Вы находитесь на странице: 1из 1

Página 2 ESTADO DE MINAS

PENSAR

Sábado 6 de fevereiro de 1999

JOSÉ CHASIN ( 1937- 1998)

Humanismo, sentido de uma vida

V ida e obra do filósofo José Chasin foram marcadas pelo brilhantismo de um batalhador pela emancipação do homem

ANTÔNIO RAGO FILHO *

Trabalhando arduamente, José Chasin, que completaria 62 anos no dia 6 de janeiro último, morreu a 31 de dezem- bro de 1998. Seu desaparecimento interrompe a trajetória de um dos mais fecundos filósofos brasileiros. Perda irrepa-

rável de uma personalidade autêntica e criativa, intelectual brilhante, com estilo inconfundível, pesquisador infatigável, cujo talento atingira a plena maturidade. Desde a juventude abraçou a causa humanista. Pautando sua vida pela perspectiva da emancipação do gênero huma- no, encontrada na filosofia de Karl Marx, tornou-se um hu- manista radical, na acepção marxiana da palavra: ‘‘Ser ra- dical é tomar as coisas pela raiz. Mas a raiz,

para o homem, é o próprio homem’’. Em 62, bacharelou-se em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na qual foi aluno dos professores Cruz Costa, Gianotti, Gilles-Gaston Granger e Mi- chel Debrun, entre outros. Ainda na déca- da de 60, vinculou-se ao grupo de intelec- tuais liderado por Caio Prado Júnior, arti- culado na revista ‘‘Brasiliense’’, buscando aprimorar a herança positiva desse histo- riador e criticando o dogmatismo e secta- rismo das facções comunistas, que ironiza- vam a antevisão do golpe de estado, que de fato ocorreria em 64. Por esta razão, é o único autor citado na grande obra caiopra- diana ‘‘A Revolução Brasileira’’, de 1966. Participou ativamente na luta contra a privatização da educação nacional, assu- mindo a vice-presidência, ainda estudante, da Campanha pelo Ensino Público, ao lado de seu amigo Florestan Fernandes, então

presidente. Nos inícios de 60, escreve contra a in- fluência das posições de Karl Mannheim, mostrando as in- congruências de sua sociologia do conhecimento. O golpe de estado de 1964 o alijou do ingresso na Faculdade de Fi- losofia, Ciências e Letras de Rio Preto, junto com seu gran- de amigo Maurício Tragtenberg. A partir dessa época, alimentou a idéia de que a grande derrota sofrida pela esquerda em 1964 poderia abrir uma oportunidade histórica de autocrítica e de renascimento de uma nova esquerda, com uma produção teórica efetiva- mente revolucionária, a seu ver absolutamente necessária, já que caminhar em direção ao horizonte da emancipação humana exigia uma prática racionalmente sustentada, isto é, baseada na mais rigorosa análise de realidade. Porém, percebendo a incapacidade da esquerda de realizar uma autocrítica verdadeira, agarra-se a um vetor de vida: ‘‘Man- ter a lucidez é um ato revolucionário’’! A edificação de um movimento de idéias passa a ser sua grande perspectiva, já que, nos termos de Marx, ‘‘a arma da crítica não pode subs-

tituir a crítica das armas, o poder material só pode ser der- rubado pelo poder material, mas também a teoria se trans- forma em poder material quando se apodera das massas. A teoria se apodera das massas quando argumenta e demons- tra ad hominem, e argumenta e demonstra ad hominem quando se torna radical. Ser radical é tomar as coisas pela raiz. Mas a raiz, para o homem, é o próprio homem’’. Embrenhado na luta ideológica, criou a Editora Senzala, em São Paulo, publicando em 67, entre outros títulos, ‘‘Exis- tencialismo ou Marxismo’’, de G. Lukács, introduzindo no Brasil o pensamento maduro do filósofo húngaro, com ên- fase especial na sua apreensão do pensamento marxiano como ontologia. Em 72, inicia, na Escola de Sociologia e Po- lítica de São Paulo, sua carreira acadêmica. Em 77, apre- senta sua tese de doutoramento ‘‘O Integralismo de Plínio Salgado: Forma de regressividade no capitalismo hiper-tar- dio’’, revolucionando inteiramente a análise

convencional do integralismo. Até os dias atuais, é comum a identificação do integralis- mo como mero transplante do fascismo euro- peu. Para a corrente positivista, psico-socioló- gica, o fenômeno do integralismo poderia ocorrer no plano ideológico pelo ‘‘recurso mi- mético’’, ou seja, copiando e adaptando as for- mas do fascismo à realidade nacional. Chasin refutava o apriorismo conceitual pela referên- cia ao modelo externo. Isto ‘‘equivaleria a igualizar a realidade de um país economica- mente subordinado, predominantemente agrário-exportador, com a de países altamen- te industrializados, dentro de particularidades históricas específicas, como pólo dinâmico do grande capital’’ (Chasin, 1978: 37-8). Por meio da análise imanente da totalidade dos discursos plinianos, desvendando sua gê- nese histórica e função social, Chasin mostra- va o fenômeno do integralismo como uma ‘‘utopia reacionária’’, como forma da crítica

,

A derrota da esquerda em 1964 poderia representar autocrítica e renascimento de uma nova esquerda

,

,

Enquanto o fascismo esfacela para expandir, o integralismo retrocede com medo do esfacelamento

,

romântica à ‘‘miséria brasileira’’. Com seu lema ‘‘Rumo à terra’’, o integralismo sonhava um país de pequenos pro-

prietários rurais, expressando sua vocação agrária, telúri- ca, e seu sentimento cristão. Tal era o desejo ideológico des- se nacionalismo pequeno-burguês da década de 30. A tese doutoral de Chasin encerra-se com uma síntese luminosa:

‘‘De modo que o ‘burguesismo – mal do século’ não é uma farsa retórica, mas a forma da crítica romântica no capita- lismo hiper-tardio. E uma moral da resignação, da pobreza edificante, se põe como a ‘revolução espiritualista’, e en- quanto tal, é a defesa de uma totalidade inferior. Mas a de- fesa de uma totalidade, não o esfacelamento de toda e qual- quer totalidade. O fascismo esfacela para expandir, o inte- gralismo retrocede com medo do esfacelamento. Ontológica

e teleologicamente, fascismo e integralismo se põem como

objetivações distintas’’ (Chasin, 1978: 652). Demitido em fins de 76 da ESP, e encontrando fechadas as portas das universidades brasileiras, Chasin parte para

Moçambique, a convite do governo daquele país, onde pas-

sa dois anos. Escreve artigos para a revista ‘‘Tempo’’, sob o pseudônimo de Nei Carvalho, sobre o significado das greves operárias na luta pela conquista da democracia no Brasil. Nesse período inicia-se o que vai se mostrar, alguns anos mais tarde, como a crítica mais radical a todo o pseudo-so- cialismo, cuja natureza identifica na esteira do pensamento marxiano, como capital coletivo/não social, superando, as- sim, as caracterizações anteriores do Leste Europeu e vi- sualizando, bem antes de sua queda, e na contramão das análises então dominantes, sua insustentabilidade. Retornando ao Brasil em 80, agora como editor da revis- ta ‘‘Nova Escrita/Ensaio’’, Chasin desenvolverá febril ativi- dade intelectual. Instala-se em João Pessoa, exercendo a docência no mestrado da UFPB, graças aos esforços e apoio de Tragtenberg. No centenário da morte de Marx, em 83, encabeça a maior homenagem feita a ele em nosso País, inclusive com a pre- sença do filósofo húngaro István Més- záros. Neste evento, lança a coletânea ‘‘Marx Hoje’’, escrevendo o denso en- saio intitulado ‘‘Da Razão do Mundo ao Mundo sem Razão’’, em que desenvol- ve ontologicamente a crítica da ‘‘dupla barbárie’’: o capitalismo avançado e a miséria do ‘‘socialismo de acumula- ção’’. ‘‘Barbáries, em suma, gestadas ambas, em suas diversidades, por mo- mentos distintos da mesma lógica per- versa do capital’’: numa ponta, o gigan- tismo do capital superproduzido ex- pondo a sua perturbação estrutural permanente e irreversível e, na outra,

a estagnação, evidenciando a impossi-

bilidade da ruptura do capital pelos elos débeis. ‘‘Atraso, pobreza e solidão

não conduzem ao socialismo’’. Nesse sentido, especifica a impossibilidade das transições abortadas: ‘‘Transições que evidenciam à saturação não ape- nas fracasso estrutural na montagem da formação socialista, como se mani- festam também enquanto espaços his- tóricos da produção e da reiteração ampliada da ofensa social e da aliena- ção, ou seja, reajustando os tempos verbais de um vaticínio da Ideologia Alemã: ‘Com a carência recomeça no- vamente a luta pelo necessário e toda imundície anterior é restabelecida’.’’ (Chasin, 1983: 12). Como editor da Editora Ensaio, fun- dada em 84, Chasin desenvolve ampla

atividade, centrada na revista ‘‘Ensaio’’

e nos ‘‘Cadernos Ensaio’’, ramificada

em livros das áreas de ciências huma- nas e literatura clássica. Divulga em nosso País os trabalhos de Luc Ferry, Alain Renaut, F. Dosse, entre outros. Com a inviabilização da Editora En- saio, em 97, torna-se editor da revista ‘‘Ensaios Ad Hominem’’, para cujo pri- meiro número, a ser publicado em fe- vereiro próximo, chegou a preparar o artigo de abertura: ‘‘Ad Hominem – Ro- ta e Prospectiva de um Projeto Marxis- ta’’. Sua atividade intelectual intensifi- cou-se nos últimos 15 anos de sua vi- da, manifestando-se tanto na alta qua- lidade e rigor de sua produção quanto na constituição, já na UFMG, para on-

de se transferiu em 1986, de uma linha de pesquisa centrada em Marx, no interior do programa de mestrado em Filosofia, da qual vêm resultando diversos tra- balhos que buscam recuperar momentos e/ou temas espe- cíficos da produção marxiana. Em colaboração com outros professores, procurou reforçar o programa de pós-gradua- ção de Filosofia da UFMG, com o intuito de projetar a pro- dução filosófica mineira tanto no plano nacional quanto in- ternacional. Intelectualmente íntegro e rigoroso, empreendedor e ge- neroso, autêntica personalidade conseqüente que, imbuído de honestidade pessoal e básica, visava batalhar, desde já, pela autoconstrução humana e a permanente resistência aos estranhamentos e manipulações, voltado cotidianamen- te à formação de individualidades conscientes da barbárie do capital, a Chasin certamente caberia com precisão a sín- tese lukácsiana contra o pensamento de Heidegger: ‘‘Só uma vida provida de sentido pode terminar com uma mor- te provida de sentido’’.

A proposta Ensaio

Nos anos 80, Chasin instaura a Ensaio – Movimento de Idéias, que, mesmo com a guerra de silêncio perpetrada so- bre ela, trouxe uma série de contribuições significativas,

particularmente o acompanhamento pari passu dos acon- tecimentos nacionais a partir do Golpe de 64, passando pe- la auto-reforma da ditadura militar, até a eleição de FHC. Mais ainda: a denúncia quase solitária de que o itinerário do pós-capitalismo no Leste Europeu não desembocaria no socialismo. Isto dito em princípios dos anos 80, consagrado no texto ‘‘Marx – Da Razão do Mundo ao Mundo sem Ra- zão’’, portanto, antes da queda do muro de Berlim, em no- vembro de 1989. Chasin criticava duramente a politização dos movimen- tos sociais, o praticismo taticista próprio ao fenômeno do stalinismo e suas justificativas teóricas desassombradas. A proposta Ensaio congregava três vetores básicos intima- mente articulados: a produção de um pensamento de rigor centrado na ontologia histórica de Marx, recusando sua as- similação deformada engendrada pelo marxismo vulgar, e na crítica permanente da mundialização do capital em suas objetivações materiais e espirituais; a disseminação desse conhecimento da forma mais abrangente possível; e, numa orientação metapolítica, projetava a recomposição de um movimento prático no sentido da emancipação humana. Retomando antiga convicção da necessidade da produ- ção teórica, que via como a carência fundamental da histó- ria da esquerda, Chasin tracejou um consistente trabalho coletivo de produção intelectual: estudos sobre as diversas variantes do pensamento conservador brasileiro, a ideolo- gia bonapartista de 1964, bem como sobre a redescoberta do legado ontológico de Marx, âmbito no qual se produzi- ram os resultados mais notórios. Esta redescoberta, como ato de lucidez e coragem, requer, no mundo presente, o en- frentamento com a aversão pela objetividade – sintetizada

no lema nietzschiano ‘‘Não existem fatos, só interpretações’’

– e a descrença na potencialidade do saber científico, e com

a destituição do homem, o anti-humanismo inscrito nas fi-

a destituição do homem, o anti-humanismo inscrito nas fi- losofias da desconstrução e da ‘‘morte do

losofias da desconstrução e da ‘‘morte do sujeito’’. O aban- dono do humanismo, segundo seus próprios termos, impli- cava no descarte da centralidade do processo de individua- ção social, mais propriamente, na recusa da revolução so- cial como necessidade permanente e infinita. Chasin descartava a barbárie do capital como a destina- ção histórica última do convívio social. A humanidade deve- ria permanentemente se interrogar sobre seu futuro: ‘‘A

questão está em se indagar, diante da miséria material, que se amplia, e da miséria espiritual já universalizada, se pode ser eterno o conformismo diante do mal-estar da humani- dade, do mal-estar indisfarçável de cada individualidade, do apodrecimento radical de toda individualidade, pois no processo da individuação capitalista são indissociáveis o en- riquecimento e o apodrecimento da individualidade, pois sem o apodrecimento ela não subsiste no quadro vigente’’.

A defesa da revolução social, apesar de seu banimento no

presente, não se limitava à defesa do proletariado como ca- tegoria social, não dizia respeito a um ‘‘simples futuro de uma classe, mas o devir do gênero humano, considerado na sua concreta configuração de infinitude de indivíduos’’ (Cha- sin, 1999, no prelo).

ARQUIVO DE FAMÍLIA

DIANTE DA

miséria

material e

espiritual

universalizada,

José Chasin

persistia na

defesa da

revolução

social

* Antônio Rago Filho é doutor em História e professor da PUC-SP