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A obra De Pueris

Essa obra de Erasmo vem justamente abordar o tema da educação, mais precisamente, da educação dos meninos.

É sabido que até a Idade Média não se tinha o sentimento de infância que se concebe hoje. A importância

da criança era quanto à perpetuação da linhagem da família. “Os filhos não interessavam por sua individualidade, mas por serem portadores do germe da preservação familiar” Boto (2007: 20). Uma pedagogia totalmente voltada para a infância ganha vida do século XVIIem diante.

Daí, a importância da obra desse filósofo humanista: um tratado sobre educação com foco na criança. Cambi diz que um dos méritos do humanismo na pedagogia foi o de descobrir a infância:

] [

educação física, no âmbito de uma revalorização, depois da decidida negação medieval do mundo físico e natural, e mais ainda de descobrir a infância, o valor da vida infantil, da sua especificidade e de assegurar- lhe um lugar não-secundário no quadro do mais amplo contexto social (1999:226).

deve ser concedido a ele o mérito de atribuir grande importância no plano didático aos jogos e a

A obra De Pueris constitui-se de um tratado sobre educação e traz em seu bojo o problema do valor da

educação:

Um dos estudos escreve James Bowen mais penetrantes já escritos sobre educação. [

um dos documentos mais importantes na história da civilização ocidental. A parte mais relevante do

raciocínio pedagógico de Erasmo refere-se à finalidade da educação. O traço distintivo do homem afirma

o pensador holandês é a razão; cultivar a razão é essencial para realizar a verdadeira humanidade; esta tarefa de cultivar compete à educação que é “a principal aptidão concedida à humanidade” (CAMBI, 1999:

254).

] este ensaio é

Em sua opinião haveria três fatores essenciais para estruturar a condição humana em sua plenitude: a natureza, a razão e aprendizagem. A natureza humana inclui a faculdade racional; esta, por seu turno, só poderá ser mobilizada pela ação do aprendizado.

É destinada ao pai de família, e demonstra já de inícioque a principal importância da criança é com o

prolongamento da linhagem familiar: “eis que fico sabendo que és pai e, por sinal de um menino que demonstra, desde já, uma índole admirável, a saber, idêntica à dos pais. Erasmo (s⁄d: 25)”. “Ou pode ser

lido como uma estratégia do autor para que o leitor dê continuidade à leitura. Boto (2007: 24)”.

Para isso ele aconselha que se deva iniciar a educação precocemente, aos três anos de idade, haja vista, o indivíduo já estar impregnado de maus hábitos aos sete anos, idade na qual se iniciava os estudos na época (CAMBI, 199:254). “Manuseia a cera enquanto mole. Modela a argila enquanto úmida. Encha o vaso de bons licores enquanto novo. Tinge a lã quando sai nívea do pisoeiro e ainda isenta de manchas. Erasmo (s⁄d: 40)”.

A boa conduta será esculpida pela educação, a criança precisa afastar-se das suas vontades mais

imediatas, para não se ver tentada pelo vício e pelo mal:

Como poderá ser pudico na juventude, se, na infância, foi habituado com a impudicícia? Como virá a ser dadivoso mais tarde, se, agora aprende o apego ao dinheiro e ao ouro? Quem logra conter um jovem em face do luxo, se teve o paladar corrompido antes mesmo de tomar gosto pela moralidade? (ERASMO, s⁄d:

45).

A família (pais, amas e demais figuras domésticas) e o preceptor ganham destaque como agentes

educadores. “Na verdade de maior acerto mesmo, seria que os próprios pais capacitassem a si mesmos para a área das letras e, assim, transmitissem ciência a seus filhos Erasmo (s⁄d: 78)”.

A preocupação quanto ao descaso das famílias perante educação dosfilhos é mostrada através da

comparação com os animais, que cuidam de suas crias, ao passo, que o homem, dito racional, muitas

vezes ignora seus deveres perante os filhos.

Caso a família não esteja capacitada para a nobre tarefa da educação da criança, esta deveria contar com a figura de um preceptor “para tanto deves, desde logo, procurar um homem de bons costumes e de caráter

meigo, dotado de conhecimentos invulgares [

proporcionar ao menino ensinamentos saudáveis e honestos.

]

Erasmo (s⁄d: 26)”. Deveria ser culto o suficiente para

O autor atribui relevante importância à figura do preceptor (professor). Cabe a ele enxergar as características individuais de cada aluno e aplicar a modalidade de ensino mais propícia a cada um dos alunos[4]. Embora tenha em alta consideração a função do docente, despreza a pobreza de cultura e de profissionalismo de alguns mestres.

Contudo é perceptível o preconceito quanto à figura feminina na educação dos filhos:

Loucura mais desatinada ainda é entregar os filhos, como sói ocorrer, aos cuidados de mulherzinha ébria para aprenderem a ler e a escrever. Já repugna a natureza que a mulher domine os homens. Acima de tudo porque nada mais peculiar àquele sexo, que ao ser perturbado pela ira, enfurecer-se com muita facilidade e só aquietar-se depois de saciada pela vingança. (ERASMO, s⁄d: 84).

Destaque ainda para os métodos pedagógicos aos quais abomina a excessiva severidade na aplicação das penas. Somente em último caso, o uso da palmatória seria justificado. O educador deveria repensar asua atividade pedagógica, refletindo sobre sua prática e procurando estabelecer um vínculo de afetividade com o educando. O segredo estaria nesse envolvimento. “O certo seria que a criança recebesse alento a fim de amar os estudos e aprendesse a ter receio em decepcionar o mestre Erasmo (s⁄d: 105)”.

Por fim, como programa de ensino mais adequado à idade, enfatiza a aprendizagem da língua, música, aritmética, cosmografia e a história natural, levando em conta sempre a capacidade de assimilação da criança e suas preferências, ou seja, pelo aspecto de afinidade. O professor deve se guiar pelo lúdico, através de uma variedade de jogos bem adaptados à criança. “Nada obsta que o útil circunde o agradável e que o jucundo acompanhe o honesto Erasmo (s⁄d: 111)”.

Conclusão

Considerando a formação religiosa onde pode freqüentar ambientes intelectuais e ter trabalhado como secretário de autoridades eclesiásticas, que lhe possibilitou diversas viagens pela Europa e contato com altas autoridades, ser amigo de Thomas More chanceler do reino da Inglaterra pode-se afirmar que Erasmo fazia parte da elite da época. Além disso, o fato de dedicar uma de suas obras ao futuro imperador Carlos V, poderia nos fazer acreditar em um compromisso com a elite da nobreza.

Porém, seu interesse por uma educação de qualidade, estendida a todos os indivíduos sem distinção de classe, a expensas do Estado ou autoridades competentes a isso; sua ruptura com o potentado da Igreja, denunciando injustiças e corrupções dessa instituição, nos faz ver um educador de concepção cristã, comprometido com a sociedade como um todo, objetivando ademocratização da cultura erudita.

Seu lugar de destaque diante à cúpula da sociedade da época se deve principalmente ao seu cabedal intelectual, sua mentalidade cosmopolita e suas idéias que convergiam com a filosofia humanística caracterizada por uma mudança de atitude do homem diante dos problemas da vida e do mundo.

Em sua obra aqui analisada, De Pueris o autor enfatiza que a razão é própria do ser humano, e que através dela exerce sua humanidade e, isso é tarefa da educação; uma aptidão do ser humano.

Para isso, sugere que a operação educativa inicie-se na infância, logo nos primeiros anos de vida, respeitando as características naturais da criança, como forma de evitar danos a sua saúde. Somando-se à natureza (dotes físicos e mentais), os métodos e as práticas são fatores educativos essenciais. Daí, a importância do papel do professor com cultura, profissionalismo e capacidade para reconhecer diferenças individuais e estabelecer as melhores opções de ensino, de acordo com a necessidade de cada um. Não menos importantes são os outros agentes como família, servidores domésticos, instituições de toda a sorte, que devem preocupar-se com a qualidade da educação das crianças.

Esse seu sistema didático, em que inclui os estudos dos clássicos, através do contato direto com os textos, relacionando-os com a vida cotidiana e com as várias disciplinas coloca-o como expoente maior da pedagogia da educação no humanismo.

Por último, vale lembrar que várias das idéias defendidas nessa obra, são congruentes com as atuais: a antipedagocia do castigo (= pedagogia do amor), educação precoce (= pré-escola),o método da graduação crescente (= respeito ao desenvolvimento biológico, social e psicológico), etc. O mais impressionante, é que isso tudo, baseado em observações do ambiente social, na especulação filosófica, já que não se contava, naquela época, com descobertas científicas sobre psicologia, biologia e desenvolvimento cognitivo.

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De Pueris (Dos Meninos)

Cuidado com o corpo e com o espírito, com a saúde, hábitos de higiene com a criança desde a mais tenra idade (até com um sentido de moldá-lo melhor, de ser mais fácil ensinar as boas virtudes);

Prega uma autêntica educação e uma reta instrução como elementos para a conquista da felicidade. Esta educação concorre para a sabedoria e não para a eloquência (como mero exercício ou hábitos de retórica).

A forma sem conteúdo não tem sentido; A educação tem uma conotação mais prática, deve-se educar as

crianças para o bom uso dos bens materiais (saber gerir e usufruir os bens materiais);

Educação moral/ensino de virtudes/tornar o homem honesto;

De nada vale ter status (ou ser rica) se a pessoa não é digna de possui-los, em outras palavras deve-se educar para que as crianças tenham competência, conhecimento técnico de causa e ético-moral nos cargos que por ventura possa ocupar (aproximação com a ideia de mérito também?) p. 29;

O homem é um ser inacabado, ele se faz homem, é o resultado de uma modelagem e deve-se inculcar uma boa educação para evitar a degradação humana (vira uma besta humana sem os devidos cuidados com educação);

O homem sem educação é pior que um animal;

Sistema pedagógico de E. Rotterdam: As trilhas da aprendizagem(cap. II): natureza, razão (mais no sentido ético-moral, do que técnico-instrumental?) e aprendizagem (p. 43)

A Civilidade Pueril

A arte de ensinar deve ser orientado segundo as fases do crescimento natural da criança; prega determinadas regras de comportamento; dentro de uma concepção humanista mas ainda marcada por componentes cristãos (alias, Erasmo de Rotterdam acreditava em uma reforma interna da Igreja católica, mas ao final de vida acaba desistindo da vida mundana para viver em reclusão)