O Que é Afinal Estudos Culturais (Ampliado) (1)
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Livro O que é afinal Estudos Culturais?
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ESTUDOS,
fastens Richard Johnson|
INTMero erty
BACs re Mares iat tel
Ore Oc eres
Tomaz Tadeu da Silva
Estudos CulturaisOs Estudos Culturais sa0, agora, um movimento
‘ou uma rede: eles tém seus proprios cursos em di-
versis universidades bem como seus proprios peri-
édicos ¢ encontros académicos. Eles exercem uma
grande influéncia sobre as disciplinas académicas,
especialmente sobre os Estudos Literdrios, a Socio-
logia, os Estudos de Midia © Comunicagio, a Lin-
Suistica c a Histéria. Na primeira parte desse ensaio!
discutire’ alguns dos argumentos a favor ¢ contra
a codificagio académica dos Estudos Culturais, Para
colocar a questio de uma forma mais direta: deve-
riam os Estudos Culturais aspirar a ser uma disci
plina académica? Na segunda parte, examinarei
algumas das cstratégias de definiedo dos Estudos
Culturais, porque grande parte da discussio de
pende, penso, do tipo de unidade ou coeréni10
que buscamos. Finalmente, apresentarei algumas
das minhas definigdes © argumentos preferidos,
A IMPORTANCIA DA CRITICA
A codificagao de métodos ou de conhecimentos
(instituindo-os, por exemplo, nos curriculos formais
1 nos cursos de “metodologia”) vai contra algu-
mas das principais caracteristicas dos Estudos Cul-
turais: sua abertura ¢ versatilidade tedrica, scu
espirito retlexivo ¢, especialmente, a importincia da
eritica. Utilizo “critica”, aqui, no seu sentido mais
amplo: nio a eritica no sentido negativo, mas a criti-
a como © conjunto dos procedimentos pelos quais
outras tradi¢Ses sio abordadas tanto pelo que clas
podem contribuir quanto pelo que clas podem ini
bir. A critica apropriase dos elementos mais titeis,
Iejeitando © resto, Deste ponto de vista, os Estudos
Culturais si0 um processo, uma espécie de alquimia
para produzir conhecimento util; qualquer tentati-
va de codifici-los pode paralisar suas reagd
Na historia dos Estudos Culturais, os primeitos
encontros foram com a critica literiria. Raymond
Williams ¢ Richard Hoggart, de modos diferentes,
desenvolveram a énfise leavisiana na avaliacao litera
8.
social, mas deslocaram-na da literatura para a vida
cotidiana.’ Ocorreu um processo similar de apro-
priagio relativamente & disciplina de Historia. O mo-
mento mais importante, aqui, foi o desenvolvimento
das tradicdes de Histéria Social, no pés-guerra, com
seu foco na cultura popular ou na cultura do povo,
especialmente sob suas formas politicas, Koi funda-
mental, neste caso, o grupo de historiadores do Par-
tido Comunista, com seu projeto — dos anos 40 ¢
inicio dos anos 50 — de historicizar o velho marxis
mo, adaptando-0, a0 mesmo tempo, a situagio brit’-
nica, Essa influéncia foi, de certa forma, paradoxal,
pois os historiadores estavam menos preocupados
com a cultura contemporinea ou mesmo com o s¢-
culo XX, colocando suas energias,em vez disso, numa
compreensio da longa transigo britinica do feda
lismo para o capitalismo, bem como nas lutas popu
lares © nas tradig6es de dissidéncia associadas com
essa transiclo, Foi este trabalho que se tornou a se
gunda matriz dos Estudos Culturais,
A critica ao velho marxismo cra central tanto
as vertentes literirias quanto nas vertentes his
térieas. A recuperagao dos “valores” — feita con
tra 0 cst
ismo — foi um impulso importante ma
primeira “Nova Esquerda”, mas a critica do eco
nomicismo foi o tema continuo que acompanhou
toda a “crise do mansismo” que se sepia. Os EstudosCulturais foram, certamente, formados no lado de ci
chquilo que podemos chamar, pamdoxalmente, de “revi
val marxista modemo”, © nos empréstimos internacio-
ais que foram, de forma notivel, uma marca dos anos
70. F importante observar que, em diferentes paises, as
mesmas figuras ocuparam lugares diferentes simplesmente
PORE as rotas naciomas eram diferentes. A adoxio do
alhusserianismo, por exemplo, € incompreensivel fora
do pano de fimde do empiricsmo dominante das tradi
es inteloctuais britinieas. Esta carncteristica ajuda a ex
Plicar a atragio pela Filosofia nfo como uma busca teénica,
mas como um racionalisme generaizado © uma atragio
Por ideias absratas.? De forma similar, é importante ob-
servar'o modo como Gramsci, cultivado como ura orto-
oxi na Ila, f01 apropriado por nés como tama figura
eritiea, heterodona, He representou um importante re-
forgo para um projeto de Esudos Culturais que, nos
anos 70, jd estava parciaimente formado.!
Ma longas discussoes sobre quem — no Ambito
dos Estudos Culturais — continua ov nao marxis-
* mais interessante, entretanto, analisar quais
SG0, especificamente, as influéncias de Mary sobre
0s Estudos Culturais. Cada um de nds tem sua pro
pria lista de influéncias. A minha, que nao preten
de estabelecer uma ortodoxia, inclui trés premissas
Principais. A primeira é que os processos culturais
esto intimamente vinculados com as relagdes soci-
ais, especialmente com as relagdes ¢ as formagdcs
de classe, com as divisdes sexuais, com a estrutura-
sao racial das relagdes sociais ¢ com as opressdes de
idade. A segunda é que cultura envolve poder, con-
tribuindo para produzir assimetrias nas capacida
des dos individuos dos grupos sociais para definir
€ satisfiver suas necessidades. E a terceira, que se
deduz das outras duas, é que a cultura ndo € um
campo auténomo nem extemamente determinado,
mas um Tocal de diferengas ¢ de lutas sociais. Isto,
de forma alguma, esgota os clementos do marxis-
mo que, nas circunstincias existentes, continuam
ativos, vives ¢ valiosos, sob a condicao, apenas, de
que também eles sejam criticados ¢ trabalhados em
estudos detalhados.
Outras criticas tém sido distintamente filoséfi-
«as, Os Estudos Culturais tém se destacado, no con-
texto britinico, por sua preocupagio coma “teoria”,
mas o grau de conexio com a Filosofia nio tem sido
Sbvio. Existe, contudo, tim parentesco bastante pro
Ximo entre problemas e posigdes epistemoldgicas
(por exemplo, empirismo, realismo ¢ idealismo) ¢
as questées-chav
da “teoria cultural” (por exem
plo, economicismo, materialismo ou o problema dos
efeitos especificos da cultura), De novo, para mim,muitos dos caminhos levam de volta a Marx, mas
as apropriacdes precisam ser mais amplas. Tem ha-
vido, ultimamente, tentativas de se ir além da opo-
sigdo bastante estéril entre racionalismo ¢
empirismo, em busca de uma formulacio mais pro.
dutiva da relagdo entre teoria (ou “abstragio”, como
cu prefiro, agora dizer) ¢ “estudos concretos”
Mais importantes, em nossa histéria recente, tém
sido as criticas advindas do movimento das mulhe-
Tes ¢ das Iutas contra o racismo.® Esses movimen-
tos ¢ Iutas tém aprofindado © ampliado os
compromissos democriticos ¢ socialistas que foram
08 principios importantes da primeira “Nova Es-
querda”! Se © pessoal era ja politico na primeira
se da Campanha para 0 Desarmamento Nuclear,
cle era estranhamente desligado da questio do gé-
nero. As findacoes democraticas desses movimen-
tos iniciais estavam, portanto, baseadas, de forma
insegura, cm uma nova forma de politica, De modo
similar, havia (e ha) problemas importantes relaci-
onados a0 etnocentrismo ou ao anglocentrismo dos
textos ¢ dos temas-chave de nossa tradigio.” A pre
dominancia, na Gra-Bretanha atual, de uma poli
tica conservadora, nacionalista ¢ racis
toma ess
eteitos ainda mais sérios. & incorreto, portanto, ver
© feminismo ou o antirracismo como alguma espécie
de interrupgao ou desvio relativamente a uma politi-
«a original de classe ou ao programa de pesquisa asso-
ciado a essa politica, Pelo contrario, foram esses
movimento que fizeram com que a “Nova Esquet
da” fosse “Nova”!
Os resultados especificos disso tudo para os Es
tudos Culturais ndo tém sido menos importantes.
HA muito mais coisas envolvidas do que a questao
original: “c as mulheres”, © feminismo tem influ-
enciado formas cotidianas de se trabalhar e tem con-
tribuido para um maior reconhecimento da
compreensio de que resultados produtivos depen-
dem de relagses baseadas em um apoio miituo.
tem tornado visfveis algumas das premissas no re-
conhecidas do trabalho intelectual de esquerda, bem
como os interesses masculinos que o tém sustenta
do. Ble tem produzido novos objetos de estudo, obri-
gando-nos, além disso, a reformular velhos objetos.
Nos estudos de midia, por exemplo, ele tem destoca
do aatengio do género “masculino” de noticias para
a importincia do “entretenimento leve”. Ele tem
contribufdo para um deslocamento mais geral: da
critica anterior, baseada na nogio de ideologia, para
abordagens que se
centram nas identidades sociais,
has subjetividades, na popularidade ¢ no prazer. As
feministas parecem ter também contibuido, de forma particular, para diminuir a divisto entre as cha-
madas Humanidades e as Ciéncias Sociais, ao fiver
com que categorias literirias ¢ preocupagées estéti-
cas scjam relacionadas com questoes sociais,
Espero que esses exemplos tenham servido para mos
‘rar o papel central que a aritica tem exercido, bem como
Sia conexio com causas politicas — em seut sentido mais
amplo, Segue-se uma sbrie de questies, Se nossos avangos
se deram através da critica, ndo existe 0 riseo de que as
tentativas de codifieagao acaretem um fechamento ste:
iiéitico? Se 0 impulso € © de hitar por um conbecimento
realmeme (ti, ser que a coditicagao acacémica conti
buins para, isso? A prioridade nao seria se tomar mais
“popular” em vez de mais académico? Essas questées ga-
nham uma forga adicional a panir de contextos imedia
tos. Os Estudos Culturais sto agora uma matéria
amplmente ensinach ¢, portanto, a menos que scjamos
muito cuidadosos, os estucdantes irio encontri-los como
uma ortodoxia, Nessas circunstancias, pode-se pergun.
{att como esses estudantes ocupardo, culturalmente, una
adics
10 critica como esta?
Isto €
cforgado por aquilo que nés sabemos —
amos aprendendo — sobre as disposigdes aca-
démicas ¢ outras disposicdes disciplinares de co
uhecimento. © reconhecimento das formas de
poder assc
on
conhecimento pode se mostrar
tuma das compreensées mais importantes dos anos
70, ‘Trata-se de uma temitica muito geral: ela apa-
rece nos trabalhos de Pierre Bourdieu ¢ de Micha-
cl Foucault, nas eriticas da ciéncia ou do
cientificismo feitas pelos fildsofos ¢ pelos cientistas
radicais, na Kilosofia, na Sociologia e nas eriticas,
feministas das formas académicas dominantes. Tem
havido uma mudanga sensivel: da afirmagio sin-
gular da ciéncia, no inicio dos anos 70 (com Al-
thusser como a figura principal), para a dissolucao,
— no momento presente — dessas certezas (com
Foucault como um ponto de referencia), As for
mas académicas de conhecimento (ou alguns as-
pectos delas) parecem ser, agora, parte do problema
€ mio da solugao. Na verdade, o problema con
uta oO mesmo de sempre: 0 que se pode aproveitar
dos interesses ¢ dos saberes académicos para se ob
ter elementos de conhecimento itil?
PRESSOES POR UMA DEFINICAO.
Existem, entretanto, importantes presses para
que se defina o que & Estudos Culturais. Existe a
politica mitida e cotidiana da Universidade — ni
lo mitida, uma vez que estio envolvidos ai empre
80s, Teeursos € Oportunidades de trabalho tril. Os
Estudos Culturais tén
conquistado, aqui, espagosreais, os quais tém que ser mantidos e ampliados. O
contexto da politica mais ampla torna isso ainda mais
importante. Temos também, na Inglaterra € nos Esta-
des Unidos, uma ampla reforma conservadora, Uma
maniféstagio disso é dada pelo violento assalto contra
as instituigées educacionais pablicas, tanto através do
corte de financiamentos, quanto através da redefini
20 — em termos estritamente capitalistas — do sig-
nificado de “utilidade”, Precisamos de definigies dos
Estudos Culturais a fim de poder lutar de forma efi-
caz nesses contextos, de argumentar em favor de re-
cursos, clarificar nossas mentes aa correria © na
confiusio do trabalho cotidiano ¢ de estabelecer prio
ridades para o ensino e para a pesquisa,
De forma talver, mais decisiva, precisamos de pers:
peetivas que nos permitam ver um campo vigorosa
mas fragmentado — como os Estudos Culturais — se
no como uma “unidatle” ao menos como um “todo”
Se nao discutinmos as dliregdes centmais por nossa pro
ptia iniciativa, seremos puxados para i ¢ para ca pelas
demandas da produgio universitiria ¢ pelas discipli
nas académicas a partir das quais nosso campo, em,
parte, se desenvolveu. As perspectivas académicas ten-
dem, pois, a ser reproduzidas sobre um novo teme-
no: existem verses distintivamente litenirias € verses
distintivamente sociolégicas ou histéricas dos Esti
dos Culturais, exatamente da mesma forma que exis
tem abordagens que se distinguem por sua parciali
dade tedrica, Isto nao teria importincia se uma
disciplina ou problematica dnica pudesse aprender
os objetos dla cultura como um todo, mas este no é
na minha opiniao, o caso, Cada abordagem revela un
pequeno aspecto da cultura, Se este argumento esti
Yer correto, nids precisamos, entio, de um tipo. parti-
cular de estratégia de definigia: uma estratégia que
revise as abordagens existentes, identificando seus ob
jetos caructeristicos ¢ a abranggncia de sua competén
mas também os seus limites. Na verdade, nao é de
umm definigio ou de uma coditicagio que nés preci
samos, mas de “sinalizadores” de novas transtonma-
Goes, Nao se tata Ue uma questao de agregar novos
clementos as abordagens existentes (um pouco de So.
lologia aqui, um tanto de Linguistica acola), mas de
retomar os elementos das diferentes abordagens cm
suas relagBes rndtuas.
FSTRATEGIAS DE DERTNIGAO
Ha diversos e diterentes pontos de partida, Os
Estudos Culturaiy podem ser definides como uma
tradigio intelectual © politica; ou enn suas relagoes
com as disciplinas académicas; ou em termes deparadigmas toricos; ou, ainda, por seus objetos ca-
racteristicos de estudo. O iiltime ponto de partida &
© que mais me interessa, Mas devo dizer, primeira-
mente, uma palvra sobre os outros.
Precisamos de hist6rias dos Estudos Culturais que
analisemy os dilemmas recorrenues € deem perspectiva a
ossos projetos atuais, Mas a ideia che “cradle
bém fancions de um modo mais “mitico
tune
para pro=
duzir uma identidade coletiva © um sentimento
Partithado de propésito. Par mim, boa parte das for
tes continuidades da tradigio dos Estudos Culrurais
ta cContida no termo singular Scultura”, que conti
ita dtil Mo COMO UMA categoria Figorosa, mas como
luna espéde de sintese de uma historia. Kle tem como,
reféréncia, em particular, o esforgo para retirar © estu
do da cultura do dominio pouco igualitirio e demo
eritico das formas de julgamento © avaliagao que
plantadas no terreno da “alta” cultura, langam am
olhar de condescendéncia para a nio cultura das mas
sas. Hi por. detris dessa redetinigao intelectual um
Pacirio “politico” algo menos consistente, uma conti
huidade que vai desde a primeira “Nova Esquerda”
8 primeira Campanha part o Desanmanmento Nuch
AME aos eventos do pas-1968. ‘Tem havido, natural
mente, evidentes antagonismes politicos no interior
da “Nova: Esquerda” bem como
nire a pwotitien da
“Nova Esquerda” ¢ as tendéncias intelectuais que ela
procuziu. Os desvias intelectuais de rota tem, com
frequéncia, parecido politicamente autoindulgentes. O
que une esta sequéneia, entretanto, € a hita para refor-
mar a politica da “Velha Esquerda”. Isto inclui a eriti-
ca ao yelho marsismo, mas também a yelha
social-democracia, cnvolvendo um conflite consmuti
Yo com os estilos dominantes no interior do Movi
mento Trabalhista, especialmente a negligéncia
relativamente 4s condigdes culturais da politica bem
como uni estreitamento mecinico da propria politica.
Este sentimento de uma conexao entre © traba-
tho intelectual ¢ o trabalho politico tem sido im-
portante para os Estudos Culturai
ap
ignitica que
esquisa ¢ a eserita tém sido politicas, mas ndo em
qualquer sentido pragmitico imediato, Os Estu-
dos Culturais n3o constituem um programa de pes
quisa vinculado a uny partide ou a uma tendé
particular. Eles tampouco subordinam as energias
intelectuais a qualquer doutrina estabelecida. Este
Posicionamento politico-intelectual & possivel por
que a politica que buscamos eriar nao esta ainda
plenamente tormada. Pois, exatamente da mesma
forma que a politica envolve uma longa jornada,
assim também a pesquisa deve ser tio abmangente &
180 profinda — m.
cia
também 10 politicamenteorientada — quanto nés a pudermos tomar. Temos
que lutar, sobretudo, talvez, contra a falta de co-
nexao que ocorre quando os
dominados por propésitos meramente académicos
out quando 0 entusiasmo pelas formas culturais po.
pulares € divorciado da anilise do poder e das pos
‘bilidades sociais.
studos Culturais sio
Ja disse bastante coisas sobre a segunda estraté-
gia de definigao, aquela que consiste em mapear
nossa rclagdo negativa ou positiva para com as dis-
ciplinas académicas, Os processos culturais nao
correspondem aos contomos do conhecimento aca
démico na forma como ele existe. Nenhuma di
plina académica & capaz de aprender a plena
complexidade (ou seriedade) da analise. Os Estu-
dos Culturais devem ser interdisciplinares (¢ algu-
mas ve7es antidisciplinares) em sua tendéncia. Acho
dificil, por exemplo, pensar em mim mesmo como
sendo um historiador, embora descrever-me, tal
vez, como “historiador do contemporineo” cons
titua, em alguns contextos, uma boa aproximago.
Algumas virtudes do historiador parecem iateis, en-
tretanto, para os
‘studos Culturais — as preocu:
pagdes com o movimento, com a particularidade,
com a complexi
fade © © context, por exempto,
Ainda gosto daguela combinagio de descrigio densa,
explicagao complexa € evocacio subjetiva (ou até
mesmo romantica) que € 0 que de melhor existe na
escrita historica, Ainda considero a maior parte das
descricdes sociolégicas pouco densas ¢ muito by
vias € grande parte do discurso literario inteli-
gente mas superficial! Por outro lado, o enraizado
empiricismo da pritica histérica € uma desvanta
gem real — ele bloqueia uma leitura propriamen
te cultural
stou certo de que o mesmo vale para
outras disciplinas
Nossa terceira estranégia de definigao — a anil
€ comparagdo de problemsticas teéricas — foi, até re-
centemrente, a cstratégia favorita.” Ainda yejo isso
como um componente essencial de coda analise cul-
tural, mas sua dificuldade principal é que as formas
abstratas de discurso desvinculam as ideias das com
plexidades sociais que as produziram ou as guais clas,
originalmente, se referiam. A me
matics
nos que as proble
i$ teéricas sejam continuamente reconstruidas
© mantidas na mente como um ponto de referencia,
Clarificagao teérica
independent
acaba por adquirit um impulso
. Em situagées de ensino ow em trocas
similares, © discurso tedrico parece ser, para quem
ectual, A ideia pa
er a de aprender uma nova linguagem: € preciso
tempo € muito esforgo 6 para se sentir a vontade
‘uve, una forma de gindstien intel
rececom ela, Existe, neste meio tempo, algo bastante si
lenciador e, talvez, opressivo, nas novas formas de
discurso. Penso que esta tem sido uma experiéneia
bastante comum para os estudantes, mesmo onde,
eventualmente, a “teoria” tem proporcionado novos
poderes de compreensio ¢ articulagao, Estas so alex
mas das rades pelas quais muitos de nés achamos
melhor, agora, partir de casos coneretos, seja para —
historicamente — ensinar a teoria como uma discus-
Slo continua © contentualizada sobre questdes cultu-
rais, seja para fazer conexdes entre argumentos
teéricos ¢ experitncias contemporincas.
Isso me leva & mi
ha estratégia preferida de de-
finigio, As questies-chave
racteristico dos
io: qual € o objeto ca-
tudos Culturais? Os Estudos
Culturais dizem respeito a qué?
ABSTRACOES SIMPLES
CONSCIENCIA, SUBJETIVIDADE
Ja suger! que o termo “cultura” tem valor como
um lembrete may nio como uma categoria precisa;
Raymond Williams tem explorado seu imenso reper-
trio histérico."” Nao existe nenhuma solugio para
essa polissemia: trata-se de uma ilusdo racionalista
pensar que nds possames dizer “de agora em diante
esse termo significara...” © esperar que toda uma his-
tora de conotagdes (para nao dizer todo um futuro)
se cologue obedientemente em fila. Assim, embora cu
levante, de qualquer forma, a bandeira da cultura
continue « usar a palavrt onde a imprecisto tem im
portincia, quando se trata de definigto busco outros
termos,
chave
Ciencia” € “subjetividade”. Os problemas centrais es
to, agora, situados em algum ponto entre os dois
termos. Para mim, os Estudos Culturais dizem res:
peito as formas histéricas da consciéncia ou da subje
tividade, ou as formas subjetivas pelas quais nds
vivemos ou, ainda, em uma sintewe bastante perigosa,
Meus termos
io, em vex disso, “cons:
talvez uma redugio, os Estudos Culeurais dizem res:
Peito ao lado subjetivo das relacoes sociais. Estas defi
nigGesadotam algumas das abstragoes simples de Mar,
mas cambém as wuilizam de acordo com sua ressonan
cia contemporinea, Penso na consceéncia, em primes
to lugar, no sentido no qual ela aparece em A idcolog
alema, Como uma (quinta) premissa para compreen
det a historia humana, Mary ¢ Engels aerescentam
que 08 seres humanos “também possuem conscién
cia”, Este uso ec
a também ent trabalhos postetiores.
Marx refere-se, implicitament
a consciéneia quan
do, em O Capital, volume 1, ele distingue o pior atquiteto da melhor abelha pelo fato de que © produto.
do arquiteto “existiu idealmente” antes de ter sido
produzido. Ble existiu na consciéncia, na imagina-
20. Em outras palavras, os seres humanos Sto carac-
terizados por uma vida ideal ou imaginéria, na qual a
vontade € cultivada, os sonhos sio sonhadas © as cate-
gorias claboradas, Em seus Manuscritos de 1844,
Marx viu a consciéncia como uma caracteristica do
ser da espécie”. Mais tarde, ele a chamaria de uma
categoria “genérico-histérica, verdadeira para toda a
histéria, uma abstracdo simples ou universal”, Em-
bora © uso seja, aqui, menos claro, Marx habitual
mente também se refere ao “lado subjetivo” ou ao
“aypecto subjetivS” dos processos sociais."!
No discurso marxista (estou menos seguro se tam-
bém em Mary), a consciéncia tem conotaydes avas-
saladoramente cognitivas: cla tem a ver com
conhecimento (correto?) dos niveis soci
is € natu
iéncia” de Marx era mais
ampla que isto! Ela abrangia a nogio de uma con
éncia do en, bem como uma “autoprodugio moral”
© mental ativa, Nao existe qualquer divida, enu
tanto, de que ele estava especialmente interessado
no conhecimento conceitualmente organizado, es-
pecialmente cm suas discusses de formas ideolégi-
cas particulares (por exemple, a economia politica, ©
ais. Pengo que a “con
idealismo hegeliano, ete). Em seu mais interessante
texto sobre o caréter do pensamento (a introdugio
de 1857 aos Grundrisse), ele destacou outros mo-
dos de consciéncia: 0 estético, 0 religioso, etc.
ubjetividade” é, aqui. espe
cialmente importante, desafiando as auséncias na
consciéncia. Fle inclui a possibilidade, por exem-
plo, de que alguns elementos estejam subjerivamente
ativos — eles nos “mobilizam” — sem serem cons
cientemente conhecidos. Ele focaliza elementos atri-
buidos (na distingao conyencional ¢ enganadora) a
vida estética ou emocional ¢ aos c6digos conyenci
O conceito de
onalmente “femininos”, Ele destaca o “quem eu
sou” ou, de forma igualmente importante, o “quem
nds somos” da cultura, destacando também as iden-
tidades individuais e coletivas. Ble faz. uma cone
xo com um dos insights estruturalistas mais
importantes: que a subjetividade nao € dada, mas
produzida, constituindo, portanto, 0 objeto da ani
ise € no sua premissa ou seu ponto de partid:
Em minhas préprias andlises sobre os Estudos
Culturais, a nogio de “formas” € recorrente. Subja-
zem a esse uso duas influéncias principais, Marx usa
continuamente os termes “formas” ou “formas sociais”
ow * formas histéricas” quando esti examinando em
O Capital (mais especialmente nos Grundrisse) osvarios momentos da circulagio econdmica: ele analisa
a forma dinheiro, a forma mercadoria, a forma do
trabalho abstrato, etc. De modo menos frequente, cle
uisou a. miesma linguagem ao escrever sobre a consci-
éncia ow a subjetividade. O exemplo mais fameso é 0
Prefiicio de 1859;
uma distingao deve sempre ser feita entre a
transformagao material das condigdes econd-
micas de produgio — que podem ser determi:
nadas com a precisio das Ci
¢ as “formas” lewais, politicas, religiosas, esté
ticas ow filoséficas, em suma, ideologicas, pe
las qtiais o8 homens sc tomam conscientes dese
incias Naturais —
conflito € lutam contra el
© que me interessa nessa passagem é a implica
ho de um projeto paralelo a0 projeto do proprio
‘Marx, mas diferente dele. Sua preocupagao era com
aquelas formas sociais através das quais os seres hu-
manos produzem ¢ reproduzem sua vida material.
Ble abstraiu, analisou e, algumas vere:
reconsti-
tui em deserigées mais concretas, as formas €
tendéncias écondmieas da vida social. Parece-me que
65 Estudos Culturais também esto preocupados com
socicdadles inteiras (ou formagdes sociais mais amplas)
© conto clas se movimentam, Mas cles evaminam os
28 =
processos sociais a partir de um outro ponto de
Vista. “Nosso” projeto é 0 de abstrair, descrever ¢
reconstituir, em estudos concretos, as formas atra-
vés das quais os seres humanos “vive, tornam
se conscientes ¢ se sustentam subjetivamente
A énfise nas formas € reforada por alguns
insights estruturalistas amplos, Eles tém ressalta-
do © cariter estruturado das formas que subjeti
vamente ocupamos: a linguagem, os signos
idcologias, os discursos, os mitos, Eles tém apon
tado para as regulatidades © para os principios de
organizagio — ou, se quisermos, para aquelas coi-
sas que
fazem com que haja wma “forma”. Embo-
ra com frequéncia enunciados em nivel
demasiadamente alto de abstrago (por exemplo,
a linguagem em geral, em vez da linguagem em
particular), eles tém fortalecido nossa sensibilida
de sobre a dureza, 0 cariter determinado ¢, na
verdade, sobre a existé
qu cm suas pressdes atraés do lado subjeti
vo da vida social. Isto
icia real de formas sociais
ex
Ao significa dizer que a
descrigao da forma, neste sentido, & suficiente
também importante ver a natureza historica das
formas subjetivas, “Historica”, neste contexto, sig.
nifica duas coisas bastante
ficrentes. Em primei
lugar, precisamos examinar as formas de30
subjetividade do ponto de vista de suas pressiies
ow tendéncias, especialmente seus lados contradi-
trios. Em outras palavras, mesmo na anilise abs-
trata, devemos examinar os principios do
movimento tanto quanto sua combinagio, Em se-
gundo lugar, precisamos de histérias das formas
de subjetividade nas quais nds possamos ver como
as tendéncias sio modificadas pelas outras deter-
minagées sociais, incluindo aquelas que esto em
10 através das necessidades materiais.
“T3o logo colocamos isto como um projeto, vemos
como as abstracoes simples que usamos até agora nto
nos levam. muito Longe. Onde estio todas as cateporias
intermedirias que nos permititiam comegar a especifi
car as formas sociais subjetivas ¢ os diferentes momen.
tos de sun existéncia? Dada nossa definigio de cultura,
rio podemos limitar 6 campo a priticas especializadas, a
generos particulares ou a atividades populares de lazer.
“Todas as priticas” sociais podem ser examinacas de um
ponto de vista cultural, podem ser examinadlas pelo tre
batho que clas fizem — subjetivamente, Isto vale, por
exemplo, para o trabalho fabril, para organizagdes
sindieais, para a vida nos — © em temo dos — super
mercados, assim como pam alvos ébvios, como “4 mi-
dia” (unidade enganadora?) e seus modes (principalmente
domésticos) de consumo,
CIRCUITOS DE CAPITAL —
CIRCUITOS DE CULTURA?
Precisamos, assim, em primeiro lugar, de um
modelo muito mais complexo, com rivas categor
s
intermedidrias, mais estratificadas dos que as teo-
rias gerais existentes. B aqui que considero titil for
ic de hipétese realista sobre o estado
existente das teorias, Que tal se as teorias existen-
tes — e os modos de pesquisa com elas associados
miular uma espéc
— realmente expressassem diferentes lados do mes-
mo ¢ complexo proceso? Que tal se elas fossem
todas verdadeiras, mas apenas até certo ponto, ver-
dadeiras para aquelas partes do processo que ch
rém mais claramente em vista? Que tal se elas fos
sem todas falsas ow incompletas, sujeitas a enganar,
na medida em que elas sio apenas parciais ¢ nio
podem, portanto, apreender © processo como um
todo? Que tal se esforgos para ampliar esta compe
téncia (sem modificar a teoria) levassem a conchi-
realmente grosseiras € perigosas?
Nao espero uma concordancia imediata com as
premissas epistemologicas deste argumento, mas es
pero que ele seja julgado a luz de seus resultados.
Seu mérito imediato, entretanto, esti no fato de que
ajuda a explicar uma das caracteristicas-chave dosEstudos Culturais: as fragmentagdes tedricas €
disciplinares j4 observadas. Estas poderiam, natu
ralmente, ser explicadas pelas diferensas politicas
também jf discutidas, especialmente as divisdes in-
iclectuais © académicas de trabalho ¢ a reprodugio
social de formas especializadas de capital cultural.
Penso, entrctanto, que pode scr mais satisfatério re-
lacionar essas diferengas manifestas aos proprios pro
cessos que clas buscam descrever: Talver: as divisdes
académicas também correspondam a posisdes sociais
© pontos de vista bastante diferentes a partir dos
quais diferentes agpectes dos circuitos culturais ad-
quirem ama maior salléncia, Isto explicaria no sim-
plesmente o'fito da cxisténcia de diferentes teorias,
mas a recorréncia € a persisiéncia das diferencas,
especialmente entre “blocos” amplos de abordagens
com certas afinidades.
A melhor maneira de fiver avangar este argu-
mento seria aniscando alguma descrigio proyisoria
de diferentes aspectos ou momentos dos processos
culturais, 208 quais poderiamos, entio, relacionar as,
diferentes problemiticas teéricas. Um tal modelo nao
poderia ser uma abstragio ou uma teoria acabada, se
€ que tal coisa existe. Seu valor teria que ser heuris
tico on ilustrative. Ele poderia ajudar a explicar por
que as teorias diferem, mas nio constituiria, em si
mesmo, a abordagem ideal. Ele poderia, na melhor
da hipoteses, servir como um guia que apontasse quais
seriam as orientacaes desejaveis de abordagens fit-
turas ou de que forma clas poderiam ser modifica-
das ou combinadas. F importante ter essas
adverténcias em mente naquilo que se segue. Acho
que € mais ficil (na tradig3o dos Estudos Culturais
do Centre for Contemporary Cultural Studies —
CCS) apresentar um modelo de forma diagramé-
tica. O diagrama tem o objetivo de representar 0
Gireuito da producio, circulagio e consumo dos pro
dutos culturais, Cada quadro representa um mo-
mento nesse circuito. Cada momento depende dos
outros ¢ ¢ indispensavel para
» todo, Cada um deles,
entretanto, é distinto © envolye mudangas caracte
risticas de forma, Segue-se que se estamos colocados
em um ponto do circuit, ni vemos, necessaria-
mente, © que esta acontecendo nos outros. As for:
mas que rém mais importancia para nos, em um
determinado ponto, podem parecer bastante dif
rentes para outras pessoas, localizaclas em outro pon-
to. Além disso, os pro
produtos.'® “Todos os produtos culturais, por exem
plo, exigem ser produzidos, mas as condigdes de sua
produgio ndo podem ser inferidas simplesmente
z
essos desaparecem nos
aminando-os como “textos”. De forma similar,34
08 produtos culturais nao sao “lidos” apenas por ana-
listas profissionais, mas pelo pitblico em geral (se
fossem lidos apenas pelos analistas, haveria pouco
lucro em sua produgao). Por isso, nds nao podemos.
predizer essas leituras a partir de nossa propria ani-
lise ou, na verdade, a partir das condigdes de pro-
dugio. Como qualquer pessoa sabe, todas as nossas
comunicagdes esto sujeitas a retomnarem para nds
em termos irreconheciveis ou, ao menos, transfor-
madas, Frequentemente chamamos
preensio, ou, se quisermos ser bastante académicos,
de Ieituras “equivocadas”, Mas esses “equivocos” sio
Ho comuns (ao longo de toda a sociedade) que po
derfamos cdnsideri-los normais, Para compreender
isto de m4 com-
as transformagdes, pois, nds temos que compreen-
der
s condigdes especificas do consumo € da leita
ra, Estas incluem as simetrias de recursos ¢ de poder
materiais ¢ culturais. Também inchiem 05 ensem
bles existentes de elementos culturais jf ativos no
interior de milicux sociais particulares (“culturas
vividas”, no diagrama) € as relagbes sociais das quais,
essas combinagdes dependem. Esses reservatérios de
discursos ¢ signiticados constituem, por sua ver, ma
terial brato para uma nova produgio cultural, Eles
esto, na verdade, entre as condicdes especificamen
te culturais de produgao,
Em nossas sociedades, muitas formas de produ
$0 cultural assumem também a forma de mercado-
ria
capitalistas. Neste caso, temos que prever
condigdes especificamente capitalistas de producao
(veja a seta apontando para o momento 1) ¢ condi-
Ges especificamente capitalistas de consumo (veja
a seta apontando para 0 momento 3). Naturalmen-
te, isto nao nos diz tude que temos que saber sobre
esses momentos, que podem estar estruturados tam
bém de acordo com outros principios, mas nesses
casos 6 circuito é, a um $6 tempo, um circuito de
capital (¢ sua teproducao ampliada) © um cireuito
da produgao e circulagdo de formas subjetivas36
Algumas implicagdes do cireuito podem se tor-
nar mais claras se consideramos uum caso particular,
Podemos, por exemplo, tomar 6 caso do langamento
do carro chamado Mini-Metro. Escolhi 0 Mini-Me
tro porque se tra
bastante padronizada do final do séeulo XX — uma
mercadoria que carrega uma acumulagio particu-
larmente rica de significados, O Metro era o carro
que iria salvar a indistria automobilistica britanica,
20 tirar of rivais do mereado € ao resolver os agudos
problemas de disciplina trabalhista da British
Leyland. Ele era a solugdo para ameagas nacionais
internas. As campanhas de publicidade em torno de
seu langamento ‘foram notiveis, Em um amtincio de
televisio, um grupo de Mini-Metros perseguia uma
ganguc de carros estrangeiros importados até Whi-
te Cliffs, em Dover, onde eles escapayam naquilo
que parecia, de. forma notivel, uma plataforma ter-
restre, Isto era Dunguergue em forma inversa, ten
do o Metro como herdi nacionalista.
certamente, algumas das formas — © género épico-
nacionalista, a meméria popular da Segunda Guer
ta, a ameaca interna /externa — que gostaria de
abstrair para um exame formal mais detalhado. Mas
isto também levanta q
que constitu’ o “texto” (ou o material brute part
de uma mereadoria capitalista
tes interessantes sobre oO
este tipo de abstracdo) nesses casos. Seria suticiente
analisar © design do préprio Metro como uma yez
Barthes analison as linhas de um Citroén? Poderia:
mos deixar de fora os antincios ow as exposigoes em
showrooms? Nio deveriamos incluir, na verdade, o
lugar do Metro nos discursos sobre a recuperacao
econdmica nacional ¢ sobre o ret
ascimento moral?
Supondo que tenhamos respondido a essas ques-
toes afirmativamente (atribuindo-nos uma carga mai-
of de trabalho), haveria ainda algumas questées a
serem respondidas. O que oi feito do fendmeno
Metro, de forma mais privada, por grapos parti-
culares de consumidores ¢ leitores? Poderiamos
esperar uma grande diversidade de respostas. Os
operarios da Leyland, por exemplo, provavelmen-
te veriam o carro de uma forma diferente daquelas
pessoas que apenas © compraram. Além disso, ©
Metro (c seus significados transformados) tornou-
se uma forma de chegar a0 trabalho ou de apa
nnhar as erlangas na escola, Ele também pode ter
ajudado a produzir, por exemplo, orientagoes re
lativas a vida laboral, vinculando a “paz” nas rela
ses trabalhistas & prosperidade nacional. Depois,
haturalmente, os produtos de todo esse citeuito
retornam, uma vex mais, para o momento da pro
dugio (como lucros para novos investimentos), mas38.
também como o resultado das pesquisas de merca-
do sobre a “popularidade” do produto (os estudos
culturais do proprio capital). O uso subsequente,
pela administracao da British Leyland, de estraté
sias similares para vender carros e enfraquecer os
operitios sugere acumulagdes consideraveis (de
ambos os tipos) deste episédio. Na verdade, 0 Me-
tro tornou-se um pequeno paradigma, embora nao
© primeiro, para uma forma ideolégica muito mais
generalizade, a qual nds poderiamos chamar, com
alguma sintese, de “comércio na
PUBLICACAO E ABSTRAGAO.
Falei, até aqui, de’forma bastante geral, sobre as
transformagdes que ocorrem em tomo do circuito,
sem especificar qualquer uma delas. Em uma dis.
Cassio tio breve quanto esta, especificarei duas mu-
dangas — relacionadas — de forma, indicadas nos
lados esquerdo ¢ direito do circuito. O circuite
envolye movimentos entre © piiblico © 0 privado,
mas também movimentos entre formas mais abs_
tratas © mais concretas, Esses dois polos estio rela
cionados de forma bastante estreita: as formas
privadas sto mais concretas ¢ mais particulares em
seu escopo de referencia; as formas pitblicas S30 mais
abstratas, mas também tém uma abrangéncia mai-
or. Isso pode se tornar mais claro se retomarmos
a0 Metro, ¢, dai, as diferentes tradigdes de Estu
dos Culturais,
Visto apenas como uma ideia de prancheta, como
um conceito discutido no ambito gerencial, 9 Me-
{To era uma coisa privada.!* Ele poderia, inclusive,
ter sido concebido em segredo. Ele era conhecido
apenas por tins poucos escolhidos. Nesse estigio, na
verdade, teria sido dificil separi-lo das ocasides s0-
Nas quais ele foi discutid es ma sala de
Plancjamento, conversas de bar, jogos de golfe no
mado. Mas i medida em que as ideias eram coloca.
das no papel, ele comegou a adquirir uma forma mais
objetiva ¢ mais paiblica. A virada ocorreu quando se
tomou a decisio para ir adiante com “o conceito”,
“tormando-o pablico”, Finalmente a ideia “Metro”,
logo seguida pelo carro “Metro”, chegou a “luz ple
na da publicidade”, Ela adquirin uma importincia
mais geral, reunindo em tomo dela, na verdade,
algumas nogdes bem portentosis. Hla se tomou, na
verdad, uma grande questao piiblica ou um simbo
40 para isso. Ela também tomou forma como um pro:
dato real © como um conjunto de textos, Em um
sentido Obvio, cla tomou-se “conereta”: voed podia
nko apenas chur
} Mas tambén ditigi-la, Mas, em
3940
outro sentido, este Metro cra bastante abstrato, Ali
estava ele, no showroom, rodeado por seus textos
de britanicidade: uma coisa brilhante, vibrante.
Entretanto, como se poderia saber — a partir dessa
exposigio — quem 0 teria concebido, como ele foi
feito, quem soffeu por cle ou, na verdade, que uso
possivel ele iria ter para a mulher apressada, com
duas criangas a tiracolo, que apenas tinha acabado
de entrar no showroom? Para desenvolver pontos
mais gerais, trés coisas ocorreram no processo de
publicagio, Em primeiro lugar, 0 carro — junta-
mente com seus textos — tornou-se puiblico em um
sentido dbvio; ele adquiriu, se ndo uma imporincia
universal, 20 menos uma importancia mais geral, Suas
mensagens também foram generalizadas, percorren-
do, de forma bastante livre, toda a superficie social
Em segundo lugar, ao nivel do significado, a publi-
cagio envolveu um proceso de abstragdo. O carro ¢
sitas mensagens poderiam, agora, ser vistos de for-
ma relativamente isolada das condigdes sociais que o
formaram, Em terceiro lugar, ele foi submetido a
um processo de avaliagao publica (uma grande ques
tio pablica) em muitas e diferentes escalas: como
instrumento téenico-social, como tum simbolo na
ional, como tum inte
se em jogo, como uma guer
ra de classe, em relagao a modelos concorrentes, etc
Ele se tomou um local de lutas intensas em torno
do significado. Nesse processo, cle foi forgado a “fa
lar”, de forma avaliativa, por “todos nés” (britani
cos). Observemes, entretanto, que, no momento de
consumo ou leita, aqui representado pelas mathe
res ¢ suas criangas (que tm opinides decididas sobre
cartes), nds somos forgados a regressar, ouitra W
a0 privado, ao particular ¢ ao concreto, nao importa
quo publicamente tenham sido expostos, para se
rem lidos, os materials brutos.
Quero sugerir que, nas condigoes sociais mo-
demas, esses processos S40 intrinsecos aos circuitos
culturais © que eles sio procuzidos por rel
ges de
poder, a0 mesmo tempo que as produzem, Mas a
evidéncia mais clara para
petidas difer
» est em algumas re-
s nas formay de estudo cultural.
FORMAS DE CULTURA —
FORMAS DE ESTUDO.
Uma grande divisio, teérica © metodoldgica,
percorre todo 0
ampo dos Estudos Culturais. Exis
te, por um lado, aqueles gue insisiem que as “cul
turas” devem ser estudadas como um todo e, in
sit, localiz 1. Des
orl”, sti teoria
yadas, EM seu contexto nrateri
confiados das abstragdes © da *pritica é, na verdade, “culturalista”. Bles sao, fie-
quentemente, atraidos por esas formulagoes em
Raymond Williams ou em E. P. Thompson, os quais
falam das culturas como formas globais de vida ou
como formas globais de luta, Mctodologicamente,
eles enfatizam a importincia de descrigdes compl
Xas, concretas, que sejam capazes de aprender, par-
ticularmente, a unidade ou a homologia das formas
culturais € da vida material. Suas preferéncias sto,
Portanto, por recriagdes sécio-historicas de cultu-
ras ou de movimentos culturais, ou por descrigdes
culturais etnogrificas, ou por aqueles tipos de es
crita (por exemplo, autobiografia, histéria oral ou
formas realistas de ficg30) que sejam capazes de re
criar “experiéncias” socialmente localizadas.
Por outro lado, ha aqueles que enfatizam uma
independéncia relativa ou uma autonomia efetiva
das formas © dos meios subjetivos de significacio.
A teoria pritica ¢, aqui, usualmente estruturalista,
mas de uma forma que privilegia a construcao dis
cursiva de situagdes ¢ de sujeitos. O método prete-
rido consiste em tratar as formas de um modo
abstrato e, algumas vezes, bastante formalista, des-
Yelandd os mecanismos pelos quais o significado &
produzido na
inguagem, na narrativa ou em outros
tipos de sistemas de significagio. Se 0 primeiro
conjunto de métodos € usualmemte derivado de
raizes sociolégicas, antropolégicas ou sécio-hist-
ricas, 0 segundo conjunto filia-se, em grande par-
te, A critica liteniria, especialmente as tradigdes do
modemismo literitio edo formalismo linguistico."*
A longo prazo, esta divisio é, em minha opi
nigo, um obsticulo certo para o desenvolvimento
dos Estudos Culturais, Mas é importante, primei
ramente, obscrvar a légica dessa divisio em relacio
a0 nosso esbogo dos processes culturais como um
todo. Se compararmos, com mais detalhes, aquilo
que eu chamei de formas piiblicas e privadas de
cultura, a relagio poder ficar mais clara,\*
Formas privadas nao sio necessariamente pri
vadas no sentido usual de individual ow pessoal,
embora clas possam ser ambas. Elas podem também
ser partilhadas, comunais ¢ sociais de um modo que
as formas piiblicas nao o sto, E sua particularidade
© sua concretude que as assinalam como privadas.
Blas se relacionam as experigncias caracteristicas de
vida © 3s necessidades historicamente construidas
de categorias sociais particulates, Elas no preten
dem de
nir 0 mundo px
aquclas pessoas que es
to situadas cm outros grupos sociais. Elas s30
limitadas, locais, modestas. Elas nao aspiram a uni
versalidade, Blas esto também profundany
ate
43cry
imersas na interagao social cotidis
snas vidas cotidianas, as mulheres: yao as compras
€ se encontram ¢ discutem suas virias atividades,
bem como as atividades de suas familias ¢ de seus
vizinhos. A fofoca € uma forma social privada,
profundamente vinculada com as ocasides ¢ as re.
lagdes identificadas com a experiéneia de ser mu-
Iher em nossa sociedade, Naturalmente, € possivel
descrever abstratamente as formas discursivas da
fofoca, enfatizando, por exemplo, as formas de
reciprocidade presentes na fala, mas isto. parece
causar uma violéncia particular ao material,
removendo-o do contexto imediato ¢ visivel no
qual esses textos de fala surgiram.
na. No curso de
Um caso ainda mais notavel é 0 da cultura operaria
do chao de fabrica, Como mostrou Paul Willis, exis-
te, aqui, uma relagio particularmente estreita entre,
de um lado, © ato fisico do trabalho ¢, de outro, 3
brincadeiras ¢ © senso comum do local de trabalho."
A globalidade do modo discursive dessa cultura con
siste em recusar a separagio entre a pritica manual ¢
4 teorig mental que caracteriza as formas piblicas «,
especialmente, as formas académicas de eonhecimen
to, Em nenhum dos casos
— na fotoea ¢ na cultura
iste uma divisto marcada de
trabalho no proceso de prociugao cultural, Tampouco
do chao de fabri
existem instrumentos técnicos de produgao de gran-
de comple
simbé
idade, embora 3
formas ca fala € oS usos
os do corpo humano sejam. bastante com:
plexox. Tampouco sio os consumidores de formas
culturais formalmente ou regularmente diferencia
dos de seus produtores, ou, demasisdamente distan
ciados deles:no tempo ou no espaco.
Fu argumentaria que se tém desenvolvido mo:
dos particnlares de investigagio e de representagao
para lidar com essay caracteristicas das formas pri-
vadas. Os pesquisadores ¢ os analistas tém ajustado
1s métodoy aquelas caracteristicas da cultura que
parecem ser as mais evidentes neste momento, Eles
ém procurado reunir os momentos subjetives ¢ os
mais objetivos, frequentemente nao os dis
do teoricamente
inguin:
recusando completamente, na
Pratica, a distingao. E essa énfase na “experiéncia”
(0 termo que apreende, perfeitamente, essa falta de
distingao ou essa identidade) que tem unido os
procedimentoy priti¢os dos historiadores sociais,
dos emégnifos © daquelas pessoas interessadas, di
gamos, na “escrita operaria”,
Comparados com o tccido dense ¢ estr
ramen
te tramado dos encontios face a face, os programas
de televisio parecem um produto bastante abstrato
ou até mesmo etéreo, Por um lado, cles sao muito:
4546
mais claramente uma repre
acgio da “vida real”
(na melhor das hipéteses) do que as narrativas (usual-
mente construidas) da vida cotidiana, Eles assumem
—sob a aparéncia do programa ou do texto — uma
forma separada, abstraida ou objetiva. Eles chegam
até nds de um lugar especial, fixo — uma eaixa de
forma ¢ tamanho padronizado, no canto de nossa
sala de estar. Naturalmente, n6s os apreendemos so-
cialmente, culturalmente, comunalmente, mas ain
da assim cles tém este momento separado, de forma
muito mais Obvia que © texto privado da fala. Essa
existéncia separada esti certamente associada com
uma divisio complexa de trabalho na producao €
distribuigio © com a distincia fisica e temporal en
tre 0 momento da produgio ¢ 0 do consumo, carac
teristicos das formas de conhecimento piblico em
geral. Meios pablicos de comunicagio desse tipo, na
yerdade, permitem manipulasdes bastante extraor-
dinirias de espago e tempo como, por exemplo, no
revival de filmes antigos feito pela televisio.
Eu argumentaria que essa aparente abstragio
has forthas reais da comunicacao pablica subjaz a
toda a gama de métodos que focalizam a constru-
sao da realidade através d:
proprias formas sim.
bolicas, tendo a Tinguagem como primeiro modelo,
mas o momento-chaye é a objetivagao da tinguagem
no texto, Seria fascinante pe
eguir uma investiga~
sA0 historica vinculada com essa hipétese, a qual ten-
taria deslindar a relagio entre as abstragdes reais das
formas comunicativas ¢ as abscragdes mentais dos
tedricos culturais. Nao suponho que os dois proces
sos caminhem facilmente lado a lado ou que as mu-
dangas ocorram de forma sinerénica, Mas estou certo
de que a nogio de texto —como algo que nds pode
mos isolar, tixar ¢ examinar — depende da circula-
640 extensiva de produtos culturais que foram
divorciados das condigdes imediatas de sux produ
Jo © que tém um momento de suspensio, por assim
dizer, antes de serem consumidos.
PUBLICAGAO E PODER
As formas pablicas © as formas privadas de cul
tura nao esto isoladas entre si, Existe uma circula
real de formas. A produgao cultural
frequentemente envolve publicagao — 0 rornar
piblico formas privadas. Por outro lado, os tex
tos pitblicos sto consumidos ou lidos privadamen
te. Uma revista para adolescenres do sexo
feminino como Jackie, por exemplo, recolhe
representa alguns clementos das culturas.priva-
das da feminilidade através das quais as jovens48
vivem suas vidas.
clementos abertos
la tora, instantancamente, esses
avaliagio pibliea — como sendo
por exemplo, “coin de garotas”, “tolas” ou “tiviais”
Eh também generaliza esses elementos no Ambit de
um conjunto particular de |
jonas, criando um pe
queno publica proprio. A revista é, pois, uny material
bruto para milhares de leitoras-garotas que produzem
suas proprias re-apropriagdes dos elementos que fo
Tam, anteriormente, tomados de empréstimo de sua
cultura vivida © de suas formas de subjetividade
importante nao pre
tipor que a publicagso
irabalha, somente ¢ sempre, de forma dominante ¢
aviltante. Precisamos de andlives cuiidadosas que nos
revelem onde ©
MO as Fepresentagdes piiblicas
agem para ence
‘ar OS grupos sociais nas relagde:
de dependéncia existentes ¢ onde © como elas té
1
alguma tendéncia emanciparéria. Kora isso, pode-
mos, entretanto, insistir na importineia de. poder
como um el
mento da anilise, a0 sugerir as princi-
pais formas pelas quais cle esta ative na relagdo en
tre © piiblico co privado.
éxistem, naturalmente, profindas diferengas
em termos de acesso a estera pitblica. Muitas das
preocupage
'$ sociais ndO ganham absolutamente
qualquer publicidade, Nao se trata simplesmente
do fato de que elas continuem privadas, mas de
que elas sao ativamente privatizadas, mantidas no nivel
do privado. Aqui, no que tange a politica formal €
as agdes do Estado, clas sao invisiveis, sem correti
vo publico. Isso signitica mio apenas que elas tem
que ser suportadas, mas que a consciéncia que se
tem delas como sendo um mal é manticla no nivel
dos significados implicitos ou comunais. No inte.
rior do grupo, o conhecimento desses softimentos
pode ser profindo, mas nio de um tipo tal que
espere alivio ou que a
he o§ softimentos estranhos.
Como frequentemente ocome, talver,
sas preo
cupagdes privadas realmente aparecem publicamen
te, Mas apenas sob certos termos e, portanto,
transformadas ¢ enguidradas sob formas particula-
res, AS preocupagdes da fofoea, por exempio, apare-
cem, de fiato, publicamente, sob uma ampla varieclade
de formas, mas comumente sob 0 distirce do “entre
tenimento”. Elas aparecem, por exempio, nis teleno-
velas, ou sio “digniticadas” apenas por sua conexdo
com as vidas privadas da realeza, das estrelas ow dos
politicos. De forma similar, elementos da cultura do
chao de fabrica podem ser levados ao paleo como co-
nédia ow como atos de variedadie, Esses enguiadra
mentos em termos de e6digo on genero (literitio,
teatral ete.) podem 1
invalidar esses elementos
49como a base de uma alternativa social, como acredi
tam alguns te6ricos, mas eles certamente atuam para
conté-los no intcrior das definigoes publicas ¢ do-
Minantes daquilo que é considerado importante,
As representagdes piiblicas podem também agit
sob formas mais abertamente punitivas ow estig
matizantes. Nessas formas, os clementos da cultura
privada sto vistos como pouco auténticos ou ra
io
nais © construidos como perigosos, desviantes ou
excéntri¢os.!” De forma similar, as experiéncias dos
S1Upos sociais subordinados sdo apresentadas como
patoldgicas, como problemas que exigem uma in-
rervenci na onganizagio da sociedade como
tum toclo, mas nas atitudes ou nos compontamentos
do prdprio grupo que as sofre.
Seo espaco permiitisse, seria importante compa
as diferentes formas pelas quais esses. processos
podem ocorrer na intersecgio das relagdes de classe,
género, raga ¢ idadle. Um mecanismo geral adicional
E constituido pela construgio, na esiera piiblica, de
detinigoes da propria divisio entre o priblico & o pri
vado. Naturlmente, essas detinigoes soam como de-
finigdes bastante neutras: “todo mundo” concorda
UE aS questoes pablicas mais importantes sio a eco
nomia, a defesa, a lei e a ortem e, talvez, as questiies
de assisténeia social, © que outras questies — a vida
fan
iliar, a sexualidade, por exemplo — sio essenei
almente privadas, O. problema € que as detinigées
dominantes do que é considerado importante sio,
em boa parte, socialmente especificas e, em particu-
Jar, tendem a comesponder as estruturas masculinas
—e de classe média — de “interesse” (em ambos os
sentidos deste termo). £, em parte, porque come
sam fandamentalmente a questionar essas disposi-
$0es que alguns feminismes, os movimentos pela paz:
€ os partidos verdes estao entre as formas mais sub-
versivas de fénémenos moderos.
Enfitize esses elementos de poder, correndo 0
Fisco de alguns desvios do argumento principal, por
que as priticas dos Estudos Culturais devem ser vis
tas no interior deste contexto. Quer tomem como
Seu principal objeto os conhecimentos publicos mais
abstratos ¢ suas ligicas ¢ detinicdes subjacentes, quer
investiguem o dominio privado da cultura, os
i ulturais esto necessariamente © profiin
damente implicados eny relagdes de poder. Fles so
¢ dos proprios circuitos que buscam descrever
Bles podem, tal como os conhecimentos acadéni
£08 ¢ profissionais, policiar a relacio entre 6 pili
co. €0 privado out cles podem criticé-la, Eles podem
estar envolvides na v
Kincia da subjetividade dos
Srupos subordinados ou nas lutas para representi-losmais adequadamente do que antes. Eles podem se tor-
nar parte do problema ou parte da solugio. B por isso
que, 8 medida que nos voltamos para as formas parti-
culares de Estudos Culturais, nés precisamos fazer
Perguntay nao apenas sobre objetos, tworias © meto-
dios, mas também sobre os limites ¢ os potenciais poli-
ticos das diferentes pesigdes em tomo do cireuito.
A PARTIR DA PERSPECTIVA DA PRODUGAO
Este € um Conjunto partictilarmente amplo ¢ he~
terogéneo de abordagens. Pois incluo, sob este tit
Jo, abordagens com tendéncias politicas bastante
diferentes, desde os conhecimentos te6ricos dos pu-
blicitarios, das pessoas envolvidas em atividades de
relagdes pablicas para as grandes organizagées ¢ dos
muitos tedricos pluralistas ¢ liberais da comunica
si0 ptiblica até a maior parte das analises culturais
na tradigao maraista c em outras tradigocs critieas.
Tal como ocorre com as disciplinas, s
OS sOCIOIO-
tas politicos
‘1 aquelas pessoas preocupadas com a organiza
politica da cultura que tém, mais comumente, ado:
tado este ponto de vista.
p08, os historiadores se
is, 08 croni
Uma abordagem mais sister
tica da procucao
cultural tem sido uma preocupagao relativamente
recente da sociologia, da literatura, da arte ow das
formas culturais populares. Esa preocupagio caminha
em paralelo com as discusses sobre os meios de
comunicagio de massa, tendo sido, originalmente,
muitissimo influenciada pelas primeiras experiéncias
da propaganda estatal sob as condigées da midia
moderna, especialmente na Alemanha Nazista, No
cruzamento das discusses mais
steticas € politi
cas, tem hayido uma preocupacso generalizada com
a influéncia das condigées capitalistas de produgio
edo mereado de massa das mereadorias culrurais
sobre a “autenticidade” da cultura, incluindo as
artes populares. Os esturtos sobre produgan no in=
tenor dessas traclig6es tem sido ignalmente diver=
ados: desde as grandiosas eriticas da economia
politica ¢ da patologia cultural das comunicagaes
de massa (por exemplo, as ansilises iniciais da Esco
la de Frankfurre) até aos detathados estudos empiri
cos sobre a produ
40 de noticias, os documentirios
‘on as telenovelas! De ima forma ainda bastante
diferente, os estudos histéricos modernos tém es-
tado preocupados, em boa parte, com a “produgao
cultural”, embora, desta vez, com a producto culty
tal dos avo
iments Soviais eur mesmo dee glasses so
ciais inteivay, E importante aceitar o convite de K.P
Thompson para ler A formacs
> da classe oper
5S54
inglesa deste ponto de vista; 0 trabalho de Paul
Willis, especialmente Aprendendo a ser trabalhador,
representa, sob muitos aspectos, 0 equivalente soci-
ologico dessa tradigio historiogrifica
© que une esses diversos uabalhos, entretanto, é
que todos cles tomam, se no © ponto de vista dos
produtores culturais, a0 menos a posigio tedrica da
produgio, Eles estdo interessades, em primeiro lugar,
© acima de tudo, na produgio © na organizagio social
las formas culturais, F aqui, naturalmente, que os pa-
radigmas marxistas tém ocupado um lugar bastante
central, mesmo quando s¢ continua a argumentar con-
Os primeiros trabalhos marxistas afirmaram a
primazia das condigdes de producto, frequentemente
reduzindo-as a alguma versio estreitamente concebi
da “das forgas © das relagoes de produgao”. Mesmo
essas andlises reducionistas tinham um certo valor: a
cultura cra compreendida como um produto social ¢
‘nao como simplesmente uma questi de criatividade
individual. Ela estava, portanto, sujeita 4 organizacio
politica, seja pelo estado capitalista seja. pelos partidos
dle oposigio social.” Em trabalhos marxistas posteriores,
analisavam-se as formas histéricas da produgdo € a or
> da cultura — “as superestruturas “,
ganizs
Nos escritos de Gramsci, 0 estudo da cultura a
partir do ponto de vista da produgio transforma-se
cm um interesse mais geral com as dimensdes cultw:
rais day lutas ¢ das estratégias como um todo. A
cluradoura € perniciosa influéncia das detinigdes de
“cultura” como “alta cultura” out como “cultura dos
especialistas” no interior do marxismo foi também
definitivamente questionada.” Gramsci foi talvex 0
primeiro importante te6rico marxista e lider comu
nista a considerar as culturas das classes populares
como objeto de estudo sério e de pritica polities.
“Todas as caracteristicas mais modernas da organiza
10 da cultura também comegam a aparecer nesse
trabalho: cle fala dos organizadores /produtores cul
turais nio apenas como pequenos grupos de
“intelectuais”, de acordo com 0 velho modelo revo
Iucionario ou bolchevique, mas como estratos sociais
, concentrados em tomo de instituigdes
par
ticulares — escolas, faculdades, a lei, a imprensa, as
burocracias estatais ¢ os partidos politicos. O taba
Iho de Gramsci constitu o mais sofisticado e feértil
desenvolvimento de uma abordagem marxista via
Produgio cultural. Creio, entretanto, que Gramsci
continua muito mais “leninista” do que, em geral, se
Pensa! A julgar pelo trabalho disponivel em inglés,
parece que ele estava menos interessado em como as
formas culeurais fiincionam subjetivamente do que
€m como “organizi-las” extemamenteLIMITES DO PONTO
DE VISTA DA PRODUGAO
Vejo dois limites recorrentes na anilise da cultu
ra desse ponto de vista, O primeito € a conhecida
dificuldade do economicismo, a qual eu gostaria de
formular aqui de uma forma diferente. Existe, ne
se modelo, uma tendéncia a negligenciar aqui
€ specifica da produgio cultural, A produ
tural é, muito comumente, assimilada a0 modelo da
produsio capitalista em geral, sem que se dé uma
atengao sufici
te A natureza dual do circuit das
mereadorias culturais. As condigdes de produgto in
dlucm nao apenas os meios materiais de produgao e
@ organizayao capitalista do trabalho, mas tim esto-
que de elementos culturais jf existentes, extraidos
do reservatério da cultura vivida ou dos eamypos ja
piiblicos de discurso, Este material bruto € estrutu-
rado nao apenas pelos imperatives da produgio ca
pitalista (isto €, mercantilizados), mas também pelos
efeitos indiretos das relaydes sociais capitalistas & de
ountras relagées sociais sobre as regras da linguagem
do diseurso existentes,
cial, para as luta
sto Vale, de maneira espe
6 de classe € de yénero, consideradas
do ponto de vista de seus efeitos sobre os diferentes
simbolos © signos socials. Em contraste com isto, a
conomia politica manvsta insiste nas “dererminagdes”
mais brutalmente Obvias — especialmente em meca-
hismas tais como competigio, controle monopolista €
expansio imperial” E por isso que a reivindicagio de
algunas semiologias, em sua pretensio de ofrecer uma
analise materialista alternativa, tem, realmente, algu-
ma forga.”* Em outras palavras, muitas das anilises do
lado da produgio podem ser criticadas plas bases es-
colhidas: como analises da produgao cultural, da pro-
dugao de formas “subjetivas”, elas nos revelam, no
maximo, algumia coisa sobre algumasdas condiges “ob
ietivas” © sobre © fincionamento de alguns espaces
sociais — tipicamente, 0 fiancionamento ideoléwico ca
emprest capitalista (por exemplo, a publicidad, o fay
cionamento da midia comercial), mas, nada sobre o
fiuncionamento dos partido politicos, das
dos aparatos da “alta cultura’,
sscolas ou
A segunda dificuldade nao & 0 economicismo,
mas aquilo que poderiamos chamar de “produti
Ss duas frequente
nadlas; elas so, entretanto,
O marxismo de G
lente aparecem combi
naliticamente distintas
Jranisei, por exemplo, certamente
nao € economicista, mas ele é, provavelmente, pro.
a tendéncia a inferir
© cariter de um produto cultural e seu use social
clas condiges de sua produgio, comu se
dutivista, © problema, aqui, é
eM questOesculturais, a produgio determinasse tudo. As formas
corriqueiras dessa inferéncia sie conhecidas: tudo de
que necessitamos é rastrear uma idcia & sua origem
para declari-la “burguesa” ou “ideolégica” — vem dat
a “novela burguesa”, a “ciéncia burguesa", a “ideolo-
gia burguesa” ¢, naturalmente, todos os equivalentes
“proletitios”. A maioria dos criticos desta redugio ata
cam-na negando a conexio entre as condigdes de ori:
gem ca tendéncia politica. Nao quero negar que as
condigdes de origem (incluindo a classe ¢ o género dos
produtores) exercem uma profiinda influéncia sobre a
natureza do produto. Considero mais iil questionar
esais identificagdes no como ermdas mas como pre
maturas, Blas podem ser verdadeiras na medida em
que dlas estdo de acordo com a logica daguicle momen
to, mas clas negligenciam toda a gama de possibilida
des cas formas culturais, especialmente na medida em
que essas sio realizadas no consumo ou na “leitura”
Nio vejo como qualquer forma cultural passa scr
mada de “ideoldgiea” (no sentido critico marxista ust
al) até que tenhamos examinado nao apenas sua origem
NO processo de produgio primario, mas também cui
dadosamente analisido sua formas pessoais bem como
os modos de sua recepgio. “Ideolégico”, a menos que
concebide como um termo neutro, € 0 timo temo a
ser usido nesses anzilises € nio 0 primeiro 25
Ainda considero o debate entre Walter Benja-
min ¢ Theodor Adomo, sobre as tendéncias da cul
tura de massa, um exemplo bastante instrutive,2*
Adomo passou como um firracdo, em sua grandiosa
anilise, identificando as condigdes capitalistas de
produgio, deserevendo os eftitos da forma “tetichi
zada” da mercadoria cultural e encontrando seu per
feito complemento na “escuta regressiva” dos fis de
popular. Ha um elemento altamente deduti
vo ou inferencial neste raciocinio, o qual, com fre
emer
quéneia, esta baseado em alguns saltos tedticos
gigantescos, os quais tinham sido dados, antes dele,
Por Lukacs. As confuses ¢ redugdes resultantes es
Go bem ilustradas em um dos seus poucos € conere-
tos cxemplos: sua anilise do slogan da cerveja britanica
Watneys — “o que nés queremos é W:
neys”.
A marca da cerveja & apresentada como um
slogan politico. Este outdoor nos faz compre
ender a natureza anializada da propaganda,
que vende seus slogans da mesma forma que
vende seus produtos (...) 9 tipo de relagao que
€ sugetido pelo outdoor, pelo qual as massas
fazem de uma mereadoria que thes € recomen
dada o objeto
sua propria ago & na verdade,
encontrado, ourra vez, no padrio de recepeao
5960
da miisica ligeira. Blas tém nece
idade Gaqui
Jo que thes foi apresentado como necessiri
— na verdade, chs 0 exigem.”
Nio vejo problema com as primeiras linhas. Gosto
do insight sobre 08 caminhos Pparalelos — a partir da
situagio alema — da propaganda politica e da publi-
cid
tante interessante, mostrando como a publicidade
ge para produzir uma identiticagio ativa, Mas a
anilise se penle tio logo chegamos as “massas”, A
anillise supée que os bebedores reais ¢ diferenciados
de Watneys ¢ 08 leitores do slogan agem como ven
triloquos do fabricanw de cerveja, sem quaisquer
‘ooutras determinagdes imtervenientes, Abstrai-se qital
quer coisa que esteja especiticamente relacionada 4
fiuigdo de slogans on ao ato de heber cerveja, Ador
2 se interessa, por exemplo, pelo significado da
Watneys (ou de qualquer outra bebida alcodlica) no
contexto das relagdes sociais — indexacas pelo pro.
home “nds” — de um bar, A possibilidade de que os
bebedores possam ter suas proprias razdes para con
de comercial
I. A Teitura do slogan é também bas-
sumir um dado produto ¢ de que o beber tenha um
valor de uso social € deixada de lade.2*
Este € um caso bastante extremo de produtivis
mo, mas a pressio para inferir efeitos ou leituras a
partir de uma anilise da produgao € constante, Ela
caracteriza, por exemplo, uma tiea vertente do tra
balho em Estudos Culturais, a qual tem se preocu:
pado, prineipalmente, em analisar campos particulare
do discurso publico. Entre as publicagdes do CCCS,
Policing the Crisis © Unpopular Education™ eram,
ambas, anilises dos nossos primeiros dois momen
tos: de textos (neste caso, os campos do discurso 4o-
bre a Ici ¢ a ordem e sobre a educagio pitblica) ¢ de
suas condigdes ¢ historias de produgio (eampanhas
sobre lei ¢ ordem, o trabalho de “definidores” pri-
mario como os juizes ¢ a policia, © papel do
“thaicherisino” ete.). Ambos os estudos provaram
ter considerivel valor preditive, mostrandy os pon:
tos fortes ¢ a popularidade da. politica da “Nova Di-
reita” quando — no easo do Policing — da primeira
vitoria cleitoral de Margareth Tatcher em 1979.30
De forma similar, acredito que Unpopular Education
continha © que se mostrou ser uma anise perspicaz
das contradigoes fimdamentais da politica social de-
mocritica na Gri-Bretanha ¢, portanto, algumas das
agonias do Partido ‘Trabalhista. Como guias polit
cos, amboy os estudloy sio, entretanto, incompletos:
ta-Thes uma descricao dos efeitos da erise de 1945
sobre a cultura vivida dos grupos de classe operiria
ou um
andlise real
nente Conereta da accitagio:02
Popular das ideologias da “Nova Direita”, Em ow
tras palavras, eles sio limitadas por dependerem, en
sua maior parte, de conhecimentos “piiblicos” da
midia © da politica formal. £ preciso algo mais do
que isso, especialmente se quisermos ir além da ert.
©. contribuir para a produgio de novos programas
© movimentos politicos,
Podemos coneluir este argumento voltando-nos
para Walter Benjamin, Benjamin tinha, certamen-
te, uma visio mais aberta das potencialidades das
formas culturais de massa do que Adomo. Ele esta.
va entusiasmado com as suas possibilidades técnicas
© eduicacionais. Ele apelou para que os produtores
culturais transformassem nao apenas seus trabalhos,
mas tambény stias manciras de trabalhar. Ele desere
yeu a téenica de uma nova forma de produgio cul:
tural: 0 “teatro épico” de Brecht. Podemos ver,
entretanto, que todos esses insights on sto — pri
mariamente — os comentarios de um critico sobre
as teork adotam a posigio. da
Produgao. f aqui, ainda do lado do criador, que as
jogadas realmente revolucionarias devem s
FE tambem verdade que Benjamin tinha ideias inte
idade das formas mexter
nas para produzit uma relagao nova ¢ mais distanciada
entre © leitor € © texto, mas este insight continuo
8 dos produtores ou
ressantes sobre a potenc!
Moabstrato ¢ tio aprioristico em seu otimismo quanto
© pessimismo de Adomo, Fle nao estava enraizado
em qualquer anslise ampliada da experiéncia mais
ampla de grupos particulares de leitores,
Nosso primeito caso (a produgio) acaba por ser
um exemplo interessante de um argumento do qual
a forma geral se repetirs. Devemoy examinar, na-
turalmente, as formas culturais do ponto de vista
de sua produgio, Isto deve ineluir as condigoes €
os meios de produgao, especialmente cm seus as
pectos subjetivos © culturais
n minha opiniao,
deve incluir descrigdes ¢ anilises também do mo.
mento real da propria producto — trabalho de
produgao e seus aspectos
subjetivos ¢ objetivos, Nao
Podemos estar perpetuamente discutindo as “con.
digdes”, sem nunca discutir ox atos! Devemos, 26
MO tempo, evitar a tentagio, assinalada nas di
cusses marsi det woes, de subsu
nir todos os outros aspectos da cultura 4s categorias
dos estudos de producdo. Isso. sugere dois estigios
de uma abordagem mais sensivel. O primeira con:
siste cm conceder uma independéncia ¢ uma parti
cularidade a0 momento distinto da produ
fazendo 6 mesmo para outros momentos. Esta é
fas. sob)
crmi
S30,
uma sustentagio necessiria, negativa, do argumento
Contra 0 reducionismo de todas as especies, Mas,
63on
uma yer tendo estabelecido este principio em nossas
analises, um outro estigio toma-se bastante eviden
te. Os diferentes momentos ou aspectos ndo sio, na
verdade, distintos. Existe, por exemplo, um sentido
120 qual (bastante cuidadosamente) poctemos falar dos
textos como “produtivos” ¢ um argumento muito
mais forte para ver a leitura ou consume cultural
como um proceso de produgio, no qual o primeira
produto toma-se um material para um novo traba-
ho. © texto-tal-como-produzido & um objeto dife-
rente do texto-tal-como-tido, O problema com a anslise
de Adomo e talvez com as abordagens produtivistas
em geral est nao apenas em que elas inferem o texto:
tal-come
ido do texto tal-como:produzido, mas que,
também, a0 fier isso, clas ignoram os elementos da
Produgao em outros momentos, concentrando a “cri
atividde” no produtor ou no critico. Esse & talven,
© preconceito mais profinndo de todos, entre 0s eseri
tores, os artistas, as professores, os educadores, os
comunicadores € os agitadores no interior das divi
sox intelectuais de trabalho!
ESTUDOS BASEADOS NO 'TEXTO
Todo um segundo bloco de abordagens esta, pri-
Mariamente, preocupado com os produtos culturais
Mais comument
. e88es produtos sio tratados como
“textos”; o importante & fornecer “leituras” mais ou
menos definitivas deles. Duas earacteristicas parecem
especialmente importantes: (1) a separagio entre eri-
ticos especializados © leitores comuns ¢ (2) a divisio
entre praticantes culturais © aqueles que, primaria.
mente, comentam as obras de outros, Ambas as ea
acteristicas tém muito a ver como ctescimento ¢ 0
desenvolvimento das instituigdes educacionais, espe
cialmente ay académicas, mas € interessante observar
que os “modemismos”, que tém tio profiandamente
influcnciade os Estudos Culturais, surgiram como
teorias do produtor, m:
agora discutidas mais
intensivamente nos Comextos académicos ¢ educaci-
onais. Estou pensando, particularmente, nas teorias
associachs com © cubismo ¢ o construtivismo, com o
formalismo € 0 cinema russo ¢, naturalmente, nas
teorias de Brecht sobre o teatro,"!
Grande parte daquilo que se conhece sobre a or
ganizagio textual das formas culturais € agora ens:
nado nas disciplinas académicas convencionalmente
sgrupades como “Humanidades” ou “Artes”. As prin
ipais disciplinas das *Humanidades”, mais especial
mente a Linguistica os
dos Literirios, rém
desenvolvido meios de descrigio formal quie sio in
dispensiveis para a anilise cultural. Estou pensando,66
Por exemplo, na andlise lieriria das formas de narra
tiva, mas também na andlise de formas sintSticas, 1a
das possibilidades ¢ transformagdes em Lin-
guistica, na anilise formal de atos ¢ trocas na fala, na
andlise de algumas formas elementares de teoria cul-
tural feita pelos fildsolos ¢ nos conceitos tomados de
empréstimo, pela critica ¢ pelos Estudos Culurais,
da semiologia © de outros estruturalismos.
Vista de fora, a situagio nas Humanidades e,
especialmente, na Literatura parcce-me bastante pa-
radoxal: por um lado, o desenvolvimento de ins
tumentos imensamente poderosos de analise ¢
deserigio; por outro, ambicdes bas
em termos de apli
nte Modestas
ACHES € Objetos de anilise. Existe
uma tendéncia que faz com que os instrumentos
continuem obstinadamente técnicos ou formais, O
cxemplo que
considero mais impressionante no mo-
mento é o da Linguistica, que parece uma
verdhdeira caixa do tesouro para a andlise cultural,
mas que esta soterrada sob uma misti
Lum profissionalismo académiico exageradlos dos quais,
fi Outras pos
sibilidades parecem perpetuamente presas i necessi
dade de dizer algo novo sobre algum texto ou autor
ean6nico. Isto, algumas vezes, permite um amadoris-
mo de franco-atirador, cujas eredenciais culturais
izmente, esti comegando a emergir.
gerais aparentemente sancionam a aplicagio liberal de
alguns julgamentos de Sbvio senso cou a pratica-
mente quase tudo. Entretanto, o paradox esta em.
que as disciplinas das Humanidades, que estio tio da
Famente preccupadas em identficar as formas subjeti-
vas de vida, Sto, jf, Estudos Culturais em embrizo!
As formas, as regularidades © as tensoes primei-
ramente identificadas na literatura (ou em certos
tipos de musica ou de arte visual) trequentemente
acabam tendo uma circulagao social muito mais an.
pla. As feministas que trabatham com o romance,
Por exemplo, tém analisado as correspondéncias en
Fre as Formas narrativas da fey romanoea popw
lar, 08 rituais publicay de casumento (o casamento
real, por exemplo) ¢, mesmo gue apenas através de
80a propria experiéncia, o trabalho subjetivo das re-
solugoes simbili
a8 do amor romintico,* Estimula
do por este modelo ainda em desenvolvimento, nm
Conjunto de pesquisadoras esta investigando as fai-
tasias Conflitantes da cultura juvenil +
formas narrativas do épico, Como xe provocado pela
deixa de um ponto teatral, conflito das Malvinas
ctistalizou ambas essas form,
lina © ag
juntando-as em um
Wo public particularmemte dramético © real
Nio existe methor exemplo, talver, dos limites de ge
espetai
tratar formas como o romance ou a épica como68
construgdes meramente fitenirivs.** Pelo contririo,
las esto entre as mais poderosas ¢ onipresentes das
ategorias sociais ou formas subjetivas, especialmer
te em suas construgdes da feminilidade © da mascu-
linidade convencionais. Os seres humanos vivem,
amam, softem perdas e vo 4 lita € morrem por elas,
Como sempre, pois, o problema consiste em se
apropriar de métodos que estio frequentemente en-
rrados em canais disciplinares estrcitos c usar seus
reais insights mais amplamente, mais livremente.
Que tipos de métodos baseados na anzlise de textos
>, pois, mais titeis? E quais seriam os problemas a
serem identificados © superados?
A IMPORTANCIA DE SER FORMAL
Especialmente importantes sio todas as influd
clas moderni
8 € pos: modemistas, particularmen-
te aquelas associadas com o estruturalismo © com a
Lingufstiea pés-saussureana, Incluo aqui os desen
yolvimentos na semiologia, mas gostaria de incluir
também, comosendo algum tipo de parentesco, tal-
ver distante, algumas vertentes da Linguistica a
glo-americana.* Os Estudos Cultunais tem, muitas
vezes, se aproximado dessay vertentes de unta for:
ma um tanto acalorada, tendo hutas scirradas, em
Particular, com aqueles tipos de anilises de texto
inspiradas pela Psicanalise,'* mas as renovadas
infusdes modemistas continuam a ser uma fonte
de desenvolvimentos. Como alguém que vem do on-
tro lado, o histérico /sociol6gico, sou, frequentemen
te, sumpreendido © — de forma pouco critica —
amraido pelas possibilidades aqui existentes,
A analise formal moderna promete uma descri-
fio realmente cuidadosa ¢ sistemstiea das formas
subjetivas & de suas tendéncias ¢ pressdes. Ela nos
tem permitido identificar, por exemplo, a narrati-
vidade como uma forma bisica de organizacio da
subjetividad
bre o repert6rio das formas narrativas contempo:
* Ela também nos da indivagdes so.
Taneamente existentes — as estérias reais
caracteristicas de diferentes modos de vida. Se nds.
as tratarmos n3o como arquétipos mas como cons
trugdes historicamente produzidas, as possibilida
des de um estude conereto, produtivo, em uma
gama ampla de materiais, sto imensas. Pois as esté
Fias, obviamente, no se apresentam apenas na tor
ma de ficgdcs literirias ou filmicas; clas se
apresentam também na conversagio didria, nos fir
turos imaginados ¢ nas projecoes cotidianas de to-
dos nds, bem como na constru
memorias ¢ histérias — de identidades
670
© coletivas. Quais sio os paddes recomentes aqui?
Que formas nés podemos, mais comumente, abstra-
ir desses textos? Parece-me que, no estudo das for-
mas subjetivas, estamos naquele estigio da economia
politica que Marx, nos Grundrisse, vin como neces.
rio mas primitivo: “quando as formas tinham ain
da que ser laboriosamente escalpeladas do material”
Ha, aqui, uma série de inibigdes. Uma delas &
4 oposi¢ao as categorias abstratas c o medo do for-
malismo, Penso que isso é, muitas vex 's, bastante
mal colocado, Precisamos abstrair as formas a fim
de descrevé-las euidadosamente, claramente, ob-
servando as variagées © a combinagdes. Estott se
guro de que Roland Barthes e
argumentou contra a rejeig:
tificio da anilise”:
Ava correto quando
> quiixoresea do“
‘Menos aterrotizada pelo espectro do “forma
lismo”, a critiea histérica poderia ter sido me-
nos esteril; ela ceria. compreendide que 0 estudo
especitica das formas nao cont
al
diz, de modo
IM, O8 prinéipios necessitins da totalidade
© da Historia, Pelo conteitio: quanto mais um
sistema & especificamente detinido por suas
formas, mais cle esti sujeito i critica histética
Para parodiar o dito bem conhecido, diret que
Pouce formalisme nos afasta da Historia, mas
que muito formalismo nos leva de volta a cla
Sem diivida, a “Historia” de Barthes € suspeito
samente graftda em maitisculas © esvaziada de con-
tetido: diferentemente do marxismo, a semiologia
NdO Nos ofere
uma pritica (a menos que sejam os
Pequenos ensaios de Barthes) para reconstituir um
todo complexo a partir das diferentes formas. Mas
estou certo de que nés acabaremos com hist6rias me-
thores, mais explicativas, se tivermos compreendido
mais abstratamente algumas das formas e relacdes
que as constituem. De algum modo, na verdade,
pense que o trabalho de Barthes nao ¢ suticiente.
mente formal. O nivel de elaboragio, em seu traba
tho da tiltima fase, parece, algumas vezes, gratuito
demasiado complexe para ser claro, insuficientenen-
te concreto para construir uma descrigaio substantiva
Nesse € cm outros empreendimentos semioligivos
© que estamos ouvindo perfeitamente € 0 nuido agi
tad de autogerados sistemas intclectuais rapidamer
te fiigindo a0 controle? Se assim for, trara-se de um
ido diferente do barutho satisteito de uma abstra
$80 realmente historical
Os estruturalismos radicais estimulam-me por
uma outra azo." Eles sio 0 que
Niste de maisdistante da critica do empiricismo que, como suge-
ri anteriormente, fundamenta filosoficamente os
Estudos Culturais. Este construcionismo radical
— nada na cultura € tomado como dado, tudo é
produzido — & um importante insight que no po:
demos abandonar, Naturalmente, esses dois esti
mulos estio estreitamente relicionados: o segundo
como uma premissa do primeiro. E porque sabe-
mos que néo estamos no controle de nossas propri-
as subjetividades que precisamos tao
desesperadamente identificar suas formas e descre.
ver suas historias © possibilidades futuras,
© QUE E, AFINAL, UM ‘TEXTO?
Mas se a anzlise de texto ¢ indispensivel, o que
entio, um texto? Relembremos 0 Mini-Metro
como um exemplo da tendéncia dos “textos” a um
crescimento polimorfo; 0 exemplo da anilise dos
géneros de James Bond, féita por Tony Bennett, é
um exemplo ainda melhor A proliferagio de re-
presentagdes aliads no campo dos discuirsos piblicos
coloca grandes problemas para qualquer praticante
dos Estudos Culturais contemporineos. m,
entretanto, melhores e piores formas de lidar com
equientemente, penso, chega-se a uma solugio
literisia tradicional: clegemos um “autor” (na me-
dida em que isto & possivel), uma inica obra ou
série, talvez um género distintivo. Nossas escolhas
podem, agora, ser textos populares: talvez um meio
eletrénico ou filmico, embora ainda haja limites
nesses critérios “quase literirios”
Se, por exemplo, estamos realmente interesados
em saber como as convengdes © os meios téenict
disponiveis no interior de um meio parti
traturam as representag
alar es:
, precisamos trabalhar ao
longo dos géneros ¢ dos meios, comparativamente
Precisamos descrever as diferengas, bem como as si
milaridades, entre 0 romance litersrio, «
mor ro
mintico como espetéculo piblico ¢ o amor como una
forma privada ou natrativa. E apenas dessa forma
que podemos resolver algumas das mais importantes
quest6es avaliativas
plo, o rem,
iui: em que medida, por exent
nee atu apenas para aprisionar as mu-
Iheres em condigoes sociais opressivas, © em que
medida a ideologia do amor pode, nio obstante, ex
Pressar concepydes ut6picas de relagdes p
femos, certamente, que limitar nossa pe
té
soais.
quisa a er
‘os literérios; outras escolhas estio disponiveis,
possivel, por exemplo, adotar “problemas” ou
“periods” como eri
rio principal. Embora restr
tos por sua escolha de géneros e meios bastante “mas74
culinos”, Policing the Crisis € Unpopular Education
so estudos deste tipo. Eles giram em tomo de uma
definigio histérica bisica, examinando aspectos da
ascensio da “Nova Dircita”, prineipalmente a par
tir do inicio dos anos 70. A légica desta aborlagem
fol amplada nos recentes estudos do CCCS sabre
Awidia: um estado de uma gama ampla de represen
tagbes, feitas pela midia, da Campanha pelo Desar-
mamento Nuclear (outubro de 1981) & um estude
da midia no periodo de feriados pés-Malvinas (Na-
tal de 1982 a0 Ano Novo de 1983): Essa tiltima
abordagem ¢ especialmente produtiva, uma ver que
ela nos permite examinar a construgao de ui feria-
do (espe
almiente, 0 jogo em tome da divisio pabli-
¢o/privado) de acordo com as possibilidades dos
diferentes mcios € géneros, como por exemplo, a te-
lenovelt © a imprensa diitia popular. Ao apreender
algo da contemporani
dade © dos “e
tos” combi-
nados dos diferentes sistemas de representacio, es-
Peramos também chegar mais perto da experiéneia
mais cotidiana de ouvir, ler € ver. Desta forma, o
stuclo, baseado em uma conjuntura que, neste caso,
€ um tanto hist6rica (6 momento pos-Malvinas de
dezembro de 1982) ¢ sazonal (as festas natalinas),
tem como premissa a crenga de que 0 contexto ¢
enuial na prociugio de signiticado,
De forma mais geral, 0 objetivo ¢ descentrar ©
“texto” como um objeto de estudo, O “texto” nio &
mais estudado por ele proprio, nem pelos efeitos so-
ciais que se pensa que ele produz, mas, em vez disso,
pelas formas subjetivas ou culturais que cle efetiva ¢
toma disponiveis. © texto & apenas tim meio no Es
tudo Cultural, estritamente, talvez, trata-se de um
material bruto a partir do qual certas formas (por
exemplo, da narrativa, da problemitica ideolégica,
do modo de enderegamento, da posicao de sujeite
ete.) podem ser abstraidas. Fle também pode fazer
parte de um campo discursive mais amplo ou ser
uma combinagio de formas que ocoren em outros
espagos socials com alguna regularidade, Mas © ob
cto tiltimo dos Estudos Culurais nao ¢, em minha
opinido, 0 texto, mas a vide subjetiva das formas
sodais em cada momento de sia circulagdo, inclu
indo suas corporificagdes teytuais. Isto esti muito
distante da valoracio literdria dos textos por si mes-
mos, embora, naturalmente, as modos pelos qu
algumas corporiti
ces textuais ce formas subje-
tivas sto valoradas relativamente a outras,
especialmente por etiticos ou edicadores (0 proble
ro” na cuhtu-
ra), Sejam uma questan central, especialmente em
ma, especialmente, do “baixo” ¢ do“,
tworias de cultunt ¢ classe, Mas este € um problemaGue subsume preocupagdes “literirias” ao invés de
reproduzi-las, Uma questio-chave é a de saber como
Os critérios do que € “titerério” acabam por ser, eles
Proprios, formulacos ¢ instalados nas préticas acadé-
micas, educacionais © em outras priticas regulativas,
MIOPIAS ESTRUTURALISTAS
MO constituir o texto € um problema; um
Outro problema é a tendéncia de outros momen.
tos, especialmente da produgio cultural © da leit
"A, mas mais geralmente dos aspectos mais concretos
€ privados da cultura, a desaparecerem diante da
‘eitura de um texto. Em tomo dessa tendéncia, po-
deriamos escrever toda uma complicada histéria dos
formalismos, usando termo, agora, em seu senti-
do eritico mais familiar, € ‘ompreendo © formalis-
mo Negativamente, nio como uma abstragio de
formas a partir dos textos, mas como a abstrigo dos
Textos a partir de outros momentos, Para mim, ess
abstrasao € critica, assinalando preocupagées legiti-
mas © excessivas com a forma. Eu explicaria © for
malismo, no sentido negativo, em termos de dois
Conjuntoy principais de determinagées: aquelas que
detivam da localizagao social do “critico” € dos limi
te
dle uma pratica particular, © aguelas que derivam
de problemat
mentos de escolas criticas diferent
"ls tedricas particulares — os instru:
Embora haja
ltuma associagio historica clara, especialmente no
século XX, cntre “critica” e formalismo, nao existe
nenhuma conexao necessaria re cles,
Os formalismos particulares que mais me inte-
Fessam — porque existem mais coisas a resgatar
S80 aqueles associados com as varias discussoes es-
truturalistas © pés-estruturalistas sobre 0 texto, a
harativa, as posiges de sujeito, os discursos ¢ assim
por diante. Inchio aqui, de gia forma necessaria-
met
we sintética, toda a Sequéncia qu
vai da linguis
tica de Saussure © da sociologin de [Lévi-Strauss
pa
vezes, chamado de
ssando por Barthes © por aquilo que é, alzumas
" até aos
desenvolvimentos coloeados em movimento pelo
narca semiologica 1”s
maio de 1968 ma critica de
inema, na semiologia ¢
na teoria narrativa, incluindo a complicada interse-
io entre O marxismo althusseriano, as semiologias
mais recentes
«
partilham certos limites paradigmaticns que eu cha
a Psicanilise. Apesar de suas varia
és, esas abordagens das “priticas de significagio”
mo de “miopias estruturalistas”
Elas sio limitadas, de uma forma muito finda-
inental, por permanecerem no interior dos termos
da analise textual. Mesmo quando vao além dela,78
elas subordinam outros Momentos 2 andlise textual.
Em particular, elas tendem a negligenciar questdes
sobre a producgao de formas culturais ou de sua or-
Banizagio social mais ampla, ou a redurir questées
de produsao & “produtividade” (ew diria, “capaci-
dade de produzir”) dos sistemas de significacso ia
existentes, isto é, das linguagens formais ou dos c6-
digos. Elss também tendem a negligenciar questoes
relativas As leituras feitas pelo publico ou subori-
‘ni-las as competéncias de uma forma textual de and-
lise. Elas tendem, na verdade, a deduzir a leitura do
Piiblico das leituras textmais do proprio eritico, Gos-
taria de sugerir que 0 elemento comum em ambos
esses lim
es € uma filha tedrica central — a auser
cia_de uma “teoria” pds-estruturalista (ou deveria
dizer, pés-pos-esinaturalista?) adequada da subjeti-
vidade. Esta auséncia é uma auséncia que é enfatiza-
abordagens; constinaia,
Acusasio importante contra os an-
da no interior dessas propria
na verdade, un
tigos mai
istas 0 fato de que thes faltava uma “teo-
ria do sujeito”. Esta auséncia € compensada, de uma
forma bastante insatistitéria, pela combinagio de un
anilise textual com a Psicanilise, em uma descrigio
a subjetividade que continua muito abstrata, “fra
ca” € no histériea © também, em minha opinio,
excesivamente “objet
Para sumariar as limitigdes,
nao existe, aqui, nenhuma analise da génese das for:
mas subjetivas © das diferentes formas pelas quais ox
seres humanos as inibem.
A NEGLIGENC
‘A DA PRODUGAO.
Este € 0 ponto mais ficil de ilustrar. E a diferen
4, por exemplo, entre os Estudos Culturais na tra
digo do CCCS, especialmente a apropriagdo pelo
CCCS das anilises de Gramsci sobre a hegemonia e,
digamos, a tendéncia tedrica principal da revista de
critica cinematogrifica associada com o British Kilm
Institute, Screen. No contexto italiano, a compara
Sa0 poderia ser entre as tradigdes semiologicas “pu
ras” ¢ os Esnudos Culturais. Enquanto os Estudos
Cc
histéricos, mais preocupades com conjunturas ¢ lo
turais de Birmingham tenderam a se tornar mais
calizagies institucionais particulates, a tendéncia da
critica cinematografica, na Inglaterra, tem sido, em
vew disso, na outra direcdo, Inicialmente, uma anti
22 preocupagio marxista com a produgIo cultural &
em particular com o cinema, com a indiistria e com
38 conjunturas da produgio cinematogritica, era co:
mum tanto na Inglaterra quante na Eranga. Mas,
tal COMO as re nificas francesas, Screen
tomou-se, nos
vistas cinemato
anos 70, cresee
ntemente preocupada80
Renos com a producio como um processo social ¢
historico © mais com a “produtividade” dos propri
Os sistemas cle significagdo; em particular, com os
mncios de representagio do veiculo cinematogrifico,
Argumentou-se mais explicitamente em for dessa
mudanga nao apenas nas eriticas das torias realistas
de cinema ¢ das estrunuras realistas do. proprio filme
convencional, mas também na critica do “super-re
alismo” de (cclebrados) marxistas como Eisenstein ¢
Brecht. Ela fez parte de um movimento mais am
Plo que colocava uma énfise crescente nos meios de
Fepresentagio em geral © argumentava que tinha.
mos que escolher entre a autonomia virtual ¢ a de
terminagzo absoluta da “signiticagto” ou retomar a
consisténcia do marxismo ortodovo, Como diz uma
clegante mas exagerada ¢ unilateral expressio, sio
08 mitos que narram © eriador do mito, a lingua que
fala o falador, os textos que lecm 0 leitor, a proble-
matica tcoriea que produz a “eigncia” a ideologia e
© discurso que produzem 0 “suijeito
Havia, sim, uma andlise da produgio neste tra
batho, mas tranava-se de uma
nitive bastante fraca
Se pensamoss na produdo como envolvendo materi
ais: brute
» instrumentos ou meios de produ
formas socialmente organizadas de trabalho huma
nO. a8 aniss fimicas fetes por Screen, por exemplo,
estavam fcalizacas de forma estreita em alguns dos
instrumentos ¢ meios de produgio/representagao,
Digo “alguns” porque as teanas semiologi
influcnciadas tém tido uma tendéncia a inverter as
Prioridades de abordageny marvistas mais antigas
da produgio, focalizando-se somente em alguns
nente
meios culturais, aqueles, na verdade, que a econo
mia politica negligencia. A teoria do filme dos anos
70 reconhecia
4 natureza “dual” do circuito cine
mitico, mas estava_ preocupada, principalmente, em
analisar 0 cinema como uma “maquinaria mental?"
Esta era uma escolha compreensivel de prioridacles,
mas que foi, com fiequéncia, perseguiida de wma for
ma hipereritica © ndo cumulativa. Mais séria foi a
negligéncia relativamente ao trabalho,
. 8 atividade
humana real de produgio, Outra ver, isso pode ter
sido, em si, uma reagio exagerada contra idelas mais
antigas, especialmente neste caso, contra a teoria do
aueur, ela propria uma concepyio enfaqueeida do
trabalho! A negligéncia relativamente & atividade
humana (estruturada), especialmente a negligéncia
relativamente aos conilitos em tors de todos os
pos de producdo parece, em retrospecto, a ausén
ccia mais impressionante. Assim, embe
pa concepedo
de “pritica” fosse muito invocada (por exemplo
Pritica de significagio"), tratava-se de uma priticabastante sem “prixis”, no velho sentido marxista, Os
efeitos disso foram especialmente importantes nas dis-
CussOes, As quai chegaremos, sobre fextos € sujeitos.
A aritica pode, entretanto, ir um passo adiante:
trata'se cle uma concepio muito limitada de “meios”,
Havia, na tcoria da Screen, uma tendéncia a olhar
apenas para os “meios” especificamente cinematogri
ficos — os cédigos do cinema, As relagdes entre esses
Meios € outros recursos ou condigdes cullturais nao
ram examinadas: por cxemplo, a relagio entre os cé
dligos do realismo e 0 protissionalismo dos cineastas
oa relagio entre os meios, de forma mais geral, ¢ 0
Estado € 0 sistema politico formal, Se esses elementos
Podium ser considerados como meios (eles podiam
amber ser pensados como relacées socias de prot
S40), os materiais brutos da produgio estavam tany-
bém, em grande parte, ausentes, especialmente em
suas formas culturais, Poi
© cinema, como outros
Imeios priblicos, pega seus matetais brutos do campo
Preexistente dos discursos politicos — isto & de toclo,
2 campo € nio apenas daquele segmento chamacio
“cinema” — e, sob 0 tipo de condigdes que nds exa
minamos, também dos conhecimentos privados, Uma
critica da propria nogao de representagao (vista como
indispensivel & critica do realismo) fez com que se
tornasse dificil para esses te6ricos trazer para suas
anilises filmicas qualquer reconheciment muito ela
borado daquilo que uma teoria mais antiga, mais ple
ha, poderia ter chamado de “conteido”. O cinema ¢,
depois, a televisio cram analisados como se tratasse,
Por assim dizer, apenas “de” cinema ou televisio, sim.
plesmente reproduzindo ou transformando as for
‘mas cinematogriticas ou televisuais, nao incorporando
© tanstormando discursos primeiramente produyi-
dos em outro local. Desta forma, o texto cinemato-
Brifico era abstrafdo do conjunto global de discursos
€ relagdes sociais que 0 rodeavamn © 0 formavam
Uma importante limitagio adicional em grande
parte deste trabalho era sua tendéncia a recusar qual
quer gesto explicative que fosse alm dos meios
tentes de representayio, fosse ele a lingua, uma “pritica
de significagio” particular, ou, na verdade, um siste-
ma politico, A andlise ficava limitada aos meios text
ais € aos “efeitos” (apenas) textuais. Os meios nao
cram concebiddos, historicamente, como tendo seu pro-
prio momento de produyao. Esta ndo era uma difi-
suldade localizada de anilises particulares, mas uma
auséncia tedrica geral, eneontrada nos primeiros mo-
delos influentes da teoria, A mesma dificuldade as
sombra a linguistica saussureana. Embora as regras
do sistema de linguagem determinem os atos de fala,
© desenvolvimento cotidiano de formas linguisticas
83Parece nio tocar o sistema de linguagem om si, Isto
come, etn parte, porque seus principios sio concebi
dlos de forma tio abstrata que a mudanga historiea ou
4 variasio social deixam de ser detectadas, mas isto
cxorre também porque nio existe nenhum momento
cle proclugao verdadeiro do sistema de linguugem em
Si Insights cruciais sobre a tinguagem e sobre outs
sistemas de signifcagio s30, pois, excluides: a saber,
Ue a linguagtens Sio procuzidas (ou diferencias),
reproduzidas © modificadas pela pricy humana sor
cialmente organizada © que nio pode haver nenhuns
linguagem (exceto una linguuagem morta) sem fale
fess € que a linguagem & continuamente disputada em
suas palavras, em sua
nKAKE ¢ eM stat Fealizagao dis
aA tim de recuperar esses insights, os estudi
{sos ca cultura qu esijam interesados ma lingtagem
tem qu
curs
Sair das tradigdes semioligicas predontinan-
temente francesas, © voltar a Ba
marist da linguagem
flu
htin — © fildsotes
OU tecorter 4 pesquisa in
da pelo trabalho de Remstein ou Holliday
LESTORES NOS TEXTOS;
NEITORES NA SOCTEDADL
© elementa mais caracteristies das semiole,
las
Mais recentes € a assersio de que el
8 proporcionan
uma teoria da produgio de sujeitos. Inicialmente, a
ausersio estava baseacla numa oposisao filosdfica ge
ral as concepedes humanistas de um “cu” ou sujeito
simples © unificado, colocado, de forma nio proble-
matica, no centro do pensamento, da moral ou da
waliagao estética. Este elemento do estruturalismo
nha afinidades com argumentos similares em Mare
sobre os sujeitos das ideologias burgutesas (especial:
‘mente sobre as premissas ca economia politica) ¢ com
4 anilise, fit por Freud, da contradicao da perso
nalidade humana,
A “semiologia avangada” apresenta di
madas de teorizacio da subjetividade. as quais «i
diffccis de desenredar” Esse conjunto eomplicado
de fisdes ¢ enredamentos combinava importantes
insights com desastres tedricos, O insivht crucial,
Para mim, € que ay narrativas ou as imagens sempre
implicam ou constroem uma posigto ow posigdes &
partir das quais clas devem ser lids ou vistas. Em.
bora o conceit de “posigao” continue problematic
(trata-s
ou, como © termo implica, alguma ~
Sa Ca
¢ de uum conjunto de competéncias culty
ujeigaey
ecessitia ao texto?), temas ai um insighe fAscinante,
especialmente quando aplicado as imagens visuais ¢
a0 filme. Nos temos, agora, uma nova perspectiva a
partir da qual poclemos analisar 6 trabalho feito pela86
camera: cla nio se limita a apresemtar um objeto; ela,
na verdade, nos posiciona relativamente a ele. Se acres.
Centamos a isso © argumento de que certos tipas de
textos (os textos “realistas”) naturalizam os mieios
pelos quais este posicionamento ¢ atingido, temos um
insight duplo de grande forga. A promessa particular
consiste em tornar processos até ali inconscientemen
te soffidos (¢ fruidos) abertos 3 andlise explicita,
No contexto de meu proprio argumento, a im-
Portincia desscs insights esté em que eles propiciam
tuma forma de fizer wins conexao entre, de um lado,
4 anilise das formas textuais ¢, de outro, a explora.
S80 das intersedes com as subjctividades dos leito
res. Una anilise cuidadosa, elaborada, hierarquizada
das posicdes de Ieitura oferecidas em um texto (na
estrutura narrativa on nos modos de enderegamen-
to, por exemplo) parece-me © método mais desen
volvido que nés temos, até agora, dentro dos limites
da analise textual. Naturalmente, essas Jeituras nao
deve:
iam ser tomadas como negando outros méto:
dos: a reconstragao dos temas manifestos de un texto,
cus momentos denotativos © conotativos, sta pro
blematica ideoldgica om seus pressupostos limitado-
res, suas estratégias metaforicas ow linguisticas, O
objeto legitimo de uma identificagio de “posigoes” &
constituicle pelas presses ou tendéncias das formas
subjetivas, pelas “diregdes” nas quais elas nos mo
vem, sua “forga” — uma vez ocupadas as posigde:
As dificuldades surgem — ¢ clas sto muito numero-
sas — quando se da como certo que elas foram efeti-
vadas na subjetividades dos leitores, sem formas
adicionaiy ¢ diferentes de
anilise.
As fascinagdes da teoria tornam um tal movi-
mento muito tentador, Mas passar do “leitor no
texto” para “‘o leitor na sociedade” € passar do
momento mais abstrato (a anilise de formas) para
‘© objeto mais concreto (os leitores reais, tais como
cles sio constituidos socialmente, historicamente,
culturalmente), Isto significa, convenientemen-
te, ignorar — mas nao explicitamente como uma
abstracio racional — uma série enorme de novas
determinagdes ou presses das quais nés devemos
agora dar conta, Em termos discipli
mos de um terreno usualmente coberto por abor
ares, NOs va
dagens literarias para o terreno mais conheeido
das competéncias historicas ou sociolégicas, mas ©
novo € comum elemento, aqui, é a capacidade para
lidar com uma massa de determinagdes coexisten:
tes, as quais agem em niveis muito diferentes.
Isso nos leyaria a uma longa ¢ complicada explo.
ragio do momento da “leitura”, para testar ¢ avaliar
toda a enormidade desse salto.* Existe espago, aqui,
a7apenas para enfatizar umas poucas dificuldades em
tritar a leitura néo como recepgio ou assimilacio,
mas como sendo, ela propria, um ato de producto.
Se 0 texto € o material bruto dessa pritica, nds en.
contramos, outra vez, todos os problemas dos limi:
tes textuais. O isolamento de um texto, com vistas a
tama andlse académica, € uma forma muito especifi
a de leitura, De forma mais cotidiana, os textos sio
Promiscuamente encontrados, eles exem sobre nis
tle todas as ditegdes, através de meios diversificados
© cocxistentes € em fluxos que tém diferentes rit
mos. Na vida cotidiana, os materiais textuais sio com-
plexos, miltiplos, sobrepostos, coexistentes,
Nstapostos; em uma palavra, “intertextuais”, Se usar
mos uma categoria mais jgil como “discurso”, para
indicar clementos que atravessam difer entes textos,
Poxlemos dizer que todas as leiuaras io tambény inter,
discursivas. Nenhuma forma subjetiva anu, jamais,
Por conta propria, Tampouco podem as combina.
$628 ser preditas por meios formais ou légicos, nem
mestno a partir da andlise empitica do campo do dis-
curso,piiblico, embora, naturalmente, isto possa sir
Berir hipdteses. As combinagdes advém, em ver di
de légicas mais particulares — a atividade estrutn
Tada cla vida, em seus lados objetivos ¢ subjetivos,
de Icitores ou grupos de leitores
suas localizagées
socia
is, suas historias, seus interesses subjetivos, seus
mundos privados
© mesmo problema surge se nés considerarmos
9s instrumentos dessa pritica ou os cédigos, as com
peténcias e as orientagdes jd presentes no interior
de um miliew social particular, De novo, eles nao
sio previsiveis a partir de textos puiblicos. Eles per
tencem a “culturas” privadas, no sentido em que o
termo tem sido comumente utilizado nos Estudos
Culturais. Eles s30 agrupados de acordo com “tor-
mas de vida", Eles existem nos ensembles eadticos
€ historica
mente sedimentados que Ciramsci carae-
terizou através do conceito de “senso comum”. En
tretanto, estes devem determinar os resultados de
tos interpelativos par.
ticulares ou, como prefiro, as formas das transtor:
magdes culturais que sempre ocorrem nas leit
longo ¢ curto prazo de mome:
Tudo isso aponta para a centralidade daquilo
que é comumente chamado de “context”. O con-
texto determina 0 significado, as transformacoes
ow a saliéne
ia de uma forma subjetiva particular,
tanto quanto a propria forma. © contexto inelui os
Jementos culturais descritos acima, mas também
O8 contextos das situagde:
imediatas (por exemplo,
o.contexto doméstico do lar} ¢ © contexto ou a con
juntura histériea mais ampla
x090
Entretanto, qualquer anélise ficaria incompleta
sem alguma atengao ao préprio ato de leitura e sem
uma tentativa de teorizar seus produtos. A ausén-
cia de agao por parte do leitor é caracteristica das
analises formalistas. Mesmo aqueles teéricos (por
exemplo, Brecht, Tel Quel, Barthes em $/Z) gue
Esto preocupados com a leitura produtiva, des.
construtiva ou critica atribuem essa capacidade a
tipos de texto (por cxemplo, “escrevivel” em ver
de “legivel”, na terminologia de Barthes) ¢ nio, de
modo algum, a uma histéria de leitores reais. Essa
aniséncia da produgio no momento da Ieitara tem
um paralelo na atribuicdo de produtividade a siste
mas de significagao, Na melhor das hipsteses, atos
Particulares de leitura si0 compreendidos como
uma repetigao de experiéncias humanas primitias,
Xatamente da mesma forma que uma eritica lite
aria mais antiga buscava valores © emocdes huma:
nas nj
formalist
ersais no texto, também os novos
‘es Compreendem a leitura como o revi-
ver de mecanismos psicanaliticamente definidos, As
andlises do olhar do. espectadr, baseadas na teoria
lacaniana da fase do espelho, identificam alguns
dos mados pelos quais os homens usam imagens de
mulheres © se relacionam com herds” Essas anili-
Ses realmente fizem uma ponte entre 6 texto v0
leitor. Existe uma enorme potencialidade para os
Estudos Culturais no uso critico de categorias freu-
dianas, isto ¢, to eritico quanto se tornou (au est
se tomando) 0 uso de categorias marxistas, Entre
tanto, Os usos atuais frequentemente fazem uma
ponte entre o texto € o leitor a um custo: a simpli
ficagio radical do sujeito social, reduzindo-0 a ne-
cessidades originais, owas, infantis. E. dificil, desse
modo, especiticar todos os dominios de diferenga
que se deseja aprender, incluindo, surpreenden-
1 da hipoteses, as impli
is restumem-se a uns poucos
universais, exatamente da mesma forma que, ago
rememte, 0 género. Na p
a, sio apenas uns poucos elementos biisicos do tex
to que nos interessam. Existem limites claros em
um procedimento que descobre — em fenémenos
de resto variados — os mesmos velhos mecanismos
produzindo os mesmos velhos efeitos
Uma auséncia nessas andlises € uma tentativa
de descrever mais elaboradamente as formas
superficiais
tiva — que sio aspecto mais empi
da subjetividade. Sera possivel que se pense que €
hum
os fluxos da fala interior © da narra:
camente Obvio
sta prestar atenedo A consciéneia dessa forma?
Mas somos todos nds (nao somos?) usuarios continu:
os, cheios de recursos ¢ absolutamente fienéticos denarrativas e imagens? E esses usos ocorrem, em par-
te, dentro da cabega, no mundo imaginativo ou
ideal que nos acompanha em rodas as ages. As nar
Tativas ndo tém como dnico efeito o de nos posici
onar, Usamos estorias realistas sobre o furaro para
preparar ou plangjar, representando, por antecipa-
io, eventos perigosos ow prazerosos, Usamos for-
mas ficcionais ow fantisticas como forma de fuga
ou escapismo, Contamos estorias sobre 0 passado,
na forma de meméria, que constrocm versoes de
quem nés atualmente somos. Talvez tudo isso este
ja simplesmente pressuposto nas anslises formalis
tas; trazé-tas para o plano frontal parece, entretanto,
ter importantes implicagdes,” tornando possivel re-
euperar os elementos de autoprodugio nas teorias
da subjetividade. Isto sugere que, antes que possa-
mos avaliar a produtividade de novas interpelagoes
ou antecipar sua popularidade, precisamos reconhe
cer quais estérias ji estio em agio.
‘Tuco isso envolve um movimento para além da-
quilo que parece ser um pressuposto formalista stab-
Jacente:.0 pressuposto de que os leitores reais sto
apagados (como se apaga um quadro-negro) a cada
encontro textual, para serem posicionadas ow libe-
rads (como se foxsem um quadro:negro “limpo”) pela
proxima interpelagio. As revisoes pos-estruturalistas
que enfatizam a produtividade continua da lingua:
gem ou do discurso como processo nio ajudam, ne
cessariamente, em nada, aqui, porque nao esta
absolutamente claro © que toda essa produtividade
realmente produz. Nao e
ria real da subjetividade, em parte porque 0 exphi-
nandur, 0 “objeto” dessa woria, ainda precisa ser
especificado.
anilise do sequenciamento ott da continuidade das
autoidentidades de um momento discursive para 0
ste, aqui, nenhuma Teo.
m particular, ndo existe nenhuma
seguinte, de modo que uma re-teorizagio da memé
ria em termos discursivos permitiria, Uma yer que
nao existe nenhuma andlise das continuidades ou
daquilo que permanece constante ou acummulative.
no existe nenhuma anilise das mudangas estrune
rais ou dos rearranjos maiores de um sentido do cu.
especialmente na vida adulta, Estas transformagoes
esto sempre, implicitamente, referidas a formas tex
iais “externas”, como por exemplo, textos revohu
cionstios ou poéticos — em geral, formas de
literatura.
predispde © leitor a usar esses textos
» existe nenhuma anilise daquilo que
rodutivamen.
te on de guais condigdes, além daquelas das proprias
formas textuais, contribuem para conjuncuras re
volucionatias em suas dimensdes subjetivas, De for
ma similar, com uma tal carga colocada sobre o texto,
934
io existe nenhuma anilise de como alguns leitores
(incluindo presumidamente os analistas) podem usar
© textos convencionais ou realistas dle forma criti
«a. Acima de tudo, nao existe nenhuma anilise da.
quilo que eu chamaria de “aspectos subjetivos da
lua”, nenhuma anélise de como existe um momen-
f0 no fluxo subjetivo no qual os sujeitos sociais (in-
dividuais ou colctivos) produzem narrativas sobre
quem eles sio como agentes politicos conscientes,
'sto € como cles se constiruem a si mesmos politica,
mente, Perguntar por uma tal teoria no significa
Aegar os principais insights estruturalistas ou pc
cstrutuirlistas: 0s sujeitos so contraditérios, frag
mentados, produzidos, estio “em proceso”. Mas os
seres humanos € 05 movimentos sociais também se
esforgam para produzir alguma coeréncia ¢ conti-
nuidade ¢, através disso, exercer algum controle s0-
bre os sentimentos, as condigoes © os destinos
F isto que quero dizer com uma anélise “pts
pOs-estruturalista” da subjetividade. Isto envolve
retormar a algumas questoes mais antigas, mas re-
Tormuladas — sobre luta, “unidade” ¢ a produgio
de uma vontade politica. Envolve aceitar os ini.
shits estruturalistas como uma formulagio do. pro
blema, quer estejamos filando dos nossos préprios
Cus fragmemtados, quer da fragmentag2o objetiv
¢ subjetiva dos possiveis argumentos politicos; mas
também envolve levar a sério aquilo que me parece
ser a indicagao tedrica mais interessant
dle uma autoprodugio discursiva dos sujeitos, cs
Pecialmente na forma de historias ¢ memorias.*t
a nogio
ANALISES SOCIAIS — LOGICA E HISTORIA
Espero que a légica de nosso terceiro conjunto
de abordagens, as quais se focalizam na “cultura
la", ja esteja clara. Para recapitular, o proble
ma consiste em saber como apreender os momen:
tos mais concretos ¢ mais privados da circulagio
cultural, 18s0 coloca dois tipos de pressio. O pri
meiro vai na direcio de métodos que possam de
tos
talhar, recompor e representar con;
complexos de clementos discursivos ¢ nao discur:
sivos tais como cles aparecem na vida de grapos
sociais particulares. O segundo vai na direcio de
¢ social” ou de uma busca ativa de ele
mentos culturais que nao aparecem na esfera pi
blica ou que aparecem apenas de forma abstrata €
transformada. Naturalmente, os estudiosos da cul
tura tém acesso as formas privadas através de suas
Proprias exp.
sociais. Este € um recurso continuo, tanto mais se
uma “and
iéncias ¢ de seus proprios mundos96
cle for conscientemente especificado € se sua rela
tividade for reconhecida, Na yerdade, uma auto-
critica cultural deste tipo € a condigao
indispensivel para se evitar as formas ideolégicas
mais grosseiras de estudo cultural? Mas a pri-
Meira ligio, aqui, € a do reconhecimento de dife
rengas culturais importantes, especialmente as que
atravessam aquelas rela
der, a dependéncia ¢ a des
em jogo. Existem perigos, pois, no uso de um au
toconhecimento individual ou (limitado) coleti
Vo, no qual os limites e sua representatividade ndo
Tejam mapeados, € no qual seus outros lados —
comumente os lados da falta de poder — sejam
simplesmente desconhecidos. Isto continua uma
Ses sociais na
quais 0 po:
ualdade estejam mais
Justificagso para formas de estudo cultural que
tomem os niveis culturais de outros (frequente
mente os lados inversos de nosso proprio) come o
objeto principal.
Temos que manter um olhar inquieto sobre as
linhagens historicas © as atuais orodoxias daquilo
que €, algumas vezes, chamado de “emografia”
a pritica de representago das culturas dos outros,
A pritica, tal como a palavra, jd amplia a
distincia
‘onhecimento-como.
poder”, “Estudar” formas culturais € ja diferir de
Social © constedi relagdes de
luma ocupagio mais implicita da cultura, que € a
Principal forma de “senso comum” em todas os
grupos social
Giais — os “intelectuais” pociem ser étimos em des-
(B quero dizer todos os grupos so-
crever 08 pressupostos implicitos de outras pessoas,
mas sio to “implicitos” quanto quaisquer outros
quando se trata de seus préprios pressupostos).
Em particular, os anos iniciais da pesquisa da
“Nova Esquerda” — oy anos 40 ¢ 50 c inicio dos
anos 60 — envolviam um nove conjunto de relagies
entre 08 sujcitos € os objetos da pesquisa, especial-
mente ao longo de relagdes de classe.** Os movimen-
tos inteleetuais associados com o femninismo ¢ 0
trabalho de alguns intelectuais negros tém transfor-
mado (mas nio abolitic) também essas divisdes soci-
ais. Experimentos em autoria baseada na comunidade
tém também, dentro de limites, estabelecido novas
relagdes sociais de produgio cultural e de publica-
30. Mesmo assim, parece prudente suspeitar nao
necessariamente dessas priticas em si, mas de todas as
analises delas que tentem minimizar 0s riscos ¢ as res-
ponsabilidades politicas envolvidas ou resolver, de
forma magica, as divisoes sociais remanescentes, Uma
vex que as relagdes sociais fundamentais nao foram
transtormadas, a analise social tende, constantemen
te, a retomar as suas velhas ancoragens, patologizando
798,
as culturas subordinadas, normalizando os modos
dominantes, ajudando, na melhor das hipdteses, a
construir reputagdes académicas sem retomos pro:
Porcionais aquelas pessoas © Aqueles grupos que sio
representadas. Além da posigio politica isica (cle que
lado estdo os pesquisadores?), muito depende das for-
mas teoricas especificas de trabalho, muito depende
do tipo de emogratia
LIMITES DA “EXPERTENCIA”
Parece haver uma estreita associagdo entre, de um
ado, etografias (ow histérias) baseadas numa atita-
de de simpatia para com a cultura estudada ¢, de ou.
tro, modelos empiristas ou “expressivos” de cultura,
A pressio vai no sentido de representar as culturas
vividas como formas amténticas de vida e de defende-
las contra o ridiculo ou a condescendéncia. As pes-
uisas desse tipo tém sido frequentemente usadas para
criticar as representagdies dominantes, especialmente
aquelas que tém influéncia sobre as politicas piblicas,
As pesquisicloras tém frequentemente feito um trae
balho de mediagio entre © mundo operitio privado
(muitas vezes 0 mundo de sua propria infincia) ¢ as
definigoes — com seu vies de classe média — de es
"1 piblica, Uma forma muito comum de defender as
culturas subordinadas € a pritica de enfitizar os lagos
centre 05 lados subjetivos ¢ objetivos das priticas po-
pulares. A cultura operitia tem sido vista como a ex
presto auténtica de condigoes proletitias, talvez a
linica expressio possivel, Essa relagio ow identidade
tem, as vezes, sido fundamentada em antigos press
Postos marxistas sobre a consciéneia da classe ope
tia. Um conjunto similar de pressupostos baseia.se
em alguns escritos feministas sobre a cultura, os quais
tetratam ¢ celebram um mundo cultural feminino ©
distinto que seria 0 reflexo da condigio feminina, O
termo que mais comumente marca este quadro de
referéncia teorico & “experiéncia”, com sua caracte-
Tistica fusio de axpectos objetivos © subjetivos.
Eyses quadros de referéncias produzem gran
des dificuldades, inclusive para as proprias pesqui
sadoras. A anise secundaria e a re-presentacio serio
sempre problemticas ow invasivas se as formas cul-
turais “espontineas” forem vistas como a forma ne-
cessiria ou completa de conhecimento social. A
‘inica pritica legitima, neste quadro de referencia,
consiste em representar, de alguma forma em seus
proprios termos, um segmento nao mediado da pré-
pria experigncia auténtica.
Existe também una pressto siematica para que as
cculturas vividas sejam apresentadas, primariamente,
99Gm termos de homogencidade « distingao, Essa pres
So tedrica, em concepgtes 1s como “modo global
de vida", toma-se surpreendentemente clare quan
do se consideram quesites de nacionalismo ¢ racis-
mo. Existe uma incémoda convergéncia entre
dleserigtes “eriticas™ mas rominticas da “cultues da
classe operitia” © noses que supiem a exsténcis de
time “identidade inglesa” comm ou de uma etnia
branca. Tambm aqui encontramos o terme “onacis
de vida”, utlizado como se as “culturas” fosicm blo.
cos de significado carregacos sempre pelo mesmo con,
junto de pessoas. Na ctnograta de esquerda, 0 termo
tem sido frequentemente associado com uma sub-re
Presentaedo de relacies que nio sejam de clase e com
agmentardes no interior das casses sociais*
A principal auséncia no intetior das teorias ex
Dressivas é @ atendo acs meios de significacio como
lima determinagdo cultural especifica. Nao existe
melhor exemplo de divércio cntre a andlise formal «
ps “estudlos concretos” do que a raridade da andlise
lingufstica no trabalho histérico ou emogritien ‘Tr
Como boa pare da anilise estnituralsta, pois, ae et
nografés frequentemente ttabalham com uma ver
gnmeada de nosso circuito; mas 0 que est ausente,
aati € todo o arco das formas “pablicas”. Enfatizam
Se, assim, a eriatividade das formas pr
vadas © a con-
100— = :
tinua produtividade cultural da vida cotidiana, mas
no sua dependéncia dos materiais ¢ modos de pro-
dugio pablica. Metodologicamente, as virtudes da
abstragio s20 evitadas, de modo que os clementos se-
Paradas (ou sepaniveis) das culturas vividas nao sto
deslindados ¢ sua complexidade real (em contraste
com sua “unidade essencial”) no é reconhecida
A MELHOR ETNOGRAFIA
Nao quero dar a entender que esta forma de
estudo cultural esteja intrinsecamente compro
metida, Pelo contririo, tento vé-la como a forma
privilegiada de anilise, tanto intelectualmente
quanto politicamente. Talvez isto fique claro ao
revisarmos, de forma breve, alguns aspectos dos
melhores estudos etmogrificos feitos no centro
de Birmingham.
Estes estudos tém utilizade a abstragio e a descr
‘0 formal para identificar clementos eruciais em um
ensemble cultural vivido. As culturas sio lidas “tex-
tualmente”. Mas clas também tém sido vistas através
de uma reconstigao da posigio social dos ususrios
Existe uma grande diferenga, aqui, entre uma “etno
grafia estrumural” © uma abordagem mais ctnometo.
dolégica, preocupada exclusiva
nente com © nivel do.
101significado, © em geral, no interior de um quado de
referéncia individualist. Essa é uma das navies, por
exemplo, pelas quais o trabalho feminista do Centro
tem estado tio preocupado com a teorizacio da posi
S40 das mulheres quanto com “falar com as garotas”.
Temos tentado combinar a anilise cultural com uma
Sociologia estrutural (as vezes demasiadamente gene-
ralizach) centrada no géneto, na classe ¢ na raga,
A caracteristica mais distintiva € constituida
pelas conexdes feitas entre ensembles culturaig
vividos ¢ formas ptiblicas. Tipicamente, os esti
dos tém se preocupado com a apropriacio de ¢
mentos da cultura de massa € sua transformacio
de acordo com as necessidades € a légica cultural
dos grupos sociais. Os estudos sobre a contribui-
so das formas culturais de mas.
8a (misica popu
lar, moda, drogas, ou motocicletas) para 0s estilos
subculturais, sobre a utilizagio das formas cul-
turais populares pelas garotas ¢ sobre a resistén
cia dos garotos a0 conhecimento ¢ a autoridade
da escola si0 exemplos disso. Em outras palavras,
os melhores estudos da cultura vivida, sto tam.
bém, necessariamente, estudos de “leitura”, &
desse ponto de vista — o da intersegdo entre fo
mas public
ope
i
s € privadas — que temos a melhor
tunidade de responder aos dois conjuntos cen
102——
trais de quest6es As quais os Estudos Culturais,
de forma correta, continuamente retornam,
O primeiro conjunto diz respeito ao prazer da
“popularidade” © ao valor de uso das formas cul-
turais. Por que algumas formas subjetivas adqui-
fem uma forga popular, tornando-se principios de
Vida? Quais so os diferentes modos através dos
quais as formas subjetivas sio ocupadas — ludica
mente ou numa profuunda seriedade, através da fan
trata da coisa
tasia ou em acordo racional, porque
a fazer ou da coisa a mio fazer?
© segundo conjunto de questdes diz respeito
aos resultados das formas culturais. Tendem essa
formas culturais a reproduzir as formas existentes
de subordinagao ou opressio? Els satistizem on
ambigdes sociais, definindo os desejos de
forma muito modesta? Ou sdo clas formas que per
mitem um questionamento das relagdes existentes
€ sua superagio em termos de desejo? Elas apon-
um
tos como esses niio podem ser feitos com base na
ara arranjos sociais alternativos? Julgamen:
anilise apenas das condigdes de produgio ou dos
textos; eles terio melhores respostas depois que ti
vermos descrito uma forma social diretamente atra
vés do circuito de suas transtormagdes ¢ tivermos
feito algum esforgo para coloci-la no interior de
103104
todo 0 contexto de rela
Ne 'sSes de hegemonia no inte-
rior da sociedade.
FUTURAS FORMAS DOS
ESTUDOS CULTURAIS: DIRECOES
Cada abordage:
lativamente aquele momento
tamente em vista, mas ela
€, muito evidentemente.
inadequada ou até mesmo 1
“ideologica”, como uma
deserigio do todo, Entretanto, cada abordagem tam.
bem impli i
Gs Poderiam ser buscadas. Esscs discursos sio, em
Beral, dirigidos a retormadores insti oa 8
Partidos politicos de esquerda. Os estudos baseados
ho texto, a0 se focalizarem nas formas dos produtos
culturais, tém, em geral, se preocupado com as possi
bilidades de uma prética cultural ranstormativa. Eles
tém se dirigido, mais frequentemente, aos pratican-
tes de vanguarda, aos crticos ¢ aos professores. Ess
abordagens tém atraido, especialmente, educadores
profissionais em faculdades ou escolas, porque os co-
nhecimentos apropriados pritica critica tém sido
adaptados (ndo sem problemas) a um conhecimento
apropriado a leitores criticos, Finalmente, a pesqui
sa das culturas vividas tem estado estreitamente as-
sociads com uma politica da “representagao”,
apoiando as formas vividas dos grupos sociais su-
bordinados ¢ criticando as formas publicas domi
nantes luz de sabedorias ocultas, Este trabalho pode,
inclusive, aspirar a contribuir para tornar hegemd-
nicas culturas que sio comumente privatizadas, es-
tigmatizadas ou silenciadas.
E importante enfatizar que o circuit nao foi
apresentado como uma descrigio adequada de pro
cessos culturais ou mesmo de formas culturais ele
mentares. Nao se trata de um conjunto completo
de abstragdes em relagto as quais toda abordagem
parcial possa ser julgada. Nao constitui, portanto,
uma estratégia adequada para 0 futuro’ a operacio
de simplesmente adicionar os trés conjuntos de
105106
abordagens, usando cada uma em seu respective
Momento. Isso ndo funcionaria sem que houvesse
transformagdes em cada abordagem ¢ talvez em
‘Rosso pensamento sobre os “momentos”. Por um
‘ado, existem algumas incompatibilidades te6ricas
reais entre as abordagens; de outro, as ambigoes de
muitos projetos jd sto bastante grandes! E impor-
fante reconhecer que cada aspecto tem uma vida
propria, a fim de evitar redugdes, mas, depois di
80, pode ser mais transformativo repensar cada mo-
mento A luz dos outros, importando — para outro
momento — objetos © métodos de estudo comu-
mente desenvolvidos em relagao a um determina.
do momento, Embora separados, os momentos nao
S20, na verdade, autocontidos; precisamos, portan-
to, analisar aquilo que Marx teria chamado de “co.
nexdes internas” ¢
identidades reais” entre eles
Aquelas pessoas preocupachs com estudos de pro-
ducao precisam examinar mais de perto, por exem-
plo, as condig6es especificamente cul
Produgao, Isto incluiria as questdes semiol
formais sobre os codigos ¢
Iturais de
lOgicas mais
3S convengdes nos quais
se baseia, digamos, um programa de tele
formas pelas quais cle os retrabalha
cluir também uma gama mais
discursivos — problennsticas ¢
io ¢ as
‘eria que in
ampla de materiais
remas ideolégicos
que pertencem a uma conjuntura social © politica
mais ampla, Mas ji no momento da produg30, nés
esperarfamos encontrar relagdes mais ou menos in
timas com a cultura vivida de grupos sociais part
culares, nem que seja apenas a dos produtores, Os
clememtos discursivos ideoldgicos seriam usados ¢
transformados também a partir daj. Digo “ji”, uma
vez. que no estudo do momento da produgio pode-
‘mos antecipar os outros aspectos do proceso mais
amplo ¢ preparar o terreno para uma anilise mais
adequada. De forma similar, precisamos desenvol-
ver, além disso, modos de estudos textuais que se
articulem com as perspectivas da produgio € da lei
tura, Pode muito bem ocorrer, no contexto italiano,
onde tradigdes semiolégicas ¢ literirias sio tio for
tes, que essas sejam as transformagdes mais impor-
tantes. Ei possivel procurar por sinais do processo de
produsao em um texto: esta € apenas uma das ma
neiras fitels de transformar a preocupagio bastante
ainda dominava a
improdutiva com o *viés” que
discussio sobre os meios “factuais”, E também pos-
csentugdo desde
sive ler os textos como formas de reps
que se compreenda que estamos sempre analisando a
representagdo de uma representagao. O primero
objeto, aquele que € represcntado no texto, no é
um evento ou um fato objetivo: cle vem com signi-108.
ficados que Ihe toram stribuidos a partir de alguma
outta pritica social. Desta forma, € possivel consi
derar a relagio, se € que existe alguma, entre os o6.
digos ¢ as convengdes caracteristicas de um grupo
Social € as formas pelas quais cles so representados
em uma telenovela ou em uma comedia. [sto nio
constitul um exercicio apenas académico,
ue ¢ cssencial se ter uma andlise desse tipo para
ahidar a estabelecer a importincia do texto para este
BrUPO Ou para outros grupos. Nao hé por que aban-
donar formas existentes de anilise textual, mas
fem que scr adaptadas 20 estuido das pritiea
de leitura dos diferentes priblicos, em vez de
tui-los, Parece haver, aqui,
uma vez,
estas
as reais
substi-
u duas principais exigénci-
3s. Em primeiro lugar, a leitura formal de um texto
tem que ser t20 aberta ou tio multiestratificada quan
‘0 Possivel, identticando, ceramente, posigdes pre
Feridas ou quadros de referéncia prefereinciais, mas
também leituras alcerativas © quadros de referén
cia sttbordinados, mesmo que esses possam
cernidos apenas como fragmentos ou
ontratlicdes nas formas dominantes, Em segundo
Inga, os analistas precisam abandonar, de uma ves
Por toxlas, 0s dois modelos prine
ser dis
como
is de.
ss itor criti
+ leitura primariamente avaliativa (tr
ata-se de
a aspiragio
um bom texto ou de um mau texto’) ¢
da anilise textual a ser uma “ciéncia objetiva”. O
problema com ambos os modelos € que, ao des-rela-
tivizar nossos atos de Ieitura, cles afastam de nossa
te (mas ndo como uma
consideracao autoconsci
ppresenga ativa) nosso conhecimento de senso comum
de contextos culturais ¢ de possiveis leituras mais
amplhas, J4 observei as dificuldades aqui existentes,
mas quero enfatizar a indispensabilidade desse re
curso. As dificuldades sio mais bem enfrentadas,
mas ndo totalmente superadas, quando *o analista”
€ um grupo. Muitos de meus momentos mais edia-
cativos nos Estudios Culturais tém vindo desses di
logos intemos em grupo, sobre as leituras de textos
a0 longo, por exemplo, de experiéncias de género.
Isso nao significa negar a disciplina real de uma lei
tura detalhada, no sentido de cuidadosa, ma
no sentido de confinada,
ki
descrigao cultural conereta ndo podem se permitir
ignorar a presenga de estruturas textuais ¢ de for
mas particulares de organizagio discursiva.
ticular, precisamos saber © que distingue as form
das — em seus modos bisicos de or-
nio
almente, aquelas pessoas preocupadas com a
m par-
s
culturais pri
ganizagao — das formas ptiblicas. Nés poderfamos,
desta Forma, ser capazes de especificar linguistica
mente, por exemplo, a relagio diférencial de grupos
109Sosiais com os diferentes meios e os processos reais
de leitura que estio envolvidos,
Naturalmente, a transformacao de determina
das abordagens tera efeitos sobre outtas, §
lise linguistica levar em conta as determinagoes
hist6ricas, por exemplo, ow nos fomecer formes de
analisar as operagdes de poder, a divisio entre os
sstudos da linguagem © os relatos conetetos seté
Tompida. Isso vale também para a politica que the
sts associada, Existem, no momento, pouicas ircas
0 bloqueadas pelo desacordo € pela icompreen
S#0 quanto a relagio entre, de um lado, os tedricos
& 0s Praticantes de vanguarda das artes c, de outro,
aauelas pessoas interessadas em uma inidagio maie
de base através das art
‘ea and-
comunitirias, da escrita
Cperiria, da escrita feminina e assim por diane
De forma similar, & dificil dar uma ideia de amo
mecinica, quo ineonscicnte das dimensdes cults
Tals continua a sera politica da maior parte das fea
Ses de esquerda. Se estou correto no men
argumento de que as teorias esta
10 relacionadas a
Pontos de vista, estamos filando nao apenas de de
senvolvimentos te6ricos, mas também de algumas
das condigdes para aliangas politicas eficares,
110- —
NOTAS
* Este ensaio é uma versio revista ¢ ampliada de palestras
dadas no Departamento de Lingua Inglest do Instituto
Universitario Orientale de Napoles © na Universidade
de Palermo, em abril de 1983. Sou grato avs colegas
em Napoles, Pescara ¢ Bari pelas produtivas discusses
em tomo dos temas aqui levantados. Ao revise 0 en-
sso, tants responder a alguns dos coment, espe
almente aqueles sobre consciéncia e inconsciéncia Sou
gtato 2 Lidia Curti, Laura : Michele ¢ ate ve
a produgto deste ensaio € pelas suges
pelo estimulo 4 produgac aol ete.
‘Bes; ao Conselho Briténice. pot
© a08 amigos € estudantes (Categorias no mutuamente
' erem suportade as
cexchisivas) de Birmingham por terem suportad
muitas € diferentes versdes do “circuito’
> Os textos importantes sio HOGGART, 1958; WILLIA.
MS, 1958; WILLIAMS, 1961
* Para um sumério ainda itil das respostas do Centre
porary Cultural Studies (CCCS) a Althus-
TERS, 1978.
for Conten a
set, vcja MeLENNAN, MOLINA and P
* Veiay por exemplo, HALL, LUMLEY ¢ MeLEN-
NAN, 1978. Mas as teorizagoes de Gramsci sio uma
Presenga importante em grande parte do trabalho
empirico do Ceatro a partir da metade dos anos 70,
* Veja McLENNAN, 1982; JOHNSON, 1982
———1"E dificil de represemtar isto bibliograticamente, mas
08 Pontos principais estio assinalados em CCCS
Women's Study Group, 1978; CCCs, 1982 Veja
fambém as séries sobre mutheres ¢ raga nos ensaior
mimeografados do CCCS.
Esta nao é uma critica neva, mas cla ganhou forga
renovada por causa da importincia da raca nos anos
70. Veja Gilroy, 1982.
* Aleuns dcles, em um estigio inicial, sto discutides
em CCCS Women’s Study Group, 1978, mas ha a
necessidade de uma dis
‘cussHo realmente plena ©
consolidada das transformagses nos Fstuce
rais advindas do trabalho e da eritica femninistas, Veja
fambém McRobbie, 1980 ¢ os artigos de Hazel Car
by © Pratibha Parmar em CCCS, 1982,
os Cult,
"Vela, por exemplo, HALL, 1978; HALL, 1980;
HALL, HOBSON, LOWE WILLIS, 1980. Estes
ensaios sto verses bastante abreviadas do curso s0-
bre Teoria dado por Stuart Hall no CCCS, centrado
nun mapeamento tedrico abrangemte do campo, Veja
também minhas Proprias tentativa
teorica, bastante influencia
6 de clatificagao
das pelas de Stuart, espe
cialmente em, Clark, Critcher ¢ Johnson, 1979,
"“ WILLIAMS, 1958; 1976,
" Para uma discussio da abstragio “histérico-geral”
em Marx, veja JOHNSON, 1982,
"0 diagrama baseia-se, em sua forma geral, em uma
leitura da deseriglo que Marx faz do circuito do capi
tal € suas metamorfoses. Para uma importante ¢ ori
ginal discussio desta ¢ de questées relacionadas, veja
MOLINA, 1982, Também importante @ HALL, 1980,
" Temo que este e160 ilustrative seja, em geral, hiporético,
uma vez que mio tenho quaisquer contatos dentro da
administracio da British Leyland, Qualquer semelhan-
‘62 com pessoas vivay ou moras. simplesmente uma
coincidéncis © um exemplo puro do poder da teorial
'Trata
ta” c “culturalista” que Stuart Hall ¢ eu, entre ou-
¢ da divisio entre as abordagens “estruturals,
tos, temos discutido, mas agora na forma de
“objetos” © métodos © mao de “paradigmas”. Veja as
fontes listadas na nota 9, além de JOHNSON, 1979.
'© Mew pensamento sobre “o pablico ¢ 0 privado” &
bastante influenciado por certas tradigoes germa
nicas, especialmente as discusses em tamo de tra
balho de Jiirgen Habermas sobre a “esfera pati
Este tema estd agora, de forma interessante, sendir
urilizado em alguns dos trabalhados feitas nos
Estados Unidos. Veia HABERMAS, 1962; NEGT ¢
Ha4
KLUGE, 1972. Para um extrato do trabalho de Newt
© Kluge, veja MATTERLART e SIEGELAUB,
‘* WILLIS, 1979.
Existe uma literatura soviolégica bastante ampla so
bre estas formas de estigmatizagdo, especialmente dos
desviantes jovens. Para uma extensio cultural deste
trabalho, veja HALL et al., 1978, Para formas mais
sts de marginalizagio, veja CCCS Media Group,
Enstio Mimeografido n° 72, Para uma anilise atual
do tatamento da esquerda © dos sindicatos ia midia
britnica, veja a sequéncia de estudos feitos pelo Glas:
Bow Media Group, 1976, © tivo de Cohen ¢ Young,
1973, 6 uma cok
ines pioneira
"Entre os melhores ¢ detalhados estudos deste tipo
estlo ELLIOTT, 1972; SCHLESINGER,1978;
TUNSTALL, 1971; HOBSON, 1982.
As formas de “organizasio politica” nao estavam,
com frequéncia, expecificadas em Marx ow nos te6.
Tics que seguiram, até Lénin, este incluido, Pa-
Fece-me que, para Lénin, a politica cultural
continuava uma questto de organizagto e “propa
ganda”, num sentido bastante estreito,
"Os exemplos ce “arte” que, segundo Althusser, estaram
fires dh ideolog, soo uma demonsirgio da penisiéncia
desta visio no marxismo. £ interessante também aqui
comparar as visdes de Althusser © de Gramsci telativa
mente 3 “Filosofia”: Althusser tende a uma definigio
que a coloca do lado da “alta cultura” ou a vé como
uma atividade académica especializada; Gramsci, a uma
definigio que a coloca do lado do “popular”
“| Penso que a recepgaio predominante de Gramsci na
Gri-Bretanha € “antileninista”,
sspecialmente entre
aquelas pessoas intetessadas na teoria do discurso.
4 apropriagio feita pelo CCCS
© leninismo de Gramsci. Sou grato
Mas pode ser qui
subestime tambei
4 Victor Molina pelas discussdes sobre essa questio
ham Murdo:
politica dos
* Veja, por exemplo, os trabalhos de Gi
ck © Peter Golding sobre a economi
incias de comunicagio de massas por exemplo MUR.
DOCK ¢ GOLDING, 1977; MURDOCK, 1982, Para
uma discussio mais explicitamente polémica do tra
balho do CCCS,
etal, Para uma réplica, veja Conne!
ja Golding © Murdock, in Barratt
1978,
® Estes argumentos tém sua origem painima na ali
de Althusser de que as ideologias
materal, Para um argumemto chissico sobre este tipo de
“materialismo”, veja COWARD ¢ ELLIS, 1977, Isto é
bastante diferente do argumento de Marx de que, sob
condisées particulares, as ideologias adqitirem uma “forca
usMaterial”, ow ds claboragto que Gramsci faz
termos das condigées de popiilaridade,
isso em
* Isto se aplica a uma gata ampla de teorias estrunura-
listas ¢ pés-estruturalistas, desde os argumentos de
Poulantzais contra nogdes reducionistas de ideologia re-
fativamente & classe ané as posigdes mais radicais de Bar.
TY Hindess © Paul Hirst © outros wéricos do “discuro”
*°A ete respeito, encontro-me em desacorto com muitas
Comentes dos Estudos Cuturas, incuinde algumas bas
tanre influentes, que optam por um uso ampliado do
Conecito de ideologis, mais no sentido bokehevique ou
iy Rettido mais leninista dos (varios) usos fetos por
Althusser. Por exemplo, a ideologia éaplicada no.
importante curso sobre cultura popular da. Universi.
dle de Osford — a formasio das subjetividades comp
Ss. Quando assim amplindo, argumento que 0 terme
Pete sua utlidade — *discurso”, “forma cultural” ere
também serviriam. Globalmente, quero reter as eons.
tases “negativas” ou “eriicas” do termo Maloy"
no discurso marxisa clissico, embora nde, como ¢
acompanhamento usual — uma coneepgao
do marxismo como cigne
Pode muito bem
SF © e380 de que toro nosse conhecimento do mundo
© Todas as nossas concepgdes do eu. sejam ideologi
2s", 04 mais ou menos idcoligicas, na medida eng
UE s¢ romam parcials pela agio dos intcresses € do
poder, Mas isto parece-me ser uma proposigio que tem
que ser plausivelmente argumentada em casos particu:
lares em vez de ser simplesmente pressuposta no inicio
de toda anilise. O sentido ampliado, “neutro”, do ter-
mo ndo pode deixar totalmente de lado as conotagoes
sio discuticlas
egativas mais antigas. Estas questée !
de forma interessante no trabalho de Jorge Larrain,
Veja LARRAIN, 1983; 1979.
* Veja, especialmente, ADORNO, 1978; ADORNO.
¢ HORKHEIMER, 1973; BENJATM, 1973,
Adomo, 1978, Mais tarde, cle fomece quadros leve-
mente mais suayes de tipos de consumo de miisica
popular, mas mesmo sua danga de fis assemelha-se
aus “reflexes de animais mutilados” (p. 292),
* Para eriticas mais claboradas, veja BRADLEY,
CCCS Stencilled Paper 61; MIDDLETON, 1981
* CCCS Education Group,1 981,
* A anilise do tharcherismo continuow a ser uma das prin:
vocupagies de Stuart Hall. Veja os importantes
cipais preocupagies de Stuart #
enssios republicados em HALL © JACQUES, 1983. O
eat Moning Right Show”, escrito antes da
ckeigao de 1979, mostrou-se especialmente perspicaz.
ensiio “The C
“Ines pancariente ites em ina exes som
binadks impacts Sto HARVEY, 1980; BENNETT, 1979.
17© Veja, por exemplo, 0 trabatho de um grupo de “lin 2 Veja eopodialmerne; a Einga — ¢:qquase totamenns
guistas criticos” inicialmente baseados na Universida- fica A revista Saen feita pelo Grupo de Midia do CCCS,
de de East Anglia, especialmente FOWLER, 1979, 1977-78. Pars desta ertica estio em Hall et al, 1980.
Sou especialmente grato.a Gunther Kress, que passou
alguns meses no Centro, ¢ a Utz Maas, da Universi Picasa ects tices Fen ee
side Geoabeuck, por Hactaes miles po nscear es. pla gama de wabalhos, alguns clos quais bastante eriticos
be as relagdes entre Estudos da Linguagem ¢ Estudos do Formalism estrus, sobre 0 tema da narativa
(Carli, Veja tumblan MAAS. 1982, a literatura, no filme, na televisio, na namrativa folk, no
mito, na historia € na tcoria politica. Estow no meio de
rande parte deste trabalho continua inédito, Tenho gran minha propria lista de Seitura, mengulhando neste: materi
dks eperangas de que um dos pines lines do COCS apa deve teeta tent pao aL Nes
seja uma coletinea sobre romance, Neste meio tempo, Pome paride ae sagt da nacre egal
\cia English Studies Group, 1980; HARRISON, 1978; compare BARTHES, 1977 ¢ JAMESON, 1981, mas ¢s
McROBBIE, 1978; CONNELL, 1981; Grifin, COCS tou mais interessido nos trabalhos qu, ena my nivel menor
Stencilled Paper 69; Winship, CCCS Stencilled Paper
65; MICHEI
de generalidade, especifica os géncros de narativa, Fui
ee cestimulado, aqui, pelo trabalho sobre as narrativas filmi
cas € televisivas. Ve, especialmente, os textos reunidos
‘em Bennett et al1981, mas também nas formas “aque:
tipicas” de gine — a épica, o romance, a tragédit etc. —
ialmente grato a Laura di Michele por tal como em FRYI
levantar estas questdes relativamente ao “épico” © a
* Grande parte deste trabalho esti conectado com 0
trabalho do Grupo de Meméria Popular, do CCCS,
sobre a popularidade do nacionalismo conservador.
Sou esp
1957. Minha preocupario particular
€ com as extérias que mutuamente
os contamos, indivi
dualmente ¢ coletivamente, A este respeito, a literatura é
até agora, desapontadora,
Graham Dawson por discusses sobre masculini
dade, "guerra © cultura masculina adolescente.
* Especialmente aqueles que derivam do trabalho de * BARTHES, 1973, p. 112.
M.A. K. Halliday, que inelui o grupo de “linguis-
tica critica”. Para Hallyday, veja KRESS, 1976
™ Com isto q
ro significar “pés-estrucuralismo” em
sua designagao usual. Esse parece ser um rotulo
18 9bastante enganader, uma vez que é dificil pensar na
Ultima fase da semiologia sem a primeira ou mes-
mo Foucault sem Althusser.
* Bennett, “James Bond as popular Hero”, Oxford
Popular Culture Course Unit, Unit 21, Block 5;
“Text and social process: the ease of James Bond”,
Screen Education, 1982
ighting over peace; representations of CND in
the media”. CCCS Stencilled Paper, 72.
Este projeto ainda nio foi completado; titulo provi
sorio: “Jingo Bells: the public and the private in
Christmas media 1982"
“ “Modo de endergamento” & a tradugio de “mode of
address”, expresso utilizada sobrerudo na analise 9
tmuturalists © pés-estruturalista do cinema para se refe-
Fir as formas pelas quais 6 “texto
interpela © “leitor”,
posicionando-o ideolégica ou subjctivamente. Esti re.
ticionado com © conceito, de “interpelagao” (qualquer
+ interpelagio € feita a partir de um determinady modo
de enderegamenta) e com o conecite, de *posigio de
suicito” (aos diferentes mados de enderegamento cor:
Fespondem posigdes especificas de sujeito). (N. do T.)
€ termo tem sido usado para distinguir entre
semiologias “estruturalis
“pds-estruturalis
tas”, com a incorporagio de énfases da psicandlise
lacaniana como um importante divisor de aguas.
A relagao da teoria da revista Screen com Brecht ¢
Eisenstein € bastante estranha, Caracteristicamente,
as citagdes de Brecht cram tomadas como pontos de
partida pars ayenturas que levavam a destinos bas-
tante diferentes do pensamento do proprio Brecht.
Veja, por exemplo, Colin MacCabe, “Realism and
the cinema: notes on some Brechtian theses” in Ber
nett et al, (orgs.). In: Popular television and film,
“A instituigao do cinema nao ¢ apenas a industria do
‘inema (que fanciona para encher os cinemas, no para
esvazid-los); € também a maquinaria mental — uma
contra indistria — que 0 espectatores “scoxtumados a0
cinema’ imternalizaram hisricamente € que adapta-
rZ, 1978, p. 18)
ram para o consiamo de filmes” (MEE
” Q que segue deve muito a critica da revista Screen
a0 CCS feita acima (nota 36).
+ Parece baver duas abordagens bem distintas relativa
mente 8 leitura ou recep
ima delas € uma entensto
de preocupasdes literirias, 4 outra &€ mais sociologica ¢
com frequéncia advinda dos estudos da midia. Pens
que o trabalho de Morey nesta irea € consistentemente
imteressante como uma tentativa de combinar alguns
elementos de ambos os conjuntos de preocupagies,
—— —— —121mora cu concorde com! sta avalasio de que ox pants mais explicita ¢ mais sistermitica, Neste sentido, os Es-
Ae Pari inca do Centro, especialmente as nosis rudos Calturais conatittem uma forma clevada ¢ die
de leinuras: “hegeméinicas”, “negociadas” ¢ “alte mativas” renciada das atividades e da vida cotidiana, As atividades
Snir Gceshamente ers. Vein MORLEY, 1980; 1981 coletvas deste tipo, a0 tentar compreender nao spenas
® Veja a famosa anilise em termos de “escopofilia”, as experiéncias “comuns” (partilhadas) mas as diversi-
em MULVEY, 1975. dades ¢ antagonismos reais, sio especialmente impor
wf gi . tantes, se elas puderem ser administradas ¢ se estiverem
E significati, por exemplo, que Barthes nao men:
‘i 2 sujeitas as adverténcias que se seguem.
cione a narrativa “interna”
em sua anslise da oni- i
presenga da forma narrativa (BARTHES, 1977), Esta ESSE ER SS Pete etre a
auséncia sugeriri
; uma dificuldade estruturalista Veja MORLEY © WORPOLE, 1982. Para uma visio
‘mais ampla com a fala interior?
critica © mais exer, voit “Popular memory” em Making
* As ideias dos Ghtimes parigratos estio ainda em vias de Hiner. Taisém into &o debs ne Ken Wor
set trabalhadas no Grupo de Meméria Popular do Rey Stephen Vere Ghiey Whiae Sainael, 198),
CCS. Para algumas consideracdes preiminares sobre
© sariter dos textos oral-histéricos, veja Popular Me
mory Group, “Popular memory: theory, politics, me-
thea”. In: CCCS, Making histories, Considero alguns
dos enssios em BERTAUX, 198], titeis para serem .
discutidos, especialmente HANKISS, 1981 * © que segue se bascia, de uma forma talvez demasia
: damente sintética, nos trabalhos de Paul Willis, An
gela McRobbie, Dick Hebdige, Christine Griffin &
Dorothy Hobson © em discussocs com outros pesqui
® Alguns dos trabalhos do CCCS nao estio isentos
desta dificuldade, Algumas destas criticas aplicam-
se, por exemplo, a Resistance through rituals, es.
pecialmente a partes das sinteses tedricas,
* Alguns dos methores e mais influentes trabalhos em
Estudos Culturais tém sido baseados
Pessoal © na meméria privada. O livro
literacy, de Hoggart,
experiéncia
The uses of
€ 0 cxemplo mais celebyrado, mas,
em geral, os estudiosos da cultura deveriam ter a cora
gem de usar mais sua experigncia pessinll — de forma
sadores ectnogrificos do Centro. Veja, especialmente,
Willis, 1977; 1978; McRobbie, 1979; Griffin, CCCS
Stencilled Papers 69 © 70. Para uma diseussio bastan
te rar sobre método nesta area, veja Willis, 1980,
122 =124
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CCES Stencilled Paper, 65,
Estudos Culturais:
uma introducgao
Ana Carolina EscosteguyEste trabalho tem por objetivo apresentar a tradi
io dos Estudos Culurais! especialmente para aque
las pessoas que se iniciam no estudo das teorias da
comunicagio. Assim, é preciso percorrer a trajetéria
desta tradigio, dos seus antecedentes até 0s contomos
que este campo de estudos assume na atualidade, Res
salta-se que, neste momento, esta incursdo ¢ apenas
brevemente delineada devido a0 propésite inical des
te texto, embora estejam indicadas imimeras referén
«cas bibliogrificas que servem de pistas para preencher
as lacunas deste percurso.
necessirio estabelecer, também, um recorre den
to deste vasto empreendimento diversificado € con
troverso dos Estudos Culturais. Nossa discussio
limita-se a recuperar posigdes ¢ trabalhos que lidam‘agao cultura/comunicag3o massiva e, den.
tro desta, aqueles que enfocam produtos da cultu
ra popular (considerados através da categoria
“texto™) € suas audiéncias,
Se originalmente os Estudos Culturais foram
uma invengao briténica, hoje, na sua forma contem.
Porinea, transformaram-se num fenémeno intema.
cional. Os Estudos Culturais nao estao mais
confinados 4 Inglaterra nem aos Estados Unidos,
espraiando-se para a Austrilia, Canada, Africa,
América Latina, entre outros territérios. Isto mio
significa, no entanto, que exista um corpo fixo de
conceitos que possa ser transportado de um lugar
Para 0 outro © que opere de forma similar em con-
textos nacionais ou regionais diversos,5
Entretanto, as peculiaridades do contexto histd-
rico bricinico, abrangendo da rea politica a0 meio
académico, marcaram indelevelmente © surgimento
deste movimento te6rico-politico, Originalmetite, na
Inglaterra, os Estudos Culturais ressaltaram os ne-
XOS existentes cntre a Investigagao € as formagdes so-
ciais onde aquela se desenvolve, isto &, 0 contexto
cultural onde nos encontramos.!
Neste momento, nosso objetiva é esboyar ape
nas alguns tracos de sua trajetoria histérica.? Em
Primciro lugar, deve-se acentuar o fato de que os
136 -
Estudos Culturais devem ser vistos tanto sob ponto de
vista politico, na tentativa de constintiglo de um pro-
jeto politico, quanto sob ponto de vista tesrico, isto é,
com a intengio de construir um novo campo de est
dos. Sob 0 ponto vista politico, os Estudos Culturais
podem ser vistos como sindnimo de “comegio politi
ca”? pocendo ser identifieados como a politica culta
ral dos virios movimentos sociais da época de sew
surgimento, Sob a perspectiva teérica, refletem a insa-
tisfagdo com 05 limites de algumas disciplinas, propon-
do, entio, a interdisciplinaridade.
“Os Estudos Culturais nao configuram uma ‘dis.
iplina’, mas uma area onde diferentes disciplinas
interagem, visando o estudo de aspectos culturais
da sociedade” (Hau. et al, 1980, p. 7). A rea, en-
Ho, segundo um dos seus promotores, nao se cons
titui_ numa nova disciplina, mas resulta da
insatisfago com algumas disciplinas ¢ seus proprios
limites, E um campo de estudos onde diversas disc
plinas se intersecionam no estudo de aspectos culty
rais da sociedade contemporinea,
Em anélises que tentam mapear © centro de aten:
$30 deste campo, encontramios a seguinte avaliagao:
Os Estudos Culturais constituem um campo
interdisciplinar onde cers preocupagdes € méto
dos convergem; 2 uitilidade dessa convergéncia &que cla nos propicia entender fendmenos e re-
lagdes que nio sto acessiveis através das disci
plinas existentes. Nio é, contudo, um campo
tunificado. (Torwer, 1990, p, 11)
Entretanto, € preciso ressaltar que, na sua fase
inicial, os fisncladores desta drea de pesquisa tenta-
ram nio propagar uma definigio absoluta ¢ rigida
de sua proposta. Nas palavras de Stuart Hall, o
Srgio de divulgacao do Centro — Working Papers
in Cultural Studies’ — nao deveria preocupar-se
em *... set um veiculo que defina o aleance € ex-
tensao dos Estudos Culturais de uma forma defi-
Hitiva ou absoluta, Nos rejeitamos, em resumo, tima
detinigao descritiva ow prescrit
(Hau, 1980, p. 15)
a do campo”.
“ste campo de estudos surge, entio, de forma or-
Sanizada, através do Centre for Contemporary Cul-
tural Studies (CCCS), diante dia alteragio dos valores
tradicionais da classe operiria da Inglaterra do pés
Bucrra, Inspirado na sua pesquisa, “As utilizagdes da
cultura” (1987), Richard Hoggart finda, em 1964,
0 Centro. Este surge ligado ao Departamento de Lin
sua Inglesa da Universidade de Birmingham, cons
‘inuindo-se nam centro de pesquisa de pos-graduacio
dlessa mesma instituigio. As relagdes entre a cultu
"1 contemporinea e a sociedade, isto é, suas formas
138—— —
culturais, instituigdes € priticas cultarais, assim como
suas relagdes com a sociedade © as mudaneas sociais
compoem seu eixo principal de pesquisa,
Na realidade, sio trés os textos, surgidos no fi-
nal dos anos 50, que estabeleceram as bases dos
Estudos Culturais: Richard Hoggart com The uses
of literacy (1957), Raymond Williams com Cul-
ture and society (1958) © E. P, Thompson com
The making of the english working-class (1963),
© primeiro ¢, em parte, autobiognifico ¢, em
parte, historia cultural do meio do século XX, O
segundo constroi um histérico do conceito de cul-
tura, culminando com a ideia de que a “cultura
comum ou ordiniria” pode ser vista como um modo
de vida cm condigdes de igualdade de existéncia
com qualquer outro. Eo terceiro reconstréi uma
parte da histéria da sociedade inglesa,
Interessa, especialmente, para este estilo, a pes
quisa realizada por Hoggart’, através da metodolo:
sia qualitativa, na medida em que seu foco de atencao
recai sobre materiais culturais, antes desprezados, da
cultura popular e dos mass media, Esse trabalho inau
gum a perypectiva que argumenta que no ambito po
pular nao existe apenas submissio mas, também,
Tesisténcia, © que, mais tarde, seri recuperado pelos es-
tudos de andigncia dos meios massivos? No entanto, ©
—— ———139tom nostilgico aflora em relacdo. a uma cultura or-
ginica da classe trabalhadora.
A contribuigio tedrica de Williams, a partir
de Culture and Society, é fundamental para os Es-
tudos Culturais, Através de um olhar diferencia-
do sobre a histéria literaria, ele mostra que a cultura
uma categoria-chave que conecta tanto a anilise
literdria quanto a investigagdo social, Seu livro The
long revolution (1962) avanga na demonsteacio
da intensidade do debate contemporineo sobre
impacto cultural dos meios massivos, mostrando
um certo pessimismo em relasio a cultura popular
€ 208 préprios meios de comunicagao de massa,
E 0 proprio Stuart Hall quem avalia a impor-
tancia deste texto:
Ble muddou toch a base da dcussio: de uma defi
‘0 ltero-moral para uma defnigio antropeigiea da
cultures, Mas definia a iakima Agora COMO O “pmnxesso.
imei” por meio do qual os significado ¢ definigoes
Sio socialmemte construidas ¢ historicamente ‘tans-
formuides, com a fteratura € a ane como endo ape
pas um tipo de comunicagio social — especialmente
povilegiado. (Haus ¢ ‘Tons, 1999, p, $5)
Ess mndanga no entendimento de cultura tomou
possivel o desenvolvimento dos Estudos Culurais,
140 =
Em relagao & contribuigio de Thompson,"!
pode-se dizer que este influencia o desenvolvimen
to da historia social briténica, de dentro da tradi
io marvista, Para ambos, Williams ¢ Thompson, a
cultura era uma rede de priticas e relagdes que cons:
tituiam a vida cotidiana dentro da qual o papel do
individuo estava em primeiro plano, Mas, de certa
forma, Thompson resistia a0 cntendimento de cul
tura enguanto uma forma de vida global. No seu
lugar, preferia cntendé-la enquanto uma luta en
tre modos de vida diferentes.
» de Stuart Hall
is, avalia-se que
este, a0 substituir Hoggart na diresio do Centro,
de 1969 a 1979, incentivou o desenvolvimento de
Sobre a importante participag
na formacio dos Estudos Culnu
estudos etnogrificos, as anilises dos meios massi
Vos © a investigagio de praticas de resisténcia den:
tro de subculturas. Tem uma abundante produggo
de artigos, sendo que sua reflexao faz parte da
maioria dos readers sobre Estudos Culturais, se
jam cles publicados pelo préprio Centro ou nao.
A proposta original dos Estados Cultus
siderada por alguns como mais politica do que anali
tica, Embors sustentasse um marco tedrico especifico
nparacio principalmente no marxismo — a hist6-
tia deste campo de estudos esti entrelagada com atrajetoria da New Left, de alguns movimentos sociais
(Worker's Educational Association, Campaign for
Nuclear Disarmament) e de publicagdes (entre clas,
a New Left Review) que surgiram em torno de
espostas politicas & esquerda
Mais tarde, no petiodo pés-68, os Estados Cultu-
vais transformaram-se numa forea mot da cultura
imelectual, de esquerda, Assim, cnquanto movimento
intelectual tiveram um impacto tedrico © politico que
foi além dos muros académicos, pois, na Inglaterra,
constituirum-se numa questio de militincia enum cony.
Promisso com mudangas sociais radicais
OS DESLOCAMENTOS NECESSARIOS
De forma sintética, € preciso apontar as rupturas
€ incorporagdes mais importantes que contribuiram
ha construsdo da perspectiva teérica © das principais
Problematicas desta tradig3o. Aproximando-se do vas-
to campo das praticas sociais ¢ dos processos histéri
Cos, os Estudos Culturais preocuparam-se, em
priincira mao, com os produtos da cultura popular e
dos mass media que expressavam os rumos da cultura
contemporinea.
‘Tentaram redescobrir outras tradigdes teéri-
cas socioldgicas, deixando de lado 0 funcionalismo
estrutural norte-americano, pois este nio dava con-
ta de compreender as tematicas propostas. Acompa~
nhando um movimento de resgate, iniciado dentro
mesmo da sociologia (na Inglaterra do periodo em
foco), foram sendo recuperadas, entre outras apro-
ximagdes, as perspectivas da fenomenologia, da et-
nometodologia ¢ do interacionismo simbélico.
Do ponto de vista metorlolégico, a énfise recaiu,
mais tarde, no trabalho qualitativo. Este exerceu uma
forte influéncia na formagio dos Estudos Culturais,
A escolha por trabalhar ctnograficamente deve-se a0
fato de que © interesse incide nos valores € sentidos
vividos. Q estudo emogrifico acentua a importincia
dos modlos pelos quais os atores sociais definem, por
si mesmos, as condigdes em que vivem."?
Com a extensio do significado de cultura —
de textos © representagdes para praticas vividas
—, considera-se em foco toda produsio de senti-
do. © ponto de partida ¢ a atengio sobre as es
truturas sociais (de poder) © 0 contexto historico
enquanto fatores essenciais para @ compreensio
da agio dos meios massivos, assim como o deslo
camento do sentido de cultura da sua tradigao
clitista para as priticas covidianas
Entao, 6 primeira deslocamento vai no sentido
de uma nova formulacio do sentido de cultur
143lad
Falando de forma ampla, dois pasos estavam
aqui cnvolvidos. Em primeiro lugar, 0 mov
mento (para dar-the uma especificacao bem sin.
tética) em direyao uma definigao
tropolégica” de cultura — como pritica cul-
tural; cm segundo lugar, o movimento em di
Fegdo a uma definigio mais historica de pritica
cultural —, questionando 0 significado antro-
Polégico e sua universalidade por meio dos con.
ceitos de formagao social, poder cultural,
dominagio regulagio, resisténcia ¢ luta, Esses
movimentos io excluiam a anélise de textos,
mas trataya-os come arquivos, descentrando sett
Status supostamente privilegiado — apenas um
tipo de dado, entre outres. (Hat, 1980, 9.27)
Os Estudos Culturais atribuem a cultura um
Papel que nfo € totalmente explicado pelas deter-
inagdes da esfera econdmica. A relagio entre o
marxismo € os Estudos Culturais inicin-se © desen
volve-se através da critica de um certo reducionis-
mo € economicismo daquela perspectiva, resuiltando
na‘contestagio do modelo baxe-superestrutura, A
Perspectiva marxista contribuiu para os Estudos
Gulturais no sentido de compreender 4 cultura na
sua “autonomia
relativa”, isto é, ela nao € depen-
dente das relagdes ccondmicas, nem seu retlexo,
mas tem influéncia c softe consequéncias das rela-
$6es politico-econdmicas, Como argumentava Al
thusser, existem varias forcas determinantes — a
econémica, a politica € a culeural — competindo
m conilito entre si, compondo aquela complexa
unidade que € a sociedade.
A questio da relagio, em formagdes sociais defi
nidas, entre praticas culturais © outras priticas, isto
& a relagao cnure 0 cultural e © econdmico, 0 politi
co € as instancias ideoldgicas, pode ser considerada
enquanto um segundo deslocamento importante na
Al
construgao desta tradigio, A contribuigio de
thusser neste sentido foi importante:
Grossciramente, a inovagae importante foi a
tentativa de pensar a “unidade” de uma for
magao social em termos de uma articulagie,
Isto colocou as questdes da “autonomia 1
i
va" do nivel culturat-ideoldgico © num nove
conceito de totalidade social: totalidades como
estruturas complexas. (Hats, 1980, p. 32
Outea incorporagio, extremamente cara a este
campo, diz, respeito ao conceito de ideologia, pro
Posto por Althusser. Essa (a idcologia) € vista en
quanto “provedora de estruturas de entendimento
através das quais os homens interpretam, dio
15,sentido, experienciam ¢ ‘vivern’ as condigGes materi-
ais nas qunis eles proprios se encontram” (Hats, 1980,
p32). Além disso, a ideologia deve ser examinada
“nao s6 na linguagem, nas representagdes mas, tam
bém, nas suas formas materiais — nas instituigdes ¢
nas priticas sociais através das quais nds organizamos
€ vivemos nosus vidas” (Turse, 1990, p. 26).
Nesta primeira etapa dos Estudos Culturais, ain-
da plenamente concentrada na Escola de Birmin-
gham, a pesquisa estava delimitada, principalmente,
nas seguintes éreas: as subculturas, as condutas des-
viantes, as sociabilidades operirias, a escola, a mi-
sica ¢ a linguagem. “E através da conversio mais
explicita em problemstica dos desafios vinculados
a ideologia ¢ aos vetores de um trabalho hegemdni-
€o que os meios de comunicagio social, especial-
mente os audiovisuais (aos quais se havia dedicado
até © momento um interesse acessério), chegam a
ocupar paulatinamente um lugar destacado” (Mar-
TeLarr € Nevrau, 1997, p.122) enquanto temitica
deste campo de estudos.
* Discordando do entendimento dos meios de co:
‘municagio de massa como simples instrumentos de
manipulasao ¢ controle da classe dirigente, os Es-
tudos Culturais compreendem os produtos cultu-
rais como agentes da reprodusao social, acentuando
sua natureza complexa, dinamica ¢ ativa na cons-
trugdo da hegemonia
ta perspectiva, so estudadas as estruturas ¢
9s processos através dos quais os meios de comuni
cago de massa sustentam e reproduzem a estabili-
dade social ¢ cultural. Entretanto, isto no se produz
de forma mecinica, sendo se adaptando continua-
mente ds pressdes © As contradigdes que emergem
da sociedade, © englobando-as ¢ integrando-as no
proprio sistema cultural
A contribuigio de Antonio Gramsci é aqui, fimnda-
mental, pois mostra como a mucanga pode ser constri=
‘da dentro do sistema, A teoria da hegemonia gramsciana
pressupde a conquista do consentimento, O movimento
de consinusio da direc30 politica da sociedade presst
poe complexas interagdes ¢ empréstimos entre as cult-
ras populares € a cultura hegeménica,
Com isto, 0 que se quer dizer é que nio existe
um confronto bipolar c rigido entre as diferente
culturas. Na pritica, © que acomtece é um sutil jogo
de intercimbios cntre elas. Flas nao sio vistas como
exteriores entre si, mas comportando cruzamentos,
transayes, intersecgoes. Em determinados momen.
tos, a cultura popular resiste ¢ impugna a cultura
hegemdnica; em outros, reproduz a concepglo de
mundo € de vida das classes. hegeménicas.le
Quanto 4s linhas de pesquisa implementadas pe-
los Estudos Culturais, interessa-nos, sobretudo
aquela que se detém sobre o consumo da comuni
cagao de massa enquanto lugar de negociagio entre
Priticas comunicativas extremamente diferenci
das © que sera adiante comentada,
ia~
E claro que, aqui, relatamos de forma bastante sti
maria © espectro te6rito proposto pelos Estudos Cul-
turais, principalmente ma década de 70, isto & no seu
periodo de afimagao. Referimo-nos apenas a pontos
chave que mostram a influéncia de diferentes te6ricos.
De forma
intética, pode-se entender 0 Centro
de Birmingham, da sua fundagdo ao inicio dos anos
80, como foco irradiador de uma plataforma te6-
derivada de importagdes © adaptagoes de di
Versas teorias; como promotor dé uma abertura a
Problematicas antes desconsideradas, tais como as
relacionadas as culturas populares € aos meios de
comunicagio de massa e, mais tarde, a abertura a
questocs vinculadas As identidades étnicas e sexuais:
bem como divulgador de estudos bastante hetero
gérleos decorrentes da diversidade de referencias
te6ricas, € da pluralidade das temiticas estudadas.
No final dos anos 70 ¢ inicio dos anos 80, as coi
sas comecam a mudar, Desponta a influéncia de te
Srieos franceses como Michel De Certeau, Michel
Foucault, Pierre Bourdieu, entre outros. Dé-se a
internacionalizagao dos Estudos Culturais © tor-
amr-se escassas as anilises onde as categorias cen-
trais slo “luta” © “resistencia” c, para alguns
analistas, é 0 inicio da despolitizagio dos Estudos
Culturais. A prolitica produgio de balangos criti-
cos, publicados a partir de 1990, aponta, em al
guns casos, para a fragmentagio e trivializacao
deste campo de estudos, embora seja possivel
tectar tanto quanto potenciali-
dades na sua proposta de analise da dindmica
cultural contemporaine
pectos estérci
CONTORNOS DA ATUALIDADE
E interessante notar as diferengas entre os “pri-
meiros” Estudos Culturais ¢ os dos anos 90. Iden
tifica-se uma primeira fase embrionsria que se inicia
com os textos precursores, jd citados, passando para
Wao do Centro de Birmingham e sua abun
dante produgao até o final dos anos 70 ¢ inicio dos
anos 80, 0 que poderia se constituir numa etapa de
consolidagio; ¢ uma terceira
fase, de internaciona
10, de meados dos anos 80 até os dias de hoje
lizay
No primeiro momento, havia uma forte relagio
com iniciativas politic
a8, pois existia uma invencio
49de compartithar um projeto politico, Pretendia-se,
também, uma relagio com diversas disciplinas para
2 observagio sistemitica da cultura popular, a
‘como com diversos movimentos sociais.
im
Jana década de 90, hi um relaxamento na vin-
culagio politica. O sentido de que se esti analisan-
do algo “novo” também nio existe mais. Mas, a0
contririo do que se possa pensar, existe, sim, uma
continuidade, mesmo que fragmentada, nos Estu-
dos Culturais. “E, um projeto de pensar através das
implicagdes da extensio do terme ‘euirura’ para que
inclua atividades ¢ signifcados da gente comum, pre-
cisamente esses coletivos excluidos da participagio na.
cultura quando € a definigSo elitista de cultura a que
govern” (Barun e Brezer, 1994, p. 12),
Retomando nosso foco de interesse mais espe-
cifico, a relagio cultura /comunicagaio massiva e, den:
tro desta, as problematicas que enfocam as culturas
populares ¢ suas estratégias interpretativas, tam-
bem se observam alteragoes no decorrer da trajeté
ria dos Estudos Culturai
No final dos anos 60, a tematica da Tecepgio ¢
a densidade dos consumos mediiticos comecam a
chamar a atengio dos pesquisadores de Birmin-
gham. Este tipo de reflexao acentua-se a partir da
Givulgagio do texto “Encoding and decoding in
150— ——
television discourse”, de Stuart Hall, publicado
pela primeira vez em 1973.%*
Através de categorias da semiologia articuladas
@ uma nogio marcista de ideologia, Hall insiste na
pluralidade, socialmente determinada, das moda-
lidades de recepgao dos programas televisivos. Ar
gumenta, também, que podem ser identificadas tres
posigdes hipotéticas de interpretagio da mensagem
televisiva; uma posicio “dominante” ou “preferen
cial”, quando o sentido cla mensagem & decodifica
do segundo as referéncias da sua construgio; una
posigio “negociada”, quando o sentido da mensa
gem entra “em negociag’io” com as condigdes par-
ticulares dos receprores; ¢ uma posigio de
“oposig2o”, quando 0 receptor entende a proposta
dominante da mensagem mas a interpreta segundo
uma estrutura de referencia alternativa
A preocupagio tom © momento da Tecepgdo con-
tinua sendo fundamental em relagio com duas
Problemiticas mais amplas. Uma delay abrange
© assunto do retorna a0 sujeito, a subjetividade
€ a intersubjetividade, enquanto a outza se inte
ragio das novas modalidades de
relagoes de poder na problematica da domina:
sio (Marieiar e Neveav, 1997, p, 122}
essa pela inteE dessa forma que se produ. 0 encontro, duran-
te 0 anos 70, com os Estudos Feministas. Estes pro-
piciaram novos questionamentos em torno de
questoes referentes & identidade, pois introduziram
novas varidveis na sua constituigio, deixando-se de
“ler os processos de construgao da identidade uni
camente através da cultura de classe sua transmis-
sdo geracional” (Marrerarr¢ Neveau, 1997, p. 123).
Mais tarde, acrescentam-se as questdes de géncro
aquclas que envolvem raga € etnia,
Em relagio
Pesquisas que envolvem questes
de géncro, dentro mesmo do Centro de Birmin
gham, a publicagio coletiva Women take issue, de
1978, revela essa disposiclo. Autoras como Char-
lotte Brundson, Marion Jordon, Dorothy Hobson,
Christine Geraghty ¢ Angela McRobbie reveem st.
posigdes do senso comum sobre os meios de comunica:
$40, reivindicando que a audiéncia, no caso, femninina,
tem autoridade sobre suas priticas de leirura."*
Na década de 80, definem-se novas modalidades
de analise dos meios de comunicagio. Multiplicam-se
68 estudos de recepgio dos meios massivos, especial-
mente no que diz respeito 20s programas tclevisivos.!
‘Também hi um redirecionamento no que diz: respei
16 aos protocolos de investigagio. Fstes passam a dar
uma atengio crescente ao trabalho ctnogrifico.
Se até este momento © estatuto de classe ainda
centralizava a reflexao sobre a diversidade de percep-
yOes nas estratégias interpretativas, ponto postulado
inicialmente por Stuart Hall, algumas das pesquisas
empiticas dessa €poca apontavam para a importinga
do ambiente doméstico € das relagoes dentro da fi
milia na formagao das leituras diferenciadas.!”
Retorando iis diferenciagdes entre a fase de con-
solidagio desta tradicio eo momento atual, pode-se
afirmar que naquela existia uma agenda findamen-
tal que consistia na compreensio das relagdes entre
Poder, ideologia e resisténcia, Naquele periodo, de.
sejava-se cxplorar o potencial para a resistencia € a
significagao de classe. JA nas anos 90, a preocupagio
em recuperar as “leituras negociadas” dos recepto-
res fiz com que, de certa forma, se valotize a liber
dade individual deste receptor © se subvalorize os
efeitos da ordem social:
© centro de ateng:
na “resistencia”, com a int
plicagio de uma oposigio momentinea ou estra-
tégica, foi substimide por uma énfise 10 exercicio
do poder cultural como caraeteristica continua da
vida coridiana, Na linguagem do pos-modemis:
mo, poderiamos sugerir que uma intengdo de cov
Dreender as “narrativas: mestrs” do confito politico154
{6% substinnida por uma disposigio a explorar aque
Ins historias da produsao ordindria de significa
dos menos evidentes na superficie, menos
heroicas. (BARKER € BrezeR, 1994, p, 16),
Assim, a agenda original foi se transformando,
No seu lugar, os Estuclos Culturaisassumiram o papel
dle “testemunha”, dando voz aos significados que se
fizem aqui ¢ agora. Segundo Baker e Beezer (1994,
P-25), oy Estudos Culturais mudaram sua base fia,
damental, de maneira que o conceito de “classe”
deixou de ser 0 conceite critico central. Na melhor
das hipdteses, ele passou a ser uma “variivel” entre
muitas, mas frequentemente entendidlo, agora, como
tim modo de opressio, de pobreza; na pior das hip-
teses, cle se dissolveu. Ao mesmo tempo, 0 centro de
ateneao principal deslocou-se para questées de sub
jetividade © identidade © para esses textos culturais
€ mediiticos que ocupam os dominios privado © de
méstico ¢ aos quais se dirigem, Simultancamente,
tem havido um destocamento para uma metodolo-
89 que restringe a interpretagao Aqueles casos nos
quais se vé os participantes capacitados que tira a
Atengao das estruturs
Simon During (1993), na introdugio de uma co.
Fetinea sobee os Estudos Culturas, avalia que, quando
as identidades “classistas” se dissolvem ou io conside-
rads menos pertinentes pelos pesquisadores, buscany-
S€ outros principios de construgio da identiclade, tas
como as matrizes da raga ¢ do género, buscando-se sua
telaso com os meios de comunicacio € com 0 consu-
mo. Também Smart Hall reconhece este redireciona-
mento no campo dos Estudos Cultura,
Embora as questées em torno da subjetividade
€ das identidades — temiticas em foco hoje nas
andlises culturais
—tenham muitos aspectos rele
vantes, existem outros cixos importantes de se
rem avaliados, na etapa presente dos Estudos
Culturais. Entre eles estaria a diseussio sobre a
P6s-modemidade ou a “Nova Era”(em inglés, New
Times —tal como proposto por Hall), a globaliza-
10, a forca das migragdes © o papel do Estado.
nagio e da cultura nacional € suas repercus
sobre o proceso de construcio das identidades.
No entanto, estes fogem do proposito deste traba
Iho de introdugio aos Estudos Cilrurais.
Not,
"Em geral, neste texto, refiro-me aos Estudos Culturais
da tradigao britinica
*Os Estudos Culturais difuiiditam o conceito de “texto”
com uma abra
wéncia que vai além das grandes obraspara incluirtambém a cultura populares priticas sociais
‘cotidianas
* Sobrea “internacionalizagio” ou “globalizagio"dos Es
tudos Culturais, ver, por exemplo, DURING, 1993;
MORLEY e CHEN, 1996; ANG ¢ MORLEY, 1989,
* Ver, por exemplo, DAVIES, 1995; ANG ¢ MORLEY,
1989; BARKER ¢ BEEZER, 1994; HALL, HOBSON,
LOWE ¢ WILLIS, 1980.
* Aponta-se como precursora dos Bstudos Culturais uma
problematica de estudos conhecida como “Cultura ¢
Sociedade” que surge em tomo de 1870, na Inglaterra
Reine autores tao distintos como Mathew Amold, John
Ruskin ¢ Williams Morris. Entretanto, os trés compat
tham uma atitude negativa cm relagao a sociedade mo.
dema. Estigmatizam 0 século XIX como auele onde
triunfou 6 “mau gosto” da 4s
lade de massa” & a
“pobreza de sua cultura”. Estes inteleetuais, entre ou
ros,
) Se adiantam nas eriticas contra as consequéncias
culturais do adv
nto da civilizagao modema
A sociedade vitoriana esti naquele momento ma vanguar-
“da no que diz respeito a0 nascimento das formas cult
raisvincutladas ao sistema industrial. kina segunda metacde
do século XIX se travam as primeinas discussdes em tor
no da regulagio de um tipo de atividade como a da
publicidade, sendo que foi na Inglaterra que surgiram
186—— ——
as primeiras criticas em relagaoa cultura industeializada
(Marrtetatre Neves, 1997)
No periodo entre as duas guierras, Frank Raymond Leavis
(1895-1978) passa a ser uma figura central na promo-
sito de estudos de literatura inglesa, Funda em 1932 a
Tevista Scrutiny, que se converte no centro de itnta
entzida moral ¢ cultural contra o embnutecimento prati
cado pelos meios de comunicagao ¢ pela publicidad. ©
movimento liderade por Leavis propunha a leiturs da
grande tradiglo da ficgto inglesa camo antidoto para ata
ear ade;
neragao da cultura. No ensino, adverte-se aos
alunos contr
pobre
a forga maniputadors da publicidade
a linggustiea da imprensa popular
Estes movimentos no ambito da literatura inglesa sao vis
tos enquanto um ambiente propicio para 6 surgimento
dos Estudos Culturais,
Adoto, aqui, a observayao de TAMESON, Predrie , 1004.
Seu primeito nimero'apareceu em 1972
“Hoggarr nasceu eri 1918, passando sua infineia em seu
cio de origem: o meio opersrio, No final da I] Guerra
entra para a docencia, Trabalhia com formacdo de adul
tos do mei operitio (Worker's Education Association)
Influenciado por Leavis ¢ pela revista Scrutiny, acaba
afastando se por dedicat-se as culturas populares de um
modo mais condescendente. Fundador do Centre(COCS), hoje se encontra, de certa forma, distante das
evolugdes politico-intelectuais dos Estudos Culturais
dos anos noventa.
"Aqui, ¢ utilizada a edigdo portuguesa, As utilizagdes da
cultura — aspectos da vida cultural da classe trabathado-
13, v. Le IL, Lisboa: Editora Presenga, 1973
Williams nasceu no Pais de Gales (1921-1988), filho
de um ferravidtio. No final da II Guetra passa a scr
tutor na Oxford University Delegacy for Extra-mural
Studies, devido & sua formagio em literatura, A partir
de 1958, quando publica Culture and society, dé va-
20 Asua producao intelectual, Sua posigao tedrica ser
sintetizada em Marxism and literature (1977), quando
reivindica a construgio de um “materialismo cultural”,
"Thompson (1924-1993) inicia sua vida como docente
de um centro de educagdo permanente para adultos
(WEA). Foi militante do Partido Comunista, mas em
1956 rompe com 0 partido, convertendo-se num dos
fundadores da New Left Review
'* De origem jamaicana, Hall (1932) deixou a Jamaica em
* 1951 para prosseguir seus estudos na Inglaterra. Inicia a
docéncia em 1957, numa escola secundaria onde os alu
hos vém das classes populares. Tem uma forte atuagio
junto ao meio editorial politico- intelectual britinico, como,
por exemplo, na Universities and Lett Review (década
50/60), Marxism Today (anos 80), Sounding (a partir
de 1995), entre outras. A partir de 1979, atua na Open
University, em Londres,
'* O recarte da investigagao das culturas populares ¢ das
audiéncias implementou este tipo de estratégia meto-
dologica. Ver, por exemplo, capitulo sobre etnografia
em Hall et alli, 1980.
'* Mais tarde, é a vez de David Morley com “Texts, rea-
ders, subjects” (1977-1978),
'* Outro livro que recupera textos dos anos 80 sobre a
‘mesma tematica — audiéncia feminina ¢ meios massi
vos —¢ 0 organizado por Mary Ellen Brown, Televisi
on and women’s culture — the politics of the popular,
Sage, 1990. Esse livro apresenta trabathos de Dorothy
Hobson, len 4
ng, Virginia Nightingale, John Fiske,
Andrea L, Press, entre outros,
* Considerados “clissicos” entre os estudos de audiéncia
dos Estudos Culturais esto: D. Morley (1980), The
narionwide audience; do mesmo autor (1986), Family
television: cultural power and domestic leisure; Doro
thy Hobson (1982), Crossroad: the drama ofa soap
opera; David Buckingham (1987), Public secrets: cast
and its audience; Ten Ang (1985), Watching
enders
Dallas: soap opera and the melodramatic imagination,
Bob Hodge ¢ David Tripp, (1986) Children and tele
- ——159160
Vision: 4 semiotic approach; Janice Radway (1987), Re-
ading the romance: women, patviarchy and popular lite
ature, John Tulloch © Albert Moran (1986), Qualiy
soup a countey practice
" Eo caso de D. Morley, entre outros. Ele desenvolveu
uma pesquisa denominada Nationwide, publicada
1980. Como continuagao deste projeto, desenvolven
Family television, trabalho publicado em 1986, Natio
wide € um estudo de audiéneia conduzido através de
entrev
em grupo, fora de suas reside
pessoas estavam fin
ias, isto &, as
do contexto onde normalmente
corre a as
ncia da televisioe a produgto de signifi
cados a partir de seus contetidos. Em Family television,
© autor entrevistou familias ema suas proprias casas, pois
Enesse contexto que sed
entender as particularida
des das respostas individuais a diferentes tipos de pro.
gramag2o, Nasua opiniio, o ato de ver TV necessita ser
entendido dentro da estrutura e da dinimica do pro
cesso domeéstico de consumo do qu:
cle & parte
Comentando a sequéncia destes dois estudos, Mor
ley afirma que © ponto central concentra-se em pes
“guisar formas de reeepgo ow indife
nea: “(... esta é
‘ questo fundamental a ser explorada mais do que a
guestdo sobre qual interpretagio as pessoas fario so.
bre um tipo dado de programa, se elas forem coloca
das numa sala e perguntadas sobre sua interpretaczo
(:-) B€ por esta razio que a pertinéncia ou a projesio
sobre diferentes tipos de programas em diferentes
membros da familia ou membros da familia de dife
rentes
scalas sociais foram priorizadas, nesta pesqui-
sa Family television, sobre a questio das tendéncias
de fazer
gociadas
turas Ou interpretagdes oposicionais, ne-
ou domin:
tes de tipos particulares de pro-
Bramas” (Morley, “Research development: from
‘decoding’ to viewing context”, p. 137)
Metodologicamente, Morley defende que, em pri
eciro lugar, deve se oferecer uma descrigdo adequa
damente densa das complexidades desta atividade
de “assistir TV",
ye que a perspectiva antropoligica ¢
ctnografica sto de grande contribunigdo para aleangar
este objetivo,
Sua sugestio é de que os estudos de audigncia neces-
sitam “inv
stigar as formas pelas quais uma variedade
de meios de comunicagio (media) est envolvida na
produgio da cultura popular ¢ do conhecimento do
terreno da vida cotidiana” (Morley, “Towards an
ethnography of the television audience”, p.195) Alem
disso, o autor afirma que “(...) 0 desatio-chave reside
mma nossa habilidade de construir a audiéncia tanto camo
lum fendmeno social como semioidgico (cultural) ¢
na nossa habilidade de reconhecer a relag3o entre os
telespectadores © a TV, como eles sto mediados por
—— 161determinagdes cotidianas ¢ pelo envolvimento diario
a audigneia com todas as outras tecnologias, exer
cendo um papel na conducao ¢ mediagio da comuni
cacao cotidiana. B dentro deste extenso campo de
cestudo que a pesquisa qualitativa de audiéneia deve
agora ser desenvolvida” (Moatay, “Towards an eth
nography of the television audience”, p.197)
Ver, entre outros textos, MORLEY, D. “Towards an
ethnography of the television audience”; “Research
development; from ‘decoding’ to viewing context”;
MORLEY, 1992; 1994; 1996; 1996b; MARK, 1994.
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166
O Centre for Contemporary
Cultural Studies da Universidade
de Birmingham:
uma historia intelectual
Norma SchulmanORIG!
'§ DO CENTRO!
im uma fala inaugural intitulada “Schools of
English and Contemporary Society”, Richard Ho-
ggart, © primeiro diretor do Centre for Conremipo-
vary Cultural Studies (COCS) da Universidade de
Birmingham,? aracou a estreiteza com a qual a litera
tura inglesa estava sendo ensinada na Gri-Bretanha
€ tragou 0 esbogo de uma nova abordagem que cle,
provisoriamente, chamou de “Literatura ¢ Estudos
CCulturais Comemporineos” — uma abordagem que
argumentava ele, tinha “algo em comum com virias
das abordagens existentes, mas nao era evatamente
nenhuma delas” (Hoccaxt, 1970b, p. 254)
Os Estudos Culturais foram coneebidos, desde 0
inicio, como um empreendimento interdisciplinar
—169Formado na critica litersria, cujas virtudes como
forma de anilise nao hesitava muito em exaltar, Ho-
ggatt imaginou o projeto dos Estudos Culturais como.
consistindo de tres partes: “uma é aproximadamen-
te histori
2 € filoséficas outta & de nove, aproxima-
damente sociolégica; a terecira — a mais importante
a critico-litersia” (1970b, p. 255)
Foi a afirmacio de Hoggart sobre a necessidade
de que os Estudos de Lingua Inglesa Sentrassem
em uma relagio ativa com scu tempo” que deu a
tonica da fala inaugural de um projeto planejado
para estudar as praticas culturais em um sentido
amplo — um projeto eujas origens Stuart Hall des-
creveu como marcadas por “precaugao ¢ incerteza”
(Hai, 1984a, p. 22). Hoggart ¢ 0 projeto dos Es-
tudos Culturais em geral visavam, de forma impli-
ita, um adversitio especifico: a proverbial ¢ elitista
escola de pensamento cultural inglesa, que argumen-
tava em favor de uma separagdo entre a alta cultura
a vida “real”, entre o passado histérico ¢ 6 mundo
contemporineo, ou entre a teoria ¢ a pritica
Os objetivos deste ensaio siv: definir mais cla-
ramente em relagio a qué Hoggart ¢ seus sucesso-
Fes pensavam que os Estudos Culturais 1
altermativa; descrever 0 gue eles p
m_ uma
ebiam como.
scus antecedentes histéricos, como eles definiram
170
(c continuam a defini) seus propdsitos © © que Ihes
parecia serem os obsticulos teéricos ou priticos no
caminho da plena realizagio de seus objetivos: ¢
determinar quais foram as contribuigdes dos Estu-
dos Culturais de Birmingham ao estudo da cultu-
1a ¢ da comunicagio no século XX.
As premissas deste ensaio sio: (1) projetos ino-
vativos autoconscientes como os Estudos Cultu-
rais tém como proposta tratar de uma suposta
deficigneia na ordem existente; (2) seus proponen-
fs, em maior ou menor grau, sentem a necessida-
de de — explicita ou implicitamente — justificar
sua nova abordagem; ¢ (3) embora possam nao re-
veli-lo espontaneamente, as pessoas que fa
em par-
te de qualquer grupo ou organizagao esto mais,
agudamente conscientes da existéncia de fissuras
naquilo que pode aparecer a pessoas de fora como
tim tecido razoavelmente consensual ¢ homogéneo:
Para evitar que se fevantem alegagées de “fale
ia biogrifica”, devo ainda afirmar que, 4 seme-
thanga dos tedricos do Centro de Birmingham, a
autora deste ensaio pressupde uma conexdo org
nica entre a “experiéncia vivida ou pessoal” ¢ as
posigoes mais gerais ¢ tedricas que as pessoas ado.
tam como parte de sua crenga académica ou profi
sional. Esta premissa é particularmente relevante172
Para os Estudos Culturais como um movimento que,
Mesmo em seus primeitos estigios, adotou a andlise
da cultura opersria na Gr8-Bretanha como uma pri-
oridade, uma vez que vérias figuras centrais dos
Estudos Culturais tém escrito de forma comovedo-
a sobre as privagSes ¢ os desconfortos pessoais que
cles ¢ membros de suas funilias experimentaram nos
anos em que se ctiaram em localidades operstias.*
Hoggart, tal como Raymond Williams, outro
professor de Lingua Inglesa e critico literati que
assumiu um papel central na fundagio do CCCS,
tinha um conhecimento de primeira mio da expe
rigncia de tansigio entre a classe operiiria c 0s eft
culos universitérios, em um pais no qual um sistema
agucamente dividido entre educagio priblica e edu
cagio particular — devotadas, respectivamente, a
objetivos aca
tes — bifurea
nicos ¢ a objetivas profissionalizan-
31. populagao de acordo com a classe
social. Em uma época em que a maioria das crian-
gas, na Inglaterra, deixava a escola em torno dos
15 anos, tanto Hoggart quanto Williams, vindo
de meios em de
antagem, puderam continuar scus
estudos até 4 universidade — Hoggart foi para a
Universidade de Leeds e Williams para a Univer
sidade de Cambridge. Mais tarde, nos anos 40, am-
bbos foram professores de educagio de adultos e deram
aulas fora dos esquemas escolares normais — Hoggart
ha Universidade de Hull © na Associagio Educacio-
nal cle Trabalhadores e Williams em East Sussex, De
acordo com Laing (1991, p.145), Williams acredi
tava plenamente que as origens reais dos Estudos
‘Calturais britinicos estavam nessas experiéncias do-
centes em salas de aula nio tadicionais
Na época em que Hoggart ¢ Williams estavam
Passando pelo sistema universitétio (os anos 30 ¢
40), as influéncias de ER, Leavis ¢ TS. Eliot —
ctiticos que viam, como afirmou Leavis, a “cultura
€ a demoeracia como inevitavelmente opostas” (ci-
ado em Hall, 1984a, p. 22) —~ estavam comegan
do a ser sentidas. Em Cultuern ¢ sociedade (1958),
Raymond Williams descreve o clitismo de Eliot
constata sua influéncia generalizada ¢ lamenta que
haja uma coineidéncia entre a situagio existente ¢
as prescrigées pouco democriticas daquele eritico:
Eliot de
thor, de uma elite, © argumenta que, para as-
nde a necessidade de elites ou, me-
gurar a continuidade geral, nds devemos
Conservar as Classes sociais ¢, em particular, a
classe social governante, com a qual a clite em
Parte coincide © constantemente interage. Bsta
a conclusio fondamentalde Eliot, pois esta claro que, quando as abstra:
ges sio traduzidas por casos concretos, @ que
ele reeomenda & substancialmente 0 que jf exis
te socialmente. Ble é necessariamente levado,
€ claro, a condenar a pressio por uma socieda-
de sem classes © por um sistema educacional
nacional [ambos defendidos pelo proprio Wi-
thams}, Ele acredita, na verdade, que estas pres-
es jd distorceram a vida nacional ¢ os valores
gue esta vida sustenta, £
a respeito destas re-
comendagGes (...) que ele agora recebe consi-
derivel atengio © apoio, (1958, p. 241)
Williams também afirma que algumas ideias no-
vas ¢ clitistas, apresentadas em um panfleto escrito
por ER. Leavis, intiuulado “Mavs civilization and
minority culture”, se tornaram “amplamente
influentes” na sociedade britinica, Estas ideias, ob-
serva Williams, so parte de uma antiga tradigao
na Gra-Bretanha, advindas das “propostas de Co-
leridge em favor de uma classe. ... cuja atividade
“deveria ser o cultivo geral (1958, p. 63); da pro-
posta de Carlyle em favor de “uma Classe Literitia
orginica”, composta de “Herdis que fossem Pro-
fessores ¢ Escritores” (1958, p. 85); ¢ da proposta
de Amold de que houvesse um grupo selecionado
de “alien,
nas”, extraidos das diferentes classe:
174 - -
“modernos filistinos” relativamente 4 cultura genui-
na, definida como “o melhor do que foi pensado
dito. no mando” (1958, p. 115). © argumento de
Leavis representa a forma clissica do pensamento
nao igualitirio, diametralmente oposto dquilo que
se tornaria © projeto dos Estudos Culturais, com
suia insisténcia em que todos os homens tém igual
direito a serem seriamente considerados como con-
sumidores de cultura, De acordo com Williams.
Leavis argumentaya gue em qualguer periodo a
apreciagao discriminativa da arte e da literatura
depende de uma minoria muito pequena:
as uns poucos que sio capazes de un j
espontineo, de primeir:
io ape-
igamento
mio... a minoria capaz nao
apenas de apreciar Dante,
Baudelaire, Hardy (pa
mas de re
constituem a conse
hakespeare, Donne,
fa tomar os casos principais),
nhecer que seus sucessores recentes
cia da raga (ou de um ramo
dela) em um determinado periodo. Dessa minoria
depende nosso poder de tirar vantagem da mais
refinada experiéneia humana do pas
ado: ela man-
tém viva as partes mais sutis © mais pereciveis da
tradigio (1958, p. 253).
Em geral, Williams ¢ Hoggart e a tradi
jo dos
Estudos Culurais dirigiram seus estorgos iniciais
para a tarefa de destronar a tradicao representadapor Eliot © Leavis © as nogbes aristocriticas que ela
implicava, bem como para ampliar 0 estudo da Lin-
gua Inglesa, para inchuir, além da anslise das gran-
des obras primas literdrias, uma Sociologia da
Literatura. Como disse um antigo estudante do
Centro, “os Estudos Culturais.... definiram sua se-
paragio relativamente aos seus vinculos paternos
através de seu populismo, consignando-se assim 4
marginalidade institucional” (Searks, 1977, p. 8).
De fato, a0 menos de aeordo com Hall? uma fian-
ca oposigio ao estabelecimento do Centro veio, inici-
almente, da disciplina da Sociologia, Ele relembra que
a fala inaugural de Hoggart “provocou um intenso
ataque, especificamente da Sociologia”, que “se re-
servava direitos de propriedade sobre o territério”
destinado para o projet dos Estudos Culeurais, Hall
disse que “a abertura do Centro foi saudada com uma
carta de dois cientistas sociais que emitiram uma es-
pxcic de adverténcia: se os Estudos Culturais ultra-
passarem os limites apropriados ¢ assumixem o estudo
da socicdade contemporinea (e no apenas seus t
108), scm controles cientificas “apropriados’, provoca-
rio represtlias, por cruzar de forma ilegitima a
frontcira territorial” (1984a, p. 21)
Imersa naquilo que Hall caracterizou como a
“metodologia estrutural-funcionalista do modelo
176 =
americano”, a Sociologia britinica da época em que
© Centro foi fiundado tinha um forte viés empiris-
ta, Nem esta ciéncia social to positivista nem os
Estudos de Lingua Inglesa tradicionais — com sua
énfase na anilise isolada das grandes obras de arte
— cram compativeis com os objetives intelectuais
do Centro.
stes objetivos cnvolviam investigar a
cultura (amplamente definida) em scu contexto his
t6rico; examinar novos métodos fenomenoldgicos
ou cthometodoldgicos de pesquisa, baseados na
nogio weberiana de versteben; ¢ empregar uma
abordagem interpretativa, hermenéutica, relativa-
mente a questies de significado (19842, p, 23
‘Todos os relatos sio undnimes em reconhecer
que a pauta de Hoggart para o Centro surgiu, em
parte, como uma resposta a dois textos “formati-
vos” publicadas no final dos anos 50 ¢ inicio das
anos 60: 0. livro do proprio Hoggart, The uses of
literacy (1957) € 0 livro de Williams, Culture ant
society (1958). Posteriormente, além des
livros, ©
s dois
veo de Williams, The long revolition,
0 livro de Thompson, ‘The making of she english
working class (1964) foram, de acordo com todos
os relatos, altamente influentes na determinagio
da diregio das preocupagdes dos Estudos Cultu-
rais. Bstes textos tinham em comum uma preoc_ oan
RE NELLIE oe es
Pagio com a condigio social ¢ cultural da classe
operiria, com a redefinigao de concepgies elitistas
€ tradicionais de cducagao ¢ com a definigao de
uma “cultura comuny’, suficientemente ampla para
incluir a cultura popular ou a cultura mediada pe-
los meios de comunicagio de massa
Gradualmente, nas quase trés décadas desde que
os Estudos Culturais foram estabelecidos, seu foco
foi mudando. No primeira década, ele
tinha se alinhado com o marxismo tal como este ti=
nha sido redefinido ¢ reinterpretaco desde 0 inicio
dos anos 60. A énfase de Marx nas relagées de classe
cra plenamente compativel com 0 foco do Centro na
cultura popular, concebida como um reflexo da luta
implicita da classe operdria por sua autoexpressio,
© contetido dos meios de comunicagio de massa
parccia fornecer, j4 no inicio da histéria do Centro,
a fonte daquela “cultura comum” que Raymond
Williams procurou identificar em rom culture 10
revolution (1968). Mais tarde, nos anos 70, 1 me-
dida que, sob a direcio de Stuart Hall, 0 foco do
* Centro se transformava, os textos da midia eram
vistos como exemplos de como a ideologia continha
as ideias dos grupos dominantes da sociedade. Na
diécada anterior, contetido, a linguagem € as priti-
fim de su
‘cas subculturais dos meios de comunicagio de massa
178 - =
tinham propiciado reas nas quais o coneeito de he-
gemonia de Gramsci podia ser examinado de forma
concreta
A releitura de Gramsci, no final dos anos 70, &
luz dos estudos de género e de raga, foi extremamen-
te importante para colocar em movimento a reav:
liagio que o Centro fez da cultura popular — vista
até Aquele momento como um mero veiculo ideo-
légico para impor os paradigmas dominantes da ex-
periéncia, uma certa cultura ¢ os pressupostos de
classe que eram vantajosos para o staens quo. A me=
dida que, nos anos 80, 6 foco do Centro mudava,
Passando a ver a cultura popular como um local de
resistencia e conflito potencial, ele se concentrava
em desenvolyer uma “histéria da hegemonia” tal
como ela se manifestava em expressdes culturais
como a misica reggae © as revistas dirigidas As ado-
lescentes, as quais forncciam “materiais brutos para
milhares de leitoras adolesventes para que elas fi
zessem suas proprias re-apropriagdes de seu con-
tetido”, JJoHNsoN, 1983, p. 23)
E dificil definir os Estudos Culeurais de forma
sucinta ¢, de acordo com Stuart Hall, esta dificulda
de ¢ intencional — isto ¢, os Estudos Culturais ongu-
tham-se de no ter qualquer doutrina ou metodologia
“aprovada pela casa”. Eles si0, em ver disso, auto-intelectuais um papel de vanguarda que eles nao
merecem) ou a pritica € tudo (levando os intelecta-
ais. a negar sua fungio em um esforgo para se passa-
rem como “algo que cles nio sio — guerrithas
urbanas)” (1984a, p, 287-8), Para o Centro, sob a
diregdo de Hall, a nogio de “intelectual orginico”
de Gramsci — um intelectual que tenha um envol-
Vimento visceral € nao simplesmente profissional
ou académico com os problemas — constiula um
modelo titil a ser emulado.
CONTRIBUIGOES PARA © ESTUDO DA
COMUNICAGAO E DA CULTURA
Os Estudos Culturais de Birmingham, como vi
mos, estavam pensados para preencher um vazio
intelectual (¢ politico) numa sociedade altamente
estratificada, cujo sistema de ensino superior esta
va constrttido de acordo com as linhas diseiplina
res tradicionais, Constirai uma medida de quanto
os Estudos Culturais tiveram éxito em modificar ©
ma da educagio superior na Gri-Bretanha 0 fate
de que 0 vazio que motivou sua fundaci
mais t20 flagrant 1. De fato, desde ©
inicio dos anos 60, os Estudos Culturais torna-
ram-se tum movimento internacional, com revistas,
conferéncias, associagoes profissionais, bem com
io ni
re
nente vis
202
cursos académicos em muitas faculdades © univer-
sidades. Outros centros interdisciplinares foram
findados na Gri-Bretanha para analisar o conteti.
do dos meios de comunicagio de masea: ‘The Cen.
tre for Television Research, da Universidade de
Leicester; © programa da Open University sobre
cultura popular; © agora extinto Glasgow Medi
Group, da Universidade de Glasgow: © 0 Med
Studies Program, da Politécnica da Londres Cen.
al, para mencionar apenas alguns dos mais prue-
minentes. Os Estudos Culturais tiveram um
importante impalso em paises espalhaces por todo
© mundo, mais notavelmente na Ftanga, Estados
Unidos, Canada, Austrilia e Affica do Sul, fre.
uentemente através dos esforgos de estudiosos que
alguma ve7.ensinaram ou estudaram no Centro de
Birmingham. Qualquer historia estritamente ins.
titucional do CCCS teria que deserever 0 desloca-
mento intelectual de um grande miimero de antigos
membros do Centro por todo o globo, mapeando,
tambem, suas publicagoes em algumas das revistas
mais importantes, tais como Media, Culture and
Society; Screen; New Formations; Social Text, ¢
“ultural Studies, que esti, de forma crescente
Propiciando espagos para intercimbios sobre dite
rentes perspectivay de Estudos Culturais,
208
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