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FABIANO LEITE GOMES

ENFOQUE SISTÊMICO DA AGROECOLOGIA NA SUSTENTABILIDADE DE SISTEMAS DE PRODUÇÃO AGRÍCOLA

Monografia apresentada ao Departamento de Ciência do Solo da Universidade Federal de Lavras, como parte das exigências do curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Gestão e Manejo Ambiental de Sistemas Agrícolas, para obtenção do título de Especialista.

Orientador Prof. Robson Amâncio

LAVRAS

MINAS GERAIS - BRASIL

2005

FABIANO LEITE GOMES

ENFOQUE SISTÊMICO DA AGROECOLOGIA NA SUSTENTABILIDADE DE SISTEMAS DE PRODUÇÃO AGRÍCOLA

Monografia apresentada ao Departamento de Ciência do Solo da Universidade Federal de Lavras, como parte das exigências do curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Gestão e Manejo Ambiental de Sistemas Agrícolas, para obtenção do título de Especialista.

APROVADA em 23 de Agosto de 2005.

Profª. Christiane Oliveira da Graça Amâncio.

Profº. Marx Leandro Naves Silva.

Prof. Robson Amâncio UFLA (Orientador)

LAVRAS

MINAS GERAIS - BRASIL

2005

DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho primeiramente a Deus, a minha grande fortaleza que é a minha mãe (Engª Agrª Maria Eunides Leite Gomes), ao meu irmão (Elton), a memória do meu avô materno e padrinho - Francisco Vital Leite "Padrim Chiquim", a minha avó – Maria Leite Barbosa e a todos os agroecologistas e ambientalista que dedicam-se as atividades profissionais no fortalecimento da agricultura familiar brasileira e proteção e conservação dos recursos naturais do nosso Brasil, respectivamente e em especial à todos que fazem a ONG-MMT (Movimento Minha Terra).

AGRADECIMENTOS

A todos que direta ou indiretamente me incentivaram

a busca de meus sonhos e ideais de vida.

A

luz divina de nosso Pai Criador "DEUS".

E

a todos os Santos, atenção a Santa Luzia.

RESUMO

A presente monografia trata de uma revisão bibliográfica sobre o trinômio sustentabilidade/agroecologia/sistemas agrícolas, donde, faz-se pensar, refletir e corroboar sobre as diversas linhas de pensamento de pesquisadores, estudiosos e cientistas sobre quais rumos devemos árbrita sobre o desenvolvimento sustentável para os nossos dias e futuro das próximas gerações. Ressalta o enfoque da ciência Agroecológica, que propuser aliar os conceitos e princípios desta, para a sustentabilidade de sistemas agrícolas auto-suficiente e diversificados, com a diversidade cultural dos agricultores/camponeses, buscando a transversalidade e fortalecimento das multi-relações das dimensões :

ambiental, social, econômica, político, ético e cultural, na busca de uma agricultura sustentável.

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SUMÁRIO

 

Página

RESUMO

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1 - INTRODUÇÃO

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2 - REVISÃO DE LITERATURA

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2.1 - O DILEMA DA SUSTENTABILIDADE

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2.2 - HISTÓRICO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

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2.3 - ENTENDO A AGROECOLOGIA

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2.3.1 - MULTIDIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE VERSUS AGROECOLOGIA

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2.3.1.1 - Dimensão ecológica

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2.3.1.2 - Dimensão social

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2.3.1.3 - Dimensão econômica

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2.3.1.4 - Dimensão cultural

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2.3.1.5 - Dimensão política

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2.3.1.6 - Dimensão ética

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- CONSIDERAÇÕES FINAIS

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 - INTRODUÇÃO

A busca de sistemas agrícolas auto-suficientes e diversificados de baixa utilização de insumos e que utilizam eficientemente a energia, é atualmente motivo de pesquisas, preocupação e esforços de pesquisadores, agricultores e políticos em todo o mundo. O século XX ficou marcado por enormes curvas expomenciais de desenvolvimento na âmbito econômico, às vezes, abruptas e inconsequêntes de causa-efeito, sobre o meio-ambiente, porém, com pouca sustentabilidade. Fantásticos avanços foram verificados em diferentes áreas da ciência, do conhecimento e da tecnologia, porém, concebidas por muitas sem considerar a própria espécie humana e o meio ambiente. Referencias a sustentabilidade ou "Desenvolvimento Sustentável" que foi forjado nas últimas décadas do século passado, expressão corriqueira, na moda, utilizada por diversos segmentos da sociedade, deparando-se com os mais diversos conflitos de enteresses resultantes do eterno embate entre interesses sócio-econômicos, desprovidos da dimensão ambiental, desde a omissão ao meio ambiente das relações contábeis, onde o mercado preocupa-se meramente pela Lei da oferta e demanda. Mas, foi a partir da década de 70 , com a crise do petróleo que abalou o sistema econômico internacional e explicitou a insustentabilidade do mesmo modelo de desenvolvimento, que partiu daí mudanças no modo de produção com vistas ao equilíbrio entre a economia e a natureza. Vê-se como os principais enfoques como é tratado a sustentabilidade e o uso errôneo de conceito, desenvolvimento sustentável, ora omitindo significado de natureza ideológica e provocando confusões; porém sabemos da dominância de cada corrente de pensamento que expressa-se, dado que a corrente ecotecnocrática que julga e ressalta a Revolução Verde Verde e a corrente

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ecossocial que trata por mudanças estruturais profundas na sociedade urbana e rural.

No atual momento, referencia a busca incansável de recuperar os agroecossistemas atuais, que é uma necessidade real para reservar recursos genéticos para uma geração futura, que na atualidade reservamos a destruí-la. A agroecologia propõem um desenho de métodos de desenvolvimento endógeno para o manejo ecológico dos recursos naturais, utilizando elementos específicos de cada identidade local, como o conhecimento local, a participação do valor endógeno, para com isso sugerir a proposição de soluções tecnológicas específica de cada localidade, recriando a heterogeneidade do meio rural através de ações sociais coletivas de caráter participativo. No momento em que introduzimos uma monocultura em larga escala, nós oferecemos uma grande quantidade de alimento para uma determinada espécie cuja população aumenta rapidamente, e ela se transforma em praga. Seus inimigos naturais demorarão um pouco mais para aumentarem sua população e poderem controlá-la. Nesse meio tempo entram os agrotóxicos causando um desequilíbrio ainda maior e provocando o aparecimento de indivíduos resistentes ao agrotóxico usado. Para reverter esse quadro é imprescindível montar sistemas de produção que promovam a biodiversidade tanto das plantas como dos animais, tanto acima como abaixo do solo. Isso pode ser conseguido através de programas de rotação de culturas, de cultivos consorciados, de cultivos em faixas, adubação verde, convivência com o mato, cobertura morta, interação com a pecuária e outras. Ressalta-se que o presente conteúdo têm como objetivo colaborar para o aguçar do pensamento técnico-científico de professores, pesquisadores e estudantes de forma geral, sobre o que vários pensadores contemporâneos discorre sobre o Desenvolvimento Sustentável e a Agroecologia. Poderemos

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notar e observar que o desenvolvimento sustentável é um produto inacabado, porém à disposição das pessoas.

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2 - REVISÃO DE LITERATURA

2.1 - O DILEMA DA SUSTENTABILIDADE

Segundo Martins (1999) não existe um manual de sustentabilidade e portanto as receitas carecem de sentido. É mais um estilo, no sentido de que significa comportamento, conduta e prática. Pressupõe princípios plasmados em valores que constróem a história individual e coletiva do ser humano em sua relação com a natureza. De acordo com o físico Fritjof Capra (1997), citado por Augusto de Franco (1999), mostra que sustentabilidade é a consequência de um complexo padrão de organização que apresenta cinco características básicas:

Interdependência, reciclagem, parceira, flexibilidade e diversidade. Ele sugere que, se estas características, encontradas em ecossistemas, forem "aplicadas" às sociedades humanas, essas sociedades também poderão alcançar a sustentabilidade. Portanto, segundo a visão de Capra, sustentável não se refere apenas ao tipo de interação humana com o mundo que preserva ou conserva o meio ambiente para não comprometer os recursos naturais das gerações futuras, ou que visa unicamente a manutenção prolongada de entes ou processos econômicos, sociais, culturais, políticos, institucionais ou físico-territoriais, mas uma função complexa, que combina de uma maneira particular cinco variáveis de estado relacionadas às características acima. Para Gliessman (2001) a sustentabilidade significa coisas diferentes para distintas pessoas, mas há uma concordância geral de que ela tem uma base ecológica. No sentido mais amplo, a sustentabilidade é uma versão do conceito de produção sustentável - a condição de ser capaz de perpetuamente colher biomassa de um sistema, porque sua capacidade de se renovar ou ser renovado não é comprometida. Como a "perpetuidade" nunca pode ser demonstrada no

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presente, a prova da sustentabilidade permanece sempre no futuro, fora do alcance. Assim, é impossível se saber, com certeza, se uma determinada prática é, de fato, sustentável ou se um determinado conjunto de práticas constitui sustentabilidade. Contudo, é possível demonstrar que uma prática está se afastando da sustentabilidade (mecanização intensiva, fogo, agrotóxicos, monocultivos extensos e outras). A sustentabilidade é alcançada através de práticas agrícolas alternativas, orientadas pelo conhecimento em profundidade dos processos ecológicos que ocorrem nas áreas produtivas e nos contextos mais amplos dos quais elas fazem parte. A partir desta, podemos caminhar na direção das mudanças socioeconômicas que promovem a sustentabilidade de todos os setores do sistema alimentar (Gliessman, 2001). Segundo Gliessman (2001), a sustentabilidade é, em última, um teste de tempo: um agroecossistema que continua produtivo por um longo período de tempo sem degradar sua base de recursos - quer localmente, quer em outros lugares - pode ser dito sustentável. Mas o que exatamente constitui um "longo período de tempo"? como se determina se houve degradação de recursos? E como pode ser desenhado um sistema sustentável, quando a prova da sua sustentabilidade está sempre no futuro?. Para Martins (1999) a sustentabilidade tem se apresentado como uma forma alternativa de resistência e oposição ao status quo . O Vocábulo sustentabilidade compreende o sentido de continuidade de vida, de manutenção ou prolongamento no tempo. A definição de Pearce (1998), citado por Amâncio (2001): "a sustentabilidade requer no mínimo a manutenção no tempo de um estoque constante de capital natural ". a sustentabilidade é entidade como a de um recurso ou de um ecossistema e depende de um equilíbrio entre os ritmos de extração que asseguram um mínimo de renovabilidade para o recurso. Uma

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outra definição é centrada na capacidade de sistema produtivo de manter sua produtividade apesar das possíveis pertubações, stress ou choques a que esteja exposto. Finalmente, uma terceira definição está no Relatório Brundtland: "o desenvolvimento sustentado é aquele que responde às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de responder às suas necessidades". Esta definição está centrada na sustentabilidade do desenvolvimento econômico e é criticada por vários autores, como Redclift (1987;1991), que insistem que não se pode pensar nas gerações futuras quando parte da geração atual não atende às suas necessidades básicas, citado por Amâncio (2001). De acordo Costabeber e Caporal (2002), o reconhecimento de que a sustentabilidade, enquanto objetivo a alcançar no curto, médio e longo prazos, encerra grande complexidade conceitual e analítica (o que pode ser observado pela perspectiva multidimensional antes apresentada), não existe consenso sobre um conceito operacional de sustentabilidade e tampouco há acordo entre distintas correntes que vêm abordando essa temática desde diferentes campos do conhecimento. Tomando como ponto de partida o conceito de desenvolvimento sustentável proposto pelo Relatório Brundtland, cuja debilidade, como dissemos, já aparece na falta de precisão do termo necessidades, podemos identificar, atualmente, pelo menos duas grandes correntes do desenvolvimento que apresentam enfoques pouco reconciliáveis entre si. A corrente ecotecnocrática do desenvolvimento sustentável parte da premissa de que a humanidade tem ao seu dispor recursos naturais em quantidades quase infinitas, o que permitiria o crescimento (da produção e do consumo) continuado através do tempo. Nessa perspectiva, predomina um otimismo tecnológico relacionado às nossas capacidades de proceder um processo de "substituição sem fim" dos recursos naturais não renováveis,

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evitando as possibilidades de colapso: se considera a natureza como um subsistema da economia. Por outro lado, a corrente ecossocial assume a cautela e recomenda a prudência tecnológica, dada a aceitação de que os recursos naturais necessário para a manutenção da vida sobre o planeta são limitados e finitos. Mesmo com a aplicação de novas tecnológias, a substituição desses recursos pode ser alcançada apenas de forma relativa e nunca absoluta. Diferentemente da primeira, essa corrente assume que é a economia um subsistema da natureza, e não o contrário (Costabeber e Caporal, 2002). Para Gliessman (2001) um agroecossistema é tido como sustentável quando o que mantém a base de recursos da qual depende, conta com um uso mínimo de insumos artificiais vindos de fora do sistema de produção agrícola, maneja pragas e doenças através de mecanismos reguladores internos e é capaz de se recuperar de pertubações causadas pelo manejo e colheita. Para Osório e Pinzón (2001) a concentração de renda no Brasil ergue-se como forte obstáculo à sustentabilidade, já que uma das consequências da pobreza extrema é a sobrecarga que recai sobre os recursos naturais. No Brasil, diz o Relatório de Desenvolvimento Humano de 1998 que os 50% mais pobres da população dispõem de apenas 11,6% da renda; os 10% mais ricos detêm 48% da renda e os 20% mais pobres apenas 2%, ao mesmo tempo 1% dos proprietários de terras acumulam 46% das mesmas. Esta realidade exige redobrar os esforços para alcançar o desenvolvimento sustentável, pois será impossível alcançá-lo sem modificar profundamente o quadro da distribuição de renda no País. Apesar dos desafios acima citados, precisamos mensurar o que se compreende por sustentabilidade. Em resumo, Gliessman (2001), no seu livro "Agroecologia - Processos Ecológicos em Agricultura Sustentável", fala da tarefa de identificar os parâmetros da sustentabilidade - características específicas dos agroecossistemas que constituam peças-chave em seu

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funcionamento - e determinar em que nível ou condição esses parâmetros devem ser mantidos para que um funcionamento sustentável possa ocorrer. Através deste processo, podemos identificar o que chamaremos de indicadores de sustentabilidade - condições específicas do agroecossistema, necessárias para a sustentabilidade, e indicadores dela. Com tal conhecimento será possível prever se um determinado agroecossistema pode, ou não, ser sustentável a longo prazo, e desenhar agroecossistemas que tenham a melhor chance de se mostrar sustentáveis.

2.2 - HISTÓRICO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Na antiguidade o homem não enxergava seu destino. Seu horizonte era fechado. A vida era encarada como uma fatalidade. Na idade média o sentimento era de pessimismo com a crença da proximidade do fim do mundo. Somente a partir de 1500, com os "descobrimentos", inaugura-se uma era de otimismo. Surge a noção de progresso como peça básica da civilização ocidental moderna, vinculado ao processo histórico do aperfeiçoamento da sociedade. Segundo Almeida (1997) nos séculos XVIII e XIX o progresso tinha um sentido evolucionista na direção do crescimento e da ampliação de conhecimentos; além das ciências referia-se as melhorias das condições de vida quanto as liberdades econômicas como ao bem estar econômico. Mas paradoxalmente, na medida em que o homem foi "progredindo em seu processo civilizatório", com o nascimento do capitalismo e das revoluções industriais apoiadas na ciência e na tecnologia, a sociedade foi afastando-se da natureza, (Martins, 1999). Ao passo do progresso, o homem se tornou protagonista das decisões do presente e do futuro da humanidade, porém, a situação toma um rumo de insustentabilidade, e passa a exprimir a sua força em exageros de brutalidade,

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onde inúmeras vezes, se valeu do predomínio dos mais fortes e poderosos, para desbravar a ética, a moral e a própria lei. Surge na sociedade ocidental o conceito de crescimento, no início de século XX, com dimensões puramente quantitativas, donde não levavam em consideração as questões ambientais. Segundo Martins (1999) foi a partir da década de 50 que aparece a noção de desenvolvimento, como desdobramento do crescimento. Deste modo a dimensão exclusivamente econômica é ampliada para as sociais e culturais. Nasce como parte da nova ordem internacional instaurada pelos vencedores da segunda guerra mundial, com a criação do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional e do GATT, e com profundas contradições. Em análise construtivista Martins (1999), comenta que "ao mesmo tempo que pretende contemplar a dimensão cultural, a noção de desenvolvimento é forjada num padrão ocidental que pretende ser paradigma do humanismo. Pressupondo haver subdesenvolvimento, esta nova ordem instalada acena com a possibilidade para os países subdesenvolvidos de alcançar o padrão dos países desenvolvidos, muito embora a mesma seja inaugurada com desiguais oportunidades entre os mesmos. Com papéis bastante definidos entre norte e sul, centro e periferia ( o Plano Marshall é um exemplo bastante evidente disto)". A perspectiva desenvolvimentista, notoriamente hegemônica no período pós segunda guerra, orientava para o crescimento econômico, permanente e baseado no consumo abusivo de recursos naturais não renováveis, como condição básica e indispensável para que as sociedades tidas como subdesenvolvidas superassem o "atraso" e alcançassem o "progresso", condição já presente nas nações e sociedades consideradas como desenvolvidas. Os problemas gerados nesse processo e as insuficiências desse enfoque já são bastante conhecidos e não necessitam ser aqui reproduzidas, bastando lembrar que o reconhecimento da crescente insustentabilidade do modelo convencional

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de desenvolvimento resultou de uma série de eventos, obras e alertas 1 que, ao longo dos últimos 40 anos, vem despertando a comunidade científica e a opinião pública sobre a necessidade de novos enfoques mais respeitosos com o meio ambiente, socialmente desejáveis, politicamente aceitáveis e viáveis sob o ponto de vista econômico 2 (Costabeber e Caporal , 2002). No final da década dos sessenta e início dos ano 70, especialmente com a crise do petróleo, aparece o trinômio energia/sociedade/natureza como estrela da agenda internacional. Explicita-se a necessidade da economia considerar o consumo energético, pois pressupõe a produção de bens e serviços apoiados em fontes não renováveis (petróleo) e portanto finitas. Por outro lado a sociedade, além de receber o impacto econômico resultante do aumento do custo do petróleo, recebe as consequências do impacto ambiental de um modelo econômico que agride, degrada e compromete a natureza como base de recursos finitos. Proliferam os grupos ambientalistas. Um novo conceito aparece: o ecodesenvolvimento, mais tarde consolidado como desenvolvimento sustentável (Martins, 1999). Segundo Amâncio (2001), no final da década de 1960, tiveram início a reflexão e o debate sobre a relação entre o meio ambiente e o crescimento. Prevaleciam, nesse momento, duas posições: a daqueles que apontavam os "limites do crescimento", isto é, que o crescimento exponencial ilimitado era incompatível com a disponibilidade limitada dos recursos naturais. A única saída para salvar o mundo da catástrofe resumia-se em parar o crescimento imediatamente - eram os catastrofistas do "crescimento zero", inspirados no Relatório do Clube de Roma. Por outro lado, havia aqueles que afirmavam que a problemática ambiental foi inventada pelos países desenvolvidos para frear a

1 Quadro-resumo desses eventos e alertas pode ser visto Caporal e Costabeber (2002a).

2 O fracasso do modelo convencional de desenvolvimento pode ser facilmente identificado a partir de dados recentemente divulgados pela FAO, que mostram que já são 840 milhões de subnutridos no mundo, dos quais 54 milhões se encontram no Brasil.

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ascensão do Terceiro Mundo e que, quando a renda per capita aumentasse, retomar-se-ia a discussão sobre a deterioração ambiental. O Relatório do Clube de Roma foi elaborado a partir das conclusões de um modelo econométrico que previa o esgotamento dos recursos renováveis e não renováveis, dados o modelo de crescimento, o padrão tecnológico e a estrutura da demanda internacional. Retomou-se a problemática clássica, em particular a Malthusiana, da compatibilidade no longo prazo entre o crescimento e a demografia, nos limites do patrimônio natural fixo. Na época de sua publicação , a abordagem do Clube de Roma foi bastante contestada. Já na preparação para a Conferência de Estocolmo, um grupo reunindo especialista em ciências naturais e sociais, em Founex, Suíça, havia declarado que, para se atingir o desenvolvimento econômico, a prioridade ambiental era fundamental e que, desta, dependia não somente a qualidade de vida, mas a própria vida humana (Amâncio, 2001). Para Martins (1999), fato marcante foi a realização da Primeira Conferências das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano, conhecida também como Conferência de Estocolmo-1972, que vislumbrou a necessidade de implementação de estratégias ambientalmente adequadas para promover um desenvolvimento sócio-econômico equitativo, mas cuja ênfase foi colocada nos aspectos técnicos da contaminação, provocada pela industrialização, crescimento populacional e urbanização. O vocábulo foi assumido pelo Seminário sobre Meio Ambiente de Cocoyoco, realizado no México em 1974, que ratificou as conclusões do informe do Clube de Roma sobre "Os limites do crescimento". O evento de Cocoyoco revelou o caráter estrutural dos problemas ambientais e a crise global, insistindo que as desigualdades sócio-econômicas e o deterioro ambiental são consequências dos modelos de desenvolvimento e formas de vida, indicando a

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necessidade de novos estilos de desenvolvimento alternativos e de uma nova ordem internacional (Jiménez, 1992) citado por Martins (1999). O interesse pelas questões ambientais no Brasil começou a ser disseminado em 1972, a partir da Conferência de Estocolmo e foi legitimado por meio da Lei Nº 6.938 de 31 de agosto de 1981, que dispõe sobre a Política Nacional de Meio Ambiente. Esta Lei cria o Sistema Nacional do Meio Ambiente - SISNAMA -, o Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA - e fixa os instrumentos da política nacional do meio ambiente. Já em 1988, foi dado outro importante passo, incorporando na nova Constituição do País a questão ambiental e outorgando-lhe a merecida importância no artigo 225. Este capítulo está sendo levado à prática por meio de leis como as de número: 8.974 de 5-1-1995 que trata do patrimônio genético; 9.795 de 27-4-1999 que trata da política nacional de educação ambiental e especialmente a de número 9.605 de 12-2-1998 que trata dos crimes ambientais (Osório e Pinzón, 2001). Em termos de política internacional, o Relatório Brundtland enriquece a problemática, uma vez que introduz o conceito de equidade entre grupos sociais (ricos e pobres), países (desenvolvidos e em desenvolvimento) e gerações (atuais e futuras). Ainda em termos de política internacional, as idéias de "responsabilidade comum" e de globalização dos problemas ambientais têm sido utilizadas para justificar o "direito de ingerência", ou seja, a comunidade internacional pode interferir na soberania nacional, desde que o bem estar ou o patrimônio da humanidade esteja ameaçado (Amâncio, 2001). O informe Brundtland-1987, foi elaborado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, entre os anos 1983 à 1986, constituída por 21 países, presidida pela Primeiro Ministro da Noruega Gro Harlem Brundtland.

"Desenvolvimento

sustentável,

é

o

que

satisfaz

as

necessidades

presentes

sem

comprometer

as

possibilidades

das

futuras

gerações

satisfazer

suas

próprias

necessidades"

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De acordo com Kowarich (1995) o relatório apesar de não ser tão contundente como a declaração de Cocoyocos, apresenta a degradação ambiental

abordando causas e efeitos, propondo políticas nacionais e internacionais quanto

a aspectos econômicos, sociais, políticos e ambientais, objetivando buscar o

crescimento econômico de maneira compatível com a preservação da natureza. O relatório cobra a responsabilidade da geração atual com relação ao futuro, define metas a serem atingidas. Segundo Bruseke (1995) o relatório mostra um elevado grau de realismo, mas é um documento que mantém sempre um tom diplomático, omite as discussões quanto ao nível máximo de consumo, e torna a

superação do subdesenvolvimento no hemisfério sul dependente do crescimento dos países industrializados. Todas estas iniciativas redundaram na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento em 1992, também denominada ECO-92 ou RIO-92. Apesar da frustação de expectativas quanto a resultados concretos, que não passaram de um rol de boas intenções, o evento serviu para o crescimento das consciência de que pobreza e deterioro ambiental estão intimamente relacionados, assim como se identificou a responsabilidade dos países desenvolvidos nestes problemas. Quanto ao desenvolvimento sustentável

a ECO-92 reafirmou a necessidade de mudanças nos padrões de produção e

consumo, particularmente dos países industrializados (Guimaraes, 1993) citado por Martins (1999), e ratificou o conceito do Informe Brundtland. Também tendo como principal resultado desta conferência a aprovação da "Agenda 21", documento contendo uma série de compromissos acordados pelos países signatários, que assumiram o desafio de incorporar, em suas políticas públicas, princípios que desde já os colocavam no caminho do desenvolvimento sustentável. Decorridos mais de dez anos da Rio-92 (Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento), as avaliações sobre os avanços

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mundiais em direção ao Desenvolvimento Sustentável mostram progressos pouco significativos, apesar do espaço que os temas socioambientais passaram a deter nos diferentes organismos multilaterais, nos órgãos nacionais responsáveis pela gestão ambiental e pelas políticas sociais e mesmo na mídia mundial, como resultado da pressão dos diferentes movimentos sociais. Segundo o relatório brasileiro para a Rio+10 3 , que valia o meio ambiente no Brasil a partir da Rio- 92, temos pouco a comemorar, em que pese à implementação recente de várias convenções e tratados ambientais internacionais previstos naquela ocasião (Kitamura, 2003). Segundo kitamura (2003) no caso brasileiro, os avanços conseguidos, ainda tímidos, distantes de um resultado encadeado por políticas públicas, mostram que as mudanças da última década decorrem principalmente de iniciativas de setores econômicos na busca de posicionamentos estratégicos frente à globalização de mercados. Em termos de maior visibilidade, o próprio processo de competição fez com que empresas e produtores brasileiros mais articulados com o mercado internacional fossem os primeiros a introduzir instrumentos de gestão ambiental. No momento atual, as novas configurações do setor produtivo mostram a emergência de abordagem da questão ambiental que incluem todos os atores envolvidos na cadeia produtiva - desde o campo até o consumo final - tendo-se como alvo o mercado externo ou interno. A projeção que se fez é de influência dos requisitos ambientais na formatação do futuro do agronegócio brasileiro, em especial de alimentos. A nova cultura incorpora a gestão ambiental na interação do ser humano, natureza e sociedade, para melhoria da qualidade de vida e a defesa do meio natural, através da qualidade da produção (Osório e Pinzón, 2001). Apesar dos embates conceituais o paradigma da sustentabilidade se consolida como o principal, senão único, projeto utópico para o atual século pois

3 GEO Brasil 2002, Perspectivas do Meio Ambiente no Brasil. Brasília: Edições IBAMA, 2002. 447p.

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aglutina opiniões quanto a aspiração universal do equilíbrio entre as dimensões econômica, social e ambiental. Mas esta esperança não pode ocultar os limites e desafios para a construção de um mundo novo. O primeiro limite é própria ambiguidade da sustentabilidade fruto da dinâmica da correlação de forças entre as diferentes visões de mundo polarizadas na eterna luta entre as forças liberalizantes do mercado e os mecanismo de regulação e controle do mesmo pela sociedade. Aqui cabe a constatação de que na atualidade todos se abrigam debaixo deste imenso guarda-chuva chamado desenvolvimento sustentável, para em nome de um suposto desejo de harmonizar ambiente, economia e sociedade, continuem agindo, e talvez ainda de maneira mais contundente, em direção nitidadamente contrária: Aí estão as ações, tanto no âmbito público como privado, que potencializam o consumo desenfreado mesmo que isto signifique comprometer a natureza e provocar o desemprego de grande parte da população. Aqui cabe a pergunta, se não há a preocupação com as gerações atuais, como se pretende cumprir o princípio da sustentabilidade com relação as gerações futuras. Grosseiramente falando é a velha prática de vender gato por lebre (Martins, 1999).

2.3 - ENTENDENDO A AGROECOLOGIA

De algum tempo para cá, quase todos nós temos lido, ouvido, falado e opinado sobre a Agroecologia. As orientações daí resultantes têm sido muito positivas, porque a referência à agroecologia nos faz lembrar de uma agricultura menos agressiva ao meio ambiente, que promove a inclusão social e proporciona melhores condições econômicas para os agricultores de nosso estado. Não apenas isso, mas também temos vinculado a agroecologia à oferta de produtos "limpos", ecológicos, isentos de resíduos químicos, em oposição àqueles característicos da Revolução Verde. Por outro lado, e isto é importante que se

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diga, o entendimento do que é a Agroecologia e onde queremos e podemos chegar com ela não está claro para muitos de nós ou, pelo menos, temos tido interpretações conceituais diversas que, em muitos casos, acabam nos prejudicando ou nos confundindo em relação aos propósitos, objetivos e metas do trabalho que todos estamos empenhados em realizar (Caporal e Costabeber,

2002).

As duas ciências das quais a Agroecologia deriva - a ecologia e a agronomia - tiveram um relacionamento tenso durante o século XX. A ecologia ocupou-se principalmente do estudo de sistemas naturais, enquanto a agronomia tratou da aplicação de métodos de investigação científica à prática da agricultura. Uma das primeiras ocasiões de cruzamento fértil entre a ecologia e a agronomia ocorreu no final dos anos 20, com o desenvolvimento do campo da ecologia de cultivos. Nos anos 30, estes ecologistas na verdade, propuseram o termo agroecologia como a ecologia aplicada à agricultura (Gliessman, 2001). De acordo com Altieri (2002) as bases da agroecologia foram lançadas por diversos movimentos que surgiram quase simultâneos, nas décadas de 1920 e 1930 como contraposição ao modelo químico-mecanizado que, a esta altura, já começava a se delinear como o dominante nas agriculturas dos países desenvolvidos. Um ponto de partida para a agroecologia, foi a realização do primeiro Congresso Internacional de Ecologia, 1974, século XX, quando um grupo de trabalho desenvolveu um relatório intitulado "Análise de Agroecossistemas". Mais recentemente, a partir do início dos anos 80, com a intensificação do estudo e da revalorização dos métodos de manejo e gestão ambiental de sistemas agrícolas tradicionais, a Agroecologia constitui-se como uma nova disciplina científica que além dos aspectos tecnológicos, passou-a abordar com mais profundidade os componentes econômicos e sociais dos agroecossistemas (Altieri, 2002).

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Hoje, a agroecologia continua a fazer conexão entre fronteiras estabelecidas. Por um lado, a agroecologia é o estudo de processos econômicos e de agroecossistemas, por outro, é um agente para as mudanças sociais e ecológicas complexas que tenham necessidade de ocorrer no futuro a fim de levar a agricultura para uma base verdadeiramente sustentável (Gliessman,

2001).

O termo agroecologia pode significar muitas coisas. Definida de forma mais ampla, a agroecologia geralmente representa uma abordagem agrícola que incorpora cuidados especiais relativos ao ambiente, assim como os problemas sociais, enfocando não somente a produção, mas também a sustentabilidade ecológica do sistema de produção. Esta interpretação poderia ser considerada como "normativa" ou "prescritiva", porque envolve diversos fatores ligados à sociedade e à população, os quais estão além dos limites da agricultura. Num sentido mais estrito, a agroecologia refere-se ao estudo de fenômenos puramente ecológicos que ocorrem na produção agrícola, tais como relações predador/presa ou competição cultura/vegetação espontânea (Hecht,2002). Com base em vários estudiosos e pesquisadores nesta área (Altieri, Gliessman, Noorgard, Sevilla Guzmán, Toledo, Leff), citado por Caporal & Costabeber (2002), a Agroecologia tem sido reafirmada como uma ciência ou disciplina científica, ou seja, um campo de conhecimento de caráter multidisciplinar que apresenta uma série de princípios, conceitos e metodologias que nos permitem estudar, analisar, dirigir, desenhar e avaliar agroecossistemas 4 . Assim entendida, a agroecologia corresponde, ao campo de conhecimentos que proporciona as bases científicas para apoiar o processo de transição do modelo

4 Agroecossistema é a unidade fundamental de estudo, nos quais os ciclos minerais, as transformações energéticas, os processos biológicos e as relações sócioeconômicas são vistas e analisadas em seu conjunto. Sob o ponto de vista da pesquisa agroecológica, seus objetivos não são a maximização da produção de uma atividade particular, mas a otimização do agroecossistema como um todo, o que significa a necessidade de uma maior ênfase no conhecimento, na análise e na interpretação das complexas relações existentes entre as pessoas, os cultivos, o solo, a água e os animais (ALTIERI, 1989).

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de agricultura convencional para estilos de agriculturas de base ecológica ou sustentáveis, assim como do modelo convencional de desenvolvimento a processo de desenvolvimento rural sustentável. Partindo, especialmente, de escritos de Miguel Altieri, observa-se que a agroecologia constitui um enfoque teórico e metodológico que, lançando mão de diversas disciplinas científicas, pretende estudar a atividade agrária sob uma perspectiva ecológica. Sendo assim, a agroecologia, a partir de um enfoque sistêmico, adota o agroecossistema como uma unidade de análise, tendo como propósito, em última instância, proporcionar as bases científicas (princípios, conceitos e metodologias) para apoiar o processo de transição do atual modelo de agricultura convencional para estilos de agricultura sustentáveis. Então, mais do que uma disciplina específica, a agroecologia se constitui num campo de conhecimento que reúne várias "reflexões teóricas e avanços científicos, oriundos de distintas disciplinas" que têm contribuído para conformar o seu atual corpus teórico e metodológico (Guzmán Casado et al., 2000: 81). Por outro lado, como nos ensina Gliessman (2000), o enfoque agroecológico pode ser definido como "a aplicação dos princípios e conceitos da Ecologia no manejo e desenho de agroecossistemas sustentáveis", num horizonte temporal, partindo do conhecimento local que, integrando ao conhecimento científico, dará lugar à construção e expansão de novos saberes socioambientais, alimentando assim, permanentemente, o processo de transição agroecológica, citado por Caporal e Costabeber (2004). A agroecologia contribuiu para o desenvolvimento do conceito de sustentabilidade na agricultura. Enquanto a sustentabilidade fornecia uma meta para focalizar a pesquisa agroecológica, a abordagem de sistema integral da agroecologia e o conhecimento de equilíbrio dinâmico proporcionavam uma base teórica e conceitual consistente para a sustentabilidade. Em 1984, diversos autores estabeleceram a base ecológica da sustentabilidade nos anuais de um

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simpósio (Douglas, 1984); esta publicação teve um papel destacado na solidificação da relação entre a pesquisa agroecológica e a promoção da agricultura sustentável, citado por Gliessman (2001). A agroecologia proporciona o conhecimento e a metodologia necessários para desenvolver uma agricultura que é ambientalmente consistente, altamente produtiva e economicamente viável. Ela abre a porta para o desenvolvimento de novos paradigmas da agricultura, em parte porque corta pela raiz a distinção entre a produção de conhecimento e sua aplicação. Valoriza o conhecimento local e empírico dos agricultores, a socialização desse conhecimento e sua aplicação ao objetivo comum da sustentabilidade. O que se requer, então, é uma nova abordagem da agricultura e do desenvolvimento agrícola, que construa sobre aspectos de conservação de recursos da agricultura tradicional local, enquanto, ao mesmo tempo, se exploram conhecimento e métodos ecológicos modernos. Esta abordagem é configurada na ciência da agroecologia, que é definida como a aplicação de conceitos e princípios ecológicos no desenho e manejo de agroecossistemas sustentáveis (Gliessman,

2001).

Para o alcance da sustentabilidade dos agroecossistemas, a agroecologia adota como princípios básicos a menor dependência possível de insumos extermos e a conservação dos recursos naturais. Em contrapartida, os sistemas agroecológicos buscam maximizar a reciclagem de energia e de nutrientes, de forma a minimizar a perda desses recursos durante os processos produtivos. Para viabilizar essa estratégia, a agroecologia pressupõe o desenho de sistemas produtivos complexos e diversificados mediante a manutenção de policultivos anuais e perenes associados com criações. Com a diversificação, esses sistemas tornam-se mais estáveis por aumentar a capacidade de absorver as perturbações inerentes ao processo produtivo da agricultura (sobretudo as flutuações

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mercadológicas e climatológicas), aumentando assim a capacidade de auto- reproduzir-se (Almeida et al, 2004). No Brasil, em geral, as experiências de promoção da agroecologia vêm sendo forjadas com pouca participação do Estado e dos grupos que dominam política e economicamente os rumos do desenvolvimento da agricultura. Nesta última década tal participação vem crescendo de forma gradativa e assistemática a partir de iniciativas isoladas de alguns governos municipais e estaduais. Apesar da grande heterogeneidade e do caráter parcial das experiências de promoção do desenvolvimento agrícola em bases agroecológicas, esses conjunto aponta para a ruptura com o paradigma da químico-mecanização, que concebe o meio ambiente como uma mina ou um mero suporte físico do qual se extraem mercadorias e lucro imediato (Almeida et al, 2004). A transição agroecológica, pode ser definida como o processo gradual de câmbio através do tempo nas formas de manejo e gestão dos agroecossistemas, tendo como meta a passagem de um sistema de produção "convencional" (que pode ser mais ou menos intensivo em insumos externos) a outro sistema de produção que incorpore princípios, métodos e tecnologias com base ecológica. Nesta definição a idéia de "base ecológica" da atividade agrária se refere a um processo de ecologização dinâmico, continuo e crescente através do tempo, e sem ter um momento final determinado. Este processo de ecologização implica não somente uma maior racionalização produtiva em base às especificidades biofísicas de cada agroecossistemas, mas também uma mudança de atitude e valores dos atores sociais em relação ao manejo dos recursos naturais e a conservação do meio ambiente (Costabeber, 2004). Gliessman considera que as práticas agrícolas convencionais constituem a principal área para iniciar a transição em direção a sistemas mais sustentáveis. Em relação ao uso de fertilizantes e pesticidas químicos, por exemplo, observa que há, por um lado, quem crê que essa prática estaria contribuindo à

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degradação dos ecossistemas e, por outro lado, quem insiste que sem ela haveria uma imediata redução dos níveis de produção e produtividade. No entanto, assinala o mesmo autor, o desafio é justamente entender como os sistemas de produção poderiam ser desenhados e gestionados de maneira a diminuir ou evitar nossa dependência a este tipo de insumos. O enfoque agroecológico, que põe juntos a Agronomia e a Ecologia, "abarca simultaneamente o incremento da produtividade e o entendimento dos processos que fazem possível a manutenção daquelas produtividades" , citado por Costabeber (2004). A agroecologia não pode ser confundida com um estilo de agricultura. Também não pode ser confundida simplesmente com um conjunto de práticas agrícolas ambientalmente amigáveis. Ainda que ofereça princípios para estabelecimentos de estilo de agricultura de base ecológica, não se pode confundir Agroecologia com as várias denominações estabelecidas para identificar algumas correntes da agricultura "ecológica". Portanto, não se pode confundir agroecologia com "agricultura sem veneno" ou "agricultura orgânica", por exemplo, até porque estas nem sempre tratam de enfrentar-se em relação aos problemas presentes em todas as dimensões da sustentabilidade (Caporal e Costabeber, 2002).

2.3.1

AGROECOLOGIA

MULTIDIMENSÕES

-

DA

SUSTENTABILIDADE

VERSUS

Sob o enfoque agroecológico, a sustentabilidade deve ser estudada e proposta como sendo uma busca permanente de novos pontos de equilíbrio entre diferentes dimensões que podem ser conflitivas entre si em realidades concretas (Costabeber e Moyano, 2000). A sustentabilidade em agroecossistemas é algo relativo que pode ser medido somente ex-post. Sua prova estará sempre no

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futuro (Gliessman, 2000). Por essa razão, a construção do DRS (Desenvolvimento Rural Sustentável) deve assentar na busca de contextos de maior sustentabilidade, alicerçados em algumas dimensões básicas. Entendemos que as estratégias orientadas ao desenvolvimento rural sustentáveis devem ter em conta seis dimensões relacionadas entre si : ecológica, econômica, social (primeiro nível), cultural, política (segundo nível) e ética (terceiro nível) citado por Costabeber e Caporal (2002). A corrente agroecológica permeia na necessidade de que sejam construídos processos de desenvolvimento local rural participativo e agriculturas sustentáveis que levem em conta a busca do equilíbrio entre as seis dimensões da sustentabilidade.

2.3.1.1 - Dimensão ecológica

A manutenção e recuperação da base de recursos naturais - sobre a qual se sustentam e estruturam a vida e a reprodução das comunidades humanas e demais seres vivos - constitui um aspecto central para atingir-se patamares crescentes de sustentabilidade em qualquer agroecossistema. Portanto, "cuidar de casa" é uma premissa essencial para ações que se queiram sustentáveis, o que exige, por exemplo, não apenas a preservação e/ou melhoria das condições químicas, físicas e biológicas do solo (aspecto da maior relevância no enfoque agroecológico), mas também na manutenção e/ou melhoria da biodiversidade, das reservas e mananciais hídricos, assim como dos recursos naturais em geral. Não importa quais sejam as estratégias para a intervenção e planejamento do uso dos recursos - uma microbacia hidrográfica, por exemplo -, mas importa ter em mente a necessidade de uma abordagem holística e um enfoque sistêmico, dando um tratamento integral a todos os elementos do agroecossistema que venham a ser impactados pela ação humana (Costabeber e Caporal, 2002).

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De acordo com Darolt (2002) a dimensão ecológica considera a manutenção do estoque de recursos naturais e do meio ambiente a longo prazo. Assim, os principais problemas ecológicos são aqueles ligados ao consumo e à destruição da base de recursos naturais. Esses problemas podem ser avaliados em parte pela existência, maior ou menor em cada unidade de produção, de práticas preservacionistas ou predatórias ao meio ambiente.

A dimensão ambiental está em crise, caracterizada pela degradação das

pessoas e do espaço físico. Diz respeito à questão da qualidade dos alimentos e da preservação do ambiente e tem-se transformado em importante instrumento

de luta de parte significativa da sociedade e, principalmente, nas sociedades dos países de capitalismo avançado (Vilela, 1998).

A chave operacional é a conscientização que não precisamos inventar

comunidades humanas sustentáveis a partir do zero, mas que podemos modelá- las seguindo os ecossistemas da natureza, que são as comunidades sustentáveis de plantas, animais e micro-organismos. Uma vez que a característica notável da biosfera consiste em sua habilidade para sustentar a vida, uma comunidade humana sustentável deve ser planejada de forma que, suas formas de vida, negócios, economia, estruturas físicas e tecnologias não venham a interferir com a habilidade inerente à natureza ou à sustentação da vida (Capra, 1996). Segundo Figueiredo e Tavares de Lima (2003) a implantação de agrofloresta na Mata Atlântica permanbucana têm ampliado a biodiversidade:

flora e fauna, como o plantio consorciado denso de milhares de espécies de

distantas finalidades contribuiu para a formação de uma cobertura vegetal onde antes fora terra desmatada. Esta cobertura por sua vez protege e melhora o solo ao mesmo tempo que vem atraindo animais que buscam refúgio para viver; quanto a fertilidade do solo, a incorporação de árvores ao sistema de produção protege o solo, facilita a infiltração de água, além de disponibilizar folhas e gravetos, a terra fica desta maneira fértil.

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2.3.1.2 - Dimensão social

Ao lado da dimensão ecológica, a dimensão social representa precisamente um dos pilares básicos da sustentabilidade, uma vez que a preservação ambiental e a conservação dos recursos naturais somente adquirem significado e relevância quando o produto gerado nos agroecossistemas, em bases renováveis, também possa ser equitativamente apropriado e usufruído pelos diversos segmentos da sociedade. Sob o ponto de vista temporal, esta noção de equidade ainda se relaciona com a perspectiva intrageracional (disponibilidade de sustento mais seguro para a presente geração) e com a perspectiva intergeracional (não se pode comprometer hoje o sustento seguro das gerações futuras) (Simón Fernández e Dominguez Garcia, 2001), citado por Costabeber e Caporal (2002). A dimensão social inclui, também, a busca contínua de melhores níveis de qualidade de vida mediante a produção e o consumo de alimentos com qualidade biológica superior, o que comporta, por exemplo, a eliminação do uso de insumos tóxicos no processo produtivo agrícola mediante novas combinações tecnológicas, ou ainda através de opções sociais de natureza ética ou moral. Nesse caso, é a própria percepção de riscos e/ou efeitos maléficos da utilização de certas tecnologias sobre as condições sociais das famílias de agricultores que determina ou origina novas formas de relacionamento da sociedade com o meio ambiente, um modo de estabelecer uma conexão entre a dimensão social e a ecológica, sem prejuízo da dimensão econômica (um novo modo de "cuidar de casa" ou de "administrar os recursos da casa") (Costabeber e Caporal , 2002). Vale salientar também, uma dimensão social em crise a partir do momento em que passou a haver uma exclusão de agricultores, inclusive nos países de capitalismo avançado, como produto da "crise do produtivismo". O

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excesso de produção naqueles países exigiu que menos produtores ficassem no campo ou, dizendo de outra forma, que menos produtores produzissem produtos agrícolas. Já no Brasil, os motivos principais foram a concentração da propriedade fundiária, a insustentabilidade da renda agrícola e o atrativo dos bons salários do meio urbano 5 (Vilela, 1998). De acordo com Figueiredo e Tavares de Lima (2003) a agrofloresta na Mata Atlântica permanbucana têm oportunizado uma alimentação de qualidade e em quantidade, função da unidade de produção familiar é assegurar alimentos para todos os seus menbros. Isto é segurança alimentar. Como a produção é diversificada, o agricultor tem sempre algum produto para trazer para o consumo da família; também proporciona a ocupação de força de trabalho, diferente da agricultura convencional que tem forte sazonalidade, a agrofloresta tem produção mais distribuída durante o ano. Isto racionaliza o trabalho da família, além de valorizar a participação da mulher e dos jovens nas atividades de beneficiamento responsável pela agregação de mais valor aos produtos. Neste aspecto, realizamos um trabalho de formação específico com as mulheres. Elas despertaram para o aproveitamento de distintos produtos naturais, como raízes, cascas de árvores para fabricação de lambedores, beneficiamento de frutas para produção de polpa, fabrico de condimento (pasta de alho), doces, bolos e outros produtos da culinária regional.

2.3.1.3 - Dimensão econômica

Vale destacar que o objetivo desta dimensão não é a exploração econômica imediatista e inconsequente, mas um trabalho que possa manter a

5 Na frança, por exemplo, de um terço da população total entre as duas grandes guerras, população rural chegou a 6% nos anos noventas (seminário, 1993); nos Estados Unidos, chegou a 3% (O.T.A, 1986) e, no Brasil, apesar de ainda numerosa em relação a Europa e aos Estados Unidos, caiu de 30,8% em 1980 para 22,4% em 1991 (Censos Demográficos, 1994).

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unidade agrícola produzindo rentabilidade sustentável para a qualidade de vida adotada pelas famílias rurais e mantendo-se estável ao longo dos tempos. Segundo Vilela (1998) após a Segunda Guerra Mundial, os objetivos das políticas agrícolas não responderam apenas às exigências dos agricultores, senão aos imperativos do sistema econômico, cujos principais objetivos eram o pleno emprego, o equilíbrio entre setores, a estabilidade das rendas, o controle da inflação e o equilíbrio da balança de pagamentos. Nesse momento histórico, foi impulsionada a integração da agricultura ao sistema econômico, mediante tal processo, denominado de modernização agrícola, os poderes públicos realizaram grandes reformas estruturais na agricultura para adequá-la às exigências do desenvolvimento econômico, impondo alto grau de supervisão e controle, passando o setor agrícola a ocupar uma posição subordinada. Estava definida assim , o lugar da agricultura na divisão internacional do trabalho. Estudos têm demonstrado que os resultados econômicos obtidos pelos agricultores são elemento-chave para fortalecer estratégias de desenvolvimento rural sustentável. Não obstante, como está também demonstrado, não se trata somente de buscar aumentos de produção e produtividade agropecuária a qualquer custo, pois eles podem ocasionar reduções de renda e dependências crescentes em relação a fatores externos, além de danos ambientais que podem resultar em perdas econômicas no curto ou médio prazos. A sustentabilidade de agroecossistemas também supõe a necessidade de obter-se balanços agroenergéticos positivos, sendo necessário compatibilizar a relação entre produção agropecuária e consumo de energias não renováveis. Aliás, como bem nos ensina a Economia Ecológica 6 , a insustentabilidade de agroecossistemas pode se expressar pela obtenção de resultados econômicos favoráveis às custas

6 Economia Ecológica (EE) surgiu no final da década de 1980, na costa leste americana, opondo-se à utilização dos modelos de economia neoclássicos e ecologia convencioanal que comprovaram ser insuficientes na explicação e resolução dos problemas ecológicas globais. Definida como "um novo campo transdiciplinar que estabele relações entre os ecossistemas e o sistema econômico (COSTANZA e DALY, 1991), citado por Amâncio, (2001).

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da depredação da base de recursos naturais que são fundamentais para as gerações futuras, o que põe em evidência a estreita relação entre a dimensão econômica e a dimensão ecológica. Por outro lado, a lógica presente na maioria dos segmentos da agricultura familiar nem sempre se manifesta apenas através da obtenção de lucro, mas também por outros aspectos que interferem em sua maior ou menor capacidade de reprodução social. Por isso, há que se ter em mente, por exemplo, a importância da produção de subsistência, assim como a produção de bens de consumo em geral, que não costumam aparecer nas medições monetárias convencionais, mas que são importantes no processo de reprodução social e nos graus de satisfação dos membros da família. Igualmente, a soberania e a segurança alimentar de uma região se expressam também na adoção de estratégias baseadas em circuitos curtos de mercadorias e no abastecimento regional e microregional, não sendo possível, portanto, desconectar a dimensão econômica da dimensão social, citado por Costabeber e Caporal (2002). De acordo Figueiredo e Tavares de Lima (2003) a experiência da agrofloresta na Mata Atlântica permanbucana, além dos aspectos econômicos que apontam para a melhoria do padrão de vida, consideramos como muito positivo a satisfação de parte dos agricultores com o novo trabalho que realizam. A consciência de que estão contribuindo para a recuperação do meio ambiente, isto é, participando de uma causa social e os laços de amizade que desenvolvem, os fortalece. Aos poucos vai se formando uma nova identidade de agricultores agroflorestais ou agroecológicos que têm objetivos comuns. Isto tem contribuído para o crescimento da auto-estima e de uma nova consciência sobre o papel do agricultor.

2.3.1.4 - Dimensão Cultural

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Na dinâmica dos processos de manejo de agroecossistema - dentro da perspectiva da Agroecologia - deve-se considerar a necessidade de que as intervenções sejam respeitosas para com a cultura local. Os saberes, os conhecimentos e os valores locais das populações rurais precisam ser analisadas, compreendidos e utilizados como ponto de partida nos processos de desenvolvimento rural que, por sua vez, devem espelhar a "identidade cultural" das pessoas que vivem e trabalham em um dado agroecossistema. A agricultura, nesse sentido, precisa ser entendida como atividade econômica e sociocultural - uma prática social - realizada por sujeitos que se caracterizam por uma forma particular de relacionamento com o meio ambiente. Esta faceta da dimensão cultural não pode e não deve obscurecer a necessidade de um processo de problematização sobre os elementos formadores da cultura de um determinado grupo social. Eventualmente, estes elementos podem ser relativizados em sua importância, considerando-se as repercussões negativas que possam ter nas formas de manejo dos agroecossistemas, descartando-se aqueles procedimentos ou técnicas que não se mostrem adequados nos processos de construção de novas estratégias na relação homem-natureza. Ou seja, práticas culturalmente determinadas, mas que sejam agressivas ao meio ambiente e prejudiciais ao fortalecimento das relações sociais e às estratégias de ação social coletiva, não devem ser estimuladas. De qualquer modo, historicamente a Agricultura foi produto de uma relação estruturalmente condicionada envolvendo o sistema social (a sociedade, os agricultores) e o sistema ecológico (o meio ambiente, os recursos biofísicos), o que, em sua essência, traduz-se numa importante base epistemológica da Agroecologia, tal como nos ensina Norgaard (1989), citado por Costabeber e Caporal (2002). Mais do que nunca, esse reconhecimento da importância do saber local e dos processos de geração do conhecimento ambiental e socialmente útil passa a ser crescentemente valorizado em contraponto à idéia ainda dominante, mas em processo de obsolescência, de que

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a agricultura poderia ser homogeneizada com independência das especificidades biofísicas e culturais de cada agroecossistemas.

2.3.1.5 - Dimensão política

A dimensão política da sustentabilidade tem a ver com os processos participativo e democráticos que se desenvolvem no contexto da produção agrícola e do desenvolvimento rural, assim como com as redes de organizações social e de representações dos diversos segmentos da população rural. Nesse contexto, o DRS deve ser concebido a partir das concepções culturais e políticas próprias dos grupos sociais, considerando-se suas relações de diálogo e de integração com a sociedade maior, através de representação em espaços comunitários ou em conselhos políticos e profissionais, numa lógica que considera aquelas dimensões de primeiro nível como integradoras das formas de exploração e manejo sustentável dos agroecossistemas. Como diz Altieri, sob a perspectiva da produção, a sustentabilidade somente poderá ser alcançada "no contexto de uma organização social que proteja a integridade dos recursos naturais e estimule a interação harmônica entre os seres humanos, o agroecossistema e o ambiente", entrando a Agroecologia como suporte e com "as ferramentas metodológicas necessárias para que a participação da comunidade venha a se tornar a força geradora dos objetivos e atividades dos projetos de desenvolvimento rural sustentável". Citando a Chambers (1993), lembra que, assim, espera-se que os agricultores e camponeses se transformem nos "arquitetos e atores de seu próprio desenvolvimento" (Altieri, 2001: 21), condição indispensável para o avanço do empoderamento dos agricultores e comunidades rurais como protagonistas e decisores dos rumos dos processos de mudança social. Nesse sentido, deve-se privilegiar o estabelecimento de plataformas de negociação nas quais os atores locais possam expressar seus

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interesses e necessidades em pé de igualdade com outros atores envolvidos. A dimensão política diz respeito, pois, aos métodos e estratégias participativas capazes de assegurar o resgate da auto-estima e o pleno exercício da cidadania , citado por Costabeber e Caporal (2002).

2.3.1.6 - Dimensão ética

A dimensão ética da sustentabilidade se relaciona diretamente com a solidariedade intra e intergeracional e com novas responsabilidades dos indivíduos com respeito à preservação do meio ambiente. Todavia, como sabemos, a crise em que estamos imersos é uma crise socioambiental, até porque a história da natureza não é apenas ecológica, mas também social. Portanto, qualquer novo contrato ecológico deverá vir acompanhado do respectivo contrato social. Tais contratos, que estabelecerão a dimensão ética da sustentabilidade, terão que tomar como ponto de partida uma profunda crítica sobre as bases epistemológicas que deram sustentação ao surgimento desta crise. Neste sentido, precisamos ter clareza de que o que está verdadeiramente em risco não é propriamente a natureza, mas a vida sobre o Planeta, devido à forma como nos utilizamos e destruímos os recursos naturais. Sendo assim, a dimensão ética que nos referirmos exige pensar e fazer viável a adoção de novos valores, que não necessariamente serão homogêneos. Para alguns dos povos do Norte rico e opulento, por exemplo, a ética da sustentabilidade tem a ver com a necessidade de redução do sobre-consumo, da hiper-poluição, da abundante produção de lixo e de todo o tipo de contaminação ambiental gerado pelo seu estilo de vida e de relação com o meio ambiente. Para nós, do Sul, provavelmente a ênfase deva ser em questões como o resgate da cidadania e da dignidade humana, a luta contra a miséria e a fome ou a eliminação da pobreza e suas consequências sobre o meio ambiente. Ademais, como lembra Leff (2001:

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93), " A ética ambiental vincula a conservação da diversidade biológica do planeta como respeito à heterogeneidade étnica e cultural da espécie humana. Ambos os princípios se conjugam no objetivo de preservar os recursos naturais e envolver as comunidades na gestão de seu ambiente". Assim, a dimensão ética da sustentabilidade requer o fortalecimento de princípios e valores que expressem a solidariedade sincrônica (entre as gerações atuais) e a solidariedade diacrônica (entre as atuais e futuras gerações). Trata-se, então, de uma ética da solidariedade (Riechmann, 1997) que restabelece o sentido de fraternidade nas relações entre os homens. Na esteira dessa dimensão, a busca de segurança alimentar inclui a necessidade de alimentos limpos e saudáveis para todos e, portanto, minimiza a importância de certas estratégias de produção orgânica dirigida pelo mercado e acessível apenas a uma pequena parcela da população. Igualmente, esta dimensão deve tratar do direito ao acesso equânine aos recursos naturais, à terra para o trabalho e a todos os bens necessários para uma vida digna. Em suma, quando se aborda o tema da sustentabilidade, a dimensão ética se apresenta numa elevada hierarquia, uma vez que de sua consideração podemos afetar os objetivos e resultados esperados nas dimensões de primeiro e o segundo nível, citado de Costabeber e Caporal (2002).

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3 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

A sustentabilidade aqui apresentada sob diferentes óticas de diversos pesquisadores e estudiosos, servem para mostrar e analizarmos que estamos longe de um consenso eclético, entre as cúpulas capitalista dominantes da economia, onde conceitos e diretrizes para o desenvolvimento econômico prevalecem sob o interesses de poucas corporações multinacionais, regente do capitalismo selvagem, que trata o meio-ambiente como subordinado da economia - a corrente ecotecnocrática ou a revolução verde verde, porém, caminhos se formam e apontam uma corrente de desenvolvimento alternativa, que tratamos da corrente ecossocial - que apresenta a economia dependente e sob os domínios do meio-ambiente. Sob a ótica de buscar harmonizar os agroecossistemas diversos, nasce a necessidade de implementação de políticas agrícolas e agrárias que cultuem e valorizem a transversalidade e a multidisplinaridade de conhecimento em favor da natureza, ressaltando-se a hegemônica ciência Agroecológica, que aglutinam além do saber popular ou empírico dos povos, conhecimento da Ecologia e da Agronomia, em favor de desenhar e redesenhar modelos de produção em conformidade com as leis da natureza, permeando uma economia ecologicamente correta, socialmente justa, ambientalmente sustentável, eticamente aceitável, politicamente adequado com os padrões locais e culturalmente valorizada. Temos um grande desafio neste século XXI que é resguarda os nossos recursos naturais ainda existentes para a pesquisa e o equilíbrio do planeta, aliando o crescimento demográfico das populações do mundo à uma economia ecológica, donde deveremos atingir a produção de alimentos limpos e acessíveis a todos a classes sociais, com a implementação de políticas municipais, estaduais e federais com base nos princípios da Agroecologia.

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