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MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, DOS RECURSOS HÍDRICOS E DA AMAZÔNIA LEGAL - MMARHAL Secretaria de

MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, DOS RECURSOS HÍDRICOS E DA AMAZÔNIA LEGAL - MMARHAL

Secretaria de Recursos Hídricos - SRH

DOCUMENTO APRESENTADO NA REUNIÃO WORLD WATER COUNCIL LATIN AMERICAN WATER FORUM

Política para o planejamento e gerenciamento dos Recursos Hídricos da bacia do Rio São Francisco

Eduardo Alfonso Cadavid Garcia Pesquisador em Economia de Recursos Hídricos

SÃO PAULO - Brasil Janeiro de 1997

Eduardo A. Cadavid G

SUMÁRIO

Eduardo A. Cadavid G SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO 1 PRIMEIRA PARTE 1 PROBLEMAS 4 2 OBJETIVOS 14

1

INTRODUÇÃO

1

PRIMEIRA PARTE

1 PROBLEMAS

4

2 OBJETIVOS

14

3 METODOLOGIA

19

3.1

Descrição Geral da Bacia do São Francisco

20

3.1.1

Características fisiográficas

20

3.1.2

Clima

21

3.1.3

Hidrologia

23

3.1.4

Solos

28

3.1.5

Demografia

29

3.1.6

Aspectos sócioeconômicos

31

3.2 Técnicas e Métodos de Síntese e Análise de Dados

34

3.3 Técnicas e Métodos de Planejamento: Conceitos

36

SEGUNDA PARTE

MARCO INSTITUCIONAL E LEGAL PARA O DESENVOLVIMENTO DO VALE DO SÃO FRANCISCO

4

40

4.1 Programas de Desenvolvimento do Vale do São Francisco

40

4.2 Princípios, Diretrizes e Instrumentos da Política Nacional de Recursos

45

Hídricos

4.3

Ações e Diretrizes Esperadas do Plano Plurianual 1996-1999

50

TERCEIRA PARTE

5

PLANEJAMENTO E GESTÃO

52

Política para o planejamento e gerenciamento dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco

5.2 Meio ambiente

5.2 Meio ambiente 58

58

5.3 Saneamento básico

59

5.4 Energia

60

5.5 Transporte

5.6 Agricultura e irrigação

5.7 Eduacação

5.8 Pesquisa e desenvolvimento, e ciência e tecnologia

5.9 Organização social

6 CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES

62

7 BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

64

Eduardo A. Cadavid G

LISTA DE ILUSTAÇÕES

Eduardo A. Cadavid G LISTA DE ILUSTAÇÕES FIGURA 1 Linhas de produção de sedimentos em vários

FIGURA 1

Linhas de produção de sedimentos em vários postos de registros do rio São Francisco

FIGURA 2

Regiões fisiográficas do Vale do São Francisco

FIGURA 3

Principais tributários e sub-balios do rio São Francisco

FIGURA 4

Perfil longitudinal do rio São Francisco destacando os trechos navegáveis

FIGURA 5

Desenvolvimento sustentável regional como um produto de conciliação de interesses, de negociação e de compartilhamento orientado pela análise multicritério

FIGURA 6

Síntese do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos proposto no Projeto de Lei no. 2.249 da Política nacional de Recursos Hídricos

TABELA 1

Produção de sedimentos, degradação do solo média anual e outras informações registradas em postos sedimentométricos do Vale do rio São Francisco

TABELA 2

Situação dos municípios do Vale do São Francisco, por Estado, segundo os maiores índices de indigência

TABELA 3

Características físicas regionais do Vale do São Francisco

TABELA 4

Principais características da rede hidrográfica do Vale do São Francisco

TABELA 5

Estimativa dos períodos de retorno de cheias diárias, em m3/s, do rio São Francisco

TABELA 6

Área e população dos municípios das Unidades da Federação que compõem a bacia do rio São Francisco

TABELA 7

Estimativa de indicadores básicos de um cenário tendencial para o Nordeste no horizonte 1994-2020

TABELA 8

Aptidão dos solos para a agricultura irrigada no Vale do São Francisco

8

12

25

26

37

50

8

11

23

24

27

30

30

31

Política para o planejamento e gerenciamento dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco

TABELA 10

Área média e índice de desigualdade da distribuição de posse da terra no Brasil e

Área média e índice de desigualdade da distribuição de posse da terra no Brasil e Nordeste no período 1975/85

QUADRO 1

Trechos e características das águas do rio São Francisco

QUADRO 2-

Principal potencial hidrogeológico do Vale do São Francisco

QUADRO 3

Aptidão dos solos para a agricultura irrigada no Vale do São Francisco

34

9

27

Eduardo A. Cadavid G

RESUMO

Desde a colonização, o rio São Francisco tem desempenhado importante papel na ocupação e no desenvolvimento de parte densamente ocupada (15,6% da população total) do território brasileiro (7,5% da área total), sendo denominado “rio da unidade nacional”. Nos últimos cinquenta anos o Vale tem sido motivo de intervenções do Governo visando iniciar e conduzir um processo de desenvolvimento regional. Estas

intervenções, de modo geral, foram setorizadas (principalmente para geração de energia e irrigação) e não integradas, temporalmente descontínuas e institucionalmente instáveis, não trazendo os resultados propostos

e motivando conflitos de uso da água entre setores, gerarando novos problemas e configurando ameaças e

riscos ao meio ambiente e às comunidades da bacia. Grande parte desses resultados pode ser atribuída a falta

de uma política de planejamento e gestão integrada de seus recursos naturais, a falta de um comprometimento efetivo e possível de planos e gestões dos recursos hídricos com as soluções socialmente eficientes e

ecologicamente sustentáveis, e a falta de vontade política o suficiente para promover esse desenvolvimento.

O Plano Diretor para o Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Planvasf), instituído por lei e na espera

de sua implementação há 8 anos, constitui um esforço para integrar setores, ações e estratégias orientadas para o desenvolvimento. O propósito deste documento é apresentar uma síntese de uma proposta fundada e que complementa o Planvasf, colocando em evidência aspectos conceituais da metodologia, baseada em uma análise numérica a ser complementada pela análise cartográfica de bases amostrais robustas e suficientes, a partir de modernas e disponíveis técnicas de domínio relativo brasileiro (SIG). Esta visão que atualiza, em alguns aspectos, o Plano da Codevasf, procura a inserção da política de planejamento e gestão dos recursos hídricos do Vale nas propostas do Plano Plurianual 1996-1999 e da Política Nacional de Recursos Hídricos, contempladas em seus correspondentes Projetos de Leis. Objetiva, também, incluir novos paradigmas da modernização da administração e recomendações de organismos internacionais, entre outros da ONU/ECO- 92-Agenda 21, procurando efetivar a integração entre órgãos públicos e entre os setores público e privado, bem como destacar a importância do compartilhamento responsável e comprometido de ações e estratégias entre os setores público e privados e entre estes e a comunidade organizada e preparada para participar em processos como os de planejamento e gestão. A síntese da descrição da área e dos conceitos de tratamento e análise da informação foi destacada no documento. Diversos aspectos de um plano como cronogramas, orçamentos, equipe multidisciplinar, estratégias, resultados esperados e outros, ainda que pertinentes, foram propositadamente omitidos do documento. Termos para indexação: desenvolvimento sustentável, planejamento regional, economia de recursos naturais, análise numérica, planejamento estratégico, gestão integrada e compartilhamentada

estratégico, gestão integrada e compartilhamentada ABSTRACT Since the colonization, the São Francisco River

ABSTRACT

Since the colonization, the São Francisco River has played an important role in the occupation and development of densely occupied part (15.6% of the total population) of the Brazilian territory (7.5% of the total area), being named "River of national unity". Over the last fifty years the Valley has been cause for government interventions aiming to initiate and conduct a process of regional development. These interventions, in General, were specialized (mainly for power generation and irrigation) and non-integrated, temporally discontinuous and institutionally unstable, not bringing the results proposed and motivating water use conflicts between sectors, gerarando new problems and threats and risks setting the environment and to the communities of the basin. A large part of these results can be attributed to lack of a policy of integrated planning and management of their natural resources, the lack of an effective compromise and possible plans and resources managements hybr

Política para o planejamento e gerenciamento dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco

Política para o planejamento e gerenciamento dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco

INTRODUÇÃO

Eduardo A. Cadavid G

INTRODUÇÃO Eduardo A. Cadavid G , reconhecida desde cedo, como via de comunicação e transporte interligando

, reconhecida desde cedo, como via de comunicação e transporte interligando diferentes regiões do País. Por isso tem sido cognominado de “Rio da Unidade Nacional”.

O Vale sempre esteve presente no cenário político, econômico, sociocultural e ecológico não só da região mas do País, despertando, há mais de 50, anos as atenções do governo, quer pelo seu enorme potencial hidrelétrico quer pelos problemas decorrentes de secas, enchentes e recentemente, do meio ambiente. Não obstante, nunca teve uma política de desenvolvimento harmonioso e sustentável, e de conservação e manejo integrados e racionais de seus recursos naturais.

Nas últimas cinco décadas, desde que o Vale do São Francisco foi incluído no texto da Carta Constitucional de 1946 ficando determinada (no ato das Disposições Transitórias) como atribuição do Governo Federal traçar e executar um plano geral de aproveitamento de seu potencial econômico, a ocupação tem-se caracterizado por diversas intervenções, principalmente do Governo Federal, visando iniciar e conduzir seu processo de desenvolvimento.

Entretanto, essas intervenções não foram devidamente orientadas nem suficientes para provocar o desenvolvimento, melhorar as condições de vida das comunidades e modificar o perfil socioeconômico da Região, a despeito de condicionantes favoráveis, como a localização privilegiada da bacia circundada por grandes centros consumidores e o fato desse Vale constituir importante fronteira de expansão agrícola (Brasil, 1995, p. 11).

As intervenções do Governo têm ocorridos, em geral, setorizadas e não integradas dentro de cada setor, descontínuas no tempo e no espaço, e institucionalmente instáveis, marcada pela ausência de planejamento e gestões adequada às condições e às exigências da Região, persistindo problemas básicos, sociais e econômicos, e surgindo novos problemas afetando o meio ambiente. Dessa ocupação econômica setorial e por vezes predatória, se destacam os seguintes problemas:

a)

A geração de energia, sem grandes resultados positivos sociais nas mediações das faixas litorâneas do rio, uma vez que, de forma paradoxal, grande parte da irrigação privada existente, uma das perspectivas e potenciais do Vale, é ainda movida a óleo (Brasil, 1995).

b)

A navegação tem sido desativada pela generalizada ausência de ações orientadas para superar a precariedade da navegabilidade.

c)

A agricultura irrigada, com diversos problemas e alguns efeitos negativos sobre o meio ambiente.

Historicamente, se relacionam como fatores de retardamento, erros administrativos no planejamento e na execução (Planvasf, 1989, p. 10), sendo que a carência de planos trouxe diversas consequências ou esteve relacionada com intervenções deletérias, tais como:

a) Propostas e execução de obras mal projetadas e demora excessiva na execução dessas obras que, além

do prejuízo, encarceram os custos das mesmas.

b) Interferências perturbadoras de ordem política.

c) Erros legislativos na pulverização de recursos financeiros e na multiplicidade excessiva de obras autorizadas (DNOCS, 1959).

A resposta da insuficiência e da ineficiência das intervenções governamentais no Vale pode estar

relacionada, também, com a falta de prioridade e decisão política e de um compromisso nacional para com a Região.

Política para o planejamento e gerenciamento dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco

Essas insuficiência e ineficiência se acusam de várias formas. Há claros sinais e algumas estimativas do processo de perdas, riscos e ameaças de degradação do patrimônio natural do Vale. Assim, os efeitos perversos das intervenções não planejadas e executadas sem adequados critérios, bem como as externalidades dos modelos utilizados e das intervenções que aprofundaram as diferenças sociais, não incorporaram ao processo produtivo tecnologias adequadas, possíveis e almejadas pela sociedade e não conservaram os recursos naturais.

O processo de decadência socioeconômica e de progressiva erosão e degradação do patrimônio

natural, atrelado à organização de atividades produtivas sem adequada consideração com a proteção ambiental (provável raiz da decadência da economia rural de grande parte da Região), e a irracionalidade de

posturas e atitudes nesse processo, dá conteúdo a expressão de Freire em Casa Grande e Senzala: “a sociedade rural do Nordeste se caracteriza por avós ricos, filhos burgueses e netos pobres”.

O compromisso da União para com o Vale deverá ser orientado para reverter as tendências de

agravamento dessa decadência, restaurar ambientes comprometidos e resgatar o patrimônio natural e sociocultural da Região, a partir da retomada do planejamento no âmbito federal, destacando a consistência, a integração e o compartilhamento de ações e estratégias numa visão holística e interdisdisciplinar.

Nessa abordagem buscar-se-á a compatibilização de demandas hídricas às disponibilidades e às possibilidades (potencialidades, perspectivas, restrições, oportunidades de financiamento para aumentar a oferta hídrica etc.), com a formação de capital social (aumento da capacidade da sociedade para organizar-se e procurar as mudanças exigidas e legítimas dentro da capacidade de suporte do meio ambiente e suas perspectivas).

Trata-se de um novo modelo com efeitos positivos sustentáveis capaz de substituir, com vantagem e exequibilidade técnica e operacional, o atual modelo, permitindo a explotação dentro da necessária proteção dos recursos naturais.

Este novo modelo deverá ter como base do compromisso, o conhecimento da potencialidade e das limitações; como estrutura do processo produtivo, a qualidade, a diversificação e a sustentabilidade; como princípio de ação e estratégia, a parceria, a cooperação, a descentralização, o compartilhamento de intervenções com responsabilidade, e os novos paradigmas da globalização, da competitividade, e das vantagens da associação e integração. Tais bases são reconhecidas e privilegiadas no processo de coordenação da Política de Recursos Hídricos promovida pela Secretaria de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e da Amazônia legal - SRH/MMA.

Outro compromisso para fundamentar o desenvolvimento sustentável é a conciliação da proteção e preservação de “estados” de qualidade do meio ambiente com o crescimento econômico. Trata-se de uma tarefa difícil, pois a preservação da natureza poderá tender a inibir o crescimento, enquanto este tende a agredir a natureza e com isto, compromete-lo. Esses compromissos e as novas posturas da sociedade e do Governo deverão ser definidas no contexto do meio ambiente físico, socioeconômico e político-institucional, com base em diagnósticos realistas, profundos e integrados. Parte dessas ações e das estratégias se define no cálculo que precede e preside as ações, projetos e estudos integrados, constituído pelo planejamento.

Esta abordagem de políticas de planejamento para o gerenciamento integrado dos recursos da bacia do rio São Francisco é apresentada em três partes:

A primeira sintetiza os principais problemas do Vale no setor de recursos hídricos, suas causas e

consequências. Estabelecem-se os objetivos e se relacionam aspectos conceituais gerais da metodologia. A

ênfase é para a conceitualização de determinados aspectos da análise numérica que integra/relaciona atributos de um componente e componentes de um sistema.

Eduardo A. Cadavid G

A segunda parte apresenta uma síntese do marco institucional e legal para o desenvolvimento do

Vale, relacionando os principais programas de desenvolvimento com os princípios, diretrizes e instrumentos da Política Nacional de Recursos Hídricos e com diretrizes propostas no Plano Plurianual 1996-1999.

A terceira parte apresenta breve descrição dos setores componentes das propostas de planejamento e

gestão dos recursos hídricos. Nesta parte se apresentam conclusões e recomendações, procurando resgatar e

aplicar/adequar considerações/recomendações de conferências e compromissos assinados pelo Brasil, com destaque para alguns contemplados na Agenda 21 da Conferência das Nações Unidades realizada no Rio de Janeiro, em 1992.

O documento é ilustrado com mapas, figuras, tabelas e quadros, com a síntese de dados apresentada

por estatísticas e indicadores próprios.

Política para o planejamento e gerenciamento dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco

P R I M E I R A

P A R T E

da Bacia do Rio São Francisco P R I M E I R A P A

Esta parte trata da caraterização do Vale mediante a relação de problemas como referências necessárias para a proposição de planejamentos temáticos e setoriais integrados no Plano Diretor para a gestão descentralizada e participativa dessa bacia. A partir dessa relação se definem os objetivos e a metodologia para realizar os estudos e gerar os critérios sobre os quais se projetam as ações e se estabelecem as estratégias do novo modelo de planejamento e de gestão, dentro do conceito de desenvolvimento sustentável.

1 PROBLEMAS

A ocupação, a forma de estruturação e organização de processos produtivos e seus produtos e serviços, e a gestão de empresas nos processos desenvolvidos no Vale geraram diversos problemas, configuram ameaças e riscos cada vez maiores ao meio ambiente e a sociedade, motivaram conflitos de uso e são responsáveis por diversos problemas ambientais.

Até pouco tempo atrás propriedades localizadas no Vale (Carinhanha, Xique-Xique, Pilão Arcado, Remanso etc.), foram cenários de sangrentas lutas entre famílias, por questões de terra, gado e política, promovidas pelos “coronéis”, sendo que a intervenção do homem era caracterizada, em muitos casos, pela despreocupação, destruindo as reservas naturais sem cogitar a sorte das futuras gerações (Nou e Costa, 1994).

Parte dos problemas no Vale podem ser atribuídos às intervenções do Governo nos últimos cinquenta anos, realizadas em geral, de forma setorizada, sem consulta à sociedade, não integradas ou harmonizadas com outras e sem continuidade espacial e temporal, em virtude do escopo do curto prazo em que foram propostas tais intervenções.

O aumento de ações privadas e governamentais foram e continuam sendo direcionadas para/por objetivos setoriais e regionais específicos, muitas vezes conflitantes e com efeitos negativos sobre o meio ambiente e as comunidades locais.

A geração de energia, a captação de água para consumo industrial e doméstico, a pesca, a navegação e

a irrigação são exemplos de usos setoriais da água que não foram convenientemente coordenados e adequadamente implementados no Vale. A explotação de outros recursos naturais como os minerais, solo e vegetação foi e continua sendo realizada, também, sem a necessária consideração de princípios modernos e adequáveis de planejamento e de gerenciamento.

A exploração das águas do Vale deu-se fundamentalmente para a geração de energia. Paradoxalmente,

contudo, as populações de suas margens não foram atendidas o suficiente. Com efeito, grande parte da área de irrigação privada (1.917ha do Médio São Francisco; Araújo, 1996) e em torno de 75,0% dos perímetros (Brasil, 1995a), em muitas sub-bacias do Vale, utilizam energia da hidreletricidade em apenas 10,0% (1,8 mil KW) nos perímetros de irrigação, enquanto que em torno de 16,0 mil KW (90,0%) corresponde a energia gerado por motores a Diesel. A própria irrigação não foi estimulada adequadamente, como preciso, visto que apenas um em quatro hectares irrigados no Vale são de iniciativa pública. E mesmo a iniciativa particular não contou com linhas de crédito e outros meios adequados para o desenvolvimento desse setor (Brasil, 1995a).

A navegação que existiu quando não haviam cargas geradas na própria região, na atualidade, quando o

Vale do São Francisco começa a se transformar em importante celeiro da produção de grãos (1,7 milhões de toneladas), frutas (promissoras perspectivas no mercado internacional) e outros produtos, está desativada (Brasil, op. cit.), tanto por falta de incentivos à iniciativa privada, quanto pelas condições precárias de

Eduardo A. Cadavid G

navegabilidade nos principais estirões: entre Pirapora (MG) e Juazeiro (BA) / Petrolina (PE) com extensão de 1.312km, e entre Piranhas (AL) e a foz do rio, com extensão de 208km.

O Baixo São Francisco, devido a baixa velocidade e redução da vazão pela cascata de CHESF, tem

interceptada a navegação. No rio principal, apesar de apresentar corredeiras e grandes desníveis que fragmentam seu curso para a navegação, há grandes trechos em condições propícias para a navegação de comboios de até 1.000 toneladas nas ligações inter-regional Nordeste/Sudeste, com vantagens de aproveitamento, se levada em conta a posição estratégica do rio (Brasil, 1995b).

A foz do São Francisco vem sofrendo grande assoreamento em consequência das obras sem adequado

planejamento. Furtado Portugal, em relatório ao DNPVN em 1943, (citado por Alves, 1996) advertia que a pretensão de construir grandes obras no Médio e Baixo São Francisco para a geração de força hidráulica e irrigação, não podiam receber tratamento parcial sob pena de prejudicar as áreas de jusante. Ao executar essas obras sem o atendimento às condições relacionadas naquele relatório, registram-se mudanças da qualidade da água com impactos negativos no meio ambiente e graves repercussões na foz e no estuário. Anterior à intervenção, o rio realizava a “auto dragagem”, sendo que a acumulação de material nas épocas de menos vazão, espalhava-se no mar nos meses de cheias. Esse fenômeno foi alterado pela contínua contenção de sedimentos favorecida por oito barramentos a que está submetido o rio.

Numa perspectiva de mudança, é necessário considerar que a condição básica para que o planejamento e o gerenciamento racional dos recursos naturais se torne impositivo é a escassez relativa dos recursos. Esta condição, aliada ao fato desses recursos apresentarem opções de alocação alternativa entre fins competitivos, determina que a imposição seja definida, também, como um problema econômico, com as demandas hídricas dos diversos setores e nos múltiplos usos da água, atuais e projetados, se aproximando às disponibilidades hidrológicas.

Os dois componentes da relação necessidades hídricas disponibilidades hidrológicas, a serem mantidios dentro de certas condições propiciadoras ou consistentes com a sustentabilidade dos processos ali desenvolvidos, apresentam características que tornam impositiva e inadiável as ações e estratégias dos planejamentos setoriais integrados em um Plano Diretor e da implementação/implantação dessas medidas na administração dos recursos ba caia, vistas como problemas simultaneamente tecnológicos, político- administrativos e econômico-ecológicos.

No Alto São Francisco, principalmente na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde ocorre concentração da população humana e de atividades dos setores primário, secundário e terciário da economia, se geram e acumulam impactos negativos sobre o meio ambiente, alguns irreversíveis. Segundo resultados laboratoriais da CETEC, o trecho do Rio das Velhas, à jusante da Região Metropolitana de Belo Horizonte, por exemplo, apresenta altos teores de sulfatos, cloretos, sódio e potássio, com elevadas concentrações de coliformes fecais, turbidez e sólidos totais nessas águas avaliadas pelo IQA como “muito ruim”.

Outros impactos são os produzidos pelas atividades de garimpo e mineração, e os decorrentes dos subprodutos nocivos das indústrias químicas, alimentícias, siderúrgicas e metalúrgicas (Codevasf, 1992). Nesse trecho são destacados os conflitos de uso da água dentro setores, principalmente de irrigação, e entre setores, com problemas sociais e econômicos graves que se acusam a jusante desse trecho.

Os desmatamentos progressivos para a implantação de atividades agropecuárias e de carvoarias destinadas a abastecer siderúrgicas, olarias e cerâmicas (Silva 1985) também geram notáveis impactos negativos sobre o meio ambiente no Alto São Francisco. Um desses efeitos, traduzido na redução da vida útil econômica dos solos (perda do patrimônio natural) e de obras hidráulicas (perdas do patrimônio construído), é a degradação do solo estimada em 0,17mm/ano dos rios contribuintes ao reservatório de Três Marias, com registros, em Pirapora (MG), de 0,08mm/ano associados a uma vazão média de 8,4 milhões de t/ano (Codevasf, 1989a).

Política para o planejamento e gerenciamento dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco

Na área da bacia localizada no Estado da Bahia, os principais problemas se referem aos impactos negativos de grandes barragens, de desmatamentos para a pecuária extensiva, de esgotos sanitários sem sistemas de tratamento lançados ao rio pelas populações ribeirinhas e de focos de desertificação provocados por:

a) a explotação agrícola desenvolvida sem os devidos cuidados com o meio ambiente: mecanização inapropriada, uso intensivo e sem o devido controle de fertilizantes e agrotóxicos etc., não compatível com as condições físicas de tolerância (danos a resiliência) desse meio ambiente;

b) atividades de garimpo, mineração e indústrias, com efluentes sendo lançados diretamente nos mananciais (Codevasf, 1992).

Nesse trecho do rio São Francisco também se acusam conflitos de uso da água no setor de irrigação como no rio Salitre, a jusante de Sobradinho, quando numerosos pequenos irrigantes foram afetados por grandes obras à jusante (Araújo, 1996).

Nou e Costa (1994), indicam que os agricultores que trabalham nas margens do reservatório de Sobradinho vivem o drama de assistir ao secamento do lago sem condições de acompanhar o caminho das águas. Em determinadas épocas do ano a taxa de evaporação média é de 200m 3 /s, o que representa uma baixa no pé da barragem em torno de 0,5cm 3 /dia ou um secamento de 1 a 2 km na planície. Este fenômeno sazonal está relacionado com a chamada “Indústria da Seca” aproveitada por poucos para obter vantagens ao divulgá- la de forma dramática.

Na área do Vale do Estado de Pernambuco são relacionados os problemas da desertificação agravados em consequência do desmatamento do uso intensivo e do manejo inadequado dos solos, e o problema da salinização de reservatórios que comprometem o abastecimento de água às populações ribeirinhas.

Na área do Vale do Estado do Alagoas, os problemas se concentram, principalmente, na Região da Mata, que possui o maior número de habitantes e de atividades dos setores primário e secundário e onde cerca de 95,0% de sua área encontra-se desmatada. Os problemas são agravados pelas grandes destilarias de álcool, queima de cana-de-açúcar e utilização de agrotóxicos. Na Zona do Sertão, os desmatamentos dão origem à erosão dos solos e a focos de desertificação.

No Vale do Estado de Sergipe, destacam-se os problemas de esgotos sanitários em quase todos os municípios localizados às margens do rio, com efeitos na saúde pública.

Os mapas da FAO/Codevasf apresentam uma visão geral do problema da erosão na bacia, definindo áreas críticas para os valores de perdas do solo superiores a 10t/ha/ano. Essas áreas representam em torno de 13,0% da área total (aproximadamente 83 mil km 2 ) localizadas no Alto São Francisco (regiões de Belo Horizonte, Serra do Espinhaço e Vale do rio Abaeté, de áreas com declividades médias superiores a 4,0%); Médio São Francisco (Serra da Mangabeira e região sul/sudeste do reservatório de Sobradinho na Bahia), Sub-médio São Francisco (vale do rio Pajeú,) e pontos isolados do Baixo São Francisco (Codevasf, 1996).

Ao longo do rio, em função de características geomorfológicas e, principalmente, de uso e manejo dos solos, são registrados índices de degradação do solo (decrescentes das cabeceiras do rio São Francisco até a foz) com níveis médios de produção de sedimentos de 0,08mm/ano (posto de Pirapora, com vazão sólida de 8,4 milhões de t/ano) até 0,04mm/ano (Posto de Morpará, com vazão sólida de 32 milhões de t/ano), passando por 0,07mm/ano (Manga, 32 milhões de t/ano). Em termos econômicos as perdas totais são incalculáveis e irreparáveis.

A comparação dos valores estimados de produção de sedimentos no Vale (TABELA 1) com os resultados de Khosla, citado por Carvalho (1994) e considerados como referência neste caso, indicam, entretanto, que a maioria dos níveis de produção se encontram abaixo dos índices normais, com exceção dos

Eduardo A. Cadavid G

registros de alguns postos do Alto São Francisco (Indaiá, Paraopeba e das Velhas) (FIGURA 1). Em média, a degradação do solo de 0,8 m/1.000 anos (Posto de Pirapora) a 0,07 m/1.000 anos (Manga), é significativamente inferior aos índices registrados em rios como os do Lo, Chiang e Amarelo (China) de 4,18, 4,09 e 1,60 m/1.000 anos, respectivamente.

TABELA 1 - Produção de sedimentos, degradação do solo média anual e outras informações registradas em postos sedimentométricos do Vale do rio São Francisco a

CURSO D’ÁGUA

ÁREA DE DRENAGEM (km 2 )

 

PRODUÇÃO DE SEDIMENTO MÉDIA ANUAL (t/km 2 /ano)

DEGRADAÇÃO

POSTO

PERÍODO

DESCARG A LÍQUIDA (m 3 /s)

DO SOLO

MÉDIA ANUAL

(mm/ano))

- Rio São Francisco Andorinhas Out. 1972 a dez. 1985

13.300

248

228,0

0,14

- Rio Pará Porto Pará Jul. 1960 a jun. 1961

11.300

145,0

44,0

0,03

- Rio Paraopeba Belo Vale Set. 1972 a dez. 1981

2.690

43,7

582,4

0,36

- Rio Indaiá Porto Indaiá Out. 1977 a ago. 1985

2.260

52,1

1.031,9

0,64

- Rio São Francisco Pirapora em Barreiro Dez. 1975 a nov. 1982

61.880

775,0

116,0

0,07

Rio das Velhas Jequitibá (Ponte Raul Soares) Dez. 1975 a nov. 1982

-

       

6.292

75,1

312,1

0,20

(4.780)

(74,4)

(661,9)

(0,41)

-

Rio das Velhas Honório Bicalho Mar. 1975 a dez. 1982

1.642

32,7

705,21

0,44

Rio Paracatu Santa Rosa (Porto Alegre) Abr. 1976 a nov. 1982

(1966/74)

-

       

12.915

171,0

154,4

0,10

(42.120)

(441,0)

(123,4)

(0,08)

Rio São Francisco São Romão (Pedras de Maria da C.) Dez. 1968 a mar. 1975

(1972/75)

-

       

154.870

1.727,0

128,2

0,08

(191.063)

(1.981,0)

(92,6)

(0,06)

Rio Correntes Santa Maria da V. (Porto Novo) Maio 1967 a abr. 1975

(1972/75)

-

       

28.720

214,0

18,7

0,01

(31.121)

(216,0)

(29,2)

(0,02)

Política para o planejamento e gerenciamento dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco

dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco Continuação TABELA 1 - Produção de sedimentos,

Continuação TABELA 1 - Produção de sedimentos, degradação do solo média anual e outras informações registradas em postos sedimentométricos do Vale do rio São Francisco a

     

PRODUÇÃO

DEGRADAÇÃ O DO SOLO

MÉDIA ANUAL (mm/ano))

CURSO D’ÁGUA

POSTO

PERÍODO

ÁREA DE DRENAGEM (km 2 )

DESCARG

A

LÍQUIDA

DE

SEDIMENTO

MÉDIA

(m

3 /s)

ANUAL (t/km 2 /ano)

-

Rio São Francisco Gameleira (Morpará) Abr. 1972 a fev. 1975

       

309.540

 

2.582,0

84,5

0,05

(344.800)

(2.929,0)

(62,3)

(0,04)

(1978/84)

Rio São Francisco Pilão Arcado (Juazeiro) Dez. 1968 a dez. 1973

(1967/75)

-

       

443.100

 

2.703,0

41,5

0,03

(510.800)

(2.666,0)

(48,6)

(0,03)

-

Rio São Francisco

590.790

 

3.454,0

32,6

0,02

Petrolândia (Traipu) Ago. 1980 a dez 1984

(622.520)

(2.905,0)

(30,4)

(0,02)

(1968/74)

a Fonte: Carvalho (1994, p. 245-247, simplificado).

Algumas estimativas preliminares, considerando o deflúvio sólido anual de 32 milhões de toneladas e uma camada arável de 20cm de solo, chegam a um desgaste médio de 10.000ha agricultáveis ou aproximadamente mil toneladas de solo arrastada anualmente pela calha principal do rio (Fonseca, citado por Alves, 1996, complementado).

Esta perda do patrimônio natural pode ser traduzida, em parte, em termos econômicos, pelo equivalente da fertilidade dos solos em nutrientes a ser reposto pela fertilização, com uma estimativa preliminar em torno de US$ 1,0 bilhão por ano. A perda poderá ser ainda maior se contabilizado o prejuízo do assoreamento do leito do rio, canais e reservatórios, os prejuízos sobre a ictiofauna, a redução da navegabilidade do rio e o rigor das enchentes para equivalentes níveis de vazão que se contrapõem aos efeitos de regularização das correspondentes obras hidráulicas.

Outro componente da degradação do meio ambiente é a perda da vegetação nativa, provocada pelo desmatamento sem controle (uso e ocupação dos solos sem estudos prévios da aptidão ou potencialidade e das limitações, e sem propostas de proteção/preservação ambiental; falta de cumprimento da legislação pertinente; falta de fiscalização/monitoramento e ainda falta de legislação apropriada) e pela baixa capacidade de suporte vegetal (Codevasf, op. cit.) que favorece a perda gradual da vegetação nativa.

A legislação brasileira dispõe sobre a proteção da fauna, proibindo a caça de animais. No entanto, normas que não consideram as situações e condições regionais e que são desprovidas dos mecanismos operacionais e administrativos necessários e suficientes para sua efetivação, resultam ineficientes, responsáveis por outros problemas.

Eduardo A. Cadavid G

Conforme a Portaria n o. 715/89-P, de 20 de set. de 1989 do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) que enquadrou os cursos de águas federais das bacias, o rio São Francisco teve, há quase dez anos atrás, os resultados apresentados no QUADRO 1, registrando-se, nos trechos Submédio e Baixo, problemas que já exigiam, na época, tratamento da água para fins de consumo doméstico.

Logarítmos dos valores de produção de sedimentos (t/km 2 /ano)

Valores Considerados como “Normais” e referências ( Khosla, Carvalho, 1994) Alto São Francisco Médio São
Valores Considerados como “Normais”
e referências ( Khosla, Carvalho, 1994)
Alto São
Francisco
Médio São
Francisco
Baixo São
Francisco
Logaritmos dos valores das áreas
das sub-bacias do Vale (km 2 )

FIGURA 1 Linhas de produção de sedimentos em vários postos de registros do rio São Francisco a a Fonte: Carvalho, 1994

QUADRO 1 - Trechos e características qualitativas das águas do rio São Francisco a

TRECHO

CLASSE

CARACTERÍSTICAS

Das nascentes até a confluência com o ribeirão das Capivaras

Especial

Abastecimento doméstico sem prévia ou com simples desinfeção

Preservação do equilíbrio natural das comunidades aquáticas

Da confluência com o ribeirão das Capivaras até a confluência com o rio Mombaça

1

Abastecimento doméstico após tratamento simplificado

Proteção das comunidades aquáticas

 

Recreação de contato primário

Irrigação de hortaliças que são consumidas cruas e de frutas que se desenvolvem rentes ao solo

Criação natural ou intensiva (aquicultura) de espécies destinadas à alimentação humana

Da confluência com o rio Mombaça até a sua foz

2

Abastecimento doméstico após tratamento convencional

Proteção das comunidades aquáticas

 

Recreação de contato primário

Irrigação de hortaliças e plantas fruteiras

Criação natural ou intensiva (aquicultura) de espécies destinadas à alimentação humana

a Fonte: Souza e Motta (1994)

Política para o planejamento e gerenciamento dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco

Apesar das disposições orientadas para a preservação e proteção de “estados” de qualidade desejáveis

e possíveis do meio ambiente e dos recursos hídricos, tais como as contempladas em portarias do Ibama para

serem aplicadas às indústrias canavieiras 1 , tem-se registrados graves problemas, havendo necessidade, portanto, de que sejam implementadas (em alguns casos atualizá-las e/ou adequá-las às condições da região) pelos órgãos competentes (em muitos casos tais órgãos devem ser modernizados e adequados as condições e exigências locais).

1 Entre estas disposições se relacionam a Portaria n o. 323/78, proibindo o lançamento do vinhoto em coleções hídricas e a Portaria n o. 158/80, estabelecendo a obrigatoriedade de se implantar o tratamento e destino final para as águas residuais de usinas de açúcar e álcool

Parte desses problemas resultam/favorecem a sobreposição de funções e a indefinição de competência dos órgãos e instituições dos recursos hídricos, em complicados arcabouços jurídico e institucional, na falta de continuidade temporal ou na fragmentação espacial de ações e obras (algumas inacabadas), responsáveis por conflitos ao desagregar a unidade de planejamento.

Ao considerar a bacia hidrográfica como a unidade de planejamento e de gestão surgem conflitos uma vez que a bacia não é a mesma unidade geopolítica constituída pela União, os Estados e os municípios, os mapas de águas superficiais nem sempre correspondem aos mapas de água subterrâneas e os fenômenos do ciclo hidrológico são globais.

Com o agravamento dos problemas ambientais acima relacionados se coloca em evidência a escassez relativa dos recursos hídricos pelo comprometimento de atributos qualitativos, para a maior parte da bacia (56,0% de sua área correspondente ao Polígono das Secas que se estende no Vale; Souza & Mota, 1994). Os problemas do meio ambiente, por sua vez, se traduzem em problemas econômicos, jurídicos, legais, institucionais e administrativos.

A água deve ser reconhecida como um bem econômico, com custos crescentes para a sua obtenção em

quantidade, critérios de qualidade e oportunidade espacial e temporal apropriados para todos os usos e usuários, das atuais e futuras gerações. Entretanto, não se dispõe da necessária informação e dos meios para efetivar este reconhecimento e colocar em evidência o valor econômico-social-ecológico intrínseco, de mercado e inter-temporal desses recursos, com vista a sua conservação e seu manejo integrado.

No Polígono das Secas, de maneira particular, a água potável é um recurso natural escasso e bastante vulnerável, com disponibilidades, principalmente de seus atributos qualitativos, limitadas e/ou críticas, o que contrasta com os elevados índices de perdas nas grandes cidades do Nordeste, entre 30 a 40% de água tratada (Projeto ARIDAS 1995, p.112), alimentado pela falsa “cultura da abundância”. Desta forma os conflitos potenciais e mesmo atuais, são realidades estimadas com base em indicadores de vulnerabilidade da maioria dos rios temporários, e mesmo em trechos do rio São Francisco (Campos, 1994).

A proposta de um modelo de planejamento e gestão se depara com fatores geopolíticos desagregados

e com interesses setoriais e regionais, públicos e privados, atuais e com possível agravamento no futuro, de encontro à sustentabilidade.

A coordenação do processo de integração e a conciliação desses interesses pressupõe princípios,

diretrizes e critérios consistentes e flexíveis não existentes (em fase de definição). Por outro lado, no novo

modelo de planejamento e gestão deverão considerar os problemas estruturais e os instrumentos propostos nas políticas 2 .

2 Forças desintegradoras e de encontro entre elas, a serem reorientadas na coordenação dos órgãos setoriais que tratam dos recursos hídricos; vícios da cultura da administração pública (tais como o documento tem mais importância que o fato; a dimensão humana perde- se na relação Estado-cidadão o que gera o descompromisso pela coisa pública; ausência de diretrizes e de princípios de longo prazo etc.

Eduardo A. Cadavid G

a superar, em parte, com informações, programas de educação e novas posturas do Governo e da sociedade; cultura do desperdíci o e do

do Governo e da sociedade; cultura do desperdíci o e do manejo irresponsáveis dos recursos naturais

manejo irresponsáveis dos recursos naturais a ser mudada por um processo permanente de conscientização social para a conservação; falta de informações sobre o valor dos recursos hídricos para alicerçar programas de conservação; descoordenação ou falta de meios para definir, adequar e implantar instrumentos como o direito de outorga de uso da água, o cadastro usuários, o levantamento de disponibilidades hídricas.

Da situação atual se relacionam e destacam os conflitos de uso d’água no âmbito da sustentabilidade e no campo da vulnerabilidade (semi-árido localizado no Vale).

No Plano de Aproveitamento Integrado dos Recursos Hídricos do Nordeste (Plirhine) foram estabelecidas categorias de conflitos e ordenamento prioritário no atendimento das demandas hídricas, cujas considerações são pertinentes na formulação de políticas para o planejamento e gestão dos recursos hídricos de grande parte da bacia.

No caso da sustentabilidade, os problemas surgem, em geral, pelo não atendimento de necessidades hídricas (algumas aparentemente legítimas ou legitimadas por determinados setores e/ou usuários) a partir de certa disponibilidade hidrológica. Em outros casos, os problemas poderão referir-se ao descontrole sazonal dessa disponibilidade como ocorre com as enchentes (regularização de vazões pelas barragens), a drenagem de áreas rurais e urbanas, e os problemas de erosão dos solos e de transporte de sedimentos. No campo da vulnerabilidade os problemas surgem em determinados períodos como os de estiagens prolongadas; para isto contribui a falta de conhecimento da distribuição espacial das secas (Campos 1995).

Devido à falta da informação e do conhecimento relevante da vulnerabilidade às secas em grande parte da Bacia, ao nordeste, não é possível a definição de uma política eficiente e eficaz de uso e de manejo dos recursos hídricos e da convivência de mitigação desse fenômeno. Isto poderia explicar (hipótese) as limitadas repercussões sociais e econômicas de diversos programas propostos para a solução da seca, apontadas por Campello Netto (1995), o elevado número de obras hidráulicas sem concluir, com presumível elevado custo social e o fracasso de ações e estratégias linearizadas ou homogeneizadas para problemas diferenciados entre áreas e dentre setores com resultados ecológicos, econômicos e políticos desastrosos.

Na área econômica, o problema está na não-sustentabilidade e na pouca atratividade financeira de atividades, gerando, em decorrência, poucos investimentos do setor privado. Nas poucas sub-regiões, onde ocorreram mudanças (como as tecnológicas) para atenuar esses fatores negativos, por exemplo no pólo Juazeiro/Petrolina do Submédio São Francisco 3 , os problemas foram reduzidos e esses locais passaram a constituir-se em pólos de atração.

Os índices de produtividade agrícola no Vale, em geral, são baixos, traduzindo os elevados riscos da agricultura de sequeiro no semi-árido, de fenômenos como os “veranicos” que ocorrem na época de chuvas, e de insuficiências tecnológicas apropriadas às condições do Vale. A observação quanto à absorção de novas tecnologias apontam que esta se tem processado de forma muito lenta, principalmente por parte dos pequenos produtores.

O rio São Francisco ainda apresenta grande potencial para a produção de pescado, porém sob forte ameaça ou risco de perda. A exploração e explotação crescente e sem controle de mais de 41 mil pescadores artesanais (Souza, 1996), aliada ao manejo inadequado desses recursos e às intervenções (construção de barragens, desmatamento de matas ciliares, poluição industrial e doméstica, subprodutos de agrotóxicos e de garimpo etc.), têm provocado mudanças na composição e no comportamento da ictiofauna, especialmente sobre as espécies migratórias, apresentando baixo índices de produtividade e com algumas espécies de peixe ameaçadas de extinção, como consequência da destruição de seus habitats.

3 Este pólo era composto por 70 municípios, ocupava uma área de aproximadamente 138mil km 2 e tinha em 1992 mais de dois milhões de habitantes (SUDENE, 1995)

Política para o planejamento e gerenciamento dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco

A construção de grandes barragens ao longo do rio São Francisco provocou o surgimento de

obstáculos à migração reprodutiva dos peixes, ao transformarem ambientes de características lóticas em ambientes lênticos a montante dos barramentos, e reduzirem as cheias a jusante das barragens, impedindo a inundação das lagoas marginais na época das chuvas, e com isto, alterando (destruindo) o ciclo biológico de muitas espécies de peixes.

Além destes problemas, é importante mencionar benefícios sociais das barragens que regulariza os caudais (reduzindo os riscos de enchentes catastróficas) e pagam compensações financeiras (royalties) sobre a geração hidráulica conforme definido pelo Decreto n o. 1/11/91, beneficiando 40 municípios de seis Estados:

Alagoas (12,5% dos municípios e 3,1% da compensação), Bahia (47,5% e 77,8%), Maranhão (10,0% e 2,3%), Pernambuco (15,0% e 12,0%), Piauí (10,0% e 2,4%) e Sergipe (5,0% e 2,5%) com R$63,7 milhões (US$60,3 milhões) no período de 04/12/1995 (Informação da CHEST 1996).

No que tange a energia elétrica e a despeito do grande potencial hidrelétrico do São Francisco de 10.379,2 MW/ano de energia firme, dos quais 5.840,0 MW/ano se encontram em operação ou em fase de construção (IBGE, 1994), o consumo por habitante é muito baixo, devido a problemas de abastecimento, ao baixo nível de renda de grande parte da população e a falta de fornecimento, ou fornecimento precário de energia elétrica nas áreas de ocupação econômica recente.

Como resumo dos principais problemas do setor de transporte (modalidades rodoviário, ferroviário, hidroviário e aeroviário) destacam-se: a ausência de conservação e baixo padrão da rede rodoviária e, em menor escala, da rede ferroviária, a falta de estradas nas áreas de fronteira agrícola, o elevado custo do transporte e uma malha desarticulada e bastante deteriorada.

O sistema de educação no Vale é insatisfatório, obsoleto e inadequado à realidade, com graves

carências e distorções no ensino básico, com infra-estrutura precária e incapacidade de atendimento, tanto nas zonas urbanas quanto maior nas zonas rurais (Codevasf, 1994).

O abastecimento de água e o saneamento básico são precários, sendo a população ribeirinha atingida,

com freqüência, por doenças veiculadas pela água e em decorrência de inundações. O atendimento as necessidades de saúde no Vale é insuficiente e desprovido de infra-estrutura adequada e oportuna. Isto, aliado aos precários serviços de saneamento são responsáveis pelo elevado índice de mortalidade infantil, constituindo-se uma das causas de emigração da população para centros urbanos (Codevasf, op. cit.). Conforme dados levantados pelo estudo Mapa da Fome III (Pelicano 1993), a situação dos municípios do Vale, por Estado, segundo os maiores índices de indigência, é grave, sendo sintetizado na TABELA 2.

Grande parte dos planos aplicados no Vale, em geral, além de desarticulados entre as sub-regiões e sem continuidade temporal, foram implantados parcialmente, por erros de concepção ou por inadequação aos condicionantes políticos, institucionais, sociais, econômicos, financeiros e do meio ambiente, característicos de cada sub-região e determinantes da execução, do acompanhamento e da avaliação desses planos. Acrescenta-se as limitações advindas da falta de um marco teórico-científico e tecnológico adequado às condições da região e exequível, com os recursos e condicionantes socioeconômicos, para induzir o processo de desenvolvimento sustentável dessa bacia.

Relacionado com os problemas acima mencionados, a Codevasf (1989, p. 21) indicou outros aspectos problemáticos não menos graves, os quais deverão ser considerados numa proposta de políticas de planejamento e gerenciamento dos recursos hídricos do São Francisco:

a) desvinculação do processo de planejamento do processo decisório;

Eduardo A. Cadavid G

Eduardo A. Cadavid G TABELA 2 - Situação dos municípios do Vale do São Francisco, por

TABELA 2 - Situação dos municípios do Vale do São Francisco, por Estado,

segundo os maiores índices de indigência a

ESTADO

DE 40 A 50% DE FAMÍLIAS INDIGENTES

MAIS DE 50% DE FAMÍLIAS INDIGENTES

 

N o . MUNICÍPIOS

%

N o . MUNICÍPIOS

%

Minas Gerais

15

7,6

0

0

Bahia

46

40,3

65

57,6

Pernambuco

26

44,0

28

47,6

Sergipe

23

88,5

21

75,5

Alagoas

22

46,8

24

51,1

a Fonte: Peliano (1993) citado por Araújo (1996)

b) tendência a confundir sistemas de planejamento com elaboração de planos;

c concentração de esforços na preparação de planos muito detalhados e, portanto, pouco flexíveis.

Neste documento são relacionados, também, como problemas graves, os seguintes:

a) a falta de dados e informações hidrometeorológicas “consistidas” e abrangentes, em diferentes setores e para diversos períodos, em um sistema de coordenação central para alimentar uma rede de subsistemas integrados;

b) a falta de um sistema integrado (alimentado) e integrável (alimentador de uma rede) de dados e informações permanentemente atualizadas, com procedimentos sistematizados (porém flexíveis e adequados às condições e possibilidades de cada sub-região do Vale) de coleta normatizada, com tratamento de consistência e armazenamento/ gerenciamento de dados, e de análise, síntese, integração e difusão oportuna de informações hidrometeorológicas georeferenciadas.

Esse sistema tecnicamente possível e socialmente almejado deverá incorporar os procedimentos e as técnicas modernas de domínio brasileiro (informática, sensoriamento remoto, Sistemas de Informações Geográficas - SIG etc.) e alimentar os processos de tomada de decisões, de formulação das políticas e de socialização da informação aplicada em serviços como os de alerta de fenômenos de interesse social.

2 OBJETIVOS

A política de planejamento e gestão dos recursos hídricos deverá estar devidamente inserida, harmonizada, integrada e complementada, de forma sinérgica, no modelo de desenvolvimento sustentável. Particularmente esta integração deverá ocorrer nos planos regionais e em planos nacionais como o Plano

Política para o planejamento e gerenciamento dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco

Plurianual 1966-69 e a Política Nacional de Recursos Hídricos, quando implementados, com objetivos, ações, projetos, metas e estratégias claras e definidas. Parrte desses objetivos se orientarão para:

a) Criar as condições legais, institucionais e técnicas para adequar o uso múltiplo das águas, considerando-se a realidade econômica, social e ecológica de cada região do País e a crescente escassez d’água. Este objetivo geral pressupõe a concepção e aplicação de um novo modelo de gerenciamento de recursos hídricos. Nesta linha de ação foram propostas, como metas para 1996/99:

- a elaboração de cinco planos de integração de bacias hidrográficas do rio São Francisco com outras bacias,

- a implementação de um sistema de gerenciamento de mananciais subterrâneos,

- a implementação de um cadastro nacional de informação de usuários da água,

- a capacitação de recursos humanos,

- a promoção de três campanhas educativas,

- a ampliação e manutenção da rede hidrométrica;

b) Aumentar a oferta de água potável às populações rurais, a partir do aproveitamento integrado e sustentável das potencialidades hídricas [respeitando as restrições e condições locais], principalmente no semiárido, com ações e projetos como os de fortalecimento da infraestrutura hídrica do Nordeste (Prohidro), pela construção de cisternas comunitárias, poços rasos, barragens subterrâneas, tanques, e perfuração, instalação e recuperação de poços profundos;

c) Promover investimentos regionais e setoriais que valorizem a força de trabalho pelo conhecimento de seu potencial;

d) Conduzir os processos de organização e negociação pela capacitação (formação do capital social) e descentralização, com base em informações dos cenários e dos condicionantes desse desenvolvimento.

As questões dos recursos hídricos deverão ser tratadas em contextos mais abrangentes (integrados, harmonizados e balanceados) com as questões, objetivos, ações e projetos de setores como os do meio ambiente, pesquisa e desenvolvimento, ciência e tecnologia, saneamento básico, agricultura, educação, transporte e energia e, principalmente na área social.

Nesta síntese não é possível relacionar todos esses objetivos, ainda que pertinentes no documento, destacando-se apenas alguns deles:

a) Conservar e preservar a bacia hidrográfica, contemplando diversas ações e projetos integrados de conservação e de proteção de sub-bacias, e de conservação e revitalização de microbacias;

b) A conservação, proteção e recuperação de solos, reconhecendo que nessa desarmonia está, em parte, a causa da redução da água que alimenta reservatórios;

c) A proteção, recuperação ou recomposição de matas ciliares e dos topos de morros, bem como das cabeceiras dos rios;

d) Outras ações e projetos se orientarão para incentivar as práticas sustentáveis de conservação dos recursos naturais, bem como para promover o controle das fontes de poluição dos solos e das águas. Neste contexto o Plano Plurianual 1996-1999 (Rodrigues, 1996) define como meta possível preservar 10 afluentes do rio São Francisco.

da

disponibilidade

fundamentais e

As questões no

setor dos recursos hídricos do

Vale,

que responde por

cerca de 70,0%

hídrica total existente no

Nordeste (Brasil, 1995), colocam-se como

Eduardo A. Cadavid G

estratégicas para o desenvolvimento da região. Estas questões definidas em um

tratamento dos problemas dado, em parte, pelas organizações do Vale, e pelas agências, conselhos e comitês de bacias (resolução dos assuntos práticos e imediatos), estes últimos vistos pela SRH/MMA como fóruns adequados para a avaliação do balanço disponibilidades/necessidades de água, planejamento do uso múltiplo, assessoria técnica-econômica e gestão financeira-econômica. Tanto a elaboração do plano como a formação de agências, conselhos e comitês deverão ser orientadas e incentivadas conforme princípios, diretrizes, critérios e instrumentos da Política Nacional de Recursos Hídricos, da SRH/MMA e de organizações regionais como a CEEIVASF.

Parte da política de recursos hídricos do Vale considerada no documento Compromisso pela Vida do São Francisco (SUDENE, 1995), coloca, de forma explícita, vários objetivos, que constituem também objetivos para a política de planejamento e gestão, com destaque para:

a) Definir um modelo institucional para a gestão integrada da bacia do São Francisco, que envolva a participação definida (conforme a incumbência de cada ator) e oportuna (conforme as exigências e possibilidades de cada um) dos governos federal, estaduais e municipais;

b) Elaborar, em conjunto com as diferentes instâncias da administração e de forma integrada e complementar dos setores público, privado e da sociedade civil organizada, um diagnóstico dos problemas que afetam o rio e seus afluentes;

c) Elaborar, em conjunto, um plano diretor para a bacia e seus afluentes, dentro da perspectiva de integração com bacias de outras regiões;

d) Dar continuidade aos estudos relativos ao projeto de transposição das águas do rio São Francisco, de acordo com critérios de sustentabilidade para o uso múltiplo e dos diversos usuários dos recursos hídricos.

Diversas propostas e compromissos assinados pelo Brasil em conferências internacionais, principalmente, na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD, 1995/ Agenda 21), auxiliam na definição de um marco de referência para especificar os objetivos de uma política de planejamento e gestão de recursos hídricos do Vale, entre as quais se relacionam as seguintes:

a) Elaboração de políticas para o desenvolvimento sustentável, mediante a integração entre meio ambiente e desenvolvimento na tomada de decisões nos planos político, de planejamento e de manejo dos recursos naturais, com a utilização eficaz de instrumentos econômicos e de incentivos de mercado (Capítulo 8 da Agenda 21). Nesta proposta, a responsabilidade de planejamento e administração deve ser delegada às organizações regionais, e os métodos [técnicas] nativos de administração de recursos naturais devem ser considerados sempre que possível. Um dos meios de implantação é o fortalecimento institucional.

b) Promover regionalmente o combate à pobreza, o incentivo dos processos de geração de emprego e a melhoria de renda para setores da população pobre, assim como o treinamento profissional e o aprimoramento dos sistemas adequados de saúde e educação (Capítulo 3). A capacitação dos pobres para a obtenção de meios de subsistência sustentáveis é uma área prioritária, com diversas atividades, uma delas é a delegação de poder às comunidades.

c) Promover padrões de consumo e produção que reduzam as pressões ambientais e atendam às necessidades básicas da comunidade. Diversas atividades propostas no Capítulo 4, como o estímulo a uma maior eficiência no uso dos recursos, redução ao mínimo da geração de resíduos, estímulo à reciclagem e redução do desperdício dos recursos naturais, entre outras, contribuirão para a mudança dos padrões perdulários de consumo.

plano diretor, passam pelo

naturais, entre outras, contribuirão para a mudança dos padrões perdulários de consumo. plano diretor, passam pelo

Política para o planejamento e gerenciamento dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco

d)

Mitigar os impactos negativos das atividades humanas sobre o meio ambiente e os impactos negativos das mudanças do meio ambiente sobre as populações humanas, fazem parte da sustentabilidade, com atividades como as pesquisas sobre a interação entre tendências, fatores demográficos e desenvolvimento sustentável (Capítulo 5).

e)

Proteger e administrar os recursos de água doce. Neste sentido, o Capítulo 18 dessa Agenda traz

referências conceituais para a produção sustentável de alimentos e para o desenvolvimento rural integrado, bem como para o manejo integrado dos recursos hídricos. Estas deverão ser consideradas

no

planejamento e gestão, prévios os testes e as adequações do caso, quando necessário.

f)

Deter a expansão dos processos de desertificação. As propostas contidas no Capítulo 12 dessa Agenda defendem a erradicação da pobreza e a promoção de meios de subsistência alternativos, como a geração de empregos em regiões áridas e semiáridas, onde os modos tradicionais de sobrevivência são frequentemente inadequados e insustentáveis por causa da seca e da pressão demográfica.

f)

No Capítulo 10 se sugere uma abordagem integrada do uso de recursos do solo, onde as questões do meio ambiente, sociais e econômicas devem ser consideradas simultaneamente. Nessa abordagem se destaca o papel da pesquisa para avaliar os impactos e riscos, bem como os custos e benefícios associados aos diversos usos dos recursos naturais.

Com esta síntese de objetivos e com base na identificação sumária de problemas acima apresentados, se definem os objetivos de políticas para o planejamento e gestão:

a) Elaborar um conjunto de diagnósticos integrados dos problemas físicos que afetam o rio, seus afluentes e a bacia, dos problemas sociais e econômicos das comunidades que se relacionam com a problemática dos recursos hídricos dessa bacia, e dos aspectos legais e jurídicos que se relacionam

com a estrutura, uso, posse e manejo desses ambientes e recursos, entre outros aspectos relacionados, para fundamentar os cenários sobre os quais se estabelecerão as ações e as estratégias do planejamento

e da administração desses recursos. Dentre tais estudos é possível destacar alguns como:

- ordenamento e zoneamento dos recursos naturais e socioeconômicos, visando definir os critérios para orientar a conservação e o manejo integrado dos recursos naturais;

- análise da problemática migratória sazonal à luz dos fatores determinantes e condicionantes, com vistas

a identificar e caracterizar as áreas de expulsão atual e as áreas de atração potencial, gerando os

critérios necessários para definir políticas dinamizadoras nas áreas deprimidas e de fortalecimento nas

áreas receptoras e/ou potenciais.

b) Elaborar, em parceria com os setores público e privado e dentro da competência individual e coletiva, e com a participação efetiva dos principais órgãos e instituições atuantes na região, um Plano Diretor para a bacia e seus afluentes, abrangendo períodos de médio e longo prazos, dentro da perspectiva de integração com bacias de outras regiões. Este Plano deverá ser a síntese e a integração dos diagnósticos, dos cenários atuais e prospectivos e dos planejamentos setoriais integrados que assegurem, na fase que se segue à gestão, a necessária coordenação e controle na alocação ordenada dos recursos hídricos nos diversos setores usuários. Deverá incluir, também, os mecanismos de permanente atualização e adequação às novas realidades e exigências do Vale.

O Plano pressupõe negociações e acordos alicerçados em sistemas de informações, bases técnicas e

tecnológicas para orientar esses acordos, a organização e a formação do capital social para assumir os compromissos da descentralização e outros e, principalmente, vontade política para dinamizar os processos de planejamento, integrá-los no Plano e implementá-los na gestão.

Eduardo A. Cadavid G

c) Definir um modelo institucional para a implementação e implantação do Plano de gestão dos recursos naturais da bacia que envolva a participação efetiva, definida e integrada na negociação dos governos federal, estaduais e municipais, da sociedade civil organizada em conselhos, comitês e outras, e das instituições atuantes na região, respeitando as características e as áreas de atuação ou de competência de cada um dos interessados. Este modelo tem entre seus objetivos mediatos:

- a conservação dos recursos naturais da bacia, isto é, o se aproveitamento sustentável e a proteção de reservatórios que perpetuem/renovem os fluxos hídricos,

- a recuperação de sistemas degradados com base em critérios técnicos, tecnológicos, econômicos e ambientais próprios; este objetivo pressupõe a formação de equipes multidisciplinares afins, atuações interdisciplinares balanceadas/integradas e orientadas, e resultados transdisciplinares integrados para a solução desejada e possível,

- o crescimento econômico compatível com os potenciais, as limitações e as perspectivas das sub-regiões componentes da bacia, bem como, consistente com as formas de organização e estruturação dos processos de crescimento, e de uso e manejo adequado às condições das sub-regiões; este objetivo mediato poderá ser auxiliado pela P&D e pela C&T que evidenciam os potenciais, minimizam as restrições, modernizam os sistemas, orientam a organização social e administrativa e definem o manejo integrado dos recursos naturais,

- o aumento da oferta de emprego e melhoria do nível de renda e da qualidade de vida da população do Vale, em conseqüência do crescimento econômico sustentável e distribuído, de mudanças na estrutura produtiva que garantem a sustentabilidade do processo, e de ampliação ou melhoria da cobertura ou da infra-estrutura dos serviços sociais básicos das comunidades na Região,

- como objetivos dependentes da melhoria das condições sociais e econômicas, especificamente da geração de emprego, do aumento da renda e de melhoria/aumento de serviços sociais no Vale, se têm

a diminuição da emigração do setor rural e de pequenas comunidades para os grandes centros urbanos,

a redução das disparidades intra-regionais e a incorporação de sub-regiões à economia regional e do País.

O objetivo é apresentar elementos de políticas para o planejamento e gestão dos recursos hídricos no Vale, destacando elementos de um novo modelo de desenvolvimento, procurando obter subsídios do Latin Ameriacan Water Forum para aperfeiçoar essa proposta.

Os subsídios poderão orientar-se na forma de críticas, sugestões e novas referências ou experiências para realizar as mudanças ou para o aperfeiçoamento de técnicas e métodos considerados nesse novo modelo de gestão, ou ainda para apontar inconsistências, erros ou omissões dos instrumentos propostos, e para obter o apoio financeiro às propostas futuras.

3 METODOLOGIA

Em termos gerais, o modelo proposto pauta-se na eficiência e eficácia, possíveis e desejáveis, dos processos econômicos, com qualidade e sustentabilidade, dependentes dos recursos hídricos, consultando para tal, as características, potencialidades e limitações do meio ambiente, socioeconômicas e político- institucionais do Vale, de suas comunidades e do entorno. Nesses processos se incorporam novos paradigmas da reestruturação do Estado, com a estratégia pautada pela inserção da dimensão ambiental nas atividades econômica, social e política.

Política para o planejamento e gerenciamento dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco

O Estado visto não mais como principal produtor e investidor na maioria dos setores mas sim, como coordenador e formulador de princípios, diretrizes e critérios flexíveis e adequáveis para induzir e conduzir o processo (investidor apenas em determinados setores de sua incumbência) de forma otimizada e sustentável, em parcerias com as associações comunitárias e com a iniciativa privada, com ações descentralizadas e compartilhadas dos setores público e privado, e com estratégias acordadas de associações com vantagens para todos.

O potencial de crescimento econômico não mais sustentado em vantagens comparativas e vantagens decorrentes da extensão territorial e da dotação qualificada de recursos naturais, mas sim em ações e estratégias, aliadas às vantagens relativas da dotação e qualificação de recursos naturais e da territorialidade, para evidenciar as vantagens da conservação e proteção, das medidas preventivas e educativas, do capital social e da informação acurada e oportuna, bem como para destacar as novas vantagens da associação, do compartilhamento de ações e responsabilidades e da integração com a economia regional, nacional e mundial. Esse potencial derivado de/para as funções do rio, segundo a sinopse que segue, deve ser acrescido e incorporado ao processo de crescimento, exigindo para tal que os planejamentos setoriais sejam integrados/balanceados em um Plano Diretor.

Abastecimento de água - Controle de Enchentes (barragens, açudes ) - Combinação e otimização de
Abastecimento de água
- Controle de Enchentes (barragens, açudes )
- Combinação e otimização de fontes hídricas
- Fontes alternativas de energia/comunidade
Geração de energia
CONHECE-LAS PARA;
Melhoria da Navegação
Integração intermodal
Conserva-las
Protegê-las
Drenagem da bacia
Preservá-las
Valorizá-las
Fortalece-las
Agricultura (41,6%); Irrigação
FUNÇÕES
do Rio
Tecnologias para irrigação/agricultura
Manejo Integrado de recursos naturais
Unidades de conservação e proteção
Tecnologia para a piscicultura
Piscicultura
Ecoturismo
Paisagismo
Ecológica:
Navegação
Suporte à vida (à biota)
Regulador de processos
Diagnósticos para os planejamentos
Planejamentos integrados no Plano
Plano Diretor para a gestão
Gestão para a conservação
Conservação para o bem coletivo

A definição de políticas de planejamento e gestão deve ser realizada com base em amostras consistentes da realidade, analisadas e integradas em cenários estratégicos. No atual “estado” da arte, em geral, esses cenários não se encontram adequadamente caracterizados para os propósitos de tomada de decisões na gestão. É necessário, por tanto, complementar a atual base de dados e informações utilizando técnicas e métodos modernos e exeqüíveis, entre outros, as dos sistemas de informação geográfica (SIG).

Eduardo A. Cadavid G

No levantamento e consulta das características, condicionantes e possibilidades para se definir políticas e um novo modelo de planejamento e gestão dos recursos naturais é mister relacionar e caracterizar os fatores componentes dos cenários, tais como: físicos (climáticos, hidrológicos, solos, geomofológicos, hidrogeológicos, topográficos etc.), sócio-econômicos (demográficos, socio-culturais, sistemas de produção, pólos industriais, agroindustrias, agrícolas, hidrelétricos, irrigação, pesqueiros, turísticos etc.), ambientais (potenciais, aptidões, limitações, vulnerabilidades etc.), pesquisa e desenvolvimento (P&D) e ciência e tecnologia (C&T) para incorporar com eficiência e sustentabilidade os potenciais e debelar/mitigar as restrições e limitações de uso e manejo dos ambientes e recursos naturais, e político-institucionais-financeiros para conduzir e viabilizar todos este processo de desenvolvimento.

3.1 Descrição Geral da Bacia do São Francisco

A bacia do rio São Francisco se encontra entre os paralelos 7 o . e 21 o . de latitude sul, o que determina

características climáticas variadas, com chuvas que vão de 350 a 1.600mm e temperaturas médias de 18 a

27 o .C.

A área total de drenagem de 645.067km 2 (IBGE, 1994) ou 631.133km 2 , (Projeto ARIDAS, 1995),

corresponde a aproximadamente a 7,5% do território brasileiro, sendo que 61,8% ou 389.900km 2 se localiza

no Nordeste, 237.045km 2 (37,5%) no Sudeste e 4.188km 2 (0,7%) no Centro-Oeste (Goiás e Distrito Federal) (Souza & Mota, 1994). Da área da bacia situada no Nordeste, 300.263km 2 (47,6% do total ou 77,0% da área do Nordeste) se situa no Estado da Bahia e cerca de 14,0% nos Estados de Pernambuco, Alagoas e Sergipe

(TABELA 3).

3.1.1 Características físiográficas

O Vale é uma área diferenciada no espaço do Nordeste, com mais da metade de seu território, em

torno de 56%, inserida no Polígono das Secas. O Polígono 4 , reconhecido pela legislação como sujeito a repetidas crises climáticas e que deveria ser objeto de providências especiais por parte dos Governos, tem

uma área de 353.435km 2 (Projeto ARIDAS, 1995).

4 A Área circunscrevia-se, até 1933, a parte dos Estados de Ceará, da Paraíba e do Rio Grande do Norte, excluídas até mesmo as respectivas capitais,(Secas do Ceará). Por força do art. 177 da Constituinte de 1934, a área de atuação do Governo Federal foi ampliada. A Lei n o . 175 de 07/01/36 ampliou o campo de aplicação de recursos com a definição do Polígono das Secas com uma área de 1.150.662km 2 . Os constituintes de 1946 modificaram a Carta de 1934, com a introdução do conceito Secas do Nordeste. Outras disposições, tais como os decretos-lei n os . 8.486 e 2.284 (28/12/45), e 9.857 (13/09/46), as leis n os . 1.348 (10/10/51), 3.692 (15/12/59), 4.239 (27/06/63), 4.762 (30/08/68), 5.508 (11/10/68) e 61.544 (17/10/67), os decretos n os . 52779 (29/10/63), 57.427 (14/12/65), 62.214 (1/02/68) e 46.237 (12/06/59), e as portarias ministeriais n o . 27 (9/02/68) e n o . 23 (01/01/69), modificaram a área estendendo os benefícios a um maior número de habitantes. O Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) (27/09/89) elegeu a isoieta média anual de 800mm com fator de delimitação do semi-árido; este fator tem-se revelado insuficiente e de aplicação inadequada (Souza et al., 1994).

Ao longo do período 1933/96 o Polígono tem experimentado significativas mudanças por força de legislações acomodadas a interesses circunstanciais e orientadas, aparentemente, para a luta contra a seca em lugar da procura do convívio e da harmonia do homem com ela 5 , assimilando, com base no conhecimento dessa realidade, essas crises. Nesse Vale é possível diferenciar quatro sub-regiões fisiográficas sumariamente delimitadas e descritas na FIGURA 2.

Política para o planejamento e gerenciamento dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco

A seguir se apresentam dados e informações de aspectos físiográfico, climático, hidrológico, do solo, demográfico e socioeconômico.

3.1.2 Clima

As características climáticas do Vale são determinadas por vários fatores, entre eles:

a)

A configuração orográfica, com efeito visível na distribuição das temperaturas médias, coincidindo os maiores índices na calha do rio São Francisco; para uma e outra margens, as temperaturas diminuem por efeito da altitude (Codevasf, 1989).

-

o Alto São Francisco, da nascente até Pirapora, com altitude de 600 a 1.600m, apresenta clima úmido e subúmido, com chuvas no verão e inverno seco; as precipitações médias anuais variam entre 1.200 e 1.500mm e a temperatura média situa-se em torno de 23,0 o C.

-

o Médio São Francisco, entre Pirapora e Remanso, com altitude de 400 a 1.000m, apresenta um clima subúmido seco e semiárido, com chuvas de verão e precipitações médias anuais que variam de 600 - 800mm, na planície oriental, a 1.400mm no limite oeste da bacia ao longo Serra Geral de Goiás, sendo a temperatura média anual de 24,0 o C.

-

o Submédio São Francisco, entre Remanso e Paulo Afonso, com altitude de 300 a 400m; o clima apresenta-se árido e semiárido, com regime de chuvas muito irregular variando entre 350 e 800mm, conforme a altitude. A temperatura média anual é de 26,5 o C.

-

o Baixo São Francisco, entre Paulo Afonso e a foz, com altitude de 0 a 300m e precipitação entre 400 a 1.300mm; o clima é semiárido no interior, modificando-se para sub-úmidoúmido em direção à foz do rio.

b)

Diferentes massas de ar com movimentações orientadas NE - SW na primavera e verão e E - W no outono e inverno. A região apresenta baixo índice de nebulosidade, permitindo a alta incidência de radiação solar (Codevasf, 1994).

Em função das elevadas temperaturas médias anuais, da localização geográfica intertropical e da reduzida nebulosidade na maior parte do ano, a evapotranspiração potencial é muito alta acompanhando as variações de temperatura, com os maiores índices (2.140mm) no Subúmido São Francisco, descendo para 1.300mm na zona alta do limite norte do Vale.

5 José Guimarães Duque (Queiroz, 1980) conhecedor da zona semi-árida nordestina, não conseguiu ser ouvido na sua advertência de que é mais fácil aprender a conviver com a seca, do que lutar contra ela, procurando frutos da aridez da harmonia com a natureza (DNOCS,

1959)

Eduardo A. Cadavid G

Eduardo A. Cadavid G C e a r á Submédio São Francisco Petrolina Baixo P i
C e a r á Submédio São Francisco Petrolina Baixo P i a u í
C e a r á
Submédio
São Francisco
Petrolina
Baixo
P i a u í
Juazeiro
São Francisco
S e r g i p e
Barreiras
Médio
G o i á s
São Francisco
REGIÕES FISIOGRÁFICAS DO VALE DO SÃO FRANCISCO a
Bom Jesus
da Lapa
1 - O Alto São Francisco. Desde as cabeceiras no município de São
Roque, Serra da Canastra (MG), até a cidade de Pirapora (MG),
com o relevo mais acidentado e com altitudes que atingem os 1.600
msnm (600 a 1.600 msnm), com declividades que oscilam entre 0,2
a 0,7 m/km; a evaporação média de 2.300mm, umidade relativa de
B a h i a
76% e luminosidade de 2.400h. O regime pluvial é intensivo com
chuvas variando de 1.200 a 1.900 mm/ano. A vegetação é de
floresta e cerrado e o clima é tropical-úmido, com temperaturas
médias de 23,0 o .C. Compreende a região de maior densidade
populacional do Estado de Minas Gerais das sub-bacias dos rios das
Velhas, Pará, Indaiá Abaeté e Jequitaí.
M i n a s
G e r a i s
2 - O Médio São Francisco, entre as cidades de Pirapora e Remanso
(BA). As altitudes variam entre 500 (nas planícies) e 1.000 msnm,
com fortes variações de nível e com potencial de aproveitamento
hidrelétrico e declividades médias entre 0,2 a 0,1 m/km; evaporação
média é de 2.900mm, umidade relativa de 60% e luminosidade de
3.300h. A precipitação oscila entre 400 a 1.600mm. A vegetação é
de cerrado-caatinga e o clima é tropical semi-árido. Neste trecho se
encontram as sub-bacias dos afluentes Pillão Arcado, Jacaré,
Paracatu, Carinhanha, Correntes, Grande, Verde Grande e
Paramirim.
3 - O Submédio São Francisco compreendido no trecho entre as cidades
de Remanso e Paulo Afonso, abrangendo, portanto, áreas dos
Estados da Bahia e Pernambuco. As altitudes variam entre 200 a
500 msnm e declividades entre 0,10 a 0,3 m/km; a evaporação
média é de 3.000 mm, umidade relativa de 60% e luminosidade de
2.700h, com precipitação pluvial de 350 a 800 mm/ano. A
vegetação é de caatinga e o clima é tropical semi-árido. Inclui as
sub-bacias dos rios Pajeú, Tourão, Vargem e Moxotó.
4 - O Baixo São Francisco compreendido no trecho de Paulo Afonso até
a foz na divisa. Apresenta uma área montanhosa e ondulada com
elevações de até 200 m, e uma planície costeira também dominada

DF

Alto

São Francisco

Belo

Horizonte

por ondulações; a evaporação média é de 2.300mm e o regime de precipitação pluvial varia de 500 a 1.200mm. A vegetação é de caatinga e mata e o clima é tropical semi-árido.

Ao longo do percurso do rio de 2.700km registra-se uma diferença de altitude de aproximadamente 1.000m que se distribui de forma desigual por sete Estados, com influência variável no meio

ambiente

FIGURA 2 - Regiões fisiográficas do Vale do São Francisco a

a Fonte: Informação primária obtida da Codevasf (1994)

Política para o planejamento e gerenciamento dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco

TABELA 3 - Características físicas regionais do Vale do São Francisco a

físicas regionais do Vale do São Francisco a CARACTERÍSTICA ALTO MÉDIO SUBMÉDIO BAIXO

CARACTERÍSTICA

ALTO

MÉDIO

SUBMÉDIO

BAIXO

S

(Canastra-

(Pirapora-Sobradinho)

(Sobradinho-P.Afonso)

(P.Afonso-O.Atlântico)

Pirapora)

Altitude

1.600-600

1.000-500

500-200

200-0

Vento (m/s)

SE

- 3

NE - 4

SE - 4

SE 4

Umidade (%)

76

60

60

73

Luminosidade (h)

2.400

3.300

2.700

2.400

Nebulosidade (0 a 10)

5

4

4

5

Evaporação (mm)

2.300

2.900

3.000

2.300

Precipitação (mm)

1.900 a 1.200

1.600 a 400

600 a 350

1.200 a 500

Estação chuvosa

Nov. a abr.

Nov. a abr.

Nov. a abr.

Mar. a set.

Vegetação

Floresta e Cerrado

Cerrado e Caatinga

Caatinga

Caatinga e Mata

Clima

Tropical úmido

Tropical Semi-árido

Tropical Semi-árido

Tropical Semi-árido

Declividade (m/km)

0,70 a 0,20

0,20 a 0,10

0,10 a 0,30

3,10 a 0,10

a Fonte: Codevasf (1989) complementado com dados de Portobrás, citadas por Araújo (1996)

Esta elevada evapotranspiração não compensada pelas chuvas determina o déficit do balanço hídrico do solo durante todo o ano na região árida. Esse déficit diminui com o afastamento da zona árida, não sendo inferior a três meses, mesmo no extremo sul da bacia.

Desta forma, as culturas anuais na época seca só são possíveis com irrigação.

Os valores médios anuais de umidade relativa se situam entre 60 e 80%, com os valores mais altos nas proximidades da foz. Para o caso do semi-árido, o clima é, por vezes, úmido, outras, desértico e algumas vezes o meio termo.

Na sub-região do Baixo São Francisco o clima tem sido caracterizado pela insuficiência e evidente irregularidade temporal e espacial das chuvas, temperaturas elevadas, fortes taxas de evaporação e dominante déficit no balanço hídrico.

3.1.3 Hidrologia

Eduardo A. Cadavid G

3.1.3 Hidrologia Eduardo A. Cadavid G O rio São Francisco tem 36 tributários, dos quais 19

O rio São Francisco tem 36 tributários, dos quais 19 são perenes, com uma descarga média anual no oceano Atlântico em torno de 90 bilhões de m 3 de águas drenadas de extensas e distintas regiões hidrográficas do Vale.

As principais características dessa rede são apresentadas na TABELA 4 e FIGURA 3, enquanto que a FIGURA 4 apresenta o perfil longitudinal do rio São Francisco.

As áreas de drenagem destes afluentes, com excecão do rio Verde Grande, estão situadas na região não abrangida pelo Polígono das Secas que, apesar de representar cerca de 44,0% da área total da bacia, são responsáveis por 85,0% dos deflúvios de estiagem e 74,0% dos deflúvios da bacia, que ocorrem na seção de Traipu (Silva, 1996).

A distribuição irregular das disponibilidades hidrológicas superficiais obedece a um conjunto de fatores, tais como: extrema variabilidade de ocorrência de chuvas no tempo e no espaço; condições climáticas severas nas regiões semi-áridas, com uma evaporação muito intensa durante todo o ano; fatores geomorfológicos, em particular a impermeabilidade dos solos cristalinos que, junto a fatores de vegetação promovem o escoamento superficial.

TABELA 4 - Principais características da rede hidrográfica do Vale do São Francisco a

RIOS

ESTAÇÕES

VAZÕES MÉDIAS ANUAIS (m 3 /s) Rendimentos Específicos (l/s/km 2 )

ÁREAS DRENAGENS (km 2 ) b

- São Francisco (De montante a jusante)

Três Marias e Pirapora

707 e 768

49.750

e 61.880

14,21 e 12,41

 

Barra do Jequitaí e Cach. Manteira

1.015

e 1.132

90.990

e 107.070

11.16

e 10,57

 

São Romão e São Francisco

1.520

e 2.082

153.702

e 182.537

9,89 e 11,41

 

Januária e Manga

2.168

e 2.050

191.700

e 200.789

11,31 e 10,21

 

Carinhanha e Morpará

2.207

e 2.421

251.209

e 344.800

8,79 e 7,02

 

Barra e Juazeiro

2.652

e 2.731

421.400

e 510.800

6,29 e 5,35

 

Pão de Açúcar e Traipu

2.847

e 2.980

608.900

e 622.600

4,68 e 4,79

Política para o planejamento e gerenciamento dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco

Margem esquerda:

Porto Alegre e Barra do Escuro

436

436

e 251

- Paracatu e Urucuía

41.709

e 24.658

10,45 e 10,18

- Carinhanha e Corrente

Junenília e Porto Novo

150

e 251

15.832

e 31.120

9,47 e 8,07

- Grande

Boqueirão

 

262

61.900

4,23

Margem direita:

Porto Mesquita e Várzea da Palma

140

e 292

- Paraopeba e Das Velas

10.300

e 25.940

13,59 e 11,26

- Jequitaí e Verde Grande

Jequitaí e Boca da Caatinga 6.811 e 30.174

46 e 19 6,75 e 0,63

a Fonte: DENAEE citada pela Codevasf (1989)

b Área de drenagem controlada pela estação

Um balanço preliminar das águas meteóricas indica que dos volumes precipitados na bacia, em média, 84,0% são consumidos pela evaporação e evapotranspiração, 11,0% se escoam através dos cursos de água e 5,0% realimentam os aquíferos.

Analisando os coeficientes de escoamento das áreas de drenagem dos principais tributários, se observam variações entre 11,0% a 32,0%, com os seguintes valores: Paracatu (32,0%), Carinhanha (29,0%), Rio das Velhas (29,0%), Corrente (25,0%), Jequitaí (17,0%) e Grande (11,0%).

O regime anual das enchentes caracteriza-se por apresentar cheias no verão e estiagens no inverno, sendo que as enchentes do rio são oriundas, basicamente, de grandes contribuições das regiões do Alto e Médio cursos, provenientes de áreas de drenagem à montante de Pirapora (29,0%), dos rios das Velhas (18,0%), do Paracatu (19,0%) e do Urucuia (11,0%), as quais totalizam 77,0% da vazão total do rio. Os 23,0% restantes são aportados pelos rios Jequitaí, Correntes, Carinhanha, Grande, Verde Grande e escoamentos de áreas não controladas (Codevasf, 1989, p. 141-144).

Registros de vazões afluentes à Juazeiro, durante o período de 1930 a 1980, indicam que em 35,0% desse período os registros foram superiores a 2.800 m 3 /s, enquanto que em 65,0%, as vazões foram inferiores a 2.800m 3 /s. Esta informação é importante para definir níveis de comprometimento da vazão em horizontes de planejamento de longo prazo.

Eduardo A. Cadavid G

Eduardo A. Cadavid G C e a r á 21 15 E 16 P i a
C e a r á 21 15 E 16 P i a u í 19
C e a r á
21
15
E
16
P i a u í
19
20
F
11
D
14
S e r g i p e
10
13
12
C
G o i á s
9
Principais tributários e sub-bacias de drenagem
do rio São Francisco
1 = Rio São Francisco;
2 = Rio Paraopeba ;
3 = Rio das Velhas;
4 = Rio Paracatu ;
5 =
Rio Preto ;
6 = Rio Verde Grande; 7 = Rio
Carinhanha ; 8 = Rio Correntes ; 9 = Rio do Meio ; 10 = Rio Grande; 11
= Rio Preto ; 12 = Rio Verde ; 13 = RioJacaré; 14 = Rio Salitre ;15 = Rio
Pajeú; 16 = Rio Moxotó; 18 = Reservatório Três Marias; 19 = Reservatório
8
de Sobradinho; 20 = Reservatório de Paulo Afonso; 21 = Reservatório de
Moxotó
B a h i a
Disponibilidade Hídrica Superficial
Q M
(m 3 /s)
Q R
Q 7,10
(m 3 /s)
(m 3 /s)
7
A = Pirapora
B = São Francisco
C = Morpará
D = Barra
E = Juazeiro
2.250
6
F
= Traipu
DF
785
125
1.845
292
5
B
2.430
585
2610
718
2.742
754
2.945
810
A
M i n a s
G e r a i s
4
VALE DO SÃO FRANCISCO E PRINCIPAIS SUB-BACIAS DE DRENAGEM POR
TRECHOS
Trecho
Sub-bacia
Área
Regime Sub-bacia Área Regime
1
o .
São Franc.
26.621
Perene
Pará
12058
Perene
Paraopeba
13549
Perene
das Velhas
27900
Perene
18
Indaiá
2981
Perene
Borrachudo
1727
Perene
3
Abaeté
6435
Perene
Jequitaí
8697
Perene
o.
2
Paracatú
47764
Perene
Pacuí
16273
Perene
Urucuia
24107
Perene
Pandeiros
10568
Perene
Verde Grande 40955
Perene
Carinhanha
27108
Perene
das Rãs
16057
Intermit.
Corrente
42179
Perene
S.Onofre
6034
Intermit.
Grande
82902
Perene
1
2
Paramirim
19604
Intermit.
Verde
20611
Intermit.
Jacaré
20642
Intermit.
Pilão Arc.
16468
Intermit.
o.
3
Jibóia
14238
Intermit.
Salitre
16818
Intermit.
Garças-Pontal 13991
Intermit.
Curaçá
12480
Intermit.
Macururé
10465
Intermit.
Brígida
13816
Intermit.
Ouricuri
7227
Intermit.
Pajeú
17229
Intermit.
Moxotó
12243
Intermit.
4o.
Do Sal
8125
Intermit.
Capia
5572
Intermit.
Ipanema
8162
Perene
Traipu
5972
Perene
Betume
5006
Perene

Política para o planejamento e gerenciamento dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco

FIGURA 3 - Principais tributários e sub-bacias de drenagem do rio São Francisco e a

FIGURA 3 - Principais tributários e sub-bacias de drenagem do rio São Francisco e a

a Fonte: Informação primária obtida da Codevasf (1994) e DNAEE (1985)

ALTITUDE (m) C a s c a D´ Á n t a M 1.000 a
ALTITUDE (m)
C
a
s
c
a
Á
n
t
a
M
1.000
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P
e
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h
P
l
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o
l
750
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J
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A
F
p
a
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o
T r e c h o
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á v e l
z
o
o
r
e
n
r
a
i
s
i
r
o
a
o
n
o
500

250

Trecho

Navegável

Eduardo A. Cadavid G

0

4

8

1

1

2

2

0

0

2

6

0

4

0

0

0

0

0

0

 

0

0

0

0

F o z km de extensão

F

o

z

km de extensão

FIGURA 4 - Perfil longitudinal do rio São Francisco destacando os trechos navegáveis a

a Fonte: Codevasf (1989)

À jusante do posto São Francisco, em Juazeiro, com uma área de drenagem três vezes superior e para o mesmo período de retorno, a vazão foi muito próxima (9.564 m 3 /s: LN ou 9.734/m 3 /s: LP). Para o aumento de 110 mil km 2 entre Juazeiro e Traipu, a análise hidrológica mostrou uma maior variabilidade, isto é, a curva de freqüência aumenta sua inclinação.

Em 25% dos anos as vazões foram inferiores a 500m 3 /s, com um mínimo de 303m 3 /s no mês de outubro. Cerca de 50% do tempo as vazões foram inferiores a 620 m 3 /s e 75% inferiores a 815 m 3 /s. Na cidade de Pirapora, onde os requerimentos para navegação são de 500 m 3 /s, foi estimada a freqüência de meses com vazões inferiores, de 3 a 8 meses (antes da construção da barragem de Três Marias).

As principais enchentes ocorridas na bacia foram registradas nos anos de 1946, 1949, 1975, 1979 e 1985. Dessas enchentes, a de 1975 foi a mais severa, a de 1979 já teve seus efeitos amortizados pelo reservatório de Sobradinho e a de 1985, esteve localizada a jusante dessa barragem. No lado oposto se tem o fenômeno das secas extraordinárias, visto pela análise das vazões mínimas mensais. Uma análise apresentada no relatório técnico RTE 86/16 - Recursos hídricos superficiais do Planvasf (1988), mostra-se que as vazões mínimas, no posto da Manga, ocorreram, principalmente em, setembro.

TABELA 5 - Estimativas dos períodos de retorno de cheias diárias, em m 3 /s,do rio São Francisco a

POSTO

DISTRIBUIÇÃO b

 

PERÍODO DE RETORNO (Anos)

   

10

25

50

100

São

LN

9.902

11.422

12.524

13.606

Francisco

LP

10.042

12.072

13.701

15.432

Carinhanha

LN

9.635

10.928

11.854

12.754

Política para o planejamento e gerenciamento dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco

 

LP

9.781

11.699

13.267

  LP 9.781 11.699 13.267 14.691

14.691

Morpará

LN

9.324

10.637

11.582

12.504

LP

9.480

11.666

13.543

15.651

Barra

LN

9.585

10.779

11.629

12.450

LP

9.728

11.682

13.322

25.128

Juazeiro

LN

9.564

11.027

12.089

13.132

LP

9.734

12.004

13.925

16.058

Traipu

LN

11.325

13.249

14.663

16.062

LP

11.544

14.491

17.012

19.837

a Fonte: Ceeivasf (1981); b Distribuição Log-normal (LN); Distribuição Log-Perason III (LP)

Um aspecto importante que deve ser avaliado e considerado na política de planejamento e gestão dos recursos hídricos diz respeito as disponibilidade de águas subterrâneas. Essas águas, no Vale do São Francisco, ocupam diferentes tipos de reservatórios, desde as zonas saturadas do substrato pré-cambrico, até depósitos quaternários recentes.

As reservas e potenciais de águas subterrâneas no Vale são agrupadas em nove províncias, das quais 4 são importantes para o abastecimento de água no consumo doméstico e hidroagrícola, destacando-se os aqüíferos não confinados, contínuos, com porosidade e condutividade hidráulica intersticial. Além desses aluviões se registram, também, Dunas e Coberturas Detríticas, conforme se indica e sintetiza no QUADRO 2 (Codevasf, op. cit.).

QUADRO 2 - Principal potencial hidrogeológico do Vale do São Francisco a

PROVÍNCIA

RESERVA

 

HIDROGEOLÓGICA

EXPLORÁVEL

b

LOCALIZAÇÃO

- Aluviões e Dunas Litorâneas

1.630

Ao longo dos principais cursos d’água e nas proximidades da foz do rio

Coberturas Detríticas das Depressões Sanfranciscanas

477

erra de Tabatinga, entre a Serra do Esteiro e o rio São Francisco, do rio Grande até Pilão Arcado e entre Bom Jesus da Lapa e Barra

Chapadas Areníticas

5.668

ertões sergipanos e alagoanos, entre o São Francisco e o Varra Barris, nordeste da Bahia, bacias dos rios Preto, Paracatu e Prata e Chapada da Araripe

Zonas aqüíferas Cársticas

780

Platô do Irecê, Alto e Médio São Francisco

Eduardo A. Cadavid G

a Fonte: Codevasf (1994, p. 21). b Dados em unidades de 10.000.000 m 3 /ano

p. 21 ). b Dados em unidades de 10.000.000 m 3 /ano 3.1.4 Solos A variedade

3.1.4 Solos

A variedade de solos é o resultado da diversidade de formações geológicas, de condições topográficas

e de interferências climáticas, condicionando a ocorrência das feições vegetais, permitindo diferenciar pelo menos três zonas, apresentadas a seguir (Anexo):

a) No Alto e Médio São Francisco, há predominância de latossolos e solos podzólicos (com aptidão para a agricultura irrigada), encontrando-se, também, areias quartzosas. Na área montanhosa são freqüentes os cambissolos e os litossolos, que apresentam cobertura vegetal tipo cerrado, ocorrendo vegetação tipo caatinga nas áreas de menor precipitação pluviométrica.

b) No Submédio São Francisco predominam os solos brunos não cálcicos, regossolos, litossolos, areias quartzosas, planossolos, vertissolos, cambissolos e solonetz solodizados, sendo a área do Vale com os menores potenciais de solos e reduzidas possibilidades de irrigação.

c) No Baixo São Francisco predominam os solos podzólicos, latossolos, litossolos, areias quartzosas e

a fatores de topografia e

solos hidromórficos, sendo que a agricultura irrigada está condicionada drenagem.

Margeando todo o rio São Francisco e seus afluentes encontra-se a faixa de solos aluviais, cuja utilização agrícola requer estudos e tecnologias apropriadas dada a incidência de inundações.

Em solos situados em regiões de baixa precipitação pluvial e com lençol freático próximo da superfície, há riscos de salinização. Desta forma, solos situados no semi-árido, quando submetidos à prática da irrigação, apresentam possibilidades de se tornarem salinos, a curto prazo, desde que não possuam um sistema de drenagem subterrânea adequada. Estima-se que de 20 a 30% das áreas irrigadas, em regiões áridas

e do Vale (Codevasf, 1994), necessitam drenagem subterrânea para manter sua produtividade.

Em estudo da Utilização compatibilizada dos recursos hídricos da Bacia do São Francisco para múltiplas finalidades, citado pelo IMIC (1994), conclui-se que a disponibilidade de terras irrigáveis no Vale está muito acima das suas disponibilidades hídricas, mesmo considerando apenas as demandas atuais para

outros fins. O estudo conclui que o “fator restritivo da irrigação a disponibilidade de terras, mas sim de água”.

Desta forma, o potencial de solos irrigáveis está muito além das disponibilidades hídricas e o estabelecimento de um programa de aproveitamento de 1,8 milhões de ha, deverá inserir-se num plano integrado de desenvolvimento dos seus recursos hídricos, para evitar conflitos entre os diversos setores. Ao referir-se ao Projeto de Transposição de Águas do São Francisco conclui-se que este deve ser colocado em um contexto mais amplo [holístico] de um Plano de Utilização Integrado de Recursos Hídricos em um horizonte de longo prazo que forneça uma ordenação de prioridades; dar prioridade ao aproveitamento dos recursos hídricos ainda não explorados e economicamente aproveitáveis das próprias bacias antes de utilizar água importada de transposições.

, no que tange aos recursos naturais, não é

No Vale, a maioria das áreas apresenta declividade menor de 6%, reduzindo, portanto, os riscos de erosão, com favoráveis condições para a implantação de projetos de irrigação, considerando as conclusões acima indicadas.

Política para o planejamento e gerenciamento dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco

Quanto a ocupação dos solos do Vale (Codevasf, 1994), em torno de 7,3% se encontra com vegetação florestal de florestas ombrófila densa e ombrófila aberta (noroeste do estado de minas gerais) e florestas estacional semidecidual e decidual (oeste do estado da Bahia).

No que se refere à vegetação campestre, destacam-se o cerrado (34,0% da área total) e caatinga (21,0%). Outras áreas são de refúgio ecológico/preservação (1,0%) e reflorestamento (0,9%).

A grande maioria das terras, 92,8% da área total ou 623.780 km 2 , tem ocupação ou vocação, para

atividades agro-silvo-pastoris, podendo-se diferenciar grupos, tais como: zona úmida (39,1% ou 243.935

km 2 ), zona subúmida (22,5% ou 140.983 km 2 ), zona semi-árida (18,2% ou 113.672 km 2 ) e zona árida (20,1% ou 125.189 km 2 )

3.1.5 Demografia

Em 1996, o Vale estava composto de 463 municípios, dos quais 82,5% com sua área total na bacia e 50,1% na bacia e no Polígono das Secas. Conforme dados do censo populacional do IBGE de 1991, cerca de 23,8 milhões habitavam a região com 635,3 mil km 2 , com uma densidade demográfica de 37,5 hab/km 2 (53,8% da população dos sete Estados). Outras informações são apresentadas na TABELA 6.

Um aspecto de interesse no planejamento e gestão dos recursos hídricos se refere à dinâmica demográfica, com estimativas, dentro da caracterização de cenários, de projeções de fenômenos vitais (taxas de natalidade e mortalidade) e de índices migratórios da população determinando esvaziamentos (por exemplo no Alto São Francisco: Montes Claros e Januária), reduzidos crescimentos rurais (Petrolina) e a generalizada urbanização do Nordeste (IBGE, 1994).

Com efeito, na década de 60, os emigrantes do setor rural foram de 4,1 milhões, dos quais 42,0% ficaram no meio urbano regional. Na década de 70, aquela quantidade foi de 4,7 milhões, com maior poder de absorção urbano na região (63,0%). Isto significa que o meio rural nordestino tem revelado baixa e decrescente capacidade de retenção relativa do crescimento vegetativo de sua população, passando de 28,0%, na década de 60, para 16,0% na década de 70, sendo negativa na década de 80.

O crescimento demográfico regional deverá continuar sua trajetória declinante, estabilizando-se em

torno de um índice de crescimento de 1,0% na década de 2010-2020, quando a população esperada poderá ser de 60,0 milhões, concentrada em centros urbanos (urbanização de 80,0%). Nesse cenário tendencial há outros indicadores demográficos, sociais e econômicos que se traduzem em desconcentração de pólos de atração, menores índices de mortalidade, maiores níveis de renda e emprego, e ampliação da infra-estrutura e cobertura dos serviços de abastecimento de água e saneamento básico na região (TABELA 7).

O efeito será uma forte pressão de aumento da demanda de água a ser alocada entre usos alternativos,

setores competitivos e sub-regiões ou ambientes estratégicos, impondo-se, assim, medidas de conservação para disciplinar o seu uso prioritizado e orientar o seu manejo de forma integrada e com base em índices da capacidade de suporte ambiental.

TABELA 6 - Área e população dos municípios das Unidades da Federação que

Eduardo A. Cadavid G

compõem a bacia do rio São Francisco a

A. Cadavid G compõem a bacia do rio São Francisco a   POPULAÇÃO ÁREA   ESTADO
 

POPULAÇÃO

ÁREA

 

ESTADO

(Mil habitantes em 1991)

(Mil km 2 )

 

( MUNICÍPIOS )

TOTAL

TOTAL no VALE

TOTAL

 

(1993)

URBANA

URBANA no

TOTAL no VALE

 

VALE

 

[Municípios no Vale; % ]

RURAL

TOTAL no Pol. das. Secas; %

 

RURAL no VALE

Minas Gerais b

15.731,9

6.856,0

588,4

 

(

787 )

11.776,5

5.644,5

235,6

 

[

237; 28,0 ]

3.955,4

1.211,5

92,7; 39,3%

Bahia

 

11855,1

2.518,1

567,3

(

415 )

7.7007,7

1.060,5

304,3

[

114;

27,5 ]

4.847,4

1.457,6

218,5; 71,8%

Distrito Federal

1.598,4

1.598,4

5,8

 

( 1 )

1.513,5

1.513,5

1,3

[

1;

100,0]

84,9

84,9

0

Goiás

 

4.012,5

94,2

341,3

(

232 )

3.241,1

71,4

3,0

[

3;

1,3 ]

771,4

22,9

0

Pernambuco

7.122,5

1.571,0

98,9

 

(

177 )

5.046,5

729,1

69,3

[

65; 36,7 ]

2.076,0

841,9

69,3; 100,0%

Sergipe

 

1.491,9

254,4

22,0

(

75 )

1.001,9

116,3

7,3

[

26;

34,7 ]

489,9

138,1

5,9; 78,1%

Alagoas

 

2.513,0

966,7

27,9

(

100 )

1.481,1

432,2

14,3

[

49;

49,0 ]

1.031,9

534,5

12,2; 85,3%

TOTAL

 

44.325,5

23.858,9

1.651,7

 

( 1.787 )

31.068,4

9.567,6

635,3

[

495;

26,7 ]

13.257,0

4.291,4

401,1; 63,1%

a Fonte: Codevasf - 20 anos de sucesso (1994. b Parcialmente atualizado 1995/96

Política para o planejamento e gerenciamento dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco

dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco TABELA 7 - Estimativa de indicadores básicos

TABELA 7 - Estimativa de indicadores básicos de um cenário tendencial para o Nordeste no horizonte 1994 - 2020 a

INDICADOR

 

ANO OU PERÍODO

 
 

1994

1995/2000

2000/2010

2010/2020

ulação (Milhões de habitantes)

44,8

48,8

54,6

60,6

(Bilhões de US$ de 1990)

58,1

77,9

139,5

238,3

per capita (US$)

1.298

1.597

2.556

3.933

scimento do PIB (%)

-

5,0

6,0

5,5

A (Milhões de pessoas)

6,4

7,9

11,6

16,8

reza (Milhões de pessoas)

23

22

18

15

idência pobreza (% população)

51,0

45,0

33,0

25,0

ice de urbanização (%)

62,0

65,0

72,0

80,0

pectativa de vida (Anos)

59

64

67

69

alfabetismo (% Pop. > 15 anos

36

30

25

20

astecimento água (% domicílios)

42

48

60

75

a Fonte: Projeto ARIDAS (1995). Uma estratégia de desenvolvimento sustentável

A exploração para a explotação de um aqüífero aluvial depende, em grande parte, das condições de operação, da intensidade de explotação e do manejo dos mananciais superficiais interrelacionados ou integrados com os aqüíferos, sendo que perturbações em um poderão traduzir-se em efeitos nocivos no outro.

3.1.6 Aspectos socioeconômicos

Os diagnósticos setoriais da infra-estrutura econômica são importantes fontes de informações para a definição de cenários, sobre os quais se definem, por sua vez, os planejamentos a integrar no Plano Diretor executado na gestão. Desses aspectos, as modalidades de transporte (rodoviário, ferroviário, hidroviário e aeroviário) e a energia são fundamentais para o desenvolvimento do Vale.

Eduardo A. Cadavid G

A região utiliza comercialmente três fontes de energia primária: hidráulica, lenha e cana-de-açúcar.

No tocante a energia secundária, a sua produção é relativamente diversificada, abrangendo usinas hidroelétricas, refinaria de petróleo, usinas de álcool e numerosas carvoarias.

Do complexo econômico se relaciona, de forma sintética, parte das atividades do setor primário, onde se prevêem vantagens para a irrigação, apoiada na sua capacidade de gerar desdobramentos no âmbito dos serviços e do complexo agro-industrial, na viabilização de crescimento desconcentrado e no valor da produção irrigada, 13 vezes superior ao valor da agricultura de sequeiro, por unidade de superfície, segundo estimativas do Brasil (1994).

A água do rio São Francisco é considerada ótima para irrigação, apesar de insuficientes para o

potencial de solos irrigáveis. Por outro lado, os solos não são contínuos na sua aptidão para a agricultura irrigada. No atual “estado” tecnológico, a aptidão dos solos (44,9% da superfície do Vale) para a agricultura

irrigada no Vale se apresenta na TABELA 8.

TABELA 8 - Aptidão dos solos para a agricultura irrigada no Vale do São Francisco a

ESTADO

APTOS b ( A ) (A/B, %)

ESTUDOS b

INAPTOS b

TOTAL b ( B )

Minas Gerais

10.534

(41,6)

1.175

13.608

25.317

Bahia

17.592

(54,0)

1.844

13.146

32.582

Pernambuco

1.630

(22,7)

470

5.067

7.167

Alagoas

405

(24,8)

501

725

1.631

Sergipe

150

(18,5)

127

532

809

Total

30.311

(44,9)

4.117

33.078

67.506

a Fonte: Codevasf, citada por Brasil (1994). b Unidades em 1.000ha

É oportuno salientar que a aptidão não pode ser considerada apenas do ponto de vista dos solos.

Outros fatores, econômicos, sociais e do meio ambiente, deverão ser considerados para avaliar essa capacidade e, principalmente, para definir as formas de alocação no uso e de manejo integrado e racional desses recursos, o que constitui um desafio para a P&D.

Se considerados os solos situados a uma distância não superior a 60km da fonte de água e uma elevação até 120m, o potencial de irrigação no Vale poderia ser de 8,1 milhões de hectares, se as disponibilidades hídricas e as alternativas de alocação da água foseem favoráveis. Com distâncias e elevações menores, o potencial, ainda que com possíveis vantagens traduzidas em menores esforços de pesquisa e menores custos de infra-estrutura, poderiam ser entre 3 e 1,5 milhões de hectares. Em ambos casos, seria vasta a área de possível aproveitamento para a agricultura irrigada, comparada com o atual situação de

Política para o planejamento e gerenciamento dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco

apenas 300 mil hectares registradas em 1994 (73.000 ha de irrigação pública, segundo a Codevasf, 1989), caso não se configurassem restrições na disponibilidade hídrica.

A evolução da irrigação no Vale está marcada pela presença do Poder Público provedor da infra- estrutura de transporte, de energia e hidráulica, além da instalação de grandes perímetros de irrigação (1950/60). As estimativas de tendências dessa evolução são apresentadas na TABELA 9, onde se observa um significativo crescimento da área irrigada a partir da década de 80. Este resultado pode ser atribuído ao Programa de Irrigação do Nordeste (Proine), em 1985/86. Em média, a estimativa do incremento de área irrigada acumulada no Vale foi de 8.500ha/período.

TABELA 9 - Evolução e tendência da área irrigada no período 1960/94 a

PERÍODO

BRASIL

NORDESTE

VALE

Até 1960

461,6

28,6

10,8

Até 1970

795,8

116,0

60,2

Até 1975

1.086,8

163,4

88,0

Até 1980

1.481,2

261,4

144,5

Até 1985

1.853,7

335,8

205,0

Até 1990

2.911,7

732,5

232,6

Até 1994

-

-

300,0

Tendência b

84,0

24,9

8,5

a Fonte: Codevasf (1995) b Estimativa da tendência linear da área (1.000 ha) acumulada irrigada

Dentre os complexos aspectos econômicos da agricultura do Vale a considerar no planejamento e gestão dos recursos hídricos relacionam-se, nesta síntese, os custos e benefícios dos perímetros de irrigação. As estimativas de custos entre US$ 11,2 e US$8,9 mil/ha, com indicação de economias de escala, quando comparadas com as de outros países, parecem apontar que a irrigação na bacia é cara.

Entretanto, aspectos metodológicos dessas estimativas requerer revisões/adequações e avaliações adicionais/complementares. Nestas revisões/avaliações deverão considerar-se, além de outros argumentos da função de custo da irrigação, novos conceitos de economia do bem-estar e de economia-ecológica para a definição de propostas consistentes, a serem contempladas e integradas no Plano Diretor de bacia.

O planejamento e a gestão, como ações integradas da política dos recursos naturais do Vale, deverão incluir importantes atividades econômicas e sociais ali desenvolvidas, com base em estudos e diagnósticos detalhados e harmonizados. Entre essas atividades se relacionam os recursos pesqueiros, minerais, florísticos,

Eduardo A. Cadavid G

faunísticos e o turismo, este último de grande potencial e com forte vínculo com a conservação de recursos naturais.

A inclusão dessas atividades deverá evidenciar aspectos como os de degradação do meio ambiente,

custo das externalidades privadas e análise de custo/benefício da despoluição e recuperação de ambientes, entre outras. Para este propósito a SRH/MMA se prepara com o fortalecimento institucional e com a definição/adequação de critérios, princípios e diretrizes para a coordenação e incentivos dessas ações.

Nos processos de definição (re-definição, se for o caso), implementação e implantação de atividades econômicas, a contribuição da educação ambiental, da conscientização dos setores público e privado para a conservação e o manejo integrado dos recursos naturais, e da visibilidade, apoio e organização a quem se sente não apenas na obrigação, mas também no direito de participar e compartilhar as ações e estratégias com responsabilidade (cidadania pelas águas), deverão resultar de inestimável valor para o planejamento e administração dos recursos hídricos. Serão, portanto, objeto de consideração e internalização nos processos de planejamento e gestão dos recursos hídricos do Vale.

A SRH/MMA, ainda que com severas limitações de recursos financeiros e humanos, procura o

fortalecimento do movimento de cidadania pelas águas, de educação ambiental e de treinamento/capacitação para o planejamento e gestão de recursos hídricos. Parte dos esforços se orientam para o fortalecimento institucional e para a formação e funcionamento de centros de referência e documentação. O maior esforço desta Secretaria é para o estabelecimento de critérios, diretrizes, princípios e fundamentos técnicos e operacionais flexíveis, que possibilitem a implementação e implantação da Política Nacional de Recursos Hídricos e de propostas diretamente relacionadas a essa Política, como as consideradas no Plano Plurianual 1996-1999, entre outras.

Com a implantação de determinadas obras hidráulicas e com aparentes pequenos ajustes administrativos-operacionais na infra-estrutura dessas obras existentes no Vale, é possível incentivar a piscicultura e a pesca artesanal, que se apresentam com grande potencial a ser explorado, a partir do melhor conhecimento dos ambientes e da ecologia das 139 espécies de peixes nativas já identificadas (Codevasf, 1994, p. 60).

Em outras obras como grandes barragens ao longo do rio São Francisco, surgiram obstáculos à migração reprodutiva dos peixes e foram reduzidos ou alterados, de forma acentuada, os regimes de cheias a jusante dessas obras, com efeitos nocivos para locais constituídos como criadouros naturais (lagoas marginais), quebrando o ciclo anual de recrutamento de peixes jovens ao rio.

Além de reduzir drasticamente a produção pesqueira, as barragens estão provocando o desaparecimento de espécies de importância econômica e ecológica, com graves consequências sociais pelo contínuo e forçado êxodo de pescadores artesanais (Souza, 1996) e estão permitindo a instalação de espécies exóticas, algumas das quais não desejadas, devido a seu alto grau de agressão às espécies nativas.

É necessário, portanto, empreender ou intensificar, na medida em que se processam as perturbações,

atividades compensatórias (?) ou de restauração (repovoamento com alevinos, estações piscícolas, educação ambiental, etc.) planejadas e executadas com base em critérios técnicos e científicos consistentes e exequíveis no contexto das possibilidades e das necessidades da Região, por exemplo, das 27 colônias de pescadores (Souza, op. cit.).

A estrutura fundiária do Vale, conforme dados do censo agropecuário do IBGE (1985), relaciona

752.150 estabelecimentos, com uma área de 40,6 milhões de hectares. Um indicador importante da estrutura fundiária em termos de concentração e evolução no período 1975/85, é apresentado na TABELA 10, observando-se que em termos de desigualdade da posse da terra, o Nordeste (índice de Gini de 0,870) supera

o Brasil (0,858).

Política para o planejamento e gerenciamento dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco

dos recursos hídricos da Bacia do Rio São Francisco TABELA 10 - Área média e índice

TABELA 10 - Área média e índice de desigualdade da distribuição de posse da terra no Brasil e Nordeste no período 1975/85 a

 

INDICADOR

 

PERÍODO

 

1975

1980

1985

Área média (ha):- Brasil

64,9

70,8

64,6

-

Nordeste

33,5

36,2

32,7

Índice de Gini - Brasil

0,855

0,857

0,858

-

Nordeste

0,863

0,862

0,870

% de área dos 50 - - Brasil

2,5

2,4

2,2

-

Nordeste

2,1

2,1

2,0

% de área dos 5 + - Brasil

68,7

69,3

69,2

-

Nordeste

68,3

68,3