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O vale do Tibagi, Brasil

por Thomas P. Bigg-Wither--

(Conferêncialida em 12dejunho de 1876; publicada no lournal of the Royal Geographical Society, London:

John Murray, v. 46, p. 263-277, 1876)5

Em 1871, foi dada uma concessão pelo governo brasileiro ao barão (atu-

almente visconde) de Mauá6e a outros para executar um levantamento en- volvendo uma linha férrea e serviço de barco a vapor que ligaria Curitiba,

a capital da província do Paraná, e a cidade de Miranda7,perto da fronteira ocidental do Brasil, na província de Mato Grosso.

Conforme a concessão, o traçado passaria pela colônia Teresa8,a jusan- te do vale do Ivaí, até o [rio] Paraná; percorreria os vales do Ivinheima e do Brilhante, atravessaria o espigão divisório, indo até os vales de Nioac e Mondego9.Miranda está situada nas margens deste último rio, um tributá- rio do [rio] Paraguai.

Esse levantamento começou no mês de agosto do ano seguinte, e o au- tor foi contratado, junto com outros três engenheiros e uma equipe de ín-

dios e operários brasileiros, para explorar aquela parte do vale do Ivaí entre

a colônia Teresa e a corredeira do Ferrolo.

De agora em diante todas as notas inseridaj no texto original de Bigg-Wither sáo de responsabilidade dos autores Lúcio Tadeu Mota e Thomas Bonnici. "rineii Evangelista de Souza (1813-1889), empresário e politico, convencido de que a industrializacão era a saida para o Brasil, construiu a maior indústria naval brasileira, tomou iniciativas como a da construcão do sistema de iluminaFo a @s no Rio de Janeiro, a primeira ferrovia e a instalacão dos primeiros cabos submarinos. Cidarle no Mato Grosso do Sul. rumo ao Pantanal e a fronteira com a Bolivia. R Apoiado pela imperatriz Tlieresa Cliristina o niédico francês João Mauricio Faiwe criou nas margens do rio Ivai entre Ponta Grossa e G~iarapiiava,em 1847, a colônia Teresa Cristina. Para ali trouxe em torno de 87 pessoas selecionadas na França para iniciar um niicleo colonial de inspiraçso ut6pica. No entanto, aos poucos os colonos franceses foram abandonando o local sendo s~ibstituídospor nacionais e frustranrlo o sonho do Dr. Faivre qiie ali faleceu em 31 de agosto de 1858. " Rins 110 Mato Grosso do SiiI. 'O Últiina grande corredeira no rio Ivai antes deste desaguar no rio Paraná, hoje siniada nos municipios de Guaporema e Mirador no noroeste do estado do Paraná.

Entre essas duas localidades, o terreno era, de modo geral, acidentado e montanhoso, coberto com densas florestas tropicais e semitropicais, des- povoado, excetuando-se a presença de tribos de índios ~elvagens~~.Os ín- dios mais terríveis, chamados coroadosl2, eram agrupados num lugar entre o salto das Bananeiras1e a corredeira do Ferro. A presença desses índios no trajeto da exploração do terreno e sua hostilidade acirrada aos objetivos da expedição ameaçaram pôr empecilhos e até impedir que o levantamento fosse completado. 0s homens do grupo, na maioria brasileiros, tinham um medo profundo, de longa data, até pelos termos "bugre"14ou "índio selva- gem". Quando, um ano e meio após o início do levantamento, um grupo de índios selvagens apareceu repentinamente, o pânico tomou conta dos operários brasileiros e os esforços dos engenheiros para coibi-los foi inútil. O assunto ficou tão sério, que descobriu-se haver uma conspiração para abandonar na calada da noite os engenheiros, a qual somente foi sustada através de ameaças extremas.

Era inútil continuar a exploração quando havia esse tipo de gente. Como conseqüência, foi necessário abandonar o projeto por um período de tempo e voltar pelo rio ao ponto de início.

Observando o MAPA 1 a seguir, ver-se-á um outro e claro caminho pelo vale do Tibagi15,através do qual a região alta da província, formada por campos, poderá ser ligada, por terra ou por rio, ao rio Paraná. Além disso, aparentemente essa alternativa oferecia vantagens semelhantes, ou talvez melhores do que aquelas apresentadas pelo traçado original do Ivaí. O setor que apresenta mais dificuldade para a construção da ferrovia neste último caminho, ou seja, a serra alta intermediária que forma a linha divi- sória entre os dois vales, poderia ser evitado por completo. Se pudesse ter certeza de que a passagem cortada pelo Tibagi pela serra de Apucarana era algo mais do que apenas um profundo desfiladeiro ou canyon, e fosse larga

li Naquele momento, segiincl;~metade do seculo XIX, o vale do rio Ivai nas proximidacles da col6iii:i Teresa Cristina estav:~ habitado pelos grupos indigenas Kaingang cliie estavam deslocando Ivaí abaixo os grupos indígenas Xetb. Para mais detallies sobre esse assunto ver: Mota (1998, p. 175-1891, ''Como eram chamados os índios Kaingang na kpoca. " O salto das Bananeiras, I~>c:ilizadono tiiunicipio de Floresta, na lipoca de Bigg-Witlier, era local preferido de grupos Kaingang que ali faziam seus acanip:imentos de inverno para pescareiii em suas corredeiras. , Termo genérico e depreciativo iirilizado pelas populacóes não indigenas para designar as populaçòes indigenas. O rio Tibagi denominado pelas popiiiaçóes Giiarani de Atibagiba e utn dos principais rios do P;iranh. Tem suas nascentes nos Campos Gerais e percorre 550 km no territorio paranaense até desaguar no rio Paranapanema. Para maiores detallies sol~re seus aspectos físicos ver Maack (1981).

suficientemente para a construção de uma estrada entre o rio e as monta- nhas, sem a necessidade de cavar um segundo túnel semelhante àquele do monte Cenis16,as vantagens desse caminho ficariam mais evidentes.

É importante mencionar que, a partir da foz do Tibagi até o rio Paraná,

o rio Paranapanema pode ser navegável para embarcações de baixo calado,

a custos módicos. De fato, há apenas duas ou três obstruções sem importân- cia a serem vencidas.

Decidiu-se, portanto, que uma exploração preliminar desse novo kaje- to fosse realizada e, ao mesmo tempo, fosse feita uma nova tentativa para completar o levantamento original do Ivaí. Referentemente ao resultado dessa tentativa, pode-se afirmar que recentemente se provou ser um su- cesso completo. Sob a direção competente do Sr. Faber17,assistido por uma grande equipe de engenheiros com grande experiência, o levantamento res- tante daquela parte foi concluído no final de 1874. Naquela época, porém, esse sucesso era mais do que uma possibilidade duvidosa.

Em maio de 1874, esse autor iniciou a exploração do vale do Tibagi. O

ponto de partida era a pequena aldeia de Conchas1*,sita nas margens do rio,

a uma altitude de 732 metros acima do nível do mar.

Um dos principais objetivos dessa exploração foi o delineamento do percurso suficiente preciso do rio para que se tivesse uma base firme para outras observações.

Para executar satisfatoriamenteesse plano, foi necessário navegar todo o percurso do rio. Embora a montante, até pouca distância abaixo da cidade de Tibagi, o terreno nos dois lados seja campo aberto, devido a inúmeros afluentes e pequenos rios, os quais, como em todas as regiões montanhosas, atravessam as margens do rio a intervalos de poucas centenas de metros ou menos, provavelmente andar por terra seria talvez, entre as duas alternati- vas, não apenas o mais tedioso, mas o mais difícil.

l6 O ti~nelCenis, 13.7 km, foi o primeiro a ser construido nos Alpes. Encontra-se abaixo da passagem de Fréjus, entre Mo- dane, França, e Bardonecchia, Itália; terminado etn 1871 sob a diregáo técnica de Germain Sommeiller. " Urn dos componentes do grupo de trabalho de BiggWither no vale do rio Ivai. Infelizmente ele náo fez maiores referêi cias individuais aos riiembros de sua equipe etn seus escritos; foram eles: Capt Palm (lider), Bigg-Witlier, Veal, Faber, Morant, Haire, Ciirling, Adanis. Tynson. Oherg. Litndliolm, Dagain Danberg e um inglês conhecido por S. IR A pequena localidade de Coiiclias descrita por Bigg-Wither nas margens do rio Tihagi era o antigo povoado do Alegre, Iioje detiomitiado de Uvaia. um distrito no tnunicipio de Ponta Grossa.

A partir da freguesia das Conchas, até onde se adentra o rio Pitangui

(uma distância de aproximadamente 55 km), o percurso do rio é inteira- mente sinuoso, sem nenhuma variação apreciável ou na profundidade ou

na largueza de seu canal. A declividade do leito é muito baixa e, exceto uma

pequena cascatalgformada pela erupção de rocha vulcânica, não há obstru- ção nenhuma. Para embarcações de até 46 c& de calha o rio é navegável por

inteiro, mesmo nas estações mais secas do ano.

A formação geológica dos dois lados do vale é arenosa, sobreposta ao

granito; às vezes este último aparece na superfície do descampado.

A terra não é geralmente fértil, a não ser a pouca distância do rio, na

encosta sudoeste do vale, onde predominam camadas de argila e seixos, e

o início da floresta.

Contrastam-se fortemente com o setor superior do rio e do vale as ca- racterísticas do setor inferior, ou seja, a região entre orio Pitangui e a cidade

de Tibagi, uma

Até esse ponto o rio serpenteia calmamente ao longo de uma planície

elevada e comparativamente sem muitos acidentes geográficos. Agora, ele

distância de aproximadamente 48 km pelo rio.

se

aproxima dos confins da planície e a grande curva retrogressiva que tra-

ça

nesse ponto parece mostrar que um obstáculo finalmente foi encontrado,

o qual não seria facilmente superado. Todavia, uma saída é encontrada e o

rio, afastando-se da plariície dessa região superior, agora entra num percur-

so rápido, vertiginoso e impetuoso. Rasgando seu caminho em sucessivos

planos longos e inclinados, ele alcança a cidade de Tibagi após uma queda de 183 m na curta chstância de 48 km. Parece que, agora, mais uma vez, o

rio encontrou seu próprio nível e volta-se, por um curto espaço de tempo, ao seu antigo fluxo calmo e lento.

Nesta última parte do rio a viagem foi muito excitante - é impossível descrever a impressão sobre a mente que o rugido das águas e o grito dos homens fez enquanto uma corredeira após outra passava numa sucessão

incrivelmente rápida, e tudo isso em meio à solidão do cenário circundante.

A descida, porém, não aconteceu sem acidente. Uma das duas canoas, as

quais constituíam o pobre meio de locomoção do grupo,'entrou numa cor-

l9 Pequeno salto de um ciirso de água com um degrau em seu leito.

-

redeira, após ser desembaraçada,e foi usada como guia para a canoa maior:

Por falta de sorte, essa canoa foi levada imperceptivelmente no meio das mais perigosas das corredeiras, que bem poderiam ser caracterizadas como uma catarata. A canoa, velha e apodrecida, espatifou-se em mil pedaços contra as rochas. Os dois homens a bordo foram seriamente machucados e abatidos; um deles foi salvo, com grande dificuldade, do afogamento, pelo companheiro. Exceto essa experiência infeliz, a viagem terminou com êxito

e os objetivos para os quais foi empreendida, alcançados.

Observou-se durante a descida que todas as principais cataratas e.que- das d'água foram causadas por erupções de rochas vulcânicas. A formação normal do arenito não tem a dureza e a consistência necessárias para resistir ao gasto contínuo da água nem a pressão enorme que, de vez em quando, é posta sobre todas as obstru~õesdurante as enchentes. As exceções a essa regra geral, constatadas ao longo de todo o curso do rio, aconteciam onde as rochas vitrificaram e endureceram as estratificações através das quais emergiam.

Um exemplo clássico desse fato é o caso do salto da Con~eição~~,onde o triplo paredão, feito de xisto vitrificado, basalto e arenito vitrificado, ergue- se verticalmente do leito do rio e o atravessa em linha reta de modo que, represando a água, forma uma belíssima cascata vertical de 11metros.

Foi também comentado que, numa determinada distância acima das

cataratas maiores - a distância varia conforme a altura da queda d'água -,

o rio estava livre de qualquer obstrução. Portanto, no salto Grande2',onde

o rio despenca 35 m em apenas 732 m, imediatamente acima da queda, ainda uma extensão de água, profunda e perfeitamente calma, com apro- ximadamente 15 km. É a mais longa extensão de água ininterrupta no rio

a partir do ponto em que se afasta da planície a montante até a sua junção com o rio Paranapanema, numa distância de aproximadamente 435 km.

Notou-se também uma grande diferença na relativa fertilidade das duas partes do vale, a montante e a jusante do rio Pitangui. Como foi comentado acima, o solo não é muito fértil na planície superior e o gado jamais engorda

Salto Grande cla Conceic5o localizado abaixo da cidade de Tihagi com 115,50 m de extensão e uma queda de 11.5 m.

" No mapa traqatlo por Bigg-Wither o salto Grande é o qiiarto salto anotado abaixo tla cidade de Tibagi, depois dos saltos do Vicente, da Conceigao e Aparado. Hoje conhecido por Salto Maua onde esta instalada a Usina Hidrelétrica da Klabin que gera 22,500 kw.

com o pasto lá encontrado. Por outro lado, o gado prospera a vontade na parte inferior, já que vários tipos de pasto que não se encontram na planície superior vicejam em abundância nesse lugar. Parece haver um nexo mis- terioso entre as características do rio e a fertilidade dos correspondentes setores do vale - a mudança é repentina e simultânea em ambos e a divisa é nítida e bem definida -, muito embora, aparentemente, a característica geográfica do terreno permaneça inalterada.

Todavia, esse fato é simplesmente devido à grande quantidade de erup- ções de rochas vulcânicas que ocorrem imediatamenteapós a planície. Sem dúvida, as rochas vulcânicas se estendem pelo vale nos dois lados do rio e, devido à exposição às influências atmosféricas, elas estão continuamente se . decompondo e fertilizando o solo com seus produtos; em sua ausência, o vale ficaria pobre e arenoso.

Essa planície chega a seu auge nas cercanias da cidade de Tibagi, ime- diatamente antes de ela se misturar com a terra, muito mais rica e coberta de floresta além dessa localidade.

Nota-se que, embora no mapa possa ser mostrada uma linha demar- cadora entre a floresta e a planície, não existe uma divisão natural estrita- mente determinada. Não uma linha precisa separando essas duas áreas. Gradualmente, uma se mistura com a outra, de tal maneira que a divisa entre ambas poderia ser mais exatamente mostrada por um cinturão largo do que por uma linha.

Apesar da falta de boas estradas e das conseqüentes dificuldades no transporte, o gado e grandes quantidades de produtos vegetais, como feijão e farinha, estão colocados à venda nas praças de Castro, Ponta Grossa, Curi- tiba e Antonina, como também nas principais cidades da província vizinha de São Paulo.

Na vizinhança imediata de Tibagi enormes depósitos de argila e seixos. Trinta anos atrás, diamantes foram ali descoberto^^^. Tal descoberta

" em meados do skculo XVIII tinliase descoberto diamantes no vale do Tibagi nas imediações de Pedras Brancas. No inicio do século XIX o fazendeiro Jose Felix entroii com uma companhia de aventiireiros pelo,Tibagi e descobriii diainantes nesse rio, o que explicou o r6pido enriquecimento de José Felix da Silva, dono da Fazenda Fortaleza. Por ocasião da visita de Bigg.Wither a vila de Tibagi ele visitou os locais onde havia atividades de mineração de diamantes. Ver no seu livro, 4s parte, capítulos I1 e 111. Ate os dias de hoje encontramos garimpeiros esparsos no vale do Tibagi faiscandidianiantes na esperanca de enriquecerem.

provocou a formação da atual cidade, a qual ainda mostra evidências de sua prosperidade crescente, apesar de as minas de diamante já se encontra- rem desativadas.

As atividades nessas minas de diamante foram encerradas há cerca de quatro anos. Isso aconteceu não devido ao esgotamento das mesmas, mas

a profundidade que o substrato diamantífero havia alcançado sob a super-

fície. A continuação dos trabalhos não seria mais lucrativa com os recursos

limitados e mal empregados disponíveis. As estatísticas colhidas no lugar, verificadas, onde possível, por fontes independentes, e um exame mais cui- dadoso das minas convenceram o próprio autor de que, embora no presen- te fossem abandonadas, ainda serão capazes de ser trabalhadas com maior lucro.

O clima de toda essa região mais alta do vale é temperado. Nos meses

de maio e junho as noites são geralmente salpicadas por geadas e os dias

são mornos e ensolarados. Ao longo do ano as temperaturas podem variar a partir de -2,2 "C até 37,8 "C; as temperaturas mais baixas ocorrem em junho

e as mais altas em janeiro.

O ar é saudável e, contrariamente a informação geralmente veiculada de que quanto mais perto do equador maior seria a necessidade de estimu- lantes, o corpo humano sente um desejo menor por bebidas estimulantes nessas regiões de campina do que em latitudes mais altas.

A estação chuvosa não está muito definida: geralmente dezembro, ja- neiro e fevereiro são os meses mais chuvosos do ano, embora chuvas fortes ocasionalmente tenham caído em julho.

Carecem essas regiões de estatísticas pluviométricas; com certeza, a quantidade de chuvas é menor do que no litoral, ao longo da serra Geral. Provavelmente seria de 1.000 mm a 1.250 mm, no máximo.

O testemunho dos europeus23que moraram ou viajaram pelas campi-

nas dessa província revela que o clima é o melhor do mundo, em termos de salubridade. O vale do Tibagi não constitui nenhuma exceção a essa regra. De fato, os habitantes não têm doenças. Há, contudo, uma ilha no rio, a al-

?' Nessa Ppoca. eiii torno de 1874. ji havia uni araii~iecontingente de eliropeus no Parana. isso devido a forte política de migracio iniplcnientada pelos govcriios provinciais do esra~loeni :inoa anteriores. Sobre isso ver o livro de Wilson Martiiis. Um Parcind Diferente. piil~lica~loem !951 com várias edicócs are Iioje.

guma distância a jusante da cidade, chamada a Ilha da Caxumba, e existem relatos de que essa doença havia aparecido havia muitos anos entre alguns garimpeiros de diamantes que lá trabalhavam. Não se conhece nenhum caso de febre, de nenhuma espécie.

A população da cidade de Tibagi, incluindo toda a municipalidade, num raio de 16 km, totaliza 3.000 pessoas. Os habitantes, em cujas veias corre o sangue de três raças distintas, ou seja, índio, negro e português, são agricultores por profissão. Embora nem assíduos trabalhadores nem de grande iniciativa, a população parece viver satisfeita. Sua tríplicg nature- za mostra uma mistura estranha de boas e más características e é apenas compreendida após um longo e próximo convívio. O seu grande princípio, muito apreciado pelos viajantes, é dar hospitalidade a todos. A preguiça geral, da mente e do corpo, é a característica de todos, exceto na classe mais abastada. Essa má índole certamente não é causada pelo clima, mas é, mui- to provavelmente, inerente à sua própria natureza. Sem dúvida, esse fato é acalentado pela extrema facilidade com que seu pão de cada dia pode ser obtido. Segue-se que, vivendo no meio da riqueza, eles são felizes de passar a vida numa situação apenas um pouco menos animalesca que a dos índios selvagens.

Esse quadro é apenas uma reprodução do que se pode ver nos povo- ados espalhados no interior do Brasil. Não se pode refutar o pensamento, que ocorre na cabeça do viajante, que vê tudo isso, de que a população não merece esse país.

A viagem continuou por terra a partir de Tibagi, no dia 5 de junho. Era mais prudente explorar o rio até Jataí2*,para diminuir o risco de algum de- sastre navegando pelas muitas e desconhecidas corredeiras e cataratas, as quais existiriam com certeza.

A estrada, apenas uma trilha para mulas, vai ao longo do lado norte do vale, a certa distância do rio, como mostra o mapa. O declive desse lado do

24 Em 1850, sob a determinacio do Barão de Antonina, o sertanista Francisco Lopes foi inciimbido de fundar tima coliinia militar as margens do rio Tibagi. A col61iia militar do Jatai foi criada pelo Decreto Imperial n. 751 de 21 de janeiro de 1851, no entanto, ela somente foi oficialmente instalada eiii 10/08/1855, quando ali cliegou o Major Tliomas José Muniz e alguns praças. Ela tinha como objetivo proteger os viajantes que seguiam para o Mato Grosso via rios Tibagi, Paranapanema e Parana, e os aldeamentos indígenas de São Pedro de Alcântara e São Jer6niino. De colônia ela passoti a Freguesia de Jatai em 1872, até que em 1890 ela foi extinta como colõnia militar passando ao dotninio civil como vila do Jatai pertencente ao município de Tibagi.

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vale é acentuado. Fortalezaz5está a 366 m e Monte Alegre2%427 m acima do nível da cidade de Tibagi. No lado oposto do vale, o cume da bacia hidro- gráfica parece ser mais alto ainda.

Embora a altitude geral dos campos aparentemente diminua quando se deixam as campinas e se adentra na floresta, isso é apenas devido à aproxi- mação da estrada ao rio e não a mudança brusca na configuração do vale.

Os pinheiros - a maioria de proporções enormes - exibem o cres- cimento característico da floresta, em todas as altitudes, ou seja, acima de 488 m até 518 m acima do nível do mar. Abaixo dessa linha, os pinheiros desaparecem repentina e completamente. Outros tipos de vegetacão, mais tropical, os substituem. Os pinheiros crescem a uma altura de 40 m a 43 m; seus troncos se erguem retos e sem ramos até uns poucos metros de seu cume, de onde muitos ramos, longos e finos, emergem e se estendem ho- rizontalmente do tronco, formando um topo, feito guarda-chuva, de cerca 18 m de diâmetro. É o lugar favorito, especialmente na época das frutas, de inúmeros bandos de papagaios, gralhas brasileiras e macacos.

A pequena distância da aldeia de AlambariZ7,alcança-se o pé das serras de Apucarana2" de A meio caminho entre Alambari e São Jerô- nimo30,a estrada atravessa a cumeeira a uma altura de 1.036 m acima do nível do mar. Logo depois, entra-se numa vasta região de campos, a qual (a primeira vista, com grande estranheza) eleva-se, desolada e desprovida de

A fazenda Fortaleza foi instalada pelo Tenente-Coronel Jose Felix da Silva por volta de 1812 quando adentrou a região em busca de diamantes. Em 1820 a fazenda Fortaleza foi visitada por Aiigusto de Saint-Hilaire qiie ali presenciou a partida de expediçóes militares organizadas pelos fazendeiros da região contra os indios Kaingang. Por muito tempo essa fazenda foi uma espécie de forte militar que armazenava armas e muniçfies e dava abrigo a expedições militares organizadas contra os Kaingang que faziam suas razias ao longo da estrada do Viamão. '6 Uma das grandes fazendas de gado da região dos Campos Gerais na época da viagem de Bigg-Wither. Situava-se entre as fazendas Fortaleza e Lagoa e era banhada pelos rios Alegre e Quebra Pernas. l7 Povoação entre a fazenda Alagoa e São Jerònimo da Serra, as margens do riacho do mesmo nome. O próprio Bigg-Wither (1981. p. 377) descreve a povoação de Alambari no seu livro: "Alambari, a dois dias deniarcha de Alagoa, e pequena povoaHo de fumo, contando cerca de cluarenta habitantes ae todo. O fumo, de muito boa qualidade, e fabricado em rolos e encontra bons niercados nas cidades das cainpinas". Conforme R. Maack a serra da Apiirarana 6 o divisor de ámas entre os rios Tibagi e Alonso com altitudes entre 1.000'a 1.150 in coiii cristas e/oii platós formados por chapas de areiiito Botucatu. A serra da Apucarana e registrada na história regional desde o século XVII qiiando o bandeirante Fernio Dias Paes Leme nela se instaloii por virios meses preando indios Kaingang e procurando metais preciosos. l9 A serra dos Agudos sáo morros testemunhos isolados pela erosão e transpostos pelo rio Tibagi. "Constituidos por rochas de formacóes periniana TerezinaSerrinlia, Esperaiiqa e Poço Preto, assim como do arenito Botucatu do Triássico Superior, ahavessa- das por iliqiies de diahásios" (MAACK, 1981, p. 328). Chegam a atingir 1.224 m de altitude. No capitulo VI11 da quarta parte do

seu livro. Bigflither

'5ão Jer6nimo [da Serra! foi fiiiidatlo ein 1854 com a finalidade de catequizar os Kaingang que habitavam a região. O aldeameiito foi entregue ao sertanista Francisco Lopes, o cliial foi substituido em 1867 por Frei Luiz de Cemitille. A partir de 1870, qi~a~idofoi coiistruida iinin capela Jetlicada a São Jerõnimo, o aldeamento ficou conhecido pelo nome de São Jerdnimo, transformando-se mais tarde na cidade de São Jerõnitno da Serra.

relata os perigos que passou ao navegar o Tibagi no desfiladeiro da serra dos Agudos.

vegetação, do meio da floresta exuberante. Outro trecho semelhante, cha- mado Campo de Inhohô", fica um pouco mais perto do rio.

Esses trechos pequenos, desprovidos de vegetação ou campos, pare- cem estar totalmente em desarmonia com o ambiente ao redor, não apenas pela sua esterilidade comparativa, mas também pela configuração do solo. Enquanto nas florestas ao seu redor seria difícil encontrar um terreno plano de quatro metros quadrados, neles há muitos quilôme&os quadrados de planície quase perfeita. Nesses campos a planície é tão plana que uma gran- de parte de sua extensão é permanentemente tomada por pântanos.

0s fatos seguintes podem oferecer alguma solução à sua origem. Ativi- dades vulcânicas deram origem às serras de Agudos e de Apucarana. Gran- des massas de rochas vulcânicas, compostas principalmente de pórfiros, foram sublevadas e irromperam as estratificações de arenito e outras for- mações geológicas, causando a vitrificação destes últimos em todas as su- perfícies de contato. Após a sublevação eruptiva (a qual deveria ter atuado com igual força em grandes áreas), teve início a desnudação, esculpindo os declives íngremes e os vales e desfiladeirosprofundos, os quais são atu- almente cobertos de floresta. Ficaram, em certos lugares, expostas à ação desintegradora das influências atmosféricas as rochas vulcânicas extrema- mente fertilizantes. Por outro lado, quando a dureza da estratificação, au- xiliada pela ausência de declividade ou depressão, no leito, sobre uma área considerável, resistiu às forças de desnudação, os trechos planos, cobertos apenas pela sua casca protetora, permaneceram.

De fato, esses campos mostram (sobuma pequena profundidade de terra especial) uma superfície, mais ou menos plana, de arenito vitrificado duro. Em um ou dois casos onde, perto das divisas, pequenos riachos cavaram, ao longo do tempo, seu caminho através dessa casca superior, pode-se ver que as rochas ígneas se encontramimediatamenteembaixo.Éo que se espera, se a explicação acima for correta. O aparecimento da vegetação dura dos campos em lugar da floresta exuberante é uma conseqüência direta na teoria de sua formação geo- lógica. Portanto, o fenômeno está explicadosem grandes dificuldades.

'I Campos do Inholi6 eram os terrirbrios do c;icique Kaingang lnI106 localizados na margeiii direita do rio Tibagi nas proximidades do que seria mais tarde o aldearneiito de São Jer8nimo. Após sua descoberta pelos serranistas Joaqiiiiii F. Lopes e John H. Elliot em 1846 esses campos foram apropriados pelo BarHo de Antonitia cliie ali estabelrtceu a hzenda São JerBnimo com a finalidade de ser uni entreposto coinerci~ilni) cnminlio para o Mato Grosso.

Elevando-se no meio da floresta, esses pequenos campos não são ocor- rências raras. Encontram-se geral e variavelmente em íntima conexão com serras vulcânicas onde também o arenito é a formação sobreposta.

Outro exemplo, mostrado no mapa, ocorre na serra, também de origem vulcânica, que divide as águas dos rios Tibagi e Ivaí3*.

Esses lugares específicos na serra de Agudos foram descobertos em 1845por um estadunidense chamado Elliott3',o qual explorava essa região em nome do Barão de Antonina3" Elliott os descobriu a partir de um dos cumes da serra de Apucarana, distante entre 32 e 48 km, no outro lado do vale. Alguns anos depois, o atual povoado de São Jerônimo foi fundado. Elliott, velho e com saúde precária, devido a vida difícil como explorador, está passando a velhice no mesmo lugar que ele havia descoberto trinta anos antes.

No que diz respeito a passagem do rio pela serra, pode-se ter uma vista completa de todo o lado sudoeste do vale do Tibagi a partir da extremidade sul do Campo de Inhohô, a uma altura de 1.006 m. Essa vista estende-se da serra de Pedras Brancas's, acima da cidade de Tibagi, até e além do vale do Parana~anema~~,alongando-se em direção oeste, onde não há colinas, até onde o olhar possa alcançar.

I' Até meados do século XX todo o divisor de aguas entre os rios Tibagi e Ivai era conliecido como serra da Aplicarana. No iiiapa tle Bigg-Wither, anexo ao seu texto, todo o interfluvio Titmgi e Ivai aparece denominado como serra da Apucarana. "Jolin Henry Elliott nasceii em Filatlklfia em 1809 e integrou a niarinlia brasileira em 1827 quando da campanlia cispla- tina no bloqueio de Aiienos Aires. Ap6s o conflito, ficou iio Brasil cotiio topbgrafo e agrimensor sob a protecão do Barão Je

Aiitonina e, junto com Francisco Lopes, exploroii vastas regiões de Sáo Paulo, Minas Gerais. Mato Grosso, Santa Catarina e Rio Grande do SiiI, confeccioi~aiicl<imapas. levantaiitlo regiões e dando os limites de serras. florestas e canipos. Explorou o planalto paraiiaense a partir tios anos 1830, sendo (lescohridor dns campos de Sao Jerhnimn. Piihlicoii. eiitrc nutros trahallios, Itincrario d(is viapcns explorador(ts cmprccntlid~rpelo Sr. Barcio tle Antoninu para descolirir via (i<, cotiiirnic(~.riçtioeiitrc Antonina e o Buixo Para,vmi iiu proviiicici do Mato Grorsti (1847). Eslioqo dos Campos dc Palmnc e territórios contiguos e Mapa çar~o~ajicoúe partc da Prwnicia de Sao i'ciulo, Rucia tlor rios Parunapctriemci, Tihu~ie Iziui. BigpWitlier o eticontroii jd com iJaJe avniicada eiii 1878. Provavelmente morrcii por vcilta cie 1880 ein São Jer«ni>iio. '4 JoãoJa Silva Machaclo, o Bnião de Antonina, rico negociante de gado nos Campos Gerais na primeira metade do séciilo XIX, tornou-se politico infltiente nos negdcios do Império sendo o primeiro Seiiadnr da Provincia do Parana. Filho de Manuel

da Silva Jorge e Antíitiia Maria tle Bitteiicoiirr,

tle marco de 1875. Foi depurado provincial de 1835 a

1782 e faleceu em Sáo Paulo no dia 19

nasceu em Taq~iari-RSem I1 de junho de

1843, vice-presidente de provincia e senador do Império do Brasil de 185'4

a 1875. Sob seu comando, John H. Elliot e Joaquiiii Francisco Lopes, honiens capacitados e experientes, vasculharam todo o norte. o oeste Parand e o si11do Mato Grosso eni I~uscade terras de pastagens para o Barão instalar suas fazendas de gado. " No séciilo XVIII foi descciliert~ioi~roe diariiantes eiii Pedras Brancas. 2 siidoeste <Iaatual cidade de Tihagi. na margem esquercln do rio (10 mesmo nome, (MERCER. 1977. p. 23) por Ãiirelo Peclroso. e Frei Bento de Santo AngeIo. Essas descobertas caiisnram a dispiita tias terras das niinas do Tihagi p~irynderosos donos cle lavras de Minas Gerais e autoridades de ParanagiiA. Eiii 1757, o Ouvitlor iie Paranagui. eiivioii uma t>anileiracle 200 soltlaclos para Pedras Brancas com a finalidade de submeter os posseiros. Enviada pela Caniara de Curitiba. para vigiar os garimpos de Pedras Brancas, essa guarda ficou acantonada, no registro Je Nossa Seiiliora Jo Carmo na foz do rio Capivari no Tihagi, até 1765, e ai foi instalado o forte militar de Nossa

Senliora do Carmo. '"Rio Paranapanema divide os estados de Sã<>Paiilo e Parand numa extensão de 392 km desde a junção com o rio Itararé até siia foz no rio Parana.

Essa vasta extensão de terras ricas e férteis, abrangendo uma área de milhares de quilômetros quadrados, está ainda coberta de mata virgem e habitada apenas por algumas tribos nômades de índios selvagens. Prova- velmente assim permanecerá por muitas futuras gerações, até que uma ou- tra guerra contra o Paraguai obrigue o governo a construir a tão planejada estrada3' nesse vale, ou até que a própria região passe para as mãos de um povo mais empreendedor. Nenhuma alternativa tem possibilidade de ser executada por muitos anos vindouros.

A partir dessa localidade do Campo de Inhohô, o rio Tibagi estende-se [no mapa] por muitas léguas em seu curso natural. As linhas brancas e os sinais, colocados aqui ou acolá, indicam a posição de tantas quedas d'água e cataratas. A imaginação excitada quase fantasia que esteja ouvindo o ru- gido das corredeiras surgindo das suas profundezas. Todavia, as distâncias são grandes demais.

Parece evidente que o rio, outrora, ocupava uma maior largura do vale do que atualmente. As longas filas de colinas da mesma altitude, semelhan- tes a anfiteatros gigantescos, nos dois lados do vale - as muitas escarpas e declives, todos direcionados para dentro e ao centro do vale - são caracte- rísticas salientes.Essas características tornam-se mais perceptíveis pelo fato de que, a partir desse ponto elevado, todas as configurações pequenas no solo, as quais, em situações diferentes, confundiriam a visão, ou haviam desaparecido ou ainda estavam visíveis em suas relativas proporções.

Ficou mais evidente agora que a passagem cortada pelo rio e que atra- vessa a serra de Apucarana não era apenas um desfiladeiro ou canyon pro- fundo, mas um vale largo, o qual não proporciona nenhuma dificuldade para a construção de uma ferrovia.

Continuando a viagem a partir de São Jerônimo, e depois de passar o riacho homônimo, o aspecto geral do vale muda mais uma vez. A região montanhosa e escarpada dos Agudos é deixada de lado e chega-se a [uma região de] colinas, de pouca altitude, suavemente ondulantes. Ao mesmo tempo, as características da vegetação tornam-se totalmente tropicais; os

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"A estrada a que se refere BiggWitlier e a proposta pelo Barão de Mniib ria qiial ele esteve trabalhando no traçado pelo vale do rio Ivai. Essa estrada de ferro estava planejada para ligar Aritonina no litoral do Parand a algiini porto no Peru rio oceario Pacifico.

últimos pinheiros desaparecem e dão lugar a peroba, ao pau-Calho e à fi- gueira, cada uma rivalizando, por suas dimensões, com o monarca que ha- via substituído.

A formação geológica também sofre mudanças. No lugar do arenito

e de pórfiros, uma rocha amigdalóide, de cor marrom-avermelhada, com suas inúmeras pequenas cavidades forradas com um cloreto mineral verde, constitui a grande parte das colinas, a qual é a formação geológica domi- nante até um pouco antes de Jataí.A partir.desseponto até o [rio]Paranapa- nema, a pedra arenosa, fragmentada em todas as direções pela solidificação e grandes massas de pedras verdes, é dominante.Essa formação amigdalói- de estende-se em direção sudoeste até o vale do Ivaí, onde (especialmente no salto da Fogueira3", toma características diferentes. As cavidades em seu interior crescem em tamanho e, com freqüência, contêm ágatas de 1,2 e 15 m de diâmetro. Quando quebradas, encontram-se nelas cristais de ametista, brilhantes e bem-formados, e outras variedades de quartzo.

São essas as pedras, as quais, há cerca de 250 anos, suscitaram grandes esperanças entre os habitantes dessa pro~íncia'~.Grande quantidade delas foi encontrada no leito do rio Ivaí por um grupo de assim chamados "explo- radores" - na realidade, eram caçadores de escravos40- e equivocadamente tidas como safiras.

Com referência a vida animal dessa região, pode-se narrar um inciden- te que ilustra a coragem extrema do jaguar, ou tigre sul-americano, muito comum nessas florestas.

A tardezinha, o nosso grupo estava acampado nas margens de um ria-

cho chamado Três Barras4".O porco selvagem, abatido durante a caminha- da naquele mesmo dia, estava pendurado num galho de uma árvore alta, pronto para o desjejum do dia seguinte. Exceto um homem (o qual, como de costume, estava de guarda ao lado do fogareiro), todos os demais esta- vam retirados em suas barracas e dormindo, quando, de repente, um tiro de pistola fez com que todos se levantassem, temendo um ataque por índios.

'' Localizado no krn 280 do rio Ivai, entre os rios Alonzo e Coriinibatai, o salto da Fogueira tem um desnivel de 3 m. l9 Província do ParaiiA, criada em 1853 quando se ernaiicipoii de Sa» Paulo. 'O Com certeza Bigg-Wither está se referindo aos bandeirantes paulistas qiie assolaram a região na primeira metade do sécillo XVII. 4i Um dos afluentes do Tibagi na siia margem esquerda (oeste) entre a cidade de Tibagi e o Salto Mauá.

Todavia, somente foi vista uma lona amassada, rolando, esperneando e se contorcendo no chão. Um segundo depois, um jaguar pulou fora daquela massa de lona e imediatamente desapareceu na floresta. Após mais con- torções violentas, o outro objeto se livrou daquela lona. Dessa vez, foi um homem, totalmente estupefato e desconcertado.

Parece que o homem que estava de guarda viu o-jaguar rondando o porco e imediatamente deu um tiro de pistola em direção do animal. Ator- doado de medo, o jaguar entrou na barraca mais próxima, derrubando-a, e enrolando a si próprio e aos seus ocupantes em suas dobras. Nas semanas seguintes o homem foi alvo de brincadeira de seus companheiros mais do que foi de seu indesejado companheiro de cama.

Além de jaguares e porcos selvagens, as antas e os cervos são muito abundantes.

Chegamos à aldeia de Jataí, uma colônia militar, com cerca de 450 ha- bitantes, a qual, desde sua fundação em 1852, tem permanecido estagnada, uma situação tão comum a muitos povoados no interior desse país.

Durante a Guerra do Paraguai4=,quando foi usada pelo governo brasi- leiro como depósito de apetrechos militares, a aldeia foi temporariamente plena de atividades. Após o desfecho bélico, voltou a seu estado letárgico, embora houvesse a esperança de que o governo, sabendo do valor da aldeia como ponto estratégico, faria esforços para abrir uma estrada melhor que a triste estrada de terra existente, favorecendosua ligação em direção ao leste. Todavia, essa expectativa, até agora, não se materializou.

Além de Jataí, o rio não é navegável devido a muitos trechos com pouca profundidade e pequenas corredeiras, embora durante a guerra o governo te- nha constantementeusado o rio para transportar,em canoas, grandes quantida- des de material bélico para o Paraguai, perdendo cerca de um sexto da carga.

Nessa região a geada é desconhecida, e o cafeeiro, a cana-de-acúcar, o fumo, o milho, o feijoeiro e o arroz, além de todos os tipos de frutas tropicais - como laranjas, cidreira, bananas e abacaxis - crescem com abundância, que o solo é de extraordinária riqueza.

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'' Tambkm conhecida como a Guerra da Triplicc Alianca, a Guerra do I'aragiiai (1864-1870), instigada pela Itiglaterra, en- volveu o Paraguai, Uruguai, Brasil c Argentina. O exercito paragiiaio de 600 mil liotnens, sob o rornando de Francisco Solano Lôpez, foi dizimado durante os seis anos de conflito.

Uma pequena atividade comercial em açúcar e cachaça (uma espécie de rum) se realiza com as cidades dos campos gerais. Esse comércio e o auxílio anual concedido pelo governo são suficientes para manter o lugar ativo. Uma colônia43de cerca de 500 índios coroados semidomesticados, sob a di- reção de um padre, está estabelecida na margem oposta do rio.

A semelhança da maioria dos rios menores brasileiros nas fronteiras dos trópicos, o rio Tibagi é sujeito a frequentes e violentas enchentes, que ocorrem a intervalos irregulares.

Devido a uma dessas enchentes repentinas e inesperadas, o autor foi detido em Jataí do dia 2 ao dia 25 de julho. Após nove dias de chuva sem trégua, o rio à aldeia, cuja largura era de cerca 183 m, subiu 10 m, e o volu- me de água aumentou de 6.117 para 152.900metros cúbicos por minuto.

Árvores imensas e uma grande quantidade de lixo foram dragadas continuamente nos momentos mais tensos da enchente, enquanto o baru- lho, feito pelas raízes que se arrastavam pelo leito rochoso do rio e impetu- osamente levadas pelo redemoinho das águas, era distintamente ouvido a uma distância de quase um quilômetro da margem.

Foi a mais alta.enchenteque havia ocorrido desde 1859, quando toda a parte mais baixa da aldeia foi varrida completamente.

A partir desse momento, buscava-se a solução de como subir de Jataí até a cidade de Tibagi pelo rio, um trecho de mais de 320 quilômetros. Fo- ram realizadas duas tentativas para explorar esse trecho, ambas sem su- cesso, devido as grandes correntes do rio. Uma tentativa foi feita por Mr. Elliott em 1846; outra pelos dois engenheiros alemães Keller44,empregados pelo governo em 1865, para explorar esse e outros rios. Até aquele momen- to, esse trecho continuou desconhecido e inexplorado. Quando as enchen- tes amainaram, no dia 25 de julho, nosso pequeno grupo de nove homens embarcou em duas canoas novas, construídas especialmentepara mais uma tentativa e cheias de provisões. Iniciando assim nossa viagem, a aldeia in- teira apareceu nas margens do rio para nos dizer adeus.

4' Em 1855 Frei Timotheo de Castel Niiovo fundou a col6nia indígena de Sáo Pedro de Alcântara, ja prevista para ser instalada pelo governo do Imperio, para catequizar os índios Kayowi e Kaingang que tinham seus territórios ao longo do rio Tibagi. " Franr e Josepli Keller, engenheiros alemáes, foram contratados pelo Governo Imperial - Ministério da Agricultura, sob as ordens tio presidente da Provincia do Parana, André Aiigusto <te PAdiia Fleuri, para verificarem a viabilidade de navegaçáo dos rios paranaenses em 1865. Fizeram estudos detalliados dos rios Iwi, Paranapanemn e Tibagi que foram publicados num relattirio cio Presidente Fleuri.

A fama ruim dada ao rio não era exagerada. Apesar de todas as precau- ções, no dia 27, uma das canoas afundou e certa quantidade de provisões foi perdida. Continuando a subir o rio, com maior precaução, no nono dia após a nossa partida de Jataí, fomos agraciados ao ver a colônia índia dos coroados domesticados chamada colônia Nova45.Nesse lugar, novos supri- mentos chegaram de São Jerônimo.

Quando continuamos a viagem, o rio mostrou-se novamente mais difí-

cil ainda. Dia após dia, trilhas tinham de ser abertas na floresta e as canoas puxadas por terra. Em outras ocasiões, as canoas eram descarregadas e, com

o auxílio de correntes e cordas, puxadas com grande esforço por cima das

corredeiras espumantes. Os homens - seis deles índios caioás sangue-puros - eram acima da média dos homens brasileiros, e todos estavam determina-

dos a superar todo e qualquer obstáculo.

Na manhã do dia 20 de agosto, quase um mês após a nossa partida de Jataí, essa determinação foi posta a dura prova. Os homens já se congra- tulavam de que o pior trecho da viagem acabara e de que em alguns dias chegaríamos aos campos gerais (naquela mesma manhã foi visto o primeiro sinal de civilização, ou seja, uma vaca morta jogada no barranco), quando, dobrando uma curva pequena do rio, deparamos com um espetáculo que, num átimo, derrubou os nossos cálculos cheios de esperança.

Estendendo-se por toda a largura do rio, de margem a margem, compos-

ta de estratificaçãoacima de estratificação, a uma altura de mais de 30 m, sur-

gia uma enorme barreira de rocha e espuma, cachoeira e catarata, mistura- das numa confusão selvagem.Aqui e acolá, espirais de vapor, qual fumaça,

levantavam-se e formavam uma nuvem no seu topo. O estrondo produzido pelo imenso volume de água em queda parecia o ribombo surdo de um tro- vão e a cena toda era impressionante acima de qualquer descrição.

Quando melhor examinado, esse obstáculo media 35 m e quase um qui- lômetro em cumprimento. Ambos os lados estavam protegidos por paredões perpendiculares de basalto, medindo 61 m em altura. Nenhuma alternativa para a passagem das canoas foi possível, exceto fazendo um longo desvio na floresta. Necessariamente tal contorno havia de ser feitq e, portanto, uma

+'Essa localidade aparece pontiiada no iiiap:i anexo ao textu de Bigg-Witlier coino Indian Colony na barra do rio do Tigre no Tibagi, no entanto, na literatura e relac0rios da época não há registro desta localidade.

estrada forrada de madeira, ao longo de dois quilômetros e meio, foi cons- truída contornando a cachoeira. As canoas foram arrastadas pela estrada e lançadas mais uma vez no rio, acima da cachoeira.

Essa manobra, extremamente laboriosa, foi completada após nove dias, apesar da ajuda dada, durante a última parte da operação, por vários índios selvagens da tribo dos botocud~s~~.Esses índios não suscitavam apreen- são especial, porque formavam apenas grupos de poucas famílias e não se aglomeravam em grandes turmas. Todavia, devido a seu caráter prover- bialmente animalesco e traiçoeiro, foram necessárias constantes precauções durante a estada naquele lugar.

No dia primeiro de setembro alcançamos o rio Imba~zinho~~,onde vários suprimentos esperavam a nossa chegada. No dia 8 do mesmo mês aportamos, mais uma vez, na cidade de Tibagi, finalizando com sucesso uma viagem que, até aquele momento, era considerada impossível, depois de mais de seis semanas de trabalho sem fim.

O suficiente foi dito ou inferido com referência as características do rio entre Jataíe Tibagi. Todavia, é interessante salientar as demarcações de três entre os mais diversos setores em que o rio poderia ser dividido.

A partir de Jataí até o estuário do rio São Jerônimo, a declividade é

acentuada, mas regular. O rio poderia ser considerado uma longa corredei- ra em toda a sua extensão. Sua largura varia entre 146 a 1.006 m.

A partir do rio São Jerônimoaté o salto Grande, o rio atravessa as gran-

des montanhas das serras de Agudos e de Apucarana numa série de quedas d'água variando de 3 a 12m de altura. Embora a navegação seja mais difícil,

nesse setor a declividade média de seu leito é menor do que a do setor an- terior. A largura média do rio é também muito menor.

O setor seguinte, a partir do salto Grande até a cidade de Tibagi, é algo espantoso, devido a enormidade de suas cachoeiras (distintas de corredei-

46 indios botocudos eram aqueles que usavam iim adorno nos lábios denominado de batoque. No Paraná os Xokleng do grupo lingiiistico Jè, e os XetQclo grupo lingiiistico Tupi utilizavam esses adornos. No entanto essa informação de Bigg-Wither, descrevendo grupos iiidigenis com adornos labiais no vale do Tibagi e grifando a presença deles no seu mapa no divisor de aguas do Tibagi e Ivai. contrasta coin as informaçóes da época que situavam os Xokleng ao sul dos rios Negro e Iguaçu e os Xeta no mhdio e baixo Ivai. " Aflueirte da margem esquerda (oeste) do rio Tibagi entre as cidades de Tibagi e o salto Mauá, nasce na serra dos Porungos e corre paralelo ao rio Inibaii.

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ras ou cataratas) e à ocorrência, a montante, de longas extensões de águas calmas e profundas. Há nesse setor ouro e diamante em certa quantidade. Estes, porém, não se encontram a jusante do salto Grande.

O declive do rio entre Tibagi e seu estuário fica em torno de 290 m; con-

seqüentemente, o declive total, numa extensão de mais de 480 km, chega a 472 m.

Além de cumprir os objetivos específicos pelos quais foi empreendida, a exploração descrita acima acrescentou mais um rio à lista, que já está se tornando longa, de rios brasileiros cujo curso d'água ora tem sido inspecio- nado e mapeado.

Embora o vale [do Tibagi] parqa pequeno e insignificante no mapa do Brasil, a sua localização,ligando o grande sistema fluvialnavegável do Parana- panema, Paraná, Ivinheima e Brilhante com um dos melhores portos na costa leste (já que uma estrada" de rodagem de primeira categoria já foi construída na sua parte mais difícil, ou seja, a Serra do Mar, entre Antonina e Curitiba), é de maior importância do que outros vales, mais largos e mais ricos.

Como foi visto acima, o vale contém todo tipo de variedade climática, do temperado ao tropical, e serve para a produqão de qualquer tipo de alimen- tação necessária. Tem suas terras de pastagem para a criacão de gado e suas ricas terras florestais para o cultivo de vários tipos de hortaliqas. Em todos os lugares abundam a água e a lenha; o clima é incomparavelmente salutar.

O que, então, falta para que essas grandes vantagens naturais possam ser

aproveitadas? A resposta é clara: o que falta é uma estirpe de gente mais em- preendedora, enérgica e, acima de tudo, honesta, para substituir o nativo híbri- do. Tudo se transformará com tal substituição. O governo já se mostra liberal em seu apoio; porém, como todos sabem, nem um décimo dos subsídios con- cedidos chega ao objetivo almejado. Em poucas palavras, pode-se dizer que são apropriados pelos vários funcionários públicos por cujas mãos passam.

O onipresente baixo padrão de moralidade tem até agora emperrado e

continuará entravando o desenvolvimento do país. Apesar de tudo, pode- se perceber certo progresso, especialmentena região ao redor da cidade de

Tibagi.

" Bigg-Wither se refere a estrada da Graciosa que ligava Antonina a Curitiba.

Considerando todas as regiões da província do Paraná, essa região é

a mais promissora para o estabelecimento de um povoado colonizado por

ingleses. Se, em vez de gastar milhares de libras esterlinas na tentativa de

estabelecer uma colônia inglesa em As~ungui~~- sobre a qual ouvimos tan- to há alguns anos, a qual, enterrada entre colinas, montanhas e florestas impenetráveis, é completamente imprópria para esses objetivos - o mesmo dinheiro fosse gasto para fundar uma colônia numa localidade cujas po- tencialidades eram garantidas, e onde para seu desenvolvimento existiam grandes espaços, muito dinheiro teria sido economizado pelo governo bra- sileiro e grandes lucros teriam sido ganhos por ambos.

As vantagens que essa região ofereceria ao colonizador inglês, em con- traposição as de Assungui, podem ser assim resumidas: clima mais apro- priado; terra para o pasto e para a agricultura; uma localização mais central no que diz respeito aos mercados varejistas. Se a colonização inglesa tiver de um dia ser bem sucedida nessa província, deverá ser estabelecida numa localidade igual a esta [região do Tibagi] e não nas profundezas do isola- mento no qual Assungui está enterrada. Que o experimento do Assungui seja abandonado; que a colônia seja transferida para as vizinhanças do Ti- bagi; que seu núcleo seja estabelecido em alguma localidade na divisa com

a floresta - não em seu interior longínquo.

Em Curitiba uma grande:e próspera população de origem germânicaS0 surgiu de um núcleo minúsculo - por quê? Simplesmente porque a região

e o clima são apropriados para aquele povo. Além disso, há um mercado

varejista para o produto de seu trabalho. Em Assungüi destacam-se tais condições por sua ausência. Em Tibagi elas existem nas mesmas condições de Curitiba. No caso de uma colônia agrícola, nenhuma parte da província

49 ingleses comecaram a chegar na colônia de Assuiigui, distante cerca de 112 km de Curitiba, em 1867. Em 1872, cerca de 500 colonos britânicos chegaram ao Parana e. apos vários meses de espera, foram enviados para Assungui. Todavia, e. 1874, niiiitos colonos desistiram da empreitada e o cônsul Lennon Hunt foi nesse mesmo ano a colônia, entrevistou todas as familias e relatoii o que viu e oimiu. O relatorio referente a "uina história muito dolorosa de fracasso, grandes desapontamentos e sofrimento de centenas de siiditos britãnicos" em Assungui, foi apresentado no parlamento britãnico em 1875. Bigg-Wither escreveu sobre a colônia britãnica em seu livro Nouo Caminho no Brasil meridional, piiblicado em 1878; o relatorio de Lennon Hiint pode ser encontrado em Imigração para o Brasil: relatório sobre a colhia Assunguy, apresentado a ambas as casas do parlamento por ordem de Sua Majestade, publicado em 1998; outros detalhes estão ein Lamb (1997). '"A imigracio e o estabelecimento de alemães no Brasil e no Paraná datam, respectivamente, de 1818 e 1828, assinalados pela política Je Doiii João VI, pela coticessáo de terras a colonos alemães e pelo amplo programa de colonização desenvolvido pelo governo imperial depois da independência. Rio Negro recebeu colonos alemães em 1828 e Guaraqtieçaba em 1853. Em me- ados do seculo IX, poréiii, Iiouve iim movimento espontâneo de re-imigracãode alemães oriundos de Santa Catarina, os quais se estabeleceram em cliicaras tio>arredores de Curitiba, formando vários núcleos que promoveram uma agricultura de abasteci- mento. Aos poucos estaheleceraiii-se numerosas colônias de alemães sitiiadas a poucos qutlômetros do centro de Curitiba.

teria melhores condições [para abrigá-la].

Dessa maneira, novo sangue será injetado onde precisa mais e onde co- lherá o maior benefício. Pode-se confiar que as leis da seleção natural façam o resto. Portanto, esse rico e fértil vale, com sua área de quase 51.800 quilô- metros quadrados, teria uma oportunidade, numa data não muito distante, que seus grandes recursos merecem.

Deve-se lembrar que, atualmente, o vale do Tibagi, a semelhança de ou- trasricasregiõesde difícilacesso,épraticamentedesconhecidoaté na própria província. Para o mundo exterior, é totalmente uma "terra inc~gnita"~~.

No sentido de desconhecida, mas devemos lembrar que a região do vale do rio Tibagi foiexplorada desde o séciiloXVI pelos espanhóis e na seqüência, nos séculos XVII pelos bandeirantes que vasculharam o Tibagi em busca de índios e peciras

preciosas, no século XVIII

(Elliot, Keller) percorreram novamente o Tibagi. Assim essas terras não eram totalmente desconhecidas como quer o engenheiro inglês.

da Capitania de São Paulo, e no século 1X varias expedições

pelas expedições militares do governo