Вы находитесь на странице: 1из 18
1 Grupo de trabajo (3 - Políticas de protección de derechos de niñas, niños y

1

Grupo de trabajo (3 - Políticas de protección de derechos de niñas, niños y adolescentes en América Latina) O PRETENSO HUMANITARISMO E O CONTROLE DA JUVENTUDE

THE PRETENDED HUMANITARIANISM AND YOUTH CONTROL

JACKSON DA SILVA LEAL 1 PAULA GALATTO DE FÁVERI 2

RESUMO

O presente trabalho analisa o processo de constituição da juventude em objeto privilegiado de

intervenção estatal a partir de um discurso humanitário e uma prática punitiva. Para que se demonstre o porquê da juventude ter se tornado alvo da intervenção jurídico-política em prol de sua

penalização e de seu controle, sob o disfarce de um pseudo-humanitarismo, faz-se uma retomada de alguns aspectos ocorridos na América Latina, os quais reforçarão o presente debate e demonstram a realidade e funcionalidade desse discurso e deste controle que subjaz ao discurso protetivo e salvador. O enfoque dessa discussão aponta a trajetória histórica da juventude no Brasil busca desvelar a realidade da problemática da infância e juventude na América Latina, sobretudo no caso do Brasil, que atualmente se encontra sob a égide do Estatuto da Criança e do Adolescente e do pretenso modelo da proteção integral, assim como a retorica dos documentos internacionais. Trabalha-se com uma analise teórica e bibliográfica a partir de um marco teórico permitido pela criminologia critica. Palavras-chave: juventude; controle; pseudo-humanitarismo; sistema penal; criminologia crítica.

ABSTRACT

This paper analyzes the constitution of youth in privileged object of state intervention from a humanitarian and a punitive practice. In order to demonstrate why the youth have become the target

of legal-intervention policy towards their penalty and its control under the guise of a pseudo-

humanitarianism, it is a resumption of some aspects occurring in Latin America, which reinforce this debate and demonstrate the reality and functionality of this discourse and this control that underlies the protective and savior discourse. The focus of this discussion points out the historical trajectory of youth in Brazil seeks to reveal the reality of the problem of childhood and youth in Latin America,

especially in the case of Brazil, which is currently under the auspices of the Children and Adolescents and the alleged model of full protection, as well as the rhetoric of international documents. We work with a theoretical and bibliographic analysis from a theoretical framework allowed for critical criminology. Keywords: youth; control; pseudo-humanitarianism; penal system; critical criminology.

1 - INTRODUÇÃO O presente trabalho tem como tema a criação da juventude como objeto de atenção das estruturas de controle do Estado a partir de uma atuação filantrópico- punitiva subjacente a um discurso salvador que se denomina como pseudo- humanitário. Parte-se do problema que é a verificação das reais funções operadas pelo funcionamento do sistema pretensamente criado para a proteção dessa juventude.

1 Graduado em Direito (UCPel), advogado inscrito na OAB/RS; mestre em Politica Social (UCPel); doutorando em Direito (UFSC); bolsista pesquisador CNPq; membro do Projeto Universidade Sem Muros (UsM-UFSC); professor de Direitos Humanos (UNESC); coordenador Grupo Criminologia Critica Latino-Americana (UNESC). 2 Graduanda em Direito da Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC.

2 O objetivo é desvelar as funções subjacentes ao discurso moderno-protetivo e que vão desde

2

O objetivo é desvelar as funções subjacentes ao discurso moderno-protetivo

e que vão desde a docilização e transformação do individuo em homem dócil e

produtor, inculcação da ethos burguês, por certo que aceitando a estrutura social desigual sem questionamentos (como algo natural), até o puro e simples isolamento de indivíduos definidos como perigosos, a partir de uma atuação claramente pautada pela ideologia da defesa social 3 . Nesta linha, busca-se demonstrar a funcionalidade desse discurso protetor, no processo de construção e legitimação das estruturas de controle, e o quanto esse controle se apresenta funcional ao funcionamento e perpetuação da modernidade burguesa e sua lógica de mercado organizada a partir da distribuição desigual de bens positivos e negativos (Baratta, 2011). Esse trabalho se apresenta como estudo e reflexão teórica, a partir de

material bibliográfico, e desde o arcabouço teórico permitido pelo acúmulo da criminologia crítica, principalmente tendo em mente a realidade sócio-histórica latino- americana e sua formação peculiar de capitalismo dependente e colonialismo econômico, politico e cultural. Analisa-se no primeiro ponto do processo de construção das estruturas de controle desde o final do século XIX, que coincide com

a criação da juventude como categoria cientifica e como objeto de controle, e no

segundo ponto o período contemporâneo no Brasil, sob a égide do Estatuto da Criança e Adolescente e seu discurso da proteção integral, operacionalizado pelas mesmas estruturas e profissionais dos modelos predecessores. 2 – O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DA JUVENTUDE COMO CLIENTELA DAS ESTRUTURAS DE CONTROLE Antes que se adentre a perspectiva da juventude brasileira, como resultado de um processo histórico, essencial é a reflexão inicial de quem, desde o Código de Napoleão, fora concebido como sujeito de direito, o que destaca Resta (2007, p. 20), “el único sujeto pleno iure contemplado por el código era aquel varón, adulto, sano de mente, preferiblemente casado”. Nesse sentido, tem-se que foi sob essa ótica que se orientou por muito tempo a concepção mundial de sujeito de direito, longe de compreender a juventude. Sob a influência da Revolução Burguesa e, sobretudo, após a sedimentação de uma sociedade ocidental e hegemônica, eminentemente industrializada e sob os

3 Com referencia a ideologia da defesa social, ver Alessandro Baratta (2011).

3 ímpetos desenvolvimentistas, e ainda, sob o pretenso discurso e deificação de princípios modernos como

3

ímpetos desenvolvimentistas, e ainda, sob o pretenso discurso e deificação de princípios modernos como a liberdade, igualdade e fraternidade, amplia-se e aprimora o discurso acerca da juventude, impulsionados pela necessidade de qualificação para as novas tecnologias e visando maior produtividade e desenvolvimento. Conforme Leal (2014) amplia-se em tempo e intensidade, a proteção e o reconhecimento da infância como tal. Passa-se a entender e propagar a infância como uma construção social, definida por elementos conjecturais políticos, sociais e culturais. Neste ponto, vê-se mais claramente o atrelamento à concepção de infância e juventude que cambia e se vinculam às necessidades da estrutura social capitalista e sua necessidade de indivíduos produtores materiais e ideológicos, tornando-se reféns da epistemologia burguesa e positivista hegemônica. Neste sentido, propõe Cezar Bueno de Lima (2008, p. 39):

O corpo, que até o século XVII constitui um mero objeto dos suplícios e das penas, irá, nos séculos posteriores, comportar diferente acepção. Já não interessa danifica-los tanto fisicamente, mas forma-lo, reforma-lo, corrigi-lo e impor-lhe novas aptidões com o objetivo de convertê-lo num corpo sadio para o trabalho. A prisão adquire novo significado, transfigurando-se em aparelho [ ]

Ao final do século XIX, no Brasil, de Lima (2007, p. 55-56) assinala que se demonstrou decisivo, para a expansão e à sofisticação de mecanismos de repressão e controle, o convencimento de que uma grande leva de adolescentes adentrava ao universo do crime. Acreditava-se que esses jovens infratores, considerados adeptos da vadiagem e da gatunagem, ameaçavam a ordem pública e a tranqüilidade das pessoas de bem, gerando-se, para tanto, um sentimento de insegurança. Como resposta aos ociosos, impôs-se o trabalho como algo prazeroso/vantajoso. Assim, a criação da juventude enquanto categoria científica e autônoma de análise e controle, que não se conhecia até final do século XIX (cunhada pelo psicólogo Stanley Hall em 1898), foi criada e logo em seguida o Juizado de Menores nos Estados Unidos no início do século XX (primeiro juizado de menores em Chicago no ano de 1903), demonstrando que a criação da juventude e do discurso de ampliação da proteção da juventude, escondia a prática da necessidade de regular o crescimento e a desigual distribuição dos bens positivos para essa juventude, e a necessidade de construí-las como transgressoras a fim de poder combatê-la.

4 Mediante essa situação, Rizzini (2006, p. 8-9) explana acerca da pressão para que o

4

Mediante essa situação, Rizzini (2006, p. 8-9) explana acerca da pressão para que o Estado interviesse junto a esse segmento, através da criação de políticas sociais à infância, a qual se deveu ao movimento de “salvação da criança”, advindo dos países protestantes da Europa e da América do Norte, cuja motivação, oriunda das classes média e alta, almejava novas maneiras de controle social que legitimassem o seu poder. Abrindo-se parênteses à conjuntura/retrospectiva brasileira infanto-juvenil, oportuna é a consideração de Baratta (2014, p. 44-45), apud Beiras (2007, p. 152), acerca de algumas anomalias que se acoplaram à luta juvenil, quais sejam: a exclusão dos infantes do pacto social, isto é, do exercício da cidadania; o fato da luta das crianças pelo direito à igualdade estar desvinculada da luta pelo reconhecimento de suas diferenças; e por não ser a luta pelos direitos da criança uma batalha própria, mas dependente do discurso e do atuar dos adultos. Com isso, enfatiza de Lima (2007, p. 59) que, a partir de 1920, vigorou uma nova ordem institucional a qual passa a considerar as crianças precocemente abandonadas um problema do Estado, o que demandava políticas sociais. Dentro desse contexto, o discurso médico-higienista perfez-se em forte adepto estatal, entusiasmando médicos, assistentes sociais, educadores, políticos e juristas. Sobre essa nova ordem, o autor (2007, p. 57) considera um novo modelo pedagógico, calcado no ensino através do trabalho, sob a tutela estatal, o qual legitimou novos modos repressivos destinados essencialmente às crianças e aos adolescentes pobres. Isto é, através da criação de institutos disciplinares, que mesclavam clausura e correção, modificar-se-ia os vagabundos e vadios, de até 21 anos condenados judicialmente - estando compreendidos, inclusive, infratores de 9 a 14 anos -, por intermédio do trabalho. Na passagem do século XIX ao século XX, Rizzini (2006, p. 4) evidencia a infância empobrecida do Brasil como um problema social, isso porque os abandonados e delinqüentes refletiam a preocupação com o futuro da nação. Afirmando-se, na época, a seguinte máxima: “salvar a criança era salvar o país”, o que respaldava o discurso ambíguo de manutenção da ordem, da criação de meios de proteger a criança contra a indisciplina e a falta de trabalho ao lado da defesa da sociedade dos viciados e das ameaças à paz social, difundido pela elite filantrópica e política.

5 No plano da proteção/controle da juventude, delimitava claramente a criação de duas juventudes distintas,

5

No plano da proteção/controle da juventude, delimitava claramente a criação de duas juventudes distintas, uma destinada aos avanços teórico-discursivos, destinadas ao ensino e formação técnico-profissional, para quem estavam reservadas vagas em setores formais da produção e de quem dependia o futuro da nação. Para estas juventudes, foi ampliada a proteção e alargado o período entendido como de (de)formação deste contingente de indivíduos (Leal, 2014). A sociedade que se pretendia moderna responsabilizava-se por este período de cuidado juvenil, ao passo que também ficava claro para quem esse avanço não era destinado, para os menores, crianças provenientes de classes desfavorecidas, sem formação educacional formal nem possibilidade de tal, sem perspectiva profissional, em muitos casos sem família responsável, ou quando possuem são tão ou mais desgraçados que os filhos, tendo sofrido agruras impensáveis, amontoados nas nascentes e descontroladas metrópoles brasileiras, situados nas periferias do sistema, das cidades, nas favelas. Ou, como conceitua Edson Passetti,

nem toda criança ou jovem é menor. Menor é aquele que em decorrência da marginalidade social se encontra, de acordo com o código de menores, em situação irregular [ainda que tal condição legal tenha deixado de existir, a condição material continua viva]. Esta engendra condições para que ele cometa infrações, condutas anti-sociais que no seu conjunto revelam prática delinquencial. O combate a isso exige uma instituição criada para suprir as deficiências de adaptação decorrentes da vida marginal. Menor é aquela criança ou jovem que vive na marginalidade social, numa situação irregular (PASSETTI, 1985, p. 37)

Nesta linha, esse o primeiro período é marcado em termos teóricos e operacionais na criação do código Mello Mattos (1927) e todo seu ideário higienista, que se propunha a tarefa de limpeza social nos grandes aglomerados urbanos brasileiros nas primeiras décadas do século XX e seu desenvolvimento desigual e combinado e que tinha como objeto primordial de intervenção os jovens da classe pobre, da ralé da sociedade brasileira, buscando extirpar os costumes tidos como prejudiciais, e, sobretudo, contagiosos – direcionando estes indivíduos para instituições de correções, para introjetarem a disciplina e a orientação do trabalho e da educação projetando a construção de corpos e mentes dóceis afeitas ao ideário liberal (Leal, 2014). Gradativamente, ao lado das referidas políticas institucionais de internação, destinadas aos jovens infratores, agregaram-se as práticas assistenciais provenientes do Judiciário, o qual retira dos pais o direito de correção (DE LIMA, 2007, p. 57). Sobre esse processo, Rizzini (2006, p. 13) descreve como a retirada da

6 paternidade dos filhos, a qual é conferida ao Estado, que se pautou sob a

6

paternidade dos filhos, a qual é conferida ao Estado, que se pautou sob a égide do argumento da garantia da proteção da infância contra o abandono moral; em que a família passa a ser vista como infratora por não cumprir o dever patriótico de educar/zelar pela sua prole ou de vigiar a infância. Escreve de Cezar Bueno de Lima (2007, p. 58-59):

A finalidade do encarceramento era impor, não apenas mecanismos de

correção, mas fundamentalmente a disciplina para o trabalho precário e mal

A arte da disciplina e do controle sobre crianças e adolescentes

previa a educação para o trabalho, a aprendizagem de preceitos de higiene

e o combate ao vício.

executar trabalhos manuais e contribuirão para impulsionar a indústria e o comércio no seio de uma sociedade capitalista e urbanizada que generaliza

a forma de trabalho assalariado.

os filhos da pobreza aprenderão a arte de

pago. [

]

[

]

Sobre esse aspecto, é mister destacar que, sob o amparo no discurso ambíguo “onde a criança precisava ser protegida mas também contida, a fim de que não causasse danos à sociedade” e sabendo-se que a periculosidade era atribuída à infância pobre, transformava-se a criança em elemento útil ao País, encaixando, desde a infância, os ociosos à demanda capitalista. O que desencadeou o complexo aparato jurídico-assistencial, liderado pelo Estado, com a criação de leis, instituições de proteção e assistência à infância. Investimento cujo objetivo era o de permitir uma educação de submissão, e não de qualidade, aos pobres (RIZZINI, 2006, p. 5) 4 . Com o escopo de se manter a paz social, surgiram instâncias de intervenção e controle 5 , conforme Rizzini (2006, p. 15), cabendo à medicina o diagnóstico de recuperação e tratamento da infância, tanto do corpo quanto da alma; à justiça a proteção da criança e da sociedade, através da regulamentação; e à filantropia, substituta da antiga caridade, assistência aos pobres com apoio de ações públicas. Com isso, esses movimentos resultaram na organização da Justiça e da assistência, ou complexo jurídico-assistencial, nas primeiras décadas do século XX. Com a ditadura militar e o seu discurso médico-higienista, De Lima (2007, p. 75) aborda que o inquérito social consubstanciou-se em verdadeiro instrumento de

4 Com efeito, no Brasil, pode-se afirmar que o controle da juventude é um aspecto histórico. Isso porque, consoante De Lima (2007, p. 74), uma vez tendo-se como modelo-padrão de problematização os jovens infratores em situação de miséria até a década de 80, obteve-se como resposta à necessidade de cuidar dos pobres a sua integração à vida normal. Isto é, contra a raiz geradora de conflitos juvenis configura-se como solução- padrão as prisões, os internatos e a educação profissionalizante. 5 Sobre isso, de Lima (2007, p. 60-61) aborda que a partir do Código de Mello Mattos, de 1927, os adolescentes, sob a denominação legal de abandonados e delinqüentes, passaram a ser objeto da intervenção dos saberes:

médico (que se responsabilizava com os cuidados com a saúde e com a nutrição), pedagógico (imposição de disciplina e instrução) e jurídico (oferecia proteção legal). Entretanto, salienta que, malgrado essa proposta objetivasse solucionar essa questão de política social, não houve diminuição da pobreza, da situação dos adolescentes e de suas famílias, culminando, assim, na medicalização da miséria.

7 intervenção científica em prol do conhecimento biopsicossocial , produzido por uma equipe multidisciplinar (composta

7

intervenção científica em prol do conhecimento biopsicossocial, produzido por uma

equipe multidisciplinar (composta por peritos sociais), o qual servia para auferir/ constatar se o jovem se enquadrava em quadro prejudicial. Esse quadro era intrínseco às periferias, vistas como “produtoras das classes perigosas e alvos preferidos dos assistentes sociais”, representando o perigo e uma mescla de “imoralidade e falta de higiene, sexo e sujeira”. Na mesma linha complementa Irene Rizzini, “identifica-se na criança, filha da pobreza, um importante elemento de

o que justificará e legitimará uma série de medidas

repressivas impostas sob a forma de assistência aos pobres (RIZZINI, 2006, p. 14)” 6 .

Desta forma, de Lima (2007, p. 75-76) confirma que, no Brasil, não teve o escopo de ser humanitária a intervenção estatal por meio de seu complexo tutelar e assistencial, mas de simplesmente “fabricar uma família popular sadia”, permeando duas falácias, provenientes tanto das pessoas comuns quanto do discurso jurídico- assistencial, quais sejam “a das famílias desestruturadas e a do suposto acesso democrático à escola”. Iñaki Rivera Beiras, resume “en síntesis, el llamado modelo tutelar o de la protección comportó la más absoluta des-protección de los menores frente al ius puniendi del Estado” (BEIRAS, 2007, p. 166). Rizzini afirma que o direito de educação de qualidade, bem como o do pleno exercício da cidadania foram subtraídos dos pobres, pois, imperava no seio da sociedade brasileira os moldes de uma “política de exclusão social e de educação para a submissão” (2006, p. 1-2). Logo, justifica-se o fato de grande parte da população juvenil brasileira, pobre, permanecer sendo vista como ameaça à paz social.

transformação social, [

]

Então, sob o pretenso humanitarismo, operava o complexo tutelar- assistencial nas famílias desestruturadas e o ensino profissionalizante significava acesso democrático à escola, todavia, como bem observa de Lima, os verdadeiros objetivos eram: o controle da juventude, combatendo-se a indisciplina dos costumes,

6 Ao que de Lima (2007, p. 76-77) traduz no recolhimento de jovens – através de instituições de internamento provisório, confinamento por tempo fixo ou controle a céu aberto – os quais, após a avaliação, eram medicalizados pelo discurso jurídico-político em prol da instituição de “mecanismos de controle, correção e de inserção econômica subalterna dos setores sociais marginalizados”.

8 e a impressão da ideia do jovem operário/trabalhador incansável “disposto a nas oficinas mecânicas

8

e a impressão da ideia do jovem operário/trabalhador incansável “disposto a

nas oficinas

mecânicas [

salário mínimo fixado pelo Estado” (2007, p. 76-77). O autor é incisivo ao demonstrar

o quão evidente fora a estigmatização da juventude das periferias, rotulando-se os pobres e miseráveis de abandonados e delinqüentes, sendo que, atreladamente, assistia-se à exclusão econômica, à proibição dos prazeres e à disseminação de um discurso cuja ressocialização era a resposta/legitimação da prisão e do internato. Ponto crucial para que se compreenda a discussão travada é a percepção de que, não obstante a educação compusesse parte dos ideais republicanos, a descentralização do ensino público primário, sem qualquer respaldo da União, compôs a realidade dos primeiros anos da República, talvez porque a educação fosse sinônimo de arma perigosa. Repercutindo, pois, em “uma desarticulação entre os vários Estados e a desorganização do ensino ao nível dos Governos locais” a “indiferença nacional” (RIZZINI, 2006, p. 23). Carvalho (1989, p. 24), apud Rizzini (2006, p. 23), muito bem descreve a

realidade das escolas da época: “[

casas sem luz, meninos sem livros, livros sem

método, escolas sem disciplina, mestres tratados com párias”.

executar tarefas em marcenarias, nos caixas de supermercados, [

em troca de remuneração por produtividade ou sob o reinado do

]

],

]

o objetivo não era realmente tirar a ignorância da população. Falava-se

como antídoto à ociosidade e à criminalidade e não

como instrumento que possibilitasse melhores chances de igualdade social.

A conhecida Escola Quinze de Novembro, idealizada para a “correção dos menores”, constitui um bom exemplo. Em seu Regulamento (02/03/1903), constava que: “Sendo a escola destinada a gente desclassificada, a instrucção ministrada na mesma não ultrapassará o indispensável à integração do internado na vida social. Dar-se-lhe-á, pois o cultivo

Aos menores, a instrução mínima

Não

A

opção pela priorização de uma política que nitidamente dividia crianças e menores, reflete as contradições acima apontadas de se promover a educação, porém limitando o seu acesso a uma determinada parcela da população (RIZZINI, 2006, p. 23-24)”.

Posteriormente, em meio ao período ditatorial (1964) surge o Código de Menores (1979), sendo na verdade uma reforma do antigo código Mello Mattos, e que se propunha a retocar os déficits de legitimidade angariados no período de gestão da dinâmica anterior, e que, a partir deste momento, assume uma orientação que via nos jovens, mais do que apenas párias que necessitavam de intervenção filantrópica caritativa e disciplinadora, visualizando um perigo em potencial ou real

] [

em educar, mas [

]

necessário ao exercício profissional” [

]

que permitisse domesticá-los para o uso de sua força de trabalho. [ por acaso, a aquisição de conhecimento foi restrita às minorias. [

]

].

9 para a nação, assumindo a ideologia da defesa nacional típica do período da ditadura

9

para a nação, assumindo a ideologia da defesa nacional típica do período da ditadura imprimida ao sistema penal e que entendia a necessidade de ferrenho combate a todo e qualquer ato de dissidência ou mesmo mera suspeita, a partir da adoção de uma postura eminentemente periculosista (Leal, 2014). Para De Lima (2007, p. 61-63), com o advento do Golpe Militar de 1964, ocorrido no Brasil, semeou-se a formulação de inimigos internos, ao lado da instituição das Leis 4513/64, que traz a Política Nacional do Bem Estar do Menor, e 6697/79, a qual, além de reformar o Código de Menores de 1927, cria a Fundação do Bem Estar do Menor (FUNABEM) e Febens para cuidarem dos menores em situação irregular. Nesse contexto, a pobreza consubstanciou-se em sinônimo de situação irregular e o adolescente pobre, abandonado, carente fora rotulado de menor infrator, o que justificaria o controle rígido desses jovens. O estatuto de 1979 fortaleceu os poderes do juiz, além de não fazer menção aos direitos juvenis, autorizando que o menor em situação irregular fosse processado sem direito a se defender, e se tendo como concepção de adolescente alguém a ser tutelado e não pessoa. 3 – A EVOLUÇÃO DO DISCURSO (PSEUDO)HUMANITÁRIO E A MANUTENÇÃO DAS ESTRUTURAS DE CONTROLE Com a Constituição de 1988 e a instituição do Estatuto da Criança e do Adolescente de 1990 (ECA), põe-se fim à doutrina da situação irregular, atribuindo- se a responsabilidade pelos direitos da criança e do adolescente ao trio família, sociedade e Estado. O ECA traz a consideração de que criança e adolescente deve ser tratado como sujeito de direitos e jamais como instrumento de controle social, designando como responsabilidade dos municípios a instituição de políticas sociais que visem o bem-estar infanto-juvenil. Ademais, importante destacar que é adepto das medidas sócio-educativas, da mediação, bem como, somente se com caráter excepcional e breve, as medidas de internação. O novo Estatuto, por sua vez, exige decisão judicial fundamentada, autoria e prova do ato praticado, para que haja o esclarecimento de envolvimento de jovem em ato infracional. Detendo, para tanto, o ECA, natureza sócio-educativa (DE LIMA, 2007, p. 63-64). Aduz Resta (2007, p. 20-22) que a visão de criança como sujeito de direito é uma construção recente, em virtude de ter sido considerada – por muito tempo, e não exclusivamente no Brasil – como centro de imputação de poderes e disciplina, o

10 que se deve ao modelo antropológico na cultura da lei. Os infantes sempre eram

10

que se deve ao modelo antropológico na cultura da lei. Os infantes sempre eram vistos objeto de uma realidade futura: futuro pai, cidadão, guerreiro, etc. Ademais, admite que foi no nível internacional e supranacional que se produziu o reconhecimento positivo dos direitos infanto-juvenis, devido ao caráter sedimentado na centralidade do adulto das instituições políticas dos Estados, encontrando óbices, para tanto, nas legislações estatais, porquanto estejam os direitos da infância contra os Estados e seus artifícios. Baratta (2014, p. 7), com relação à Convenção das Nações Unidas de 1989, também faz duras críticas no que é concernente à sua resposta sancionatória destinada ao comportamento do jovem infrator, porquanto ainda resguarde a internação e a privação de liberdade. Por outro lado, aponta que a mesma assegura satisfatoriamente o respeito a princípios básicos, como o da presunção da inocência do menor e o da legalidade, dentre outros. Por sua perspectiva, Méndez (2000, p. 2-3), enxerga o ECA, do Brasil, como “a primeira inovação substancial latino-americana”, a qual supera o modelo tutelar de 1919, considerando-se que de 1919 a 1990 as reformas às leis de menores não apresentavam verdadeiras mudanças com relação ao antigo modelo. Motivo pelo qual, considera o novo modelo da responsabilidade penal dos adolescentes, introduzido pelo ECA, àquele que abarca justiça e garantias. Servindo de inspiração, para tanto, o Estatuto brasileiro, no que diz respeito à definição de criança como todo ser humano de até doze anos incompletos e, de adolescente, àquele desde os seus doze até os dezoito anos incompletos, a muitas legislações latino-americanas. Entende Alessandro Baratta (A2014, p. 5) que, no processo de definição dos direitos humanos das crianças e jovens, o qual perdurou aproximadamente noventa anos, a criança deixou de ser vista como o menor, alvo de compaixão ou repressão, para a criança e o adolescente sujeitos plenos de direito. Emilio Garcia Méndez (2000, p. 5) admite, todavia, que o ECA vem enfrentando problemas, atualmente, os quais se originam do que denomina de uma dupla crise: de implementação e de interpretação. A crise de implementação se deve ao déficit de financiamento de políticas sociais básicas, culminando na carência em saúde e em educação, atrelada à tentativa de substituição dessas políticas universais por aspectos ilógicos: como a inadequada focalização de políticas assistenciais, bem como com ineficazes e ilegais políticas de cunho repressivo. Em decorrência desse mal manejo do gasto

11 social, portanto, a opinião popular tende a pensar da seguinte maneira: já que gastam

11

social, portanto, a opinião popular tende a pensar da seguinte maneira: já que gastam mal, que pelo menos gastem pouco. Motivo pelo qual entende o autor que, a partir dessas duas crises, não há o aumento do gasto social que resolveria os problemas sociais que geram ambas as crises. Com relação à segunda crise, a da interpretação, Méndez (2000, p. 6) assevera que a mesma tem relação estrita com as boas práticas tutelares compassivas, em nome das quais se cometeram as piores atrocidades contra a infância, ou, o que é o mesmo, com a permanência de uma cultura que abarca o subjetivismo e a discricionariedade. Isto é, justamente o que o autor considera como características opostas ao caráter garantista de uma legislação – na qual rege o rigoroso respeito pelo império da lei, baseada na ótica dos direitos humanos. Atesta, ainda, que as bondades do ECA não derivam somente dele, como também da interpretação da Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança e outros documentos internacionais que se consubstanciam na Doutrina da Proteção Integral. Méndez (2000, p. 7) é convicto no sentido de que não há discricionariedades e subjetivismos bons, pois, compactuando com o caráter garantista, coaduna com a ideia de que a ausência de regras é sempre a regra do mais forte. O mesmo (2000, p. 8-9) analisa, destarte, a crise da interpretação como uma releitura discricional e subjetivista do garantismo do ECA e da Convenção Internacional dos Direitos da Criança, que engloba: a negação do direito penal – mas não a negação à privação de liberdade; medidas sócio-educativas de caráter indeterminado; o aumento do poder discricional da justiça e da administração quando na aplicação das medidas; e alto nível de autonomia científica a respeito da letra do ECA. Desse modo, acredita Méndez (2000, p. 10) que o ECA responde aos altos padrões internacionais de respeito aos direitos humanos, respeitando as garantias dos indivíduos, independentemente da idade, ao assegurar concomitantemente a segurança da coletividade. Não obstante, também considera necessárias leis reguladoras das medidas sócio-educativas, que enxerga como a área mais escura da administração da justiça juvenil, em prol do enfrentamento da permanência de uma cultura, no ECA, de proteção subjetivista e discricional. Isso porque o escritor é adepto do garantismo, uma vez que, ao referir-se à Lei da Responsabilidade Penal Juvenil da Costa Rica (2000, p. 4), equiparando-a com o ECA, afirma que a mesma

12 técnicas jurídicas muito mais refinadas e garantistas, quer dizer, menos Concebe, por sua vez,

12

técnicas jurídicas muito mais refinadas e garantistas, quer dizer, menos

Concebe, por sua vez, como caráter garantista de uma

legislação (2000, p. 6) àquela que se calca “respeito rigoroso pelo império da lei [ ] numa perspectiva de direitos humanos”. Com efeito, é a favor da eliminação das “boas” práticas “tutelares e compassivas”, em virtude das maiores atrocidades contra a infância terem sido cometidas em nome do amor; a justiça não pode ser substituída pelo amor. Trazendo uma avaliação acerca das medidas sócio-educativas, no ECA de 1990, de Lima (2007, p. 70-71), por sua vez, percebe sua “retórica filosófica e jurídica do garantismo, o fim do poder discricionário do juiz e o respeito ao devido processo legal”. Sob o paradigma da Proteção Integral, o adolescente passa a ser visto, pelo ECA, como sujeito de direito e com garantias processuais. Além disso, o escritor tece algumas críticas ao ECA, pois acredita que o atual Estatuto reflete sérias contradições, pois, muito embora substitua crime por ato infracional, esse justifica a aplicação de medida sócio-educativa, a qual, por sua vez, “só pode ser imposta pelo aparelho estatal de justiça, alheio às vontades das partes diretamente envolvidas (adolescente infrator, sua família ou parentes, vítima e demais interessados)”. Ademais, a valorização da internação permanece, porque se perfaz em prática penalizadora mediante infrações como homicídio, roubo e reiteração de atos infracionais, ou seja, contrariando o perfil pedagógico proposto pelo próprio estatuto, considerando-se que há uma equiparação de ato infracional a crime e medida sócio- educativa a pena. Nesse diapasão, de Lima é crucial ao evidenciar que as medidas sócio-educativas funcionam como espécie de controle jurídico-político pelo qual a miséria transforma-se objeto de interesse:

abertas e discricionais [

detém “ [

]

]”.

Sob o controle jurídico-político de medidas sócio-educativas, a governamentalização da miséria converte-se em alvo de interesse e objeto de competência técnico-gerencial e assiste, de modo solidário, à expansão da máquina judiciária destinada aos jovens, o revigoramento da filantropia assistencial e, ainda, assegura lucros adicionais às empresas privadas. Essas, por meio de suas fundações, arrancam subsídios fiscais para desenvolver projetos que tenham como público-alvo jovens pobres e infratores que habitam os cinturões urbanos da miséria (2007, p. 72).

Um outro aspecto intrínseco à discussão, apontado por De lima (2007, p. 87- 88), é o fato de que a atuação policial e dos demais órgãos de controle acaba contribuindo para uma figura/estereótipo social acerca da natureza do crime e do

13 delinqüente típico , e isso se dá pelo reforço de uma concepção, partilhada pelas

13

delinqüente típico, e isso se dá pelo reforço de uma concepção, partilhada pelas pessoas comuns, que desconhece a diferença entre a “criminalidade real, quantidade de delitos cometidos num tempo e lugar determinados, e a criminalidade aparente, conhecida e registrada pelos órgãos oficiais de controle”. Sendo pequeno

o número das ocorrências identificadas e perseguidas pelos órgãos da polícia. Sobre isso, oportuna é a transcrição dos dizeres de Méndez, o qual confere muito mais aos políticos, que propriamente aos meios de comunicação, a responsabilização pelo alarde social da insegurança urbana, a qual se pauta na falta informação quantitativa combinada com distorções, em troca da promessa ilusória da segurança:

alguns meios de comunicação têm sido sumamente “eficazes” em vincular em forma praticamente automática o problema da

[

]

segurança/insegurança urbana com comportamentos violentos atribuídos

aos jovens [

aos

pouco escrupulosos que [

legítimas da população tal como o medo e a insegurança urbana. [ ]

Sobretudo nos começos destas campanhas de alarme social, a falta de informação quantitativa com que se distorcionava a pouca e confusa

informação disponível. [

o

resultado da prioridade e da vontade política (2000, p. 9).

No entanto, não me parece que a iniciativa possa atribuir-se

a iniciativa tem surgido de políticos

traficam com necessidades e angústias

].

[

]

meios de comunicação. [

]

]

]

A obtenção de informação confiável [

]

é

Ressalta de Lima (2007, p. 85) que a massa de indivíduos redundantes ao capitalismo transformou-se em interessante, pois foram transformados na clientela das prisões, educandários, e instituições de controle a céu aberto, isto é, da indústria de controle do crime, passaram a ser objeto de lucro para a construção civil, à indústria eletrônica e às consultorias especializadas em segurança. De Lima salienta, ainda, que a promessa destinada aos jovens contrários à ordem é a educação compulsória e a integração ao mundo “que supostamente sabe reconhecer o desempenho de tarefas produtivas e salariais subalternas” (2007, p. 72-73). Elucidando que a intervenção penal age através da seletividade e da rotulação de determinados grupos específicos. Coaduna também o autor com a perspectiva de que a solução a tudo isso não se traduz na negação de qualquer medida coercitiva ou na supressão da noção de responsabilidade pessoal, mas sim no questionamento do direito estatal penalizador, analisando-se em quais condições

a internação, a residência obrigatória, “pode desempenhar um papel de reativação

pacífica do tecido social”. Inclusive, não acredita que o sistema penal produza um “acordo satisfatório entre as partes”, por trazer o risco de uma “punição desmedida”.

14 Assim, Cezar Bueno de Lima é adepto a saídas opostas ao atual modelo estatal

14

Assim, Cezar Bueno de Lima é adepto a saídas opostas ao atual modelo estatal penalizador juvenil, em prol de que o mesmo não continue operando baseado na seletividade, no etiquetamento e transformando os protagonistas em delinqüente e vítima. De Lima (2007, p. 88) inúmeras vezes evidencia sua posição, seja contra o etiquetamento/estigmatização produzido pela mídia/instâncias juvenis, as quais insistem na ideia de população infratora e reincidente em prol de reafirmar a inevitabilidade de tais instituições, fazendo com que a sociedade associe os atos infracionais aos jovens pobres/oriundos de periferias; contra inclusive, a utilização dos jovens infratores, confinados em internatos, como pretexto para a expansão do “investimento cruzado entre Estado e iniciativa privada na busca de ações políticas que propõem incessantes reformas sem encontrar soluções eficazes” (2007, p. 55). Em suma, contra a atuação dos aparelhos juvenis de controle, por ser a favor de uma sociedade sem penas, através da criação de mecanismos de solução dos conflitos/problemas, cujos poderes pertencem às partes envolvidas (Mendez, 2000, p. 1 ou 2). Méndez (2000, p. 8) não é pela impunidade da adolescência, apontando que isso incentivaria a Justiça pelas próprias mãos, devendo os adolescentes continuar sendo responsáveis de seus atos - se típicos, antijurídicos e culpáveis, conquanto que jamais sejam submetidos às mesmas sanções, processos e instituições dos adultos. Vê a responsabilidade penal dos adolescentes como aspecto intrínseco ao exercício da cidadania. Ademais, entende Méndez (2000, p. 9) que se constitui numa resposta equivocada/irresponsável da conjuntura atual a não compreensão do adolescente infrator enquanto sujeito de direitos, porém também de responsabilidade pelas infrações cometidas, bem como da necessária articulação entre o direito da sociedade, a sua segurança coletiva e o direito dos indivíduos, de qualquer idade. Como conquista/avanço normativo, consagrado no ECA, considera a construção jurídica da responsabilidade penal dos adolescentes, cuja impugnação comportaria um verdadeiro regresso ao festival do direito de menores 7 . Contudo, a sustentação

7 Rizzini (2006, p. 22) relembra que, à época da aprovação da legislação de menores, em 1927, a lei permitia que qualquer um fosse alvo da ação do juiz, podendo ser apreendidos tanto os menores abandonados/ pervertidos, quanto os que estavam em “perigo de o ser”, e, principalmente, os delinqüentes. Para isso, bastaria

15 da existência de uma responsabilidade social, por outro lado, ao mesmo, contradiria o Estatuto

15

da existência de uma responsabilidade social, por outro lado, ao mesmo, contradiria o Estatuto Juvenil, constituindo posição favorável a políticas repressivas. Para Baratta (2014, p. 4), o qual aborda a condição da criança na América Latina à luz da Convenção Internacional dos Direitos da Criança da Organização das Nações Unidas de 1989, o ECA de 1990 no Brasil, representa uma das legislações de menores mais adiantadas do mundo. Isso porque, juntamente com o art. 227 da Constituição Federal de 1988, antecipou em um ano, os princípios norteadores da Convenção. Ao mesmo, a ratificação da Convenção, apesar de não ser suficiente, é intrínseca na luta pela transformação da realidade social das crianças na América Latina.

Referindo-se ao Eca brasileiro, Baratta afirma:

Se admite entonces una verdadera y propia responsabilidad penal del menor que es mucho mejor declararla así tal como es para salir de todos los eufemismos que han rodeado hasta ahora la real función punitiva con respecto de menores infractores, sino solamente abandonados. En este campo, efectivamente, se sale de un paradigma de la situación irregular (2014, p. 7).

De maneira a traçar os limites que compuseram a fundamentação originária do direito dos menores, a qual ainda afeta a realidade atual, Baratta (2014, p. 5) destaca dois. Primeiro, a consideração da criança, ao invés de sujeito de direito, como alvo de uma proteção privilegiada e de controle especial. Segundo, tem-se a confusão entre a situação irregular e a situação em que unicamente se considera ao menor agindo delituosamente, conseqüência da teoria da periculosidade social. Como contraponto, entretanto, expõe que a Convenção, a que se alude, supera

esse primeiro limite, pois “se ocupa en diversas normas del niño [

como sujeto de

]

derecho em sentido pleno, y no solamente, entonces como persona incapaz representada por los adultos a los que pertence la competencia y el deber de cuidarlos”. A criança é vista como alguém que tem autonomia para saber de suas necessidades, pois é portadora de consciência, sujeito livre para comunicar-se e se associar a outros sujeitos. A despeito do segundo limite histórico, Baratta (2014, p. 6) considera que a Convenção responde de maneira a garantir inúmeros direitos ao menor acusado ou

sentenciado pela infração a leis penais, fazendo distinção conceitual entre essa situação daquela da não proteção, a qual exige, ao invés de sanção, medidas de

16 proteção. Admite, todavia, que alguns aspectos problemáticos da atual situação em que se encontra

16

proteção. Admite, todavia, que alguns aspectos problemáticos da atual situação em que se encontra a Justiça de Menores da América Latina, bem como do resto do mundo, não restam superados. Isso porque, a Convenção autoriza, em nome do princípio da excepcionalidade, o regime de internação de menores, tanto infratores como desprotegidos. Convertendo-se a confusão entre infração de leis penais, pelo menor, com situação irregular – pobreza e abandono - na criminalização da pobreza e do abandono, a qual já deveria se encontrar devidamente superada, já que, para o autor, não se pode manter a velha doutrina da situação irregular. Acredita Baratta (2014, p. 8) que não seriam suficientes a vontade e a capacidade política, seja dos Estados, seja do mundo jurídico oficial, para uma efetiva implementação dos princípios e normas da Convenção na legislação e na administração dos Estados, sem que haja um forte movimento social, oriundo da sociedade civil. Somente, portanto, com a efetiva participação da sociedade civil que se poderá lograr eficaz a ação dos serviços públicos, bem como a dos juristas. Com efeito, explica que isso se daria através do favorecimento do surgimento de condições “que permitan al portador de necesidades, al usuario de servicios (la comunidad), percibirse y organizarse como un sujeto de derechos, encontrando así su própria capacidad de negociación con los servicios publicos” (Baratta, ano. p.8. No que se refere à legislação a nível supranacional, bem como, especialmente a partir da Convenção de Estrasburgo de 1996, infere-se, a partir de Resta (2007, p. 25), que o menor é convertido em sujeito processual, podendo estar em juízo e ser escutado, deixando de ser alvo de interesse de outrem, ao que chama de “progresivo reconocimiento de la subjetividad del menor”. Além disso (p. 27), propõe a instituição de mecanismos de composição dos conflitos, atrelados à infância, como a mediação, por ser mais comunicativa, próxima e menos traumática. Por fim, Baratta (2014) apresenta algumas espécies de indicações ao problema que engloba a infância da América Latina, tais, como a descentralização dos serviços estatais, e a participação das comunidades, em uma perspectiva de devolver os conflitos aos indivíduos direta e indiretamente interessados; ainda, reestruturação das instancias oficias, institucionais e legais, em uma linha de transformação das relações sociais, e isso passa também em grande medida pela melhor distribuição dos bens positivos; tendo-se em conta o rompimento do com a logica assistencialista e autoritária da ceara da infância e juventude, das respostas

17 virem dos adultos, e das instituições, e tendo os jovens como repositórios de adulteridade

17

virem dos adultos, e das instituições, e tendo os jovens como repositórios de adulteridade; e sim com o intento de trazê-los como polos ativos e criativos na mudança social, e resolução dos conflitos, e da própria condição de subalternidade em que se encontram historicamente. 4 – CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo, longe de trazer respostas rápidas e milagrosas ao paradoxo infanto-juvenil, tem o intento de esclarecer a forma de atuação dos sistemas tutelar-assistencial ao longo da trajetória brasileira, perpassando-se pelo atual modelo sócio-educativo, proposto pelo ECA. Assim, evidencia-se que o controle e a repressão sempre se fizeram presentes na realidade juvenil, malgrado se encontrassem camuflados sob o discurso legitimador de uma minoria, cuja alcunha era “pessoas de bem”. A falácia dessa minoria era incisiva ao aduzir que a solução aos jovens ociosos se perfazia no ensino/trabalho – devendo-se aqui abrir parênteses: uma educação pautada na pedagogia do trabalho, um ensino profissionalizante e subalternizante. O que se traduz na produção de corpos dóceis, trabalhadores assalariados e úteis à máquina capitalista ou à vida urbana que emergia no final do século XIX para o século XX. Nessa linha, o aparato jurídico-assistencial culminou nas prisões, nos internatos, sob a égide da concepção popular de que lugar de menino pobre é nessas instituições, porquanto a pobreza fora (e ainda persiste para muitos) como sinônimo de delinqüência e marginalidade; ideologias advindas da Doutrina da Situação Irregular. A rotulação e a seletividade de determinados grupos específicos ainda é realidade hodierna, e não por acaso. Distorce-se a questão criminal, fazendo-se com que a população acredite numa aparente, desconhecendo-se a cifra oculta - somente determinados casos são perseguidos pelos órgãos policiais. E isso proporciona repercussão midiática e discursos políticos a alimentarem o populismo punitivo que surge da criada sensação de insegurança, tudo em troca de votos e capital material e simbólico. Assim, assiste-se a expansão do aparelho judiciário juvenil, auferindo-se lucros à indústria do crime. À miséria brasileira, estigmatizada, não se proporcionou educação pública de qualidade, mas simplesmente empregos subalternos. REFERÊNCIAS

18 BARATTA, Alessandro. Criminologia Critica e Critica do Direito Penal: introdução à sociologia do direito

18

BARATTA, Alessandro. Criminologia Critica e Critica do Direito Penal:

introdução à sociologia do direito penal. Rio de Janeiro: Freitas Bastos/ Instituto Carioca de Criminologia, 1999. BARATTA, Alessandro. La situación de la proteción del niño en América Latina. In: http://biblio.juridicas.unam.mx/libros/4/1836/24.pdf. Acesso em 30/05/2014 BEIRAS, Iñaki Rivera. Los presupuestos ideológicos de una justicia penal de/para los jóvenes (hegemonia y anomalias de un difícil vínculo social). In: In:

BERGALLI, Roberto; BEIRAS, Iñaki Rivera (coord). JOVENES y adultos: el difícil vínculo social. Barcelona: Anthropos Editorial, 2007. LEAL, Jackson da Silva. O sistema penal na lente da juventude transgressora:

da politica social à politica penal. Dissertação de mestrado. Pelotas: Programa de Pós-Graduação em politica Social - UCPel, 2013. Juventude e Criminalização: do discurso protetivo à prática do controle punitivo. In: DEL MORO, Rosangela; et al. (org.). Direito da Criança e do Adolescente. Curitiba: Editora Íthala, 2014. pp. 105-132. DE LIMA, Cezar Bueno. Internação provisória, liberdade assistida e jovens assassinados: existências interrompidas por um itinerário penalizador. São Paulo:

Tese de Doutorado em Ciências Sociais – PUC/SP, 2007. MENDÉZ, Emílio García. Adolescentes e responsabilidade penal: um debate

latino

http://www.justica21.org.br/j21.php?id=222&pg=0#.U9kIjJRdUlI. Acesso em

30/05/2014

In:

americano.

PASSETTI, Edson. O que é menor. São Paulo: editora brasiliense, 1985. RESTA, Eligio. La ley de la infancia. In: BERGALLI, Roberto; BEIRAS, Iñaki Rivera

(coord). JOVENES y adultos: el difícil vínculo social. Barcelona: Anthropos Editorial,

2007.

RIZZINI, Irene. O movimento de salvação da criança no Brasil: ideias e práticas correntes de assistência à infância pobre na passagem do século XIX para o XX. Congresso Brasa VIII. Vanderbilt University, Nashville, Tennessee, USA, 2006.