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Centro Universitário Barão de Mauá Renato José Paschoini Presos Políticos de São Sebastião do Paraíso

Centro Universitário Barão de Mauá

Renato José Paschoini

Presos Políticos de São Sebastião do Paraíso em 1964

Ribeirão Preto

2009

Renato José Paschoini

Presos Políticos de São Sebastião do Paraíso em 1964

Monografia apresentada como Trabalho de Conclusão de curso de Especialização em História, cultura e sociedade do Centro Universitário Barão de Mauá

Renato José Paschoini

Presos Políticos de São Sebastião do Paraíso em 1964

Dra. Nainora de Freitas - Orientadora.

Monografia apresentada como trabalho de conclusão de curso na Especialização em História, cultura e sociedade do Centro Universitário Barão de Mauá

Ribeirão Preto

2009

PASCHOINI, Renato, José.

Presos Políticos de São Sebastião do Paraíso em 1964. Renato José Paschoini. 2009, 39f.

Monografia (especialização)—

Centro universitário Barão de Mauá, Ribeirão Preto,

2009.

1. Política 2. Presos políticos

Dedicatória

A Prof. Dra. Nainora de Freitas que em sua disponibilidade salvadora, ao Prof. Ms. Carlo Monti em seu dinamismo, praticidade e competência, ao meu pai Walter Paschoini, mestre de minha vida e a todos familiares e vitimas desse período vergonhoso da história do nosso país.

Agradecimentos

Agradeço primeiramente a minha família, que sempre esteve presente em todas as fases de minha vida, a minha linda esposa companheira de meus dramas e alegrias, a prof a . Nainora de Freitas pela prontidão, ao prof. Carlo Monti, pelo cuidado, agradecimentos especiais ao Sr. Guerino Paschoini e Sra. Antonieta campos pela atenção e confiança que tornaram esse trabalho realidade.

Sumário

Introdução

9.

Capitulo I - Golpe de 1964

14.

Capitulo II - Perseguições aos inimigos da pátria

22.

Capitulo III -Prisões no Paraíso

26.

Referencias bibliográficas

39.

Resumo

O presente trabalho intenciona contribuir para construção de um levantamento histórico da perseguição política acontecida em São Sebastião do Paraíso, cidade localizada no sudoeste de Minas Gerais, como resultado do golpe militar de 1964, dando voz aos personagens, vítimas desse processo pouco conhecido da população dessa cidade. Objetivando analisar a existência real de organizações de esquerda e/ ou subversivas e quais os verdadeiros motivos que levaram à intervenção das forças de segurança nacionais no processo político dessa cidade no pós-golpe lançando mão de prisões de cidadãos comuns da referida cidade. Palavras Chave: Política, Presos Políticos.

Abstract

This paper intends to contribute to the construction of a historical survey of political persecution which took place in São Sebastião do Paraiso, located in the southwestern town of Minas Gerais, as a result of the military coup of 1964, giving voice to the characters, victims of this almost unknown process of the population of this town. Aiming to analyze the real existance of organizations of the left and/or subversive, and what the real reasons were that led to the intervention of security forces in the national political process of that town´s post-coup, arresting ordinary citizens of that town. Keywords: Politics, Political Prisoners.

Introdução

A intenção desse trabalho é contribuir para construção de um levantamento histórico da perseguição política acontecida em São Sebastião do Paraíso, cidade localizada no sudoeste de Minas Gerais, como resultado do golpe militar de 1964, dando voz aos personagens, vítimas desse processo pouco conhecido da população dessa cidade. Assim o propósito de trabalhar com as repressões políticas ocorridas nessa cidade, faz-se pertinente à medida que observamos a inexistência de registros históricos do episódio, relegando a grande parcela da população ao desconhecimento deste. Portanto o pretenso resultado da pesquisa é o de contribuir para a construção de um levantamento histórico da perseguição política ocorrida a cidadãos comuns e de vida pública de relevante destaque em uma sociedade de pacata tradição em relação aos processos políticos. A maior parte dos levantamentos historiográficos atem-se às prisões e perseguições executadas nos grandes centros e capitais, relegando quase ao esquecimento as repressões ocorridas em localidades menores. Tendo consciência da dificuldade em abordar um tema tão contemporâneo em que as questões herdadas desse período ainda estão muito vivas, com muitos personagens históricos ainda atuantes na sociedade, considerando assim, que a memória dos grupos e indivíduos que passaram por aquelas experiências ainda está muito viva. Com isso o objetivo da pesquisa é analisar a existência real de organizações de esquerda tais como: partidos políticos; sindicatos; associações de moradores dentre outras, e/ou subversiva e, quais os verdadeiros motivos que levaram à intervenção das forças de segurança nacional no processo político de São Sebastião do Paraíso no pós-golpe de 1964, lançando mão de prisões de cidadãos comuns da referida cidade. O desenvolvimento dessa pesquisa estabelece uma ligação íntima com investigação da memória de um grupo de indivíduos de uma determinada localidade e que vivenciaram experiências semelhantes cuja narrativa de suas

experiências consagra-os como sujeitos históricos ao recordarem aspectos do passado. Ultimamente os historiadores têm se utilizado expressivamente de determinados procedimentos de pesquisa tais como entrevistas relatos autobiográficos, depoimentos pessoais, histórias de vida, que antes eram lhes, de certa maneira, vedados. “Essas técnicas de pesquisa até os anos 1970 eram recursos específicos de antropólogos em seus trabalhos de campo”. 1 Assim, essas técnicas têm contribuído, de forma bastante considerável para historiadores, sociólogos, antropólogos, cientistas políticos e outros pesquisadores criando um campo interdisciplinar. “Um campo fecundo que busca compreender o homem em sua dimensão social e histórica a partir de seu relato vivo, sua memória e sua oralidade.” 2 O uso da História Oral tem se firmado, cada vez mais, como uma metodologia, que recupera fatos cujas fontes escritas e/ou documentais não

estão disponíveis por serem ainda recentes “[

legais para a abertura de arquivos, revelando assim uma parte inestimável da

história recente que, sem o uso dessa metodologia permaneceria obscura

há que ser respeitar os prazos

]

[

A história oral é uma metodologia de pesquisa que consiste em realizar entrevistas gravadas com pessoas que podem testemunhar sobre acontecimentos, conjunturas, instituições, modos de vida ou outros aspectos da história contemporânea, promovendo juntamente com uma nova concepção de história, uma clara interpretação ‘de que todos, cidadãos comuns, somos parte do mesmo processo’. As entrevistas de história oral são tomadas como fontes para a compreensão do passado, ao lado de documentos escritos, imagens e outros tipos de registro.

]”

3 .

1 ARAÚJO, Maria Paula Nascimento. Por uma história da esquerda Brasileira. Topoi, Rio de Janeiro, dezembro 2002, p.342

2

Idem.

3 A História Oral. Disponível em: http://www.cpdoc.fgv.br/comum/htm/ . Acesso em 06 de maio de 2008.

Por partir de um tema específico e preestabelecido, a história oral se compromete com a elucidação ou opinião do entrevistador sobre algum fato definido.

A objetividade [da história oral] é direta [

uma versão dos fatos que busca a ‘verdade’ de quem presenciou

um acontecimento ou que pelo menos dele tenha alguma versão que seja discutível ou contestatória. 4

é narrativa direta de

]

Importante salientar o conceito de verdade é um elemento externo, o entrevistador pode e deve apresentar outras opiniões contrarias e discuti-las com o narrador, com a intenção de esclarecer uma versão que pode ser contestada. Maria Paula Araújo considera que, assim como se superou a barreira em relação às fontes orais, os historiadores superaram também uma outra barreira nos últimos anos: a da contemporaneidade. Para ela a história do tempo presente evidencia o historiador comprometido com seu tempo, e empenhado com as questões do seu tempo.

O historiador chega a “retalhos” de verdade, pedaços parciais. Mas

a busca por esta verdade — que ele sabe que, de certa forma,

nunca será atingida — é o que o move e o faz estar atento a qualquer forma de manipulação da narrativa histórica. Não apenas do passado, mas também do presente. A motivação inicial da história do tempo presente (que, em muitos aspectos, também se verificou em relação à história oral) foi a necessidade de resgatar para a História algumas experiências ainda recentes, extremamente importantes, mas com pouca documentação disponível. Urgia criar e organizar a documentação referente a estas experiências, que necessariamente não passariam por

registros oficiais.

5

No Brasil e, na América Latina de forma geral, o estudo das ditaduras militares implantadas pelo continente nas décadas de 1960 e 1970 no continente tem sido um dos grandes temas da história do tempo presente na segunda metade do século XX: a experiência das esquerdas e das lutas populares de resistência; as diversas formas de repressão política; os processos de redemocratização e as diferentes experiências de reconstrução da institucionalidade democrática nestes países.

4 MEIHY, José C.B. Manual de história oral. São Paulo: Edições Loyola, 1996. p. 41 5 ARAÚJO, Maria Paula Nascimento. Por uma história da esquerda Brasileira. Topoi, Rio de Janeiro, dezembro 2002, p. 345.

Levando em conta análises no processo historiográfico contemporâneo, consideramos que esta pesquisa se remete ao campo da Nova História Política na medida em que pretende investigar a atuação política de pessoas comuns de São Sebastião do Paraíso, cidade localizada no sudoeste mineiro, e, sua possível organização em torno de uma corrente ideológica de esquerda ou contestadora ao regime militar que se instaurou no Brasil a partir do ano de 1964. Consideramos ainda, que a pesquisa insere-se no campo da História

Social como afirma Rémond “[

a renovação da história política foi

gradativamente estimulada pelo contato com outras ciências, pelas trocas com

outras disciplinas [

por analisar o perfil desses homens comuns envolvidos

nesse processo repressor, enquadrados como ameaça a segurança nacional. 6

O desenvolvimento da pesquisa está diretamente ligado à investigação

da memória de um grupo de indivíduos de uma determinada localidade que tiveram experiências semelhantes e podendo citar Michael Pollak a “[ ] memória esteve e está, portanto revestida de importância fundamental na construção da identidade social, tanto dos grupos sociais quanto dos sujeitos históricos, daqueles que, ao narrarem, recordam aspectos do passado.” 7 Fábio Pacano acredita que os indivíduos “lembram, mas estas lembranças devem ser entendidas no interior de ‘quadros sociais da memória’

que são também ativamente construídos pelos indivíduos.” 8 Segundo Michael Pollak o trabalho de enquadramento da memória se alimenta do material fornecido pela história. Pretendemos trabalhar também com depoimentos desses presos

políticos, visto que a quantidade de documentos sobre o tema da pesquisa é relativamente restrita. No âmbito municipal não existe nenhum registro oficial das prisões, a não ser registros pessoais dos envolvidos.

O pretenso resultado é a intersecção das fontes orais e escritas, na

tentativa de construir um parâmetro de analise que possa ajudar a elucidar fatos pouco conhecidos dessa cidade.

]

]”,

6 RÉMOND, René. Por uma história política/ [Direção de] René Résmond: tradução Dora Rocha.- 2.ed.- Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003. p 29. 7 Pollak Michael. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 2, n. 3, 1989, p. 3-15. Disponível em:

http://www.cpdoc.fgv.br/comum/htm/ .Acesso em 06 de maio de 2008.

PACANO, Fabio. História, memória e identidade. In Dialogus, Ribeirão Preto, v.1, n.1. p.41- 50, 2005. p.44.

8

O capitulo um apresenta uma discussão bibliográfica e metológica do

Golpe Militar instaurado em 1º de abril de 1964, considerando as motivações e

perspectivas da queda do então presidente João Goulart, resultando em uma ditadura militar de vinte e um anos. Baseando-nos em bibliografia especializada, artigos referentes ao tema, periódicos, jornais, analisando em primeira instância o contexto histórico mais amplo situando os vínculos e relações do documento e seus produtores com seu tempo e espaço.

O capitulo dois apresenta considerações a cerca das perseguições

políticas deflagradas pelo golpe militar em nome da restauração da ordem a nível nacional. Considerando que a maioria das investigações historiográficas restringem-se às prisões e perseguições ocorridas nos grandes centros e capitais, relegando quase ao esquecimento as repressões ocorridas em localidades menores.

O capitulo três traz considerações das perseguições e prisões políticas

na esfera do município de São Sebastião do Paraíso, analisando as motivações e apresentando os personagens vitimas desse processo. Para isso contamos com depoimentos de presos políticos de São Sebastião do Paraíso como fonte essencial, visto que, a quantidade de documentos sobre esse episódio é relativamente pequena. No âmbito municipal não existe nenhum registro oficial dessas prisões. Os documentos existentes são registros pessoais dos envolvidos, tais como processo judicial de dois presos, processo de indenização, evidenciando assim uma lacuna historiográfica desse episódio o que reforça a importância da tomada desses depoimentos.

Capitulo I O Golpe de 1964

O presente trabalho pretende investigar na cidade de São Sebastião do Paraíso a existência de uma possível articulação política organizada e/ou institucionalizada de esquerda personificada em partidos, sindicatos ou associações que justificasse as prisões políticas ocorridas em 1964. Vários estudos sobre a ditadura militar do Brasil têm sido realizados.

Carlos Fico, em seu artigo: “Versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar”, atribui esse crescimento de interesse ao tema, o fato de que ‘velhos mitos e estereótipos' estão sendo superados graças a um desprendimento político dos pesquisadores que o distanciamento histórico possibilita. Segundo ele esses fatores são fundamentais para a desconstrução de clichês sobre o golpe de 1964, os militares e o regime. Também vão sendo abandonadas convicções: “como a idéia de que só após 1968 houve tortura e censura; a suposição de que os oficiais-generais não tinham responsabilidade pela tortura ”

e o assassinato político

Assim podemos observar que está se constituindo uma nova fase da produção histórica sobre o período. Fico afirma ainda que “é crescente o interesse de jovens historiadores e de estudantes de cursos de graduação em história pelos temas do período 1964-1985”. 10 A produção histórica que marca a nova fase de estudos sobre a ditadura militar possui suas particularidades. Boa parte dela foi influenciada pelo

contexto da chegada da "Nova História" ao país, ou, dizendo melhor, não viria

a ser uma produção fortemente influenciada pelo marxismo ou pela segunda fase dos Annales.

dentre outras. 9

no campo dos estudos especificamente históricos, a crítica ao

marxismo não se fixou na contraposição entre as hipóteses (teóricas) da determinação das estruturas econômico-sociais e a da autonomia do sistema político, mas na valorização do indivíduo e de sua subjetividade em oposição às leituras "tradicionais" de

[ ]

9 FICO, Carlos. Versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar. Rev. Brasileira de

História. São Paulo, v. 24, n. 47, 10 Idem.

2004.

cunho estrutural. Assim, abandonando explicações fundadas em conceitos como os de "classe social", "modo de produção", "estrutura econômica" ou "estrutura social", os historiadores do que se convencionou chamar de "Nova História" buscaram uma estratégia cognitiva que enfatizasse o indivíduo, seu cotidiano, suas emoções, sua "mentalidade", sua "trajetória de vida" etc., opções que, obviamente, não incidiram apenas sobre os estudos relativos à ditadura militar, mas sobre todo o escopo de estudos históricos aqui e alhures. 11

Nesse sentido há também um novo foco para atuação da Nova História Política. Ângela de Castro Gomes argumenta em seu texto: “Política: história, ciência, cultura etc.”, que a revitalização dos estudos de história política, apresenta relações profundas com as mudanças de orientações teóricas que atingiram as ciências sociais de forma geral. Segundo ela inúmeros autores situam essa revitalização como uma crise dos paradigmas estruturalistas então vigentes: o marxista, o funcionalista e também o de uma vertente da escola dos Annales. 12 Atualmente podemos perceber a delicada linha que separa os diversos campos da História. Rafael Sêga explana que na contemporaneidade, muitos historiadores voltaram seus focos de análise para a narrativa das vidas privadas, do cotidiano das pessoas comuns e dos acontecimentos diários. A chamada Nova História Cultural é considerada uma renovação teórico- metodológica para a História Política, fruto direto da École dês Annales e da Nouvelle Histoire influenciada pelo estudo do universo simbólico procurando ao estudar o poder, resgatar a ação política humana no tempo e os sentimentos, emoções, formas de pensar. 13 A História Política, após um período de considerável abandono, revive hoje uma importante fase de recuperação de sua produção. Não apenas clássicos de outras épocas estão sendo revisitados, como também uma

11 Idem.

12 GOMES, Ângela de Castro. Politica: história, ciência, cultura etc. Texto escrito para prova de aula no concurso público para professor titular de história do Brasil da Universidade Federal Fluminense, realizado em 14 de dezembro de 1995.

13 SÊGA, Rafael. História: Questões e Debates, Curitiba: Editora UFPR, n.37, p. 183-195,

2002 pp.191-192. 2002.

geração de novos trabalhos no campo da Nova História Cultural tem surgido como resultado desse movimento. 14 René Rémond considera que a história política experimenta uma espantosa ‘volta da fortuna’. Para ele o político agora não constitui um setor segregado, é uma modalidade da prática social, trabalhando na duração, apoderando-se dos acontecimentos mais plenos, procurando nas memórias coletivas entender os comportamentos. Considera ainda que nos anos 1970 e 1980 começam novos modelos teóricos e um ressurgimento do estudo do político, uma Nova História Política capaz de interagir, interdisciplinar - se com outras ciências, seja humanas ou exatas: Antropologia, Sociologia, Álgebra e outras. A Nova História Política vislumbra um campo de ação ilimitado onde a sociedade e a população passaram a ser os atores principais, descobrindo assim a regionalidade dos modelos políticos. Assim a História Política descreve ao longo dos seus processos uma verdadeira revolução. 15 O cenário do golpe militar de 1964 16 começou a ser construído efetivamente com a renúncia de Jânio Quadros à Presidência da República em 1961. Com essa renúncia o direito a assumir ao cargo era de João Goulart, vice-presidente eleito pelo voto direto da população. Ocorreu a partir de então uma série de manobras e articulações na tentativa de impedir que João Goulart assumisse o cargo que lhe cabia por direito. Existiram também movimentos favoráveis a posse de João Goulart, os chamados ‘movimentos legalistas’, como podemos mencionar a manobra de Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, ao discursar em cadeia de rádio a favor da posse. Fica evidente o clima de tensão e articulações que permearam esse momento. João Goulart assumiu a presidência sob o sistema parlamentarista. O parlamentarismo surgiria neste contexto como uma ‘solução’ diante do impasse de posições antagônicas favoráveis e contrárias a posse de Goulart. O governo parlamentar de durou até 1963, quando um plebiscito popular optou pelo

14 GOUVÊA, Maria de Fátima Silva. A história política no campo da história cultural. Autor:

Maria de Fátima Silva Gouvêa. Revista de História Regional Vol. 3, nº 1. Fonte: [pg] Universidade Estadual de Ponta Grossa - Domínio Publico. p. 25/26.

15 REMOND, René (org.). Por uma História Política. [Direção de] René Remond; tradução de Dora Rocha. – 2.ed- Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003. p 24-29.

Alguns autores trabalham com uma abordagem anterior, 1954, suicídio de Getulio Vargas.

16

presidencialismo, possibilitando assim, que João Goulart assumisse seu mandato. A experiência parlamentarista contou com três primeiros-ministros e poucas realizações. O período presidencialista de Goulart foi marcado pela instabilidade política e pela crise econômica. Goulart herda um quadro inflacionário em crescimento desde o governo de Juscelino Kubitschek que apresentou aumento de 13% em 1955 para 31% em 1960, assim a inflação quase triplicou durante os anos de rápido crescimento do Plano de Metas. No Governo de Goulart a situação foi agravando-se, pois, 1961 o índice inflacionário passou a 35%, saltando para 52% em 1962 e 83% em 1963. Segundo Rodrigo Patto Sá Mota o agravamento da inflação e da inevitável desvalorização monetária era consequência de desequilíbrios econômicos gerados em governos anteriores, como o crescimento do déficit nas contas publicas provocadas pela intensificação de obras e megaprojetos. Para ele um dos fatores que ajudaram a intensificar as dificuldades econômicas enfrentadas por Goulart foi a retração de investidores estrangeiros “por temer os pendores esquerdistas do governo”. 17 Uma das soluções para a tão instável economia brasileira foi a elaboração do Plano Trienal, concebido por Celso Furtado e previsto para ser implantado em 1963. O plano pretendia equacionar a economia brasileira, tentando simultaneamente, reduzir a inflação, aumentar o crescimento e ajudar as contas externas. Para tanto, o ambicioso plano desvalorizou a moeda, cortou subsídios estatais às importações e planejou uma reforma fiscal, previa ainda a contenção dos salários dos funcionários públicos e dependia do apoio do governo dos Estados Unidos para a obtenção de crédito externo. Mas o governo dos Estados Unidos via com desconfiança e desagrado a inclinação nacionalista de Goulart e assustava-se com o aumento da influencia da esquerda sobre o presidente brasileiro. Assim no contexto da guerra fria as “autoridades estadunidenses começaram a criar embaraços aos interesses

17 MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Jango e o golpe de 1964 na caricatura. –Rio de Janeiro: Jorge Azhar ED. 2006, p. 95.

econômicos da Brasil. O que dificultava a obtenção de créditos para honrar compromissos internacionais”. 18 Sobre o Plano Trienal, Motta considera que “pressões da esquerda contra os aspectos impopulares das medidas e as negociações com os Estados Unidos levaram o governo a abandonar o plano”. 19

O cenário político do governo Goulart era igualmente grave. Seu

ministério passou por várias reformas, PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) e PSD (Partido Social Democrático), partidos que deveriam ser a base governista no Congresso estavam seriamente divididos e a UDN (União Democrática Nacional) avolumava-se na oposição. Em relação às Forças Armadas viu-se o crescimento das insatisfações dos escalões mais baixos da hierarquia militar que acabaram se refletido em revoltas, como a revolta dos Sargentos em setembro de 1963 e a revoltas dos Marinheiros e Fuzileiros Navais em março de 1964 Esse mês, entretanto, foi repleto de acontecimentos e ações radicais. Daniel de Mendonça em sua tese de doutorado: “Democracia sem democratas: uma analise da crise política no governo de João Goulart”, explana que pelo lado da esquerda a realização do comício da Central do Brasil no dia 13 de março, foi marcada por um momento importante de apoio a Goulart e a Reformas de Base. Já pelo lado da direita a Marcha da Família com Deus pela Liberdade serviu para atestar que o governo de Goulart não era uma unanimidade. 20

O processo de democratização política e social, com crescente

mobilização popular pelas reformas de base, propostas por João Goulart, foi

interrompido pelo golpe militar de 1964. Daniel Ararão explana que se constituiu, para derrubar o governo de João Goulart, uma ampla frente, com ‘denominadores comuns muito genéricos’, setores militares e civis visando:

“salvar o país da subversão e do comunismo, da corrupção e do populismo” e restabelecer a democracia. 21

18 Idem p. 96.
19

20 MENDONÇA, Daniel de. Democracia sem democratas: uma análise da crise política no governo João Goulart ( 1961-1964). Disponível em http://hdl.handle.net/10183/5802000520805. Acesso em 15/10/2008, p. 3 21 AARÃO, Daniel, R. F. Ditadura militar: esquerdas e sociedade no Brasil. Disponível em:

http://www.lainsignia.org/2001/marzo/dial_001.htm. Acesso em 10 de maio de 2008.

Idem p. 93.

René Dreifuss propõe uma abordagem sobre o golpe militar de 1964 como a estratégia bem sucedida da desestabilização do regime populista de João Goulart pela ação de uma elite orgânica – formada por empresários e tecnoempresários, intelectuais e militares, representantes de interesses financeiros multinacionais e associados, cujos objetivos seriam, entre outros, restringir

a organização das classes trabalhadoras; consolidar o crescimento econômico num modelo de capitalismo tardio, dependente, com alto grau de concentração industrial integrado ao sistema bancário e promover o desenvolvimento de interesses multinacionais e associados na formação de um regime

tecnoempresarial, protegido e apoiado pelas Forças Armadas.

[

]

22

Caio Navarro de Toledo considera que durante o curto governo João Goulart, uma série de instancias como a já citada intensa crise econômico- financeira, constantes crises político-institucionais, crise do sistema partidário, ampla mobilização política das classes populares, complacência em relação à insubordinação de cabos e marinheiros no Rio de Janeiro por parte do governo contribuíram para a efetivação o golpe. Ao anistiar os revoltosos cabos da marinha, Goulart afrontou o ministro da Marinha que, dias antes, tinha punido-os provocando, assim, a indignação de toda a corporação militar. O ‘panfletário’ discurso do Presidente numa assembléia de marinheiros, no Automóvel Clube do Brasil, na noite de 30 de março. Transmitido pela televisão, diante de um auditório repleto de soldados, sindicalistas e políticos nacionalistas, Goulart denunciou as forças reacionárias e golpistas. Com veemência defendeu - para a redenção do país - a necessidade de um ‘golpe das reformas’. Sobre os dois últimos episódios citados Toledo considera ainda

Depois desses dois episódios, a sorte do governo Goulart estava definitivamente selada. Poucas horas após a transmissão de seu discurso, tropas comandadas por oficiais golpistas de Minas puseram o pé na estrada. Trocas de telefonemas entre oficiais foram suficientes para neutralizar o chamado "dispositivo militar" de Goulart. 23

22 BENEVIDES, M,V, M. 64, um golpe de classe? (sobre um livro de René Dreifuss) Maria Victória de Mesquita Benevides. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ln/n58/a12n58.pdf. Acesso em 10 de maio de 2008.

23 TOLEDO, Caio Navarro de. 1964: O golpe contra as reformas e a democracia. Revista Brasileira de História. v.24 n.47- São Paulo-2004.

Para Gláucio Soares a quebra da hierarquia militar foi a principal questão da alta oficialidade na conjuntura política. A partir dessa preocupação, as Forças Armadas orientaram-se para o golpe de Estado. 24 A esse cenário de instabilidade interna deve-se somar ao contexto político-economico internacional da guerra fria. O Brasil era considerado território de influencia estadunidense e a forte presença de empresas desse país evidenciava a relações econômicas entre os dois países. Entretanto com o sucesso de Revolução Cubana em 1959, a experiência socialista na América latina tornou-se uma ameaça para a influencia estadunidense no continente como um todo. A política externa dos Estados Unidos estava orientada para impedir a ocorrência de conflitos e revoltas sociais que implicassem qualquer mudança na ordem interna dos países sob sua influência. Segundo Marcos

Napolitano “

uma operação militar, em caso de resistência – a operação Brother Sam”. 25 Para os Estados Unidos o golpe militar que havia triunfado em 1964 pressupunha o reforço dos elos do capitalismo brasileiro com o capitalismo internacional. Com isso “em junho de 1964, demonstrando boa vontade do governo estadunidense com o novo governo brasileiro, a divida externa foi

reescalonada”. 26 Após o golpe que culminou no exílio do presidente João Goulart, estabeleceu uma espécie de disputa surda entre lideranças e dispositivos alternativos. Rapidamente o poder efetivo passou para uma Junta Militar, reunindo chefes militares das três Armas, ‘o autodenominado Comando Supremo da Revolução’. Segundo Hobsbawm as Forças Armadas tomaram o poder contra um

os herdeiros do grande líder populista

inimigo bastante semelhante: “[

brasileiro Getulio Vargas que se deslocaram para a esquerda no início da

o golpe também foi apoiado pelos Estados Unidos

prepararam

]

24 SOARES, G. D. O golpe de 64. In: SOARES, G. D. (org). 21 anos de regime militar, balanços e perspectivas. Rio de Janeiro: FGV, 1994.

25

NAPOLITANO, Marcos. O regime militar brasileiro: 1964-1985 / Marcos Napolitano:

coordenação Maria Helena Capelato. Maria Ligia Prado. São Paulo: Atual, 1998. p 9.

26

Idem p 18.

década de 1960 e ofereciam democratização, reforma agrária e o ceticismo em relação à política americana”. Sendo assim com a decretação, em 2 de abril de 1964, do Ato Institucional I instaurou-se o estado de exceção no país. Cassação de mandatos eletivos e suspensão de direitos políticos atingiram centenas de pessoas. Em decorrência disso instaurou-se uma verdadeira caça às bruxas por todo país, com prisões, censura a publicações e intimidações de toda a ordem. 27 No período 1961-1964 a sociedade brasileira atingiu seu ápice de participação política da história republicana. O golpe civil-militar foi uma ruptura neste processo de organização política e social. Em nome da ‘ordem’, os militares, com o apoio de parcelas importantes da sociedade civil, pretenderam atuar no sentido de conter, desmobilizar ou reprimir os movimentos sociais. Cátia Faria afirma em sua dissertação, Revolucionários, bandidos e Marginais, que:

a preocupação e a perseguição aos cidadãos brasileiros que

aderiram à ideologia marxista já existiam antes da ditadura militar

[

o que houve nas décadas de 1960-1970 foi um

dimensionamento exacerbado da teoria do “inimigo interno” 28 .

[ ]

]

Marcos Napolitano explana que as organizações dos trabalhadores do campo e da cidade sofriam intervenção do Estado, assim como, a destituição da diretoria sindical eleita. Ao longo de 1964, mais de quatrocentos sindicatos sofreram intervenção do governo militar. “A ação violenta das elites sobre os trabalhadores começou logo após o golpe, sem muitas formalidades” 29 . Podemos perceber que, após o golpe civil-militar de 1964, o governo passou a ver os próprios brasileiros que lutavam pelas reformas sociais e pelo fim da ditadura, ou simples críticos, como seus opositores e potenciais inimigos. Ou seja, todo aquele que discordasse da política estabelecida era considerado inimigo nacional.

27 HOBSBAWM, E.J. Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991/ Eric Hobsbawm: trad. Marcos Santarrita; revisão técnica Maria Célia Paoli. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 429.

28 FARIA, Cátia. Revolucionários, Bandidos e Marginais. Dissertação pós-graduação. Niterói: UFF - Niteroi. 2005. p.19.

29

NAPOLITANO, Marcos. O regime militar brasileiro: 1964-1985 / Marcos Napolitano:

coordenação Maria Helena Capelato. Maria Ligia Prado. São Paulo: Atual, 1998. pp 18/19.

Capitulo II

Perseguições aos inimigos da pátria

A intervenção militar ocorrida em trinta de março de 1964 era anunciada como passageira e justificada pelas influencias malignas da esquerda e do socialismo na ordem nacional. Os militares encaravam essa intervenção como uma verdadeira missão salvacionista, na qual as Forças Armadas assumiam a função tuteladora da sociedade, como já havia ensaiado em outras ocasiões da história brasileira. Em nove de abril de 1964 o chamado Comando Supremo da Revolução, uma junta militar, assume o poder de fato e promulga um conjunto de regras políticas, o denominado Ato Institucional numero Um (AI-1). O AI-1 fortalecia o Poder Executivo e concedia ao presidente poderes para suspender direitos políticos, como suspender a imunidade parlamentar, cassar mandatos além de cancelar a vitaliciedade dos magistrados e a estabilidade dos servidores públicos. As garantias constitucionais foram suspensas por seis meses.

a revolução vitoriosa se investe no exercício do Poder

Constituinte. Este se manifesta pela eleição popular ou pela revolução. Esta é a forma mais expressiva e mais radical do Poder Constituinte. Assim, a revolução vitoriosa, como Poder

Constituinte, se legitima por si mesma. Ela destitui o governo anterior e tem a capacidade de constituir o novo governo. Nela se contém a força normativa, inerente ao Poder Constituinte. Ela edita normas jurídicas sem que nisto seja limitada pela normatividade anterior à sua vitória. Os Chefes da revolução vitoriosa, graças à ação das Forças Armadas e ao apoio inequívoco da Nação, representam o Povo e em seu nome exercem o Poder Constituinte, de que o Povo é o único titular. O Ato Institucional que é hoje editado [9/4/1964] pelos Comandantes-em-Chefe do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, em nome da revolução que se tornou vitoriosa com o apoio da Nação na sua quase totalidade, se destina a assegurar ao novo governo a ser instituído, os meios indispensáveis à obra de reconstrução econômica, financeira, política e moral do Brasil, de maneira a poder enfrentar, de modo direto e imediato, os graves e urgentes problemas de que depende

a restauração da ordem interna e do prestígio internacional da

nossa Pátria. A revolução vitoriosa necessita de se institucionalizar

e se apressa pela sua institucionalização a limitar os plenos

[ ]

poderes de que efetivamente dispõe [ Rio de Janeiro - GB, 9 de abril de 1964. ARTHUR DA COSTA E SILVA Gen.-Ex.

]

FRANCISCO DE ASSIS CORREIA DE MELLO Ten.-Brig. AUGUSTO HAMANN RADEMAKER GRUNEWALD Vice-Alm. 30

Com esse ato os militares não só ditavam novas regras constitucionais, como impunha profundas remodelações no sistema de segurança do Estado. Estava aberta então a temporada de caça aos inimigos políticos da nação. A perseguição aos ‘adversários políticos’ começou durante o próprio golpe, os militares prenderam milhares de pessoas logo após o movimento ter tomado o poder. “Algumas, como o líder comunista Gregório Bezerra, foram humilhadas e torturadas em publico”. 31

O uso a violência e da tortura devia-se ao fato de os militares acreditarem que um golpe comunista estava prestes a assolar o país. Esse receito justificou também os interrogatórios brutais dos supostos comunistas para que revelassem os detalhes do suposto plano. Como afirma Jorge

Caldeira em seu livro: Viagem pela História do Brasil, “[

não passava de fantasia, que não foi confirmada”. 32 Uma onda de prisões inundou o país nos dias que sucederam o golpe. Lideres sindicais, políticos que apoiavam o presidente deposto, militantes de

organizações católicas e entidades estudantis, e os milhares que defenderam

o governo legal de Goulart, tornaram-se os alvos preferidos. Segundo Caldeira “não existem dados exatos sobre os números de presos e perseguidos, mas estimativas variam de dez mil a cinqüenta mil pessoas”. 33 Os mais variados expedientes empregados nessas prisões e perseguições é fator complicador para o estabelecimento de um calculo mais preciso. Contra os políticos a ação preferida pelo governo militar era a cassação dos mandatos e a suspensão dos direitos políticos, prevista no AI-1. Nos primeiros meses do governo militar foram cassados 441 parlamentares estaduais e federais legalmente eleitos 34 .

este suposto plano,

]

30 Fragmento do Ato Institucional nº1 promulgado em 9/4/1694. Disponível em:

CALDEIRA, Jorge. Viagem pela história do Brasil / Jorge Caldeira. – São Paulo:

31

Companhia das Letras, 1997, p. 305.

Idem.

33 Idem.

32

34 Idem.

As perseguições abrangiam até mesmo o setor administrativo. Diplomatas, funcionários públicos e professores foram afastados de suas funções sem nenhum direto a defesa.

A ditadura instaurada em 1964 colocou atrás das grades muitos políticos

conhecidos, mas encarcerou também, os sargentos e marinheiros revoltosos que haviam sido expulsos das forças armadas e respondiam a processos nas

auditorias militares. Analisando a questão sob o prisma da ditadura, cuja intenção era

perseguir e eliminar o ‘inimigo interno’, o governo militar não tinham grandes preocupações com uma ameaça externa. Os militares não temiam invasões de outros países, o que eles temiam era o perigo de que seus cidadãos sejam afetados por doutrinas estrangeiras e se insurjam contra o próprio regime, provocando assim, um conflito interno e, no limite, uma guerra civil. Nos primeiros momentos do golpe, houve um grande apoio a essas medidas intervencionistas na instancia civil do país, pois, acreditava-se na necessidade urgente de salvar o país das ameaças, sejam elas quais fossem. Entretanto, as noticias de torturas, perseguições injustas e processos sumários produziram um efeito contrário, muitos que haviam apoiado o golpe começaram a se perguntar se não estava havendo um exagero. Em pouco tempo passaram a fazer reservas aos militares e logo estavam se opondo ao governo que se empenhava cada vez mais na repressão. Como afirma Catia Faria em sua tese: “Revolucionários, Bandidos e Marginais”, a preocupação com a segurança nacional e o aparecimento de uma legislação que viesse garanti-la ao governo de Getúlio Vargas, e foi nesse contexto que surgiu a Lei Nº 38, de 4 de abril de 1935, a primeira Lei de Segurança Nacional (LSN). Sua principal finalidade era transferir para uma legislação especial os crimes contra a segurança do Estado, submetendo-os a um regime mais rigoroso, com o abandono das garantias processuais. A partir desta, outras foram criadas com o objetivo de atender às demandas políticas e de segurança do Estado.

A preocupação e a perseguição aos cidadãos brasileiros que aderiram

às ideologias subversivas, já existiam antes da ditadura militar. Sendo assim nas décadas de 1960-1970 ocorreu um dimensionamento exacerbado da teoria

do ‘inimigo interno’. Em outras palavras, após o golpe civil-militar de 1964, o governo passou a ver os próprios brasileiros que lutavam pelas reformas sociais e pela restauração da democracia como seus opositores e potenciais inimigos. Ou seja, todo aquele que discordasse da política estabelecida era considerado inimigo nacional. No período após o golpe a tese do inimigo interno ganhou mais força. A Revolução Cubana foi interpretada como um sinal de que a ideologia socialista não ficaria confinada ao Leste Europeu e à Ásia. Cuba tornou-se um exemplo de uma ameaça para todo o continente americano. Considerando a literatura sobre a atuação da esquerda no Brasil durante o período do regime militar essa já é bastante vasta e variada, com inúmeros temas e títulos publicados. Pesquisadores ligados a diferentes tradições e com abordagens distintas vêm produzindo dissertações, teses e obras sobre o tema. Como afirma Marcus Roberto de Oliveira em seu texto: “A ideologia anticomunista no Brasil”, a literatura especializada sobre a atuação do aparelho repressor do regime militar prioriza a atuação das organizações esquerdistas ou contestatórias nos grandes centros, relegando quase ao esquecimento a atuação desse aparelho repressor em localidades com pouco destaque político como a cidade de São Sebastião do Paraíso no sudoeste mineiro.

Capitulo III Prisões no Paraíso

São Sebastião do Paraíso, cidade localizada nas montanhas do sudoeste mineiro. Sua fundação remete à da decadência da exploração do ouro no município sede de Jacui. Essa decadência levou toda a região a reorientar-se economicamente tanto à agricultura quanto à pecuária, numa adaptação natural, surgindo assim inúmeras fazendas, como, a ‘Fazenda da

Serra’, de propriedade da família Antunes Maciel, doadora, a 25 de outubro de 1821, uma ‘sorte’ de terra de 5 (cinco) alqueires, para a edificação da capela e patrimônio a São Sebastião, que se constituiu um ponto de partida para a formação de um povoado que, num crescente tomou aspecto de Vila, e esta veio com a lei Provincial n.º 2042, de 1º de Dezembro de 1873, à condição de cidade, sede do município de São Sebastião do Paraíso, reconhecido pelo Governo Provincial do Dr. Venâncio José Oliveira Lisboa. 35 A principal atividade econômica era e continua sendo a produção de

café. “[

produzimos 52.000, registra-se que a produção atingiu a 378.000 arrobas num total de 6.9000.000 pés de cafeeiros.” 36 Sua população estimada em 1964 era de aproximadamente vinte e cinco mil habitantes. Sua atividade industrial era considerada pouco expressiva devido ao número limitado de indústrias, sendo que as indústrias de maior destaque em 1964 eram: quatro fábricas de farinha, quatro engenho de rapadura, cinco fábricas de calçados, seis fábricas de móveis. Essa configuração industrial não rendia grande produção, o que ilustra a dependência da economia local ao cultivo de café. 37 Paraíso como é ‘carinhosamente’ chamada por seus habitantes sempre apresentou uma vida política tranqüila, sem grandes eventos históricos, sendo

]

em 1952, produzimos 50.000 arrobas beneficiadas; em 1962,

35 CALAFIORI. LUIS F. São Sebastião do Paraíso ( Histórias e Tradições) – Editora Tributária – São Paulo, 1973, pp 24-32. 36 Idem, p. 119. 37 Idem, p. 372.

que até 1964 a cidade não possuía nenhum tipo de organização de trabalhadores, sindicatos, apenas a cooperativa de produtores de café a Cooparaíso fundada em 1960, tendo como finalidade o depósito, o beneficiamento, fornecimento de insumos agrícolas aos produtores e a Associação Rural fundada em 1958 uma entidade patronal sem vinculação como interesses dos trabalhadores.

Os produtores rurais locais, reunidos em assembléia, chegaram à conclusão lógica de que para melhor defender os interesses da classe, necessariamente deveriam se agrupar em torno de uma entidade representativa, surgindo assim a em 23/05/1958, a Associação Rural.

38

Com o advento do Golpe Militar de 1964, a vida política de São Sebastião do Paraíso pouco se alterou. Não se tem registro de nenhuma manifestação política nem apoiando nem contestando a manobra dos militares. Antonieta Campos esposa do Sr. Geraldo Borges Campos, um dos presos políticos relata em seu livro, Figuras, figurinhas e figurões 39 uma passagem, de como as noticias do golpe foram absorvidas nessa localidade.

8 de abril de 1964, uma quarta feira. Meu marido devotamente como sempre o fazia, ouvia pela rádio local a Novena de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Em dado momento, Monsenhor interrompe tudo para anunciar que elementos do exército estavam em Paraíso para prender os comunistas. A ‘revolução’ de 64 tinha se instalado no Brasil a nove dias. Meu marido que detestava o comunismo, sempre usava a frase ‘O comunismo mata os ideais do cidadão ‘. No entanto ao ouvir a noticia teve a expressão:

‘Quem serão esses coitados?’ 40

As discussões políticas ocorridas em São Sebastião do Paraíso tinham caráter informal, eram opiniões manifestadas em rodas de conversas, em botequins, na praça em frente ao cinema como relata o Sr. Guerino Paschoini:

Paraíso é uma cidade pacata, a nossa economia até hoje depende do café, e naquela época era mais ainda, e não tinha nenhum tipo de organização dos trabalhadores, sindicato, nada nesse sentido. Existia já a cooperativa, mas defendia os interesses dos donos das fazendas. Tinha o PTB, mas nunca exerceu nenhum cargo, Paraíso não dava espaço para isso. Paraíso é uma cidade ‘sugeneris’ em política, para começar, foi a única cidade do Brasil que o Getúlio perdeu a eleição, aqui é uma cidade comandada por coronéis, fazendeiros e pessoas da elite, que nunca concordaram

38 Idem , p. 277. 39 Livro de contos e memórias, editado por uma editora local de São Sebastião do Paraíso. 40 CAMPOS. Antonieta S.M. Figuras, figurinhas e figurões - Nova Gráfica - São Sebastião do Paraíso, 2001, p.8.

com o governo do Getulio, por exemplo, tanto é que Paraíso não

tem nenhuma rua com o nome do Getúlio Vargas

paraíso não tolerava esse tipo de coisa, tanto é que aqui nunca vingou um partido político como o PTB, outro tipo de partido assim nunca vingou, aqui prevalecia a UDN e o PSD, os partidos dos coronéis. Tinha os coronéis do PSD e tinha os coronéis a UDN,

que é uma coisa só, não tem ‘diferenciamento’ nenhum. 41

a política de

Mesmo com essa aparente passividade e despreocupação política, repressão do recém instaurado regime militar chega a pacata cidade de São Sebastião do Paraíso, pegando os moradores, cidadãos paraisenses de surpresa. Como podemos observar na surpresa de uma das vitimas: “Quem serão esses coitados? Mal sabia que visavam especialmente a ele próprio. Os outros seriam bodes expiatórios e iriam ser levados de roldão.” 42 As prisões executadas em São Sebastião do Paraíso resultaram no indiciamento de quinze pessoas sendo elas: Geraldo Borges Campos, Carlos Vecci Gaspar, Benedito Campos, Leopoldo Bortoni, Gilberto de Oliveira Gaspar, Osório Rodrigues, José Garcia Escobar, Braz Alves Vieira, José da Mata, José Paes, João Eduardo de Vasconcellos, Tertuliano Vieira Carvalhães, Mário do Prado Queiróz, Ranulfo Resende Pimenta, e Lázaro Lopes Vieira. As prisões ocorridas em São Sebastião do Paraíso ocorrem de forma totalmente arbitrária e sem resguardo de direito algum as vítimas. O Sr. Guerino Paschoini umas das vítimas presas nessa ocasião relata que não houve nenhum tipo de justificativa para a sua prisão, “fomos presos, levados para Belo Horizonte, chegando lá na frente de uma autoridade, fomos ouvidos por uma pessoa que nem se identificou não nos deram nenhuma satisfação.” 43 Ocorreram nessa ocasião as prisões de mais de cinqüenta pessoas, sendo quinze encaminhadas a Belo Horizonte, O Sr. Guerino Paschoini observa que as prisões ocorreram de forma sistemática, relata:

Essas cinqüenta pessoas presas não tinham motivo nenhum para serem presas, eram todos trabalhadores conhecidos, prenderam só para humilhar mesmo, tinha pessoa que não sabia nem o que era política, e foi preso, inclusive teve um sapateiro que foi preso por engano. Tinha uma lista das pessoas a serem presas, então,

41 PASCHOINI, R. J. Entrevista concedida pelo Sr. Guerino Paschoini. Minas Gerais São Sebastião do Paraíso, 2009. 42 CAMPOS. Antonieta S.M. Figuras, figurinhas e figurões - Nova Gráfica - São Sebastião do Paraíso, 2001, p.8. 43 PASCHOINI, R. J. Entrevista concedida pelo Sr. Guerino Paschoini. Minas Gerais São Sebastião do Paraíso, 2009.

lá perto da delegacia tinha um sapateiro, chamado Cassimiro, e o próximo da lista era o José Paes que era sapateiro, aí o comandante disse, agora tem que prender o próximo, o sapateiro, aí foram lá e prenderam o vizinho da delegacia depois de preso é perguntaram o nome, e viram que não queriam o Cassimiro queriam o José Paes (risos) é de rir né? 44

O Sr. Guerino Paschoini explana que no dia nove de abril de 1964, ele mais um grupo de aproximadamente quinze pessoas foram presos em São Sebastião do Paraíso, levados para Belo Horizonte, responderam a um questionário frente a uma autoridade, na qual, não puderam identificá-la, sendo que, a mesma não lhes expôs nenhum tipo de documento, identificação, ou apresentação e a maioria foram mandados de volta para Paraíso dentro de uma semana, ficando por um período maior em Belo Horizonte apenas Geraldo Borges Campos, Braz Alves Vieira, Carlos Gaspar e o filho, Dr. Gilberto Gaspar. Todos foram mandados de volta a São Sebastião do Paraíso sem nenhum tipo de assistência, sendo que na ocasião das prisões não lhes foram permitidos a busca de dinheiro, documentos, roupas, nada além do que estava com eles naquele momento. Relata ainda:

no meu caso ele apenas bateu um documento para eu poder

voltar para Paraíso, naquela época estavam prendendo todo mundo, não tinha como viajar sem documento, então eu viajei com um documento de lá do DOPS. E nunca mais fui procurado por ninguém a esse respeito, nem em âmbito municipal, nem em âmbito nacional. 45

[ ]

Quando questionado se ele ou algum de seus companheiros presos em São Sebastião do Paraíso, sofreram algum tipo de tortura física, explana que não sofreu, nem ficou sabendo se alguém do grupo a tinha sofrido, mas fez referencia a tortura psicológica e moral, pois esses foram expostos ao frio e a pouca alimentação durante a viagem e no tempo de cárcere em Belo Horizonte. Em referencia a esse assunto a Sra. Antonieta, viúva de uma das vítimas das prisões relata que, desconhece o fato de seu marido ter sofrido algum tipo de tortura, mas, relata episódios que podemos constatar maus tratos evidentes:

Homens sem comer desde o almoço da véspera, só com a roupa do corpo muitos de manga de camisa, em roupa de trabalho, sem

44 Idem.

45 Idem.

banho, quase todos colhidos, não pregando a subversão, mas no trabalho duro porque todos eram pessoas humildes que trabalhavam no pesado, mas não comungavam com o credo udenista da época. Denunciados são presos e agora levados rio-acima, para onde? Em meio do rio vem a primeira ameaça:

- Reza gente que agora é hora de comunista morrer. Vamos jogar

‘oceis’ no rio, assim acaba com essa praga. Chegando em Guapé, [ cidade localizada no Sul de Minas, antigo caminho de São Sebastião do Paraíso a Belo Horizonte , trecho realizado de balsa] ou melhor, antes de chegar a balsa é encostada em um barranco. Fazem os presos descer.

- Todo mundo de costas. Já tudo resolvido. Vamos fuzilar vocês cambada! Mão na nuca, vamos! Os presos cumprem a ordem. De costas nervos retesados, ouvem as armas serem engatilhadas.

- Seus medrosos, covardes vamos embora.

À tardinha depois de quase trinta horas de viagem, sem comer e sem dormir tensos sem compreender sequer o que se passava, chegam a Belo Horizonte. No DOPS são recolhidos nas celas.

Vem um soldado.

- Quem quiser comer dá o nome, o dinheiro e o que vão querer.

Famintos, pedem uns leite, outros sanduíches e quase ninguém tem troco. Lá se vão as notas de maior valor. Nunca amais viram o dinheiro. A comida não chegou. Mais uma noite e o próximo dia sem nada comer. Todos amontoados em celas, cansados não tinham como de deitar, tal a quantidade de presos. 46

Guerino Paschoini refere-se ainda aos resquícios morais negativos do período pós-prisão, afirmando que durante muito tempo foi discriminado pela sociedade paraisense, pois ele exercia a profissão de encanador e obteve dificuldades para conseguir manter-se no mercado de trabalho.

As firmas grandes muitas delas não me deram mais serviço, eu era encanador, tinha residência fixa, tinha família, inclusive meu filho teve que ficar um ano se ir à escola porque as outras crianças discriminavam ele. Teve discriminação da sociedade paraísense mesmo não se provando nada contra nós. 47

Questionado, a que ele atribui sua prisão, visto que a mesma não teve nenhuma justificativa formal apresentada, o Sr. Guerino Paschoini acredita que essas prisões foram motivadas por questões políticas locais, sendo que o mesmo não tinha nenhuma filiação político-partidária, não era membro de sindicatos, organizações sociais, não se declarava simpatizante do socialismo, sendo sua participação política restrita a conversas informais com amigos:

46 CAMPOS. Antonieta S.M. Figuras, figurinhas e figurões - Nova Gráfica - São Sebastião do Paraíso, 2001, pp. 64/65. 47 PASCHOINI, R. J. Entrevista concedida pelo Sr. Guerino Paschoini. Minas Gerais. São Sebastião do Paraíso, 2009.

[

]

nós nos reunimos na maçonaria, nos bares nós tínhamos

uma turma de amigos, todos voltados para o bem das pessoas e nós éramos partidários do Brizola, nós gostávamos dele, comentávamos nas rodas, inclusive tinham pessoas que não eram da maçonaria e que faziam parte da roda de amizade, éramos só um grupo de amigos que encontrava num bar para tomar uma cerveja, nunca houve hora marcada, lugar fixo, que lembrasse qualquer tipo de organização

48

Afirma que o único grupo ao qual fazia parte era a maçonaria, grupo esta sem vinculação oficial política e auto declarada anti-socialista.

[ ]

maçons, que é uma sociedade também anti-socialista, mas nós como tínhamos a maçonaria, partimos para o lado social. Construímos uma escola, o São João da escócia, construímos um hospital o Gedor Silveira, construímos um templo maçônico, construímos uma creche a Vicinius Escarano [instituições ainda

existentes e em atividade na cidade], o que era na época inédito. Essas ações não possuíam nenhuma bandeira política. A maçonaria é apolítica. Eram maçons, pessoas que queriam ter uma participação para minorar o sofrimento de alguém, porque a cidade não tinha escola o suficiente, não existia uma creche na região, a cidade tinha muitos doentes mentais que eram apedrejados pela rua, então nós condoemos com aquilo e

resolvemos fundar um sanatório [

nós tínhamos aquele pessoal que eram na sua maioria

]

49

Assim, atribui os motivos que levaram a sua prisão como sendo o seu envolvimento com as obras sociais em conjunto com maçonaria, o que teria ‘despertado’, segundo ele, uma disputa velada entre as autoridades representativas da cidade e esse grupo benemérito,

[

Mancini 50 , porque ele achava que o povo não devia ajudar o sanatório, e que ele ia construir um sanatório da Igreja Católica, e que o povo ajudasse o sanatório dele, e ele fazia um campanha para o povo não ajudar os maçons e ajudar a Igreja a construir e

Nossa prisão foi uma manobra política,

numa esfera municipal, como nós tínhamos uma série de obras sociais, ameaçava o andamento político, eles aproveitaram a ocasião do Golpe para desestabilizar o grupo. E conseguiram, nós não tivemos mais campo de ação. 51

que não foi construído

o sanatório foi combatido violentamente pelo monsenhor

]

48 Idem. 49 Idem.

50 Monsenhor Jerônimo Madureira Mancini (15º vigário) A posse de Monsenhor Jerônimo Madureira Mancini, aconteceu no dia 3 de setembro de 1939, na Igreja Matriz de São Sebastião do Paraíso com a presença de diversas autoridades civis e religiosas. Foi agraciado por sua Santidade o Papa Pio XII, com o titulo de camareiro secreto r Prelado Domestico por ter sido virtuoso vigário. Recebeu o titulo de Cidadão Honorário Paraisense” como reconhecimento pelo muito que tem feito pela cidade que o elegeu como filho. Mons. Mancini veio a falecer no 30/04/1980, sendo decretado luto oficial de 3 dias. In:

CALAFIORI. Luis F. São Sebastião do Paraíso (Histórias e Tradições).-Editora Resenha Tributária - São Paulo, 1973, p.132. 51 PASCHOINI, R. J. Entrevista concedida pelo Sr. Guerino Paschoini. Minas Gerais. São Sebastião do Paraíso, 2009

O Sr Guerino acredita hoje, que nenhum dos que foram presos em São Sebastião do Paraíso em 1964 apresentava o perfil tão combatido pelas perseguições militares, a propaganda dos terroristas, subversivos, comunistas revolucionários não se encaixava no seu cotidiano e nem no de seus companheiros presos. Atribui ainda à estrutura política tradicionalista de São Sebastião do Paraíso para essas perseguições:

a política de Paraíso que agravou as coisas, tanto é que

Passos, teve uma prisão, Poços de Caldas teve três prisões, e em

Paraíso foram mais de quinze levados para Belo Horizonte e mais

de cinquenta presos aqui. E aqui teve a intervenção de um militar que era Paraísense, que ele derramou seu ódio em cima desse pessoal. Esse militar teve motivação pessoal para executar essas prisões. Esse militar chegou aqui em Paraíso tomou conta da cidade, pegou o lugar do prefeito, do delegado, tudo extra- oficialmente, mas na verdade era ele que mandava, e saiu prendendo todo mundo. Esse militar é o Sebastião Curió, o famoso Curió, ele é daqui de Paraíso. Essa cinquenta pessoas presas não tinham motivo nenhum para serem presas, eram todos

trabalhadores conhecidos[

[ ]

]

52

Outro motivo alegado por ele foi a amizade constituída com o Sr. Carlos Vecci Gaspar, o qual se auto declarava simpatizante do socialismo, mas que também não tinha vinculação partidária oficial conforme podemos observar no termo de perguntas ao indiciado do mesmo colhido dia primeiro de junho de 1964, na cidade de São Sebastião do Paraíso junto ao 1º Tenente Sebastião

Rodrigues de Moura, encarregado do inquérito, constante no Of. nº 2/CMT- Res. Ao Sr. Carlos Vecci Gaspar foi perguntado se poderia definir os motivos que ocasionaram a sua prisão no dia nove de abril, do decorrente ano, o mesmo respondeu que “julgou leviandade dos denunciantes, porque isto aqui é ”

uma zona velha de gente humilde e pacata

inscrito no Partido Comunista Brasileiro e se sabia da existência de uma carteira de inscrição, respondeu que desconhecia tal vinculação, “mas que é socialista simpatizante dessa linha a vinte anos” 53 . Também perguntado se estabelecera ligação com outros órgãos socialista que não o PCB, a níveis estaduais ou federais o mesmo respondeu que não.

e quando questionado se era

52 Idem. 53 Termo de perguntas ao indiciado colhido em 1 de junho de 1964.

O Sr. Guerino Paschoini ressalta que o Sr. Carlos Gaspar era uma pessoa de boa conduta social, comerciante estabelecido, com família constituída e que nunca apresentou nenhuma conduta que o desabonasse:

Tinha um Sr. aqui em Paraíso, que era um benemérito, chamado Carlos Gaspar e o filho dele, que eram comunistas, eles se auto declaravam comunistas, mas nunca fundaram partido político ou tentaram fundar coisa nenhuma, eram simpatizantes ideológicos do Partido comunista. E nós tínhamos amizade com ele, ele ajudava nas nossas obras, faziam parte do nosso grupo de amizades. Ele tinha um armazém muito grande, tanto é que depois do golpe ele doou o armazém dele, que era o maior armazém de Paraíso para os empregados, e foi embora daqui. 54

O Sr. Geraldo Borges Campos foi outra vitima do aparelho repressivo do regime militar em São Sebastião do Paraíso. A Sra. Antonieta S.M. Campos viúva do referido Sr. conhecido na localidade pelo carinhoso apelido de Peba, relembra o episódio de sua prisão:

A nove de abril, 15 horas mais ou menos, meu marido ultimava os

papéis para o empréstimo junto à Caixa com a finalidade de comprar nossa casa. Em busca de um documento que não fiquei a

par, encontrava-se no fórum local. Um amigo chegou advertindo-o; - Geraldo foge que a polícia está atrás de você. Ele achou graça.

- Procurando por que? Não devo nada deve ser engano.

Em pouco não a polícia, mas reservistas armados, acompanhando

Célio

o delegado Célio, que aqui viera só para efetuar as prisões deu a deu marido voz de prisão. 55

O Sr. Geraldo Borges Campos foi preso sob a acusação de incitar empregados contra patrões, essa acusação foi fundamentada no fato dele ser presidente do PTB, de São Sebastião do Paraíso, e por essa posição recebera do comando nacional do partido instruções e documentação para a implantação de um sindicato de trabalhadores rurais na cidade, o qual chegou a distribuir algumas fichas de inscrição, mas não chegar a operar oficialmente.

Chegou a iniciar, já tinha diversas pessoas inscritas, e, tudo com orientação do governo central, do presidente João Goulart. Como aqui não tinha nenhum representante rural era o próprio partido que organizava. Ele entrava com as representações junto aos empregados, tentando fazer um direto trabalhista. Devia ter umas dez a dose pessoas inscritas. Não tinha sede, era tudo aqui em casa mesmo, tinha um cômodo nos fundos e ele atendia as

54 PASCHOINI, R. J. Entrevista concedida pela Sr. Guerino Paschoini. Minas Gerais. São Sebastião do Paraíso, 2009. 55 CAMPOS. Antonieta S.M. Figuras, figurinhas e figurões - Nova Gráfica - São Sebastião do Paraíso, 2001, p 39.

pessoas lá. Todos os documentos relacionados ao sindicato foram levado pela policia para o DOPS. 56

A Sra. Antonieta também atribui a prisão do seu marido à conjunturas

políticas locais, visto que ele era presidente do PTB local e concorrera ao cargo de prefeito por duas ocasiões, 1958 e 1964, o que, o colocaria em uma situação de oposição a estrutura política configurada na cidade. Sobre uma das eleições disputadas por Geraldo B. Campos sua esposa considera:

Ele foi candidato em 1962, inclusive meu pai quis acompanhar a apuração das urnas eles não deixaram. Nesse dia os fiscais do partido era o Gabriel Marques e o Salvador. Depois que meu marido morreu o Salvador me falou que ele tinha ganhado a eleição por 360 votos e que eles anularam votos perfeitamente

validos dele e ele perdeu por para o então Candidato Argemiro de Pádua [prefeito empossado em 31 de janeiro de 1963 pelo partido

da UDN]

, por uma diferença de apenas cem votos. Sumiram

com os votos. Então quando veio o golpe eles aproveitaram-se dele para fazer perseguição política local. Foi política. Interesses políticos locais. Choque de partidos.

57

58

A principal alegação das prisões feitas pelos militares era a subversão e

a os principais acusados de serem subversivos eram os comunistas. A Sra. Antonieta ao ser questionada se seu marido o Sr. Geraldo B. Campos era comunista, afirma que não, que o mesmo tinha aversão ao comunismo, empregando sempre a frase: “ o comunismo mata os ideais das pessoas” ,

afirma ainda, que ele tinha ideais trabalhistas e não comungava das idéias comunistas. 59 Podemos observar no termo de inquirição a testemunha folha quinze, ao

que nunca

pertenceu ao Partido Comunista, sempre lutou em defesa dos trabalhadores dentro do regime democrático e obedecendo as leis trabalhistas.” 60 O Sr. Geraldo B. Campos foi preso em várias ocasiões em um período de aproximadamente três anos, essas prisões deveu-se ao fato de ele ter sido indiciado e julgado pelo regime militar.

ser questionado a respeito do movimento comunista, “

disse

56 PASCHOINI, R. J. Entrevista concedida pela Sra. Antonieta S. M. Campos. Minas Gerais. São Sebastião do Paraíso, 2009.

57 CALAFIORI. Luis F. São Sebastião do Paraíso (Histórias e Tradições).-Editora Resenha Tributária - São Paulo, 1973, p. 118.

58

Idem.

59 PASCHOINI, R. J. Entrevista concedida pela Sra. Antonieta S. M. Campos. Minas Gerais. São Sebastião do Paraíso, 2009.

60 Termo de perguntas ao indiciado, folha 15, executado em 26 de maio de 1964.

Ele foi preso várias vezes, foram mais de três anos, não foram três anos seguidos, ele ficava quinze dias, soltavam, ele não tinha tempo de trabalhar, soltava um semana, vinha prendia de novo levava para três corações, Primeiro ele foi levado para o DOPS de Belo Horizonte depois para o presídio de Ribeirão das Neves, depois para um prisão em Juiz de fora, depois veio para o DOPS, outra vez soltaram ele. Ele veio ficou uma semana em casa tornaram a prender ele aqui em Paraíso mesmo. Ai o delegado Saturnino foi à casa do meu cunhado e mandou me avisar que o Curió [1º Tenente, Sebastião Rodrigues de Moura], o Curó foi o algoz dele, ai levá-lo para Três Corações agora depois do almoço. Ele ficou ter dias sem comer mais um frio de 10 graus foi quando ele teve o primeiro infarto. Na cadeia. 61

As prisões realizadas em São Sebastião do Paraíso resultaram no indiciamento de quinze pessoas a cima citadas. Podemos observar no documento elaborado pelo Dr. José Artur de Carvalho Junior, promotor de justiça da comarca de São Sebastião do Paraíso, apresentado ao Ministério Publico de Minas Gerais, em vinte de maio de 1965 que, aos acima referidos com exceção de Geraldo Borges Campos e Braz Alves Vieira, não cabe indiciamento. “ – VI – Excluindo Geraldo Borges Campos e Braz Alves Vieira, resta-nos comentar a ação dos outros, os quais julgo, não cometeram crimes.” 62 Podemos observar no mesmo documento as considerações feitas por ele:

“ Há entre eles, alguns, inclusive, comunistas fichados, tal fato não gera dúvidas. Entretanto, ser comunista, individualmente, não constitui crime, pois entre os direitos assegurados pela Constituição está de cada um a sua convicção (art. 141 § 8). Algumas pessoas bem intencionadas, mas ingênuas, outras ignorantes aderem ao comunismo, sem conhecer a falsidade e as

Ser comunista não é

crime. Mas, fazer propaganda do Partido Comunista declarado fora da lei, contrario ao regime vigente no Brasil; ( art. 141§ 13)

pugnar por uma reforma constitucional de forma violenta; acirarem-se para a prática e reuniões subversivas; instigar publicamente desobediência coletiva ao comprimento da lei, são

conseqüências nefas de sua doutrina

fatos criminosos, que objetivam a modificar por meio não permitido em lei a ordem política e social . Os elementos aqui indiciados , com exceção de dos dois já citados, não comete quaisquer desses

Opinam mas não subvertem

fatos. Pensam mas não agem

Crêem mas não conspiram. A lei não pune aos que pensam

opinam ou acreditam. A lei pune aos que subvertem e conspiram ”

63

61 PASCHOINI, R. J. Entrevista concedida pela Sra. Antonieta S. M. Campos. Minas Gerais. São Sebastião do Paraíso, 2009

62 Documento elaborado pelo Dr. José Artur de Carvalho Junior, promotor de justiça da comarca de São Sebastião do Paraíso, apresentado ao Ministério Publico de Minas Gerais,em vinte de maio de 1965.

63 Idem.

Considerações Finais

O presente trabalho teve como objetivo investigar a existência de uma possível articulação política organizada e/ou institucionalizada de esquerda personificada em partidos, sindicatos ou associações que justificasse as prisões políticas ocorridas em 1964 em decorrência do golpe militar deflagrado em 1º de abril do referido ano na cidade de São Sebastião do Paraíso, Minas Gerais. O referido golpe militar de 1964 ocorreu a partir de uma série de manobras e articulações na tentativa de impedir que João Goulart assumisse o cargo que lhe cabia por direito. Os partidos que se opunham a João Goulart, como a União Democrática Nacional (UDN) e o Partido Social Democrático (PSD), o acusavam de estar planejando um golpe esquerdista. A crise política somada às tensões sociais aumentavam a cada dia. No dia 1 de abril de 1964, tropas de Minas Gerais e São Paulo saíram às ruas. Intencionado evitar uma guerra civil, João Goulart deixou o país, refugiando-se no Uruguai, sendo assim os militares assumem o poder. Com o advento de golpe uma serie de prisões deflagraram-se pelo país nos dias que sucederam o golpe. Lideres sindicais, políticos que apoiavam o presidente deposto, militantes de organizações católicas e entidades estudantis, e os milhares que defenderam o governo de João Goulart foram vitimas de perseguições. Essa onda repressiva era vital no entendimento dos militares, pois acreditavam que o país estava ameaçado por forças que almejavam subverter a ordem democrática do Brasil. Essas perseguições fizeram-se presentes também fora dos grandes centros, como no caso da cidade de São Sebastião do Paraíso pacata cidade de Minas Gerais. Como já exposto o objetivo do presente trabalho é contribuir para construção de um levantamento histórico da perseguição política acontecida nessa cidade, dando voz aos personagens, vítimas desse processo pouco conhecido da população desta. A maior parte dos levantamentos historiográficos atem-se às prisões e perseguições executadas nos grandes centros e capitais, relegando quase ao

esquecimento as repressões ocorridas em localidades menores. Assim analisamos também a existência real de uma organização de esquerda tais como: partidos políticos; sindicatos; associações de moradores dentre outras, e/ou subversiva e quais os verdadeiros motivos que levaram à intervenção das forças de segurança nacionais no processo político de São Sebastião do Paraíso no pós-golpe de 1964, lançando mão de prisões de cidadãos comuns da referida cidade. Após analises em bibliografia especializada, livros de contos, memórias

e histórias locais, realização de entrevistas com vitimas do referido processo

repressivo, observamos que em São Sebastião do Paraíso não existia nenhuma organização que pudesse apresentar real ameaça a ordem tão almejada pelos militares. Na cidade não existiam sindicatos de trabalhadores, vimos que a base econômica da cidade era a produção de café, sendo a atividade industrial inexpressiva, o único sindicato existente era a Associação Rural fundada em 1958, uma entidade patronal sem vinculação como interesses dos trabalhadores. Houve uma tentativa de fundação do sindicato dos trabalhadores rurais que não foi efetivada, como podemos observar no terceiro capitulo do presente trabalho. Não existiam sede ou membros oficiais do Partido Comunista. Assim podemos observar que as vitimas do processo

repressivo em São Sebastião do Paraíso atribuem que essas prisões foram motivadas por questões políticas locais, pois todos os presos eram membros

conhecidos da sociedade local, com profissões regulares, famílias constituídas

e não apresentavam nenhuma ameaça a ordem nacional. Contudo, podemos observar a existência do Partido Trabalhista Brasileiro, cujo seu presidente local o Sr. Geraldo Borges Campos foi uma das vítimas presas, sendo indiciado, e respondendo processo militar por um período aproximado de três anos. Geraldo Borges Campos após o indiciamento respondeu ao processo militar, foi ouvido em várias localidades como Belo Horizonte, Três Corações e São Sebastião do Paraíso, sendo que em 1967 foi levado a presença do

Presidente do Superior Tribunal Militar o General Olimpio Mourão Filho, pelo qual foi julgado em Brasília e absolvido por unanimidade. 64 Nenhum dos outros presos políticos de São Sebastião do Paraíso recebeu algum de condenação pela justiça militar.

64 CAMPOS. Antonieta S.M. Figuras, figurinhas e figurões - Nova Gráfica - São Sebastião do Paraíso, 2001, p 79.

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Entrevistas

PASCHOINI, R. J. Entrevista concedida pela Sra. Antonieta S. M. Campos. Minas Gerais. São Sebastião do Paraíso, 2009.

PASCHOINI, R. J. Entrevista concedida pela Sr. Guerino Paschoini. Minas Gerais. São Sebastião do Paraíso, 2009.