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Humor como ferramenta crÌtica

Danielle De Marchi Tozatti

UEL - Universidade Estadual de Londrina

Palavras-chave Humor; Lixo; Imagin·rio Social.

IntroduÁ„o

Pelo humor o homem, livre, leve, zomba do mundo, reaprende e adquire inocÍncia no olhar e fluidez no pensamento, descobre analogias ocultas e ousadas combina- Áıes de idÈias, transformando sua vida num jogo espirituoso com o mundo.

Entende-se o humor como qualquer mensagem - expressa por atos, pa- lavras, escritos, imagens ou m˙sicas ñ cuja intenÁ„o È a de provocar o riso ou um sorriso (Bremmer e Roodenburg, 2000).

Em uma das suas mais interessantes declaraÁıes sobre as questıes liter·rias, Marx (1975) afirmava que se podia aprender mais sobre a situaÁ„o da Inglaterra contempor‚nea com a leitura de certos romances do que estudar o conjunto das an·lises que tratavam desse tema. Para o autor do O Capital, portanto, a literatura pode permitir o acesso ao conhecimento social. O humor tambÈm faz parte deste meio literal de transmiss„o de informaÁıes, podendo, como estudaremos neste tra- balho, relacionar o humor enquanto ferramenta crÌtica nas charges, levando a infor- maÁ„o ao leitor atravÈs de personagens que representam os indivÌduos sociais e fa- zendo com que estes possam refletir de forma crÌtica sobre sua realidade.

Como freq¸entemente insistia o sociÛlogo da literatura, Lucien Goldman, a teoria formula os conceitos, as leis, as an·lises, e a obra liter·ria ganha vida atravÈs dos indivÌduos, dos personagens e das situaÁıes. Se a primeira segue a lÛgica da racionalidade cientÌfica, a segunda segue a da imaginaÁ„o e, dessa forma, produz um ìefeito de conhecimentoî insubstituÌvel, iluminando, por as- sim dizer, o ìinteriorî, os contornos e as formas da realidade social. O que im- plica uma complementaridade possÌvel, e desej·vel, entre as duas formas de discurso 1 . Constata-se ainda que conhecimento e imaginaÁ„o, ou ainda, pen- samento e cogitaÁ„o, necessariamente precedem o riso, como explica Alberti

(1999): ì(

o que determina a especificidade do riso È a atividade cognitiva,

È preciso conhecer ou conceber a matÈria que entra na almaî (p.104).

Assim, surge a quest„o para Caruso (1987): que seria de ser humano sem o

humor, sem algo que lhe alegrasse o espÌrito? O que seria de nÛs se n„o fossemos dotados dessa capacidade surpreendente de rir diante dos acontecimentos da vida? …

verdade que o homem nasce chorando

Mas algumas horas depois, quando ador-

mece, j· comeÁa a sorrir, talvez por instinto de sobrevivÍncia neste planeta.

Assim, o riso acompanha toda nossa vida, desde a inf‚ncia, na qual atra- vÈs dele, ele expressa seus encantos, atÈ a idade madura, quando rir passa a construir uma compensaÁ„o de seus aborrecimentos e contrariedades.

)

1 Sayre, e Lowy, 2001, p. 07.

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E o riso alÈm disso, È uma necessidade social na medida em que nasce

tambÈm da observaÁ„o dos defeitos humanos, daquilo que È preciso mudar na sociedade. E quando se tem clareza suficiente para compreender, atravÈs do espet·culo dos erros dos outros, o ridÌculo de si mesmo, indica-se aÌ a autocrÌ- tica, ponto de partida para o autoconhecimento.

Neste sentido, o humor, sÛ cumpre o seu verdadeiro papel quando

expressa o dom da raz„o e a consciÍncia de que o erro n„o passa de um

pobre diabo

O humor apresenta caracterÌsticas fÌsicas no ser humano quando este ri,

(Caruso).

psicolÛgicas por que o faz rir, irÙnica derivada de processos intelectuais, cÙmi- co quando o riso se torna de zombaria, e transcende todos estes aspectos

quando se trata da comunicaÁ„o que este faz entre a realidade vivida e a cena que exemplifica esta verdade com ironia.

… neste contexto que insere a proposta deste trabalho, estudar o humor

como ferramenta crÌtica, nas charges de Edgar Vasques, publicadas no jornais:

Folha da Manh„, Risco, Ovelha Negra e o Pasquim, entre 1973 e 1980. Enten- der como o humor pode servir de ferramenta para a crÌtica, e constatar como pe- quenos quadros de desenhos satÌricos e irÙnicos, podem levar o leitor facilmente a uma interpretaÁ„o da realidade vivida, num dado momento histÛrico.

O humor aqui estudado È analisado do ponto de vista histÛrico, desde seus primÛrdios; filosÛfico e literal, em contos e apresentaÁıes teatrais; psi- colÛgico com os relevantes estudos de Freud; antropolÛgico e suas formas mais atuais de explicaÁ„o das manifestaÁıes humorÌsticas.

AlÈm de passar por teorias que compıem as charges, como: Comunica- Á„o, HistÛria em Quadrinhos, Caricatura, e Personagens. TambÈm foram anali- sados os temas Lixo, como significativo, pois os personagens das charges vi- vem nos lix„o (aterro sanit·rio). E posteriormente a escolha de algumas questıes, mais enfatizadas pelo autor e selecionadas para descriÁ„o das char- ges, que seguem: EspÈcie Humana, Fome, CivilizaÁ„o Industrial, Democracia, Lixo, Igreja x Consumo, e Criador (Deus).

Enfim, pretende-se estabelecer a relaÁ„o entre humor e crÌtica, chegando ao humor como ferramenta da crÌtica, aqui estudados nas charges, revelando a comunicaÁ„o existente entre o imagin·rio dos personagens e a realidade estabelecida com o leitor.

1. Humor

TendÍncia estÈtica e filosÛfica de mostrar o ridÌculo da condiÁ„o humana e provocar o riso. Termo derivado de antiga crenÁa na influÍncia dos fluidos do corpo sobre o car·ter dos indivÌduos. O termo latino humor, significa ìlÌquido, umidadeî. Da antiga crenÁa na influÍncia dos fluidos do corpo sobre o estado de ‚nimo das pessoas veio o uso da palavra ìhumorî como sinÙnimo de ìgÍ- nio, temperamentoî. Posteriormente, o termo voltou a evoluir quanto ao signi- ficado. O dramaturgo inglÍs Ben Jonson, no final do sÈculo XVI, utilizou a pa- lavra inglesa ìhumourî para definir a personalidade extravagante e aplicou a

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teoria dos humores aos personagens que atuavam em sua comÈdia. No sÈculo seguinte impÙs-se o uso, no francÍs, de ìhumeurî no sentido moderno de ten- dÍncia para o gracejo. A literatura de todos os paÌses exibe, no entanto, desde tempos muito anteriores ao uso da palavra humor, a tendÍncia a mostrar de maneira jocosa as incoerÍncias da sociedade e a caÁoar do absurdo e do ridÌ- culo (Encyclopaedia Britannica do Brasil PublicaÁıes Ltda.). Em seu significado moderno, foi pela primeira vez registrada na Inglaterra em 1682, j· que, antes disso, significava disposiÁ„o mental ou temperamento.

De acordo com Bremmer e Roodenburg apud Burke (1995, p. 34) h· uma ìdesintegraÁ„oî do humor tradicional, que comeÁou no sÈculo XVI: houve uma reduÁ„o dos domÌnios, ocasiıes e locais da arte cÙmica; alÈm disso, o clero, as damas e os cavalheiros j· n„o participavam de certos tipos de humor, pelo menos em p˙blico. Esta troca de ìfronteirasî de arte cÙmica se enquadrava no estudo de Norbert Elias 2 sobre a ascens„o da ìcivilizaÁ„oî, que quase meio sÈ- culo depois continua sendo o ponto central de referÍncia para o estudo dessa evoluÁ„o. No sÈculo XVII, com o barroco, o humor encontrou terreno fÈrtil. A ruptura da concepÁ„o renascentista do mundo fez com que ganhasse forÁa uma vis„o desiludida da vida, e se impÙs uma estÈtica na qual se destacava em grande medida a espirituosidade, que com freq¸Íncia surgia para dar ex- press„o ao cÙmico. O humor aparece muito, por exemplo, nas obras de Shakespeare e constituiu elemento essencial no D. Quixote de Cervantes. O humor como instrumento de crÌtica social aparecia j· no que muitos conside- ram o primeiro romance hispano-americano El periquillo sarniento (O periquito sarnento, 1819), do mexicano Joaquim Fern·ndez de Lizardi. Na R˙ssia, alÈm de Gogol, destacou-se o humor fino e penetrante de Tchekov, veiculado por uma narrativa cheia de ambig¸idade e sutileza.

Essa È tambÈm a atmosfera da obra de Machado de Assis, no fim do sÈculo XIX, cujo humor penetrante È repassado de um pessimismo irredutÌvel. Homem de meios-termos, ambig¸idades e humor sub-reptÌcio, precedeu assim a concepÁ„o moderna de humor que, segundo Luigi Pirandello, È uma ìlÛgica sutilî e tambÈm ìo sentimento do contr·rioî. O paradoxo È o forte dos textos de Oscar Wilde e Lewis Carrol. Ainda na virada do sÈculo brilharam na literatura humorÌstica o americano Mark Twain e o brit‚nico Bernard Shaw. Os franceses Auguste Villiers de L`Isle- Adam e Alfred Jarry notabilizaram-se como cultores do humor negro, aquele em predomina as notas cÌnicas e aparece o tema da morte.

O humor È uma linguagem simbÛlica porque atravÈs dele o mundo exterior È sÌmbolo de um mundo interior, segundo Fromm (1966), permite a express„o do mundo interior de cada indivÌduo, evoca o di·logo bitextual, bimagÈtico entre o es- perado (consciente) e o inesperado (inconsciente), provocando um confronto dialÈ- tico r·pido que aguÁa os sentidos, estimula o cÈrebro, revitaliza o homem como sujeito social.

O humor contempor‚neo ampliou em grande medida suas fronteiras. Abrange tanto o sociolÛgico como o histÛrico e psicolÛgico, transcendendo ‡s fronteiras nacionais, compreende todas as manifestaÁıes da atividade do ho-

2 Uber den Prozess Zivilisation (vol 2. BasilÈia, 1939).

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mem. O teatro do absurdo, por exemplo, utilizou um humor corrosivo para apresentar sua desolada vis„o da existÍncia humana. De maneira similar,

muitos grandes romancistas, do irlandÍs James Joyce ao alem„o Gunter Grass

e o cubano Cabrera Infante, empregaram o humor como meio para penetrar

na falsidade do mundo convencional. Os novos meios de comunicaÁ„o, como o cinema, o r·dio e a televis„o, possibilitaram o surgimento de novas formas de humor, com linguagens especÌficas e adequadas a esses veÌculos.

De relevante import‚ncia Freud (Os chistes e sua relaÁ„o com o Inconsci- ente, 1905) realizou estudos sobre os chistes, do qual trataremos neste mo-

mento. Neste livro, o autor estuda a piada, a comicidade e o humor ‡ luz dos princÌpios gerais da psican·lise. Observa que a pilhÈria È a mais social das fun- Áıes anÌmicas destinadas ‡ obtenÁ„o de prazer. Ri-se dos palhaÁos porque seus gestos parecem excessivos e inadequados. A comicidade decorreria assim de um consumo de energia superior ao que julga necess·rio. O riso que re- sulta da consciÍncia dessa desproporÁ„o exprime tambÈm o sentimento de nossa superioridade. O prazer cÙmico nasce, portanto, do confronto entre o comportamento da pessoa observada e o do observador. Fonte de comicidade

È tambÈm a relaÁ„o com o que ir· acontecer. Os movimentos supÈrfluos, pro-

venientes da desproporÁ„o entre o esforÁo a que se predispıe o jogador, por

exemplo, e a leveza inesperada da bola, podem tornar-se cÙmicos. Por isso Freud cita Kant: ìO cÙmico È uma esperanÁa decepcionadaî.

Para Buytendijk (1977), o humor tem como suporte o jogo de funÁıes do homem no contexto social. O humor È um jogo humano produzido atravÈs da linguagem e que nela se realiza, evidencia-se pela compreens„o que o homem apresenta como resposta. Para Freud, o humor relaciona-se ao irracional e ao obscuro dos instintos, das paixıes, das capacidades, disposiÁıes, condiÁıes e estado de ‚nimo dos seres humanos, e com o inexplic·vel elemento criador. Na criaÁ„o do humor h· um fenÙmeno l˙dico que implica em liberdade, num planar aparente, coerÍncia, ambivalÍncia, infinidade interna e atemporalidade. No humor joga-se com imagens e estas jogam com os indivÌduos. No entender do referido autor, imagem È o modo como se apresentam as coisas e os acontecimentos em seu car·ter pr·tico. Assim, a esfera do jogo È a das ima- gens, ou seja, das fantasias e das possibilidades. AtravÈs dessas o car·ter imagÈtico escondido deixa-se descobrir, estabelecendo um processo dialÈtico circular, de estÌmulo e resposta, de mover e ser movido, num vaivÈm que al- terne tens„o e relaxamento como surpresa.

O humor licencioso poderia ser analisado, por exemplo, a la Radcliffe- Brow, enquanto instrumento usado para amenizar tensıes latentes na estru- tura social. As gozaÁıes tambÈm poderiam ter sido vistas como maneira de designar um bode expiatÛrio, permitindo o sacrifÌcio simbÛlico de certos indivÌ- duos para a expiaÁ„o do grupo. Segundo outra hipÛtese, o humor desempe- nharia um papel de transmiss„o de valores de uma geraÁ„o para outra. A go- zaÁ„o seria uma maneira de estigmatizar desviantes, tendo com conseq¸Íncia

o reforÁo de norma vigente.

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Koestler informa que para AristÛteles o riso relaciona-se com a fealdade e

o aviltamento; CÌcero afirmava que o ridÌculo se apÛia na vileza e na deformi-

dade. Descartes via o riso como uma manifestaÁ„o de alegria misturada a sur- presa e/ou a avers„o.

Certamente, o humor, ìcomo o bom humor em todas as sociedades, utiliza coisas que s„o ambÌguas ou que s„o tabu e brinca com isso de formas diferentesî (Seeger, 1980). O humor para ser compreendido, deve ser situado num contexto de pr·ticas e valores. Em outras palavras, abraÁando a crÌtica de Bakthin (1987) ‡queles pesquisadores que julgam que ìo riso È sempre o mesmo em todas as Èpocas e que a brincadeira nunca È mais do que uma brincadeiraî.

Todos nÛs sabemos como uma pitada inesperada de humor È capaz de desfazer um clima tenso num instante. Em um contexto mais amplo, o carna- val e as festividades an·logas podem corromper temporariamente as regras sociais rÌgidas a que todos nÛs obedecemos.

2. ComunicaÁ„o

A construÁ„o da imagem e a constituiÁ„o do pensamento formam um par in-

dissoci·vel. Nesta junÁ„o, a linguagem que resulta das relaÁıes humanas, si- multaneamente forma e organiza o pensamento, permitindo a constituiÁ„o da consciÍncia dos homens. Sabe-se que È na linguagem que o indivÌduo constrÛi

e interage com o mundo a sua volta.

O processo de formaÁ„o do pensamento È despertado e acentuado pela

vida social e pela constante comunicaÁ„o que se estabelece entre as pessoas,

a qual permite a assimilaÁ„o de experiÍncias.

Segundo Huyge (1976), dentro dos acontecimentos histÛricos, a socieda- de antiga desmorona e o homem se dispersa no vento das descobertas novas que revolucionam a concepÁ„o do homem e do universo. O indivÌduo reflete os caracteres pelo seu ponto de vista e julgamentos associados ‡s circunst‚ncias que o ligam ‡ coletividade.

Com relaÁ„o ‡ esta capacidade do humorismo, o crÌtico alem„o Benjamin (1916), escreve: ìA crÌtica das coisas espirituais consiste na distinÁ„o entre o autÍntico e o inautÍntico. Mas ela n„o concerne ‡ linguagem. Ou concerne ñ porÈm sÛ se fica oculta sob um vÈu: o vÈu do humorismo. SÛ no humorismo È que a linguagem pode ser crÌticaî.

As pr·ticas e os discursos da vida cotidiana, revelam que a obstinada presenÁa do humor nas trocas sociais, levam a refletir sobre a relaÁ„o entre o estilo da express„o e o valor expresso no humor.

Segundo Konder (1983), h· no humor uma vocaÁ„o dialÈtica espont‚nea, que o leva a questionar os princÌpios que enrijecem, as certezas que se crista- lizam, as conclusıes que se pretendem definitivas. O humor forÁa a consciÍn- cia para o novo, para o inesperado, para o fluxo infinitamente rico da vida, para a inesgotabilidade do real.

Para sua prÛpria natureza, o humor È uma forÁa desinibidora, libert·ria. Em suas expressıes mais desenvolvidas, ele nos ajuda a perceber as ambigui-

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dades da condiÁ„o humana, as contradiÁıes disfarÁadas, os anseios e insatis- faÁıes. No nÌvel mais conseq¸ente da dialÈtica imanente, o humor n„o poupa nada, n„o respeita ninguÈm.

Assim, surge a charge, que tem por objetivo a crÌtica humorÌstica imedi- ata de um fato ou acontecimento especÌfico, em geral de natureza polÌtica. A mensagem visual (cujos constituintes imediatos mÌnimos s„o linhas, superfÌ- cies e tonalidades) È sustentada pelos balıes (cujos constituintes imediatos mÌnimos s„o as palavras). Aparentemente a mensagem ling¸Ìstica dirige a mensagem iconogr·fica: o desenho ilustra o texto. O registro verbal teria a funÁ„o de ìancorarî a mensagem, desde que quase sempre a comunicaÁ„o vi- sual È ambÌgua e decodific·vel de m˙ltiplas maneiras.

3. HistÛria em Quadrinhos

Parte-se do pressuposto que as charges derivam das HistÛrias em Quadrinhos, passando a mensagem ao leitor de forma mais r·pida. As HQ constituem uma inst‚ncia possÌvel de an·lise de formas n„o-verbais de comunicaÁ„o, que v„o por exemplo, da gestualidade ‡ express„o crom·tica, passando do espaÁo so- cial aos movimentos perceptÌveis do corpo. ManifestaÁ„o caracterÌstica da chamada cultura de massa, as HistÛrias em Quadrinhos introduzem uma mo- dalidade de comunicaÁ„o (horizontal e coletiva), cujo fim precÌpuo È o de per- mitir f·cil percepÁ„o e pronto entendimento.

As HistÛrias em Quadrinhos s„o um gÍnero narrativo que, em variados graus de verossimilhanÁa, apresentam imagens fixas, cuja seq¸Íncia (sintag- m·tica) fornece a totalidade da aÁ„o. Seus personagens s„o figuras humaniza- das, animais ou seres antropomÛrficos, andrÛides, etc., que povoam um dado espaÁo de ficÁ„o. Os protagonistas das HQ ìvivem intensamenteî sua expres- s„o total È ìparoxÌsticaî. Sempre ìem situaÁ„oî os ìherÛisî se manifestam em seu prÛprio nome, de maneira categÛrica. Sua conduta È intencionalmente si- gnificante e o estilo de apresentaÁ„o, comumente direto.

Fresnault-Deruelle (1978, p. 137-157), se volta para a an·lise do espaÁo interpessoal nos quadrinhos. Partindo da necess·ria verossimilhanÁa, homolo- gia, entre o espaÁo representado na historieta e o espaÁo real. Este autor ob- serva que um certo n˙mero de relaÁıes mantidas pelos personagens (pala- vras, gestos e atitudes), constitui uma estrutura prÛpria de comunicaÁ„o, isto È, um micro-espaÁo. Nele, os personagens interagem por via da vis„o, da au- diÁ„o e do tato. S„o estes os sentidos pressupostos e/ou mostrados pela aÁ„o de tais personagens.

Como pr·tica significante, o quadrinho ñ assim como qualquer discurso artÌstico ñ assume, por outro lado, a pr·tica ideolÛgica em sua concretude te- m·tico-gr·fico-estrutural. Entende-se a ideologia a partir de uma leitura Al- thusseriana (Pratica teÛrica y lucha ideolÛgica, 1968), desse modo os quadri- nhos seriam aparelhos ideolÛgicos de Estado culturais. Esta discuss„o remete- se sem d˙vida, para uma discuss„o polÌtica. A luta ideolÛgica transforma-se em luta polÌtica contra a direita e os reformistas. A verdade È que a ideologia, nos quadrinhos, manifesta-se em todos os nÌveis, em quadrinhos suposta-

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mente inocentes, em quadrinhos de aventura tradicional, em quadrinhos libe- rais, em quadrinhos familiares, etc.

Discurso ideolÛgico, o quadrinho È tambÈm discurso que se faz polÌti- co (ao nÌvel de sua especificidade). Assim como o ideolÛgico manifesta-se mais nÌveis de articulaÁ„o formal, o polÌtico manifesta-se em todos os nÌ- veis, seja de modo direto, seja de modo indireto. Seja de modo crÌtico, seja de modo ideolÛgico.

Para Cirne (1982, p. 21)

ìFaz-se necess·rio, portanto uma arte de resistÍncia, um quadrinho de resistÍn- cia, seja politicamente, seja culturalmente. Uma arte e um quadrinho de resis- tÍncia, inclusive ao nÌvel econÙmico, devem lutar por um espaÁo artÌstico, semi- olÛgico e cultural prÛprio, ao lado daqueles que combatem qualquer espÈcie de imperialismoî.

4. Caricatura

AtravÈs das crÌticas da imprensa, que vem expressa em editoriais raivosos, em quadrinhos humorÌsticas e nas caricaturas que, pouco a pouco, vai se cons- truindo a imagem das figuras caricaturadas.

A caricatura apareceu pela primeira vez numa sÈrie de desenhos dos ir-

m„os Caracci, de Bolonha, It·lia, nos fins do sÈculo XVI. A caracterÌstica de exagerar as feiÁıes humanas, ridiculariz·-las ou fazÍ-las cÙmicas, porÈm vem de Èpocas imemoriais. Nas pinturas rupestres, estudiosos acreditam descobrir nos artistas com que representavam seus inimigos. A caricatura È a represen- taÁ„o da fisionomia humana com caracterÌsticas grotescas, cÙmicas ou humo- rÌsticas, n„o È necess·rio que esteja ligado apenas a formas humanas, mas necessita-se como referÍncia. Entre outras formas de arte, a caricatura apre- senta peculiaridade de ter um objetivo especÌfico: o artista estar· realizando uma caricatura toda vez que sua intenÁ„o principal por representar qualquer figura de

maneira n„o convencional, exagerando ou simplificando os seus traÁos, acentuan- do de maneira despropositada um ou outro detalhe caracterÌstico, procurando re- velar um ponto n„o percebido, ressaltar um m· qualidade escondida, apresentar uma vis„o crÌtica e quase sempre impiedosa do seu modelo, provocando com isso o riso, ou um momento de reflex„o no espectador.

De acordo com a AssociaÁ„o dos Caricaturistas do Brasil 3 , apÛs a chegada da Corte Portuguesa, tem inÌcio as artes gr·ficas no Brasil. AtÈ ent„o, n„o era permitido qualquer meio de impress„o na colÙnia e È a partir de 1831, que se tem notÌcia da primeira referÍncia sobre a caricatura no Brasil. Esta caricatura foi publicada na primeira p·gina do terceiro e ˙ltimo n˙mero de O Carcund„o, de 16 de maio de 1831, Recife/PE.

O humor sempre foi uma marca da imprensa brasileira. Mesmos as folhas

mais tradicionais do sÈculo XIX, com sua pÈssima paginaÁ„o, seu amontoado

3 InformaÁ„o retirada do site www.terraavista.com.br ìCharge dos 500 anos do Brasilî AssociaÁ„o dos Caricaturistas do Brasil. 20/03/2000.

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de colunas e de notas, sem manchetes e sem fios a destac·-las, reservaram sempre um espaÁo, ainda que pequenino, para a quadrinha, a nota maliciosa sobre as figuras importantes do tempo, ou mesmo para a pura e simples ane- dota.

De acordo com Lustosa (1998), a caricatura, no entanto, sÛ comeÁa a se tornar freq¸ente a partir de 1837, com a publicaÁ„o da Lanterna M·gica, re- vista ilustrada, de Ara˙jo Porto Alegre. DaÌ em diante, multiplicar-se-„o as pu- blicaÁıes do gÍnero, quase todas de vida efÍmera.

A chegada ao Rio de Janeiro, em 1867, do italiano ¬ngelo Agostini, repre- sente uma nova forÁa na arte da caricatura. Agostini, antes de criar sua prÛ- pria revista, colabora com v·rios periÛdicos, dos quais o mais famoso foi O Mosquito (1869-1875). Praticamente atÈ o final do sÈculo XIX a caricatura bra- sileira ser· produzida por estrangeiros ou por sua inspiraÁ„o. AlÈm de Agostini, o Rio acolhe outro italiano Luigi Borgomaniero (precocemente falecido, vÌtima de febre amarela, em 1876) e o portuguÍs Rafael Bordalo Pinheiro. Nos ˙lti- mos anos do sÈculo, Juli„o Machado, outro portuguÍs, promovera a verdadeira revoluÁ„o da caricatura brasileira.

No decorrer do tempo, a caricatura brasileira n„o conseguiu fugir a um paradoxo que acompanha esse tipo de arte desde sua origem. Ao deformar a realidade para criticar, ela simplifica e pode se tornar maniqueÌsta. Ao privile- giar o ridÌculo, pode ser conservadora. A campanha sanit·ria de Osvaldo Cruz no inÌcio do sÈculo, por exemplo, foi demolida pelos desenhistas da Època. Apesar dessa limitaÁ„o È a forma de express„o artÌstica que traÁa o panorama mais original da histÛria do paÌs. Para revitalizar sua crueldade, Hermen Lima observou: ìN„o È a caricatura que torna os homens ridÌculos. Eles s„o ridÌcu- los por si mesmosî (Revista Veja, 1999).

Cordial, alegre, arejada, a caricatura brasileira foi uma das mais fortes expressıes culturais do paÌs. Hoje, estrategicamente menos importante do que foi no seu apogeu, a caricatura se encontra, no entanto, estabelecida como uma das formas de express„o da imprensa. Ela se perpetua, atÈ hoje, en- quanto quadro obrigatÛrio da p·gina central de quase todos os grandes jornais do paÌs. O caricaturista, ao registrar o momento histÛrico, o fato polÌtico signi- ficativo do dia, compıe, de certa maneira, um aspecto da personalidade de seu jornal, identifica uma tendÍncia, firma uma posiÁ„o.

Na caricatura basta concluir que a funÁ„o do desenho j· n„o aparece como a de mera ìilustraÁ„oî do texto, ela acrescenta alguma coisa, distorce, deforma a realidade no nÌvel mesmo da mensagem denotada.

5. Charge

Charge, vem do francÍs, que significa carga. O objetivo da charge È a crÌtica humorÌstica imediata de um fato ou acontecimento especÌfico, em geral de natureza polÌtica. O conhecimento prÈvio, por parte do leitor, do leitor, do as- sunto de uma charge È, quase sempre, um fator essencial para a sua compre- ens„o. Uma boa charge, deve procurar um assunto momentoso, e ir buscar direto aonde est„o centrados a atenÁ„o e o interesse do p˙blico leitor. A men-

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sagem contida numa charge È eminentemente interpretativa e crÌtica e, pelo seu poder de sÌntese, pode ter ‡s vezes o peso de um editorial. Algumas char- ges, usam os elementos da caricatura na sua primeira acepÁ„o, o que nunca acontece com o cartum, onde os bonecos s„o a representaÁ„o de um tipo de ser humano e n„o de uma pessoa especÌfica.

Geralmente a charge È composta por caricatura e fato social, devendo ser reproduzida na proporÁ„o adequada, integrando a figura com o con- texto, para que a sÌntese n„o prejudique a compreens„o. ìComo chegar a uma sÌntese t„o perfeita que a caricatura j· È a charge ?î (VerÌssimo apud Caruso e Mendes, 1987).

Segundo Dante apud Schaitza (1989), a charge È o gatilho r·pido do jor- nalismo. Num tiro seco faz um editorial profundo, de crÌtica explÌcita mas so- bretudo implÌcita. O desenho na charge acha explÌcita demais, ruboriza. Vendo os implÌcitos, o leitor esboÁa um sorriso e pensa.

… importante fazer pensar. Mostrar o irÙnico, ou o mentiroso, muitas ve-

zes o desimportante das situaÁıes que o editorial trata com uma dignidade ñ se n„o hipÛcrita ñ quase sempre um pouquinho chata. A charge faz cÛcegas no cÈrebro, o editorial d· marteladas. A charge veio compor na fisionomia gr·fica na p·gina dos jornais. Que passou a ser uma vitrine colorida de humor, indu- zindo o leitor ‡ curiosidade do que mais havia dentro desse jornal.

Para Dante apud Assis (1989), uma foto vale mil palavras. E uma charge vale uma opini„o. Opini„o que muitas vezes, nem mil palavras conseguiram transmitÌ-la, com tanto efeito e compreens„o.

De acordo com as afirmaÁıes do mesmo autor, a charge jornalÌstica n„o È apenas um cartum cercado por quatro linhas. O desenho envolve toda a p·- gina, emoldurando manchete, fotos e textos. Chegando alguns trabalhos a ìagredirî o prÛprio logotipo do jornal. Obra evidentemente, de um chargista que tambÈm È layoutman, diagramador, editor.

» v·lido ressaltar que a charge jornalÌstica j· ocupou v·rios espaÁos dentro do

jornal, como na capa, na primeira p·gina, no editorial e em cadernos especiais.

6. Lixo ìtema significativo

Este tema abordado por Edgar Vasques, demonstra a total exclus„o social que os indivÌduos sofrem ao sobreviverem nos aterros sanit·rios, vulgo ìlixıesî. O autor ilustra as cenas com exatid„o real, ironia, criatividade e crÌtica, mostran- do como seus personagens vivem dos produtos descart·veis da sociedade ca- pitalista/sociedade de consumo.

O autor procura enfatizar que seus personagens moram, se vestem e comem produtos que sobram ou j· foram utilizados por outras pessoas, reve- lando assim, que neste perÌodo entre 1973 e 1980, ainda n„o havia o trabalho dos catadores de materiais recicl·veis.

A sociedade brasileira na dÈcada de 1980 (posterior aos quadrinhos) en-

trou na hiperdin‚mica do consumo, dividindo-se em duas espÈcies de geraÁ„o da demanda espont‚nea de consumo, que est„o intimamente ligadas.

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Esses produtos descart·veis e sua relaÁ„o com a sociedade ganham si- gnificante peso nos estudos de Baudrillard (1995, p. 38) que esclarece:

ìao nÌvel mais simples, o da pr·tica do objeto, como as diferenÁas, longe de marcarem uma hierarquia social progressiva, provocam uma discriminaÁ„o radi- cal e uma segregaÁ„o do fato, que votam certas classes e n„o outras a determi- nados signos , a determinadas pr·ticas, e as conduz nesta vocaÁ„o e neste des- tino segundo toda uma sistem·tica social.î

A posse/n„o posse de determinados objetos reforÁa as diferenÁas sociais, consolida e expressa a estrutura hier·rquica: esses objetos designam a classe social do seu possuidor. Por outro lado, o desfazer-se de tais objetos- quando perdem sua significaÁ„o social, devido a sua doaÁ„o por parte de outra classe, ou por estarem fora de moda ñ assume a mesma relev‚ncia que tem sua pos- se. Todos esses objetos ˙teis/in˙teis, ruins/bons, formam um sistema sem‚n- tico, um discurso de classe, atravÈs do qual cada grupo e indivÌduo reafirma o seu lugar numa ordem social, comunicando concomitantemente sua relaÁ„o com as outras classes, produzindo e reproduzindo distinÁıes e diferenÁas. Consideramos este estudo ainda representativo de um fenÙmeno social am- plamente difundido no Brasil, sobretudo nos grandes centros urbanos.

ìOs catadores ìcatamî os dejetos culturais supostamente desprovidos de valor, que antes setores da sociedade pretendem devolver ‡ natureza. Esse tipo de atividade ligada a uma economia de subsistÍncia, poderia ser caracterizada como um tipo de coleta urbana, n„o mais inserida na vida do campo e no ciclo das estaÁıes, mas integrada ao processo de produÁ„o e circulaÁ„o industrial e comer- cial dos grandes centros urbanos. Poderia ser considerada uma forma de extrativis- mo, um processo de extraÁ„o do material produzido por uma natureza culturalizada, que neste processo lhe incorpora trabalho e produz valorî. (Grossi, 1998, p. 73)

No Brasil, onde as classes se distanciam economicamente a cada dia, falta emprego e sobram desafios. E dar continuidade a vida È o desafio que muitos brasileiros enfrentam criativamente tirando do lixo sua sobrevivÍncia. Separando o recicl·vel, esses catadores de vida subtraem do ambiente quanti- dades de lixo para a reciclagem industrial, devolvendo ‡s fontes naturais de recurso ritmo para sua sustentabilidade.

7. Personagens

O chargista Edgar Vasques criou sete personagens caracterÌsticos: Rango, O Filho, Baba, Chaco, PrÈvio e Boca 3. Procurou-se descrever as relaÁıes sociais que vinculam os v·rios personagens, e atravÈs de seu conte˙do mostrar que elas hierarquizam os moradores do lix„o por meio de uma escala implÌcita de valores e pensamentos, fundada na figura do capitalismo, sistema pelo qual s„o marginalizados. Essa escala de valores, por meio da definiÁ„o do autor, procura incutir nos personagens noÁıes morais de bom, ridÌculo, delinq¸ente, louco, crÌtico, pensante, entre outras. Tal interpretaÁ„o seria impossÌvel sob a

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constataÁ„o preliminar de que cada personagem È, antes de tudo mercadoria, que se vende e se compra.

O local de moradia e vivÍncia dos personagens È no lix„o da cidade, que

se localiza em pontos perifÈricos, sub˙rbio, da mesma, devido ao mau cheiro e

a poluiÁ„o visual que prejudica o ambiente urbano, alÈm do constrangimento causado aos cidad„os.

O personagem Rango, alÈm de suas excentricidades, tem filho e amigos. Cada um possuÌdo por suas prÛprias caracterÌsticas. Rango È o ˙nico persona- gem que serve de referÍncia na definiÁ„o e constituiÁ„o de todos os outros. Em suma, Rango e seus amigos est„o a margem da sociedade, passam por uma desigualdade social caÛtica.

Rango: o marginal-sÌntese, sujo, doente, desbocado, cabeludo, barba apontando, nu e faminto; desprovido atÈ de aparÍncia humana. Conserva

apenas o cÈrebro e a voz. Personagem principal nas charges, o ˙nico que inti- mamente conversa com o Criador (Deus). O Filho: um menor abandonado, fi- lho de marginal. Sem chances, nem perspectivas, È sÛ um observador, passivo

e inocente, de toda circunst‚ncia. Aparenta uma crianÁa subnutrida, com olhos fundos, cabeÁa grande e corpo magro, sempre faminto. Baba: adepto da ˙nica

soluÁ„o imediata: fugir da realidade adversa (via cachaÁa), e pelo menos nisso

È altamente competente. Baba representa um bÍbado, magro, sujo e maltra-

pilho. Chaco: a fome da AmÈrica Espanhola. Tem o temperamento ora ingÍ- nuo, ora esperto do Ìndio. … um imigrante, e seu nome lhe confere m˙ltipla nacionalidade. PrÈvio: negro letrado mas que sofre de uma doenÁa intermi- tente que justamente nas horas mais indicadas tira-lhe a fala. Jejum: o pe- queno JejuÌno, por motivos Ûbvios apelidado Jejum. Representa o mundo do subemprego e tambÈm È filho de maiores abandonados. Apesar de tudo acre- dita em sua raÁa e tem esperanÁas de um futuro melhor. Boca 3: o cachorro vira-lata, amigo fiel mas cÌnico (afinal, È um c„o) do marginal. Chama-se boca 3 porque foi a terceira boca que apareceu para (n„o) se alimentar. Cen·rio: a maioria das cenas s„o retratadas no lixo, local de moradia dos personagens, nas ruas da cidade, ou favelas.

8. Temas das charges

Edgar Vasques, em suas charges nos remete a realidade da dÈcada de 1970, levando o leitor a refletir sobre essa Època, os problemas enfrentados pela so- ciedade, os acontecimentos nacionais e internacionais relevantes, alÈm do co- tidiano dos indivÌduos menos favorecidos. … importante ressaltar que neste perÌodo era grande a repress„o oriunda do regime militar, que o autor por meio de suas charges procurava criticar de forma explÌcita.

Os temas explorados por Vasques, s„o refletidos por seus personagens, que questionam e criticam o mundo em que vivem. O autor satiriza os aconte- cimentos explicitando a realidade vigente. Os personagens de Vasques moram no lix„o, sobrevivem de produtos descart·veis da sociedade capitalista / socie- dade de consumo. … notÛrio o crescimento econÙmico da classe mÈdia brasi- leira, enquanto as classes menos favorecidas aumentam suas porcentagens. Alguns temas ganharam maior destaque nas charges de Vasques, foram eles:

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EspÈcie Humana, Lixo, Fome, CivilizaÁ„o Industrial, Democracia, Igreja x Con- sumo, Igreja e Criador (Deus)

Estas charges foram retiradas dos Jornais: Folha da Manh„, Risco, O Pas- quim, e Ovelha Negra, editados no Estado do Rio Grande do Sul, no perÌodo de 1973 a 1980, e posteriormente foram selecionados e distribuÌdas em colet‚ne- as: Rango 1,2 e 3 (1973 ñ 1977), Rango 4 (1976), Rango 5 (1976 ñ 1980), Rango7 (1976 - 1980).

Conclus„o

O presente estudo relata, como o humor pode servir de ferramenta para a crÌ-

tica, utilizando-se das charges de Edgar Vasques. As charges s„o compostas por v·rios elementos, entre eles o humor e a crÌtica, passadas atravÈs de um desenho satÌrico. O leitor cotidiano, colocado num plano de vivÍncia imediata com a mensagem gr·fica ìchargeî, recebe o mosaico de significaÁıes como um jato de ·gua fria. Est· longe de apreender-lhe os paradoxos, longe mesmo de aprendÍ-la com totalidade. Mas a imagem vai acompanh·-lo pelo dia aden- tro, num trabalho paciente de sedimentaÁ„o das significaÁıes digeridas e diri- gidas. (Matos, 1972, p. 218)

Tradicionalmente associados ao humor e ao entretenimento, as charges podem parecer uma opÁ„o pouco convencional para discutir temas delicados, polÌticos e sociais, entre outros. Joe Sacco 4 (2001) acredita que a linguagem da histÛria em quadrinhos seja capaz de superar o bloqueio do grande p˙blico com temas poucos palat·veis. ìOs quadrinhos tÍm muito apelo em raz„o das imagens. Assim, conquista-se a atenÁ„o do leitor, È capaz de contar a ele his- tÛrias difÌceis e introduzir a informaÁ„oî.

Assim, temos o estudo do humor, do que È cÙmico, provocando o riso, ou fazendo cÛcegas no cÈrebro, segundo Masetti (2001) ao explicarmos o cÙmico ou ao tentarmos medÌ-lo e classific·-lo, o tiramos da sua condiÁ„o natural. O

cÙmico tem seu lugar garantido por obrigar uma lÛgica diferente da do con- ceito cientÌfico tradicional. O humor se junta aos conceitos de agrupar idÈias in- coerentes ou absurdas, duplo sentido, irracionalidade, complexidade. Adiciona-se mais uma quest„o: o riso pede um novo conceito de ciÍncia. Ao menos para ocupar seu lugar de origem. Se quisermos compreendÍ-lo precisamos de um modelo que possa descrevÍ-lo com suas caracterÌsticas. O riso, como tantos outros eventos do nosso mundo, carece de conhecimento; n„o porque mereÁa

e sim porque n„o sabemos como lidar O riso, como tantos outros eventos do

nosso mundo, carece de conhecimento: n„o porque mereÁa e sim porque n„o sabemos como lidar com ele. Questıes como a do humor e do riso em nossas vidas, nos recolocam diante de um mistÈrio, de uma condiÁ„o de humildade com relaÁ„o ao quanto devemos caminhar. 5

Edgar Vasques, nos relata a realidade da Època de suas criaÁıes (1970- 1980), seus personagens moravam no ìlix„oî e sobreviviam dos restos, ali descartados pela sociedade de consumo. Atualmente essa situaÁ„o n„o È a

4 Joe Sacco, Jornalista, em entrevista dada ao Jornal Folha de S„o Paulo, caderno mundo, A15, 19/04/2001.

5 http://www.doutoresdaalegria.org.br. 15/04/2001.

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mesma. No Brasil milhares de indivÌduos tem como meio de sobrevivÍncia a venda de materiais recicl·veis, que antes eram garimpados no prÛprio aterro sanit·rio. Em janeiro de 2001, o Governo Federal promulgou uma lei que proÌ- be qualquer pessoa de freq¸entar os aterros municipais, a partir da data de vi- gÍncia da referida lei, estas pessoas passaram a catar o lixo na rua, ou s„o amparadas por Ongís, prefeituras municipais, ou outras entidades. Foi realiza- do o 1 Congresso Nacional dos Catadores de Materiais Recicl·veis, em BrasÌlia nos dia 4, 5 e 6 de junho de 2001, com 1.500 participantes, e apresentado ao Congresso Nacional um anteprojeto de lei que regulamenta a profiss„o Cata- dor de Materiais Recicl·veis e determina que o processo de industrializaÁ„o (reciclagem) seja desenvolvido, em todo o paÌs, prioritariamente, por empre- sas sociais de catadores de materiais recicl·veis, estes dados mostram na atu- alidade a grande diferenÁa da dÈcada de 70.

Este tipo de humor imita as deformidades, os erros, da sociedade atravÈs de personagens representativos do cotidiano social, assim o leitor, levado pela ironia e pelo humor È afligido pelas provocaÁıes da charge e consegue obter prazer, levado por um humor rebelde, que o faz rir de suas caracterÌsticas re- ais. O humor promove o pensamento, aumenta-o, guarda-o para a crÌtica que È aguÁada pelo instinto e torna o indivÌduo mais acessÌvel a ela.

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