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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
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Connie Brewer prometeu a Billy jamais usar a Cruz da Rainha Mary a
Sanguinária. Cumpriu a promessa, mas como o Billy não a havia proibido
de emoldurá-la e colocá-la na parede, duas semanas depois de Sandy ter
comprado a cruz, Connie a levou a um renomado moldureiro da Madison
Avenue. Ele era idoso, de seus pelo menos oitenta anos, ainda elegante,
com cabelos grisalhos emplastrados de gomalina penteados para trás, e
uma gravata borboleta amarela. Ele examinou a cruz naquele seu
envoltório de camurça macio e olhou curiosamente para Connie.
— Onde conseguiu isso? – perguntou.
— Foi um presente – disse Connie. – Do meu marido.
— Onde foi que ele a conseguiu?
— Não faço idéia – disse ela, firmemente. Ficou pensando se teria
cometido um erro saindo com a cruz do apartamento, mas aí o moldureiro
parou de fazer perguntas, e Connie se esqueceu do assunto. Mas o homem
não se esqueceu. Contou a um marchand, e o marchand contou a um
cliente, e logo começou a circular no mundo da arte o boato de que os
Brewers agora possuíam a Cruz da Rainha Mary a Sangüinária.
Sendo generosa, Connie naturalmente quis mostrar seu tesouro às
amigas. Uma tarde, no fim de fevereiro, depois de um almoço no La
Goulue, convidou Annalisa para ir ao seu apartamento. Os Brewers
moravam na Park Avenue, em dois apartamentos de seis unidades clássicos
fundidos em um só, imenso, com cinco quartos, dois quartos para as
babás, e uma sala de estar monstruosa onde os Brewers davam uma festa
de Natal todos os anos, o Sandy vestido de Papai Noel e Connie como um
dos elfos, de macacão vermelho com borlas brancas de pêlo de marta.
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— Preciso mostrar-lhe uma coisa, mas não pode contar a ninguém –
disse Connie, levando a Annalisa pelo apartamento até sua sala de estar
pessoal, logo antes do quarto do casal. Em consideração pela
insistência do Billy Litchfield de que a cruz permanecesse em segredo,
ela tinha pendurado o artefato emoldurado nesta sala, acessível apenas
através do quarto dela, o que a tornava a sala mais privada do
apartamento. Ninguém podia entrar lá, só as criadas. A sala era uma
fantasia da Connie, toda decorada com seda rosa e azul-claro, com
espelhos dourados e uma espreguiçadeira veneziana, um banco ao longo da
janela com almofadas e papel de parede de borboletas pintadas à mão.
Annalisa já tinha vindo ali duas vezes, e nunca conseguia decidir se o
achava lindo ou detestável.
— Sandy comprou para mim – murmurou Connie, indicando a cruz.
Annalisa aproximou-se um passo, examinando a peça com toda a educação,
contra o veludo azul-escuro do fundo. Não tinha o interesse que a
Connie tinha por jóias, nem as considerava tão preciosas como ela, mas
disse, para ser gentil:
— É linda. O que é?
— Pertenceu à Rainha Mary. Um presente do papa por manter a
Inglaterra católica. Não tem preço.
— Se for verdadeira, provavelmente devia estar em um museu.
— Realmente – admitiu Connie. – Mas existem muitas antiguidades
espalhadas em coleções particulares, hoje em dia. E não acho que seja
errado os ricos guardarem os tesouros do passado, acho que é nosso
dever. É uma peça tão importante... Historicamente, esteticamente...
— Mais importante que sua bolsa Birkin de crocodilo? – provocou
Annalisa. Não pensou nem por um instante que aquela cruz fosse
verdadeira. Billy havia lhe dito que o Sandy tinha começado a comprar
tantas jóias para a Connie ultimamente que estava criando fama de alvo
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fácil. Conhecendo o Sandy, ele havia provavelmente comprado a peça de
algum contrabandista e deixado o cara feliz da vida.
— Bolsas não são mais importantes – admoestou-a a Connie. – A Vogue
é que afirma. Agora o importante é ter uma coisa que mais ninguém
possua. É ter algo que seja único. Exclusivo.
Annalisa deitou-se na espreguiçadeira e bocejou. Tinha tomado duas
taças de champanhe no almoço e estava se sentindo sonolenta.
— Pensei que a Rainha Mary fosse má. Ela não mandou matar a irmã
dela? Ou será que entendi a história errado? É melhor tomar cuidado,
Connie. Essa cruz pode te dar azar.
Enquanto isso, alguns quarteirões adiante, nos escritórios do
subsolo do Museu Metropolitano, David Porshie, o velho amigo de Billy
Litchfield, desligava o telefone. Tinham acabado de informá-lo do boato
da existência da cruz da Mary Sanguinária, que se dizia estar nas mãos
de um casal chamado Sandy e Connie Brewer. Ele se recostou em sua
cadeira giratória, apoiando o queixo nas mãos unidas. Seria verdade?
pensou.
David lembrava-se perfeitamente da notícia do misterioso
desaparecimento da cruz na década de 50. Todo ano ela aparecia em uma
lista de itens desaparecidos do museu. Todos sempre tinham pensado que
a Sra. Houghton é que tinha surripiado a cruz em pessoa, mas como ela
era uma pessoa acima de qualquer suspeita, e ainda mais importante,
doava dois milhões de dólares todo ano para o museu, eles jamais tinham
feito uma investigação a fundo.
Só que agora que a Sra. Houghton tinha morrido, talvez já fosse
hora de reabrir o caso, principalmente porque a cruz tinha aparecido
pouco depois da morte dela. Pesquisando Connie e Sandy Brewer na
Internet, David descobriu exatamente quem eles eram. Sandy era nada
mais nada menos do que um gerente de fundos de hedge, o típico
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arrivista que acabaria pondo as mãos em uma antigüidade assim rara e
preciosa, e apesar de ele e sua esposa, Connie, se consideraram
colecionadores importantes, David suspeitava que eram do tipo novo-
rico, que paga os olhos da cara pelo que David considerava lixo. Gente
como os Brewer em geral não interessava a pessoas como ele, um curador
do grandioso Museu Metropolitano, a não ser pela quantia que ia se
poder extrair deles no baile de gala.
Ele não ia poder simplesmente ligar para os Brewer e lhes perguntar
se eles estavam com a cruz. Quem tinha lhes vendido a cruz tinha sido
esperto o suficiente para alertá-los sobre sua origem. Contudo, o fato
de uma antiguidade ter passado obscuro não detinha os compradores.
Havia no comprador de um item desses uma certa psicologia semelhante à
do comprador de drogas ilegais. Era a emoção de desobedecer às leis e o
barato de conseguir sair dessa ileso. Ao contrário do comprador de
drogas, porém, o comprador de antigüidades ilegais tinha o prazer
contínuo de ser dono da peça, juntamente com uma sensação de
imortalidade. Era como se a mera proximidade de uma peça dessas também
conferisse vida eterna ao seu dono. E assim, David Porshie sabia que
estava procurando um tipo de personalidade específico ao procurar a
cruz. A questão era apenas como fazer essa descoberta.
David estava preparado para ser paciente na sua investigação, pois
afinal a cruz já tinha desaparecido há sessenta anos. E precisava de um
espião. Imediatamente, lembrou-se do Billy Litchfield. Eles tinham
freqüentado Harvard juntos. Billy Litchfield sabia muito a respeito de
arte e bem mais sobre as pessoas.
Encontrou o celular do Billy em uma lista de convidados do
departamento de eventos e ligou para ele na manhã seguinte. Billy
estava num táxi, por coincidência indo à casa da Connie Brewer, para
conversar sobre a feira de arte de Basiléia. Quando Billy ouviu a voz
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do David ao telefone, ficou vermelho da cabeça aos pés de puro medo,
mas conseguiu evitar que a voz tremesse.
— Como vai, David? – indagou.
— Estou bem – disse David. – Estava pensando no que você disse
sobre o balé. Sobre os novos clientes em potencial. Estamos procurando
gente nova pra doar dinheiro para uma nova ala. Os nomes Sandy e Connie
Brewer vieram à baila. Achei que talvez vocês os conhecesse.
— Conheço, sim – disse Billy, sem hesitar.
— Maravilha – disse David. – Será que poderia combinar um pequeno
jantar? Nada muito sofisticado, talvez no Twenty-One. E... Billy? –
acrescentou. – Se não se importar, podia por favor não revelar o
objetivo do jantar? Sabe como as pessoas se comportam quando a gente
vai lhes pedir dinheiro.
— Mas claro – respondeu Billy. – Fica entre nós. – E começou a
respirar apressadamente. – Pode parar o táxi, por favor? – pediu,
batendo na divisória.
Saiu à calçada, cambaleante, procurando o café mais próximo.
Encontrando um na esquina, sentou-se ao balcão, tentando recuperar o
fôlego enquanto pedia uma ginger ale. O que o David Porshie sabia, e
como tinha descoberto isso? Billy engoliu um Xanax e enquanto esperava
o comprimido fazer efeito, tentou raciocinar. Seria possível que David
só quisesse se encontrar com os Brewer pelo motivo que ele havia lhe
declarado? Billy achava que não. O Museu Metropolitano era o último
bastião das velhas fortunas, embora recentemente, eles tivessem
precisado redefinir “velho”, designando assim gente de vinte anos em
vez de cem.
— Connie, o que foi que você fez? – perguntou Billy quando chegou
ao apartamento dos Brewer. – Cadê a cruz?
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Seguindo-a até a câmara privativa, ele contemplou a cruz pendurada
na parede, horrorizado.
— Quantas pessoas viram isso? – indagou ele.
— Ai, Billy, não se preocupe, só o Sandy. E as criadas. E a
Annalisa Rice.
— E o moldureiro – disse Billy. – Aonde foi que a levou? – Connie
lhe disse o nome do homem. – Meu Deus! – exclamou Billy, sentando-se na
beirada da espreguiçadeira. – Ele vai contar a Deus e todo mundo.
— Mas como ele teria condições de saber o que é? – indagou Connie.
– Eu não lhe contei.
— Disse a ele como a comprou? – indagou Billy.
— Claro que não – disse Connie. – Não contei a ninguém.
— Escuta, Connie. Precisa guardar essa cruz. Tire-a da parede e
guarde-a num cofre. Já lhe disse que se alguém descobrir que está com
essa cruz, todos nós podemos ir parar na cadeia.
— Ninguém prende gente como nós – retrucou a Connie.
— Prende, sim. Acontece toda hora hoje em dia – disse Billy, com um
suspiro.
Connie tirou a cruz da parede.
— Olha – disse ela, levando-a para o armário embutido. – Vou
guardá-la.
— Prometa que vai guardá-la num cofre-forte. É valiosa demais para
se guardar em um armário.
— É valiosa demais para ser escondida – objetou Connie. – Se eu não
puder olhar para ela, por que vou ficar com ela?
— Conversamos sobre isso depois – disse Billy – depois que a
guardar. – Era possível, pensou Billy, vendo como que um raio de
esperança, que o David Porshie não soubesse da cruz, porque, se
soubesse, mandaria detetives, não marcaria um jantar. Contudo, Billy ia
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ter que providenciar para que o jantar acontecesse. Senão, o David iria
ficar ainda mais desconfiado. – Vamos jantar com o David Porshie do
Metropolitano – disse Billy – E não vai mencionar essa cruz, nem você
nem o Sandy. Mesmo que ele lhes pergunte à queima-roupa.
— Nunca ouvimos falar dela – disse Connie.
Billy passou a mão no alto da cabeça calva. Apesar de seus esforços
para ficar em Nova York, já estava antevendo o futuro. Assim que os
três milhões de dólares estivessem disponíveis, ia precisar sair do
país. Ia ser obrigado a ir morar em um lugar como Buenos Aires, onde
não havia leis de extradição. Billy estremeceu. Involuntariamente,
disse em voz alta:
— Detesto palmeiras...
— Quê? – disse Connie, pensando que tinha perdido uma parte da
conversa.
— Nada, minha querida – disse Billy depressa. – É que tem um monte
de coisas passando pela minha cabeça.
Ao sair do prédio da Connie na Rua 78, ele entrou em um táxi e
instruiu o motorista a pegar a Quinta avenida na direção da cidade. O
trânsito estava engarrafado na rua 66, mas Billy não se importou. O
táxi era um dos novos tipos de SUV e cheirava a plástico novo; da boca
do motorista, que estava conversando ao celular, vinha uma arenga
musical. Se ao menos, pensou Billy, pudesse ficar para sempre naquele
táxi, descendo a Quinta Avenida a passo de lesma e passando por todos
os pontos de referência familiares: o castelo do Central Park, a
Sherry-Netherland, onde ele tinha almoçado no Cipriani quase todo dia
durante quinze anos, a Plaza, a Bergforf Goodman, a Saks, a Biblioteca
Pública de Nova York. Sua nostalgia engolfou-o em uma bruma de prazer e
de amargura doce e sofrida. Como é que ele poderia algum dia sair da
sua amada Manhattan?
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Seu telefone tocou.
— Vai comparecer ao jantar esta noite, não vai, Billy, meu amigão?
– perguntou Schiffer Diamond.
— Claro. Mas claro que vou – disse Billy, embora, dadas as
circunstâncias, tivesse passado pela sua cabeça que ele devia cancelar
todos os eventos da semana seguinte e ficar só no sapatinho.
— Excelente, porque não suporto essas coisas – disse Schiffer. –
Vou ter que conversar com um bando de estranhos e ser simpática com
eles todos. Detesto ser exibida como um pônei de circo.
— Então não vá – disse Billy, com simplicidade.
— Billy Bob, o que há contigo? Eu preciso ir. Se eu cancelar, eles
vão meter o pau em mim, dizendo que sou anti-social. Talvez eu deva
agir como anti-social daqui por diante. A diva solitária. Ah, Billy –
disse ela, parecendo ligeiramente amarga, o que não era do seu feitio.
– Onde estão todos os homens desta cidade? – E desligou.
Duas horas depois, Schiffer Diamond estava sentada em um banco em
seu banheiro, enquanto alguém penteava seus cabelos ou lhe retocava a
maquiagem pela quarta ou quinta vez naquele dia, enquanto a sua agente,
Karen, sentada na sala de estar, lia revistas e conversava no celular,
aguardando Schiffer ficar pronta. A cabeleireira e a maquiadora
saracoteavam pelo banheiro, querendo puxar conversa, mas Schiffer não
estava disposta. Estava se sentindo mal. Entrando no Número Um, naquela
mesma tarde, tinha dado de cara nada mais nada menos do que com a Lola
Fabrikant, que vinha entrando no edifício apressada, como se fosse uma
criminosa.
Talvez “apressada” não fosse a palavra exata, pois Lola não tinha
entrado apressada mas puxando a mala Louis Vuitton de rodízios atrás de
si como se fosse dona do lugar. Schiffer ficou momentaneamente chocada.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
O Philip não tinha terminado o namoro com ela? Pelo jeito, não tinha
tido coragem. Que se danasse o Oakland, pensou. Por que ele era assim
tão fraco?
Lola entrou enquanto Schiffer estava esperando o elevador; e por
isso Schiffer foi obrigada a subir com ela. Lola ficou puxando o saco
de Schiffer como se fossem amigas do peito, perguntando como estava
indo a série, e que dizendo que gostava muito dos cabelos da Schiffer,
embora fossem os mesmos de sempre, e tomou o maior cuidado para não
tocar no nome do Philip. Portanto Schiffer resolveu tocar.
— Philip me disse que seus pais estão tendo alguns problemas –
disse ela.
Lola suspirou dramaticamente.
— Tem sido horrível – disse ela. – Se não fosse por Philip, não sei
o que faríamos.
— Philip é um amor de pessoa – comentou Schiffer, e Lola concordou.
Depois, esfregando sal na ferida, Lola acrescentou: — Tenho tanta sorte
de ser namorada dele...
Agora, pensando naquele encontro casual, Schiffer olhava furiosa
para o seu reflexo no espelho.
— Está pronta – disse a maquiadora, passando pó no nariz de
Schiffer.
— Obrigada – disse ela. Foi para o quarto, vestiu o vestido
emprestado, colocou as jóias emprestadas e chamou sua agente para
ajudá-la a fechar o zíper do vestido. Pôs as mãos na cintura e esvaziou
os pulmões.
— Estou pensando em me mudar deste edifício – disse. – Preciso de
um apartamento maior.
— Por que não compra um apartamento maior aqui? É um prédio
excelente – disse Karen.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— Estou cansada de morar aqui. Tem muita gente nova. Não é mais
como antes.
— Alguém está chateada – disse Karen.
— É mesmo? Quem? – indagou Schiffer.
E aí Schiffer, a agente e a equipe de cabeleireiros e maquiadores
desceram e sentaram-se no banco de trás de uma limusine que os
aguardava. Karen abriu a bolsa, tirou várias folhas de papel e começou
a consultar suas anotações.
— Letterman está confirmado para terça, e Michael Kors está
mandando três vestidos para você experimentar. A equipe da Meryl Streep
está querendo saber se você pode ir ler uns poemas no dia 22 de abril.
Acho que é uma boa porque é a Meryl e é coisa de classe. Na quarta,
você vai trabalhar à uma da tarde, portanto marquei a sessão de fotos
da Marie Claire para seis da manhã, para nos livrarmos logo disso. A
repórter vem ao estúdio te entrevistar na quinta. Na noite de sexta, o
presidente da Boucheron vai estar na cidade e te convidou para um
jantar fechado para vinte pessoas. Acho que também devia ir, não faz
mal nenhum, e eles pode ser que te convidem para uma campanha
publicitária. E na tarde de sábado, a rede quer tirar fotos
promocionais. Estou tentando empurrar a filmagem para a tarde para você
poder descansar um pouco de manhã.
— Obrigada – disse Schiffer.
— O que acha da Meryl?
— Isso ainda está longe. Nem mesmo sei se vou estar viva no dia 22
de abril.
— Vou confirmar – disse a Karen.
A maquiadora ergueu um tubo de brilho labial, e Schiffer inclinou-
se para a frente para ela poder retocar-lhe os lábios. Ela virou a
cabeça, e o cabeleireiro lhe afofou os cabelos e passou spray.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— Qual é mesmo o nome exato da organização? – indagou Schiffer.
— Conselho Internacional dos Designers de Sapatos – ICSD. O
dinheiro vai para um fundo de aposentadoria para os trabalhadores das
indústrias de confecção de sapatos. Vai dar o prêmio ao Christian
Louboutin e vai se sentar à mesa dele. O que vai dizer vai aparecer no
teleprompter. Quer dar uma lida antes?
— Não – disse Schiffer.
O carro dobrou na rua 42.
— Schiffer Diamond está chegando – disse Karen ao telefone. – Só
mais um minuto. – E guardou o celular, olhando a fila de Town Cars e os
fotógrafos, bem como a multidão de curiosos isolados da entrada por
cordões e barricadas policiais. – Todo mundo adora sapatos – disse ela,
sacudindo a cabeça.
— O Billy Litchfield está aqui? – indagou Schiffer.
— Vou descobrir – disse Karen. Falou ao celular como se fosse um
walkie-talkie. – O Billy Litchfield já chegou? Não dá para ir ver? –
Depois balançou a cabeça e fechou o telefone. – Ele está lá dentro.
Dois seguranças fizeram sinal para o carro avançar, e um deles
abriu a porta. Karen saiu primeiro e, depois de conferenciar
rapidamente com duas mulheres vestidas de preto de fones de ouvido, fez
sinal para a Schiffer sair do carro. Uma onda de empolgação percorreu a
multidão, e os flashes começaram a espocar.
Schiffer viu Billy Litchfield esperando logo na entrada, depois da
porta.
— Mais uma noite em Manhattan, né, Billy? — disse ela, pegando o
seu braço. Imediatamente, foi abordada por uma jovem do Women’s Wear
Daily que perguntou se poderia entrevistá-la, e aí um rapaz da revista
New York, e passou-se mais meia hora antes que ela e Billy pudessem
escapulir até sua mesa. Passando pela multidão, Schiffer disse:
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— O Philip ainda está com aquela tal da Lola Fabrikant.
— E isso importa? – disse Billy.
— Não devia.
— Não se incomode. Brumminger vai sentar-se à nossa mesa.
— Ele vive aparecendo em tudo que é lugar feito uma moedinha suja
de um centavo, não?
— Para mim, parece mais uma nota de um milhão – disse Billy. – Pode
ter qualquer homem que quiser. Sabe disso.
— Na verdade, não posso. Só há um certo tipo de homem que consegue
aturar tudo isso – disse Schiffer, indicando o evento. – E ele não é
necessariamente o tipo de homem que uma mulher quer ter. – À mesa,
cumprimentou Brumminger, que estava sentado em frente a ela do outro
lado do arranjo de centro de mesa. – Sentimos sua falta em Saint Barths
– disse ele, pegando-lhe as mãos.
— Eu devia ter ido – disse ela.
— O grupo do iate foi excelente. Estou decidido a convidá-la para
um passeio nele. Não desisto com facilidade.
— Por favor, não insista – disse ela, e foi para sua cadeira. Uma
travessa de salada com dois pedaços de lagosta já estava no seu lugar.
Ela abriu o guardanapo e pegou o garfo, percebendo que não tinha comido
nada o dia inteiro, mas o presidente do ICSD chegou perto dela e
insistiu em apresentá-la a um homem cujo nome ela não entendeu, e
depois veio uma mulher que alegava conhecê-la fazia vinte anos, e em
seguida duas jovens vieram correndo até ela e disseram que eram suas
fãs e lhe pediram para assinar seus programas. Depois Karen veio e
informou-a de que era hora de ir para os bastidores para se preparar
para seu discurso, e ela se levantou e foi para trás da plataforma para
esperar com os outros famosos, que estavam entrando em fila organizada
pelos funcionários, a maioria fingindo que não via os outros.
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— Precisa de alguma coisa? – perguntou Karen, toda alvoroçada. –
Água? Eu podia lhe trazer o vinho lá da mesa.
— Não, tudo bem – respondeu Schiffer. O evento começou e ela ficou
de pé, sozinha, esperando para entrar. Podia ver a multidão por uma
abertura entre as placas de gesso, seus rostos ansiosos e educadamente
entediados erguidos na semi-obscuridade. Sentiu uma solidão invasiva.
Anos e anos atrás, ela e Philip frequentavam esse tipo de eventos e
se divertiam, mas talvez fosse apenas por que eram jovens e tão
apaixonados um pelo outro que todo momento tinha a vibração de uma cena
de filme. Ela podia enxergar Philip de smoking, com uma echarpe de seda
branca que sempre usava pendurada nos ombros, e lembrar das mãos dele
ao redor da sua, musculosa e firme, levando-a para fora da multidão e
atravessando a calçada até o carro que os aguardava. Não sabia como,
eles teriam reunido um séquito de meia dúzia de pessoas, e se
amontoavam no carro, rindo e gritando, e iam para o próximo lugar, e
para o próximo lugar depois desse, e finalmente iam para casa à luz
cinzenta do amanhecer ouvindo o gorjeio dos pássaros. Ela se deitava no
assento com a cabeça no ombro do Philip, fechando os olhos, sonolenta.
— Gostaria de dar uns tiros nesse passarinhos – dizia ele.
— Cala a boca, Oakland. Eu os acho encantadores.
Espiando uma vez mais pela fresta entre as placas do palco, ela viu
Billy Litchfield na mesa da frente. Billy parecia esgotado, como se
tivesse assistido a eventos demais como esse com o passar dos anos.
Tinha recentemente comentado que o que antes era divertido tinha se
tornado institucionalizado, e estava certo, segundo ela percebeu. E aí,
ouvindo o mestre de cerimônias anunciar seu nome, ela saiu dos
bastidores, entrando no palco, sob as luzes dos refletores, e lembrou-
se de que não haveria ninguém nem ao menos para lhe oferecer a mão
cálida e conduzi-la de volta ao lar no fim da noite.
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Quando foi capaz de voltar até a mesa, o prato principal já tinha
sido servido e levado embora, mas Karen tinha mandado os garçons
guardarem uma travessa para ela. O filé mignon estava frio. Schiffer
comeu dois pedacinhos e tentou falar com o Billy antes de ser
interrompida de novo pela mulher do ICSD, que tinha mais gente que
Schiffer precisava conhecer. Isso levou mais trinta minutos, e depois
Brumminger apareceu ao seu lado.
— Você parece estar cansada – disse ele – Que tal eu te levar
embora daqui?
— Sim, por favor – disse ela, aliviada. – Podemos ir a algum lugar
divertido?
— Tem que estar no estúdio amanhã às sete – recordou-lhe a Karen.
Brumminger tinha um Escalade com motorista, duas telas de vídeo e
uma geladeira pequena.
— Alguém quer champanhe? – perguntou ele, extraindo uma meia
garrafa da geladeira.
Eles foram ao Box e sentaram-se no andar de cima em um reservado
com cortina. Schiffer deixou o Brumminger passar o braço em torno do
seus ombros e entrelaçar os dedos com os dela, e, no dia seguinte, a
Page Six anunciou que tinham visto os dois se afagando e que corriam
boatos que estavam namorando.
Ao voltar ao apartamento do Philip na terça, Lola foi procurar o
velho exemplar da Vogue com a foto de página central de Philip e
Schiffer (ele não tinha nem mesmo tentado escondê-la, o que era bom
sinal) e olhando para o jovem e bonitão Philip com a belíssima e jovem
Schiffer sentiu vontade de descer ao apartamento de Schiffer e rodar a
baiana com ela. Mas ela não tinha coragem. E se a Schiffer não
recuasse? E depois pensou que devia simplesmente jogar a revista fora,
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ocmo Philip tinha jogado as suas. Mas se fizesse isso não teria o
prazer de olhar as fotos de Schiffer e sentir ódio. Então decidiu
assistir a Manhã de Verão.
Ver o DVD foi uma espécie de tortura divina. Em Manhã de Verão, a
menina inexperiente salva o rapaz de si mesmo, e qunado o rapaz
finalmente entende que está apaixonado por ela, mata-a acidentalmente
em uma batida de carro. A história devia ser autobiográfica, e embora
Philip não estivesse no filme ele mesmo, todas as falas do ator que
desempenhava seu papael lhe recordavam algo que Philip diria. Assistir
à história de amor se desenrolando entre Schiffer Diamond e o
personagem que representava Philip fez Lola sentir-se como que
segurando vela num relacionamento onde ela não tinha lugar. Também a
fez se apaixonar mais ainda pelo Philip, e ficar ainda mais resolvida a
retê-lo.
No dia seguinte, começou a trabalhar e recrutou Thayer Core e seu
horrível colega de quarto, o Josh, para ajudá-la a mudar-se
oficialmente para o apartamento do Philip. A tarefa exigiu que Thayer e
Josh empacotassem as coisas da Lola em caixas e sacos plásticos, e,
como guias himalaios, carregassem tudo aquilo até o Número Um da Quinta
Avenida.
Josh resmungou a manhã inteira, reclamando de dor nos dedos, nas
costas (ele tinha problemas de coluna, alegou, exatamente como sua
mãe), e nos pés, que estavam protegidos por grossos tênis esportivos,
que lembravam duas talas de gesso. Thayer, por outro lado, foi
surpreendentemente eficiente. Naturalmente, havia um motivo ulterior
por trás dos esforços do Thayer: ele queria ver o interior do Número Um
e, particularmente, o apartamento do Philip. Portanto, não objetou
quando Lola exigiu que ele fizesse três viagens de ida e volta,
arrastando um saco de lixo cheio de sapatos da Lola pela Avenida
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Greenwich. Nos últimos dois dias, Lola tinha vendido tudo no seu
apartamento, colocando os detalhes da venda na Craigslist e no
Facebook, e presidindo as vendas como um negociante de antigüidades
finas. Só aceitou o maior preço possível pelos objetos decorativos que
os pais tinham comprado fazia menos de um ano, e consequentemente,
tinha arrecadado oito mil dólares em dinheiro vivo. Mas recusou-se a
pagar um táxi para transportar seus pertences. Se o último mês de
penúria tinha lhe ensinado alguma coisa, tinha sido o seguinte: uma
coisa era gastar a torto e a direito o dinheiro de outra pessoa, mas
jogar fora o da gente era muito outra.
Na quarta viagem, o trio deu de cara com James Gooch no vestíbulo
do Número Um. James estava empurrando duas caixas de exemplares de seu
livro pelo vestíbulo com o pé. Quando viu a Lola, enrubesceu. Suas
visitas e mensagens de texto tinham cessado abruptamente após o
encontro dele com Philip, deixando James confuso e magoado. Vendo Lola
ali no vestíbulo com o que parecia ser um jovenzinho babaca e um outro
rapazola com cara de desajustado, James perguntou-se se devia sequer
lhe dirigir a palavra.
Mas no minuto seguinte, ela havia não só começado a conversar com
ele, mas convencido James a levar suas coisas também. Então ele se viu
apertado contra ela no elevador com o jovem babaquinha, que o olhava
furioso, e o jovem desajustado, que não parava de se queixar dos pés.
Devia ser sua imaginação, mas segurar uma caixa cheia de xampu velho
nos braços, James jurava que sentiu ondas de eletricidade vindo de Lola
fundindo-se com ondas de eletricidade vindas de seu próprio corpo, e
imaginou que os elétrons deles estavam dançando sensualmente ali mesmo
no elevador, na frente de todo mundo.
Colocando no vestíbulo do apartamento de Philip a caixa com os
xampus, Lola apresentou James como “um escritor que mora neste prédio”,
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ao jovem babaca, que imediatamente começou a interrogar James sobre a
relevância de todo romancista vivo e bem-sucedido. Tendo Lola como
platéia, James viu-se respondendo facilmente ao desafio e colocando o
rapaz em seu devido lugar, citando De Lillo e McEwan, cujas obras o
jovem babaca não tinha se incomodado de ler. O conhecimento de James
enfureceu Thayer, mas ele se recordou de que esse tal James era
insignificante, nada além de um integrante da odiada tribo dos
“boomers”, os americanos nascidos durante o salto da natalidade
infantil após a II Guerra, que por acaso morava naquele prédio
exclusivo. Mas aí Lola começou a elogiar o novo livro do James e sua
resenha no The new York Times, e Thayer descobriu exatamente quem o
James era, assestando para ele a mira de sua ira.
Mais tarde, naquela noite, Thayer, depois de ter consumido duas
garrafas do melhor vinho tinto do Philip Oakland, de volta ao buraco
insalubre que era seu apartamento, pesquisou sobre o James Gooch no
Google, descobriu que era casado com a Mindy Gooch, procurou-o no site
da Amazon, viu que seu romance ainda não publicado já estava em 82 o
lugar, e começou a redigir um texto elaborado e violento para o blogue
sobre ele, no qual o chamava de “provável pedófilo e molestador da
palavra”.
Lola, nesse meio tempo, ainda acordada e entediada, enviou a James
uma mensagem de texto avisando-o para não contar a Philip que tinha
estado no apartamento, por que Philip era ciumento. A mensagem fez o
telefone de James soltar um bip à uma da madrugada, e esse ruído nada
característico acordou a Mindy. Por um momento, ela se perguntou se
James estaria tendo um caso, mas depois considerou impossível essa
hipótese, descartando-a.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Na maioria das manhãs dos dias da semana no Número Um, Paul Rice
era quem acordava antes de todos os outros moradores, às quatro da
manhã, para conferir os mercados europeus e para negociar com peixes.
Seu aquário estava completo e instalado, ocupando quase todo o
comprimento do salão de baile da Sra. Houghton, e seu interior era o
sonho dos construtores de modelos em escala, uma réplica da Atlântida,
semi-sepultada no mar, até com velhas estradas romanas saindo das
cavernas arenosas. A aquisição de seus peixes cobiçados era uma disputa
das mais acirradas, e exigia assistir a vídeos de alevinos e depois
começar a dar lances agressivamente, sendo que os melhores peixes saíam
por cem mil dólares ou mais. Mas cada homem de sucesso precisava de um
passatempo, especialmente quando empregava a maior parte do seu dia ou
ganhando ou perdendo dinheiro.
Em uma manhã excepcionalmente quente de terça-feira, no fim de
fevereiro, mas James Gooch também se levantou cedo. Às 4:30 da matina,
James saiu da cama com o estômago se revirando de nervosismo. Depois de
passar a noite rolando na cama de um lado para outro, de expectativa,
tinha finalmente adormecido, mas acordado uma hora depois, exausto e se
odiando por estar exausto no dia mais importante de sua vida.
A data de publicação do seu livro tinha finalmente chegado. Naquela
manhã, ia parecer no programa Today, e depois dar várias entrevistas no
rádio, e à noite iria até a Barnes & Noble da Union Square, para lançar
o livro e dar autógrafos. Enquanto isso, duzentos mil exemplares seriam
vendidos em livrarias de todo o país, e duzentos mil exemplares seriam
postos à venda nas iStores, e no domingo, seu livro apareceria na capa
do The New York Times Book Review. A publicação estava indo exatamente
de acordo com o planejado, e como nada na vida dele jamais tinha saído
conforme o planejado, James estava, irracionalmente, se sentindo um
tanto apavorado, achando que algo de horrível estava para acontecer.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Ele tomou banho, fez café, e depois, embora tivesse se prometido
que não iria fazer isso, foi verificar sua classificação na Amazon. O
número o espantou (vigésimo-segundo), quando ainda se passariam cinco
horas até o livro ser efetivamente lançado. Como é que o mundo já havia
tomado conhecimento do livro? perguntou-se ele, decidindo que era uma
espécie de milagre misterioso, prova de que o que acontecia na vida de
alguém estava absolutamente fora do seu controle.
Aí, só de brincadeira, pesquisou seu nome através do Google. No
rodapé da primeira página de resultados, leu: “Velhote pateta espera
provar que a literatura ainda existe e vai bem.” Clicando nesse link,
foi parar no site do Snarker. Curioso, começou a ler o artigo do Thayer
Core. À medida que ia lendo, seu queixo ia caindo, e o sangue ia
começando a pulsar com mais força na sua cabeça. Thayer tinha escrito
sobre o livro do James e seu casamento com a Mindy, referindo-se a ela
como “a professorinha de escola rural que só olha para o seu próprio
umbigo”, seguido de uma descrição física cruel do James, segundo a qual
ele lembrava uma espécie de pássaro já extinto.
Boquiaberto diante daquele artigo, James se encheu de fúria. Era
aquilo que as pessoas realmente achavam dele? “James Gooch
provavelmente é pedófilo e molestador da palavra”, releu ele. Será que
esse tipo de acusação não era ilegal? Será que ele não poderia
processar o indivíduo?
— Mindy! – gritou ele. Não se ouviu resposta, e ele foi até o
quarto, encontrando Mindy acordada mas fingindo estar adormecida com um
travesseiro debaixo da cabeça.
— Que horas são? – perguntou ela, sonolenta.
— Cinco.
— Me deixa dormir mais uma hora.
— Eu preciso de você – disse James. – Agora.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Mindy saiu da cama e, seguindo James, ficou olhando sonolenta o
blogue no computador dele.
— Típico – disse ela. – Simplesmente típico.
— Temos que reagir – disse James.
— Quê? – perguntou ela. – A vida hoje em dia é assim. Não dá para
fazer nada a respeito. É preciso conviver com as agressões. – E tornou
a ler a matéria. – Como foi que eles descobriram tudo isso a seu
respeito, hein? – indagou ela. – Como é que eles sabem que moramos no
Nümero Um da Quinta?
— Não faço idéia – disse James, nervoso, percebendo que a notícia
podia acabar revelando o que ele tinha feito. Se não tivesse esbarrado
na Lola naquele dia, quando ela estava se mudando, ele jamais teria
conhecido o Thayer Core.
— Esquece isso – disse Mindy. – Só dez mil pessoas lêem essa
porcaria, mesmo.
— Só dez mil? – disse James. E aí seu telefone soltou um bip.
— Que foi isso? – indagou Mindy, irritada. E olhou firme para ele,
com aquele seu rosto pálido, em grande parte sem rugas, o resultado de
anos evitando andar no sol. – Por que é que está recebendo mensagens de
texto no meio da noite?
— Como assim? – indagou James. – Provavelmente é o serviço de
transporte do Today. – Quando Mindy saiu da sala, James apanhou o
telefone e olhou a mensagem. Como ele esperava, era da Lola. “Boa sorte
hoje”, tinha escrito ela. “Eu vou estar assistindo!” e depois uma
carinha sorridente.
James saiu do apartamento às seis e quinze. Mindy, incapaz de se
conter, releu o artigo do blogue sobre ela e James, e seu humor passou
a piorar cada vez mais. Hoje em dia qualquer um que cometesse o crime
de tentar fazer alguma coisa da sua vida se tornava vítima de agressões
ONE FIFTH AVENUE – CANDACE BUSHNELL 162
TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
pela Internet, e não havia retribuição, não havia controle, nada que se
pudesse fazer. Assim chateada, sentou-se ao computador e começou a
escrever mais um texto para o seu blogue, fazendo uma lista de tudo na
sua vida sobre o que não tinha controle e que a deixara amargamente
decepcionada: sua incapacidade de engravidar, sua incapacidade de morar
em um apartamento adequado, sua incapacidade de levar uma vida na qual
ela não parecesse sempre estar correndo para alcançar uma linha de
chegada invisível que se afastava mais cada vez que ela se aproximava.
E agora havia o iminente sucesso do James, o que, em vez de aliviar
esse sentimentos, apenas os acentuava mais.
Quando ela ouviu a campainha do elevador às sete horas, indicando
que Paul Rice estava no vestíbulo, abriu a porta de propósito e soltou
o Skippy. Skippy, como sempre, grunhiu para o Paul. Mindy, ainda mal-
humorada, não pegou o Skippy na mesma hora, como normalmente fazia, e
Skippy atacou a perna da calça do Paul com uma violência de animal
raivoso que Minddy desejou que ela mesma pudesse expressar. Durante
essa contenda, Skippy conseguiu produzir um buraquinho minúsculo no
tecido das calças do Paul antes de ele conseguir se livrar do animal.
Paul abaixou-se e examinou o rasgo. Depois ergueu-se, encostando a
língua na bochecha por dentro da boca, e disse, em tom frio:
— Vou te processar por isso.
— Processa, vai – incentivou a Mindy. – Vou adorar. As coisas não
podem ficar piores do que já estão.
— Ah, mas podem sim – disse Paul, ameaçadoramente. – Você vai ver
só.
Paul saiu do prédio, e lá em cima a Lola Fabrikant saiu da cama e
ligou a televisão. James apareceu na tela, por fim. Talvez fosse a
maquiagem, mas James parecia estar um pouco rígido, de modo geral.
Seria interessante fazê-lo relaxar, pensou Lola. E ele estava
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
aparecendo na televisão! Qualquer um pode aparecer no YouTube. Mas na
tevê de verdade, e ainda por cima em cadeia nacional, era um lance
totalmente diferente. “Eu te vi!” escreveu ela na mensagem. “Você deu
show!” escreveu Lola. E debaixo disso incluiu sua nova citação, com a
qual assinava todos os seus correios eletrônicos e inclusões nos
blogues: “O corpo morre, mas o espírito vive para sempre”.
No número 30 da Rockfeller Plaza, nos estúdios da NBC, a agente,
uma jovem magricela com cabelos louros e compridos e razoavelmente
bonita, sorriu para James.
— Foi ótimo – disse ela.
— Foi? – disse o James. – Eu não tinha certeza. Nunca apareci na
televisão antes.
— Não. Falando sério, você foi bem. De verdade. – disse a agente,
sem grande convicção. – Precisamos correr para chegar a tempo para sua
entrevista na rádio CBS.
James entrou no Town Car. Perguntou-se brevemente se agora ia ser
famoso, reconhecido por estranhos depois de aparecer no Today. Não se
sentia diferente sob nenhum aspecto, e o motorista não tomou muito
conhecimento da sua presença, comportou-se exatamente como antes.
Depois ele verificou suas mensagens, e encontrou o texto da Lola. Pelo
menos uma pessoa o valorizava. Abriu a sua janela do carro, deixando
entrar uma corrente de ar úmido.
A noite de autógrafos do livro do pai do Sam estava estranhamente
quente, levando a um inevitável debate entre os colegas dele sobre o
aquecimento global. Eles concordavam que era terrível nascer em um
mundo onde os adultos haviam arruinado o planeta para os seus filhos,
de modo que os filhos eram forçados a viver sob a ameaça de um iminente
Armagedon no qual todas as coisas vivas desapareceriam. Sam sabia que
ONE FIFTH AVENUE – CANDACE BUSHNELL 164
TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
sua mãe se sentia culpada por isso, pois vivia lhe dizendo para
reciclar tudo e apagar a luz, mas nem todos os adultos se sentiam da
mesma forma. Quando tocou no assunto com Enid, ela só riu dele e disse
que sempre tinha sido assim: na década de trinta, as crianças tinham
convivido com o racionamento de comida e a ameaça de inanição (aliás,
durante a Grande Depressão, algumas pessoas tinham mesmo morrido de
inanição). Na década de quarenta, tinham sido os bombardeios aéreos; e
nos anos sessenta e setenta, a bomba atômica. E mesmo assim, observou,
as pessoas continuavam não só sobrevivendo como também prosperando,
dado o fato de que agora havia mais bilhões de pessoas agora do que
nunca antes. Sam não se sentiu aliviado com isso. Os bilhões de pessoas
é que eram o problema.
Marchando através do West Village com seus amigos, Sam conversava
com eles, dizendo que a terra já estava dois graus mais fria do que se
imaginava, devido à proliferação de aviões, que causavam nuvens e
redução da luminosidade da abóbada celeste, absorvendo 5% de toda a luz
solar. Era fato científico, disse ele, que durante os dois dias depois
de 11 de setembro, durante os quais não decolaram aviões e portanto não
houve tantas nuvens, a temperatura da terra tinha subido dois graus. A
descarga dos gases dos aviões causou uma menor concentração de
materiais particulados no ar e uma maior reflexão de luz para longe da
superfície terrestre, segundo ele.
Caminhando pela Sexta Avenida, o grupo passou por uma quadra de
basquete na qual havia alguns rapazes jogando. Sam se esqueceu da
mudança do clima e se afastou do grupo para bater bola. Já jogava
basquete naquela quadra específica, de asfalto rachado e suja de lixo
desde que tinha dois anos, quando seu pai o trazia ali nas manhã de
primavera e de verão para lhe ensinar a driblar e a lançar. “Não conta
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
à sua mãe, Samzinho”, dizia-lhe o pai. “Ela vai pensar que a gente está
vagabundando.”
Hoje aquele jogo de brincadeira estava particularmente agressivo,
talvez devido ao tempo quente, no qual todos tinham saído para gastar a
energia acumulada durante o inverno. Sam estava desatento, e depois de
levar uma cotovelada no pescoço e ser jogado contra a cerca de
alambrado, resolveu parar. Comprou um bagel com requeijão no caminho
para casa, depois trabalhou no seu website, que estava atualizando com
Virtual Flash. Foi aí que tocou a campainha e o porteiro disse que
tinha visita para ele.
O homem que estava no vestíbulo tinha uma aparência peculiar, que
Sam classificou como mal-ajambrada. Avaliando Sam da cabeça aos pés,
ele perguntou se seus pais estavam em casa, e quando Sam sacudiu a
cabeça, disse:
— Tudo bem então vai você mesmo. Sabe assinar o seu nome?
— Claro – disse Sam, pensando que devia era fechar a porta na cara
do homem e ligar para o porteiro e mandar botar o homem para fora. Mas
tudo aconteceu depressa demais. O homem lhe entregou um envelope e uma
prancheta.
— Assine aqui – disse.
Incapaz de contestar a autoridade de um adulto, Sam assinou. Em um
segundo, o homem já havia desaparecido, passando pelas portas
giratórias do vestíbulo, deixando o envelope nas mãos do Sam.
O endereço do remetente era de um escritório de advocacia da Park
Avenue. Sabendo que não devia fazer isso, Sam abriu o envelope, achando
que podia explicar mais tarde que tinha aberto por engano. Dentro dele
havia uma carta de duas páginas. O advogado estava representando o Sr.
Paul Rice, que vinha sendo agredido sistematica e propositalmente pela
mãe dele, sem motivo, e se essas ações não cessassem imediatamente e
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
ela providenciasse as devidas reparações, os advogados de Paul Rice, em
seu nome, entrariam com um pedido de ordem de restrição, e estariam
dispostos a processar a senhora Mindy Gooch até os limites permitidos
por lei.
No seu quarto, Sam releu a carta, sentindo um ódio adolescente
incandescente engolfá-lo. Sua mãe costumava ser irritante, mas como a
maior parte dos meninos, ele sentia necessidade violenta de protegê-la.
Ela era inteligente, bem-sucedida, e, segundo ele achava, bonita; ele a
colocava em um pedestal como modelo com o qual comparava outras
mulheres, embora até ali ele não tivesse encontrado nenhum outro ser do
sexo feminino que estivesse à altura dela. E agora sua mãe estava sendo
atacada uma vez mais pelo Paul Rice. Aquela idéia o enfurecia; olhando
em torno de si, à procura de algo para quebrar, e não achando nada,
trocou de sapatos e saiu do prédio. Correu pela Nona Avenida, passou
pelas lojas de pornografia e de animais, e pelas lojinhas luxuosas de
chá. Queria correr ao longo do Rio Hudson, mas a entrada dos píeres
estava bloqueada por várias barreiras vermelhas e brancas, e um
caminhão da Con Edison.
— Vazamento de gás – berrou um homenzarrão quando Sam se aproximou.
– Não pode passar por aqui. Dê a volta.
O veículo da empresa pública de gás e eletricidade deu a Sam uma
idéia, e ele voltou ao Número Um. De repente entendeu como podia se
vingar do Sam Rice e da sua cartinha ameaçadora. Ia ser inconveniente
para todos no edifício, mas seria uma coisa temporária, e o Paul Rice,
com todos os seus equipamentos de informática, ia sofrer mais do que
todos. Podia até ser que perdesse alguns dados. Sam sorriu, pensando em
como o Paul Rice ia ficar fulo. Talvez quisesse até sair do prédio.
Às seis e meia da tarde, Sam foi até a livraria Barnes & Noble da
Union Square com os pais. Ficava a dez quarteirões do Número Um, e a
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
agente quis mandar um carro, segundo Mindy, sem dúvida para garantir
que James iria chegar lá, mas Mindy disse que não era preciso. Eles
podiam ir andando, declarou ela. E recordando a todos seu recente
juramento de defender o meio-ambiente, disse que não havia motivo para
desperdiçar gasolina e encher o ar de monóxido de carbono quando Deus
havia lhes dado implementos perfeitamente bons para se deslocarem.
Chamavam-se pés. Sem querer ouvir a troca de provocações entre os pais,
Sam caminhava um pouco à frente deles, ainda meditabundo, pensando
sobre o que tinha acontecido durante o dia. Não tinha mostrado a carta
do advogado de Paul Rice à mãe. Não ia permitir que Paul Rice acabasse
com o dia de glória do seu pai. Podia ser até, refletia o Sam, que ele
tivesse feito aquilo de propósito.
Diante da livraria, a família Gooch parou para admirar um
cartazinho anunciando a leitura do James, com a foto do James tirada na
sessão do dia em que a Schiffer Diamond havia lhe dado uma carona.
James gostou do retrato, pois nele parecia intelectual e sorumbático,
como se apenas ele conhecesse algum grande segredo universal. Entrando
na loja, foi recebido pela agente blasé daquela manhã e dois
funcionários que o escoltaram até o quinto andar. Depois eles o
seqüestraram, conduzindo-o até um minúsculo escritório nos fundos da
loja, e lhe disseram que esperasse ali até trazerem um carrinho cheio
de livros para ele assinar. Segurando uma caneta hidrográfica, James
fez uma pausa, olhando a página de rosto e seu nome: James Gooch. Esse
era, pensou ele, um momento histórico em sua vida, e ele queria se
lembrar do que tinha sentido.
O que sentiu, porém, foi meio decepcionante. Um pouco de prazer, um
tiquinho de medo, e muito nada. Depois Mindy berrou:
— Que é que há contigo?
E, assustado, James rapidamente assinou o seu nome.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Às cinco para as sete, Redmon Richardly veio dar-lhe os parabéns e
levar James para o palco. James ficou pasmo com o número de pessoas
presentes. Todas as cadeiras dobráveis estavam ocupadas, e as pessoas
que estavam no espaço onde só se podia ficar de pé se aglomeravam em
torno das pilhas de livros. Até Redmon ficou espantado.
— Deve haver umas quinhentas pessoas aqui – disse ele, dando uma
palmada no ombro do James. – Muito bem.
James subiu até o púlpito, meio sem jeito. Sentia a multidão como
um animal gigantesco, na expectativa, ávida e curiosa. Uma vez mais ele
imaginou como isso tinha acontecido. Como é que aquelas pessoas tinham
ouvido falar nele? E o que possivelmente iriam querer... dele?
Abriu o livro na página que havia selecionado e viu que sua mão
tremia. Olhando as palavras que tinha escrito laboriosamente durante
tantos anos, obrigou-se a se concentrar. Abrindo a boca e rezando para
ser capaz de sobreviver àquela provação, começou a ler em voz alta.
Mais tarde, naquela mesma noite, Annalisa Rice cumprimentou o
marido à porta, de vestido curto e provocante, plissado como uma túnica
grega, os cabelos arrumados e a maquiagem magistralmente aplicada para
parecer que não tinha se esforçado nem um pouco. Era um visual
ligeiramente desmazelado e irresistivelmente sensual, contudo Paul mal
o notou.
— Desculpe – murmurou ele, subindo os dois lances de escadas até o
escritório, onde fez alguma coisa no computador um instante, depois
ficou admirando seus peixes. Annalisa deu um suspiro e entrou na
cozinha, contornando Maria, a criada, que estava reorganizando os
condimentos, e serviu-se de vodca pura. Levando o copo, deu uma espiada
no escritório do Paul.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— Paul? – disse. – Você está se aprontando? Connie disse que o
jantar começa às oito. E agora são oito horas.
— É o meu jantar – disse Paul. – Chegamos lá à hora que pudermos. –
E desceu para trocar de terno, enquanto Annalisa ia para o seu gracioso
escritoriozinho. Ficou olhando pela janela, para o monumento do Parque
Washington Square. Uma cerca de alambrado cercava o parque, e ficaria
ali pelo menos até o ano seguinte. Os moradores do Village já andavam
reivindicando fazia anos que o chafariz fosse transferido para alinhar-
se perfeitamente com o monumento, e finalmente tinham vencido a
batalha. Bebendo o coquetel, Annalisa entendeu o desejo e o prazer na
atenção aos detalhes. Voltando a pensar na hora, foi até o quarto para
apressar o Paul.
— Por que é que está me rondando? – indagou ele. Ela sacudiu a
cabeça, e, uma vez mais considerando o diálogo difícil, resolveu
esperar no carro.
Na Union Square, James ainda estava assinando livros. Às oito,
trezentas pessoas estavam na fila, segurando avidamente seus
exemplares, e como James sentia-se na obrigação de falar com cada uma
delas, provavelmente ficaria ali pelo menos mais três horas. Mindy
mandou o Sam de volta para o Número Um da Quinta Avenida para fazer seu
dever de casa. Caminhando pela Quinta Avenida, Sam viu Annalisa
entrando no banco de trás de um Bentley verde que a aguardava junto ao
meio-fio. Pasando pelo carro a caminho do prédio, Sam sentiu-se
estranhamente magoado e decepcionado com ela. Depois de ajudá-la com
tanta freqüência no website, tinha desenvolvido uma paixonite pela
moça. Imaginava que Annalisa era uma princesa, uma donzela em apuros, e
vê-la no banco traseiro daquele carro elegante com motorista que estava
até de chapéu destruiu sua fantasia. Ela não era donzela em apuros
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
coisa nenhuma, pensou ele, só mais uma madame rica com privilégios
demais, casada com um babaca podre de rico. E entrou.
Sam abriu a geladeira. Estava faminto, como se sentia o tempo
inteiro agora. Seus pais não entendiam como um menino em crescimento
precisava comer, e ele só conseguiu encontrar na geladeira dois
copinhos de frutas cortadas em cubos, umas sobras de comida indiana e
um litro de leite de soja. Sam bebeu o leite direto da caixa, deixando
um pouquinho para o café da manhã da mãe, e decidiu que precisava de
mais carne vermelha. Iria ao restaurante Village da rua Nove, sentar-se
ao bar, comer um bife.
Indo até o vestíbulo, viu que estava logo atrás do Paul Rice, que
estava saindo para embarcar no Bentley. O coração de Sam começou a
bater a mil, e ele se lembrou do seu plano. Sam não tinha decidido
ainda quando o executaria, mas vendo Paul entrar no banco de trás do
carro, decidiu que iria fazer aquilo naquela noite mesmo, enquanto os
Rice estivessem fora. Ao passar pelo Bentley, acenou para Annalisa, que
sorriu para ele e retribuiu o aceno.
— Sam Gooch é uma gracinha de garoto – disse Annalisa ao Paul.
— A mãe dele é uma vaca – disse Paul.
— Gostaria que essa sua guerra com a Mindy Gooch acabasse.
— Ah, mas acabou – disse Paul.
— Ótimo.
— Mindy Gooch e aquele cachorro safado dela me perturbaram pela
última vez.
— Cachorro? – perguntou Annalisa.
— Eu mandei meu advogado enviar uma carta para ela esta tarde.
Quero que aquela mulher, o cachorro e a família inteira saiam do meu
prédio.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Isso era o fim da picada, até para alguém como Paul, e Annalisa
riu.
— Seu prédio, Paul?
— Isso – disse ele, de olhos pregados na nuca do motorista. –
Fechamos aquele contrato com a China hoje. Em questão de semanas vou
poder comprar todos os apartamentos do Número Um.
Annalisa ficou boquiaberta.
— Por que não me contou?
— Estou te contando agora.
— Quando aconteceu isso?
Paul consultou o relógio.
— Faz uns quarenta minutos.
Annalisa recostou-se no banco.
— Estou pasma, Paul. Mas o que isso significa?
— Foi idéia minha, mas o Sandy e eu fizemos tudo juntos. Vendemos
um dos meus algoritmos para o governo chinês em troca de uma
percentagem do mercado de ações deles.
— E é possível fazer isso?
— Claro que sim – disse Paul. – Eu simplesmente fui e fiz. – Sem
perder tempo, falou com o motorista. – Mudei de idéia – disse. – Vamos
para o heliporto do West Side em vez de ir ao jantar. – E virou-se para
a esposa, dando-lhe tapinhas carinhosos na perna. – Acho que a gente
podia ir jantar no Lodge para comemorar. Sei que você sempre quis vê-lo.
— Ai, Paul – disse ela. – O Lodge era uma estância exclusiva nas
montanhas Adirondack, que diziam ser de uma beleza deslumbrante.
Annalisa tinha lido a respeito dele anos antes, e mencionado ao Paul
que desejava que fossem lá no seu aniversário. Só que custava três mil
dólares por noite, e era caro demais na época para sequer pensarem em
ir. Mas Paul tinha se lembrado. Ela sorriu e sacudiu a cabeça,
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
percebendo que sua ligeira insatisfação com Paul nos últimos dois meses
era coisa da sua cabeça. Paul ainda era o velho Paul, maravilhoso, do
seu jeito exclusivo e insondável, e Connie Brewer tinha razão. Annalisa
amava mesmo o marido.
Paul remexeu no bolso das calças e tirou dele uma caixinha forrada
de veludo. Dentro dela estava um anel com brilhante amarelo cercado de
pedras cor de rosa. Era lindo e vistoso, exatamente o tipo de coisa que
a Connie Brewer ia adorar. Annalisa colocou-o no dedo médio da mão
direita.
— Gostou? – indagou ele. – Sandy disse que a Connie tinha um
igualzinho a esse. Achei que você também gostaria de ter um.
— Ai, Paul – disse ela, e, levando a mão até um dos lados da cabeça
dele lhe acariciou os cabelos. – Adorei. É magnífico.
No apartamento dos Gooches, Sam revirou a gaveta de roupas de baixo
da mãe e, encontrando um par de velhas luvas de couro, meteu-as no cós
do jeans. Da caixa de ferramentas do armário de casacos abarrotado,
tirou uma chave de fenda pequena, uma pinça e uma faca olfa, alicate
para cortar fios e um rolinho de fita isolante. Meteu essas coisas
também nos bolsos de trás da calça, procurando cobrir as saliências com
a camisa. Depois pegou o elevador até o andar da Enid e do Philip e,
esgueirando-se pelo corredor, subiu as escadas até o primeiro andar do
andar da cobertura.
As escadas levavam até um pequeno vestíbulo diante de uma entrada
de serviço, e ali, como Sam sabia, havia uma placa de metal. Ele calçou
as luvas da mãe, tirou a chave de fenda do bolso e desaparafusou a
placa, afastando-a da parede. Dentro dela havia um compartimento cheio
de cabos elétricos. Todos os andares tinham uma caixa de cabos, e os
cabos iam de um andar até o outro. A maioria das caixas continha um ou
dois cabos, mas no andar dos Rice, devido a todos os equipamentos que
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Paul tinha, havia seis. Sam puxou os cabos por um buraco no fundo da
caixa, e, usando a faca olfa, removeu a capa branca de plástico. Depois
cortou os cabos, e, misturando-os, emendou as extremidades dos fios
cortados, só que unindo-as com extremidades de fios diferentes dos
originais, usando o alicate. Depois enrolou fita isolante ao redor dos
cabos recém-configurados. Em seguida, meteu os cabos de volta na
parede. Não sabia o que ia acontecer, mas com certeza iria ser
espetacular.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
16
Sob circunstâncias normais, Paul Rice, o madrugador, teria sido o
primeiro a descobrir O Fiasco da Internet, que seria como os moradores
passariam a referir-se a isso no futuro. Mas na manhã seguinte, James
Gooch acordou antes, por acaso. Depois de sua triunfal leitura da noite
anterior (“quatrocentos e vinte livros vendidos, praticamente um
recorde”, tinha se gabado o Redmond), James estava para viajar para
Boston no primeiro vôo que saía do aeroporto de La Guardia, às seis da
manhã; de Boston ele prosseguiria para Filadélfia, Washington, St.
Louis, Chicago, Cleveland e depois Houston, Dallas, Seattle, São
Francisco e Los Angeles. Ficaria fora durante seis semanas. E por
conseguinte, precisou se levantar às três da manhã para fazer as malas.
James fazia malas ruidosamente, nervosamente, de modo que Mindy também
foi obrigada a se levantar. Mindy normalmente teria se enervado com
toda essa perturbação do seu sono, considerando-se que o sono era a
mais preciosa das comodidades modernas, mas naquele dia ela o perdoou.
Na noite anterior, James tinha-a deixado orgulhosa. Todos os dias dando
apoio a ele foram compensados quando poderiam facilmente não ter sido,
e Mindy viu-se imaginando as somas imensas de dinheiro que eles iriam
receber. Se o livro lhes desse um milhão, eles podiam mandar Sam para
qualquer universidade, talvez até Harvard ou quem sabe Cambridge na
Inglaterra, que era ainda mais bem vista, sem nem se incomodarem com
nada. Dois milhões significariam o mesmo que uma universidade para Sam,
e talvez o luxo de ter um carro e abrigá-lo em uma garagem e também
quitar a hipoteca. Três milhões de dólares proporcionaria a todos isso
e mais uma casinha de campo em Montauk ou Amagansett ou Litchfield
County, no Connecticut. A imaginação da Mindy só chegava até esse
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
ponto. Estava tão acostumada a levar uma vida de relativa privação que
não podia se imaginar precisando de mais ou querendo mais.
— Tem pasta de dente? – indagou ela, seguindo James até o banheiro
dele. – Não se esqueça do seu pente. E do fio dental.
— Tenho certeza de que há farmácias em Boston – disse James.
Mindy fechou a tampa do vaso sanitário e se sentou nela,
observando-o enquanto ele olhava no armário de remédios.
— Não quero que se preocupe com detalhes – disse ela. – Vai
precisar de toda a sua concentração para as leituras e entrevistas.
— Mindy – disse James, colocando um frasco de aspirina em um
saquinho de plástico com zíper. – Está me deixando nervoso. Não tem
nada para fazer?
— Às três da manhã?
— Pode me preparar uma xícara de café.
— Claro – disse Mindy. E entrou na cozinha. Estava se sentindo
sentimental para com James. Em quatorze anos de casamento, eles nunca
tinham passado mais de três noites separados, e agora James ia passar
duas semanas fora. Será que sentiria saudades dele? E se não
conseguisse se virar sem ele? Mas isso, recordou-se, era ridículo. Era
uma mulher adulta. Fazia praticamente tudo sozinha mesmo. Ora, talvez
não tudo. James passava muito tempo cuidando do Sam. Por mais que ela
gostasse de reclamar dele, James não era tão mau assim. Principalmente
agora, que finalmente estava conseguindo ganhar mais dinheiro.
— Vou pegar suas meias – disse Mindy, entregando a James sua xícara
de café. – Acha que vai sentir saudades de mim? – indagou ela,
colocando vários pares de meias usadas na mala do marido e imaginando
de quantos pares mais ele ia precisar durante duas semanas.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— Deixa que eu faço isso – disse James, chateado com aquela atenção
toda dela. Mindy encontrou um buraco na ponta de uma das meias dele e
enfiou o dedo nele.
— Você tem muitas meias com buracos – comentou ela.
— Não tem problema. Ninguém vai ver as minhas meias – respondeu
James.
— E então, vai mesmo sentir minha falta? – insistiu Mindy.
— Não sei – disse James. – Talvez sim, talvez não. Quem sabe vou
estar ocupado demais para sentir.
Apavorado e já meio atrasado James saiu do apartamento às quatro e
quinze da manhã. Mindy pensou em voltar à cama, mas estava alerta
demais para isso. Resolveu verificar a classificação do James na Amazon
em vez disso. Ligou o computador, que funcionou normalmente, mas não se
conectou com a Internet. Estranho. Ela verificou se o cabo estava
conectado e ligou e desligou o roteador. Nada. Tentou o navegador da
BlackBerry. Também nada.
Paul Rice agora também já havia se levantado. Às cinco horas da
manhã em ponto, ele estava para lançar seu algoritmo no mercado de
ações chinês, com uma xícara de café com leite confortavelmente
colocado em um porta-copos próximo, pronto para começar. Por hábito,
ele tirou um lápis do porta-lápis de prata e examinou a ponta, para ver
se estava bem aguçada. Depois ligou o computador.
A tela acendeu-se, familiar e consoladora, na cor verde, a cor do
dinheiro, pensou Paul, satisfeito. Mas aí... nada. Paul ergueu a cabeça
de repente, surpreso. Ligando o computador, ele devia ter inicializado
o sistema de satélite e o sistema de segurança da Internet. Clicou no
ícone do navegador. A janela abriu-se, mas em branco. Encontrando uma
chave, ele destrancou as portas dos armários atrás de si e olhou para
os servidores metálicos. Havia energia elétrica, mas as luzes que
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
indicavam a troca de sinais estavam apagadas. Hesitou meio segundo,
depois desceu até o escritório da Annalisa. Tentou o computador dela,
que sempre tinha dito, na base da brincadeira, que era uma coisa da
Idade da Pedra, mas a Internet também não estava funcionando ali.
— Puta merda! — berrou.
No quarto do casal, ao lado, Annalisa remexeu-se na cama, dormindo.
No jantar de comemoração, na noite anterior, os Rices e Brewers tinham
consumido mais de cinco mil dólares de vinhos raros antes de voltarem
de helicóptero para a cidade, às duas da manhã. Mas aí ela ouviu de
novo:
— Puta merda!
Paul veio para o quarto e começou a vestir as calças da noite
anterior. Annalisa sentou-se.
— Paul?
— A Internet está fora do ar.
— Mas pensei... – Annalisa murmurou, gesticulando, sem saber o que
fazer.
— Cadê o carro? Preciso da porra do carro.
Ela debruçou-se sobre a cama, pegando o fone do telefone da casa.
— Está na garagem. Mas a garagem provavelmente está fechada.
Paul, desesperado, abotoou a camisa enquanto tentava calçar os
sapatos.
— Era exatamente por isso que eu queria a tal vaga do Mews – disse
ele, irritado. – Para esse tipo de emergência.
— Que emergência? – indagou Annalisa, saindo da cama.
— Quando a porra da Internet não funciona. E isso significa que eu
estou fodido. Isso fodeu o nosso contrato da China. – E saiu correndo
do quarto.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— Paul? – disse ela, seguindo-o e debruçando-se na balaustrada. –
Paul? O que posso fazer? – Mas ele já estava no corredor, apertando o
botão do elevador. Tinha descido para a portaria. Consultando o
relógio, Paul resolveu que não dava para esperar e começou a descer as
escadas. Surgindo na portaria como um furacão, acordou o porteiro da
noite, que estava cochilando numa cadeira.
— Preciso de um táxi – gritou Paul, arquejante. – Uma porra de um
táxi! – e correu para a rua vazia, agitando os braços.
Ao ver que não aparecia táxi nenhum, ele começou a correr pela
Quinta Avenida. Na rua Doze, finalmente viu um táxi e entrou nele,
jogando-se no banco traseiro.
— Park Avenue com 55 – gritou. E dando murros na divisória, gritou:
— Anda, anda! Anda!
— Não posso atravessar o sinal vermelho, moço – disse o motorista,
virando-se.
— Cala a boca e vai em frente – gritou Paul.
A viagem até o centro comercial foi uma agonia. Quem teria pensado
que antes das cinco da manhã o trânsito já era assim intenso? Paul
abriu o vidro da janela e meteu a cabeça para fora, acenando e gritando
com os outros motoristas. Quando o carro parou diante do prédio onde
Paul trabalhava, já eram 4:53.
O prédio estava trancado, portanto ele levou mais um minuto
chutando a porta e gritando para acordar o vigia da noite. Passou mais
dois minutos subindo as escadas e usando seu passe para destrancar as
portas de vidro da Títulos Brewer, e mais alguns segundos correndo pelo
corredor até sua sala. Quando chegou ao seu computador, já eram 5:01 e
três segundos. Seus dedos digitaram mais rápidos que o vento. Quando
ele terminou já eram 5:01 e 56 segundos. Ele se deixou cair na cadeira
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
e recostou-se para trás, levando as mãos ao rosto. Por causa daquela
demora de dois minutos, eles tinham perdido 26 milhões de dólares.
No Número Um da Quinta Avenida, Mindy Gooch enfiou a cabeça pela
porta.
— Roberto – disse ao porteiro. – A Internet não está funcionando.
Às seis e meia, ela acordou o Sam.
— A Internet está fora do ar.
Sam sorriu e bocejou.
— Provavelmente a culpa é do Paul Rice. Ele tem aqueles
equipamentos todos lá em cima. Provavelmente derrubaram o serviço no
prédio inteiro.
— Eu odeio aquele homem – disse ela.
— Eu também – concordou Sam.
Vários andares acima, Enid Merle também estava tentando acessar a
Internet. Precisava ler bem cedinho a coluna redigida pela sua equipe e
acrescentar seus detalhes de estilo costumeiros a ela. Mas havia algo
errado no seu computador, e, desesperada para aprovar a coluna antes
das oito, quando seria divulgada pela agência de notícias na Internet,
e depois apareceria na edição da tarde do jornal impresso, ela ligou
para o Sam. Dentro de alguns minutos, Sam e Mindy surgiram à sua porta.
Mindy tinha vestido jeans sobre o pijama de flanela.
— Nenhum computador está funcionando – disse ela a Enid. – Sam diz
que tem alguma coisa a ver com o Paul Rice.
— Por que ele teria algo a ver com isso? – indagou Enid.
— Pelo jeito – disse ela, olhando de relance para o Sam – ele tem
todo tipo de equipamentos potentes e provavemente ilegais lá em cima.
No salão de baile antigo da Sra. Houghton.
Quando Enid fez cara de incrédula, Mindy continuou:
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— Sam viu tudo. Quando ele subiu para trabalhar no computador da
Annalisa Rice.
Annalisa estava andando de um lado para outro, nervosa, na sala de
estar com o celular na mão, quando Maria entrou.
— Tem umas pessoas aí – informou ela.
— A polícia?
— Não, umas pessoas lá de baixo.
Annalisa abriu a porta da frente, alguns centímetros.
— Sim? – indagou, impaciente.
Mindy Gooch, que ainda tinha manchas de rímel sob os olhos da noite
anterior, tentou forçar a entrada.
— A Internet não funciona. Achamos que o problema começou no seu
apartamento.
— Também não está funcionando aqui – disse Ananlisa, de má vontade.
— Podemos entrar? – perguntou a Enid.
— De jeito nenhum – disse a Annalisa. – A polícia está vindo aí.
Ninguém vai tocar em nada.
— Polícia? – gritou a Mindy.
— Isso mesmo – disse Annalisa. – Foi sabotagem. Voltem aos seus
apartamentos e aguardem lá.
Enid virou-se para o Sam.
— Sam? – perguntou ela. – E aí o Sam olhou para a mãe, que passou o
braço em torno da cabeça dele, protetoramente.
– Sam não sabe de nada – disse Mindy, com firmeza. – Todos sabem
que os Rice são uns paranóicos.
— O que está acontecendo neste edifício? – perguntou Enid.
E todos voltaram a seus respectivos apartamentos.
Voltando à sala de estar, Annalisa cruzou os braços, sacudindo a
cabeça, e continuou a andar de um lado para o outro. Se ninguém no
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
prédio podia acessar a Internet, então talvez o Paul estivesse errado.
Ele tinha ligado para ela às cinco e meia, gritando que tinha perdido
uma montanha de dinheiro e alegando que alguém tinha descoberto o
negócio da China e deliberadamente sabotado seus computadores. Insistiu
que ela chamasse a polícia, coisa que havia feito, mas eles só riram e
lhe disseram para ligar para a Time Warner. Depois de dez minutos de
súplicas, o representante da firma concordou em mandar um técnico à
tarde. Enquanto isso, Paul estava insistindo que ninguém teria
permissão de entrar no apartamento enquanto os técnicos da polícia não
tivessem passado pozinho em tudo para descobrir se havia impressões
digitais e feito outras investigações.
Lá embaixo, no apartamento dos Gooches, Mindy tirou uma caixa de
waffles congelados do freezer.
— Sam? – chamou. – Quer tomar café da manhã?
Sam surgiu à porta, com a mochila.
— Não estou com fome – disse.
Mindy pôs um waffle na torradeira.
— Interessante – disse ela.
— O quê? – perguntou Sam, nervoso.
— Esse negócio de os Rice chamarem a polícia. Por causa de uma mera
interrupção de serviço da Internet.
O waffle saltou da torradeira e ela o colocou em um pratinho,
passou manteiga nele e o entregou ao Sam.
— É assim que os forasteiros agem. Simplesmente não percebem que em
Nova York essas coisas simplesmente acontecem.
Sam concordou. Estava com a boca seca.
— Quando vai voltar da escola? – indagou Mindy.
— Na hora de sempre, acho eu – disse Sam, olhando para o waffle.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Mindy pegou a faca e o garfo do Sam e cortou um pedaço do waffle
dele, colocou-o na boca e mastigou. Enxugou a manteiga dos lábios com o
dorso da mão.
— Quando voltar, vou estar aqui – disse. – Vou tirar o dia de
folga. Como presidente da diretoria do condomínio, preciso investigar
esse caso.
A três quarteirões dela, Billy Litchfield não estava tendo problema
algum para acessar a Internet. Depois de uma noite de insônia de tanta
preocupação, estava acordado, verificando os blogues de arte, o The New
York Times e todos os outros jornais para ver se algum deles mencionava
a Cruz da Mary a Sangüinária. Não havia nenhuma menção a ela, mas Sandy
Brewer estava nas páginas financeiras, anunciando um negócio com o
governo chinês em troca de uma fatia do seu mercado de ações, e todos
já estavam começando a ficar indignados. Havia dois editoriais sobre as
implicações morais de um negócio desse tipo, e como poderia ser sinal
de que indivíduos abastados do mundo financeiro podiam se unir para
formar seu próprio tipo de super-governo, influenciando as políticas
dos outros governos. Devia ser ilegal, mas no momento não havia leis
que impedissem essa possibilidade.
Sandy Brewer não era a única pessoa sobre quem os blogues estavam
falando. James Gooch também figurava neles. Alguém tinha feito um vídeo
com celular do James durante sua leitura na Barnes & Noble, publicando-
o no Snarker e no YouTube. E agora as massas estavam atacando James,
criticando-lhe os cabelos, os óculos e o estilo de discurso. Estavam
dizendo que era um legume falante, um pepino quatro-olhos. Coitado do
James, pensou Billy. Era tão comportadinho, tão contido, que era
difícil entender por que podia estar sendo tão criticado assim. Mas
agora era um autor de sucesso, e o sucesso era em si uma espécie de
crime, supôs Billy.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Alguns minutos depois, no centro comercial, Sandy Brewer, inchado e
de mau humor por causa da quantidade de álcool que tinha consumido na
noite anterior, entrou a passos largos na Títulos Brewer, agarrou a
bola de basquete macia, tirando-a da cadeira do seu escritório, entrou
na sala do Paul e jogou a bola na cabeça dele. Paul abaixou-se.
— Que porra foi essa, Rice? Qual é? – berrou Sandy. – Vinte e seis
milhões? – Seu rosto ficou ruborizado quando ele se debruçou sobre
escrivaninha do Paul. – É melhor restituir esse dinheiro aos cofres da
empresa, senão te ponho no olho na rua.
Na ausência de Philip, que estava em Los Angeles, Thayer Core
estava se divertindo à vera no apartamento dele, bebendo o seu café e
seu vinho tinto e ocasionalmente trepando com sua namorada. Thayer era
egocêntrico demais para ser bom de cama, mas de vez em quando, quando
ela deixava, fazia tudo conforme o figurino com a Lola. Ela o mandava
usar camisinha, e às vezes colocar duas, porque não confiava nele, o
que fazia a coisa bem menos excitante, mas o que compensava era que ele
estava fazendo isso na cama do Philip.
— Sabe que você não ama o Philip, né – dizia Thayer depois.
— Mas naturalmente que amo – dizia Lola.
— Mentirosa – dizia Thayer. – Qual é a mulher que, estando
apaixonada por um homem, trepa com outro na cama dele?
— Não estamos trepando pra valer — disse ela. – É só mais um
passatempo para mim.
— Puxa, obrigado, né.
— Não espera que eu me apaixone por você, espera? – perguntava a
Lola, fazendo uma careta de nojo, como se tivesse acabado de comer
alguma coisa desagradável.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— Quem é aquele rapaz que sempre vejo entrando no apartamento? –
indagou Enid a Lola uma tarde. Tinha vindo pedir emprestado um cartucho
para a impressora. Vivia “pedindo emprestado” os materiais de
escritório do Philip, e Lola não conseguia entender por que Enid não ia
ao Staples como todo mundo.
— A senhora podia mandar entregar os materiais em casa, pela
Internet – dizia Lola, cruzando os braços.
— Eu sei, querida. Mas assim é bem mais divertido – dizia Enida,
revirando as coisas do Philip. – E não respondeu à minha pergunta.
Sobre o tal rapaz.
— Podia ser qualquer um – disse Lola, sem se interessar muito. –
Como ele é?
— Alto? Muito atraente? De cabelos louro-avermelhados e cara de
desdenhoso?
— Ah – disse Lola. – É o Thayer Core. Ele é meu amigo.
— Presumi que fosse – disse Enid. – Senão, não iria poder imaginar
por que ele estaria passando tanto tempo no apartamento do Philip. Quem
é ele e o que faz?
— Ele é colunista social. Como a senhora – disse Lola.
— Trabalha onde?
— No Snarker – disse Lola, relutantemente. – Mas vai ser
romancista. Ou ser produtor de tevê um dia. Ele é muito inteligente.
Todos dizem que, não importa o que ele faça, vai vencer um dia.
— Ah, sim – disse Enid, encontrando o cartucho. – Eu sei exatamente
quem ele é. Francamente, Lola. – E fez uma pausa. – Estou meio
decepcionada com a sua capacidade de julgar as pessoas. Não devia
deixar esse tipo de pessoa entrar no apartamento do Philip. Nem mesmo
tenho certeza de que devia estar deixando ele entrar no prédio.
— Ele é meu amigo – disse Lola. – Posso ter amigos, não posso?
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— Não quis meter a colher – disse Enid, secamente. – Eu só estava
tentando lhe dar um conselho de amiga.
— Obrigada – disse Lola, contrariada, seguindo Enid até a porta.
Quando ela saiu, Lola esgueirou-se, saindo ao corredor e examinou o
olho mágico da porta da Enid. Será que ela estava do outro lado,
prestando atenção a quem ia e vinha? O que daria para ela enxergar por
aquele olho mágico, afinal? Pelo jeito, enxergava até o que não devia.
Voltando ao apartamento do Philip, dela e do Philip, recordou-se Lola,
inventou uma historinha para explicar a presença do Thayer. Thayer
estava ajudando Lola a pesquisar para Philip. Enquanto isso, ela
ajudava Thayer a escrever seu romance. Tudo perfeitamente inocente.
Enid não podia ver o que se passava dentro do apartamento, portanto,
como ia poder saber o que estava acontecendo?
Lola não tinha se envolvido com Thayer Core de propósito. Sabia que
era perigoso, mas percebeu que gostava de se arriscar e ver que ninguém
ia poder impedir. E sem saber como sua relação com o Philip ia ficar,
justificava seu comportamento recordando-se de que precisava de alguém
para ficar no lugar do Philip se eles terminassem. Thayer Core não era
lá muito bom como prêmio de consolação, verdade seja dita, mas conhecia
milhões de pessoas e alegava ter todo tipo de contatos.
Só que o Philip ia voltar para casa dentro de alguns dias, e Lola
avisou a Thayer que precisavam deixar de se encontrar. Thayer ficou
chateado. Não porque não pudesse visitar a Lola, mas por que adorava
passar tempo no Número Um. Adorava tudo nisso, simplesmente entrar no
edifício já o fazia se sentir superior. Antes de entrar, costumava
olhar para a calçada para ver se alguém estava de olho, invejando-lhe a
posição. Depois passava pelos porteiros com um aceno.
— Vou até o apartamento do Philip Oakland – avisava, fazendo um
gesto abrupto com o polegar. Os porteiros olhavam-no desconfiados, e
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Thayer era capaz de jurar que não gostavam dele e não aprovavam a
visita, mas não o detinham.
Ao passar no apartamento do Philip naquela manhã, Thayer sugeriu
que ele e Lola dessem uma olhada em uns sites pornografáficos na
Internet. Lola estava comendo batatas fritas, mastigando-as de um jeito
odioso simplesmente para se divertir, pensou Thayer.
— Não dá – disse ela.
— Por quê? Você é puritana? – indagou Thayer.
— Não. Só que a Internet não está funcionando. E é culpa do Paul
Rice. É o que todos estão dizendo, ao que parece. A Enid disse que vão
tentar expulsá-lo daqui. Não sei se podem, mas agora todos no prédio o
detestam.
— Paul Rice? – indagou Thayer, sem dar a perceber que estava
interessado. – Está falando do Paul Rice, aquele Paul Rice? Que é
casado com a Annalisa? Aquela gostosona da sociedade?
Lola deu de ombros.
— Eles são podres de ricos. Ela anda por aí num Bentley e os
figurinistas vivem lhe mandando roupas. Eu a odeio.
— Eu odeio os dois – disse Thayer, sorrindo.
Mindy e Enid, para atender ao chamado à ação, convocaram uma
assembléia de condôminos. A caminho da casa da Mindy, Enid parou diante
da porta do Philip. Ouviu vozes lá dentro, da Lola e de um homem não
identificado que, segundo presumiu, era o Thayer. Será que a Lola tinha
fingido que não tinha entendido o que ela tinha dito? Ou era
simplesmente burra? Enid bateu à porta.
Imediatamente, fez-se silêncio. Enid tornou a bater.
— Lola? – chamou ela. – Sou eu. Preciso falar com você. – Ouviu
sussurros apressados, depois Lola abriu. – Oi, Enid – disse ela,
fingindo que estava contente por vê-la.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Enid empurrou a porta e entrou, vendo o Thayer Core sentado no sofá
do Philip com um roteiro na mão.
— Alô – disse Enid. – E quem é você, pode-se saber?
Thayer de repente virou o perfeito mauricinho comportado de escola
particular de cuja imagem vinha tentando se livrar durante os últimos
cinco anos. Ficou de pé e estendeu a mão.
— Thayer Core, minha senhora.
— Enid Merle. Sou tia do Philip – explicou, secamente.
— Puxa – disse Thayer. – A Lola não me disse que a senhora era tia
dele.
— Você é amigo do Philip?
— Sim, sou. E amigo da Lola também. Lola e eu estávamos debatendo o
meu roteiro. Eu esperava que o Philip talvez pudesse me orientar um
pouco. Mas estou vendo que vocês precisam conversar – e Thayer olhou
para Enid e Lola. – E eu preciso ir andando. – Deu um pulo e passou a
mão no casaco.
— Não esqueça o roteiro – avisou Enid.
— Ah, sim – disse ele. Ele e Lola entreolharam-se, e Lola deu um
sorriso amarelo. Thayer pegou o roteiro e Enid seguiu-o até a portaria.
Eles desceram até a portaria sem conversar, coisa com a qual Thayer
não se importou. Sua cabeça estava cheia de idéias, e ele não queria
conversar mesmo, para não esquecê-las. Nos últimos trinta minutos,
tinha deduzido várias coisas, que constituiriam material interessante
para redigir vários textos para o blogue. O Número Um era um canteiro
de intrigas; talvez ele criasse uma série inteira de textos dedicados
ao que acontecia no edifício. Chamaria a série de “A Cooperativa
Residencial”. Ou talvez “As Vidas dos Ricos e Privilegiados”.
— Adeus – disse Enid, firmemente quando as portas do elevador se
abriram na portaria. Thayer despediu-se dela com uma vênia e saiu
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
correndo do prédio. Só precisava, para continuar seu ataque contra os
residentes do Número Um, de um fornecimento constante de informações.
Virou o roteiro que tinha nas mãos, sorrindo. Era o primeiro esboço de
um roteiro para cinema de Philip Oakland com o título provisório de
“Mary a Sanguinária”. Philip Oakland ficaria furioso se descobrisse que
Lola tinha permitido que um roteiro inacabado seu fosse divulgado. E
não seria divulgado se a Lola se comportasse bem e dançasse conforme a
música. De agora em diante, segundo Thayer havia decidido, Lola poderia
vir ao seu apartamento. Ela o manteria atualizado sobre o que acontecia
no Número Um e, quando terminasse de contar tudo, podia lhe pagar um
boquete.
Enid tocou a campainha da Mindy. A porta se abriu, e surgiu o Sam,
que tinha mudado de idéia, desistindo de ir à escola, e alegou estar se
sentindo mal. Ele levou Enid para a minúscula sala de estar, onde os
três integrantes da diretoria estavam concentrados em uma discussão
acirrada sobre Paul Rice.
— Não podemos obrigá-lo a permitir que o técnico da Time Warner
entre no apartamento dele?
— Mas claro. É o mesmo caso dos técnicos de manutenção. E é uma
coisa que está afetando os outros moradores. Mas se ele se recusar
podemos conseguir uma carta do advogado do prédio.
— Alguém já tentou falar com ele?
— Todos já falamos – disse Enid. – Ele é impossível.
— E a esposa? Talvez alguém deva conversar com a esposa.
— Vou tentar de novo – disse Enid.
Do outro lado da parede, Sam Gooch estava deitado na cama, fingindo
ler o New Yorker da sua mãe. Tinha deixado a porta aberta para poder
entreouvir a conversa. Olhou para o teto, sentindo-se extremamente
satisfeito consigo mesmo. Suas ações, ele reconhecia, tinham causado
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
uma grande inconveniência para todos no prédio, e ele estava morrendo
de medo de que descobrissem que ele tinha sido o culpado, mas tinha
valido a pena, só para se vingar do Paul Rice. Sam achava que Paul,
dali por diante, não iria mais mandar cartas de advogado para ninguém,
principalmente para sua mãe. Ele jamais diria nada ao Paul, mas quando
eles passassem um pelo outro na portaria, ele lançaria um certo olhar
ao Paul, e Paul saberia que ele é que tinha sido o responsável. E
felizmente, jamais seria capaz de provar isso.
Alguns minutos depois, Enid bateu à porta dos Rice. Maria, a
caseira, abriu-a um pouquinho e disse pela fresta estreita:
— Não estamos recebendo visitas.
Enid meteu os dedos na fresta.
— Deixa de bobagem. Eu preciso falar com a Sra. Rice.
— Enid? – disse Annalisa. E veio para o vestíbulo, fechando a porta
atrás de si. – Não foi culpa nossa.
— Claro que não foi – disse Enid.
— Foi porque todos odeiam o Paul.
— Uma cooperativa residencial é como um clube privativo – disse
Enid. – Principalmente em um edifício como o Número Um da Quinta
Avenida. Pode ser que não goste de todos os seus vizinhos, mas vai ter
que aturá-los. Senão, vão ficar sabendo que as pessoas não se entendem
aqui no prédio, e o valor dos imóveis de todos começa a cair. E ninguém
gosta disso, querida.
Annalisa olhou para suas mãos.
— Existe um código de ética tácito. Por exemplo, os moradores
precisam evitar conversas desagradáveis a qualquer custo. Não podemos
admitir que os vizinhos se insultem mutuamente. Sim, o Número Um da
Quinta Avenida é um edifício de apartamentos de luxo. Mas esses
apartamentos também são lares das pessoas. São o seu santuário. E sem a
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
segurança desse santuário, as pessoas se irritam. Temo por você e o
Paul. Tenho medo do que vai acontecer se não permitirem que o técnico
da Time Warner entre no seu apartamento.
— Mas ele já chegou – disse Annalisa.
— Ah – respondeu Enid, surpresa.
— Ele está ao lado da porta de serviço. Talvez queira conversar com
ele.
— Sim, eu gostaria – disse Enid.
Seguiu Annalisa, até a porta que dava para as escadas do prédio. O
técnico estava segurando vários cabos nas mãos.
— Alguém os cortou – disse ele, de cara amarrada.
— Oi, Roberto – cumprimentou Philip Oakland, ao entrar no Número Um
com sua mala. – Como vai?
— Isso aqui está uma zona – disse Roberto, rindo – O senhor perdeu
muita coisa.
— É mesmo? – respondeu Philip. – Como o quê, por exemplo?
— Um escândalo tremendo. Envolvendo o bilionário. Paul Rice. Mas
sua tia resolveu tudo.
— Ah, sim – disse Philip, esperando o elevador. – Minha tia sempre
resolve.
— E aí descobriram que alguém cortou os cabos perto da porta de
serviço do apartamento do bilionário. Ninguém sabe quem foi. Aí o
bilionário ligou para a polícia. Houve uma cena daquelas entre a Mindy
Gooch e o Paul Rice. Aqueles dois se detestam. E acaba que o Paul Rice
está querendo que a cooperativa pague a instalação de câmeras de
vigilância nas escadas. E a Sra. Gooch não pôde fazer nada para evitar
isso. Cara, a madame ficou fula da vida. E a Sra. Rice não quer receber
ninguém. A empregada liga para cá quando ela está descendo, e
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
precisamos fazer sinal para o motorista trazer o carro para a frente da
portaria. Ninguém está com raiva deles, apesar disso, porque alguém
cortou os cabos deles, e o Paul Rice deu mil pratas para casa um dos
porteiros para eles protegerem a vida da Sra. Rice. Mas agora todos que
entram no prédio, até mesmo o tintureiro, tem que apresentar identidade
na mesa da portaria. E se não tiverem identidade, o morador é obrigado
a descer e vir buscar a pessoa. Isso aqui está que parece um presídio.
Para resumir a guerra, parece que estão pensando que foi o amigo da sua
namorada que fez isso.
— Quê? – perguntou Philip. E meteu o dedo com força no botão do
elevador.
— O elevador não desce mais rápido por causa disso, o senhor sabe,
né – disse o Roberto, rindo outra vez.
Philip entrou no elevador e apertou o botão para o 13 o. andar três
vezes. Que diabo estava acontecendo ali?
Em Los Angeles, ele tinha ido direto trabalhar nas revisões de
Damas de Honra Revisitadas. Durante os primeiros dois dias tinha
conseguido tirar a Lola da cabeça. Ela havia ligado para ele dez vezes,
mas ele não tinha ligado para ela. Na terceira noite em Los Angeles,
ele havia telefonado para retribuir as ligações, pensando que ela devia
estar na casa da mãe. Mas ela não estava. Estava em Nova York, no
apartamento dele.
— Lola, vamos ter que ter uma conversa séria sobre isso – disse
ele.
— Mas eu já me mudei pra cá... Pensei que fosse isso que tínhamos
planejado. Já desfiz as malas. Só ocupei um cantinho do armário do
quarto, e coloquei algumas coisas suas no seu depósito do subsolo,
espero que não se importe – disse ela, como se percebesse de repente
que ele podia se importar.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— Lola, essa idéia sua simplesmente não foi nada boa.
— O quê? Você me pediu para que eu me mudasse para cá, para morar
contigo, Philip. Lá em Mustique. Se está dizendo que não me ama mais...
– E começou a chorar.
Philip amoleceu ao ouvi-la soluçar.
— Não quis dizer isso. Eu gosto de você, sim, Lola. É que...
— Como pode dizer que gosta de mim, se está tentando me dizer que
não me quer aqui? Quer saber, que se dane, vou-me embora. Vou morar na
rua.
— Lola, não precisa morar na rua.
— Tenho 22 anos! – disse ela, soluçando. – Você me seduziu e fez
com que eu me apaixonasse por você. E agora está acabando com a minha
vida.
— Pára com isso, Lola. Tudo vai acabar bem.
— Então você me ama?
— Vamos discutir isso quando eu voltar – disse ele, resignado.
— Sei que não está pronto para dizer sim ainda. Mas vai – disse
ela, com voz esganiçada. – É só uma fase de adaptação. Ai, eu quase me
esqueci, sua amiga Schiffer Diamond está namorando um sujeito chamado
Derek Brumminger. Saiu no Post. E aí eu vi os dois juntos, saindo do
prédio de manhã. Ele não é muito atraente. É velho e tem pele ruim. Uma
estrela de cinema podia escolher um cara melhorzinho, não acha, mas
talvez ela não possa. Também, ela não é mais tão jovem quanto antes, né?
Por um instante, Philip ficou calado.
— Alô? Alô? – disse Lola. – Tem alguém aí?
Então ela tinha voltado para o Brumminger, pensou ele. Depois de
mandá-lo se livrar da Lola. Por que ele tinha pensado que ela havia
mudado?
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— Lola – disse então, entrando no apartamento. – Que negócio foi
esse do seu amigo?
E olhou em torno de si. Lola não estava em casa. Ele pôs a mala na
cama e bateu à porta da tia.
Lola estava com a Enid.
— Philip! Você voltou pra casa! – disse Lola, abraçando-o. Ele lhe
deu uns tapinhas nas costas e olhou para a tia, que sorriu e revirou os
olhos. Lola continuou:
— Enid estava me mostrando os livros de jardinagem dela. Vou cuidar
do seu terraço nesta primavera. Enid diz que posso fazer uns canteiros
de tulipas. E aí podemos cortar as flores e colocar em vasos.
— Alô, Philip, meu querido – disse Enid, erguendo-se devagar do
sofá. Philip percebeu, depois de passar duas semanas fora, que a tia
estava envelhecendo. Algum dia ia perdê-la, e aí ia ficar sozinho de
verdade. Essa idéia o fez mudar de humor: ficou feliz de ainda ter a
tia, e de Lola estar ainda morando no apartamento dele, e por Enid e
Lola estarem se dando bem juntas. Talvez tudo desse certo, afinal de
contas.
— Quero lhe mostrar o que fiz na cozinha – disse Lola, sôfrega.
— Você, na cozinha? – indagou ele, fingindo surpresa. E seguiu-a
para o seu apartamento, onde ela ficou exibindo sua obra. Tinha
reorganizado os armários da cozinha, e agora ele não sabia mais onde as
coisas estavam.
— Por que fez isso? – indagou ele, abrindo o armário que antes era
do café e do açúcar, mas agora continha uma pilha de pratos.
Ela fez cara de arrasada.
— Pensei que ia gostar.
— Gostei. Está melhor – mentiu ele, olhando cuidadosamente o
apartamento e se perguntando o que mais ela teria mudado. No quarto,
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
abriu cautelosamente a porta do armário. Metade das suas roupas, os
ternos e camisas que ele havia pendurado obedecendo a uma ordem
rigorosa durante tantos anos, tinha desaparecido. No lugar deles, as
roupas de Lola estavam penduradas sem ordem alguma, parecendo enfeites
de Natal nos cabides.
— Esqueceu que eu vinha para cá? – perguntou ela, aproximando-se do
Philip pelas costas e metendo as mãos nos bolsos da frente do jeans
dele. E aí recuou até a cama. Com uma ereção que o fez se lembrar de
que fazia duas semanas que não trepava, Philip pôs os tornozelos dela
sobre os ombros. Por um segundo, olhou a vulva depilada e nua da Lola,
lembrando-se de que não era aquilo que queria. Mas estava ali, bem na
sua frente, e ele mergulhou fundo.
Depois, procurando na cozinha suas taças de vinho perdidas, disse:
— Que história foi essa do seu amigo cortar os cabos da Internet do
apartamento dos Rices?
— Ah, sim. Isso. – E ela suspirou. – Foi aquela horrorosa da Mindy
Gooch. Ela tem inveja de mim porque o marido dela, o James, vive
tentando me azarar pelas costas dela. Disse que foi o Thayer Core.
Lembra, nós fomos à festa de Dia das Bruxas dele. Thayer só veio aqui
umas duas vezes, ele quer escrever roteiros de cinema, e eu estava
tentando ajudá-lo, e o Thayer vive publicando textos sobre a Mindy e o
marido dela no Snarker, de forma que a Mindy estava querendo se vingar
dele. E olha que o Thayer nem mesmo estava no prédio quando aconteceu
isso.
— Ele veio aqui quantas vezes? – indagou Philip, cada vez mais
invocado.
— Eu já te disse – disse ela. – Uma ou duas. Talvez três. Não me
lembro.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
No apartamento ao lado, Enid pegou os livros de jardinagem e
sacudiu a cabeça, frustrada. Tinha tentado tudo de que conseguiu se
lembrar para se livrar da Lola, obrigá-la a ir a três supermercados de
alta classe na Sexta Avenida procurar feijões vermelhos flageolet
enlatados, levá-la a uma retrospectiva de Damien Hirst, onde só havia
vacas mortas e tubarões, e até apresentá-la a Flossie, mas nada tinha
dado certo. Lola alegava que ela também adorava feijão vermelho, ficou
grata a Enid por lhe dar uma noção de arte, e nem mesmo a Flossie
conseguiu demovê-la. Suplicando a Flossie que lhe contasse como tinha
sido a época em que ela era vedete, Lola sentou-se aos pés da cama,
toda ouvidos. Enid percebeu que tinha subestimado a tenacidade da Lola.
Depois do Fiasco da Internet, quando Enid uma vez mais contestou a
relação da Lola com o Thayer Core, Lola só olhou para ela com a maior
inocência e disse:
— Enid, você tinha razão. Ele não presta mesmo. E nunca mais vou
falar com ele.
Ao contrário da Mindy Gooch, a Enid não acreditava que Thayer Core
tinha cortado os cabos do Paul Rice. Thayer Core gostava de agredir
mas, como todos os valentões, era um covarde. Covarde demais para
qualquer ação física, atacando o mundo, procurando em vez disso,
esconder-se atrás da segurança do seu computador. A acusão da Mindy era
uma tentativa de desviar a atenção do verdadeiro culpado, que Enid
desconfiava que era o Sam.
Sam, porém, teve sorte, pois a polícia investigou tudo apenas
superficialmente. O incidente tinha sido uma brincadeira de mau gosto,
disseram, devida à animosidade entre vizinhos. Essas brincadeiras de
mau gosto estavam ficando cada vez mais constantes até mesmo em
edifícios de alta classe. Eles recebiam todo tipo de queixas sobre
vizinhos agora, moradores batendo no teto com cabos de vassoura, ou
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
arrancando os enfeites de Natal uns dos outros, ou insistindo que a
fumaça de cigarro do vizinho de baixo subia e entrava no apartamento
deles, pondo em risco a vida de seus filhos, que passariam a ter uma
possibilidade de contrair câncer no futuro.
— Vivo dizendo, viva e deixe viver – comentou um dos policiais com
a Enid. – Mas sabe como são as pessoas hoje em dia. Têm dinheiro demais
e espaço de menos. E são mal-educadas. Isso faz todo mundo se odiar
mutuamente.
Sempre tinha havido rusgas entre os moradores no Número Um, mas até
ali tinham sido superadas pelo ar de orgulho fraternal que os moradores
assumiam por morarem no edifício. Talvez os Rice, por terem muito mais
dinheiro que todos eles, tivessem pesado mais num dos pratos dessa
balança, transtorando o equilíbrio reinante. Paul tinha ameaçado
processar alguém, e Enid teve que passar um sermão muito sério na
Mindy, recordando-a de que se Paul Rice realmente a processasse, o
prédio seria obrigado a pagar honorários de advogado, que seriam
repassados para o resto dos moradores sob forma de aumento no
condomínio. Depois que ela pensou no caso sob o ponto de vista
financeiro, percebendo que podia ser prejudicada, Mindy concordou em
recuar e até escreveu um bilhete pedindo desculpas a Paul e a Annalisa.
E assim estabeleceu-se uma trégua tensa, mas depois começaram a
aparecer artigos detalhados sobre essas disputas no Snarker. Enid tinha
certeza de que Lola é que estava passando essas informações, mas como
podia provar isso? Como se a própria Enid tivesse algo a ver com
aquilo, Mindy aproveitava todas as oportunidades que tinha para acossar
a Enid por causa dos artigos, interpelando-a na portaria para ver se
tinha lido os textos e enviando páginas do blogue para o endereço de
correio eletrônico dela.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— Isso não pode continuar. Alguém tem que fazer alguma coisa –
exclamou Mindy, naquela manhã.
Enid suspirou.
— Se você se sente tão incomodada, contrata o cara.
— Quê? – disse Mindy, indignada.
— Contrata o rapaz – repetiu a Enid. – Ele deve ser alguém que
gosta de trabalhar com afinco, se está se esforçando tanto para
escrever sobre o Número Um. Tem pelo menos um pouco de inteligência,
presumo que saiba como compor uma frase, senão você não estaria tão
aborrecida. Paga um salário decente a ele e bota ele para trabalhar dia
e noite. Desse jeito não vai ter tempo para escrever nada extra. Mas
não paga tanto que ele possa economizar depressa e pedir demissão. Dá
seguro médico, incentivos. Transforma ele em empregado vendido ao
sistema, que você nunca mais vai ter que se preocupar com ele de novo.
Se ao menos, pensou Enid, todos os problemas pudessem ser
resolvidos com aquela facilidade... Ela voltou para a cozinha e fez uma
xícara de chá, sorvendo-a com cuidado para evitar queimar a boca.
Heistou, depois levou o chá para o quarto. Desligou os telefones,
ergueu as cobertas, e pela primeira vez em anos, deitou-se durante o
dia. Fechou os olhos. Finalmente estava ficando velha demais para todo
aquele drama.
Os recentes eventos no Número Um da Quinta Avenida tinham deixado o
Paul Rice ainda mais paranóico e misterioso do que o normal, de modo
que ele passou a se descontrolar continuamente por causa de coisas das
quais antes talvez nem tivesse tomado conhecimento. Berrava com a Maria
por ter dobrado seus jeans errado, depois um dos seus preciosos peixes
morreu e ele acusou Annalisa de matá-lo de propósito. Annalisa, de saco
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
cheio, foi passar seis dias em um spa em Massachusetts com Connie
Brewer, e Paul teve que encarar o fim de semana sozinho. Passava a
maior parte dos finais de semana tratando de seus próprios interesses,
mesmo, mas gostava do conforto que era ter a Annalisa por perto, e o
fato de ela o deixar sozinho, mesmo temporariamente, o fez temer que um
dia ela o abandonasse de vez.
Sandy Brewer, porém, visivelmente não tinha as mesmas preocupações
com sua esposa.
— Cara – disse ele, entrando no escritório do Paul – as mulheres
vão passar o fim de semana fora. Pensei em te convidar para jantar lá
em casa. Queria te apresentar a uma pessoa.
— Quem? – perguntou Paul. Desde que Sandy tinha lhe passado aquela
descompostura por causa de um atraso de dois minutos no lançamento do
algoritmo, Paul andava prestando uma atenção danada a ele, para ver se
havia indícios de que estava tentando substituí-lo. Em vez disso, Paul
tinha descoberto pagamentos para uma agência de escort, e deduziu que
Sandy andava pagando prostitutas para lhe prestar serviços durante
viagens a negócios. Já que a Annalisa estava viajando, Paul calculou
que Sandy iria tentar apresentá-lo a alguma garota de programa.
— Vai ver – disse Sandy, misteriosamente. Paul concordou em ir,
pensando que se Sandy tivesse convidado uma das suas piranhas, Paul
poderia guardar essa informação e usá-la num momento conveniente.
Sandy adorava exibir tudo que seu sucesso e trabalho árduo tinham
lhe rendido, organizando um jantar formal para três em sua sala de
estar revestida de painéis de madeira, onde havia dois enormes quadros
do David Salle. O terceiro conviva não era prostituta, como Paul
desconfiava, mas um homem chamado Craig Akio. Paul apertou a mão do
Craig, notando só que Craig era mais jovem que ele e seus olhos eram
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
negros e argutos. Eles se sentaram para tomar uma taça de um vinho
branco raro e comer uma tigela de caldo de frutos do mar.
— Sou grande admirador do seu trabalho, Paul – disse Craig Akio do
outro lado da mesa de mogno polido. – Seu trabalho sobre a escala de
Samsun é coisa de gênio.
— Obrigado – disse Paul, secamente. Estava acostumado a ser chamado
de gênio, e aceitou o cumprimento sem protestar.
— Estou ansioso para trabalhar com você.
Paul ficou com a colher parada a meio caminho da boca. Essa agora
ele não esperava.
— Vai se mudar para Nova York? – perguntou ele.
— Já achei apartamento. No novo edifício do Gwathmey. Uma obra de
arte de arquitetura moderna.
— Na auto-estrada do West Side – brincou Sandy.
— Estou acostumado com carros – disse Craig. – Me criei em Los
Angeles.
— Onde estudou? – perguntou Paul, evitando se entregar. Mas estava
meio ressabiado. Passou-lhe pela cabeça que Sandy normalmente teria lhe
contado que um novo colega viria trabalhar com ele, antes de contratar
o homem.
— Instituto de Tecnologia de Massachusetts – disse Craig. – E você?
— Georgetown – disse o Paul. E olhou para os quadros do David
Salle, atrás da cabeça do Craig, na parede. Normalmente não notava
essas coisas, mas eles retratavam dois bobos da corte com expressões
aterrorizantes, ao mesmo tempo jocosas e cruéis. Paul tomou um gole do
seu vinho, sentindo-se inexplicavelmente como se os bobos fossem
pessoas de verdade e estivessem zombando dele.
Durante o resto do jantar, a conversa girou em torno da eleição
iminente e seu impacto nos negócios; depois eles foram ao escritório do
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Sandy para tomar conhaque e fumar charutos. Ao passar os charutos,
Sandy começou a fazer comentários sobre arte, gabando-se do seu jantar
com um cara chamado David Porshie.
— Billy Litchfield é muito amigo da minha mulher. Quando você se
casar ele também vai ser grande amigo da sua – disse ele a Craig Akio.
– Ele tratou de tudo com o diretor do Museu Metropolitano para nós. Um
sujeito muito simpático. Conhece tudo sobre arte, mas isso não me
surpreende. Ele me fez pensar em melhorar minha coleção. Comprar
artefatos dos velhos mestres em vez de obras de artistas modernos. Que
acha, Paul? Qualquer um pode comprar essas obras novas, certo? É só uma
questão de dinheiro. Mas por mais que falem, ninguém sabe quando
valerão dentro de cinco ou até dois anos. Pode ser que não valham
absolutamente nada.
Paul simplesmente ficou de olhar parado, enquanto Craig concordava
entusiasticamente. Sandy, percebendo que a platéia não reagia
unanimemente com admiração e assombro, abriu o cofre.
Connie tinha feito o que Billy tinha pedido. Tinha guardado a cruz
num cofre, mas no escritório do Sandy, para poder visitá-la quando
quisesse. Mas tinha conseguido guardar segredo sobre ela. Sandy, porém,
eram outros quinhentos. Quando Billy veio falar com ele sobre a
oportunidade de comprar a cruz, Sandy não pensou muito no caso,
considerando aquilo mera jóia antiga que a mulher queria adquirir.
Connie lhe contou que a peça era importante, uma antiguidade legítima,
mas Sandy não prestou atenção, até aquela noite com David Porshie.
David abordava a arte de um ponto de vista totalmente diferente. Depois
de voltar para casa naquela noite, Sandy examinou de novo a cruz com
Connie e começou a entender o seu valor, mas orgulhou-se da sua
esperteza em comprá-la, antes de qualquer outra coisa. Era algo que
ninguém mais tinha, e incapaz de manter em segredo essa sua espetacular
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
aquisição, tinha levando um ou dois convivas selecionados a dedo ao seu
escritório após o jantar para exibir o artefato.
Naquele instante, desamarrando os cordões pretos que atavam o
invólucro de camurça que protegia a cruz, anunciou:
— Aqui está uma coisa que vocês não vêem todos os dias. Aliás é tão
rara, que nem mesmo vão encontrá-la em um museu. – E erguendo a cruz,
permitiu que Craig e Paul a examinassem.
— Onde é que se consegue uma peça assim? – indagou Craig Akio, com
os olhos faiscando.
— Não é possível – disse Sandy Brewer, envolvendo a cruz no paninho
de camurça e devolvendo-a ao cofre. Depois deu uma tragada no charuto.
– Peças assim vêm parar nas suas mãos por si sós. Mais ou menos como
você veio, Craig. – E Sandy virou-se para o Paul, soprando fumaça na
sua direção. – Paul, gostaria que ensinasse ao Craig tudo que sabe. Vão
trabalhar juntos, colados um no outro. Pelo menos a princípio.
Foi aquela última frase que fez Paul despertar, “pelo menos a
princípio”. E depois? Ele de repente viu que Sandy esperava que ele
treinasse o Craig, e depois disso o demitiria. Não ia precisar de dois
homens para fazer o que ele fazia. Aliás, era impossível, pois o
trabalho era secreto, instintivo e improvisado. De repente ele se
sentiu como se estivesse pegando fogo, e ficando de pé, pediu água.
— Água? – exclamou Sandy, em tom de desprezo. – Que é isso, não me
diga que já não agüenta mais tomar muito álcool!
— Vou para casa – declarou Paul.
Saiu do apartamento do Sandy, fulo da vida. Quanto tempo se
passaria antes que o Sandy o demitisse do emprego? Atravessando a
calçada, entrou no banco traseiro do Bentley com motorista e bateu a
porta. Será que também perderia o carro? Perderia tudo? No momento, não
iria conseguir manter o mesmo estilo de vida nem mesmo o apartamento
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
sem o seu emprego. Era bem verdade que tinha dinheiro suficiente, mas
ele flutuava diariamente, subindo e descendo e, como o pote de ouro no
final do arco-íris, era impossível de alcançar. Ele ia ter que esperar
exatamente o momento certo para sacar, ponto no qual podia acabar com
um bilhão no bolso.
Incapaz de parar de pensar em Sandy e como Sandy planejava arruiná-
lo, Paul passou as 36 horas seguintes no seu apartamento, apavorado.
Quando chegou a manhã de domingo, nem mesmo os seus peixes conseguiam
mais acalmá-lo, e Paul resolveu dar uma volta no bairro. Na mesa do
vestíbulo, encontrou o The New York Times. Sem pensar, abriu-o no
tapete da sala de estar e começou a folheá-lo. E aí encontrou a
resposta para o seu problema com o Sandy na capa da seção de arte.
Era uma matéria, ilustrada com fotos tiradas de um retrato da
Rainha Mary, sobre o mistério sem solução da Cruz de Mary a
Sangüinária. Depois de conhecer os Brewer e desconfiado de que Sandy
correspondia ao perfil de um ladrão de arte, David Porshie tinha
mandado publicar a matéria, achando que poderia atrair outros
informantes que talvez lhe revelassem o paradeiro da cruz.
Lendo a história, ali agachado no tapete, Paul Rice somou dois e
dois. Sentou-se nos calcanhares e, enquanto refletia sobre os
resultados potenciais de reunir essas informações, as possibilidades
aumentaram exponencialmente na sua cabeça. Se Sandy estivesse ocupado
com o processo que se abriria contra ele por estar de posse de um
objeto roubado, não iria se lembrar de demitir Paul. Aliás, Paul iria
ainda mais longe. Se ele se livrasse do Sandy, podia tomar-lhe o lugar,
assumindo seu cargo. Aí ele é que seria o gerente do fundo, e Sandy,
depois de ficar com a ficha suja na polícia, seria banido do mercado de
títulos. Tudo seria seu, pensou Paul. Aí, e somente aí, ele se sentiria
seguro.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Levando o jornal consigo, foi até o Internet café do Astor Place.
Fez algumas pesquisas, e encontrando as informações que desejava, criou
uma conta falsa de e-mail com o nome de Craig Akio. Depois compôs uma
mensagem declarando que ele, Craig Akio, tinha visto a cruz na casa do
Sandy Brewer. Paul colocou na mensagem o endereço de correio eletrônico
do repórter que tinha assinado a matéria sobre a cruz no Times. Por
hábito, releu a mensagem, e, considerando-a satisfatória, enviou-a.
Saindo na movimentada baixa Broadway, como costumava ser no fim de
semana, Paul sentiu-se calmo pela primeira vez em semanas. Ao entrar no
Número Um da Quinta Avenida, sorriu, pensando que na era da informação,
ninguém estava seguro. Mas ele, pelo menos por enquanto, estava.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
17
Para Billy Litchfield, o mês de abril não trouxe apenas as chuvas
de primavera, mas uma dor de dentes debilitante. O tempo horrível
exacerbou-se devido ao que lhe pareceu uma consulta interminável ao
dentista. Uma dor surda que se transformou em uma percussão agônica e
latejante finalmente o obrigou a marcar uma consulta, onde uma
radiografia revelou que estava com não apenas uma, mas duas raízes já
apodrecidas, que exigiam cirurgia imediata. A situação exigiu várias
consultas, envolvendo aplicação de injeções de novocaína, gás,
antibióticos, papas e líquidos e felizmente Vicodin para aliviar a dor.
— Não entendo – protestou Billy para o dentista. – Nunca tive nem
uma cárie sequer. – Era meio exagero seu, mas contudo os dentes do
Billy, naturalmente brancos e bem alinhados, haviam exigido apeans dois
anos de aparelho dental em criança, e sempre tinham sido uma fonte de
orgulho para ele.
O dentista encolheu os ombros.
— Vai se acostumando com isso – disse ele. – Faz parte do processo
de envelhecimento. A circulação vai para a cucuia, e os dentes são os
primeiros a sofrer as consequências.
Isso fez Billy ficar mais deprimido do que de costume, e ele
aumentou sua dosagem de Prozac. Nunca tinha estado à mercê do seu
corpo, e descobriu que essa experiência podia ser não só humilhante mas
capaz de anular todas as outras realizações importantes de sua vida. O
que os filósofos diziam era verdade: no final das contas, só havia
decadência e morte, e na morte todos se igualavam.
Uma certa tarde, enquanto estava se recobrando da mais recente
injustiça cometida contra o seu maxilar (a extração de um dente e a
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
colocação de um pino em seu lugar, sendo que o dente falso ainda estava
sendo feito no laboratório), ouviu alguém bater à porta.
O homem que estava no corredor era um estranho de terno Ralph Loren
azul-escuro. Antes que Billy pudesse responder, o homem lhe mostrou
rapidamente um distintivo.
— Detetive Frank Sabatini – disse ele. – Posso entrar?
— Mas claro – disse Billy, assustado demais para recusar-lhe
permissão. Quando o detetive o seguiu até a sala de estar minúscula,
Billy percebeu que ainda estava de roupão e teve uma visão de si mesmo,
algemado, indo para o xilindró com aquele roupãozinho de seda estampado.
O detetive abriu um bloco de anotações.
— Você é Billy Litchfield? – perguntou.
Por um segundo, Billy pensou em mentir, mas decidiu que isso só
pioraria as coisas.
— Sou – disse ele. – O que há de errado, seu guarda? Alguém morreu?
— Detetive – respondeu Frank Sabatini. – Guarda, não. Trabalhei
muito para conseguir esse título. Gosto que as pessoas me chamem assim.
— E deve mesmo gostar – disse Billy. Explicando o roupão,
acrescentou: — Estou me recuperando de uma extração dentária.
— É uma barra. Detesto ir ao dentista também – disse o Detetive
Sabatini, tentando ser simpático.
Não parecia que tinha vindo ali para prendê-lo, pensou Billy.
— Posso trocar de roupa? – perguntou Billy.
— Fique à vontade.
Billy foi ao quarto e fechou a porta. Suas mãos estavam tremendo
tão violentamente que ele teve dificuldade de tirar o roupão e vestir
calças de veludo cotelê e um suéter vermelho de caxemira. Depois ele
entrou no banheiro e tomou um Vicodin, seguido de dois Xanaxes cor de
laranja. Se fosse preso, queria estar tão sedado quanto possível.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Quando voltou à sala de estar, o detetive estava parado ao lado da
mesa de canto, examinando as fotos de Billy.
— Conhece muita gente importante, hein – comentou.
— Sim – disse Billy. – Já moro em Nova York há muitos anos. Quase
quarenta. E aos poucos fui acumulando amizades.
O detetive concordou e foi direto ao assunto.
— Você é assim uma espécie de marchand, não é?
— Para dizer a verdade, não – negou Billy. – Às vezes marco
entrevistas das pessoas com marchands. Mas não vendo obras de arte eu
mesmo.
— Conhece Sandy e Connie Brewer?
— Conheço – disse Billy, baixinho.
— Estava ajudando os Brewer a compor sua coleção de arte, não?
— Ajudei sim – admitiu Billy. – Mas eles já terminaram.
— Sabe de alguma compra recente que eles fizeram? Até mesmo através
de alguém que não seja marchand?
— Hummm – disse Billy, para ganhar tempo. – Como assim, recente?
— No ano passado, mais ou menos.
— Eles foram à feira de arte em Miami. Pode ser que tenham comprado
uma pintura lá. Como já disse, praticamente já completaram sua coleção.
Já estou até trabalhando com outra pessoa.
— E quem seria ela?
Billy engoliu em seco.
— Annalisa Rice.
O detetive anotou o nome e sublinhou-o.
— Muito obrigado, Sr. Litchfield – disse, entregando seu cartão ao
Billy. – Se ouvir falar de alguma novidade na coleção dos Brewer, pode
por favor me avisar?
— Mas claro – disse Billy. E depois perguntou: — Só isso?
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— Como assim? – indagou o detetive, indo até a porta.
— Os Brewer estão encrencados? São pessoas muito simpáticas.
— Tenho certeza de que são – disse o detetive. – Fique com meu
cartão. Pode ser que entremos em contato consigo muito em breve. Boa
tarde, Sr. Litchfield.
— Boa tarde, Detetive – disse Billy. Fechou a porta e deixou-se
cair no sofá. Depois levantou-se depressa e, esgueirando-se até perto
da janela, junto à cortina, espiou discretamente a Quinta Avenida. Todo
tipo de cenário barato de filme policial de televisão lhe passou pela
cabeça. Será que o detetive já tinha ido embora? O que será que sabia?
Ou será que estava lá fora, em um carro sem marca, espionando-o? Será
que ia segui-lo?
Durante as duas horas seguintes, Billy ficou aterrorizado demais
para ligar ou verificar suas mensagens de correio eletrônico. Será que
havia se entregado para o detetive, ao lhe perguntar se era só aquilo?
E por que ele tinha dado ao detetive o nome da Annalisa Rice? Agora o
detetive ia se comunicar com ela. O que será que ela sabia? Sentindo-se
mal de tanto medo, foi ao banheiro e tomou mais dois comprimidos.
Depois se deitou na cama. Felizmente, adormeceu, um sono do qual ele
estava torcendo para não ter de acordar.
Mas acordou, três horas depois. Seu celular estava tocando. Era
Annalisa Rice.
— Pode vir até aqui? – indagou ela.
— Meu Deus. O policial te ligou também?
— Ele acabou de passar aqui. Eu não estava. Ele disse à Maria que
era alguma coisa sobre os Brewer, e perguntou se eu os conhecia.
— O que ela disse?
— Disse que não sabia.
— Fez bem, a Maria.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— Billy, o que está havendo?
— Está sozinha? – indagou o Billy. – Pode vir até aqui? Eu gostaria
de ir até aí visitá-la, mas não quero que os porteiros me vejam
entrando e saindo do Número Um. E por favor, veja se não está sendo
seguida.
Meia hora depois, Annalisa, sentada diante do Billy, estendeu-lhe
as mãos.
— Billy, pode parar – disse ela. – Não me conte mais nada. Já me
contou demais. – Ela ficou de pé. – Não pode dizer mais nada a ninguém.
Nem uma palavra sobre isso. Qualquer coisa que diga de agora em diante
pode ser usada no julgamento.
— É mesmo tão ruim assim? – indagou Billy.
— Precisa contratar um advogado. David Porshie vai convencer a
polícia a pedir um mandado de busca, e pelo que sabemos o procurador
público já está envolvido. Vão revistar o apartamento dos Brewers e
encontrar a cruz.
— Pode ser que não encontrem nada – disse Billy. – A cruz nem está
no apartamento mais. Eu disse à Connie para depositá-la em um cofre-
forte.
— Eles vão acabar verificando isso também. É só uma questão de
tempo.
— Eu podia ligar para a Connie. E avisá-la. Dizer a ela para levar
a cruz para fora da cidade. Escondê-la nas Hamptons. Ou em Palm Beach.
Ela ficou na Quinta Avenida durante sessenta anos, e ninguém jamais
soube.
— Billy você está dizendo coisas sem sentido – disse Annalisa,
procurando acalmá-lo. – Não piore as coisas para você, porque elas já
estão pretas. Você está envolvido, e se ligar para os Brewer, vai ser
acusado de conspiração ainda por cima.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— Quanto tempo eles vão levar para me encontrar? – indagou Billy.
— Como assim?
— Para me levar para a cadeia?
— Não vai ser necessariamente preso. Há uma infinidade de recursos.
Você pode apelar da sentença ou então fazer um trato. Se for à polícia
se entregar ao promotor público e lhe contar o que sabe, ele
provavelmente lhe concederá imunidade.
— E entregar os Brewers para salvar minha pele? – disse Billy.
— Foi isso mesmo que eu quis dizer.
— Nunca iria poder fazer isso – disse Billy. – Eles são meus
amigos.
— São meus amigos também – disse Annalisa. – Mas Connie não cometeu
um crime por aceitar um presente do marido. Não seja bobo – acrescentou
ela, alertando-o. – Sandy Brewer não pensaria duas vezes antes de fazer
o mesmo com você.
Billy apoiou a cabeça nas mãos.
— Esse tipo de coisa, simplesmente não se faz. Não entre nós.
— Isso não é brincadeirinha de criança – disse Annalisa,
rispidamente. – Billy, precisa entender. Nem todas as tradições
imaginadas deste mundo vão te ajudar. Precisa encarar os fatos de
frente e decidir o que fazer. Ou seja, o que for melhor para você.
— O que vai acontecer com os Brewer?
— Não se preocupe com os Brewer – disse Annalisa. – Sandy é pra lá
de rico. Ele vai conseguir sair dessa, comprando uns e outros, vai ver
só. Vai alegar que não sabia o que estava comprando. Vai alegar que
comprava objetos de arte de você o tempo inteiro. Você é que vai se dar
mal, não ele. Fui advogada durante oito anos. Confia em mim, são sempre
os pequenos que acabam na cova dos leões.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— Os pequenos – disse Billy, sacudindo a cabeça. – Então, no final
das contas, é só isso. Eu sou só um dos pequenos.
— Billy, por favor, me deixa ajudar você – disse Annalisa.
— Só preciso de algum tempo. Para pensar – disse Billy, levando-a
até a porta.
Dois dias depois, o detetive Frank Sabatini, acompanhado por quatro
policiais, chegou aos escritórios da Corretora de Valores Brewer, às
três da tarde em ponto. O detetive Sabatini tinha descoberto que aquela
era a hora mais propícia para prender criminosos de colarinho branco.
Em geral, era quando eles tinham acabado de chegar do almoço e, de
barriga cheia, eram bem mais dóceis.
Frank Sabatini tinha plena certeza de que estava prendendo o homem
certo. No dia anterior, Craig Akio, depois de negar ter conhecimento da
mensagem de correio eletrônico ou que tivesse visto a tal cruz, tinha
viajado misteriosamente para o Japão, e mencionando o fato de que seu
suspeito podia ter o mau hábito de fugir, como o Sr. Akio, o detetive
Sabatini conseguiu um mandado de busca para revistar a residência dos
Brewer. Só que foi durante as férias escolares de verão, e Connie tinha
levado as crianças, acompanhadas das babás, para o México. Os únicos
que estavam na casa eram as empregadas, que nada fizeram diante da
presença dos policiais. Foi, pensou Sabatini, uma manhã bastante
empolgante, pois o cofre precisou ser aberto com explosivos. Contudo o
especialista em explosivos era muito bom, e nada no cofre sofreu dano,
nem sequer a cruz. David Porshie, que estava aguardando o telefonema do
detetive, confirmou que era aquele mesmo o artefato que tinha sido
roubado há tantos anos atrás.
Naquele momento, na Corretora de Valores Brewer, ouvindo uma
comoção no corredor, Paul Rice saiu do seu escritório espaçoso e
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
inteiramente branco para se reunir aos outros sócios e empregados e
assistir à prisão do Sandy Brewer, que saiu algemado do prédio.
— Jezzie – disse Sandy à sua assistente na saída – liga para o meu
advogado. Deve estar havendo algum equívoco. – Sem mudar de expressão,
Paul observou o espetáculo, e quando Sandy já estava seguro no
elevador, Paul voltou para sua mesa. Todas as pessoas começaram a fazer
comentários e trocar especulações. Todos presumiam que Sandy tinha
cometido algum tipo de fraude financeira, e correram para seus
computadores para tirar todo o dinheiro de suas contas. Paul decidiu
tirar a tarde de folga.
Encontrou Annalisa no seu escritório bonitinho, pesquisando algo na
Internet. Quando ele apareceu à porta, ela deu um pulo e rapidamente
apertou um botão do computador.
— O que está fazendo em casa? – indagou ela, alarmada. – Aconteceu
alguma coisa?
— Absolutamente nada.
— Está tudo bem?
— Claro – disse Paul. – Por que não estaria?
— Considerando-se as coisas que vêm acontecendo neste prédio nos
últimos dois menses – disse ela, sarcástica – eu não sei, não.
— Não há nada com que se preocupar – garantiu Paul, subindo para
visitar seus peixes. – Já cuidei de tudo. De agora em diante, tudo vai
correr às mil maravilhas.
Billy Litchfield passou os dois dias antes da prisão de Brewer
quase desmaiando de medo. Não ligou para ninguém, pois não confiava que
seria capaz de se comportar normalmente, com medo de contar toda a
história do seu envolvimento com a cruz sem querer se lhe perguntassem
alguma coisa. Quatro entre cinco vezes, pensou em sair do país, mas
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
para onde iria? Tinha um pouco de dinheiro, mas não o suficiente para
ficar fora para sempre. Talvez pudesse ir para a Suíça, onde seria
capaz de sacar parte do seu dinheiro. Mas o medo o paralisou. Embora
passasse horas na Internet procurando o nome do Sandy Brewer pelo
Google, para ver se alguma coisa tinha acontecido, não conseguiu
efetivamente reservar uma passagem e fazer as malas. Só de pensar nisso
já sentia vontade de se deitar, enroscado numa posição fetal, sob as
cobertas. Tinha pensamentos aleatórios, repetitivos e doentios, e
ficava o tempo todo recordando-se de uma frase de uma história de
horror que o havia apavorado quanto criança: “Eu quero o meu fígado”.
Também lhe ocorreu que talvez Sandy Brewer não fosse preso, e ambos
fossem absolvidos. Como podia saber que provas o detetive tinha
reunido? Talvez não fosse mesmo mais do que um rumor que podia
persistir durante algum tempo e depois se dissipar. A Sra. Houghton
tinha guardado a cruz na caixa sobre sua mesa do seu quarto do Número
Um da Quinta Avenida durante anos, sem que ninguém desconfiasse. Se não
o pegassem, Billy jurava que mudaria de vida, não sabia como. Tinha
dedicado sua vida inteira às obrigações sociais, ao desejo de estar com
as pessoas certas no lugar certo. Agora estava percebendo seu erro com
toda a clareza. Antes pensava que esse desejo de obter o que há de
melhor na vida ia acabar lhe rendendo algo substancial e concreto. Mas
não tinha rendido.
Na sua prisão domiciliar voluntária, lembrou-se das muitas vezes na
vida nas quais tinha dito a si mesmo, “Quem precisa de dinheiro, quando
se tem amigos ricos?” E perguntava-se se seus amigos ricos iriam ajudá-
lo agora.
De olhar parado, à janela da sala de estar, fitando a mesma vista
que já fitava fazia anos, a Igreja Episcopal, as pedras marrons de
sujeira acumulada, viu que estavam construindo andaimes em torno do seu
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
edifício. Naturalmente. Os donos iriam reformá-lo para se preparar para
a conversão em cooperativa residencial. Ele não tinha feito nada com
relação a sua situação do apartamento, sem saber se seria capaz de
ficar em Nova York. Seria tarde demais? Será que importava, ainda?
Voltando à cama, ligou a televisão.
No noticiário da noite, em todos os canais, só se falava na prisão
do Sandy Brewer. O filme do Sandy sendo levado de algemas e depois, com
a mão de um policial na cabeça, sendo empurrado para dentro de um
carro-patrulha, repetiu-se várias vezes. Os locutores disseram que
haviam encontrado uma preciosidade inestimável do patrimônio britânico
nas mãos de Sandy Brewer, que se acreditava ter vindo do espólio de uma
das mais importantes filantropas da cidade, a Sra. Louise Houghton.
Ninguém mencionou o nome de Billy.
Imediatamente, o telefone e o celular do Billy começaram a tocar
incessantemente. Amigos ou repórteres? perguntou-se ele. Não atendeu
nenhum dos dois. O interfone do seu apartamento tocou cinco ou seis
vezes, aparentemente alguém querendo subir ao seu andar, porque depois
começaram a bater à sua porta, parando após algum tempo. Billy
escondeu-se no banheiro. Era só questão de tempo a sua captura. Ele
também apareceria em todos os jornais e na Internet, e apareceriam
filmes mostrando-o cabisbaixo e acabado no telejornal e no YouTube. Seu
comportamento era justificável, talvez, porque ele precisava de
dinheiro, mas ninguém iria pensar assim. Por que é que não tinha
imediatamente entregado a cruz ao Metropolitano? Porque teria manchado
a reputação da Sra. Houghton. Mas ela tinha falecido, e agora seu nome
já estava manchado mesmo, e ele provavelmente iria para o xadrez.
Desesperado, até se questionoou por que tinha se mudado para Nova York,
afinal. Por que não podia ter ficado nos Berkshires e ser feliz com a
vidinha que tinha recebido para viver desde o início?
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Abriu o armário de remédios e tomou todas as suas pílulas. Tinha
vários tipos agora; dois de comprimidos para dormir, Xanax, Prozac e o
Vicodin para a dor de dente. Se tomasse todas elas e bebesse uma
garrafa de vodca, podia ser que conseguisse acabar com tudo de uma vez.
Mas, de olho pregado nas pílulas, percebeu que não tinha coragem nem
para se matar.
Podia pelo menos perder a consciência. Tomou dois Vicodins, dois
Xanaxes, e um comprimido de cada frasco de pílulas para dormir. Dentro
de minutos, já estava adormecido, tendo um vibrante sonho multicolorido
que parecia ser eterno.
Enid Merle foi uma das primeiras pessoas a ouvir falar na prisão do
Sandy Brewer. Um repórter do jornal, ligou para ela imediatamente
depois de ter estado presento no local. Até ali os fatos não tinham
sido esclarecidos ainda, e a conclusão foi de que Sandy tinha
conseguido comprar a cruz da Sra. Houghton, não se sabia como, e que
ela a havia roubado do Metropolitano. Essa alegação, segundo Enid
sabia, era falsa. Embora fosse verdade que Louise estava de posse da
cruz, Enid achava que ela não tinha tirado a cruz do Museu
Metropolitano, mas da Flossie Davis. Flossie sempre tinha sido a óbvia
culpada, mas o que nunca tinha feito sentido para a Enid era por que a
Louise não havia devolvido a cruz para o Metropolitano. Em vez disso,
tinha guardado a cruz e o segredo, protegendo a Flossie de ser punida
pelo seu crime. Louise era uma católica fervorosa; talvez um imperativo
moral a tivesse impedido de revelar o crime da Flossie.
Ou talvez, segundo Enid pensou, o motivo fosse outro. Talvez
Flossie soubesse de algum podre da Louise. Enid devia ter ido até o
fundo daquele mistério fazia já algum tempo, mas nunca o havia
considerado importante a esse ponto. No momento, não havia tempo. Ela
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
precisava redigir uma coluna, e como era sobre Louise Houghton, ia
precisar ser de seu próprio punho.
Enid examinou várias páginas impressas de pesquisa sobre Sandy e
Connie Brewer. A história não tinha importância suficiente do ponto de
vista internacional, certamente estava muito abaixo do impacto de uma
eleição presidencial, ou do massacre de inocentes civis em uma guerra,
ou todo e qualquer dos insultos e baixezas cometidos contra os homens
comuns. Era só sobre a “sociedade” novaiorquina. E mesmo assim,
recordou-se ela, o desejo de algum tipo de sociedade era uma
característica humana inata, pois sem isso não poderia haver esperança
para o homem civilizado. Assistindo a um filme de um artigo da Vanity
Fair sobre Connie Brewer e sua casa de campo fabulosa nas Hamptons,
Enid perguntou-se se era possível ter um desejo por sociedade demais.
Os Brewers tinham tudo na vida, quatro filhos, um jatinho particular,
nenhuma preocupação. Mas não era suficiente, e agora o pai dessas
crianças talvez fosse preso. Era uma ironia do destino o Sandy Brewer e
a Sra. Enid Houghton terminarem sendo citados na mesma frase. Se a Sra.
Houghton estivesse viva, nunca teria sequer tomado conhecimento de um
arrivista como o Sandy. Enid recostou-se na cadeira. Faltava um pedaço
enorme daquela história, mas ela ia precisar entregar a sua coluna em
duas horas. Posicionando as mãos no teclado, escreveu: “Louise Houghton
era uma grande amiga minha.”
Oito horas mais tarde, Billy Litchfield acordou na sua banheira de
época, cujos pés simulavam as patas de um animal. Verificando os braços
e as pernas, ficou surpreso de estar ainda totalmente vivo, e
inexplicavelmente exultante. A noite já ia adiantada; no entanto, ele
sentiu um desejo irresistível de ouvir David Bowie. Colocando um CD no
aparelho de som, pensou: Por que não? E decidiu tocar todas as quatro
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
horas de um álbum de dois CDs que incluía as obras de Bowie de 1967 a
1993. Enquanto escutava, Billy andava pelo apartamento, dançando de vez
em quando, descalço, nos pisos de madeira gastos, e agitando o roupão
de seda em torno do corpo, como se fosse uma capa. Depois começou a
olhar fotos. Tinha centenas de fotos emolduradas no seu apartamento,
penduradas nas paredes, alinhadas sobre o consolo da lareira,
empilhadas sobre livros e guardadas nas gavetas. Enquanto estava
olhando as fotografias, achou melhor tocar todos os seus CDs. Durante
as vinte horas seguintes, ouviu seu celular ou seu telefone de casa
tocarem de novo, mas não atendeu nenhum dos dois. Tomou mais
comprimidos e a certa altura descobriu que tinha consumido quase uma
garrafa inteira de vodca. Depois encontrou uma garrafa antiga de gim e,
cantando em voz alta junto com a música, bebeu tudo. Começou a se
sentir enjoado e, na intenção de conservar aquela sua sensação
vertiginosa de prazer na qual nada que tinha acontecido no passado
parecia importar, tomou dois Vicodins. Sentiu-se um pouco melhor, e,
com a música ainda tocando no último volume (agora era Janet Eno),
desmaiou na cama.
A uma certa altura, como um sonâmbulo, ele se levantou e foi ao
armário do quarto. Mas caiu de novo, e num dado momento, no meio da
noite, seus rins entraram em processo de falência, seguidos pelo
coração. Billy não sentiu nada.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Quarto Ato
18
Naquela noite, Schiffer Diamond encontrou-se por acaso com Paul e
Annalisa Rice na calçada diante do Número Um. Schiffer estava voltando
de um longo dia de filmagens, ao passo que Paul e Annalisa estavam
vestidos para o jantar. Schiffer cumprimentou-os com a cabeça a caminho
do edifício, depois parou:
— Com licença – disse a Annalisa. – Você não é amiga do Billy
Litchfield?
Paul e Annalisa entreolharam-se.
— Sim – disse Annalisa.
— Vocês tem visto o Billy? – indagou Schiffer. – Já faz dois dias
que estou tentando falar com ele e o telefone toca, toca, e ele não
atende.
— Parece que ele não está atendendo telefonemas. Passei pelo
apartamento dele, mas ele não estava.
— Talvez tenha viajado – disse Schiffer. – Tenho certeza de que não
deve ser nada.
— Se falar com ele, pode por favor me avisar? – indagou Annalisa. –
Estou preocupada.
Lá em cima, Schiffer revirou uma gaveta da cozinha, perguntando-se
se ainda teria as chaves do apartamento do Billy. Anos antes, anos e
anos atrás, quando ela e Billy haviam acabado de se conhecer, tinham
dado chaves dos apartamentos deles um ao outro, no caso de uma
emergência. Ela nunca havia esvaziado aquela gaveta, portanto as chaves
ainda deviam estar lá, embora houvesse também uma possibilidade remota
de o Billy ter trocado a fechadura. Por fim, encontrou as chaves, no
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
fundo da gaveta. Havia uma etiqueta azul de plástico presa ao anel no
qual Billy tinha escrito Residência de Litchfield, com um ponto de
exclamação a seguir, como que proclamando a amizade entre eles.
Schiffer andou os três quarteirões até o edifício do Billy, parando
sob os andaimes antes de experimentar a chave na porta do prédio. Ainda
funcionava, e ela entrou, passando por uma fileira de caixas postais
metálicas. A porta da caixa do Billy estava entreaberta, com a
correspondência de vários dias acumulada dentro dela, impedindo que a
portinhola se fechasse. Talvez o Billy estivesse mesmo viajando. Haviam
começado a reformar o prédio, as escadas até o quarto andar estavam
revestidas de papel pardo preso com fita azul. Ao ouvir música saindo
do apartamento do Billy, ela bateu à porta, com força. Do outro extremo
do corredor, uma porta se abriu e uma mulher de meia idade, bem
arrumada, meteu a cabeça pela fresta.
— Está procurando o Billy Litchfield? – indagou ela. – Ele saiu. E
deixou a música ligada. Tudo por causa da conversão. Billy e eu somos
os últimos bastiões. Eles estão tentando nos obrigar a nos mudar.
Qualquer hora dessas, provavelmente vão cortar o fornecimento de
energia elétrica.
A idéia de que Billy estivesse numa situação dessas era deprimente.
— Espero que não – disse Schiffer.
— Vai entrar? – indagou a mulher.
— Vou – disse Schiffer. – Billy me deu as chaves.
— Pode desligar o som? Estou quase ficando maluca.
Schiffer concordou, e entrou. A sala de estar do Billy sempre tinha
sido atravancada, mas ele procurava mantê-la arrumada. Agora estava uma
bagunça total. Suas fotos estavam espalhadas no chão, havia caixas
vazias de CD no chão por todos os lados, e vários livros de capa dura,
desses de mesinha de centro, estavam abertos, exibindo fotos de Jackie
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Onassis. Ela encontrou o aparelho de som em um armário antigo e
desligou a música. Aquilo não era coisa do Billy.
— Billy? – chamou ela.
Percorreu o corredor curto que levava ao quarto, passando por
ganchos vazios nas paredes, de onde as fotos haviam sido removidas. A
porta do quarto estava fechada. Schiffer bateu à porta e girou a
maçaneta.
Billy estava caído na cama, com a cabeça pendendo de uma das
beiradas. Estava de olhos fechados, mas os músculos sob seu rosto
pálido e sardento tinham se enrijecido, dando ao seu rosto uma
expressão estranha e austera. O corpo na cama não era mais Billy,
pensou Schiffer. O Billy Litchfield que ela conhecia já não existia
mais.
— Ai, Billy – lamentou-se ela. Pendurado no pescoço dele estava um
laço comprido feito de gravatas Hermès que ia até o chão, como se Billy
tivesse pensado em se enforcar, mas tivesse morrido antes de completar
o ato.
— Ai, Billy – repetiu Schiffer. Desamarrou o nó da gravata,
retirando-o do seu pescoço, e separando as gravatas uma da outra,
pendurou-as com cuidado no armário de Billy, que era o lugar delas.
Depois foi ao banheiro. Billy era muito detalhista e tinha arrumado
o espaço que tinha da melhor forma possível, colocando toalhas brancas
espessas cuidadosamente sobre uma prateleira acima do vaso sanitário.
Mas as prateleiras em si eram baratas e provavelmente tinham quarenta
anos de idade. Ela sempre havia presumido que Billy era rico, mas, pelo
jeito, ele não vinha vivendo exatamente como vivia quando tinha chegado
a Nova York. Pensando que Billy vivia assim nessa penúria e nunca tinha
deixado isso transparecer, Schiffer sentiu-se mal. Ele era um daqueles
novaiorquinos que todos conheciam mas sobre o qual não se sabia muita
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
coisa. Ela abriu o armário de remédios e ficou chocada diante da
fileira de frascos de medicamentos que só podiam ser comprados com
receita médica. Prozac, Xanax, Ambien, Vicodin... Ela não fazia idéia
de que o Billy fosse tão infeliz e estressado assim. Devia ter passado
mais tempo fazendo-lhe companhia, pensou amargurada, mas Billy era como
uma instituição em Nova York. Ela sempre pensava que ele nunca iria
deixar de existir.
Trabalhando rapidamente, despejou o conteúdo dos frascos no vaso
sanitário. Como na maioria dos edifícios construídos antes da guerra,
havia uma canaleta de incinerador na cozinha, onde Schiffer jogou os
frascos vazios. Billy não ia querer que as pessoas soubessem que ele
tinham tentado se matar, nem que era viciado em drogas. Voltando ao
quarto, Schiffer viu uma caixa de madeira tosca sobre sua escrivaninha.
Não era o tipo da coisa que Billy teria, e, curiosa, abriu-a e viu
filas muito bem organizadas de bijuterias enroladas em plástico de
bolhas. Será que o Billy tinha um lado travesti? Se fosse isso era mais
um aspecto da sua vida que ele não gostaria que os outros soubessem.
Procurando no seu armário, ela encontrou uma caixa de sapatos, e uma
sacola de compras da Valentino. Colocou a caixa dentro da caixa de
sapato, e meteu-a na sacola. Depois ligou para o número de emergência,
o 911.
Dois policiais chegaram dentro de alguns minutos, seguidos de
enfermeiros do serviço de emergência, que abriram o roupão do Billy e
tentaram lhe dar choques para ressuscitá-lo. O corpo de Billy pulou
vários centímetros acima da cama, e Schiffer, que não estava suportando
assistir àquilo, foi para a sala de estar. Finalmente, um detetive de
terno azul marinho chegou.
— Detetive Sabatini – disse ele, estendendo a mão para ela.
— Schiffer Diamond – disse ela.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— A atriz – disse ele, ficando todo animado.
— Isso mesmo.
— Encontrou o corpo. Por quê?
— Billy era muito amigo meu. Fazia uns dois dias que não tinha
notícias dele, portanto passei aqui para ver se estava tudo bem.
Obviamente não estava.
— Sabia que ele estava sendo submetido a investigação?
— Billy? – indagou ela, incrédula. – Por quê?
— Roubo de obras de arte – disse o detetive.
— Impossível – disse Schiffer, cruzando os braços.
— Não só é possível, como também é verdade. Ele tinha algum
inimigo?
— Todos o adoravam?
— Precisava de dinheiro?
— Não sei nada sobre sua vida financeira. Billy não falava sobre
isso. Era muito... discreto.
— Então sabia de segredos das pessoas?
— Conhecia muita gente.
— Alguém poderia querer eliminá-lo? Como o Sandy Brewer?
— Não sei quem é.
— Pensei que vocês fossem amigos.
— Éramos – disse Schiffer. – Mas fazia anos que eu não via o Billy.
Só voltei a falar com ele depois que me mudei para o meu apartamento,
faz nove meses.
— Vou precisar que vá à delegacia para um interrogatório.
— Preciso ligar para a minha agente primeiro – disse ela, com
firmeza. A realidade da morte de Billy ainda não tinha entrado na sua
cabeça, mas ia ser um verdadeiro escândalo. Certamente ela e Billy iam
sair na primeira página do The New York Post no dia seguinte.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Bem cedo, naquela manhã, Paul Rice estava navegando na Internet,
quando encontrou a notícia sobre a morte do Billy. Não tinha como ligar
Billy ao escândalo do Brewer, portanto essa notícia não lhe causou
nenhum impacto. Mas depois viu vários artigos curtos no The New York
Times até o Boston Globe, declarando que Billy Litchfield, de 54 anos,
ex-jornalista, marchand e acompanhante de senhoras da alta sociedade,
tinha sido descoberto morto no seu apartamento na noite anterior. A
cobertura no Daily News e no Post tinha sido bem mais completa. Nas
primeiras páginas de ambos os jornais estavam fotos de estúdio de
Schiffer Diamond, que tinha encontrado o corpo, e uma foto de Billy de
smoking. Havia também outras fotos, a maioria delas mostrando Billy com
várias socialites, e uma dele de braço dado com a Sra. Louise Houghton.
A polícia estava fazendo investigações, pois desconfiava de que a morte
não tinha sido natural.
Paul desligou o computador. Pensou em acordar sua mulher e lhe dar
a notícia, mas percebeu que ela podia começar a chorar. E aí ele ia ter
que aturar um drama do qual ele não era o causador e que, portanto,
podia durar um tempo indefinido. Por isso, decidiu lhe contar mais
tarde.
Correndo até o vestíbulo, viu vários fotógrafos diante da portaria,
na calçada.
— O que está havendo? – indagou ele a Roberto.
— Alguém morreu e foi a Schiffer Diamond quem encontrou o corpo.
Billy Litchfield, pensou Paul.
— Mas por que eles vieram até aqui? Dar plantão na portaria do
Número Um?
Roberto deu de ombros.
— Deixa pra lá – disse Paul, mal-humorado, e bateu à porta da
Mindy.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Ela abriu a porta ligeiramente, tentando evitar que o Skippy, que
estava latindo e pulando na sua perna, dentro do apartamento, saísse e
atacasse o Paul. Por enquanto Paul tinha conseguido ficar por cima no
edifício; Mindy tinha precisado concordar em evitar que o Skippy saísse
à portaria de manhã e à noite, na hora em que Paul estivesse passando.
— O que é agora? – perguntou ela, fuzilando-o com o olhar.
— Aquilo ali - disse Paul, indicando os paparazzi diante do prédio.
Mindy saiu sem o cachorro, fechando a porta atrás de si. Estava
ainda de pijama de algodão, mas tinha vestido um roupão de chenile por
cima e estava de chinelos.
— Roberto – disse ela. – O que é isso?
— Sabe que não posso evitar que eles se aglomerem na calçada. Ela é
propriedade pública, e eles têm direito de ficar aí.
— Chame a polícia – disse Paul. – Mande prendê-los.
— Alguém morreu e a Schiffer Diamond encontrou o corpo – repetiu
Roberto.
— Billy Litchfield – disse Paul.
Mindy arquejou, surpresa.
— O Billy!
— Eu só queria que alguém tomasse alguma providência quanto a esses
fotógrafos – continuou rezingando Paul. – Eles estão bloqueando meu
ponto de egresso, e assim não posso ir ao escritório. Não me importa o
quanto alguém seja famoso, eles não têm direito de perturbar a rotina
do edifício. Quero que a Schiffer Diamond saia daqui. E já que estamos
falando no assunto, creio que devemos expulsar a Enid Merle também. E o
Philip Oakland. E seu marido. E você, também – disse ele a Mindy.
Mindy ficou vermelha. Sentiu a cabeça ir ficando parecida com um
tomate podre a ponto de explodir.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— Por que é que você não se muda? – gritou. – Desde que entrou
neste prédio, só tivemos problemas. Já estou cheia de você. Se receber
mais uma reclamação sua ou da sua esposas sobre este prédio, não me
importa quanto custe, não me importa que nosso condomínio suba cinco
mil dólares por mês, vamos te processar e vamos ganhar a causa. Ninguém
te quer aqui. Eu devia ter dado ouvidos à Enid e dividido o
apartamento. Não teria feito diferença nenhuma, porque você estragou
mesmo o apartamento, com aqueles seus peixes ridículos e seus
equipamentos de informática absurdos, e o único motivo pelo qual
conseguiu se sair bem dessa foi porque não tem nenhuma cláusula nos
estatutos proibindo esses seus malditos peixes.
Paul virou-se para o Roberto.
— Ouviu isso? – disse ele. – Ela está me ameaçando. – E estalou os
dedos. – Quero que anote o que se passou aqui. Quero que ela receba uma
ordem de despejo.
— Não me meto nisso – disse Roberto, recuando, embora notando, todo
satisfeito, que antes mesmo das sete da manhã já tinha várias fofocas
para ampliar seu repertório. Ia ser um dia muito interessante.
— Vai se foder – gritou a Mindy, espichando o pescoço para a
frente, de tanta raiva. Em vez de reagir àquele insulto, Paul Rice
ficou meramente parado ali, sacudindo a cabeça para ela, como se ela
estivesse dando um show à toa. Isso a deixou muito mais furiosa. — Saia
você daqui! – gritou. – Você e a sua mulher. Façam as malas e saiam
deste edifício! – E recuperando o fôlego, acrescentou: — Imediatamente!
— Sra. Gooch – disse Roberto, tentando acalmá-la – Talvez devesse
voltar para o seu apartamento.
— Vou voltar, sim – disse ela, apontando o dedo em riste para o
Paul. – E vou solicitar ao juiz uma ordem de restrição contra você. Não
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
vai ter permissão nem para chegar a quinze metros de mim. Quero ver
como vai entrar e sair do prédio sem passar pela portaria.
— Vai, faz isso – disse Paul, com um sorriso desafiador. – Eu
simplesmente iria adorar. Aí posso te processar pessoalmente. Aliás,
honorário de advogado é uma coisa que aumenta bem depressa, então é
melhor começar a pensar em vender seu apartamento para pagar as custas.
– Ele teria continuado, mas Mindy entrou e bateu a porta, com estrondo.
— Ótimo – disse Roberto.
Paul não sabia se o porteiro estava brincando, ou estava mesmo do
seu lado. Fosse lá o que fosse, não tinha importância. Se fosse
preciso, podia demitir o Roberto. Aliás, podia demitir todos os
porteiros, e também o síndico. Levando as mãos ao rosto, saiu correndo
para furar o bloqueio dos paparazzi e entrou no carro.
Sentado em segurança no banco traseiro da sua Bentley, Paul
respirou fundo e começou a digitar instruções para a sua secretária.
Aquele confronto com a Mindy Gooch não o perturbou; depois de ter
conseguido orquestrar magistralmente a prisão do Sandy sem que ninguém
suspeitasse dele, Paul estava se sentindo autoconfiante e dono da
situação. Sandy já havia voltado para o escritório, depois de pagar a
fiança, mas não estava conseguindo se concentrar. Paul sabia que no fim
ele iria a julgamento, e podia ser preso. Quando fosse, Paul é que
assumiria seu cargo na empresa, e aquilo era apenas o começo. O
contrato da China estava indo às mil maravilhas, e no fim outros países
podiam ser forçados a comprar o algoritmo também. Ele queria chegar a
um trilhão de dólares. Não era tanto assim hoje em dia. A maioria dos
países tinha déficits desse nível.
Quando o carro começou a rumar para seu escritório do centro
comercial pela Park Avenue, Paul verificou as várias bolsas em torno do
mundo e recebeu um alerta pelo Google. Tanto ele quanto a esposa haviam
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
sido mencionados em um artigo sobre Billy Litchfield em um website
sobre a alta sociedade. Paul voltou a se perguntar se devia ter
acordado a mulher para lhe contar, pois pelo fuzuê em torno da morte do
Billy, percebia que devia ter subestimado a importância do assunto. Mas
já era tarde demais para voltar ao prédio e ainda era cedo demais para
telefonar. Decidiu lhe enviar uma mensagem de texto.
Escreveu: “Leia os jornais. Seu amigo Billy Litchfield faleceu.”
Por hábito, releu a mensagem rapidamente, e decidindo depois que ela
poderia dizer que era fria demais, acrescentou: “Um beijo, Paul.”
Furiosa, Mindy foi até o computador e escreveu: “ODEIO ESSE HOMEM.
ODEIO ESSE HOMEM. VOU MATÁ-LO.” Depois se lembro do Billy Litchfield e,
procurando seu nome pelo Google, viu que a notícia de sua morte tinha
sido publicada em todos os jornais. Billy tinha apenas 54 anos. Ela
ficou tão chocada que se sentiu até emocionada, depois pesarosa, e
apesar de se recordar de que, durante anos, não tinha gostado tanto
assim do Billy, considerando-o um esnobe, começou a soluçar. Mindy era
uma dessas mulheres que se orgulhavam de quase nunca chorar,
parcialmente porque, quando choravam, não ficavam nada bonitas. Seu
nariz e olhos inchavam e aí sua boca se abria e ficava toda torta,
enquanto coriza escorria de suas narinas.
Aquele lamento horrendo e estridente da Mindy acordou o Sam. Ele
sentiu um aperto no peito, de medo, presumindo que a mãe tinha
descoberto, de algum jeito, que ele tinha cortado os cabos da caixa do
apartamento dos Rice e estava para ser preso. Ele não tinha ainda
obtido a reação que esperava pelo seu ato, embora Paul Rice tivesse
certamente ficado furioso. Durante as últimas duas semanas, Sam tinha
ficado com medo de alguém descobrisse que tinha sido ele, mas a polícia
não tinha mesmo se importado de investigar, só interrogando o porteiro
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
e Enid e alguns outros moradores na manhã seguinte. Só que agora já não
faziam mais interrogatórios, tinham se desinteressado. Sua mãe ainda
insistia que Thayer Core, redator de blogue, é que tinha sido o
culpado. Vivia escrevendo histórias horríveis sobre o Número Um. Sam,
porém, achava que Enid desconfiava dele.
— Vingança é uma coisa que pode acabar se voltando contra a gente,
Sam – disse ela uma tarde, quando ele a encontrou por acaso na calçada
perto do parque. – O insulto não vale o risco de punição. E no fim
alguém acaba aprendendo que o carma tem uma forma surpreendente de
resolver essas situações. É só sentar e esperar.
Preparando-se para o inevitável, Sam entrou no escritório da mãe.
— Que foi que houve?
Ela sacudiu a cabeça e abriu os braços, puxando-o meio sem jeito
para o seu colo.
— Morreu um amigo nosso.
— Ih – disse Sam, aliviado. – Quem foi?
— Billy Litchfield. Ele conhecia a Sra. Houghton.
— Aquele careca – disse Sam – que vivia acompanhando a Annalisa
Rice.
— Isso – disse Mindy. Recordando-se da cena que tinha acabado de
acontecer com o Paul Rice na portaria, voltou a ficar furiosa. Vou
contar à Annalisa o que houve com o Billy, eu mesma, pensou Mindy.
Beijando Sam e dispensando-o, ela foi à portaria imbuída de uma
determinação cruel.
Enquanto subia no elevador, percebeu que, como Paul sabia da morte
do Billy, Annalisa também provavelmente já sabia. Mas mesmo assim Mindy
queria ver como ela tinha recebido a notícia, torcendo para a Annalisa
estar super deprimida; estava achando que agora, que o Billy tinha
morrido, talvez os Rice saíssem de Nova York e voltassem para
ONE FIFTH AVENUE – CANDACE BUSHNELL 228
TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Washington, que era o lugar deles. Ou talvez se mudassem para algum
lugar mais distante, outro país. Se fossem embora, ela não cometeria o
mesmo erro duas vezes com relação ao apartamento. Dessa vez, ela, Enid
e Phylip o dividiriam, e com todo o dinheiro que o James ia ganhar, por
fim, podia ser até que pudessem pagar.
Maria abriu a porta. Mindy olhou-a com raiva. Esses ricos, pensou
Mindy, sacudindo a cabeça. Nem mesmo querem se incomodar de abrir suas
próprias portas.
— A Sra. Rice está? – perguntou ela.
Maria levou o dedo à boca.
— Está dormindo.
— Vá acordá-la. Tenho uma coisa importante a lhe dizer.
— Não gosto de fazer isso, madame.
— Vai logo! – gritou a Mindy. – Eu sou a presidente do condomínio.
Maria recuou, assustada, e enquanto subia as escadas, correndo,
Mindy entrou no apartamento. Tinha mudado drasticamente desde que ela
tinha entrado ali para bisbilhotar no Natal, e não se parecia mais com
um hotel. Embora Mindy nada soubesse a respeito de decoração, sendo uma
dessas que deixam de reparar no ambiente cinco minutos depois, até
mesmo ela era capaz de avaliar a beleza da obra de Annalisa. O segundo
andar do triplex agora era lápis lazúli, e no centro havia uma mesa
redonda com incrustações de mármore na qual se via um enorme arranjo de
flores de macieira. Por um momento, Mindy esperou no segundo patamar,
mas quando viu que não vinha nenhum barulho das escadas, subiu até a
sala de estar. Ali havia uma série de sofás e divãs convidativos de
veludo azul e amarelo pastel, e um imenso tapete de seda com um desenho
de volutas de vários tons maravilhosos de laranja, rosa, creme e azul.
Annalisa Rice estava demorando a se levantar demais, pensou Mindy,
irritada, e sentou-se em um sofá forrado de pelúcia. Era estofado de
ONE FIFTH AVENUE – CANDACE BUSHNELL 229
TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
penugem, tão macio que Mindy afundou nas almofadas. Cortinas de seda
listrada pendiam das janelas francesas e se amontoavam elegantemente no
chão, e espalhados pela sala viam-se mesinhas e mais arranjos florais.
Mindy suspirou. Se ao menos ela soubesse que o livro do James ia fazer
tanto sucesso, refletiu, arrependida. Aí aquela sala poderia ter sido
toda sua.
No último andar do triplex, Maria estava batendo à porta do quarto
da Annalisa. Annalisa esfregou a testa, desejando que a Maria fosse
embora, mas ela passou a bater de forma cada vez mais insistente.
Resignada, levantou-se da cama de dossel. Estava torcendo para poder
descansar mais, pois desde a prisão do Sandy Brewer, não tinha quase
dormido. Billy também estava certo de que ia ser preso, mas depois da
sua conversa com ele, não tinha atendido mais o telefone. Annalisa
tinha passado pelo menos cinco vezes no apartamento dele, mas ele não
atendia o porteiro eletrônico. Nem mesmo a Connie estava falando com
ela, nem com ninguém, aliás.
— Não sei mais quem são meus amigos – disse Connie. – Alguém nos
dedurou. Pelo que sei, pode ter sido você. Ou o Paul.
— Deixa de besteira, Connie. Nem eu nem o Paul teríamos qualquer
interesse em prejudicar você nem o Sandy. Naturalmente, está com medo.
Mas não sou sua inimiga. – Porém, essas suas argumentações não tinham
surtido efeito, e Connie havia desligado, dizendo-lhe para não ligar de
novo, pois seu advogado os havia proibido de falar com todo mundo. Paul
era o único que misteriosamente parecia não estar se sentindo abalado,
ou, ao contrário, corrigiu Annalisa, parecia que tinha até se animado.
Tinha se tornado menos ensimesmado e misterioso, e finalmente
concordado em permitir que fotografassem o apartamento para a capa da
revista Architectural Digest. O único obstáculo é que ela ainda
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
precisava obter permissão do prédio para que os equipamentos
fotográficos fossem trazidos até ali pelo elevador de serviço.
Calçando um par de chinelos de veludo e um roupão pesado de seda,
ela abriu a porta do quarto.
— Tem uma senhora lá embaixo – disse Maria, olhando sobre o ombro,
nervosa.
— Quem? – disse Annalisa.
— Aquela senhora. Do edifício.
— Enid Merle?
— A outra. A malvada.
— Ah, a Mindy Gooch. – O que a Mindy queria agora? Provavelmente
tinha alguma reclamação recente a fazer contra o Paul. O que era
atrevimento dela, considerando-se que Paul desconfiava que Sam havia
cortado os cabos. Annalisa ficou cética. “Você, desconfiado de um
menino de treze anos?”, tinha zombado ela. “Isso não tem cabimento.”
E naquele momento disse à Maria:
— Faz café, por favor, Maria. E prepara uns croissants daqueles
gostosos.
— Sim, patroa – disse Maria.
Annalisa escovou os dentes com toda a calma e lavou cuidadosamente
o rosto. Vestiu uma blusa branca folgada e calças azul-marinho e
colocou o anel de brilhante que Paul tinha lhe dado no dedo anular da
mão direita. Desceu, e ficou irritada ao ver Mindy sentada
confortavelmente na sala de estar, examinando uma caixa de cartões
vitoriana de prata.
— Alô – disse Annalisa, formalmente. – Maria vai nos servir café na
sala de desjejum. Venha comigo, por favor.
Mindy levantou-se, recolocando o objeto na mesa de canto. Muito
bem, pensou ela, segundo Annalisa pelo apartamento. Annalisa tinha
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
mesmo se comportando como uma grã-fina, mas isso era típico de gente
endinheirada; no final, sempre achavam que eram melhores que todos os
outros. Fazendo um gesto para Mindy se sentar, Annalisa serviu café em
duas xícaras de porcelana com beiradas esmaltadas.
— Açúcar? – indagou. – Ou gosta de adoçante?
— Açúcar – murmurou Mindy, franzindo o cenho. Pegou a colherzinha
minúscula de prata e encheu várias colheres, despejando-as na xícara. –
Decorou o apartamento muito bem. Está lindo – elogiou, relutante.
— Obrigada – disse Annalisa. – Vai ser fotografado para a capa da
Architectural Digest. Eles vão precisar usar o elevador de serviço. Vou
informar ao síndico a data, com antecedência. – E olhou Mindy direto
nos olhos. – Presumo que não vá se opor a isso.
— Acho que não tem problema – disse Mindy, incapaz de encontrar uma
objeção razoável.
Annalisa concordou, e tomou um gole de café.
— E agora, o que posso fazer por você?
— Então não sabe ainda? – disse Mindy. E semicerrou os olhos, na
expectativa de saborear o efeito do golpe que estava para desfechar. –
Billy Litchfield morreu.
A mão de Annalisa paralisou-se, mas depois ela calmamente tomou
novo gole de café. Enxugou os lábios delicadamente com um guardanapinho
de linho.
— Mas que pena – disse ela. – O que houve?
— Ninguém abe. Schiffer Diamond encontrou-o morto em seu
apartamento ontem à noite. Mindy olhou de relance para Annalisa,
surpresa por ela não estar demonstrando a menor reação à notícia. Havia
olheiras azuladas sob seus olhos, mas suas íris cor de cinza-ardósia
fitavam-na friamente, quase desafiadoras, pensou Mindy. – Os fotógrafos
se aglomeraram em frente à portaria – disse ela. – Todos sabem que você
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
e Billy eram bons amigos. E você sai sempre nas colunas sociais. Então
pode ser que queira ficar fora de circulação uns dias.
— Obrigada – disse Annalisa. E recolocou a xícara no pires. – Mais
alguma coisa? – indagou.
— Acho que não – disse Mindy, perdendo de repente a coragem de
falar que Paul a havia agredido naquela manhã, ou de comentar o fato de
que Mindy queria que saíssem do prédio.
— Então, passar bem – disse Annalisa. A entrevista havia claramente
terminado, e Mindy também foi obrigada a se levantar. À porta, ela se
virou, uma vez mais querendo falar do Paul e do seu comportamento, mas
o rosto de Annalisa estava impassível.
— Sobre o Paul – começou Mindy.
— Hoje não – disse Annalisa. – E nem em nenhum outro dia. Obrigada
pela visita. – E fechou firmemente a porta. Lá fora, no pequeno
corredor. Mindy ouviu-a trancar a porta.
Depois que Mindy já tinha ido embora, Annalisa subiu correndo as
escadas e agarrou a BlackBerry. Estava para ligar para o Paul, quando
viu a mensagem de texto dele. Então ele também já sabia. Ao descer, foi
para a sala de estar e afundou em uma poltrona. Sentiu um desejo
urgente de ligar para alguém, qualquer um, para lamentar a morte do
Billy, mas percebeu que não tinha com quem falar. Todos que ela
conhecia nesse mundo eram amigos do Billy e da Connie, e relativamente
estranhos. Billy tinha sido mais do que um melhor amigo, porém. Tinha
sido seu guia e conselheiro, tinha tornado aquele mundo divertido e
interessante. Sem ele, ela não sabia o que iria fazer. E agora, para
quê tudo aquilo? Inclinou-se para a frente, apoiando a cabeça nas mãos.
Maria entrou na sala.
— Sra. Rice? – chamou.
ONE FIFTH AVENUE – CANDACE BUSHNELL 233
TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Annalisa imediatamente endireitou a coluna e alisou a pele sob os
olhos.
— Estou bem – disse ela. – Só preciso ficar sozinha um momento.
Um andar abaixo, Enid Merle empurrou o portãozinho que separava seu
terraço do de Philip, e bateu na porta envidraçada dele. Philip abriu-a
parecendo, como parecia desde que tinha voltado de Los Angeles,
extremamente infeliz. Enid não sabia se era aquele seu relacionamento
com a Lola o que o estava deixando deprimido, ou se era o fato de que
estavam vendo a Schiffer Diamond em toda parte da cidade com o Derek
Brumminger.
— Já ouviu a notícia? – indagou ela.
— E agora, o que foi?
— Billy Litchfield morreu.
Philip levou as mãos aos cabelos.
Lola saiu do quarto de camiseta e cuecas samba-canção do Philip.
— Quem morreu? – indagou ela, interessada.
— Billy Litchfield – murmurou Philip.
— Eu conheço? – perguntou Lola.
— Não – respondeu Philip, rispidamente.
— Tá bem – disse Lola. – Não precisa gritar.
— Schiffer encontrou o corpo – disse Enid, falando com Philip. –
Imagina só. Precisar telefonar para ela.
— Schiffer Diamond encontrou o corpo? – exclamou Lola,
entusiasmada. E passou correndo por Enid e Philip, indo até o terraço e
olhando por cima da beirada. Havia uma multidão de fotógrafos e
repórteres em frente à portaria, e ela reconheceu o alto da cabeça do
Thayer Core. Porcaria, pensou ela. Thayer provavelmente ia ligar para
ela a qualquer momento pedindo informações, e ela ia precisar passar o
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
que sabia para ele. Se não passasse, ele ameaçaria outra vez publicar o
roteiro inacabado do Philip, e o Philip ficaria furioso.
Ela voltou para dentro.
— Vai ligar para a Schiffer? – perguntou a Philip.
— Vou – disse Philip. E entrou no escritório, fechando a porta.
Enid olhou para Lola e sacudiu a cabeça.
— E agora, o que é? – perguntou Lola, invocada. Enid só voltou a
sacudir a cabeça e voltou para o seu apartamento. Lola sentou-se no
sofá, amuada. Philip tinha acabado de superar o baque de ver suas
coisas todas fora do lugar, e não batia mais as portas dos armários
toda vez que estava na cozinha. Mas agora aquele tal do Billy
Litchfield tinha morrido, e Philip ia ficar mal-humorado de novo. Tudo
acabava sendo culpa da Schiffer Diamond. Philip ia ter que prestar
atenção nela, e Lola ia precisar imaginar alguma coisa para se livrar
dela de novo. Lola deitou-se no sofá, esfregando distraidamente a
barriga. Ahá, pensou. Já sabia o que fazer: ia engravidar.
Philip saiu do escritório, entrou no quarto e começou a se vestir.
Lola seguiu-o.
— Falou com ela? – indagou.
— Sim – disse Philip, tirando uma camisa do armário.
— E aí? Como ela está?
— Como você acha? – indagou Philip.
— Aonde está indo agora? – perguntou Lola.
— Visitá-la.
— Posso ir? – perguntou Lola.
— Não – disse Philip.
— Por que não?
— Ela está trabalhando. Numa locação. Não é apropriado.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— Mas e eu? – indagou Lola. – Também estou transtornada, olha. – E
estendeu as mãos. – Estou tremendo.
— Agora não, Lola, por favor – disse ele, empurrando-a e saindo do
apartamento.
Dito e feito, o telefone dela começou a soltar bips momentos
depois, anunciando uma mensagem de texto do Thayer Core. “Acabei de ver
o Philip saindo do edifício. Q é q há?”
Lola pensou um momento, e, percebendo que tinha uma oportunidade de
tornar a vida da Schiffer mais difícil, escreveu: “Foi falar com a
Schiffer Diamond. Ela está trabalhando em uma locação em algum ponto da
cidade.”
No apartamento ao lado, Enid também estava se preparando para sair.
Suas fontes haviam-na informado de que Billy era suspeito de
envolvimento na venda da cruz ao Sandy Brewer, embora o envolvimento do
Billy Litchfield não fosse a única coisa que a tivesse deixado perplexa.
Desceu até a portaria, passando pelo apartamento dos Gooch. Lá
dentro, a Mindy estava ao telefone, falando com o escritório.
— Não vou trabalhar hoje – informou ela. – Um grande amigo meu
faleceu inesperadamente, e estou transtornada demais para sair de casa.
– Desligou e abriu um arquivo novo para o blogue, já decidida a usar a
morte do Billy como tema. “Hoje, oficialmente entrei na meia-idade”
escreveu. “Não vou esconder a verdade. Em vez disso vou anunciar de
cima dos telhados: sou uma mulher de meia-idade. A morte recente e
precoce de um de meus mais queridos amigos me mostrou o inevitável.
Finalmente atingi a idade em que os amigos começam a morrer. Não os
pais, todos esperamos isso. Mas os amigos. Nossos iguais. Minha
geração. E isso me fez questionar quanto tempo mais eu terei de vida, e
o que vou fazer com esse tempo.”
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Atravessando a rua, Enid bateu à porta da Flossie Davis, e depois
entrou com sua própria chave. Ficou surpresa de encontrar a Flossie
fora da cama, sentada na sala de estar, olhando pela janela a comoção
em frente ao Número Um da Quinta Avenida.
— Estava pensando quanto tempo você levaria para vir até aqui –
disse Flossie. – Está vendo? Eu tinha razão o tempo todo. A cruz estava
no apartamento da Louise Houghton. E ninguém acreditou em mim. Não sabe
o que tem sido saber a verdade esses anos todos sem que ninguém
acreditasse. Você não sabe...
— Chega – disse Enid, interrompendo-a. – Nós duas sabemos que você
é que roubou a cruz. E a Louise descobriu, fazendo você entregar a cruz
a ela. Por que ela não te denunciou? O que sabe sobre ela?
— E você se considera uma colunista social – disse Flossie,
estalando a língua. – Para ser quem é, levou um tempão para descobrir
isso.
— Por que a roubou?
Flossie prendeu o riso.
— Por que eu a queria. Era tão bonita! E estava ao meu alcance. E
só ia ficar trancafiada naquele museu idiota com todas as outras coisas
mortas. E a Louise me viu pegando-a. Eu não sabia que ela havia me
visto até ir ao desfile da Pauline Trigère. Louise sentou-se ao meu
lado, coisa que nunca tinha feito antes. “Sei o que tem na bolsa”,
murmurou. Louise já era assustadora naquela época. Tinha aqueles olhos
azuis estranhos, quase cinzentos. “Não sei do que está falando”,
respondi. Na manhã seguinte, Louise desceu ao meu apartamento. Eu
estava morando no apartamento do Philip naquele tempo. Ele não tinha
nascido ainda. E você trabalhava na redação do jornal e não prestava
atenção a ninguém que não fosse você mesma.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Enid concordou, lembrando-se. Como a vida era diferente naquele
tempo! Família inteiras moravam em um apartamento de dois quartos,
dividindo um banheiro, mas a família deles tinha tido sorte. Seu pai
tinha comprado os dois apartamentos um ao lado do outro, e estava para
transformá-los em um só apartamento grande quando subitamente morreu de
enfarte, deixando um apartamento para Enid e o outro para Flossie e sua
filhinha. “Louise acusou-me de levar a cruz”, disse Flossie,
continuando a história. “Ameaçou me entregar à polícia. Disse que eu ia
ser presa. Sabia que eu era viúva, e que estava tentando criar a minha
filha. Disse que ia se apiedar de mim se eu lhe entregasse a cruz.
Depois ia recolocá-la no museu, e ninguém ia ficar sabendo.
— Mas ela não a devolveu – disse Enid.
— Isso – disse Enid. – Porque queria a cruz para si. Queria a cruz
desde o começo. Era uma gananciosa. Além disso, se tivesse devolvido a
cruz ao museu, não teria sido possível usá-la para me calar.
— Você conhecia algum segredo dela – disse Enid. – Mas o que era?
Flossie olhou em torno de si, para ver se alguém poderia escutá-la.
Deu de ombros, depois inclinou-se para diante na cadeira de rodas.
— Agora que ela morreu, não pode mais me causar mal. Portanto, por
que não contar? Por que não contar ao mundo inteiro? Louise era uma
assassina.
— Ai, Flossie – disse Enid, sacudindo a cabeça, pesarosa.
— Não acredita? – disse Flossie. – Mas acontece que é verdade. Ela
matou o marido dela.
— Todos sabem que ele morreu de infecção causada por estafilococos.
— E foi isso que a Louise fez as pessoas acreditarem. E ninguém
nunca a questionou porque ela era Louise Houghton. – Flossie começou a
chiar de empolgação. – E todos se esqueceram, mas lembra aquele tempão
que ela passou na China antes de vir para Nova York? Será que alguém
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
algum dia quis descobrir o que ela plantava no terraço? O que havia na
estufa dela? Eu quis. E um dia descobri. “Beladona”, disse eu. “Se você
me entregar, eu te entrego também.” E ela não ousou mais devolver a
cruz. Sem ela, teria ficado sem ter o que usar contra mim, para calar
minha boca.
— Não faz sentido – disse Enid.
— Quem disse que precisava fazer sentido? – disse Flossie. – Sabe
perfeitamente por que foi. Louise não queria sair daquele apartamento.
Era seu orgulho e sua alegria. E depois de ter gasto um milhão de
dólares para reformá-lo e deixá-lo como ela queria, e todos passarem a
chamá-la de rainha da sociedade, vem o marido e diz que quer vendê-lo.
E ela não tinha como evitar. Ele é que era o dono do dinheiro, e o
apartamento estava no nome dele. Sempre tinha sido precavido.
Provavelmente já tinha descoberto quem era a verdadeira Louise. E
batata, ela o mandou fazer aquela viagem, e duas semanas depois, ele já
estava morto.
— Sabe que não está segura ainda – disse Enid. – Agora que a cruz
foi descoberta, vão reabrir o caso. Alguma outra pessoa pode ter visto
você levar a cruz. Talvez algum guarda, que ainda esteja vivo. Você
ainda pode ser presa.
— Você nunca disse coisa com coisa! – replicou Flossie, indignada.
– A Louise subornou os guardas. Quem é que vai contar à polícia, você?
Você entregaria sua própria madrasta? Se fizer isso, vai precisar
contar a história toda. Que Louise era uma assassina. Nunca vai fazer
isso. Não ousaria. Vai fazer tudo que puder para preservar a reputação
daquele edifício. Eu não me surpreenderia se você mesma cometesse
suicídio. – Flossie respirou fundo, preparando-se para novo ataque de
chiadeira. – Nunca entendi gente como você. É só uma porcaria de um
edifício. Tem milhões deles em Nova York. Agora vai embora. – E Flossie
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
começou a chiar. Depois de Enid ter ido buscar um copo d’água e se
certificar de que o ataque tinha passado, saiu.
Fora do prédio, Enid ficou parada na calçada em frente ao Número
Um, contemplando o edifício. Tentou vê-lo da mesma forma que Flossie o
via, como apenas mais um edifício, mas não foi possível. O Número Um
era como uma obra de arte viva, exclusiva e maravilhosamente
trabalhada, posicionada perfeitamente no fim da Quinta Avenida, nas
proximidades, porém não perto demais, do Parque Washington Square. E
também havia o endereço: “Número Um da Quinta Avenida.” Impecável e
imponente, e implicando uma infinidade de coisas: alta classe, dinheiro
e prestígio e até, pensou Enid, um pouco de magia, aquela magia da vida
real que tornava a vida tão infinitamente interessante. Flossie estava
errada, decidiu Enid. Todos queriam morar no Número Um da Quinta
Avenida, e se não quisessem, era só porque não tinham imaginação. Fez
sinal para um táxi que passava, e sentando-se no banco de trás, deu ao
motorista o endereço da Biblioteca Pública de Nova York.
Alan, o assessor de imprensa, bateu à porta do trailer da Schiffer
Diamond na locação. A agente, Karen, entreabriu-a.
— Philip Oakland está aqui – disse Alan, afastando-se para um lado
para deixar Philip passar. Atrás dele estava um grupo de paparazzi e
duas equipes de telejornal, que haviam descoberto onde era a locação
onde a série ia ser filmada naquele dia, no Instituto Ucraniano da
Quinta Avenida, e depois o trailer da Schiffer em uma transversal.
Billy Litchfield não era de grande interesse para eles, mas Schiffer
Diamond era. Ela havia encontrado o corpo. Era possível que tivesse
algo a ver com aquela morte, ou soubesse algo a respeito dela, ou que
tivesse dado drogas ao Billy, ou tomado drogas ela mesma. No trailer
havia um sofá de couro, uma mesinha, um toucador para maquiagem, um
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
banheiro com ducha e um minúsculo quarto de dormir com uma cama de
solteiro e uma cadeira. O advogado, Johnnie Toochin, que tinha sido
chamado para controlar os danos, estava sentado no sofá de couro,
falando ao telefone.
— Oi, Philip – disse Johnnie, erguendo a mão para cumprimentá-lo. –
Que zona, hein?
— Onde está ela? – perguntou Philip à Karen, que indicou o quarto.
Philip abriu a portinha estreita. Schiffer estava sentada na cama de
roupão de tecido atoalhado, as pernas cruzadas. Estava com um roteiro
nas mãos, de olhar parado, mas ergueu os olhos quando Philip entrou.
— Não sei se vou conseguir fazer isso hoje – disse ela.
— Claro que vai. Você é uma grande atriz – disse Philip. E sentou-
se na cadeira em frente a ela.
— Essa foi uma das últimas coisas que o Billy me disse – disse ela,
e puxou o roupão, apertando-o em torno do corpo, como se estivesse com
frio. – Sabe, se não fosse o Billy, nós talvez nunca tivéssemos nos
conhecido.
— Teríamos nos conhecido sim. Não sei como, mas teríamos.
— Não – disse ela, sacudindo a cabeça. – Eu não teria me tornado
atriz, e não teria participado de Manhã de Verão. Vivo pensando em como
a oportunidade de conhecer uma pessoa pode mudar a vida de alguém. Será
destino ou coincidência?
— Mas você teve essa oportunidade. E a aproveitou.
— Isso, Philip – disse ela. E olhou para ele, com uma expressão
vulnerável. Não tinha aplicado maquiagem ainda. Seu rosto estava lavado
e havia algumas ruguinhas ao redor dos seus olhos. — Vivo imaginando
por que não conseguimos aproveitar a nossa oportunidade de ficar
juntos. E fazer nossa relação dar certo também.
— Eu pisei na bola outra vez, não pisei? – disse Philip.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— Pisou – concordou ela. – E acho que eu também. Todos esses anos,
fiquei pensando, e se...? E se não tivesse ido para a Europa, ou e se
tivesse ido te visitar durante o tempo que você passou em Los Angeles?
— Ou se eu tivesse conseguido acabar meu namoro com a Lola? –
indagou Philip. – Você ainda estaria com o Brumminger?
— E precisa perguntar? – disse Schiffer.
— Preciso – disse Philip. – Acho que nunca consegui fazer a
pergunta certa.
— Será que um dia vai conseguir, Philip? Se não, é melhor acabarmos
com isso agora, neste momento. Eu preciso saber. Quero seguir em
frente, de um modo ou de outro. Quero que as coisas se definam sem
sombra de dúvida.
Philip recostou-se na cadeira, e levou as mãos aos cabelos. Depois
começou a rir.
— No que é que está achando tanta graça? – indagou ela.
— Nisto tudo – disse ele. – Nesta situação. Olha só – disse ele,
sentando-se ao lado dela na cama e pegando-lhe a mão. – Essa
provavelmente é a pior hora para lhe fazer essa pergunta... mas você
quer mesmo se casar comigo?
Ela olhou para a mão dele, e sacudiu a cabeça.
— O que é que você acha, estudante?
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
19
Umas duas horas depois, Schiffer Diamond, maquiada e usando um
vestido longo para a cena no Instituto Ucraniano, saiu do trailer.
Philip ainda estava segurando sua mão, como se não ousasse soltá-la, e
depois que a ajudou a descer os degraus, os fotógrafos aproximaram-se
com as câmeras nas mãos. Philip e Schiffer entreolharam-se e começaram
a correr pela calçada até um furgão que os aguardava. Os paparazzi
foram pegos de surpresa, a multidão acotovelou-se e dois fotógrafos
caíram. Contudo, Thayer Core conseguiu sacar o seu iPhone e tirar uma
foto do feliz casal, que imediatamente enviou a Lola. “Acho que teu
namorado está te traindo”, escreveu.
Lola recebeu a mensagem na mesma hora e tentou ligar para o Philip.
Tinha desconfiado que uma coisa assim podia acontecer, mas agora que
tinha acontecido, não conseguia acreditar nela. Philip não atendeu o
telefone, é claro, portanto ela enviou nova mensagem ao Thayer Core
perguntando onde ele estava. Aí abriu a porta do armário para se
vestir, as mãos tremendo tão violentamente de frustração e raiva que
ela derrubou várias blusas dos cabides. Isso lhe deu uma idéia
perversa, e ela foi até a cozinha, encontrou a tesoura e, tirando
várias calças jeans da prateleira do lado do armário que pertencia a
Philip, cortou-lhes as pernas fora. Tornou a dobrar os jeans cortados,
recolocando-os na prateleira. Depois chutou as pernas deles para baixo
da cama, aplicou maquiagem no rosto e saiu.
Encontrou Thayer atrás de uma barricada policial na rua 79. Por ali
por perto o clima era carnavelesco, com a presença dos paparazzi
chamando a atenção dos passantes, que ficavam parando a toda hora para
descobrir o que estava acontecendo.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— Vou entrar – anunciou Lola, sinistramente, contornando a
barricada. Quatro motoristas de caminhão de elenco bastante avantajados
estavam bloqueando a entrada. — Sou namorada do Philip Oakland –
anunciou ela, tentando explicar por que deviam deixá-la passar.
— Desculpe – disse um dos motoristas, impassível.
— Sei que ele está aí dentro. E preciso falar com ele – lamuriou-se
Lola.
Uma jovem passou entre os curiosos para se aproximar dela.
— Disse que é a namorada do Philip Oakland?
— Isso – confirmou Lola.
— Ele acabou de entrar com a Schiffer Diamond. Pensamos que eles é
que estavam juntos.
— Eu é que sou namorada dele – disse Lola. – Eu moro com ele.
— Está brincando – disse a moça, pondo o celular diante do rosto da
Lola para gravar suas declarações. – Qual é o seu nome?
— Lola Fabrikant. Philip e eu já estamos juntos faz meses.
— E a Schiffer Diamond o roubou de você?
— Sim – disse Lola, percebendo que tinha uma oportunidade de
desempenhar um papel significativo naquele drama. Procurou simular seu
tom de voz mais confuso, para poder ficar à altura da tensão emocional
do momento, e afirmou:
— Hoje de manhã eu acordei e tudo estava bem. Duas horas depois,
alguém me enviou uma mensagem com uma foto dos dois de mãos dadas.
A garota soltou um gritinho de horror.
— Você acabou de descobrir?
— Exatamente. E pode ser até que eu esteja esperando um filho dele.
— Mas ele é um canalha! – declarou a moça, manifestando
solidariedade feminina.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Ao ouvir esse pronunciamento sobre o caráter do Philip, Lola ficou
momentaneamente preocupada, achando que tinha ido longe demais. Não
tinha pretendido dizer que estava grávida, mas ali na hora isso saiu, e
agora ela não podia mais voltar atrás. Além disso Philip tinha mesmo se
comportado como um canalha com ela. E certamente era possível que ela
estivesse grávida.
— Brandon! – gritou a moça, acenando para um dos fotógrafos e
apontando para a Lola. – Ela está dizendo que é namorada do Philip
Oakland. E vai ter um filho dele. Precisamos tirar uma foto. – O
fotógrafo debruçou-se por cima da barricada e tirou uma foto da Lola.
Dentro de segundos, o restante da manada o imitou, assestando as
câmeras nela e tirando fotos. Lola pôs as mãos nos quadris e posou,
bastante desenvolta e feliz por ter tido a idéia brilhante de calçar
sapatos de salto alto e vestir uma capa impermeável. Por fim, sorriu,
sabendo que era crucial que saísse deslumbrante nas fotos que sem
dúvida iriam aparecer em um mundo de sites da Internet em uma questão
de horas.
A morte do Billy não foi considerada suicídio, mas overdose
acidental. Ele não tinha tomado tantas pílulas quanto se suspeitava;
tinha sido a combinação de quatro tipos diferentes de medicamentos que
tinha acabado com a sua vida. Duas semanas depois da sua morte,
mandaram rezar uma missa fúnebre na igreja de Santo Ambrósio, onde
Billy tinha chorado a morte da Sra. Louise Houghton apenas nove meses
antes.
Depois se descobriu que Billy tinha recentemente redigido um
testamento, deixando todos os seus bens terrenos para sua sobrinha, e
solicitando que uma missa fosse rezada na igreja frequentada pela sua
ídola, a Sra. Louise Houghton. Muitas das centenas de pessoas que
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
conheciam Billy compareceram, e embora os Brewer tivessem alegado que
Billy tinha lhes vendido a Cruz da Mary a Sanguinária, não havia,
segundo as pessoas concordavam, nenhuma prova disso, principalmente
quanto Johnnie Toochin revelou que a Sra. Houghton tinha deixado para
Billy uma caixa de madeira cheia apenas de bijuterias. Porém, a caixa
jamais foi descoberta, e portanto a proveniência da cruz permaneceu um
mistério, e a reputação de Billy continuou intacta.
Durante a missa fúnebre, várias pessoas prestaram tributo à sua
memória, dizendo que ele tinha representado uma certa era em Nova York,
e com seu passamento essa era havia se encerrado.
— Nova York não é mais Nova York sem o Billy Litchfield – declarou
um banqueiro de fortuna antiga, que era marido de uma famosa socialite.
Talvez não fosse, pensou Mindy, mas continuava ali, a mesma de
sempre. Como que confirmando esse fato, Lola Fabrikant entrou
precipitadamente lá pelo meio da cerimônia, causando grande alvoroço no
fundo da igreja. Estava de vestido preto de decote cavado, e,
inexplicavelmente um chapeuzinho preto com véu cobrindo-lhe apenas os
olhos. Lola tinha achado que o chapéu a tornaria mais misteriosa e
fascinante e combinava com seu novo papel de jovem desprezada. No dia
após Schiffer e Philip terem sido fotografados juntos, a foto de Lola
já havia saído em três jornais, e houve debates sobre ela em seis
blogues, nos quais o consenso geral foi que ela era uma gracinha e
podia arranjar coisa melhor que o Philip. Mas depois disso, o interesse
por ela rapidamente desapareceu. Agora, embora ela fosse provavelmente
encontrar Philip, Schiffer e Enid, ela e Thayer tinham decidido que ela
devia comparecer à missa do Billy, mesmo que fosse apenas para recordar
as pessoas de sua existência.
Lola tinha concordado relutantemente. Ela poderia enfrentar Philip
e Schiffer se fosse preciso, mas estava morrendo de medo da Enid. No
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
dia em que tinha ido confrontar-se com Philip na locação do Instituto
Ucraniano, tinha voltado ao Número Um da Quinta Avenida depois de ter
sido “acossada” – palavras suas – pelos paparazzi, percebendo que se
ficasse por ali mais um pouco o clima de mistério em torno dela se
desvaneceria. Uma vez segura dentro do apartamento de Philip, esperou
por ele a tarde inteira, analisando e reanalisando a situação, e
desejando que pudesse desfazer todo o malfeito. Recordou-se de que não
sabia se realmente o Philip e a Schiffer estavam juntos; ele podia
apenas estar consolando a amiga, afinal de contas. Porém, mais ou menos
às cinco horas, Enid apareceu no apartamento, aproximando-se de Lola
sorrateiramente, pelas costas, enquanto ela estava na cozinha servindo-
se de mais uma dose de vodca. Lola levou um susto tão grande que quase
deixou a garrafa cair.
— Ah, querida, que bom que você está aí – disse Enid.
— Onde mais eu poderia estar? – indagou Lola, nervosa, tomando um
gole da bebida.
— A questão é onde devia estar? – disse Enid, dando um largo
sorriso e sentando-se no sofá, indicando o lugar ao seu lado com
tapinhas na almofada. – Venha cá, querida – disse a Lola, dando-lhe um
sorriso assustador. – Quero falar com você.
— Cadê o Philip? – replicou Lola.
— Imagino que esteja ainda com Schiffer.
— Por quê?
— Não sabia, querida? Ele é apaixonado por ela. Sempre foi, e,
infelizmente para você, sempre será.
— O Philip lhe pediu para me dizer isso ou foi sua iniciativa?
— Desde esta manhã que não falo com o Philip. Mas falei com várias
outras pessoas que me informaram que você vai aparecer nos jornais
amanhã. Não fique tão surpresa, minha querida – disse Enid. – Trabalho
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
em um jornal. Tenho muitos, mas muitos contatos mesmo, viu? Essa é uma
das vantagens de envelhecer. A gente faz muitos amigos. Tem certeza de
que não quer se sentar?
Lola tentou pedir clemência.
— Ai, Enid – gritou, ajoelhando-ose, e afundando a cabeça no sofá,
envergonhada. – Não foi culpa minha. Uma moça chegou para mim e eu não
sabia o que dizer. E ela então me obrigou a dizer isso, não sei como.
— Calma, calma – disse Enid, acariciando a cabeça da Lola. –
Acontece com todo mundo, pelo menos uma vez na vida. Você era como uma
cobra, que estava para ser atacada por mangusto.
— Isso mesmo – disse Lola, embora não fizesse a menor idéia do que
era um mangusto.
— Eu posso resolver tudo. Só preciso saber se está mesmo grávida,
querida.
Lola sentou-se e tateou ao seu redor, procurando o copo.
— Pode ser que eu esteja – disse, agora desafiadora.
Enid cruzou as pernas.
— Se está mesmo esperando um filho do Philip, sugiro que despeje
essa vodca na pia. Imediatamente.
— Eu já lhe disse – disse Lola. – Não sei se estou grávida ou não.
— Por que não nos certificamos, então? – disse Enid. E pegou uma
caixa de teste de gravidez dentro de um saco de papel.
— Não pode me obrigar a fazer isso – gritou Lola, dando um pulo
para trás, apavorada.
Enid lhe estendeu a caixa. Quando Lola sacudiu a cabeça, Enid a
colocou na mesinha de centro, entre elas.
— Onde está o Philip? – indagou Lola. – Se o Philip soubesse o que
está fazendo...
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— Philip é homem, querida. E infelizmente, ligeiramente fraco.
Principalmente diante de histeria feminina. Os homens simplesmente não
suportam histeria, entende? Eles se desligam. – Enid cruzou os braços
e, olhando Lola da cabeça até os pés, disse, procurando tranquilizá-la.
– Eu só estou pensando no seu bem. Se estiver grávida, vai precisar de
alguém que cuide de você. Naturalmente, vai ter o bebê. Seria
maravilhoso se o Philip tivesse um filho. E vamos cuidar do seu
sustento pelo resto da vida. Eu tenho um quarto extra, e você pode
morar comigo. – E fez uma pausa. – Por outro lado, se não estiver
grávida, vou procurar abafar essa história e evitar que seja divulgada.
Com pouquíssimo prejuízo para você. – Enid deu mais um sorriso
aterrorizante para a Lola. – Mas, como disse, não posso obrigá-la a
fazer o teste. Se não o fizer, porém, vou presumir que não está
grávida. E se não estiver e continuar mentindo que está, vou
transformar sua vida num verdadeiro inferno.
— Não me venha com ameaças, Enid – avisou a Lola. – Quem me ameaça
se arrepende depois.
Enid riu.
— Deixa de bobagem, querida. Ameaças só são eficazes se quem ameaça
tem poder para executá-las. E você, meu amor, não tem. – Ela se
levantou. – Já estou tolerando suas irresponsabilidades há bastante
tempo. Mas hoje você me deixou muito, mas muito zangada mesmo. – Ela
fez um sinal com a cabeça para a mesinha de centro. – Faz o teste.
Lola pegou a caixa. Enid era idosa, mas era ainda a mais malvada
das meninas malvadas que Lola já havia conhecido, e Lola tinha medo
dela. Tanto que realmente fez xixi no indicador plástico e entregou-o à
Enid, que o examinou com uma satisfação austera.
— Sorte sua, minha querida – disse Enid. – Pelo jeito você não
estava grávida, afinal. Se estivesse, podia ser que tudo ficasse mais
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
complicado. Não saberíamos quem era o pai, se era o Philip ou o Thayer
Core. E isso não é jeito de trazer uma criança ao mundo, é?
Lola pensou em reagir de cem modos diferentes, depois do fato. No
momento, encarando a Enid, não conseguia nem pensar no que dizer.
— Considere essa uma oportunidade, querida – disse Enid. – Você tem
só 22 anos. Tem chance de recomeçar. Conversei durante muito tempo com
sua mãe esta tarde, e ela está vindo para cá buscar você e levá-la de
volta para Atlanta. É uma mulher adorável, a sua mãe. Ela deve chegar
dentro de uma hora. Já reservei um quarto para vocês no Four Seasons
para você poder aproveitar sua última noite em Nova York.
— Ah, não – disse Lola, por fim recuperando a fala. Olhou em torno
de si, apavorada, viu sua bolsa ao lado da porta, e apanhou-a. – Não
vou sair de Nova York.
— Seja sensata, querida – disse Enid.
— Não pode me obrigar – berrou Lola. E abriu a porta, sabendo
apenas que precisava fugir dali. Apertou desesperada o botão do
elevador, enquanto Enid se aproximava dela, no corredor.
— Para onde vai? Não tem para onde ir, Lola.
Lola lhe deu as costas, e apertou de novo o botão. Para onde tinha
ido o elevador?
— Não tem dinheiro – disse Enid. – Não tem apartamento, nem
emprego. Não tem escolha.
Lola virou-se para ela outra vez.
— Não me importa.
O elevador chegou, por fim, e ela entrou.
— Vai se arrepender – disse Enid. Quando as portas já estavam se
fechando, Enid tentou mais uma vez dissuadi-la. – Vai ver só – gritou,
acrescentando irritada – Seu lugar não é em Nova York.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Naquele momento, na igreja, Lola se lembrou, feliz, como o plano da
Enid tinha saído pela culatra. Aquela sua afirmativa de que o lugar de
Lola não era em Nova York só a havia deixado ainda mais determinada.
Nas últimas duas semanas, tinha passado por muitas provações, ao voltar
para casa da mãe, que tinha suplicado para Lola ficar em Windsor Pines
e até tentou arrumar para ela um marido, o filho de uma de suas amigas,
que ia se formar em Administração. Mas Lola não quis saber de nada.
Vendeu vários pares de sapatos e duas bolsas pelo eBay, reunindo
dinheiro suficiente para voltar a Nova York. Obrigou Thayer a aceitá-la
no seu apartamento, e por enquanto estava morando com Thayer e Josh
naquele seu buraquinho e dividindo a caminha minúscula do Thayer com
ele. No terceiro dia lá, ela tinha tido um ataque de fúria e chegou a
limpar o banheiro e a pia da cozinha. E depois o Josh, aquele nojento,
pensando que ela era fácil, tinha tentado beijá-la, e ela foi obrigada
a lhe dar uns socos para se livrar dele. Não ia poder ficar com Thayer
muito tempo. Tinha que encontrar um lugar para morar que fosse só dela,
mas como?
Tentou espichar o pescoço, procurando Philip e Enid além das muitas
cabeças que lhe bloqueavam a visão. Viu o penteado da Enid primeiro. O
que ela faria se soubesse que Lola havia voltado para Nova York?
Sentado ao seu lado estava o Philip. Vendo a nuca dele, com aqueles
cabelos compridos e castanho-escuros, tão familiares, ela se recordou
de todas as mágoas e indignidades que tinha sofrido nas suas mãos
também.
Depois de sair correndo do apartamento dele no que seria sua última
noite no Número Um, ela tinha perambulado pelo West Village, analisando
suas opções. Mas depois de duas horas, seus pés começaram a latejar, e
ela percebeu que Enid tinha razão, ela não tinha dinheiro nem lugar
para onde ir. Voltou ao Número Um e viu sua mãe, Philip e Enid
ONE FIFTH AVENUE – CANDACE BUSHNELL 251
TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
esperando por ela. Estavam calmos e a trataram com luvas de pelica,
como se ela fosse uma paciente de sanatório mental que tinha tido uma
crise, e Lola percebeu que não teria escolha senão obedecer e aceitar o
plano deles. Depois precisou aturar a humilhação de ver a mãe ajudando
a fazer suas malas. Philip passou o tempo todo perturbadoramente
distante, como se tivesse se tornado uma pessoa completamente
diferente. Comportou-se como se mal a conhecesse, como se não tivessem
trepado uma centena de vezes, e isso, para Lola, era o maior mistério
de todos. Como é que um homem que tinha posto a cabeça entre as pernas
dela e o pênis dentro da sua vagina e boca, que a havia beijado,
abraçado e feito cócegas na sua barriga, de repente se comportava como
se nada daquilo tivesse acontecido? Indo para o norte da cidade com a
mãe em um táxi, ela irrompeu em lágrimas e chorou sem parar.
— Esse Philip Oakland é um tolo – declarou Beetelle, indignada. – E
a tia é ainda pior. Eu nunca conheci uma mulher tão horrorosa. – E
envolveu a cabeça da Lola com os braços, acariciando-lhe os cabelos. –
Foi bom você ter decidido ir embora e se afastar dessa gente horrível –
disse ela, mas isso fez Lola chorar ainda mais.
O coração de Beetelle estava dilacerado por causa da filha,
recordando-a de seu próprio incidente em Nova York com o médico, quando
ela tinha passado por aquela desilusão. Puxando a filha mais para perto
de si, Beetelle sentiu-se perdida diante daquela angústia da Lola. Era
a primeira vez, percebeu ela, que Lola constatava uma terrível verdade
da vida: não era o que parecia, e os contos de fadas não se tornavam
necessariamente realidade. E não se podia confiar que os homens amassem
a gente.
Na manhã seguinte, Philip veio até o hotel para visitar Lola. Por
um momento, ela ainda sentiu esperança de que ele lhe dissesse que tudo
tinha sido um engano, e que ele, na verdade, a amava. Mas quando ela
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
abriu a porta, a expressão dele lhe revelou que ele não havia mudado de
idéia. Aliás, como que para mostrar que estava decidido, trazia debaixo
do braço o Post e o Daily News. Eles desceram até o restaurante, e
Philip colocou os jornais na mesa.
— Quer ler? – indagou ele. Ela queria, é claro, mas não queria lhe
dar mais munição.
— Não – respondeu ela, insolente, como se estivesse acima daquelas
coisas.
— Escuta, Lola – começou ele.
— Por que veio até aqui? – perguntou ela.
— Eu te devo desculpas.
— Pois eu não quero suas desculpas.
— Cometi um engano com você. E gostaria que me perdoasse. Você é
jovem, eu devia ter me tocado. Nunca devia ter permitido que nosso
relacionamento continuasse. Devia ter terminado tudo antes do Natal.
Lola sentiu um vazio no estômago. O garçom trouxe o desjejum deles,
ovos Benedict, e Lola olhou o prato, perguntando-se se um dia ia poder
voltar a comer. Então todo o seu relacionamento com o Philip era
mentira? Aí entendeu:
— Você me usou – acusou-o.
— Ah, Lola – suspirou Philip. – Nós nos usamos mutuamente.
— Eu te amava – disse Lola, furiosa.
— Não, não amava – disse Philip. – Você amava um Philip idealizado.
Tem uma grande diferença.
Lola jogou o guardanapo sobre o seu prato de ovos.
— Deixa eu te dizer uma coisa, Philip Oakland. Eu te odeio. E vou
sempre te odiar. Pelo resto da vida. Nunca mais chegue perto de mim.
E com a cabeça bem erguida, levantou-se e saiu do restaurante,
deixando Philip ali sozinho, envergonhado.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Um pouco depois, saiu do hotel com a mãe, imaginando se algum dia
iria se recuperar. Quando chegaram ao aeroporto, porém, ela comprou os
jornais; e vendo sua foto na terceira página do Post, com uma breve
matéria sobre Philip dizendo que ele tinha terminado o namoro com ela e
preferido a Schiffer Diamond, começou a sentir-se melhor. Não era uma
qualquer. Era Lola Fabrikant, e um dia iria mostrar ao Philip e à Enid
que tinham cometido um grande erro subestimando-a.
Enquanto observava o banco onde Enid e Philip estavam sentados, viu
Schiffer Diamond ao lado do Philip, e ao lado dela Annalisa Rice, de
cabelos castanho-avermelhados. Alguns bancos atrás deles estavam aquela
abominável Mindy Gooch com seus cabelos louros cortados bem curtos e
duros de laquê, e o marido James Gooch, com aquela calva bonitinha dele
no alto da cabeça. Ah, James Gooch, pensou Lola. Tinha se esquecido do
James Gooch, que pelo jeito tinha voltado da sua excursão para promover
o livro. Agora estava ali, sentado diante dela, como que enviado pela
Providência Divina. Ela pegou o iPhone. “Estou atrás de você aqui na
igreja”, foi a mensagem de texto que enviou.
O texto levou um minuto para chegar até o aparelho dele. Ouvindo o
bip, ele virou ligeiramente a cabeça e apalpou o bolso, procurando o
telefone. Mindy olhou-o furiosa. James deu de ombros, escabriado, e
subrrepticiamente leu a mensagem. A pele da sua nuca ficou vermelha, e
ele desligou o aparelho.
“Sinto saudades suas” foi a mensagem que Lola lhe enviou a seguir.
“Vamos nos encontrar no Mews às três.”
Uma hora depois James Gooch estava a um canto da sala de estar
lotada dos Rices, e, olhando em torno de si para ter certeza de que a
Mindy não estava em algum lugar ali observando-o, releu a mensagem da
Lola, com o estômago latejando de nervosismo e curiosidade. Ao sair da
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
igreja, tinha procurado por ela, mas ela já estava do lado de fora,
posando para os fotógrafos. Pensou em falar com ela, mas Mindy
rapidamente o puxou para longe. Neste momento, conferindo o relógio,
viu que já eram quase três horas. Passando entre os convidados,
procurou Mindy. Um garçom passou por ele com uma bandeja de caviar
amontoado sobre minúsculos blintzes, e James meteu dois na boca. Um
outro garçom lhe tornou a encher a taça de champanhe com uma garrafa de
Dom Perignon. Annalisa Rice tinha resolvido homenagear o Billy em
grande estilo, convidando pelo menos duzentas pessoas para irem ao seu
apartamento para lamentarem um pouco mais sua morte. A súbita morte do
Billy tinha deixado James chocado, e ao voltar de avião de Houston, ele
havia até lido o blogue da Mindy sobre o assunto; para variar, precisou
dar a mão à palmatória e concordar com ela. A morte de um amigo
realmente fazia a gente perceber que a vida era finita, e não havia
mais muito tempo para ser jovem, ou mesmo juvenil.
Mas a morte do Billy tinha sido apenas um em uma série de
acontecimentos bizarros que tinham se desencadeado sobre o Número Um
durante a sua ausência. Houve o Fiasco da Internet, e a descoberta da
Cruz da Mary a Sangüinária, que todos postulavam que antes estava
escondida no apartamento da Sra. Houghton. Aí a overdose do Billy. E a
afirmativa da Lola de que estava esperando o filho do Philip Oakland,
que tinha resolvido romper o namoro para ficar com a Schiffer Diamond.
Segundo a Mindy, Philip Oakland e Schiffer Diamond estavam para
anunciar, em breve, que iriam se casar, depois de um período apropriado
de luto. Tudo aquilo era ligeiramente absurdo, pensou James, e a
coitada da Lola Fabrikant, como ficava? Será que alguém se importava
com o que ia acontecer com ela? Ele ficou imaginando isso, mas não
ousava perguntar.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Agora ia descobrir. Vendo a Mindy na sala de jantar falando com
Enid (pois tinham voltado a ser amigas, pelo visto, concentradas numa
discussão profunda sobre seu tópico predileto, o Nümero Um da Quinta
Avenida), ele fez um sinal com a cabeça para ela, tentando lhe chamar a
atenção.
— Sim? – respondeu ela, secamente.
— Vou dar uma volta com o Skippy – disse ele, bem alto para poder
ser ouvido.
— Por quê? – indagou ela.
— Por que ele precisa sair.
— Você é quem sabe – disse ela, revirando os olhos e voltando a
conversar.
James tentou sair sem ser percebido, mas foi abordado pelo Redmon
Richardly, que estava falando com a Diane Sawyer. Redmon agarrou-o pelo
ombro.
— Conhece o James Gooch? – disse ele. – O livro dele já está na
lista de mais vendidos do New York Times faz cinco semanas. – James
cumprimentou Diane, e já estava para sair, quando foi interceptado pelo
editor-chefe da Vanity Fair, que queria conversar com ele sobre um
artigo que queria que ele escrevesse sobre a morte do Billy. Quando
James finalmente conseguiu sair do seu apartamento, já eram três e dez.
Ele agarrou o Skippy e correu para a esquina, para chegar ao Mews.
Andando devagar na minúscula rua pavimentada com paralelepípedos, a
princípio não a viu. Depois ouviu-a chamando seu nome, e ela saiu das
sombras de uma portaria sob ramos de trepadeira. Por um segundo, James
se assustou ao vê-la aparecer. Depois da missa fúnebre, ela devia ter
ido até em casa e trocado de roupa, porque agora estava com jeans sujos
e um parka de esquiador vermelho velho. Mas estava com aquela mesma
expressão suave e lisonjeadora que sempre o fazia sentir-se admirado e
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
lhe dava vontade de protegê-la. Skippy pulou na perna dela e ela riu,
abaixando-se para fazer festa no cachorrinho.
— Estava imaginando o que teria sido de você – disse James. – Está
se sentindo bem?
— Ai, James – disse ela. – Estou tão feliz de te ver! Tinha medo
que não viesse. Todos ficaram do lado do Philip, e perdi todos os meus
amigos. Nem mesmo tenho onde morar.
— Não está dormindo na rua, está? – perguntou James, horrorizado,
uma vez mais olhando para suas roupas.
— Andei dormindo no sofá de um amigo – disse ela. – Mas sabe como
é, não posso ficar lá para sempre. E não posso ir para Atlanta, voltar
a morar com a minha família. Não tenho mais para onde ir, mesmo que
quisesse voltar para lá. Meus pais empobreceram.
— Meu Deus – disse James. – como é que o Oakland teve coragem de
fazer isso contigo?
— Ele não gosta de mim. Nunca gostou. Me usava só quando queria
trepar, e quando se cansou de mim, voltou para a Schiffer Diamond.
Estou mesmo sozinha, James – disse ela, agarrando-lhe a manga do terno
como se tivesse medo que ele tentasse se afastar. – Estou apavorada.
Não sei o que fazer.
— A primeira coisa que precisa fazer é encontrar um apartamento. Ou
um emprego. Ou os dois – disse James, firmemente, como se essas coisas
fossem fáceis. Sacudiu a cabeça, incrédulo. – Ainda não consigo
acreditar que o Philip Oakland te rejeitou sem nem mesmo te dar um
pouco de dinheiro.
— Ele não me deu nada – disse Lola. Estava mentindo, pois Philip
havia enviado um cheque de dez mil dólares para o apartamento dos pais
dela, e Beetelle tinha enviado o cheque pelo FedEx para ela, usando o
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
endereço do Thayer. Mas James não precisava ficar sabendo. – Philip
Oakland não é o que as pessoas pensam que é – afirmou ela.
— Ele é exatamente o que sempre pensei que ele era – respondeu
James.
Lola olhou para ele, e deu um passo adiante, depois desviou o
olhar, como se estivesse envergonhada.
— Sei que mal nos conhecemnos – disse baixinho – mas estava
pensando em pedir sua ajuda. Não posso apelar para mais ninguém.
— Coitadinha – disse James, acrescentando, ousadamente: — Diga-me o
que posso fazer, que eu faço.
— Pode me emprestar vinte mil dólares?
James empalideceu ao ouvir isso.
— É muito dinheiro – disse, cautelosamente.
— Desculpe – disse ela, recuando. – Não devia tê-lo incomodado. Vou
pensar em outra coisa. Foi legal ter te conhecido, James. Você foi a
única pessoa que me tratou bem no Número Um da Quinta Avenida. Parabéns
pelo seu sucesso. Eu sempre soube que você era um gênio. – E começou a
afastar-se.
— Lola, espere – disse James.
Ela se virou e, dando-lhe um sorriso corajoso, sacudiu a cabeça.
— Vou me virar. Pode deixar, eu dou um jeito de ir sobrevivendo.
Ele a alcançou.
— Quero te ajudar, mesmo – disse ele. – Vou ver se penso em alguma
coisa. – E eles combinaram de se encontrarem sob o Arco do Parque
Washington na tarde seguinte.
James então voltou para a festa, onde imediatamente esbarrou no
diabo em pessoa: James Oakland.
— Desculpe – disse James.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— Ouvi dizer que seu livro está em primeiro lugar na lista – disse
Philip. – Parabéns.
— Obrigado – disse James, secamente. Para variar, segundo notou,
Philip Oakland não parecia estar com pressa de se afastar. James
decidiu encostar o Philip na parede. O mínimo que ele podia fazer era
ajudar a Lola na situação em que ela se encontrava. – Acabei de falar
com a sua namorada – disse ele, acusadoramente.
— É mesmo? – disse ele, confuso. – Quem?
— Lola Fabrikant.
E agora Philip estava com cara de envergonhado.
— Não somos mais namorados – disse ele. E tomou um gole de
champanhe. – Desculpe, será que ouvi bem? Disse que tinha acabado de
falar com ela?
— Isso. No Mews – disse James. – Ela não tem onde morar.
— Ela devia ter ido para Atlanta. Morar com os pais.
— Mas não foi – disse James. – Está em Nova York. – Teria falado
mais, mas Schiffer Diamond aproximou-se e pegou a mão do Philip.
— Alô, James – disse, inclinando-se para beijá-lo no rosto, como se
fossem velhos amigos. A morte, supôs James, realmente irmanava todos. –
Também conhecia o Billy? – indagou. E ele de repente se lembrou de que
ela é que tinha encontrado o corpo, sentindo-se imediatamente um
idiota.
— Meus sentimentos – disse.
— Obrigada – disse Schiffer.
Philip lhe sacudiu a mão.
— James disse que acabou de falar com a Lola Fabrikant. No Mews.
— Ela estava na missa – disse James, tentando explicar.
— Uma pena não termos falado com ela – e Schiffer e James
entreolharam-se. – Com licença – disse Schiffer, afastando-se.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— Foi bom falar com você – disse Philip, seguindo-a.
James tomou mais uma taça de champanhe de uma bandeja e entrou no
meio da multidão. Schiffer e Philip estavam a alguns metros, isolados,
de mãos dadas, balançando as cabeças enquanto conversavam com outro
casal. Pelo jeito, Philip Oakland nem mesmo se sentia culpado pelo que
tinha feito com a Lola Fabrikant, pensou James, enojado. Entrou na sala
de estar, e sentou-se em uma namoradeira forrada de pelúcia, observando
a sala. Estava cheia de nomes importantes, gente do mundo da arte,
representantes da mídia e socialites e fashionistas que constituíam as
classes tagarelas, que haviam definido o mundo dele e da Mindy na
Cidade de Nova York durante os últimos vinte anos. Agora, tendo se
afastado durante um mês, ele tinha uma perspectiva diferente. Todos lhe
pareceram ridículos. Metade das pessoas daquela sala tinham “dado uma
esticada”, inclusive os homens. A morte do Billy era só mais uma
desculpa para dar uma festa, onde eles podiam comer caviar e beber
champanhe e falar dos seus mais recentes planos. Enquanto isso, na rua,
sem teto e provavelmente faminta, estava uma jovem inocente, a Lola
Fabrikant, que tinha sido incluída entre essas pessoas e sumariamente
cuspida quando não correspondeu aos requisitos delas.
Um homem e uma mulher passaram atrás dele, murmurando:
— Ouvi dizer que os Rice têm um Renoir.
— Está na sala de jantar. E é minúsculo. – Fez-se uma pausa seguida
de uma risada estridente. – E custou dez milhões de dólares. Mas é um
Renoir, né? Quem vai se importar?
Talvez ele devesse pedir os vinte mil dólares da Lola Fabrikant à
Annalisa Rice, pensou James. Ela aparentemente tinha tanto dinheiro que
nem sabia o que fazer com ele.
Mas, espera aí um instante, pensou James. Ele agora também tinha
dinheiro, e mais do que esperava. Duas semanas antes, seu agente havia
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
lhe informado que se seu livro continuasse vendendo como estava (e não
havia motivo para achar que não iria continuar), ele ganharia pelo
menos dois milhões em royalties. Apesar dessa notícia fantástica,
quando James voltou a Nova York e sua rotina diária, viu que suas
circunstâncias não haviam mudado nada. Quando acordava, todos os dias,
ele ainda era o James Gooch, casado com Mindy Gooch, vivendo aquela
mesma vidinha naquele apartamentinho esquisito. A única diferença era
que agora, durante as duas semanas da viagem de promoção do livro, não
tinha nada para fazer.
James se levantou e atravessou a sala de estar, saindo no terraço
mais baixo dos três terraços dos Rice. Debruçou-se sobre a grade,
olhando para um lado e para outro da Quinta Avenida. Ela também não
havia mudado nada. Terminou sua taça de champanhe e, olhando para o
fundo da taça, sentiu-se vazio. Para variar, não havia nenhuma espada
de Dâmocles pendendo-lhe sobre a cabeça; não tinha nada de que reclamar
e nada que o fizesse sentir-se humilhado. E mesmo assim não se sentia
satisfeito. Entrando na sala, pelas portas envidraçadas, olhou para a
multidão e desejou ainda estar no Mews com a Lola.
Na tarde seguinte, James encontrou a Lola sob o Arco do Parque
Washigton. Determinado a comportar-se como herói, James passou a manhã
tentando encontrar um apartamento para Lola. Mindy teria ficado chocada
com toda aquela industriosidade, pensou ele, ironicamente, mas Mindy
nunca tinha precisado de sua ajuda, e Lola precisava. Depois de dar
vários telefonemas, a assistente do Redmon Richardly lhe disse que
havia um apartamento que podia ser que estivesse disponível no seu
prédio na rua 18 com 10. O aluguel era de 1.400 dólares por mês por um
quitinete, e depois de procurar a dona, que não só tinha ouvido falar
no seu livro, como tinha lido e adorado o dito cujo, concordou em
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
deixar James ver o apartamento às três. Depois ele foi ao banco, e,
sentindo-se como se fosse um criminoso, sacou cinco mil dólares em
dinheiro. Passeando até o parque, encontrou Lola já esperando por ele.
Ela estava com rímel escorrido sob os olhos, como se tivesse chorado, e
não tivesse nem se importado em lavar o rosto.
— Você está bem? – perguntou ele.
— O que acha? – respondeu ela, amargurada. – Sinto-me como uma
desabrigada. Tudo que possuo está guardado em um depósito, que me custa
150 dólares por mês. Não tenho onde dormir. E o banheiro daquele lugar
onde estou dormindo é um nojo. Sinto medo até de tomar banho lá. Você
conseguiu... ter alguma idéia?
— Eu lhe trouxe um pouco de dinheiro – disse James. – E mais alguma
coisa, uma coisa que vai te deixar mesmo muito feliz. – Fez suspense e
depois disse, orgulhoso: — Acho que encontrei um apartamento para você.
— Oh, James! – exclamou ela.
— Custa só mil e quatrocentos por mês. Se gostar dele, podemos usar
o dinheiro para pagar o aluguel do primeiro mês e para fazer um
depósito.
— Onde é? – perguntou ela, cautelosamente. Quando ele lhe disse,
ela fez cara de decepcionada. – Fica tão longe, a oeste – disse ela. –
Praticamente à margem do rio.
— Você pode vir andando até a Quinta Avenida – garantiu-lhe James.
– Então podemos nos visitar sempre.
Mas Lola insistiu em pegar um táxi. O táxi parou perto de um
prediozinho de tijolos que James desconfiava, devido a sua localização,
que antes tinha sido uma casa de cômodos. Ao nível da rua havia um bar
irlandês. Ele e Lola subiram uma escadaria estreita até um corredor
curto com chão de linóleo. O apartamento era o 3C, e depois de
experimentar a maçaneta, James viu que a porta estava aberta, e entrou
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
com Lola. Era minúsculo, devia ter no máximo 27 metros quadrados, como
um quarto de qualquer casa normal, com um armariozinho apertado, um
banheirinho microscópico com ducha, mas era limpo, claro e localizado
numa esquina, portanto tinha duas janelas.
— Nada mau – disse James.
Lola ficou de coração apertado. Será que tinha caído tão baixo em
apenas nove meses em Nova York?
A senhoria era uma pessoa simples e honesta, de cabelos oxigenados
presos no alto da cabeça, e sotaque novaiorquino. O prédio já estava na
família havia cem anos, e ela só pedia, além do pagamento, que a pessoa
fosse “decente”. Será que James era filha do James? Não, explicou
James, ela era uma amiga que tinha sido rejeitada pelo namorado. A
perfídia dos homnes era um dos tópicos prediletos da senhoria; ela
sempre ficava feliz de poder ajudar uma companheira sofredora. James
então fechou o contrato. O apartamento, declarou ele, o fazia lembrar-
se do seu primeiro apartamento em Manhattan e da sensação de felicidade
que teve quando passou a possuir seu próprio espaço e começou a
progredir em Nova York. Os “bons tempos”, disse ele à senhoria,
entregando-lhe três mil dólares em notas de cem. Os duzentos extras
eram para pagar as contas da Lola.
— Agora você só precisa de uma cama – disse James, quando o
contrato já estava fechado. – Vamos comprar um sofá-cama para você, que
tal? Tem uma Door Store na Sexta Avenida. – E andando para leste, James
notou que ela estava meio carrancuda. – Qual é o problema? – indagou. –
Você não me parece estar contente. Não está aliviada por ter seu
próprio apartamento>?
Lola estava apavorada. Não tinha planejado arranjar apartamento
nenhum, principalmente um lugarzinho deprimente e ordinário como
aquele. Tinha planejado conseguir dinheiro com o James e o Philip, um
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total de trinta mil dólares, e instalar-se no Soho House, onde ela
poderia tornar a tentar ingressar na sociedade de Nova York em grande
estilo. Como é que seu plano tinha se evaporado assim tão depressa? E
três mil dólares já tinham se escoado pelo ralo.
— Eu não esperava que isso acontecesse assim tão de repente – disse
ela.
— Ah – disse James, erguendo um dedo. – Os imóveis de Nova York são
assim. Se não tivéssemos logo fechado o contrato do apartamento, dentro
de uma hora, já teria sido alugado. É preciso agir depressa. – Na Door
Store, James comprou um sofá-cama tamanho queen de tecido azul marinho,
para não manchar nem sujar com facilidade, e Lola sentiu arrepios só de
tocá-lo. Era o que estava como mostruário, exclamou o James, dizendo
que era um excelente preço. E lá se foram mais 1.500 dólares.
James finalmente acompanhou Lola até o apartamento vazio, onde ela
devia esperar os entregadores trazerem a cama.
— Não sei como você conseguiu fazer tudo isso – disse Lola,
debilmente. – Muito obrigada. – E beijou-o no rosto.
— Volto amanhã para ver como você está – disse ele.
— Mal posso esperar – disse Lola. Ainda havia possibilidade de o
lhe dar os 15.000 dólares restantes, mas ela não ousou pedir o dinheiro
naquela hora. Ia ter que esperar para falar com ele no dia seguinte.
Quando ele saiu, ela imediatamente foi ao apartamento do Thayer
Core.
— Já tenho apartamento – informou.
— Como foi que conseguiu? – indagou Thayer, tirando os olhos do
computador, onde estava trabalhando.
— James Gooch encontrou um – disse Lola, tirando o casaco. – E
também pagou o depósito.
— Ele é um idiota.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— Está apaixonado por mim – disse Lola, subitamente encantada por
estar saindo do apartamento do Thayer e do Josh. Thayer estava
começando a ficar impossível, pedindo-lhe para lhe pagar boquetes e
fazendo bico quando ela não o atendia, dizendo que um podre dela e
usaria essa informação se fosse preciso.
— O que é? – indagava ela, zombeteira.
— Você vai ver – respondia ele, vagamente.
— Cala a boca, Thayer. Você é um calhorda.
— Pensei que estivesse querendo voltar para o Número Um. Preciso de
informações.
— Consigo informações através do James.
— E se ele quiser trepar contigo em troca delas?
— Eu trepo contigo, qual é a diferença? – respondeu Lola. – Pelo
menos ele não tem doenças sexualmente transmissíveis.
— Como sabe?
— Eu sei – disse ela. – Faz vinte anos que ele só trepa com uma
mulher. A esposa.
— Talvez ele leve umas putas pra cama de vez em quando.
Lola revirou os olhos.
— Nem todo homem é igual a você, Thayer. Ainda existem homens
decentes.
— Hum-hum – disse Thayer, concordando. – Feito o James Gooch. Um
homem que está a ponto de trair a mulher. Apesar de quê, se eu fosse
casado com a Mindy Gooch, também a trairia.
No dia seguinte, batendo à porta do novo apartamento dela, James
encontrou Lola sentada no sofá-cama sem lençol, chorando.
— O que há de errado agora? – indagou James, chegando perto dela,
cautelosamente.
— Olha só – disse Lola. – Nem mesmo tenho travesseiro.
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— Vou trazer um de casa para você. Minha mulher não vai notar.
— Não quero um travesseiro usado, dos que você tem em casa – disse
Lola, perguntando-se como tinha conseguido o homem mais mão de vaca de
Manhattan como seu protetor. – Seria possível me dar algum dinheiro?
Talvez aqueles quinze mil?
— Não posso dar todo esse dinheiro a você assim de uma vez – disse
James. Minha mulher vai ficar desconfiada. – Depois de pensar muito no
assunto, James tinha resolvido pagar o aluguel da Lola durante seis
meses e lhe dar dois mil por mês para pagar as despesas. – E quando
encontrar um emprego – disse ele – você vai poder se sustentar. Vai ter
muito mais dinheiro do que eu tinha na sua idade.
Dali por diante, James ia ao apartamento toda tarde, levando Lola
para almoçar frequentemente no bar irlandês do térreo, para ter certeza
de que ela ia pelo menos comer bem uma vez por dia, dizia. Depois
ficava no apartamento dela durante algum tempo. Gostava de todo aquele
espaço vazio e do sol que penetrava pelas janelas à tarde, notando que
o apartamento da Lola pegava mais sol do que o seu.
— James – disse ela. – Preciso de uma televisão.
— Você tem o computador – disse James. – Não pode assistir aos
programas nele? Não é o que todo mundo faz hoje em dia?
— Todos têm um computador. E uma tevê.
— Você podia ler um livro – disse James. – Já leu Ana Karênina? ou
Madame Bovary?
— Li, e são muito chatos. Além disso não tenho espaço para livros –
reclamou ela, gesticulando para mostrar que o espaço era pouco.
James lhe comprou uma televisão Panasonic de 16 polegadas, que
colocaram no peitoril da janela.
No dia anterior àquele em que James ia fazer nova viagem de
promoção do livro, ele apareceu no apartamento dela antes da hora do
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costume. Eram onze horas, mas ela ainda estava dormindo, com a cabeça
no travesseiro de penugem de pato que James desconfiava que tinha
custado mais de mil dólares. Quando perguntou quanto tinha custado,
porém, ela disse que tinha comprado o travesseiro numa liquidação, por
cem dólares. Ele não esperava que ela dormisse sem cobertas, esperava?
Não, não esperava, concordou ele, e deixou passar.
— É quase meio-dia – disse. Achou o fato de ela ainda estar na cama
meio irritante, e perguntou-se o que teria feito na noite anterior,
para estar dormindo até meio-dia assim. Ou talvez estivesse deprimida.
– Vou viajar amanhã bem cedinho – informou. – E queria me despedir e
ter certeza de que está bem.
— Quando vem me visitar de novo? – disse ela, espreguiçando-se, com
os braços estendidos na direção do teto. Estava de blusa sem mangas cor
de laranja sem nada por baixo.
— Só daqui a um mês.
— Aonde vai? – perguntou, alarmada.
— Inglaterra, Escócia, Irlanda, Paris, Alemanha, Austrália e Nova
Zelândia.
— Mas que horror!
— Horror para nós, mas bom para o livro – disse ele.
Ela atirou o acolchoado para um lado e bateu com a palma da mão no
colchão.
— Deita aqui, me dá um abraço – disse ela. – Vou sentir saudades
suas.
— Acho que não... – disse James, cautelosamente, apesar de seu
coração estar batendo descompassado.
— É só um abraço, James – disse ela. – Ninguém pode objetar contra
isso.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Ele se deitou na cama ao lado dela, colocando seu corpo comprido de
modo a ficar a vários centímetros de distância dela. Ela virou-se para
encará-lo, dobrando os joelhos de forma a tocar-lhe o saco. O hálito
dela era pungente, com cheiro de vodca e cigarros, e ele se perguntou
uma vez mais onde teria estado na noite anterior. Será que tinha
trepado com alguém?
— Você é engraçado – disse ela.
— Sou?
— Olha só como está – disse ela, rindo. – Tão tenso!
— Não sei se devíamos estar fazendo isso – disse ele.
— Não estamos fazendo nada – replicou ela. – Mas você quer, não
quer?
— Sou casado – sussurrou ele.
— Sua esposa não precisa ficar sabendo.
E foi passando a mão pelo seu peito, até embaixo, tocando-lhe o
pênis.
— Você está de pau duro – disse.
E começou a beijá-lo na boca, metendo sua língua grossa entre os
dentes dele. James ficou assustado demais para resistir. Aqueles beijos
eram tão diferentes dos da Mindy, que eram como bicadas secas e curtas.
Ele não conseguia se lembrar quando tinha sido a última vez em que eles
tinham feito algo assim, maravilhando-se diante do fato de que as
pessoas ainda fizessem isso, que ele ainda pudesse fazer isso, beijar
alguém assim. E a pele de Lola era tão macia, como a de um bebê, pensou
ele, tocando-lhe os braços. O pescoço ela era liso e sem rugas. Ele
experimentou tocar-lhe os seios por cima do tecido da blusa e sentiu
que seus mamilos estavam duros. Rolou, ficando por cima dela, apoiando-
se nos braços para contemplar-lhe o rosto. Será que devia ir em frente?
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
Fazia tanto tempo que não trepava que não tinha certeza de que ainda se
lembrava de como proceder.
— Quero você dentro de mim – disse ela, tocando-lhe o pênis por
cima da calça. – Quero seu pênis grosso na minha vagina molhada.
A mera sugestão desse ato sexual foi demais, e enquanto ele tentava
abrir o zíper, o inevitável aconteceu.
— Droga – disse ele.
— Que foi? – disse ela, sentando-se.
— Eu acabei de... sabe como é – disse ele. E meteu a mão no jeans,
sentindo a umidade delatora. – Merda!
Ela ajoelhou-se atrás dele e esfregou-lhe os ombros.
— Não tem problema. Foi só a primeira vez.
Ele pegou sua mão e levou-a aos lábios.
— Você é um sonho – disse ele. – É a mais encantadora moça que
jamais conheci.
— Sou? – disse ela, pulando da cama. E vestiu calças de caxemira. –
James? – pediu, numa voz melosa. – Como está indo embora e vou ficar um
mês sem te ver...
— Precisa de dinheiro? – disse ele. – E meteu a mão no bolso da
calça. – Tenho só 60 dólares.
— Tem um banco 24 horas ali na delicatessen da esquina. Pode ser?
Devo duzentos dólares à senhoria. Pelas contas. E não quer que eu morra
de fome enquanto você está fora, quer?
— Certamente que não – disse James. – Mas devia tentar arranjar um
emprego.
— Vou tentar – tranquilizou-o ela. – Mas está difícil.
— Não posso te sustentar para sempre – disse ele, pensando na sua
tentativa fracassada de trepar.
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TRADUÇÃO: Celina C Falck-Cook
— Não estou pedindo para você fazer isso – disse ela. – Na calçada,
ela pegou sua mão. – Não sei o que faria sem você.
Ele sacou quinhentos dólares do banco 24 horas e entregou o
dinheiro a ela.
— Vou sentir sua falta – disse ela, jogando os braços ao redor do
pescoço dele. – Liga pra mim no minuto em que voltar. E da próxima vez
vai dar certo – gritou, quando já estava se afastando.
James ficou olhando para ela, depois saiu andando pela Nona
Avenida. Será que a Lola tinha acabado de lhe dar uma rasteira? Não,
tranquilizou-se. Lola não era assim. E tinha dito que queria repetir a
dose. Ele saiu passeando pela Quinta Avenida cheio de confiança. Quando
chegou ao Número Um, já estava convencido de que tinha sido bom ter
ejaculado prematuramente. Não tinha havido troca de fluidos, portanto
não se poderia chamar aquilo de traição.
Гораздо больше, чем просто документы.
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