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A Arte Org. Uma terapia “em” movimento. “Em” busca da corporalidade perdida. Texto de contexto:
A Arte Org.
Uma terapia “em” movimento.
“Em” busca da corporalidade perdida.
Texto de contexto:
Algumas considerações sobre
a Arte Org Terapia.
O texto aqui descrito é uma pequena compilação de alguns capítulos e trechos do livro
“Aproximações ao método terapêutico da Arte Org” de Jovino Camargo Junior.
Jovino Camargo Junior
Junho de 2013.

Alguns conceitos básicos da Arte Org Terapia

2013

Algumas considerações sobre a Arte Org Terapia.

Sumário

Algumas considerações sobre a Arte Org

2

Autoria, origem e desenvolvimento da Arte

3

Objetivos da Arte

6

A

ausência como um paradigma

7

A

estratificação terapêutica das organizações

8

A estratificação da couraça de

8

Estratificação paralela da

9

Estratificação paralela das pressões do

16

O

processo terapêutico centrado na relação

19

A

reorganização da corporalidade e da percepção de campo e a arte de se

acompanhar

25

 

Sobre o corpo de procedimentos da Arte

26

A Arte Org é uma terapia corporal de tendência reichiana e orientação arteorguiana27

Reorganização da corporalidade e das percepções de

30

A

arte de se acompanhar e a noção de

34

Os procedimentos terapêuticos da Arte Org

42

A

45

O encouraçamento de campo

51

A ressaca e os

58

A fenomenologia da pressão do

62

Alguns elementos da desorganização do funcionamento virtual

71

Principais mecanismos de defesa e contato presentes nos virtuais a caminho da

74

desorganização:

Inter-relações entre a autopercepção e a consciência presentes nos virtuais a

caminho da desorganização:

75

Os conflitos de identidade dos virtuais a caminho da desorganização:

86

A capacidade de estabelecer vínculos e relações dos virtuais a caminho da

87

desorganização:

Do corpo, dos sentimentos e das emoções dos virtuais a caminho da

desorganização:

87

Sobre o homem virtual

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Alguns conceitos básicos da Arte Org Terapia

2013

O texto aqui descrito se constitui numa recompilação de capítulos e trechos

do livro “Aproximações ao método terapêutico da Arte Org” de Jovino Ca- margo Junior. Com a diferença que colocamos aqui somente alguns temas, que de acordo conosco, pode contextualizar a Arte Org Terapia. Sendo que nosso objetivo aqui foi simplesmente compor uma ideia global do que se trata a Arte Org terapia. Nele não procuramos definir ou explicar cada um dos conceitos utilizados,

pois disto se trata o livro “Aproximações ao método terapêutico da Arte Org”. Jovino Camargo Junior Junho de 2013.

Autoria, origem e desenvolvimento da Arte Org.

Arte org, uma terapia “em” movimento “em” busca da corporalidade perdida.

A “Arte Org terapia” foi nomeada inicialmente (30 anos aproximadamente) como sendo a Orgonoterapia funcional intermediária. Logo foi renomeada como Arte Org Terapia. Foi iniciada e desenvolvida como um projeto, ou um caminho de investiga- ção e atuação terapêutica, para investigar, compreender e atuar terapeuti- camente com as vicissitudes do funcionamento do homem contemporâneo. Com a passar do tempo, foi se compondo ou se manifestando como uma metodologia própria, diferenciada e autônoma com seu próprio corpo de conhecimentos e procedimentos.

Funcionamento virtual.

É nome que damos para a forma de funcionar do homem contemporâneo.

Virtual:

De corpo ausente. Aquele que projeta sua existência ou se sente existindo fora do âmbito do seu próprio corpo; onde seu corpo esteve ou vai estar; ou onde seu corpo nunca poderá chegar; mesmo que estes lugares ocupem e- xatamente o mesmo espaço físico que ocupa o próprio corpo. Que existe lá no ali depois.

Ausência:

É a forma como nomeamos uma estranha capacidade do homem contem-

porâneo de se distanciar de si-mesmo, do próprio corpo e do mundo a seu redor e de voltar a para si-mesmo para seu corpo e para o mundo. Ato manifesto ou subliminar que envolve desde o mais simples distanciar- se de si-mesmo até as mais complexas desconexões de si-mesmo e do mun-

do ao seu redor.

A Arte Org nasceu da orgonomia (ciência desenvolvida por Wilhelm Reich

que têm como propósito a investigação das manifestações da energia or- gone na natureza); particularmente da tentativa de aplicar a metodologia terapêutica reichiana (Análise do Caráter, vegetoterapia e orgonoterapia) em

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pessoas que usavam à ausência desconectada como principal mecanismo de defesa (antes chamados de fronteiriços, hoje chamados de virtuais). Deste ponto de vista; a Arte Org é o resultado da aplicação teórica e prática dos métodos terapêuticos desenvolvidos por Wilhelm Reich embasados e combinados (como modelo fenomenológico e epistemológico) com o pen- samento funcional ou funcionalismo orgonômico (também desenvolvido por Wilhelm Reich) na investigação e no trabalho terapêutico com os pro- cessos e procedimentos envolvidos com a “ausência” (de si-mesmo) ou desconexão” (de si-mesmo e do mundo) e com sua contraparte a ressaca virtual e a sobre-excitação de campo. Seus primeiros passos foram dados como uma terapia corporal reichiana; porém, conforme o procedimento terapêutico ia se aprofundando, foi apa- recendo no funcionamento das pessoas uma instabilidade, uma incoerência

e um funcionamento interrompido, escorregadio e cíclico que se manifesta-

va tanto na organização perceptiva como na organização corporal sendo que estas contradições se manifestavam até nos níveis mais profundos do funcionamento das pessoas. Enquanto a percepção mostrava uma coisa, o corpo mostrava outra; o que indicava uma radical modificação dos para- digmas relacionados com o funcionamento das antigas estruturas neuróti- cas de caráter. Isto é, o funcionamento do homem contemporâneo já não se organizava de acordo com a organização do caráter; e, consequentemente isto pedia radi-

cais modificações nos modelos terapêuticos criados para lidar com o fun- cionamento deste mesmo homem. Em outras palavras, a forma básica de se defender do homem contemporâneo tinha se modificado, agora seu princi- pal sistema defensivo era o distanciamento ausente desconectado; e, com isto a forma de organização de sua couraça também tinha se modificado. O que significa que a Arte Org não é somente o resultado da aplicação do modelo Reichiano na desconexão ausente, pois tinha incorporado como parte de sue próprio modelo, modificações profundas nos paradigmas rela- cionados com o próprio funcionamento do homem.

Hoje, a Arte Org terapia é qualificada como sendo uma terapia corporal de

tendência reichiana e orientação arteorguiana; direcionada para a reorgani- zação do funcionamento virtual em geral e para a reorganização do distan- ciamento ausente em particular. Incluindo seus atores coadjuvantes; como é

o caso dos conflitos intrapessoais; das crises de identidade; das crescentes

pressões que as pessoas exercem sobre si-mesmas e sobre seu “que hacer” ou sua vida cotidiana; da ressaca virtual e da sobre-excitação do campo real do corpo com sua correspondente desorganização do campo perceptivo; e dos demais sintomas relacionados ao vazio; ao cansaço; ao esgotamento; a secura; e ao estresse.

A consequência ou o resultado do projeto Arte Org foi à criação e o desen-

volvimento da Arte Org terapia com sua própria metodologia e com seu próprio modelo de investigação (pensamento funcional paralelo ou funcio-

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nalismo paralelo); com seu corpo de procedimentos práticos e de conheci- mentos teóricos, constituindo-se assim numa nova abordagem terapeuta.

Na Arte Org atual, o desenvolvimento do processo terapêutico se dá de a- cordo com duas modalidades ou caminhos terapêuticos paralelos.

O primeiro caminho “seguindo os caminhos da ausência” está de acordo

com o modelo vertical pendular da conexão ausente e com o funcionamento

polar e cíclico do funcionamento virtual; sendo que neste caso sua metodo- logia foi composta de acordo com a estratificação da ausência; e de acordo com o território fronteiriço e se refere à Arte Org da ausência.

O segundo caminho “os caminhos de si-mesmo no - aqui” está de acordo

com modelo horizontal polar da conexão com o “aqui” e com funcionamen- to das pressões do “aqui” do funcionamento virtual com a vida cotidiana pressionada; sendo que sua metodologia foi composta de acordo a estratifi- cação do “aqui”; e de acordo com o território intermediário; e se refere à Arte Org paralela que se desenvolveu a partir do projeto reciclagem da Arte Org. Na prática da Arte Org atual este dois caminhos são paralelos e a terapia

caminha oscilando e alternando entre os dois.

Quanto a sua orientação disciplinar; a Arte Org terapia não é uma terapia linguística como não é uma terapia psicológica, nem sequer uma psicotera- pia corporal; mas sim é uma metodologia terapêutica ou uma terapia cor- poral de tendência reichiana e de orientação arteorguiana que abarca tanto a organização da corporalidade como a organização da percepção; incluin- do a percepção de campo, o campo perceptivo, a percepção difusa e a per- cepção de campo sobreposta. Seu corpo de procedimentos terapêuticos (em sua grande maioria; ou em 99% dos casos) é composto por exercícios-procedimentos (cada qual com uma ou mais pautas na maioria das vezes contrapostas); portanto, na práti- ca, o que temos como procedimentos terapêuticos são movimentos corpo- rais e perceptivos relacionados com a arte de se mover por si-mesmo. Na Arte Org terapia inclusive a compreensão passa (em parte) pela arte de se mover ou está a ela relacionada.

A Arte Org terapia está centrada na relação da pessoa com ela-mesma o

que significa que o importante não é que interpretamos ou o significado

que damos para qualquer aspecto da pessoa; nem a interpretação ou signi- ficado que a pessoa se dá para si-mesma; mas sim como a pessoa sente (sentir) e se percebe (perceber) a si-mesma e ao seu entorno, quando está parada e principalmente quando entra em movimento. Além disto; grande parte do que está envolvido com o homem de nosso tempo (virtuais) e com seu funcionamento ausente (com suas percepções de campo, com seu campo perceptivo, com sua percepção difusa, e com sua percepção sobreposta) se encontra no limite da linguagem ou além de-

le e se constitui no incoerente e contraditório linguajar virtual.

Do ponto de vista prático; a Arte Org foi criada, inventada e desenvolvida pelas próprias pessoas que foram passando por seus exercícios- procedimentos (criando, modificando-os ou tendo insights sobre o seu fun- cionamento); foi elaborada por uma equipe de profissionais ligados a Asso-

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ciação Wilhelm Reich do Brasil e ao Instituto Wilhelm Reich do Chile; e, sua metodologia em sua maior parte, foi organizada por Jovino Camargo Junior.

Objetivos da Arte Org.

Em termos gerais, o objetivo da Arte Org é lidar com o funcionamento vir- tual em geral. Em termos específicos o objetivo da metodologia da Arte Org

é acompanhar é trabalhar com o processo ou procedimentos envolvidos

com o ausentar-se de si-mesmo e do mundo. Ou seja, sua proposta central ou seu foco de trabalho é lidar (investigar, a- companhar e trabalhar terapeuticamente) com o processo da ausência sen-

do que esta trás consigo o ato de ausentar-se (de si-mesmo e do mundo que nos rodeia); o ato de voltar (para si-mesmo e para o mundo que nos rodeia) a estar presente; e, os conflitos e consequências destes conflitos (que se manifestam em diversos níveis da relação da pessoa com ela- mesma) gerados pelo processo ausente e internalizados a partir desta au- sência e desta presença.

A forma da Arte Org terapia recapacitar a pessoa a lidar com a sua capaci-

dade de se ausentar de si-mesmo e do mundo e de voltar para si-mesmo e ao mundo é reorganizando a corporalidade e a percepção de campo da pessoa em questão; capacitando-a a se acompanhar, sendo que este proce- der e estes procedimentos se encontram centrados na relação da pessoa

com ela-mesma; o que significa que a pessoa é seu próprio agente (para não dizer seu próprio terapeuta); isto é, é a própria pessoa quem se encar- rega ou quem deve se encarregar de se colocar em movimento e se acom- panhar. O mesmo é valido para todas às situações colaterais (estas que são chamadas de atores coadjuvantes ou sintomas) que costumam acompanhar

o funcionamento virtual; ou melhor; que costumam começar a aparecer

quando o funcionamento virtual começa a se desorganizar. Veja que na Arte Org, as principais características de um virtual a caminho da desorganização; ou quando ele se desorganiza (quando rompe a barreira de si-mesmo); ou ainda quando ele fica pressionado no meio do caminho (pressões do “aqui”); ou quando se reorganiza novamente como juntando os pedaços (de forma nativa, naturalmente ou de acordo com as vicissitu- des da vida) compondo-se como uma pseudoestrutura ou como uma estru- tura virtual; são todas consideradas como um “desdobramento” de uma mesma condição inicial; a saber, a perda da capacidade de se distanciar ou se ausentar de si-mesmo e do mundo a seu redor e de voltar para si-mesmo e para o mundo a seu redor. De acordo com a Arte Org; às impressões (sejam impressões sensoriais ou impressões sensoriais difusas), os mal-estares, os sintomas, as pressões e as fixações, os estados anímicos, a ressaca virtual, a sobre-excitação do campo e a desorganização da identidade; e demais elementos que costu- mam acompanhar a desorganização do funcionamento virtual; geralmente acompanhados dos mais diversos tipos de desconexão: são todos eles enga- tilhados por um descompasso, por uma perda da graduação ou por um de- sarranjo promovido pelos processos e procedimentos que a pessoa usa ou usou para ausentar-se, principalmente para voltar para si-mesma,

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A ausência como um paradigma.

A Arte Org, como um de seus paradigmas, sustenta que a ausência deixou

de ser uma das manifestações entre muitas para se transformar na síndrome da ausência; no elemento central em torno do qual gira a forma de funcio- nar do homem contemporâneo (que denominamos simplesmente como sendo os que funcionam virtualmente); sendo a desconexão de si-mesmo e do mundo com sua correspondente crise de identidade e a conflitante rela- ção consigo-mesmo é simplesmente algumas de suas consequências. Geralmente quando nos percebemos ausentes e desconectados ou no mundo da lua, a primeira coisa que pensamos é que estamos escapando de lidar e enfrentar o mundo tal qual se deve, isto é, conectado. Não se enganem, pois isto é apenas a primeira página, a superfície, o disfar- ce da ausência; nos bastidores da ausência a coisa é bem diferente; a pessoa não se ausenta somente para escapar dos problemas do mundo, mas sim e principalmente porque a ausência tem seu próprio atrativo, o contacto au-

sente; que por sinal costuma estar muito bem escondido em “nenhum lu- gar”, fora do alcance da linguagem, disfarçado pelas desconexões da vida.

E se queremos saber mais sobre as influências deste contacto, nós temos

que indagar pelo o gosto pelo absoluto, pela excelência, pelo passar por sobre si-mesmo, pela exigência, pelas sobre ações, pela plenitude; pois es- tes são os embaixadores do contacto ausente para os assuntos terrenos. Para a Arte Org, a ausência, tanto se encontra na base da pressão constante de funcionar além de si-mesmo e das próprias possibilidades; na base da busca desenfreada pela expansão da consciência, da plenitude a qualquer custo; como também na base do funcionamento caótico, polarizado, futu- rista e em constantes modificações. E mais, a ausência desconectada se a- presenta como um elemento comum entre os males predominantes de nos- sa época, como no estado confusional, na falta de sentido, nas sensações de vazio, na secura, na desconformidade consigo-mesmo, nos estados alte- rados de consciência, na culpa catastrófica, na perda de concentração, nas fixações, nas insônias, no sufoco, nas depressões, nos estresses, nas fobias, nos pânicos e etc.

De acordo com a Arte Org; é a própria desorganização do processo de au- sentar-se e de voltar para si-mesmo quem vai se amarrando com diferentes

formas de desconexões produzindo assim, no funcionamento da própria pessoa, uma pauta de desorganização constante que se manifesta como características fronteiriças. Sendo que a primeira consequência desta desor- ganização é a perda gradativa da capacidade de se ausentar e de se reto- mar o que induz novas formas de ausentar-se cada vez mais desconectadas

e

novas ressacas cada vez mais secas e esgotadoras.

O

que significa que reorganizar o funcionamento virtual é em primeiro lugar

recapacitar a pessoa a se ausentar e voltar para si-mesmo e para o mundo sem tantas desconexões.

A ausência dificilmente se reorganiza por si mesma; e, a pessoa quando usa

sua forma de se ausentar desconectada e automática somente amplifica os problemas.

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Portanto, é o próprio processo terapêutico quem deve se encarregar de in- troduzir uma pauta de organização constante de tal forma que permita a pessoa ir recuperando sua capacidade de se ausentar sem tantas descone- xões.

A estratificação terapêutica das organizações virtuais.

Estratificação:

Acamamento. Disposição por camadas, ou como que por camadas. Sedimentação; fixação, estabilização.

A estratificação da couraça de caráter.

O conceito de estratificação que usamos como referência é do modelo rei-

chiano e vem da análise do caráter. Significa o caminho que o processo te- rapêutico deve percorrer como seguindo um fio vermelho do início ao final

da terapia. Sendo este fio vermelho o que diferenciava uma estrutura de caráter da outra.

A estratificação da couraça está intimamente relacionada com o conceito de

couraça, de acordo com o processo terapêutico centrado nas defesas; onde um elemento na posição de contacto substituto revela o outro na posição de contacto numa camada mais profunda; que por sua vez se transforma na próxima defesa ou num novo contacto substituto.

É assim que Reich propunha a estratificação terapêutica de cada caráter; de

acordo com a estrutura de funcionamento da couraça caracterológica de cada caráter; de defesa em defesa começando pelos traços de caráter mais superficiais, depois para os traços ou atitudes carregados emocionalmente; seguindo se aprofundando de uma emoção para outra até encontrar as ex- pressões emocionais fora do universo da linguagem relacionadas com a en- trega e com o reflexo orgástico. Passando assim pelas três camadas da cou- raça, a superficial a média e a profunda. Este forma de estratificação é chamada de estratificação natural. É construí- da pelas próprias defesas quem vão revelando o caminho a ser seguido pe-

lo processo terapêutico.

A estratificação que segue o caminho da couraça corporal é mais ou menos

parecida; sendo que: quando se consegue flexibilizar uma defesa corporal ou mesmo quando se expressa uma emoção adequadamente: a pessoa

descarrega.

Agora, uma descarga (emocional) estimula uma nova carga, isto é, aumenta

a carga disponível no organismo como um todo, que se direciona para a

periferia do organismo. Conforme isto vai acontecendo, a mesma emoção vivida como descarga começa a se transformar na próxima defesa e aparece de forma mesclada com uma próxima emoção. Ou seja, a couraça (muscular) se vê obrigada a se defender deste aumento de carga; e com isto ela se revela a si mesma como couraça, se manifestan- do como uma contração muscular, como uma atitude corporal ou como uma expressão emocional; e assim por diante.

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Quanto mais profundo atuar o desencouraçamento, mais vegetativa (com clonismos, tremores e convulsões) será a resposta do organismo como um “todo”. Veja que nos dois casos a estratificação vai revelando pontos de concentra- ção, e estes estão enraizados ou como traços de comportamento ou como atitudes corporais. O que significa dizer que a atuação do encouraçamento

é na verdade funcional e unitário, isto é, que envolve tanto a couraça de ca- ráter como a couraça muscular. Conforme o desencouraçamento vai se a- profundando nas camadas mais profundas, mais a couraça se encontra en- raizada corporalmente.

As camadas da couraça Tal qual um sitio arqueológico, onde sua escavação é cuidadosamente dife- renciada por camadas, no qual se encontra enterrado nestas camadas os mais diferentes objetos feitos ou usados pelos remotos habitantes do lugar, sendo que a partir do estudo destes objetos os arqueólogos podem desco- brir a forma de viver ou a história remota das pessoas que viviam neste lu-

gar Reich propunha três camadas de experiência para organização da couraça: a camada superficial (composta pelos traços superficiais do caráter mais toda

a estrutura de relação com o mundo, comumente chamada de característi-

cas sociais), a camada média (que guarda toda estrutura das emoções se- cundárias, entre elas os impulsos perversos) e a camada profunda (que guarda o funcionamento genuíno inclusive o amor e a entrega). Apesar de que grande parte dos elementos da camada média e profunda desaparece da consciência, isto é, estão guardadas ou escondidas pela cou- raça superficial, parte desta estrutura de funcionamento permanece acessí- vel e se diferencia em níveis de experiência.

De acordo com Reich, o caráter não mesclava seus diferentes núcleos de experiência. “Em casa, homem de família; na igreja, um crente em Deus; nos negócios, amigos à parte; e na zona de prostituição, os impulsos perversos”.

E o incrível é que essas experiências não se cruzavam e nem se comunica- vam entre si, sendo que a estrutura de caráter se mantinha a mesma em todos os lugares.

Estratificação paralela da ausência.

Agora, a dinâmica estrutural do funcionamento virtual não funciona de for- ma linear, nem sequer remotamente. Em primeiro lugar o fio vermelho do funcionamento virtual é a própria au- sência, sendo que esta funciona por ciclos, hora obrigando a pessoa a se desenraizar do corpo e da percepção organizada, hora obrigando a pessoa

a se enraizar novamente. Mesmo com a direção da ausência de voltar para

si-mesmo, portanto para o corpo; o processo funciona por saltos com vazi- os intercalados; indo de um domínio para o outro, sem a menor sequencia e nem a menor ordem (pelo menos não a sequencia ou a ordem linear que esperamos). Os níveis da experiência também não são graduados; isto é, a

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pessoa muda de um nível de experiência para outro, da camada superficial para a camada profunda e vice-versa negligenciando a camada média (que deveria ser maior reduto do encouraçamento). Em outras palavras, os virtu- ais com suas ausências e desconexões aprenderam a como desativar a mai- oria do encouraçamento superficial e médio. O que significa dizer que o processo se aprofunda, ou se superficializa sem a correspondente experiência de flexibilizar o encouraçamento anterior. Em outras palavras, a pessoa não acumula experiência lidando com seu desen- couraçamento. Como não acumula experiência com suas diferentes expres- sões emocionais. Sendo que é a experiência vivida no desencouraçamento mais superficial, ou com as emoções menos profundas, quem vai capacitan- do a pessoa a lidar com as couraças ou emoções mais profundas. Se a estratificação da couraça não fosse previamente conhecida pela terapia das antigas estruturas neuróticas de caráter, nem sequer poderíamos dizer o que é profundo e o que é superficial na dinâmica do funcionamento virtual. Em segundo lugar, no funcionamento virtual a percepção (organização per- ceptiva) funciona por um lado, e o corpo por outro (literalmente antagôni- cos) o que dificulta enormemente a possibilidade de seguir ou acompanhar os processos. Caso o terapeuta (investigador) não tiver um prévio conhecimento das fun- cionalidades envolvidas na dinâmica corporal e no seu encouraçamento (couraça muscular) ele nem sequer pode distinguir quando uma forma de perceber ou uma vivência emocional corresponde ou deveria corresponder com o que está de verdade ocorrendo na corporalidade do indivíduo ou não. Em terceiro lugar, a pessoa em sua experiência (portanto em sua identida- de), só consegue estabelecer relações (conscientes, compreensíveis, lineares, linguisticamente organizadas) com as partes do processo que podem ser identificados por sua consciência; o que significa que os espaços vazios en- tre um momento mais presente e outro, justamente onde atua a ausência, ficam de fora da capacidade da pessoa se relacionar com sua própria expe- riência atual e de estabelecer relações com sua experiência vivida. Inicialmente, para a pessoa, pelo menos enquanto ela esta ativa na vida, os momentos ausentes são momentos isolados e sem continuidade histórica; pelo menos até que a pessoa aprenda a resgatar a experiência vivida nos momentos ausentes. Maria briga com João; porém, antes de terminar de resolver a ques- tão com Maria, João se ausenta; e, para se ausentar João se distancia e se desconecta (cortando o contacto) tanto consigo-mesmo como com Maria; somente que quando se ausenta, toda a carga envolvida na briga com Maria se dilui, ou desaparece de vista; e mais, durante sua ausência João e tocado por uma experiência muito diferente da relação com Maria ou com qualquer outra pessoa do planeta terra; experiência que dá uma reviravolta nos estados de João modificando suas necessidades e prioridades, que estimula frequências que João não tem a menor ideia que existem.

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Quando João volta para si-mesmo, para o mundo e para Maria, ele já

não sabe de sua ausência; só sabe de seu estar e de seu estado deso- lado, abandonado e solitário.

É assim de transtocado que João volta a se encontrar com Maria; so-

mente que Maria ficou no mesmo lugar, e segue na mesma onda da briga com João, com algo para ser resolvido, que geralmente se trata da queixa de Maria sobre a falta de compromisso afetivo de João; e João já está em outra muito diferente.

E o pior, quando perguntamos para o João se ele sabe de onde está

vindo o seu estado desolado, solitário e transtocado, ele diz que de

Maria, enquanto esta não sabe pensar em outra coisa que em fritar o João por sua falta de compromisso e desconsideração. Enquanto João não sabe pensar em outra coisa do que como resolver seu estado desolado e solitário com a presença de Maria; sendo que Maria não tem e não pode ter absolutamente nada a ver com a deso-

lação solitária de João, pois esta foi promovida por ele mesmo, visi- tando lugares de sua própria ausência inacessíveis para Maria. Agora, se João consegue encontrar-se com Maria com um destes re- cursos malditos onde uma boa briguinha consegue restabelecer a presença de João, Maria vira um verdadeiro perigo, pois agora João depende de Maria para recuperar sua própria presença.

E Maria, mais cedo ou mais tarde, se cansa da falta de compromisso

afetivo de João e acaba se ausentando de verdade, abandonando Jo- ão literalmente, ou de forma virtual, seguindo o caminho de sua pró- pria ausência. Em funcionamentos polares e cíclicos com episódios ausentes intercalados é impossível seguir qualquer desenvolvimento histórico que corresponda ver- dadeiramente à realidade vivida, pois os elementos históricos não se rela- cionam mais com a experiência que a pessoa realmente viveu; mas sim es- tão a serviço de encontrar uma explicação ou uma interpretação para dar um sentido interpretativo qualquer aos estados e frequências anímicas que se apoderam da pessoa, e estes não se relacionam com a experiência vivida de corpo presente, mas sim com os universos ausentes individuais de cada um, vividos de corpo ausente. Da mesma maneira, nenhum traço de comportamento ou atitude corporal pode ser adequadamente trabalhado, desencouraçado, flexibilizado ou mesmo diluído se este não se mantém (mesmo que de forma intermitente) no tempo, simplesmente porque eles não podem receber a carga necessária para que a própria pessoa se encarregue de flexibilizá-los. Não existe uma forma de trabalhar “terapeuticamente” de forma adequada, com traços de comportamento e atitudes corporais cíclicas (que se modifi- cam de uma para outra de acordo com a lua) intercaladas pela ausência, aonde é a própria ausência que se encarrega de resolver a situação desapa- recendo com a carga em questão. O mais maluco ou insólito é que se não fosse à ausência, esta seria a forma de funcionar saudável, isto é modificando a forma de se defender a cada

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momento; ou não se defendendo sempre da mesma maneira de forma es- truturada e rígida.

O problema que a ausência também desaparece com a segunda parte da

forma saudável que diz que as defesas devem ser coerentes e corresponder com os perigos apresentados. Em outras palavras a pessoa quando funciona de forma virtual reage como se fosse uma pessoa saudável, mas não se compromete nem consigo-mesma e nem com o mundo como se fosse uma pessoa saudável.

Para ser coerente com o funcionamento virtual, a terapia que lida com os virtuais precisa ajudar a pessoa a se acompanhar em sua própria ausência (enquanto isto não ocorre somente estamos administrando as perdas ou tampando os buracos e muitas vezes tampando o sol com a peneira). Sendo que esta condição não está dada automaticamente, na maioria das vezes a pessoa precisa ir aprendendo a como usar sua percepção para que

possa se acompanhar no seu ausentar-se, e isto precisa ser feito de forma sequenciada e gradativa; pois para aprender acompanhar o seu ausentar-

se a pessoa precisa se colocar ausente; sendo que se a pessoa já está de-

sorganizada, o seu ausentar-se já não está funcionando de forma efetiva.

O mesmo ocorre com o voltar para si-mesmo e para o mundo. O que signi-

fica dizer que a pessoa precisa reaprender a se ausentar ao mesmo tempo em que aprende a se acompanhar se ausentando ou voltando para si- mesma e para o mundo. Um bom exemplo para compreender a dificuldade de seguir os passos da ausência é comparando-a com o dormir. Veja, não é se recordar de ter ido dormir e de ter despertando, não é recor- dar do que sonhou; mas sim acompanhar o processo de ir adormecendo e de ir despertando ao mesmo tempo em que a experiência de dormir e de despertar segue seu curso; sendo que o menos efetivo aqui é tentar saber do dormir quando se está consciente, desperto; o que resulta inevitavel- mente numa insônia. Agora, nem a ausência fica parada no mesmo lugar, nem a pessoa (com seus estados anímicos) fica parada no mesmo lugar; e, se depender da pes-

soa, entre uma sessão de terapia e outra ela já modificou todo o panorama.

O que significa dizer que o trabalho de organização de um virtual precisa

ser sistemático, constante e alternado entre as suas percepções de campo e a sua corporalidade. Sem continuidade nos processos simplesmente não existe efetividade terapêutica. Em outras palavras, como já sabemos que a pessoa sofre exatamente de incapacidade de manter uma continuidade nos seus próprios processos; é o processo terapêutico quem deve manter esta continuidade de forma coe- rente com o próprio funcionamento virtual. Além disto, como contraparte da ausência; a couraça de campo, a sobre- excitação de campo e a ressaca virtual induzem outro sistema defensivo do qual a pessoa não participa ativamente; isto é, ela se ausenta se desconec- tando, padece de seus estados e paga o custo com suas ressacas; isto é, ela metaboliza sua própria ausência com sua própria ressaca; mas não tem ne- nhum aprendizado experiencial que lhe permita tomar em conta suas defe-

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sas e nem como tomar em consideração o que está ocorrendo com ela- mesma; menos ainda que lhe permita ajudar seu metabolismo de forma adequada, principalmente quando este metabolismo fala a linguagem das sobre-excitações e das ressacas; isto é, ela pode até descobrir que está pa- gando um custo por ter passado por sobre si-mesma; mas não sabe que ao mesmo tempo está se defendendo e nem do que se defende. Todos estes atributos se manifestam na superfície do funcionamento virtual, mas não fazem parte da superfície do funcionamento virtual, eles não são nativos, o que significa dizer que é a própria estratificação com os procedi- mentos envolvidos quem devem se encarregar de contrapor e pautar estes eventos sem perder a coerência do processo. Justamente considerando os atributos, os contrapontos coerentes com a ausência e com o funcionamento virtual que não se manifestam na própria experiência de se ausentar e do voltar para o “aqui” e “agora” que foi sendo composta à estratificação proposta pela metodologia da Arte Org; que se chama estratificação paralela da ausência; organizada como um caminho paralelo (tanto ao se ausentar de si-mesmo e do mundo, como ao voltar para si-mesmo e para o mundo), com também paralela ao funcionamento natural, nativo, ou automático da ausência.

Sendo que o primeiro que devemos esclarecer sobre a estratificação parale- la da ausência é que ela não é natural; isto é, não está de acordo com o processo ausente conforme ele se manifesta e nem está graduada de acor- do com o voo nativo da ausência, pois este não tem limites e pode apontar para qualquer lugar, inclusive para o centro da loucura.

A estratificação paralela da ausência opera como um sistema de referências

que junto com o bom senso e o sentido comum permite ir equilibrando e sequenciando, pautando e contrapondo os próprios procedimentos usados pela metodologia da Arte Org. Também devemos saber que é fundamental para a saúde e para o equilíbrio

do indivíduo virtual se ausentar e voltar para si-mesmo de vez em quando.

O que significa dizer que devemos ter na estratificação paralela da ausência

à própria ausência como procedimento intercalado com tantas outras coisas que precisam ser trabalhadas em cada fase do trabalho terapêutico.

Se a ausência se manifesta como um se distanciar de si-mesmo e do mundo para ir entrando num bloco de experiências difusas no limite da linguagem (de natureza não linear que se afasta inclusive da organização tempo espa- cial) onde a pessoa se mescla com a experiência vivida. Considerando que o primeiro passo do processo terapêutico que pretende lidar com a ausência e com o funcionamento virtual é compor um entorno; onde a pessoa possa aprender a se acompanhar em seu ausentar-se e em seu retorno para si mesma; e que neste processo use as mesmas formas perceptivas presentes na experiência do seu ausentar-se. Sendo que a nor- mativa básica aqui é justamente não interferir diretamente no bloco de ex- periências ausentes incluindo o contacto ausente (pois isto somente libera- ria uma crise de angustia de contacto que a pessoa definitivamente não sa-

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beria como lidar com ela, a não ser se precipitando de volta para si-mesma aumentando o âmbito da desconexão); o mais sensato aqui é capacitar a pessoa a se aproximar do seu bloco de experiências ausente o mais defen- dida possível, da forma mais graduada possível; e a se distanciar do estado ausente para voltar para si-mesma e para o mundo da forma mais defendi- da e graduada possível. Aqui está outra diferença entre a forma de se ausentar nativa que pode a- contecer em qualquer momento e em qualquer lugar; e a ausência proposta pela estratificação da ausência; onde se deve percorrer um caminho para chegar a ela, e percorrer outro caminho para sair dela. Agora este sentido comum cheio de bom senso não é algo que podemos gravar a ferro e fogo na consciência racional da pessoa ou em seu funcio- namento; simplesmente porque quando a pessoa se ausenta, sua racionali- dade e seu sentido comum saem de férias, e muitos elementos de sua for- ma de funcionar e de ser também. Portanto, o único que podemos fazer com uma estratificação paralela deste processo é pautar estes elementos exatamente como pautas, como passos, ou como procedimentos que compõe a própria dança de se aproximar e se distanciar do bloco de experiência ausente. Isto significa assumir em primeiro lugar que o pensamento e a consciência não são efetivos para lidar com a ausência; que as compreensões, as reco- mendações, o conhecimento e mesmo o sentido comum também não são efetivos. Que tudo aquilo que é realmente importante, principalmente no que se refere aos cuidados consigo-mesmo precisam ser transformados em pautas concretas inseridas dentro e como parte dos procedimentos práti- cos; isto é, devem ser inseridas como partes em todos os exercícios- procedimentos compostos para lidar tanto com o ausentar-se como com o

voltar para si-mesmo e para o mundo. Da mesma maneira que os antigos indígenas que tomavam vários procedi- mentos para ir conversar com seus ancestros e logo tomavam outros pro- cedimentos como ir sozinhos por três dias para um bosque somente to- mando ervas e chás para sair da frequência dos ancestros e voltar para fre- quência de suas vidas cotidianas com famílias e vida social. Algumas cultu- ras desenvolveram práticas como os banhos de vapores justamente para in- termediar o transe com seus ancestros e o voltar para a vida cotidiana.

O trabalho terapêutico ou a estratificação do bloco de experiências ausen-

tes, inclusive do contacto ausente é mais gradual e gradativo ainda e passa justamente por ir transformando ou corporificando aspectos desse bloco de experiência ausente em procedimentos (pautas, atividades ou tarefas a se- rem realizadas acompanhadas de si-mesmo e em pleno território ausente). E isto é Arte Org, ou melhor, esta é a forma de operar da estratificação para- lela da ausência proposta pela Arte Org.

O processo terapêutico da Arte Org terapia para os assuntos da ausência é

estratificado de forma global; e a estratificação da presença ou do voltar para si mesmo e para o mundo também é estratificado de forma global; isto

é, o se distanciar de si-mesmo e o voltar para si-mesmo funcionam de for-

ma global e são válidos de igual maneira para todos os virtuais. Quanto

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mais global e igual para todos podem ser os procedimentos mais à pessoa pode encontrar sua própria forma de se mover e com sua própria identida- de. Agora, a relação consigo-mesmo é diferente; esta tem suas próprias especi- ficações que precisam ser levadas em consideração desde o início do traba- lho terapêutico, e disto se encarrega o caminho paralelo que trata da arte de se mover de acordo com os caminhos de si-mesmo no “aqui”.

A Arte Org da ausência está dividida por ciclos e estes são compostos por vários procedimentos sequenciados de forma gradual. Nestes ciclos, os e- xercícios funcionam como um conjunto montando uma dinâmica própria a cada ciclo; onde se procura trabalhar tanto com a ausência e a organização da percepção de campo, como com a presença e a organização da corpora- lidade; e com a relação consigo-mesmo; sendo que cada ciclo se refere a mais uma etapa na arte de acompanhar a ausência e está de acordo com a estratificação da mesma ausência. Isto é; no próximo ciclo se trabalha com os mesmos elementos do ciclo an- terior num nível mais profundo. Isto independe do mal que esteja sofrendo cada um ou do tipo de identidade de cada um. Isto não significa dizer que a forma nativa de se ausentar de cada um seja graduada ou mesmo gradativa, pois não é; da mesma maneira que as expe- riências estimuladas pelo ausentar-se também não são nem gradativas e nem graduadas. Sendo que o funcionamento virtual e a forma de se ausen- tar nativa de cada um costumam andar adiante e muito na frente de qual- quer projeto terapêutico. Somente significa que qualquer projeto de reparação e reorganização preci- sa se ordenado e gradativo, principalmente se a desordem tem a ver com um funcionamento caótico; o problema é que qualquer projeto de repara- ção e reorganização para ser efetivo precisa necessariamente ser coerente com os processos que ele está se propondo a organizar e reparar, neste ca- so com o próprio funcionamento ausente e virtual, caso contrario ele nem funcionaria. Neste caso, a reorganização da ausência não se encontra na organização estruturada perceptiva e nem corporal, não se encontra na presença, mas sim na própria ausência. Neste caso de nada adianta contrapor a ausência com a presença, de nada adianta pedir para um virtual que ele resolva seu estado ausente ficando presente, pois isto vai contra a própria natureza de seu funcionamento. Neste caso ou o processo terapêutico segue em direção do distanciamento ausente, ou a pessoa vai fazer isto por sua própria conta. Mas sim o que a metodologia terapêutica pode fazer e ser efetiva com seus procedimentos: se distanciado de si-mesmo sim, mas desconectado e per- dido de si-mesmo não. Com isto a metodologia terapêutica coloca outro elemento que natural- mente não faz parte do processo ausente, a capacidade de se acompanhar, e a consequência vai ser justamente voltar para si mesmo mais presente.

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Estratificação paralela das pressões do “aqui”.

Na Arte Org atual, o desenvolvimento do processo terapêutico se dá de a- cordo com duas modalidades ou caminhos terapêuticos paralelos.

O primeiro caminho “seguindo os caminhos da ausência” está de acordo

com o modelo vertical pendular da conexão ausente e com o funcionamen- to, polar e cíclico do funcionamento virtual; sendo que sua metodologia foi composta de acordo com a estratificação da ausência; e de acordo com o território fronteiriço e se refere à Arte Org da ausência.

O segundo caminho “os caminhos de si-mesmo no - aqui” está de acordo

com modelo horizontal polar da conexão com o “aqui” e com funcionamen- to das pressões do “aqui” do funcionamento virtual com a vida cotidiana pressionada; sendo que sua metodologia foi composta de acordo a estratifi- cação do “aqui”; e de acordo com o território intermediário; e se refere à Arte Org paralela que se desenvolveu a partir do projeto reciclagem da Arte Org. Na prática da Arte Org atual este dois caminhos são paralelos e a terapia caminha oscilando e alternando entre os dois.

A Arte Org paralela está direcionada em reparar e desenvolver a relação da

pessoa com ela-mesma nos diferentes polos do “aqui” (fechado, interme- diário e aberto). A metodologia da Arte Org paralela segue os mesmos princípios de coerência com o funcionamento virtual; porém, a estratifica- ção paralela do “aqui” e diferente da estratificação paralela da ausência. A estratificação da ausência está centrada no desenvolvimento gradativo

dos níveis do distanciamento ausente, da ausência simples em direção à ausência sobreposta virtual. A estratificação paralela do “aqui” está centrada em desenvolver um cami- nho paralelo e intermediário constituído por momentos entre o mundo da ausência e o mundo do viver cotidiano; sendo que estes momentos estão diferenciados e sequenciados de acordo com os polos do “aqui”, um m o- mento no espaço fechado, logo outro momento no espaço intermediário, logo outro momento no espaço aberto, logo outro momento no espaço fechado, e assim por diante. Sendo que a questão mais importante aqui é como o indivíduo se relaciona consigo-mesmo em cada um destes polos; e como a relação do indivíduo vai se desenvolvendo conforme ele vai se movendo pelos polos.

A Arte Org paralela se encontra dividida por módulos que repete o mesmo

caminho entre os polos do “aqui” (fechado, intermediário e aberto); porém

a cada módulo ela vai se ampliando; vai tomando a direção do todo e do

horizonte; da percepção do campo próprio, para o campo do lugar e para o campo do infinito; vai ampliando tanto os movimentos como a conexão en- volvida em cada volta polar em cada módulo; e tudo isto é antagônico ao reducionismo do funcionamento pressionado no “aqui”. Quanto à coerência da metodologia terapêutica com o funcionamento vir- tual, neste caso também é diferente do trabalho com o funcionamento au- sente; pois a direção que o indivíduo está seguindo naturalmente é justa- mente a direção das pressões, das fixações, das projeções massivas com seu correspondente esgotamento e reducionismo.

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Portanto, a oposição entre a direção da metodologia terapêutica da Arte Org paralela e a direção do funcionamento da pessoa pressionada no “aqui” é inevitável. Neste caso a coerência metodológica com o funcionamento da pessoa é mantida com os próprios momentos polares; fechado, intermediário e aber- to sim, mas não com os “outros” e nem em pleno viver cotidiano; mas sim consigo-mesmo e com um espaço intermediário entre um polo e outro. In- tenso sim, mas sem perder a sutileza, a suavidade e a ternura; enfrentando sim, mas não de acordo com metas e os propósitos das pressões e fixações, mas sim de acordo com a capacidade de se acompanhar, de se apechugar, de se respaldar e reparar. E a direção da ausência volta a se manifestar por si mesma, e neste caso se chama ausência no ou do “aqui”.

O modelo cíclico.

O funcionamento cíclico geralmente é caracterizado como sendo uma das

características do funcionamento virtual, em qualquer etapa e de qualquer

tipo: como no caso do funcionamento pressionado no “aqui” onde as pesso- as ficam como um cachorro correndo atrás do rabo, isto é, elas se deslocam de uma atividade para outra, porém acabam voltando ao mesmo ponto com a impressão que não saíram do lugar. Mas ele também pode ser usado como um modelo explicativo ou mesmo como um modelo metodológico como no caso da estratificação da ausência ou da estratificação do “aqui”.

O

modelo cíclico foi utilizado pela metodologia da Arte Org da ausência pa-

ra

compor os ciclos de trabalho com a ausência que vão mantendo a mesma

pauta organizadora somente que a cada vez num nível diferente.

O modelo cíclico também foi usado na metodologia da Arte Org paralela pa-

ra compor os módulos de trabalho com o “aqui” que devem se manter num mesmo nível, porém ampliando o estar e o contacto consigo-mesmo, até que a pessoa esteja em condições de mudar de nível.

Para a Arte Org; por mais que o nosso mundo esteja se direcionando para a terapia dos cinco minutos; o lidar com o processo ausente; com a relação consigo-mesmo; e com as pressões da vida cotidiana exige tempo, dedica- ção e constância; e não pode ser feito do dia para noite; simplesmente por- que da mesma maneira que é necessário recuperar o funcionamento ausen- te é necessário recuperar a presença e junto com ela o “aqui e agora”, e jun- to com ele os diferentes ritmos dos processos naturais e estes funcionam de acordo com as leis do tempo e do espaço e não de acordo com o funcio- namento virtual. Com isto a Arte Org propõe mais uma consigna: Para o funcionamento vir- tual nada é constante, e nada está feito para permanecer. Nenhum estado permanece por si mesmo. A manutenção de um estado exige fixações; e as fixações no funcionamento virtual consomem energia e esgotam. Nas antigas estruturas de caráter era a couraça quem mantinha os estados anímicos de forma automática. Porém no funcionamento virtual isto não é mais assim, para manter um estado anímico mais ou menos constante no tempo é necessário envolver muitos recursos perceptivos e corporais e atu- ar sobre eles constantemente; mesmo quando a pessoa não sabe por que e

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nem como está mantendo um estado ativo como, por exemplo, um estado depressivo se afundando.

O que é comumente chamada de estruturas virtuais (quando o funciona-

mento virtual ausente já se desorganizou, e as pessoas andam de um lado a outro juntando seus próprios pedaços, se fixando e se endurecendo) apesar de seu parecido com os antigos caracteres; funciona da mesma maneira que

a

manutenção dos estados e das pressões; isto é, se utilizam de um conjun-

to

de fixações corporais e perceptivas; isto é, uma combinação de fixação,

sobre-excitação e ressaca: e refletem um esforço da pessoa juntar seus pró- prios pedaços depois que seu funcionamento virtual já se desorganizou. Neste caso, o que a pessoa precisa aprender é como desamarrar seu siste- ma perceptivo e corporal; como recuperar a funcionalidade de sua ausência; como aprender e recuperar a capacidade de acompanhar a si-mesma, de acompanhar seus processos; e como recuperar a confiança de que pode seguir caminhando; neste caso se movendo. Em termos da relação consigo-mesma, além da capacidade de se reorgani- zar e de se reparar, existem muitos assuntos para serem resolvidos consigo- mesmo, e cada um necessitam de um contexto e de uma frequência especi- al; sendo que a relação entre eles se dá através de um caminho que é a própria pessoa quem deve desenvolver e percorrer.

Tanto a ausência como a presença, como a relação consigo-mesmo; mani-

festam-se num ir e vir constante; para longe e para perto; para dentro e pa-

ra fora; para cima e para baixo; mais aberto ou mais fechado; e isto não tem

outro jeito; funciona assim. A pessoa pode ir melhorando a cada exercício,

mas que ela vai afundar ou se fechar de novo, disto, não se têm dúvidas. Da mesma maneira que o caminho percorrido pela pessoa vai sendo parci- almente ou globalmente apagado, conforme a pessoa vai mudando de polo ou vai se desconectando. Portanto, o que temos é um constante recomeçar. Para que este constante recomeçar possa se transformar num caminho que segue adiante também precisa de procedimentos para a pessoa possa ir recuperando o caminho percorrido a cada passo.

A forma que a Arte Org lidar na pratica com este vai e vem é incluindo as

diferentes direções como pauta de seus exercícios-procedimentos. Mesmo do ponto de vista das compreensões é necessário de alguns cuida- dos; como por exemplo: o cuidado constante que nós devemos ter com

nossas proposições; de tal forma a não propor coisas que não vão aconte- cer.

É melhor, em todos os sentidos, que a pessoa saiba desde o princípio que

ela vai ter que lidar tanto com sua ausência como com sua presença; e com sua relação consigo-mesma e com suas diferentes pressões; e isto para o resto de sua vida e que terá seus altos e baixos; apesar de que isto pode estar completamente contra suas secretas ou manifestas intenções virtuais.

Agora, a Arte Org terapia, apesar de ser um processo terapêutico longo, apresenta resultados em cada exercício, somente que estes resultados não

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se manterão no tempo; e mesmo que isto fosse possível se constituiria em mais uma fixação que pararia todo o resto. Da mesma maneira o trabalho terapêutico da pessoa com ela mesma é para

o resto da vida, porém sua terapia acompanhada por terapeutas não pode

ser para o resto de sua vida, mas também não se constitui em questões que podem ser trabalhadas num fim de semana. Simplesmente nem a ausência e nem a presença e nem a relação consigo- mesmo e menos as pressões do “aqui” são agarráveis com os métodos do tipo aprenda a como resolver sua vida num fim de semana; mas sim se po- de dar um passo mais na capacidade de restaurar e reparar a relação consi- go-mesmo num exercício; num trabalho de fim de semana ou mesmo num

momento solto observando a lua ou o pasto (grama) crescer.

O processo terapêutico centrado na relação consigo-mesmo.

A relação consigo-mesmo é o tendão de Aquiles do funcionamento virtual.

É sem dúvida nenhuma a porta de saída da desorganização do funciona-

mento virtual, ou melhor, nela está o próprio remédio para quando o fun- cionamento virtual vira doentio, patológico ou venenoso. Porém é necessário esclarecer que a relação consigo-mesmo tal qual se manifesta é a expressão do próprio funcionamento virtual; além de ser um conceito virtual, está transtocada, modificada e amplificada tanto pela au-

sência como pelo próprio funcionamento virtual.

Para quem existe em seu próprio corpo o contacto consigo-mesmo é uma condição “sine qua non”: é nativo, se dá por si mesmo e não está em ques- tão. Por exemplo, uma pessoa relativamente (neuroticamente) organizada, com seu caráter, não andava pelas ruas se questionando sobre o seu si-

mesmo; ela nem sequer formulava a existência ou inexistência de si-mesmo.

A não ser os loucos, os filósofos, os gênios e os místicos que andavam cutu-

cando o seu si-mesmo com questões ou conclusões que colocava o seu Eu (e junto com ele o seu si-mesmo) fora de sua casa o corpo, para habitar o pensamento, como é o caso de “eu penso, logo existo”; ou a linguagem co- mo no caso “a casa do eu é a linguagem”; etc. Agora, a relação consigo-mesmo só é possível de ser concebida como um tipo de relação quando o encontrar-se consigo-mesmo ou o reencontrar-se consigo-mesmo pode ser concebido como uma necessidade ou como uma realidade; ou quando a própria forma de se tratar (a si-mesmo) ou de se comportar (consigo-mesmo) pode ser concebida e/ou diferenciada em vá- rias formas; o que necessariamente envolve uma graduação do contacto consigo-mesmo; também envolve as emoções ou a emocionalidade, as sen- sações ou a sensorialidade, o sentir afetivo; e tudo isto dentro do âmbito da relação consigo-mesmo; e mais, envolve também diferentes formas de co- municação e linguagem (inclusive a verbal) capazes de estabelecer uma comunicação consigo-mesmo como, por exemplo, falar consigo-mesmo e logo atuar ou tomar ações ou procedimentos direcionados a si-mesmo. Por andar pensando como se estivéssemos falando; o pensamento por pa- lavras pode ser considerado um indutor ou um precursor do andar pelas

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ruas falando consigo-mesmo, somente que isto nos tempo de agora já é tão comum que nem sequer julgamos o andar falando consigo-mesmo co- mo uma loucura. Porém, isto por si mesmo não é suficiente para colocar a relação consigo- mesmo num lugar tão privilegiado. Algo mais acontece no próprio funcio- namento ausente que coloca a relação consigo-mesmo como um elemento central na organização e na reparação de si-mesmo. E este algo mais se chama animismo. No antigo funcionamento do caráter, existia uma fase de seu desenvolvi- mento, antes do fechamento do caráter enquanto tal, que a relação consi- go-mesmo se colocava relevante. Este momento era chamado de fase ani- mista; onde as pessoas (crianças) falam consigo-mesmas e com a natureza em sua volta como se estivessem falando com outra pessoa; e mais, atribu- em características emocionais para as coisas inanimadas ou para os eventos da natureza. Logo vinha o fechamento do caráter, junto como desenvolvimento do pen- samento abstrato e matemático; e este contato animista com seus amigos invisíveis praticamente desaparecia, e com ele esta mania infantil de andar ou não se relacionando consigo-mesmo; e só voltava a aparecer diante de uma desorganização séria da pessoa ou do seu caráter. Entre as forças adormecidas do homem que a ausência despertou, o ani- mismo é uma delas, e com ela a relação consigo-mesmo. Portanto, apesar de neste caso a relação consigo-mesmo se constituir em mais uma das manifestações do funcionamento virtual ausente, a força de contacto despertada por ele, neste caso o contacto animista, ultrapassa os limites da própria ausência e do funcionamento virtual. E isto só pode ser terminado ou anulado se o funcionamento virtual conseguisse fechar ou estruturar a sua organização funcional; porém isto acabaria com o próprio funcionamento virtual e com a própria ausência. No funcionamento virtual a possibilidade ou a necessidade de encontrar-se consigo-mesmo é nativa, isto é, faz parte do seu próprio funcionamento.

Agora, seja em qualquer domínio, a relação ou o relacionar-se necessita de duas ou mais pessoas ou dois ou mais aspectos de uma mesma pessoa.

O que significa que o sentido de busca de si-mesmo ou de encontrar-se

consigo-mesmo pressupõe uma divisão do ser em pelo menos dois aspec-

tos.

Também pressupõe que a pessoa tenha se perdido de si-mesma. E mais, pressupõe também que a pessoa pode encontrar-se ou reencontrar-se.

O que significa dizer que no funcionamento virtual ou temos uma divisão

no mais profundo de sua organização ou o funcionamento virtual combina experiências onde sua condição básica não foi previamente vivida, que atua com experiências que não foram previamente vividas, o que foram virtual-

mente vividas.

E, se tratando do funcionamento virtual, as duas alternativas são possíveis.

Quando se trata do funcionamento virtual, devemos nos recordar que parte

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de seu funcionamento e de seus motivos não funcionam de acordo com a forma linear de pensar. E como isto não se reduz ao plano das ideias; existem algumas impressões, sensações e sentimentos que ultrapassam o universo da linguagem organi- zada envolvidas no assunto; o que significa dizer que existem algumas for- mas de comunicação da pessoa com ela-mesma que também operam além da linguagem organizada. Porém, passa muitas outras coisas por este mesmo fluxo de forma que a relação consigo-mesmo vai se complicando. Como por exemplo, transladar o centro dos conflitos da relação com o mundo para a relação consigo- mesmo de tal forma que o mundo vira amigo e o si-mesmo inimigo; ou en- tão transformar-se num eterno caçador de si mesmo; tudo isto é um indica- dor da posição delicada e amplificada que a configuração virtual colocou a relação das pessoas com elas-mesmas; transformando sua força reparadora (sua capacidade de reestabelecer o contacto consigo-mesmo) numa fonte de conflitos internos. Toda a desorganização do funcionamento virtual anda junto e de mãos da- das com o aumento exponencial da pressão e da exigência por sobre si- mesmo, com o passar por sobre os próprios limites; e reflete diretamente na desconformidade da pessoa consigo-mesma. Por isto e por muito mais, a relação da pessoa consigo-mesma transformou- se no centro dos cuidados do processo terapêutico. Isto é, todo o desenvol- vimento do processo terapêutico; neste caso, a reorganização do funciona- mento virtual e da ausência deveria estar a favor ou atuar conjuntamente com o restabelecimento da relação da pessoa consigo-mesma. Dito em outras palavras, os problemas que a pessoa tem em relação ao mundo são secundários ou de longe menos importantes do que os conflitos que a pessoa tem consigo-mesma. Sendo que isto é válido tanto na desor- dem promovida pelo ausentar-se de forma desconectada, como o voltar para si-mesmo de forma descuidada ou desconsiderada consigo-mesmo. Como também é válido para a relação que a pessoa estabelece com o mun- do, pois no caso do funcionamento virtual, a relação com o mundo costuma (na maioria dos casos) ter em sua base ou está pautada pela mesma pressão e a mesma exigência que a pessoa exerce sobre si-mesma. Ou seja, a pessoa sai se relacionando com o mundo não para se encontrar com o mundo ou com as pessoas do mundo, mas sim para encontrar a si- mesma em sua relação com o mundo, tal qual um eterno caçador de si- mesmo.

Para desenvolver uma metodologia centrada na ausência e na relação con- sigo-mesmo (Arte Org Terapia) foi necessário reformular o atendimento corporal de maneira completa, retirando dele todos os elementos direta- mente indutores de processos (como soltar as couraças musculares com o trabalho muscular direto); e mais, foi necessário substituir todos os possíveis elementos indutores por exercícios-procedimentos feitos pela própria pes- soa com o mesmo nível de efetividade. O compromisso ético de um terapeuta arteorguiano não é com nenhuma idealização que seu cliente faça ou possa fazer de si-mesmo, como por e-

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xemplo, a forma que deveria ser ou atuar diante de qualquer situação ex- terna; como não é com nenhuma mudança que possa ocorrer no entorno da pessoa ou em seu simples viver; toda e qualquer modificação externa ou in- terna deve ser consequência do trabalha realizado da pessoa com ela- mesma; portanto o compromisso ético de um terapeuta arteorguiano é com a pessoa e com a relação que a pessoa estabelece com ela-mesma. Na Arte Org; o terapeuta não deve induzir os processos diretamente. Por exemplo, os terapeutas org; intermediadores ou monitores; quando no do- mínio da Arte Org; não devem fazer massagem de qualquer nível, nem mas- sagens de corpo e nem massagens de campo. Todos os processos devem fluir através dos exercícios-procedimentos que a pessoa faz com ela mesma; inclusive os processos de campo perceptivo. Isto não significa que os terapeutas arteorguianos não devem propor, em muitos casos, que a pessoa busque outros recursos, com outros profissio- nais; como, por exemplo, quando as fixações se deslocam para o próprio espaço corporal e se agarram em sintomas; pelo contrário, pois é costume (e recomendável) fazer isto com bastante frequência. Porém, este não é o território da Arte Org, nem seu objetivo, nem seu método. Simplesmente, tanto o trabalho com a ausência; como o trabalho com a re- lação consigo-mesmo exigem este nível de autonomia; exigem que seja a própria pessoa quem esteja a cargo. Vários são os elementos que operam na profundidade do funcionamento virtual. Alguns destes elementos inclusive conseguem atravessar a barreira da desconexão e aparecem na consciência como insights. Outros são muito difíceis que os virtuais consigam pensar sobre eles de alguma forma. Entre estes que são difíceis de serem digeridos temos tudo o que se rela- ciona com a defesa ao prazer; é realmente difícil para a maioria das mentes virtuais compreenderem que a defesa ao prazer seja algo racional, razoável e que tenha um sentido. Da mesma maneira que os elementos relacionados com os limites, de qual- quer natureza, são de difícil compreensão; portanto aceitar que possa existir um sábio dentro de cada um que vai pautando até onde cada um pode chegar é chinês puro. Aceitar o medo então como um sentimento dos mais capazes quando se trata de dizer “- pare, não ultrapasse este limite”, nem pensar. Os virtuais preferem usar a depressão como seu próprio freio sem ter ideia de que estão se freando a si-mesmo quando se deprimem. Também é difícil de uma mente virtual conceber que existe uma forma de se relacionar consigo-mesmo que não é nem ditatorial e nem competitiva. Ele prefere funcionar com metas é propósitos como se estivesse vencendo a si- mesmo em cada etapa; como se assim ele estivesse seguro e autoconfiante que pode dominar a si-mesmo. Entre os elementos de mais fácil acesso a consciência de um virtual estão àqueles relacionados com mudar o próprio ser. Qualquer projeto de m u- dança é muito bem vindo, principalmente quando o indivíduo está em crise ou desconforme consigo-mesmo; o que na maioria das vezes é a maioria do tempo. A pessoa pode ser um completo inconsciente no que se refere a si-mesmo, mas uma coisa ela sabe; que é o responsável de seu próprio desastre e de sua própria infelicidade. Mesmo sem saber que isto se refere com a forma

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irresponsável com que ele vivência sua ausência desconectada, e com a forma mais irresponsável ainda com que ele volta para si-mesmo, mesmo quando a pessoa só consegue enxergar seu desastre nas relações com o mundo; ela sabe que no fundo ela é a única culpada. Sendo que muitas vezes esta consciência e tão desgarradora que a pessoa prefere projetar massivamente sua culpa de si-mesmo no seu entorno, prin- cipalmente nas outras pessoas de seu entorno de tal forma que ela não possa nem sequer pensar em sua própria responsabilidade. O que significa que o único espaço que a pessoa consegue estar consigo-mesma de forma natural ou virtual é quando está culpada ou afundada.

Quanto mais desorganizada está a pessoa; mais sua autoestima está danifi- cada; mais a pessoa está aberta para pedir socorro para qualquer pessoa, de qualquer jeito, com qualquer técnica, desde que isto interfira em seu âmbito interno; quanto mais a pessoa sente sua própria necessidade de contacto, e de contacto consigo-mesma; menos a pessoa acredita que pode fazer qual- quer coisa de si-mesma para si-mesma, que possa se ajudar; mais ela está internamente trancada para aceitar de verdade qualquer ajuda externa. É isto o que entendemos como sendo um indivíduo paralisado. Quando alguém busca ajuda em um momento de crise, desorganizado e com sua vida desorganizada, precisando juntar seus próprios pedaços, mesmo que sem uma formação clara de sintomas, a pessoa, muitas vezes, não tem possibilidades de examinar o que lhe está sendo proposto como método de trabalho. A sua desorganização, seus mal-estares e seus sinto- mas estão fixados como foco em sua consciência; enquanto que a pessoa está direcionada a fazer qualquer coisa para acabar com estes mal-estares e sintomas. É isso que ocupa o espaço das preocupações e das ponderações das pessoas. Outras vezes e ao mesmo tempo; a pessoa pode estar direcio- nada a tocar fundo, como se o fato de tocar mais fundo a salvasse de passar por isso novamente ou a ensinasse, a ferro e fogo, a como viver.

A política da Arte Org é não entrar nos níveis de profundidade de uma pes-

soa se ela não estiver organizada; sendo que a organização envolve a capa- cidade de se distanciar e de voltar para si-mesmo em cada um dos níveis ou

etapas do processo terapêutico. Para a Arte Org a capacidade de se reorganizar e de se retomar é prioritária

e funciona de forma diferente em cada nível do desenvolvimento do pró- prio trabalho terapêutico.

Geralmente, quando uma pessoa se encontra em crise ou desorganizada, e vem em busca de ajuda terapêutica, ela não tem a menor possibilidade de assumir ou rever os compromissos que tem consigo-mesma, simplesmente está desesperada para sair da situação em que se encontra. Até para poder assumir novos compromissos consigo-mesma a pessoa precisa, em primeiro lugar, se reorganizar.

O método de trabalho da Arte Org propõe que a pessoa deveria sair da cri-

se em que se encontra antes de poder tomar uma decisão, antes de con-

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cordar ou discordar inclusive dos procedimentos que lhe estão sendo pro- postos como porta de saída; inclusive sobre o desenvolvimento de sua pró- pria terapia. Não é nosso propósito trabalhar com a dinâmica profunda com a pessoa metida de corpo e alma, em seu cotidiano, ou nas profundezas de seu fun- cionamento. Por exemplo, se uma pessoa está deprimida, ela primeiro precisa sair de sua depressão para poder conhecer o fundo de sua depressão. Trabalhar a di- nâmica da depressão com alguém deprimido não faz parte das propostas da Arte Org. Não é se lançando no poço e vamos ver o que ocorre. Além do mais, escarafunchar as profundidades só ensina sobre a dinâmica da profundidade e esta é simplesmente um aspecto da vida viva. E sair da depressão envolve o deslocar-se para outro polo; onde tudo aquilo que foi aprendido quando a pessoa estava deprimida não serve para atuar e fun- cionar no outro polo saindo da depressão. Mesmo quando se trata de examinar o próprio funcionamento depressivo; de averiguar o que passa no fundo do poço; para entrar nas profundidades a pessoa precisa estar disposta e capacitada para se acompanhar: e alguém descapacitado, desorganizado, cheio de mal estares e sintomas não está disponível para acompanhar-se, no máximo para cuidar-se e olhe lá; sendo que na verdade a maior parte de sua energia esta direcionada para sair da situação em que se encontra. Da mesma forma, na Arte Org não se deve propor soltar e nem soltar ne- nhum bloco emocional sem que a pessoa esteja ao mesmo tempo se capa- citando ou capacitada para lidar com ele.

O conceito que usamos para toda esta fase da terapia direcionada a juntar

os pedaços, a se organizar, a cuidar de si-mesmo é o de intermediação. Isto

é, a relação da pessoa consigo-mesma não pode ser enfrentada diretamen-

te enquanto a pessoa estiver necessitando de cuidados intensivos. Como também não se pode deixar a necessidade de contacto da pessoa com ela- mesma nas mesmas condições que se encontra, pois isto somente significa aumentar a necessidade e a fome de si-mesmo o que só pode resultar no aumento da fobia de si-mesmo. Quanto mais fobia a pessoa tem de si- mesma menos ela é capaz de se autorreparar, mais ela necessita de forma dependente dos “outros” e mais baixa é sua autoestima. Intermediar neste caso significa encontrar procedimentos indiretos relacio- nados com percepções, impressões, sensações ou mesmo emoções que a- tuem como a conexão consigo-mesmo e que consigam diminuir a pressão e a necessidade de si-mesmo (como exemplo o “todo perceptivo”, o som do silêncio e o sentimento de tristeza). Sendo que estas recomendações e cuidados postulados até agora se en- contram nas portas da relação consigo-mesmo e tratam justamente de con- seguir manter a relação consigo-mesmo como o centro processo terapêuti- co; e corresponde a uma etapa de cuidar-se ou reparar-se e, dependendo do estado que a pessoa se encontra pode ser bem longa.

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O restante, que costumamos chamar de desenvolvimento da relação consi-

go-mesmo, entra num território desconhecido para a maioria das pessoas que buscam terapia; e se trata justamente de ir amistando-se consigo- mesmo conforme a vida segue seu curso. Afinal a relação consigo-mesmo, como qualquer outra relação, necessita se desenvolver. Isto é, precisa sair do âmbito dos cuidados intensivos, do cuidar-se, para entrar no âmbito do amistar-se, do acompanhar-se, do se levar em consideração, do investir em si-mesmo. E isso é completamente antagônico a camadas e camadas de pressões e exigências que costumam habitar o funcionamento virtual; e, geralmente envolve crescimento e comprometimento consigo-mesmo; o que significa que não é um passo simples e fácil de ser dado; pelo contrário,

baseando-se no processo terapêutico dos virtuais, é um passo bastante difí-

cil de ser dado; parece inclusive que as pessoas preferem ficar agarradas na

fase dos cuidados intensivos. Quando o tema se trata de saldar antigas dívidas consigo-mesmo ou de investir em si-mesmo, a pessoa precisa de mais reorganização ainda, como precisa de mais vitalidade, de mais energia disponível. Para que uma pessoa consiga ter dívidas acumuladas consigo-mesma; ou para que esteja com o investimento em si-mesmo bloqueado; somente significa que os acordos internos anteriores já foram feitos baixo a pressão da desorganização e da desconexão; o que significa que aqui temos negociações internas e externas acumuladas sem tomar a si-mesmo em consideração (ou com o não com- primento das promessas feitas a si-mesmo no decorrer dos dias, dos meses e dos anos); e que apesar disto, o si-mesmo (como boa gente que é) acaba cedendo e cumprindo o seu papel. Somente que até si-mesmo uma hora perde a paciência; e quando isto ocor- re às coisas podem se complicar e bastante. Também significa que muito provavelmente quando as coisas se acalmem, si-mesmo vai ser deixado novamente de lado, e isto, do ponto de vista da re- lação consigo-mesmo, é um muito mau negócio; por isto mesmo as novas negociações e compromissos consigo-mesmo pedem certa organização an- terior. Além disto; o próprio desenvolvimento do processo terapêutico costuma ir

desenterrando situações mais complexas conforme a terapia caminha; não é necessário complicar mais a questão do que ela já é; pelo contrário; é ne- cessário ir descomplicando.

Do ponto de vista da terapêutica dos virtuais, o desenvolvimento da relação consigo-mesmo se constitui num dos temas mais difíceis de todo o proces-

so terapêutico, pois reflete justamente a essência do proceder terapêutico; a

saber: a capacidade de um virtual lidar com seu próprio funcionamento vir- tual; e a isto chamamos autonomia.

A reorganização da corporalidade e da percepção de campo e a arte de se acompanhar.

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Sobre o corpo de procedimentos da Arte Org.

De acordo com o desenvolvimento do processo terapêutico proposto pela Arte Org terapia (caminhos terapêuticos paralelos) para lidar com o funcio- namento virtual e com a ausência; a metodologia da Arte Org (com seu corpo de procedimentos) encontra-se atualmente dividida em dois grandes grupos de exercícios-procedimentos; sendo o primeiro grupo orientado pa- ra lidar com a ausência de si-mesmo e com o voltar para si-mesmo. O outro grupo de exercícios-procedimentos está orientado para lidar com as ten- dências virtuais que se manifestam como pressões cotidianas (pressões do “aqui”); para lidar com a relação consigo-mesmo; e para lidar principalmen- te com a construção de um caminho paralelo ou de um território intermedi- ário direcionado exclusivamente para as questões de si-mesmo, do estar consigo-mesmo; sendo que este caminho paralelo “deve” se constitui como um espaço separado entre o estar na vida cotidiana ou no território da vida

cotidiana onde costuma se manifestar as pressões do “aqui” e o território da ausência ou do distanciamento ausente; sendo o território ausente, justa- mente onde nós “devemos” lidar terapeuticamente com a arte de se distan- ciar e de voltar para si mesmo. Veja que para a Arte Org terapia a reorganização do funcionamento virtual pede que o território ausente e o território intermediário de si-mesmo se- jam constituídos como mundos separados e a parte; tanto separados entre

si como separados da vida cotidiana, da mesma maneira que a metodologia

usada para lidar com o ausentar-se e para voltar para si-mesmo (Arte Org da ausência) deve ser diferente da metodologia usada para lidar com a rela- ção consigo-mesmo no território intermediário de si-mesmo (Arte Org pa- ralela). Agora, isto não significa que estes caminhos não devem se cruzar ou que a pessoa não deve usar elementos de um caminho no outro, pois estamos falando de uma mesma pessoa e de diferentes aspectos de um mesmo fun- cionamento virtual, que costuma operar com um bloco compactado e redu- zido de experiências e tendências opostas e contraditórias. Portanto, a questão de nossa metodologia de trabalho está direcionada jus-

tamente para ir separando e diferenciando este bloco de funcionamento em

práticas ou atividades diferenciadas; e isto inclui os contatos, as frequências, as corporificações, e os lugares envolvidos na composição e no contexto da própria experiência.

A composição da Arte Org da ausência e a Arte Org paralela apresenta ele-

mentos e diretrizes comuns válidas para os dois territórios como, por exem- plo, sua pauta constante de organização ou reorganização da corporalidade

e das percepções de campo; pois a sua reorganização é uma pré-condição

tanto para o distanciamento ausente como para conseguir estar consigo-

mesmo; porém mesmo a corporalidade e as percepções de campo diluídas

e difusas, quando navegando pela ausência ou quando passeando consigo

mesmo pelos lugares de si-mesmo no “aqui”, funcionam ou deveriam fun- cionar ou atuar de forma completamente diferente. Agora, o que precisa ficar claro, ou ser esclarecido uma e outra vez, é que o campo de atuação e interferência da Arte Org terapia “deve” ser e estar res-

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trito aos seus territórios; ou seja, ao território ausente e ao território de si- mesmo no “aqui”. Isto é, a partir da Arte Org nós não podemos interferir diretamente nem na vida cotidiana da pessoa e nem no ser ou na identida- de cotidiana (eu-cotidiano) da pessoa e nem na maneira da pessoa lidar com seu próprio cotidiano. Os virtuais já costumam estar terrivelmente pressionados para ser ou agir desta ou daquela maneira, e isto envolve das mais simples até as mais complicadas formas de manipulação de si-mesmo. Portanto, seu processo terapêutico, não pode estar direcionado e manipu- lado da mesma maneira.

A Arte Org é uma terapia corporal de tendência reichiana e orien- tação arteorguiana

Do ponto de vista metodológico também devemos esclarecer uma ou outra vez que de acordo com sua orientação disciplinar a Arte Org não é uma te- rapia linguística (que compreende o homem a partir da organização de sua linguagem); não é uma terapia psicológica (que compreende o homem a partir de sua organização psicológica ou psicodinâmica); não é uma terapia psicanalítica (que compreende o homem a partir da organização de seu psiquismo); não é uma terapia psiquiátrica materialista mecanicista (que compreende o homem a partir da organização de sua mente neurológica); como também não é uma terapia mística (que compreende o homem a par-

tir da interferência de forças externas sejam estas forças de natureza metafí-

sicas, astrológicas ou espirituais); mas sim é uma terapia corporal de ten- dência reichiana e orientação arteorguiana.

Quando dizemos que a Arte Org é uma terapia corporal de tendência rei- chiana estamos querendo dizer que ela está embasada na orgonomia em geral e na orgonoterapia em particular. O foco da orgonoterapia é recapaci- tar o homem a lidar com o fluxo de energia orgone em seu próprio corpo, incluindo em seu campo real. Que se manifesta sensorialmente, percepti- vamente, emocionalmente, corporalmente, em todas as suas dimensões in- clusive a vegetativa.

O caminho descoberto e desenvolvido por Reich para capacitar o homem a

lidar com seu próprio fluxo energético é flexibilizar a couraça, passo a passo,

defesa por defesa, até que homem, individualmente, aqui e agora, possa lidar e se entregar a seu próprio fluxo. As questões envolvidas com recapacitar o homem a permitir e se entregar a seu próprio fluxo de energia orgone ultrapassam de longe a consciência e o desenvolvimento da linguagem com todos os seus paradigmas sociais, his- tóricos, psíquicos, psicodinâmicos, neurológicos ou místicos. Sendo que Reich, no desenvolvimento de suas metodologias já teve que ir estabelecendo as devidas diferenças com todas estas correntes envolvidas com a compreensão da existência e do funcionamento humano, incluindo o desenvolvimento da própria vida. E isto sem escapar para fora ou além do funcionamento humano inserido na natureza. Ele não dizia que estas dife- rentes abordagens eram carentes de razões em seus próprios âmbitos. Mas

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sim afirmava que estas diferentes abordagens não serviam para compreen- der e lidar com recuperar e compreender a capacidade humana ou da pró- pria vida se entregar ao seu próprio fluxo de energia. O próprio termo terapia corporal reichiana já marca a diferença, pois propõe um marco de referência corporal na base da compreensão e dos procedi- mentos que envolvem os processos terapêuticos, caso contrário, o que te- mos é a psicologização, a mistificação ou a mecanização do corpo. Deste ponto de vista nem sequer conseguimos entender um conceito am- plamente e profissionalmente utilizado, a saber: Psicoterapia Reichiana. Pois ele literalmente significa que o modelo Reichiano pode ser aplicado como sendo uma psicoterapia. Do ponto de vista Reichiano, compreender o funcionamento do homem de forma unitária e integrada é tão complexo quanto compreender o funcio- namento do homem de forma fragmentada. Simplesmente somos seres unitários que há muito tempo não funcionamos de forma unitária. O que significa que até para considerar o funcionamento humano de forma global e unitária necessitamos de ferramentas que nos guie ou nos oriente. No universo Reichiano esta ferramenta se chama fun- cionalismo orgonômico ou pensamento funcional, e este trata justamente de compreender o funcionamento humano em particular e o desenvolvi- mento da vida em geral a partir de seu desenvolvimento funcional. Um bom exemplo é o próprio desenvolvimento do ramo corporal e do ramo percep- tivo, que vão apresentando diferentes níveis de contradição e antagonismo dependendo do momento do desenvolvimento da pessoa, ou dependendo do tipo de funcionamento da pessoa em questão. De acordo com o pensamento funcional, na base destes dois ramos (corpo- ral e perceptivo) nós temos como princípio funcional comum o funciona- mento de uma energia vital (orgone) que no desenvolvimento da vida vai se diferenciando em dois pares de funções. Nos humanos, este desenvolvi- mento se manifesta mais claramente, por um lado temos a organização do corpo ou corporal e por outro lado temos a organização percepção ou per- ceptiva. Este desenvolvimento tanto se manifesta de forma unitária, no prin- cípio de seu desenvolvimento, ou mesmo na profundidade do funciona- mento organísmico, como se manifesta com diferentes graus de contraposi- ção ou antagonismo nas etapas finais do desenvolvimento. Além disto, as investigações funcionais permitem seguir por duas direções, uma em direção aos princípios funcionais, mais abrangentes e globais, me- nos específicos. E outra mais específica e desenvolvida, mais diferenciada, com mais antagonismo entre si. No início uma mesma função global e uni- tária que se diferencia em dois ramos que segue se desenvolvendo de for- ma paralela, que vai se desenvolvendo e se especificando e se contrapondo e com isto montando um tipo de síntese funcional. Sendo o exemplo desta intrincada síntese o fechamento das estruturas de caráter.

Repetindo, quando dizemos que a Arte Org é uma terapia corporal de tendência reichiana e orientação arteorguiana, nós estamos querendo dizer que na base de nosso corpo de conhecimentos, nós mantemos os

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principais princípios reichianos, inclusive e principalmente os referentes à fase final da orgonomia. Porém, quando dizemos que a orientação é arteor- guiana estamos querendo dizer que o advento do funcionamento virtual e da ausência, já promoveram uma reformulação tão grande no funciona- mento do próprio homem que inclusive alguns princípios reichianos preci- sam ser reformulados ou recompreendidos. Em termos do desenvolvimento funcional, por exemplo, a estrutura de fun- cionamento do homem moderno não se fecha ou não se completa como nas antigas estruturas de caráter. Ela permanece aberta e paralela. Ou então se funde e se fixa montando uma camada sobreposta. Com isto, tivemos que recuar também no funcionalismo orgonômico para um tipo de pensa- mento funcional paralelo, que apesar de ser um tipo de pensamento fun- cional incompleto é o que mais ajuda a navegar ou compreender o funcio- namento virtual. De acordo com a Arte Org, a antítese funcional presente no funcionamento virtual se deslocou do corpo para a corporalidade e da percepção objetiva para a percepção de campo. Sendo que o conceito de corporalidade marca a capacidade de se descor- porificar e de voltar a se corporificar presente no funcionamento virtual. Sendo que o conceito de percepção de campo marca a característica difusa do funcionamento perceptivo (que se distancia dos órgãos dos sentidos e se aproxima das funções perceptivas) ou organizações das percepções dilu- ídas e difusas que abarca a percepção de campo, o campo perceptivo, a percepção difusa, e a percepção de campo sobreposta. Sendo que todas estas funcionalidades perceptivas estão fora da organiza- ção objetiva da percepção e da consciência. Elas não estão presentes todo o tempo; principalmente nos virtuais fixados ou forçadamente estruturados; e se manifestam mais claramente no funcionamento ausente; isto é, quando a ausência ainda pode funcionar de forma efetiva. Veja bem, isto não significa que no funcionamento virtual a identidade fun- cional entre corpo e percepção deixou de existir; mas sim que para poder alcançar a organização corporal e perceptiva das pessoas que funcionam virtualmente é necessário entrar por um lado pela corporalidade, e não pelo corpo diretamente (pois a pessoa quando está mais virtual ou ausente se encontra de corpo ausente); e por outro lado pelas percepções de campo e não pelas percepções objetivas diretamente. Pois a pessoa quando está mais virtual ou ausente se encontra com sua percepção de campo ativada e sua percepção objetiva desativada e quando está mais presente vice-versa. Agora quando está perdida no meio do caminho, sua organização corporal e perceptiva está desorganizada. Repetindo. De acordo com a metodologia da Arte Org do ponto de vista funcional a identidade funcional antitética que caracteriza o funcionamento virtual é uma organização funcional (do corpo e da percepção) do tipo a- berta. O que significa dizer que o funcionamento virtual não apresenta uma estrutura de funcionamento do tipo fechada como era o caso das antigas estruturas de caráter.

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Reorganização da corporalidade e das percepções de campo.

Veja que do ponto de vista terapêutico usamos o conceito de reorganização

para se referir ao retomar, ou resgatar ou reparar a capacidade do indivíduo lidar com seus próprios processos. Aqui não está em discussão se estes processos são naturais, nativos, secun- dários, reais, despertados ou inventados pelo próprio funcionamento virtu- al; pois do ponto de vista do funcionamento virtual isto não faz a menor diferença; uma vez que qualquer um destes processos tanto pode ajudar na desorganização ou na reorganização do mesmo funcionamento virtual.

É lógico que cada um individualmente, durante o desenvolvimento de seu

processo terapêutico, vai manifestar ou precipitar diferentes crises, confor- me for lidando com os diferentes aspectos de seu funcionamento. Sendo que o próprio termo virtual já significa que não se trata exatamente daquilo que correspondente com a realidade; como por exemplo, quando a pessoa descobre que o “outro” que ela pensa que “ama” não é exatamente tal qual

ela percebe e sente, mas sim um “outro” criado virtualmente por ela mesma que pode ter mais a ver com ela mesma do com o próprio outro; e nem que os sentimentos que ela pensa que sente, ou que deve ou deveria sentir, in- clusive o amor; correspondem com o que ela realmente sente ou sentia; que na verdade ela não sabe definir claramente o que ela sente ou sentia, se é que sente ou sentia; e lógico que tudo isto afeta as próprias crenças mais profundas do indivíduo. Neste caso, não é da alçada da terapia resolver, qualificar ou configurar o que a pessoa sente ou sentia, mas sim é da alçada da terapia ajudar a pessoa a recuperar sua capacidade de sentir. Principal- mente de perceber sentindo. Veja bem, da mesma maneira que, no que se refere à identidade, não é da alçada da terapia decidir qual das identidades que o indivíduo apresenta que é a verdadeira, menos ainda qual delas deve permanecer e qual delas deve desaparecer; pois isto apesar de aparentemente tranquilizador somen- te amplifica as dificuldades relacionadas com a organização da identidade dos virtuais e aprofunda a crise da relação consigo-mesmo; pois, se do de- senvolvimento da relação consigo-mesmo se trata, não se trata de vencedo- res e nem vencidos, mas sim de amistar-se consigo-mesmo. Também não é da alçada da terapia decidir o que é real ou o que é verdade para cada um ou não, como também não é da alçada da terapia decidir qual deve ser a crença e nem a descrença de cada um. Mas sim é da responsabilidade do processo terapêutico ajudar o indivíduo a reorganizar por si-mesmo seu próprio funcionamento, isto é, sua corporali- dade e sua percepção (de campo). O que cada um percebe ou sente ou mesmo pensa e fala ou ainda a forma que cada um age ou reage na vida é da responsabilidade única e exclusivamente de cada um e não do processo terapêutico. Assim, também usamos o conceito de reorganização como sendo o retomar

o movimento ou o fluir dos processos ou funcionamentos, que é o exato

oposto das pressões e fixações. De acordo com a metodologia da Arte Org, o trabalho prático com a reor- ganização do funcionamento virtual “deve” estar centrado na reorganização

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da corporalidade e das percepções de campo. Ou seja, a reorganização do corpo e da percepção “deve” surgir como uma consequência de um traba- lho bem feito com a reorganização da corporalidade e do campo percepti- vo. No funcionamento virtual o perceber e o sentir também dependem da organização ou desorganização da corporalidade e das percepções de campo; portanto, a organização do perceber e o do sentir também “devem” ser uma consequência ou decorrência da organização da corporalidade e das percepções de campo. O mesmo ocorre com a reorganização da per- cepção objetiva; ou seja, esta também “deve” ser uma decorrência da reor- ganização da corporalidade e das percepções de campo; sendo que o con- ceito de reorganizar aqui é o de recolocar em movimento e de retomar o fluir da corporalidade e das percepções de campo.

Esclarecendo: o conceito de percepção objetiva se refere à capacidade de perceber a partir dos sentidos perceptivos, portanto da percepção ou fun- cionalidade perceptiva que está enraizada nos órgãos dos sentidos, isto é, que opera como um sentido perceptivo (visão, audição, olfato, gosto e ta- to). A percepção de campo, principalmente a percepção difusa se refere à per- cepção que se distancia dos órgãos perceptivos em si mesmos (olhos, ouvi- dos, nariz, boca e pele) e se aproxima da função de perceber de forma mais diluída ou difusa (o todo visual, o todo auditivo, impressões sensoriais do olfato, do gosto e do tato). Tanto a percepção objetiva como as percepções de campo fazem parte do mesmo domínio perceptivo, mas não se encontram no mesmo nível, e mais, quando pareadas elas são antagônicas. Isto é, quando ativamos as percep- ções objetivas desativamos as percepções de campo e vice-versa. Do ponto de vista funcional, isto só e possível de ser entendido quando compreendemos o princípio mais básico do funcionalismo; a saber: é a fun- ção quem faz o órgão. Por exemplo, de acordo como desenvolvimento fun- cional, a função de ver ou funcionalidade perceptiva do ver se desenvolveu antes que aparecesse qualquer sistema relacionado com os órgãos da visão; pois foi justamente a função de ver quem criou e desenvolveu os órgãos da visão. Porém, com o desenvolvimento dos órgãos da visão estes se trans- formaram na casa da funcionalidade perceptiva do ver e juntos continuaram se desenvolvendo até chegar ao que conhecemos hoje como sendo nossos olhos, onde a visão e nossos olhos se transformaram numa unidade. Ocorre que mesmo depois de tanto desenvolvimento e especificações a funcionalidade perceptiva (visual) ainda pode se distanciar de suas casas (os olhos), como também pode voltar a habitar suas casas (os olhos); da mesma maneira que a pessoa para se ausentar se distancia de seu corpo e logo vol- tar para o seu corpo. Em outras palavras a funcionalidade perceptiva de cada sentido perceptivo pode se distanciar ou se aproximar de seus órgãos perceptivos correspon- dentes. Quanto mais distante (para dentro ou para fora do corpo) estiver à funcionalidade perceptiva de seu órgão correspondente mais difusa e diluí- da ela é.

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Do ponto de vista prático esta é uma experiência accessível para qualquer virtual. Eles sabem diferenciar muito bem quando estão olhando o mundo desde outro ponto dentro de si e através dos seus olhos; como se estives- sem olhando o mundo através de uma janela (o mundo fica distante como se existisse um vazio ou uma parede de alguma coisa separando a pessoa do mundo e o sentimento é de um observador distanciando ou separado do mundo e das coisas). Como sabem distinguir muito bem a tremenda di- ferença que existe quando por qualquer motivo (exercícios-procedimentos) conseguem voltar observar o mundo a partir de seus próprios olhos. De acordo com a Arte Org, no funcionamento virtual a desorganização das percepções objetivas costuma se enraizar nas fixações do sistema percepti-

vo objetivo (percepção objetiva fixada ou focada); e estas por sua vez estão enraizadas nas fixações das percepções de campo; principalmente do mun- do da ausência. Tanto faz se a pessoa depois de se ausentar fica a meio caminho do voltar para si mesma e, portanto, sem conseguir recuperar sua percepção objetiva; ou se a pessoa passa do ponto e fica fixada ou focada nos detalhes percep- tivos se perdendo da percepção como um “todo”; ou se por um motivo ou outro a pessoa retira uma de suas funcionalidades perceptivas para dentro de si ou se desconecta de seus órgãos perceptivos e fica observando o mundo de forma distanciada.

O resultado é o mesmo, a pessoa se perde de sua percepção de campo ou

sua percepção de campo acaba se fixando num aspecto ou outro de sua percepção objetiva. Seja porque a pessoa não está conseguindo voltar com suas funcionalidades perceptivas para seus correspondentes órgãos dos sentidos, seja porque a percepção objetiva está sofrendo de uma inundação de elementos diluídos e difusos da percepção de campo com suas corres- pondestes fixações e sobreposições. De acordo com a metodologia da Arte Org, a organização da percepção objetiva deve ser indireta; isto é; não se trabalha diretamente estimulando as percepções objetivas; pois isto seria seguir a mesma direção imposta pe- las fixações. Sendo que quanto mais fixada esteja à percepção objetiva me-

nos a pessoa tem acesso a sua percepção de campo.

A não ser quando a pessoa se encontra fixada no mundo da lua; na maioria

das vezes em que ela está usando sua percepção de campo, qualquer mo- vimento brusco, qualquer direcionamento perceptivo focado em qualquer um dos sentidos perceptivos, pode quebrar o barato ou o encanto da per-

cepção de campo. Agora, para se deslocar da percepção objetiva focada ou fixada para a per- cepção de campo é necessário de bastante paciência e distração e algum tempo prestando atenção como um “todo” no “todo”; mesmo que isto ope-

re de forma automática, sem que a pessoa tenha a menor ideia da quanti-

dade de movimentos perceptivos sutis que ela está coordenando. No caso do funcionamento virtual, o direcionamento direto para as percep- ções objetivas, seja por pressão da pessoa ou das terapias; acaba por colo- car a pessoa frente a frente o contacto e com sua corresponde angústia. Por exemplo, no caso da função de ver e dos olhos, trabalhando diretamente

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com a função objetiva de ver a partir dos olhos só vamos conseguir desper- tar, mais cedo do que tarde, a angústia de ver. E como a pessoa, enquanto estiver se organizando, não está nem capacitada nem preparada para lidar com sua angustia de ver (que por sinal, nos virtuais não é pouco e nem coi- sa pouca); o máximo que podemos conseguir é que a pessoa se ausente de forma desconectada para qualquer lugar, que tanto pode ser o “nenhum lugar” da ausência como pode ser algum lugar do passado mais remoto, ou do futuro mais seco (dependendo da sobre-excitação de campo); ou que esconda sua funcionalidade de ver em algum lugar dentro de si-mesma; mas que definitivamente não será o simplesmente ver a partir dos próprios olhos aqui e agora.

O trabalho global (como um “todo) com a corporalidade e com as percep- ções de campo se mostrou como sendo a forma mais efetiva de reorganizar a percepção objetiva. Quando colocamos a corporalidade e as percepções de campo em movimento despressionando as percepções objetivas, estas voltam a se organizar por si mesmas. Em termos práticos e de acordo com a metodologia da Arte Org; toda a parte inicial de sua proposta terapêutica está orientada a organização da corporalidade e das percepções de campo de maneira global, e isto signifi- ca que a pessoa precisa ir saindo de sua forma desorganizada de funcionar com suas pressões, fixações, seus mal-estares e sintomas para ir retomando a forma mais global do funcionamento virtual. Caso a pessoa não esteja muito agarrada em seu funcionamento, ou já não esteja comprometida or- ganicamente, essa forma de trabalhar tem se mostrado - bastante efetiva - em sua proposta. Quanto à efetividade dos casos mais crônicos depende em primeiro lugar da pessoa conseguir se mover com os exercícios-procedimentos sendo que esses casos pedem uma quantidade maior de “tarefas de casa” e mais tem- po de terapia para conseguir colocar os processos em movimento. Agora, a retomada da forma mais global do funcionamento virtual não re- solve (por si só) algumas das questões fundamentais que estão operando na profundidade do funcionamento virtual e da ausência, porém coloca o indivíduo em condições de começar a lidar com essas questões. De acordo com a Arte Org o cerne do problema dos virtuais desorganiza- dos ou da pseudo-organização forçada (estruturas virtuais) dos virtuais é a desorganização da ausência; e, para recapacitar a capacidade da pessoa se distanciar ou se ausentar se acompanhando e sem tantas desconexões é necessário recapacitar e sincronizar uma boa parte da organização das per- cepções difusas (percepções de campo, campo perceptivo e percepção di- fusa); pelo menos a parte que se refere à atividade da ausência simples. Portanto, a recapacitação da ausência de si-mesmo e do voltar para si- mesmo e o restabelecimento da relação consigo-mesmo ocupam um lugar fundamental na organização do funcionamento virtual. O que significa dizer que a pessoa só se adiantou em seu trabalho consigo-mesma quando se manifesta a sua capacidade de lidar com seu ausentar-se e com seu retornar

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para si-mesma, e, quando já conseguiu despressionar a sua relação consi- go-mesmo.

A arte de se acompanhar e a noção de continuidade.

De acordo com a Arte Org, a desorganização do funcionamento virtual é uma derivação direta da desorganização do funcionamento da ausência; consequentemente, a reorganização dos virtuais passa pela reorganização da ausência; sendo que a organização da ausência é uma consequência da reorganização da corporalidade e das percepções de campo. Ocorre que um virtual relativamente desorganizado apresenta tanto sua

corporalidade como suas percepções de campo amarradas por suas desco- nexões, pressões e fixações e muitas vezes ancorado nas pressões do “aqui”. Do ponto de vista da prática terapêutica, a reorganização da corporalidade

e das percepções de campo seria relativamente simples; isto se o trabalho

de reorganização não tivesse que se contrapor desde o início do processo terapêutico com a sobre-excitação de campo, com a ressaca virtual, com o esgotamento estressado e com as mais variadas formas de desconectar, pressionar e fixar incluindo as pressões do “aqui”. Isto sem falar da relação da pessoa com ela-mesma que também costuma necessitar de cuidados imediatos e intensivos. Estes são alguns fatores que vão acrescentando difi- culdades ao processo terapêutico; porém, se a pessoa não estiver dissocia-

da, brigada ou em guerra consigo-mesma para além das possibilidades de atuação do processo terapêutico; na maioria dos casos a pessoa consegue ir se desamarrando pouco a pouco. Como a defesa central do funcionamento virtual é o ausentar-se; a primeira coisa que uma pessoa vai fazer depois que ela se ver livre de suas amarras é

voltar a ausentar-se a sua própria maneira; e isto, na maior parte das vezes,

é quem leva a pessoa a voltar para si-mesma de forma desgraduada e de-

sorganizada, o que muito possivelmente vai precipitar uma nova onda de sobre-excitação, de ressaca, com suas pressões e fixações; ou mesmo da emaranhada pressão do “aqui”. O que só aumenta as desconexões para a- judar a pessoa se ausentar de qualquer forma.

De acordo com o isso; o ausentar-se vai acontecer de qualquer jeito; isto é; de uma forma ou outra as pessoas vão seguir adiante com sua aventura au- sente. Ou seja, o distanciamento ausente é inevitável; mas as desconexões que costumam acompanhar este distanciamento ausente sim são evitáveis. E isto por si só melhora enormemente o funcionamento dos indivíduos e sua relação com eles-mesmos.

A proposta da Arte Org como projeto terapêutico para os virtuais é que eles

apreendam a lidar com o ausentar-se e com o voltar para si-mesmo e para isto eles precisam distanciar-se e retomar-se se acompanhando.

Sendo a capacidade de acompanhar-se um elemento fundamental que permite diminuir o nível de desconexões presente no ausentar-se. O que significa dizer que a capacidade de acompanhar-se é quem verdadeiramen- te marca a diferença; e esta não costuma operar de forma automática; e

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mais, para se acompanhar no território ausente é necessário certo treina- mento perceptivo, ou pelo menos de estimular a percepção difusa que é quem pode realizar esta tarefa; portanto, uma grande parte do processo terapêutico (que denominamos organização da corporalidade e da percep- ção campo) também está direcionada para capacitar a pessoa a se acompa- nhar. Também significa dizer que o acompanhar-se tem um caminho; tem etapas e fases; tal qual o ausentar-se.

Em outras palavras, de acordo com os postulados da Arte Org; para que o homem de nosso tempo possa voltar a funcionar globalmente em primeiro lugar a pessoa necessita ter o processo de ausentar-se de si-mesmo e de voltar para si-mesmo em andamento. Caso a pessoa esteja em crise, fixada ou inundada em algum dos polos de seu funcionamento, ela necessita sol- tar-se deste polo e junto com isto reorganizar-se. Por outro lado, um salto abrupto do funcionamento em crise, desorganiza- do, inundado, fixado, cheio de mal-estares e de sintomas para um funcio- namento global que retoma o proceder da ausência pode gerar altos níveis de angústias e ansiedade e mesmo crises de identidade. Novamente o regulador aqui é a capacidade de acompanhar-se. Afinal a- companhar-se significa manter diferentes níveis de contacto consigo- mesmo tanto se distanciando como se retomando; e por alguma razão a pessoa se encontra como se encontra; ou melhor, por alguma estranha ra- zão a pessoa prefere se lançar no voo ausente navegando sem se preocupar com coisa alguma. O que de certa forma tem algum sentido, pois se a pes- soa for se preocupar, ela não consegue se ausentar; portanto, o acompa- nhar-se neste caso deve utilizar os mesmos elementos que participam da ausência; e é exatamente aqui que deve entrar em operação a percepção difusa. Na maioria das vezes, ir retomando o ausentar-se e o voltar para o aqui e agora é organizador e tranquilizador, desde que a pessoa não entre direta- mente (sem defesas e desprotegida) no bloco de experiências coordenadas pelo contacto ausente; ou então que a pessoa, quando de volta para si- mesma, não saia diretamente plasmando as frequências estimuladas pela ausência na sua relação com o seu mundo.

Afinal, algo aconteceu com o seu ausentar-se e com o seu voltar para si- mesmo que a totalidade da ausência ficou perigosa. Seja qual for à natureza deste algo, ele é capaz de fazer com que a pessoa se manipule a si-mesma

e que passe por sobre si-mesma mesclando as experiências de seu mundo

ausente com sua vida cotidiana, sendo que o resultado; além da sobre- excitação e da ressaca, é ir perdendo a capacidade de se ausentar. Nova-

mente aqui o acompanha-se cumpre um papel fundamental, pois é a única ação perceptiva que pode manter um elo entre estas experiências.

O próprio funcionamento polar e cíclico (natural ou nativo do funcionamen-

to do homem do nosso tempo) é por si mesmo assustador, afinal mudar de

um polo a outro modifica radicalmente a realidade vivida, a visão de mundo

e os compromissos internos e externos relacionados com cada estado em

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cada polo. O que significa que acompanhar-se na mudança de um polo pa-

ra outro ou de um nível para outro já se constitui numa tarefa bem mais

difícil para a capacidade de se acompanhar.

Nestes casos a compreensão externa pode ajudar a pessoa a diminuir o an- tagonismo entre os polos ou diminuir o efeito salto, principalmente quando

a pessoa não está organizada o suficiente para poder acompanhar a si-

mesma. Neste caso, ou a pessoa aprende a se acompanhar ou a pessoa não aprende a negociar e intermediar consigo-mesma e com suas próprias pres-

sões e fixações.

Agora, a capacidade de se acompanhar, independente da compreensão

que a pessoa desenvolve, é reparadora por natureza; simplesmente porque

o se acompanhar pode envolver tanto o perceber como o sentir e logo po-

de envolver também a arte de se relacionar consigo-mesmo.

Das diversas formas envolvidas na capacidade de se acompanhar, podemos diferenciar pelo menos três formas diferentes de se acompanhar:

O se acompanhar se percebendo, geralmente executada pela posição do

observador distante (eu-observador), que pode se por tão distante que não

participa dos processos.

O se acompanhar sentindo, geralmente executado pelo experimentador

(eu-perceptivo ativo). Veja que na posição de experimentador a pessoa po- de conjugar pelo menos três tipos de ações: A reflexiva (que antigamente, na era dos caracteres era representada pelo eu-racional, que na atualidade não funciona mais como tal). A sensorial ou de experimentar sentindo (algo assim como o eu-emocional). E a de coordenar atividades. Sendo que o ex- perimentador tanto pode se colocar mais existencialista se inundando de impressões, sensações, e até mesmo de emoções; como pode se colocar mais executivo potencializando o fazer por sobre todas as coisas. E o se acompanhar a partir da forma como vai se dando sua própria relação consigo-mesmo que, como todo mundo já sabe, pode entrar em fases de total falta de comunicação interna; este não tem uma característica de eu, mas sim de sombra.

A capacidade de acompanhar-se que realmente funciona tem um pouco de

cada uma destas tendências; sendo que no desenvolvimento do processo terapêutico vai sendo associada com a função de terapeuta interno, este que existe em algum lugar de cada um de nós.

Agora, seja como for, a capacidade de se acompanhar tem um sistema per- ceptivo próprio que é nomeada como sendo as ressonâncias perceptivas; que costuma se manifestar entre as sensações e impressões e que operam como eco; sem elas fica muito difícil, quase que impossível acompanhar as vicissitudes do funcionamento virtual. Como também tem seu próprio sentido perceptivo de campo; nomeado como sendo as sombras de si-mesmo que se manifestam no campo per- ceptivo; que também se manifestam como rastros ou pegadas imprimidas como impressões difusas de campo no próprio campo perceptivo.

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Porém, a forma que as ressonâncias perceptivas se manifestam é outra his- tória, pois elas tanto podem estar presentes como sensações e impressões que realmente incomodam, como nas diversas formas de inundações e res- sacas. Como pode aparecer de forma mais sutil e afinada, quando a pessoa se encontra menos ressacosa e sobre-excitada e mais organizada. De uma forma ou outra, nas ressonâncias perceptivas se encontra a capacidade de reconhecer o próprio tocar-se a si-mesmo.

É evidente que a capacidade de se acompanhar, para que seja efetiva, ela

precisa tanto de ser coerente com o funcionamento virtual, como de se contrapor a este. Isto significa que ela leva junto consigo mesma suas pró-

prias dificuldades. Em primeiro lugar está a sua subjetividade:

Veja bem, pois quando falamos de subjetividade estamos sendo literais.

Aqui se trata literalmente de conjugar o verbo como uma ação. Eu sinto isto

e eu percebo aquilo. A subjetividade é única, unitária e individual. Não se

repete em duas pessoas, pois depende da capacidade de perceber e de sen- tir de cada um individualmente. Isto é, a capacidade de se acompanhar é subjetiva por natureza; a pessoa precisa aprender a despertar, desenvolver e confiar em suas próprias im- pressões de si-mesmo e isto se contrapõe tanto com a percepção centrada no outro como a imitação perceptiva ou sincronismo difuso, inclusive ao sin-

cronismo social. Em outras palavras, não dá para se acompanhar a partir dos “outros”; nem a partir do sincronismo de qualquer tipo com os “outros”; principalmente quando isto anda junto com perder uma parte da percepção de si-mesmo.

E geralmente este perder-se de si-mesmo se refere a uma parte da percep-

ção de campo ou do campo perceptivo; ou pior ainda, do volume corporal e perceptivo. Isto é, desaparece a noção do próprio campo pessoal, ou do campo do lugar, ou desaparece a noção de volume do corpo, principalmen- te na periferia.

O ato de uma pessoa se focar no outro, no que o outro percebe, interpreta

ou julga da pessoa em questão; portanto, de fora para dentro; para que a pessoa possa se reconhecer a si-mesma; além de ser vampirismo narcisista; que exerce uma força atrativa para capturar a atenção do outro, ou para fa- zer com que ou outro dirija sua atenção para a própria pessoa (manipula- ção); geralmente anda de mãos dadas com a perda de uma parte da cone- xão com o campo do lugar, com o campo pessoal, ou com a noção de vo- lume do próprio corpo. Com o sincronismo é um tanto diferente, pois em termos perceptivos, duas ou mais pessoas estão sincronizadas entre si, através de um sintonizador externo que geralmente qualifica o contato. Não importa a natureza do sin- cronizador, pois o que importa é que uma pessoa pensa na outra ou vice versa no mesmo instante. Ou se encontrem; ou ainda que tenham os mes- mo interesses ou os mesmos gostos, que tenham afinidades. Ou que pen- sem ao mesmo tempo sobre um mesmo tema. Tomemos como exemplo o caso da lua cheia. Todos nós sabemos que a lua pode emanar os mesmos

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anseios, impressões e sensações em pessoas diferentes. O que significa di-

zer que duas ou mais pessoas podem se sintonizar e sincronizar entre si a- través da lua cheia. Quando o processo estiver em andamento, já não é ne- cessário que as se conectem com a lua cheia, como também não é necessá- rio que as pessoas se conectem entre si.

O sincronismo é mais mágico e determinista, pois ele por existir já qualifica

a conexão; já da um valor maior que determina a conexão entre duas pes-

soas, inclusive quando esta conexão não existe de fato. As pessoas sincroni-

zadas jan não precisam checar seus sentimentos, uma em relação à outra; pois o sincronismo já determinou suas afinidades como almas gêmeas. Agora o custo é o mesmo que o anterior; o sincronismo também geralmen-

te anda de mãos dadas com a perda de uma parte da conexão com o cam-

po do lugar, com o campo pessoal, ou com a noção de volume do próprio corpo.

Em segundo lugar está o seu posicionamento ativo e intermediador: A capa- cidade de se acompanhar não pode se constituir no centro dos aconteci- mentos caso contrário ela se transforma na própria experiência e a pessoa perde a capacidade de se acompanhar; mas também ela não pode ser pas- siva, caso contrário perde um de seus principais atributos que é o de se m a- nifestar com uma companhia. Como exemplo nós temos a percepção do “todo” e o som do silêncio, que tanto estão na base da capacidade de se acompanhar; como atuam tranqui- lizando, acalmando e mesmo desangustiando; como são capazes de impri- mir uma longínqua impressão de companhia de si-mesmo que por sua vez

é capaz de intermediar com um dos maiores fantasmas de nosso tempo, a solidão ou fobia solitária.

Em terceiro lugar está o seu posicionamento “gestáltico”: A capacidade de se acompanhar opera com impressões, produz “insights” e compõe uma ou mais “gestalts” das experiências vividas, tanto no mundo da ausência, como no território intermediário, como na vida cotidiana no planeta terra; o pro- blema é que as impressões podem ser difusas, isto é, de fora do território da linguagem e da consciência normal; os “insights” podem inundar princi- palmente quando sobrepassam a corporalidade ou a capacidade da pessoa se mover; e as gestalts podem ser terroristas e nefastas principalmente quando se trata de compreensões que a pessoa não pode ainda lidar ou que precisa de se livrar, e para isto sai buscando interpretações de todos os tipos.

Resumindo, a capacidade de se acompanhar é um atributo da consciência que se contrapõe a nossa consciência normal (objetiva abstrata e superiora). Apesar de ser de certa forma distanciada e observadora se contrapõe a abs- tração, pois opera a partir de um sentir. Também se contrapõe a organiza- ção objetiva da percepção, pois opera com impressões sensoriais e com a percepção do “todo” e quanto mais se desenvolve mais se manifesta como perceber sentindo. Também se organiza como uma linguagem, inclusive

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pode se manifestar como uma voz interna, mas escapa da linguagem e do pensamento organizado com palavras e da organização linear da consciên- cia, caso contrário não conseguiria acompanhar nem sequer os primeiros

metros da viaje ausente; e se encontra intimamente relacionada com as no- ções perceptivas e com o animismo que também são antagônicos e esca- pam da consciência normal.

O que significa dizer que a capacidade de se acompanhar é um atributo de

um tipo de consciência um tanto diferente do que estamos acostumados. Nomeamos este tipo de consciência como sendo uma consciência mais o- perativa e menos abstrata, que pode se aproximar inclusive da autopercep- ção; mas que também tem uma versão mais “civilizada” que habita e convi-

ve com nossa consciência normal. De acordo com isto, o funcionamento virtual ausente acabou despertando mais um gigante adormecido, a consciência operativa capaz de perceber sentido, e de estabelecer relações animista consigo-mesmo e com o mun- do. Em termos funcionais se localiza entre a autopercepção e o desenvolvimen- to da consciência objetiva e abstrata. O que significa também que a consci- ência operativa é antagônica a consciência normal abstrata, isto é, a ativa- ção de uma resulta na desativação da outra e vice-versa. Ocorre que é justamente por esta versão mais civilizada do acompanhar-se (que é coordenada pela consciência normal, a partir da linguagem e do pensamento organizados por palavras, que está relacionada com a percep- ção objetiva) por onde devemos começar o desenvolvimento da arte de se acompanhar. Inclusive com aqueles que já conseguem se acompanharem de acordo com os outros atributos da capacidade de se acompanhar. A recomendação aqui

é

gastar um tempo do processo terapêutico estimulando e desenvolvendo

o

se acompanhar a partir da consciência normal. Caso contrário, a consciên-

cia normal simplesmente vai bloquear ou interpretar de forma inadequada os demais elementos da capacidade de se acompanhar.

No decorrer do processo terapêutico, mesmo quando a pessoa se encontra

relativamente organizada e despressionada; ela muito provavelmente vai voltar ao polo onde estava fixada ou inundada.

O esperado neste caso, quando isto ocorra; é que a pessoa possa lidar me-

lhor com a situação, ou com as impressões sensoriais básicas da situação, antes que esta se transforme em mal-estares ou sintomas; e, para isto, a no- ção do caminho percorrido e dos procedimentos usados em cada etapa, costuma ajudar e muito. Porém, a memória e o registro histórico do desenvolvimento e do processo terapêutico são elementos organizados linearmente dentro das configura- ções do tempo e do espaço. Sendo que o funcionamento polar e a ausência saltam à organização linear do tempo e do espaço. O que significa dizer que tanto a ausência como o funcionamento polar consome a memória do indivíduo; principalmente no que se refere aos aspectos mais importantes relativos ao seu relacionamento ativo intrapessoal. Sabemos o quão difícil é

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confiar em nossa memória principalmente quando o assunto se refere à gente mesmo. Por tudo isto; no desenvolvimento do processo terapêutico é altamente re- comendado que algumas tarefas não passem em brancas nuvens, como por exemplo, da parte do cliente: certo mapeamento inicial e uma forma da pessoa ir registrando, mesmo que externamente, os passos dados pela pró- pria pessoa; como por exemplo, um diário de terapia. Agora do ponto de vista da metodologia e dos terapeutas arteorguianos em relação a seus clientes; também é recomendável que algumas compre- ensões de alguns pontos básicos sejam esclarecidas, não somente no que se refere à compreensão do terapeuta dos processos que ele está lidando, mas principalmente esclarecendo ao cliente sobre alguns processos que ele

(o cliente) está lidando; se não em terapia; em textos de contextos ou coisas do gênero.

O que também significa dizer que o exercício de ir retomando o caminho

percorrido consigo-mesmo cumpre outra função além de exercitar a memó- ria; pois ele abre espaço para desenvolver a capacidade de reconhecer a experiência vivida consigo-mesmo; e, para o desenvolvimento da relação da pessoa com ela-mesma; este reconhecimento é realmente importante; sen- do que na maioria das vezes ele se encontra a serviço da conexão com os “outros” e não da conexão consigo-mesmo. Também significa dizer que se esta tarefa não for colocada como parte do processo; não for transformada em procedimentos, a pessoa vai saltar esta

parte; justamente porque, com seu sentimento de solidão crônica, ela já es-

tá negando a possibilidade de se sentir se acompanhando ou sendo acom-

panhada por si-mesma; portanto quando se tratar de se acompanhar sendo companheiro de si-mesmo, a coisa pode promover curto circuito, e neste caso as pessoas costumam apagar a memória do acompanhar-se; dos en- contros consigo-mesmo então, este podem desaparecer completamente como se nunca tivessem existido. Tudo isto coloca as dificuldades relacionadas com a capacidade de se a- companhar diretamente relacionada com a dificuldade de manter qualquer projeto pessoal em andamento; ou melhor, com a incapacidade de ser con- tínuo ou constante. Significa também que alguns eventos precisam ser mar-

cados ou registrados de forma especial, para que eles possam ser resgata- dos, principalmente quando se trata de algo já realizado, já feito, do tipo tarefa cumprida. Geralmente as pessoas estão mais do que acostumadas a fazer listas das tarefas que devem ser realizadas relacionadas com as atividades no mundo. Agora, com as atividades consigo-mesmo o assunto e mais complicado, e

se complica mais ainda quando a lista é constituída de itens relacionados a

atividades consigo-mesmo já realizados. Em todo caso, nesta terapia tudo aquilo que for realmente importante, prin-

cipalmente quando relacionado com a relação da pessoa com ela-mesma deve ser transformado em um procedimento. Para quem não sabe ainda; a incapacidade de ser contínuo é de certa forma inerente ao funcionamento virtual; e se a pessoa consegue alguma continu-

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idade em seu funcionamento; esta vai estar relacionada com o mundo ex- terno; o que ajuda a aumentar os conflitos intrapessoais, pois a pouca capa- cidade de continuidade, de manter os compromissos, acaba sendo desgas- tada com o mundo e com os outros; não sobrando quase nada para si- mesmo.

O que significa dizer que a continuidade de fato e sua correspondente

noção é um problema que afeta em primeiro lugar a relação da pessoa com

ela mesma e se refere à capacidade da pessoa manter uma continuidade nos afazeres e compromissos relacionados a ela-mesma. Está diretamente relacionado com a autoestima e somente se transforma numa incapacidade de manter a continuidade e os compromissos com o mundo exterior depois

que a pessoa já está estressada, esgotada e desgastada. E sem continuidade simplesmente não existe caminho, nem sequer o caminho já percorrido. Em termos da relação da pessoa com ela-mesma; a incapacidade de se acompanhar e a incapacidade de ser contínuo são problemas maiores que habitam o plano de fundo do funcionamento virtual; bem maiores do que todo o desastre que pode ser encontrado na superfície do fun- cionamento das pessoas.

O que significa dizer que a relação consigo-mesmo, como todo tipo de re-

lação, exige e pede um desenvolvimento. Nem sequer a coordenação do ausentar-se e do voltar para si-mesmo pode ajudar muito se a pessoa man- tém sua forma de relacionar-se consigo-mesma inalterada; sendo que no funcionamento virtual este inalterado costuma ser cíclico; entre uma forma pseudoexpansiva descuida de si-mesmo e uma forma pseudocorporal, dura, restrita e exigente consigo-mesmo; começando por manter constante o mesmo tom falando consigo-mesmo. Pode parecer contraditório; porém

apesar de toda flexibilidade e abertura do funcionamento virtual, as formas de relacionamento consigo-mesmo costumam ser as que mais tempo per- manecem fixadas ou padronizadas. Em todo caso esta é mais outra situação que o desenvolvimento do proces-

so terapêutico precisa arrumar; a capacidade de se acompanhar e a noção

de continuidade do trabalho consigo-mesmo precisam (de alguma manei-

ra) seguir seus cursos independentes da montanha russa presente no fun- cionamento virtual.

O que significa dizer que a pessoa, apesar de continuar funcionando virtu-

almente, pode ir recuperando sua capacidade de se acompanhar e de ser mais contínua com a relação consigo-mesmo incluindo os compromissos consigo-mesmo. Sendo que aqui, além da parte cognitiva e sua correspondente “gestalt” que não é fácil, o principal componente é sem dúvida nenhuma a recuperação da capacidade de sentir. Sem colocar o sentir em movimento acompanhado da capacidade de se perceber, inclusive e principalmente em território difu-

so; sem colocar a relação consigo-mesmo pautada pelo recuperar a relação consigo-mesmo ( amistar-se consigo-mesmo); acompanhar-se e restabele- cer a relação consigo-mesmo se transforma em missão impossível.

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Agora, tanto a capacidade de se acompanhar como a noção de continui- dade do trabalho consigo-mesmo envolve contato consigo-mesmo. E aqui, o erro comum, na maioria dos casos, é pensar que o contacto consigo- mesmo está relacionado com o adentrar-se (para dentro de si-mesmo), nu- ma estranha viajem de um lugar para outro dentro do próprio corpo. Mais do que pensamento, aqui temos uma infinidade de práticas envolven- do todo tipo de imaginação, algumas juntas com a própria ausência e ou- tras com a desconexão de si-mesmo. Resultado, a pessoa pode ir parar em qualquer lugar de seu funcionamento virtual, menos conectada consigo- mesmo. Desculpem, mas contra todas estas crenças e atividades afirmamos que no funcionamento virtual o contacto consigo-mesmo não está se direcionado para dentro de si-mesmo, muito pelo contrário. Está na capacidade de dire- cionar o perceber sentindo para fora de si-mesmo, em primeiro lugar para o próprio campo perceptivo, e depois para o campo do lugar onde o corpo da pessoa se encontra neste exato instante. É exatamente isto que precipita como ressonância sensorial e perceptiva o que nomeamos como sendo o contacto consigo-mesmo, e mais, o que abre espaço para o tocar-se a si- mesmo. Também devemos esclarecer que aqui, qualquer tipo de imagina- ção é simplesmente inadequado. O simples som do silêncio e a percepção como um “todo”, basta e sobra.

Os procedimentos terapêuticos da Arte Org.

O corpo de procedimentos terapêuticos (em sua grande maioria; ou em 99% dos casos) da metodologia da Arte Org são chamados de exercícios- procedimentos, cada qual com uma ou mais pautas; portanto, na prática, o que temos são movimentos corporais (de acordo com a corporalidade) e movimentos perceptivos (de acordo com as percepções de campo; com a percepção objetiva; com a percepção difusa; com o campo perceptivo e com a percepção de campo sobreposta) composto por pautas.

Na Arte Org inclusive a compreensão passa (em parte) ou deve passar pela arte de se mover ou está a ela relacionada. São com movimentos corporais e perceptivos (exercícios procedimentos) que os arteorguianos buscam desenvolver uma linguagem que possibilite uma melhor compreensão do funcionamento ausente em geral e de suas consequências peculiares e particulares. São com os mesmos exercícios-procedimentos que os arteorguianos bus- cam lidar tanto com as generalidades como com as particularidades do fun- cionamento virtual; como também buscam lidar com as diferentes formas e níveis de conflitos presentes na relação intrapessoal e seus conflitos (provo- cados por este constante ir para longe de si e este voltar para si). Esta mesma arte de se mover também é utilizada para reorganizar tanto as funções corporais como as perceptivas que se encontram alteradas (pelo funcionamento ausente, pela dinâmica da relação consigo-mesmo e pelas diferentes pressões e fixações que habitam o funcionamento virtual).

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O que significa dizer que a proposta da Arte Org terapia é usar os movi-

mentos corporais e perceptivos (exercícios-procedimentos) tanto para in- vestigar o funcionamento da ausência e das pessoas que se ausentam; co-

mo para lidar terapeuticamente com o ato de ausentar-se de si-mesmo e de voltar para si-mesmo e com suas consequências; como também para entrar

e

lidar com a dinâmica da relação consigo-mesmo; ou mesmo para constru-

ir

um domínio paralelo, um caminho à parte, pontuado por espaços preser-

vados coligados aos seus devidos polos (fechado, intermediário e aberto) onde o indivíduo possa entrar no espaço de relação com ele-mesmo e lidar com as diversas pressões e conflitos presentes em seu funcionamento. Com isto podemos dizer que a metodologia da Arte Org em primeiro lugar

é pratica e experiencial. Sendo que a arte de mover-se concretamente (com

exercícios-procedimentos) está tão inserida em sua metodologia que difi- cilmente conseguimos pensá-la de forma separada. Dizer para um arteor- guiano que ele tem que lidar com qualquer aspecto do funcionamento vir-

tual sem os exercícios é equivalente a pedir para um agricultor para ele arar

e plantar vários alqueires de terra sem nenhuma ferramenta.

Como aqui tudo tem dois ou mais lados, quando a pessoa está direcionada

a perder-se de si-mesma, a primeira coisa que ela faz é justamente começar

a boicotar seus exercícios-procedimentos se esquecendo dos próprios pro- cedimentos. Da mesma forma que a pessoa fica fóbica de si-mesmo ela po- de ficar fóbica dos exercícios-procedimentos.

Aqui não tem jeito, não é tão simples como parece. Se os exercícios estão direcionados como um caminho, mais sedo ou mais tarde eles vão abrir as portas do futuro, ou do próprio desenvolvimento. Isto envolve crescimento

e

responsabilidade consigo-mesmo, envolve compromisso consigo-mesmo.

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território desconhecido da expansão, da abertura, e do crescimento como

pessoa, real e verdadeiro, costuma se transformar num buraco negro, mais um passo e a pessoa pode mudar de verdade, e isto pode promover modifi- cações verdadeiras em todo seu funcionamento. É justamente aqui que o boicote a si-mesmo vira crônico. E a maneira mais efetiva de se boicotar, de desmontar o caminho percorrido, de manter o velho funcionamento, é pa-

rando de se mover. Esta é uma das portas de entrado no funcionamento pressionado no “aqui”. E revela mais uma destreza do funcionamento virtu-

al; quando eles estão abertos e em movimento, são capazes de olhar para seu próprio futuro e descobrir que o seu próprio futuro está se abrindo para

o desconhecido, e isto pode ser bem diferente do que eles imaginam.

Agora o que eles imaginam neste tipo de situação é realmente elaborado. Pois são capazes de pensar que estão seguindo por um caminho que vai acabar por separá-los do resto dos humanos, isto é, sozinhos e solitários. É bem maluco, pois quando revemos nossas anotações do que foi passando no processo terapêutico desta pessoa foi justamente o oposto. A cada pas- so dado em direção a realmente estar sozinha consigo-mesmo, isto é, para

estar acompanhada de si-mesmo, mais foi abrindo a possibilidade de sair da posição da solidão crônica e fóbica de si-mesmo para poder estar com os outros. Mais sozinho do que a pessoa já era do que quando começou seu processo terapêutico centrado em si-mesmo não pode ser. O que signi-

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fica que o caminho percorrido pela pessoa no decorrer de seu processo te- rapêutico com ela mesma desaparece de vista.

O que podemos pensar aqui que está tal capacidade de se ver a futuro aca-

ba mostrando para pessoa aspectos de si-mesma que ela não aceita, como por exemplo, estar mais aberto (a) e feliz, ou mesmo velho (a), amigo (a) de si-mesmo (a) e realizado consigo-mesmo (a). Em todo caso o que temos aqui é um algo lá na frente, no vir a ser, que não cabe no “aqui” e “agora”, simplesmente porque a pessoa não caminhou ainda passo por passo para

chegar lá na frente e ver como ela pode lidar com a nova situação.

O que aprendemos com este tipo de situação é que os virtuais pensam que

podem controlar seus processos terapêuticos aumentando ou diminuindo a força e a frequência que eles se movem com seus exercícios procedimento; se a coisa esta ensimesmada, escura e fechada, mais exercícios- procedimento; e se a coisa está mais aberta, andando e se desenvolvendo, menos exercícios-procedimentos. Somente o que eles não levam em consi-

deração é que esta é justamente a forma de inundar a vida cotidiana, as re- lações com as coisas e com os outros, com situações, sentimentos, anseios,

e impressões que a pessoa ainda não resolveu no âmbito de si-mesmo.

Também aprendemos que neste tipo de situação em nada resolve racionali- zar. E as ferramentas para ir lidando como isto passo a passo só foram apa- recendo nos caminhos de si-mesmo no “aqui” da Arte Org paralela. Outro tipo de situação que costuma paralisar a capacidade de seguir se

movendo com os exercícios procedimento, costuma ocorrer frequentemen-

te com os viciados em cuidar dos outros. Isto é, aqueles que costumam ter

contato somente quando cuidando dos outros. É o caso dos terapeutas on- de o cuidar dos outros vai substituindo o contato consigo-mesmo, e o con- tato na vida cotidiana; como se a vida e a capacidade de se mover de seus clientes já fosse suficiente movimento, para ter ainda que se mover para si- mesmo consigo-mesmo. E com isto muito provavelmente vai acabar inun- dando seu próprio campo de uma pseudovitalidade virtual que somente paralisa cada dia mais a capacidade da pessoa se mover consigo-mesma para si-mesma. Outro tipo de situação que em nada resolve as racionaliza-

ções, e menos ainda o conhecimento. Sendo que as ferramentas para ir li- dando como isto passo a passo também só foram aparecendo nos cami- nhos de si-mesmo no “aqui” da Arte Org paralela.

Os exercícios procedimentos da Arte Org estão divididos em dois domínios, em dois caminhos paralelos; os que estão relacionados com a Arte Org da ausência, pautados de acordo com a reorganização da corporalidade e das percepções de campo e direcionados para acompanhar a ausência e o vol- tar para si-mesmo; e os que estão relacionados com a arte Org paralela,

pautados de acordo com os polos do “aqui” (fechado, intermediário, aberto)

e direcionados para despressionar a vida cotidiana.

Sendo que por sua vez os exercícios são diferenciados em três modalidades, os organizadores da corporalidade, os organizadores do campo perceptivo

e os intermediadores do contacto consigo-mesmo.

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Daí para frente eles se diferenciam em grupos, famílias e logo em níveis or- ganizados de acordos com ciclos ou fases (na Arte Org da Ausência), ou de acordo com módulos ou etapas (na Arte Org paralela).

Qual é a maior vantagem de usar exercícios-procedimentos para lidar com o funcionamento virtual?

É a forma mais eficiente que conhecemos para impedir que tudo seja vivido como um puro bloco de experiências. Como os exercícios-procedimentos

da Arte Org não estão direcionados para o viver cotidiano das pessoas, mas

sim para a relação da pessoa com ela-mesma; isso permite que as pessoas abram espaços diferenciados, separados da vida cotidiana direta; isto é, os

exercícios permitem que a pessoa configure mundos a parte. Um mundo a parte para lidar com a ausência e outro mundo a parte para lidar consigo- mesmo entre a ausência e a vida cotidiana. E isto por si só é reparador o suficiente para nos salvar do colapso.

Quais são alguns dos segredos dos exercícios da Arte Org?

Em primeiro lugar eles devem ser constituídos como uma dança, e não co- mo exercícios de educação física ou de nenhuma arte marcial. Não podem ser nem repetitivos e nem simétricos, pois isto somente chama a descone- xão. Precisam ter um início, um meio e um fim, diferenciados por etapas ou pautas parecidas com tarefas a serem realizadas e menos parecidas com sequencias precisas de movimento; e precisam estar contextualizados no espaço, pois se trata justamente de um momento consigo-mesmo separado do restante da vida cotidiana. Precisam ser equilibrados; isto é, suas pautas devem conter elementos de contacto e elementos de defesa a este contacto e devem se constituir num caminho (de onde eu venho, onde estou e para onde eu vou). Os exercícios-procedimentos que falam a linguagem da ausência (direcio- nados para o ido distante ou direcionados para a presença) precisam ser globais, válidos para todas as pessoas indistintamente, precisam ser indire- tos, com diversos níveis de intermediação. E os exercícios-procedimentos que falam a linguagem da despressão da vi- da cotidiana; que tratam de reconstruir um espaço consigo-mesmo separa- dos da vida cotidiana são mais específicos, diretos e direcionados, precisam considerar o metabolismo envolvido (carga e descarga) e isto é valido para cada pessoa, em cada um de seus momentos polares (fechado, intermediá- rio e aberto).

A sobre-excitação.

O conceito de sobre-excitação que usamos para o funcionamento virtual

proposto pela Arte Org é o mesmo usado no período orgonômico de Reich. Porém, no funcionamento virtual a sobre-excitação está intimamente rela- cionada com a ressaca virtual. Na Arte Org ela é considerada como sendo um sistema defensivo contraposto à ausência.

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O que nos obriga a estabelecer diferenciações, assim usamos o termo so-

bre-excitação energética para nos referir a sobre-excitação do campo orgo- ne proposta por Reich e usamos o termo sobre-excitação de campo para nos referir à sobre-excitação que se apresenta no funcionamento virtual.

O fenômeno da sobre-excitação energética foi descoberto por Reich, junto

com a descoberta da energia dór {D. Or.} ou energia orgone mortal e da do- ença dór {D. Or.}, a propósito das investigações do projeto Oranur. As relações que identificamos entre o funcionamento ausente, o funciona-

mento virtual, os estados emocionais, os estados de sobre-excitação e os estados de ressaca nos permitem formular uma pergunta histórica relativa ao próprio desenvolvimento da Arte Org:

Porque os terapeutas emocionais deviam se preocupar com a sobre-excitação do planeta e das pessoas? E a resposta é: simplesmente porque a sobre-excitação altera o metabolis- mo da descarga dos indivíduos. Não existe uma terapia emocional centrada nas defesas do indivíduo que possa ser efetiva numa pessoa sobre-excitada, pois a estratificação das e- moções simplesmente necessita do fator de descarga. É justamente a des- carga de uma emoção (como defesa) quem permite uma próxima volta no metabolismo emocional com mais carga disponível; quem permite revelar o contacto oculto (função de contacto modificado pelo contacto substituto ou forma de contacto como defesa) que por sua vez, conforme recebe mais carga se transforma na próxima defesa.

O relevante aqui é que já naquela época (primórdios da Arte Org década

de 90) a maioria das pessoas que buscavam terapia apresentava uma oscila- ção entre sobre-excitação e ausência; apresentando de forma mais ou me-

nos clara o que podia ser classificado como sintomas da doença dór {D. Or.}.

O que significava que as proposições de Reich (na década de cinquenta)

estavam presentes nos quadros atuais dos virtuais sobre-excitados (década de 90); sendo que a sobre-excitação era um tipo de reação da excitação bem anterior à reação {D. Or.} A presença da sobre-excitação de forma ge-

neralizada indicava que a sobre-excitação tinha crescido enormemente nos

últimos 40 anos, tinha se tornado mais ampla, mais severa e mais próxima da reação {D. Or.}. Courtney Backer (jornal de orgonomia) tinha chegado à mesma conclusão comparando os testes de sangue feitos por Reich e por ele mesmo numa in- vestigação sobre as biopatias flogísticas (inflamatórias). Courtney encontrou que o campo energético das células sanguíneas dessas pessoas com biopatias inflamatórias era maior do que o campo das células sanguíneas das pessoas normais; porém, contraditoriamente e apesar disto

o tempo de deterioração destas células em formações de bions (primeiras

unidades energéticas vivas, anteriores aos organismos celulares) era equi-

valente ao das pessoas com biopatia carcinomatosa (câncer).

A conclusão de Courtney foi que a excitação do planeta tinha se modificado,

simplesmente atmosfera do planeta já apresentava mais dór {D. Or.} que na

época do Reich e que isto estava mutando o funcionamento celular das pes- soas.

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A nossa conclusão (com a descoberta da sobre-excitação de campo) foi que

a estrutura de funcionamento das pessoas em geral tinha se modificado.

Além disto, a sobre-excitação e o dór {D. Or.} tinham a capacidade de anular qualquer possibilidade de seguir as reações emocionais de forma estratifi- cada. Tanto a ausência como a sobre-excitação anulava a efetividade das terapias em geral para lidarem com o funcionamento virtual de forma em o- cional.

É evidente que neste tempo, nos primórdios da Arte Org, ninguém tinha a

menor ideia que logo, logo os executivos e depois os fixados no trabalho iriam arrumar uma alternativa para a doença dór {D. Or.}, o queimar-se por dentro, ou o secar-se. E nem que as inflamações de todos os tipos continua-

riam crescendo.

Costumamos compreender a sobre-excitação como sendo um aumento da

carga ou da excitação do campo energético, porém isto não é bem assim, pois a sobre-excitação de campo se manifesta como sendo um aumento na velocidade do movimento da energia interna ou externa a um sistema, é uma questão qualitativa e geralmente é acompanhada da diminuição da carga deste mesmo sistema.

O termo sobre-excitação se refere a um aumento da velocidade de movi-

mento do campo energético que ultrapassa a capacidade de descargas de energia coligada à matéria. Exemplo: Quando o chover, o chorar e o suor

não descarregam mais.

A sobre-excitação de campo é um dos primeiros sinais do encouraçamento

do campo. Apesar de que alguns níveis de sobre-excitação promovem uma parada, uma estagnação do campo como um “todo”; na sobre-excitação,

enquanto o campo está parado num determinado lugar, internamente ele esta sobre movendo-se. E isto gera uma sensação de calor externo, como pegado na pele, como queimado de sol. Como exemplo: temos a sobre-excitação de campo, com sua corresponden-

te paralisia da descarga do campo e da pele.

Esta perda da capacidade de descarga funciona por camadas e em primeiro lugar alcança as funções energéticas e emocionais. Apesar de a pessoa continuar chorando com lágrimas e suando com gotas, ela não sente mais a sensação de descarga. Depois o processo alcança o próprio chorar e suar em si mesmo, acabando com as lágrimas e com o suor concretamente.

A sobre-excitação não se refere à ansiedade ou a hiperatividade corporal ou

perceptiva, muito pelo contrário, se parece com densidade, cansaço, irrita- ção, picação, e, a maior parte das vezes, é acompanhada de um estado cor- poralmente largado. Também não envolve necessariamente um aumento de carga, pelo contrário, a concentração de carga é menor. Seus sentimentos correspondentes, além das frequentes irritações e dores corporais, das veias, dos músculos profundos, das articulações e dos ossos; das sensações de cansaço letárgico, de queimação, de secura; é de um vazio

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seco ou desértico, de alma esgotada ou consumida, de alma queimada por dentro, vazia e desértica.

A sobre-excitação se apresenta como um conjunto de alterações do meta-

bolismo energético que se manifesta tanto biofisicamente como no funcio- namento corporal e emocional das pessoas, com uma angústia quente e algumas disfunções metabólicas. Isto é inédito, pois tudo que conhecemos da angústia corporal é que ela é

fria. E suas reações periféricas também, como no caso do suor frio de an- gústia. Em todo caso, a sobre-excitação de campo se manifesta inicialmente como uma secura quente, como uma sensação de calor seco fora do corpo em conjunto com uma gradativa diminuição da função de suar. Tanto pode se manifestar junto como uma sensação de angústia quente, como uma sensa- ção de irritação periférica como uma pseudorraiva, ou como uma sensação de vitalidade, como uma pseudovitalidade. O comum aqui é que nas três

condições o que está passando no corpo da pessoa, para dentro de sua pe- riferia corporal (pele e musculatura superficial), não combina com o que es-

tá passando da periferia para o campo.

A sobre-excitação geralmente toma o caminho para dentro do corpo pas-

sando pela pele e pelos músculos em direção aos ossos, ou se dirigindo pa-

ra o centro do organismo (barriga) ou subindo para a cabeça. Em seu cami-

nho promove as mais variadas modificações do metabolismo do organismo chegando a produzir as mais diversas alterações do pH organismo e da

temperatura corporal (pés e mãos gelados versus cabeça quente).

Durante estes anos apreendemos na prática, e a duras penas, que, enquan- to a sobre-excitação estiver presente entre o corpo e o campo, nenhum tra- balho emocional é eficiente e verdadeiro. Também aprendemos que apesar de ser possível remover grandes quanti- dades de sobre-excitação de uma vez, o procedimento é inviável, pois a pessoa, depois que sua sobre-excitação é descarregada, pode fazer qual- quer coisa para retomar a sobre-excitação inclusive passar horas diante de um televisor ou computador ou mesmo nos shopping. Com isto descobrimos que as pessoas quando descarregam sua sobre- excitação, podem ficar realmente sem defesas de campo e isto promove uma gama de reações, que podem ir do imediato sentimento de ser aban- donado até os mais diversos tipos de pânicos.

Em termos práticos, a sobre-excitação não pode seguir onde está, pois im- pede a continuidade de qualquer processo terapêutico e não pode sair completamente de onde está, pois isto coloca a pessoa completamente ex- posta e desorganizada. O que nestes termos significa dizer que a sobre- excitação anda de mãos dadas com a couraça de campo.

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Agora o mais importante; na Arte Org se usa o termo sobre-excitação do campo justamente para diferenciar a dinâmica envolvida na sobre-excitação virtual da dinâmica envolvida na sobre-excitação energética. Em termos dinâmicos a sobre-excitação de campo não costuma ficar parada no mesmo lugar. De acordo com a Arte Org, no funcionamento virtual ela é precipitada do corpo para o campo; porém é no campo que ela se manifesta enquanto tal, por isto sobre-excitação de campo. E deste (do campo); com as sistemáticas ressacas, ela costuma voltar e tomar a direção do corpo (apesar de poder ser descarregada para fora); promovendo esta quantidade de sensações e sintomas densos já referidos. Neste caso o seu nome já poderia se modificar para ser chamado de dór {D. Or.}. Logo pode ser direcionada para a terra abrindo todo um espaço de conexões densas relacionadas às profundida- des. Porém, enquanto ele estiver em movimento entre a periferia e o cam- po, ela não pode ser caracterizado como uma reação dór {D. Or.} propria- mente dita, mas sim tal qual, sobre-excitação de campo.

O outro lado desta questão, é que o mesmo processo de sobre-excitação,

nos desvia a atenção do “si-mesmo”, isto é, da ausência de si-mesmo. De acordo com nossos conhecimentos orgonômicos, a sobre-excitação e- nergética deveria ser uma reação da energia organísmica contra fortes fon- tes de irritação do campo energético na atmosfera (radiação nuclear, indu- ção eletrostática, etc.) que interfere no próprio metabolismo energético da

atmosfera e consequentemente dos organismos que estão dentre dela. E, isto, aponta diretamente para o meio ambiente. Naturalmente, quando as pessoas estão sobre-excitadas e descobrem isto, imediatamente começam a buscar as razões de sua sobre-excitação no meio ambiente, nos outros ou mesmo em sua história. Neste caso, a carga

sobre-excitada vem dos outros e nunca de si-mesmo. Ocorre que a pessoa por dentro não pensa assim; pensa exatamente ao contrário; pensa (de for- ma onipotente) que é ela, com seu campo ruim e destrutivo (sobre- excitação) quem está de alguma forma destruindo o seu entorno (onipoten-

te até certo ponto, pois algo de parecido deve estar realmente acontecendo

com seu encouraçamento de campo). Sendo que o que a pessoa necessita é um gradual trabalho de ir reciclando sua própria sobre-excitação de campo; se conectando e se amistando com seu campo e com sua sobre-excitação. E parece que não é nada fácil apren- der a lidar com a própria sobre-excitação sem sair esparramando-a ou pro- jetando-a pelo mundo.

Acontece que quando conseguimos ir seguindo terapeuticamente o cam i- nho da ausência, outra relação foi aparecendo. A sobre-excitação se mos- trou como a contra parte da ausência e aparece numa identidade com a direção de voltar para si-mesmo e para o mundo; Isto é, a sobre-excitação

se mostrou como sendo a defesa da ausência.

Nestes termos, por mais que o meio ambiente esteja emanando sobre- excitação, o mecanismo de se sobre-excitar como um procedimento defen-

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sivo dos virtuais coloca a sobre-excitação no âmbito da relação da pessoa consigo-mesma.

Sendo que a pergunta aqui é o que está fazendo um sistema defensivo es- pecializado em reações automáticas de natureza energética (por exemplo, como no caso de radiações nucleares) interagindo com funções perceptivas difusas, como é a caso da ausência de si-mesmo? Em outras palavras, algo estava acontecendo energeticamente com o “meio ambiente” das pessoas, mais especificamente no território mais intimo das pessoas, ou melhor, no organismo das pessoas. E este algo; quer seja pro- vocado pela ausência ou quer esteja aparecendo junto com ela, quer seja uma ação defensiva ou uma reação ressacosa; faz com que as pessoas rea- jam se sobre-excitando. Com isto decidimos separar conceitualmente a sobre-excitação da atmosfe-

ra da sobre-excitação das pessoas, e priorizar a sobre-excitação das pesso-

as, pois a sobre-excitação do planeta envolve medidas muito além da alça- da terapêutica individual.

Do ponto de vista terapêutico, uma coisa é certa, durante o processo tera- pêutico precisamos de procedimentos que coloquem a sobre-excitação em movimento, procedimentos que ajudem a reciclar a sobre-excitação. Isto não significa que estes procedimentos devam ser orientados para lidar com sintomas que aparecem ligados a sobre-excitação. Isto seria se meter no território das doenças funcionais e isto é um atributo dos médicos oci- dentais ou orientais, dos terapeutas especializados, dos naturalistas práti- cos, etc. Nossa preocupação está direcionada ao funcionamento geral e sistêmico da sobre-excitação e não com sua sintomatologia adjacente (reorganização dos atores coadjuvantes, os sintomas). É lógico que colocar em movimento a sobre-excitação alivia a sintomatolo- gia adjacente, mas este não é o nosso objetivo, isto são consequências e faz parte de um trabalho de prevenção e não da atuação terapêutica direta. É evidente que as pessoas buscam ajuda para aliviar seus sintomas como é evidente que qualquer trabalho terapêutico deve levar isto em considera- ção, mas centrar os procedimentos para colocar em movimento a sobre- excitação em seus sintomas secundários é perder a sobre-excitação de vista, ou pior, é manter a sobre-excitação fixada nos sintomas.

O melhor que os terapeutas arteorguianos podem fazer pela pessoa é lidar

com a situação global e os sintomas particulares devem ser lidados por ou- tros especialistas.

O que também significa dizer que os procedimentos direcionados a lidar

com a sobre-excitação devem ser graduados e intercalados com os proce- dimentos direcionados para organizar a corporalidade e as percepções de campo. Da mesma maneira que o ausentar-se deve ir se separando das des- conexões, a ausência também deve ir se separando da sobre-excitação; e isto deve ocorrer sem desmantelar a couraça de campo, não antes que esta possa ir sendo substituída pelo próprio campo.

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O encouraçamento de campo.

O conceito encouraçamento ou couraça de campo foi criado no âmbito

da Arte Org para nomear a forma com que os virtuais se encouraçam. Nestes termos, de acordo com a Arte Org, o funcionamento virtual ausente não só derrubou o encouraçamento normal presente no caráter, incluindo o encouraçamento muscular, como criou uma nova versão do encouraçamen- to.

Em primeiro lugar devemos esclarecer que aqui não se trata somente de

uma couraça de campo do tipo virtual, pois isso significa somente uma re- presentação virtual da couraça de campo; sendo que aqui se trata também da própria couraça de campo. Porém, a couraça de campo em questão também não é idêntica ao encou- raçamento do campo ou couraça energética proposto por Reich que se tra-

ta do encouraçamento do campo orgone real.

Na couraça de campo dos virtuais temos a participação do campo real, da

percepção de campo, e do campo perceptivo; sendo que em alguns casos também inclui a percepção de campo sobreposta.

O que significa dizer que o conceito de encouraçamento de campo dos vir-

tuais é sobreposto por natureza; sendo que esta sobreposição envolve a

sobreposição do campo perceptivo sobre as percepções de campo e sobre

o campo real que neste caso se refere especificamente a sobre-excitação de

campo. Sendo que a sobre-excitação de campo já é um tipo de couraça de campo, pois envolve um antagonismo entre a sobre-excitação (energia orgone irri- tada) e o campo de energia orgone do organismo e o campo de energia orgone do lugar. De acordo com Reich a couraça de campo na atmosfera é uma reação do campo orgone que enclausura o próprio orgone irritado que por sua vez foi diretamente irritando por uma fonte de irritação energética (fonte radioati- va, indução de altas voltagens); sendo que uma vez que se precipita o pro-

cesso, o próprio campo irritado pode seguir irritando o campo orgone, até que seja enclausurado pelo campo orgone; e mesmo assim o campo irrita- do enclausurado segue irritado até que surja uma opção de descarga como

a

direção para a terra ou para a matéria.

O

que significa que no funcionamento virtual, mesmo não sabendo onde

está à fonte de irritação, o campo sobre-excitado pode seguir se sobre- excitando. Significa também que a base para a formação de uma couraça de

campo é o antagonismo entre o campo real do organismo e o campo real do lugar versus o campo sobre-excitado. Agora, sabemos que no funcionamento virtual o campo real é um plano de fundo; sobre eles temos as percepções de campo e o campo perceptivo; sendo que os dois se relacionam com o campo real, seja este o campo real pessoal ou o campo real do lugar.

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Também sabemos que a percepção de campo e o campo perceptivo se alte- ram de acordo com a sobre-excitação e com as fixações, portanto eles inte- ragem na formação da couraça de campo. Também sabemos que para se constituir uma couraça é necessário contra- posição de força, de forma que uma força bloqueia a outra, e disto resultam escapes, portanto o nosso ponto de partida para compreender a couraça de campo é o antagonismo entre a sobre-excitação de campo e a percepção de campo enquanto tal. Também sabemos que a percepção de campo interage e depende do cam- po real (sem o campo real a percepção de campo e o campo perceptivo não se manifestam), mas ela não atua ou entra em movimento a partir do pró- prio campo, mas sim a partir das funções dos sentidos perceptivos distanci- ada dos órgãos perceptivos; ou da percepção difusa, ou ainda a partir dos próprios movimentos corporais no espaço. Também sabemos que é pela percepção de campo que ausência flui, por- tanto temos uma parte da percepção de campo comprometida com a au- sência e outra parte comprometida com o campo real e com a sobre- excitação, portanto com a couraça de campo. Sabemos que alguns tipos de encouraçamento do campo permitem a au- sência e outras simplesmente param a ausência ou dificultam o processo de ausentar-se. Também sabemos que quando a percepção de campo, a sobre- excitação de campo ou a couraça de campo desaparecem, mesmo que para dentro do organismo; a sensação de desproteção e de exposição é imedia- ta; portanto a couraça de campo cumpre outras funções no funcionamento virtual do que se contrapor a ausência.

Vale esclarecer que qualquer forma de encouraçamento rígido, isto é, que mantém por um período de tempo o mesmo padrão de resposta para os perigos internos e externos, independente da natureza dos perigos internos e dos perigos externos; e que tem sua própria forma autônoma de se man- ter a si mesmo como couraça; em sua base temos a contraposição de for- ças. Sendo que a primeira observação e diferenciação que temos aqui é que a couraça de campo dos virtuais se fixa, se mantém por algum tempo, mas não se fecha como se fechava a antiga couraça do caráter; isto é, o funcio- namento virtual tem uma forma de couraça flexível e aberta. Ela é extrema- damente dinâmica e pode ir se reformulando ou mudando de direção e de organização da noite para o dia e sem aviso prévio. O que significa que ain- da não temos uma noção clara de quem coordena e nem o que determina as modificações da couraça de campo dos virtuais.

Nossa hipótese para o encouraçamento de campo dos virtuais é que essa couraça de campo virtual unifica de forma contraposta cinco processos di- ferentes.

O próprio campo pessoal (campo de energia real da pessoa e do lu- gar).unifica de forma contraposta cinco processos di- ferentes. A sobre-excitação propriamente dita. R e i n

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As percepções de campo.Alguns conceitos básicos da Arte Org Terapia 2013 percepção difusa, campo perceptivo, campo perceptivo virtual

percepção difusa,da Arte Org Terapia 2013 As percepções de campo. campo perceptivo, campo perceptivo virtual (sobreposto). A

campo perceptivo,2013 As percepções de campo. percepção difusa, campo perceptivo virtual (sobreposto). A O O Sendo que

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Sendo que a base para a organização da couraça de campo dos virtuais é o próprio funcionamento ausente, que induz certo anestesiamento ou parali- sia da periferia periférica; além disto, temos o deslocamento e as fixações de campo e da sobre-excitação. Sendo que este anestesiamento periférico

também pode ser promovido pela sobre-excitação e se encontra entre o corpo e seu campo próprio. Agora uma coisa é compreender estas funções atuando individualmente, outra coisa bem diferente é compreender estas funções interagindo como couraça.

Diante de todas as traquimanhas que já conhecemos da couraça de campo

e das que não conhecemos ainda; a sobre-excitação é a mais fácil de ser

abordada, sendo que ela já trás consigo certa dose de encouraçamento de campo; porém também sabemos que a sobre-excitação não abarca nem uma parte de tudo do que está em envolvido com a couraça de campo; o restante das compreensões das interações do funcionamento da couraça de campo ainda está em compasso de espera. Estamos mais longe ainda de estabelecer uma compreensão funcional da couraça de campo, pois para

isto necessitamos uma prévia compreensão dinâmica. Principalmente quando entre em jogo o campo perceptivo e o campo per- ceptivo sobreposto; neste caso, os esquemas e os acontecimentos fogem da lógica linear, principalmente quando estamos tentando compreender o que ocorre desde fora dos acontecimentos, como neste caso.

O que significa que os fenômenos que giram em torno da couraça de cam-

po (incluindo sua linguagem sensorial e os elementos envolvidos com a prática) são mais ricos e diversificados do que a nossa capacidade de abor- dar entes fenômenos de forma racional e compreensiva ou mesmo funcio- nal.

Como em muitos outros casos, nossa pratica inserida e composta como e- xercícios procedimentos organizados de acordo com o pensamento paralelo da Arte Org pode nos levar muito adiante da compreensão dinâmica ou funcional destes processos. Estas só costumam se manifestar muito tempo depois.

O que significa que já temos um corpo de exercícios procedimentos para lindar tanto com a sobre-excitação de campo como com a couraça de cam- po. Porém, vamos nos limitar nossa abordagem aqui a uns poucos fenôme- nos relacionados com a couraça de campo dos virtuais a partir do que compreendemos da própria sobre-excitação. Veja que até onde sabemos a sobre-excitação mesmo no campo é de natu- reza energética; é precipitada do corpo, parem se manifesta no campo, e, muito provavelmente ela também é coordenada desde o corpo.

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Por sua vez, a couraça de campo dos virtuais é mantida constantemente

pela ação da percepção de campo (de natureza perceptiva difusa), e pela sobre-excitação de campo emanada do próprio corpo para o campo.

O que significa dizer que nossa suposição para a operacionalidade da cou-

raça de campo é a oposição (contraposição ou antagonismo) entre as forças perceptivas difusas e a sobre-excitação de campo. Até onde sabemos a diferença entre o encouraçamento energético (do campo do planeta; do campo da atmosfera; ou do campo dos seres vivos em geral) do encouraçamento de campo dos virtuais é que nestes, não é necessária uma fonte de irritação energética externa; isto é, pode ser assim, mas não necessariamente. O que significa dizer que independente da so-

bre-excitação do planeta, cada virtual individualmente pode produzir sua própria sobre-excitação. Como também pode desaparecer com ela, o que derruba a couraça de campo de um momento ao outro e aí sim temos problemas de todos os tipos, principalmente os relacionados com a exposição, com a insegurança, com os estados de pânico e etc.

O anestesiamento da periferia.

Tanto o ausentar-se como posteriormente a sobre-excitação cria um tipo de anestesia periférica que se supõe que também seja flexível; isto é, que au- menta na ausência e na sobre-excitação e que diminui quando o indivíduo

esta presente e quando consegue metabolizar sua sobre-excitação; sendo que está anestesia ou paralisia costuma ser ampliada pelas desconexões e fixações e nela incluímos a torpeza ou descoordenação da periferia comum a todos os virtuais. No caso da ausência este anestesiamento é necessário para permitir a fun- ção de distanciar-se ou ausentar-se de si, como abrindo as portas do cam- po, para que a percepção difusa possa se deslocar para dentro e para fora da unidade corporal. Agora, na sobre-excitação a anestesia da periferia é uma consequência do bloqueio da descarga. Como a ausência e a sobre-excitação se mostram como funções antagônicas, nós não sabemos se esta anestesia é a mesma nos dois casos ou se são diferentes e sobrepostas. Quanto à forma como se dá à sobre-excitação de campo, a coisa parece um pouco confusa. Por um lado, em alguns casos, podemos acompanhar a libe- ração da onda quente sobre-excitada do corpo para o campo, sendo que isto poderia ser simplesmente a liberação da sobre-excitação corporal su- gada do campo ou induzida no corpo. Em outros casos podemos acompa- nhar a liberação da sobre-excitação do corpo para o campo logo depois de alguns tipos de ausência. Principalmente da ausência sobreposta direciona- da para o contato ausente. Também supomos que alguma função envolvida no próprio ausentar-se pode estimular diretamente o campo energético promovendo sua sobre- excitação. Por exemplo, o nível de sobre-excitação da ausência simples é bem menor do que o da ausência sobreposta.

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A corporalidade (Mim) também pode cumprir um papel ativo neste proces- so; O Mim como identidade corporal também pode assumir a posição de defesa e liberar a sobre-excitação para o campo; mas isto só manifesta de forma mais clara quando a dinâmica das defesas e das identidades envolvi- das já pode aparecer na superfície; pois até este momento o processo pare- ce ser aleatório e automático; mais parecido com a ressaca; bebeu além da conta: tome ressaca. Sendo que até onde podemos acompanhar estes processos praticamente, podemos afirmar que a sobre-excitação de campo não ocorre em todos os casos concomitantes com a ausência ida, mas um pouco depois (a não ser que a pessoa tente se ausentar quando já está sobre-excitada). Neste caso é como se a pessoa começasse a emanar sobre-excitação do corpo para o campo logo depois da ausência; isto é, depois do contacto ausente. Portan- to, a sobre-excitação se encontra mais próxima do voltar para si-mesmo do que do ausentar-se de si mesmo. Agora dependendo do nível de sobre-excitação, da desorganização da au- sência, e de outros fatores como na ausência sobreposta, a sobre-excitação sim se manifesta antes da ausência e literalmente como defesa. Além disto, em outros casos, quando a pessoa começa a se aproximar muito do contac- to ausente o nível de sobre-excitação costuma aumentar e bastante. São poucos os procedimentos que podem paralisar a ausência, a sobre- excitação é um deles, as pressões do “aqui” é outra destas defesas.

Deste ponto de vista, a sobre-excitação encontra-se no princípio de toda e qualquer ressaca virtual e se manifesta como sendo a principal defesa con- tra a própria ausência (ido distante desconectado). Também se encontra presente como um dos principais fatores do encouraçamento de campo. Isto não significa dizer que este processo já esteja satisfatoriamente com- preendido; pois ainda faltam muito para compreender do funcionamento da sobre-excitação em si e da couraça de campo em particular. É importante esclarecer aqui que estamos falando de um processo com muitas e muitas camadas sobrepostas e fundidas e que aqui estamos colo- cando somente um esboço das forças e contra forças nele envolvido. Para começar, é muito difícil investigar o desenvolvimento tanto da sobre- excitação de campo como da ausência, quando as pessoas já se encontram desorganizadas (além da desorganização normal presente em todo e qual- quer funcionamento virtual) ou mesmo ressacosas, estressadas e com des- conexões por todos os lados. Para esta investigação, o nosso ponto de par- tida deveria ser quando as pessoas ainda conseguem se colocarem sim- plesmente ausentes; e, isto está cada vez mais difícil. Em segundo lugar a pessoa deve estar capacitada a acompanhar percepti- vamente e sensorialmente tanto sua ausência como sua sobre-excitação; e isto requer de um largo caminho terapêutico já recorrido.

De acordo com nossa experiência terapêutica, o processo da sobre- excitação de campo pode ser divido em três partes e não necessariamente sequenciadas ou separadas.

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A primeira parte quando se precipita a sobre-excitação no campo pessoal,

fora do corpo, ou do corpo para o campo.

A segunda parte, quando o corpo começa a reabsorver a sobre-excitação

do campo para o corpo, seja sugando do campo a partir do corpo ou em- purrando a partir do campo para o corpo.

A terceira parte, o redirecionamento perceptivo da sobre-excitação para o

campo do lugar ou para a terra (profundidades).

O que sim temos claro é que conforme a pessoa começa a acompanhar a

sua ausência para "nenhum-lugar"; o processo de sobre-excitação fica mais claro e mais ativo, principalmente durante o voltar para si-mesmo e para o aqui do lugar; isto é, sai de sua posição de consequência (ressaca) e aparece mais como defesa; ou melhor, como função antagônica da ausência; que poderia ser chamado de presença energética forçada, ou animistamente falando, a forma que a energia (ou a pessoa; ou parte dela) arrumou para forçar a pessoa a voltar para seu próprio corpo. Também é bom considerar que a nossa política não é atacar a sobre- excitação diretamente, pois ela atua na formação da couraça de campo, e derrubar a couraça de campo, nem pensar, pois isto costuma ampliar as di- ficuldades em todos os sentidos e provocar justamente a desorganização do funcionamento virtual. O que significa que a desorganização do funcio- namento virtual anda junto com a desorganização da couraça de campo; a crescente pressão do "aqui" para além dos limites normais também costu- ma andar de mãos dadas com a desorganização da couraça de campo.

Na Arte Org, a flexibilização da couraça de campo deve ser o mais gradativa possível e vai junto com o desenvolvimento do volume corporal e percepti- vo que são condições funcionais e energéticas que podem substituir o en- couraçamento de campo. Até onde sabemos; a couraça de campo é extre- mamente dinâmica e sensível; não é como o encouraçamento do caráter e nem como a couraça muscular que podia ser flexibilizada. Em primeiro lugar a couraça de campo já é flexível por natureza; aqui substituímos às questões

referentes à flexibilização pelos procedimentos de voltar a fluir e pelas pau- tas da relação consigo-mesmo e entre elas está o aprendizado de se rela- cionar com a própria couraça de campo. Portanto, a nossa política é ir reciclando a sobre-excitação enquanto conse- guimos aprender a lidar com nossas próprias defesas passo a passo.

E para terminar este assunto, a compreensão mais simples que temos da

couraça de campo é que o sistema de contenção, de defesa e de contacto (couraça) se desloca da pessoa para o seu campo pessoal; e deste se coliga ao campo do lugar; sendo que no campo do lugar podemos encontram as nossas coisas; as demais coisas; e, os "outros". Dito de uma forma mais dire- ta, no funcionamento ausente virtual as defesas do "um" se encontram nas

"coisas" e nos "outros". Uma brincadeira que não é nada interessante certo?

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Pois é, que as relações trafeguem pelo mundo das simbioses, dependências

e manipulações já é jogo duro; agora, que a couraça defensiva também es-

teja se deslocando do "um" para o "outro" e vice-versa; eis aqui um assunto que pode colocar eriçado todos os pelos de qualquer Reichiano. Se o fenômeno que deve ser lidado é com o deslocamento da couraça de campo para fora do campo pessoal ou para dentro do próprio corpo; é me- lhor começarmos a tomar providências desde o início.

A primeira delas: - por mais justificado e enraizado que estejam os conflitos

atuais de um virtual no mundo externo; o assunto "deve" ser resolvido no âmbito da relação da pessoa com ela-mesma e esse é o primeiro procedi- mento para conseguirmos deslocar o encouraçamento da pessoa de volta para a pessoa. Em segundo lugar a ética que "devemos" utilizar para conseguir lidar com a situação geral do funcionamento ausente virtual; tanto consigo-mesmo como com os "outros" (sendo o "outro" o "um"; e o "um" o "outro") é a ética das relações de campo no campo do lugar. Que em nossos termos significa:

entrou no campo da pessoa é de responsabilidade da própria pessoa. Sendo que a primeira coisa que a pessoa faz para se livrar desta ética (mesmo não a conhecendo) e estabelecer relações históricas com seu pró-

prio passado de tal forma que possa diluir ou transferir esta responsabilida- de. Isto sem falar na mania de exposição de muitos virtuais que acham que

o passado é como uma vitrine de exposição. Sendo que entre estes temos

os mais desatinados que andam com intenções secretas ou manifestas de alterar o passado para modificar o seu presente.

O que significa dizer que para manter a couraça de campo funcionando de

certa forma flexível à pessoa precisa aprender a ir se responsabilizando por seu próprio campo e por seus estados. Sendo que a forma mais fácil de fa- lar disto envolve duas questões; o sentido de proteção e a sensação de ex- posição. Perder a couraça de campo envolve justamente perder o sentido de proteção e se expor.

Agora do ponto de vista do campo orgone do lugar ou do campo do lugar.

O que sabemos aqui é que uma das providências que o campo orgone at-

mosférico (portanto do lugar) toma diante de fontes energeticamente irri- tantes é enclausurar (criando uma couraça de campo em volta de) a região com a frequência irritante (sobre-excitação) e logo arrumar um jeito para empurrá-la para a terra (sendo que isto já é chamado de direção dór {D. Or.}). Se considerarmos que alguns virtuais com determinados níveis de sobre- excitação podem realmente se transformar numa fonte irritante para o campo do lugar, não vemos porque neste caso seria diferente; ou seja, a tendência do campo do lugar é enclausurar a pessoa num campo, parando sua capacidade de descarga (trocar com o meio) e começar a empurrá-la em direção a terra. O primeiro resultado disto é uma faixa vazia ou isolada entre o campo da pessoa e o campo do lugar. Sendo que este é o tipo de situação que pode promover todo tipo de impressões sensórias e insights (relacionados com o isolamento e com a pestilência) num virtual.

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O que significa dizer que a sobre-excitação do planeta sim pode criar con- dições propícias para a proliferação do funcionamento virtual, e que muitas das impressões, sensações, insights das pessoas corresponde sim a algum tipo de realidade externa; portanto, quando propomos que tudo isto deve ser lidado de acordo com a própria relação do indivíduo consigo-mesmo; estamos querendo dizer que, de acordo conosco, esta é a única posição de onde a pessoa pode fazer alguma coisa, ou tomar algum procedimento (que lhe permita voltar a se relacionar consigo e com seu entorno, que lhe permita voltar a fluir) e que não aumente ainda mais o conflito com ela- mesma.

Funcionalmente falando, antes do campo se manifestar como uma couraça de campo, sua função é manter cada organismo vivo vibrando numa mes- ma frequência, única e unitária. Do ponto de vista energético é isto quem determina que todo o organismo com todas as suas partes funcione como uma unidade, ou comunidade. É justamente esta função que entra em risco quando o campo do indivíduo precisa funcionar como uma couraça. Por outro lado, quando o indivíduo perde sua couraça de campo, a próxima li- nha defensiva se encontra nos órgãos individualmente, e isto se chama cou- raça de órgãos, que pode alcançar o próprio sistema vegetativo. Outra con- dição bastante perigosa para a própria manutenção da vida. Com tudo isto, não é de se estranhar que os diferentes tipos de doenças autoimunes (o organismo atacando a si-mesmo) estejam se proliferando como nunca.

A ressaca e os ressacados.

De acordo com nosso Aurélio eletrônico:

Ressaca:

Refluxo de uma vaga, depois de se espraiar ou de encontrar obstáculo que a impede de avançar livremente.

A

vaga que se forma nesse movimento de recuo.

O

encontro dessa vaga com outra (a saca), que avança para a praia ou para

o

obstáculo.

Brasileiro. Investida fragorosa, contra o litoral, das vagas do mar muito agi- tado.

Fluxo e refluxo; inconstância, versatilidade, volubilidade.

Indisposição de quem bebeu, depois de passar a be-

bedeira. Brasileiro. Figurado. Enfado, cansaço provocado por noite passada em cla- ro.

Brasileiro. Figurado.

De acordo como nosso Houaiss eletrônico:

Forte movimento das ondas sobre si mesmas, resultante de mar muito agi- tado, quando se chocam contra obstáculos no litoral. A vaga que se forma nesse movimento. Regionalismo: Brasil. Uso: informal: Mal-estar causado pela ingestão de be- bidas alcoólicas. Regionalismo: Brasil. Uso: informal: Mal-estar produzido por uma noite passada em claro.

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Derivação: sentido figurado. Inconstância, volubilidade.

Etimologia: do espanhol, saca e ressaca 'retrocesso das ondas', que se apli- cavam ao fluxo e refluxo do mar, quando este lança e torna a sugar os obje- tos que estão junto à orla. Veja que vaga, além de significar “andar vagando por aí”; “lugar vazio; vago; lugar disponível”; significa também “ondas ou cada uma das compridas ele- vações da superfície de oceano ou mar, que se propagam em sucessão umas às outras”. E, além disto, como sentido figurado: “multidão que se espalha ou invade em desordem”, ou “ataque como turba lançada contra forças ini- migas”. E, que saca além de ser o “ato ou efeito de sacar” significa também a “onda que avança para a praia” e o “ato de transportar gêneros ou mercadorias de um lugar para outro”. Veja também que ressacado além de significar que foi sacado novamente; significa também: “tonto, doído, nauseado, por causa de uma bebedeira”; ou, “fatigado por uma noite passada em claro”.

Veja só; é assim que a linguagem vai voltando a fazer algum sentido. Aqui temos dois sinônimos para onda. Quer dizer então que em pri- meiro lugar temos uma onda chamada de vaga do tipo saca que a- taca e investe em direção a praia; que é obstruída de seguir adiante e retorna como uma onda do tipo ressaca e nisto, se encontra com ou- tra onda do tipo saca formando uma ressaca do tipo revoltura. Sendo que é característica ou costume de cada uma destas ondas a ação de levar consigo-mesma uma infinidade de elementos de todos os tipos. Se eu não soubesse que estas definições datam do século XIV eu diria que foram os virtuais que andaram definindo isto.

Fazem parte da ressaca, além das características sensações de desorganiza- ção biofísica parecida com a febre, que costumam acompanhar as bebedei- ras e as noites sem dormir, temos ainda, todas essas sensações velhas e co- nhecidas de peso, de vômito, de coisa estragada, de bílis, de noite sem dormir, de cansaço etéreo, de insatisfação; de inundação de sensações de órgão. Todo esse mal estar em que ao vermos uma pessoa, dizemos: “Aca- bou de passar por uma guerra de campo”; ou “este passou dias e dias plu- gado num computador”. Quando se trata da ressaca, temos a tendência de relacionar a ressaca com algum produto (químico) que seu excesso no corpo promove a ressaca, co- mo o álcool. Porém, se compararmos a ressaca do beber demais, do bailar demais, do falar de mais, do comer demais: as sensações são as mesmas. Agora, os culpados não sãos os mesmos; o que significa dizer que o agente não é o produto (álcool, fazer algo demais) em si mesmo, mas sim algo que ocorre com o próprio metabolismo corporal. Neste caso o produto (álcool, fazer algo demais) é um gatilho que promove algo assim como um tipo de excitação expandida que o corpo não metaboliza ou não processa. Neste caso a ressaca é justamente o processo que se encarrega de metabolizar este algo que ficou no meio do caminho. E neste metabolismo temos tam-

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bém os elementos ou toxinas produzidas pelo corpo para lidar com gatilho (álcool, fazer algo demais).

A ressaca é em primeiro lugar corporal, mas não só corporal. São próprios

da ressaca, os castigos a si-mesmo. Esses procedimentos meio destrutivos, que ninguém sabe de onde vieram e que acontecem por ter-se quebrado algum pacto muito importante consigo-mesmo. E o castigo: alguns dias, semanas, meses ou anos sem o sentimento de Eu; ou dias e dias opacos e sem brilho, com gosto de solidão. Isto quando a pessoa se perdeu de si-

mesmo, a falta de si-mesmo se estampa na ressaca. Porém em outros casos

é diferente, é como se a pessoa voltasse a se conectar consigo-mesma ou

com seu próprio corpo em plena ressaca; o que sim é que este tipo de con- tacto consigo-mesmo não é amistoso e nem acolhedor, mas cheio de cul- pas. Mesmo assim, sem dúvida alguma, é um contacto consigo-mesmo. Faz parte deste quadro o isolamento, fechamento ou ensimesmamento ou qualquer uma destas situações com as quais a pessoa se obriga a ficar en- clausurada. Agora, como era de se esperar, na ressaca, no bode, temos também a proje- ção para o futuro. Essa capacidade de transladar-se para o amanhã, e decla- rar-se incapaz e não merecedor de viver melhor no amanhã, e paralisar o presente por isso. Nesse caso, a ressaca está no agora e seus motivos estão no futuro.

O outro aspecto da ressaca está na própria sobre-excitação, e aqui não sa-

bemos direito quem é responsável pelo o que. Se a sobre-excitação tam- bém promove ressacas ou se ela usa o funcionamento da ressaca com suas sensações para poder se manifestar. O que sim sabemos que no funcionamento virtual elas costumam andar juntas. Também está claro que a ressaca corporal combina com o desloca- mento da sobre-excitação do campo para o corpo; ou com o deslocamento da sobre-excitação no corpo; ou ainda com o deslocamento da sobre- excitação para fora do corpo. Agora, se é o deslocamento da sobre-excitação quem compõe as bases da ressaca ou se a ressaca é quem move a sobre-excitação já não está tão cla- ro. Pelo menos, no caso da parceria entre a sobre-excitação e ressaca, temos claro que o que está sendo metabolizado é a sobre-excitação. Neste caso a sensação biofísica básica para a ressaca é a dessincronia entre o corpo e o campo sobre-excitado. Como por exemplo, que mantém a periferia aqueci- da (sobre-excitação) quando o que necessitamos é um esfriamento, ou res- friamento, periférico. Agora veja bem, quando se trata de bebedeira, de drogas ou mesmo de sair de parranda por ai, como dançando a noite inteira, ou mesmo noites e noi- tes trabalhando quando o certo é estar dormindo, tudo bem, qualquer um pode entender o que está sendo o gatilho da tal ressaca. Porém, o problema é que a ressaca virtual pode aparecer no funcionamento virtual normal sem nenhum destes atributos. Mesmo nestes casos, de acor-

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do com as sensações está mais do que claro, é ressaca; o difícil é entender ressaca do que. Acontece que em alguns casos, o contacto ausente que costuma aparecer no ponto final do ausentar-se também costuma produzir a mesma reação de ressaca corporal, sem por e nem tirar; o passar por sobre si-mesmo na vida cotidiana, ou ir além das próprias possibilidades e as sobre ações do super-homem também costumam precipitar a ressaca. Sendo que a própria ressaca nos indica uma parte da resposta a esta ques- tão, pois ela substitui o voltar para si mesmo, principalmente no que se re- fere ao completar o metabolismo. Algo foi demais, expansão de mais, exci- tação de mais, frequência de mais; ou algo ficou faltando, alguma carga que esteve presente, mas não se manifestou no momento da experiência. Supomos que este algo que foi demais ou que ficou faltando está presente em alguns tipos de ausência; e também está presente no passar por sobre si-mesmo na vida cotidiana; ou nas sobre ações dos momentos de super- homem. Também sabemos que esta parte da experiência que fica incomple- ta desregula o voltar para si mesmo; fazendo que o voltar para si-mesmo e

o processar da experiência se manifeste como ressaca; isto é, a ressaca tam-

bém cumpre a função de voltar para si-mesmo e de restabelecer o contacto consigo-mesmo. Como tanto o momento ausente, como o passar por sobre si-mesmo, como

o momento da atuação do super-homem na vida cotidiana são processos

perceptivos de campo; e como as sensações envolvidas na ressaca são cor- porais; supomos que esta parte do processo perceptivo de campo (vibra- ções, frequências e conexões) que não se completaram; isto é, frequências que ficaram dando voltas pelo campo real ou perceptivo que se deslocam para o corpo, ou se manifestam no corpo; se constituem justamente nas bases sensoriais para o processo da ressaca.

Agora, a ressaca seja precipitada da forma que for; no âmbito de si-mesmo, ela se declara a si mesma como um custo; isto é, a ressaca se manifesta na consciência como um custo; se constitui na forma como a pessoa paga por

ter passado por sobre algum limite imposto por si-mesmo; seja ele biofísico, corporal, perceptivo ou energético. Seja porque bebeu de mais; comeu de- mais; falou demais; se expandiu demais; dançou demais; trabalhou demais; etc. Sendo que no funcionamento virtual ausente continua tendo o mesmo sig- nificado; somente que a pessoa pode ter uma ressaca promovida por sua ausência, ou por suas sobre atuações, usando seu campo perceptivo em sua vida, e ao mesmo tempo projetar seus motivos para qualquer outra situação de sua vida cotidiana; e, com isto anular uma parte do processo ou do me- tabolismo da própria ressaca, que é justamente o dar-se conta do custo en- volvido em suas experiências de alguma forma excessiva.

E com isto a pessoa boicota o próprio metabolismo da experiência; isto é,

sua ressaca deixa de ser efetiva, ou é efetiva apenas em parte. O que signifi- ca dizer que a ressaca também pode ser acumulada, tanto em seu aspecto corporal como em seu aspecto perceptivo; como também pode viciar, pois

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de qualquer forma ela envolve contacto consigo-mesmo; obriga a pessoa a estar presente; e quem não consegue se conectar consigo-mesmo ou voltar

a estar presente como se deve, só resta usar a ressaca para conseguir voltar

para si, ou para pagar as próprias culpas; e nenhuma destas alternativas po- de ser considerada como sendo uma boa ideia. Pois usar o outro para voltar para si-mesmo é uma ideia pior ainda.

Do ponto de vista terapêutico, a reorganização da corporalidade e das per- cepções de campo costuma regular o metabolismo corporal, e com isto as ressacas constantes diminuem e bastante. Da mesma maneira que vários procedimentos direcionados ao estar consigo-mesmo; e outros direciona- dos ao retomar a efetividade das descargas, como é o caso do suar, tam- bém vão gradativamente diminuindo a turbulência das ressacas. Neste caso, o próprio cuidado consigo-mesmo pode ir ensinando a pessoa

a ser mais efetivo com seu metabolismo, o que evidentemente se traduz em

ser mais efetivo com suas ressacas, inclusive descobrindo o que deve ser feito ou o que não deve ser feito para não provocá-las.

A fenomenologia da pressão do “aqui”.

Na Arte Org; o termo pressão do “aqui” é usado para denominar um estar

e um estado do funcionamento virtual, quando este se encontra pressiona-

do e fixado em um de seus polos; somente que neste caso a fixação polar em questão está relacionada com o andar presente, no aqui, pela superfície do planeta terra, vivendo a vida cotidiana (de forma contraposta à ausên- cia); o que para um virtual significa andar enclausurado no aqui e agora ou no próprio corpo. Até a descoberta das pressões do “aqui”, nós pensávamos que nada era ca- paz de parar definitivamente a ausência. Que esta era o mecanismo defensi- vo mais eficiente do qual tínhamos conhecimento. Do ponto de vista reichi- ano, encontrar algo que seja capaz de desmontar em grande parte o encou- raçamento crônico, merece mais do que o nosso respeito. Pois a pressão do “aqui” pode desmontar ou apagar quase que completa-

mente o funcionamento ausente. Com a diferença de que, se por algum motivo a pressão do “aqui” cede, o funcionamento ausente volta a se mani- festar.

Andar pressionado e se pressionado; fixado e fixando-se é uma característi- ca do funcionamento virtual como um todo; da mesma maneira que andar tentado plasmar o mundo ou os outros ou fazer com que o mundo e os outros funcionem de acordo com as próprias tendências e anseios é uma mania que abarca a maioria dos virtuais. Neste caso, o que identificamos com sendo a pressão do “aqui” operando como sendo uma forma específica de funcionar (dos virtuais) de certa forma antagônica ao próprio funcionamento virtual; é nada mais do que a caracte- rização (como um bloco compacto) e a especificação de algumas das ten- dências já presentes no funcionamento virtual que abarcam o funcionamen-

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to das pessoas como um todo e que colocam as pessoas funcionando pres- sionadas em seu cotidiano. Portanto, a pressão do “aqui” é um estar ou um estado pressionado (pres- sionando a pessoa e o aqui e agora cotidiano); que costuma manifestar sen- sações e sentimentos relacionados com o estar que se manifestam como sintomas corporais ou como sintomas psicossomáticos. Entre as sensações corporais as mais comuns são: a pressão no peito, a falta de ar, a ansiedade, dores nos músculos pertos dos ossos, nos nervos, nas veias e nas juntas. Entre os sentimentos ou estados de espírito que se expressam como uma atitude generalizada está o de prisioneiro das circunstâncias (prisioneiro de si-mesmo disfarçado) que nos imprime uma sensação de que a pessoa se encontra como um animal enjaulado querendo escapar a qualquer custo; Por uma parte, ocultamente ansiando, nostálgico e com saudades de si- mesmo e de um lugar tranquilo e inalcançável para si-mesmo; em busca de estímulos externos que a salve destas sensações (que possibilite sua volta à conexão ausente) onde a pessoa se mostra disposta a modificar a qualquer custo seu ser e sua existência para conseguir estar com os outros. Isto quando a pessoa não está cansada e esgotada; desgastada e estressada; o que pode desaparecer com todas as outras manifestações. Por outra parte, a pessoa está decidida a permanecer agarrada no “aqui”, direcionada para conectar-se com as coisas e os outros a qualquer custo, refratária a distra- ção difusa e a qualquer procedimento intermediador. Pressionando as fun- ções focais para além dos limites, e por isto, sem “sem contexto” e sem o “todo”.

Isto é, quando vemos uma pessoa num estado emanando uma impressão de pressão; e que corporifica ou que apresenta aspectos corporais desta pressão como, por exemplo, a impressão de que a pessoa está enjaulada; sem conseguir ficar mais no lugar onde se encontra ou com uma necessi- dade de sair escapando em qualquer direção, junto com a decisão de não sair do lugar; esta pessoa bem pode estar neste estado que chamamos pressão do “aqui”. Nos momentos mais críticos a sua respiração pode se mostrar suspensa no momento inspiratório e ao mesmo tempo empurrando o ar para fora com os demais órgãos, como se estivesse bufando, afogada; como se o ar do meio ambiente tivesse ficado rarefeito; sendo que muitas vezes manifesta esta pressão literalmente com dores no peito como se fosse ter um ataque cardíaco. Uma pessoa pressionada no “aqui” geralmente está perdendo os limites na- turais e separadores de sua vida cotidiana. Isto é, estão desaparecendo as diferenciações mais básicas como noite e dia; local de trabalho e casa; m o- mento de trabalhar e restante da vida cotidiana; amigos pessoais e compa- nheiros de trabalho; momento de trabalhar; momento para “e star” com a família; momento de laser; momentos de estar consigo-mesmo. Vira tudo um puro bloco.

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As atividades costumam se transformar num contínuo onde geralmente o polo central é o trabalho; ou uma situação de relação (eu-outro) ou direta- mente relacionada com um lugar, como a própria casa. Seja como for, quando uma destas posições se transforma no polo central, ela ocupa o lu- gar da abertura; imediatamente aparece a retirada (consigo-mesmo) como posição contrária, que ocupa o lugar do se fechar. Não é que os virtuais em outros polos de seu funcionamento tenham sua vida cotidiana separada e relativamente organizada, pois a situação virtual como um todo costuma ser invasora e consumidora da vida cotidiana. Po- rém, na pressão do “aqui” a tendência é compactar mais, diminuindo a di- versidade, transformando um dos elementos da vida cotidiana no elemento central, que vai ocupando o espaço restante e sugando o tempo e a dispo- nibilidade de todas as demais atividades. Geralmente a pessoa está diante de uma crise de identidade pessoal ou profissional, com sua realização pessoal projetada para a situação que ocu-

pa o polo central (local de trabalho; chefes; parceiro ou parceira, ou mesmo

a posição de profissão desempregado); como se em todo lugar que pessoa

se encontra, ela estivesse olhando para a situação que virou central que e-

videntemente vai se transformando em zona de guerra, cheia de conflitos; e isto aumenta a necessidade da pessoa promover modificações a si-mesma, inclusive no próprio ser; pensando ou acreditando que com isto pode resol- ver estes conflitos e preocupações. Tanto a situação interna como as situações externas tomam um cunho de- terminista e competitivo e reaparecem na superfície antigas emoções como

o ciúme e a inveja, a pessoa fica mais propensa a ficar pegada emocional-

mente. Na pressão do “aqui” as antigas pautas de ir para fora e ir para dentro rea- parecem incluindo coisas tão antigas como a emoção angústia e as dificul- dades relacionadas à expansão e a descarga periférica, e isto se traduz dire- tamente em dificuldades no funcionamento sexual. Como a ausência que era a encarregado do alívio não funciona mais e como o retomar o metabo- lismo corporal no aqui e agora não é nada fácil, o que temos é uma bomba

ambulante pronta para explodir.

O que significa que na pressão do “aqui”; tanto a pessoa pode aparecer fi- xada emocionalmente como as emoções podem desaparecer de vez; po- dem se secar ou se inflamar como qualquer outra aspecto da vitalidade da pessoa ou de seu próprio corpo.

O que sim está claro é que a pessoa está o tempo todo a um passo de per-

der seu próprio campo perceptivo e com ele seu campo energético ou campo real; se é que já não perdeu. E, além disto, toda a percepção ligada ao contexto; ao lugar; principalmente a percepção relacionada com o cam- po intermediário; com o entorno; também estão as beiras do desapareci- mento; junto com a vida relacionada com as salas; com os livings; com tudo

aquilo envolvida com o campo do meio inclusive as relações interpessoais ou pessoais e principalmente a capacidade de compartilhar. Geralmente podemos somar a este funcionamento crises financeiras de lar- ga duração.

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Sendo que a percepção de uma pessoa pressionada no “aqui” só pode cui- dar de uma coisa por vez; geralmente relacionado com os afazeres cotidia- nos. Isto é; desaparece a esperança; os projetos e os anseios ligados ao ho- rizonte e para além dele; como também desaparece a capacidade virtual de lidar com várias atenções ao mesmo tempo; e mais, a pessoa se coloca re- fratária quando necessita dividir sua atenção. Em termos gerais podemos dizer que, na pressão do “aqui”, a pessoa cos- tuma reduzir seu universo e perder seu horizonte (a perda do contacto com o horizonte e com o céu é literal); sua vida vai ficando plana e achatada; mui- tas vezes quando combina com alguma crise, como a de separação, a pes- soa costuma assumir uma posição desolada e depressiva se restringindo ainda mais; somente consegue dar atenção para as preocupações mais co- muns, como por exemplo, as tarefas do aqui, com metas curtas e reduzidas,

e não consegue lidar com temas que acha transcendente.

Toda sua flexibilidade virtual também se reduz. Cresce em igual proporção à pressão da autonomia e a pressão de si- mesmo e a pressão de se expor e a exigência a si-mesmo. Aumentam as dificuldades para estar consigo-mesmo e para realizar projetos onde a pes- soa dependa de si-mesma e as dificuldades para tomar decisões, isto é, au- menta a dependência seja de pessoas, das coisas, das drogas ou dos luga- res. Na pressão do “aqui” a necessidade da aprovação externa, principalmente das outras pessoas que ocupa um lugar central nas preocupações e fixações (comumente os chefes ou chefas ou os parceiros) cresce em igual propor- ção com as pressões, isto é, quanto mais pressionada no “aqui” está uma pessoa, mas ela depende da aprovação externa. Na pressão do “aqui”, tanto a baixa autoimagem como a baixa autoestima pode alcançar pontos críticos e na mesma velocidade com que se instala a pressão do “aqui”; independente do que a pessoa fez ou deixou de fazer para derrubar ou para levantar a autoimagem e a autoestima. Em termos de fixação, apesar de que o comum de todas as fixações é apre- sentar sempre uma situação ou outra onde à fixação projetiva está mais lo- calizada; nas pressões do “aqui” é como se a pessoa tivesse fixado sua exis- tência inteira e, junto com ela, seu cotidiano, e seu corpo. É por isto que falamos que uma pessoa fixada na pressão do “aqui” perdeu seu funcionamento paralelo (imprimido pelo ausentar-se de si-mesmo); perdeu ou compactou seus espaços intermediários, seja o espaço interme- diário geral entre o funcionamento virtual ausente e a vida cotidiana, sejam os intervalos intermediadores em sua própria vida cotidiana. Neste momen- to a pessoa costuma parar de fazer seus hobbys; seus exercícios; sejam estes de qualquer tipo e junto com eles também desaparecem suas atividades intermediadoras e /ou animistas.

A seguir colocamos alguns elementos descobertos pela Arte Org relaciona-

dos com o funcionamento e com a compreensão das pressões do aqui. Porém e necessário esclarecer que estes elementos não estão a simples vis- ta; isto é, são subjacentes; pois o que aparece de forma manifesta na pres-

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são do aqui são os estados e seus sintomas; pois as fixações se encarregam de apontar e projetar todo o resto para longe da pessoa ou para fora de seu próprio âmbito ou contexto. As investigações da capacidade de se ausentar nos pressionados no “aqui” indicam que a pressão do “aqui” se encontra no polo oposto da ausência; para ficar ausente, a pessoa necessita mudar de lugar, de estado ou de polo. Não como no funcionamento virtual normal que apresenta a possibilidade de se mover (mesmo que de forma desconectada) de um polo para o outro; onde mudar de lugar passa por mudar de plano ou de vibração; sendo que o corpo pode estar no mesmo lugar. Mas no caso da pressão do aqui, o corpo necessita de sair literalmente da configuração tempo espacial onde se encontra. Quando isto não pode ser feito perceptivamente, a situação como um todo, incluindo as pressões e as fixações, tende a se corporificar transformando-se em físicas, em concretas. Neste caso a pessoa começa a se mostrar com aspecto de cansada; mais estressada por assim dizer, e junto com isso começa operar o cansaço crôni- co.

Isto significa que a pessoa quando pressionada no “aqui” anda concreta- mente se deslocando de um lugar para o outro sem modificar sua noção perceptiva de lugar, permanecendo no mesmo lugar, isto é, sem sair do es- tado que se encontra. Significa também que seu campo perceptivo está se sobrepondo ao campo dos lugares; algo assim como um esforço perceptivo de campo (com a per- cepção de campo) para fixar também o campo do lugar. Também significa que a pessoa não está conseguindo soltar sua noção de lugar para poder ficar ausente e que sua ausência está direcionada também para conceber uma noção de lugar; não como no funcionamento virtual normal onde o lugar que a pessoa se dirige quando fica ausente é “nenhum lugar”. Também significa que seu universo paralelo está com endereço concreto, com latitude e longitude fixadas no planeta. Isto é, a pessoa se perdeu em sua ausência ou sua ausência deixou de produzir a noção de universo para- lelo, de estar em dois lugares ao mesmo tempo. Não é que a pessoa não se ausenta; ela se ausenta sim; de forma desconec- tada ou indo para baixo; para as profundezas. Na verdade; qualquer descanso; como no caso de uma atividade física; qualquer oportunidade é usada para se ausentar, de preferência se desco- nectando. Mas sim o contexto que costuma acompanhar a ausência; inclu- indo suas frequências desaparecem. Vira uma ausência sem seu sentido di- fuso; que opera de acordo com os padrões do aqui (ausência do aqui) que por sinal é uma das ausências mais difícil de ser coordenada. A pessoa quando consegue sair do tema onde se encontra fixada; ou seja, quando consegue se afastar das preocupações que tomaram o centro de sua vida; ou quando começa a se desfixar e se distanciar; gasta uma grande parte de sua energia ruminando sua forma de ser, e remoendo sua própria história. Também aumenta sua demanda para que as outras pessoas falem

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ou façam referencias sobre sua pessoa, sua forma de ser, seu comportamen- to ou mesmo sobre sua identidade; mesmo que estes comentários sejam pesados, invasores ou destrutivos, tipo fale mal, mas fale de mim; da mesma maneira que aumenta a necessidade de receitas de vida; ou de formas de atuar nesta ou naquela situação. Quando estas mesmas pessoas (que estão começando a se despressionar) falam de si, costumam ser extremadamente duras com elas-mesmas, ou mesmo maldosas consigo-mesmas. Além da suposição de que a fixação começou a ceder, mas a pressão continua operando, também supomos que

a desfixação revela algumas camadas de apreensão; sendo que tal apreen-

são na maioria das vezes não aparece de forma manifesta, deixando a ideia

que a pessoa está se defendendo (como na antiga couraça) sem conseguir formar uma ideia que está se defendendo e nem do que.

O que é realmente interessante, pois as manifestações das defesas no fun-

cionamento virtual normal não apresentam nada de parecido com as anti- gas couraças.

O que ainda não sabemos e se estas tendências estão sempre operando por

baixo das pressões do “aqui”, se elas só aparecem com a desfixação ou se são procedimentos que a pessoa usa quando está compondo seu quadro pressionado no “aqui” e logo desaparecem para aparecerem novamente quando a pessoa está se desfixando. O que está claro é que os pressionados no “aqui”, ao que parece, não gos- tam muito de se livrar de suas fixações e pressões; sendo que as sensações de alívio por estar relativamente fora das pressões do “aqui” só aparecem depois de algum caminho andado; e mesmo quando um tanto fora da pres- são do “aqui” retomar a ausência não é tão fácil.

Quando a pessoa consegue se soltar um pouco mais de suas pressões e fixações do “aqui” ela nos revela um conflito desnorteador, estranho, sem sentido e óbvio ao mesmo tempo, como é característico do funcionamento virtual. Quando as demais fixações cedem; o tema da pressão do “aqui” se trans- forma na relação que as pessoas estabelecem com alguns lugares de suas

vidas, particularmente com suas casas. A pressão é a estar consigo, encon- trar-se consigo-mesmo. O conflito se dá entre o poder estar consigo em qualquer lugar ou ter um lugar especial e único para estar consigo-mesmo, onde uma força definitivamente anula a outra e vice-versa.

A estranheza que nos referimos é ao paradoxo proposto por toda a situa-

ção, a pessoa está ao mesmo tempo completamente fóbica de si-mesmo e dos lugares, sem possibilidades de estar conectado com ela mesma seja aonde for que estiver; decidida a permanecer no mesmo lugar e direciona- da a escapar de qualquer forma de si-mesma e do lugar em questão. En- quanto que por baixo; nos bastidores da pressão do “aqui” por assim dizer;

à pressão sobre si-mesmo é a estar consigo-mesmo; num lugar físico espe-

cial; de um jeito especial.

E o mais estranho é que a passagem do estar pressionado de forma genéri- ca para estar pressionado de forma específica consigo-mesmo num lugar

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ocorre de forma direta sem passar pela ausência, mesmo que a pessoa este- ja se ausentando. O que significa que é uma sobreposição do voltar para si- mesmo e para o mundo quem sobrepõe e direciona as pressões e fixações para a o “aqui”. Agora, o mais estranho de tudo isto é que muitas pessoas as quais acom- panhamos este processo terapeuticamente; a conexão consigo-mesmo num lugar especial tinha ocorrido de fato; isto é, a pessoa, num determinado momento de sua vida, por necessidade e moto própria, conseguiu achar um jeito de estar consigo-mesma num determinado lugar e sozinha; e este con- tacto foi tão importante que a conexão consigo-mesma neste lugar ficou gravada como direção, mesmo que depois a pessoa teve que achar um jeito de apagar de sua memória tudo isto. É por isto que nós propomos que na base das pressões do “aqui” temos a direção do voltar para si-mesmo (do mundo ausente) sobreposta pelo con- tacto consigo-mesmo num determinado lugar. Em outras palavras, para que a pessoa volte a poder estar consigo-mesma em qualquer lugar ela precisa soltar a conexão consigo-mesma fixada a um lugar físico e concreto. Neste mesmo polo da terra, de volta para si-mesmo; oposto a ausência; a pressão do “aqui” convive com outras formas de funcionar ou de se organi- zar; começando pela sobre-excitação de campo e logo a ressaca virtual que se encontram interligas, sendo que podemos ter sobre-excitação sem ressa- ca, mas não ressaca sem sobre-excitação. Sendo que tanto a sobre- excitação de campo como a ressaca virtual ainda convive com o funciona- mento virtual normal. Depois disto, se a pessoa segue a direção do agarrar-se ou ancorar-se no lado de cá, do aqui e do agora, a coisa já se coloca na categoria dos pesos pesados; a pessoa e seu funcionamento deixam de ser caracterizados como funcionamento virtual para se constituir ou se manifestar como sendo do tipo pressionado no “aqui” ou numa das formas da estruturação virtual (es- truturas virtuais).

A pressão do “aqui” não se constitui num estado onde temos os níveis mais altos de sobre-excitação e de ressaca, principalmente da sobre-excitação de campo. Muito pelo contrário, a pessoa quando está pressionada no “aqui” parece que guardou sua sobre-excitação e sua ressaca em algum lugar; seja este um lugar externo (como o próprio quarto, onde neste caso cresce as dificuldades de manter o quarto ventilado, claro, limpo, e ordenado) ou dentro de si-mesmo, no corpo ou pegado ao sistema de ressonância (e nes- te caso a sobre-excitação aparece como irrupções alternadas tipo hora na cabeça, hora no peito e hora na barriga).

Quanto às funções perceptivas de campo, na pressão do “aqui” a pessoa está mais próxima de perder as defesas de campo; se já não perdeu; seja por retirada para dentro de si-mesma, seja por desgaste das percepções de campo: seja por ter suas funções de campo fixadas em algum outro polo. Agora, para o funcionamento virtual em geral seja de que tipo for; perder as

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defesas do campo perceptivo costuma derrubar a couraça de campo; e quando isto acontece é colapso na certa. Pode ser que este seja justamente o ponto onde o funcionamento deixa de ser pressionado no aqui para se manifestar como pessoas perdidas de si e do “aqui”. Tipo de funcionamento denominado como sendo a secura vazia de si-mesmo; ou então para se transformar num tipo ou outro de estrutura virtual (apesar de que sabemos que em alguns casos a pessoa pode passar diretamente para o território das estruturas virtuais sem passar pelas pres- sões do aqui).

De acordo com o que conseguimos compreender das pressões do “aqui” podemos postular que:

Em primeiro lugar, a pressão do “aqui” tem a direção de voltar para si- mesmo. Em segundo lugar, devemos esclarecer que nem todas as formas de voltar para si mesmo passam ou ficam fixadas na pressão do “aqui”. Ainda bem que existem alguns outros caminhos para voltar para o “aqui”; onde a situação é mais paralela e menos pressionante e pressionada se não seria um verdadeiro desastre este tal do “aqui”. O problema e descobrir por onde andam estes tais caminhos; e como se- gui-los quando já estamos fixados e inundados. Da mesma maneira, temos outras formas de voltar para si-mesmo e direcionar-se para a relação com o mundo; algumas delas mais complicadas do que na pressão do “aqui” como é o caso das estruturas virtuais. Em terceiro lugar, propomos que a pressão do aqui está polarmente locali- zada numa direção de conexão do tipo horizontal; com três polos no limite de seus domínios, um fechado, um intermediário e um aberto; que se en- contram transversais aos polos da ausência que tem sua direção de conexão para cima e para baixo. Isto não significa que os pressionados no “aqui” manifestem uma conexão com o horizonte, pois não é assim; e mais, uma das grandes dificuldades do trabalho com os pressionados no “aqui” é sair da conexão polarizada nos polos do aqui (fechado, intermediário e aberto) ou mesmo para baixo e re- tomar a conexão orientada para o horizonte; mas sim significa que sua ori- entação é horizontal; e antes de direcionar-se para cima ou para baixo, a conexão precisa alcançar os horizontes. Mesmo quando temos os pressionados no “aqui” funcionando como tatus escavando para baixo da terra; isto é bem diferente da ausência de baixo onde a pessoa está atraída ou direcionada para baixo; no caso dos pressio- nados no “aqui”, eles estão sendo empurrados para baixo por suas próprias pressões. Quanto à gênese das pressões do “aqui” supomos que ela se manifesta em primeiro lugar nas conexões da pessoa com o campo do meio ou polo in- termediário (nestes termos, nas salas e nos livings); de onde a pressão vai se alastrando ou se deslocando para o polo aberto (lançado na vida) e se retira para o polo fechado (ensimesmado ou se enterrando).

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Alguns conceitos básicos da Arte Org Terapia

2013

Em outras palavras, nós supomos que a pressão do “aqui” antes de se mani- festar na conexão da pessoa nos lugares como polos ela tem um largo re- corrido; supomos que ela tem seu início numa crise de contacto ausente, isto é, do território ausente, voltado da ausência; e neste voltar passa pelos espelhos do campo, ou sobreposição do campo do lugar (escuro do campo do lugar) de onde se direciona para o campo do lugar; e deste para os luga- res físicos; e deste para os “outros”, o que está de acordo com nossas supo- sições e observações que no funcionamento virtual, na maioria das vezes esses processos são gerados de forma sobreposta; isto é; primeiro são compostos nas funções de campo e logo se ancoram nas funções mais ob- jetivas. Com isto também propomos que nos pressionados no “aqui” a polarização vertical (ausência de cima, presença do meio, ausência de baixo) está inibida ou obstruída. Isto não significa que as forças que se movem nas polaridades verticais não estejam presentes na pressão do “aqui”, afinal uma pressão é justamente assim, tendência de um lugar empurrando em outro lugar para se dirigir para outro lugar. E, ao que parece, a pressão do “aqui” é justamen- te isto, uma forma de estar pressionando por todos os lados e pressionando

a si-mesmo em direção ao próprio lugar; o que resulta numa contra pressão

para os demais polos. Uma força agarrada no aqui, dizendo daqui eu não saio: outra força empur- rando para um dos polos da vida (aberto) dizendo e lá que as grandes mu-

danças devem acontecer; e outra força puxando para o polo fechado como

o último e único reduto de descanso que diz que a pessoa precisa se cuidar,

estar consigo, se reparar o que transforma o polo fechado num pequeno

escuro do campo do luga r. Para cima, com o teto fechado; como nestes dias que não podemos levantar voo; mas também pressionando com anseios dos tempos idos, dos momen- tos livres vagando sem compromisso; e para baixo outra força de atração que nos lembra de que a vida está passando e que não estamos realizando nada, que na verdade estamos secos, densos, sem v