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Anno 2099

Bruxas não são bonitas. Por definição, elas são mulheres de


nariz comprido e arrebitado, com cabelo negro e chapéu em
forma de cone, de cara cheia de rugas e olhos esbugalhados.
Estes seres odiosos fazem-se transportar de um lado para o
outro a cavalo de vassouras voadoras e preparam poções
mágicas colocando patas e asas de morcego em grandes
caldeirões.

No entanto, aquela era diferente. Conheceram-se, era ele


ainda menino pois, curiosidade imprudente, não resistiu à
chamada da porta entreaberta e ar acolhedor da casa cuja
chaminé expelia as espirais de fumo. Entrou de forma sorrateira
e com cuidado, olhando para todos os lados, os sentidos alerta,
ouvidos atentos ao menor som. A sala estava impecavelmente
arrumada e no canto a lareira e um pote de ferro com água
fervendo serviam de causa última ao vapor que ascendia – nada
que se parecesse de verdade com cenário de bruxas e bruxaria.

“Que fazeis aqui menino?” A voz era doce mas segura.

Faltaram-lhe as palavras certas para responder. Em vez disso


rodou e voltou-se. Preparava-se para fugir com a rapidez de uma
raposa quando a viu, aspecto jovem, exibindo uma beleza
incrível. Na cara longa e sem rugas, as pupilas dos olhos
rasgados tinham a tonalidade pouco comum do azul claro. Os
cabelos, esses eram grandes e lisos, de cor estranha,
avermelhados. Calçava sandálias e vestia uma túnica branca que

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firmava a cintura através do cinto de linho de igual cor. Ficou
hipnotizado, petrificado, sem saber bem o que fazer!.. já não foi
a lugar algum.

“Como vos chamais?”, prosseguiu a voz

“Daniel, um seu servo minha senhora” balbuciou em


resposta

Os olhos olharam-no fixamente, esperando resposta. “Vinde


cá Daniel, quereis um pão? Sabeis o que tenho aqui?” Aquilo era
algo que ele nunca tinha visto. O formato da coisa era
rectangular e na superfície estavam gravados símbolos
estranhos.

“Isto vai ser o nosso segredo. Psiu… não contes a ninguém!”

***

Voltou outra vez e muitas outras vezes. A um canto da sala o


tapete escondia a abertura estreita, entrada para uma escadaria
que desembocava nos corredores subterrâneos. Eles conduziam
a espaço mágico, lugar onde existiam muitos mais blocos
rectangulares de papel e onde a senhora da casa lhe devotou o
tempo ensinando com dedicação e paciência os artifícios da
palavra escrita.

A relação dela com a aldeia era assaz interessante, existindo


tolerância mútua. Tolerância que lhe permitia levar a vida que
queria e bem entendia. Alguns diziam que não era nenhuma
santa, que tivera em tempos homem e família e abandonara

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tudo, que não haveria provavelmente rapaz jovem bem dotado
que desconhecesse toque e ardor daquele corpo alvo, o sabor
de seu leito. Por outro lado, os aldeões tinham-se habituado a
recorrer às suas habilidades e conhecimentos sempre que se
impunha curar toda a espécie de males físicos ou do espírito.

Tudo corria bem. Todos viviam mais ou menos felizes e


ocupados com os seus afazeres e regras e preocupações. Até à
chegada do dia fatídico.

Já tinham ouvido falar deles e suas colunas aterrorizantes,


dos interrogatórios e vários métodos de tortura. Mas não
imaginavam (ninguém poderia imaginar) que fosse como foi.
Chegaram num ápice. A figura encapuçada de olhos cavos,
envergando túnica negra e empunhando o crucifixo com ar
sinistro era seguida pelo séquito de outros, cinzentos e
indistintos. Convocaram as pessoas para a missa e a população
obedeceu - compareceram todos. Tendo lido o “édito”,
ergueram a cruz e fizeram-nos levantar a mão direita em
juramento de apoio à “santa inquisição”. Então, proclamaram os
nomes de todos os culpados de “heresia”. Aterrorizados, os
desgraçados gesticulavam e bradavam frases desarticuladas,
ininteligíveis. Reviravam o olhar, como que pedindo auxílio aos
céus - nem queriam acreditar!

Um pobre coitado, por certo aterrorizado com a visão das


máquinas de tortura, resolveu confessar e cumprir a penitência
que obrigava à denúncia de terceiros. E má sorte - lembrou-se
dela, a mulher estranha da casa de pedra da orla da floresta.”A
jovem tinha-lhe salvo o coiro e o filho de morte certa por mais
de uma vez mas… por outro lado não seria por causa dela e de

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outros como ela que os todos eram colocados perante as
torturas e aquela fúria inquisidora?” Optou pela denúncia.

A notícia espalhou-se facilmente, chegando assim aos


ouvidos de Daniel. Ao saber que a operação de captura
decorreria durante essa mesma noite, correu como um doido e
só parou para encostar-se, ofegante, à porta da casa. Bateu e ela
surgiu.

“Daniel, por aqui a esta hora? Que se passa?”

As palavras saíam-lhe desordenadamente, anárquicas. “A


senhora tem de, de… eles, eles vêm aí. Tem de fugir e já”.

A mulher olhou-o com ar sereno e disse.”Isso não interessa


muito agora. Sei bem o destino que tenho de cumprir. Mas
esperava-te. Tens vindo a ser preparado durante todo este
tempo; existe uma tarefa importante para ti”

Conduziu-o através do subterrâneo e desembocaram na sala


grande, a dos livros. Foi buscar a pequena caixa, colocou-a nas
mãos do rapaz e disse “Leva-a e lê. Compreenderás a
importância e o que tens de fazer. Deverás destruir o manuscrito
imediatamente após o usares. É muito importante. Agora vai!”
Ele olhou-a uma última vez, semblante sereno traído pela
lágrima que surgia, teimosa, nascendo um pouco abaixo da
pupila azul clara do olho esquerdo. Depois não olhou mais.
Guardou o manuscrito e saiu dali o mais depressa que pode.

Nos dias seguintes acompanhou com horror todo o processo


de interrogatório e tortura, o qual culminou na decisão de
execução pública por auto de fé. “Bruxa, bruxa, para a fogueira”
diziam as vozes do povo concordando.

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O dia chegou e instalaram os mecanismos necessários. Seria
queimada com requintes de crueldade – tinham providenciado
para que não asfixiasse, encharcando-a previamente em
enxofre. Ele não foi, jamais suportaria assistir ao acto cruel.
Assim, saiu da povoação e foi até à orla do bosque onde se
recostou ao tronco da árvore, chorando. Lembrou-se então do
manuscrito. Abriu a caixinha que ainda guardava consigo e
começou a ler

“Minha querida

Sei que o que te vou contar será uma surpresa. Mas esta
história não morrerá certamente entre nós duas e é necessário
que assim seja, para o mundo seguir bom rumo, encontrar novos
caminhos. Durante anos a fio temos comunicado através deste
meio e fui-te instruindo nas maravilhosas aquisições de nossa
ciência e tecnologia. Mas nunca falei sobre o meu estado actual
e estado actual de nossa civilização.

Encontramo-nos á entrada do século XXII num período


obscurantista que designo por Nova Idade Média. Estamos à
beira do fim, da destruição do património cultural, científico e
tecnológico que levou séculos a aprender e construir. Tudo
parecia correr bem, tínhamos obtido respostas para quase todas
as questões científicas de relevo, a fusão a frio tinha sido
conseguida, o problema energético finalmente ultrapassado. A
manipulação genética e os avanços da medicina conseguiam
prolongar a vida bem para lá do que era expectável. Mas
contrariamente ao que alguns tinham profetizado, os avanços

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não resultaram em distribuição de riqueza e numa melhor
qualidade de vida das populações. Ao invés, os meios para
controlar a informação e explorá-la escravizando os muitos em
prol dos poucos tornaram-se muito mais eficazes e foram usados
como tal – com eficácia.

Tornaram-nos escravos que nasciam, viviam e morriam de


forma pré-determinada e cuidadosamente planeada. Os meios
tecnológicos foram usados para (em vez de aumentar o tempo
de vida) permitir produzir mais durante um pique que durava
entre quinze e vinte anos. Pique esse que era exigido. Após esse
tempo, completamente esgotados, nossos órgãos pouco mais
resistiam. A esperança de vida diminuiu e, enquanto no final do
século XX, em países avançados ela se situava acima dos setenta
anos, hoje ela não ultrapassará os cinquenta. Para os nossos
senhores, donos de feudos imensos e da tecnologia as coisas
eram bem diferentes. Podiam esperar viver facilmente duzentos
a trezentos anos de uma vida de vício e luxúria, praticando com
impunidade todas as asneiras possíveis e imaginárias.

Paradoxal em toda essa história, o facto dos meios


tecnológicos permitirem facilmente prescindir do trabalho
humano e conferir boas condições para todos. Mas tal
possibilidade não era explorada pois a escravatura humana não
tinha motivo em necessidade produtiva mas sim em
necessidades psicológicas e sociais.

Durante décadas tudo seguiu de acordo com a ordem


feudal. Comemorava-se sem surpresa a passagem para o último
ano do século – o ano 2099, quando eles atacaram. Não foi aqui
nem ali. Todas as grandes cidades – Nova York, Tóquio, Pequim,
Xangai, São Paulo, Londres, Paris, Moscovo, todas foram
atacadas em simultâneo.

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Quem eram? Bem… ninguém sabia precisamente de onde
tinham surgido. Durante anos tinham construído a estrutura
reticular de centenas de milhares de pequenas células armadas,
capazes e ferozes. Intitulavam-se “A ordem de PI” e pretendiam
de facto estabelecer uma nova ordem, mais justa, com
distribuição equitativa de meios e oportunidades. Estabeleceram
governo central em Pequim e subdividiram o mundo em vários
blocos: EuroRussia, Nova África, Eixo Sul-Americano, Eixo Norte-
Americano, Nova Índia, Nova China e por aí em diante. Cada
bloco tinha o seu próprio governo, reportando todos ao poder
central (Nova Pequim).

As coisas até funcionaram bem de início e 2099 foi visto por


muitos como o número mágico – o número da libertação. Surgiu
então o problema, uma questão de pormenor: Ao viver, os
nossos hábitos, preocupações e sentimentos formam um campo
de gravitação que vai crescendo e crescendo ficando cada vez
mais forte, atraindo-nos para o mesmo em todos os gestos e
actos. Até que chegamos a um ponto em que não conseguimos
fugir nem manter-nos em órbita estacionária. Começamos a cair
subtilmente para dentro de nós mesmos e já não nos
adaptamos. O problema, minha querida, meu amor, explica-se
facilmente – a populaça não estava preparada para viver
melhor.

Os tumultos começaram e foi o caos. Os governos regionais


caíram um por um deixando em seu lugar lutas e disputa por
poder. A guerra civil – globalizada. Como deves imaginar, nestes
confrontos ganham não só os mais fortes mas os que têm menos
escrúpulos. E foi assim que aconteceu. Os líderes dos grupos
bárbaros eram homens terríveis. Não davam tréguas a ninguém.

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O poder que surgiu era autoritário, ditatorial e fraco.
Declararam guerra à ciência, ao conhecimento e a todos os
meios tecnológicos. Seguindo as pisadas de Torquemada,
mandaram reduzir a cinzas as bibliotecas, arquivos históricos e
museus. Os detentores de conhecimento tecnológico e científico
foram perseguidos e executados. Alguns poucos (eu sou um
deles) esconderam-se e sobrevivem movidos por uma última
esperança – o projecto ‘Nova Arca de Noé’. Através dele,
procuramos criar um repositório que permita a alguém que o
encontre no futuro, restabelecer as bases do conhecimento. Num
nível inicial, com recurso a uma linguagem universal – a
matemática - e a explicações pictóricas, ensinam-se as
linguagens. Após essa fase, uma vez detentor da linguagem,
bastará ao interlocutor estudar os conteúdos para efectuar a
aquisição de conhecimentos. Iremos colocar sete réplicas em
sítios previamente escolhidos. A primeira será em Paris, bem
próximo das ruínas do Louvre, a segunda será em…

Querida, vou ter de terminar repentinamente. Os


detectores de presença dispararam e temo ter sido descoberta
por estranhos. De qualquer forma já sabes tudo o que te queria
transmitir. Ou quase tudo. É necessário estabelecer as sementes
da procura destes repositórios. Pensei nas várias possibilidades e
nada melhor que esconder essas sementes no tempo, no
passado. As localizações precisas que planeamos vão junto, na
página seguinte. Deverás passar instruções exactamente a uma
pessoa, a qual escolherá e nomeará sete, exactamente sete
outras pessoas. O documento original será destruído e
transmitirão cada uma das localizações oralmente, através de
rito iniciático. Para maior segurança, a maior parte deles só
saberá o necessário para procurar. Toda esta história deverá ser
conhecida apenas por uma pessoa em cada geração. Boa sorte

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na tua tarefa. Ah… e proponho que a organização secreta se
chame Anno 2099. Em referência ao ano da desgraça. O ano em
que desabámos sob a nossa podridão.

Um beijo, Larissa II, tua


descendente querida em enésimo grau “

Ao terminar, Daniel - o primeiro grão-mestre da ordem,


inutilizou a mensagem. Jurou ali mesmo cumprir - escolher sete
e iniciar um grupo que chegaria até ao futuro para resgatar o
conhecimento. Tinha nascido nesse instante um grupo secreto e
iniciático – a organização “Anno 2099”.

***

A mulher escondia-se há algumas semanas num local


próximo do antigo aquartelamento das forças do “A ordem de
PI”. O subterrâneo estava bem camuflado por entre os
destroços, a pequena entrada mal se notava entre a amálgama
de metal ferrugento das carcaças de veículos e outros
equipamentos agora inúteis. Como quase sempre acontece, no
meio de tanta precaução e cuidado tinha sido detectada devido
a um descuido estúpido.

Ao ouvir o disparo do detector de presenças, sentiu-se


impotente, sabia bem o que isso significava. Deveriam estar já
bem próximos, talvez até algures nos corredores cortando-lhe a
retirada. Não existiam grandes possibilidades de fuga.

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Num relance, o sobressalto fez a memória disparar e reviu
alguns dos acontecimentos mais importantes dos últimos
tempos. Lembrou-se da passagem de ano e de como a festejara
com o marido, Jaqques, seu colaborador no laboratório de
pesquisas de portais de comunicação inter-temporal. Como
estavam empolgados com o projecto no qual mantinham
contacto periódico com a sua antepassada remota. Lembrou-se
da rapidez com que todo o seu mundo tinha desmoronado
subitamente, do dia em que o seu querido foi levado para
execução sumária, da fuga e início da vida sem pouso certo.
Lembrou-se por fim, que acabara de escrever e enviar a
mensagem através do portal. E isso era o que mais importava.

O grupo vestia camuflados e empunhava armas brancas.


Entraram subitamente e viram-na, cabelos revoltos, expressão
determinada, os livros espalhados à volta, pelo chão. Não
tiveram quaisquer dúvidas.

“Cientista, danada, serva do demónio” gritaram as vozes


quase em uníssono.

Foi julgada em julgamento “à antiga” - sem direito a defesa


ou advogado de defesa. O chefe da turba, empunhava na mão
esquerda uma cópia do manuscrito obscuro “O martelo das
bruxas”. A sua cara disforme e cheia de dentes podres deixou
escapar um sorriso rasgado quando proferiu “Para a fogueira!”

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