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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SANEAMENTO, MEIO AMBIENTE E RECURSOS HÍDRICOS

VIABILIDADE DO APROVEITAMENTO DE ÁGUA DE CHUVA EM ZONAS URBANAS:

ESTUDO DE CASO NO MUNICÍPIO DE BELO HORIZONTE - MG

Manuelle Prado Cardoso

Belo Horizonte

2009

VIABILIDADE DO APROVEITAMENTO DE ÁGUA DE CHUVA EM ZONAS URBANAS: ESTUDO DE CASO NO MUNICÍPIO DE BELO HORIZONTE - MG

Manuelle Prado Cardoso

Manuelle Prado Cardoso

VIABILIDADE DO APROVEITAMENTO DE ÁGUA DE CHUVA EM ZONAS URBANAS: ESTUDO DE CASO NO

MUNICÍPIO DE BELO HORIZONTE - MG

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos.

Área de concentração: Saneamento

Linha de pesquisa: Qualidade e tratamento de água para consumo humano.

Orientador: Valter Lúcio de Pádua

Belo Horizonte

Escola de Engenharia da UFMG

2009

AGRADECIMENTOS

À Deus e à Nossa Senhora, em primeiro lugar, por estarem sempre ao meu lado e de minha

família, iluminando os nossos caminhos.

Aos meus amados pais, Helenice e Manuel, pelo apoio incondicional, dedicação, amor, companheirismo e por me incentivarem, estando sempre ao meu lado. Amo muito vocês dois.

Ao meu grande amor, meu marido Júlio César, pelo amor, incentivo, ajuda e paciência. Sem a sua constante presença seria muito difícil a conclusão dessa etapa da minha vida. Muito obrigada, te amo.

Ao meu querido irmão, Manuel Fellipe, pela grande amizade, amor, consideração e ajuda na pesquisa. Muito obrigada, Lipe. Te amo.

Ao professor Valter, pelo carinho e incentivo, durante toda a Iniciação Científica e Mestrado. Foi um excelente orientador e amigo durante todos esses anos.

Ao Henrique, pela ajuda nas análises de laboratório. Muito obrigada pelo interesse e dedicação.

À Lucilaine e estagiárias do laboratório de espectofotometria, pelas análises de metais.

À professora Sílvia, pela paciência e disponibilidade em me ajudar nas análises estatísticas.

À Dayse, por me ajudar a enxergar alguns pontos importantes da pesquisa qualitativa,

fundamentais para o meu trabalho, e à Gisele, pela disponibilidade e pelas sugestões.

À FAPEMIG, pelo financiamento do projeto.

Á Poente Engenharia e Consultoria, pela compreensão e apoio.

À Norma, Olívia e estagiárias do laboratório 801, pela atenção e ajuda.

Aos professores e funcionários do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFMG, pelos ensinamentos e carinho.

A todos familiares e amigos que torceram por mim e a todas as pessoas que participaram

direta e indiretamente deste trabalho.

RESUMO

A presente pesquisa teve como objetivo geral avaliar a qualidade da água de chuva captada em Belo Horizonte - MG - Brasil, e verificar a percepção de moradores da cidade em relação ao aproveitamento dessa água para fins não potáveis. A pesquisa quantitativa, sobre a qualidade da água de chuva, foi realizada em duas regiões da cidade, Centro e Pampulha. Foram instalados dois sistemas pilotos em cada região, um apresentava superfície de captação constituída por telhas cerâmicas e o outro por telhas metálicas. Foram realizadas análises físico-químicas (pH, turbidez, cor aparente, alcalinidade, dureza, sulfato, ferro, manganês e chumbo) e microbiológicas (coliformes totais e Escherichia coli), de acordo com o Standard Methods. As coletas ocorreram entre março de 2008 e janeiro de 2009. Os parâmetros coliformes totais, cor aparente, turbidez e ferro não atingiram o padrão recomendado pela Norma Brasileira nº 15.527/2007 da ABNT e Portaria nº 518/2004 do Ministério da Saúde quando foi descartado o volume de 2,0 L de água de chuva por m 2 de telhado, indicados na referida Norma. Além disso, verificou-se que há diferença entre a qualidade das águas captadas nas duas regiões de estudo e nos dois tipos de telhas. As águas captadas pelas telhas metálicas apresentaram qualidade microbiológica superior às captadas nas telhas cerâmicas. A respeito da possibilidade de utilização de água de chuva em algumas atividades, essa pode ser uma ferramenta importante no combate ao uso indiscriminado de água potável. Entretanto, para que medidas de aproveitamento da água de chuva sejam realmente viáveis, é necessário que a população aceite fazê-las. Assim, viu-se a necessidade de inserção de estudo qualitativo para avaliar a percepção dos moradores da cidade de Belo Horizonte sobre o aproveitamento de água de chuva. Foram entrevistadas 18 pessoas, sendo que 9 apresentavam curso superior completo e 9 ensino fundamental incompleto. O método de coleta de dados utilizado na presente pesquisa foi a entrevista a semi-estruturada e o método de análise foi o Discurso do Sujeito Coletivo (DSC). As análises dos DSCs sugerem que os entrevistados possuíam consciência ambiental e eram a favor da utilização de água de chuva para fins não potáveis, como limpeza geral e irrigação de plantas. Percebeu-se que incentivos financeiros por parte de algum órgão ou entidade seriam decisivos para que muitas pessoas residentes em áreas urbanas aproveitassem a água de chuva. Foram citados como causas possíveis da não utilização de água de chuva na área urbana: a falta de espaço, dinheiro e conhecimento; água potável disponível em abundância e pouco volume de água de chuva armazenado.

ABSTRACT

This research aims to evaluate the quality of the rain water collected in Belo Horizonte – MG – Brazil, and verify the city inhabitant’s perception over the utilization of this water for non- potable uses. The quantitative research about the rain water quality was carried out in two parts of the city, Downtown and Pampulha. Two pilot systems were installed in each region, one of them had the surface built with ceramics tiles and the other with metallic tiles. Physics and chemistry analysis were carried out (pH, turbidity, apparent color, alkalinity, hardness, sulfate, iron, manganese and lead) and microbiologic (total coliforms and Escherichia coli). The water samples were collected from march 2008 to January 2009. The standard total coliforms, apparent color, turbidity, and iron did not reach the standards by preconized the Brazilian norm number 15,527/2007 of the ABNT (Brazilian Technical Standards Association) and governmental decree 518/2004 Health State Department when 2.0 L of rainwater per m² of roof were discarded. A difference between the quality of the water collected in the two regions analyzed and in the two kinds of tiles was verified. The water collected by the metallic tiles showed a higher microbiologic quality than those collected by the ceramics tiles. Concerning the possibility of the utilization of the rain water in some activities, this can be an important tool in the struggle against the indiscriminate use of potable water. Meanwhile, to make the use of rainwater feasible, it’s necessary that the population accept it. In this way, a qualitative study was carried out to evaluate the awareness of the Belo Horizonte’s inhabitants towards the utilization of the rain water. 18 people were interviewed, 9 with a higher education degree and 9 with incomplete elementary school degree. The data collecting method used in the research was the semi-structured interview and the analysis method was the Discourse of the Collective Subject (DCS). The analysis of the DCSs suggests that the interviewed people had an environmental consciousness and were for the rain water utilization for non-potable uses like cleaning and irrigation plants. It is clear that a financial help provided by the state would be decisive so that many people living in the urban areas could use the rain water. Some facts were mentioned as possible causes for the non-utilization of the rain water in the urban areas such as: lack of space, money and knowledge; potable water in abundance and low level of rain water storage.

SUMÁRIO

LISTA DE FIGURAS

VII

LISTA

DE

TABELAS

XVI

LISTA DE ABREVIATURAS, SIGLAS E SÍMBOLOS

XVII

1. INTRODUÇÃO

 

1

2. OBJETIVOS

3

2.1. OBJETIVO GERAL

3

2.2. OBJETIVOS ESPECÍFICOS

3

3. REVISÃO DA LITERATURA

4

3.1. DISPONIBILIDADE HÍDRICA NO BRASIL

4

3.2. A CAPTAÇÃO DE ÁGUA DE CHUVA NA ANTIGUIDADE

5

3.3. SUPERFÍCIES DE CAPTAÇÃO DE ÁGUA DE CHUVA

6

3.4. RESERVATÓRIOS PARA O ARMAZENAMENTO DE ÁGUA

9

3.5. MÚLTIPLAS BARREIRAS PARA PROTEÇÃO DA ÁGUA DE CHUVA CAPTADA

16

3.6. EXPERIÊNCIAS COM A IMPLANTAÇÃO DE SISTEMAS DE APROVEITAMENTO DE ÁGUA DE CHUVA

21

3.7. LEIS DE INCENTIVO À CAPTAÇÃO DE ÁGUA DE CHUVA

24

3.7.1. Legislações municipais e estaduais brasileiras

24

3.7.2. Legislação Federal Brasileira

27

3.7.3. Legislação estrangeira

28

3.8. PRINCIPAIS PORTARIAS E NORMAS SOBRE QUALIDADE DE ÁGUA NO BRASIL

28

3.9. QUALIDADE DA ÁGUA DE CHUVA

30

3.10. INFLUÊNCIA DA POLUIÇÃO DO AR NA QUALIDADE DA ÁGUA DE CHUVA

33

3.11. VIABILIDADE ECONÔMICA DO APROVEITAMENTO DE ÁGUA DE CHUVA EM ÁREAS URBANAS

35

3.12. PERCEPÇÃO DOS SUJEITOS

36

3.13. PESQUISA QUALITATIVA

38

3.13.1. Seleção de amostras

39

3.13.2. Método de coleta de dados

40

3.13.3. Método de análise de dados

42

3.14.

DISCURSO DO SUJEITO COLETIVO

42

4. MATERIAL E MÉTODOS

44

4.1.

QUALIDADE DA ÁGUA DE CHUVA EM FUNÇÃO DO VOLUME DESCARTADO

44

4.1.1. Sistema de coleta e armazenamento de água de chuva na primeira fase da pesquisa

45

4.1.2. Sistema de coleta e armazenamento de água de chuva na segunda fase da pesquisa

49

4.1.3. Parâmetros monitorados

50

 

4.1.3.1. Parâmetros

50

4.1.3.2. Parâmetros

54

4.1.4. Coletas e análises

55

4.1.5. Monitoramento da precipitação nos dois locais de coleta

57

4.1.6.

Análise estatística

58

4.2.

INVESTIGAÇÃO DA PERCEPÇÃO DOS SUJEITOS

59

4.2.1. Elaboração de tópico-guia

60

4.2.2. Submissão do projeto ao Comitê de Ética

64

4.2.3. Realização do pré-teste

65

4.2.4. Seleção dos entrevistados

65

4.2.5. Análise das entrevistas

66

5. RESULTADOS E DISCUSSÕES

68

5.1.

QUALIDADE DA ÁGUA DA CHUVA CAPTADA EM BELO HORIZONTE

68

5.1.1.

Comparação entre diferentes superfícies de captação localizadas em uma mesma região

69

5.1.1.1.

pH

69

5.1.1.2.

Turbidez

70

5.1.1.3.

Cor aparente

72

5.1.1.4. Alcalinidade

74

5.1.1.5. Coliformes totais

75

5.1.1.6. Escherichia coli

76

5.1.1.7. Sulfato

78

5.1.1.8. Ferro

79

5.1.1.9. Manganês

80

5.1.1.10.

Chumbo

81

5.1.2.

Comparação entre duas regiões considerando um mesmo ponto de coleta

82

5.1.2.1.

pH

82

5.1.2.2. Turbidez

83

5.1.2.3. Cor aparente

84

5.1.2.4. Alcalinidade

85

5.1.2.5. Coliformes totais

86

5.1.2.6. Escherichia coli

88

5.1.2.7. Sulfato

88

5.1.2.8. Ferro

89

5.1.2.9. Manganês

90

5.1.2.10.

Chumbo

91

5.2.

PERCEPÇÃO DE ALGUNS SUJEITOS RESIDENTES EM BELO HORIZONTE

92

5.2.1. Discurso do Sujeito Coletivo

92

5.2.2. Considerações sobre os Discursos do Sujeito Coletivo

132

6. CONCLUSÕES

134

7. RECOMENDAÇÕES

137

8. REFERÊNCIAS

138

 

9. APÊNDICES

146

9.1.

APÊNDICE A - GRÁFICOS BOX & WHISKER PLOTS E RESULTADOS DE ANÁLISES ESTATÍSTICAS

146

9.2.

APÊNDICE B – PRECIPITAÇÃO MEDIDA PELO PLUVIÔMETRO, TIPO CUNHA, IMPLANTADO NAS DUAS REGIÕES

DE ESTUDO, PAMPULHA E CENTRO

166

9.3. APÊNDICE C – RESULTADOS DA PRIMEIRA ETAPA DA PESQUISA QUANTITATIVA MÁXIMOS E MÍNIMOS

167

9.4. APÊNDICE D – PROTOCOLO PARA COLETA DE DADOS

168

9.5. APÊNDICE E – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO

170

ANEXO

171

LISTA DE FIGURAS

Figura 3.1 - Layout de um sistema simplificado de captação de água de chuva em telhados

7

Figura 3.2 - Implantação de um telhado verde em uma residência

9

Figura 3.3 - Exemplo de sistema que bombeia água da cisterna para a caixa d’água

14

Figura 3.4 - Sistema de armazenamento de água de chuva em garrafas PET

15

Figura 3.5 - Dispositivo de desvio

17

Figura 3.6 - Retirada do tampão

17

Figura 3.7 - Filtro tipo vórtex

18

Figura 3.8 - Filtro de descida

18

Figura 3.9 - Filtro flutuante

18

Figura 3.10 - “Kit” de interligação automático

18

Figura 3.11 - Filtro flutuante

19

Figura 3.12 - Exemplo de bombeamento da água armazenada na cisterna

20

Figura 3.13 - Coleta utilizando recipiente

21

Figura 3.14 - Coleta com bomba manual

21

Figura 3.15 - Sistema de aproveitamento de água de chuva em edifício comercial

22

Figura 3.16 - Sistema de aproveitamento de água de chuva em fábrica de refrigerantes

23

Figura 3.17 - Telhado verde implantado em fábrica alemã

24

Figura 3.18 - Forças de atuação nas mudanças de conduta

38

Figura 3.19 - Possibilidades de discursos em função de semelhanças de pensamentos

43

Figura 4.1 - Layout de Belo Horizonte mostrando locais de implantação dos sistemas piloto

44

Figura 4.2 - Sistema piloto de captação/armazenamento de água de chuva implantado nas duas regiões de Belo Horizonte (Centro e Pampulha)

46

Figura 4.3 - Ilustração das etapas de coleta e armazenamento nos sistemas piloto

47

Figura 4.4 - Fluxograma da disposição dos tubos (pontos de coleta) em função do tipo de telha . 48

Figura 4.5 - Sistema de minimização de mistura das águas

49

Figura 4.6 - Pluviômetro tipo cunha

57

Figura 4.7 - Fluxograma dos pontos de coleta em função do tipo de superfície de captação – amostras dependentes

58

Figura 4.8 - Fluxograma dos pontos de coleta em função do tipo de superfície de captação – amostras independentes

59

Figura 5.1 - Comparação entre o pH da água do primeiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região da Pampulha

69

Figura 5.2 - Comparação entre o pH da água do primeiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região do Centro

69

Figura 5.3 - Comparação entre a turbidez da água do terceiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região da Pampulha

71

Figura 5.4 - Comparação entre a turbidez da água do terceiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região do Centro

71

Figura 5.5 - Comparação entre a cor aparente da água do terceiro tubo de coleta: telhas cerâmica e

73

metálica, região Pampulha

Figura 5.6 - Comparação entre a cor aparente da água do terceiro tubo de coleta: telhas cerâmica e

metálica, região do Centro

73

Figura 5.7 - Comparação entre a alcalinidade da água do segundo tubo de coleta: telhas cerâmica

e metálica, região da Pampulha

74

Figura 5.8 - Comparação entre a alcalinidade da água do segundo tubo de coleta: telhas cerâmica

e

metálica, região do Centro

74

Figura 5.9 - Comparação entre coliformes totais presentes na água do segundo tubo de coleta:

telhas cerâmica e metálica, região da Pampulha

75

Figura 5.10 - Comparação entre coliformes totais presentes na água do segundo tubo de coleta:

telhas cerâmica e metálica, região do Centro

75

Figura 5.11 - Comparação entre Escherichia coli presentes na água do segundo tubo de coleta:

telhas cerâmica e metálica, região da Pampulha

77

Figura 5.12 - Comparação entre Escherichia coli presentes na água do segundo tubo de coleta:

telhas cerâmica e metálica, região do Centro

77

Figura 5.13 - Comparação entre sulfato presente na água do primeiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região da Pampulha

78

Figura 5.14 - Comparação entre sulfato presente na água do primeiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região do Centro

78

Figura 5.15 - Comparação entre o ferro presente na água do terceiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região da Pampulha

79

Figura 5.16 - Comparação entre o ferro presente na água do terceiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região do Centro

79

Figura 5.17 - Comparação entre o manganês presente na água do primeiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região Pampulha

80

Figura 5.18 - Comparação entre o manganês presente na água do primeiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região do Centro

80

Figura 5.19 - Comparação entre o chumbo presente na água do primeiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região Pampulha

81

Figura 5.20 - Comparação entre o chumbo presente na água do primeiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região do Centro

81

Figura 5.21 - Comparação entre o pH presente na água do primeiro tubo de coleta: Pampulha e Centro, telha cerâmica

82

Figura 5.22 - Comparação entre o pH presente na água do primeiro tubo de coleta: Pampulha e Centro, telha metálica

82

Figura 5.23 - Comparação entre a turbidez presente na água do terceiro tubo de coleta: Pampulha

e Centro, telha cerâmica

83

Figura 5.24 - Comparação entre a turbidez presente na água do terceiro tubo de coleta: Pampulha

e

Centro, telha metálica

83

Figura 5.25 - Comparação entre cor aparente presente na água do terceiro tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha cerâmica

84

Figura 5.26 - Comparação entre cor aparente presente na água do terceiro tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha metálica

84

Figura 5.27 - Comparação entre a alcalinidade presente na água do segundo tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha cerâmica

86

Figura 5.28 - Comparação entre a alcalinidade presente na água do segundo tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha metálica

86

Figura 5.29 - Comparação entre coliformes totais presentes na água do segundo tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha cerâmica

87

Figura 5.30 - Comparação entre coliformes totais presentes na água do segundo tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha metálica

87

Figura 5.31 - Comparação entre Escherichia coli presente na água do segundo tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha cerâmica

88

Figura 5.32 - Comparação entre Escherichia coli presente na água do segundo tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha metálica

88

Figura 5.33 - Comparação entre o sulfato presente na água do primeiro tubo de coleta: Pampulha e

89

Centro, telha cerâmica

Figura 5.34 - Comparação entre o sulfato presente na água do primeiro tubo de coleta: Pampulha e

89

Centro, telha metálica

Figura 5.35 - Comparação entre o ferro presente na água do terceiro tubo de coleta: Pampulha e Centro, telha cerâmica

90

Figura 5.36 - Comparação entre o ferro presente na água do terceiro tubo de coleta: Pampulha e Centro, telha metálica

90

Figura 5.37 - Comparação entre o manganês presente na água do primeiro tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha cerâmica

91

Figura 5.38 - Comparação entre o manganês presente na água do primeiro tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha metálica

91

Figura 5.39 - Comparação entre o chumbo presente na água do primeiro tubo de coleta: Pampulha

e Centro, telha cerâmica

92

Figura 5.40 - Comparação entre o chumbo presente na água do primeiro tubo de coleta: Pampulha

e

Centro, telha metálica

92

Figura 5.41 - Resultado quantitativo relativo à pergunta 1

94

Figura 5.42 - Resultado quantitativo relativo à pergunta 2

97

Figura 5.43 - Resultado quantitativo relativo à pergunta 3

99

Figura 5.44 - Resultado quantitativo relativo à pergunta 4

101

Figura 5.45 - Resultado quantitativo relativo à pergunta 5

104

Figura 5.46 - Resultado quantitativo relativo à pergunta 6

107

Figura 5.47 - Resultado quantitativo relativo à pergunta 7

111

Figura 5.48 - Resultado quantitativo relativo à pergunta 8

113

Figura 5.49 - Resultado quantitativo relativo à pergunta 9

117

Figura 5.50 - Resultado quantitativo relativo à pergunta 10

119

Figura 5.51 - Resultado quantitativo relativo à pergunta 11

121

Figura 5.52 - Resultado quantitativo relativo à pergunta 12

123

Figura 5.53 - Resultado quantitativo relativo à pergunta 13

125

Figura 5.54 - Resultado quantitativo relativo à pergunta 14

127

Figura 5.55 - Resultado quantitativo relativo à pergunta 15

129

Figura 5.56 - Resultado quantitativo relativo à pergunta 16

131

Figura 9.1 - Comparação entre o pH da água do segundo tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região da Pampulha

146

Figura 9.2 - Comparação entre o pH da água do terceiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região da Pampulha

146

Figura 9.3 - Comparação entre o pH da água do segundo tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região do Centro

146

Figura 9.4 - Comparação entre o pH da água do terceiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região do Centro

146

Figura 9.5 - Comparação entre a turbidez da água do primeiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região Pampulha

147

Figura 9.6 - Comparação entre a turbidez da água do segundo tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região Pampulha

147

Figura 9.7 - Comparação entre a turbidez da água do primeiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região do Centro

147

Figura 9.8 - Comparação entre a turbidez da água do segundo tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região do Centro

147

Figura 9.9 - Comparação entre a cor aparente da água do primeiro tubo de coleta: telhas cerâmica

e metálica, região da Pampulha

148

Figura 9.10 - Comparação entre a cor aparente da água do segundo tubo de coleta: telhas cerâmica

e

metálica, região da Pampulha

148

Figura 9.11 - Comparação entre a cor aparente da água do primeiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região do Centro

148

Figura 9.12 - Comparação entre a cor aparente da água do segundo tubo de coleta: telhas cerâmica

148

e metálica, região do Centro

Figura 9.13 - Comparação entre a alcalinidade da água do primeiro tubo de coleta: telhas cerâmica

149

e metálica, região da Pampulha

Figura 9.14 - Comparação entre a alcalinidade da água do terceiro tubo de coleta: telhas cerâmica

e metálica, região da Pampulha

149

Figura 9.15 - Comparação entre a alcalinidade da água do primeiro tubo de coleta: telhas cerâmica

149

e metálica, região do Centro

Figura 9.16 - Comparação entre a alcalinidade da água do terceiro tubo de coleta: telhas cerâmica

e

metálica, região do Centro

149

Figura 9.17 - Comparação entre coliformes totais presentes na água do primeiro tubo de coleta:

telhas cerâmica e metálica, região da Pampulha

150

Figura 9.18 - Comparação entre coliformes totais presentes na água do terceiro tubo de coleta:

telhas cerâmica e metálica, região da Pampulha

150

Figura 9.19 - Comparação entre coliformes totais presentes na água do primeiro tubo de coleta:

telhas cerâmica e metálica, região do Centro

150

Figura 9.20 - Comparação entre coliformes totais presentes na água do terceiro tubo de coleta:

telhas cerâmica e metálica, região do Centro

150

Figura 9.21 - Comparação entre Escherichia coli presentes na água do primeiro tubo de coleta:

telhas cerâmica e metálica, região da Pampulha

151

Figura 9.22 - Comparação entre Escherichia coli presentes na água do terceiro tubo de coleta:

telhas cerâmica e metálica, região da Pampulha

151

Figura 9.23 - Comparação entre Escherichia coli presentes na água do primeiro tubo de coleta:

telhas cerâmica e metálica, região do Centro

151

Figura 9.24 - Comparação entre Escherichia coli presentes na água do terceiro tubo de coleta:

telhas cerâmica e metálica, região do Centro

151

Figura 9.25 - Comparação entre sulfato presentes na água do segundo tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região da Pampulha

152

Figura 9.26 - Comparação entre sulfato presentes na água do terceiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região da Pampulha

152

Figura 9.27 - Comparação entre sulfato presentes na água do segundo tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região do Centro

152

Figura 9.28 - Comparação entre sulfato presentes na água do terceiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região do Centro

152

Figura 9.29 - Comparação entre o ferro presente na água do primeiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região da Pampulha

153

Figura 9.30 - Comparação entre o ferro presente na água do segundo tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região da Pampulha

153

Figura 9.31 - Comparação entre o ferro presente na água do primeiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região do Centro

153

Figura 9.32 - Comparação entre o ferro presente na água do segundo tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região do Centro

153

Figura 9.33 - Comparação entre o manganês presente na água do segundo tubo de coleta: telhas

cerâmica e metálica, região Pampulha

154

Figura 9.34 - Comparação entre o manganês presente na água do terceiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região Pampulha

154

Figura 9.35 - Comparação entre o manganês presente na água do segundo tubo de coleta: telhas

cerâmica e metálica, região do Centro

154

Figura 9.36 - Comparação entre o manganês presente na água do terceiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região do Centro

154

Figura 9.37 - Comparação entre o chumbo presente na água do segundo tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região da Pampulha

155

Figura 9.38 - Comparação entre o chumbo presente na água do terceiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região da Pampulha

155

Figura 9.39 - Comparação entre o chumbo presente na água do segundo tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região do Centro

155

Figura 9.40 - Comparação entre o chumbo presente na água do terceiro tubo de coleta: telhas cerâmica e metálica, região do Centro

155

Figura 9.41 - Comparação entre o pH presente na água do segundo tubo de coleta: Pampulha e Centro, telha cerâmica

156

Figura 9.42 - Comparação entre o pH presente na água do terceiro tubo de coleta: Pampulha e Centro, telha cerâmica

156

Figura 9.43 - Comparação entre o pH presente na água do segundo tubo de coleta: Pampulha e Centro, telha metálica

156

Figura 9.44 - Comparação entre o pH presente na água do terceiro tubo de coleta: Pampulha e Centro, telha metálica

156

Figura 9.45 - Comparação entre a turbidez presente na água do primeiro tubo de coleta: Pampulha

e Centro, telha cerâmica

157

Figura 9.46 - Comparação entre a turbidez presente na água do segundo tubo de coleta: Pampulha

e Centro, telha cerâmica

157

Figura 9.47 - Comparação entre a turbidez presente na água do primeiro tubo de coleta: Pampulha

e Centro, telha metálica

157

Figura 9.48 - Comparação entre a turbidez presente na água do segundo tubo de coleta: Pampulha

e

Centro, telha metálica

157

Figura 9.49 - Comparação entre cor aparente presente na água do primeiro tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha cerâmica

158

Figura 9.50 - Comparação entre cor aparente presente na água do segundo tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha cerâmica

158

Figura 9.51 - Comparação entre cor aparente presente na água do primeiro tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha metálica

158

Figura 9.52 - Comparação entre cor aparente presente na água do segundo tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha metálica

158

Figura 9.53 - Comparação entre a alcalinidade presente na água do primeiro tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha cerâmica

159

Figura 9.54 - Comparação entre a alcalinidade presente na água do terceiro tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha cerâmica

159

Figura 9.55 - Comparação entre a alcalinidade presente na água do primeiro tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha metálica

159

Figura 9.56 - Comparação entre a alcalinidade presente na água do terceiro tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha metálica

159

Figura 9.57 - Comparação entre coliformes totais presentes na água do primeiro tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha cerâmica

160

Figura 9.58 - Comparação entre coliformes totais presentes na água do terceiro tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha cerâmica

160

Figura 9.59 - Comparação entre coliformes totais presentes na água do primeiro tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha metálica

160

Figura 9.60 - Comparação entre coliformes totais presentes na água do terceiro tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha metálica

160

Figura 9.61 - Comparação entre Escherichia coli presente na água do primeiro tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha cerâmica

161

Figura 9.62 - Comparação entre Escherichia coli presente na água do terceiro tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha cerâmica

161

Figura 9.63 - Comparação entre Escherichia coli presente na água do primeiro tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha metálica

161

Figura 9.64 - Comparação entre Escherichia coli presente na água do terceiro tubo de coleta:

Pampulha e Centro, telha metálica

161

Figura 9.65 - Comparação entre sulfato presente na água do segundo tubo de coleta: Pampulha e

Centro, telha cerâmica

162

Figura 9.66 - Comparação entre sulfato presente na água do terceiro tubo de coleta: Pampulha e

Centro, telha cerâmica

162

Figura 9.67 - Comparação entre sulfato presente na água do segundo tubo de coleta: Pampulha e

Centro, telha metálica

162

Figura 9.68 - Comparação entre sulfato presente na água do terceiro tubo de coleta: Pampulha e

Centro, telha metálica

162

Figura 9.69 - Comparação entre ferro presente na água do primeiro tubo de coleta: Pampulha e Centro, telha cerâmica

163

Figura 9.70 - Comparação entre ferro presente na água do segundo tubo de coleta: Pampulha e Centro, telha cerâmica

163

Figura 9.71 - Comparação entre ferro presente na água do primeiro tubo de coleta: Pampulha e Centro, telha metálica

163

Figura 9.72 - Comparação entre ferro presente na água do segundo tubo de coleta: Pampulha e Centro, telha metálica

163

Figura 9.73 - Comparação entre manganês presente na água do segundo tubo de coleta: Pampulha

e Centro, telha cerâmica

164

Figura 9.74 - Comparação entre manganês presente na água do terceiro tubo de coleta: Pampulha

e Centro, telha cerâmica

164

Figura 9.75 - Comparação entre manganês presente na água do segundo tubo de coleta: Pampulha

e Centro, telha metálica

164

Figura 9.76 - Comparação entre manganês presente na água do terceiro tubo de coleta: Pampulha

e Centro, telha metálica

164

Figura 9.77 - Comparação entre o chumbo presente na água do segundo tubo de coleta: Pampulha

e Centro, telha cerâmica

165

Figura 9.78 - Comparação entre o chumbo presente na água do terceiro tubo de coleta: Pampulha

e Centro, telha cerâmica

165

Figura 9.79 - Comparação entre o chumbo presente na água do segundo tubo de coleta: Pampulha

e Centro, telha metálica

165

Figura 9.80 - Comparação entre o chumbo presente na água do terceiro tubo de coleta: Pampulha

e Centro, telha metálica

165

LISTA DE TABELAS

Tabela 3.1 - Tipos de cisternas e suas vantagens e desvantagens

11

Tabela 3.2 - Parâmetros de qualidade de água para usos restritivos não potáveis

29

Tabela 3.3 - Classificação das águas quanto ao padrão de balneablidade

30

Tabela 3.4 - Qualidade das primeiras águas de chuva

32

Tabela 4.1 - Resumo das datas de coletas e parâmetros monitorados

56

Tabela 5.1 - Informações gerais sobre os entrevistados

93

LISTA DE ABREVIATURAS, SIGLAS E SÍMBOLOS

A – Alcalinidade

ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas

CA – Cor aparente

CEP – Comitê de ética em pesquisa

COEP/ UFMG – Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais

CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente

CONEP – Comissão Nacional de Ética em Pesquisa

CT – Coliformes totais

D – Dureza

DESA – Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental

DSC – Discurso do sujeito coletivo

EC Escherichia coli

F – Ensino fundamental incompleto

IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada

L/ m² – Litro por metro quadrado

mL

– mililitro

mm

– milímetro

MS

– Ministério da Saúde

m² – metro quadrado

m³ – metro cúbico

n – Número

NBR – Norma Brasileira

NMP – Número Mais Provável

ONG – Organização não-governamental

PET – Politereftalato de etileno

PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento

PVC – Policloreto de vinila

S – Ensino superior completo

SODIS – Solar disinfection

T – Turbidez

TCLE – Termo de Consentimento Livre Esclarecido

UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais

uH – Unidade Hazen

uT – Unidade de Turbidez

VMP – Valor mais provável

1. INTRODUÇÃO

Segundo Setti et al. (2001), estima-se que no ano 2025, cerca de 5,5 bilhões de pessoas em todo o mundo estarão vivendo em áreas com moderada ou séria falta de água. Entretanto, existe água suficiente para atendimento de toda a população, o que acontece é que a distribuição dos recursos hídricos no planeta não é uniforme, o que causa cenários adversos em determinadas regiões.

O Brasil possui disponibilidade hídrica privilegiada, entretanto, cerca de 70% da água doce disponível no país encontra-se na região amazônica, que é habitada por menos de 5% da população (SETTI et al., 2001). Ainda segundo os mesmos autores, a ideia de que existe água em abundância no país pode ter servido, por algum tempo, como suporte à cultura do desperdício, à pouca valorização da água como recurso natural e ao adiamento de investimentos necessários ao seu uso otimizado.

Segundo IBGE (2000), o volume de água distribuído à população residente na região sudeste brasileira, no ano 2000, alcançou 0,36 m 3 per capita, enquanto que na região norte esse valor era de 0,19 m 3 per capita. Considerando que maior parte da população brasileira está localizada na região sudeste, tem-se um grande consumo de água potável nessa região.

Segundo o Programa de Uso Racional de Água da Universidade de São Paulo (2006), o consumo de água em residências no Brasil é distribuído em aproximadamente 29% para descargas de bacias sanitárias, ou seja, aproximadamente 1/3 de toda água potável consumida nas residências brasileiras poderia ser economizada caso fossem utilizadas águas de fontes alternativas para essa finalidade. A água de chuva, por exemplo, poderia ser empregada em usos que não exigem potabilidade da água.

Com o uso e ocupação desordenados do solo nas grandes cidades, houve uma grande impermeabilização de áreas antes permeáveis, além de assentamentos urbanos próximos a cursos d’água. Esses fatos, em conjunto, desencadearam problemas ambientais e sociais muito importantes. A ocorrrência de enchentes em grandes cidades está se tornando cada vez mais frequente, uma vez que, muitas vezes, as estruturas urbanas não foram dimensionadas para suportar elevadas vazões. A captação e a utilização de água de chuva poderiam se tornar ferramentas importantes, uma vez que contribuiriam para a minimização da ocorrência de

enchentes, para a economia de água potável, para a contribuição para o meio ambiente, entre outras vantagens.

A utilização do sistema de captação de água de chuva é amplamente difundida em regiões

semi-áridas brasileiras devido à escassez hídrica que ocorre nesses locais, atingindo principalmente a zona rural. O sistema consiste, basicamente, de quatro etapas: captação (geralmente realizada nos telhados), transporte (onde a água é conduzida através das calhas e tubulações), armazenamento (cisternas) e tratamento (geralmente realizado com cloro). Em relação à utilização de água de chuva em áreas urbanas, pode-se dizer que esse não é um fato frequente no Brasil. Segundo Tomaz (1998), em países desenvolvidos como Canadá, Japão e Alemanha, são oferecidos financiamentos ou doações em dinheiro para as pessoas que se interessam em aproveitar a água de chuva.

Os possíveis usos para a água de chuva estão relacionados à sua qualidade, a qual depende das condições de poluição atmosférica da região; do tipo, materiais e frequência de limpeza da superfície de captação, da calha e da tubulação que transporta a água até o reservatório e dos cuidados no manuseio e armazenamento da água.

O presente trabalho buscou verificar a qualidade da água de chuva captada na cidade de Belo

Horizonte e avaliar o volume que deve ser descartado para que a água de chuva seja utilizada

em algumas atividades. Para isso foram instalados dois sistemas piloto em duas regiões distintas da cidade, Centro e Pampulha. Outro objetivo da presente pesquisa foi estudar a

percepção de moradores da cidade em relação à possibilidade de se aproveitar essa água em atividades do dia-a-dia. Assim, por meio de metodologia qualitativa, buscou-se conhecer a opinião de alguns habitantes de Belo Horizonte a respeito do tema “aproveitamento de água

de chuva” e verificar os motivos de sua aceitação ou rejeição.

2. OBJETIVOS

2.1. Objetivo geral

Avaliar a qualidade da água de chuva captada em Belo Horizonte-MG e investigar a percepção dos moradores da capital mineira em relação ao aproveitamento dessa água para fins não-potáveis.

2.2. Objetivos específicos

Comparar a qualidade da água de chuva coletada em duas regiões de Belo Horizonte - MG;

Avaliar o volume mínimo de água que deve ser descartado para a limpeza dos telhados destinados à captação de água de chuva em Belo Horizonte - MG;

Avaliar a influência do tipo de superfície de captação na qualidade da água de chuva;

Investigar aspectos favoráveis e empecilhos sócio culturais associados ao aproveitamento de água de chuva no município de Belo Horizonte - MG.

3. REVISÃO DA LITERATURA

3.1. Disponibilidade hídrica no Brasil

A escassez de água de boa qualidade é de conhecimento de todos e aumenta ano a ano, devido a irregularidades climáticas, ao crescimento populacional e à degradação dos mananciais. O volume total de água globalmente retirado dos rios, aquíferos e outras fontes aumentou cerca de nove vezes, enquanto que o consumo per capita dobrou e a população triplicou, desde o ano 1950 até o ano 2000. Aproximadamente 8% da população mundial está vulnerável à falta frequente de água e cerca de 25% está caminhando para isso (BRASIL, 2006).

No passado, antes dos processos de industrialização e urbanização, quando as cidades eram menores e o esgoto era lançado a jusante, poluindo os cursos d’água, pensava-se sempre que a natureza recuperaria a qualidade da água. Os impactos eram menores tendo em vista o menor volume de esgoto despejado em comparação com a capacidade de diluição dos rios. Entretanto, quando a urbanização tornou-se acelerada, o lançamento de despejos industriais e domésticos tornou-se muito maior, superior à capacidade natural de recuperação dos rios. Como consequência disso, tem-se a deterioração de mananciais e a redução do número de fontes de águas de superfície seguras para a população.

Demandoro e Mariotoni (2001) apud Francisco e Carvalho (2004) analisaram a disponibilidade dos recursos hídricos em 13 das principais cidades do Brasil. Apesar do Brasil estar em uma situação favorável no que diz respeito à disponibilidade hídrica global, a concentração da população em áreas urbanas vem gerando consequências sobre os recursos hídricos do país. A pesquisa mostrou que entre as metrópoles estudadas, São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Fortaleza e Brasília apresentam situação mais crítica quanto à disponibilidade hídrica per capita. As regiões metropolitanas de Porto Alegre, Belém e Manaus não apresentam problemas de disponibilidade, uma vez que estão localizadas próximas a fontes de vazão elevada. Segundo Oliveira (2009), em algumas localidades da região nordeste do Brasil, a disponibilidade hídrica é inferior a 500m³/hab/ano, valor classificado como o equivalente à situação de escassez hídrica absoluta (UNESCO,

2007).

No Brasil, a perda de água é enorme em muitas localidades onde há disponibilidade hídrica regular. Segundo Setti et al. (2001), as vazões efetivamente consumidas no Brasil são apenas 52% de toda a vazão retirada dos rios e lagos.

Considerando o volume de água disponível na Terra e a degradação acelerada dos cursos d’água, é muito provável que no futuro a obtenção de água seja dificultada. Serão necessários métodos de tratamento de água complexos, como dessanilização das águas dos mares, tratamento de esgoto, entre outros, para tornar a água potável para consumo. Essa situação provavelmente vai dificultar ainda mais o acesso de pessoas carentes à água de boa qualidade, uma vez que o seu custo será elevado.

Segundo Oliveira (2009), para reverter essa situação é necessário o investimento na gestão de demanda de água em edifícios, residências, comércio e indústrias, com a instalação de componentes que visem o uso racional de água, tais como bacia de volume reduzido de descarga, torneiras economizadoras, arejadores e fontes alternativas de abastecimento de água, com qualidade compatível com o seu uso.

Uma alternativa para abastecimento de água em áreas urbanas, para fins menos nobres, é a captação de água de chuva. O sistema consiste de uma superfície de captação, que geralmente é o telhado da edificação ou um piso calçado impermeável próximo à edificação, de uma calha e de uma tubulação para o transporte da água até o local de armazenamento. A seguir serão apresentadas algumas informações que irão facilitar o entendimento sobre a captação de água de chuva e o seu aproveitamento.

3.2. A captação de água de chuva na antiguidade

Algumas investigações arqueológicas revelam que a utilização de água de chuva foi muito realizada na antiguidade, em todo o mundo. Foram descobertos reservatórios com tecnologia do povo maia e grandes reservatórios enterrados em áreas hoje pertencentes à Bolívia. Além disso, foram descobertas barragens de acumulação nos Emirados Árabes, datados de 15.000 anos atrás (PANDEY et al., 2003).

Na Grécia, há histórico de captação de água de chuva de 3.500 a 1.200 anos antes de Cristo (KOUTSOYIANNIS et al., 2008). Cinco cisternas dessa época foram encontradas na atualidade, sendo duas em Pyrgos e uma em Zacros, Archanes e Tylissos (CADOGAN,

2007). Houve uma época em que o abastecimento de água dependia somente da precipitação, sendo que a captação da água de chuva era realizada em telhados, pisos e outros espaços (ANTONIOU et al., 2006).

Em Java, deserto Negro, localizado ao norte da Jordânia, foram construídos sofisticados reservatórios de água de chuva, datados de 3.000 anos antes de Cristo (CHANAN et al.,

2007).

Segundo Abdelkhaleq e Alhaj Ahmed (2007), há evidências que a Jordânia também fazia uso dessa forma de obtenção de água. Um exemplo disso são as inscrições na Pedra Moabita, datadas de 850 anos antes de Cristo, onde o Rei Mesha Moab sugere que seja construída uma cisterna em cada residência para aproveitar a água das chuvas.

Como exemplificado anteriormente, o aproveitamento de água de chuva sempre foi utilizado em todo o mundo, desde a antiguidade, mas perdeu um pouco de sua importância devido ao avanço da tecnologia. Com o surgimento de sistemas coletivos de abastecimento de água, a maioria dos indivíduos não sente necessidade de utilizar outra fonte de água, usando somente a advinda do sistema público de abastecimento, para qualquer atividade. Entretanto, em algumas localidades o aproveitamento de água de chuva está se tornando uma realidade, devido ao não acesso à água potável (principalmente áreas rurais) ou à conscientização da população.

3.3. Superfícies de captação de água de chuva

Principalmente em áreas urbanas, as águas que anteriormente infiltravam pelo solo, hoje escoam pelas ruas, causando enchentes. A situação ideal seria que o próprio solo, permeável, absorvesse parte da água da chuva e abastecesse os lençóis subterrâneos. Dessa maneira o ciclo da água se completaria e minimizaria a dificuldade de se encontrar água doce em um futuro próximo.

Uma alternativa para a minimização da ocorrência de enchentes nas grandes cidades (elevada impermeabilização do solo) é a captação de água de chuva, que pode ser realizada de várias maneiras, entre elas tem-se a captação ocorrida pelos telhados e pelo piso.

A captação de água de chuva nos telhados é simples e muito utilizada. A estrutura de captação

já se encontra implantada nas edificações, o que facilita a implantação de um sistema de aproveitamento de água de chuva. Devido à exposição da estrutura às intempéries, é necessário sempre descartar as primeiras chuvas, dessa maneira minimiza-se a possibilidade de entrada de sujeira no reservatório. Um sistema simplificado é constituído de um telhado que realiza a captação, em seguida a água é encaminhada para uma calha, para os condutores verticais e horizontais e finalmente para o reservatório ou cisterna, conforme ilustrado na Figura 3.1.

Reservatório de água de chuva
Reservatório
de água de
chuva

Figura 3.1 - Layout de um sistema simplificado de captação de água de chuva em telhados

Alguns fatores podem influenciar a qualidade da água captada, entre eles pode-se citar o tipo de telha. Existem diversos materais e modelos disponíveis no mercado, como telhas cerâmicas, metálicas, fibrocimento, concreto, fibra de vidro, fibra vegetal, PVC, entre outros tipos. Muitas das residêncais brasileiras apresentam telhados constituídos por telhas cerâmicas, enquanto que muitas indústrias apresentam telhas metálicas.

A implantação da calha e dos condutores verticais para recolhimento e transporte das águas é

realizado de maneira semelhante para todos os tipos de telhas, sendo que o diferencial entre

eles consiste basicamente na inclinação dos telhados. Geralmente telhados que possuem telhas cerâmicas apresentam, em média, inclinação entre 20 e 35%. Já os telhados com telhas metálicas apresentam em média inclinação entre 3% e 10% (RODRIGUES, 2003). Ressalta- se que as calhas e os condutores verticais devem ser dimensionados corretamente, pois estruturas mal dimensionadas podem causar um aproveitamento de água inferior ao pretendido. Indica-se como referência a Norma Brasileira para Instalações Prediais de Águas Pluviais, NBR 10.844/1989.

Em relação aos materiais constituintes das telhas tem-se algumas considerações. As telhas cerâmicas são mais permeáveis do que as telhas metálicas, ou seja, parte da água é absorvida pela telha e parte é escoada. Dessa maneira, sistemas que apresentam esse tipo de telha na

7

Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG

estrutura de captação, reservam um volume de água inferior aos que possuem telhas metálicas, para uma mesma precipitação. Além disso, o escoamento das águas pluviais sobre

a cobertura de telhas cerâmicas pode superar a resistência à abrasão do material e transportar

sedimentos para o reservatório, tanto das partículas de sujeira depositadas superficialmente, quanto do próprio material cerâmico (BOULOMYTIS, 2007). Estudos realizados na Malásia, por Yaziz et al. (1989), sobre a influência do tipo de telha na qualidade da água da chuva, mostraram que a turbidez e a concentração de coliformes termotolerantes na água captada pelo telhado de concreto são aproximadamente duas vezes superiores à captada pelo telhado metálico. Os autores explicam que a luz do sol incidindo sob o telhado metálico proporciona um aquecimento da estrutura, eliminando de maneira eficaz muitos microrganismos, fato que proporciona contaminação microbiológica geralmente inferior nas coberturas metálicas em comparação a outros tipos de coberturas.

Outra maneira de se captar água de chuva pela cobertura são os chamados telhados verdes,

que são pequenos jardins posicionados sobre a laje de cobertura das edificações. Segundo Tomaz (2007), busca-se, com a instalação de telhados verdes, melhoria da qualidade do ar, detenção de enchentes, melhoria na temperatura do ar e melhoria na paisagem. Ainda segundo

o mesmo autor, telhados verdes diminuem os custos com refrigeração na época de calor e

podem ser aplicados para todos os tipos de construções, desde prédios residenciais e comerciais a indústrias. Os projetos de telhados verdes buscam agregar tecnologia à estética,

utilizando água de chuva para conforto e equilíbrio térmico, ocasionando redução de custos de refrigeração (PINHEL et al., 2007).

Segundo Tomaz (2007), para a implantação de um telhado verde é necessário que sejam seguidas algumas recomendações. Entre elas pode-se citar a necessidade de implantação de uma camada impermeável inferior que impeça a infiltração de água na laje, um sistema de drenagem eficiente que permita o escoamento da água e a não acumulação em locais impróprios, e adequada vegetação para resistir às diferentes temperaturas. Além disso, deve- se escolher espécies vigorosas e tolerantes ao solo seco e manter uma espessura de solo entre 150 e 300mm. A Figura 3.2 ilustra um telhado verde implantado em uma residência.

Figura 3.2 - Implantação de um telhado verde em uma residência Fonte: http://www.institutoelosbr.o

Figura 3.2 - Implantação de um telhado verde em uma residência Fonte: http://www.institutoelosbr.org.br/UserFiles/Image/ecotelhado_2.jpg

Segundo Tomaz (2007), edificações com telhados verdes apresentam, em média, retenção de 15% a 70% das águas pluviais, possibilitando redução nos picos de enchentes; redução da temperatura do telhado no verão em mais de 40%; redução dos extremos de temperatura e minimização das “ilhas de calor” causadas pela quantidade excessiva de prédios que impermeabilizam as áreas que antes eram permeáveis. Além disso, o custo de implantação de um telhado verde também é um incentivo, pois varia de 30 a 50% do custo de uma estrutura sem vegetação (telhado comum, com a implantação de telhas), variando de US$ 80,00/m² a US$ 150,00/m² (TOMAZ, 2007).

Considerando a situação atual de impermeabilização nas grandes cidades, a captação de água de chuva pelos pisos também pode ser uma alternativa, dependendo do uso. O método é semelhante à captação pelos telhados, sendo necessário impedir que as primeiras águas de chuva sejam reservadas. O piso deve ser impermeável, possuir uma declividade que encaminhe as águas para um reservatório e não deve haver tráfego de automóveis na área de captação. Dessa maneira, busca-se evitar ao máximo a contaminação da área com a queda de óleos e combustíveis.

3.4. Reservatórios para o armazenamento de água

Existem diversos tipos de reservatórios que podem armazenar a água de chuva, como cisternas e caixas d’água pré-fabricadas.

As cisternas são uma excelente alternativa para quem busca utilizar racionalmente a água, uma vez que é um reservatório com custo relativamente baixo, mantém a água geralmente fresca e é de fácil execução. Geralmente, as cisternas possuem custo inferior aos reservatórios pré-fabricados com mesmo volume.

Cisternas

Na região do semi-árido brasileiro são muito utilizadas cisternas, devido à escassez hídrica que atinge principalmente a zona rural. Essa região é muito carente e a maioria da população rural não é abastecida com água canalizada. Tradicionalmente a água consumida é proveniente de rios ou lagos, muitas vezes localizados a quilômetros de distância. A água de chuva armazenada é então utilizada somente para beber, cozinhar e higiene pessoal.

Existem diversos tipos de cisternas, que devem ser escolhidas levando em consideração o tipo de solo, a região, o poder aquisitivo de quem irá construí-la, entre outros. Esse tipo de reservatório consiste de uma caixa circular ou retangular, que pode ser enterrada no solo, semi-enterrada ou superficial. A Tabela 3.1 apresenta alguns tipos de cisternas.

Tabela 3.1 - Tipos de cisternas e suas vantagens e desvantagens

Tipos de cisternas

Definição

 

Vantagens

 

Desvantagens

Placas

São formadas por placas pré- moldadas de cimento, envolvidas por anéis de arame e revestidas interna e externamente com argamassa de cimento, ficando semi-enterradas no chão, até mais ou menos dois terços da sua altura.

Facilidade de construção em

• A parte subterrânea não pode ser

pequenas localidades, uma vez que as ferramentas necessárias são muito simples e de baixo custo;
pequenas localidades, uma vez que as ferramentas necessárias são muito simples e de baixo custo;

pequenas localidades, uma vez que as ferramentas necessárias são muito simples e de baixo custo;

examinada para detectar vazamentos e caso esses sejam verificados, há dificuldades no conserto;

facilidade no treinamento das

é necessária escavação de terra para profundidade de aproximadamente 1,60 metros; e

pessoas que irão construir as cisternas;

• possui baixo custo de construção; e

 

• a água armazenada mantém-se

deve-se ter cuidado especial durante

fresca, uma vez que a maior parte da

as duas semanas seguintes à construção, pois as paredes da cisterna não podem ressecar.

cisterna fica debaixo da terra.

não podem ressecar. cisterna fica debaixo da terra. Tela e arame Normalmente é construída sobre a

Tela e arame

Normalmente é construída sobre a superfície, possuindo altura de, aproximadamente dois metros. Para a sua construção são necessárias chapas de aço planas e finas que são seguradas por cantoneiras e parafusadas umas nas outras em forma cilíndrica. A forma levantada é primeiramente envolta com tela de arame e em seguida com arame de aço galvanizado, e, sobre este, é colocada uma camada de argamassa de cimento.

• Apropriado tanto para pequenos como para grandes projetos de construção de cisternas;

Deve-se ter cuidado especial durante

as duas semanas seguintes à construção, pois as paredes da cisterna

as duas semanas seguintes à construção, pois as paredes da cisterna

não exige trabalho pesado de

não podem ressecar; e • não deve haver interrupções no andamento da obra, caso contrário as subsequentes camadas de reboco não serão aderidas suficientemente entre si.

escavação, uma vez que a cisterna fica

localizada sobre a superfície; e

muito difícil ocorrerem vazamentos

e, caso esses sejam detectados, são facilmente visualizados e consertados.

Adaptado de: GNADLINGER, 1999

Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG

11

Continuação da Tabela 3.1

Tipos de cisternas

Definição

 

Vantagens

 

Desvantagens

 

A parede circular de tijolos é levantada em uma base concretada e é rebocada pelo lado de dentro e de fora. É semi- enterrada, ficando cerca de dois terços de sua altura total abaixo do chão. Em relação ao teto da cisterna, deve ser nivelado, de concreto de armação simples ou de vigas de madeira com uma laje fina de concreto. A parede externa deve ser enrolada com arame galvanizado.

Adequada para construções

Tempo de construção demorado;

individuais ou em mutirão;

• elevado risco de vazamentos entre o fundo cimentado e a parede; • exige trabalho de escavação adicional; e

todos os materiais são facilmente

encontrados; e • a água armazenada mantém-se fresca,

Tijolos

em cisternas maiores, o teto de

uma vez que a maior parte da cisterna fica debaixo da terra.

concreto apresenta custo relativamente alto devido ao grande diâmetro.

Ferro-cimento

É construída sobre um fundo cimentado onde uma armação de arame de aço é enrolada várias vezes com telas de arame. Em seguida a tela é cimentada por dentro e por fora.

Adequada para construções

• Exige bastante habilidade dos

individuais;

individuais;

não necessita de escavação, pois é construída sobre a superfície; e • os vazamentos não são muito constantes.

pedreiros, tanto para levantar o esqueleto de arame, quanto para a aplicação da argamassa.

Adaptado de: GNADLINGER, 1999

Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG

12

Continuação da Tabela 3.1.

Tipos de cisternas

 

Definição

 

Vantagens

 

Desvantagens

 

Cal

Cal

Apresenta toda a sua estrutura abaixo da terra. Na maioria das vezes apenas

cúpula superior permanece sobre a

a

A técnica de construção é muito

conhecida, pois é parecida com as construções de fornos de carvão e de cal do interior do Brasil;

• a construção não precisa ser terminada de uma vez; e

escavação; • a argamassa de

São

necessários

cal

trabalhos

de

se torna

superfície. A terra é escavada na medida exata do tamanho da cisterna

e seu fundo é côncavo. A cisterna tem

impermeável com o uso de aditivos; e • a argamassa de cal precisa de mais tempo para curar do que a de cimento.

a forma de uma casca de ovo, sendo

as paredes levantadas com cal são

que sua parede é de tijolos. Para o levantamento dessas paredes, usa-se mais resistentes a
que sua parede é de tijolos. Para o levantamento dessas paredes, usa-se mais resistentes a

que sua parede é de tijolos. Para o levantamento dessas paredes, usa-se

mais resistentes a tensões, porque a argamassa de cal é mais elástica do que

em geral argamassa de cal pura e para

a argamassa de cimento.

o

reboco interno usa-se camadas de

argamassa de cal com pouco cimento. Já o teto pode ser feito de tábuas, porém bem vedado contra a entrada de pequenos animais, ou, mais simples, pode ser uma cúpula feita de

tijolos.

Adaptado de: GNADLINGER, 1999

Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG

13

Reservatórios pré-fabricados

A variedade de reservatórios pré-fabricados no mercado é enorme, entre eles podem ser

destacados os reservatórios feitos de fibras de vidro e polietileno. Para o armazenamento de água de chuva, pode-se utilizar tanto caixas d’água, desde que essas não sejam enterradas,

quanto cisternas ou reservatórios pré-fabricados, que são construídos para resistir ao empuxo do solo. Geralmente utiliza-se cisternas enterradas para receber a água diretamente das tubulações que descem da calha. Já as caixas d’água geralmente recebem as águas bombeadas das cisternas. Na maioria dos sistemas essas caixas ficam localizadas sobre as lajes da edificação, permitindo que a água desça por gravidade até os pontos de utilização (Figura 3.3). O funcionamento é muito parecido com o sistema de abastecimento indireto de água potável, com a diferença que a água não vem da rede pública e sim da calha ligada ao telhado

ou ao piso.

rede pública e sim da calha ligada ao telhado ou ao piso. Figura 3.3 - Exemplo

Figura 3.3 - Exemplo de sistema que bombeia água da cisterna para a caixa d’água Fonte: www.saplei.eesc.usp.br/tgi2005

Garrafa PET como reservatório alternativo

Devido à dificuldade de obtenção de água potável em alguns lugares do mundo, algumas alternativas estão sendo criadas e incrementadas, por diversas pessoas, para a utilização da água de maneira racional. A população mundial que não é abastecida com água potável, segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano publicado pelo PNUD (2006), é de 1,1 bilhão de pessoas em todo o mundo. Muitas dessas pessoas utilizam água de rios poluídos ou

poços de água salobra, pois não têm outra escolha. Entretanto, a captação de água de chuva poderia ser uma alternativa para o seu abastecimento.

Em outubro de 2008, o site da internet “www.yankodesign.com” criou o concurso ”Design for Poverty International Contest”, que promovia ideias que contribuissem para melhorar a vida

de pessoas carentes. “Rain Drops” foi o sistema desenvolvido por um americano que ganhou a

medalha de ouro, trata-se de uma alternativa para pessoas que não têm condições de comprar um reservatório para armazenar água de chuva. A ideia é utilizar garrafas PET para armazenar a água da chuva coletada nos telhados.

O sistema de aproveitamento é igual aos usualmente adotados no Brasil, em relação ao

telhado é à calha, se diferenciando apenas nas tubulações e reservatório. O sistema consiste em posicionar garrafas PET junto ao condutor vertical, que possui vários orifícios para

encaixar as garrafas. Esses orifícios seriam vedados por uma peça, como ilustra a Figura 3.4.

A estrutura desenvolvida suporta até 21 garrafas de 1,5L. Em relação ao descarte das

primeiras chuvas, não foi possível verificar, na reportagem, como ela seria realizada.

verificar, na reportagem, como ela seria realizada. ÁGUA DE CHUVA Figura 3.4 - Sistema de armazenamento
verificar, na reportagem, como ela seria realizada. ÁGUA DE CHUVA Figura 3.4 - Sistema de armazenamento
ÁGUA DE CHUVA
ÁGUA DE CHUVA

Figura 3.4 - Sistema de armazenamento de água de chuva em garrafas PET Fonte: http://www.yankodesign.com/2008/10/30/design-for-poverty-winners

Uma das principais vantagens desse sistema é a possibilidade da água armazenada ser desinfetada pela técnica do SODIS (do inglês Solar Disinfection), uma vez que o seu armazenamento será em garrafas PET. Essa técnica utiliza a combinação de raios solares e o calor para inativar alguns microrganismos, como os patogênicos, por exemplo.

Em relação à desvantagem, tem-se a necessidade de que a água de chuva armazenada na garrafa PET seja encaminhada para um reservatório de volume maior. Caso contrário, o volume de água armazenado estará restrito a 31,5 L (volume das 21 garrafas PET). Dessa maneira, locais onde as chuvas são concentradas em determinados períodos do ano, não seriam indicados para a sua implantação, uma vez que não haveria volume de água armazenada suficiente para posterior utilização.

3.5. Múltiplas barreiras para proteção da água de chuva captada

Para que as águas de chuva possam ser aproveitadas é imprescindível que se tenha alguns cuidados para minimizar a sua contaminação. Certos cuidados durante a captação, armazenamento e consumo da água podem garantir a sua qualidade sanitária. Segundo Silva (2006) a maioria das contaminações da água de chuva ocorre durante a sua captação, dessa maneira a primeira barreira que deve ser considerada é o impedimento de queda dos primeiros milímetros de chuva dentro do reservatório. A partir do momento em que ocorrem as primeiras chuvas, as sujeiras (pequenos animais mortos, fezes de aves e roedores, folhas, detritos, poeira e microrganismos) são carreadas e acumuladas no interior dos reservatórios. O ideal é que exista um dispositivo automático de desvio das primeiras águas para realizar essa função. Segundo Andrade Neto (2004), o dispositivo automático para desvio das primeiras águas de chuva é uma barreira física de proteção sanitária das cisternas. Os dispositivos de impedimento e ou minimização de contaminação dos reservatórios pelas primeiras chuvas disponíveis no mercado são inúmeros. Variam desde a simples e pequenos reservatórios de água (Figura 3.5) até a filtros mais sofisticados. Esses dispositivos simplificados funcionam basicamente como um “selo hídrico”, onde a água “suja” fica armazenada no pequeno reservatório e a água “limpa” passa direto para a cisterna. Em sistemas de captação simplificados, muito utilizados no semi-árido brasileiro, esse desvio é realizado pela retirada do tampão que intercepta o tubo que liga a calha à cisterna (Figura 3.6) ou pela retirada da própria calha (estrutura móvel). Esse método de descarte é contestado, uma vez que a quantidade de água descartada na primeira chuva não é controlada, podendo ocorrer um

volume de água superior ou inferior ao necessário para limpar o telhado. A segunda consideração diz respeito à vigilância requerida aos moradores quando da ocorrência da primeira chuva, uma vez que eles precisam ficar atentos para retirar o tampão ou a calha móvel e descartar a água.

retirar o tampão ou a calha móvel e descartar a água. Figura 3.5 - Dispositivo de

Figura 3.5 - Dispositivo de desvio. Fonte: Andrade Neto (2004)

3.5 - Dispositivo de desvio. Fonte: Andrade Neto (2004) Figura 3.6 - Retirada do tampão Entre

Figura 3.6 - Retirada do tampão

Entre os filtros existentes no mercado, pode-se destacar o filtro tipo vórtex (Figura 3.7) que é geralmente instalado a jusante dos condutores verticais e a montante da entrada da cisterna e possui a função de separar a água de chuva de impurezas como folhas, galhos e insetos. Existe o filtro de descida (Figura 3.8), que é instalado diretamente no conduto vertical e possui praticamente as mesmas funções do filtro anterior. Os filtros flutuantes (Figura 3.9) são geralmente instalados dentro de reservatórios que possuem sua água bombeada. O flutuador esférico permite que a água seja captada logo abaixo da superfície, filtrando as impurezas que porventura estejam no reservatório, melhorando a qualidade da água e evitando problemas para o funcionamento da bomba.

Além dos filtros citados anteriormente, estão disponíveis também no mercado “kits” que realizam a função de controle do abastecimento de água pluvial. Algumas empresas os nomearam de “kits” de interligação automática (Figura 3.10). Esse controle é feito por meio de monitoramento do volume de água de chuva existente dentro do reservatório. Quando uma bóia de nível detecta o baixo nível de água no reservatório é acionada uma válvula solenóide, que se abre permitindo a entrada de água da rede pública ou outra fonte de abastecimento. O importante é sempre não proporcionar a mistura das águas potável e não potável.

Figura 3.7 - Filtro tipo vórtex Fonte: www.engeplas.com.br Figura 3.9 - Filtro flutuante Fonte: www.engeplas.com.br

Figura 3.7 - Filtro tipo vórtex Fonte: www.engeplas.com.br

Figura 3.7 - Filtro tipo vórtex Fonte: www.engeplas.com.br Figura 3.9 - Filtro flutuante Fonte: www.engeplas.com.br

Figura 3.9 - Filtro flutuante Fonte: www.engeplas.com.br

Figura 3.9 - Filtro flutuante Fonte: www.engeplas.com.br Figura 3.8 - Filtro de descida Fonte: www.engeplas.com.br

Figura 3.8 - Filtro de descida Fonte: www.engeplas.com.br

Figura 3.8 - Filtro de descida Fonte: www.engeplas.com.br Figura 3.10 - “Kit” de interligação automático

Figura 3.10 - “Kit” de interligação automático Fonte: www.engeplas.com.br

A Figura 3.11 apresenta a disposição de alguns desses mecanismos de minimização de contaminação da água da chuva localizados em um sistema de aproveitamento.

Figura 3.11 - Filtro flutuante Fonte: www.engeplas.com.br Em relação ao volume de água a ser

Figura 3.11 - Filtro flutuante Fonte: www.engeplas.com.br

Em relação ao volume de água a ser descartado, existem alguns valores que são citados na literatura, variando desde 0,4 L/m² a 2,0 L/m² de área de telhado. A NBR 15.527/2007 (ABNT, 2007) indica que o dispositivo de descarte de água deve ser dimensionado pelo projetista e que na falta de dados, o recomendado é que se descarte 2 mm da precipitação inicial, ou seja, 2 litros de água por 1 metro quadrado de telhado.

O segundo ponto a se considerar é com relação ao reservatório, que deve ficar completamente

fechado, impedindo a entrada de luz. Dessa maneira minimiza-se a proliferação de algas no seu interior e a entrada de animais. É importante ressaltar que não se deve deixar nenhum reservatório aberto, sendo de água pluvial ou potável, pois além dos problemas citados

anteriormente existe a questão da proliferação de alguns mosquitos em água parada.

Ainda com relação ao reservatório, para a saída do excesso de água é necessário prever um extravasor, que deverá estar posicionado próximo à superfície. Esse extravasor deve ser tamponado com uma tela ou grade para impedir a entrada de animais.

O terceiro ponto, mas não menos importante, está ligado ao tratamento da água. Dependendo

da atividade em que for utilizada, a água precisará passar por um tratamento mais complexo

ou mais simplificado. Usos menos nobres podem não exigir tratamento ou podem necessitar somente de filtração, dependendo da situação. Já usos mais nobres podem exigir um tratamento completo. Como citado anteriormente, a filtração está presente em muitos dos

sistemas pré-fabricados, onde um filtro localizado a montante do reservatório impede que os resíduos grosseiros adentrem na cisterna. Além disso, dependendo do uso ao qual a água de chuva se destina, é importante promover a sua desinfecção, que pode ser realizada com cloro (mais utilizada), luz solar, entre outros mecanismos.

Em relação à desinfecção solar, segundo Aristanti (2007), esse método está sendo otimizado e utilizado em diversos países, uma vez que esse tratamento é eficiente, além de ser barato e de simples manuseio. Segundo a mesma autora, a Indonésia é um país cujos habitantes possuem dificuldade imensa em obter água potável para consumo, principalmente os que habitam a zona rural. Baseado nisso algumas organizações, como a UNICEF, e algumas companhias, como a Coca-Cola e a Georg Fischer, estão colaborando para que essa técnica seja efetivamente implantada no país. Segundo Aristanti (2007), o número de casos de diarréia diminuiu até 100% em algumas localidades. Amaral et al. (2006) estudaram o uso da radiação solar na desinfecção da água de poços rasos no Brasil, com o objetivo de verificar a redução de coliformes totais e Escherichia coli presentes nas águas após a desinfecção solar. O resultado foi uma redução de 99,9% para o primeiro parâmetro e 100,0% para o segundo parâmetro, após 12h de exposição ao sol.

A retirada de água da cisterna ou reservatório é o quarto ponto a ser abordado, essa deve ser realizada de maneira a minimizar ao máximo a sua contaminação. Sempre que possível é interessante que essa água seja bombeada e encaminhada diretamente para o ponto de consumo. Um exemplo dessa situação pode ser visualizado na Figura 3.12, onde a água armazenada na cisterna é bombeada para os pontos de utilização.

na cisterna é bombeada para os pontos de utilização. Figura 3.12 - Exemplo de bombeamento da

Figura 3.12 - Exemplo de bombeamento da água armazenada na cisterna Fonte: www.acquabusiness.com/produtos.htm

Na zona rural do semi-árido brasileiro, por exemplo, a maioria das pessoas retira a água da cisterna com um balde ou panela (Figura 3.13). Nesses locais o risco de contaminação é elevado pois muitas vezes esses recipientes não são higienizados corretamente. Algumas ONG’s estão apresentando bombas manuais aos moradores da zona rural, trata-se de uma técnica simples e que aparentemente consegue exercer a função desejada (Figura 3.14).

consegue exercer a função desejada (Figura 3.14). Figura 3.13 - Coleta utilizando recipiente Figura 3.14 -

Figura 3.13 - Coleta utilizando recipiente

(Figura 3.14). Figura 3.13 - Coleta utilizando recipiente Figura 3.14 - Coleta com bomba manual 3.6.

Figura 3.14 - Coleta com bomba manual

3.6. Experiências com a implantação de sistemas de aproveitamento de água de chuva

O aproveitamento de água de chuva é algo muito frequente em áreas onde o acesso à água não é facilitado, como o semi-árido brasileiro. Nas áreas urbanas este fato está ganhando espaço, mas ainda de maneira muito tímida. No mundo em geral, existem proprietários de residências, comércios e indústrias que estão adotando esse sistema, buscando, principalmente, economizar na conta de água, contribuir para o meio ambiente e minimizar a frequência de enchentes nas cidades. A seguir serão apresentados alguns casos que exemplificam essa situação.

Reservatórios localizados na frente de residências no Japão

No distrito de Ichitera-Kototoi, na cidade de Sumida, Japão, existe uma rua chamada Eco-Roji (Rua Ecológica) onde reservatórios subterrâneos são localizados na frente de algumas residências. Esses tanques possuem capacidade de 10m 3 para armazenamento de águas pluviais e são dotados de bombas manuais. As águas armazenadas são utilizadas em irrigação de plantas e na emergência, como a falta de abastecimento público de água (FENDRICH e OLIYNIK, 2002).

Edifício comercial de uma editora no Japão

O edifício principal da Editora Toppan está localizado em Tóquio, Japão. Um projeto de ampliação do edifício incluiu um sistema de utilização de águas pluviais no projeto de construção (Figura 3.15). Foram investidos US$150.000 no sistema de aproveitamento, que possui como diferencial um sensor de chuva e neve que elimina automaticamente as primeiras precipitações (FENDRICH e OLIYNIK, 2002). As águas de chuva são coletadas nos telhados, armazenadas em um reservatório subterrâneo e bombeadas para utilização na descarga dos vasos sanitários. Nesse edifício os vasos sanitários são ligados às duas redes, potável e pluvial, sendo que, quando há falta de uma água, a outra abastece o aparelho automaticamente.

de uma água, a outra abastece o aparelho automaticamente. Figura 3.15 - Sistema de aproveitamento de

Figura 3.15 - Sistema de aproveitamento de água de chuva em edifício comercial Fonte: Fendrich e Oliynik (2002)

Fábrica de refrigerantes localizada no estado do Paraná – Brasil

No estado do Paraná, Brasil, há uma fábrica de refrigerantes do grupo Coca-Cola (Indústrias Spaipa) que realiza a captação e o aproveitamento de água da chuva para uso no processo industrial. A água da chuva que cai em parte do telhado das fábricas é coletada e armazenada em uma cisterna. Depois de passar por um equipamento de filtração e ser analisada quanto à potabilidade, segue para se misturar com a água captada dos poços e do sistema de abastecimento público. Posteriormente, a água tratada é utilizada na produção dos refrigerantes (Figura 3.16).

coletada 2º- A água é armazenada na cisterna exclusiva
coletada
2º- A água é armazenada na
cisterna exclusiva
coletada 2º- A água é armazenada na cisterna exclusiva 3º- A água passa por um filtro
coletada 2º- A água é armazenada na cisterna exclusiva 3º- A água passa por um filtro

3º- A água passa por um filtro para remoção de partículas

1º- A água de chuva é nas calhas

de partículas 1º- A água de chuva é nas calhas 4º- A água de chuva é

4º- A água de chuva é misturada com a água advinda de um poço e da rede pública

5º- A água passa por um tratamento

6º- A água retorna à fábrica para a produção de refrigerantes

Figura 3.16 - Sistema de aproveitamento de água de chuva em fábrica de refrigerantes Fonte: http://www.spaipa.com.br/captacaodaagua.htm

Fábrica de equipamentos de aquecimento solar localizada em Freiburg – Alemanha

A fábrica de equipamentos de aquecimento solar, SAG Eletricidade Solar, localizada na

cidade de Freiburg, Alemanha, realiza a captação de água de chuva por meio de um telhado

verde (Figura 3.17). O telhado de aproximadamente 1500m² de área realiza a captação, sendo

parte da água armazenada alí mesmo e parte encaminhada para um reservatório inferior. A

água localizada no reservatório inferior é aproveitada nas descargas dos vasos sanitários da

fábrica (400m 3 de água pluvial por ano). Uma consideração que deve ser realizada é que

devido a água passar pelo telhado verde antes de ser utilizada nos vasos sanitários, ela

apresenta uma cor levemente amarronzada, fato que não impediu os funcionários de

aprovarem a ideia (KÖNIG, 2007).

(A) Telhado verde (B) Layout do sistema Figura 3.17 - Telhado verde implantado em fábrica

(A) Telhado verde

(A) Telhado verde (B) Layout do sistema Figura 3.17 - Telhado verde implantado em fábrica alemã

(B) Layout do sistema

Figura 3.17 - Telhado verde implantado em fábrica alemã Fonte: König (2007)

3.7. Leis de incentivo à captação de água de chuva

A captação e o aproveitamento de água de chuva estão se tornado cada vez mais difundidos. Durante a presente revisão bibliográfica foram encontradas algumas leis que incentivam a implantação desse sistema no Brasil e em outros países.

3.7.1. Legislações municipais e estaduais brasileiras

No Brasil, existem algumas leis de incentivo ao aproveitamento de água de chuva, tanto municipais quanto estaduais. A elaboração dessas leis foi realizada com a intenção de minimizar o desperdício de água potável para atividades que efetivamente não necessitem dessa qualidade. A seguir serão apresentadas algumas dessas leis.

1) Lei Municipal Nº 13.276/2002 – São Paulo - estado de São Paulo

Lei aprovada em 2002 que torna obrigatória a execução de reservatório para armazenar águas de chuva coletadas por coberturas e pavimentos localizados em lotes ou edificações que tenham área impermeabilizada superior a 500m². É citada a necessidade de instalação de um sistema que conduza toda a água captada pelos telhados, coberturas, terraços e pavimentos descobertos ao reservatório. Além disso, os estacionamentos deverão possuir piso drenante ou piso naturalmente permeável em pelo menos 30 por cento de sua área. Em caso de descumprimento da lei, o infrator não obterá a renovação do seu alvará de funcionamento.

2) Lei Municipal Nº 10.785/2003 – Curitiba - estado do Paraná

Possui como objetivos instituir medidas visando induzir à conservação, uso racional e utilização de fontes alternativas para captação de água nas novas edificações. O não cumprimento da lei implica na negativa de concessão do alvará de construção para novas edificações. No texto são citadas as possíveis atividades para utilização de água de chuva, como rega de jardins e hortas, lavagem de roupas, veículos, vidros, calçadas e pisos.

3) Lei Municipal Nº 6.345/2003 – Maringá - estado do Paraná

Lei aprovada em 2003 que institui o Programa de Reaproveitamento de Águas de Maringá e que possui como objetivos diminuir a demanda de água potável no município e aumentar a capacidade de atendimento à população. Os munícipes são incentivados a instalarem sistema para recolhimento de águas pluviais, além de sistema de reaproveitamento de águas servidas. São citadas utilizações na descarga de vasos sanitários, lavagem de pisos, entre outros usos. Pessoas interessadas em instalar esses sistemas devem procurar especificações durante a elaboração do projeto de construção ou reforma. As residências e estabelecimentos comerciais que aderirem ao Programa farão parte de um estudo para concessão de incentivos.

4) Lei Municipal Nº 2.349/2004 – Pato Branco - estado do Paraná

Essa lei cria o Programa de Conservação e Uso Racional da Água e objetiva instituir medidas que induzam à conservação, ao uso racional e à utilização de fontes alternativas para a captação de água nas novas edificações. São consideradas como fontes alternativas a captação, o armazenamento e a utilização de água de chuva e de águas servidas. As atividades indicadas para uso são as que não necessitam de água tratada, assim como a irrigação de jardins e hortas, a lavagem de roupa, a limpeza de veículos, vidros, calçadas e pisos, além de descarga nos vasos sanitários. O não cumprimento da lei implica na negativa de concessão do alvará de construção para as novas edificações. Estão obrigados a cumprirem a Lei edificações residenciais com área acima de 200m², edificações comerciais com área acima de 100m², edificações industriais com qualquer área, edificações públicas e educacionais com qualquer área.

5) Lei Estadual Nº 4.393/2004 - estado do Rio de Janeiro

Lei aprovada em 2004 que obriga empresas projetistas e de construção civil que realizam projetos para o estado do Rio de Janeiro a fazerem previsão de coletores, caixas de

armazenamento e distribuidores de água de chuva para as edificações (residências) que abriguem mais de 50 famílias e empresas comerciais com mais de 50m² de área construída. A Lei recomenda ainda que os reservatórios de água de chuva sejam separados dos reservatórios de água potável. Além disso, indica alguns usos para a água de chuva, como a lavagem de áreas comuns de prédios e automóveis, rega de jardins, limpeza de banheiros, entre outros, e alerta que não deve haver mistura de água potável com pluvial nas canalizações.

6) Lei Estadual Nº 5.722/2006 - estado de Santa Catarina

Lei aprovada em 2006 que obriga edifícios com um número igual ou superior a 3 pavimentos e área superior a 600m² a instalarem sistema de captação, tratamento e aproveitamento de água de chuva. Enquadram-se nessa lista também os hotéis, motéis, pousadas e similares com número igual ou superior a 8 apartamentos dotados de toaletes. Recomenda-se a utilização dessa água em ambientes externos, como para jardinagem, lavagem de pisos, garagem e irrigação de hortas.

7) Lei Municipal Nº 12.474/2006 – Campinas - estado de São Paulo

Essa lei faz parte do Programa Municipal de Conservação, Uso Racional e Reutilização de Água em Edificações. Possui como objetivos a conscientização dos moradores sobre a importância da conservação da água potável, além de incentivar os moradores da cidade de Campinas a utilizarem águas pluviais e servidas. Esse incentivo está relacionado à implantação de um sistema com captação, reservação, tratamento, monitoramento da qualidade e distribuição para usos menos nobres da água de chuva, como irrigação e lavagem de pisos. A lei incentiva também o uso das águas servidas e a implantação de medidores de água individualizada nos apartamentos, além de equipamentos economizadores de água, como bacias sanitárias com caixas acopladas e arejadores nas torneiras.

8) Lei Estadual Nº 12.526/2007 - estado de São Paulo

Lei aprovada em 2007 que torna obrigatório em todo o estado de São Paulo o uso de sistemas que captem as águas pluviais contidas em áreas descobertas com mais de 500 m 2 , onde telhados, coberturas, terraços e pavimentos, em lotes edificados ou não, terão que adotar um fim para a água reservada. São citadas possíveis utilizações para a água de chuva como reserva de incêndio, irrigação de gramados e plantas, controle de poeira, limpeza de pisos, carros, calçadas, usos em descargas de vaso sanitário, entre outros, não sendo recomendado o

consumo direto e o uso no preparo de alimentos e na higiene pessoal. O objetivo da Lei é prevenir enchentes e inundações, além de contribuir para a racionalização do uso da água tratada.

9) Projeto de Lei Municipal Nº 68/2009 – Belo Horizonte - estado de Minas Gerais

O projeto de Lei busca a minimização da ocorrência de enchentes na cidade de Belo

Horizonte - MG. Prevê-se a implantação de coletor de águas pluviais e reservatórios em edificações com área impermeabilizada superior a 500m². O projeto determina, também, que

imóveis destinados às atividades de estacionamento de veículos devem apresentar, no mínimo, 30% de sua área total como sendo permeável. Além disso, o projeto de Lei cita a

concessão da Certidão de Baixa de Construção e Habite-se condicionada à adoção desse sistema. Os usos indicados para a água de chuva são a infiltração no solo, irrigação e limpeza

de passeios ou áreas de uso comum das edificações.

3.7.2. Legislação Federal Brasileira

Não foi encontrada nenhuma Lei Federal, aprovada, que incentive o aproveitamento de água

de chuva nas áreas urbanas brasileiras. O que existem são Normas e Portarias que estabelecem

padrões de qualidade da água.

Existe também um apoio do Ministério das Cidades à promoção da gestão sustentável da drenagem urbana nos municípios brasileiros. São estimuladas ações estruturais e não estruturais dirigidas à prevenção, ao controle e à minimização dos impactos provocados por enchentes urbanas e ribeirinhas. As intervenções estruturais consistem em obras que devem preferencialmente privilegiar a redução, o retardamento e o amortecimento do escoamento das águas pluviais. Essas intervenções incluem reservatórios de amortecimento de cheias, adequação de canais para a redução da velocidade de escoamento, sistemas de drenagem por infiltração, implantação de parques lineares, recuperação de várzeas e a renaturalização de cursos de água. As intervenções não-estruturais incluem a elaboração de estudos, projetos, planos diretores de drenagem ou planos de manejo de águas pluviais; iniciativas de capacitação e desenvolvimento institucional e de recursos humanos, fortalecimento social, fiscalização e avaliação. A ação apóia iniciativas para promover e qualificar o planejamento de futuras intervenções destinadas ao escoamento regular das águas pluviais e prevenir inundações, proporcionando segurança sanitária, patrimonial e ambiental (BRASIL, 2006).

3.7.3. Legislação estrangeira

Principalmente nos Estados Unidos, Japão e em alguns países da Europa, o aproveitamento de água de chuva é algo frequente. Na Alemanha, por exemplo, existem administrações municipais que cobram taxas diferenciadas para a coleta de água pluvial. Nesses lugares a taxa de drenagem era cobrada, anteriormente, dividida igualmente entre todos os cidadãos. A cidade de Freiburg, por exemplo, está realizando uma cobrança por m² de área impermeabilizada, onde as propriedades que tiverem áreas maiores que 1.000 m² deverão arcar com uma despesa maior do que aquelas que captarem água de chuva. Dessa maneira, os imóveis que despejam mais água pluvial na rede urbana possuem ônus maior do que aquelas

que retêm em sua propriedade essa água. A intenção é incentivar todas as pessoas a aderirem a essa ideia de captação, pois dependendo do volume captado, há a possibilidade de isenção

da taxa (KÖNIG, 2007).

Na cidade de Tucson, localizada no estado do Arizona, Estados Unidos, em outubro de 2008 foi publicada a lei municipal de Nº 10.597/2008, que obriga todos os novos edifícios comerciais, prontos a partir de janeiro de 2010, a preverem sistema de aproveitamento de água de chuva (TUCSON, 2008).

A cidade de São Franciso, localizada no estado da Califórnia (um dos maiores consumidores

per capita de água potável do mundo), Estados Unidos, também está incentivando o aproveitamento de água de chuva. No mês de outubro de 2008 foi iniciado o programa piloto

de incentivo aos moradores da cidade à captação de água de chuva. Esse incentivo se deu pelo

desconto de U$60,00 na compra dos reservatórios de armazenamento (COMMUNICATIONS AND PUBLIC OUTREACH, 2008).

Em 2001 foi aprovado pelo 77º Texas Legislature a alteração da seção 11.32 do Código Fiscal do Texas, Estados Unidos. A alteração está relacionada à possibilidade de isenção ou desconto em impostos referentes ao imóvel, onde proprietários de edificações que possuem sistemas de aproveitamento de água de chuva são beneficiados (TEXAS, 2005).

3.8. Principais Portarias e Normas sobre qualidade de água no Brasil

No ano de 2007, a Associação Brasileira de Normas Técnicas publicou a Norma Nº 15.527/2007 (ABNT, 2007), que fornece requisitos para o aproveitamento de água de chuva em coberturas localizadas em áreas urbanas para fins não potáveis. Recomenda-se o uso, após

tratamento adequado, em descarga de bacias sanitárias, irrigação de gramados e plantas

ornamentais, lavagem de veículos, limpeza de calçadas e ruas, limpeza de pátios, espelhos

d’água e usos industriais. Em relação ao sistema de captação, é indicada a instalação de

dispositivos para remoção de detritos, como grades e telas, além de um dispositivo automático

para o descarte das primeiras águas de chuva. Na falta de dados, recomenda-se o descarte de 2

mm da precipitação inicial para o dimensionamento do dispositivo de descarte. São

apresentadas algumas regras para a instalação dos reservatórios, métodos de dimensionamento

e indicadas algumas medidas de limpeza e manutenção. Em relação à qualidade da água, a

Norma preconiza que essa deverá ser definida pelo projetista de acordo com a utilização

prevista. Entretanto, são citados alguns parâmetros de qualidade que devem ser respeitados

para usos restritivos não-potáveis, que estão apresentados na Tabela 3.2. Na Norma não está

citada, de maneira clara, o que são esses usos restritivos não potáveis e tampouco o que são

usos menos restritivos, o que pode causar dúvidas à população no momento de sua utilização.

Tabela 3.2 - Parâmetros de qualidade de água para usos restritivos não potáveis

Período de

análise

Parâmetro

Valor

Coliformes totais

Semestral

Ausência em 100mL

Coliformes

termotolerantes

Semestral

Ausência em 100mL

Cloro residual livre

Mensal

0,5 a 3,0 mg/L

Turbidez

Mensal

< 2,0 uT, < 5,0 uT para usos menos restritivos

Cor aparente

Mensal

< 15 uH

pH

Mensal

pH entre 6,0 e 8,0, no caso de tubulações de aço carbono ou galvanizado

Adaptado de: ABNT, 2007

A Portaria nº 518/2004 do Ministério da Saúde (BRASIL, 2004) estabelece padrões de

qualidade para a água destinada ao consumo humano, e apresenta procedimentos e

responsabilidades relativos ao controle e à vigilância da qualidade da água potável. A Portaria

apresenta uma lista de parâmetros para o padrão microbiológico de potabilidade, padrão de

potabilidade para substâncias químicas que representam risco à saúde, padrão de

radioatividade para água potável e padrão de aceitação para consumo humano.

Além dessas duas referências existe também o padrão de balneabilidade da Resolução

CONAMA Nº 274/00 (BRASIL, 2000). O padrão de balneabilidade estabelece a qualidade

das águas destinadas à recreação de contato primário, sendo entendido como um contato

direto e prolongado com a água - incluindo-se natação, mergulho, esqui-aquático, entre outros

- onde há possibilidade de ingestão da água. O padrão classifica as águas principalmente em

função da presença de coliformes termotolerantes, Escherichia coli, enterococos e pH. A

Tabela 3.3 apresenta um resumo da classificação do CONAMA 274/00.

Tabela 3.3 - Classificação das águas quanto ao padrão de balneablidade

 

Coliformes termotolerantes (NMP em 100mL)

Escherichia coli em (NMP em 100mL)

Enterococos

 

(NMP em

pH

100mL)

Excelente

250

200

25

-

Muito boa

500

400

50

-

Satisfatória

1000

800

100

-

Imprópria

> 2500

> 2000

> 400

pH< 6,0 ou > 9,0

Adaptado de: CONAMA, 2000

Para a classificação das águas conforme a Tabela 3.3, é necessário que 80% ou mais de um

conjunto de amostras obtenham no máximo os valores citados na tabela. Em relação à

classificação quanto à impropriedade na utilização da água, além dos parâmetros citados

anteriormente, devem ser considerados a incidência de enfermidades transmissíveis via

hídrica na região, a presença de despejos no corpo d’água, a floração de algas e outros fatores

que contra-indiquem o exercício de contato primário.

3.9. Qualidade da água de chuva

A água da chuva pode ser utilizada para diversas finalidades, dependendo de sua qualidade.

Geralmente, águas captadas em áreas rurais, localizadas longes de indústrias e tráfego intenso

de caminhões, ônibus e automóveis, apresentam qualidade superior às águas captadas em

áreas urbanas industriais. Entretanto, a localização do ponto de captação não é, isoladamente,

uma garantia de boa qualidade da água. É indicada, sempre, a análise da qualidade da água

para a verificação da sua possível utilidade.

Existem vários parâmetros que podem influenciar na qualidade da água de chuva, como a

qualidade do ar da região onde será realizada a coleta, o tipo de material da superfície de

captação; a limpeza dessa superfície, da calha, da tubulação que transporta a água até o

reservatório e do próprio reservatório; bem como os cuidados dos moradores com a

manutenção do sistema e o manuseio da água (ANDRADE NETO, 2004).

Vários estudos sobre a qualidade da água de chuva estão sendo realizados no mundo todo. No Brasil, pode-se citar Silva (2006), que verificou a qualidade da água de chuva captada e armazenada em cisternas (novas e antigas) na zona rural do Vale do Jequitinhonha - MG. Foi constatado que a qualidade dessa água era superior à que os moradores tinham acesso, provenientes de rios e poços. Segundo Andrade Neto (2004), alguns estudos demonstraram que a água de chuva captada em áreas rurais apresenta baixa contaminação físico-química, normalmente atendendo aos padrões de potabilidade de água para consumo humano. Os riscos no consumo da água estariam mais associados à contaminação microbiológica, por depender tanto dos cuidados na captação/armazenamento quanto do manuseio correto (ANDRADE NETO, 2004).

Em áreas urbanas brasileiras, também alguns estudos foram realizados sobre a qualidade da água de chuva, entre eles pode-se citar: May (2004), que estudou a água captada em São Paulo (capital); Annecchini (2005), que estudou a água captada na cidade de Vitória, capital do Espírito Santo e Cipriano (2004), que estudou a água captada em Blumenau, Santa Catarina. A região metropolitana de Belo Horizonte também teve sua água de chuva analisada quanto à ocorrência de chuvas ácidas (FIGUEIRÊDO, 1994).

Annecchini (2005) verificou em seu estudo melhora na qualidade da água captada em Vitória após o descarte dos primeiros 1,5 milímetro de chuva. A água de chuva coletada em um telhado metálico apresentou parâmetros como pH e Escherichia coli que atendiam ao padrão de balneabilidade (CONAMA nº 274/00). Verificou também que a precipitação equivalente aos primeiros 1,5mm apresentava concentração média de sulfato de 8,1mg/L e a precipitação equivalente a 3mm apresentava concentração de 3,5 mg/L. Como conclusão do trabalho teve- se a confirmação de que a chuva tem um importante papel na remoção dos poluentes da atmosfera, promovendo a sua limpeza. Os primeiros milímetros de chuva são os mais poluídos e ao longo do evento chuvoso ocorre a melhoria na qualidade da água da chuva.

Poucos estudos brasileiros foram realizados para caracterizar a qualidade da água dos primeiros milímetros de chuva. A Tabela 3.4 ilustra os resultados obtidos por Annecchini (2005), na cidade de Vitória, estado do Espírito Santo, e por Tordo (2004), na cidade de Blumenau, estado de Santa Catarina.

Tabela 3.4 - Qualidade das primeiras águas de chuva

 

ANNECCHINI, 2005

TORDO, 2004

 

Parâmetros

1 mm de chuva

0,2 mm de chuva

média

máx

min

média

máx

min

pH

6,52

6,70

6,33

5,60

6,35

4,86

Turbidez (uT)

37,0

70,0

14,0

4,4

15,0

1,1

Cor aparente (uH)

-

-

-

33

89

17

Dureza (mg/L)

26

36

10

24

56

9

Alcalinidade (mg/L)

15,6

19,3

11,7

14,5

20,7

10,0

Sulfato (mg/L)

 

12 4

16

 

-

-

-

Ferro (mg/L)

 

-

- -

 

3,42

23,00

0,15

Coliformes totais

           

(NMP/100mL)

386

538

218

3474

50000

387

Escherichia coli

           

(NMP/100mL)

-

-

-

800

24000

7

Cipriano (2004) estudou a qualidade das águas de chuva para uso doméstico e industrial.

Foram coletadas águas filtradas por filtro de carvão e por filtro de areia, com posterior

desinfecção por radiação ultravioleta. Foram obtidos resultados satisfatórios conforme a

Portaria 518/2004 e foi constatado também que a água captada, sem tratamento, atende aos

requisitos estabelecidos para alguns usos industriais.

Figueirêdo (1994) coletou águas de chuva em três estações de monitoramento localizadas na

região metropolitana de Belo Horizonte, no período entre outubro de 1992 e fevereiro de

1993. Os pontos estavam distribuídos da seguinte maneira: um na capital (região centro-sul),

um em Contagem e outro em Betim. É importante esclarecer que em todas as estações as

águas eram coletadas sem passar por uma superfície de captação. Com a conclusão da

pesquisa foi verificado que 44% do total de amostras apresentavam pH menor que 5,65, valor

equivalente à chuva ácida. Em Betim (região com grande número de indústrias) esse

percentual foi de 65%, e em Belo Horizonte e Contagem foi de 30%. Em relação à presença

de sulfato na água de chuva, foram encontrados valores médios aproximados de 23 µeq/L em

Belo Horizonte e 27 µeq/L em Contagem e Betim.

Em relação a pesquisas estrangeiras, foi encontrado o estudo realizado por SHAABAN e

APPAN (2003), que verificaram a qualidade da água de chuva captada em Kuala Lumpur,

Malásia. As águas analisadas estavam armazenadas em tanques plásticos, após serem

descartados o equivalente a, aproximadamente, 3 L de água de chuva por 1 m 2 de telhado. Os

autores citados encontraram os seguintes resultados: pH entre 6,26 e 6,62, turbidez entre 0,4 e

2,6 uT, alcalinidade entre 4,0 e 18,0 mgCaCO 3 /L, dureza entre 8 e 32 mgCaCO 3 /L, ferro

entre 0,01 e 0,02, coliformes totais entre 0 e 230 NMP/100 mL e Escherichia coli entre 0 e 50 NMP/100 mL.

COOMBES et al. (2006) estudaram a qualidade da água de chuva captada em Hamilton, Austrália. A água analisada era armazenada após serem descartados os primeiros milímetros

de chuva, sendo que o volume de descarte não foi citado pelos autores. Os resultados médios

obtidos com a pesquisa foram os seguintes: 6,20 de pH, 5 mg/L de sulfato, 0,01 mg/L de ferro

e 834 NMP/100 mL de coliformes totais. Se esses resultados fossem comparados aos padrões brasileiros de qualidade, estariam com qualidade satisfatória, com exceção, apenas, para as análises microbiológicas.

3.10. Influência da poluição do ar na qualidade da água de chuva

A água é um recurso natural renovável, pois participa de processos físicos do ciclo

hidrológico. Após evaporar dos oceanos, rios e lagos, precipita sob a forma de chuva, neve e gelo, tanto sob o oceano como sob os continentes. Na última situação, a água precipitada tanto pode ser interceptada pela vegetação, quanto escoar pela superfície dos terrenos, ou infiltrar-se no solo, onde será transpirada pelas plantas. Em seguida ela é evaporada para a atmosfera, da qual torna a precipitar-se, e assim sucessivamente.

Segundo Figueirêdo (1994), a água da chuva, por vir da evaporação e transpiração dos vegetais, é essencialmente pura, entretanto, como o vapor alcança a atmosfera, ele se condensa sobre as partículas sólidas e alcança equilíbrio com os gases atmosféricos. A água tende a dissolver, até a saturação, todos os gases reativos existentes na atmosfera, mantendo sua concentração proporcional à solubilidade e à pressão parcial de cada um, a uma dada temperatura. Entre os gases reativos presentes na atmosfera, o gás carbônico (CO 2 ) está em

destaque. Quando dissolvido na água, forma o ácido carbônico (H 2 CO 3 ). Por se tratar de um ácido fraco, dissocia-se com a água, fornecendo os íons hidrogênio (H + ) e bicarbonato (HCO 3 - ). Dessa maneira a água de chuva é naturalmente ácida devido a esse acontecimento. Nas concentrações e pressões normais de CO 2 na atmosfera (340 ppm e 1 atm, respectivamente) a água da chuva apresenta um pH de 5,65. Esse pH atua como uma linha de base para conceituar, de um modo geral, a chuva ácida (FIGUEIRÊDO, 1994). Chuvas com

pH inferiores a esse valor sofrem frequentes contaminações por ácidos fortes, como os ácidos

sulfúrico (H 2 SO 4 ) e nítrico (HNO 3 ). Gotas de H 2 SO 4 (sulfato particulado) são formadas a partir da reação de dióxido de enxofre (SO 2 ) com vários oxidantes presentes na atmosfera. O

dióxido de enxofre, um dos mais comuns poluentes atmosféricos, é introduzido no ambiente

em grandes quantidades, proveniente tanto de fontes antropogênicas quanto de fontes naturais.

O processo de oxidação do SO 2 e outras substâncias ocorre tanto em fase gasosa em dias

claros, como também em fase aquosa, na presença de nuvens e nevoeiros. Tal processo, além

de

resultar na formação de sulfato particulado, contribui significativamente para a produção

de

acidez, comprometendo sobremaneira a qualidade das condições ambientais. Regiões onde

não há influência de ações antropogênicas também podem apresentar o fenômeno da chuva ácida, pois pântanos, manguezais e vulcões podem emitir compostos de enxofre, de maneira natural. Em regiões tropicais, a chuva ácida pode ser causada pela emissão de ácidos orgânicos provenientes da vegetação, uma vez que essa é uma importante fonte de emissão de hidrocarbonetos e provenientes da queima da biomassa, principalmente no final da estação seca (SANHEZA et al., 1991 apud FIGUEIRÊDO, 1994).

A emissão antropogênica de metais é outro ponto importante que deve ser considerado pelo

drástico aumento desde o início do século XX. Por exemplo, a quantidade de chumbo globalmente emitida aumentou, de 1901 a 1980, em 905% (MARTINS e ANDRADE, 2002). Entretanto, nos últimos anos e em alguns países, a quantidade total de chumbo emitida decresceu em 28%, no período 1981-1990, como consequencia da substituição de aditivos contendo chumbo, pelo MMT (metilciclopentadieniltricarbonilmanganês). Por sua vez, a quantidade de manganês emitida aumentou em 10% durante o mesmo período (MARTINS e ANDRADE, 2002). Segundo os mesmos autores, ferro e manganês são os metais presentes em maior quantidade na atmosfera, apresentando uma química complexa em fase aquosa. O

problema da emissão de determinadas substâncias para a atmosfera está ligado à possibilidade

de retorno à superfície, via processos de deposição seca (sem a participação da fase líquida),

ou deposição úmida (através de chuva, orvalho, neblina e neve), causando prejuízos ecológicos e econômicos, tais como danos às florestas, à flora e fauna aquática, e aos materiais de construção.

A poluição do ar proporcionada tanto pela queima de combustíveis quanto por vários

processos de produção tem se tornado uma característica das grandes áreas urbanas. Entretanto, os produtos de combustão estão afetando a química da atmosfera também fora das grandes cidades industrializadas. Dessa maneira, os problemas de poluição não estão somente em pontos localizados, mas estão causando problemas, como a chuva ácida e diminuição de camada de ozônio, também em algumas áreas remotas.

A água da chuva, devido a todos os fatos citados, pode, dependendo da região onde for

coletada, apresentar algumas substâncias dissolvidas, em maior ou menor proporção. Algumas substâncias em excesso podem causar mal ao meio ambiente, inclusive para a saúde humana,

e inviabilizar o aproveitamento de água de chuva.

3.11. Viabilidade econômica do aproveitamento de água de chuva em áreas urbanas

Muitos questionamentos sobre a viabilidade econômica do aproveitamento de água de chuva são realizados por habitantes das áreas urbanas. Alguns imaginam que devido às chuvas serem concentradas em determinadas épocas do ano, a implantação desse sistema não é viável. Entretanto, vários estudos foram e estão sendo realizados sobre o tema.

Giacchini e Andrade Filho (2006) verificaram que em uma indústria de fundição de ferro, localizada no estado do Paraná, com o aproveitamento de água de chuva haveria redução de aproximadamente 50% no consumo de água potável e uma consequente economia de recursos

financeiros. Segundo os pesquisadores, o investimento necessário para a instalação do sistema

de aproveitamento de água de chuva é menos expressivo quando parte dos equipamentos para

a coleta da água, como as calhas e os condutores verticais, já estão instalados na edificação.

May (2004) formulou um programa computacional que realiza o dimensionamento do reservatório de água de chuva e a análise econômica do sistema. Como resultado da pesquisa teve-se a constatação de que, quando a área de coleta e a demanda são altos, o prazo de

recuperação do investimento é curto, sendo interessante a instalação principalmente em postos

de gasolina e indústrias.

Annecchini (2005) estudou a viabilidade econômica da implantação de um sistema de aproveitamento de água de chuva em uma residência unifamiliar e em um prédio localizado na Universidade Federal do Espírito Santo. Verificou-se que o período de retorno do investimento do sistema de aproveitamento para o prédio dessa universidade é superior a 10 anos. Esse tempo está condicionado à reduzida área para captação da água da chuva. Sistemas que dispõem de grandes áreas de captação apresentam um período de retorno do investimento geralmente menor. Em relação ao tempo de retorno do investimento considerando uma residência unifamiliar, esses valor diminuiu para 8 anos e 9 meses.

Campos et al. (2003) implantaram um sistema de aproveitamento de água de chuva em uma

residência na cidade de Ribeirão Preto (SP), cuja área de captação era de 350 m². O reservatório enterrado, de concreto armado, foi dimensionado de modo a suprir as demandas

de descarga de vasos sanitários, rega de jardim e lavagem de carros e pisos. Todo o sistema,

incluindo o reservatório, apresentou um custo total de implantação de R$ 4.518,86. O período de retorno calculado para esse sistema foi de 6 anos e 9 meses, levando-se em conta a economia com a água potável e incluindo-se o valor da tarifa de esgoto, que é cobrada em função do volume de água consumido. Caso o sistema fosse implantado na capital do estado

de São Paulo, onde as tarifas são mais elevadas, o período de retorno do investimento passaria

para 5 anos e 9 meses. A literatura mostra que o período de retorno médio desses sistemas é

de, aproximadamente, 10 anos. Segundo Annecchini (2005), embora esse período possa parecer longo e economicamente inviável, a decisão pela implantação de um sistema de aproveitamento em residências, com pequena área de captação, não será tomada com o objetivo maior de economizar dinheiro e sim com o objetivo de garantir o futuro da sustentabilidade hídrica, promovendo a conservação da água e auxiliando no controle de enchentes.

3.12. Percepção dos sujeitos

A população residente nas áreas urbanas próximas aos grandes centros, em sua maioria,

possui água canalizada em casa. Segundo o Atlas do desenvolvimento Humano (PNUD et al,. 2000), no ano 2000, em Belo Horizonte, 98,04% da população morava em residências atendidas por abastecimento de água. Já em algumas regiões do Brasil, essa situação é diferente. Na cidade de Ponto dos Volantes, localizada no nordeste do estado de Minas Gerais, por exemplo, no ano 2000, o atendimento da população era de 35,21%. Principalmente na zona rural do Vale do Jequitinhonha, o acesso à água de boa qualidade é difícil. Nesses locais, algumas ONGs estão realizando trabalhos de conscientização ambiental e de estímulo à construção de cisternas para o abastecimento da população. Segundo UFMG (2007), na região rural de Araçuaí (Vale do Jequitinhonha - MG), os moradores beneficiados com a implantação desses reservatórios demonstraram grande satisfação em ter a água de chuva como fonte de abastecimento. Nesses locais a água de chuva é utilizada principalmente para beber e cozinhar e, por isso, segundo alguns moradores, a sua qualidade de vida melhorou muito, uma vez que os casos de doenças tornaram-se menos frequentes. Outro aspecto positivo é com relação ao sabor da água, pois, segundo os mesmos moradores, esse é

bem mais agradável, já que não apresenta características salobras, como a das outras fontes. Os proprietários de cisternas se sentem privilegiados, sendo que essa posse é, de certa maneira, uma demonstração de melhor condição sócio-financeira em relação às pessoas que não a possuem.

Nas grandes regiões urbanas, a água potável está disponível em volume suficiente nos pontos de consumo, uma vez que é encaminhada às residências pelas tubulações do sistema público de abastecimento. Nas ruas dessas regiões, constantemente são vistas pessoas lavando carros e calçadas com mangueiras conduzindo água potável. Na realidade, está se utilizando uma água com qualidade muito superior à necessária para o uso ao qual se destina, sendo que a água de chuva poderia ser uma alternativa.

Para que a população se conscientize da necessidade de utilizar a água potável de maneira racional é importante compreender o quê a população sabe, faz e quer. Realizando uma adaptação do estudo de Cairncross e Curtis (2002) apud SOUZA (2007), há ao menos quatro perguntas que necessitam ser respondidas para essa compreensão:

1. Quais são as práticas que se deseja mudar?

2. Quem transmite ou influencia essas práticas?

3. O que motiva essa ação?

4. Como as pessoas se comunicam?

Segundo SOUZA (2007), para a mudança de condutas existem três forças básicas de influência: os estímulos, os hábitos e o entorno, sendo que todos eles podem facilitar ou dificultar a mudança. Como ilustra a Figura 3.18, a mudança de conduta requer pelo menos uma das três ações (IYER e SARA, 2005 apud SOUZA, 2007):

• reduzir as barreiras do entorno a fim de facilitar a mudança;

• mudar os hábitos antigos por novos hábitos; e

• encontrar estímulos capazes de criar novos hábitos.

Figura 3.18 - Forças de atuação nas mudanças de conduta Fonte: Iyer e Sara (2005)

Figura 3.18 - Forças de atuação nas mudanças de conduta Fonte: Iyer e Sara (2005)