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l i n h as d e n as ca : ca i p or t e rra u m e n i g ma da ar q u eo lo g i a

NATIONAL GEOGRAPHIC

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março 2010
vira-latas • guerra dos lobos • linhas de nasca • xangai • tribos da etiópia

Nosso amigo
vira-lata
como o cÃo sem raça definida
mudou a histÓria do brasil

Xangai, a
nova cara
da China
os lobos
R$ 14,99 ISSN 1517-7211

reconquistam
o velho oeste

Guerra
entre tribos
na Etiópia

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Sem raça definida,
o cão vira-lata brasileiro
é autônomo, simpático,
inteligente e versátil – e teve
papel fundamental na história
da colonização do país.

Um velho compan heiro


30cachorro
O   nationa l genova
trouxe o graphic • Març
realidade para aovida
2010
nativa brasileira. Na Amazônia, os vira-latas vivem em cumplicidade com crianças caboclas. São úteis na caça e seus latidos denunciam a presença de estranhos. rodrigo baleia

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32  vira-latas
Os nationaestão
l ge entre
o graphic • Març
os 60 cães o 2010
desta creche canina na zona sul de São Paulo. “Eles chegam com resistência diferente, herdada da liberdade nas ruas. Nem ficam doentes”, diz uma médica veterinária local. vi r a -l 33
atasde  paiva
maurício

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Por Evaristo Eduardo de Miranda

D
urante centenas de milhares de anos, o sono dos seres hu- A habilidade de fazer fogo foi uma das maio- o cão, independentemente de raça, é descen-
res conquistas tecnológicas da humanidade. dente longínquo dos lobos selvagens e primo
manos foi leve e conturbado. Animais selvagens, preda- Permitiu o aquecimento, a iluminação; trouxe da raposa. O menor dos cachorros, como esses
dores, grupos inimigos e ameaças de todo tipo impediam conforto e novas técnicas, como o cozimento que algumas senhoras levam dentro da bolsa,
dos alimentos, a cerâmica, a metalurgia e tantos é descendente do lobo. Durante muito tempo
qualquer pessoa de dormir profundamente. Era preciso outros avanços. A domesticação do cachorro foi, acreditou-se que o homem domesticara o lobo,
talvez, o segundo de nossos maiores êxitos. Hoje recuperando e criando seus filhotes. Hoje as pes-
estar vigilante. Nossas noites começaram a ser tranquilas o cão é encontrado em todo o mundo como ani- quisas indicam quase o contrário. Foi o cachorro
graças ao cachorro. A domesticação progressiva dos cães, com sua excepcio- mal doméstico. Impossível, em nossos dias, uma quem, de certa forma, domesticou os seres hu-
sociedade humana sem fogo e sem cachorro. manos, acompanhando-os de longe, persistindo,
nal capacidade de detectar intrusos pelo ruído e pelo olfato, latindo e dando O cão é um mamífero carnívoro da família convencendo-os de sua utilidade e colocando-
sinal nas proximidades do acampamento humano, foi uma enorme mudança dos canídeos. Seu nome científico é Canis fami- os a seu serviço.
liaris, e a espécie descende de populações sel- Um pouco como as hienas fazem com os
na vida cotidiana. Comparável à descoberta do fogo. vagens do lobo eurasiático (Canis lupus). Todo leões e outros predadores, determinados tipos
de lobo seguiam os deslocamentos humanos
a distância. Sempre prontos a recuperar resídu-
A competência dos os alimentares, como ossos, ligamentos e restos
cães para farejar, com um pouco de gordura e carne. Nômades, os
perseguir e acuar caçadores-coletores primitivos eram comedores
as onças no alto das de carniça, assim como os lobos. Com o tempo,
árvores trouxe nova os seres humanos também seguiam e observa-
realidade aos indígenas, vam os mesmos lobos para detectar uma presa
depois da chegada dos ou carniça. Para esses animais, era um ótimo ne-
portugueses. A mesma gócio compartilhar uma carniça ou caça com os
eficiência cinegética seres humanos, que apresentavam armas, cada
é usada por mateiros vez mais sofisticadas, para obtê-la e defendê-la
que conduzem matilhas de outros predadores.
para tocaiar onças- A competência em dar sinal em caso da che-
pintadas para estudo gada de intrusos permitiu e garantiu a perma-
no Parque Nacional nência desses animais dos acampamentos hu-
das Emas, em Goiás. manos. Uma interdependência estava criada.
adriano gambarini Trouxemos os filhotes para dentro de nossas
cavernas e cabanas. E imaginamos o simétrico:
mitos e histórias em que lobos amamentam,
por exemplo, os fundadores de Roma ou Mogli,
o menino-lobo (sem falar no lobisomem).
Com essa proximidade, começamos a com-
partilhar comida e doenças, ócio e trabalho, ini-
migos e ameaças. Os seres humanos puderam,
enfim, dormir. Relaxar. Entrar num estágio de
sono profundo, confiando sua noite e seus so-
nhos ao aguçado olfato e à audição superior dos
companheiros cachorros. Faz pouco tempo:

Evaristo Eduardo de Miranda é agrônomo e


doutor em ecologia. Escreveu sobre a formação
da Mata Atlântica brasileira em janeiro de 2009.

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Em uma praça de São Paulo, um rapaz adestra dois vira-latas (acima). Mesmo em um lugar movimentado manha que ainda hoje é comum observar índias símbolo e funçÃO Os cães são naturalmen-
como as pet shops (acima, à direita), o cão é o único animal a observar os olhos humanos e reage de amamentarem cães em seus seios ou prepará-los te prolíficos. Cada ninhada tem, em média, de
forma pertinente – diante de um homem vendado, por exemplo, ele fica perplexo. fotos de maurício de paiva assados como alimento. seis a oito filhotes. São fáceis de reproduzir. Os
Como no caso dos primeiros grupos huma- cios são frequentes. As fêmeas aceitam muitos
menos de 20 mil anos de bons sonhos contra ças eram as maiores vítimas: fáceis de capturar, nos, só tempos depois os índios descobriram a machos. Às vezes, uma ninhada tem filhos de
centenas de milhares de anos de pesadelo. imobilizar e transportar, mais indefesas que os capacidade de caça dos cachorros. Foi uma revo- vários pais. E o intervalo entre partos é peque-
guerreiros. Buscar água ou brincar longe das al- lução em suas vidas. A eficiência cinegética dos no, o que permite à fêmea parir duas vezes por
cachorro de índio Ao contrário do que mui- deias era um risco enorme. A vida concreta das bichos, sozinhos ou em alcateia, como no caso ano. Qualquer criador sabe: o tempo de geração
tos imaginam, no século 16, não foram facões, mulheres e crianças nativas, naquela época, era dos lobos, introduziu mudanças nas técnicas de curto e os filhotes numerosos são os ingredientes
machados ou anzóis as tecnologias europeias muito distante da mítica visão paradisíaca apre- caça indígenas e até nos ritos relativos à captura básicos de uma seleção genética animal rápida e
mais desejadas e adotadas pelos indígenas brasi- sentada em alguns livros de história. da temida onça, por exemplo, antes normalmen- eficiente. Há séculos, os seres humanos selecio-
leiros – mas o cachorro. A razão inicial da ampla A introdução do cachorro pelos portugueses, te atraída para armadilhas cavadas no solo, como nam e aperfeiçoam raças de cachorro capazes
difusão e do sucesso dessa tecnologia europeia sobretudo pelas mãos dos jesuítas, inaugurou indicam relatos dos jesuítas. A capacidade do ca- de cumprir os mais diversos papéis e funções
com os índios do Brasil foi seu uso como defesa. nova era de sono tranquilo para os índios bra- chorro de farejar, perseguir e acuar as onças no sociais. As raças são também símbolos de status,
Os cães foram mais úteis aos indígenas que o sileiros. Em caso de aproximação de guerreiros alto das árvores trouxe nova realidade às aldeias. beleza, segurança, riqueza, força.
irreprodutível metal dos europeus. inimigos, de dia ou de noite, os cachorros davam Conforme o dito popular, nenhum índio se sen- É curioso, mas um trabalho de seleção bas-
Na chegada dos portugueses ao litoral brasi- sinal e até atacavam os potenciais agressores. O tia mais num mato sem cachorro. E o sucesso tante parecido também foi feito pelos cachorros,
leiro, a expansão territorial dos tupis ainda não cachorro foi integrado nas tribos como o pri- reprodutivo dos cães garantiu rápida expansão sem que os seres humanos percebessem. Foi as-
estava consolidada, apesar do desaparecimento meiro mamífero doméstico – e continua sendo de sua presença entre as tribos. Logo os caninos sim na Babilônia, nas cidades gregas e no Im-
dos sambaquieiros e outros povos. As guerras o mais extraordinário deles, capaz de seguir os chegaram às aldeias mais remotas no interior, pério Romano. Foi assim no Brasil, é claro. Nas
entre tribos e aldeias eram permanentes e mar- passos do indígena, obedecer a suas ordens e cujo contato com os brancos e suas tecnologias ruas e nos subúrbios das metrópoles, nas fazen-
cadas pela exoantropofagia. Mulheres e crian- cumprir tarefas diversas. Essa intimidade é ta- só ocorreria séculos mais tarde. das e nos pequenos sítios, nas margens dos rios
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A empresária Maitê de vagão em vagão, de circo em circo, seguindo
Moraes Jurado andarilhos e romeiros ou caminhando solitário
improvisou um espaço pelas trilhas e estradas, empreendendo viagens
para seus cinco aventureiras e amorosas pelas terras brasileiras.
vira-latas em um
terreno ao lado olhos nos olhos É necessário enorme trei-
de sua loja de namento para um chimpanzé aprender o sig-
peças automotivas nificado de uma ordem ou de dois gestos hu-
importadas, em Barueri, manos. Mas um cachorro é capaz de entender
São Paulo. Primo, com mais de 100 palavras e identificar pelo nome
atadura na perna, é seu até 200 objetos. No Pantanal, nos sertões e nas
favorito, mas ela trata montanhas de Minas Gerais, os cães pastores
todos por “cara” ou atendem a apitos, assobios, gritos, palavras e
“rapaz”. E diz que gestos, mesmo a grandes distâncias, realizando
pretende levá-los com precisão suas tarefas entre os rebanhos de
ao altar quando ela bovinos, ovinos e caprinos. Da mesma forma,
se casar, em breve. na zona rural, os vira-latas aprendem e colabo-
maurício de paiva ram nas diversas técnicas de caça empregadas
no caso de onças, tatus, pacas, perdizes, jacus ou
no que seja. A razão é simples: há milhares de
anos o cachorro tem sido selecionado para nos
entender, nos ajudar, cumprir nossas ordens e
atender a nossos desejos.
Desde sua domesticação, o cachorro tornou-
se uma criatura poliglota, uma das poucas ca-
pazes de comunicação interespecífica. Esse ani-
mal bilíngue é capaz de comunicar-se com sua
espécie e com os seres humanos como nenhum
outro. Os cães estão sempre atentos, captam e
interpretam a voz das pessoas, seus gestos, a
expressão de seu rosto e, sobretudo, seus olhos.
É obrigação deles insinuar-se no meio dos seres
amazônicos ou no meio da caatinga, nas favelas pé-duro ou um, na linguagem formal dos veteri- Uma coleção de acasos e oportunidades deu humanos, acompanhando sua evolução, con-
e nos lixões. No caso dos vira-latas, as condições nários, SRD (ou sem raça definida). origem e moldou o vira-lata brasileiro. Ele segue quistando os mais diversos grupos e lugares so-
ambientais e as leis de Darwin selecionaram o O SRD tolera e resiste a doenças e enfrenta evoluindo enquanto, no caso dos cães de raça, ciais. O primeiro terráqueo a viajar até o espaço
melhor sucesso reprodutivo e adaptativo. sozinho condições ambientais adversas nas quais o esforço dos seres humanos é garantir a não sideral foi um cão: a cadela russa Laika.
O vira-lata brasileiro é um cão autônomo, de outros cães não teriam nenhuma chance de so- evolução, a manutenção das características da Algumas raças de cachorro praticamente
grande inteligência e com enorme capacidade brevivência, seja no meio do mato, seja na área raça e sua imutabilidade. Nesse processo, o ani- não latem, outras não uivam e outras são muito
de conformação. Seus formato e tamanho são rural ou mesmo nos grandes centros urbanos. mal vira-lata foi bem mais proativo que o ser barulhentas. Os vira-latas, dada a multiplicida-
médios. Sua pelagem é curta e de cores ajustadas Oposto aos cachorros de raça, especialistas por humano. Na história de introdução e multipli- de de situações que enfrentam para sobreviver
às condições ambientais, variando do negro ao natureza, o vira-lata é antes de tudo um genera- cação de cachorros Brasil afora, o cão foi mais em meio a outros animais e seres humanos, em
bege-claro. Correm, nadam, sabem dissimular e lista. Seu talento, seu conhecimento e seu inte- sujeito que objeto. Ele sentia o cio das fêmeas. áreas rurais e urbanas, não perderam nem uma
têm todos os sentidos aguçados e bastante equi- resse se estendem a vários “campos”, não se con- Ele fugia para encontrá-las, viver suas aventuras. só nota musical de suas competências sonoras.
librados. Muitas pessoas certamente ficariam na finando em nenhum setor, como seus parentes Pouco exigente em termos de alimento e abrigo, Cachorros são capazes de rosnar, acuar, barroar,
dúvida em identificar o nome de certa raça de com pedigree. Ele está geneticamente equipado ele fez sua vida nas fazendas, nas cidades, nos cainhar, esganiçar, ganir, ladrar, latir, uivar e ulu-
cachorro com pedigree, mas poucos hesitariam para lidar com diversas situações, impostas pela vilarejos, acompanhando boiadas ou bandeiras, lar. Não temos tantos verbos para descrever os
em reconhecer um vira-lata, um rasga-saco, um natureza ou pelos seres humanos. sítios e residências, saltando de canoa em canoa, sons de outra espécie animal. E, no universo
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se for abandonado, por exemplo, no meio da que, como superlativo de beleza, utilizemos, em
avenida Paulista, em São Paulo. português, a expressão: “Bonito pra cachorro!”
Já os vira-latas urbanos aprenderam a atra- Da mesma forma, um prato delicioso é “Bom
vessar a rua. Aguardam os veículos passarem. pra cachorro!” Para elogiar a excepcional com-
Respeitam os sinais. E, em muitos casos, usam petência ou o bom desempenho de alguém,
“homens-guias”: nos cruzamentos mais difíceis, dizemos “O cara é o cão!” E a fidelidade a toda
eles observam e seguem as pessoas. Da mesma prova é descrita como “lealdade canina”.
forma que os deficientes visuais se utilizam dos
cães-guias, os vira-latas, nessas e em várias ou- atores históricos Os vira-latas desembar-
tras situações, se servem dos seres humanos. caram com os portugueses, participaram das
Tudo isso sem que seja preciso treiná-los. entradas e bandeiras, testemunharam o grito
Os vira-latas demonstram tão rapidamente do Ipiranga às margens plácidas, a proclamação
sua capacidade de apreender e expandir a men- da República e estiveram presentes nas diversas
te por razões genéticas. Mas também porque, expedições do marechal Rondon e dos irmãos
desde os primeiros dias de seu nascimento, es- Villas Bôas. Há uns 15 anos, ouvi, emocionado,
tão expostos a grande variedade de experiências em uma roda de jornalistas, uma lição de patrio-
sensoriais, sobretudo nas patas. Seguem a mãe tismo relatada pelo grande indigenista Orlando
no capim, na areia, no cimento, na terra. Villas Bôas como quem conta um causo. E vou
O agitar da cauda expressa a vida emocional narrá-la, do jeito que eu me alembro.
dos cachorros, do mesmo modo que nossas Orlando estava numa de suas heroicas expedi-
expressões faciais. A cauda é, de certa forma, o ções pelo Brasil desconhecido, sem contato com
rosto do cão. Estudos comprovam que o rabo a civilização há muito tempo. Um dia, consul-
balança, de forma assimétrica, de um lado para tando seu diário, realizou que era 7 de setembro.
o outro. O cachorro agita sua cauda mais para a Não teve dúvida. Mandou improvisar um mas-
direita na presença ou proximidade de seu dono tro com um tronco de paxiúba. Reuniu todos
A relação amistosa entre o vira-lata e o pequeno primata da Amazônia ilustra a versatilidade do cão, e em situações de conforto. Ele a balança mais os seus homens e, em ordem-unida, hastearam
adaptado aos variados ambientes ecológicos do Brasil. Desde filhotes, os cães estão expostos a diversas para a esquerda quando está com medo, caute- a bandeira brasileira e cantaram o Hino Nacio-
experiências sensoriais – seu sistema proprioceptivo está na base das quatro patas. adriano gambarini loso ou apreensivo. Como diz a lenda, existem nal lá no coração da selva. Uma manifestação
vira-latas tão inteligentes que são capazes de jo- cívica, sem nenhuma outra testemunha senão
sonoro, os cães ainda são aptos a muito mais. de fora do muro ou se o veículo de sua dona se gar pôquer. Mas nunca ganham porque quando a natureza naquele fim de mundo. A emoção foi
Nós é que, simplesmente, não os escutamos. aproxima a cinco quadras dali. E, diante disso, têm um bom jogo... sempre balançam o rabo. geral. Terminada a comemoração patriótica, o
Suas orelhas, estimuladas por 25 músculos, tomam todas as providências pertinentes. A maior genialidade sensorial do vira-lata é chefe de seus mateiros, um rude e experimenta-
giram, sobem, descem, movem-se de forma dis- seu olfato. Além de uma sensibilidade bem su- do sertanejo, aproximou-se. Com jeitinho, quase
sociada ou coordenada e detectam com precisão faro fino Cães de raça são procurados em perior à nossa, o que assombra é sua capacidade confidente, puxou o sertanista de lado e comen-
a origem dos sons. Para defender um estábulo canis especializados, comprados por altos va- seletiva. Onde sentimos cheiro de feijoada, o ca- tou: “Bonita cerimônia, hein, doutor Orlando?”
ou caçar uma presa, por exemplo, esse recurso lores e vêm com atestados de pedigree. No caso chorro identifica o odor da linguiça, do feijão, do “Pois é”, respondeu o sertanista.
é fundamental. Cães são bem mais eficientes dos vira-latas, ocorre exatamente o contrário: louro, da cebola e de todos os ingredientes, um “Que mal lhe pergunte...”, prosseguiu o ser-
que gatos ao caçar ratos, apesar do inabalável são eles que buscam os seres humanos. Eles por um. O olfato seletivo dos vira-latas permite tanejo, curioso. “Qual foi mesmo a razão des-
marketing dos felinos. Eles percebem os ruí- são capazes de insinuar-se e ser úteis nos mais que sigam uma pista, uma presa ou uma fêmea sa homenage toda?” “Ora! A independência!”,
dos sutis das mandíbulas dos roedores e sabem diferentes ambientes ecológicos, sistemas de por longas distâncias. Eles identificam no meio respondeu Orlando. “Ah! Ela merece, merece
onde estão. Seu aparelho auditivo pode captar produção ou condições sociais do Brasil. Se os de um saco de lixo a presença de algum item mesmo.” “Como assim?” “A Pendência!” “Pen-
frequências duas a três vezes maiores do que atestados de pedigree documentam toda a li- comestível – ou seja, qualquer produto orgânico dência?!”, questionou o sertanista, intrigado.
somos capazes. Em termos de comparação, para nhagem genealógica de um animal de raça, qua- em qualquer estado de decomposição. Vira-latas Foi quando ouviu do mateiro: “É, ela memo.
alcançar a gama auditiva dos cães, teríamos de se nunca se tem ideia de quem foram os pais de não ruminam. Engolem quase sem mastigar. Seu Cachorra boa pra paca como a Pendência nunca
agregar 48 teclas à direita de um piano. Por isso, um vira-lata. Mesmo assim, um cão de pedigree suco gástrico poderoso transforma todas as ma- mais nóis tivemo, depois que aquela onça matô
eles sabem, de longe, pelo som, se um animal es- com chip de identificação e toda a sua genealo- térias e bactérias em nutrientes saudáveis. a coitada. E eu que já quase nem me alembrava
capou do curral, se um estranho parou do lado gia mapeada tem pouca chance de sobreviver Com esse conjunto de excelências, é normal do dia dessa tragédia...” j
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42  nationa l de
Companheiros gelida,
o graphic Març o 2010
como na• condução de uma boiada, os cachorros influenciam o comportamento humano. Existem sepulturas de mais de 10 mil anos em que cães foram enterrados ao lado dos donos. vi r a -l atas   43
izan petterle

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m u n d o n at i o n a l

NGBRASIL.COM.BR 
Uma família do povo
nasca vela pela
Atração fatal A sedução pode matar.
morte do filho: O fascínio causado pela beleza, pelo cheiro e pela
passado revelado. forma pode ser mortal a um inseto desatento que
caia nos lábios de uma planta carnívora, como a
vênus papa-moscas à esquerda. Os cientistas estão
descobrindo como esses vegetais caçam, comem
e digerem suas presas. O universo das plantas
carnívoras, com texto do escritor Carl Zimmer
e fotos da sueca Helene Schmitz, é o editorial
deste mês, disponível aos leitores em nosso site.

Mundo cão Em uma entrevista exclusiva,


Evaristo Eduardo de Miranda revela outros detalhes
sobre a convivência dos brasileiros da época
colonial – índios, jesuítas — com os cachorros.
E participe de uma promoção: a melhor foto de
vira-lata enviada a nosso site será premiada com
um kit especial de guias de fotografia de national.
Dionaea Muscipula

Neil Shea e seus


Arte e arqueologia no Peru   guias ajudam dois
Estreia domingo dia 14 de março, às 22 horas  moradores a tirar
As figuras desenhadas na areia em Nasca, no sul do Peru, são obras uma vaca do rio Omo.
de arte notáveis – e um dos enigmas da humanidade. No programa
As Linhas de Nasca Desvendadas, uma equipe internacional, incluindo cientistas da National
Geographic Society, leva ao deserto ferramentas de alta tecnologia. Dispondo de um helicóptero
não tripulado, a iniciativa resultou no primeiro mapa digital das linhas – que revela por que foram
traçadas pelo povo que habitava o deserto já no ano 100 a.C.

a u t o z oom  
Novos amigos 
O fotógrafo Maurício de Paiva
assume: ele era meio
desconfiado com cachorros.
“Em minhas andanças pela
Amazônia, já levei muita
carreira dos vira-latas que
guardam a casa dos caboclos”,
justifica-se. Tudo mudou
durante as sessões de fotos
que fez para a reportagem
desta edição, inclusive na
produção da capa (à esquerda)
em uma creche canina de São a u t o z oom   O resgate   Em uma curva do rio Omo, na Etiópia, o escritor Neil Shea e os guias
Paulo. Moqueca, nossa modelo, Lale (de camisa vermelha) e Bache (à esquerda de Lale) toparam com uma situação curiosa. Um homem
“colaborou demais. Foi sempre kara (à direita de Lale) e uma mulher hamar (à extrema esquerda) tentavam tirar uma vaca que caiu na
dócil e obediente”, conta água. A ribanceira íngreme e o couro escorregadio do animal dificultaram mas não impediram o resgate.
Maurício, Moqueca e a adestradora Raquel Yuki: sem mordida. Maurício. “Fiquei cativado”. “No fim”, conta Shea, “levamos a vaca até um trecho plano, de onde saiu trotando. Nem nos agradeceu.”

126 nationa l ge o graphic • març o 2010 ©edge west, inc/philip j. day (no alto); cristina veit helene schmitz (no alto); randy olson 127

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