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Tópicos de Ética

Caius Brandão
caiusbrandao@globo.com

25/06/09

A VONTADE COMO O REINO DO MAL

Recentemente, uma comissão do Senado brasileiro aprovou um projeto


que reduz a maioridade penal no Brasil, de 18 para 16 anos de idade. Essa
responsabilização legal seria feita na presunção do adulto de que o
adolescente tem a capacidade de discernir entre o certo e o errado, de refletir
sobre as conseqüências de seus atos, ou seja, de pensar antes de agir. Não
vamos aqui discutir o mérito da decisão do Senado sobre o adolescente
brasileiro, mas o que nos interessa investigar com este exemplo é como a
responsabilização (legal ou moral) é fruto da qualidade – atribuída ao indivíduo
pela sociedade – de ser ele senhor de uma vontade livre e autônoma.

Quando nos indagamos sobre o porquê agimos moralmente, temos a


tendência de voltar nossa atenção aos costumes e à religião. Mas, em geral,
nos desviamos da pergunta: afinal, o que é o bem e o mal? Deveríamos nos
interessar também por saber em que condições diferentes concepções sobre o
bem e o mal dão origem a costumes e ideais morais diversos, além de
entender em que medida tais ideais regulam as nossas vontades e ações.
Seria absurdo tentar responder questões tão complexas neste pequeno texto.
Logo, o que segue é uma breve leitura da abordagem de seis pensadores
(Aristóteles, Santo Agostinho, Descartes, Kant, Nietzsche, e H. Arendt) acerca
do mal e sua relação com a vontade do homem.

Admitimos facilmente que um urso devore uma truta viva sem que
possamos atribuir a essa ação nenhuma maldade, posto que o pobre animal é
incapaz de refletir. Seu comportamento é sempre instintivo e obedece ao que
chamamos de “leis naturais”. Admitimos também com tranqüilidade que não
existe escolha ou deliberação na natureza. Suas leis são necessárias, assim
como é necessário que a goiabeira dê frutos. O conceito de maldade, como o
de bondade, não tem nenhuma aplicação no mundo natural, e sim
exclusivamente na cultura, ou seja, nas ações e pensamentos do homem.
Desta forma, para que uma ação seja considerada moral, é antes necessário
que o seu agente (o indivíduo) tenha conhecimento sobre a situação dada,
discernimento a cerca das contingências e capacidade de deliberação. Só
assim poderíamos atribuir um juízo de valor às ações de alguém. Logo, pelo
menos neste planeta, apenas os homens são capazes de agir moralmente, e
isto os diferencia daqueles outros seres que se rendem vencidos pelos seus
próprios instintos e, assim, permanecem dominados pela natureza.

O conceito de vontade como entendemos hoje em dia praticamente não


existia na Grécia antiga. Os povos antigos tinham a noção de individualidade,
mas não a de subjetividade, que surge somente na época moderna.
Em sua obra Ética a Nicômaco, Aristóteles reafirma a relação necessária
entre racionalidade e a moralidade. Ele julga que o homem, justamente por ser
dotado de razão, traz consigo o potencial de agir moralmente. Aristóteles nos
diz que somente agindo de forma justa e temperante o homem será
considerado justo e temperante. A moralidade não está circunscrita à razão,
visto que ela apenas se concretiza com a ação do homem no mundo. Logo, a
realização do homem virtuoso é agir bem. Dizer que alguém é dotado de
sabedoria prática significa dizer que esta pessoa age com prudência, sempre
capaz de discernir, julgar, calcular e deliberar. Neste caso, o fundamento do
valor moral está nos resultados da ação (a felicidade, ou seja, o bem viver e o
bem agir). Essa é a moral utilitarista. Uma outra abordagem a cerca da
fundamentação da moral, a deontológica, substitui os resultados da ação pelos
princípios morais. Mas isto, abordaremos mais tarde.

Agora, nos cabe perguntar como o problema do mal é discutido por um


pensador religioso, ou seja, alguém que acredite em um “sumo bem”, que seria
Deus, e que nele não teria maldade alguma.

O problema a cerca da origem do mal mobilizou vários filósofos e


teólogos da Igreja Católica na idade média, entre eles, Santo Agostinho. Sua
principal preocupação ao escrever O Livre-Arbítrio, foi a de demonstrar que,
apesar de ser Deus o criador de todas as coisas, não poderia ser ele o autor do
mal (Deus é a suma bondade, portanto, não poderia praticar o mal). Mas se
Deus não é responsável pelo mal praticado no mundo, então, de onde vem a
maldade? Antes de chegar a esta resposta, Agostinho descreve a constante
tensão entre a paixão e a razão como fator determinante da vontade humana.
A boa vontade seria aquela submissa apenas à razão, enquanto que a vontade
má reina no império da paixão.

Mesmo sendo Deus onipotente e onisciente, a vontade do homem é


livre, caso contrário, se seus pecados não fossem cometidos voluntariamente,
então Deus puniria os pecadores injustamente.

No entanto, Agostinho defende que Deus não criou o homem dotado de


razão para que vivesse eternamente submisso às suas paixões. Através da
razão e da fé, o homem é capaz de conter seus impulsos instintivos e purificar
a vontade dos afetos, aproximar-se de Deus através de seus ensinamentos, e
alcançar assim a prática da boa vontade. Ao exercício desta boa vontade,
Agostinho sugere quatro “virtudes cardeais”, a saber: a força, entendida como
uma “disposição da alma” para desprezar os dissabores; a temperança, que
serve ao controle dos apetites; a justiça, que seria dar a cada um, o que é seu;
e a prudência, ou seja, a obrigação de se desejar apenas o bem. As virtudes
que constituem a boa-vontade agostiniana são propriedades da razão. Através
dela, o homem se faz consciente de suas escolhas e se torna livre e autônomo.

Se Deus não é o autor do mal e se a verdadeira razão leva apenas à


boa-vontade, então, o pecado surge com o abuso do livre-arbítrio, quando a
vontade humana se encontra subjugada pelas paixões.
A concepção moderna de vontade começa a surgir no século XVII com
fundamento na subjetividade da pessoa humana. René Descartes, filósofo
francês, compreende o homem e o mundo a partir da certeza de que “penso,
logo, existo”. Assim, Descarte nos revela a capacidade do homem de se voltar
para si mesmo e se reconhecer como pessoa dotada de uma vontade livre.

Em seu Discurso do Método, Descartes encontra para si mesmo critérios


para agir moralmente. Para ele, o pior dos males é a indecisão que paralisa a
pessoa. Como ele se propunha a colocar tudo em que acreditava em dúvida, a
fim de investigar a verdade de todas as coisas, era necessário criar o que ele
próprio chamou de “uma moral provisória”. Desta forma, poderia manter-se
moralmente correto ao longo de sua empreitada investigativa.

Esta moral provisória cartesiana tem como eixo três máximas que devem
regular a vontade:

- Obedecer às leis e aos costumes de onde se vive, permanecendo em


contato com Deus através da religião, além de assumir opiniões
moderadas, e sempre seguir os mais sensatos;

- Ser firme e resoluto, sempre buscando o caminho reto. Caso não possa
discernir as opiniões verdadeiras, siga as mais prováveis;

- Procure vencer a si mesmo e não a fortuna, modificar os seus desejos e


não a ordem do mundo. A única coisa sobre a qual temos poder são os
nossos pensamentos, por isso, devemos cultivar a razão, conhecer a
verdade e não desejar o que não se pode ter. Para proceder bem, apenas
se faz necessário que julgue bem.

Mais uma vez, a virtude moral é alcançada através da vontade que controla
a si mesma para querer agir sempre bem.

Emmanuel Kant, filósofo inglês do século XVIII, desenvolveu uma


abordagem deontológica da moral, ou seja, os valores morais são
fundamentados em princípios revelados pela razão pura a priori. A base da
moralidade kantiana é a autonomia da vontade livre. Em Kant, a noção de
vontade toma sua verdadeira forma moderna na filosofia ocidental.

Mas se a vontade é livre, se teoricamente podemos usar a razão para agir


em respeito à lei moral, porque somos capazes de cometer o mal? E ainda, até
que ponto o homem poder ser realmente maligno, ou seja, desejar o mal pelo
mal, sem obter nisso qualquer vantagem egoísta?

Kant reafirma que apenas os seres racionais são dotados de vontade,


podendo, portanto, agir moralmente. Para ele, existem dois tipos de ser e dois
respectivos tipos de vontade. A vontade santa, que é a vontade de Deus, é
puramente racional e essencialmente boa, não havendo nela espaço algum
para a maldade. Os afetos, os instintos e as paixões são móbiles corpóreos,
mas Deus é um ser simples, sem qualquer participação material. Portanto, sua
vontade é pura também.
Já no caso dos humanos, a vontade é dividida tanto pela razão como pelas
inclinações, justamente por ser o homem constituído de corpo (matéria) e alma
(razão).

Uma ação para ser moralmente boa não pode ser influenciada pelas
inclinações, em detrimento do componente racional da vontade. Assim como
Agostinho, Kant encontra a raiz do mal na própria natureza do homem, na sua
própria vontade em eterno conflito consigo mesma, ou seja, no livre-arbítrio.

Kant recusa a idéia de um princípio maligno como determinante da vontade


humana. O homem sempre busca o bem (mesmo que apenas o bem de si), até
mesmo ao causar o mal. Por este mesmo motivo, a felicidade não serve como
critério para a moralidade. Qual quer tipo de compensação ou de interesse
particular já é suficiente para tornar uma ação boa em ação não-moral. Por
exemplo, se pratico a caridade porque serei mais feliz assim, então minha ação
pode ser boa, mas não é moral. A boa vontade é totalmente desinteressada.
Desta forma, eu teria que fazer a caridade não em vista às possíveis
recompensas, mas pelo dever de respeitar a lei moral, ou por amor a ela, para
que minha ação fosse considerada moralmente boa.

Kant acredita que o egoísmo faz parte da constituição humana, mas que
também temos a força necessária para vencer esta natureza. Para tanto, basta
que estabeleçamos o princípio racional (a lei moral) como fator determinante
das máximas morais que regulam nossas ações.

Ao contrapor estes dois componentes da vontade humana (razão e


inclinações), Kant afirma que o homem tem uma disposição para o bem e uma
propensão para o mal. Ele cunha o termo “mal radical” para falar sobre nossa
propensão natural a eleger como princípios de nossas máximas o que não é a
lei moral, em detrimento do “imperativo categórico” que demanda o
cumprimento desta lei. Com o conceito de mal radical, Kant não teve a intenção
de condenar o homem à imoralidade. Ele acredita que a natureza tem um
projeto para o ser humano: a perfectibilidade. Da mesma forma em que o livre-
arbítrio é a origem do mal, é a própria vontade, quando influenciada
exclusivamente pela razão, que pode levar o homem à moralidade em suas
ações.

Agora, por um breve momento, vamos imaginar que Deus tenha morrido.
Ainda assim haveria razão para agirmos moralmente? Seria possível
fundamentar a moral dos homens em outro lugar que não fosse o além-
mundo? Por aquele breve momento, poderíamos – sem Deus e sem a
metafísica (depois de Kant, a metafísica sofre descrédito no meio intelectual) –
nos dar a oportunidade de voltar nossa atenção à realidade concreta, para logo
descobrirmos que negar o mundo, o corpo e as paixões, é negar a própria
vida? Então, com esta vida, com este corpo e mundo, eu me perguntaria
novamente se tenho algum motivo para agir moralmente.

Nietzsche, filósofo alemão do século XIX, estudou a questão do bem e do


mal com o auxílio da filologia e da história do homem. Percorrendo a trilha da
linguagem, do significado das palavras, Nietzsche identifica diferentes ideais
morais e o exato momento em que a alma do homem se torna má.

Existem dois tipos de vontades: a vontade guerreira e a vontade sacerdotal.


O ideal moral de uma vontade guerreira toma a si mesma como referencial
para o belo, o bom e o forte. Nesta vontade tem-se o espírito de dominação, de
conquista e de valorização da vida. Sem intermediações reflexivas, ela
responde imediatamente à sua natureza e se satisfaz, tal como aquele urso
fazia com as trutas.

Os homens que viviam assim criam para si um ideal moral que não
compreendia o bem e o mal, mas o bom e o ruim. Ainda com a metáfora do
nosso pescador, é natural que as trutas não gostem do que o urso faz com
elas, mas isso não lhes dá o direito de condená-lo moralmente, pois ele age
sem refletir, assim como também agem os homens de uma moral dos
senhores, pois que esta é a vontade guerreira. O que resta às trutas, se não
sucumbir diante se sua própria impotência?

A vontade sacerdotal fez surgir a moral dos escravos, dos fracos e


impotentes. Incapazes se sobrepujar seus inimigos, os homens de vontade
sacerdotal alimentam o ódio e o ressentimento. Alimentam-se somente da
esperança de que um dia seus algozes serão castigados. Na sua impotência e
escravidão, os sacerdotes também criam para si um novo ideal moral, tendo
como referência (negativa) a moral dos senhores. De fato, os sacerdotes
inverteram aquele ideal moral para criar o seu. Logo, o que era belo, forte, rico
e poderoso, se torna o símbolo do mal, enquanto o feio, fraco, pobre e escravo,
porém digno da bondade divida, é bem-aventurado e será eternamente feliz ao
lado de Deus, ao passo em que seus inimigos (o homem de vontade guerreira)
arderão eternamente no inferno.

Para Nietzsche, essa foi a vingança mais ardilosa e duradoura da história


da humanidade. Como vimos anteriormente, não pode existir maldade onde
não existe a capacidade de reflexão. Esta foi uma importante contribuição para
a humanidade, não resta dúvida nenhuma, mas, com a capacidade de pensar,
a vontade sacerdotal fez florescer o ódio, a vingança, e a pequenez do espírito.

Voltemos agora nossa atenção à questão sobre se o mal pode ser cometido
sem maldade. Por exemplo, seria possível que não fosse um “monstro”, um
colaborador direto de uma das mais cruéis atrocidades cometidas contra
milhões de pessoas inocentes, como o extermínio de judeus pelo regime
nazista?

Hanna Arendt, uma teórica política, nascida em família judia, na Alemanha,


viveu de perto os horrores da guerra contra seu povo. Depois da guerra, com o
objetivo de aprofundar seu conhecimento sobre os regimes totalitários e sobre
a natureza do mal, Adrendt acompanhou o julgamento de Eichmann em
Jerusalém, um colaborador direto do nazismo.

Num texto produzido para uma revista americana, Arendt fala sobre a
“banalidade do mal” para retratar como que, longe de ser um monstro maligno
que agiu com o objetivo de fazer o mal pelo mal, Eichmman se revelava um
homem superficial e medíocre. Mas o que mais despertou a atenção da
pensadora fora a quase total incapacidade de pensar deste personagem
comum. As atrocidades que ele promovera contra os judeus não haviam sido
motivadas por um suposto princípio maligno, mas sim pela obediência
“cadavérica” ou ”dever”. Arendt sublinha que um traço característico de regimes
autoritários é a produção de uma massa burocrática e acrítica, condicionada a
não pensar e a seguir ordens de forma irrefletida. Pensar, de acordo com
Arendt, é ser capaz de ser um “outro” para si mesmo, ou seja, de dialogar
consigo próprio, ou ainda, de fazer o exercício reflexivo da consciência.

Entretanto, a perceptível ausência de ódio contra o povo judeu não atenuou


a pena de Eichmann, visto que a ausência de culpa moral, não deve, neste
caso, eximir o criminoso de guerra de ser responsabilizado legalmente pelos
seus atos.

Conclui-se, assim, que o mal não depende da vontade de se fazer o mal


pelo mal, ou seja, de um princípio maligno da vontade. A ausência de
pensamento, a irreflexão, como no caso Eichmann, é plenamente suficiente
para resultar numa obediência cega como regra de conduta, até quando o
resultado deste tipo de obediência, ainda que inadvertidamente, resulte numa
maldade de dimensões impensáveis.