESB)

Alice Maggi Universidade de Caxias do Sul (UCS)

AnaAlayde Werba Saldanha Universidade Federal da Paraíba (UFPA)

Ana Cristina Limongi Universidade de São Paulo (USP) Ana Raquel Lucato Cianflone Universidade de São Paulo (USP)

Ana Raquel Rosas Torres Universidade Católica de Goiás (UCG)

Angela Maria Dias Fernandes Universidade Federal da Paraíba (UFPB)

Angela Maria Pires Caniato Universidade Estadual de Maringá (UEM)

Antonio de Pádua Serafim Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina (HCFMUSP) Universidade Camilo Castelo Branco (UNICASTELO)

Antonio Augusto Pinto Junior Centro Universitário Salesiano de São Paulo

Armando Ribeiro das Neves Netto Pontifícia Universidade Católica de São Paulo/Campinas (PUC Campinas)

Benilton Carlos Bezerra Junior Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

Cesar Augusto Piccinini Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Daniela Centenaro Levandowski Faculdades de Taquara (FACCAT)

Edson Luiz André de Sousa Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Esther Maria de Magalhães Arantes Pontífica Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUCRJ)

Fani Malerbi Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP)

Gabriela Casellato Brown Ferreira Santos Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP)

Giselle Dupas Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR)

Hilda Clotilde Penteado Morana Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (FMUSP)

Isabel Cristina de Moura Carvalho Universidade Luterana do Brasil (ULBRA Canoas)

Isabel Cristina Gomes Universidade de São Paulo (USP)

João Carlos Alchieri Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

JoséAugusto Evangelho Hernandez Faculdades São Judas Tadeu (FSJT)

Jorge Castellá Sarriera Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Jorge Umberto Béria Universidade Luterana do Brasil (ULBRA Canoas)

Junia de Vilhena Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUCRJ)

Leila Maria Amaral Ribeiro Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UERJ)

Liana Fortunato Costa Universidade de Brasília (UnB)

Lisiane Bizarro Araujo Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Luciana Petrucci Gigante Universidade Luterana do Brasil (ULBRA Canoas)

Luciane Maria Schlindwein Universidade Vale do Itajaí (UNIVALI)

Lygia Santa Maria Ayres Universidade Federal Fluminense (UFF)

Marcela Casacio Ferreira-Teixeira Faculdade de Jaguariúna (FAJ)

Márcia Stengel Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas)

Marcos AlencarAbaide Balbinotti Universite de Sherbrooke – Quebec/Canadá

Marcos Maestri Universidade Estadual de Maringá (UEM)

Maria Alice Lustosa Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

MariaAparecida Crepaldi Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Maria Cristina Poli Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Maria Elizabeth Barros de Barros Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

Maria de Lourdes Merighi Tabaquim Universidade do Sagrado Coração (USC)

Maria Leonor Espinosa Enéas Universidade Presbiteriana Mackenzie

Maria Lucia Tiellet Nunes Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)

Maria Lucia Toledo MoraesAmiralian Universidade de São Paulo (USP)

Maria Piedad Rangel Meneses Universidade Luterana do Brasil (ULBRA Canoas)

Maria Salete Lopes Legname de Paulo Universidade de São Paulo (USP)

Marília Veronese Universidade Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS)

Marilza Bertassoni Alves Faculdade Evangélica do Paraná – FEPAR

Makilim Nunes Baptista Universidade São Francisco (USF/Itatiba)

Miguel Roberto Jorge Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)

Nilson Gomes Vieira Filho Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

Nilton Cesar Barbosa Centro Universitário do Triângulo (UNITRI/MG)

Pericles Saremba Vieira Universidade de Passo Fundo (UPF)

Rosane Mantilla de Souza Pontifica Universidade Católica de São Paulo (PUCSP)

Rute Grossi Milani Centro de Ensino Superior de Maringá (CESUMAR)

Sheila Regina de Camargo Martins Universidade Estadual de Maringá (UEM)

Stella Maria Poletti Simionato Tozo Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUCMG)

Tereza Cristina Cavalcanti Ferreira de Araújo Universidade de Brasília (UnB)

Terezinha Moreira Lima Universidade Estadual do Maranhão (UEMA)

Valquiria Aparecida Cintra Tricoli Universidade Católica Dom Bosco (UCDB)

Aletheia, Revista semestral editada pelo Curso de Psicologia da Universidade Luterana do Brasil, publica artigos originais, relacionados à Psicologia, pertencentes às seguintes categorias:

artigos de pesquisa, artigos de atualização, resenhas e comunicações. Os artigos são de respon- sabilidade exclusiva dos autores e as opiniões e julgamentos neles contidos não expressam necessariamente o pensamento dos Editores ou Conselho Editorial

o pensamento dos Editores ou Conselho Editorial Sumário 7 Editorial Artigos de atualização 11

Sumário

7

Editorial

Artigos de atualização

11

Armadilhas do multiculturalismo: análise psicossocial da integração à francesa dos estrangeiros Traps of multiculturalism: Sociopsychological analysis on the french way of foreigners integration Toshiaki Kozakai, Rafael Pecly Wolter

27

Avaliação de desempenho como um instrumento de poder na gestão de pessoas Performance evaluation systems as power instrument in the human resources management Patrícia Bento Gonçalves Philadelpho, Kátia Barbosa Macêdo

41

Emergência e conexionismo como hipóteses suplementares ao Entwurf einer Psychologie de Freud Emergency and connectionism like supplementary hypothesis in Freud Entwurf einer Psychology André Sathler Guimarães

50

A identidade como grupo, o grupo como identidade The identity as group, the group as identity Claudio Garcia Capitão, José Roberto Heloani

62

Estados de identidade: uma análise da nomenclatura Identity states: Analyzes of the terms Maria Aznar-Farias, Teresa Helena Schoen-Ferreira

67

Teoria do apego: elementos para uma concepção sistêmica da vinculação humana Attachment Theory: Elements for a systematic conception of human bonding Fernando Augusto Ramos Pontes, Simone Souza da Costa Silva, Marilice Garotti, Celina Maria Colino Magalhães

80

Psicologia social da saúde: tornamo-nos eternamente responsáveis por aqueles que cativamos Social health psychology: We become responsible, forever, for those we have tamed Adriane Roso

Artigos de pesquisa

95

Vínculo parental e rede de apoio social: relação com a sintomatologia depressiva na adolescência Parental bonding and social support: Relation with depressives symptoms on adolescence Ana Cláudia Nuhlmann Schneider, Vera Regina Röhnelt Ramires

109

Famílias com casais de dupla carreira e filhos em idade escolar: estudo de casos Dual-Career marriage in families with scool-age children: Study cases Nadir Helena Sanchotene de Souza, Adriana Wagner, Bianca de Moraes Branco, Claudete Bonatto Reichert

122

Perspectivas no estudo do brincar: um levantamento bibliográfico Perspectives in the study of play: a bibliographical survey Scheila Tatiana Duarte Cordazzo, Gabriela Dal Forno Martins, Samira Mafioletti Macarini, Mauro Luis Vieira

137

A utilização do Consentimento Informado em psicoterapia: o que pensam psicoterapeutas psicanalíticos The use of the informed consent in psychoanalytic psychotherapy Rita Petrarca Teixeira, Maria Lucia Tiellet Nunes

146

Aprendizagem na ação revisitada e seu papel no desenvolvimento de competências Learning in action revisited and its role in the competences development Claudia Simone Antonello

168

Experiência migratória: encontro consigo mesmo? Percepções de brasileiros sobre sua cultura e mudanças pessoais Migratory experience: Is it a meeting with itself? Brazilians´s perceptions about their culture and personal changes Roberta de Alencar-Rodrigues, Marlene Neves Strey, Janice Pereira

181

Avaliação psicológica, neuropsicológica e recursos em neuroimagem: novas perspectivas em saúde mental Psychological assessment, neuropsychological assessment and neuroimage resources: New perspectives in mental health Carolina Vieira, Eliane da Silva Moreira Fay, Lucas Neiva-Silva

Relato de experiência

196

O trabalho do psicólogo na mediação de conflitos familiares: reflexões com base na experiência do serviço de mediação familiar em Santa Catarina The psychologist’s work in family conflict mediation: Reflections based on the experience of the family mediation service in Santa Catarina Fernanda Graudenz Müller, Adriano Beiras, Roberto Moraes Cruz

Resenha

210

O banqueiro dos pobres Banker to the poor Adriana Weber

214

Instruções aos autores

Editorial

A complexidade que se revela na atualidade nos convoca a pensar sobre o papel

da ciência na vida cotidiana. Possivelmente, a complexidade que vivemos seja uma nova maneira de compreender o mundo que se inventa e reinventa de acordo com a cor

da lente com a qual o vemos. A lente da complexidade, da busca pela compreensão dos fenômenos que vivemos, possivelmente, é uma lente que nós, pesquisadores, produtores de conhecimento científico, utilizamos. Não é a mesma das vivências cotidianas, em que o mundo se torna mais real a partir de uma série de regularidades, percebidas pelas pessoas como realidade. No campo da vida cotidiana, importa o preço do pão, a duração do período de chuvas, o atraso do ônibus, a falta de professores na escola e profissionais no posto de saúde, etc.

O cotidiano, portanto, com sua irrefutável realidade, propõe aos pesquisadores

um grande desafio. O desafio de fazer de nossa lente algo que contribua efetivamente para a vida cotidiana. Os artigos presentes nesta edição da revista Aletheia formam um mosaico de formas de pensar, de compreender e avaliar distintos fenômenos da realidade. É o caso das reflexões sobre a identidade, como nos artigos Estados de identidade: uma análise da nomenclatura, de Maria Aznar-Farias e Teresa Helena Schoen-Ferreira e A identidade como grupo, o grupo como identidade, de Claudio Capitão e Roberto Heloani. Ambos

abordam a construção de um “si mesmo” no grupo e no mundo em que vivemos. Nesse mundo de identidades provisórias, os artigos Experiência migratória:

encontro consigo mesmo? Percepções de brasileiros sobre sua cultura e mudanças

pessoais, de Roberta de Alencar-Rodrigues, Marlene Neves Strey e Janice Pereira, e Armadilhas do multiculturalismo: análise psicossocial da integração à francesa dos estrangeiros, de Toshiaki Kozakai e Rafael Pecly Wolter, abordam as dificuldades reais experimentadas por aqueles que, em um mundo globalizado, enfrentam em terra estrangeira o confronto de identidades.

O artigo Psicologia social da saúde: tornamo-nos eternamente responsáveis por

aqueles que cativamos, de Adriane Roso, chama-nos ao compromisso social como profissionais da saúde e seres políticos. Isso se reflete também no artigo Avaliação psicológica, neuropsicológica e recursos em neuroimagem: novas perspectivas em saúde mental, de Carolina Vieira, Eliane da Silva Moreira Fay e Lucas Neiva-Silva, que abordam as possibilidades tecnológicas atuais como um recurso real e possível no campo da saúde mental. Nesse mesmo sentido, o artigo A utilização do TCLE em psicoterapia: o que

pensam psicoterapeutas psicanalíticos, de Rita Petrarca Teixeira e Maria Lucia Tiellet Nunes, reflete sobre a prática do psicólogo clínico e os procedimentos éticos.

A preocupação pela infância também se manifesta como um compromisso da

Psicologia, revelando uma série de abordagens direcionadas à qualidade de vida nesse período crucial do desenvolvimento humano: Teoria do Apego: elementos para uma concepção sistêmica da vinculação humana, de Fernando Augusto Ramos Pontes, Simone Souza da Costa Silva, Marilice Garotti e Celina Maria Colino Magalhães;

Perspectivas no estudo do brincar: um levantamento bibliográfico, de Scheila Tatiana

Duarte Cordazzo, Gabriela Dal Forno Martins, Samira Mafioletti Macarini e Mauro Luis Vieir; Famílias com casais de dupla carreira e filhos em idade escolar: estudo de casos, de Nadir Helena Sanchotene de Souza, Adriana Wagner, Bianca de Moraes Branco e Claudete Bonatto Reichert, e Vínculo parental e rede de apoio e social:

relação com a sintomatologia depressiva na adolescência, de Ana Cláudia Nuhlmann Schneider e Vera Regina Röhnelt Ramires. O campo do desenvolvimento humano é também o foco dos artigos Aprendizagem na ação revisitada e seu papel no desenvolvimento de competências, de Claudia Simone Antonello, e Avaliação de desempenho como um instrumento de poder na gestão de pessoas, de Patrícia Bento Gonçalves Philadelpho e Kátia Barbosa Macedo.

O artigo Emergência e conexionismo como hipóteses suplementares ao Entwurf

einer Psychologie de Freud, de André Sathler Guimarães, traz novos elementos para a compreensão das mudanças no pensamento freudiano em termos de um Projeto de Psicologia. Por fim, o relato de experiência O trabalho do psicólogo na mediação de conflitos familiares: reflexões com base na experiência do serviço de mediação familiar em Santa Catarina, de Fernanda Graudenz Müller, Adriano Beiras e Roberto Moraes Cruz,

mostra a importância da atuação da Psicologia na vida cotidiana.

O presente número termina com a resenha do livro O banqueiro dos pobres,

realizada por Adriana Weber. Esta resenha aponta as múltiplas possibilidades do ser

humano e a possibilidade de mudança social quando alguém coloca sobre o outro um olhar de esperança e dignidade. Diante dessa diversidade de temas, olhares e lentes, nossa tarefa agora é propiciar que os artigos aqui publicados ganhem, maravilhosamente, asas e saiam do papel, indo pousar nos recônditos mais indecifráveis da vida cotidiana, onde o psicólogo seja mais um agente fundamental no processo de mudança. Terminamos esse editorial com um escrito de Jorge Debravo, poeta porto- riquenho, meses antes de sua morte em 1967, aos 29 anos. Naquele momento, o poeta já nos convocava a nossa responsabilidade enquanto produtores de saber.

“Nos tocou viver uma época maravilhosa em uma terra maravilhosa. Uma época de transformação em um continente em transformação. Em nossas mãos temos o destino do mundo ( Somos os donos do futuro. Mas carregamos sobre nossas consciências uma responsabilidade terrível. A honestidade e a honradez não devem ser em nós uma virtude: devem ser nossa própria essência. Temos que escolher um caminho. De nós depende o destino do homem. Todos os povos do mundo carregam sobre si responsabilidades terríveis. Mas a do nosso é maior, por ser um povo jovem, Que bate, agora, precisamente às portas do futuro. Não podemos seguir sendo toda a vida um povo de mendigos. Não devemos ser. Não temos porquê ser. Todo o homem é responsável pelo destino do mundo. Da mesma forma o intelectual e o obreiro. Mas nós, escritores, carregamos uma responsabilidade

maior. Nós podemos inclinar o peso da história para nossa salvação ou nossa derrota. Temos a obrigação de lutar por um melhor destino para o homem. Por um destino maravilhoso. Não nos é permitido sermos observadores ou apenas testemunhas da luta de nossos povos. Em uma época como esta, ser neutro é trair o destino do homem. Não se pode calar agora, nem por conveniência nem por cortesia. Quando se decide, a cada instante, a sorte do homem futuro, calar por conveniência ou cortesia é um crime”.

Mary Sandra Carlotto Editora

Mauro Magalhães Sheila Gonçalves Câmara Editores associados

Aletheia, n.26, p.11-26 jul./dez. 2007 Armadilhas do multiculturalismo: análise psicossocial da integração à francesa

Aletheia, n.26, p.11-26 jul./dez. 2007

Armadilhas do multiculturalismo: análise psicossocial da integração à francesa dos estrangeiros

Toshiaki Kozakai Rafael Pecly Wolter

Resumo: Este artigo propõe um exame crítico do multiculturalismo. Este último está baseado dentro de uma visão errônea da identidade cultural, pois ela é uma caixa vazia onde podemos, em teoria, pôr qualquer conteúdo. A cultura não deve ser vista como uma substância, mas como um conceito relacional. Contudo, o universalismo não está isento de problemas. A própria noção de identidade implica o processo de diferenciação. A forma de integração francesa que não tolera traços das origens cria uma dificuldade estrutural tanto para os estrangeiros que devem abando- nar suas culturas quanto para os autóctones que podem ressentir a assimilação dos estrangeiros como uma intrusão dentro da esfera identitária. Tentaremos ultrapassar os debates atuais em torno do multiculturalismo através do deslocamento da lógica da identidade para a lógica da identificação. Palavras-chave: aculturação, identidade cultural, multiculturalismo, universalismo, França.

Traps of multiculturalism: Sociopsychological analysis on the french way of foreigners integration

Abstract: This article proposes a critical analysis on multiculturalism. The latter is founded on an erroneous vision of cultural identity, which is in fact an empty box susceptible to receive, in theory, any content. Culture should not be considered as a substance but a relational concept. However, universalism has also its own shortcomings. The notion of identity implies in itself a movement of differentiation. The French way of integration that does not allow the trace of origin has a structural difficulty as well for the immigrants who should abandon their culture as for the natives who risk to feel the assimilation of foreigners as an intrusion into their proper identity. We propose to substitute a logic of identification to the logic of identity in order to surpass the current debate on multiculturalism. Key words: Acculturation, cultural identity, multiculturalism, universalism, France.

Introdução

Os fluxos migratórios dos países em desenvolvimento em direção aos países industrializados parecem impossíveis de cessar entre outros por causa da imigração clandestina, dificilmente controlável, mas também devido a crescente necessidade de mão de obra. Entre 1995 e 1998 o número de imigrantes que entrou na França foi de 39000 por ano. A diminuição da taxa de natalidade e o prolongamento da esperança de vida estão transformando a distribuição entre ativos e inativos nas regiões mais desenvolvidas do planeta. Para manter a mesma relação entre ativos e inativos do nível do ano de 1995, será necessário ter um fluxo migratório 60 vezes mais intenso. Na ausência de imigração os franceses terão que trabalhar ate 74 anos se desejarem manter

a mesma relação entre ativos e inativos. Um relatório da ONU (United Nations

Population Division, 2000) estima que a França necessite acolher 32,1 milhões de

imigrantes entre os anos 2000 e 2025, ou seja, uma média de 1,3 milhões por ano, e 60,9 milhões entre 2025-2050 numa média de 2,4 milhões por ano, para não acrescentar mais encargos aos ativos e manter o mesmo nível de vida. Em 2050, a população francesa será de 187 milhões sendo que 128 milhões, o que corresponde a 68%, serão imigrantes

e descendestes de imigrantes que entraram no território francês depois de 1995. Este cenário catastrófico da evolução demográfica é similar em toda Europa. 15 membros da União Européia analisados nesse relatório deverão acolher 701 milhões

de imigrantes não comunitários entre 1995 e 2050, totalizando 12,7 milhões por ano. Se este cenário se confirmar, a população da União Européia ultrapassará 1,2 bilhões de habitantes, sendo que 918 milhões seriam imigrantes e descendestes de imigrantes que se instalaram na Europa depois de 1995. Ademais, os europeus estariam condenados

a trabalhar até 76 anos de idade para preservar a mesma relação entre ativos e inativos

de 1995. Este cenário é um tanto simplista, pois diferentes soluções conjugadas são previstas. O número real de trabalhadores estrangeiros que se instalarão na Europa certamente será inferior a estes prognósticos alarmantes. Mesmo assim esta não deixa de ser preocupante. Segundo um censo realizado pela SOFRES em maio de 2000 (Le monde, 30 de maio de 2000), 59% das pessoas estimavam que “a França tem imigrantes demais”, 47% “não se sentem em casa na França” e 73% consideram que “os valores tradicionais não são suficientemente defendidos na França”. O mal-estar das identidades se expressou de forma clara, e a mesma tendência à crispação das identidades se confirma na pesquisa de opinião pública do CSA feita em 2005 para a Commission nationale consultative des droits de l’homme sur la xénophobie: um em cada três franceses se declara racista; este número sobe para 48% nas regiões rurais; 56% dos pesquisados estimam que os estrangeiros são numerosos demais (Relatório da Comissão Nacional consultativa dos Direitos Humanos, 2005). Este clima de ansiedade interpela os dirigentes políticos, intelectuais e cidadãos sobre a necessidade de revisar a concepção universalista da nação. Frente à percepção de heterogeneidade cada vez mais forte da população francesa, com a constatação da inadequação da máquina republicana para integrar os estrangeiros, sérias interrogações sobre que escolha política adotar estão emergindo. Já faz tempo que se instalou no mundo político e intelectual um enérgico debate. Este debate opõe, de um lado, os que clamam por um multiculturalismo onde se reconhecem publicamente as diferenças de identidade em termos de língua, religião ou cultura, e do outro lado, se encontram os que recusam esta orientação que poderia levar a uma deriva comunitária comparável à dos Estados Unidos, com a imagem dos guetos étnicos isolados uns dos outros. Será necessário, na linhagem herdada da Revolução francesa, construir a nação assimilando os estrangeiros no princípio universalista para transformá-los nos cidadãos de amanhã? Ou será necessário, como nos Estados Unidos e no Canadá, abrir o caminho para o multiculturalismo assumindo publicamente e oficialmente uma variedade de identidades culturais numa mesma nação?

Vários pesquisadores já propuseram reflexões sobre o tema: alguns sublinham a separação entre vida pública e vida privada, reservando assim as particularidades identitárias à esfera privada (Schnapper, 1991); os outros são à favor de um

multiculturalismo refletido que aceita diferenças e particularidades, não somente na esfera privada mas também em certos espaços públicos e semi-públicos, ao mesmo tempo que preserva a unidade dos cidadão em torno de valores universais, recusando desta forma

a segregação comunitária que ocorre no Estados Unidos (Wieviorka, 1997). Este artigo tem como objetivo acrescentar alguns elementos de resposta a esta problemática da identidade cultural ou nacional e da integração de estrangeiros, sob outro ângulo a partir do exame crítico do postulado de base do multiculturalismo. Em vez de buscar um possível caminho para fazer coabitar diferença e unidade, estes dois momentos aparentemente inconciliáveis, é necessário questionar se realmente existe uma contradição básica. Não se trata de chegar a uma solução que seja um meio termo. Como o problema está mal formulado, a solução não pode vir de uma dosagem sutil e equilibrada dos fatores contraditórios, nem da distribuição refletida destes fatores nas distintas esferas.

Necessidade de uma “fechadura identitária” Três conceitos de nacionalidade são conhecidos, pelo menos no que é relativo às suas formas ideais ou ideológicas. Elas se baseiam de forma esquemática: 1) No sangue como na Alemanha; 2) No local de nascimento como nos países americanos; 3) Na vontade de pertencer ao Estado como no caso da França (Dumont, 1991; Schnapper, 1991).

Na medida em que os países americanos se concebem como uma comunidade política constituída por diferentes etnias – essencialmente nos Estados Unidos e Canadá –, cada etnia recebe um verdadeiro estatuto como na Alemanha. Ao contrário a França evitou, ao menos no discurso ideológico, tal hipóstase das etnias desde a Revolução. Por esta razão, a expressão melting pot parece mais adaptada à França que apaga as marcas exteriores que aos Estados Unidos onde as origens exógenas de seus componentes são aceitas no seio da comunidade nacional. Como a comunidade humana compõe um sistema organizado, ela possui certos mecanismos de fechadura, estruturais e funcionais, para manter sua identidade. A noção de identidade implica um movimento de diferenciação que cria o “exterior”. Do ponto de vista conceitual, o fechamento identitário como na Alemanha constitui

a forma mais clara e simples, mesmo se a aplicação completa destes princípios é

complicada: na época da mobilidade das populações e das trocas econômicas intensas, com casamentos internacionais freqüentes, um conceito restrito de nacionalidade tende a criar problemas jurídicos e sociais. Com relação ao conceito multiétnico e multicultural dos Estados-Unidos, os recém chegados são integrados

a uma comunidade “federal” que é como um sistema supra-ordenado. Assim os

imigrantes se integram guardando sua identidade de origem: de certo modo, eles se encontram juridicamente e socialmente no interior da comunidade ao mesmo tempo em que se mantêm fora da comunidade pela identidade. Este método de integração que evita a assimilação brutal parece ser cada vez mais enfatizado por pesquisadores

e associações humanitárias. Contudo, não se deve esquecer o perigo de segregação

comunitária como a que ocorre nos guetos nova-iorquinos, pois este fenômeno está intimamente ligado a uma hipótese, ou seja, uma ficção considerada como real pelos grupos étnicos. Quanto à França, adepta do universalismo, que apaga os vestígios da origem estrangeira dos imigrados, sob que condições a proteção do sistema comunitário e a

segurança identitária são garantidas? Como veremos a seguir, o mecanismo identitário

é inseparável do movimento de diferenciação. O modelo francês de integração que não

tolera a marca de origem deve resguardar uma grande dificuldade no plano identitário tanto para os imigrantes que devem abandonar suas culturas, ao menos parcialmente, quanto para os autóctones que correm o risco de ver a assimilação dos estrangeiros como uma intrusão no interior de sua própria esfera identitária. Faz tempo que a França acolhe imigrantes, muitos cidadãos franceses de hoje em dia são descendentes de imigrantes do século XIX e da primeira metade do século XX. Dezoito milhões de franceses nascidos entre 1880 e 1980, o que representa mais de um terço da população, são descendentes de imigrantes de primeira, segunda ou terceira geração (Frémy & Frémy, 1999). Logo algumas gerações bastam para que estrangeiros se integrem na sociedade francesa e virem integralmente franceses. Mesmo que sob formas diferentes, a França é um país de imigração comparável

aos Estados-Unidos. Como será que evolui a identidade dos estrangeiros? E

consequentemente, para os autóctones, como se sustenta a identidade nacional com

a penetração permanente de elementos exógenos no seio de sua comunidade? Que

mecanismo permite simultaneamente uma mudança e uma preservação da identidade coletiva? Tais são as questões tratadas por este artigo. A luz do mecanismo de “fechadura identitária”, escondido na concepção aberta de nacionalidade francesa, nós buscaremos expor uma nova faceta da integração dos estrangeiros à francesa.

As concepções alemã e francesa da nacionalidade Nos anos 80, dos 40000 turcos nascidos todo ano na Alemanha, em torno de apenas 1000 adquiriram a nacionalidade alemã. No mesmo período na França, dos 30.000 recém-nascidos de origem estrangeira apenas 2000 não obtiveram a nacionalidade francesa (Schnapper, 1991). Geralmente opomos a concepção organicista da nação: Volk, nascida do romantismo alemão tendo em Herder um representante eminente, à concepção contratualista da nação vinda do Iluminismo e da Revolução francesa. Da mesma forma, comparamos o “Discurso à nação alemã” (1807-1808) de Fichte ao “O que é uma nação” (1882) de Renan. Convém ressaltar que a diferença entre estas duas concepções

não é somente a conseqüência de idéias políticas e filosóficas divergentes, mas resulta também de circunstancias históricas concretas. Não poderíamos esquecer que foi sob

a ocupação napoleônica que Fichte pronunciou uma serie de conferências para defender

a cultura e o povo alemão. E foi em reação à Momsen e Strauss que justificavam o anexado da Alsácia-Lorena que Renan enfatizou o princípio de autonomia dos povos (Roman, 1992). Através da longa história de diferentes regimes centralizadores, Absolutismo, revolução, Império e República, a França desenvolveu uma concepção racional,

contratualista, e artificialista da nação, representada acima de tudo como uma comunidade política baseada na vontade de pertença. Inversamente, na Alemanha visto que a centralização do poder demorou, a idéia de nação se constituiu fora das circunstâncias políticas como uma noção essencialmente cultural e étnica. A concepção particularmente aberta de nacionalidade na França não pode ser compreendida sem a consideração das condições demográficas. A população alemã

foi multiplicada por quatro entre as guerras napoleônicas e a Segunda Guerra, enquanto

no mesmo período a população francesa cresceu a metade disto por causa da limitação

dos nascimentos que começou um século antes dos outros países europeus. Este estado demográfico dificultou a resposta à demanda crescente de mão-de-obra feita pelas indústrias que estavam em plena expansão, pois estávamos em plena revolução industrial. A França já estava atrasada em termos de proletarização comparativamente

à Grã-Bretanha, país industrialmente mais avançado, e a penúria se agravou devido às medidas protecionistas da Terceira República que tentava proteger o meio camponês.

A democracia parlamentar se instalou antes das grandes transformações industriais,

embora a necessidade de mão-de-obra para as indústrias fosse grande, os eleitos republicanos, que queriam enraizar o novo regime, se viram obrigados a multiplicar as concessões para erradicar o êxodo rural (Noiriel, 1988). Foi por estas razões que da metade do século XIX até a Segunda Guerra a França diferentemente dos outros países europeus, que enviavam suas populações para o exterior, acolheu imigrantes da Bélgica, Itália, Espanha, Portugal, Polônia, Armênia e África do Norte. O povo alemão ao contrário viveu no temor de um povoamento excessivo. O Estado nunca tentou juntar toda população dispersada nos países vizinhos, Polônia, Tchecoslováquia, Império austro-húngaro. AAlemanha só virou um país de imigração a partir de 1960. Ou seja, a França foi o único país europeu a importar pessoas entre 1850 e 1940. A concepção étnica e culturalista da Alemanha e a concepção assimiladora e universal da França se desenvolveram assim através de condições socioeconômicas distintas (Schnapper, 1991).

Dilema entre multiculturalismo e universalismo Na medida em que o universalismo é baseado na referência a valores individualistas e igualitários, invoca os direitos humanos e preconiza a mistura das pessoas além das fronteiras nacionais e étnicas, ele corre o risco de legitimar a imposição dos valores dominantes às minorias culturais. O colonialismo em nome da missão civilizadora justificou a assimilação dos povos indígenas. Daí vem a reação identitária das populações de origem estrangeira contra uma inclusão desfavorável na hierarquia social da sociedade acolhedora. Nos anos 80, os militantes anti-racismo franceses defenderam o “direito à diferença” como resposta à tendência assimiladora. Mas este respeito das minorias é uma faca de dois gumes. Ao ver a cultura de forma essencialista, se deixa uma margem à ideologia segregacionista do Front National: pois se os estrangeiros são diferentes dos autóctones, eles não podem ser assimilados pela sociedade que os acolhe; então seria lógico e necessário de enviar os estrangeiros inassimiláveis de volta a seus países de origem (Schnapper, 1991; Taguieff, 1987, 1995).

Desta forma, a vontade de defender a identidade minoritária não pôde evitar um beco sem saída lógico. Contrariamente aos países anglo-saxões, o termo “raça” tem uma má reputação na França e quase ninguém ousa usar esta palavra em público, à exceção de algumas esporádicas provocações da extrema-direita. Contudo, a “cultura”, expressão positivamente conotada, tem uma função similar por ser usada como fronteira identitária inamovível (Poutignat & Streif-Fenard, 1995). As expressões como “multicultural”, “multiétnico” ou “crioulidadetornam as culturas e populações essencialistas. Reconhecer a mistura e diversidade de todas as culturas como fato histórico ou objetivo da sociedade a ser construída não constitui uma crítica radical contra a concepção substancialista da cultura e do povo. Falar de mistura já implica a existência de raças, etnias e culturas puras. Não basta insistir na evolução usando formas dinâmicas como “diversificação” ou “crioulização”, pois a própria noção de mistura não pode existir sem supor conceitualmente a existência de estados originais puros, sem mistura. Será realmente um dilema inerente e inevitável e teríamos que buscar uma forma de meio termo, como a adoção do “relativismo relativo” (Schnapper, 1991), para não cair na dupla armadilha do segregacionismo e do assimilacionismo? Wieviorka (1997, p.43), defensor de um multiculturalismo moderado, parece indicar uma via equilibrada entre o universalismo assimilador e o segregacionismo comunitário:

É necessário acabar com as perspectivas maniqueístas que opõem simplesmente

dois registros, o universal e o particular, a República e o multiculturalismo,

desenvolvendo uma imagem cada vez mais abstrata e irrealista do primeiro, e

Redizendo isto, o problema

não está na escolha entre dois termos, entre duas exigências opostas, e sim no fato de aprender ou reaprender a combiná-los [ ]

caricaturando o outro para usá-lo como repelente. [

]

Se fizermos um rodeio e nos interessarmos ao pensamento de Renan (1992) para

tentar encontrar uma pista susceptível de resolver o dilema sob um ângulo diferente, veremos a co-presença destes dois ideais da nação em formas contraditórias. Renan geralmente é visto erroneamente como um adepto da concepção contratualista da

] um

nação por causa da freqüente citação da formula: “A existência de uma nação é [

plebiscito diário” (Renan, 1992, p.55). Na realidade ele não defende totalmente esta concepção política da nação, mas dá muita importância à continuidade com o passado:

Uma nação é uma alma, um princípio espiritual. Duas coisas que, para dizer a verdade, são uma coisa, constituem essa alma, este princípio espiritual. Uma

está no passado, a outra no presente. Uma é possessão em comum de um rico legado de lembranças; o outro é o consentimento atual, o desejo de viver juntos,

a vontade de continuar a fazer prevalecer a herança recebida. O homem, Senhores,

não se improvisa. A nação, como o indivíduo, é o término de um longo passado de esforços, sacrifícios e devotamentos. O culto dos ancestrais é entre todos o

mais legítimo; os ancestrais fizeram de nos o que somos. (Reman, 1992, p. 54)

Ao basear a nação na tradição, Renan se orienta para a direção da concepção étnica que reconhece a particularidade de cada cultura, correndo assim o risco de se

aproximar, nolens volens, do pólo segregacionista ao questionar a fusão das diferentes populações. Ao mesmo tempo, ao conceber a nacionalidade pela vontade, ele reconhece

a universalidade de todos os homens, e tende a flertar com o assimilacionismo,

negligenciando as diferenças culturais. Desta forma encontramos o mesmo dilema

entre universal e multicultural, assimilação e segregação. A posição de Renan apresenta uma contradição interna, na medida em que ela ressalta a necessidade da determinação permanente do presente e simultaneamente a preservação da continuidade com o passado. Se os homens de hoje em dia escolhem conscientemente e se a decisão artificial do “plebiscito diário” intervém no estado da nação, então a continuidade com

o passado deve ser revista. Inversamente, se o presente se produz do passado, tal

decisão consciente já não é necessária. Como Roman (1992), poderíamos explicar esta contradição lógica do texto de Renan, pela aplicação parcial de cada princípio, étnico ou eletivo, multicultural ou universal, em circunstâncias diferentes. Renan invoca a necessidade do consentimento, quando a nação está em debate, para resolver os conflitos e litígios entre Estados, como no exemplo da anexação da Alsácia. Este princípio tem um único valor negativo, pois ele exclui o fato de pertencer sem consentir, não prescrevendo uma determinada pertença: “se houver dúvidas sobre fronteiras, consultem as populações disputadas”

(Renan, 1992, p.56). Ao contrário, Renan se apóia no passado, quando pensa a nação na sua dimensão positiva, como princípio de legitimidade interior. Esta interpretação do texto parece ser correta e sabe-se também que o pensamento de Renan evoluiu consideravelmente da posição crítica contra a imagem moderna do Homem de Rousseau

e da Revolução francesa. Parece-nos justo situar seu pensamento como um produto

transitório, entre as concepções tradicionais e modernas. Contudo, propomos outra hipótese, fora do texto propriamente dito, em relação à problemática do mecanismo de “fechadura identitária, para resolver a contradição entre

esses dois princípios. De fato, o “passado” de Renan é sensivelmente diferente da concepção substancialista da nação, como atesta sem ambigüidade a célebre frase: “o esquecimento,

e até mesmo o erro histórico, são um fator essencial na formação de uma nação, e é assim

que o progresso dos estudos históricos geralmente representa um perigo para uma nação”. Aí se encontra a chave do epílogo e a contradição entre os dois princípios de Renan será resolvida no deslocamento da lógica de identidade para a lógica de identificação.

A fundação imaginária da nação A nação geralmente mantém a crença da filiação, mas essa crença faz parte do registro da ficção social e não da realidade tangível. Quando se forma um sentimento de estar ligado por afiliação, a comunidade política se constitui, e o fato de viver juntos leva ao desenvolvimento progressivo de uma língua, de uma religião e de uma cultura comum. Mas o oposto também é verdadeiro: quando os indivíduos compõem uma comunidade política e se dotam de um destino comum, este corpo político artificialmente construído tem tendência a fabricar à posteriori um mito de filiação através da vida em comum durante gerações. A continuidade étnica é um produto de sucessivas falsificações ideológicas (Weber, 1995).

A nação também não pode ser definida pela continuidade cultural. Os

historiadores mostram com exemplos variados que a “tradição ancestral” é na realidade um produto bastante recente (Hobsbawn & Ranger, 1983). O cristianismo certamente

constitui o núcleo central das culturas européias atuais. Embora, nas suas origens seja uma religião nascida nos desertos do Oriente Médio. O cristianismo está atualmente quase extinto em sua região de origem onde floresce o Islã, outra religião monoteísta.

A cultura evolui sem parar. Desvincular o que é próprio a uma cultura como conteúdo,

purificado de influências estrangeira, é um esforço vão: é como descascar uma cebola, ao tirar todas as peles não sobra nada. Notamos assim que não há contradição, do ponto de vista psicossocial entre os dois pontos de vista de Renan: a introdução da noção de rompimento pelas decisões conscientes e artificiais de um lado e a impressão de continuidade com o passado do outro. Mas se a identidade étnica, nacional e cultural não tem um conteúdo próprio, de onde vem essa impressão de continuidade de uma entidade coletiva mesmo com as constantes mudanças de seus aspetos? Os etnólogos se esforçaram em vão para definir a etnia com vários critérios:

língua, religião, costume, autonomia econômica, estrutura política, proximidade geográfica, nome da etnia, etc. Mas sempre que se tenta classificar os indivíduos a partir de certos critérios, se cai em contradições entre classificações usando critérios diferentes: dois indivíduos podem ser próximos do ponto de vista lingüístico e não pertencer à mesma religião ou fazer parte de organizações econômicas ou políticas

distintas (Poutignat & Streiff-Fenart, 1995). Já que existe um número infinito de critérios de classificação, é impossível categorizar os indivíduos de forma estritamente objetiva. Se quisermos compreender um fenômeno étnico, devemos levar em conta a maneira subjetiva como os indivíduos se distinguem uns dos outros. Ou seja, a etnia não é uma taxonomia objetiva, mas um produto da construção social.

É necessária uma mudança de perspectiva: a identidade étnica não pode ser

compreendida a partir do conteúdo cultural, mas é um fenômeno ligado a construção da fronteira entre os diferentes grupos étnicos (Barth, 1969). É a relação que produz os

termos, e não o contrário. À maneira de Saussure em lingüística, Barth propõe uma

perspectiva relacional: o grupo étnico não se define pelo conteúdo cultural próprio, mas pela fronteira que os membros e não membros do grupo percebem entre o grupo e

o outro grupo. Não é a presença de populações distintas e culturalmente homogêneas

que conduz naturalmente ao estabelecimento da fronteira étnica. É, ao contrário, o movimento de diferenciação arbitrário – no sentido em que ele não leva em conta dados culturais internos mesmo se ele é historicamente determinado – que provoca a percepção da fronteira. Somente em seguida, os indivíduos enclausurados no interior desta fronteira simbólica, construída de maneira contingente e até mesmo artificial, são progressivamente notados e se vêem como uma etnia. Isto ocorre simultaneamente à progressão da homogeneização cultural através do estabelecimento da comunicação lingüística e a participação nas mesmas atividades econômicas e políticas. Um grupo étnico pode adotar certos traços culturais de outro grupo como a língua e a religião e continuar sendo visto, e se vendo, como distinto do outro grupo. Já que os atores sociais atraídos pelas diferenças emblemáticas não dão importância

às similaridades, é possível que a diversidade cultural entre grupos diminua ao mesmo tempo em que a distinção étnica se reforça (Poutignat & Streiff-Fenart, 1995). Aliás, observamos nos Estados-Unidos, uma intensificação recente da identificação étnica em função da origem, apesar da redução objetiva das diferenças culturais, devido à perda da língua de origem, da conversão religiosa e dos casamentos entre etnias (Nagel, 1994). Uma tendência similar pode ser observada em Israel: enquanto as diferenças culturais diminuem entre judeus asquenaze e sefardi, eles ressaltam cada vez mais suas respectivas diferenças originárias (Weingrod, 1979). Dozon (1994) esclarece esse ponto graças à sua análise minuciosa da identidade étnica dos Bété da Costa do Marfim. Eles habitam o sul deste país e formam o grupo étnico mais importante, somando 20% da população. Contrariamente à versão oficial da administração colonial francesa, que afirma que os Bété seriam originários da Libéria, este grupo étnico é na verdade um produto recente, devido a circunstâncias particulares, de populações oriundas de diferentes regiões. Antes do período colonial a região dos Bété não possuía uma população homogênea. A região não era unificada do ponto de vista comercial e econômico. Vários sistemas de parentesco coexistiam, os recortes lingüísticos não correspondiam às fronteiras étnicas tais quais elas são concebidas atualmente. Além disto, uma parte da população vivia da caça coletiva com uma grande rede – esta última agia como um marcador identitário e era assimilado a um ser vivo que encarnava o coletivo da linhagem –, enquanto outros habitantes não tinham muitas ligações com a caça. Ou seja, vários fatores diferenciavam os Bétés em diferentes grupos, alguns sendo até mais próximos das populações vizinhas não Bété. Deste modo as populações que compunham o país Bété não notavam uma identidade comum. A administração colonial introduziu algumas medidas para transformar socioeconomicamente a região: obrigação de pagar impostos, de cultivar e vender produtos para que sejam taxados e trabalho forçado para melhorar as infra-estruturas. As populações africanas ficaram um pouco reticentes contra o dispositivo colonial. O trabalho forçado e o recrutamento nas forças armadas para a guerra na Europa provocaram inúmeras fugas. Essa resistência foi fundamental para o nascimento da identidade Bété, pois ela criou uma relação entre estes habitantes e as cidades economicamente mais desenvolvidas. Estes emigrantes se encontraram em baixo da escala social destas cidades e foram tratados e estigmatizados como mão-de-obra barata pelos franceses e pelas populações locais. Fora esses primórdios de consciência identitária constituído no exterior do país Bété, a situação interior começou a oferecer um campo propício à consolidação da identidade Bété. As plantações precisavam de mão de obra; consequentemente, vários emigrantes africanos entraram no país. A relação complementar entre autóctones e emigrantes progressivamente se transformou em concorrência mútua. Este contexto antagonista naturalmente intensificou a consciência identitária dos Bété, e acarretou na reivindicação política das terras pegas pelos emigrantes. Ao mesmo tempo, brotou ao nível ideológico o mito fundador da etnia: os ancestrais Bété seriam os verdadeiros autóctones originários da Costa do Marfim. Deste modo a ficção identitária Bété foi fabricada em apenas uma década, em conseqüência a uma política artificialmente imposta pelo colonialismo francês. A

concepção ingênua define o grupo étnico ou nacional a partir de suas propriedades internas que seriam específicas. O grupo repousa em si. Opostamente, a concepção relacional propõe considerar que um grupo étnico nos aparece e se produz por causa

da categorização arbitrária que praticamos. Em outras palavras, esta posição, relacional

e construtivista, afirma que as propriedades que nos parecem ser específicas a

determinado grupo são produzidas pela reificação da relação. Ou seja, é uma ficção coletivamente elaborada. Não é por que existem grandes diferenças objetivas entre dois grupos que os consideramos como distintos, mas pelo contrário, pelo fato de serem categorizados como grupos diferentes, cada grupo adquire sua “essência” homogênea e uma diferença “objetiva” brota. O que é geneticamente inicial, não é a identidade própria, mas a dinâmica de identificação. A identidade está simplesmente no que nos identificamos e no que nos identificam.

O mecanismo de fabricação identitária De onde vem nossa impressão da continuidade identitária? Para responder a

esta pergunta, imaginemos um pequeno barco de madeira. Todo dia usamos este barco para pescar. Com os anos o barco começa a ficar usado. Às vezes o barco se avaria nas pedras. Devemos então trocar algumas peças de vez em quando. Cedo ou tarde, todas

as peças são trocadas. Não sobra nada do barco original. Então vem a questão crucial:

Será que é o mesmo barco? Com certeza temos a impressão que é o mesmo barco por usá-lo todos os dias. Mas não é por que o barco manteve a mesma forma que sua identidade foi conservada. O que ocorreria se, ao invés de concertar o barco sucessivamente, ele

fosse destruído e depois reconstruído com novas peças? Desta vez, certamente teríamos

a impressão de que é uma cópia, outro barco, mesmo conservando a mesma forma e

respeitando totalmente o plano de construção. Entretanto, substituir todos os elementos

em um instante ou progressivamente durante um século, não altera nada ao nível lógico pelo fato que todos os elementos do barco foram renovados. Contudo, do ponto de vista psicológico, as duas situações são radicalmente diferentes. A impressão de conservação da identidade provém do fato da modificação ser progressiva e imperceptível. Ou seja, é uma ilusão de ótica.

Imaginemos com Hobbes uma situação um pouco mais complexa para insistir na natureza psicológica da identidade (Ferret, 1998, p. 113-114). Os componentes do barco são substituídos, como no exemplo anterior, na medida em que ele se deteriora. Mas ao invés de jogar fora os elementos avariados, eles são guardados em local seguro, e que, no momento em que a totalidade das peças forem substituídas por peças novas, o barco seja reconstruído com as antigas peças respeitando o plano de construção original. Teremos então três barcos conceptualmente distintos: o barco inicial (A); o barco reparado com peças novas (B); o barco reconstruído com os componentes antigos (C). Se logo após cada concerto, jogarmos fora todas as peças deterioradas e não tivermos a possibilidade de ver o barco C acreditaremos que existe uma continuidade natural entre o barco A e o barco C. Contudo, quando o barco C aparecer

a nossa frente nossa convicção sobre a continuidade entre o barco A e o barco B irá

por água abaixo. A simples percepção do barco C, velho e avariado, basta para relegarmos o barco C ao status de simples cópia não autêntica. O respeito, mesmo que rigoroso, da planilha de construção não garante a preservação do sentimento de identidade. É necessário algo mais. Ora, este elemento essencial não está no barco, na sua forma ou na sua matéria, ele é externo. Se imaginarmos, como Hume (1969), que uma massa de matéria possuindo partes contíguas

e conectadas, apareça na nossa frente. Se todas as partes permanecer iguais de maneira

ininterrupta e invariável, naturalmente atribuiremos uma identidade a esta massa. E se supormos agora que uma pequena parte, ínfima, seja acrescentada ou subtraída. A identidade do conjunto da matéria em questão foi destruída de um ponto de vista estrito. Mas raramente raciocinamos com tanto rigor, pois continuamos a crer que estamos frente à mesma massa. Se a mudança ocorre progressivamente e insensivelmente, não notamos a cessação da identidade. Com outras palavras, a identidade que um objeto mantém no tempo, tal qual ela nos é dada, não é imanente ao objeto, mas é uma representação produzida por uma série de identificações sucessivas dos aspetos deste “objeto” feitas pelo sujeito exterior que o observa. Não é a preservação de um substrato qualquer possuidor da essência do objeto que garante a identidade através do tempo, mas a crença do observador exterior na imutabilidade

deste objeto, sendo verdadeiro ou não. A identidade temporal não é um estado intrínseco do objeto, mas um fenômeno psicossociológico que produz um movimento de identificação subjetiva. Como no exemplo da identidade do barco onde os materiais eram renovados constantemente, as gerações da comunidade étnica ou nacional devem ser renovadas parte por parte para que a comunidade mantenha aos nossos olhos a sua identidade. A grande maioria das pessoas que vivem juntas num preciso momento continuam a existir no instante seguinte, somente uma ínfima porção de pessoas é substituída pelos recém- nascidos. A passagem de um estado a outro ocorre assim sem solução de continuidade.

É importante que entre dois instantes a proporção de indivíduos ficando na comunidade

seja bem superior à proporção de indivíduos mudando. Em menos de cem anos, a quase- totalidade da população francesa é renovada e, alguns anos depois este ciclo de substituição termina completamente. Como a substituição ocorre lentamente e progressivamente é possível ter um sentimento de continuidade identitária. A França tem um pouco menos que cinqüenta e nove milhões de habitantes, 780 000 nascem e 540 000 morrem todo ano, o que equivale a uma taxa de substituição de 0,003% por dia. Além disso, a ausência de período reprodutivo na espécie humana facilita o esquecimento destas incontáveis rupturas da comunidade que ocorrem inevitavelmente; jamais podemos fixar o determinado momento onde uma nova geração começa. Dos artifícios úteis para a preservação da identidade de um objeto, Hume (1969) cita a existência, ou melhor, a percepção subjetiva de um fim comum. Se um barco continua a aparecer sob a mesma identidade embora tenha sofrido importantes modificações devido a freqüentes reparos, é porque as partes estão em estado de interdependência e que o fim comum para qual tendem as partes é idêntico, mesmo após as variações. E ela (a identidade) facilita a transição da imaginação de um estado do corpo a outro. Este autor usa também o exemplo de uma igreja para mostrar que a

continuidade identitária é garantida graças à percepção de um objetivo ou de um destino que une os elementos, mesmo que a matéria mude totalmente. Imaginemos agora que uma igreja de tijolos esteja em ruínas e que ela seja reconstruída em pedra, seguindo os moldes da arquitetura moderna. Ele salienta que neste caso, nem os materiais nem a forma são idênticas e não há nada em comum entre estes dois objetos além de suas relações com os membros da comunidade. A identidade das relações que os habitantes atribuem à estas duas igrejas basta para que a continuidade da igreja seja mantida. Além disso, é interessante observar neste exemplo que a percepção da identidade é facilitada pelo fato que o antigo objeto já desapareceu quando o novo aparece na consciência do sujeito, ou seja, os dois objetos nunca aparecem simultaneamente aos olhos do observador, como no exemplo dos três barcos conceptuais.

O papel do desconhecimento O esquecer da diversidade e das reais mudanças é a preciosa fonte do estabelecimento de algumas formas de defesa identitária. O modelo republicano e universalista francês deveria integrar cada estrangeiro individualmente, contrariamente aos Estados-Unidos onde a comunidade estrangeira como um todo se integra. Na realidade, até na França, a integração dos imigrantes é realizada com o auxílio das microcomunidades. É o caso, por exemplo, dos italianos, poloneses, portugueses ou ainda dos asiáticos do Sudeste da Ásia. A presença da estrutura comunitária fornece aos recém-chegados uma segurança identitária e não os deixa jogados frente a um ambiente totalmente desconhecido (Milza, 1998). Opostamente, se certos jovens magrebinos se integram com dificuldade na sociedade francesa, em parte isso se deve porque eles geralmente estão desorganizados e nus do ponto de vista identitário. Contráriamente à imagem estereotipada que associa estes jovens ao Islã, na realidade eles estão fortemente atomizados por causa da insuficiente segurança identitária de suas comunidades culturais e da exclusão que sofrem por parte da sociedade francesa (Khosrokhavar, 1997; Tribalat, 1996). Memmi (1966, p.260, mês italiques) descreve o mesmo mecanismo identitário nos judeus:

Paradoxalmente, até mesmo a assimilação, como eu disse, será enfim possível. Na opressão não era possível; não somente por causa da recusa dos outros, mas também, por causa do insuportável mal estar que ela suscitava no próprio

judeu: como abandonar os seus numa tal tristeza? Não se abandona, sem uma dor insuportável, o lado dos perdedores. De agora em diante, a possível referência do seu povo ao solo, a um Estado, a uma cultura, absolve o assimilado. Sendo um homem livre, o judeu ganha ao mesmo tempo a liberdade de não mais ser judeu [

a assimilação deve poder ser legítima para todo judeu que a deseja. Esta

liberdade de escolher seu destino deve igualmente ser restituída ao judeu. A confirmação de sua pertença ou a escolha de outra comunidade deve virar finalmente, uma simples questão de temperamento ou interesse. Por que deixá- lo sem um direito reconhecido a todos os homens? Em quê é diferente de italianos que se assimilam aos franceses ou de alemãs que se assimilam aos

] [

americanos? Mas deve ser visto, aqui também, que é a existência de uma nação judia que permitirá finalmente o esvaecimento indolor da judeidade.

Deve ser visto uma complementaridade entre o trancamento identitário e a abertura

cultural: não é apesar, mas graças a uma dose de trancamento identitário que aceitamos os valores alheios. A identidade é uma ficção social. Para integrar estrangeiros, a sociedade deve dispor de um mecanismo de defesa coletivo eficaz. A identidade é constantemente quebrada pela introdução de elementos exógenos. O sucesso da integração dos estrangeiros depende da eficácia deste dispositivo coletivo que permite

o desconhecimento das rupturas identitárias reais e permanentes.

A realidade do modelo francês de assimilação Neste quadro parece possível interpretar uma passagem paradoxal de Todd (1994) sobre a homogeneidade cultural mais avançada nos Estados-Unidos multiculturalistas

do que na França universalista em termos de estrutura familial, de religião e de hábitos alimentares. Porque a ideologia assimilacionista francesa preserva uma diversidade cultural mais importante que a ideologia comunitarista americana que demonstra deliberadamente a coabitação das diferenças? Para desvendar este enigma, devemos relembrar que uma mudança (reforço ou desaparição) que ocorre no nível das fronteiras de um lado, e do outro lado uma mudança de conteúdo cultural de um grupo étnico, constituem dois fenômenos de registros psicossociológicos distintos. Então parece possível que um sentimento identitário aumente embora haja uma homogeneização cultural importante. A identidade

é um estado psicológico produzido pela categorização (Barth, 1969; Tajfel, 1972, 1978).

De modo geral, quando os indivíduos ou objetos são categorizados em dois conjuntos 1 e B, ocorre uma ilusão que exagera as diferenças entre as categorias e minimiza a diversidade dos membros no interior de cada categoria. A diferença notada entre os membros da categoria A e da categoria B é maior que a diferença real; e a similaridade notada entre os membros no interior de cada categoria também é maior que a similaridade real (Doise, Deschamps & Meyer, 1979; Tajfel & Wilkes, 1953). Este processo psicossocial pode ser aplicado a uma comparação franco-americana. Dentro de um sistema multicultural ou multiétnico, os cidadãos se vêem através de categorias culturais ou étnicas. Eles tendem então a se dar a ilusão de uma diversidade grande, maior que a diversidade real. Além disto, como a identidade se baseia no duplo processo de identificação intracategorial e de diferenciação intercategorial, o multiculturalismo contribui a alimentar o sentimento identitário, o que por sua vez facilita a aceitação dos valores das outras categorias culturais e étnicas. Com a segurança ou ilusão psicológica que o núcleo central de suas identidades não se altera, os membros de tal sistema aceitam com mais facilidade uma metamorfose. Ao contrário, dentro do sistema universalista onde todos os seres humanos devem ser essencialmente similares, a divergência real tende a ser subestimada ou ignorada, pois é secundária ou acidental. Por outro lado, o duplo processo de identificação-diferenciação não se compromete de maneira tão acentuada quanto no

ambiente multiculturalista, a incorporação de valores de outros cidadãos apresenta o risco de comprometer o sentimento identitário. A ameaça sobre a identidade é ainda mais grave quando os termos de comparação são próximos. Esta citação de Serge Moscovici é bem pertinente sobre este assunto:

] [

similaridade. Sim, geralmente, é naquele que tem algo em comum comigo, que deveria estar de acordo e compartilhar suas crenças, que os mínimos desvios me magoam. Eles me parecem mais graves do que são na realidade, pois eu os

adquirimos a convicção que o racismo é ao contrário um problema de

exagero e dou demasiada importância. Sinto-me traído. Daí uma reação bem

mais violenta. Enquanto que, na pessoa realmente diferente que não tem nada a

] Resumindo, não são

nossas diferenças que temos dificuldades a suportar, mas nossas semelhanças e

ligações. (Moscovici, 1985, p.185)

ver comigo, mal notaria desvios bem mais acentuados. [

Paradoxalmente o universalismo dificulta mais a aculturação que o multiculturalismo. O primeiro tolera o conteúdo heterogêneo do objeto introduzido enquanto apara os vestígios originais, enquanto o segundo homogeneíza o objeto incorporado ao mesmo tempo em que impede a fusão entre interior e exterior. O segredo deste paradoxo se esconde no próprio coração do mecanismo de fundação identitária (Kozakaï, 2000, 2005).

Conclusão

A identidade cultural é um fenômeno social em movimento e o limite – sempre

provisório – de sua evolução é colocado unicamente pelo contexto social e o peso da

história. A integração dos estrangeiros tradicionalmente é conceitualizada dentro de uma perspectiva normativa e funcionalista. Nesta corrente de pensamento só existem duas possibilidades na integração: se a integração ocorreu, o estrangeiro se assimila à sociedade acolhedora; ou em caso de não integração o indivíduo que não aceita a norma dominante da sociedade é marginalizado e excluído (para uma síntese da corrente funcionalista, Manco, 1999). Este modelo é lacunar. Em vez de haver uma absorção de uma cultura pela outra, a aculturação é um processo de evolução mútua para os autóctones e estrangeiros.

O comunitarismo baseia seu fundamento numa visão errônea da identidade

cultural, pois ela é vista como uma caixa vazia na qual podemos pôr, em teoria, qualquer conteúdo. O universalismo não comete erros na sua análise da identidade cultural, mas

se alça sobre um menosprezo da natureza humana. É verdade que a concepção eletiva da nação francesa não é um simples voto humanitário e idealista; de um ponto de vista antropológico, ela é dotada de um verdadeiro fundamento. Mas, os mecanismos da fabricação social de uma identidade graças ao processo de identificação devem ser ocultados e desconhecidos dos atores cidadãos (Kozakaï, 2000, 2005; Renan, 1992; Weber, 1995). O mundo humano se constrói a todos os níveis sobre uma infinidade de ficções sociais. Sem estes auto-enganos coletivos a fundação de uma comunidade

seria impossível. Ou seja, não é apesar, mas graças às ficções sociais que a realidade se faz possível. A realidade e a ficção são consubstanciais. Estamos dentro de uma evolução permanente. O importante não é de saber se é ou não é necessário mudar, se é preciso manter a tradição ou evoluir aceitando os valores da sociedade acolhedora. O verdadeiro problema está no fato de ser obrigado a ser o que não se deseja ser, e que não é possível tornar-se o que se deseja tornar. A identidade não possui um conteúdo próprio, mas é o resultado do movimento de identificação.

Referências

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Recebido em maio de 2007

Aceito em agosto de 2007

Toshiaki Kozakai: doutor em Psicologia Social (Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales); professor na Universidade Paris 8; pesquisador associado de Paris-Descartes no Laboratoire de Psychologie Environnementale. Rafael Pecly Wolter: mestre em Psicologia Social (Paris-Descartes); doutorando em Psicologia Social (Paris- Descartes); pesquisador no Laboratoire de Psychologie Environnementale.

Endereço para correspondência: kozakai@club-internet.fr

Aletheia, n.26, p.27-40, jul./dez. 2007 Avaliação de desempenho como um instrumento de poder na gestão

Aletheia, n.26, p.27-40, jul./dez. 2007

Avaliação de desempenho como um instrumento de poder na gestão de pessoas

Patrícia Bento Gonçalves Philadelpho Kátia Barbosa Macêdo

Resumo: O presente artigo apresenta resultados de uma pesquisa que enfocou a avaliação de desempenho (AD) como um instrumento de poder utilizado na gestão de pessoas. Realizou-se um estudo de caso que utilizou entrevistas individuais com 14 participantes, sendo 4 diretores e gerentes e 10 trabalhadores da área administrativa e operacional. Para análise dos dados, utilizou-se a análise gráfica do discurso de Lane (1985). A análise dos dados indicou que os participantes (diretoria) percebiam as políticas de gestão de pessoas permeadas pela ideologia dominante como uma forma de garantir a competitividade da empresa no mercado. Já os traba- lhadores a percebiam como a possibilidade para o desenvolvimento profissional e a promoção. Os dados sugerem que os resultados da AD eram utilizados na gestão de pessoas apenas quando sustentavam/confirmavam as práticas e decisões da diretoria relacionadas às políticas de pesso- al. Assim, a AD pode ser considerada um instrumento de poder na gestão de pessoas, porém tendo seu uso limitado a fatores externos à técnica quando subsidia as ações dos diretores. Palavras-chave: avaliação de desempenho, gestão de pessoas, poder.

Performance evaluation systems as power instrument in the human resources management

Abstract: The research focused on the system of evaluation of performance (PE) as a method for human resources (HR) management in a family business. It is a case study that used semi- structured interviews as instrument for collecting data. The interviews were carried out individually with fourteen people; four of the group being managers and directors and ten operational administrative workers. The technique for data analyses was the speech graphic analysis by Lane (1985). The data indicated that the participants (directors) perceived the human resources policies permeated by the dominant ideology, as a way of guaranteeing the competitiveness of the organization in the market. The PE were perceived by workers as a possibility for professional development and promotion. The results suggest that the PE was only used as an instrument of HR management while their results confirmed the directors’ practices and decisions concerning HR policies. The PE could be a management instrument, used limited by policies and interests outside the technique. Key words: family business, evaluation of performance, administration of people.

Introdução

O modo de gerenciamento das pessoas nas organizações depende do modelo de gestão adotado e do paradigma industrial predominante em determinado período. Heloani (2003) afirma que, a partir deste ponto de vista, as organizações passam a ser vistas como produto da realidade socioeconômica, por reproduzirem os princípios de

organização do trabalho vigentes e influenciarem o ambiente num movimento de mútua transformação. Tornou-se necessária alguma forma de coordenação destas partes para a sinergia

se desenvolver, e assim levar o sistema a funcionar harmonicamente. “

sistemas nos ensina que as partes e interações de um sistema, não existem por si mesmas. Na verdade, elas existem para atingir as metas maiores do sistema, as quais são estabilidade, crescimento e adaptabilidade” (Muchinsky, 2004, p. 238). Fica clara a necessidade de a organização planejar e coordenar seus processos de trabalho, para que atinja seu objetivo. Fato este que independe do paradigma que predomina. Segundo Gil (2001), o enfoque sistêmico na gestão dos recursos humanos pressupunha a existência de subsistemas interdependentes (seleção, treinamento,

cargos e salários, avaliação de desempenho, e outros). Estes se comunicavam entre si,

e criavam uma dinâmica interna própria ao sistema, o que implicava na concepção da organização como um sistema maior que tem na administração de recursos humanos um subsistema.

O autor refere que transformações socioeconômicas mundiais de globalização

da economia, desenvolvimento tecnológico, evolução das comunicações e

competitividade, dentre outras, fizeram com que as organizações passassem a enfocar

o trabalhador, não mais como uma força produtiva, mas sim como uma pessoa na sua

totalidade. Assim sendo, as pessoas tornaram-se, para as organizações, parceiras em seu desenvolvimento e crescimento, para garantir sua sobrevivência e competitividade frente ao novo cenário socioeconômico mundial. Assim, as pessoas são tratadas pelas organizações como partes que contribuem com seus conhecimentos, habilidades e aptidões para manter a harmonia e funcionamento integrado dos subsistemas que compõem o sistema organizacional. Surge então a concepção de gestão de pessoas como um modelo de gestão que conduz as pessoas ao alcance dos objetivos organizacionais, denominado inicialmente de administração de recursos humanos e posteriormente de gestão de pessoas.

Segundo Ribeiro (2005), a área de Recursos Humanos (RH) tem como objetivo principal administrar as relações interpessoais existentes na organização e desta com as pessoas. O autor menciona que as políticas de RH contribuem para melhoria das relações entre empregador e empregados, a partir do entendimento das pessoas como parceiras de negócios, e não mais como recursos empresariais. Esta nova visão do papel do trabalhador e contribuição ao desenvolvimento organizacional exigiu que as organizações adequassem seu modelo de gestão à otimização de seus processos administrativos. Ribeiro assinala:

Em uma época em que a globalização, a competição, o forte impacto da tecnologia

e as célebres mudanças se tornaram os maiores desafios externos, “a vantagem competitiva das empresas está na maneira de utilizar o conhecimento das pessoas, colocando-o em ação de modo rápido e eficaz, na busca de soluções satisfatórias e de novos produtos e serviços inovadores” (Ribeiro, 2005, p.1).

O autor citado refere-se à globalização como um processo que promove forte

impacto de mudança e grande movimento por qualidade e produtividade nas

a teoria dos

organizações. Neste cenário as principais vantagens competitivas das organizações são as pessoas, responsáveis pela manutenção e conservação do status quo. Bohlander, Sherman e Snell (2003) consideram que a expressão ‘recursos humanos’ implica que as pessoas têm capacidades para impulsionar o desempenho organizacional, de maneira conjunta aos demais recursos organizacionais, tais como: financeiros, materiais, informações, entre outros. Para Dutra (2001) e Fischer (2001), o conceito de gestão de pessoas é uma nova terminologia utilizada pelos que estudam e praticam a gestão de RH nas organizações. Percebe-se uma busca por explicar o motivo das pessoas serem vistas como vantagem competitiva para as organizações e convencê-las disto, como forma de obter delas o que de fato interessa às organizações; dedicação e desempenho para garantir lucro. Sob esta perspectiva, a terminologia recursos humanos foi substituída pela expressão ‘gestão de pessoas’, com o argumento de que as pessoas não são recursos, o que legitima a noção das pessoas ser vista como participantes do desenvolvimento da organização como um todo. Compreende-se, então, que o conceito de gestão de pessoas, aplicado às organizações, revela em seu sentido semântico da palavra gestão, a direção, coordenação de pessoas ao alcance dos objetivos organizacionais. Para Andrade, “A organização que pretende alcançar a excelência deve estabelecer estratégias da gestão de pessoas visando à obtenção de um clima de trabalho propício ao alto desempenho empresarial” (Andrade, 2004, p.12). Assim, pode-se afirmar que existe uma produção teórica relacionada à gestão de pessoas que desenvolve um discurso ideológico e legitimador de algumas práticas de gestão. Estas demonstram ter como objetivo maior, conceber a exploração e alienação do trabalhador do que realmente promover sua participação e desenvolvimento. Fischer (2001) compreende o modelo de gestão de pessoas como um conjunto constituído por políticas, práticas, padrões de ações e instrumentos, utilizados pelas organizações para produzir e direcionar comportamentos no ambiente de trabalho. Comentou que pesquisas realizadas demonstraram que nove entre 10% das empresas pesquisadas afirmaram ter no modelo de gestão de pessoas preocupação em alinhar as políticas de RH à estratégia do negócio. Para Staat (1994), a ênfase no relacionamento entre as pessoas faz voltar a atenção para o processo de organização do trabalho, o qual é contínuo e dinâmico, pois retrata realmente a forma na qual as pessoas fazem sentido em seu ambiente de trabalho por comparação, discussão e transformação das visões individuais e compreensão da organização. Para ele, o ingresso das pessoas numa organização implica no estabelecimento de um contrato psicológico, onde uma série de expectativas, as quais um membro e a organização têm de cada um, e cada membro estabelece então, com a organização, um contrato diferente. O fato do trabalhador não alcançar o desempenho esperado pela organização pode ser considerado como uma quebra do contrato psicológico estabelecido entre ele e a organização. A grande dificuldade na manutenção do contrato psicológico, segundo Staat (1994), é que usualmente este reflete uma disparidade no poder.

Como conseqüência, as diretrizes para formulação e implantação de programas de Avaliação de Desempenho são inspiradas na percepção e no reconhecimento do desempenho humano como fator impulsionador do sucesso da organização. “As pessoas ao desenvolverem sua capacidade individual, transferem para a organização seu aprendizado, capacitando a organização para enfrentar novos desafios” (Dutra, 2002, p. 126). Conclui-se, então, que as organizações, para se manterem competitivas e adaptadas ao contexto socioeconômico, buscaram adotar ferramentas de gestão de pessoas, que contribuíssem ao contínuo aprimoramento do desempenho organizacional. A seguir, será discutida a avaliação de desempenho sob a perspectiva de ser um instrumento de poder na gestão de pessoas utilizada para controle do desempenho individual e organizacional.

Avaliação de desempenho, um instrumento de poder na gestão de pessoas Pontes (1991) definiu avaliação de desempenho (AD) como uma estratégia organizacional utilizada pelas organizações para acompanhar o trabalho, os objetivos propostos para os profissionais e fornecer feedback para as pessoas. No entanto, observa-se que, há diferenças entre as percepções dos trabalhadores

e dos dirigentes de uma organização sobre a AD. Para os primeiros, a AD é um instrumento de pressão ao seu empenho no trabalho, enquanto que para os outros, esta serve (ou deveria servir) de base orientadora ao desenvolvimento pessoal e

profissional dos trabalhadores. Na verdade, estas percepções guardam entre si o ponto comum de controle da produção, permeado pela ideologia dominante do período fordista

e taylorista, como forma de garantir a existência das organizações no mercado de

trabalho. Segundo Souza (2003), a partir da década de 1980, o contexto de negócios e os desafios da competitividade obrigaram as organizações a considerarem a necessidade de implantar sistemas de desempenho alinhados aos novos paradigmas de gestão. No entanto, o autor fez referência à década de 1990, como período em que foram desenvolvidas pesquisas voltadas a transformar a AD num instrumento de gestão, para promover a efetividade organizacional. Souza (2003) relatou, ainda, que a AD passou a fazer parte de um modelo de gestão dos trabalhadores centrado em resultados,

sendo utilizado para verificar a contribuição do trabalhador, a partir da aplicação de seu conhecimento, capacidades e habilidades no resultado organizacional. Lucena (1992) expôs que o contexto social relacionava-se ao ambiente externo das organizações e influenciava diretamente na forma destas se estruturarem internamente.

A autora afirmou serem as pessoas responsáveis por manter as organizações em ritmo

produtivo. Comentou que desenvolver a qualificação e o potencial das pessoas, com foco no alto desempenho e comprometimento com os resultados desejados, era o grande desafio organizacional neste contexto. Definiu desempenho como a atuação de um trabalhador diante do cargo que ocupa na organização, e ainda afirmou que os cargos têm, especificados em seu conteúdo, as responsabilidades, tarefas e desafios que lhes

são atribuídos. “O desempenho pode ser reconhecido como a manifestação concreta,

objetiva do que o empregado é capaz de fazer. É algo que pode ser definido, acompanhado

e mensurado” (Lucena, 1992, p.29). Muchinsky (2004) concluiu que os sistemas de AD formais proporcionam uma base racional às decisões em RH, e que seus resultados podem ser aplicados às diversas áreas de gerenciamento. Todo trabalhador espera que seu gerente faça periodicamente uma análise de seu desempenho. Esta seria uma forma do trabalhador saber como sua atuação na organização está sendo visualizada. “A avaliação de desempenho é o momento esperado pelo funcionário para que alguém fale de seu desempenho” (Ribeiro, 2005, p. 295). Sob esta perspectiva, Freitas (2005) comenta que a concepção da organização sobre desempenho influencia diretamente na elaboração do instrumento de AD, coleta de dados e objetivos da avaliação. Menciona, ainda, que os problemas inerentes a esses instrumentos estão relacionados à definição de desempenho adotada pela organização. Para atingir o propósito de promover a comunicação das expectativas de desempenho, as organizações adotam sistemas de AD. Estes, ao serem implantados na dinâmica organizacional, permitem que por meio do diálogo entre gerência e trabalhadores, os indicadores de desempenho da organização tornem-se conhecidos por todos. A definição dos indicadores de desempenho é determinada pelos dirigentes,

o que deixa implícita a vigência da ideologia organizacional. Para Bonetti, Descendre, Gaulejac e Pagés (1993), a ideologia organizacional se refere

a um sistema de representação do qual se servem os detentores do poder para mascarar e

ocultar a realidade. Deste modo, os autores afirmam que a ideologia organizacional não se encontra explícita nos discursos produzidos pela direção da organização. A ideologia tem como função essencial reforçar a dominação e não apenas mascarar as relações de produção. O trabalho implica na adesão dos trabalhadores ao sistema

organizacional, que traduz o sistema de valores e filosofia de trabalho da organização. É a existência de um sistema estruturado e de uma filosofia global que leva à adesão. Sob esta perspectiva, os autores citados afirmam que o poder está enraizado na prática cotidiana das organizações, e que as políticas de RH são práticas ideológicas do poder. Consideram que os dispositivos operacionais das políticas de RH e a ideologia da organização funcionam como maneiras de interiorizar comportamentos e princípios que os legitimam. Alguns teóricos vêem o poder como um recurso, outros como uma relação social

caracterizada por algum tipo de dependência. A maior parte deles assume como ponto de partida a definição de Dahl, citado por Clegg (1989), onde o poder envolve habilidade para conseguir que outra pessoa faça alguma coisa que, de outra forma, não seria feita. Pode-se compreender, então, o poder como meio de solucionar conflitos de interesses, influenciando quem consegue o quê, quando e como. Segundo Foucault (1979), o poder existe em suas práticas ou relação de poder.

Não é objeto, uma coisa,

(p.14). Desta forma, o poder produz; produz o real, produz

mas sim uma relação

o poder é algo que se exerce, que se efetua, que funciona

domínios de objetos e rituais de verdade. O poder possui uma eficácia produtiva, uma riqueza estratégica, uma positividade.

O que interessa ao poder é gerir a vida dos homens, controlá-los em suas ações

para que seja possível e viável utilizá-los ao máximo, aproveitando suas potencialidades

e utilizando um sistema de aperfeiçoamento econômico e político. Tem um objetivo ao

mesmo tempo econômico e político, tornar os homens dóceis politicamente e aumentar

sua força de trabalho. Foucault chamou este tipo específico de poder de disciplinar

É uma técnica, um dispositivo, um mecanismo, um instrumento de poder, ou métodos

que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que asseguram a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade (Foucault,

1967/79).

Para Friedberg (1997): “Em todo o campo de ação, o poder pode definir-se como

a troca desequilibrada de possibilidades de ação, ou seja, de comportamentos entre

um conjunto de atores individuais ou coletivos” (p.115). Essa definição acentua a natureza relacional e não transitiva do poder. O poder não é um atributo e não pode ser possuído. Não é um bem que se possa levar. Tal como o amor e a confiança, o poder é inseparável da relação pela qual ele se exerce, e que liga entre si pessoas concretas à volta de objetivos específicos. Entra-se numa relação de poder porque se deve obter a cooperação de outras pessoas para a realização de um projeto, seja ele qual for. O poder é inerente à autoridade e é legitimado pelas regras.

E as funções positivas pelas quais se explica a emergência das convenções, das

normas e das regras não devem nunca levar a esquecer a natureza estratégica e, portanto fundamentalmente política da interação humana que conduz à corrosão dessas

convenções, normas e regras logo que foram criadas, reorganizando o contexto e

recriando espaços de oportunismo. “Uma regra sem a relação de força que suporta torna-se sempre, a prazo, uma forma vazia” (Foucault, 1986, p. 150).

O sistema de regras da organização codifica a realidade e a atividade dos

indivíduos. Este sistema de regras se legitima pelas práticas no plano organizacional, isto é, pelo sistema de valores que corresponde ao quadro de referências que orientam as ações dos trabalhadores. Os fundamentos para elaboração e definição dos critérios e/ou indicadores de desempenho escapam a quem estes se aplicam, e os procedimentos são legitimados por princípios e práticas ideológicas da organização: “Paralelamente, ao reforço do investimento do indivíduo dentro da organização sobre o indivíduo se acentua” (Pagés & cols., 1993, p. 105). Para eles, a entrevista de desempenho é um dispositivo comum nas empresas. Para eles, a avaliação traduz-se por uma nota atribuída pelo gerente ao seu subordinado

da qual dependerá seu salário, acrescentando que a entrevista de avaliação é apresentada como um diálogo franco e aberto, no qual é oportunizada a troca de feedback. Assim, a entrevista de avaliação leva o trabalhador mais a um exame de consciência do que a uma análise de seus resultados. Nela, o que é considerado são os esforços do trabalhador em ser um bom empregado. Este dispositivo operacional de RH favorecia

o domínio da organização sobre o aparelho psíquico dos trabalhadores. Pode-se, então, considerar que a entrevista de desempenho entendida como uma regra da organização para obter a cooperação do trabalhador para alcançar os objetivos estratégicos, é um instrumento de poder inerente à autoridade e legitimado pelas regras.

Conclui-se, que as organizações utilizam sistemas de AD para mensurar a forma como o trabalho é realizado em determinado período, e tem neste sistema um método de controle do desempenho das pessoas. Percebe-se nesta posição estar implícita a utilização da AD como um instrumento de poder que controla e direciona o comportamento dos trabalhadores, como forma de apresentar o discurso ideológico das organizações voltado ao desenvolvimento das pessoas. Sendo assim tem-se a AD como um instrumento de poder na gestão de pessoas utilizada para controlar e direcionar o comportamento e conhecimento dos trabalhadores, em prol dos objetivos organizacionais, permeados pela ideologia dominante das organizações.

Método

Sendo um estudo de caráter descritivo e exploratório que caracteriza o estudo de caso, é possível, adotando esta forma de pesquisa qualitativa, que o pesquisador aprofunde seus estudos numa realidade específica (Triviños, 1987). É importante ressaltar, entretanto, que não se pode objetivar generalizações com este tipo de estudo e sim descrever e analisar as informações coletadas no contexto da empresa pesquisada.

A presente pesquisa refere-se a um estudo de caso realizado numa empresa

da área de construção civil, há 23 anos no mercado de Goiás, abrangendo também os mercados de São Paulo (capital e interior) e Brasília. Em seu histórico da administração de RH, há registros de um programa de AD que foi modificado por mais de três vezes. Para levantamento de informações foram realizadas entrevistas semi-estruturadas

visando identificar qual a percepção dos trabalhadores da empresa a respeito do programa de AD utilizado. Esta técnica de coleta de dados permitiu orientar os tópicos propostos pela pesquisa, pois seguiu uma estrutura prévia definida pelo pesquisador sem impossibilitar que surgissem novos questionamentos em seu desenvolvimento.

A população investigada abrangeu todos os trabalhadores da empresa, na época

da coleta de dados, considerando os níveis hierárquicos da direção, gerência e trabalhadores do nível administrativo e técnico operacional. Os participantes foram escolhidos intencionalmente, e considerou os trabalhadores que atendessem aos requisitos de: antiguidade mínima de 2 anos (fato que possibilitaria que estes tivessem participado de pelo menos dois processos de avaliação na empresa); atuantes na matriz em Goiânia (pela facilidade de acesso) e que fossem ocupantes de cargos administrativos e operacionais. Com base nestes critérios, os participantes da pesquisa foram 14, sendo 4 ocupantes de cargos de diretoria e gerências e 10 trabalhadores da área administrativa e operacional, por atenderam aos requisitos acima mencionados. Dos participantes, em relação à faixa etária, 10 tinham entre 31 a 40 anos, dado que indica uma composição de trabalhadores jovens. Em relação ao tempo de serviço, dos quatorze participantes: quatro tinham mais de 10 anos na empresa, admitidos entre 1990 e 1994; seis foram admitidos no período que corresponde ao

intervalo de 1995 a 2000, e três foram admitidos posteriormente. No que se refere à escolaridade, dos quatorze participantes, onze eram profissionais com nível superior completo, um com nível superior incompleto e dois com ensino fundamental completo. As entrevistas seguiram um roteiro semi-estruturado, elaborado com base nas

seguintes categorias: políticas e práticas de RH; significado de AD; o programa de AD na empresa e seu desenvolvimento; os resultados das avaliações realizadas. Os participantes foram convidados a participar da pesquisa, e assinaram o termo de consentimento, sendo que todas as recomendações éticas do comitê de ética foram rigorosamente seguidas. Após o consentimento, as entrevistas foram realizadas individualmente, na organização e no horário de trabalho, previamente acordado. As informações coletadas foram analisadas pela técnica de análise gráfica do discurso, desenvolvida por Lane (1985). Na análise gráfica do discurso, o discurso é reproduzido graficamente, mantendo-se as setas e os números que indicavam a relação

e a seqüência de forma a se poder ler a entrevista tal qual fora produzida. Assim, é

possível detectar os núcleos de pensamento, referente à relação entre pensamento e linguagem. A técnica de análise do discurso torna a análise simples, pois através da descrição dos núcleos encontrados e das unidades significativas relacionadas a eles, podem-se levantar dados relacionados à percepção que a pessoa ou o grupo de pessoas elaborou, com suas contradições, com suas rupturas o que permite detectar elementos ideológicos que permeiam seu discurso. Os resultados da análise do discurso serão apresentados considerando as seguintes categorias norteadoras: as políticas e práticas de RH; a percepção do sistema de AD; a implantação do sistema na empresa e os motivos e alterações e, finalmente, a utilização dos resultados da AD nas decisões administrativas da empresa.

Resultados

No que se refere às políticas e práticas de RH, diretores e gerentes afirmaram que elas estavam em processo de reestruturação, pois as consideravam falhas e buscavam

melhorias. No discurso pôde-se observar que para os diretores da empresa as políticas

e práticas de RH eram constantemente revisadas para poder melhorar a forma de

condução dos trabalhadores em suas atividades. Ao serem questionados quanto a

políticas e práticas específicas da área de RH relacionaram-nas com as promoções, treinamento e desenvolvimento, benefícios, cargos e salários e demissões.

• Considerando a promoção: os participantes que ocupavam cargos gerenciais

relataram ser esta lenta e desmotivadora, enquanto que os que ocupavam cargos diretivos a consideravam gradual, pois buscavam quantificar o desempenho para

habilitá-los a uma promoção.

• Considerando o treinamento e desenvolvimento, afirmaram que estava excelente;

• Considerando os benefícios e incentivos, afirmaram que se baseavam no mercado, apesar de não haver registro de pesquisas de mercado;

• Considerando cargos e salários, afirmaram que também se baseavam no mercado, sem considerar os resultados da AD;

• Ao abordarem as demissões, apenas afirmaram que elas eram definidas

considerando os interesses da diretoria, ou seja, aspectos relacionados pelo poder. Alguns trechos de seus discursos esclarecem:

estamos terceirizando

estava falha, muito aquém

do que a empresa precisava, ver se melhora (discurso de um diretor).

Exatamente

como funciona eu não sei. Não, várias vezes questionei sobre isso, mas nunca obtive uma resposta satisfatória (discurso de um trabalhador administrativo operacional). Por outro lado, o discurso dos trabalhadores administrativos e operacionais em

relação às políticas e práticas de RH da empresa foi de que estas eram confusas, sem uma definição clara, pouco divulgada e que desenvolviam ações com programas específicos. Revelaram ainda que, no momento da pesquisa, estavam em reestruturação,

e que a área de RH estava sendo terceirizada. No que se refere ao sistema de AD, o discurso dos trabalhadores indicou certo descompasso entre as percepções dos diretores e gerentes e dos trabalhadores da área administrativa e operacional. Para diretores e gerentes, este era um mecanismo de aperfeiçoamento, que permitia adequar às necessidades de RH da empresa. Representava também uma forma de

controle e alinhamento dos trabalhadores aos objetivos organizacionais, rápido, objetivo

e utilizando pontuação. Relataram que o sistema apresentava como vantagens e

benefícios o alinhamento da empresa, a possibilidade de alcançar os objetivos

organizacionais e justificar concessão de aumento e promoção salarial. Alguns trechos de seus discursos esclarecem:

ter uma correspondência de

melhoria de desempenho desta pessoa

justificar pra essa

é

realizado através de formulário superior / funcionário. Até hoje ela é realizada da

mesma forma,

os pontos

Para os trabalhadores da área administrativa e operacional, esta era uma prática formal, que era percebida como uma ordem a ser cumprida, e que sabiam que representaria uma forma de pressão para aumentar o desempenho, burocrática, sem histórica, sem padrão de indicadores, que não gerava resultados, mas poderia

oportunizar o crescimento profissional. Como vantagens e benefícios mencionaram a possibilidade de promoção, aperfeiçoamento das virtudes, diminuição das deficiências, permitir a abertura a críticas e motivá-los ao crescimento profissional. Alguns trechos de seus discursos esclarecem:

é um momento que você senta com seu coordenador para avaliar o

Eu acho isso excelente, você pode medir o esforço

que você tá fazendo aqui no dia a dia, você é avaliado por seu superior imediato,

acho que contribui

no papel lindo

pensei que

Eu gosto que você fez

estamos passando por uma reformulação nesta área

o departamento de RH, A política de RH sempre existiu

Hoje, não

tá meio confuso pra mim

Mas hoje falar assim,

querer aumento. É para a gente dar aumento

dá ou não dá aumento

pessoa o porquê, o motivo, que foi para ajudar as pessoas na sua formação

formulário com os itens

deficiências

virtudes

o que a gente espera que os funcionários,

(diretor).

analisa os pontos

cresceu, melhorou

fiquei meio constrangido, levei pro lado pessoal

se não fosse bem avaliado, seria demitido, dispensado

maravilhoso, se fosse bem usado funcionaria, porém da forma que é feito não

funciona

às

vezes eu acho que ela fica assim muito na teoria, fica difícil de realizar,

não se envolve com o negócio

Quanto aos motivos para implantação do programa, diretores e gerentes afirmaram que a implantação ocorreu para incentivar o diálogo entre chefias e subordinados, uma forma sistemática de pontuar o desempenho e justificar o aumento e promoção salarial. Para os trabalhadores administrativos e operacionais, os motivos para implantação do sistema visavam oportunizar o crescimento, permitir a troca de feedback com o superior e conhecer a opinião do avaliador em relação ao desempenho do avaliado. No que se refere às diversas alterações ocorridas no programa de AD da organização estudada, diretores e gerentes relataram que estas foram realizadas visando adequação e minimização das dificuldades encontradas em sua operacionalização, uma forma de simplificar, tornar ágil e adequar os objetivos do sistema ao contexto global. Os trabalhadores administrativos e operacionais relataram que as alterações foram feitas em virtude da dinâmica de RH da empresa. Modificou-se o teor das perguntas, a abordagem passou de individual para grupal e os formulários foram simplificados e mais específicos. Quanto aos resultados da AD, diretores e gerentes afirmaram que possibilitavam melhoria do clima organizacional, avaliava o coordenador, reconhecia a melhoria do

desempenho e incentivava o diálogo. No entanto, os trabalhadores administrativos e operacionais relataram que os resultados nem sempre ajudavam, estes não eram acompanhados, mas poderiam possibilitar melhorias do próprio empenho, promoção e alteração de atitudes e comportamentos, se fossem efetivamente utilizados. Trata-se de um discurso até certo ponto ideologicamente comprometido, tendo em vista que representa os interesses da organização, e também pelo fato de ter sido elaborado pelos participantes da cúpula. Estes relataram que os resultados da AD direcionavam o reajuste salarial; promoções; plano de ações para melhoria como indicação para treinamentos e estágios e para a demissão. Os dados levantados indicaram que os resultados da AD direcionaram totalmente o reajuste salarial; parcialmente as promoções e as demissões (havendo outros critérios não claramente

definidos presentes no processo decisório); não indicaram planos de ações para melhoria e que indicaram totalmente as demissões. O principal motivo alegado refere- se ao aumento de custo com pessoal (não visto como investimento), o que implicaria em não disponibilizar mais verbas para ações de melhoria. Seguem alguns trechos do discurso dos participantes:

o processo na empresa não

o resultado da AD tinha que ser mostrado, o reconhecimento

de sua avaliação. Contribui sem dúvida, precisa é a empresa valorizar mais as técnicas de RH, a avaliação eu vejo como ferramenta pra ser usada para promover este crescimento profissional (trabalhador administrativo operacional). No entanto, os trabalhadores relataram que os resultados da AD nem sempre eram considerados, mas poderiam possibilitar melhorias do desempenho; relataram que não haviam recebido nenhuma informação mais detalhada da descrição e análise de seu cargo e dos cargos que deveriam avaliar, e que as informações sobre os formulários haviam sido transmitidas apenas oralmente.

(trabalhador

administrativo operacional).

contribui pras pessoas que querem crescer

funciona como deveria

Também relataram que as entrevistas de AD eram realizadas apressadamente,

que os chefes preenchiam depressa os formulários, e que os resultados das avaliações nem sempre eram considerados para promoções, não existiam critérios de promoção claramente definidos. Seguem trechos de relatos dos trabalhadores:

Resultado

informalmente no momento da conversa. Se já aconteceu alguma

mudança?

No discurso dos trabalhadores, os participantes declararam que não se sentiam seguros na organização, ao dizer que nunca sabiam quando iam ser dispensados. Afirmaram que não existiam critérios formais de avaliação de desempenho, para promoção ou um plano de cargos e salários na organização, ficando na responsabilidade do departamento de recursos humanos e das chefias a elaboração informal destas atividades.

da minha avaliação?

Resultados

Conheço, é na hora que a gente vai fazendo, já vai falando

Não (trabalhador administrativo operacional)

Discussão

Observam-se, nos relatos apresentados, indícios da utilização da AD como uma prática ideológica de poder por meio das políticas de RH, de acordo com a abordagem de Pagés e cols. (1993) ao estudarem o poder nas organizações. Em seus estudos, os autores consideraram que os dispositivos operacionais das políticas de RH e a ideologia da organização funcionam como maneiras de interiorizar comportamentos e princípios que os legitimam. Comentaram, também, ser a entrevista de avaliação apresentada como um diálogo franco e aberto, onde se oportuniza a troca de feedback, porém na prática observa-se que a consideração do gerente para com o não atendimento à expectativa do desempenho por parte do trabalhador pode levar à demissão. No que se refere às críticas e alteração às quais o programa de AD da empresa pesquisada foi submetido, cabe uma análise mais dinâmica. É importante salientar que as pessoas são levadas a entrar em uma relação de poder para que possam obter a cooperação de outras na realização de um projeto. Assim, nas empresas, tanto os seus sócios, representados por seus diretores, quanto os seus trabalhadores possuem uma relação de interdependência, onde estão intrincados objetivos individuais e organizacionais nem sempre congruentes. Várias críticas foram direcionadas aos programas de AD da empresa pesquisada. Diante das críticas, a atitude dos diretores foi solicitar mudanças e alterações nos formulários, modo de aplicação, sem alterar a concepção ou mesmo o grande problema do programa: o uso não adequado ou parcial dos resultados da AD, o que gerou frustração nos trabalhadores e comprometimento dos resultados esperados pela diretoria. Percebe-se que uma das expectativas explícitas da diretoria em relação aos trabalhadores era obter obediência, entendida como a resposta automática e pronta, de forma estereotipada. “Pensar como a diretoria” apareceu como uma proposta da diretoria para os trabalhadores. Os gerentes obedeciam visando obter recompensas e promoções, pois havia estrutura autocrática, e as decisões consideravam o bom comportamento, muito mais que bons resultados na AD ou eficácia.

Após várias alterações do processo de AD na empresa estudada, sem que fossem alcançados os resultados esperados, os diretores da empresa resolveram terceirizar todo o processo, desativando a área de RH, o que remete ao questionamento sobre o nível de envolvimento e comprometimento real da cúpula com a área de RH, bem como também em relação aos limites e contribuições possíveis dos programas de AD. Desse modo, os dados levantados reafirmam os posicionamentos de Ribeiro, Pagès (1993), Foucault (1996), Freitas (2005), Gramignia (2002) e Pontes (1991), indicando que as práticas organizacionais relacionadas ao uso dos resultados da AD representam práticas de poder e que são resultado também de aspectos relativos à cultura organizacional. No caso da empresa pesquisada, aspectos das relações de poder.

Conclusão

Pode-se afirmar que o objetivo foi alcançado na medida em que permitiu elucidar o papel das relações de poder frente à gestão de RH enfocando a AD, como fator limitador do processo. O discurso oficial (da diretoria) defende a importância da AD, mas algumas de suas ações e práticas demonstram seu caráter limitador das ações de diretores e gerentes em relação à gestão de pessoas, causando assim certo incômodo ou dissonância entre as políticas de RH e as práticas gerenciais. De outro lado, o discurso dos trabalhadores envolvidos no processo apontou falhas e lacunas, inicialmente nos formulários, treinamentos, e posteriormente criticando abertamente o (mau) uso dos resultados da AD pela diretoria e gestores de RH, o que gerou insatisfação e descrédito em relação ao programa. Os dados do presente estudo corroboram com os de Ribeiro (2005), no que se refere a AD, sendo as relações de poder componente organizacional que impacta no desempenho humano das organizações, pois refere-se a variáveis do ambiente interno capazes de afetar o desempenho de forma positiva ou negativa, tanto no desempenho real quanto ao uso (ou não uso) adequado que o gestor de pessoas faz dos resultados do processo de AD. No estudo realizado foi constatado que as críticas e constantes alterações nos programas de AD da empresa pesquisada se referiam muito mais ao fato dos resultados da AD se constituírem como obstáculo para as ações da diretoria, que, de forma autoritária e centralizadora, decidia (desconsiderando resultados da AD) em detrimento de aspectos pessoais, o que gerava resultados dissonantes das políticas de RH. Vale aqui retomar o posicionamento de Pagés e cols. (1993), que consideraram que os dispositivos operacionais das políticas de RH e a ideologia da organização funcionam como maneiras de interiorizar comportamentos e princípios que os legitimam. Conclui-se, portanto, que a AD na empresa era utilizada como recurso ideológico, geradora de um discurso legitimador de práticas de gestão de pessoas tecnicamente corretas, porém que camuflam ações autoritárias, centralizadoras e excludentes exercidas pela diretoria que considera seus interesses particulares. Como motivos para críticas e constantes alterações no processo de AD, surgiam, de um lado, a complexidade e extensão dos formulários (manifesto), e, de outro, o fato

de os resultados da AD se constituírem como obstáculos às ações desviantes dos princípios ideológicos da empresa em relação à política e prática de gestão de pessoas praticadas pela diretoria.

Referências

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Recebido em outubro de 2006

Aceito em abril de 2007

Patrícia Bento Gonçalves Philadelpho: psicóloga; especialista em Gestão de Empresas pela Universidade Católica de Goiás; Mestre em Psicologia pela Universidade Católica de Goiás; professora da Faculdade Ávila, da UNIP e Faculdades Objetivo. Kátia Barbosa Macedo: psicóloga; especialista em Dinâmica de Grupos pela Universidad de Comillas- Espanha. Master em Psicologia Aplicada a las Organizaciones pela EAE-Barcelona; Mestre em Educação pela Universidade Federal de Goiás; Doutora em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; professora da Universidade Católica de Goiás.

Endereço para contato: pdelphoss@uol.com.br

Aletheia, n.26, p.41-49, jul./dez. 2007 Emergência e conexionismo como hipóteses suplementares ao Entwurf einer

Aletheia, n.26, p.41-49, jul./dez. 2007

Emergência e conexionismo como hipóteses suplementares ao Entwurf einer Psychologie de Freud

André Sathler Guimarães

Resumo: O artigo aborda a arquitetura do aparelho nervoso, apresentada por Freud no Entwurf einer Psychologie, notadamente sua proposição de três sistemas neuronais distintos – ϕ, ψ e ω. Demonstra como Freud ficou insatisfeito com suas próprias explicações ontológicas para a estrutura apresentada e propõe que existe uma compatibilidade entre as abordagens da emer- gência e do conexionismo e a postulação freudiana. Palavras-chave: Freud, cérebro, aparelho nervoso, emergência, conexionismo.

Emergency and connectionism like supplementary hypothesis in Freud Entwurf einer Psychology

Abstract: The paper work with Freud’s proposal for an architecture of the nervous system, in his book Entwurf einer Psychologie, giving emphasis to his distinction among three systems of neurons – ϕ, ψ e ω. It seeks to show how Freud was not completely sure about his own ontological explanations for the proposed structure and try to show that there is compatibility between Freud’s work and the emergence and connectionism perspectives. Key words: Freud, Brain, Nervous System, Emergence, Connectionism.

Introdução

Na primeira etapa de sua carreira, Freud era um médico neurologista e estava mais preocupado, notoriamente, com as questões fisiológicas do aparelho nervoso do que com o inconsciente e a metapsicologia. O ápice dessa etapa é o Entwurf einer Psychologie (“Projeto de uma Psicologia”, daqui para frente referido simplesmente como Entwurf) uma obra na verdade apenas rascunhada, em manuscrito. Muitos autores defendem que o Entwurf pertence à primeira fase da carreira de Freud e é incompatível com o desenvolvimento posterior da metapsicologia. Abordagens mais recentes, entretanto, têm mostrado o papel fundamental do Entwurf na obra freudiana e, como não há na realidade, uma ruptura do pensamento do autor, mas sim uma continuidade. Um dos pontos interessantes do Entwurf é a formulação de Freud (1895/1995), ao tratar da arquitetura do aparelho nervoso, de três sistemas neuronais distintos – ϕ, ψ e ω. O próprio Freud, contudo, revelou sua inquietação diante da necessidade de justificar ontologicamente esses sistemas. O presente artigo pretende analisar a proposta freudiana e cotejá-la com as abordagens da emergência e do conexionismo, buscando identificar uma possível compatibilidade entre essas vertentes explicativas.

O Entwurf e a arquitetura do aparelho nervoso

O Entwurf, publicado postumamente e inacabado, representa um momento especial

na obra freudiana, quando o autor tenta “deduzir uma psicologia científica e naturalista, segundo um mínimo de pressupostos”, segundo Gabbi Junior (2003, p. 8). Freud (1895) adota uma perspectiva definida por três características: se referenciar no modelo da Física; supor a inexistência de diferenças essenciais entre fatos físicos e fatos psicológicos; e buscar a explicação dos processos pela sua origem. Para Gabbi Junior (2003, p. 19), o “Entwurf é a tentativa de descrever empiricamente o funcionamento da mente humana, de acordo com causas naturais”.

O Entwurf se articula em torno de dois postulados: neurônio e quantidade. O

neurônio é apresentado como expressão da unidade material na qual ocorre uma diferença entre repouso e movimento. Sobre o neurônio, Freud (1895/1995) argumenta:

“O conteúdo principal do novo conhecimento (histológico) é que o sistema nervoso consiste em neurônios distintos, de mesma arquitetura, em contato por mediação de massa alheia, acabando uns nos outros como partes de tecido diverso, onde estão prefiguradas certas direções de condução, na medida em que recebem pelos prolongamentos celulares e entregam por meio dos cilindros do eixo” (p. 177). A quantidade é uma soma de excitação ou montante afetivo, que diferencia atividade de repouso. Em “As neuropsicoses de defesa”, Freud (1894/1995, p. 74) qualifica a quantidade – Q como “algo capaz de aumento, diminuição, deslocamento e eliminação e que se propaga sobre os traços de memória das idéias, algo como uma carga elétrica sobre a superfície de um corpo”. Já estavam lançadas as bases para a posterior concepção freudiana da excitação nervosa como Q em fluxo, feita no Entwurf. Na formulação do princípio da Q estão embutidos três pontos de vista da

metapsicologia: a) a variação entre polaridades positivas e negativas; b) a possibilidade de Q ir de um lugar para o outro; c) a capacidade de Q se compor e interagir.

O aparelho nervoso 1 tem como princípio fundante a busca da eliminação de Q.

Freud chama de processos primários aqueles voltados diretamente para a eliminação de Q e processos secundários aqueles que buscam evitar o ingresso de Q no aparelho. No Entwurf, Freud (1895/1995) assume que a função do aparelho é eliminar a Q, enquanto que a arquitetura do aparelho busca afastar a Q. Tratando da arquitetura do aparelho, Freud (1895/1995) concebeu a noção de três sistemas distintos de neurônios: ϕ, ψ e ω. Os neurônios do sistema ϕ são caracterizados por deixarem passar a Q livremente, como se não tivessem barreiras de contato. Por não oporem resistência, bem como não reterem Q são então, chamados por Freud de permeáveis. A adoção do símbolo ϕ physis (ϕυσισ) – tem a ver com o fato de que esses neurônios processam Q exógenas, que vêm da natureza (mundo externo). Em ϕ, não há ‘percepção’ em seu sentido estrito, apenas ‘sensação’, ou recepção do estímulo externo.

1 Opta-se por manter a nomenclatura utilizada por Freud, “aparelho nervoso”, em virtude da posterior qualifica- ção que o autor faz dos “sistemas” neuronais.

O sistema ϕ fraciona a Q, comprimindo-a ao nível intercelular. Um aumento da Q

em ϕ vai se traduzir em maior complexidade no sistema ψ, ou seja, não há um aumento da intensidade na passagem entre os sistemas neuronais, mas sim uma ocupação mais

vasta de ψ. Como um primeiro filtro, o sistema ϕ evita que uma Q muito grande possa trazer efeitos disruptivos ao aparelho, como uma dor insuportável, por exemplo.

Já os neurônios do sistema ψ – de ψυχη (sopro de vida, alma) – são propostos

por Freud (1895/1995, p. 179) como aqueles que restringem a passagem de Q, sendo impermeáveis, ou “dotados de resistência e embargantes de Q”. Ao passo que o neurônio ϕ é pensado como algo voltado para fora, o neurônio ø é concebido como voltado para dentro 2 . Para Freud (1895/1995, p. 181), com a suposição de “dois sistemas neurônicos ϕ

e ψ, dos quais ϕ consiste em elementos permeáveis e ψ em impermeáveis, parece dada

a explicação de uma propriedade do sistema nervoso: reter e, no entanto, permanecer

receptivo”. Toda aquisição psíquica consistiria, então, na articulação do sistema ψ mediante um cancelamento parcial e topicamente determinado da resistência das barreiras de contato, diferenciando ϕ de ψ. Com o progresso dessa articulação, o frescor receptivo do sistema teria encontrado, com efeito, uma barreira.

É mais fácil para a Q entrar do que sair no sistema ψ, o que causa uma ocupação

permanente do núcleo de ψ – a base material e condição de eficácia para o “eu”. Essa concepção do sistema ψ abriu caminho para que Freud, em 1895 pudesse substituir o princípio da inércia no aparelho pelo princípio da constância. Posteriormente, no Entwurf (seção 7), Freud (1895/1995) se preocupa com a questão da qualidade, que, da forma como colocada pelo autor, aproxima-se muito do conceito de qualia. Haveria elementos da experiência humana que seriam inescrutáveis e incomunicáveis, mesmo entre seres humanos, os chamados qualia. A noção de qualia está muito vinculada a uma concepção dualista da relação mente e corpo, na qual, segundo Teixeira (2003, p. 96) “as experiências subjetivas são algo mais do que

um conjunto de condições físicas que as proporcionam. Essas experiências subjetivas se sobrepõem a qualquer tipo de descrição física que possamos ter do nosso funcionamento cerebral, são sempre algo mais do que uma descrição completa do modo como as cores são processadas pelo cérebro”. 3

O que Freud (1895) desejava era uma “explicação razoável para aquilo que

conhecemos de forma mais enigmática por intermédio de nossa “consciência” (1995, p. 186). Após conjecturar sobre as impossibilidades teóricas de que a qualidade fosse produzida pelos ou nos sistemas ϕ ou ψ, Freud (1895/1995) postula a existência de um terceiro sistema neuronal, o sistema ω – do W gótico da palavra Warhnemung (aproximadamente traduzida do alemão como “percepção consciente”).

2 Apesar dessa concepção, o neurônio ψ pode também transformar o interno em externo, como nos processos alucinatórios. 3 Interessante o fato de que o conceito de qualidade de Freud se aproxime do conceito de qualia, mais comumente associado a correntes dualistas, uma vez que a perspectiva naturalista do Entwurf o aproxima mais de correntes materialistas no tocante à discussão do problema mente–cérebro.

A postulação que Freud, em 1895, faz de ω segue um encadeamento com os

sistemas anteriores. “Os aparelhos de terminações nervosas eram uma proteção para que se efetivassem apenas frações de quant[idade] externa em ϕ, enquanto que ϕ ao

mesmo tempo cuidaria de eliminar o grosso da quant[idade]. O sistema ψ, que já estava protegido contra ordens maiores de quant[idade], teve de lidar apenas com grandezas intercelulares. Cabe conjecturar em continuação que o sistema ω seja movido por quant[idades] ainda menores (1995, p. 188).

A seqüência ϕ, ψ, ω só faz sentido em relação à Q exógena e envolve as condições

de funcionamento de ω, ou seja, operar com o mínimo de Q. Os aspectos físicos da percepção ocorrem em ϕ e os aspectos cognitivos em ω. Na sua intenção de adotar o ponto de vista biológico e naturalista, Freud (1895/1995) propôs essa estrutura do aparelho, restando-lhe encontrar explicações ontológicas para a mesma. Para tanto, em alguns casos ele vai recorrer a uma perspectiva evolucionista, e, em outros, vai simplesmente deixar a questão em aberto, como no tocante ao sistema ω. Após propor os sistemas ϕ e ψ, no Entwurf, Freud começa a se colocar uma série de interrogações e esboça algumas tentativas de respostas. “De onde mais se deve retirar um fundamento para essa divisão em classes?”. Recorrendo à hipótese evolucionista, Freud (1895/1995, p. 182) argumenta que o aparelho tinha inicialmente suas duas funções primordiais: receber estímulos exteriores e eliminar excitações internas; por conseguinte, os sistemas ϕ e ø seriam “aqueles que teriam tomado para si cada um desses compromissos primários” (1995, p. 182). “Por meio de que caminho ψ chegou à propriedade de impermeabilidade?” Ainda seguindo uma linha darwiniana de pensamento, isso se daria pela “indispensabilidade dos neurônios impermeáveis e, com isso, à sua sobrevivência” (Freud 1895/1995, p. 183). Entretanto, em seguida, Freud apresenta uma proposta alternativa, no seu entender mais frutífera e modesta: a diferença não estaria nos neurônios, mas na Q com que eles têm de lidar – “no curso excitativo, quanto maior a Qη, maior a facilitação, ou seja, maior a proximidade, por outro lado, com as características dos neurônios ϕ”. 4 Assumindo-se essa hipótese, necessariamente admite-se que um neurônio ϕ poderia se tornar um neurônio ψ, e vice-versa, caso fosse possível se alterar sua tópica e ligações. Portanto, para Freud “a diferença de essência é substituída por uma de destino e de localização” (1995, p. 183). Contudo, ao tratar dos neurônios ω, Freud (1895/1995, p. 183) deixa a questão em aberto e assume que “não se consegue indicar qual teria sido o valor biológico originário dos neurônios ω”. Ou seja, Freud se sentiu incapaz de apresentar o sistema ω como resultante de uma evolução desde ψ.

Emergência e conexionismo como respostas às inquietações freudianas Postulamos que Freud poderia ter assumido a mesma linha de argumentação para o sistema ω, quer seja, tratar seu surgimento em uma perspectiva evolucionista e

4 Em determinados momentos do Entwurf, Freud usa o símbolo Qç, presumidamente para realçar os casos em que trata especificamente de quantidades endógenas.

como questão de destino e localização. Para tanto, recorremos aos conceitos de emergência e conexionismo. Alan Turing, considerado um dos inventores do computador digital, estudou a chamada morfogênese, ou a capacidade de todas as formas de vida de desenvolverem progressivamente corpos mais elaborados a partir de estágios iniciais simples. Do trabalho de Turing sobre morfogênese, segundo Johnson (2003, p. 12), foi “delineado um modelo matemático em que agentes simples, seguindo regras simples, eram capazes de gerar estruturas surpreendentemente complexas”. Na verdade, Turing estava tratando de comportamentos emergentes e da ciência da auto-organização. Os sistemas auto-organizados definem a forma mais elementar de comportamento complexo:

“Um sistema com múltiplos agentes interagindo dinamicamente de diversas formas, segundo regras locais e não percebendo qualquer instrução de nível mais alto. Contudo, o sistema só seria considerado verdadeiramente emergente quando todas as interações locais resultassem em algum tipo de macrocomportamento observável” (Johnson, 2003, p. 15). Teóricos da emergência e da auto-organização, como Humberto Maturana e Francisco Varela, definem os seres vivos como redes e interações moleculares que produzem a si mesmas e especificam seus próprios limites, portanto emergentes e auto-organizados. Para Maturana e Varela (2001, p. 52), “os seres vivos se caracterizam por – literalmente – produzirem de modo contínuo a si próprios, o que indicamos quando chamamos a organização que os define de organização autopoiética”. Ao longo desse processo, ainda segundo esses autores, “foi necessário contar com moléculas capazes de formar membranas suficientemente estáveis e plásticas para serem, por sua vez, barreiras eficazes e de propriedades mutantes que permitissem a difusão de moléculas e íons por longos períodos, em relação às velocidades moleculares” (Maturana & Varela, 2001, p. 57). Seguindo essa linha de argumentação, pode-se transplantar o princípio auto- organizador e emergente para o cérebro [aparelho nervoso] humano. Marvin Minsky (1985) foi um dos que enxergaram emergência e auto-organização nas redes distribuídas [sistemas neuronais] do cérebro, entendendo-o como uma maciça rede de neurônios, conectados por axônios e dendritos. Como componentes unitários de uma unidade autopoiética orgânica, os neurônios estão dinamicamente relacionados, em uma rede contínua de interações. O comportamento cerebral é francamente emergente. Um estímulo [ou uma Q, na terminologia freudiana] dispara uma sucessão de circuitos neuronais: cada nova Q é o gatilho para um novo arranjo da rede. O comportamento de sistemas emergentes depende fortemente de suas partes componentes (no caso do cérebro, seus neurônios) e como elas se juntam (ϕψω?). A tipificação neuronal em ϕψω seria resultante do local que esses neurônios ocupavam e passaram a ocupar ao longo do processo evolucionário, sendo que os neurônios mais externos ficaram sujeitos a Q maiores, tendo se tornado permeáveis. Essa permeabilidade seria menor em ψ, e ainda menor em ω, por serem sistemas mais

“internos”. 5 Considerando-se que as atividades do cérebro são constituídas pelo deslocar de Q entre os neurônios, que não dispõem individualmente das qualidades globais do cérebro, afirmamos que a tipificação em ϕ, ψ ou ω se deu a partir desses bilhões de transações interneuronais, que originaram a dimensão organizacional do aparelho, em uma perspectiva emergente. Raízes para esse tipo de argumentação freudiana podem ser encontradas em John Stuart Mill (Gianotti, 1964, p. 32): “Em vez de descrever os fatos mentais à procura dos mais primitivos, deve-se proceder ao exame de seus modos de formação, a fim de que não se corra o perigo de tomar por simples o fato composto cujos trâmites de produção foram perdidos. Portanto, todo fenômeno redutível a elementos mais simples, por estes modos de produção já estabelecidos, não será tomado como simples, ainda que a intuição assim no-lo apresente”. 6 A “busca da explicação dos processos pela sua origem”, característica da perspectiva naturalista freudiana aproxima-se do “exame dos modos de formação” de Mill. Ao sinalizar que a mera redução de um fenômeno de múltiplas dimensões a seus elementos mais simples poderia ser insuficiente para sua explicação, caso seus “trâmites de produção” estivessem perdidos, Mill se colocou em sintonia com o ‘pensamento emergente, que advoga a possibilidade de produção de fenômenos complexos a partir de interações de elementos simples’. Maturana e Varela (2001, p. 57), afirmam que “o ser e o fazer de uma unidade autopoiética são inseparáveis e isso constitui seu modo específico de organização”. Assumindo essa perspectiva, pode-se dizer que a organização do aparelho nervoso do ser humano, em geral, foi determinada pelo local [ser] e o fazer [intensidade de Q] dos neurônios. Essa perspectiva está em consonância com o pensamento de Morin (1999), quando esse trata do surgimento do aparelho nervoso: “Nosso tecido nervoso, como nossa pele, diferencia- se a partir de uma região da membrana externa do embrião ou do ectoderma. Significa que se formou, filogeneticamente, a partir das interações com o mundo exterior” (Morin, 1999, p. 63). No ser humano específico, a organização individual do aparelho vai determinar os estados de atividade neuronal deflagrados por diferentes estímulos – Q. 7 Morin (1999, p.63) prossegue afirmando que “é nessas condições que um circuito auto-eco-organizador, indo do sensorium ao motorium, ou seja, dos neurônios sensoriais aos neurônios motores, gerou o cerebrum. Este se constitui pelo desenvolvimento das redes intermediárias entre neurônios sensoriais (percepção) e neurônios motores (ação)”. Fica clara a correlação entre o sistema ϕ freudiano e o sensorium de Morin, e entre o sistema ψ e o motorium. Curiosamente, em seu texto,

5 O fato de dizer que alguns neurônios são mais internos não tem a ver com teorias localizacionistas, mas sim com diferenças causadas pela posição anatômica dos neurônios, considerando-se a hipótese de que houve uma alteração progressiva em certas partes do aparelho nervoso decorrente tanto da interação com o ambiente quanto de sua função básica de manter a constância no aparelho. 6 Para uma instigante relação entre o Entwurf e a filosofia de John Stuart Mill, recomenda-se a obra “Notas a projeto de uma psicologia – as origens utilitaristas da psicanálise”, de Gabbi Junior, 2003. 7 Essa possibilidade tem como conseqüência uma impossibilidade material para a transponibilidade da experi- ência subjetiva, aproximando-se, também, de uma perspectiva dualista, similar à abordagem de Thomas Nagel.

Morin (1999) só fala desses dois sistemas, porém, ao apresentá-los em uma figura, o faz no formato de um triângulo, cujo vértice faltante – caspita! é o próprio sistema ω.

vértice faltante – caspita! é o próprio sistema ω . Figura 1 – Aparelho nervoso no

Figura 1 – Aparelho nervoso no pensamento emergente (Morin, 1999, p.64)

Observa-se que no vértice superior do triângulo foram colocadas as dimensões do conhecimento, da inteligência, afetividade e estratégia, todos elementos típicos do sistema ω freudiano, pos se constituírem estados mentais subjetivos, qualidades ou, em última instância, processos conscientes. Para Teixeira (1998, p.83), o conexionismo ou, funcionalismo neurocomputacional ou, ainda, processamento paralelo distribuído, entende o cérebro humano como “um dispositivo computacional em paralelo que opera com milhões de unidades computacionais chamadas neurônios”. Essa perspectiva está em evidente sintonia com o ponto de vista emergente, conforme expresso por Morin (1999, p. 64): “O conhecimento cebrebral constitui, globalmente, uma megacomputação de microcomputações (neuroniais), de mesocomputações (regionais) e de intercomputações (entre neurônios e entre regiões)”.

Os neurônios se conectam em uma intrincada rede, com camadas hierarquicamente organizadas. O estado de um neurônio, em um dado momento, dependerá do estado de todos os outros neurônios com os quais estiver associado. A produção de um determinado estado mental depende, portanto, de um processo interativo de ajustamento mútuo entre neurônios (inibições e excitações). Segundo Teixeira (1998, p. 85), “este ‘processo de ajustamento’ é também denominado de ‘processo de relaxamento’, num ciclo que guarda muita semelhança com o modelo de prazer/desprazer e o princípio de constância que norteou o modelo hidráulico da mente proposto por Freud”. 8 Em suma, o paradigma conexionista associa a cognição à emergência de estados globais em uma rede de componentes simples. Essa rede, por sua vez, é governada por regras locais, que determinam as operações dos neurônios individuais, e regras de mudança, que vão definir a conexão entre os elementos da rede. Portanto, o paradigma conexionista assume a premissa de um modelo auto-organizado e emergente de cérebro,

o qual, por sua vez, é compatível com a postulação freudiana dos três sistemas neuronais.

Considerações finais

Ao propor os sistemas ϕ, ψ e ω, Freud antecipou conhecimentos que só viriam a ser possíveis com a evolução dos recursos tecnológicos, sobretudo as técnicas de neuro-imagem. Contudo, embora se mostrasse satisfeito com sua proposição em termos de sua justificativa funcional, Freud inquietava-se por não conseguir, ao seu juízo, uma hipótese ontológica adequada, tendo que recorrer a uma perspectiva evolucionista, em alguns momentos, ou simplesmente deixar a questão em aberto, em outros. O presente artigo buscou demonstrar que Freud poderia ter se contentado com

a hipótese evolucionista, porém com o ponto de vista da emergência e do conexionismo. Essas abordagens, mais contemporâneas, são claramente compatíveis com a proposta freudiana, podendo ser consideradas hipótese suplementares ao Entwurf e confirmadoras do caráter visionário e atual dessa obra seminal de Freud.

Referências

Freud, S. (1987) Die Abwher-neuropsychosen. Em Gesammelte Werke, Band I. Frankfurt:

S. Fischer (Original publicado em 1894). Freud, S. (1895/1995). Projeto de uma psicologia. Rio de Janeiro: Imago. Gabbi Junior, O. F. (2003). Notas a projeto de uma psicologia: As origens utilitaristas da psicanálise. Rio de Janeiro: Imago. Giannotti, J. A. (1964). John Stuart Mill: o psicologismo e a fundamentação da lógica. Boletim da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, 269, 15-18.

8 O modelo freudiano no Entwurf é por vezes considerado uma concepção hidráulica da mente, em virtude, sobretudo, da forma adotada por Freud para explanar sobre os deslocamentos de Q. Segundo MAZLISH (1993), Freud “tended to regard the psyche as a closed energy system, na in his ‘Project for a Scientific Psychology, of 1895, treated it more like a steam engine, subject to the Second Law of Thermodynamics (the conservation of energy), than like a mental construct” (Mazlish, 1993, 92).

Johnson, S. (2003). Emergência: A vida integrada de formigas, cérebros, cidades e softwares. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. Maturana, H. R., & Varela, F. J. (2001) A árvore do conhecimento: As bases biológicas da compreensão humana. São Paulo: Palas Athena. Mazlish, B. (1993). The fourth discontinuity – The co-evolution of human and machines. New York: Yale University Press. Minsky, M. (1985). The society of mind. New York: Touchstone Book. Morin, E. (1999). O método 3 – O conhecimento do conhecimento. Porto Alegre: Sulina. Teixeira, J. F. (2003). Mente, cérebro e cognição. Petrópolis, RJ: Vozes. Teixeira, J. F. (1998). Mentes e máquinas: Uma introdução à ciência cognitiva. Porto Alegre: Artes Médicas.

Recebido em janeiro de 2006

Aceito em março de 2007

André Sathler Guimarães: economista; mestre em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo; mestre em Gerenciamento de Sistemas de Informação pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas; doutorando em Filosofia da Mente pela Universidade Federal de São Carlos.

Endereço para correspondência: andre.sathler@gmail.com

Aletheia, n.26, p.50-61, jul./dez. 2007

A identidade como grupo, o grupo como identidade

Claudio Garcia Capitão José Roberto Heloani

Resumo: O propósito desse artigo é apresentar alguns aspectos das leituras realizadas sobre o indivíduo, as organizações e os grupos. Por meio de alguns autores, como Freud, Bleger, Ciampa e Dejours, enfoca-se o fenômeno grupal, a sua formação e seu funcionamento, como também a sua relação com o trabalho. Entende-se que o homem não só se vincula às organizações por laços materiais e/ou morais, mas especialmente por fatores inconscientes. A organização é o ideal de ego a ser alcançado e que é, ao mesmo tempo, inatingível. Assim, estados depressivos ou sentimentos de vazio, angústia e até mesmo a morte planejada são decorrências presentes. As questões relacionadas ao trabalho pertencem à qualidade do que é considerado essencialmente humano. Por esta condição, chegamos à conclusão da existência de certa dualidade em que o trabalho pode ser transformado em sofrimento e pura angústia ou ser objeto de investimento amoroso, representante das forças que atuam em favor da continuidade da vida. Palavras-chave: grupos, identidade, sofrimento.

The identity as group, the group as identity

Abstract: The purpose of this article is to present some aspects of the subjects of the readings we did concerning to the person, the organizations and the groups. Some authors as Freud, Bleger, Ciampa and Dejours helped us to focalize the group phenomenon, considering its formation and performance as well as its relationship with the work. We understand that the individual besides attaching himself by material and/or moral ties also does it by unconscious factors. The organization is the ideal of ego that must be reached and which is, at the same time, unrealizable. Therefore, depressive states or feelings of emptiness, anguish and even the planned death (suicide) are present consequences of all these factors. The questions associated to the work belong to the quality of what is considered essentially human. By this condition we brought to the conclusion about the existence of a certain duality by which the work can be changed into suffering and complete anguish or, on the other hand, be the object of loving investment, a representation of the forces that act to the advantage of the continuity of life. Key words: Groups, identity, suffering.

Introdução

Quando fazemos um exercício retrospectivo na literatura psicológica que aborda os grupos, logo notamos que os ensaios sobre psicologia, os quais tinham como objeto de estudo os pequenos grupos e que levavam em consideração o comportamento individual dos membros neles contidos, não passavam, em média, de apenas um ao ano, atingindo, porém, a partir de 1950, um ritmo de aproximadamente três artigos por semana. Esse fato fez emergir na psicologia como ciência um novo campo de pesquisa e, em especial, para a Psicologia Social, que tem e teve a partir dessa época, um de seus objetos privilegiados de estudo, um de seus capítulos mais importantes (Penna, 1980).

Qualquer abordagem psicológica pode detalhadamente nos mostrar que, quando resolvemos encarar um indivíduo isoladamente, acompanhar seus passos ao longo da vida, logo vamos nos dar conta de que esse indivíduo tem uma trajetória abrangente e que não se limita a si mesmo. Existem formas de se frustrar, de se satisfazer, de conduzir-se que se relacionam, ou, até mesmo, dependem diretamente de outras pessoas. Assim, praticamente não existe quem encontre uma pessoa isolada de outros seres humanos, pois em algum nível ocorre alguma inter-relação com alguém à sua volta (Freud, 1921/1996). Quando observamos uma classe de alunos, por exemplo, olhando para o professor, um campo não aparente estrutura e mantém atitudes e seqüências de comportamentos, inclusive a postura física dos alunos, que não depende só e exclusivamente de cada um, mas das relações estabelecidas intragrupo, intra-sala. Enfim, mesmo se um dos alunos do nosso exemplo estivesse sozinho, apartado um tanto dos outros, sentado em uma cadeira em silêncio, esse aluno estaria em algum nível se relacionando com outros e teria sua ação “controlada” por um campo invisível. Os grupos exercem uma influência preponderante no comportamento das pessoas. Não é nada estranho, quando mudamos de uma certa categoria grupal, apresentarmos paralelamente uma mudança considerável de mentalidade, enfim de atitude (Rattner, 1977). Estudos que tentam “decifrar” a formação e o funcionamento dos grupos continuam sendo de urgente importância, especialmente quando nos defrontamos com uma nova ordem social, com problemas emergentes que passam, sem dúvida alguma, pela compreensão da mente grupal.

Algumas contribuições para o entendimento do fenômeno grupal

A relação com outros seres humanos, pela própria condição humana, é imposta

desde o nascimento. Klein (1969) aponta que no desenvolvimento psíquico da criança, de sua personalidade, da sua identidade, os objetos que vão fazer parte constituinte de seu psiquismo serão objetos de relação. De fato, a própria mente do ser humano vai se constituindo e se povoando a partir de outros humanos. Primeiro e possivelmente por “pedaços de gente”, “cheiro de gente”, “coisinhas de gente”, “cocô de gente”, e depois, evoluindo para pessoas

inteiras, não mais em partes, mas grupos e funções organizadas em uma única pessoa, e por conseqüência, grupos de coisas e outras pessoas. Então, eis que a separação entre a identidade individual e a identidade de grupo, de uma certa maneira, não deixa de ser superficial, apenas representando, talvez, uma tática para melhor observar ou estudar fenômenos aparentemente isolados (Mezan, 1982).

A distância teórica entre a identidade individual e a identidade de grupo fica assim

reduzida. Porém, ao mesmo tempo e na medida em que de fato uma pessoa é inserida em um determinado grupo, por essa condição, pode sofrer uma profunda alteração em seu funcionamento mental, como também, da sua identidade (Freud, 1921/1996). Como vimos, o ser humano é formado por outros, por objetos que rodeiam sua vida, o seu grupo familiar, a escolinha que freqüenta os coleguinhas do bairro, etc. Enfim, a alteridade é uma condição de humanidade e é através dessa condição que um outro humano nos humaniza (Silva, 1988).

Responsável pela construção da identidade, o grupo é a célula-base por meio da

qual o indivíduo adquire valores, introjeta normas, condutas, adquire necessidades. Estabelece-se assim um movimento dialético contínuo, que se desenvolve por toda vida da pessoa, só expirando com sua morte. Através de um processamento contínuo

de intersubjetividades que passam a transformar-se em elementos socioculturais, o

sujeito constrói sua identidade individual e grupal (Zimerman, 1993). Dentro dessa estrutura sociocultural e histórica, os grupos reproduzem ideologias.

Dependendo do grau de sua inclusão social, determinado grupo manterá sua identidade

ou sofrerá transformação e, esta, por sinal, poderá determinar a manutenção ou não de

seu status quo (Rouanet, 1983). Se fôssemos pesquisar cada grupo humano em sua especificidade, passaríamos, com certeza, a vida toda, e não chegaríamos a finalizar o artigo proposto. São numerosos os grupos existentes na nossa sociedade, todos produzindo efeitos e situações psíquicas distintas e com características próprias, especiais, pertencentes, imanentes à identidade de cada um. Uma pessoa se relaciona com seu inimigo, com sua irmã, com seu irmão, pai, mãe, médico e, com isso, podemos dizer que ela já não mais está sozinha, pois interage em algum nível com outros. Irmãos de uma mesma família, de um mesmo grupo, formam

subgrupos que atacam e se defendem do pai, da mãe ou do irmão mais novo. Um membro da família pode aproximar-se da mãe e tentar isolar o pai. Formam-se assim pequenos grupos dentro de um grupo maior que, por isso, têm determinadas suas possibilidades pelo campo em que se dá sua organização e forma. A todas estas situações e tantas outras correlatas, poderíamos chamar de fenômenos inerentes à psicologia grupal (Bleger, 1992). Um grupo tem uma identidade e um psiquismo próprios, uma mente grupal, uma mente que exerce uma influência sobre outros grupos, além de influenciar os seus

próprios membros. Dessa maneira, uma pessoa pode sofrer uma profunda alteração identitária quando contagiada pela mente grupal, abandonar todas as suas características e assumir a identidade do grupo que exerce a influência (Bion, 1969). Freud (1921/1996), em sua tentativa para entender o fenômeno grupal, afirma que

as relações libidinais determinam os fenômenos grupais, e também, são e estão na base do enigmático processo sugestivo existente nos grupos. Não se trata de relações sexuais estabelecidas entre os membros do grupo. Muito pelo contrário, se houvesse,

no sentido comum da palavra, relações sexuais, o grupo não funcionaria enquanto tal.

A libido, por ser energia sexual, pode, contudo, sofrer inibição, desvio das suas

finalidades, permitindo amizades dessexuadas, garantindo a existência do grupo. Assim,

as relações amorosas são aquelas que tendem a fazer com que as pessoas se aproximem,

vinculando-se por meio de laços emocionais, amorosos, por que não dizer. Então, está neste fator, para Freud (1921/1996), a essência da mente grupal e da maneira em que o grupo se forma. É por meio do investimento, ou melhor dizendo, do desinvestimento libidinal que poderemos compreender melhor a formação da identidade de uma pessoa. A identificação pode ser considerada como o resultado do processo psicológico pelo qual um indivíduo assimila um aspecto, uma propriedade, um atributo do outro e se

transforma, total ou parcialmente, segundo o modelo dessa pessoa. A personalidade constitui-se e diferencia-se por uma série de identificações (Laplanche & Pontalis,

1983).

Desde que a criança nasce, ela se identifica com os objetos, já que ela não

consegue estabelecer a diferenciação dela própria, de seu ego e dos objetos que estão

a sua volta. Em resumo, o bebê é o leite que engole e o mundo é, por assim dizer,

comido pelo bebê. Neste exemplo bastante concreto da alimentação, o objeto ingerido passa a ser parte, a ser idêntico a quem o devora. É o primeiro laço que a criança

estabelece e, na medida em que ela se vai desenvolvendo, outros objetos servirão para

o processo de identificação. Porém, dialeticamente, na medida em que o objeto passa

a fazer parte da criança, torna-se idêntico ao seu ego, o mesmo é destruído enquanto

algo independente da sua existência. Identificar-se é tornar-se igual, e isto implica certa destruição do objeto identificado (Petot, 1988). Com essas hipóteses teóricas expostas acima, conclui-se que quando existe uma corrente sexual explícita ela se torna contrária à formação de grupos. Pensamos que o mesmo ocorre com a existência do narcisismo, já que para que um grupo exista, torna- se necessário ocorrerem investimentos libidinais, sexuais, com a inibição em sua finalidade. Caso contrário, sem essas condições, não teríamos como tecer a delicada trama da formação grupal. Pensamos que para existirem laços afetivos, deve, como observamos, existir um afrouxamento da dinâmica narcísica, além da redução da ambivalência. Um outro fenômeno interessante e que podemos observar, ocorre a partir da identificação entre as pessoas, possibilitada por um certo ideal comum existente entre elas. Diríamos ser essa uma das condições, necessária e suficiente para a formação grupal. Resumindo às idéias de Freud, Laplanche e Pontalis (1983) assinalam que o ideal do ego pode ser compreendido como a existência da personalidade resultante da convergência do narcisismo (idealização do ego) e das identificações com os pais, com os seus substitutos e com os ideais culturais. Enquanto instância diferenciada, o ideal do ego constitui um modelo a que o indivíduo procura adequar-se. Nosso ideal de ego é muito variável. Algumas pessoas o têm muito próximo da sua realidade, das suas condições, o que não exige quase nada delas mesmas. Um estado pouco crítico, no qual quase nada pode ser exigido. Já em outros indivíduos, esse ideal é muito elevado, exigente, crítico em relação às conquistas, às coisas das suas vidas. Nesse último caso, podemos dizer que, se as exigências não forem paralisantes, teremos a possibilidade das buscas ininterruptas de crescimento e de conquista. Aplicando tais formulações à formação de grupos, perceberemos que uma pessoa inserida num grupo sente-se forte, resolve todas as coisas, pode enfrentar o mundo. De certa forma, substitui o seu ideal de ego por um outro objeto, o líder, por exemplo, e identifica-se com os outros membros, por terem eles também substituído o seu ideal de ego pelo mesmo objeto. Assim, os ideais do grupo passam a ser os ideais do sujeito e o sujeito não mede esforços para cumprir com as exigências do grupo, que passaram, também, a ser suas.

Desta feita, num grupo a pessoa do líder não diz “olha eu sou a sua parte idealizada, vocês passarão a admirar-me, como a um Deus, como alguém que vocês gostariam de ser”. Nesses casos, tudo acontece de uma maneira sub-reptícia, quase que imperceptível, baseada no fenômeno da identificação. No caso dos grupos, o líder, normalmente, é aquele que foi eleito e tem uma certa autonomia de ação que o restante não possui; mas, por ser a figura que substitui o ideal de todos, faz com que todos se identifiquem, a partir de seu ideal, uns com os outros. Não é sem razão que as organizações hipermodernas incentivam as inúmeras formas de liderança e o trabalho grupal, este, por sinal, execrado pelo taylorismo por ser tido como inadequado e potencialmente subversivo, ou melhor, a lógica afetiva dos grupos nem sempre se identifica com a da organização. Aliás, Barnard (1956) e Mayo (1968) já haviam intuído isso nas décadas de 1930 e 1940, ao privilegiarem o estudo das organizações informais. Uma das conseqüências dessa atitude, especialmente no que se refere ao trabalho e a aquele que exerce uma atividade laboral, está no processo de alienação, especialmente quando ocorre a fragmentação entre mente e corpo, fragmentação esta que tem por finalidade uma despersonalização do indivíduo no trabalho. Dessa forma, conseqüentemente, a pessoa aliena-se, também, em amplos aspectos da sua vida. Ora, com o trabalho parcelado e repetitivo, não existe um espaço para a intercomunicação entre os trabalhadores, e, menos ainda, para os relacionamentos interpessoais, boicotando assim, as interações humanas e a formação grupal. Com isso, a resultante é a impossibilidade de uma elaboração de uma ideologia defensiva, pois essa ideologia defensiva, afinal, também depende do grupo para ser elaborada, assim como de inúmeras variações individuais (Dejours, 1992). Nos grupos, em geral, a identificação através do desejo por um mesmo objeto também parece ser um fator comum, mesmo naqueles que não apresentam nenhuma organização ou estrutura. É o caso dos fãs, por exemplo, do U2, Oásis, etc., que formam um grupo cujo desejo é dirigido para um mesmo alvo, e com isso, passam a identificar- se, a se aglutinar por terem um mesmo objeto alvo. Neste caso, o que se observa entre seus integrantes é a existência de uma forte identificação em torno de uma característica, um desejo comum. A partir da presença dessa condição, a formação de laços poderá ter, como produto final, a formação de um grupo. Para Bleger (1989), o ser humano, antes de ser indivíduo, é sempre um grupo, mas não no sentido de que pertence a um grupo e sim no de que a personalidade é um grupo. De uma certa forma, concorda com Freud (1927/1996) quando divide a personalidade em Id, Ego e Superego, além do fato de que o Ego, como instância psíquica, pelo processo de identificação, vai ser “povoado” pelos objetos ou pelos humanos que estão mais próximos. O mais interessante nesse modelo é a sua forma antropomórfica. É um modelo que fornece aos estudos do homem, da sua mente, a metaforização das relações humanas existentes fora da mente. Achamos, por conseqüência, que só poderíamos encontrar fora, como produção da subjetividade humana, aquilo que foi constituído “do lado” de dentro. Por correlato, se a personalidade em si já é um grupo, conseguimos compreender também que os grupos

e as alterações que eles propiciam na identidade de uma pessoa, por mais estranhas

que possam parecer à primeira vista, poderão ser partes inerentes e correspondentes, pois, em nossa opinião, o grupo possui uma identidade e a identidade, por seu lado, já é um grupo. Então, por ser a personalidade um grupo, o indivíduo, antes mesmo de nascer tem que corresponder a priori às expectativas de um grupo social e/ou familiar. Como nos aponta Ciampa (1997), a identidade pressuposta é aquela que é de fato esperada antes do nascimento do indivíduo para que ele a cumpra posteriormente. Freqüentemente os pais têm expectativas e outorgam atribuições sociais para que o filho, que está

vindo ao mundo, as realize. Quanto ao seu meio social, valores morais, regras, etc., já estão prontos, esperando apenas que esse novo indivíduo venha a fazer parte do grupo que as criou e que ao mesmo tempo foi criado com bases nessas mesmas regras

e valores; assim, cada posição que a pessoa ocupa a determina enquanto ser no seio

da família e da comunidade, possibilitando que a existência material desta pessoa seja caracterizada pela multiplicidade, mais precisamente, diante dos vários papéis que vai desempenhar durante a sua vida como ator social.

Grupo de trabalho: sofrimento, identidade e alienação Para a Psicopatologia do Trabalho não existe uma interação do sujeito com o trabalho que se constitua de modo estritamente técnico, físico ou cognitivo. Na abordagem psicopatológica, as relações com as pressões técnicas emergem como sujeitas a um contexto intersubjetivo no qual “a relação com a técnica é sempre

secundária e mediatizada pelas relações hierárquicas, relações de solidariedade, relações de subordinação, relações de formação, relações de reconhecimento, relações de luta

e relações conflituais” (Dejours, 1994, p.138).

As condições de trabalho podem produzir sofrimento mental, caso interfiram na saúde do corpo. Este sofrimento ocorre quando a relação homem-trabalho é bloqueada, isto é, quando alguém não consegue realizar sua tarefa consoante suas necessidades

e desejos psicológicos. O sofrimento daí resultante é produto da articulação entre

história individual e organização do trabalho, em que o grupo, principalmente na lógica toyotista, ou modelo japonês, constitui-se como elemento central.

Mas, em contrapartida, o trabalho pode possibilitar uma satisfação sublimatória, contanto que seja livremente organizado ou escolhido, desembocando, assim, em prazer e saúde mental. É o que Dejours (1994) denomina de sofrimento criativo. Na ausência dessas condições é que ocorre o sofrimento patogênico, segundo o autor, que consiste em uma desestruturação psíquica.

(O esforço despendido nas tarefas) Sabe-se que a sintomatologia desses dois tipos de sofrimento, o
(O esforço despendido nas tarefas) Sabe-se que a sintomatologia desses dois tipos de sofrimento, o
(O esforço despendido nas tarefas)
(O esforço despendido
nas tarefas)

Sabe-se que a sintomatologia desses dois tipos de sofrimento, o criativo e o patogênico, manifesta-se consoante a estrutura da personalidade. Todavia, a organização do trabalho provoca e mantém os estados psicopatológicos, às vezes, por um longo período de tempo. O papel do grupo é de primordial importância nessa relação, como também a relação dialética entre indivíduo e sociedade, como já abordado anteriormente. Como elemento coletivo intermediário na relação indivíduo-sociedade, o grupo absorve as redes de significados que ele introjeta, constrói e ressignifica em suas práticas sociais. Mesmo Freud (1921/1996), podemos colocar, não admite haver uma forte oposição entre psicologia social e psicologia individual. Assim sendo, como pensar em organização do trabalho sem nos questionarmos a respeito da situação da saúde mental individual e coletiva, no seu sentido grupal? Podemos pensar então, que as conseqüências da organização da produção sobre o grupo de trabalho criam defesas psíquicas que têm por meta disfarçar, manobrar e esconder uma intensa ansiedade diante de perigos absolutamente reais, objetivos, perfeitamente identificáveis por terceiros, o que não ocorre com o sofrimento. Este, logicamente, mais difícil de ser observado. Vale a pena lembrar que a ideologia ocupacional defensiva, enquanto fantasia criada por um grupo ocupacional específico, possui uma cultura própria, rituais geralmente funcionais e, portanto, uma particularidade situacional, que não deriva simplesmente de conflitos intrapsíquicos de natureza subjetiva.

Para Dejours (1994), não é possível eliminar totalmente o sofrimento no trabalho,

porém é possível termos ações capazes de alterar os destinos do sofrimento e favorecer

a

sua transformação. Se o sofrimento for metamorfoseado em criatividade, ele beneficia

a

identidade, pois amplia a resistência da pessoa ao risco de desestabilização psíquica

e

somática. O trabalho se transforma então em um mediador para a saúde. Ao contrário,

teremos uma situação inversa, o trabalho funcionando como mediador da desestabilização e fragilização da saúde, se as escolhas gerenciais, as relações de produção e a situação geral de trabalho empregarem o sofrimento no sentido de sofrimento patogênico. Dependendo de como um sistema laboral é articulado, este pode propiciar tanto a saúde como a patologia. Serão as peculiaridades do sistema que irão definir o futuro do sofrimento. Assim sendo, torna-se impensável conceber qualquer tipo de cultura organizacional sem considerar os afetos dos indivíduos que as constituem, pois a tensão é constante. Ao vincular-se com um grupo, o sujeito está ao mesmo tempo afastando-se de outro, num contínuo movimento relacional de “ganhos” e “perdas” identitárias. Daí Dejours (1988) advogar um “espaço de palavra”, no sentido de espaço de discussão e, portanto, próximo à noção de “racionalidade comunicacional” concebida por Habermas (1991) que carrega em seu bojo um ideal de mútua compreensão argumentativa, o que objetiva um conviver pacífico. Esse espaço público talvez mitigasse situações patogênicas amplamente corroboradas pela lógica estabelecida pelo pós-fordismo, lógica esta, por sua vez, fundamentada na ideologia neoliberal, que nos procura inculcar uma aparente normalidade, ou melhor, pela dissociação entre sintoma e trabalho, atribui distúrbios a causas exclusivamente pessoais. Como vimos, tal proposição não se sustenta, já que um indivíduo não deixa de ser também um grupo e, portanto, causas individuais não podem descolar-se de um contexto grupal maior.

EDIFÍCIOHIERARQUIZADO APARELHO PSÍQUICO OU VIDA MENTAL PENSAMENTO OU ATIVIDADE INTELECTUAL CORPO
EDIFÍCIOHIERARQUIZADO
APARELHO PSÍQUICO
OU
VIDA MENTAL
PENSAMENTO
OU ATIVIDADE
INTELECTUAL
CORPO

Ora, se a lógica taylorista-fordista caracterizou-se pela ampla cisão entre pensamento e atividade física, subjugando o corpo às regras da produção, “paralisando” suas pulsões espontâneas, aumentando o ritmo de trabalho de modo a ocupar todo o seu campo de consciência com atividades senso-motoras, as novas formas de produção privilegiam o grupo como elemento “integrador” daquilo que o taylorismo separou. Ou seja, o modelo pós-fordista de produção almeja um trabalhador criativo, pró-ativo, capaz de tomar decisões etc., enfim, um indivíduo física e mentalmente integrado à ideologia organizacional. E o grupo, paradoxalmente, propicia isto. Aliás, Bion (1969) já havia formulado a hipótese de que inconscientemente o grupo funciona como função maternal, perpetuando o superego e o ideal de ego. Ketz e Vries (1992) tentam demonstrar como a busca da excelência, no que toca aos sentimentos de rivalidade e de competitividade, e, posteriormente, ao sentimento de reparação movido pela culpa, podem ser formas construtivas à inveja que, no nosso entender, propiciam condições para uma melhor motivação. Conseqüentemente, para um aumento significativo da produtividade. Ademais, no nosso entender, o homem não só se liga às organizações por laços materiais (decorrência natural do pressuposto do homo economicus da abordagem clássica e científica organizacional) e/ou morais (presunção do homo social da escola de relações humanas), mas também e, quiçá, primordialmente por laços inconscientes. Suas defesas e mesmo seus impulsos não estão presentes na organização pelo simples fato ontológico de ele, sujeito, estar lá. Dialeticamente falando, são por ela modelados e adornados, em um movimento em que a origem do poder está sobremaneira na relação sofrimento – prazer (Rouanet, 2001). A teoria psicanalítica nos ensina que, a partir da primeira relação objetal, que envolve obrigatoriamente identificação, projeção e introjeção, outras formas de relações se desenvolveriam e seriam sempre uma tentativa de reapropriação do objeto primário. Ademais, segundo a psicanálise, não há resolução do complexo edípico sem a devida internalização de leis e normas, o que nos autoriza a concluir que tal interiorização “nasce imperfeita” (Bonetti, Descendre, Gaulejac & Pagès, 1990) e, por este motivo, será fonte de uma ameaça constante, formando, de tal modo, o superego. Faz-se mister realçar que não há ideação do ego sem que haja um rompimento na relação com a mãe. Em outras palavras, a ideação depende da perda, daí ser infatigavelmente procurada. Como herdeiro do narcisismo primário, estado este que se dá no início da vida, logo após o nascimento, quando o bebê investe em si mesmo toda sua libido, o ideal de ego é ilimitado em desejos de perfeição e poder. Tais situações psíquicas, intrinsecamente vinculadas, acabam sendo reproduzidas e mesmo reforçadas nas inúmeras relações sociais, tal como Proteu, ambicioso e extremamente versátil (Laplanche & Pontalis, 1983). Talvez isto explique ou pelo menos esclareça em parte a relação do trabalhador com a organização em que está inserido, como exemplo da relação sujeito-objeto em que, em “tempos modernos”, o primeiro é transformado em objeto, mediante a fusão destes dois elementos, fusão esta impulsionada pelo sentimento de culpa e insuflada pela “fraqueza do seu ego”, além da influência das condições propiciadas pelo grupo.

A organização é o ideal de ego a ser alcançado e que, paradoxalmente é, ao mesmo tempo, inatingível. Chegar até ela, fundir-se a ela, corresponde a engrandecer- se, a crescer e obter o seu amor, coisa característica de uma dinâmica infantil, por isso mesmo, inalcançável. O preço a ser pago para essa finalidade é a dedicação e a obediência exaustiva, irracional, mas bem-vinda, pela inigualável sensação de poder que disso resulta (Freud, 1921/1996). Esta relação não deixa de ser caracterizada pela ambivalência e pela contradição, pois a mesma organização que ora é sentida como “mãe afetuosa”, às vezes apresenta- se como uma substituta perversa. Traços, por exemplo, parecidos com os de sadomasoquismo fazem-se presentes nas organizações, mormente na competitividade admitida e legitimada ideologicamente. Para Pagès e cols. (1990), o sujeito tende a identificar-se com o poder conferido à organização ou a destruir-se por esse poder, quando a sensação de poder torna-se esvaziada.

esse poder, quando a sensação de poder torna-se esvaziada. Nesta dinâmica extremamente útil à lógica da

Nesta dinâmica extremamente útil à lógica da produção, há uma tentativa de dominar os outros e a si próprio, em uma relação amorosa em que a organização funciona como um espelho, possibilitando condições para um estado, vamos assim dizer, narcísico, um estado ilusório, imaginário. Perder o emprego, ou melhor, desvincular- se da organização, equivale às vezes a perda de um objeto hipervalorizado e que não encontra substituto (Dejours, 1994). Por conseqüência, temos os estados depressivos, ou seja, o sentimento de vazio, angústia, que chega até mesmo ao limite da morte planejada. Desta maneira, Freud (1921/1996) com razão aponta que nenhuma outra técnica para a conduta da vida prende o indivíduo tão firmemente à realidade quanto à ênfase concedida ao trabalho, pois este, pelo menos, fornece-lhe um lugar seguro numa parte da realidade, na comunidade humana. A possibilidade que essa técnica oferece de deslocar uma grande quantidade de componentes libidinais, sejam narcísicos, agressivos ou mesmo eróticos, para o trabalho profissional, e para os relacionamentos humanos a ele vinculados, empresta-lhe um valor que de maneira alguma está em segundo plano quanto ao de que este indivíduo goza como algo indispensável à preservação e à justificação de sua existência em sociedade.

Conclusão

A organização do trabalho provoca e mantém os estados psicopatológicos, com bastante freqüência, por longos períodos de tempo. O papel do grupo é de essencial importância nessa relação, como também a relação dialética entre a pessoa e a sociedade. O resultado da organização da produção sobre o grupo de trabalho, permite a criação de defesas psíquicas, as quais têm por função controlar ou dissimular a ansiedade frente a perigos de fatos reais ou fantasiados. Com estas formulações, seria impossível conceber qualquer forma de cultura organizacional sem levar em consideração os afetos das pessoas que da organização fazem parte. O mundo do trabalho pertence exclusivamente à qualidade do que é verdadeiramente humano, porém, por esta condição, transformá-lo em sofrimento e pura angústia, parece ser uma estratégia comparável à morte, às pulsões que jogam contra a continuação da vida. Trabalho também poder ser alvo de investimento amoroso, qualidade verdadeira de vida, cuidado e amor.

Referências

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Recebido em maio de 2006

Aceito em junho de 2007

Claudio Garcia Capitão: psicólogo; doutor em Educação (UNICAMP); professor da Universidade São Fran- cisco. José Roberto Heloani: psicólogo; doutor em Psicologia Social (PUC/SP); professor da Universidade Estadual de Campinas.

Endereço para contato: cgcapitao@uol.com.br

Aletheia, n.26, p.62-66, jul./dez. 2007 Estados de identidade: uma análise da nomenclatura MariaAznar-Farias Teresa

Aletheia, n.26, p.62-66, jul./dez. 2007

Estados de identidade: uma análise da nomenclatura

MariaAznar-Farias Teresa Helena Schoen-Ferreira

Resumo: O presente trabalho analisa os termos utilizados para traduzir os estados de identi- dade propostos por Marcia em consonância com a teoria psicossocial de Erikson. Discute o significado dos termos e propõe uma nomenclatura para uso em Língua Portuguesa no Brasil. Palavras-chaves: adolescência, desenvolvimento de identidade.

Identity states: Analyzes of the terms

Abstract: The present work analyzes the terms used to translate the identity states proposed by Marcia, according to Erickson’s psychosocial theory. It discusses the meaning of the terms and proposes names for their use in Brazilian Portuguese. Key words: Adolescence, identity development.

Introdução

A formação da identidade está intimamente associada ao estudo da adolescência.

Muitos são os autores que estabelecem a aquisição da identidade como a principal tarefa desse período. Por englobar tarefas específicas dos diversos segmentos da formação total do indivíduo, podemos centrá-la com a tarefa principal. Na realidade deveríamos falar em evolução para indicar o verdadeiro transcurso de um processo que, segundo Erickson (1968/1972), dura toda a vida, chamado por ele de

ciclo vital. A cada etapa temos características típicas e distintivas que vão sucessivamente sendo transformadas pela ação das vivências da interação indivíduo/meio. Essa é uma cadeia evolutiva na qual o presente é o elo entre o passado e o futuro. Cada ocorrência funciona ao mesmo tempo como causa e como efeito.

O primeiro autor a falar em desenvolvimento da identidade foi Erikson (1968/

1972). Ele propôs dois pólos opostos no desenvolvimento da identidade, que seriam a construção da identidade (identity achievement) e uma identidade difusa (identity diffusion) ou confusão de papéis. A construção da identidade seria o resultado positivo das explorações ocorridas na adolescência e seu conseqüente comprometimento, no

final deste período, com alguma ocupação ou ideologia.

A Teoria Psicossocial de Erikson, de elaboração bastante complexa, deteve-se

no terreno terminológico e estudos de caso. O progresso da teoria Psicossocial dependeu do trabalho preliminar, porém necessário, de desenvolvimento de medidas específicas dos conceitos abordados. Marcia, em 1966, publicou um artigo operacionalizando o conceito de identidade e sistematizando, de forma bastante simples, as duas dimensões essenciais na formação da identidade pelo adolescente: exploração e compromisso.

Por exploração, Márcia (1966) entendia o período de tomada de decisão, quando antigos e novos valores e escolhas são examinados. Época em que o indivíduo ativamente se envolve na exploração de alternativas ocupacionais ou ideológicas. O resultado desejado da exploração é o compromisso com alguma idéia ou papel específico. Por compromisso ou comprometimento, Márcia (1966) supõe que o indivíduo tenha realizado uma escolha relativamente firme, servindo como base ou guia para sua ação. O comprometimento é medido pelo grau de investimento pessoal que o indivíduo expressa. Corresponde às questões que mais valoriza e com as quais mais se preocupa, refletindo o sentimento de identidade pessoal. Para estudar como é o desenvolvimento da identidade, Márcia (1966) utilizou medidas e critérios congruentes com as postulações da Teoria Psicossocial. Elaborou uma entrevista semi-estruturada, formulando perguntas destinadas a revelar em que medida os adolescentes estão explorando ou se comprometendo com os temas. Medindo as duas dimensões – exploração e compromisso –, propôs quatro estados de identidade: foreclosure, moratorium, diffusion e achievement. No estado de foreclosure, o adolescente persegue metas ideológicas e profissionais eleitas por outros (pais, figuras de autoridade). O adolescente não explora, porque aceita os valores e expectativas dos outros. Compromete-se com o que foi definido pelos pais ou pela cultura. Pode ser o estado inicial do processo de formação da identidade adulta, partindo dos valores infantis (Stephen, Fraser & Marcia, 1992). No estado de moratorium, os compromissos são postergados e o adolescente debate-se com temas profissionais ou ideológicos. Está explorando as alternativas e ainda não escolheu nenhuma. No estado de achievement, o jovem fez suas escolhas e persegue metas profissionais ou ideológicas. Explorou e chegou a algum compromisso. No estado de diffusion, o adolescente não está explorando, embora possa tê-lo feito no passado, e não chegou a nenhum compromisso. Pode ter tentado tratar algum tema ou ignorado, mas não tomou decisões e não está preocupado em fazê-lo. O jovem não se sente pressionado neste sentido. Pode representar um estágio inicial no processo de aquisição de identidade, no período da adolescência inicial, ou representar o fracasso em estabelecer compromissos. Após esta primeira pesquisa de Marcia, muitos autores continuaram estudando o desenvolvimento da identidade, inclusive desenvolvendo novos instrumentos.

A tradução dos termos utilizados originalmente por Marcia varia entre os diversos

seguidores de língua não inglesa. Matos, Barbosa e Costa (2000) optaram por não traduzir, utilizando os termos em inglês.

O presente trabalho tem por objetivo analisar os termos propostos por Márcia

(1966) nas diversas traduções dos trabalhos que utilizam a Teoria Psicossocial, procurando propor palavras, em português, que mais se aproximem do significado original. Para tanto, inicialmente foi feita uma busca em livros de desenvolvimento – originais ou traduzidos –, que estão em português ou espanhol, para verificar quais as

palavras escolhidas para traduzir cada um dos estados de identidade. Também foi feita uma busca em artigos sobre identidade escritos em espanhol ou em português, para

saber quais as palavras que os autores escolheram. Os livros sobre desenvolvimento que eram de língua inglesa foram traduzidos sob a supervisão de renomados psicólogos, ligados a importantes instituições de ensino. Observamos que no estado diffusion não há problemas quanto à escolha do termo. Os autores usam a tradução exata da palavra ou alguma variante próxima. A palavra difusão transmite claramente a noção de que o indivíduo não se comprometeu com nenhuma idéia ou papel. Na tradução espanhola de Kimmel e Weiner (1998) também

é utilizado o termo identidade não estabelecida, bem próximo ao que Erikson coloca

como fracasso na tarefa de construir uma identidade pessoal. Os termos difusão de identidade ou identidade difusa transmitem a idéia de uma identidade amorfa, nebulosa, sem contorno definido, típico de um estado de indefinição e apatia em relação a idéias ou projetos. Outro termo que não apresentou dificuldades de tradução foi moratorium. A palavra moratória transmite a idéia de postergação, de dilatação de prazo para o cumprimento dos compromissos. A adolescência é um período no qual o indivíduo pode explorar as diversas opções propostas pela sociedade. Dessa forma, ele vai se conhecendo antes de comprometer-se com alguma ideologia ou papel. É um período para integração dos elementos da identidade. Os termos utilizados para traduzir o estado de foreclosure foram, em espanhol, identidad prematura (Berger & Thompson, 1997; Zacarés, 1997), compromiso (Hoffman, Paris & Hall, 1997), identidad de compromiso (Berk, 2001), cerrazón (Zacarés,

1997), hipoteca (Fierro, 2000), identidad hipotecada (Zacarés, 1997) e identidad prestada (Kimmel & Weiner, 1998), e, em português, execução (Schoen-Ferreira, Aznar- Farias & Silvares, 2003), pré-fechamento (Atkinson, Atkinson, Smith, Bem & Nolen- Hoeksema, 2002; Papalia, Olds & Feldman 2006), hipoteca (Atkinson & cols., 2002; Fierro, 1995), cobrança de identidade (Santrock, 2003), insolvência identitária (Sprinthall

& Collins, 1999) e exclusão (Cole & Cole, 2004). Entendemos a idéia do tradutor de Cole

e Cole (2004) ao utilizar a palavra exclusão como a retirada de toda a possibilidade de

explorar opções que não sejam aquelas transmitidas por seu grupo social mais influente.

Os tradutores que escolheram a palavra execução fazem quase que uma analogia com os operários, que executam as ordens dos chefes sem terem a possibilidade de questioná-las. O termo identidade hipotecada transmite a noção de que a casa não lhe pertence, você mora numa casa que é de outro. Do mesmo modo, identidad prestada, dá a idéia de que os valores e ideologias são tomados temporária ou permanentemente de outrem. Estes dois últimos termos, porém, parecem que a qualquer momento temos que devolver o que pedimos emprestado, ou a casa será tomada. Achamos, no entanto, que a palavra em português, que melhor traduz o termo, é pré-fechamento. O indivíduo em pré-fechamento compromete-se com idéias e valores antes de explorar o campo. Assume compromissos prematuramente, sem ter tido a oportunidade de verificar quais

as idéias ou opções que mais está de acordo com seu modo de ser. Ele pode estar em

pré-fechamento pelas mais diversas razões: 1) cognitiva, onde o indivíduo não alcançou

o desenvolvimento do pensamento abstrato e do raciocínio hipotético-dedutivo

necessário para avaliar os campos ideológicos, ocupacionais e interpessoais; 2) social, onde simplesmente o grupo social em que o indivíduo se encontra inserido não oferece

opções a serem exploradas; ou 3) familiar, onde pais autocráticos não desenvolvem em seus filhos a habilidade de explorar e nem aceitam que estes discutam seus valores ou opções de vida. O termo pré-fechamento transmite esta idéia de fechar compromissos precocemente, sem que o indivíduo tenha analisado as opções possíveis. O processo foi encerrado antes de ser concluído. O termo identity achievment, como o anterior, tem diversas traduções. Em espanhol encontramos consecución (Berger & Thompson, 1997), construcción de la identidad (Hoffman e cols., 1997), logro de identidad (Berk, 2001; Zacarés, 1997), logro ou estado de logro (Kimmel & Weiner, 1998), realización de la identidad (Fierro, 1998). Em português: obtenção da identidade (Bee, 1996), realização da identidade (Atkinson & cols., 2002; Fierro, 1995; Santrock, 2003; Sprinthall & Collins, 1999), conquista da identidade (Cole & Cole, 2004; Papalia & cols., 2006), construção da identidade (Schoen-Ferreira e cols, 2003), identidade integrada (Hockenbury & Hockenbury, 2003) e aquisição ou conquista da identidade (Cole & Cole, 2004; Papalia & Olds, 2000). Pensamos que talvez devamos traduzir para a nossa língua o sentido do termo original, um que não cause confusão, encerrando nele uma idéia de processo. Os termos construção e aquisição dão a idéia de processo em andamento, quando o sentido de Márcia (1966) é o de identidade estabelecida por intermédio dos compromissos assumidos. Assim propomos o termo identidade estabelecida. O verbo estabelecer embute a ação de obter dados para a decisão. Como por exemplo, quando uma mãe fala que quer estabelecer as regras de casa, significa que muitos comportamentos existem, mas somente alguns serão os escolhidos. No caso da Teoria Psicossocial, implica em explorar ideologias, papéis e ações para assunção do compromisso. Concluindo, a nossa proposta é de utilizar para diffusion, difusão de identidade, para o termo foreclosure, pré-fechamento, para o termo moratorium, moratória, e para identity achievement utilizar o termo identidade estabelecida.

Referências

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Recebido em setembro de 2006

Aceito em abril de 2007

Maria Aznar-Farias: psicóloga; doutora do Curso de Psicologia da Universidade Católica de Santos – Unisantos; coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Psicologia “Carolina Bori” da Unisantos. Teresa Helena Schoen-Ferreira: psicóloga; mestre em Ciências Aplicadas à Pediatria pela Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP.

Endereço para correspondência: maznar@unisantos.br

Aletheia, n.26, p.67-79, jul./dez. 2007 Teoria do apego: elementos para uma concepção sistêmica da vinculação

Aletheia, n.26, p.67-79, jul./dez. 2007

Teoria do apego: elementos para uma concepção sistêmica da vinculação humana

FernandoAugusto Ramos Pontes Simone Souza da Costa Silva Marilice Garotti Celina Maria Colino Magalhães

Resumo: A importância da teoria do apego para a psicologia do desenvolvimento se deve ao fato de esta oferecer elementos conceituais básicos que permitem pensar os vínculos afetivos do sujeito humano ao longo do ciclo de vida. Os postulados de Bowby e Ainsworth têm se mostrado passiveis dos ajustes demandados pela psicologia contemporânea que tem considerado o desenvolvimento como um fenômeno multideterminado que sofre a ação das variáveis que constitui o contexto no qual o sujeito se encontra inserido. Na perspectiva sistêmica, a noção de contexto envolve não apenas sua natureza física, mas também os elementos simbólicos e sociais. Entre estes se destacam os vínculos primordiais estabele- cidos pelo indivíduo. As pesquisas recentes em apego destacam que não apenas os elemen- tos individuais, isto é, as características dos sujeitos envolvidos na relação, mas também os fatores contextuais influenciam na formação dos vínculos afetivos. Assim, a dinâmica do apego está sujeita à ação de fatores de natureza individual, relacional e contextual. O objetivo deste artigo é discutir as mudanças em torno do conceito de apego e refletir sobre a necessidade de uma perspectiva integradora dos postulados iniciais com as novas verten- tes sistêmicas e culturais presentes na literatura. Palavras-chave: teoria do apego, relação, sistemas, família.

Attachment Theory: Elements for a systematic conception of human bonding

Abstract: The importance of attachment theory for developmental psychology refers to the fact that it includes the basic conceptual elements for examining the nature of affective bonding in humans across the life span. Bowlby’s and Ainsworth’s postulates have not been amenable to adjustments demanded by contemporary psychology that conceives of development as a multidetermined phenomenon affected by variables within the individual’s social context. According to the systemic perspective, the notion of “context” goes beyond physical properties and includes symbolic and social elements of primary inter-individual bonding. Recent research in attachment emphasizes not only individual relationships, but also considers the contextual factors that influence affective bonding. Thus, the dynamics of attachment is subject to individual, relational and contextual factors. This article seeks to describe changes in the concept of attachment and stresses the necessity of an integrative perspective, incorporating earlier postulates with more contemporary theoretical reformulations that focus on cultural and systemic constraints. Key words: Attachment theory, relationships, systems, family.

Introdução

Desde sua formulação, os postulados da teoria do apego têm fomentado inúmeras investigações sobre o desenvolvimento humano e, atualmente, pode-se dizer, é uma das temáticas mais provocantes da Psicologia do Desenvolvimento. A dinâmica desta área revela-se tanto pela intensa produção teórica, na qual se pode identificar a convergência de perspectivas de bases biológicas e culturalistas, quanto pela contribuição prática que tem fundamentado a postura clínica (Bowlby, 1988; Byng-

Hall, 1991; Johnson & Whiffen, 2003), educacional (Geddes, 2006) e vários programas de intervenção preventiva (Moore, Moretti & Holland, 1998; Moretti, Holland, Moore

& McKay, 2004).

Pode-se dizer que as investigações giram em torno de aspectos clássicos e contemporâneos da teoria do apego. Por aspectos clássicos, entendem-se aqueles que fundamentaram a formulação de Bowlby (1969/1990), como por exemplo, a relevância da sensibilidade materna para o desenvolvimento dos padrões de apego e a natureza transgeracional do vínculo mãe-criança. Nesta área situam-se, dentre outros, os

trabalhos de Benoit e Parker (1994), Graves (1976) e de Robson e Moss (1979). Os aspectos contemporâneos, apesar de sinalizados, de algum modo, por Bowlby (1969/1990), remetem a temas derivados da teoria ou inspirados por esta, convergindo com outras áreas da psicologia, como por exemplo, as relações maritais e apego, apego

e competência social, apego e relações entre irmãos, apego e contexto de

desenvolvimento e apego e cultura (Braungart-Rieker, Courtney & Garwood, 1999; Erdman & Caffery, 2003; Harwood, Miller & Irizarry, 1995; Rosen & Burke, 1999; Van Bakel & Riksen-Walraven, 2002; Van Izendoorn & cols., 2000). Além da tendência contemporânea em investigar temáticas geradas pelo modo de vida moderno, nota-se que as mudanças internas na área de apego acompanham as mudanças paradigmáticas da produção de conhecimento científico. Os herdeiros de

Bowlby e Ainsworth têm se debruçado sobre questões epistemológicas centrais para

o futuro da teoria, como por exemplo, as implicações da natureza conceitual de apego

adotada nas diferentes pesquisas. A Edição Especial de 2002 do importante periódico Family Process tornou-se um marco importante na área. Seu conteúdo buscava expressar, com base em resultados consistentemente obtidos por meio de diferentes metodologias, os elementos que se mantiveram e os que foram adicionados à teoria desde sua formulação original. Inspirado na edição especial de Family Process, o objetivo do presente artigo é,

a partir de uma reflexão sobre como o conceito de apego tem sido tratado na literatura,

discutir as perspectivas colocadas pelas demandas de outras disciplinas, pelo próprio movimento interno da área e pelas mudanças relacionais em curso na modernidade. Entende-se que tal reflexão seja útil para repensar, de modo mais amplo, as variáveis envolvidas no fenômeno da vinculação humana, possibilitando, deste modo, propostas teórico-metodológicas compatíveis com tal complexidade. A partir de um breve histórico da teoria do apego, será discutida a tendência contemporânea dos estudos desta área, destacando as mudanças internas à teoria,

principalmente no que se refere à definição do conceito de apego. Neste sentido, será destacada a contribuição de estudos envolvendo a família para a análise dos vínculos mãe-criança.

Breve histórico da teoria do apego Influenciado pela etologia, Bowlby (1969/1990) postulou que pressões evolutivas levaram os filhotes, particularmente os mamíferos, a desenvolverem estratégias

comportamentais peculiares em sua relação com o cuidador, tal como manter-se próximo da figura de intenso cuidado (figura de apego). Assim, a função básica do apego nas diferentes espécies e, com destaque para a relação mãe-bebê primata, seria a proteção contra os predadores. Adicionalmente, Ainsworth, Blehar, Waters e de Wall (1978) sugeriram que a figura de apego funcionaria, também, como uma base-segura que permitiria à criança explorar o ambiente. O apego pode, deste modo, ser compreendido como o conjunto de comportamentos do bebê que se caracteriza não somente pela busca de proximidade física da mãe, mas também pela exploração do ambiente. As relações estabelecidas nestes contextos darão base à organização de modelos de funcionamento psicológico (working models) e a estilos de regulação de emoções, os quais, posteriormente, poderão ser generalizados para situações similares. Bowlby (1969/1990) conceitua os modelos de funcionamento como regras aprendidas que governam os processos externos e internos de informação sobre as relações. Segundo a teoria do apego, a busca de proximidade física da mãe e a exploração do ambiente surgem no decorrer do primeiro ano de vida e permanecem intensas durante a primeira infância. Aos três ou quatro anos, esses comportamentos vão diminuindo e sua forma de expressão se modifica (Ainsworth & cols., 1978). Em um primeiro momento, as crianças são predispostas a formar vínculos afetivos com um pequeno número de cuidadores, procurando-os como uma fonte de conforto quando as condições são ótimas, e como fonte de segurança em momentos estressantes. Posteriormente, os modelos internos de funcionamento e os estilos de regulação de emoções, desenvolvidos com as relações iniciais, darão base para o estabelecimento de relações com outras pessoas, inclusive com parceiros de brincadeiras (Ainsworth

& Bowlby, 1991).

De acordo com Countreras, Kerns, Weimer, Gentzler e Tomich (2000), a teoria do apego entende os estilos de regulação de emoções como processos intrínsecos e extrínsecos responsáveis pelo monitoramento, avaliação e modificação das reações emocionais. Nesse sentido, para Bowlby (1969/1990) as relações de apego seguro colaboram com o desenvolvimento de modelos internos caracterizados por valorização

e apoio. Nessas relações, as crianças aprendem expectativas sociais positivas e um

entendimento rudimentar de trocas recíprocas. Por outro lado, nas relações de apego inseguro não há predomínio de sentimento de segurança e valorização. Em função de interações aversivas, a criança pode desenvolver expectativas negativas, especialmente, em torno da disponibilidade dos outros em momentos de necessidade

e estresse, evidenciando, posteriormente, insensibilidade, raiva, agressão e falta de

empatia nas relações subseqüentes.

A definição do conceito de apego possibilitou a Bowlby e colaboradores explorar mais detalhadamente os fatores que o determinam. Uma das noções mais bem aceitas foi a formulada por Ainsworth (1969), que considera estar o padrão de apego diretamente ligado à qualidade da relação estabelecida entre a mãe e a criança. Para verificar tal relação, a autora construiu um instrumento para coleta de aspectos mais qualitativos do padrão de apego infantil, a “Situação do Estrangeiro”. Com base nos dados obtidos, Ainsworth classificou as crianças em seguramente apegadas e inseguramente apegadas. Bebês seguramente apegados constroem um modelo de mãe disponível mesmo quando não podem vê-la, e é por isso que protestam menos na separação e são mais receptivos no reencontro. Por outro lado, bebês inseguramente apegados choram muito na ausência e mesmo na presença da mãe. Para Ainsworth (1969), o choro é indicativo da ansiedade que está por trás de toda insegurança. Assim, classifica os bebês inseguros em ansiosos/esquivos e ansiosos/ambivalentes (ou resistentes). Os ansiosos/esquivos comportam-se de modo semelhante na presença da mãe e do estranho. Na separação são indiferentes à suas mães e no reencontro não buscam conforto nestas, colocando-se em posição contrária a elas ou movendo-se na direção oposta. São também mais propensos a comportamentos de raiva. Os ansiosos/ambivalentes, ou resistentes, mostram limitado comportamento exploratório, sempre demonstram aflição e choro diante da separação, e no reencontro, exibem uma mistura de raiva e busca de proximidade, além do fato de suas mães não conseguirem confortá-los ou acalmá-los. Embora haja uma grande concordância no que diz respeito à classificação desenvolvida por Ainshorth (Belsky, Campbel, Cohn & Moore, 1996; Benoit & Parker, 1994; Main & Solomon 1990), o mesmo não pode ser afirmado com relação ao constructo do apego. Se por um lado as formulações de Bowlby e Ainsworth não impediam a possibilidade de analisar o apego a partir de outras perspectivas, seus enfoques priorizavam os aspectos individuais do processo de vinculação, os modelos internos de funcionamento que estruturam o modo como o sujeito se relacionará em outros contextos. Atualmente, nota-se a busca de perspectivas que ofereçam uma visão mais relacional e contextual.

A natureza relacional e contextual do apego A partir da década de 80 um conjunto de trabalhos apresenta novas proposições quanto à dinâmica do apego. Partindo da noção tradicional de que os padrões de relação mãe-criança decorrem, em grande parte, das características maternas, principalmente da sensibilidade da mãe, Claussen e Crittenden (2000) sugerem que, embora tenha sido freqüentemente tratada como uma variável intra-pessoal, a leitura cuidadosa da definição de sensibilidade materna apresentada por Ainsworth (1969) é, de fato, um constructo diádico. Nesta perspectiva, Oppenheim, Koren-Karie e Sagi (2001) consideram que a sensibilidade materna, e conseqüentemente, os padrões de apego, só podem ser compreendidos quando imersos no contexto relacional do encontro do cuidador com criança específica.

Assim, a sensibilidade materna deixa de ser considerada como influenciada apenas pela história dos vínculos afetivos da mãe (Bowlby, 1969), para ser compreendida como resultante das características dos pares que compõem as interações cuidador- criança. Ou seja, a sensibilidade dos pais é influenciada não apenas por sua história individual, mas também pela capacidade infantil de sinalizar aos cuidadores suas necessidades (Claussen & Critteden, 2000). Seguindo a noção de que as características infantis influenciam o desenvolvimento

dos padrões de apego, inúmeras pesquisas foram conduzidas com o objetivo de identificar

a relevância de fatores intrínsecos à criança, como por exemplo, gênero, temperamento,

idade e ordem de nascimento (Belsky & Rovine, 1987; Fagot & Kavanagh, 1993; Krepnner, 1988; Kreppner, Paulsen, & Schuetze, 1982; Lavelli & Fogel, 2002; Mangerlsdorf, Gunnar, Kestenbaum, Lang & Andréas, 1990). No geral, os resultados indicam que algumas características infantis, tais como temperamento, irritabilidade, falta de atenção e impulsividade, interferem nas relações entre pais e filhos. Além das preocupações com papel infantil no desenvolvimento do apego, a qualidade dos vínculos conjugais também vem sendo bastante investigada. Estes estudos relacionam o processo de apego com a qualidade dos vínculos conjugais, associando dois níveis de relação, isto é, o vínculo marital e o vínculo parental. Segundo

Frosch, Mangelsdorf e McHale (2000), casais que partilham emoções positivas em seus casamentos e se engajam em trocas afetivas satisfatórias têm crianças emocionalmente seguras, capazes de expressar sentimentos adequados e de regular

suas emoções negativas no contexto das relações. Para além da inter-relação entre a qualidade da relação conjugal e padrões de apego, Dunn, Deater-Deckard, Pickering e Golding (1999) tentaram relacionar o subsistema marital com o subsistema fraterno, avaliando a interdependência entre variações nas relações entre os irmãos, características iniciais das relações maritais

e relações atuais da mãe e do pai com a criança. A qualidade das relações maritais estava associada às diferenças individuais do comportamento das crianças: baixa afeição e altos níveis de hostilidade entre os pais se correlacionavam com os

comportamentos negativos do irmão mais velho dirigidos ao mais novo. Por outro lado, a amizade do mais velho com o mais novo estava associada às características positivas da relação marital. De forma similar, conflito e a hostilidade entre os irmãos podem conduzir a conflitos entre a criança com a mãe ou com o pai, e vice-versa e, por sua vez, relações positivas

e amistosas entre irmãos podem contribuir para e que os pais sejam menos irritados e

punitivos nas interações com suas crianças (Dunn & cols., 1999). A perspectiva relacional permite que o pesquisador vá além da díade mãe-criança ou cuidador-criança. Mais do que pensar o apego enquanto um fenômeno relacional, essa visão analisa o processo em seu contexto. Embora as pesquisas indiquem as relações maritais como constituintes do núcleo relacional da vida familiar, a análise contextual permite pensar o apego associado a fatores que extrapolam o contexto familiar. Kreppner (2000) e Tudge e colaboradores (2000) indicam que além das figuras parentais, contextos como a escola, o trabalho, a família estendida, entre outros, exercem influência sobre o desenvolvimento infantil.

Braungart-Rieker e colaboradores (1999) investigaram o papel desempenhado

pelos arranjos familiares para o desenvolvimento da relação mãe-criança. Os resultados indicaram que em famílias cujas mães de meninos trabalhavam o dia todo, medidas sobre sensibilidade materna não prevêem o apego seguro. Por outro lado, para meninas ou crianças em famílias cujas mães trabalhavam somente um horário, a sensibilidade foi associada ao apego seguro. Neste sentido, os efeitos da sensibilidade materna dependem dos arranjos familiares dos grupos investigados. No entanto, os autores sugerem que a forte relação entre apego e sensibilidade materna, encontrada no modelo original da teoria do apego, talvez seja decorrência da grande quantidade de estudos baseados no contexto de família tradicional.

A discussão sobre o impacto do tempo ocupado com atividades de trabalho

sobre a relação mãe-criança aponta a influência do estresse no processo de apego. Resultados obtidos por Vaughn, Egeland, Sroufe e Waters (1979) indicam que cuidadores estressados apresentavam mais dificuldade em responder sensivelmente às demandas infantis. Porém, o estresse parental pode atuar de modo menos intenso quando os cuidadores dispõem de uma rede social que lhes ofereça apoio (Crockenberg, 1981). Apesar das tentativas de olhar o fenômeno do apego de modo contextualizado, Donley (1993) privilegia o espaço da família e ressalta a escassez dos estudos que

se propõem investigar o apego nesse micro-contexto. Embora a perspectiva contextual esteja apoiada no modelo sistêmico, que considera o apego como um constructo embutido numa rede dinâmica de relações, para Donley (1993), o conhecimento disponível ainda não expressa a compreensão de todos os componentes da rede na qual o apego está inserido. Assim, entender o funcionamento do sistema familiar em sua totalidade seria um requisito indispensável para a discussão dos padrões de apego.

A natureza sistêmica do apego: um olhar sobre a família

A visão da família como um “nicho ecológico primário” que ocupa papel de

destaque na história de vida do sujeito não é recente. Contudo, foi somente quando a etologia humana enfatizou a importância dos cuidadores primários para o desenvolvimento infantil, que a família foi descoberta pelos pesquisadores e passou a ser considerada como um contexto diretamente associado ao desenvolvimento humano (Kreppner, 2000). Enfatizar o estudo da família como o contexto no qual o apego se desenvolve, demanda mudanças teórico-metodológicas nem sempre assimiladas pelos pesquisadores. Segundo Donley (1993), os estudos de apego no contexto familiar têm focalizado apenas uma ou duas relações. Mesmo as pesquisas que associam vínculo parental e relação conjugal, que constituem uma forte área de investigação, descrevem, na maioria das vezes, o fenômeno em um dado momento pontual, ou seja, não conseguem identificar como as relações são afetadas por fatores externos no decorrer do tempo. Um segundo problema apontado por Donley (1993) nas pesquisas que investigam os padrões de apego na família, refere-se à natureza conceitual subjacente ao

delineamento metodológico adotado. Em sua maioria, estes estudos fundamentam-se no modelo sistêmico e reconhecem a família como um todo integrado, mas metodologicamente, continuam a tratar as relações como diádicas. Muitos autores (Cowan, 1997; Donley, 1993; Marvin & Stewart, 1990; Minuchin, 1985) apontam que observações em contextos diádicos geram informações diferentes daquelas obtidas em relações triádicas e em contexto familiar mais amplo, o qual permite um entendimento mais integrado dos padrões de apego. Por exemplo, analisar a relação pai-criança dissociada da relação mãe-criança não permite identificar os elos sistêmicos existentes entre elas, impedindo a compreensão destas relações como parte uma das outras. Além disto, todas as relações dentro desta configuração não são igualmente influenciadas. Os achados recentes apontam para uma perspectiva sistêmica coerente com o modelo bioecológico de análise proposto por Bronfenbrenner (1996), que permite ao pesquisador visualizar os diferentes níveis contextuais que atuam sobre o processo de apego. O modelo é formulado com base em quatro aspectos que considerados fundamentais: pessoa, processo, contexto e tempo. Os níveis variam desde os mais imediatos, denominados por Bronfenbrenner de microssistemas, onde se estabelecem, por exemplo, as relações face-a-face, até aqueles níveis mais distais, denominados macrossistemas. Neste nível, as relações são influenciadas por elementos simbólicos, tais como as crenças e valores, ou seja, pela cultura. Entre o microssistema e o macrossistema, Bronfenbrenner (1996) propõe outros dois níveis, o mesossistema e o exossistema, sendo o primeiro constituído pelas trocas entre dois microssistemas, e o segundo, por contextos onde o sujeito do desenvolvimento não se encontra diretamente envolvido, mas é influenciado pelas relações que aí se estabelecem. Afora estes quatro níveis contextuais, Bronfenbrenner (1996) ainda destaca o cronossistema, caracterizado pela passagem do tempo que pode se dar em dois níveis:

o tempo histórico-social e o tempo do indivíduo, sua ontogênese.

A proximidade entre teoria do apego e teoria dos sistemas tem gerado uma das

vertentes mais efervescentes na psicologia do desenvolvimento. O modelo bioecológico, dada sua perspectiva sistêmica, contribui com as pesquisas sobre apego ao oferecer uma estrutura organizacional para os fatores que podem explicar o processo de formação dos vínculos humanos. Recentemente Kozlowska e Hanney (2002) sugeriram que a análise da relação entre apego e teoria dos sistemas pode ocorrer de modo mais apropriado a partir de uma avaliação em rede.

O modelo de rede proposto por Kozlowska e Hanney (2002) parte de uma

característica fundamental dos sistemas vivos: tendência a formar estruturas constituídas por diferentes níveis de sistemas dentro de sistemas (Capra, 1997). Ainda que cada sistema permaneça distinto, ele é também, parte de um todo mais complexo, o qual vai torná-lo diferente de si mesmo. Neste sentido, os níveis de complexidade estão inter-relacionados e interconectados, isto é, um não pode existir sem o outro. Como cada estrutura sistêmica conecta-se a outras estruturas de diferentes modos, o conhecimento acerca de um fenômeno será sempre aproximado e nunca absoluto. Compreender a díade e os sistemas familiares como distintos e, ao mesmo tempo,

interconectados, além de permitir a integração da teoria dos sistemas com a teoria do apego, implica a habilidade de reconhecer cada nível como distinto e interconectado com outros níveis. As relações diádicas, triádicas e familiares representam estruturas sistêmicas distintas que possuem propriedades e leis únicas. Cada um destes níveis constitui uma parte do todo e, simultaneamente, constituem um todo. Deste modo, um construto que descreva os padrões de interação de uma díade provê informações úteis e únicas para a compreensão do todo, mas, por outro lado, não permite capturar os padrões de interação na família. Portanto, é necessário compreender não apenas as propriedades únicas da díade e da família, mas também as relações entre estes dois níveis de complexidade. Hill, Fonagy, Safier e Sargent (2003), ressaltando a carência de uma teoria que ajude a pensar a interdependência entre os processos familiares e individuais, sugerem que a teoria do apego seria uma ferramenta teórica adequada a tal propósito, uma vez que os processos de apego podem ser descritos nos níveis individual, diádico e familiar. Para esses autores, as experiências partilhadas sistemicamente e aquelas vividas individualmente são complementares. Ainda segundo os autores, esta perspectiva complementar pode ser compreendida como uma visão ecológica do apego. O termo ecologia é usado para fazer referência à combinação dos aspectos interacionais e relacionais de um fenômeno, no caso, do apego, que se movimenta dentro do contexto familiar. A perspectiva ecológica do apego pode ser identificada em inúmeras pesquisas cujos objetivos vão além do contexto imediato no qual o padrão de apego se processa, ou seja, vão além da família. Tais estudos estendem-se para espaços em que o grupo familiar se encontra inserido, isto é, na cultura.

Ecologia do apego: família e cultura Segundo Tudge e cols. (2000), cultura consiste em um grupo de pessoas que são vistas por outros, ou por si mesmas, como pertencentes a um agrupamento por partilharem valores, crenças, práticas e recursos, os quais, por sua vez, são transmitidos aos mais jovens do grupo. Os elementos constitutivos dos grupos permeiam as relações entre cuidador e criança e estabelecem modos peculiares de construção e manutenção dos padrões de apego. Estes modos, também denominados de práticas, assim como as representações em torno dos vínculos, constituem o que pode ser chamado de cultura de apego. Com base na noção de cultura de apego, Sagi e cols. (1997) identificaram as práticas noturnas de cuidados dispensados aos bebês nos kibutzs israelenses. Nestes, as crianças, no período da noite, são separadas de suas mães e colocadas para dormir em espaços coletivos sob os cuidados de uma única pessoa que muda semanalmente. Embora sejam membros regulares do kibutz, essas pessoas não são os familiares e, dado o grande número de crianças, torna-se impossível responder prontamente às necessidades infantis. As conclusões indicaram que este modo de organizar a rotina noturna dos bebês configura um hábito compatível com representações mais gerais em torno do papel dos pais no desenvolvimento infantil, assim como no que se refere às necessidades reais da criança.

As peculiaridades culturais relativas às práticas de cuidados também foram descritas por Vereijen, Riksen-Walraven e Kondo-Ikemura (1997), que investigaram os níveis de proximidade e distanciamento de mãe americanas e japonesas. Os resultados indicaram que os padrões de interação de mães americanas com seus bebês envolvem menos contato físico, enquanto as mães japonesas desenvolvem modos mais proximais de interação, com intenso contato físico. Diante de padrões relacionais distintos, parece óbvio supor que os padrões de apego sejam revelados em comportamentos infantis peculiares, compatíveis com as práticas adotadas por seus cuidadores nos diferentes contextos culturais. Neste sentido, Vereijen e cols. (1997) apontam para a necessidade de as pesquisas sobre apego utilizarem métodos de investigação adaptados às características comportamentais de cada cultura, sem, no entanto, perder de vista as crenças e os valores de cada contexto, pois os indicadores de sensibilidade materna ou de apego podem diferir em função da cultura.

Considerações finais

Partindo da ênfase nos aspectos individuais do construto de apego, os quais caracterizavam o sujeito em termos de modelos de funcionamento mental, passando pelo enfoque em termos relacionais essencialmente diádicos (relação mãe-criança) e chegando, finalmente, a uma abordagem sistêmica que considera diferentes níveis de influência sobre as relações, os construtos básicos da teoria do apego passaram por várias re-estruturações. No entanto, tal re-estruturação, em nosso entender, não reflete descrédito ou invalidação de seus pressupostos básicos. Toda sua fundamentação, ancorada em termos evolutivos e funcionais, demarca um fenômeno de relevância inquestionável para a compreensão da constituição de nossa espécie e, por esse motivo, apresenta implicações práticas indiscutíveis. Esse processo de transição que a teoria do apego atravessa, pode estar refletindo as mudanças mais gerais pelas quais passa a Psicologia do Desenvolvimento. Nas últimas décadas, impulsionado por novas descobertas científicas, o conceito de desenvolvimento adquiriu uma versão mais complexa, passando a ser visto como um fenômeno multideterminado (Bronfenbrenner & Evans, 2000), sujeito à ação de fatores de natureza distinta e que variam no decorrer do tempo. Esta perspectiva rompe com as tendências unilaterais que marcaram a Psicologia ao longo de sua história, caracterizada ora pela ênfase nos aspectos biológicos e inatos, ora pela ênfase sobre fatores ambientais e culturais. A ampliação simultânea do conceito de desenvolvimento e de apego faz sentido na medida em que se pensa neste último como um processo básico que permite compreender as mudanças cognitivas, emocionais e sociais do sujeito em desenvolvimento. Por sua vez, a sofisticação teórico-conceitual acarretou um aprimoramento metodológico que possibilitou enfrentar essa empreitada. Entende-se que o modelo

bioecológico de Bronfrenbrenner (Bronfenbrenner, 1979/1996; Bronfenbrenner & Ceci, 1994) permitiu a sistematização dos diferentes níveis contextuais envolvidos na formação dos padrões de apego. Olhar para a vinculação humana em multiníveis ecologicamente situados e embutidos em um sistema dinâmico de rede de relações, ocasionou maior compreensão da complexidade do fenômeno do apego. A compreensão do apego humano, apesar da recente introdução de variáveis mais complexas no modelo teórico, não pode, de modo algum, prescindir das contribuições originais da teoria, principalmente de seus fundamentos etológicos (biológicos), que possibilitam a própria existência desse fenômeno. No entanto, Belsky (1995) considera que o conceito de contexto adotado por Bronfenbrenner não explora seu aspecto evolutivo. Neste sentido, além da estrutura apresentada no modelo bioecológico, Belsky (1995) enfatiza a contribuição da teoria evolucionista para a compreensão e discussão do fenômeno. Portanto, a tarefa posta para a teoria do apego consiste em integrá-la ao modelo sistêmico sem abandonar os fundamentos evolucionistas que lhe dão sentido.

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Recebido em novembro de 2006

Aceito em abril de 2007

Fernando Augusto Ramos Pontes: doutor em Psicologia Experimental (USP); professor da Universidade Federal do Pará; orientador do Programa de Pós-Graduação em Teoria e Pesquisa do Comportamento. Simone Souza da Costa Silva: doutora em Psicologia (UNB); professora da Universidade Federal do Pará; Marilice Garotti: doutora em Psicologia Experimental (USP); professora da Universidade Federal do Pará e orientadora do Programa de Pós-Graduação em Teoria e Pesquisa do Comportamento. Celina Maria Colino Magalhães: doutora em Psicologia Experimental (USP); professora da Universidade Federal do Pará; orientadora do Programa de Pós-Graduação em Teoria e Pesquisa do Comportamento.

Endereço para correspondência: fernando.pontes@pesquisador.cnpq.br

Aletheia, n.26, p.80-94, jul./dez. 2007 Psicologia social da saúde: tornamo-nos eternamente responsáveis por aqueles que

Aletheia, n.26, p.80-94, jul./dez. 2007

Psicologia social da saúde: tornamo-nos eternamente responsáveis por aqueles que cativamos

Adriane Roso

Resumo: Esse é um artigo de cunho teórico no qual foram exploradas algumas questões relaci- onadas à ética dos psicólogos, bem como suas responsabilidades frente à saúde coletiva. Contextualizou-se o mundo em que vivemos, sua filosofia e seus modos predominantes de pensamento. Desenvolveram-se algumas idéias sobre moral, ética e consciência, chamando a atenção para o fato de que esses conceitos estão relacionados à uma cosmovisão específica – a cosmovisão individualista-liberal. Foi demonstrado que a psicologia social da saúde não cons- truiu mudanças radicais no seu percurso, pois muitos psicólogos sociais da saúde ainda mantêm suas práticas focadas principalmente na mudança do comportamento dos indivíduos. Por fim, sugeriu-se um modelo de psicologia social da saúde crítica. Palavras-chave: psicologia social, psicologia da saúde, saúde coletiva, ética.

Social health psychology: We become responsible, forever, for those we have tamed

Abstract: This is a theoretical article in which it was explored some queries related to the ethics of psychologists, as well as their responsibilities towards public health. It was contextualized the world we live in, its philosophy and its predominant ways of thinking. It was developed a discussion on moral, ethics and conscience, calling attention to the fact that these concepts are related to a specific cosmovision – the liberal-individualistic cosmovision. It was demonstrated that the Social Health Psychology didn’t constructed radical changes in its stream, because many social health psychologists kept focusing their practices mainly on changing individual behaviors. In the end, It was suggested a critical model of Social Health Psychology. Key words: Social psychology, health psychology, public health, ethic.

Introdução

Cada vez mais, a atuação de psicólogos na área da psicologia da saúde vem sendo questionada nos últimos anos (Spink, 1992), e um número crescente de psicólogos tem se interessado em atuar nesse campo. De fato, essa especialidade vem se mostrando como uma das principais áreas de inserção do psicólogo no cenário latino-americano, sendo a especialidade que mais tem crescido neste subcontinente nos últimos 20 anos (Conselho Federal de Psicologia, 2005). Felizmente, juntamente com a prática dessa especialidade cresce também a crítica a essa prática. Nos últimos tempos, tem-se refletido sobre a prática de psicólogos no campo da saúde (Fórum Nacional de Psicologia e Saúde Pública, 2006 e I Oficina Nacional da ABEP, 2006). Podemos perceber que, embora todos demonstrem vontade de que a psicologia da saúde seja uma prática verdadeiramente emancipadora, ainda

continuamos presos em modelos que priorizam a modificação de comportamentos, mesmo quando trabalhamos sob o prisma da prevenção.

É objetivo deste artigo ampliar a discussão sobre os modos de atuação do

psicólogo da saúde. Pretende-se aprofundar algumas questões relacionadas à ética dos profissionais da saúde, mais em específico, dos psicólogos, e questionar sobre qual a responsabilidade dos psicólogos frente à saúde coletiva. A pergunta que vai nortear a discussão é: O que nos pode dizer a psicologia quanto à responsabilidade frente à saúde coletiva? Entende-se que ter responsabilidade por alguém significa responder publicamente

a isso; significa que não se está sozinho no mundo e que cada pessoa tem que prestar

contas de seus atos; tem que cumprir seus compromissos assumidos frente à sociedade. Quando alguém recebe o título de psicólogo, assume a responsabilidade pública de cuidar do Outro. Então, parte-se do pressuposto de que os psicólogos e as psicólogas têm algo a dizer sobre isso. Por primeiro, tentar-se-á mostrar que no mundo em que vivemos prepondera uma visão individualista-liberal, a qual estimula a produção de indivíduos sujeitados a uma

ética liberal e desumanizadora. Será ressaltada a relação entre consciência, moral/ética

e responsabilidade, e será pontuado que a psicologia e a psicologia social não

conseguiram estabelecer práticas que se libertassem dessa cosmovisão. Ao final, será apresentada uma proposta de ação para a psicologia social da saúde, a qual se sustenta numa cosmovisão comunitária-solidária. Esta se apóia especialmente numa epistemologia crítica, propositiva e utópica, na análise das relações de poder e na ética do cuidado.

O mundo em que vivemos Todas as pessoas elaboram, ao longo de suas vidas, uma visão de mundo. Entende-se que uma visão de mundo é como alguém enxerga, percebe, e interpreta as pessoas e as coisas que o rodeiam, ou seja, é como alguém dá sentido e significado àquilo que o cerca. Mas, ao mesmo tempo, essa visão de mundo é construída a partir

de uma prática, de um “se colocar” no mundo; é uma construção dialética entre enxergar, perceber e agir.

O ser humano, ao buscar um sentido ao seu mundo vivido, constrói modos de

conceber e de interagir com o Outro; constrói uma filosofia de vida que sustenta e justifica a concepção adotada. Vai adquirindo convicções no seu modo de agir e

defendendo-as, consciente ou inconscientemente. Assim, o modo como alguém compreende o mundo vai delineando o modo como ele vai tratar as pessoas, como vai se comportar, como serão suas atitudes. O seu “eu” (as suas decisões, o seu

posicionamento a outros ethos) vai ter como colchão o social, isto é, ele está sempre inserido em um contexto que é construído histórico-culturalmente. É algo que está colado ao social.

A visão de mundo é algo pessoal, intransferível e subjetiva, mas ela passa, ao

mesmo tempo, pela subjetividade social. Isso significa que uma pessoa não é apenas

o resultado de uma série de elementos biológicos, genéticos; ela é, também, o resultado

de milhares de relações que ela estabelece com o mundo que a rodeia. Justamente por isso, no cotidiano das pessoas, surge, continuamente, uma série de desafios e problemas que precisam ser enfrentados ou resolvidos, que se expressam em perguntas desse tipo: Como devo agir em dada situação? Devo falar sempre a verdade? Preciso respeitar aquelas pessoas que não me respeitam? No caso da psicologia, por exemplo, posso me perguntar: É certo negar atendimento àquelas pessoas que não podem pagar? É certo sugerir o aborto? É certo uma análise interminável? Todas essas perguntas têm a ver com o devo-ou-não-devo, com o certo e com o errado, têm a ver com o sentido prático da vida e temos que resolvê-las, de uma forma ou de outra. Aí, as pessoas se defrontam com a necessidade de pautar o seu comportamento por normas e regras que julgam serem mais apropriadas de serem cumpridas. No fundo, há uma busca constante de tentar encontrar a melhor maneira de se viver em sociedade, a melhor maneira de ser feliz. Nessa busca, as pessoas recorrem às normas, formulam juízos, criam argumentos para justificar o caminho seguido. Essas normas e juízos de valores propiciam que as pessoas compreendam que têm o dever de agir desta ou daquela maneira e são aceitas no nível da subjetividade individual e também social. Quando isso acontece, dizemos que o ser humano está agindo moralmente.

A moral se caracteriza por sua dimensão social, isto é, parte de um conjunto

complexo de princípios, valores e regras. Ela nos leva a considerar os usos e os costumes através dos quais procuramos codificar nossos comportamentos. Assim, de acordo

com Da Silva (1996), a moral define-se por uma situação de bondade e de maldade, enquanto praticados por um ser humano como agente consciente: é uma situação do bem e do mal em si e na sua qualidade de tornar responsável quem a escolhe e a realiza voluntariamente. Quando os seres humanos se vêem na condição de ter que refletir sobre essa prática moral, eles entram na esfera dos problemas éticos (Vázquez, 1999). A palavra ética vem do grego ethos, que significa “modo de ser”, “costume” ou “caráter”. Tanto a moral como a ética não são aquisições “naturais”, mas são adquiridas pelo hábito, costume. Uma pessoa não nasce com uma moral ou com uma ética; ambas são construídas. Então, uma pessoa não nasce preconceituosa, não nasce virtuosa, pois preconceitos e virtudes originam-se do conviver em sociedade.

A ética não se define pelo individual, pelo meu agir; ela é muito mais geral, mais

ampla, o que é muito bem explicado por Vázquez (1999): Os problemas éticos

caracterizam-se pela sua generalidade e os problemas morais são os que se apresentam nas situações concretas, no cotidiano. A função fundamental da ética é explicar, esclarecer ou investigar determinada realidade. Na maioria das vezes, as pessoas não param para pensar sobre as implicações morais, sobre o tipo de postura ética que vigora no nosso mundo e sobre todo esse ethos que nos envolve. Nem sequer param para pensar e refletir criticamente sobre como vêem o mundo, como a moral interfere na sua vida e sobre qual o tipo de ética que respalda seu discurso/ação. Dizemos que algumas pessoas têm consciência disso tudo, outras parecem não ter.