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A QUESTÃO DA OBJETIVIDADE JORNALÍSTICA

- por Eduardo Carli de Moraes -

INTRODUÇÃO

O que se segue não é exatamente um trabalho acadêmico repleto


de citações de outros autores e estudiosos: centenas de obras
semelhantes já foram publicadas por gente muito mais competente e
estudada do que eu, o que tornava esse projeto um tanto descabido.
Também não é algo que tenha a pretensão de ser ciência fria, racional e
universalmente válida. É muito mais de um pequeno ensaio opinativo,
manifestamente pessoal, no qual eu procurei expor aquilo que penso
sobre a questão da objetividade jornalística depois de inumeráveis
discussões sobre o assunto acontecidas durante os anos de universidade,
depois do contato com algumas opiniões de estudiosos sobre o assunto,
e, claro, depois de algum tempo de meditação sobre o dilema. O estilo
subjetivo que adotei aqui, se bem que passível de ser criticado como
“pouco científico”, está de acordo com as conclusões tiradas neste
mesmo ensaio. Pois não se trata de dizer a Verdade sobre a questão da
objetividade, Verdade esta que eu não tenho a pretensão de possuir, mas
sim de expor minha visão particular sobre o assunto, meu entusiasmo por
uma forma alternativa de jornalismo (um tanto desvinculada da obsessão
pela neutralidade), e uma sugestão, que virá em seu devido tempo, de
que o reinado do relativo é preferível ao reinado do absoluto.

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A questão da objetividade jornalística é um daqueles dilemas
eternos que não cessam de atormentar a mente de todos aqueles que
exercem o jornalismo, que o estudam como fenômeno ou que o
“consomem” com um olhar crítico. O fato é que o jornalismo,
especialmente aquele da grande mídia, procura tradicionalmente seguir
à risca, com um devotismo quase fanático, o dogma da objetividade,
muitas vezes sem questioná-lo antes de maneira apropriada. Costuma-se
tomar como pressuposto que a “neutralidade”, a “imparcialidade”, a
“objetividade” são facilmente acessíveis às criaturas humanas em geral e
ao jornalista em particular, não havendo grande dificuldades ou
obstáculos impedindo a expressão do “fato como é”. Mas cumpre
perguntar: o que se entende por “objetividade”? Ela é acessível ao
jornalista e aos homens em geral? Alguma criatura é capaz de ver o
mundo sem nenhuma intervenção de sua subjetividade? Existe um olhar
absolutamente "puro" que não se deixa nunca contaminar por opiniões
pessoais, preconceitos arraigados, crenças ancestrais ou predisposições
sentimentais?
O fato é que a grande mídia assenta sobre o alicerce da crença na
objetividade como a cabeça assenta sobre o pescoço. As notícias, nos
grandes veículos de comunicação, seguem ordens muito precisas: devem
sempre ser impessoais, com o jornalista forçando-se à frieza (diria até
mais: à indiferença...) e preocupando-se em nunca deixar-se levar pelo
lado emocional. O fato deve ser descrito como é, não como o jornalista
gostaria que fosse. Não como o jornalista desejaria levar o leitor a crer
que foi. Não como os donos do jornal ou os editores gostariam de
distorcê-lo para atender a interesses quaisquer (financeiros, ideológicos,
de amizade etc.)... Os manuais de redação dos grandes jornais não
mentem: o imperativo categórico manda evitar todo texto em primeira
pessoa, toda adjetivação excessiva, todo tipo de apontamento demasiado
pessoal, qualquer espécie de opinião explícita. Como se o jornalista
devesse se metamorfosear magicamente em uma criatura totalmente
desprovida de afetos, de interesses e de opiniões, a fim de checar o fato
e retransmiti-lo aos leitores com uma total neutralidade (suposta como
possível...).
Com isso oferece-se ao público a idéia de uma imprensa neutra, que
estaria para além das lutas ideológicas e dos interesses, e que trataria
somente de "dizer a verdade" com um completo desinteresse a respeito
das consequências desta. É até interessante notar que os espaços
dedicados à opinião nos grandes jornais (os editoriais e as matérias de
colunistas) são fortemente demarcados, como se se quisesse provar que
estão restritas a um território muito bem delimitado. Seria possível ler
nisso um desejo secreto do jornal ou da revista de provar que só naquele
local, e em nenhum outro, iremos encontrar algo que fuja ao neutralismo
reinante. Sustenta-se que há uma ruptura brusca, uma diferença
inconciliável, uma diversidade fundamental de natureza, entre os textos
opinativos e os textos informativos, estes últimos estando totalmente
purificados de qualquer intromissão de indesejáveis elementos
subjetivantes... “Opinião é só nas primeiras folhas!”, podemos imaginar
um leitor menos crítico a sustentar, “O resto é só informação!”...
Mas será assim mesmo que as coisas se passam na realidade? As
notícias são tão completamente livres de opinião, de editorialização, de
subjetividade, de interesse? Ou não será muito mais provável que as
notícias prentensamente “neutras” escondam nas entrelinhas, nas
profundidades de seu sentido, no vocabulário utilizado, na perspectiva
adotada, uma visão de mundo bastante particular? E, se é verdade que
toda notícia esconde ao menos um fragmento, uma gota, um grão de
opinião, não será um tanto desonesto (para não dizer hipócrita e
pretensioso...) sustentar que não há nenhuma “poluição opinativa” por
trás do que se informa? Não seria agir com muito mais boa-fé deixar claro
para o público que o jornalista não é nenhum super-homem e que,
muitas vezes, pode acabar por distorcer (até mesmo involuntariamente)
uma notícia por causa de uma subjetividade “intrometida”?
Quem trabalha com edição em jornalismo, ou que já estudou-a como
um fenômeno, sabe bem o quanto a imparcialidade é um mito que não se
sustenta quando investigado em pormenor. O editor automaticamente
impõe uma visão particular ao selecionar aquilo que vai ganhar espaço no
jornal e o que vai ficar de fora, ao decidir o espaço que cada matéria
poderá utilizar, ao escolher as fotos que irão ser veiculadas e suas
posições nas páginas, as palavras que são permitidas e as que são
proibidas, a perspectiva que o repórter deve adotar para tratar de certo
assunto, que fragmento da cena deve “iluminar” com um jato de luz e
que canto do palco deve tentar “obscurecer” e fazer passar
desapercebido...
Uma verdade sutil que permanece muitas vezes sem ser notada: não
é somente pelo que se diz que se pode perceber a parcialidade, mas
também por aquilo que se deixa de dizer! Omitir algo de importante – ou
oferecer um espaço menor, um destaque menos pronunciado, a algo que
mereceria os holofotes.... – também é um modo, sutil mas capcioso, de
parcializar o jornalismo.
Também o modo de dizer, muitas vezes, acaba por deixar explícita
a intenção do jornal. Um exemplo clássico: órgãos de imprensa que são
contrários ao Movimento dos Sem-Terra e que se ocupam
costumeiramente de fazer ataques violentos ao movimento, disfarçados
de jornalismo objetivo, costumam se referir sempre, por exemplo, às
“invasões” que os “arruaceiros” e “baderneiros” do MST cometem contra
os “injustiçados” latifundiários... Já a imprensa que já vê com mais
simpatia esse movimento social, que está de acordo com as
reivindicações por melhor distribuição de terras no país, utiliza-se de um
vocabulário bem diverso, sempre sublinhando, por exemplo, que certa
fazenda “improdutiva” foi “ocupada” pelos “mártires da justiça social”
do MST, em sua luta contra a “ganância” de latifundiários “bilionários”
que querem manter propriedades gigantescas para si enquanto milhares
morrem de fome...
Dezenas de outros exemplos poderiam ser enumerados para
mostrar como, em muitos casos, o jornalismo, mesmo que aparente ser
“neutro” para um leitor menos atento e menos crítico, está sim tomando
uma posição política em favor de certo partido, certo movimento social,
certa figura pública, em detrimento de outros partidos, outros
movimentos, outras figuras públicas.
O jornalismo, por definição, tem a importante função social de
tornar públicos os acontecimentos sociais, políticos, econômicos e
culturais que ocorrem em determinada comunidade, tornando-os
explícitos aos moradores desta comunidade. O jornalismo, exercendo
essa função de dar publicidade ao que é de interesse público, seria como
uma entidade fiscalizadora do poder. O problema é que a grande mídia
não consegue nunca se restringir a esta função quase policial (por assim
dizer), isto é, a função de sempre atentar para o que está sendo
realizado nos bastidores do poder, permitindo que a sociedade esteja
cônscia das ações dos representantes que coloca no governo
(considerando a democracia representativa). Não: ao invés de somente
observar o que se passa e narrá-lo para seus leitores, como um
observador não engajado na luta política, o jornalismo se enfia no meio
da política, se engaja em favor de algum partido ou movimento, e se
torna uma força política efetiva.
Mas cumpre perguntar: é uma decisão honesta a que tomam os
grandes veículos de comunicação em se pronunciarem neutros? Agem de
boa-fé ao se pretenderem “objetivos”? Não seria mais sincero, mais
ético, admitir que há sim interesse e engajamento por trás dos conteúdos
prentensamente “neutros”? Não seria “jogar limpo” com o leitor?
Sem dúvida que não ignoramos que existe uma outra fração da
imprensa, notavelmente menos bem sucedida em vendagens e em
sucesso popular, que não segue à risca esse modelo de jornalismo (e que
até se manifesta como nitidamente contrária à obsessão pela
neutralidade). Trata-se, por exemplo, da imprensa militante de esquerda
ao estilo da revista Caros Amigos, a qual sempre se pronunciou como
explicitamente parcial e integralmente opinativa, sendo que todos os
textos são assinados e de inteira responsabilidade do articulista. Uma
crítica que poderia ser feita a essa outra concepção de jornalismo é que
também estes jornalistas, muitas vezes, caem no dogmatismo. A
pretensão de ser o dono da verdade se encontra dentro das mentes de
muitos jornalistas que só escrevem opinativamente, ou seja, um espaço
que deveria ser tomado como um local para uma manifestação subjetiva,
particular, perspectivista, acaba por ter a pretensão, muitas vezes
exagerada e descabida, à universalidade.
Talvez o problema esteja justamente numa certa falta de ceticismo
dos jornalistas e grandes editores quanto às possibilidades humanas de
captar a Verdade e transmiti-la; em outras palavras, talvez o jornalismo
seja um meio demasiado cheio de profissionais que acreditam com todo o
fervor que são capazes de enxergar a Realidade em si, que se crêem
donos de uma espantosa capacidade de agarrar o verdadeiro com seus
abençoadas olhos imaculados e exibi-lo para os outros, sem que nunca
tenham chegado a suspeitar que uma alta taxa de “contaminação
subjetiva”, de ilusão, de distorsão, pode estar misturada à essa
representação perspectivística da realidade que tomam por uma
Verdade.
Dois milênios e meio de filosofia no Ocidente deveriam ter tornado
os jornalistas um pouco menos confiantes em sua capacidade de penetrar
no “Real em Si”. A tal da realidade objetiva, nos dizia já Kant, é
inacessível à razão humana. O que vemos do mundo é uma construção
subjetiva, particular. Não somos capazes de facilmente descobrir a
verdade objetiva: há diversos "mundos subjetivos", interpretações
pessoais dos fenômenos. A mídia pretensamente "imparcial" adora
publicar verdades tidas como universais e "fatos" supostamente certos e
indiscutíveis, o que me parece prova de uma certa falta de humildade
para admitir as limitações do conhecimento humano. Não seria mais
honesto, mais tolerante, mais humano, que o jornalista não proclamasse
em terceira pessoa as verdades do mundo e a essência da realidade, mas
se ativesse a falar sobre sua verdade pessoal e a idéia que faz da
realidade?
É preciso chegar à percepção de que os desejos, os
pensamentos, os sentimentos, o caráter, a moralidade, o inconsciente, a
religião, a experiência de vida, a formação do indivíduo, são todos
fatores que interferem na maneira como ele vê o mundo. E que
pretender estar imune a tudo isso é uma ilusão, uma prentensão
excessiva. Por que não fazer um jornalismo que levasse tudo isso em
conta, no qual o jornalista estivesse livre para expor o que sentiu na
situação, que pequenos detalhes lhe chamaram a atenção, o que pensa
que deve ser feito etc. ? Certamente já foram pensados modelos
alternativos de jornalismo, como o new journalism e o gonzo, que levam
tudo isso em conta e que são entusiastas de um jornalismo mais
subjetivo, mais pessoal, mais poético, mais literário, mais relativista.
Não mais o jornalista proclamando a verdade em si, mas sim a sua
verdade particular, não menos valiosa por ser subjetiva (até mais, pois é
informação liberta da ilusão de valer universalmente...).
Estamos, sem dúvida, muito perto da arte, e não acho que nos
distanciamos muito da verdade. Muito pelo contrário: teríamos verdades
subjetivas e humildes, representações da realidade que não se
pretendem absolutas, uma prática mis afinada com a tolerância e a
democracia. E ainda mais: teríamos um grau mais alto de coração, enfim
com a presença permitida, contra a frieza e indiferença dos textos
simplesmente factuais e impessoais. Um pouco mais de criatividade e
originalidade contra as formuletas pré-determinadas do jornalismo
tradicional. Um pouco de humildade e subjetivismo contra a proclamação
de dogmas que devem valer universalmente. Arte, liberdade,
tolerância... O jornalismo, porém, continua em sua obrigação de não
mentir, não iludir, não ludibriar, e servir ao interesse público, seja como
fiscalizador, interpretador, noticiador ou recreador. Qualquer jornalismo
motivado por outros fins (lucros, interesses, condescendência a
determinados grupos) é moralmente reprovável.
Enfim, o jornalismo é também uma arma político-social, um meio
para se lutar politicamente, e não acredito nem um pouco que qualquer
dos membros da mídia esteja em posição de neutralidade em questões
políticas, o que já derruba suficientemente o mito da imparcialidade. O
jornalismo é uma arma, mas que não vale por si mesmo: na mão de um
direitista ou de um nazista, pode tornar-se uma catástrofe; nas mãos de
alguém que deseja brigar por justiça social ou algo semelhante torna-se
um ótima ferramenta na transformação (e possível progresso) da
comunidade dentro da qual o órgão trabalha. Não acredito que o
jornalismo deva, de maneira alguma, se abster de ser uma força política
efetiva. É dessa maneira que a comunidade pode possuir um outro poder,
paralelo, que fiscaliza o Estado, é por ele influenciado, dele cobra ações
e a ele move denúncias, por vezes tornando-se crítico feroz, por outras
complacente com a situação. O problema é quando este engajamento
não é admitido; está velado, implícito, disfarçado. Não é nenhum crime
engajar-se; o que é reprovável é engajar-se e fingir-se hipocritamente de
neutro...
A guerra midiática entre diferentes revistas ou jornais, com opiniões
diferentes e posições políticas conflitantes, se deve principalmente, acho
eu, à intolerância que cada um tem com a opinião alheia. A presunção
que advém do jornalismo "imparcial" que pensa publicar verdades
absolutas e diz o que a realidade é em si mesma, indiscutivelmente, é
causa de guerra e choque. Talvez possamos dizer, com Montaigne, que “a
obstinação e a convicção exagerada são a prova mais evidente da
estupidez.” (Ensaios, Livro 3, Capítulo 8). Uma vez reconhecida a
ineliminável parcela de subjetividade que cada pessoa “injeta” naquilo
que recebe, uma vez reconhecido que toda experiência humana é
perspectivista e limitada, poderão abrir-se as portas para o reino do
relativo. E já que a pretensão ao absoluto, e a crença na posse do
absoluto, muito facilmente degenera em dogmatismo fanático e
intolerância, a entrada para o reino do relativo consistiria igualmente na
entrada no reino da tolerância.

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