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TÍTULO:

Uma Abordagem Transdisciplinar ao Programa Antártico Brasileiro.

AUTORES:
Dra. Roseane Palavizini.
palavizini@gmail.com
Doutora em Engenharia Ambiental – UFSC, Mestre em Urbanismo – UFBA, Especialista em Gestão e Educação
Ambiental – UCSal e Planejamento Municipal, Regional e Gestão Urbana – UFBA, Arquiteta Urbanista – UFBA.
Instituto Autopoiésis Brasilis.

Prof. Dr. Daniel Silva.


daniel@ens.ufsc.br
Pós-Doutor em Gestão Social do Ambiente – Universidade do Quebec à Montreal, Doutor em Engenharia de Produção
– UFSC, Mestre em Sociologia – UFSC, Especialista em Hidrologia – Instituto de Hidrologia de Madri, Graduado em
Engenharia Civil – UFSC.
Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC.

MSc. Márcio Cardoso.


mcardozzo@hotmail.com
Mestre em Engenharia Ambiental – UFSC, Especialista em Hidrologia – Cedex/ Madri, Graduado em Engenharia
Ambiental – UFSC e História – UDESC.
Instituto Autopoiésis Brasilis.

RESUMO
Esse artigo trata da apresentação do desenvolvimento da abordagem transdisciplinar no Sub-Projeto
Educação e Comunicação para a inserção da Antártica na formação da cidadania brasileira, parte
integrante do Projeto Vida Marinha Antártica: Biodiversidade em Relação à Heterogeneidade
Ambiental na Baía do Almirantado, Ilha Rei George, e áreas adjacentes - MABIREH –
PROANTAR, realizado no verão de 2007/ 2008, na Estação Antártica Comandante Ferraz - EACF.
As atividades realizadas na EACF incluíram registro de percepção ambiental na enseada Martell da
Baía do Almirantado, Ilha Rei George e entrevistas e oficinas transdisciplinares, tendo como
participantes os pesquisadores e militares presentes na Estação. A partir dessas atividades são
apresentadas reflexões teóricas e metodológicas sobre a abordagem transdisciplinar, construindo um
paralelo entre o método clássico de produção do conhecimento e os métodos transdisciplinares,
ressaltando pontos de convergência e divergência. Por fim, o artigo apresenta como resultado a
proposta de duas estratégias para o desenvolvimento no PROANTAR. A primeira voltada à inclusão
da transdisciplinaridade de forma transversal ao Programa, promovendo a interação entre pesquisas
e pesquisadores das diferentes áreas do conhecimento e entre as instituições participantes,
facilitando o diálogo e a atuação integrada. A segunda sugerindo um programa de educação e
comunicação ligado ao PROANTAR, contemplando a produção de materiais, eventos educativos e
comunicativos para difusão das pesquisas Antárticas, sua importância para o Brasil e o Planeta.

PALAVRAS-CHAVE
Transdisciplinaridade, Antártica, Programa Antártico Brasileiro.
I - INTRODUÇÃO

O continente Antártico tem no Tratado Antártico e Protocolo de Madri - 1991 seu principal
instrumento de regulação. Nesse Tratado está orientada a relação entre ciência, ambiente e política,
definindo a preservação do continente gelado para fins pacíficos e de pesquisa até o ano de 2048.
Nesse contexto, o Brasil vem garantindo desde 1983 sua presença como membro consultivo,
participando das decisões sobre a Antártica. Essa participação vem sendo garantida pelo
reconhecimento internacional da relevância das pesquisas desenvolvidas naquele continente. O
Programa Antártico Brasileiro foi aprovado em 1982, completando no verão 2007/08 vinte e cinco
anos de operação.

A proposta de trabalhar uma abordagem transdisciplinar nas pesquisas realizadas no Programa


Antártico Brasileiro - PROANTAR surgiu do reconhecimento do desenvolvimento de estudos
relevantes em diferentes áreas da ciência que têm produzido resultados expressivos para o
conhecimento ambiental do continente Antártico, dos ecossistemas costeiros brasileiros e da
dinâmica ambiental global.

Com o levantamento da biodiversidade marinha e terrestre, assim como o estudo de sedimentos, de


solos, rochas, geleiras, oceano e atmosfera no continente gelado surgem diferentes perspectivas de
pesquisa na área da saúde, agronomia, aqüicultura, meteorologia, astrofísica, astro biologia, entre
outras. Os resultados das pesquisas desenvolvidas vêm sendo publicados em revistas especializadas,
destinados ao diálogo científico na busca da construção de novos conhecimentos. Com esse
universo de pesquisas e pesquisadores e com os desafios emergentes da complexidade inerente às
questões ambientais, a exemplo da dinâmica ambiental global, surgem dois cenários que se
apresentam como favoráveis a transdisciplinaridade no PROANTAR.

O primeiro cenário se refere ao diálogo entre as diferentes áreas da ciência como fator essencial
para a construção de um conhecimento integrado, que seja capaz de compreender a complexidade
presente na realidade e nas questões ambientais. A perspectiva de interação entre as diferentes
pesquisas, possibilitando as múltiplas relações entre resultados alcançados ou questões pesquisadas,
auxilia o conhecimento produzido em cada área específica, possibilitando ainda sua ampliação a
partir da inclusão de novas variáveis e informações agregadas de diferentes áreas.

Ilustrando esse exemplo pode-se pensar que a compreensão da biodiversidade presente no oceano
da Baía do Almirantado (plâncton, necton e bentos) depende de uma perspectiva complexa de
percepção e compreensão desse ecossistema: correntes, profundidade, contribuição de águas de
degelo, transporte de sedimentos, variação de temperatura, entre outras. Quanto maior o número de
variáveis consideradas, com informações qualificadas, maior será a compreensão desse sistema
complexo. A inclusão dessas variáveis depende da interação entre pesquisadores e áreas de
conhecimento distintas no esforço de produzir uma reflexão capaz de dialogar com diferentes áreas
da ciência e articular informações para produzir sínteses transdisciplinares.

O segundo cenário pretende responder ao compromisso social que a pesquisa pretende alcançar.
Gerar conhecimento para quê e para quem? Essas questões levam à compreensão de que a pesquisa
desenvolvida no PROANTAR tem como perspectiva alcançar além do universo científico, a
sociedade brasileira, seja como forma de informação como também de oportunidade para o
desenvolvimento de uma consciência ambiental global, tendo a Antártica como elemento motivador
para a compreensão da interdependência da biosfera e das influências locais no sistema planetário.

Nesse cenário surge a perspectiva de contribuição da transdisciplinaridade na construção de uma


abordagem pedagógica às pesquisas realizadas, buscando levar à sociedade brasileira a
compreensão da importância dessas pesquisas para o Brasil e o Planeta. Essa oportunidade se
apresenta como fator de referência para o reconhecimento da importância da preservação do
continente Antártico no Sistema Terrestre, considerando sua relevância para o conhecimento e
regulação da biosfera. Assim, até o ano 2048, quando encerra o acordo de proteção da Antártica, a
sociedade brasileira poderá reunir conhecimento suficiente para antecipar desafios e participar
efetivamente dos destinos do continente gelado nos próximos anos.

Torna-se essencial a geração de um programa de educação e comunicação para a inserção da


Antártica na formação da cidadania brasileira, que valorize os resultados das pesquisas produzidas
no PROANTAR e leve por meio da educação formal, educação não formal e da educação difusa (ou
educomunicação) perspectivas de construção de uma consciência ambiental global, onde a ação
local seja implicada e responsável no contexto nacional e biosférico.

Os dois cenários apresentados formaram os pontos estruturadores do subprojeto Educação e


Comunicação integrante do Projeto MABIREH. Esse subprojeto tem como objetivo geral a
construção de referências para um programa de educação e comunicação que contribua ao
PROANTAR, partindo do conhecimento das pesquisas desenvolvidas na missão realizada no
período de 14 de fevereiro a 14 de março de 2008, na Estação Antártica Comandante Ferraz.

II – A PESQUISA TRANSDISCIPLINAR NO MABIREH

1 – PERCEPÇÃO AMBIENTAL

A pesquisa de percepção ambiental partiu do reconhecimento da paisagem da Baía do Almirantado,


nas Ilhas Rei Jorge, onde está situada a Estação Antártica Comandante Ferraz - EACF.
Identificaram-se pontos referenciais da paisagem, como ícones que determinam a identidade do
ambiente local e atuam como pontos de referência para os pesquisadores: a montanha denominada
localmente como “Teta da Nega”, o Yellow Point, Punta Plaza, Morro da Cruz, Refúgio I, Refúgio
II, Ipanema, Baleia e Pico Norte, além das estações de outros países que compartilham a Baía do
Almirantado.

O segundo aspecto de percepção foi dedicado à biodiversidade local, com o registro de organismos
vegetais e animais visíveis na paisagem: musgos, gramíneas, diferentes pingüins, foca de Weddell,
lobo marinho, foca leopardo, elefante marinho, Skua (ave), Krill (crustáceo), Nacella (molusco),
Notothenia (peixe), entre outros.

O terceiro foco de percepção constou do registro de características específicas da dinâmica da


paisagem, como geleiras, rochas, montanhas, mar, neve, gelo, algas, céu, em suas diferentes
expressões em cada dia, com suas variações de cores, do branco do gelo ao cinza prateado do céu e
mar, ao rosado do por do sol, ao azul dos dias claros, ao negro das rochas vulcânicas.

O quarto registro de percepção buscou localizar a memória da presença humana no local. A começar
pelas ruínas da Base Inglesa e sua embarcação, as sepulturas em memória dos que ali morreram, do
santuário de Nossa Senhora Ave Maris Stella e São Bento, o esqueleto de baleia montado por
Jacques Cousteau, até as edificações da Estação Brasileira, com toda a sua infra-estrutura e sistemas
de funcionamento, registrando o sistema de tratamento dos resíduos sólidos, de esgotamento
sanitário, de abastecimento de água e por fim, o impacto visual de sua ocupação na paisagem.

Esses registros de percepção ambiental buscaram reunir referências capazes de caracterizar o


ambiente da Baía do Almirantado, incluindo a relação da ocupação humana nesse ecossistema,
tendo como objetivo apresentar esse ambiente, por meio de materiais impressos e audiovisuais,
facilitando o conhecimento dessa Baía como um portal para o conhecimento preliminar da região
Antártica. Esse conjunto de imagens e vídeos realizados nesse trabalho de percepção apresenta
subsídios para um demonstrativo inicial dessa perspectiva de difusão do ambiente Antártico, a partir
de uma abordagem pedagógica e comunicativa, para conhecimento da sociedade brasileira.

2 – PESQUISA COM PESQUISADORES DA EACF

O desenvolvimento da pesquisa com os pesquisadores foi realizado por meio de três estratégias: 1)
entrevistas individuais, 2) acompanhamento das pesquisas em campo e laboratório e 3) oficinas
coletivas.

A – ENTREVISTAS

As entrevistas realizadas com os vinte e três pesquisadores presentes na EACF tiveram como
objetivo conhecer as pesquisas realizadas e identificar sua pertinência com o Brasil e com o Planeta,
a partir das reflexões dos pesquisadores. Nesse sentido foram construídas cinco perguntas, sendo
duas objetivas e três subjetivas, de percepção, conforme roteiro abaixo: 1) Identificação pessoal
(nome, formação e instituição); 2) Apresentação do Projeto e da pesquisa – objetivo e metodologia
(campo e laboratório); 3) Relação entre a pesquisa desenvolvida, o Brasil e o Planeta; 4)
Importância da Antártica para o Brasil e o Planeta; 5) Uma mensagem ao cidadão brasileiro sobre a
Antártica.

B – PESQUISAS (Campo e Laboratório)

O registro das pesquisas foi realizado em dois momentos: coletas em campo e trabalho em
laboratório. Esses registros tiveram como objetivo acompanhar as atividades realizadas pelos
pesquisadores, caracterizando os métodos de pesquisa em campo e laboratório, destacando seus
objetivos, limitações, desafios e perspectivas.

As imagens e vídeos produzidos nesses acompanhamentos apresentam subsídios para um


demonstrativo de vídeos pedagógicos sobre as pesquisas do PROANTAR, que podem ser utilizados
como recursos pedagógicos e de comunicação difusa, apresentando a pesquisa Antártica e sua
relevância para o Brasil e o Planeta.

C – OFICINAS

A realização de oficinas coletivas com pesquisadores teve como principal objetivo utilizar
metodologias transdisciplinares para favorecer o diálogo, a interação, a reflexão coletiva e a
construção de pequenas sínteses, em um universo multidisciplinar, fundamentado no método
clássico de produção do conhecimento, onde a disciplinaridade e a especialização constituem a
principal referência.

As oficinas foram estruturadas em três temas: oficina 1 – percepção da Antártica, oficina 2 –


programa de educação e comunicação para a inserção da Antártica na formação da cidadania
brasileira - conteúdos e métodos, oficina 3 – avaliação. Participaram dessas oficinas os dez
pesquisadores do Projeto MABIREH que estavam presentes na EACF e cinco pesquisadores
convidados de outros projetos.

A oficina 1 teve início com a dinâmica da pertinência, onde os pesquisadores realizaram entrevistas
em duplas, perguntando sobre a história de vida de cada um e sua visão de mundo. A segunda
dinâmica oportunizou a reflexão do pesquisador sobre sua percepção sobre a Antártica, sobre a
relação entre sua pesquisa e sua visão de mundo e sobre as implicações de seu trabalho para o Brasil
e o Planeta. Essa referência pessoal como ponto de partida para o diálogo visou à identificação de
valores e percepções pessoais como contexto para uma reflexão ética sobre as pesquisas e suas
pertinências com a Antártica, o Brasil e o Planeta, base fundamental da pesquisa transdisciplinar.

3 – PESQUISA COM MILITARES DA EACF

A transdisciplinaridade visa a inclusão dos diferentes saberes na construção do conhecimento: o


científico, o filosófico, o religioso, o tradicional/cultural, entre outros. Nesse sentido, a pesquisa
realizada na perspectiva da construção da percepção ambiental da Antártica incluiu os saberes de
todos os envolvidos na EACF, pesquisadores e militares. A presença do Grupo Base, residente por
um ano na EACF e do Arsenal de Marinha, responsável pela manutenção da Estação, apresentou
uma perspectiva de diversificação de percepções e oportunidade de diálogos.

Com vistas a incluir a perspectiva da percepção dos militares da EACF foram organizadas duas
estratégias. Com o Grupo Base (dez pessoas), foram realizadas entrevistas semelhantes às realizadas
com os pesquisadores. Com o Arsenal (vinte pessoas), foi realizada uma oficina de percepção.

A – ENTREVISTAS COM O GRUPO BASE

As entrevistas realizadas com o Grupo Base tiveram como objetivo conhecer a percepção desses
“residentes Antárticos”, presentes na EACF por um ano, sobre a experiência dessa convivência
contínua, sua percepção sobre o PROANTAR, sobre a Antártica e sua importância para o Brasil e o
Planeta. Nesse sentido, foram construídas cinco perguntas, sendo uma objetiva e quatro subjetivas,
de percepção, conforme roteiro abaixo: 1) Identificação pessoal (nome, formação e função na
Estação); 2) Experiência de um ano na Antártica (ganhos e desafios); 3) Importância do
PROANTAR para o Brasil; 4) Importância da Antártica para o Brasil e o Planeta; 5) Uma
mensagem ao cidadão brasileiro sobre a Antártica.

B - OFICINA COM O ARSENAL DE MARINHA

A oficina de percepção com o Arsenal de Marinha teve como objetivo identificar a percepção dos
participantes sobre a Antártica e promover uma reflexão sobre como o continente gelado poderá
contribuir para uma mudança de comportamento da sociedade brasileira no sentido de ampliar a sua
consciência ambiental local e global.

Com vistas a esse objetivo a oficina foi estruturada em quatro momentos: 1) dinâmica da
pertinência (nome/ história pessoal/ visão de mundo), 2) percepção sobre a Antártica e sua
importância para o Brasil e o Planeta, 3) reflexão sobre os aspectos em que a Antártica mudou cada
um nesse período de convivência local, 4) reflexão sobre em que o conhecimento da Antártica
poderá mudar o cidadão brasileiro.

III – REFLEXÕES TEÓRICAS E METODOLÓGICAS

A pesquisa de desenvolvimento da abordagem transdisciplinar no PROANTAR – EACF –


Fevereiro/Março de 2008 teve como metodologia de controle científico (latu sensu) a Pesquisa
Ação e as metodologias de construção do conhecimento (stritu sensu) a Pedagogia do Amor do
Modelo PEDS1 e as metodologias transdisciplinares da Gestão Transdisciplinar do Ambiente2.

1 SILVA, Daniel. Uma Abordagem Cognitiva ao Planejamento Estratégico da Sustentabilidade. Tese de Doutorado do
Programa de Engenharia de Produção da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1998.
2 PALAVIZINI, Roseane. Gestão Transdisciplinar do Ambiente: Uma Perspectiva aos Processos de Planejamento e

Gestão Social no Brasil. Tese de Doutorado do Programa de Engenharia Ambiental da Universidade Federal de Santa
Catarina, Florianópolis, 2006.
O processo de avaliação ocorreu em momentos individuais, com cada pesquisador e militar, e de
forma coletiva na oficina de avaliação com os pesquisadores. Foram utilizados como instrumento de
avaliação os protocolos verbais de observação participante e a metodologia de avaliação estratégica
trabalhada na oficina de avaliação. A partir da avaliação realizada destacam-se as seguintes
reflexões:

1 – O MEDIADOR TRANSDISCIPLINAR

Os pesquisadores ressaltaram o estranhamento ao processo de mediação, indicando uma expectativa


de condução diferente:

“A condução deveria ser mais rigorosa. O condutor não deveria se envolver, deveria manter-se
neutro”.

Essa afirmação permitiu uma ampla reflexão com os pesquisadores sobre a diferença entre os
métodos da ciência clássica, onde o sujeito (pesquisador) lê o seu objeto de estudo (a Antártica/ as
Pesquisas/ os Pesquisadores) sem envolvimento pessoal ou emocional. Os métodos
transdisciplinares propõem uma relação interativa entre sujeito/objeto, onde ambos se influenciam
mutuamente. Assim o pesquisador transdisciplinar é também um mediador e deve abrir-se ao
envolvimento com seu tema de estudo.

O objetivo dessa relação interativa foi trabalhado durante a oficina no sentido de compreender que o
pesquisador transdisciplinar se reconhece como parte integrante do processo e que o produto
desenvolvido durante o trabalho não é objeto exclusivo de um sujeito que interpreta e conclui, mas
é um resultado produzido por todos, inclusive agregando outros saberes não científicos, valorizados
de forma semelhante na construção do conhecimento.

Nessa oportunidade ficou caracterizada a coordenação transdisciplinar como um processo de


interação entre todos os envolvidos, onde o mediador auxilia metodologicamente a construção
coletiva de conceitos e sínteses e participa do processo de construção contribuindo igualmente
como os demais envolvidos. Assim, a hierarquia dá lugar a uma visão sistêmica e complexa, onde
cada participante tem uma contribuição única e igualmente fundamental ao grupo.

2 – O ENVOLVIMENTO PESSOAL E EMOCIONAL DO PESQUISADOR

As dinâmicas transdisciplinares buscam a revelação da subjetividade dos participantes, motivada


pelo referencial ético como balizador das emoções, dos pensamentos e ações. Esse foi outro ponto
de estranhamento dos pesquisadores.

“A exposição pessoal causou desconforto. Estamos aqui como pesquisadores para nos
relacionarmos profissionalmente”.

As dinâmicas que trabalharam a reflexão pessoal sobre ética e visão de mundo, assim como aquelas
que promoveram uma percepção sobre as pesquisas, na relação com a visão de mundo e suas
implicações com o Brasil e o Planeta, causaram questionamentos como: em que a referência pessoal
é importante na pesquisa? Por que as pesquisas precisam ter necessariamente uma relação com o
Brasil e o Planeta?

Essas questões contribuíram para o aprofundamento da teoria e metodologias transdisciplinares com


os pesquisadores. A questão do referencial pessoal está relacionada diretamente com a questão ética
do pesquisador, base fundamental da transdisciplinaridade. Esse fundamento parte da compreensão
de que o mundo construído a partir da visão fragmentada dividiu não apenas o conhecimento e a
forma de organizar e atuar na realidade, mas construiu também uma episteme fragmentada,
suportada no paradigma cartesiano, onde o sentir pode estar dissociado do pensar e do agir, onde
desenvolver e realizar podem estar separados do envolvimento e do comprometimento.

A transdisciplinaridade tem como referência o envolvimento pessoal como base da valorização da


subjetividade da pessoa, de sua cultura e contexto social, histórico e ambiental. A valorização da
pessoa, com suas emoções e singularidades promove a equidade e o sentido humano de existência.
Na interação entre essas subjetividades, a auto-percepção e a auto consciência fortalecem a reflexão
das ações de forma responsável e implicativa.

3 – A REFLEXÃO ÉTICA E A AÇÃO CONSCIENTE E CONSEQUENTE

A transdisciplinaridade parte da compreensão de que a percepção complexa da realidade e o


envolvimento ético pessoal de pesquisadores, educadores e de todos os cidadãos é a base para uma
ação responsável e comprometida com a realidade construída por cada um. Essa também é a base
para o desenvolvimento da solidariedade e da consciência ambiental. O pensamento transdisciplinar
questiona qual é o mundo que você está construindo? Esse mundo está comprometido com a sua
ética? Onde existem profissionais, existem pessoas com valores e visões de mundo. Onde existem
pesquisadores, existe a oportunidade de construir uma ciência com consciência, caracterizada por
Edgar Morin como uma ciência comprometida com uma visão de mundo eticamente responsável e
conseqüente.

Assim, a pesquisa torna-se a expressão da ética do pesquisador e seu envolvimento a raiz de sua
eficiência e eficácia. Esse cenário auxilia o pesquisador a trazer para a consciência o sentimento que
lhe move no desenvolvimento de sua pesquisa, revelando sua responsabilidade na construção da
nação, o seu compromisso com a sociedade da qual faz parte e com o Planeta.

4 – O DIÁLOGO ENTRE CIÊNCIAS E CIENTISTAS – CONCEITOS E MÉTODOS

O diálogo entre palavras comuns que possuem conceitos específicos em cada área do conhecimento
foi um fator de importante reflexão. Por exemplo: ambiente e sagrado. Durante as oficinas sugiram
momentos onde alguns conceitos apresentados a partir da percepção de um participante não foram
aceitos por outros integrantes do grupo. Nesse momento, o grupo foi levado a refletir sobre o
respeito às diferenças, a importância do diálogo entre percepções e conceitos e a importância da
construção de sínteses consensuadas para a facilitação do trabalho em grupo. Alguns
questionamentos foram levantados no processo de avaliação:

“Os conceitos específicos de cada especialidade não deveriam ser trazidos para o grupo, evitando
assim conflitos. Para que precisamos discutir conceitos?”

A idéia inicial dos pesquisadores sobre conceitos diferentes abordados em um grupo resultava ou
em conflito, onde cada defende seu ponto de vista ou em deixar de abordar, ficando cada um com o
seu. Então, para que dialogar sobre conceitos e nos acordar sobre um conceito comum? Essa
questão gerou a reflexão sobre o sentido dos métodos e dinâmicas trabalhadas nas oficinas e no
processo de mediação trabalhado com o grupo.

A compreensão de que os conflitos conceituais formam a base do distanciamento entre as ciências e


os cientistas, abrem uma perspectiva para a importância do diálogo. Firmada em paradigmas e
conhecimentos estruturadores do universo disciplinar, especialista, originada do princípio cartesiano
de produzir ciência e perceber o mundo, a ciência clássica foi construída a partir da afirmação de
um conhecimento no processo de negação do outro. Essa é uma dinâmica baseada na lógica binária,
do zero ou um, onde os conhecimentos competem entre si e se afirmam na superação.
A transdisciplinaridade propõe que a ciência seja praticada a partir do diálogo e da construção
coletiva, onde a lógica binária dá lugar à ternária, e entre zero e um existem infinitas possibilidades
de interações. Do ponto de vista conceitual, isso quer dizer que, de um lado está um conceito
biológico da palavra ambiente, do outro lado está um conceito sociológico da mesma palavra. Entre
esses dois conceitos estão infinitas possibilidades de construção de novos conceitos que poderão
incluir até mesmo outras áreas da ciência e outros saberes. É claro que a biologia terá sempre o seu
conceito biológico de ambiente, mas também ganhará outros conceitos sobre essa mesma palavra,
facilitando assim sua comunicação com outras áreas e outros saberes.

Então para que trazer os conceitos disciplinares e discutir sob o ponto de vista de todos?
Inicialmente para construir alguns acordos conceituais, favoráveis ao diálogo e à comunicação,
onde cada especialista reconheça a legitimidade dos universos disciplinares e reconheça ainda os
conceitos construídos coletivamente no processo de trabalho conjunto, assumindo de forma co-
responsável o trabalho do grupo, diminuindo conflitos e expandindo conhecimentos mútuos e
coletivos entre as diferentes áreas. Essa é a base da ação comunicativa proposta por Habermas,
como uma ação capaz de estabelecer diálogos na construção de domínios comuns de linguagem.

A transdisciplinaridade reconhece a realidade como complexa e interdependente. Esse


reconhecimento propõe uma ciência capaz de interagir e atuar de forma complexa, ou seja, como
um tecido que, ao tempo em que forma uma unidade, revela a diversidade, integridade e
singularidade de cada fio. Assim, para melhor compreender um fenômeno complexo é necessária
uma episteme complexa, capaz de produzir uma ciência integrada e integradora. Um bom exemplo
é a necessidade de conhecer a complexidade da Baía do Almirantado, para melhor conhecer sua
biodiversidade. O diálogo entre as diferentes áreas da ciência é condição fundamental para a
construção desse conhecimento transdisciplinar.

5 – A ANTÁRTICA NA CONSTRUÇÃO DA CONSCIÊNCIA AMBIENTAL

Durante a oficina realizada com o Arsenal de Marinha o elemento mais significativo da expressão
dos participantes foi a emoção gerada na convivência com o ambiente e as mudanças que essa
convivência proporcionou.

“A Antártica aumentou a minha reflexão sobre a natureza e a forma de ver o sistema. Ela pode
contribuir para incentivar a consciência ambiental”.

“A Antártica me mostrou a importância do cuidado para com o futuro. As pesquisas desenvolvidas


aqui podem aumentar o conhecimento para o Brasil e a consciência do brasileiro”.

“A Antártica ampliou o meu conhecimento e respeito à natureza. Ela pode ajudar com a pesquisa a
melhor conhecer o Planeta e preservar, fazendo o povo brasileiro conhecer os ecossistemas”.

Outro aspecto destacado pelos participantes foi o interesse em conhecer o que está sendo
pesquisado e o que existe naquele lugar, os tipos de rochas, animais, vegetais, clima e paisagem.

“Seria muito bom que aqui na EACF tivessem amostras das rochas com os nomes, a foto dos
bichos e dos musgos com a identificação. Assim agente poderia reconhecê-los lá fora e até ajudar
nas coletas. Inclusive poderíamos apresentar para os visitantes que chegam à Estação”.

Os depoimentos revelaram o potencial da divulgação das pesquisas e da Antártica como fator de


sensibilização ambiental.

Nas oficinas com os pesquisadores foram destacados outros aspectos de relevância como a relação
entre ciência, ambiente e política como referência de relação humana com a natureza. Essa questão
foi destacada principalmente pela relação respeitosa que o pesquisador tem nesse ambiente, assim
como todos os seres humanos que ali se encontram. A questão política foi apontada como modelo
de gestão de um território e exemplo de convivência pacífica entre as nações.

“Lugar de repensar a relação entre ciência e política”.

“A relação entre ciência e meio ambiente no Tratado é uma referência”.

“A Antártica é um exemplo político”.

A relação de pertinência entre a pesquisa, o Brasil e o Planeta propiciou uma reflexão da conexão
entre a Antártica e o sentido da pesquisa desenvolvida, gerando ampla discussão. O aspecto mais
claramente abordado como a percepção dos pesquisadores sobre essa implicação esteve relacionado
à questão da geração de conhecimento com vistas à formação de pessoas e ao desenvolvimento da
consciência de preservação.

“Gerar conhecimento”.

“Pesquisar para preservar”.

“Avaliação de condutas aplicáveis a outros lugares”.

“Gerar conhecimento e contribuir para a formação de pessoas”.

“Consciência e conhecimento para gerar a preservação”.

“Conexão entre o manejo da água no lugar que é o maior reservatório de água do mundo”.

Foi observada no discurso de pesquisadores e militares presentes na EACF a percepção da


importância da Antártica e das pesquisas como oportunidade de ampliação do conhecimento da
sociedade brasileira sobre as questões ambientais, científicas e políticas, expandindo a consciência
ambiental local e global, em um continente único, cujo modelo de convivência humana com a
natureza e entre as nações se configura como referência e exemplo para o Brasil e o mundo.

IV - CONCLUSÕES

A partir da pesquisa realizada e das avaliações alguns resultados foram observados, originando
sugestões e encaminhamentos dirigidos às instituições envolvidas no PROANTAR. Os resultados e
encaminhamentos estão apresentados em duas estratégias:

1 - CONTRIBUIÇÃO DA ABORDAGEM TRANSDISCIPLINAR:

a) Os fundamentos da transdisciplinaridade: a complexidade, as dimensões de realidade e a


matemática ternária, trabalhados de forma metodológica, ao contribuir com o
desenvolvimento da episteme complexa do pesquisador e ao favorecer a mediação e
interação entre as diferentes áreas do conhecimento, podem contribuir para o diálogo
conceitual e metodológico entre pesquisadores, facilitando a produção de pesquisas
complexas e integradoras.

b) A valorização da pessoa, em sua subjetividade e contexto social, cultural, histórico e


ambiental é fator facilitador das relações inter-pessoais entre pesquisadores e entre estes e os
militares. O desenvolvimento de atividades com esse enfoque poderia ser considerado desde
o momento do Treinamento Pré-Antártico (TPA) até o momento do desenvolvimento das
atividades na Antártica, buscando ampliar a consciência ética, mediar conflitos e ampliar a
convergência das ações na busca de ampliar a efetividade dos objetivos do Programa.

2 - PROGRAMA DE EDUCAÇÃO E COMUNICAÇÃO DO PROANTAR:

c) A reflexão ética sobre as pesquisas e suas implicações para o Brasil e o Planeta abrem uma
perspectiva concreta de valorizar os resultados produzidos no PROANTAR para a sociedade
brasileira, sob forma de um programa educativo e comunicativo, envolvendo a educação
formal, a educação não formal e a educação difusa, com a educomunicação. Como
componentes fundamentais do PROANTAR, seriam envolvidas todas as pesquisas e seus
investigadores, assim como todas as instituições participantes e seus representantes, civis e
militares.

d) O êxito dos resultados do trabalho na EACF e a solicitação de pesquisadores para a


realização dessas dinâmicas transdisciplinares nos acampamentos e no Navio Ary Rongel
sugerem ao projeto de educação e comunicação a inclusão de todos esses ambientes de
pesquisa do PROANTAR, considerando inclusive a divulgação de todas as formas de
pesquisa realizadas no Programa.

e) Reconhecendo a riqueza dos registros coletados junto aos pesquisadores sobre suas
pesquisas, métodos, desafios e resultados, considerando os vinte e seis anos de PROANTAR
e os resultados das pesquisas realizadas nesse período, um Programa de Educação e
Comunicação para a inclusão da Antártica na formação da cidadania brasileira é uma
oportunidade para fortalecer o conhecimento do brasileiro sobre a importância da pesquisa
Antártica e sobre a relevância desse continente para o Brasil e o Planeta, em uma
perspectiva de construção de uma consciência ambiental local e global.

AGRADECIMENTOS

Este trabalho integra o projeto relacionado ao Census of Antarctic Marine Life (CAML) de Ano Polar Internacional
(API), “Vida Marinha na Antártica: Biodiversidade em Relação à Heterogeneidade Ambiental na Baía do Almirantado,
Ilha Rei George, e áreas adjacentes (MABIREH)”, no âmbito do Programa Antártico Brasileiro PROANTAR-CNPq
(Proc. API No.: 52.0293/2006-1). Agradecemos ao apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), Ministério do
Meio Ambiente (MMA), Secretaria Interministerial para os Recursos do Mar (SECIRM) e Frente Parlamentar em Prol
do Programa Antártico Brasileiro, pelo apoio científico, logístico e financeiro que viabiliza a execução do projeto.
Agradecemos ainda ao Grupo Base, ao Arsenal de Marinha, aos pesquisadores que participaram conosco desse trabalho
e à Professora Lúcia Campos pela dedicada revisão desse artigo.

BIBLIOGRAFIA
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PROANTAR. Tratado da Antártica e Protocolo de Madri. Brasília, dezembro de 2001.p.64.
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Rei George, e áreas adjacentes (MABIREH) – PROANTAR. Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, RJ, 2006.
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