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Fim de um Suplício

Arctic Nurse

Elizabeth Gilzean

Fim de um Suplício Arctic Nurse Elizabeth Gilzean Sozinha em uma Ilha do Ártico, Sharon tremia

Sozinha em uma Ilha do Ártico, Sharon tremia de medo e de frio. Os cães ao lado do trenó a olhavam de modo desconfiado e a moça sabia que eles só obedeciam a voz do dono. Mas o dono estava longe e Sharon não podia gritar por socorro. Foi então que ela escutou o ruído do motor de um pequeno avião. O avião de Ross, o homem que ela amava, o homem que podia salvá-la. Salvá-la como? Ross não sabia que ela estava perdida e que teria por túmulo aquela bela e terrível imensidão branca! O frio estava cada vez mais forte. Sharon gelada e com fome, perdeu os sentidos...

Este Livro faz parte do Livros Florzinha, sem fins lucrativos e de fãs para fãs. A comercialização deste produto é estritamente proibida.

CAPITULO I

Sharon Lindsay subiu correndo os degraus do Hospital St. Mary. Quando chegou ao saguão, olhou o relógio e suspirou, desanimada. Quatro e cinco! E ela deveria estar de volta ao trabalho às quatro horas! A enfermeira-chefe não ia gostar nada daquele atraso. Apressou-se para chegar ao Centro Cirúrgico, rezando para não encontrar seus superiores no caminho. Uma das enfermeiras de plantão percebeu sua entrada pela porta da enfermaria.

Desta vez você exagerou, Lindsay. A srta. Shaw quer que você a procure em seu gabinete. Por onde andou?

Sharon fez sinal para que a outra se calasse. Fui à praça Trafalgar disse. Seus olhos brilhavam. Não deixe a enfermeira-chefe saber, ou você pode ser até despedida.

Isso é o que ela pode querer, mas as coisas estão mudando! Olhe, havia centenas de pessoas lá, e muita gente dos sindicatos reivindicando seus direitos. Podem até fazer greves de apoio a nosso favor!

Fique quieta, acho que estou ouvindo os passos da srta. Shaw. Dê-me sua capa, eu a guardarei para você.

Sharon caminhou mais devagar, ao se aproximar do escritório da enfermaria. A enfermeira-chefe lançou-lhe um olhar furioso.

Então você voltou, srta. Lindsay, e com dez minutos de atraso. A diretora quer vê-la imediatamente. E ajeite seus cabelos. Eles estão num estado lamentável.

Sim, srta.

Shaw...

está ventando muito lá fora.

Se eu quisesse a previsão do tempo, já a teria pedido, srta. Lindsay. Espero que não aprenda a dar desculpas para tudo. A enfermeira-júnior fica em seu lugar enquanto fala com a diretora.

Quer que eu vá dizer-lhe isso, srta. Shaw? Sharon perguntou cuidadosamente.

Não. A diretora não gosta que a façam esperar.

Uma Sharon mais submissa desceu lentamente os mesmos degraus que havia subido com tanta pressa há apenas dez minutos. Ou menos?

Entre ouviu a voz da diretora assim que bateu à porta. Sente-se, srta. Lindsay. A expressão da mulher era tão fria quanto o tom de sua voz.

Sharon sentou-se cuidadosamente na cadeira dura de espaldar reto e esperou, catalogando mentalmente suas possíveis falhas. A diretora fechou a pasta que tinha nas mãos e olhou para Sharon.

Você esteve na manifestação de protesto na praça Trafalgar, srta. Lindsay. Não havia nenhuma duvida em sua afirmação.

Sharon pensou em várias desculpas e decidiu-se por nenhuma. Sim, é verdade!

Todos nós temos nossos sentimentos sobre a atual situação, enfermeira, mas, como bem sabe, o comitê do hospital deixou bem clara sua posição em relação aos funcionários do St. Mary. Eu preferiria resolver isso em particular, porém você foi vista e reconhecida, e a questão chegou oficialmente a mim. A diretora passou os dedos sobre a pasta fechada. Está conosco há cinco anos, srta. Lindsay. Quatro como estagiária e um como enfermeira de plantão. Sua expressão atenuou-se um pouco. Seus antecedentes revelam algumas falhas, mas falhas perdoáveis. No entanto, desta vez não tenho escolha. Você terminará seu trabalho no Centro Cirúrgico esta noite e a partir de amanhã será transferida para o plantão noturno, no Bloco de Isolamento.

Por um momento, Sharon sentiu desespero. Ela já havia cumprido sua quota de plantão noturno daquele ano.

Obrigada conseguiu dizer finalmente, engolindo um soluço.

Isto é tudo, srta. Lindsay. Acho desnecessário pedir-lhe que não participe mais destas manifestações.

Sharon ainda estava atordoada. Talvez as sombras do fim de tarde ajudassem a tornar aquele corredor mais sombrio, porém os olhos verdes haviam perdido seu brilho. Quem seria o intrometido que a tinha reconhecido? Se ela não fosse a representante das enfermeiras de plantão nas reuniões mensais do St. Mary, possivelmente ninguém de lá poderia distingui-la de outra funcionária!

A enfermeira-chefe já saiu disse a enfermeira-júnior, à sua espera. Pediu para você não se esquecer de dar a dieta especial ao sr. Graham. O professor quer que ele esteja em boa forma antes de operá-lo. Posso ir agora?

É claro! Obrigada. Espero não ter atrapalhado seu serviço. Atrasei seu horário?

Não, eu sairei só mais tarde. Vou à reunião no instituto. Quer vir junto? Começa às oito e meia.

Qual é o assunto? perguntou Sharon, refletindo que talvez fosse melhor ir do que ficar ali, remoendo as injustiças da vida.

Qualquer coisa sobre a vida no Ártico, por alguém que esteve participando de um projeto lá. Talvez seja interessante, quem sabe?

Olhe que é uma boa idéia. Encontro você lá, tão logo termine minhas obrigações de hoje. Está certo. Até mais tarde. Sharon passou os olhos sobre o relatório e fez uma lista de pedidos novos. Dirigiu-se ao armário de remédios e viu que só havia três vidros na prateleira. Suspirou, desanimada. Alguém anda lhe dando trabalho, Sharon? perguntou Alistair Gaskell, entrando de repente na sala. Só porque você é o cirurgião-residente, não deve pensar que é dono da enfermaria! Sharon retrucou, olhando-o de relance. Sua vista, então, fixou-se nele. Alistair, você comprou uma camisa nova! Ele corou até a raiz dos cabelos e seus belos olhos azuis fugiram dos dela.

Não me acuse, Sharon. Eu tenho uma posição a manter. Deu de ombros. E, depois, não custou muito.

Mais do que o aumento que recebemos. O que adianta economizar meus centavos se você gasta os seus?

Compensarei no próximo pagamento, prometo. A lavanderia rasgou minha melhor camisa, juro. Que tal sair comigo esta noite?

Sharon recebeu o convite distraidamehte. Tinha ouvido muitas desculpas semelhantes nos últimos tempos.

Sharon, você não está ouvindo!

Estou, sim, e pare de me chamar de Sharon no trabalho. Já lhe pedi centenas

de

vezes...

Não posso sair hoje. Vou a uma conferência. Começou a separar os

remédios que deveriam ser ministrados a cada quatro horas.

Sinto

muito...

Sh...

desculpe, enfermeira Lindsay. Alistair observou-a,

apreensivo. Desculpas aceitas, doutor Gaskell. Não tem nada a fazer? Estou ocupada.

Tenho alguns relatórios para escrever. Que tal amanhã? Ela tampou um vidro e verificou o rótulo.

Amanhã também não posso, vou ficar de plantão disse Sharon, deixando transparecer certa amargura em sua voz.

Mas você acaba de completar seu período de plantão noturno. Não é justo!

Eu sei,

mas...

não quero falar sobre isso agora, se não se importa.

Pensei que fôssemos bons amigos, amigos de verdade protestou ele. Conte-me o que está acontecendo.

Agora não disse-lhe Sharon com firmeza, fazendo com que se retirasse para suas visitas aos pacientes.

Ela pensou nos discursos que ouvira na praça. Não que ela tivesse escolhido enfermagem pelo dinheiro, mas o fato de ganhar um salário inferior ao de uma servente feria seu orgulho. Era a injustiça que Sharon tinha atravessada em sua garganta. E nunca, desde criança, a aceitara.

Separou o último remédio e iniciou a ronda pela enfermaria. Fez o possível para demonstrar alegria aos pacientes, fingindo ignorar as provocações quanto à situação das enfermeiras e suas reivindicações de melhor salário. Sabia que se entrasse em alguma discussão séria, seu temperamento iria romper a fina camada de discrição que o envolvia. O Centro Cirúrgico estava bastante quieto, apesar de não haver camas vazias. Se tivesse sorte, sairia do trabalho a tempo. Talvez a palestra fosse monótona e ela se arrependesse de ter recusado o convite de Alistair.

Lembrou que, no início, sua amizade com Alistair tinha sido divertida. Sabia da inveja de muitas colegas, desejosas de ser alvo das atenções de um cirurgião atraente. Mas nos últimos tempos um tom diferente havia envolvido o relacionamento, e Sharon não estava certa se gostava disso. Aos poucos, ela se conscientizava da grande atração que ele sentia pela boa vida, mesmo em coisas simples como uma gravata nova, um par de meias ou camisas elegantes. Ela havia deixado esta questão de lado, mas agora estava certa de que qualquer plano para o futuro deles, era incerto. Talvez o amor só fosse divertido enquanto não se tornasse sério. Aí, seria tarde demais para recapturar os momentos iniciais de alegria despreocupada.

Eram quinze para as dez quando Sharon se dirigiu à sala das enfermeiras, com sua xícara de chocolate quente. Numa noite comum, ela teria levado o chocolate para sua sala, mas agora estava entusiasmada demais para ficar sozinha, Queria compartilhar a novidade com alguém. Pôs a mão no bolso e tocou o pedaço de papel onde anotara a informação preciosa, mas resistiu à tentação de puxá-lo. Encontrou uma cadeira vazia e sentou.

Passou os olhos pela sala cheia. Todos pareciam falar ao mesmo tempo e, aqui e ali, um grupinho entusiasmado discutia algum fato novo sobre as negociações salariais. Percebeu um ou dois olhares curiosos em sua direção. Por um segundo, imaginou que a notícia da sentença da diretora tinha-se espalhado, mas logo percebeu que era seu silêncio o foco de atenção. Normalmente, desde os primeiros momentos nas negociações, ela sempre participava de um modo acalorado nas discussões. Avistou a enfermeira-júnior que a tinha convidado para a palestra e acenou, chamando-a para perto dela.

Onde você foi no fim da palestra, Lindsay? Esperei horas por você! Desculpe-me, fiquei para trás fazendo algumas perguntas respondeu Sharon com um sorriso ao mesmo tempo feliz e enigmático.

Para quê? estranhou a outra. Sei que a palestra foi interessante, mas o pólo norte é tão longe! Temos que ficar aqui até conseguirmos um aumento em nossos salários. Estou cansada desta confusão, mas não há nada que eu possa fazer a não ser esperar.

Só que eu não vou esperar retrucou Sharon, com entusiasmo, sem perceber que sua voz se alterara e várias pessoas tinham se voltado para escutá-la.

Vai fazer uma greve particular, Sharon? alguém a provocou. Enfermeiras não entram em greve fez-se ouvir outra voz, em reprovação.

Não vou entrar em greve. Vou deixar o St. Mary. Um murmúrio de descrença se espalhou pela sala.

Foi despedida, Sharon? ironizou alguém, sem se identificar. Não seja maldosa, Hellier! Sharon ignorou todas as observações. Estava muito ocupada consigo mesma, vivendo emocionada esse seu momento de decisão.

E para onde vai, Sharon? uma de suas colegas aventurou-se finalmente a lhe perguntar.

Sharon

levantou-se.

Não

podia

fazer

uma

participação como aquela

simplesmente sentada em uma espreguiçadeira. Vou trabalhar como enfermeira no Ártico!

Houve uma explosão de risos que, diante da expressão de Sharon, se dissiparam quase instantaneamente.

De quem você vai cuidar lá, de pinguins ou de ursos polares? Hellier não se intimidava, perguntando, zombeteira.

Como é, Sharon, não nos deixe neste suspense! atreveram-se outras.

Vou para o Hospital Missionário de Cabo Mercy, na Ilha Baffin. Fica na parte leste do Ártico, a nordeste da Baía de Hudson, e faz parte do arquipélago canadense.

E quando decidiu tudo isso? Você nunca disse nada. Sharon pôde ver que todos acreditavam, agora.

Esta noite, após a palestra a que fui com Ramsay. Aquilo me pareceu um bom desafio. Estou no St. Mary há uma eternidade. Isso será uma experiência nova. Vou

ver esquimós, caíaques, trenós puxados a cachorros

e...

ah, tanta coisa! Tirou do

bolso o pedacinho de papel e acenou com ele. É apenas um hospital pequeno. Nesse

lugar existe apenas a Companhia de Comércio Hudson, um posto Tudo? Quantas pessoas vivem lá?

policial...

isso é tudo.

Não tenho certeza hesitou Sharon Umas dez, creio. Brancas, quero dizer. Há um povoado esquimó perto da vila e uma espécie de acampamento de

exploradores ou de cientistas, ou de mineiros, não sei muito bem. Na palestra havia muita gente fazendo perguntas e talvez eu tenha confundido algumas respostas.

Não me surpreende tanto, vindo de você, Sharon disse alguém, rindo. Por acaso você perguntou se existe um médico lá?

Mais ou menos Sharon corou. Parece que ele não fica lá todo o tempo; também cuida do acampamento e de outros povoados esquimós.

E você disse que assinaria o contrato sem saber mais nada a respeito? havia um leve tom de inveja naquela voz.

Sim, disse! Vai ser diferente da velha rotina e, talvez, até mesmo divertido respondeu Sharon, em desafio. Vou vê-los amanhã pela manhã para acertar o resto dos detalhes.

Mas você não tem folga pela manhã, Lindsay a voz de Ramsay soou um pouco estranha.

Tive que trocar minha folga disse Sharon, olhando-a rapidamente.

Eu aposto que teve zombou Hellier. Espero que goste do Bloco de

Isolamento tanto quanto gostarei

do...

Centro Cirúrgico.

Sharon se viu cercada pelas amigas, agrupadas em torno dela. Ramsay foi a primeira a falar: Aconteceu alguma coisa, Lindsay? Sharon assentiu com a cabeça. Todos ficariam sabendo, mais cedo ou mais larde. Fui vista na manifestação da praça Trafalgar esta tarde e delatada à diretora. Ela me puniu, mandando-me para o Bloco de Isolamento, plantão noturno.

Foi bem feito disse Hellier, a uma distância segura. Aposto o que quiser como está fugindo para o Ártico para escapar à punição finalizou, deixando a sala.

Não é nada disso Sharon replicou, veemente. Parte do brilho de seus olhos, porém, havia desaparecido.

Nós sabemos. Você nem sequer pensou na diretora, quando concordou, esta noite. Ramsay parecia falar por todos. Mesmo assim, sinto-me aliviada por não ser eu a ter que dar explicações. Quando vai apresentar seu pedido de demissão?

Amanhã, suponho disse Sharon pensativamente. Não esperava que tudo terminasse assim.

Ouvia-se o som distante do clique de um interruptor de luz.

É a enfermeira-chefe da noite. Vamos, gente, vamos lhe fazer uma surpresa, estando uma vez na vida em nossas salas.

Sharon desceu o corredor em direção à sua sala. Sabia que Ramsay vinha logo atrás, mas não teve vontade de continuar a discussão. A roda do destino estava girando rápido demais e ela precisava de tempo para alcançá-la, tempo para pensar.

Sharon acordou cedo e lembrou que não precisaria trabalhar naquela manhã. Estaria no plantão noturno. Permaneceu na cama, desanimada com essa perspectiva, mas logo reagiu. Iria à entrevista às 13 horas. Seria coisa rápida, concluiu ela, pois os organizadores da palestra deveriam estar contentes por terem conseguido uma voluntária e, uma vez feitos todos os acertos, ela poderia se apresentar à diretora à tarde. Recusava-se a pensar em sua reação ou na de qualquer outra pessoa. Não tinha que consultar ninguém sobre sua inesperada decisão. Perdera os pais quando pequena e a tia que a criara falecera havia dois anos. Não tinha ninguém para impedir sua partida nem sentir sua falta.

Pensou com amargura na cena da última noite. A hostilidade de Hellier nunca a havia preocupado antes. Mas uma vez alguém dissera que ela estava interessada em Alistair. Sharon sorriu maliciosamente. Esta era uma forma de resolver o problema da crescente seriedade de Alistair sem lhe trazer sofrimento. Será que ele se importaria? Embora ele não houvesse feito um pedido formal de casamento, ela sabia que esta era sua intenção. Ela deveria descobrir um modo de lhe contar a novidade antes que outra pessoa o fizesse. Sem dúvida, quando estivesse preparada para lhe contar, Hellier já o teria informado. Na verdade, sua simples presença ocupando o lugar de Sharon no Centro Cirúrgico seria suficiente para fazer Alistair suspeitar.

Sharon olhou para o pátio, coberto por uma neblina cinzenta. Já era suficientemente ruim ter que voltar para o plantão noturno, sem esse tempo horrível. Pensou que talvez fosse tão horrível justamente por ela se sentir dessa maneira. Pôs a capa sobre os ombros, atravessando lentamente o pátio em direção ao Bloco de Isolamento. Não tivera ânimo para jantar no refeitório e estava sem companhia para entrar no serviço. A neblina densa tornava os sons abafados e distantes e as luzes pareciam envoltas em auréolas. Quando, porém, entrou no prédio, sentiu-se melhor, acalentada pelo ar quente a acariciar seu rosto.

A chefe de plantão da Enfermaria de Isolamento cumprimentou-a com ar cansado.

Boa-noite, enfermeira Lindsay. Você não deverá ter muito trabalho esta noite. Só há um caso grave e ele está no quarto ao lado do escritório da enfermaria,

de modo que você poderá ouvi-lo, se ele tentar sair da cama. O bebê do quarto 3 apresentou melhora e deve passar a noite sem a mamadeira das duas horas. Pode preparar um saco de roupas para o porteiro da noite esterilizar junto com as roupas

das outras enfermeiras.

Oh...

e será que você poderia remendar algumas luvas? As

nossas estão todas esburacadas. A enfermeira-chefe da noite deverá informá-la sobre o horário de jantar. Acho que você sabe onde encontrar tudo, não?

Sim, obrigada disse Sharon, sem entusiasmo.

Esperou a enfermeira sair para explorar seu novo domínio. Somente seis pacientes para tomar conta. Parecia mais um cemitério, em comparação com o ritmo do Centro Cirúrgico, onde sempre houve muito por fazer e pouco tempo disponível.

Por volta das nove horas, Sharon já conseguira organizar suas tarefas para a noite. A situação do quarto ao lado, um caso de meningite, estava tranquila. Nem mesmo o bebê estava choramingando. Havia somente o som abafado da música vinda do quarto do sr. Smith, no fim do corredor. Ela permitira que ele ouvisse seu programa favorito, pois duvidava que isso incomodasse os outros.

Sentou-se à escrivaninha da enfermaria e começou a cortar quadrados de gaze, que dobrava, juntando-os de seis em seis. Imaginou se conseguiria suportar um mês inteiro fazendo isto. Será que a diretora sabia a que a estava condenando, quando a mandara para lá? Pensou na conversa que haviam tido aquela tarde, e sentiu um arrepio. A mulher havia sido terrivelmente fria.

Não posso impedir que se vá, srta. Lindsay, se seu propósito em relação a esse projeto é firme dissera ela, suspirando. Quanto às explicações de Sharon, afirmara: Entendo, acho apenas natural que os outros não aceitem com facilidade. Pensarão que você está fugindo.

Depois sorrira, quando Sharon falara com veemência: Mas essa não foi de forma alguma a razão, diretora!

E agora Sharon estava lá, sentada, confeccionando curativos e tentando se convencer de que dentro de trinta e três noites estaria a bordo de um avião rumo à Groenlândia. De lá para Cabo Mercy a viagem seria bem mais curta.

Uma batidinha leve na porta que levava à escada fez com que Sharon desviasse os olhos de seu trabalho. Andou apressadamente em direção a ela e, então, quase parou de espanto. A figura por trás do painel de vidro era Alistair.

Você não pode entrar sussurrou pelo vão da porta.

Oh...

sim, eu posso e abriu a porta, passando por Sharon. Vim dar uma

olhada no caso de meningite, para Heming. Ele está com gripe. Portanto, pare de

franzir esse rosto bonito e arranje-me um avental como o seu.

Sharon olhou desconfiada para ele e depois lhe deu um avental, ajudando-o a vesti-lo.

Espero que tenha colocado bem os adesivos. Não quero nenhum micróbio rastejando pela minha camisa nova. E você não precisa olhar assim: é a mesma que usei ontem. Esperou que ela colocasse a última fita adesiva, para continuar, no mesmo tom de discussão. Você não acha que poderia ter-me contado, ao invés de Hellier? Ela adora dar más notícias, e ainda as tempera com sal e vinagre.

Sinto muito, Alistair, de verdade disse, arrependida.

Vamos olhar seu paciente a voz de Alistair mostrava censura. Quando você parte? Na próxima semana? Seu olhar era irônico e traduzia descrença.

Não, no próximo mês. Dentro de trinta e três noites, para ser exata disse ela, sabendo que o surpreendia.

Então você vai mesmo! Disse aquela Hellier miserável para ir contar suas

histórias em outro lugar.

Mas...

e nós? O sofrimento dele perturbou Sharon.

Não iria dar certo,

Alistair...

jamais. Somos muito diferentes.

Viu os olhos azuis hesitarem diante da determinação dela. Por favor, Sharon, dê-nos mais uma chance. Podemos decidir quando você

voltar.

A infelicidade dele deixou-a mais doce.

Falamos sobre isso outra hora, Alistair. Ela não queria machucá-lo, dizendo-lhe que nunca mais voltaria ao St. Mary.

Conduziu-o ao quarto ao lado. O paciente encarou-os com olhos febris, o corpo contraído. Quando Alistair terminou o exame, Sharon refez a cama e deu de beber ao homem. Esperou pacientemente enquanto Alistair lavava as mãos e pendurava o avental e então deixou-o escrever suas anotações, enquanto aplicava uma injeção no paciente. Levou algum tempo descartando a seringa e depois lavou as mãos. Pegou outro avental do armário e o vestiu. Antes que suas mãos alcançassem as fitas para amarrar, Alistair veio em sua ajuda.

Permita-me. O calor de seus dedos passou pelo tecido fino e sua suavidade foi um apelo mais forte aos sentidos de Sharon do que qualquer palavra que ele pudesse pronunciar.

Obrigada, Alistair disse ela, afastando-se um pouco. O que você achou dele? gesticulou em direção à parede de vidro que os separava do paciente.

É difícil julgar, pois nós dois o vimos pela primeira vez esta noite, mas eu diria que ele não está reagindo bem ao tratamento. Suspirou. Outro caso de vírus resistentes a tratamento, suponho. O bom é que os pesquisadores continuam descobrindo sempre mais um antibiótico, outro soro, senão voltaríamos ao antigo pesadelo dos dias anteriores a Lister e Pasteur. Faz a gente pensar que os hospitais estão se tornando armadilhas mortais, ao invés de lugares de cura para os doentes.

O som de passos vindos da escada chegou até eles de repente.

Deve ser a chefe da noite. É melhor você ir Sharon apressou-se a dizer.

Você esquece que estou aqui a trabalho. Bem, boa-noite, você ainda não partiu!

Sharon...

Lembre-se:

Ela retomou a tarefa anterior, dobrando os quadrados de gaze branca. A chefe da noite ia trabalhar primeiro nos outros andares do Bloco de Isolamento. Ouviu a voz de Alistair e depois uma voz de mulher, seguida de passos diminuindo na noite. Restou apenas o resmungar do homem no quarto ao lado e algum ruído ocasional para lhe lembrar que não estava sozinha.

Alistair tinha sido mais compreensivo do que ela merecia, fazendo-a sentir-se culpada. Talvez fosse bom ela partir assim tão depressa. Se ele tivesse mais tempo

para convencê-la, ela acabaria cedendo. Ele não havia sugerido que ela estava fugindo de seu castigo. Mas não pensaria, talvez, que Sharon fugia dele? Não estava tão certa. Sob a aparente despreocupação dele, havia uma determinação séria, tão forte quanto a dela. A imaginação de Sharon deixou para trás o sofrimento de Alistair, a reprovação da diretora, a zombaria de Hellier e ela viu a brancura do Ártico à sua frente, as pegadas dos cães puxadores de trenó, e, aqui e ali, esquimós vestidos de peles saindo de seus iglus. Percebeu então o pouco que sabia a respeito do lugar para onde ia. Na conversa da noite anterior, mais do que um simples relato de fatos, ela sentira o desafio lançado àquela audiência entendida. O conferencista conseguira a atenção de todos até o fim. Como ele havia chamado os esquimós? O povo mais feliz do mundo, vivendo numa das regiões mais cruéis da terra. De qualquer forma, ela teria que descobrir por si própria.

Apesar do cansaço, um arrepio de entusiasmo percorreu sua espinha. Havia muito por fazer: passaporte, vacinas, malas, despedidas, parte desse entusiasmo diminuiu quando lembrou que não havia muita gente para ir ao seu bota-fora: alguns amigos de família e umas poucas colegas. Imaginou que Alistair insistiria em acompanhá-la. Por um momento, sentiu remorso, porém eles não haviam compartilhado nenhuma felicidade secreta, apenas momentos agradáveis e uma ou duas brigas sérias. Isso certamente não era amor, nem poderia levar a casamento.

Seus pensamentos andavam rápido. Precisaria de muita roupa quente. O secretário da sociedade missionária não fora bem claro, e dissera que ela talvez pudesse comprar alguma coisa lá. Ela ainda tinha as roupas de esqui que usara nas férias de inverno, na Noruega e em Chamonix. Poderia perguntar a Alistair: ele tinha ido naquela expedição da universidade para a Finlândia, no verão, antes de entrar para o hospital.

Respirou profundamente. Isso era tão excitante quanto mergulhar na parte

funda de uma piscina

desconhecida...

ou aterrissar com um avião estranho no topo

gelado do mundo, a Groenlândia, no meio da noite.

Sharon se arrepiou quando o ar frio bateu em seu rosto. Desceu desajeitada os degraus altos e sentiu o gelo quebrar sob seus pés. Passou os olhos à sua volta, porém não havia muito o que ver. Sondrestrom, Groenlândia, poderia ser qualquer outro aeroporto. O brilho das luzes tornava visível a silhueta de outros aviões, alguns grandes como o dela, outros menores. Além dessa claridade, havia apenas escuridão, uma escuridão que poderia esconder os campos verdes da Inglaterra ou o gelo desolador do mundo. Atrás dela, a aeromoça apressava os passageiros que resistiam a abandonar o abrigo quente do avião.

Temos que reabastecer aqui. Sinto muito por incomodá-los, mas regras são regras. Há café e sanduíches na cantina.

Tudo parecia muito comum. O que pensariam lá no St. Mary se soubessem que lhe tinham dado um bota-fora maravilhoso para isso? Lembrou que Alistair tinha ido ao

aeroporto para vê-la. O que fora mesmo que ele dissera?

Ah...

sim, ela lembrou:

Não creio que você vá encontrá-lo. O Ártico é bastante grande. Em todo caso, seu nome é Ross Clarke. Você poderá distingui-lo facilmente por seu cabelo exageradamente negro. É bastante chamativo. Não se esqueça de escrever. Eu preferia que não fosse, Sharon.

Então, beijara-a na frente de todos e, por alguma estranha razão, ela se sentira mais perto dele naquela hora que em qualquer outro momento.

Passou os olhos, curiosa, pela cantina. Era simples mas aconchegante, com um vapor de café subindo preguiçosamente pelo ar. Parecia haver bastante gente, considerando a hora. Podia ver os passageiros do avião nas mesas, mas havia outros que não conseguia reconhecer. Talvez viajassem nos outros aviões que vira na pista. Mexeu seu café. O avião deles era o único a reabastecer? Tomou o café aos golinhos. Era forte e muito quente e ajudou a espantar o sono.

Era mesmo Sharon Lindsay, vinte e três anos de idade, cabelos castanho- escuros, olhos verdes, como descrevia seu passaporte, enfermeira de plantão no Hospital St. Mary, Inglaterra, era ela mesma que estava sentada lá, bebendo calmamente seu café? Quase ninguém acreditara que iria mesmo para o Ártico, e houve momentos, durante aquelas trinta e duas noites, em que ela própria duvidara. Porém lá estava ela e as rodas do destino não mudariam de curso facilmente. Foi até o balcão pegar mais um café.

Quer mais um, meu bem? perguntou o homem que servia café. Passe-me a xícara. Você está com os outros? Veio para se casar? Ele percebeu uma expressão de deboche nela. Ah, não? Isso é o que todas falam, até que aconteça. Para onde vai, coração?

Cabo Mercy disse Sharon friamente, pegando seu café.

Não podia ter escolhido um lugar mais aconchegante? perguntou o homem. É simplesmente um inferno de frio e vento e quando há uma nevasca você fica trancada em casa por dias e dias. Olhou-a demoradamente. Você é bonita demais para ser missionária. Acho que poderia ser professora. Não que aparente ser uma, coração. Afinal, o que você faz?

Sharon sentiu-se tentada a lhe responder com aspereza, mas resistiu. Sou enfermeira contou-lhe, provocando um assobio de entusiasmo no homem. Acho que vou arranjar uma doença para você cuidar de mim! Sinto muito, preciso ir Sharon disse. Um homem entrou correndo na cantina.

Atenção, vôo 601. Receio que haverá algum atraso. O conserto do motor vai demorar mais do que o previsto. Sinto muito.

Quando o homem virou-se para sair, Sharon viu um outro muito alto se aproximar e começar a discutir com ele. Estava longe demais para que entendesse suas palavras, via somente os gestos. Observou a cena preguiçosamente. O recém-chegado vestia roupa pesada de inverno e ela ficou imaginando quem seria ele. Porém a aeromoça de seu vôo veio em direção ao grupo e ela esqueceu o estranho.

Ela se sentiu feliz por estar de volta ao calor de seu lugar. O avião não estava lotado e o lugar dela estava vazio desde Amsterdam. Instalou-se confortavelmente, apertando o cinto de segurança. O resto dos passageiros fazia o mesmo. Esperou ouvir a batida pesada da porta, preparando-se para partir, mas não ouviu nada. A aeromoça estava parada no último degrau e parecia falar com alguém embaixo. Entrou no avião mas, para surpresa de Sharon, veio seguida de uma figura alta. Devia ser alguém da tripulação. Ouviu passos. Pareciam ir para a cabine do piloto, mas pararam ao lado dela.

Importa-se se me sentar aqui? Os outros assentos vazios estão muito cheios de bagagem. Alguma coisa na voz grave do homem soou familiar.

De forma alguma disse Sharon rapidamente, sem olhá-lo bem.

Pegou o mapa de vôo e começou a estudá-lo. Traçou com o dedo a linha vermelha por onde já tinha passado: Londres, Amsterdam, as Hébridas, sul da Islândia, cruzando a parte gelada da Groenlândia. Mais adiante estava a costa rochosa da Ilha Baffin a terra de Baffin dos primeiros exploradores do Ártico.

Quantos para Frobisher, por favor? Não deve demorar agora disse a aeromoça, olhando o papel que trazia na mão.

Sharon inclinou-se para a frente, curiosa. Apenas três ou quatro passageiros responderam. A aeromoça chegou ao seu lugar.

Vai continuar até Cabo Mercy, não vai, enfermeira Lindsay?

Porém Sharon não estava prestando atenção. Olhava o homem alto, forte, de cabelos negros e grossos a seu lado. O homem a olhava também e agora parecia bastante irritado.

Enfermeira Lindsay! Meu Deus! Não me diga que você foi a única pessoa que encontraram para trabalhar comigo em Cabo Mercy! falou ele, de modo ríspido.

CAPITULO II

Antes mesmo que Sharon pudesse responder, o avião sofreu um solavanco inesperado e o painel iluminado indicou que os passageiros apertassem os cintos de

segurança. Os dedos de Sharon tremiam segurando as fivelas, quando seu companheiro se inclinou para ela:

Por

favor...

deixe-me ajudá-la.

Sentia-se tentada a recusar, mas o avião balançou mais uma vez e o homem, calmamente, apertou seu cinto. Sharon desviou os olhos, virando-se para a janela. O luar pálido fora substituído por grandes nuvens parecendo envolver o avião. Sharon, apesar da cabina pressurizada, sentiu falta de ar. Não entre em pânico, garota! sussurrou uma voz firme em seu ouvido. Eu não vou entrar Sharon protestou, cheia de raiva, e percebeu que respirava melhor.

Ótimo, então fique assim. Parece que vamos ficar no ar por mais tempo do que o previsto. Raios!

Sharon relaxou um pouco, agora que a impetuosidade dele parecia estar dirigida contra o tempo. E o que vai acontecer? atreveu-se a perguntar. Ficaremos voando de um lado para outro nessa confusão, até que o piloto ache um buraco nas nuvens para podermos passar respondeu. E se não encontrar um buraco? perguntou, mais por curiosidade que por

medo.

Se houver bastante gasolina, ele pode voar para Porto Coral ou voltar a Sondrestrom. De qualquer maneira, isso significa um longo atraso. Maldição! E eu pensava em chegar cedo à base. Ele parou de falar, batucando com os dedos uma melodia sem fim.

Sharon respeitou seu silêncio, recostando-se em seu lugar. Olhou seu companheiro. Ele não era exatamente bonito. Seus traços eram fortes demais e a saliência de seu queixo tão agressiva quanto seus ombros largos. Ela lembrava como sua figura alta havia tornado pequena a aeromoça ele deveria ter no mínimo um metro e noventa de altura. E parecia ser dono de uma personalidade que combinava com seu físico: muita força espalhando-se por ângulos bem agudos.

Como é, eu passo? a voz a seu lado tinha um tom divertido. Sharon ficara tão absorta analisando-o que não percebera que seu companheiro também a observava. Sentiu o rubor invadir-lhe as faces, enquanto sua mente buscava sem sucesso qualquer resposta.

Bem, como vamos os dois para Cabo Mercy, creio que podemos nos apresentar. Chamo-me Ross Clarke. Eu sei interrompeu Sharon. Não é possível! Eu nem sequer faço parte deste vôo retrucou ele, surpreso.

Sharon sentiu-se

satisfeita em deixá-lo perplexo. Isso compensava

as

observações que ele havia feito antes. Um amigo meu disse-me que você estaria no Ártico explicou ela com naturalidade. O Ártico é bastante grande e eu imagino ter mais que um amigo. O nome dele é Alistair Gaskell. Trabalhamos juntos no St. Mary, em Londres sorriu. Você por acaso é Sharon? A última vez que recebi notícias dele estava louco por uma deusa de olhos verdes. Olhou-a atentamente. Sim, são mesmo verdes. Pensei que já estivessem casados. Ela titubeou com o tom sarcástico que ele empregava. E, de repente, sentiu muito próximos o St. Mary, as colegas de trabalho, Alistair. Afastou com raiva algumas lágrimas e procurou concentrar-se no que a janela lhe permitia ver. Que bom, já estamos descendo. Pareciam estar voando em direção a um túnel escuro, aterrissando numa pista invisível. E agora? perguntou ela, ansiosa. Espero que nos achem no meio desta neblina toda. Há uma cantina. Creio que você está sendo esperada. Você não vai para Cabo Mercy? Ele soltou o cinto de segurança e pegou seu saco de viagem. Mais tarde. Não fico lá o tempo todo, como você sabe. Ou não sabe? Não fui bem informada Sharon disse, com uma submissão pouco comum. Suponho ao menos que em Cabo Mercy saibam que você vai chegar, não? Disseram-me que estava tudo preparado respondeu ela, intranquila. Nesse caso, acho que está tudo bem, não? Fique na cantina, que eles a encontrarão lá. Quando a aeromoça abriu a porta da cabina, Sharon percebeu o barulho do tráfego: aviões esquentando seus motores, veículos pesados, vozes altas de homens impacientes, irritados ou apenas ocupados. A neblina envolvia a todos como um pesado cobertor branco, fazendo com que ela se sentisse indefesa e perdida. Para sua surpresa, notou que estavam sendo conduzidos na direção de um ônibus. O motorista era um homem baixo e simpático, com olhos escuros como breu.

Sim, ele é um esquimó. O primeiro que você já viu, sem dúvida. É melhor você andar, está segurando a fila disse Ross Clarke, logo atrás dela.

Sharon sentiu o calor agradável do interior do ônibus e se arrepiou ao pensar no frio que fazia.

Espero que tenha trazido algo mais quente do que estas roupas de cidade observou ele.

Trouxe minhas coisas de esqui, estão na mala respondeu ela. É melhor vesti-las. Você tem uma viagem longa e fria pela frente. Como se chega normalmente a Cabo Mercy?

Depende do tempo. Se não houver tempestade forte, vai-se de barco ou então por terra, com um trator especial para neve.

Eu quis dizer, como você vai para lá? Sharon insistiu.

Se a neblina permitir, vou de avião. Ele parecia um pouco aborrecido com tanta pergunta.

Mas eu não

poderia...

Sharon começou a falar.

Não, você não pode ele a interrompeu com impaciência. Tenho que levar um carregamento de material cirúrgico e, além do mais, Cabo Mercy não é minha primeira parada. Sua expressão fria e distante desestimulava novas perguntas.

O ônibus se movia lentamente através da neblina. Sharon agora se sentia cansada, imaginando o que ainda teria pela frente até chegar a Cabo Mercy. Receberia uma recepção mais calorosa do que a que lhe dera Ross Clarke? Deve ter adormecido, porque foi acordada por alguém que a sacudia rudemente.

Vamos lá, senhorita Lindsay, ou seja lá como se chama!

Sharon abriu

os

olhos com dificuldade, enquanto a

voz

se

tomava mais

impaciente. Sharon, você está atrasando os outros! Sinto muito, eu não queria dormir disse ela finalmente, conseguindo pôr-se

em pé.

Deixe as desculpas de lado. Preocupe-se com os degraus, eles estão escorregadios por causa do gelo.

Seu cérebro pode ter ouvido o conselho, mas seus pés, não, pois no momento em que tocaram o primeiro degrau, ela foi ao chão, num tombo bem pouco gracioso. Ross Clarke levantou-a, limpando suas roupas com mãos apressadas.

Quanto antes puser algo mais seguro nos pés, melhor. Você não é só um aborrecimento, mas também uma ameaça.

Desculpe, realmente, eu não

quis...

disse ela, tremendo.

Esqueça. Entre na cantina e coma alguma coisa

e...

tire essas roupas de

cidade! Se pensou em conquistar alguém aqui do norte com elas, perde seu tempo.

Já na cantina, um rapaz com ar sonolento estendeu-lhe uma bandeja com o maior café da manhã que ela havia visto; porém, antes que pudesse dizer algo, Ross Clarke foi mandando.

Coma tudo! Esta é uma das leis mais importantes do norte. Você nunca sabe quando será sua próxima refeição. Agora tenho que ir. Imagino que encontre você a qualquer hora, para meus pecados!

Afastou-se antes que ela pudesse agradecer ou mesmo odiá-lo. A cantina era um dos lugares mais simples e mais mal providos que jamais vira. Para seu espanto, devorou a refeição até a última migalha e só então percebeu que era o centro das atenções. Só havia homens ali. Sentindo-se corar, pegou suas coisas e foi até o banheiro. Ao passar, provocou assobios de admiração. Já na segurança do aposento fechado, olhou-se ao espelho. Talvez Ross Clarke tivesse razão quanto às suas roupas. Elas não pareciam adequadas àquele mundo tão prático em que se encontrava agora. Para seu alívio, notou que a aeromoça também estava lá.

Pensei que fosse continuar disse Sharon, surpresa.

Apenas quando a neblina levantar. Às vezes ficamos aqui durante dias, esperando que ela se dissipe. Os aviões grandes não têm esse problema! Olhou curiosa para Sharon. Mas o que trouxe você a esse fim de mundo? Veio se casar?

Vim como enfermeira disse Sharon, timidamente.

Mas é

claro...

a outra riu, incrédula. Isso é o que todas dizem, mas, em

seis meses, ou se casam e voltam para o sul, ou arrumam como marido algum médico ou missionário e passam o resto de suas vidas aqui no norte. Este lugar é como uma doença: ou você é imune a ele e nesse caso logo volta à sua terra natal, ou ele a pega. Bem, vou indo. Por que não tenta dormir um pouquinho?

Mas, e se o pessoal de Cabo Mercy não souber onde estou?

Não seja tola! Você é a única mulher aqui, sem contar comigo. Lá fora não há um homem que não saiba descrevê-la até a costura do sapato. Se alguém procurar por você, vai haver uma centena de voluntários para mostrar o caminho! Até logo!

Sharon olhou à sua volta. Anexa ao banheiro, havia uma saleta, com um sofá e almofadas. Não soube quanto tempo dormiu; assustou-se quando a aeromoça a sacudiu.

É melhor acordar, minha querida. Há um homem que a espera com impaciência lá fora. Disse que é para ir bem agasalhada. Tem certeza de que já acordou direito? Preciso ir, vamos levantar vôo dentro de quinze minutos.

Por um segundo, Sharon ficou confusa, mas logo se refez, trocando rapidamente suas roupas elegantes pela roupa de esqui. Pegou suas coisas e foi em direção à cantina. Para seu horror, o lugar estava ainda mais cheio de homens e todos pareciam olhar para ela.

Isso é seu, garota? Apresse-se, a neblina pode baixar a qualquer momento.

A voz de Ross Clarke pegou-a de surpresa. Pensei que tivesse partido disse estupidamente.

Essa maldita neblina me deteve, assim como o pessoal de Cabo Mercy disse, pegando as malas de Sharon como se fossem plumas. Imploraram para que levasse você comigo. Não pude recusar. Olhou-a com ar crítico. Ainda bem que o verão está chegando. Espero que tenha coisas mais quentes na mala.

Mas eu usei essas roupas na Noruega disse Sharon.

Não fazia cinquenta abaixo de zero lá! E se ventar, adicione muitos graus nisso aí! Um traje de banho não seria diferente desse seu agasalho.

Sharon ficou quieta e seguiu-o submissa, sem ousar dizer mais nada. Imaginou que Ross Clarke a estaria levando para seu avião. A forma como tinha reclamado da falta de espaço quando ela pedira uma carona sugeria que o avião não devia ser grande. Finalmente, chegaram até ele. Sharon olhou-o incrédula. Além de pequeno, não parecia ser nada seguro. Ross Clarke pareceu adivinhar seus pensamentos.

Este é o Patinho Feio. Ele usa esquis no inverno, flutua no verão e tem rodas, caso a terra esteja seca. Bateu carinhosamente na asa. Não é nenhuma beleza, mas pode voar quando os grandes têm que ficar parados no chão.

Quase sem perceber, Sharon se viu dentro da cabina minúscula, entulhada de pacotes de todos os tamanhos e formatos, com os pés sobre sua bagagem. Isso é tudo o que trouxe? Não parece muito para quem pretende passar um

ano!

Disseram-me que poderia comprar alguma coisa no armazém defendeu-se Sharon, mordendo os lábios para se conter.

Você não deve ter estudado a figura das mulheres esquimós muito de perto! disse ele, rindo.

Eu vim para trabalhar, não para brincar.

Ele a olhou inquisitivamente, porém não fez maiores comentários. Em pouco tempo, tinha tomado seu lugar e se preparava para a decolagem. Logo estavam no ar, subindo rapidamente. Ross Clarke bateu no ombro de Sharon e apontou para baixo. Sharon avistou maravilhada a Baía de Frobisher.

À nossa frente está Cumberland, o pedaço de gelo mais antigo da região. O Cabo Mercy fica ao sul.

Sharon olhou atentamente a paisagem, observando os picos nevados Cumberland.

de

Isso aí embaixo é Pangrurtung, uma cidade, se comparada a Cabo Mercy. Nós somente existimos porque havia lá um acampamento de verão dos esquimós, que atrai os missionários. Atualmente, é a mineração que nos mantém.

Uma mina aqui no norte? Não é frio demais? Sharon estava curiosa. Você tem razão. Mas os especialistas dizem que há minério no Ártico suficiente para nos deixar milionários. Se eles estiverem certos... Qual a sua opinião? Sharon se aventurou a perguntar. É a esperança de que haja que me mantém aqui. Segure-se, estamos

descendo.

Maldição...

olhe só aquela neblina!

Havia uma parede branca de neblina à frente deles. O avião mergulhou por baixo dela e Sharon pôde ver um aglomerado de telhados vermelhos, parecendo ser de brinquedo, ao lado de um mar de espelho. O avião balançou. Era o início da aterragem no campo gelado. O motor desligou abruptamente e a pequena cabina foi invadida pelo silêncio do Ártico. Sharon, assustada, observou ao longe um grupo que parecia feito de pontinhos pretos se movimentando, chegando mais perto. Eram pessoas, as pessoas com quem iria trabalhar e viver. Sentiu-se tímida e insegura. Estava, na verdade, apavorada.

Ross Clarke olhou-a atentamente:

A viagem de volta é muito longa, o próximo navio a ancorar aqui chega só em agosto ou setembro e o meu avião é o único que aterra neste campo falou ele, rindo.

Não estou com medo! Sharon replicou, furiosa.

Não mesmo? Bem, nós estamos. Numa comunidade pequena como esta, não há lugar para gente indecisa!

Sharon deixou que sua curiosidade dominasse a raiva, olhando fixamente para o grupo que se aproximava.

O primeiro é o sr. Emerson, o pastor. A mulher atrás dele é sua esposa. Aquele mais forte é Charlie Gordon, o nosso Mountie e, atrás dele, o gerente da HBC, Smithson. O resto são esquimós. Você aprenderá todos os nomes com o tempo.

Estranho...

o que Ariel está fazendo aqui? exclamou ele, de repente.

Para espanto de Sharon, ele ficou mais humano e agradável. Ela se debruçou para a frente, para olhar melhor a pessoa que conseguira mudar este homem implacável. Felizmente, Ross ClarKe estava preocupado demais com seus próprios pensamentos para perceber o interesse de Sharon.

À primeira vista, a garota parecia ser apenas uma menina, escondida em sua roupa de esquimó. Porém, quando puxou o capuz, revelou uma mulher de cabelos pretos até os ombros e olhos muito escuros. Riu alegremente, segura de ser bem-vinda.

Viu, chéri, vim lhe fazer uma surpresa! Um passarinho me contou que você não iria ao acampamento primeiro, como prometeu. Esta é a primeira vez que você quebra uma promessa. Espero que isso não aconteça novamente, ou então, Ariel Rochelle vai ficar brava com o doutor Ross Clarke! Olhou curiosa para dentro da cabina. Você trouxe a nova enfermeira e nem nos apresentou!

A expressão de Ross Clarke alterou-se, como se só então ele tivesse percebido que ele e Ariel não estavam sozinhos.

Ariel, esta é a enfermeira

Lindsay...

Sharon Lindsay, para ser preciso.

Sharon, esta é a senhorita Rochelle. Seu pai é o dono do acampamento de mineração

que mencionei. Pareceu fazer a apresentação com certa relutância. Ariel sorriu e rapidamente voltou suas atenções para Ross Clarke. O que estamos esperando? Você ficou fora muito tempo, chéri, e nós temos

muito o que conversar. O sr. Emerson está aqui para receber a enfermeira. Qual é

mesmo o seu nome?

Ah...

não? Fica melhor assim.

agora me lembro: srta. Lindsay. Você a chamou de Sharon,

Sharon, que temera o encontro com o resto do pessoal, agora recebia com alívio sua aproximação. Num espaço de cinco minutos, Ariel conseguira fazê-la sentir-se feia e indesejada. Gostaria de se olhar num espelho, queria qualquer coisa que restituísse sua autoconfiança.

Ariel era de uma beleza morena, cheia de vivacidade, e seu sotaque franco- canadense a tornava ainda mais atraente. Sharon podia imaginar como Ross Clarke se sentia fascinado por ela.

Vamos lá, senhorita Lindsay! Chegamos ao fim da linha e não posso descarregar o avião com você dentro.

Sem a menor cerimônia, Ross Clarke tirou-a de seu lugar, depositando-a junto com sua bagagem no chão gelado. Apresentou-a apressadamente ao sr. Emerson e logo desapareceu com Ariel.

Espero que goste de ficar conosco ele a saudou. Parecia já convencido de que ela não permaneceria lá por muito tempo. Minha esposa vai ficar contente com a sua companhia, quando não estiver ocupada com as crianças. Temos seis filhos e, além do mais, ela trabalha na missão. Venha, minha querida, você deve estar cansada da viagem. Nós não pudemos oferecer-lhe umas boas-vindas melhores, mas também, com essa neblina!

Sharon sentiu a cabeça rodar. O nevoeiro impedia-a de enxergar qualquer coisa à sua frente e a conversa estava deixando-a zonza. Felizmente, o sr. Emerson percebeu o seu mal-estar.

Oh...

sinto muito, estou cansando você. Susan sempre diz que quando começo

a falar não consigo mais parar. Ela ficará muito feliz por ter outra mulher com quem

conversar. Quero dizer, mulher branca. Se bem que as esquimós sejam muito simpáticas e alegres, estão sempre rindo. Os esquimós são chamados de Povo Feliz, você sabe. Seu tom se alterou de repente. Você está se sentindo bem?

O senhor disse que não há outras mulheres brancas por aqui? E as outras enfermeiras? Sharon estava cada vez mais assustada.

Outras enfermeiras! Não há nenhuma enfermeira aqui. Por isso é que ficamos tão contentes com sua chegada. Minha esposa tem feito o que pode, sozinha. Olhou para ela, esperançoso, Você faz partos também, não? Até agora, nosso Mountie tem-se saído bem como parteiro, mas não me parece certo um homem solteiro fazer esse tipo de trabalho, você não acha?

Ele teria continuado a falar por muito tempo, se Suzan Emerson não tivesse aparecido, estendendo com amizade sua mão a Sharon.

Estamos todos tão contentes com sua vinda, srta. Lindsay! Sharon, não? É um

nome tão bonito quanto você!

Ah...

não fale tanto, William! Você deve estar cansada,

querida. Vamos, deixemos as apresentações para mais tarde, na hora do chá. Saiam,

crianças. Vocês conhecerão a senhorita depois. Olhe, cuidado ao pisar.

Sharon percebeu então que era preciso uma técnica toda especial para andar no gelo. Tinha a impressão de que, a cada passo que dava para a frente, voltava dois para trás.

Quem sabe o Johnny tenha kamiks no seu tamanho: são botas de pele de foca explicou Susan com simpatia. Johnny Smithson é o gerente da HBC. Agora, querida, vamos lanchar, você deve estar morrendo de fome, não é?

Quando Sharon contou sobre o café da manhã enorme que tinha tomado na cantina, Susan Emerson olhou-a mais tranquila.

Fico contente que tenha comido bem. Estamos chegando ao fim de nossas provisões para este ano. Não que estejamos passando fome, mas já se foi tudo o que havia de mais gostoso. Lembro-me que chorei quando Ross me trouxe morangos frescos uma vez. Imagine! Bom, aqui estamos. Acho melhor você ficar aqui em casa nos primeiros dias. E não se preocupe, querida, será um prazer.

Sharon observou atentamente a casa. Era uma construção baixa e comprida, de madeira pintada de branco com telhado vermelho. Ao lado, havia uma casa pequenina, mas bem cuidada.

Aquela é a enfermaria disse Susan. Não temos nenhum doente no momento. Os pacientes em estado grave vão para o St. Luke, o hospital de Pangnirtung. Ela notou o olhar interrogador de Sharon. Você deve estar se perguntando por que nós a chamamos. Precisamos de alguém aqui, acredite. Muitas vezes o tempo é tão ruim que fica impossível chegar a Fangnirtung. Além do mais, trazer bebês ao mundo não é exatamente a função do Charlie aqui na missão, embora ele tenha sempre mostrado boa vontade. E, se você quer mesmo saber, sinto muita falta de alguém para conversar. As esquimós me ensinaram muita coisa nestes dez anos e eu as respeito por sua coragem, mas...

Você está aqui há dez anos, sem voltar para a Inglaterra? perguntou Sharon, surpresa.

Voltei uma vez. Faz cinco anos. Susan disse isto com um sorriso distante. Foi maravilhoso poder rever aqueles campos verdes, ouvir os pássaros cantar...

olhar as vitrinas. Ficou séria ao ver a expressão assustada de Sharon. Mas não pense que não sou feliz aqui. Eu amo o norte, é só que...

Sharon sentiu-se muito perto dessa mulher que acabava de conhecer e, por um momento, pensou em sua mãe. Porém, não havia tempo para lembranças. Susan conduziu-a a uma sala grande e aconchegante.

Sente-se e descanse, enquanto eu faço um chá.

Seria ótimo, mas não quero dar-lhe trabalho disse Sharon, disfarçando um bocejo.

Sua anfitriã virou-se e a surpreendeu no meio de um segundo bocejo.

Pobrezinha, deve estar morta! Vá para a cama, eu lhe levarei o chá disse, indicando-lhe o quarto.

O desejo de dormir era tão grande que, nem bem Susan fechou a porta do quarto, Sharon já tirava o agasalho para entrar na cama. Já estava quase domindo, quando ouviu uma batidinha leve na porta. Susan Emerson entrou trazendo duas xícaras numa bandeja.

Depois que coloquei o açúcar e o leite é que me dei conta de que você poderia preferi-lo puro. Experimente. Está se sentindo melhor? Vejo que já está mais corada, que bom! E a viagem, como foi? Que sorte você ter encontrado Ross e ele poder lhe dar uma carona! Mas como foi que o encontrou?

Ele veio no mesmo vôo desde Sondrestrom falou Sharon, pensativa. Nem acredito que cheguei! Tudo parece um sonho...

Imagine só o Ross lhe dar uma carona! Ele parece odiar um pouco as mulheres, você sabe acrescentou Susan, sorrindo.

Bem, ele não parece odiar Ariel Rochelle. Sharon esboçou um sorriso um tanto quanto incrédulo.

Ela é a filha do patrão e sem o apoio de Marcel Rochelle a missão teria que fechar afirmou Susan, com uma expressão sombria. Ross Clarke supervisiona os homens na mina e, em troca disso, recebe os fundos necessários para os seus vôos de socorro e para financiar a enfermaria. Como sabe, agora que o acampamento de verão fechou, não podemos mais receber ajuda do Governo. Pois é, a maioria dos esquimós trabalha em Frobisher e mora na vila construída pelo Governo. Mas chega de conversa. Você precisa descansar. Durma bem!

Sozinha, Sharon fechou os olhos e uma sequência de imagens passou diante

dela...

Ross Clark e suas maneiras rudes, a viagem, Ariel, seu trabalho na

missão...

Será

que seu emprego dependia do namoro de Ross Clarke com a filha do patrão?

CAPITULO III

Sharon sentiu um empurrãozinho encorajador de Susan Emerson ao entrar na sala onde parecia que mil pares de olhos a observavam, sorrindo. Sentiu-se corar e, não fosse o braço amigo de Susan, teria dado meia-volta e fugido. Ao mesmo tempo, teve certeza de que iria ser feliz lá e de que nunca estivera tão rodeada por amigos.

Venha, Sharon, sente-se aqui ao lado do nosso Mountie. O inglês dele é ótimo. Com o tempo, você vai aprender todos os nomes Susan tentava fazê-la sentir-se à vontade.

Oi, Sharon! disse Charlie Gordon, estendendo-lhe uma xícara de chá. Não somos muitos, como vê.

Sharon olhou à sua volta e observou que nem todos os esquimós eram parecidos. Alguns, é claro, possuíam traços mongólicos e olhos pretos, mas os outros a deixavam perplexa.

Eles são o que ficou de um costume esquimó encantador disse Charlie Gordon, interrompendo os pensamentos dela. Talvez eu não lhe devesse contar, mas acho importante você saber dessas coisas, como enfermeira. Se um esquimó gosta e respeita muito um amigo, ele lhe empresta a mulher e, se viaja, às vezes deixa a mulher com o amigo. É um costume antigo, que está desaparecendo, pois os missionários não encorajam isso, é claro. Mas não pense que essa é a única razão de haver mestiços. O jovem Itsawík, por exemplo. Seu pai era canadense e sua mãe esquimó. Depois da morte do pai, ele foi criado pelos avós maternos. Tem olhos azuis, como vê, mas é um verdadeiro esquimó.

Susan distribuía canecas de chá. Charlie Gordon olhou-a e continuou falando a Sharon:

Sabe que este acampamento não existiria sem o trabalho de Susan? Ela está sempre pronta quando alguém precisa de ajuda. Vai ser ótimo para ela ter você por perto. Para todos nós, também acrescentou, gentilmente.

Sharon bebeu o chá com um certo receio mas, para seu espanto, o gosto era bem melhor do que a aparência.

Quer um pãozinho para levantar as forças? ofereceu Charlie Gordon. O que é isso? perguntou Sharon, desconfiada.

Não é carne de foca, se é o que você está pensando. Trata-se apenas de uma mistura de farinha, água e sal, que nós fritamos.

Vou experimentar um disse Sharon. Preferia que lhe oferecessem biscoitos, mas pensou que provavelmente eles já teriam se esgotado, e o próximo navio só chegaria em agosto.

Lembrou-se então de que dissera a Ross Clarke que ia comprar roupas em Cabo Mercy e, contrariando seu costume, ele não tinha rido dela. Onde estaria ele agora? Talvez tivesse ido levar Ariel de volta às minas, de avião.

Um centavo pelo que está pensando! Uma garota bonita como você não deve ficar assim tão séria sorriu Charlie Gordon.

Eu só estava pensando onde estaria Ross Clarke respondeu Sharon, desligada.

Não faço idéia. Deve estar com a namorada dele. Vocês são amigos há muito tempo?

Oh não, nós nos conhecemos no avião. Ela balançou a cabeça, arrependida por sua falta de tato. Por que fora mencionar Ross Clarke?

Que bom, Ellen já vem trazendo o pãozinho anunciou Charlie Gordon. Quem é Ellen? perguntou Sharon, ansiosa por mudar de assunto. Ellen? É a filha mais velha de Susan, seu braço direito. Há quanto tempo está em Cabo Mercy, sr. Gordon? perguntou Sharon.

Pode me chamar de Charlie, como os outros. Só mesmo o sr. Emerson é chamado de senhor por aqui.

Por quê?

Parece falta de respeito chamar um religioso pelo primeiro nome. Não sei, nunca tinha pensado nisso antes.

Uma menina de treze ou quatorze anos vinha em direção a Sharon, segurando um prato acima da cabeça e tentando evitar que o pegassem.

Nada disso! Primeiro Sharon, depois vocês dizia ela. Um par de olhos castanhos muito alegres fixou-se em Sharon com admiração. Quer experimentar um dos meus pãezinhos, Sharon? perguntou ela timidamente.

Sharon provou um e olhou para a menina, que parecia esperar ansiosa pela sua aprovação.

Está ótimo, Ellen. Qualquer hora você tem de me ensinar como fazer!

A menina sorriu

e

voltou

alegremente

para

o

outro

lado

da

sala

com

os

pãezinhos, que logo desapareceram do prato. De repente, uma agitação chamou a

atenção de Sharon.

Lá vem o doutor! E o que será que o mordeu? Charlie Gordon comentou secamente. Sharon percebeu naquele momento que havia pouco amor entre os dois homens.

Que fim levou a nova enfermeira, Susan? Não há ninguém na enfermaria. O que adianta ela ter vindo, se não está por perto quando se precisa dela?! O tom irritado de sua voz pareceu cortar, como a brisa gelada do Ártico, o calor daquela sala cheia.

Estou aqui, dr. Clarke. O senhor precisa de mim? disse Sharon, assustada, levantando-se depressa. Mas a pobrezinha acaba de chegar, Ross murmurou Susan em sua defesa. Ross Clarck recusou com rudeza a xícara de chá que ela lhe ofereceu. Agora não, Susan. Apareceu uma emergência. Quanto tempo vai demorar para vestir uma roupa apropriada, srta. Lindsay? disse, olhando Sharon de cima para baixo, furioso. Estarei pronta em cinco minutos, dr. Clarke respondeu Sharon, no tom mais profissional que conseguiu, apesar da situação. Qual é o caso?

Como posso saber? Ainda não a vi! Só sei que foi mordido por um urso polar e está caído perto da costa.

Houve um murmúrio de horror pela sala.

Mas como vocês vão chegar até ele, mesmo que o coitado ainda esteja vivo, Ross? falou Susan em tom maternal. Nestas alturas o urso já deve ter acabado com ele.

Os amigos de Marak conseguiram matar o urso, mas o caminho era difícil demais para poderem trazer o homem ferido. As maneiras de Ross se atenuaram um pouco.

Mas o que se pode fazer, Ross, se os esquimós não conseguiram ajudar o pobre homem? insistiu Susan, preocupada.

Com um pouco de sorte, posso aterrar no gelo com o Patinho Feio. Eles marcaram o lugar com um pano enrolado num arpão respondeu ele, com um sacudir de ombros.

São nove horas disse Sharon, olhando para o relógio. Não vai estar escuro?

Sua observação provocou risos por toda a sala.

O sol não vai se pôr nos próximos três meses explicou-lhe Susan, carinhosamente.

Bem, estarei pronta num minuto. Sharon observou pela janela o sol que brilhava lá fora.

Ariel Rochelle, que entrara na sala havia alguns segundos, não ficou calada:

Mas, Ross, não há necessidade de incomodar a enfermeira nova. Eu posso ajudar em tudo o que for preciso fazer por esse homem que agiu tão tolamente com o urso polar. Sorriu, depositando sua mão confiante no braço de Ross.

Cabo Mercy não contratou os serviços de uma enfermeira para deixá-la descansando, ma petite arrematou Ross com firmeza, retirando-se da sala.

Ao sair para se trocar, Sharon passou por Ariel. A garota parecia furiosa. E não era com Ross.

Os

dedos de

Sharon tremiam ao tirar

as

roupas que

havia vestido tão

alegremente para a reunião. Pensava no que vinha pela frente, partindo com esse médico esquisito, num aviãozinho todo remendado, à procura de um esquimó ferido e de um urso polar morto.

Você está bem, querida? Susan entrou no quarto, ansiosa. Acho maldade Ross querer levá-la nesta expedição ridícula, quando você acaba de chegar. O pobre homem já deve estar morto e é bastante improvável encontrá-lo.

Estou pronta, tudo bem. O carinho e a preocupação de Susan davam-lhe coragem.

Trouxe luvas e os meus kamiks. Talvez fiquem um pouco grandes para você, mas vai precisar deles.

Com as roupas de esqui, as botas de pele de foca e as luvas, Sharon olhou-se no espelho e ficou espantada. O que pensariam seus amigos do St. Mary, se a vissem assim?

Vamos? Ellen está aprontando uma garrafa de café; felizmente ainda temos um pouco disse Susan, apressada. Ross está abastecendo o avião, praguejando feito um louco.

Onde está Ariel Rochelle? Sharon surpreendeu-se com a própria pergunta.

Saiu com Itsawik de trenó. William não ficou nada satisfeito. Ele precisava de Itsawik para ajudá-lo a arrumar umas coisas.

Ah...

muito obrigada, Ellen disse Sharon, agradecendo a mochila que a

menina lhe estendia. Espero que você tenha posto alguns dos seus pãezinhos junto.

Eu coloquei, sim sorriu a garota timidamente. Achei que você e Ross poderiam precisar, se tiverem que passar algum tempo no gelo.

Obrigada. Até mais tarde!

Fazia um frio terrível. O sol brilhava, porém a impressão de Sharon era a de que brilhava há tanto tempo que perdera o interesse em esquentar aquele deserto gelado. Ross Clarke recebeu sua chegada com indiferença.

Então você conseguiu chegar! Vá subindo no avião, e cuidado com o estojo médico.

Uma vez lá dentro, Sharon observou o médico gritar algumas ordens a alguém que não conseguia distinguir. Em questão de segundos ele ocupava seu lugar, dando partida no motor.

Tem que apertar o cinto, sua pequena idiota! E onde estão seus óculos escuros? Tome, pegue estes. Uma enfermeira cega seria ainda menos útil do que você aparenta ser. Sinceramente, não sei onde estava com a cabeça, quando aceitou um emprego destes.

Sharon pôs os óculos submissamente e olhou o deserto de neve à sua volta. Sentiu a sombra da insegurança envolver seus pensamentos. Teria errado em deixar Londres? Seria possível que não tivesse nada a oferecer a essa gente? Mas ao lembrar a recepção calorosa de Susan Emerson, logo afastou o desprezo que Ross parecia ter por sua capacidade como enfermeira.

O avião voava baixo em busca do ferido. Sharon pensava estar sobrevoando uma planície de gelo até avistar pontos mais escuros: era água. Em alguns lugares, pedaços de gelo flutuavam, contrastando com a água escura. Mais adiante, montanhas muito brancas se elevavam contra o azul do céu. Apesar dos óculos, seus olhos já começavam a doer pelo esforço em tentar distinguir um relevo branco de outro. Era tudo tão parecido! Sentiu um aperto no coração. Como poderia encontrar um esquimó perdido nessa imensidão de neve? Suas pálpebras começavam a pesar. Tinha sido um longo dia e o pequeno sono da tarde não fizera muito efeito.

Ela cochilara por algum tempo, pois quando olhou novamente pela janela estavam sobrevoando um mar aberto em todas as direções, pontilhado de blocos de gelo flutuantes. Deram algumas voltas pela região, voando sempre muito baixo. Certa ansiedade no comportamento de Ross, normalmente tão seguro, deixava transparecer que ele estava perdendo as esperanças. De repente, ao se aproximarem de uma encos- ta de montanha, Sharon visualizou a flâmula corajosa que sobressaía na neve. Deu uma palmadinha no ombro de Ross, apontando o marco.

Boa menina! Parece que você localizou o homem! Vou passar mais perto. Sim, é ele mesmo! Que bom, já estava ficando preocupado. Temos somente combustível suficiente para voltar. Agora vamos ver se conseguimos aterrar lá.

A gratificação que Sharon sentiu por aquele tributo involuntário ao seu sucesso transformou-se de repente em pânico:

Você está querendo dizer que vamos aterrar naquele pedacinho de gelo lá embaixo? perguntou, apavorada. Pode apostar como vamos conseguir! Ou você está pensando que vou nadar até

lá?

Sharon admirou a habilidade de Ross em diminuir rapidamente a velocidade de vôo, de modo que logo estavam tocando a superfície gelada, freando a intervalos rápidos para conseguir parar a aeronave. Ross Clarke desligou o motor e virou-se para Sharon com um sorriso.

Assustei você, não? Passe-me o estojo de medicamentos. Posso descer agora? perguntou Sharon, após lhe entregar a maleta.

Fique onde está. Nosso paciente pode não precisar mais de ajuda, ele está aqui há muito tempo. Se precisar, eu grito.

Sharon ficou observando o médico caminhar em direção à bandeira colorida. Percebeu cheia de espanto que a pequena elevação no gelo, vista do avião, era, na realidade, o urso polar morto, deitado numa poça de sangue. O grito de Ross chegou até ela inesperadamente. Desceu rápida e desajeitadamente do avião, sentindo o gelo partir sob seus pés.

Segure este rolo de gaze e me ajude a fazer um curativo. Ainda bem que está frio, senão ele teria sangrado até a morte.

O tom da conversa era tão natural que Sharon não estava preparada para o que viu à sua frente. A pata do urso deixara o ombro de Marak com o osso exposto e o músculo pendurado, em tiras. Apesar de seu treinamento em acidentes, ela deixou escapar um gemido de horror.

Pare com isso e segure firme a gaze!

O tom determinado e frio de Ross cortou sua emoção. Sharon era agora a profissional. Em menos tempo do que previra, o curativo estava pronto e logo estava ajudando Ross a colocar o ferido na maca.

Guarde os medicamentos no estojo, enquanto pego o trenó para puxar o corpo até o avião. Meu Deus, olhe só as suas mãos! Nunca tire as luvas por um segundo a mais que o necessário!

Ross tomou as mãos dela e as esfregou com força entre as suas. Os olhos de Sharon se encheram de lágrimas ao senti-las pulsando novamente. Ross colocou-lhe suavemente as luvas.

Sua tola! Espero que aprenda em tempo. Deu-lhe uma palmadinha no ombro. Desculpe se gritei com você. Junte o resto das coisas. Vamos lá, você é uma boa menina.

A ternura inesperada foi mais difícil de suportar que a aspereza anterior, mas as lágrimas que encheram os olhos de Sharon, ao se afastar, não eram mais lágrimas de dor.

Juntos puxaram o homem até o avião. Uma ou duas vezes Marak gemeu, porém não mostrou outros sinais de estar retomando a consciência.

Ainda bem que ele está inconsciente. Precisamos esquentá-lo. O frio pode matá-lo, antes que possamos fazer qualquer coisa mais. Quando estivermos de volta ao Cabo, podemos dar-lhe um sedativo. Vou pegar o guincho.

Sharon assistiu estupefata à montagem do que ele chamava seu elevador improvisado, para içar o homem até o avião. Sharon puxou a corda, ajudando a suspender a carga inerte.

Devagar.

Pare...

agora mais um pouco. Ótimo.

Parada ali no vento, Sharon começou a sentir um frio incontrolável, tremendo dos pés à cabeça. Ross Clarke percebeu o seu sofrimento.

Tudo pronto. Entre no avião, senão vai virar gelo, sua bobinha. Tome um pouco de café. Tomo o meu depois.

Ela entrou na cabine, dura de frio. O café transmitiu-lhe ondas de calor por todo o corpo, refazendo sua energia, e quando Ross gritou por ela, Sharon sentiu-se pronta para qualquer coisa.

Vou virar a hélice, e quando eu der o sinal, quero que você dê partida. Fique sossegada, o avião não decola sem o piloto!

Um pouco nervosa, Sharon obedeceu e quando o motor pegou, o avião todo estremeceu como se pronto para voar. Para seu alívio, Ross tomou seu lugar logo em seguida. Fechada a capota, o pequeno espaço da cabina pareceu mais uma vez seguro e aquecido.

É melhor tomar o pulso dele, antes de partirmos. E tudo que podemos fazer até chegarmos à base.

Sharon ajoelhou-se e tomou o braço não machucado de Marak. A pulsação era lenta mas surpreendentemente regular, considerada a gravidade dos ferimentos. Relatou o fato a Ross, que somente assentiu com a cabeça, concentrando-se em manobrar o avião. O barulho do motor aumentou, enquanto a lataria sacudia violentamente. Aterrorizada, Sharon rezou para que tudo acabasse logo. Felizmente, o barulho cessou, dando lugar ao ronco estável do motor.

Tudo bem, Sharon, pode abrir os olhos agora. Admito que prefira decolar em campos maiores. Que tal um cafezinho para reanimar? falou Ross calmamente.

Sharon sentiu os dedos tremerem ao abrir a garrafa térmica. Estendeu-lhe a xícara de café quente. Obrigado, Sharon. Beba o seu antes que esfrie. Você está tremendo de novo.

Ela bebeu em silêncio, agradecida por ele pensar que tremia de frio e não de medo, embora tivesse adivinhado que fizera toda a decolagem de olhos fechados, cheia de terror.

Tomo mais um, se tiver. Mais um pouco e estaremos chegando, graças a Deus. O combustível não daria para muito mais.

Sharon serviu-lhe mais café e tentou se acomodar no pouco espaço que lhe fora destinado. O corpo de Marak estava colocado entre seu banco e a cauda do avião.

Naquele momento, ele se moveu um pouco, gemendo, mas se acalmou ao sentir a mão confortadora de Sharon.

Segure-se, Sharon, estamos descendo.

Antes que tivesse tempo para se firmar, o avião já estava deslizando na superfície gelada. Depois, o som de vozes excitadas e mãos que a ajudavam a descer do avião. Logo era conduzida para casa. Susan Emerson não ouvia seus protestos.

Você já vai ver seu paciente. Ele precisa ser aquecido, antes de mais nada. Já acendemos o fogo na enfermaria. E você vai comer alguma coisa quente e trocar de roupa. As minhas podem ser um pouco grandes, mas não importa. Amanhã arranjamos algo melhor para você.

E Ross, quero dizer, o doutor? perguntou Sharon, ao mesmo tempo curiosa e tímida.

Desisti de cuidar de Ross há muito tempo. Ele cuida de si próprio quando tiver vontade.

O calor da sala deu a Sharon a sensação de um gostoso agasalho, e só aí ela se deu conta do quanto estava cansada. Pareceu-lhe um esforço enorme trocar suas roupas geladas pelas que Susan lhe emprestara. Sabia, porém, que ainda não deveria dormir. Ross Clarke poderia precisar de sua ajuda. Pensou que ele devia estar muito mais exausto que ela. Afinal, além da responsabilidade de dirigir o avião, ele ainda precisara suprir a inexperiência dela.

Bebeu mecanicamente o chá, sem deixar de notar o leite em pó, parte do tratamento especial como recém-chegada. Recusou os pãezinhos trazidos por Susan. Havia perdido a fome. Sua única preocupação agora era prestar cuidados ao doente.

Preciso ir para a enfermaria, Susan.

Não se preocupe, Ross Clarke manda avisar, mas só quando sentir necessidade, você já deveria ter percebido isso. Ele está tão acostumado a fazer tudo sozinho que só consentiu em que trouxéssemos uma enfermeira da Inglaterra quando William argumentou que o trabalho estava ficando pesado demais para mim. E aposto como ele só concordou porque tinha certeza de que não conseguiríamos ninguém. Susan parecia um pouco constrangida. Portanto, não fique chateada se ele não parecer agradecido.

Não vim até aqui para receber agradecimentos a voz de Sharon estava levemente perturbada. Vim para ajudar, e Marak está ferido o bastante para precisar dos cuidados de uma enfermeira, não importa o que pense o dr. Clarke!

Ao virar-se para sair, viu-se cara a cara com Ross Clarke, que a observava da porta. A expressão de seu rosto era intraduzível, mas o tom da voz não parecia favorável.

O que ia dizendo sobre Marak? Ele já tomou seu plasma e uma injeção de morfina, tem um lugar aquecido para passar a noite e descansa. Sugiro que você faça o

mesmo. Virou-se para Susan: Onde está Itsawik? Quero que ele me ajude a reabastecer.

Não tenho bem certeza, Ross. Mas você não está pensando em sair de novo, está? respondeu ela, sem o olhar, servindo mais chá.

É claro que vou sair. Ou você acha que podemos deixar lá o urso polar? desperdiçando toda aquela carne! O pessoal de Marak precisa dela, mesmo que a gente

do Cabo a despreze.

Ah...

aí vem Itsawik. Ross pegou a xícara de chá estendida por

Susan e se dirigiu ao encontro de Itsawik.

Para Sharon, o jovem não demonstrava nenhum entusiasmo com as ordens do médico, e, quando Ariel Rochelle entrou na sala, Itsawik pareceu ainda menos inclinado a partir. Uma palavra áspera de Ross resolveu o problema.

Ross, para que esta violência? Você não devia falar com ltsawik desta maneira. Estamos prontos para partir? Faz tempo que estou esperando, chéri. Ariel parecia contrariada.

Esperando? retorquiu Ross. Pois vai ter que esperar mais um pouquinho. Vou buscar o urso polar primeiro.

Ariel mudou de expressão e Sharon percebeu que ela a olhava com hostilidade. Como é que a srta. Lindsay pode ajudar, se não tem experiência?

Quem disse que vou levar Sharon? Itsawik vem comigo e mais ninguém, a menos que você conte um urso polar como passageiro. Reflita melhor e passe a noite aqui. Eu só vou poder ir para o acampamento amanhã.

E se eu disser que meu pai não vai ficar contente, se eu passar a noite aqui? Ariel mostrava uma expressão estranha nos olhos.

Pois então fale pelo rádio com seu pai e conte o que houve, para ele não se preocupar.

Sharon ficou

imaginando se

ela

era

a

única pessoa a perceber a guerra

silenciosa entre os dois. Ross parecia não ter se alterado com a observação de Ariel, mas o modo como lhe respondeu já não continha tanta segurança.

Mas, Ross, não há lugar para mim aqui insistiu Ariel pela última vez. Não é justo pedir à sra. Emerson para...

Acomode-se junto com Sharon. Vocês devem ter muito o que conversar interrompeu-a Ross.

Virou-se e saiu da sala sem olhar para trás.

CAPITULO IV

Sharon acordou, tentando se desvencilhar de um sono ainda pesado. Com dificuldade, conseguiu estender o braço até o relógio. Cinco horas. Seriam cinco da manhã ou da tarde? Era tão difícil saber a hora no norte! Ouviu risadinhas abafadas, a porta se abriu devagarinho e Ellen surgiu no quarto.

Nós a acordamos? perguntou a menina com um sorriso tímido.

Não se preocupe, já estava acordada. Está na hora de levantar? falou Sharon, ainda um tanto confusa.

Mamãe disse que nós devíamos deixar você dormir. Mas você já estava acordada! Ela está fazendo o chá agora.

Sharon ouviu as palavras de Ellen ainda meio adormecida, e, de repente, deu um pulo na cama.

Chá da tarde? Meu Deus, eu dormi até agora! Como está o Marak? perguntou, ansiosa.

Acho que está bem. Pelo menos estava, quando Toolawak foi fazer o aquecimento lá na enfermaria. Você espera um pouquinho? Vou buscar suas roupas. Elas estão secando lá perto do fogo.

Sharon levou algum tempo para se vestir. Sentia o corpo e as mãos frias, dificultando seus movimentos. De repente lembrou-se de Ariel Rochelle. Olhou à sua volta, procurando entender se ela passara ou não a noite naquele quarto. Não havia vestígios dela. Então Ariel não tinha voltado. Talvez Ross Clarke nem imaginasse ser o pivô da hostilidade instintiva entre as duas mulheres, mas, na noite anterior, Ariel deixara bem claro seus sentimentos em relação a Sharon. Depois da saída de Ross, ela afirmara:

Ross nunca ousou me falar dessa maneira. Meu pai ficará furioso e, pode estar certa, ele vai ser informado de que você é a responsável! E Ross, dizendo-me que não a tinha conhecido antes! Que mentira! Você tem certeza de que é enfermeira, hein? Examinou Sharon de cima a baixo.

Sharon estava tão exausta que nem sequer pensou em responder ao ataque. Deixou este trabalho para Susan.

Será que Ariel estaria em casa? Só essa idéia fez Sharon tremer, mas tentou se controlar e saiu decididamente do quarto. As risadas e vozes que ouvira antes, porém, eram somente das crianças, que correram ao seu encontro, enchendo-a de perguntas. Não havia sinal de Susan. Sharon bebeu seu chá com os pequenos.

Agora, era preciso se mexer. Por mais que temesse aquele momento, sabia que teria de enfrentá-lo. Não podia adiar mais sua visita à enfermaria. Enquanto as crianças se entretinham com um jogo, Sharon calçou os kamiks de Susan, o casaco e as

luvas e saiu, passando despercebida, na ponta dos pés. Receava que lhe perguntassem aonde ia.

Ao abrir a porta, assustou-se com o forte golpe de vento que quase impediu sua saída, mas lá fora estava apenas um frio intenso. Com passos inseguros, caminhou em direção à enfermaria. O céu estava nublado, de uma cor indefinida.

Subitamente, uma rajada de vento a envolveu numa nuvem branca que a sufocou até quase perder a respiração, fazendo-a perder o equilíbrio. A casa dos Emerson desapareceu e Sharon não podia distinguir a enfermaria. Sentiu-se perdida naquela brancura selvagem. Não conseguia gritar por ajuda. Uma segunda rajada, ainda mais forte, a fez cair de joelhos. Houve um silêncio repentino e logo viu novamente a casa dos Emerson. O vento tinha passado. Ouviu a risada de um homem, aproximando-se.

O que está fazendo aí, Sharon? Brincando de urso? Charlie Gordon segurou-a pelo braço, ajudando-a a se levantar, enquanto limpava a neve de sua roupa. De repente, ele estacou: Meu Deus, você estava aqui fora durante a rajada de vento?

Ela conseguiu apenas fazer um sinal afirmativo com a cabeça, segurando as lágrimas. Parecia ter perdido a voz.

Está vendo aquela corda, Sharon? falou Charlie, num tom carinhoso. É a corda para ir a qualquer lugar. Ela liga todas as casas, é para que não precisemos desenterrar pessoas depois de uma nevasca. Entendeu?

Sim. Obrigada, Charlie. Ela ainda estava tomada pelo pânico. Bem, mas para onde ia? Ou estava só admirando a paisagem?! Estava indo para a enfermaria.

Então segure-se na corda e estará lá em segundos. Ou prefere que eu a acompanhe? Sempre tenho tempo para uma mulher bonita!

Estou bem agora. Muito obrigada, Charlie.

Sharon sabia que ele a observava, ao caminhar para a enfermaria, agarrada à corda. Bateu nervosa à porta, mas não houve resposta. Entrou timidamente. Sentiu cheiro de óleo de foca, o cheiro característico dos esquimós e de sua terra, que agora era também a dela.

A sala parecia imersa em escuridão, depois da brancura brilhante lá de fora. Fechou e abriu de novo os olhos, tentando se adaptar à nova luz. Estava aceso o pequeno fogão no meio do aposento. Dos três esquimós sentados na cama baixa perto do fogo, embrulhados em peles, um segurava com dificuldade uma caneca de chá. Era Marak, seu paciente. Ross estava certo, afinal. Não precisavam de sua ajuda. Ao se depararem com ela, a conversa se alterou, mas Sharon não entendeu um única palavra. Sentiu-se meio tola.

Algum de vocês fala inglês? perguntou.

A moça quer chá? retrucou um deles, pronunciando lentamente as palavras.

Sharon aceitou, ansiosa. Recebeu uma xícara de chá muito escuro e mal coado. Tomou-o aos golinhos, tentando demonstrar que estava gostando. Pensou ter passado no teste, pois quando devolveu a xícara vazia, eles a receberam com sorrisos. Marak tentou dizer-lhe algo, chamando a atenção para seu ombro.

Enquanto Sharon balbuciava que não estava entendendo, Ross Clarke entrou na enfermaria, batendo a porta com raiva.

O que está fazendo?

Antes que

ela pudesse explicar, ele se aproximou

de Marak, falando-lhe

qualquer coisa em língua esquimó. Virou-se de repente para ela. Poderia me ajudar com o curativo de Marak, srta. Lindsay, já que está aqui?

Ela o olhou sem qualquer reação, até que viu uma porta atrás do médico, que, concluiu, era a sala de curativos. Passou por ele sem ousar levantar os olhos. Para seu alívio, lá estavam os medicamentos. Tirou as luvas e começou a separar as bandagens com habilidade, embora o fórceps tremesse em suas mãos.

Separe algumas agulhas e fio de náilon ordenou Ross, entrando na sala. Vou tentar remendar o músculo. Deve haver algum anestésico local naquela prateleira. E, escute, pensei ter-lhe avisado que nunca se deve dizer a um esquimó que ele está muito machucado!

Saiu antes que Sharon pudesse explicar que ela não fizera nada disso, e voltou em seguida, com um braço amigo em volta de Marak, conversando animado. Acomodou o esquimó confortavelmente na cadeira, ignorando a presença da enfermeira. Ele e o homem pareciam estar contando um ao outro longas histórias, enquanto as mãos de Ross agiam firmes, sem vacilar, na tarefa de refazer o ombro do esquimó. O trabalho do médico garantiria o trabalho de Marak. Este poderia continuar a caçar para sobreviver e sustentar os seus. Manteve a conversa animada o tempo todo, de modo que o seu paciente não tivesse oportunidade de olhar para o ombro ferido.

As bandagens, enfermeira. Agora mais um pouco de algodão. Não creio que você saiba fazer uma dessas bandagens em forma de oito, não. É melhor fazer eu mesmo. Segure a ponta da gaze.

Sharon nem tentou contar que já havia ganho prêmios por curativos, em sua carreira de enfermeira. Quando tudo ficou terminado, Sharon estava arrumando os medicamentos de volta a seus lugares quando ouviu Marak perguntar em inglês, talvez por deferência a ela.

Nova moça boa para esposa, eh? Uma risadinha maliciosa acompanhou o comentário.

Sharon sentiu-se corar até a ponta das orelhas, esperando aflita a resposta de Ross. Este primeiro gargalhou, conduzindo Marak até a porta. Mas ela conseguiu captar duas palavras em inglês, enquanto os dois homens se despediam: "magra

demais". Furiosa, ela terminou de arrumar a sala. Como ele ousava falar a seu respeito daquela maneira? Ficou ainda lá, controlando o ódio, inventando coisas para fazer, sem vontade de voltar à sala da frente. Finalmente, resolveu-se. Já estava com a mão no trinco, quando a porta foi empurrada e surgiu Ross.

Por que está demorando? Não há mais nada para fazer aqui, e Susan falou qualquer coisa sobre o jantar. Puxa, estou cansado! Ele bocejou, completamente à vontade.

Sharon encarou-o. Ele parecia ignorar que a insultara. Pegou o casaco para sair, vestindo-o com dificuldade, enquanto ele a observava, preguiçoso, sem oferecer ajuda.

É de Susan? É melhor ver se Smithy pode lhe arranjar um. Se bem que não vá precisar dele no verão, e duvido que ainda esteja por aqui no próximo inverno.

O que faz você duvidar disso? perguntou, cheia de raiva.

Ou você vai voltar para a velha e confortável Inglaterra, ou casará com alguém como Charlie Gordon, por exemplo respondeu ele, rindo. Deu-lhe um beliscão na bochecha. Você fica muito bonita quando está com raiva, Sharon. Fica mais corada e com faíscas nesses seus olhos verdes. Riu novamente. Bom, chega de provocar você por hoje. A propósito, onde está Ariel? Não tive tempo de procurar por ela.

Não sei disse ela, vestindo as luvas. Não a vejo desde ontem à noite. Como não? Vocês não passaram a noite juntas? Então Ariel não passou a noite na casa dos Emerson? Que eu saiba, não. Mas também não vejo Susan desde ontem. Passaram para a outra sala, sendo saudados pelos esquimós, que bebiam seu chá alegremente. Ross parou para falar um pouco com eles, enquanto Sharon, sem o esperar, dirigiu-se para a porta. Logo, porém, ele estava caminhando a seu lado. Imagine que Marak queria voltar para buscar o urso. Só sossegou quando lhe assegurei que eu já tinha trazido o bicho para a base. Esses esquimós são gente forte, reagem facilmente desde que não saibam que estão muito feridos. Foi por isso que eu gritei com você quando entrei. Sinto. Sharon mal pôde controlar sua surpresa diante das desculpas dele. Já havia concluído que Ross, definitivamente, era um homem que jamais admitia estar errado. Olhou as montanhas de neve à volta deles. As casas tornavam-se infinitamente pequenas, comparadas à imensidão das redondezas, com o vermelho de seus telhados emprestando a única cor à cena. Fora isso havia o mar, salpicado de gelo. É uma beleza, não? comentou Ross. Sharon concordou, silenciosa. Era bonito demais para ser descrito com simples palavras. Andaram tranquilos até a casa dos Emerson. Ross abriu a porta, deixando

Sharon passar primeiro. Ela hesitou um momento e depois entrou. Ainda não tinha se habituado a esse costume do norte, de entrar sem bater.

Eles não poderiam ouvi-la, se o vento soprasse forte falou Ross, adivinhando os pensamentos dela.

Ellen estava pondo a mesa. Mamãe está na cozinha. Agora mesmo estava perguntando por você.

Obrigada, Ellen. Espero que ela esteja preparando uns filés de urso para nós disse ele, piscando para a menina.

Sharon subiu para tirar o agasalho e se arrumar para o jantar. Ficou imaginando horrorizada os filés de urso. Não, a vida no norte não era tão simples quanto imaginara em Londres. Estava apenas parcialmente preparada para o frio e a neve. Passou um pente nos cabelos e notou a pele ressecada. E quando acabasse o creme hidratante? Ia ter que usar óleo de foca? Não evitou uma careta ao pensar naquilo, e voltou para a sala.

Ellen e as crianças estavam paradas na porta da cozinha. Ao se aproximar, Sharon ouviu Susan dizer com firmeza:

Ross, você sabe muito bem que quando Ariel põe uma idéia na cabeça, não há quem a faça mudar. É claro que Sharon não disse nada. Ah, aqui está ela. Pergunte você mesmo.

E então, Sharon, você fez isso? perguntou ele rispidamente.

Fiz o quê? Sharon entrou na cozinha, seguida pelo olhar curioso das crianças.

Aborreceu Ariel? Foi por isso que ela não passou a noite aqui? Sharon sentiu raiva, uma raiva quase incontrolável. Afinal, ele estava

incomodando Susan, atacando Sharon e assumindo que estavam todos Ariel.

errados...

menos

A srta. Rochelle deixou bem claro que não queria ficar, por razões inteiramente suas respondeu friamente.

Pare de ser pedante! falou Ross furioso.

Por que não pergunta você mesmo? sugeriu Sharon, mais calma, mas com uma expressão que fez as crianças explodirem em risadas. Ao passar por elas, Ross acabou rindo também. Sharon ficou na cozinha, ajudando Susan a servir os pratos. Para seu alívio, à sua frente havia um ensopado bem temperado e apetitoso, em vez de urso. Sentou-se e comeu sua porção com avidez. Só ao terminar percebeu que todos a observavam.

Estávamos imaginando se você ia gostar de carne de foca sorriu Ellen. Sharon sentiu o estômago revirar-se.

Estava ótimo reagiu.

Susan achou que da primeira vez seria melhor servir a carne cozida. Nós a preferimos crua, especialmente o fígado, com um pouco de óleo de baleia.

Às palavras de Ross, Sharon respondeu com um sorriso um tanto perdido, sem saber se devia acreditar ou não. O sr. Emerson veio interromper seus pensamentos.

Diga-me, senhorita, podemos contar com você no coro dos domingos?

Posso tentar. Sharon percebeu o interesse dos outros. Não tínhamos muito tempo para praticar no St. Mary, exceto no Natal.

A expressão do sr. Emerson se iluminou, contente com a resposta. Mas isso é maravilhoso, srta. Lindsay!

Um minuto, papai. Ela ainda não conhece as palavras em esquimó cortou Ellen, tocando o braço de seu pai.

Alguém pode me ensinar as palavras declarou Sharon, entusiasmada.

Logo depois de lavar os pratos nós ensinamos! As crianças falaram todas juntas.

Sharon olhou para Ross e notou em seu rosto uma mistura de surpresa e zombaria. Repentinamente, sua alegria desapareceu. Será que ele sempre conseguiria estragar seu bom humor?

Livres do serviço da cozinha, as crianças rodearam Sharon. Ellen entregou-lhe um papel com a letra da música que tocava na vitrola. Espantada, ficou a contemplar os pequenos arcos e triângulos rabiscados. Como iria cantar aquilo?

Olhe, veja a grafia dos símbolos fonéticos, no fim da folha adiantou-se Ellen, percebendo o espanto de Sharon. É só seguir por ela. Quer ver como é fácil? Vamos cantar para você aprender.

Realmente era muito simples. Logo Sharon começou a acompanhar as crianças com uma voz tímida que foi, aos poucos, ganhando segurança. Foi só na última linha que percebeu estar cantando sozinha. Aplausos vindos do outro canto da sala fizeram-na virar-se, assustada. Ross estava aplaudindo, juntamente com Susan e o marido, e, pela primeira vez, exibia um ar de aprovação.

Bravo! Finalmente o Ártico capturou um rouxinol! exclamou ele, fazendo-a

corar.

Nesse instante, Charlie Gordon entrou na sala, apressado. Finalmente o encontrei. Precisam de você no acampamento, com urgência.

Eles podem esperar declarou Ross, sem se abalar. Esta noite vou dormir um pouco, para variar. Não durmo há duas noites!

Sinto muito estragar seu sono, doutor. Talvez eu não tenha sido claro. Houve um acidente com dinamite.

Ross levantou-se antes mesmo de Charlie Gordon terminar.

Diga-lhes que estou a caminho. E peça a Itsawik para vir me ajudar a reabastecer.

Pensei que soubesse que Itsawik foi embora. Charlie Gordon fitou-o, estranhamente. Como, foi embora? Alguém lhe deu umas idéias. O outro sacudiu os ombros. Você está querendo brincar comigo, por acaso? perguntou Ross, furioso.

Com você não, a menos que se considere responsável pelas táticas de sua namorada. Não foi uma boa idéia deixar Itsawik levá-la até o acampamento. Percebeu a surpresa de Ross. Ou quem sabe, você talvez nem tenha sido informado disso!

É claro que não! Espere, vou com você.

Os dois homens saíram sem dar qualquer instrução a Sharon. Este emprego estava se tornando estranho. Se havia pacientes, estes não pareciam ser de sua responsabilidade.

Você vai se acostumar, Sharon falou Susan com simpatia. O norte é um mundo para homens. Venha sentar-se perto do fogo. Você devia arranjar um trabalho manual, costura ou bordado, para se distrair nessas ocasiões.

Mas se houve um acidente, devem precisar da minha ajuda. Não foi para isso que me chamaram?

Ariel é a única mulher cuja entrada lá é permitida. E, isso, porque é filha do patrão.

Isso lá no acampamento. Mas, e aqui? Afinal, é a missão que me emprega ou Ross Clarke? Sharon tentou dizer isto diplomaticamente.

Eu confesso que a situação é um pouco confusa riu Susan. Inicialmente, a enfermaria foi construída com verba da missão, auxiliada pelo governo canadense. Porém o custo foi maior do que prevíamos e então Ross Clarke conseguiu que o senhor Rochelle se interessasse em financiar o resto da construção. O acampamento usa a enfermaria como uma estação intermediária para seus homens feridos. Alguns têm de ser removidos para um hospital, outros podem voltar para o acampamento após o tratamento. De qualquer forma, sempre que isto acontece vem um homem para prestar os primeiros socorros, acompanhando o paciente.

Mas então, o que vim fazer aqui? Sharon se impacientava cada vez mais. Sharon, querida, você vai ter muito o que fazer, eu garanto. Se o tempo permitir, amanhã eu devo fazer minha visita semanal à vila esquimó. Você pode ajudar muito se vier comigo. Vai gostar, verá. Nós vamos de trenó.

Mas é apenas uma visita missionária comentou Sharon, e depois se deu conta de que poderia ter sido rude.

Você está enganada Susan respondeu, tranquila. Vou distribuir remédios e vitaminas, examinar os recém-nascidos e tomar muitas xícaras de chá. Uma em cada iglu! Sabe, aprendi a gostar deste povo e a respeitá-lo, Sharon continuou, pensativa. Além do mais, eu me sentiria muito solitária se não gostasse da companhia deles. Espero não a escandalizar, mas eu estou no norte simplesmente porque meu marido está aqui, e não porque eu seja missionária acrescentou calmamente.

Mas então por

que...

Sharon brecou a pergunta.

Entenda, casei-me com William porque o amava e o fato de ele ser missionário não me pareceu importante na época. Susan sorriu docemente. Isso já me levou a lugares bem estranhos e sempre ajudei William, por exemplo tornando as coisas mais fáceis para as mulheres esquimós e tantas outras. Estou há tanto tempo no norte que não sei se gostaria de viver em outro lugar. A vida aqui pode ser dura, mas é mais genuína, as pessoas são mais sinceras. Susan interrompeu-se, fazendo sinal para que Sharon escutasse o ruído vindo de fora. Deve ser Ross decolando. Espero que não exijam demais dele lá no acampamento. Ele precisa de descanso.

Sharon corou levemente.

E não fique com idéias sobre Ross. Ele não é do tipo de se casar. Homens como ele escalam o Everest, ou exploram os confins da Terra, por exemplo. Eles não gostam da vida estável e as coisas como casamento e crianças são acidentes aconselháveis apenas para os outros. Oh, eu sei que a jovem Ariel imagina que vai pegá-to em sua rede ou tentar comprá-lo com seu dinheiro, mas eu ficarei muito surpresa se ela conseguir mais do que alguns beijos.

Sharon permaneceu silenciosa. Meditava sobre esse mundo, esse novo mundo confuso em que viera viver.

Ainda meio adormecida, Sharon ficou preguiçosamente na cama.

Ellen trouxera uma xícara de chá para ajudá-la a despertar, mas insistira que não havia pressa.

Subitamente, ouviu uma voz masculina que a fez acordar de uma vez por todas. Ficou curiosa por saber se era Ross ou não. Porém, antes que pudesse se certificar, o grito de espanto de Susan chegou até ela.

Desaparecido? Charlie, você está querendo me dizer que Ross não chegou ao acampamento?

CAPITULO V

Antes que Sharon se convencesse de que o destino de Ross não era de sua

conta, já se encontrava fora da cama, vestindo-se apressadamente.

Talvez...

não, que

tolice. Não poderia ajudar em nada. Quando chegou à cozinha, sentiu-se envergonhada ao notar a surpresa de Susan e Charlie pela sua presença repentina.

Olhe só o que o vento trouxe! Bom-dia, Sharon! Charlie saudou-a com um sorriso largo.

Eles conversavam, tranquilos, o que aumentou a confusão de Sharon. Não pareciam estar em emergência. E ela, será que estava sonhando?

Onde está Ross? não conseguiu conter-se.

Que tal mais um chá, Susan? falou Charlie, despreocupado. Como vou saber onde está Ross? Não operamos radar em Cabo Mercy, como sabe!

Susan interveio, salvando-a de maiores embaraços.

Não se preocupe, Sharon, não é a primeira vez que isso acontece. Vou preparar seu café da manhã. Tome um chá enquanto isso.

Não adianta se preocupar com o doutor, Sharon. Ele se vira. Charlie confortou-a com uma palmadinha no ombro.

Mas você não vai procurar por ele? perguntou ela, perturbada.

Onde? É arriscado sair com o barco. Há muito gelo por aí. O acampamento já deve ter mandado um avião de busca.

Sharon afastara principalmente, inútil.

o

pânico, mas

continuava a

se sentir impaciente, e,

Não fique desanimada, Sharon. Susan percebeu seus sentimentos. Se pudéssemos fazer alguma coisa, já o teríamos feito, acredite. Venha, coma isso. Precisa estar bem alimentada para nossa visita à vila. A propósito, Charlie, onde está Itsawik com o trenó?

Espero que ele esteja gostando da vida no acampamento. Sempre achei um erro de Ariel ter-lhe dado dinheiro para comprar seus próprios cachorros. Isso lhe subiu à cabeça.

Não seja maldoso, Charlie. Sabe perfeitamente que é o dia da minha visita à vila, e não está imaginando que eu vá a pé!

Se prometerem se comportar como boas meninas Charlie riu divertido , podem vir comigo. Eu tenho que ir para aquele lado. Estão prontas em uma hora? É melhor deixar as crianças com o reverendo, talvez tenha que trazer alguém na volta. Combinado? Apanho vocês mais tarde, então.

Combinado, Charlie. E muito obrigada.

Sharon mal podia se mover, de tanta roupa que Susan a fizera vestir para a viagem. O sol estava parcialmente escondido atrás das nuvens e uma brisa suave, bem diferente do vento do dia anterior, soprava em direção ao mar. Ouviu latidos.

Devem ser os cachorros do trenó de Charlie. Vamos até lá, isso vai economizar tempo. Trouxemos tudo?

Trouxemos, sim. Nossa, eu não poderia andar se vestisse mais alguma coisa! exclamou Sharon, rindo.

Ótimo. Vai fazer frio no trenó. Susan estava satisfeita. E não se preocupe, você logo vai aprender a andar de trenó. Ande atrás de mim. Os cachorros podem estranhá-la. Você é um cheiro novo para eles. Não faça nenhum movimento súbito até que saiba como lidar com eles. Os cães esquimós nem sempre se lembram de que são amigos do homem.

Sharon encolheu-se nervosamente atrás de Susan, ao encontrar os olhares de um semicírculo de cachorros que a observavam. No entanto, logo ficou mais à vontade, observando-os, curiosa. Dirigiu a atenção para o trenó que Charlie aprontava. Ele estava cobrindo o veículo com peles e amarrando as rédeas da matilha à parte dianteira. Um esquimó o acompanhava, ajudando-o a preparar o veículo.

Venha tomar seu lugar, Sharon chamou-a Charlie.

Um tanto desajeitada, ela sentou-se com dificuldade, por causa do excesso de roupa. Charlie cobriu-a com peles e prendeu-a no lugar com várias tiras de couro que a deixavam praticamente imóvel. Sharon se sentia como uma múmia egípcia. Ouviu uma chicotada súbita e o trenó arrancou num solavanco. Apavorada, compreendeu que estava sozinha. Só enxergava os cachorros à sua frente, separados em forma de leque. Tinha a impressão de que estavam correndo a uma velocidade incrível, mas, para alívio seu, ouviu Susan gritar, logo atrás dela, com voz ofegante:

Tudo bem, Sharon? Subirei no trenó mais lá em cima! Para não cansar os cachorros!

Sharon quase chorou de alívio. Concluiu que Charlie deveria estar junto de Susan, e também o esquimó. Passado o medo, começou a desfrutar a novidade de ser transportada em um trenó. Apreciou a paisagem à sua volta, a colina que subiam. Aqui é ali havia enormes blocos de gelo. Algumas vezes foi lançada violentamente para o lado, quando os cachorros se desviavam de algum obstáculo. Logo o caminho ficou mais íngreme, forçando os animais a diminuírem quase por completo a velocidade. Não demorou e Charlie surgiu a seu lado.

Não é melhor eu descer? perguntou Sharon.

Fique onde está! O trenó é valioso demais para deixarmos os cachorros fugirem com ele falou Charlie, alegre. Se quiser parar é só puxar as rédeas. Virou-se para Susan, que vinha logo atrás. Que tal um café? Afinal, os cachorros precisam de um descanso, depois de puxarem nossa bela enfermeira.

Muito obrigada por dizer que são os cachorros os necessitados de descanso brincou Susan, exausta.

Sharon lutou com as rédeas até que o trenó ficou imóvel.

Não desça. Charlie adivinhou suas intenções. Não vamos parar por muito tempo. Não estou gostando nada daquela nuvem carregada, olhem!

Só então Sharon se deu conta da vista magnífica à sua frente, ali do alto da colina. Uma encosta do morro escondia um pequeno povoado. Atrás dele, as montanhas avançavam para o mar num penhasco impressionante, o branco da neve contrastando com o violeta das águas.

Beba rápido. Você pode admirar a paisagem uma outra hora apressou-a Charlie, apontando a caneca de café em suas mãos. Susan juntou-se a ela no trenó, fazendo Sharon se sentir bem mais segura quando os cachorros reiniciaram a viagem. Começaram a descer em direção a um vale estreito e, olhando os paredões de neve, Sharon imaginou estar no meio da Idade do Gelo. Charlie e o esquimó que as acompanhava vinham atrás delas em completo silêncio.

O gelo no alto das montanhas, nessa época do ano, pode vir abaixo apenas com um grito ou uma chicotada sussurrou Susan em seu ouvido.

Sharon afundou-se em seu ninho de peles e ficou a imaginar quanto tempo não teria sido necessário para formar aquela imensidão de gelo à volta deles, cheia de estalactites, como se fosse uma caverna subterrânea. Ao atingirem o vale, os animais começaram a latir sem parar, sendo imediatamente acompanhados por um coro de cachorros vindo do povoado. Para surpresa de Sharon, porém, a vila estava praticamente deserta, quando chegaram, Onde estão todos? gritou para Susan, em meio aos latidos dos cães. Os homens estão caçando foca na costa, enquanto as mulheres fazem o trabalho doméstico. Eles não consideram boas maneiras sair correndo para ver quem chega. Mas as crianças não aguentam de curiosidade e vão aparecer a qualquer instante explicou Susan.

Bem, senhoras, este é o ponto final para vocês. Vou mais adiante, mas em duas horas estou de volta. Charlie ajudou-as a descer.

Apesar de a viagem ter sido curta, Sharon sentia dores no corpo todo.

E olhe que viajar no inverno é melhor, a neve está mais macia disse Charlie, rindo-se dela.

Vamos começar pela Gran falou Susan, sem perder tempo. Ela nunca vai nos perdoar se não passarmos lá primeiro.

Sharon explorou o povoado com os olhos, se é que se podia chamar de povoado aquele amontoado de habitações, uma mistura de iglus e choupanas em condições

precárias. A neve que derretia, nesse final de inverno, revelava todo o lixo acumulado durante aquela estação.

Eu estaria mais ansiosa pelo verão, se não fosse o mau cheiro. No inverno, o lixo está coberto de neve ou então é muito frio para se sentir o cheiro comentou Susan torcendo o nariz.

A casa de Gran era pequena e estava cheia de gente. Tomaram várias xícaras de chá, enquanto Susan respondia pacientemente às perguntas das mulheres. Sharon tinha a impressão de que falavam dela. As vitaminas foram distribuídas entre as crianças, que as aceitavam como se fossem balas. Conversavam às vezes num inglês irregular, porém na maior parte do tempo expressavam-se num som gutural e musical que, Sharon sabia, teria de aprender para ser bem-sucedida em sua nova vida. As crianças a observavam com viva curiosidade, tocando-a com os dedos, de vez em quando, e depois rindo em coro, os olhos muito escuros faiscando de felicidade.

Era tempo de passar à próxima casa. Uma mulher veio ao encontro delas, segurando Susan pelo braço para lhe confiar algo que Sharon não compreendia. O que ela dizia, no entanto, causou agitação entre as mulheres.

O que está acontecendo? perguntou Sharon, curiosa.

Uma das mulheres mais jovens está em trabalho de parto, prematuramente, pelo que entendi. Disse a elas que você é parteira, embora eles não gostem de estranhos em ocasiões como esta.

A casa para onde se dirigiam era um iglu de verdade e Sharon teve praticamente que se ajoelhar para entrar. O lugar não era sujo e, ao contrário do que imaginava, havia uma claridade transparente vinda das paredes de tijolos de neve. No centro do círculo de mulheres, encontrava-se a jovem grávida. Uma chaleira fervia sobre uma lâmpada de óleo de foca e, a julgar pela quantidade de canecas à sua volta, era destinada ao chá, sem nenhuma relação com o parto. Ouviu-se um grito inesperado da jovem e o círculo fechou-se ainda mais. Susan prestava atenção ao murmúrio das mulheres.

Há algo de errado voltou-se para Sharon. Ela está perdendo muito sangue e o bebê ainda não nasceu.

Meu Deus, placenta prévia exclamou Sharon. Mas como vamos lidar com uma emergência deste tipo, sem condições adequadas?

Susan lhe entregou um pacote com bandagens e curativos esterilizados. Sharon sentiu desespero, raiva de sua impotência. Talvez Ross estivesse certo: não havia nada para ela fazer lá. Os seus anos de experiência no St. Mary jamais lhe ensinaram a assistir um parto de joelhos, no meio de um iglu, sem nenhum equipamento.

Em vez de lhe mostrarem hostilidade, as mulheres abriram o círculo para dar passagem à enfermeira. A jovem grávida estava ajoelhada sobre uma pele onde Sharon viu com horror uma enorme poça de sangue. Se não agisse rápido, a mulher poderia morrer pela hemorragia, antes mesmo de dar à luz o bebê.

Depois de tudo terminado, Sharon lembrava-se apenas de sua reza, uma oração incoerente para que tudo desse certo. Recordava também a sensação inconfundível de agarrar com mãos cegas o corpo pequenino. Tremia, agora que amparava nos braços o frágil bebê envolto nas bandagens. A jovem mãe estava deitada, as peles cobrindo-a, enquanto uma das mulheres lhe massageava o abdómen. As outras estavam perto da lâmpada de óleo, em silêncio, parecendo ainda observar algo que lhes fugia à experiência.

Sharon olhou para a trouxinha branca que se movia milagrosamente entre suas mãos. Uma das mulheres lhe entregou uma pele para agasalhar o bebê. Olhou em torno de si. A mãe empurrou a coberta, descobrindo o peito, e Sharon não precisou conhecer a língua esquimó para interpretar aquele gesto. Colocou a criança nos braços da mãe. Só então lembrou-se de Susan. Talvez tivesse ido lá para fora, depois de se certificar de que a situação estava sob controle. Saiu do iglu, à sua procura. Com efeito, lá estava ela, bastante pálida. Seu rosto iluminou-se ao ver Sharon.

Está tudo bem? Sinto muito, se eu ficasse lá mais um pouco você ia arranjar duas pacientes! Charlie seria mais útil do que eu. Não sou boa nisso.

Sharon respirou fundo, agora livre de qualquer tensão. Tive tanto medo! confessou.

Se é assim que você resolve uma siluação quando está com medo, então vai se dar muito bem no norte! Susan cumprimentou-a alegremente. Bem, acho que vimos todo mundo. Charlie deve estar de volta a qualquer instante.

Precisamos levar a menina para Cabo Mercy. Ela perdeu muito sangue e o bebê é prematuro, está muito fraco disse Sharon.

Mas a enfermaria só é usada em caso de acidente. Além do mais, Ross não está lá.

Pela primeira vez, Sharon lembrou instante, lhe faltou coragem.

o desaparecimento de Ross, e

por

um

Ele já deve ter voltado. Você disse que não é a primeira vez que isso acontece com ele falou Sharon, tentando se convencer.

Lá vem Charlie apontou Susan. Pergunte-lhe sobre a moça. Vou ver minha paciente. Fale com ele, você que o conhece melhor, Susan.

Foi recebida com muitos sorrisos e uma caneca de chá. Dirigiu-se para a jovem mãe e tomou-lhe o pulso. Mesmo que não houvesse mais hemorragia, ela estava muito enfraquecida. Chegou até a entrada do iglu para ver como ia a conversa com Charlie.

Mas é loucura, Susan! A viagem de volta já é perigosa, ainda mais levando uma jovem mãe e seu recém-nascido! Charlie não escondia seu nervosismo.

A menina não tem a menor chance, se não a levarmos agora! interrompeu-o Sharon, determinada.

Mas como vai sobreviver aos solavancos do trenó e ao frio? Charlie ainda insistiu. Pelo menos, teremos tentado arrematou Sharon, impaciente. Pode encolher as unhas, gatinha! Olhou para o trenó. Isso significa que você vai subir a montanha a pé. Sabe o que isso significa? Sim. Está bem. Mas não diga que eu não avisei. Agora vamos arranjar meios de manter a moça aquecida. Susan, veja se consegue garrafas com água quente. Sharon, prepare a garota para viajar, e é melhor se prevenir para alguma emergência. A hemorragia pode voltar.

Ao entrar novamente no iglu, descobriu que as mulheres já estavam sabendo de suas intenções e, excitadas demais para opor qualquer objeção à idéia, preparavam a mãe e a criança para a viagem. Os dois foram colocados num saco de dormir, envolto em mais peles.

Charlie gritou impaciente lá fora e entrou desajeitado no iglu. Pegou a jovem nos braços e a carregou até o trenó. Susan ajeitou as garrafas e logo tudo estava pronto para a partida. Charlie deu a Sharon uma tira de couro.

Segure isso como sua própria vida. O vale é muito estreito.

Para evitar maiores riscos, Sharon amarrou a tira no pulso. Charlie fez o trenó arrancar com suavidade, desta vez. Não fosse pelos cães que a puxavam pela tira de couro em seu pulso, Sharon não teria conseguido subir o vale. Sua respiração parecia raspar a garganta e sentia os pulmões em fogo, além de sufocada pelas roupas pesadas. Somente o orgulho e o exemplo dos outros ajudavam-na a continuar. Mais um passo, falta pouco, ela se dizia. Mas seu cérebro já não aguentava qualquer esforço.

Percebeu que a sacudiam pelo ombro. O trenó havia parado. Mal conseguia distinguir a figura grande a seu lado. Vou chegar lá, Charlie, não se preocupe falou, sacudindo a cabeça.

Não é isso. Precisamos do seu peso no trenó para a descida. Sharon tentou desamarrar a tira no seu pulso, mas era impossível.

Charlie veio em sua ajuda.

Meu Deus, você não sabe que não se dá nó em couro? A neve o fez encolher. Estava cortando seu pulso, pobrezinha disse, arrancando a tira com uma faca. Pegou-a nos braços e a depositou no trenó, ao lado da mãe. Segure-se firme.

A descida foi penosa, o trenó sacudindo de um lado para o outro. Podia ouvir os gritos de Charlie para segurar os cães que, sentindo a proximidade de casa, tendiam a disparar como loucos. Será que já estavam chegando? O trenó diminuiu de velocidade. Sharon não conseguiu ver nada.

Neblina! Era só o que faltava reclamou Charlie. Vamos ter de deixar os cachorros nos guiarem agora.

O trenó ganhou o dobro da velocidade. De olhos fechados, Sharon imaginou-se deslizando num túnel sem fim. Ouvia os gritos de Charlie. De repente o trenó parou, com um solavanco.

Estou vendo uma casa lá adiante gritou Susan, alegre.

Então eles sabiam que estavam em casa muito antes que nós pudéssemos ver qualquer coisa! exclamou Charlie. Vamos, Sharon. A enfermaria está à direita. Vá indo na frente, que eu já levo a moça. E cuidado para não escorregar.

Sharon ouviu vozes na casa, mas levou algum tempo para perceber que não eram de Marak e seus amigos. Charlie havia chegado antes dela, com a jovem mãe nos braços, auxiliado por um esquimó. Um homem alto de cabelos muito negros lhes falava com raiva.

Não me importa quem seja ela, ou quem a trouxe. Isso aqui não é maternidade. Leve-a de volta. E onde se meteu a senhorita Lindsay? Tenho trabalho para ela. Sharon se aproximava. Mas quem você está pensando que é? A superiora do Hospital de Cabo Mercy?

CAPÍTULO VI

Ao se deparar com a cólera do médico, o cansaço de Sharon desapareceu como num passe de mágica. Uma energia extraordinária ocupou seu lugar.

Foi um caso de placenta prévia, doutor. A moça perdeu muito sangue e o bebê é prematuro. Se me disser onde está o plasma, podemos economizar tempo. Sua confiança e frieza o desmoronaram.

Creio que isso faz alguma diferença Ross pareceu relutante em admitir.

Porém suas mãos foram mais rápidas que suas palavras e, antes que Sharon pudesse se desvencilhar de seu agasalho, ele já estava preparando a jovem paciente para receber a intravenosa de plasma. Entregou desajeitado o menino para Sharon.

Cuide deste. Vai encontrar tudo o que precisa na sala de medicamentos. Gordon, segure o braço da paciente.

Sharon escapou para a relativa paz da sala ao lado. O esterilizador já estava ligado. Improvisou o bercinho para o bebê com uma caixa de medicamentos vazia. Dentro dela, bolsas de água quente cobertas de algodão, formando uma cama bem macia, seriam as responsáveis pelo aquecimento obrigatório a um prematuro.

Desembrulhou a pequena trouxa de pele, descobrindo um tiquinho de gente, de cabelos e olhos muito pretos. Que chance teria essa criaturinha contra o frio cruel do norte? Sem perder tempo, passou óleo no bebê com movimentos suaves e o embrulhou num pano limpo. Deitou a criança na caixa e em seguida deu-lhe um pouco de glucose com um conta-gotas, que foi chupado vigorosamente. Segurou-o no colo, então, para que arrotasse.

Pare de ninar o bebê, Sharon! Tenho trabalho para você. Algo lhe dizia que a aspereza de Ross desta vez era diferente, e Sharon não se alterou ao devolver o menino ao berço.

A propósito, como está ele? Ross estava lhe dando mais atenção do que costumava.

Melhor do que eu supunha, apesar de uns esfoladinhos esquisitos.

Esses esfoladinhos são por acaso na base da espinha? perguntou ele, divertido.

São, realmente respondeu Sharon, surpresa.

Imagino que não tenham lhe ensinado sobre as marcas de nascimento dos mongóis. Os esquimós são um povo de origem mongol, você sabe, e todos nascem com pequenas manchas azuis nos traseirinhos. Ele riu. Venha, traga o berço para a outra sala, que a mãe cuida dele.

Como está ela? perguntou Sharon, cautelosa. Ainda não sabia como agir com ele.

Sentada, conversando com Marak e seus amigos. Vêm todos do mesmo povoado, ou não sabia?

Para grande espanto de Sharon, a garota estava sentada, tomando chá e conversando alegremente com os três esquimós. Ao ver a enfermeira entrar na sala, a jovem comentou algo com os homens, que voltaram para ela seus olhos, com ar de aprovação. Quando Sharon colocou o bebê perto da mãe, eles se aproximaram para observá-lo.

Vamos, Sharon, há trabalho por fazer. Ross saiu em direção à porta, carregando duas mochilas.

Para onde vamos? Ela o seguiu, obediente. Para o acampamento, é claro. Vamos de barco.

Sharon achou prudente não lhe fazer mais perguntas, apesar de ter notado um tom de amargura na voz dele. Talvez algum dia se acostumasse a esse homem difícil e mesmo imprevisível. Ela havia previsto vários problemas de adaptação a esse novo emprego, porém Ross estava sendo o maior deles.

Um centavo pelos seus pensamentos! Ele a surpreendeu. Estava pensando em como tudo aqui é diferente.

Você ainda tem muito o que aprender falou num riso que logo se transformou num bocejo sem cerimônia.

Conseguiu dormir esta noite? perguntou, ansiosa.

Experimente dormir e dirigir um avião ao mesmo tempo e não fará mais perguntas estúpidas como esta respondeu, impaciente. Susan está nos preparando café e comida para a viagem. Vá buscá-los e me encontre em cinco minutos lá no cais. Oh, e se quiser passar pó-de-arroz, é melhor fazê-lo agora. Talvez seus lábios civilizados não aprovem as instalações no barco acrescentou secamente.

Sharon afastou-se, contente por escapar daquele homem desagradável. Seu único consolo era que não parecia ser só dela que ele não gostava.

Felizmente Susan já preparara tudo, de modo que Sharon não se atrasou. O barco, com seus doze metros de comprimento, parecia uma minúscula e frágil embarcação, diante da imensidão da paisagem.

Apresse-se, Sharon gritou Ross, impaciente.

Charlie Gordon estava já, conversando com Ross. Ajudou-a a embarcar. Havia um pequeno grupo de esquimós em um canto. Sharon sentou-se timidamente ao lado de um garoto de seus dez anos.

Eu...

Paulo bateu no peito e olhou para Sharon.

Eu, Sharon ela fez o mesmo.

O

menino ficou

contente e

foi

bater

no

peito dos

outros passageiros,

pronunciando o nome de cada um e olhando para Sharon. Ela não compreendeu nenhum

deles. Sorriu, como se o conseguisse, o que pareceu satisfazê-los.

O barco já estava se movendo e ela não havia percebido. De repente, um grito vindo da proa chamou a atenção de Sharon para um campo de gelo flutuante. Viu horrorizada que a embarcação estava indo em sua direção. Houve um solavanco violento e o barco foi quebrando o gelo lentamente, cruzando o campo gelado. Ross veio juntar-se a ela.

Com frio? Se quiser, pode ficar com as mulheres lá embaixo sugeriu ele. Estou bem aqui, obrigada. O que aconteceu ao seu avião, Ross? perguntou, tomando coragem. Sujeira no carburador. Tive que deixá-lo num vale ao sul. Mas o que vai acontecer com ele? insistiu ela, curiosa.

Não precisa se preocupar, vou buscá-lo assim que cuidar dos homens no acampamento, e, se você se comportar, eu lhe dou uma carona de volta para o Cabo. Pode economizar uma longa caminhada! Pareceu se divertir com aquilo.

Mas o barco não volta para Cabo Mercy? Só no final do verão.

Um dos esquimós gritou da proa e Ross se afastou sem falar mais nada. Sharon sentiu alivio. Ross sempre a fazia se achar tola e desajeitada, mesmo quando ele não parecia querer aborrecê-la. Possivelmente, era sua impaciência e aquele ar implícito de descrédito em relação a ela, nas coisas mais simples. Por que ele não podia ser como Charlie Gordon? Este a aceitava como era: alguém recém-chegado ao norte, cheio de esperança e com vontade de aprender.

Desviou sua atenção para a paisagem. Agora o barco cruzava suavemente as águas, já navegando em mar aberto. Uma mulher esquimó veio até ela e fez sinal para que a acompanhasse. Sharon hesitou, mas resolveu seguir a mulher até a cabine de baixo, segurando firme o corrimão.

Fazia muito calor lá dentro e no lugar apinhado de gente mal cabia Sharon. O barco embaixo sacudia mais. Procurou por Ross. mas naquela luz tênue era difícil distinguir as pessoas. Deram-lhe uma caneca de ensopado que ela aceitou, sem

vontade. De repente, sentiu que se não respirasse um pouco de ar

fresco...

Sharon quis

voltar, mas não sabia por onde se chegava ao convés, e não conseguia enxergar. O

enjôo parecia não ter fim. Finalmente conseguiu levantar a cabeça, ao sentir um braço firme em seu ombro.

Beba um pouco disto, Sharon falou uma voz meiga.

Atordoada demais para perguntar o que era, Sharon bebeu conhaque e água. O gosto não era bom, mas isso acalmou seu estômago.

a

mistura de

Agora está tudo bem afirmou, frágil.

Tinha de ser justamente Ross! Esperou o sarcasmo usual, porém, isso não aconteceu. Levantou a cabeça e percebeu que ele a olhava, preocupado.

Venha, vou ajeitar um lugar para você na proa. Fez-lhe um pequeno ninho forrado de peles e a acomodou ali. Seu toque era suave e gentil.

Tudo bem? Aviso você quando estivermos chegando. Sharon sentiu o calor gostoso das peles e, embalada pelo movimento do barco, logo adormeceu. Por quanto tempo, não soube, pois acordou com Ross falando-lhe, apressado. Vamos descer agora. Os esquimós vão seguir viagem. Levantou-se, depressa, mas não viu Ross. Onde estava ele? Procurou-o, olhando à sua volta, antes de vê-lo um pouco abaixo dela, na rampa de desembarque. Pensou em encontrar um jeito de chegar até ele, e, de repente, meio atônita, sentiu levarem-na para a rampa. O barco partiu logo em seguida, com os esquimós lhes acenando adeus.

Ross, você se decidiu a vir, finalmente. E para que trazer a garota junto? Não há necessidade. Ariel vinha de encontro a eles, irritada. Atrás dela vinha mais gente.

A enfermeira costuma acompanhar o cirurgião, você não sabe? Vou precisar dela para a anestesia retrucou Ross.

Acho que você não vai dar nenhuma anestesia disse ela, com um ar esquisito.

Mas por quê? O homem morreu?

Não, foi levado de avião para Frobisher. Você chegou tarde demais. Havia um ar de triunfo em sua expressão.

Mas eu vim o mais rápido que pude. Devem ter recebido meu recado sobre a pane do avião, ou pelo menos eu pedi a Gordon para avisá-los. Ross parecia surpreso e indignado.

Eu não sei de nada, mas lá vem papai. Pergunte a ele. Aliás, ele não está nada contente com você ela hesitou por um momento, e continuou , ou com a qualidade de seus serviços. Ele acha que talvez sua mente esteja mais concentrada em outras coisas.

Ross não a deixou continuar, segurando-a nervosamente pelos ombros.

Eu sei quem pôs essas idéias na cabeça dele gritou, furioso. E, realmente, eu tive minha atenção distraída por outras coisas: por você! Respirou fundo, parecendo tomar fôlego. Como ousou sair com Itsawik, quando eu a avisei para deixar o rapaz em paz?

Isso não é da sua conta, doutor disse ela, conseguindo escapar das mãos dele. Você se recusou a me trazer de volta quando eu quis. Itsawik é muito simpático, gentil e atencioso.

Ele é um esquimó e trabalha na missão. Pegou as mochilas e virou-se para Sharon. Vamos, senhorita Lindsay. Vamos dar uma olhada pelo acampamento.

Sharon pôde sentir o ódio por trás do sorriso falso de Ariel. Marcel Rochelle vinha em direção a eles. Ele não correspondia muito bem à sua idéia de um grande industrial, pensou Sharon. Era pequeno e tinha os mesmos olhos escuros de sua filha. Foi diretamente a Ross.

Chegou tarde demais, doutor. O homem não pôde esperar. Os outros dois já foram tratados. Mas o que o deteve? falou sem preâmbulos.

Sharon observou que havia nele apenas um traço do sotaque que Ariel usava com tanto charme.

Tive problemas com o avião. Gordon não lhe disse? Mountie disse que você viria de barco. Devia cuidar melhor do avião.

Eu poderia, se sua filha não tirasse Itsawik de seu povoado, em Cabo Mercy. O rapaz é um excelente mecânico Ross não se preocupou com diplomacia.

Marcel Rochelle franziu as sobrancelhas aborrecido e então notou a presença de Sharon.

Esta é a nova enfermeira que Ariel mencionou? Seja bem-vinda ao acampamento, senhorita. Não costumamos receber visitantes femininos aqui, por princípio. Isso pode distrair a atenção dos homens, mas podemos considerar sua visita de caráter oficial.

Ele estava sorrindo, mas seu jeito frio e calculista deixava Sharon pouco à vontade. Ariel tinha passado para trás do grupo e conversava com Ross.

Vamos até meu escritório tomar um café sugeriu Marcel, gentilmente. Seria ótimo, obrigada. Sharon acolheu a idéia com simpatia. Logo chegaram ao pequeno escritório, praticamente tomado por uma grande escrivaninha coberta de papéis. Alguns minutos mais tarde, Ariel entrou seguida de Ross, que demonstrava nervosismo. Marcel Rochelle estava servindo o café.

Como pretende voltar ao Cabo, Ross? O tom educado perdera todo vestígio de irritação.

A maneira mais fácil é pedir para Itsawik nos levar.

Talvez seja a melhor solução. Rochelle refletiu antes de continuar: Gostaria de conversar com você sobre esse rapaz numa outra ocasião. Ele tem um bom futuro aqui, você sabe...

De repente, o escritório ficou pequeno demais para a tensão que se criou lá dentro. Ariel saiu batendo a porta. Devia estar furiosa com Ross por este tirar Itsawik do acampamento.

Se quiser retocar a maquilagem, enfermeira, há um banheiro ao lado. Ross, é melhor tratarmos de mandar preparar o trenó. Vocês devem estar querendo voltar logo.

Sim, a enfermeira Lindsay tem um bebê prematuro para cuidar. Somente a trouxe por causa do acidente. Talvez fosse preciso fazer alguma cirurgia falou Ross em tom conciliatório, que lhe era pouco característico.

Ao se olhar no pequeno espelho sobre a pia, Sharon quase caiu de espanto. Não apenas achava-se completamente despenteada, mas seu rosto ficara demasiado vermelho por causa do frio. Encontrou alguns cosméticos que deviam ser de Ariel, no armarinho. Quando terminou, não parecia a mesma.

Encontrou o senhor Rochelle sozinho no escritório. Espero não tê-lo feito esperar falou, tímida.

De forma alguma, minha querida. E não há motivo para partirem tão depressa,

mas Ross pensa que é um crime ficar sem fazer nada. Como Mercy?

é...

está feliz em Cabo

Acho que sim Sharon hesitou. É tudo tão diferente!

Agora que conhece o caminho, talvez possa vir nos visitar quando tiver um tempinho livre. Ariel fica muito tempo aqui sozinha, sem outra mulher para conversar. Ross me contou que você não conhece ninguém aqui no norte. Isso é estranho. Quando soube da vinda de uma enfermeira para o Cabo, imaginei-a mais velha, ou então alguém que viesse se juntar ao noivo. Deu-lhe uma piscada divertida e maliciosa.

Bem, não é o meu caso. Sharon sorriu um pouco envergonhada, imediatamente lembrando-se de Alistair Gaskell.

Ninguém mesmo? Nem uma paixãozinha pelo doutor? Ele riu. Dizem que ele não gosta de mulheres respondeu ela quase automaticamente.

Quem não gosta de mulheres? a voz, conhecida, era de Ross, entrando no escritório.

Muita gente aqui no norte Marcel Rochelle se adiantou, salvando Sharon de um embaraço maior. Tudo pronto?

Ross estava olhando para Sharon com mais atenção e, por um momento, ela pensou que havia notado sua maquilagem.

É melhor pôr um pouco de creme nesse seu rosto queimado. Virou-se para o senhor Rochelle: Sinto muito sobre a pane do avião.

Não se preocupe, doutor. Isso acontece.

Não havia sinal de Ariel quando Ross ajudou Sharon a se acomodar no trenó. Conversou rapidamente com Marcel Rochelle antes de partir.

Traga a enfermeira quando vier a próxima vez, Ross. É sempre bom ver um rosto bonito!

Sharon percebeu um olhar rápido do médico, antes que gritasse algumas ordens para Itsawik. Para sua surpresa, Ross embarcou no trenó também.

Será uma viagem agradável disse ele, com um sorriso. Acorde-me quando chegarmos. Quero recuperar um pouco do sono perdido.

Por algum tempo, Sharon sentou-se muito reta no trenó, observando a paisagem. Itsawik corria ao lado do veículo, guiando os cachorros, fazendo estalar o chicote de vez em quando. Ross encolhera-se entre as peles, à frente de Sharon, sua cabeça balançando com o movimento. O corpo estava levemente inclinado para trás e, instintivamente, Sharon dobrou os joelhos para servir de apoio a ele. O ritmo suave do trenó ajudou-a a adormecer e só acordou mais tarde, com a parada brusca do veículo. Olhou confusa à sua volta e distinguiu o avião logo à direita, abandonado no meio daquele deserto branco.

Ross e Itsawik conversavam perto do avião, mas Sharon notou que a fala tendia a uma discussão mais acalorada. De repente, Ross veio até ela.

Itsawik vai levá-la até o Cabo disse secamente.

Mas você não vem? Claro, no Patinho

Feio.

Se tiver sorte, chego lá antes de você! falou,

sorrindo. Vocês estavam discutindo? Ela se aventurou a perguntar.

Itsawik queria que eu a levasse comigo, para poder voltar para o acampamento. Franziu as sobrancelhas. Ariel está mexendo com sua cabeça. Isso não é bom para ele. Na realidade, é muito difícil para um esquimó permanecer a mesma pessoa depois que o deslumbram com idéias malucas.

Mas eu pensei que o pai dele fosse branco.

Isso não faz de Itsawik um homem branco. Ele foi educado como esquimó, é o ambiente que conta nesse caso, e não o sangue. Se os Rochelle deixassem o norte, não poderiam levá-lo com eles. Tirar um esquimó de seu ambiente natural é como lhe tirar a vida. Bom, a viagem agora não deve ser longa. Vejo você lá.

O motor demorou para pegar, mas logo o ruído se tornou estável e o avião pôde decolar. Ross voou em direção à massa azul do céu e em poucos minutos Sharon o perdeu de vista.

O trenó arrancou, deslizando suavemente na neve. Só muitos minutos mais tarde é que Sharon se deu conta de rastros frescos de trenó correndo paralelos a eles. Prestando atenção, reconheceu mais adiante uma formação de gelo que, estava certa, vira antes de chegar ao avião.

Itsawik! chamou-o, com autoridade. Cabo Mercy é para lá! Apontou para a direção contrária. Não sabia se ele entendia inglês.

Eu

sei...

nós não ir para Cabo Mercy!

CAPÍTULO VII

O primeiro impulso de Sharon foi saltar do trenó e seguir para Cabo Mercy. Mas o medo do desconhecido a fez refletir com mais calma e chegar à conclusão de que era muito arriscado tentar a viagem sozinha. Não conhecia bem o local, mas tinha certeza que iria se perder naquela imensidão gélida, igual em todas as direções que olhasse. E também o medo de encontrar algum animal perigoso a impediu de tomar uma atitude tão drástica e impensada. Mais inteligente seria se submeter com tranquilidade a esse sequestro. Itsawik estava certamente voltando para o acampamento para ficar ao lado de Ariel. A moça, rica e mimada, tinha transtornado o rapaz esquimó, simples e de bom coração. Agora, completamente dominado por Ariel, ele havia desobedecido às ordens de Ross, coisa proibida pelas leis da missão. Se ele quisesse mesmo voltar para junto

de Ariel, deveria antes ter levado Sharon, sã e salva, para junto da família do pastor Emerson. Mas, loucamente apaixonado por Ariel, o garoto esquimó só queria voltar para junto da mulher amada o mais depressa possível. Mas seria isso mesmo que acontecia com o esquimó? Ou ele pretendia sequestrar Sharon e fazer com ela alguma maldade? Sharon desconhecia totalmente o caráter de Itsawik, não sabia se ele a encarava como uma estrangeira metida e estava querendo se desfazer dela. Talvez até, pensou Sharon estremecendo, ele tivesse recebido ordens de Ariel para simular um acidente e acabar com a vida de Sharon. Sim, isso podia bem ser verdade, porque não era segredo para ninguém que Ariel detestava Sharon. A moça rica poderia fazer qualquer coisa para se livrar de uma pessoa que ela não suportasse. E que ela não suportava Sharon era evidente desde o primeiro dia em que se haviam visto!

Sharon começou a tremer, seus dentes batiam uns contra os outros. Ela não sabia se essa reação era de frio ou de medo. Tentando se acalmar, olhou para Itsawik, procurando ler em seus olhos algum sinal de agressividade. Mas o capuz impedia que ela olhasse diretamente os olhos do esquimó. Sharon começou a olhar para a paisagem, procurando ver se se lembrava do lugar por onde passavam. E, de repente, teve um novo choque: Itsawik não estava voltando para o acampamento onde Ariel se encontrava! Para onde, então, estava sendo levada? Seu coração deu um pulo no peito e batidas desencontradas lhe tiraram o fôlego. Cada vez mais nervosa, gritou para Itsawik:

Para onde está me levando? Não estamos indo para o acampamento! Volte! Quero ir para junto do pastor Emerson! Não pode fazer isso comigo, porque o dr. Ross vai ficar bravo com você! Não sabe que eu sou enfermeira dele? Falava com voz firme, tentando fazer com que o garoto lhe obedecesse.

Não grite, enfermeira. Ou podemos morrer soterrados pela neve.

Só então Sharon reparou que estavam bem ao pé de uma enorme montanha de gelo. Levantou a cabeça e estremeceu de medo: os picos gelados continham toneladas de neve que poderiam soterrar uma cidade inteira! Quanto mais um minúsculo trenó! Se a neve começasse a cair, não haveria salvação para eles. Itsawik levou o trenó cuidadosamente para uma pequena cavidade na base da montanha, parou e disse para Sharon:

Fique aqui, não se mova nem grite. Eu voltarei.

Mas aonde vai? Tenho medo de ficar sozinha! Fez a pergunta baixinho, com medo que sua voz fizesse a montanha vir abaixo. Por favor, me leve de volta a Cabo Mercy.

Itsawik voltou-lhe as costas sem responder e se afastou. Foi andando, andando, e em poucos minutos sumiu no horizonte.

Chorando de medo e de frio, Sharon tirou uma garrafa térmica do trenó e preparou um chá quente. Tomou um gole e a bebida doce a acalmou um pouco. Desceu do trenó e começou a andar um pouco, para melhorar a circulação de suas pernas, que,

com a parada forçada e o frio intenso, estavam ficando um pouco adormecidas. Foi nesse momento que se lembrou: os cães conhecem o caminho de volta! Se ela conseguisse fazer com que eles lhe obedecessem, estaria salva! Teria que convencer o líder para ser obedecida. Com cuidado, foi se aproximando. Sentiu um suor gelado descer por sua espinha quando o cão levantou a cabeça, olhou-a e depois arreganhou os dentes! Não, certamente ela não poderia tapear os cães. Eles só obedeciam às pessoas muito conhecidas e com quem estavam acostumados.

Desanimada, lembrou-se de que Itsawik pretendia voltar, senão teria levado o trenó com ele. A não ser que, com extrema maldade, a tivesse abandonado com intenção de matá-la de fome e frio, para só depois voltar para pegar os cães. Os animais estavam acostumados a passar muito tempo sem comer e não morreriam de fome como Sharon. Agora ela tinha certeza que iria morrer ali, abandonada naquela imensidão branca, tendo por túmulo um pedaço da montanha magnífica, bela e mortal! Enrolou-se na manta, fechou os olhos e adormeceu, procurando desse modo escapar do triste fim que a esperava.

Acordou com um cheiro acre que a fez dar um pulo do lugar onde estava adormecida. Olhou e viu Itsawik cozinhando um enorme pedaço de carne.

Você vai gostar da carne disse ele, com um surpreendente sorriso. Fui caçar para nós. Está contente?

A surpresa com a atitude do rapaz foi tanta que Sharon quase não teve forças para responder.

Sim, estou contente, muito contente, porque pensei que você tivesse me abandonado aqui para morrer.

Itsawik olhou para ela horrorizado com tal idéia.

Imagine! Eu nunca iria fazer isso com a enfermeira que cuida de meu povo! Só estamos aqui escondidos porque não quero que o doutor nos veja. Se ficarmos no meio da neve, com o trenó, ele vai ver a gente quando voltar para nos procurar.

Com sua inocência e simplicidade, o esquimó havia dado a Sharon uma idéia para conseguir avisar Ross quando ele viesse procurá-los. A moça ficou com os ouvidos atentos, procurando escutar o menor ruído do pequeno avião de Ross.

Ela comeu um pedaço da carne de foca, tomou café, deu um pouco para Itsawik e ficou esperando que Ross fosse procurá-la...

Foi então que Sharon ouviu o barulho do motor. O avião devia estar voando baixo, a julgar pelo som. Só podia ser o Patinho Feio, o avião do médico. Ross certamente ficara preocupado com o atraso deles. Em pouco tempo, o som do avião foi desaparecendo, perdendo-se no silêncio vazio da terra gelada. Sharon olhou seu raptor. E o que ia acontecer depois?

Vou fazer chá. Itsawik apontou a caixa de comida. Vamos esperar o doutor passar, depois vamos continuar.

Por um momento, Sharon pensou em discutir com o rapaz.

Como podia ficar segura de que ele não a deixaria largada em algum buraco de gelo? O pânico quase tomava conta novamente de Sharon quando uma onda de bom senso a dominou. Se fizesse o jogo dele, teria mais chance de sobreviver, ou mesmo escapar no momento propício.

Desceu

do

trenó

e

quase

caiu, pois não sentia as pernas. Massageou-as

vigorosamente e notou que Itsawik a observava. Porém não havia suspeita em seu

olhar.

Foi então que ouviu o som do avião se aproximar novamente. Sabia: era agora ou nunca. Não se voltou para Itsawik, não ousou ver sua reação. Simplesmente correu. O coração descompassado, os pulmões ardendo-lhe, ela não pensava. Só continuava a correr, o terror dominando-a, sem jamais olhar para trás. Sabia que enquanto ouvisse o barulho do motor, tão próximo, poderia ser facilmente localizada. E quando o ruído se tomou insuportável, Sharon conseguiu divisar o aparelho. Ele voava baixo, em sua direção. Aterrissou logo adiante e Sharon viu dois homens descerem. Estava ficando muito escuro, e antes de perder os sentidos ouviu uma voz que a chamava ao longe... foi o que conseguiu perceber.

Sharon, você está bem? O que aconteceu? Onde está Itsawik? Fez um esforço para abrir os olhos e viu Ross ajoelhado a seu lado, cheio de preocupação.

Estou bem, Ross falou com a voz rouca. Itsawik quis voltar para o acampamento Quase lhe escapou o nome de Ariel. Ele prefere ficar lá, não importa o que você tenha dito a ele.

Você andou fazendo sermão de novo, doutor? Charlie Gordon se aproximou. Mas qual é a acusação? Ingratidão par com os missionários que o educaram? Charlie riu de novo.

Ele merecia uma lição. De qualquer modo, deixei umas peça do avião lá no trenó. Onde está e!e, Sharon?

Deixei-o perto da montanha, fazendo chá. Ele não me machucou de forma alguma.

Parece que a conversa que mantive com ele deu maus resultados. Desculpe- me, Sharon.

Sharon quase desmaiou novamente. Ross pedindo-lhe desculpas Tudo bem, eu estou ótima assegurou ela com firmeza.

Boa menina. Você volta comigo. Meu Deus, Susan não me deixaria passar pela porta sem você! Gordon, quer que o esperemos?

Está duvidando de minha habilidade para trazer um garoto esquimó de volta para casa? Bem, nós nos encontraremos mais tarde, então Ross riu. Venha, Sharon.

Desta vez Sharon se sentiu bem mais à vontade no avião. Ross, de sua parte, parecia mais atencioso, menos impaciente, não a fazendo se sentir, como das outras vezes, um ainda que leve empecilho.

De repente ele deu uma risada forte, olhou-a divertido e perguntou:

O que você andou comendo? Está cheirando igualzinho a um esquimó que passou o inverno todo perdido nas montanhas cobertas de neve! Será que se embelezou para mim passando óleo de foca nos cabelos?

O

choque

tinha

deixado Sharon nervosa

e

sensível. Vendo-se alvo de

brincadeiras de mau gosto, a moça começou a chorar. Isso deixou Ross aborrecido,

mas ele nada disse. Esperou que Sharon falasse primeiro.

Eu sei que não estou nenhuma maravilha. Mas não tenho culpa do que aconteceu. Se gosta de mulher bem arrumada e cheirosa, por que foi me buscar? Devia ter ido para o acampamento e pegado Ariel. Ela, aposto, está linda, bem vestida e superperfumada.

Acho que devia mesmo. Ariel é mais bonita e tem mais senso de humor do que você, Sharon.

Isso aumentou ainda mais o choro da garota. Sharon começou a derramar lágrimas como um bebê de dois anos!

Meu Deus! Não é possível! Onde foram buscar uma mulher como você? Aqui no Ártico precisamos de pessoas fortes, não de garotinhas mimadas que choram por qualquer coisa.

Desculpe, eu não choro por qualquer

coisa...

É que fiquei muito nervosa, acho

até que estou com um pouco de febre. Desculpe, eu sou uma boba. Não devia ter ligado

quando me comparou com a sua namorada. Minha namorada? disse ele, um pouco surpreso. Ah, sim, Ariel.

Eu sei que sou feia, sem jeito, mas não sou nenhuma boba. Não mereço ser tão insultada como fui.

Que exagero! Só porque falei que você estava cheirando a foca? Sorriu e passou os lábios, devagar, nos lábios secos.

Desculpe, você tem razão, eu sou uma boba

mesmo...

disse ela, limpando os

olhos com a manga como uma criança quando não tem lenço.

Enfermeira! Se a sua chefe no hospital visse você fazer isso! Seria expulsa! A brincadeira desta vez surtiu efeito e Sharon, já mais descontraída, riu até perder o fôlego. Quando parou viu Ross olhando para ela com um olhar diferente... Estavam tão próximos que ela quase podia escutar as batidas do coração do médico. E foi nesse momento, sem que os dois percebessem exatamente quando, que uma imensa ternura e desejo tomou conta dos dois. O médico encostou a ponta dos lábios na face ainda molhada de lágrimas de Sharon, depois começou a beijá-la devagarinho,

procurando sentir todo o prazer daquela pele macia. Mas ainda era pouco para Sharon. Ela procurou os lábios dele com sua boca ávida de amor, procurou abraçá-lo, encostar seu corpo contra o dele. Mas estava com tantos agasalhos que mal conseguia abraçá-lo. E Sharon queria mais, muito mais...

O avião, desgovernado, deu um solavanco. Ainda segurando-a com um dos braços, Ross acertou o aparelho. Mas o encanto havia se quebrado. O médico se afastou dela e logo avistaram os telhados da base. Haviam chegado a Cabo Mercy. Os dois ficaram em silêncio até a aterrissagem.

Sharon notou que todos a esperavam com uma recepção calorosa.

Graças a Deus eles a encontraram a tempo. Susan correu até o avião e abraçou-a. Vamos, Ellen está preparando a comida.

Sharon não teve chance de falar com Ross, foi absorvida pela família dos Emerson e conduzida para casa. Para seu alívio, Susan mandou-a para a cama, dizendo que precisava se recuperar do susto. O senhor Emerson não pôde continuar sua conversa e às crianças a mãe prometeu que a enfermeira responderia a todas as perguntas no dia seguinte.

Como estão a menina e seu bebê, Susan? Sharon lembrou-se, apreensiva.

A mãe está ótima. E o bebê parece já ter crescido, depois que o alimentei, imagine! Fique sossegada.

Sharon já estava quase dormindo quando Ellen entrou no quarto trazendo a bandeja com comida. Não teve coragem de desapontar a menina.

Parece uma delícia, Ellen. Desse jeito vou ficar mimada!

A menina sorriu timidamente e esperou ansiosa ela começar a comer para sair do quarto na ponta dos pés. Sharon descobriu que sua fome era maior do que tinha suposto e acabou comendo tudo. Pensou então em Ross. Ele deveria estar exausto. Desde sua entrada no avião, na Groenlândia, não havia dormido uma só noite direito. Será que ele dormia na enfermaria quando estava na base? E Charlie Gordon? Será que ele e Itsawik já estavam de volta?

Foi um sono agitado pelas lembranças do dia anterior. Já se achava acordada há alguns minutos quando Susan abriu devagarinho a porta.

Dormiu bem, querida? Não tenha pressa em se levantar. Mandei Ellen ver como estão as coisas na enfermaria.

E

o...

no último instante viu que não conseguia pronunciar o nome dele e

mudou a frase. Saiu tudo bem? Sim, e Itsawik está ajudando Ross no conserto do avião. Não houve nenhum problema, então?

Que tipo de problema? perguntou Susan, apreensiva. Aconteceu alguma coisa que eu não saiba?

Sharon lembrou-se então de que Itsawik havia sido criado na missão e que seu mau comportamento iria preocupar Susan.

Não, não, é que eu não entendo ainda a língua esquimó, por isso fiquei sem saber o que os dois conversavam. Curiosidade minha, apenas falou apressadamente.

Oh, não se preocupe, querida, nós vamos lhe ensinar a falar esquimó riu Susan, já tranquila, saindo do quarto.

Sharon vestiu-se e logo foi ver se precisavam de sua ajuda na cozinha.

O chá está pronto, Sharon avisou Susan, sempre solícita. Tem feijão com bacon no forno. Vou ficar bem mais feliz quando o verão chegar e tivermos vegetais frescos para comer.

Bom dia, Sharon. Dormiu bem? Ross estava sentado num banco, tomando sua caneca de chá.

Consertou o avião? Depois do que havia acontecido no avião, Sharon sentia- se tímida diante dele.

Deixei Itsawik trabalhando com o motor. O garoto fica feliz quando pode mexer em ferramentas. Aproveitou que Susan se afastou por um segundo e lhe perguntou baixinho: Contou-lhe alguma coisa sobre o que aconteceu?

Não, Ross. Fiquei quieta quando descobri que ninguém havia lhe dito nada.

Ótimo, Sharon. Já conversei com Gordon e, se não houver mais problemas, vamos perdoar Itsawik.

Susan voltou à cozinha carregando um bolo enorme. Colocou-o na mesa e virou- se para Ross, pegando o prato com o glacê.

Como prefere a cobertura, Ross? perguntou, alegre.

Tanto faz. Você sabe que eu não gosto dessas coisas. Para espanto de Sharon, Ross ficou vermelho.

Ora, não fale assim, as crianças estão ansiosas pela festa! Susan parecia ofendida.

E a que horas começa esta festa? Lá pelas sete, E não tente escapar!

Eu prometo. E obrigado pelo chá falou em tom mais suave. Sharon, fique por aqui. Susan talvez precise de sua ajuda. Já fui ver os pacientes e eles estão passando bem.

Quer me ajudar a fazer a cobertura? Susan lhe perguntou assim que Ross

saiu.

A princípio, Sharon não sabia o que fazer com o glacê, espalhando-o com mãos incertas e trêmulas, mas foi adquirindo confiança à medida que ia trabalhando.

Desenhou folhas nos lados do bolo, de modo que este acabou se parecendo com uma coroa de louros.

Mas isso está ficando uma beleza! observou Susan, entusiasmada. Espere um pouco, acho que ainda tenho bolinhas prateadas que sobraram do bolo de casamento da Rute. Podemos escrever a sua idade com elas, o que acha? Ele deve andar pelos trinta e sete, mas se pusermos trinta e oito, vamos ganhar uma bronca. Experimente!

O bolo ficou bonito. Sharon escreveu "Feliz Aniversário", em um círculo dentro da coroa, "Ross", no meio, e bem embaixo, 38 anos". Ellen já deveria estar de volta da enfermaria para nos ajudar lembrou Susan, preocupada. Sharon ligou pelo interfone para a enfermaria, mas não houve resposta. Bem, deve ter saído por uns minutos. Ela já aparece. Sharon tentou tranquilizá-la. Tem razão. Por que não ajuda as crianças com a mesa? sugeriu Susan. Sharon trabalhou alegremente com as crianças na arrumação da mesa. Nós gostamos de você, Sharon falaram elas, acariciando-a. Garota de sorte! alguém falou da porta. Ross apareceu na sala. Instintivamente, as crianças começaram a cantar e Sharon as acompanhou, um pouco mais alto. "Parabéns a você!" Ao terminarem, Sharon observou com espanto a expressão de Ross. Ela nada tinha em comum com a do doutor Ross Clarke a quem fora apresentada. Você trabalhou bastante, não é mesmo? Meio sem jeito, quis mudar de assunto. E onde está Ellen? Não a vi entre as crianças. Você vem da enfermaria? Ellen não estava lá? perguntou Sharon, surpresa. De acordo com os esquimós, ela deixou a enfermaria há horas. Quem sabe está com Charlie?

Eu não a vi esta tarde disse Charlie, entrando na sala. Aconteceu alguma coisa? É melhor falarmos com Susan.

Em pouco tempo os dois Emerson estava na sala. A mulher tirou o avental e o entregou a Sharon.

Por favor, desligue o forno quando os pãezinhos estiverem prontos. Vamos ver onde Ellen se meteu.

Meu Deus, espero que a encontrem logo disse Ross, olhando para Sharon.

Venha, dê-me este avental e vamos cuidar dos pães para Susan. Eu a ajudo a vesti-

lo...

assim está bem. Só não consigo imaginar você como cozinheira! As crianças entraram logo em seguida na cozinha. Feche os olhos, Ross, e adivinhe o que temos na mão!

Sharon sorriu da cena. Os olhos fechados com uma das mãos, Ross tentou adivinhar o presente. Finalmente, as crianças permitiram que ele abrisse os olhos.

É lindo! Agora quero que todos assinem seus nomes, bem bonitos. Onde estão papai e mamãe? perguntaram, ansiosos.

Deram uma saidinha, mas logo estarão de volta. Que tal um jogo para passar o tempo?

Sharon admirou a habilidade com que ele contornou o assunto. Jogaram e brincaram durante algum tempo. Quando menos esperavam, a porta se abriu e Charlie entrou carregando a menina nos braços, seguido dos Emerson. Tinham a expressão cansada mas tranquila.

Vocês começaram a festa sem mim? Ellen perguntou. Charlie a colocou no divã para que Ross a examinasse.

Nada que um prato quente de sopa não possa curar falou ele, sob um suspiro geral de alívio.

Onde a encontraram? perguntou Sharon baixinho, enquanto ajudava Susan a tirar o agasalho.

Estava encolhida embaixo de um dos barcos que costumamos usar no verão e que agora estão virados para baixo. Parece que o vento a soltou da corda e ela foi parar lá, por, milagre. Deve ter batido a cabeça e perdido os sentidos. Tudo não passou de um susto, felizmente.

A festa se desenrolou alegremente, com Ellen recostada no sofá. A uma certa altura, Sharon notou que a garota já não conseguia manter os olhos abertos. Logo depois a festa foi encerrada e Ross levou a menina para o quarto. Susan o seguiu. Que Deus o abençoe, Ross!

Com as crianças quietas na cama, os adultos voltaram à sala, para uma última xícara de chá. Os Emerson mostravam no rosto traços leves de cansaço. E, não fossem suas olheiras, aparecidas tão depressa, nada sugeriria que o casal escapara de uma tragédia.

Os dias seguintes foram calmos. Sharon, duas vezes por dia, chegava à enfermaria para ver Rute, a jovem mãe, e seu bebê. Ensinava também a Marak como exercitar o ombro em recuperação. Susan ensinou-lhe algumas frases mais úteis em esquimó. Ross e Charlie trabalhavam na missão ou saíam para alguma tarefa especial. A

rotina diária se desenrolava calmamente. Sharon estava começando a ficar ansiosa. Era como se todos estivessem à espera de alguma coisa que ela desconhecia.

E quando isso aconteceu, foi tão inesperado que ela não conseguia acreditar. Era como se de repente a vida brotasse naquela terra gelada. Primeiro veio o som de água correndo pelas rochas, formando depois os riachos que desembocavam no mar. As massas de neve pareciam diminuir a cada hora. A paisagem de Cabo Mercy mudava a cada instante. As rochas escuras dos cumes das montanhas secavam ao sol, adquirindo um tom cinza-claro, e nelas cresciam musgos.

Começava-se

a ouvir os passarinhos. E uma manhã as crianças entraram

correndo em casa. Sharon, venha ver, os gansos estão chegando!

Os gansos vinham voando, formando um V com suas asas brancas, em contraste com o azul do céu. Era uma cena das mais lindas que Sharon vira.

Que bom, teremos ovos frescos para o café da manhã! exclamou Ross, que passava por ali.

Sharon o olhou espantada, sem conter uma careta. Ross riu.

Ouviu-se um ronco de avião que vinha em direção às casas. Ao se aproximar, voou mais baixo e quando passou exatamente em cima dos telhados, deixou cair um pacote branco.

Oba! Oba! As cartas chegaram gritaram as crianças. Está esperando alguma em especial? Ross olhou para ela, Não creio. Eu não tenho família na Inglaterra. Nem namorados? provocou-a Ross.

Sharon sacudiu a cabeça novamente. A Inglaterra e St. Mary pareciam tão distantes agora! O pessoal estava todo reunido, separando as cartas. Susan trouxe um pacote delas, amarradas com um barbante, endereçadas a Sharon.

Olhe só quanta carta, Sharon!

Os dedos de Sharon tremiam nervosamente ao desfazer o nó, o que fez com que as cartas fossem parar todas no chão. Ross ajudou a juntá-las, virando os envelopes com uma curiosidade inconsciente. Alistair Gaskell era o nome do remetente, em letras grandes.

Pensei que você não tinha namorados, Sharon. Já não havia mais provocação em seu tom de voz, mas seu modo foi brusco ao devolver as cartas. Virou- se, andando em direção à enfermaria.

CAPÍTULO VIII

Sharon agarrou as cartas que Ross colocara tão rudemente em suas mãos. Por que ele teria agido daquela forma? Simplesmente, não fazia sentido. As crianças também ficaram surpresas. Depois de um momento, Ellen correu atrás dele.

Ross, espere! Você não pegou as suas!

Sharon voltou com as crianças para a missão. Seu entusiasmo por receber as cartas da Inglaterra acabou sendo um tanto ofuscado pelo comportamento inexplicável de Ross. Sentindo-se como que exposta, ali ao lado dos Emerson, pensou em pôr as cartas de lado e lê-las numa outra hora. Eles, porém, estavam entretidos demais com sua própria correspondência para prestar alguma atenção à dela.

Colocou então as cartas por ordem de data e escolheu a mais antiga. Percebeu que resistia estranhamente à idéia de restabelecer contato com o St. Mary. Logo na primeira linha, notou que Alístair havia escrito em forma de diário. Em poucos momentos ela estava de volta ao hospital. Como tudo parecia remoto! Era como se tentasse imaginar a rotina de uma enfermaria num país onde jamais estivera! Compreendeu então o quanto sua existência lá tinha sido limitada, sempre fazendo as mesmas coisas, dia após dia. No St. Mary ela jamais havia visto gansos voando contra um céu de primavera. Nunca precisara transportar um caso de maternidade em um trenó. Sentiu pena de si mesma, da garota que fora naquela época. Aquilo tudo lhe parecia tão distante agora! Sabia: o St. Mary era um capítulo encerrado em sua vida.

Pegou as outras cartas, de várias enfermeiras que tinham sido suas amigas no hospital Todas elas pareciam ter pena da colega perdida no frio do norte. Como sabiam pouco!

Olhou à sua volta. Susan esfregava os olhos e riu quando percebeu o olhar de Sharon.

É sempre assim quando recebemos cartas. Até que elas cheguem não percebemos o quanto estamos distantes do resto do mundo. Ellen, ponha a chaleira no fogo. Que tal um chá, querida? Olhou em redor. Ross não estava com você?

Foi até a enfermaria disse Sharon, corando.

Só queria saber se ele vai ao acampamento. Estou precisando de uns mantimentos e quem sabe eles podem me ajudar. Houve tempo em que a única solução era esperar o navio chegar e, é claro, economizar. A voz da filha chamou-a da cozinha. Já vou indo, Ellen. Sharon, trago o chá em alguns minutos.

Sharon ainda estava lendo suas cartas quando Susan voltou com a bandeja.

Ross ainda não veio? É melhor chamá-lo pelo interfone. Por favor, Sharon, faça isto, sim?

Sharon sentiu um calafrio, desejando que ela tivesse pedido para outra pessoa. Pegou timidamente o fone e ficou surpresa ao se perceber torcendo para não haver resposta.

Ross Clarke; o que deseja? a voz dele soou clara.

O chá está pronto, Susan pediu para lhe avisar falou, insegura.

Ah...

é você. É melhor dizer que posso me atrasar. A voz se alterou, de um

jeito que Sharon não conseguia definir. Eu posso ajudar? interveio ela.

Não. São coissa que preciso fazer há muito tempo. Tchau. Desligou antes que Sharon pudesse fazer qualquer coisa.

Ross disse que vai se atrasar, Susan.

Bem, parece que ele não vai ao acampamento hoje. Aqui está seu chá, querida. Virou-se para Charlie, que havia entrado na sala uns minutos antes. Tem algum negócio na vila? Podíamos ir em dois trenós e levar as crianças a dar um passeio, o que acha?

O caminho deve estar bastante molhado. Se você não se importar em molhar os pés, creio que podemos ir. Vai levar Sharon? falou casualmente, pegando sua caneca de chá.

Pode ser, depende de Ross. Acha que ele dará alta a Rute e o bebê até amanhã, Sharon?

Posso perguntar a ele Sharon pareceu indecisa , mas você sabe como ele

é.

 

Houve um pequeno silêncio antes de Charlie se levantar e se dirigir à porta. Bem, vou indo. Avise-me sobre a viagem, Susan. De minha parte, está tudo

certo.

Sharon acordou com o barulho das crianças, entusiasmadas com os preparativos para a viagem. Lembrou-se da resposta de Ross sobre Rute.

Ela é sua paciente. Se você achar que ela pode fazer a viagem, por mim está tudo bem. O bebê está ganhando peso, você disse. Eu não estarei aqui, de qualquer modo.

Não houve mais nada, nenhuma instrução, nenhuma ordem. Imaginou que ele estava indo para o acampamento, pela conversa dele com Susan.

Sharon, mamãe disse que hoje deve esquentar. Ellen entrou no quarto. Você vai vestir sua roupa de esqui? Ela é tão bonita! Posso ajudar Rute a se preparar para partir? Por favor, diga que sim!

Faça isso, que eu preparo mais uma mamadeira para ela levar disse Sharon, com um sorriso.

Saiu da cama animada. Como era bom poder vestir algo mais leve! Vestiu as calças vermelhas de esqui. Estavam um pouco justas. O motivo devia ser toda aquela comida que Susan lhe preparava. A camisa azul-marinho contrastava com o rosto corado e o brilho de seus olhos verdes. Olhou-se ao espelho. Sentia-se bonita e feliz; com a jovialidade de uma garotinha, pegou o casaco e saiu do quarto, pronta para a viagem.

Olhou pela janela para o hangar onde ficava normalmente o Patinho Feio. Ele não estava lá. Quando teria partido Ross? Mas não havia tempo de sonhar acordada. Eles já estavam prontos. Rute e o bebê encontravam-se em um dos trenós que Ellen dirigia orgulhosa. Itsawik também se achava lá e Sharon o olhou, constrangida. Seu olhar, porém, era tranquilo, o que a fez concluir que o pesadelo daquela viagem havia sido esquecido. Charlie Gordon trazia o outro trenó e, em segundos, as crianças instalavam- se nele.

Parece que não sobrou lugar para nós, Sharon comentou Susan. Vamos pela costa. O caminho é mais longo porém é mais agradável. E o gelo não está tão duro.

Caminhavam entre pedaços de gelo e montes de neve semiderretida, às vezes passando por poças de água lamacenta. Sharon logo sentiu o calor do sol de primavera e tirou o casaco, arregaçando as mangas para expor seus braços brancos ao sol. Os gritos alegres das crianças de vez em quando eram abafados por bandos de passarinhos que voavam do topo das rochas ao notarem a aproximação dos trenós. Os cães ficavam agitados nesses momentos, e latiam sem parar. A mistura desses sons, para Sharon, complementava a sensação de alegria trazida pela nova estação.

A certa altura, Charlie chamou sua atenção para as focas, espalhadas ao sol numa grande rocha próxima à praia. Havia centenas delas. O alvoroço foi geral e os gritos das crianças se juntaram aos latidos dos cães inquietos que dispararam em sua direção. Isso as afugentou e elas voltaram para a água. Charlie e Itsawik tentavam conter os cachorros.

A vila agora não estava longe. Ao chegarem, Sharon notou o entusiasmo dos esquimós ao verem Rute e o bebê entre os visitantes. Só então, passado o tumulto, ela reparou que o povoado havia se deslocado para perto do mar. As cabanas encontravam- se bem mais limpas.

Às vezes eles se mudam para um lugar diferente. Vão caçar focas no verão e, mais tarde, chegarão as baleias explicou Susan.

Quer dizer que eles também comem baleias? perguntou Sharon, espantada.

Há carne para toda a vila em uma única baleia riu Susan. Ellen, leve os meninos até a praia.

Os pequenos saíram correndo na direção do mar. Depois de um ou dois minutos, as crianças esquimós as seguiram, a uma certa distância, ainda tímidas.

Sharon se sentiu mais à vontade nessa visita e experimentou algumas frases em esquimó, que o pessoal da vila recebeu com alegria e admiração. O tempo passou rápido e logo Charlie estava sugerindo que voltassem à missão.

Não confio nesse gelo que está derretendo. Vou reunir os cães. Chamem as crianças disse ele.

Ao partir, Sharon sentiu que se despedia de amigos. Já não eram estranhos, como da primeira vez. Os esquimós já não pareciam todos iguais e era bem mais fácil distingui-los sem as peles pesadas.

A viagem de volta pareceu mais longa e calma. A certa altura, o que na vinda tinha sido um pedaço de gelo, dentro de uma gargan