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3. O projecto da antropologia social e cultviral

SUMARIO

3. l

Etnologia ou Antropologia?

3.1.1

Antropologia social ou/e cultural?

3.2 Como definir a antropologia social

í2,vl—As relações entre o local e o global

3.2.2 O fim dos selvagens

.3.2.3 A inclusão do universo ocidental no campo antropológico

3.2. 4 Ciência do tradicional e da modernidade

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Objectivos de Aprendizagem

Após a leitura do Hl Capítulo - O projecto da antropologia social e cultural, o leitor deverá ser capaz de:

• Entender as diferentes utilizações nacionais dos termos de etn ologia e antropologia

• Distinguir as etapas etnográfica, etnológica e antropológica

• Perceber a articulação entre as diferentes etapas da investigação antropológica

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• Conhecer o objecto e prática da antropologia social

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• Conhecer o objecto e prática da antropologia cultural"

• Perceber o objectivo final da antropologia social e cultural

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3.1

Etnologia ou antropologia?

A hesitação que por vezes ainda se coloca relativamente à designação da

disciplina, etnologia ou antropologia, deriva da sua própria história e das tradições científicas dos países onde ela teve o seu maior desenvolvimento, como a Gra-Bretanha, os Estados-Unidos e; mais tardiamente, a França. Embora num registo mais secundário mas igualmente importante, não podemos -esquecer, contudo, países como a Alemanha, Bélgica, Holanda, Portugal, cujas escolas tiveram um papel mais ou menos relevante na investigação, segundo -os-casos, .independentemente da designação da disciplina e segundo orientações científicaspróprias.

Ò termo etnologia, cuja etimologia significa o estudo das etnias (etno = etnia,

-logia = estudo)1, foi empregue em países cujas preocupações estavam essencialmente voltadas para o estudo das etnias, no sentido das diferenças culturais entre povos. No início do século XIX, era sinónimo de "Ciência da -Classificação das Raças" (ramo da antiga antropologia física) e designava o conjunto das ciências sociais que estudam as sociedades tidas como primitivas e o homem

'No"séu sentido restrito, durantemuito tempo, a etnologia incluiu basicamente

os estudos sintéticos e conclusões teóricas elaboradas apartir de documentos

etnográficos, orientados em particular para os problemas de origens, de reconstituição do passado, de contactos, de difusão. É neste sentido que os britânicos empregam desde há muito o termo ethnology. Para eles, o estudo destes problemas gerais devia depender de um domínio à parte do campo da 'antropologia social e cultural. Todavia, estas distinções estão longe de ser claras e unânimes em muitos países.

Em França, o termo antropologia designou inicialmente, e durante algum tempo, o ramo da antropologia física unicamente. Porém, pela mesma altura, nosEstados Unidos, a antropologia compreendia no mínimo cinco secções:

.antropologia física, arqueologia pré-histórica, linguística, etnologia e antropologia social e cultural.

Entretanto emFrança, o emprego e o sentido do termo ethnologie passou a ter ;um conteúdo semelhante ao de antropologia social anglo-saxónica. As

as mesmas embora para designações

'perspectivas eram sensivelmente

1 Segundo dicionários da especialidade, o termo etnologia foi introduzido pelo suíço Chavannes em 1787 em "Essai sur ]*éducation intellectuelle avec lê projet d'une science nouvelle".

.diferentes. A maioria dos trabalhos de etnologia publicados neste país, mesmo

os elaborados trinta anos atrás, seriam considerados como sendo de antropologia socialse fossem editados nos Estados Unidos ou na Grã-Bretanha. :Ji>° decurso dos últimos anos, o vocábulo ethnologie teve tendênciapara ser •gradualmente substituído pelo de anthropologie sociale (actualmente o vocábulo ethnologie é unicamente empregue nas licenciaturas, enquanto na investigação é preferido o termo de antropologia social).

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Por sua vez, os alemães deram ao termo etnologia (ethnologíe em alemão) o mesmo sentido geral que os franceses e trabalharam de forma semelhante, preferindo no entanto utilizar a expressão etnografia (Võlkerkunde) para qualificar os seus ensinos universitários.

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Tanto na Grã-Bretanha como nos Estados Unidos, o termo social anthropology vingou desde há muito para referir o que os franceses designavam com o termo ethnologíe, contudo o termo social anthropology pressupõe as vertentes social e cultural, com uma diferença entre britânicos e americanos. Osprimeiros (tal como os franceses), referem-se essencialmente à compreensão dos fenómenos sociais, enquanto os americanos privilegiam a vertente cultural desses mesmos fenómenos. A diferença de perspectiva deriva de variadas razões históricas nacionais. Os britânicos foramumapotência colonial (como foram outros países com preocupações coloniais mais ou menos idênticas, segundo os casos: França, Holanda, Portugal) o que os'conduziu à necessidade de" tentar perceber os povos que colonizavam, particularmente no sentido de harmonizar, na medida do possível, a prática do direito privado local com o direito público colonial. Inversamente, os americanos não tendo sido uma potência colonial, encerram no entanto, no seu seio, numerosas minorias culturais que estão na base da formação nacional dos Estados Unidos. Por outras palavras, o que transparece ern primeira linha, n a orientação cientifica americana da investigação de si própria, não serão tanto as questões sociais que o país encerra, problemáticas ou não, como em qualquer outra sociedade, mas essencialmente a complexidade das descontinuidades culturais internas e as suas relações com o fundo cultural comum americano.

Mas quer se trate de antropologia social ou cultural, os anglo-saxões introduziram uma clara distinção entre etnologia e antropologia. Por exemplo, para os britânicos a etnologia estuda os povos ou grupos étnicos no sentido da comparação e da classificação cultural. Inversamente, para eles, a antropologia social consiste, desde longa data, no estudo das práticas sociais, como a família, •o sistema de parentesco, a organização política, o direito e a legislação, a religião e ainda o estudo das relações mantidas entre estas instituições.

Do ponto de vista anglo-saxão, a etnologia estaria principalmente preocupada com classificações, o dos tipos sociais mas das questões de difusão e de origem dos fenómenos culturais. Ou seja, com preocupações de carácter histórico. Radcliffe-Brown [1958] refere como sendo questões tipicamente etnológicas, aquelas que se interrogam, por exemplo, sobre como e quando os Paleo-índios entraram na América e como desenvolveram as diferenças culturais e linguísticas que apresentavam na altura da chegada dos europeus. Inversamente, a antropologia social coloca-se questões do género: qual é a natureza do direito ou da religião? Para o referido autor (tal como para outros antropólogos sociais), as questões históricas não tinham sido bem colocadas

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pela etnologia, porque partiam de postulados pouco apropriados e não demonstráveis, como as questões colocadas sobre as origens e o

desenvolvimento das sociedades humanas, o que o levou a afastar-se da história

e a afirmar que esta não dizia respeito à antropologia social. Naturalmente,

Radcliffe-Brown e outros autores de mesma opinião não negavam a existência

e importância das questões históricas no seio das sociedades sem escrita.

Simplesmente, h'mitavam-se a colocar o assunto entre parênteses e a pensar ser indispensável dividir o trabalho entre os etnólogos, enquanto historiadores das etnias e das civilizações, e os antropólogos preocupados pelo estudo não temporal dos fenómenos sociais. Por outras palavras, aqueles autores optavam -pôr s"epàrar os diferentes domínios e considerar ser necessário formar especialistas diferenciados, por não ser possível fazer várias coisas ao mesmo

tempo.

Tal atitude deu de certo rnodo resultados interessantes, na medida em que permitiu um maior rigor do método e um aprofundamento das questões tratadas, ao mesmo tempo que facilitava a introdução do ponto de vista específico da estudo da sociedade humana. Efectivamente, como resultado, 'devemos à antropologiasocial a introdução das importantes noções de função, de sistema de relações sociais assim como a noção de estrutura social. Porém, —'necessário será dizer que esta atitude repousa sobre uma separação "artificialmente marcada, ou seja forçada, como já referimos atrás, entre o passado e o presente das sociedades, entre a sua real dinâmica e a aparência estática. Na realidade, todas as sociedades humanas sempre se modificaram e modificam a um ritmo mais ou menos imperceptível ou mais ou menos visível. - Sendo assim, não se pode responder à questão colocada mais acima "qual é a natureza do direito?" ou ainda "qual é a natureza de determinado uso social ™"3o parentesco?" se não tivermos em conta as modificações e rupturas J7!7intfoduzídas pelo tempo histórico.

Em suma, a separação entre passado e presente é sobretudo de carácter metodológico, na medida em que é necessário "parar" artificialmente o tempo "P.^3- poder realizaro instantâneo de uma determinada sociedade. Uma espécie de fotografia a dar conta de um momento preciso situado no presente que ser mais ou menos fugaz.

E;graças a estes"instantâneos que a antropologia, comparando diferentes monografias locais, pode proceder à comparação de contemporaneidades P.^ÇpÇulares e tentar tirar conclusões de ordem geral. Desde sempre, a antropologia teve como por objectivo transcender os particularismos e reflectir sobre a essênciahumana no seu todo. De facto, a partir dos particularismos ^ 1 denciados pelos estudos etnológicos, a antropologia procura aceder ao •rancipnarnento social e cultural, tentando evidenciar categorias analíticas _Un.1^ersa^s caPazes_de explicar simultaneamente os particularismos e a

: lversidade das sociedades humanas, assim como a unidade do género humano.

53

Independentemente da diferença entre vocábulos para designar a disciplina, r'

cobrindo grosso modo urna mesma realidade, uns e outros - americanos, britânicos, franceses, portugueses, etc. - não têm o sentimento de pertencer a disciplinas diferentes. De onde resulta então esta disparidade de designações * para uma mesma ciência? Resulta, provavelmente, do facto desta ciência ser ;

uma disciplina relativamente recente, de se ter desenvolvidolentamente, com

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diferenças profundas segundo as épocas e os países onde estas designações se foram eanraizando no seio das suas escolas nacionais. Diga-se ainda que a

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antropologia possui um vocabulário específico muito limitado e deve por esta t razão recorrer ao vocabulário comum cuja imprecisão induz incerteza f

terminológica. Por'exemplo na linguagem comum as palavras sociedade,

cultura, estrutura, função, etc. são entendidas por cada um de nós segundo *

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sentidos diferentes. Ora, são estes mesmos vocábulos comuns que pertencem 7 igualmente ao vocabulário científico antropológico, com as imprecisões que í *

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tal implica.

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Afirmar que a etnologia ou a antropologia corresponde ao estudo das propriedades gerais da vida social humana implica dizer, implicitamente, que

se trata de um campo de investigação vastíssimo cobrindo várias disciplinas ¥ do saber: por exemplo, se estudarmos as propriedades da vida soei ai e as suas f

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relações com o meio geográfico incluímos no seu campo a geografia humana;

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se estiver em causa o estudo dalinguagem, englobamos o domínio da linguística;

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se for considerado o devir de uma sociedade é de história social que se trata;

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se do estudo das representações sociais se tratar estaremos em presença da J

psicologia social.

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Estes diferentes aspectos correspondem aos vários níveis a que Mauss se refere

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ao falar de totalidade social como veremos noV Capítulo. Ora, é precisamente

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esta totalidade que é evidenciada naprática anglo-saxónica daantropologia,

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Em França, o termo ethnologie tem vindo a sofrer uma nova redefinição Á V tendência actual consiste ern atribuir à etnologia uma etapa de estudo antecedendo a da antropologia social propriamente dita. A esta etapa etnológica, estão reservados os estudos locais monográficos ou temáticos sobre um determinada sociedade ou grupo mais restrito e não pretende a universalidade - ou emitir leis gerais como a antropologia social e cultural.Segundo esta distinção (que partilho desde sempre), a passagem do estudo dos particularismos -

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3.1-1

Antropologia social ou/e cultural?

Á interrogação sobre as diferenças de designação da disciplina e consequente

definição do seu objecto segundo os países, leva-nos imediatamente a outra, Çonduz-nos à questão de saber se aceite a designação de antropologia esta deve ser social ou cultural ou contemplar necessariamente ambas as dimensões.

Na prática, a distinção entre antropologia social e antropologia cultural deriva -da diferença entre os conceitos de sociedade e cultura e de se colocar a ênfase

numa ou noutra destas realidades.

e menos ainda de duas ciências diferentes mas somente de pontos de vista diferentes, de tradições e preferências ideológicas. Os antropólogos sociais encaram o estudo da sociedade sob a forma de um conjunto social significativo que lhes serve de ponto de partida para a sua abordagem das sociedades humanas. Os antropólogos culturais consideram em primeiro lugar as técnicas materiais ou intelectuais, tal como o modo de vida, as crenças, as atitudes para cie de.super técnica que é a actividade social e política.

Não se trata de uma oposição fundamental

TSTuhYcòlóquio em Chicago no fim dos anos quarenta, Claude Lévi-Strauss intervindo na discussão sobre o assunto resumiu o problema de forma sugestiva:

""comparou a'questão social e cultural a uma folha de papel químico. Ou seja, o

•'"vêrsÒ"dá folha serve para escrever enquanto o reverso destina-se a reproduzir

o que foi escrito no verso. Os dois lados são inseparáveis, se quisermos

conservar a condição de papel químico. Segundo Lévi-Strauss, acontece o

.São dimensões inseparáveis da actividade

fhumana. Contudo, na prática, existem abordagens que privilegiam mais a

esta divergência de

atitude perante a natureza dos fenómenos de sociedade teve como consequência ^iTormã diferente de designar a disciplina pelos britânicos e americanos, como vimos anteriormente. Para os primeiros, trata-se antes de tudo de antropologia ~social (por influência de Durkheim, como veremos) e para os segundos"de antropologia cultural. Tal, não significa que no seio de cada um destas tradições -nacionais não haja investigadores a debruçar-se sobre uma vertente oposta à tendência geral. Na realidade, a prática antropológica apresenta-se de maneira "muito "diversificada e a sua compartimentaçao pouco rígida, como se pode r£9^stat;ir designadamente em Portugal.

' mesmo com o social e o

cultural.

.; Uimensão social e outras a cultural. Por razões históricas,

• Porém, ao privilegiar-se o lado social não indica, obviamente, que desapareça •'•-•a-dimensão cultural do fenómeno. Assim como não desaparece a dimensão

ao privilegiarem-se os aspectos culturais, dado ser precisamente o social

::;ÍÇ?. e_stã na base da manifestação cultural. Tanto é assim que ficou aliás Acordado, durante o referido colóquio, que a disciplina deveria designar-se

' '#reíerencialmente por antropologia social e cultural, a fim de contemplar.

social •

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explicitamente os diferentes aspectos da complexidade dos fenómenos de sociedade.

A dimensão cultural não é de facto dissociãvel do social, ela é um dos seus

aspectos intrínsecos e mesmo o modo tangível pelo qual se exprime o social. Dou um exemplo: nas relações do dia a dia é socialmente aconselhável, em certas ocasiões, cumprimentar alguém de modo mais formal. A forma cultural escolhida por muitas sociedades é o "aperto de mão". Nestas, se tivéssemos a ideia de proceder de outra forma como, por exemplo, esfregar o nosso nariz

no do interlocutor (como se faz em certas culturas) a nossa atitude seria

considerada incongruente e não reconhecida corno a resposta social adequada

ao comportamento cultural normal esperado. De resto, se uma pessoa se negar

a "apertar a mão" a quem normalmente o deveria fazer, o seu comportamento será interpretado como a recusa de relacionamento com esta outra pessoa e, por consequência, a manifestação da existência de qualquer perturbação no" relacionamento entre as pessoas em causa: conflito declarado ou simplesmente não reconhecimento da relevância social de uma das pessoas em relação à outra - o quenaturalmente representa um afronta para ela. Pode dizer-se assim que o "aperto de mão", como comportamento cultural, é dotado de significação social, porque funciona como símbolo de comportamento adequado a uma determinada situação social, e como tal informa sobre a situação, imprimindo-lhe simultaneamente existência econtinuidade.

- Não é aqui empregue no sentido que Tylor lhe dava ao pretender que o primei- ro estado da evolução reli- giosa da humanidade teria consistido na crença que tudo na natureza possui uma alma. Criticado por Prazer .e Mauss, estes consideravam que a religião não podia ter derivado historicamente do culto dos espíritos. Afasta- do este tipo de interpreta- ção que de facto releva da história conjecturai, o con- ceito é, no entanto, útil para referir sociedades ou gru- pos bem reaís onde a reli- gião não é praticada - tal como ela é definida pelos dogmas das principais reli- giões - e onde, inclusiva- mente, se atribui o maior poder à natureza (como no Japão, por exemplo).

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Em relação aos significantes culturais e sociais dos comportamentos, Evans- Pritchard [1951] dá um exemplo muito interessante. A fim de exemplificar a noção de relativismo cultural &função social, o autor refere a diferença de comportamentos religiosos entre católicos e muçulmanos nos seus templos respectivos. Assim, quando um católico vai à igreja e leva chapéu na cabeça, não entra no templo sem primeiro descobrir a cabeça. Inversamente, o muçulmano ao entrar na mesquita conserva o seu turbante, mas em contrapartida descalça os sapatos e procede às suas abluções (purificação pela lavagem). O que naturalmente não faz o católico.

Com este exemplo, é possível verificar a existência de dois comportamentos culturais radicalmente opostos cuja expressãoresulta da diferença entre culturas, mas as quais têm, no entanto, do ponto de vista social, o mesmo significado. Ou seja, significa a deferência perante a crença da existência de um ente superior:

Deus. Somente a maneira de o fazer difere radicalmente de uma cultura para a outra.

Resulta do que acaba de ser dito que a própria imposição social de venerar um Deus, reflecte em si uma atitude cultural particular. Não se trata de uma evidência universal. De facto, podia não ser o caso e estarmos perante sociedades animistas2, ou seja onde não há na sua visão cosmogónica do universo a existência de um Deus. O que a ser assim, os comportamentos

acima referidos não poderiam ser observados. Em suma, o exemplo apontado serve para demonstrar que o social se processa e revela, na maioria das vezes, através das suas manifestações culturais.

Seria possível multiplicar, sem fim, exemplos desta natureza e evidenciar a dificuldade que revela a tentativa de dissociação entre o social e o cultural. Fica no entanto claro que é possível privilegiar uma destas duas dimensões — social ou cultural - da vida em sociedade. E é o que ressalta das diferentes "tradições nacionais de investigação cujo exemplo evidente nos é dado pelas etnologias britânica e francesa por umlado e americana por outro, como já foi

rdito;— --

Mas seja qual for a vertente privilegiada, trata-se sempre de^estudar as sociedades humanas, e a tudo quanto foi dito anteriormente poderia acrescentar a ideia de Raymond Firth quando define a antropologia como o estudo comparado dos processos da vida social, a qual pressupõe implícita e igualmente as suas formas de expressão cultural. Nesta particularidade, reside a originalidade e a -contribuição-da antropologia social e culturalno século XX. Isto é, considerar que o género "sociedade humana" compreende um grande número de várias espécies. Por outras palavras, é tida em consideração a diversidade e

das sociedades (ou das culturas) humanas. As quais, uma vez

admitidas,jánão permitem pensar existir um tipo padrão absoluto de sociedade cujo modelo seria representado pela sociedade ocidental.

originalidade

Se assim não fosse, tal atitude corresponderia a um julgamento de carácter etnocêntrico. Ou seja, pensar os outros (no confronto com a alteridade)

segundo as nossas normas, os nossos valores, a partir do que se induziria não

como uma hierarquia,na qual nos colocaríamos inevitavelmente

no topo, recusando a diferença dessa diferença.

ÍQ.a,diferença

A definição de antropologia social como sendo o estudo das relações sociais, das estruturas ou dos sistemas sociais, poderia corresponder à definição de sociologia. Mas esta, ao invés da antropologia social não se interessa na sua generalidade senão por uma espécie, por um único tipo de sociedade - a de tipo industrial-urbano.

jSerá aliás sobretudo na perspectiva do estudo da vertente social da antropologia .q^e tomará preferencialmente o rumo deste livro. Orientação que se deve Sobretudo à convicção teórica da necessidade de uma prática próxima da -•antropologia social - como ciência com preocupações idênticas as da sociologia, apesar dos métodose experiências contextuais diferentes - face aos desafios e -.^s.inut:aÇões ^ u e se encontramem curso na história inédita da humanidade e designadamente em Portusal.

57

3.2 Como definir a antropologia social

Ao longo do capítulo foram dados, gradualmente, os principais elementos de

definição

avançar para urna perspectiva mais completa e específica da disciplina. Ficou também claro que desde o seu início esta ciência se interessou pelo estudo das

sociedades "primitivas" contemporâneas, caracterizadas, como tal, essencialmente pelas suas pequenas dimensões, e na maioria dos casos pela ausência de Estado e escrita, mas igualmente sem maquinismo e de

desenvolvimento tecnológico rudimentar. O estudo das características deste tipo de sociedade, sern escrita, implicava um método adequado, ao mesmo tempo que as suas dimensões e técnicas rudimentares conduziam igualmente

a outra exigência metodológica. Com efeito, pelas suas pequenas dimensões,

estas sociedades facilitavam - corno em situação de laboratório, poder-se-ia dizer - a abordagem da sua totalidade funcional ou lógica social. ' " '

da antropologia social no seu sentido mais geral, permitindo agora

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De facto, não havendo escrita, o único método concebível que se impunha ao estudo de um determinado contexto social vivido no momento, era a observação directa no terreno., (em rigor, o método referido não se opõe totalmente ã falta de escrita mas designadamente ao inquérito por entrevista).

Por outro lado, as características particulares do objecto de estudo suscitavam um certo número de problemáticas e interrogações teóricas específicas. Estes três aspectos - objecto, método e um determinado tipo de questionamento

- davam à antropologia uma certa originalidade no seio das ciências sociais permitindo que esta se constituísse ern disciplina autónoma.

Porém, de modo geral, o universo tradicional de investigação tem vindo a alterar-se devido à aceleração dó movimento histórico de globalização mundial que conduz a disciplina a uma ruptura com o seu domínio de investigação inicial (o inundo exótico} e a confrontar-se crescentemente com sociedades

(como as sociedades em vias de desenvolvimento) cujas preocupações são também cada vez mais semelhantes à sociedade do antropólogo. Ainevitável diversificação e reorientação actuais do olhar antropológico demonstra que a originalidade do seu saber não está determinado pela natureza dos objectos geográficos de análise: o exclusivo universo exótico. Pelo contrário, o Minho,

o Yorkshire ou o Texas, por exemplo, são tão etnológicos como qualquer

sociedade africana, sul-americana, etc. Sendo assim, a antropologia não é

susceptível de ser definida pelo tipo de sociedades estudadas.

Por outro lado, se também a disciplina não pode definir-se pelos métodos empregues na análise (os procedimentos utilizados na recolha do material científico não servem para caracterizar uma ciência), estes são no entanto importantes para avaliar o grau de rigor dos procedimentos de validação ou invalidação postos em prática por uma ciência. E, nesta medida, o método antropológico - de que falarei no capítulo seguinte - apresenta-se corno o

elemento fundamental permanente que confere à disciplinarigor e uma certa unidade face à heterogeneidade teórica, à alteração das condições do objecto de análise e às diferenças de construção da prática antropológica segundo as diversas tradições científicas nacionais.

Com efeito, sem definir a antropologia, a permanência do método representa

no entanto a convergência consensual face à heterogeneidade das problemáticas

e interrogações teóricas, ao mesmo tempo que afirma a sua especificidade no seio das ciências sociais,

Esta característica da antropologia é de facto muito importante e C. Lévi- Strauss ao definir a disciplinacorno ''urna ciência social do observado" [1958:

396], releva, indirectamente, o aspecto do método ao sustentar a ideia implícita de que a sua abordagem se faz pela observação, do ponto de vista do observador.

3.2.1 As relações entre o local e o global

Apesar da heterogeneidade científica e de algumas rupturas teóricas ao longo do desenvolvimentoda disciplina, esteve sempre presente uma perspectiva específica da antropologia sobre o real. Ou seja, existiu sempre um projecto contínuo da disciplina para pensar a relação entre a diversidade e a unidade da humanidade. Convém rclativizar no entanto este princípio teórico definidor. De facto, embora no seu projecto teórico sempre se tenha afirmado opropósito de transcender as particularidades e pensar a humanidade no seu conjunto, esta unidade final raramente tem passado de um ponto de vista teórico. Na prática, os estudos pouco ultrapassaram os particularismos, procederam à comparação ou foram capazes de enunciar aspectos universais e leis gerais.

Tal não significa, no entanto, que a antropologia possa dispensar o estudo etnológico dos particularismoslocais. Pelo contrário, é precisamente por eles que necessariamente se inicia a investigação etnológica, antes de proceder à comparação e pensar a universalidade antropológica. Ou seja, para finalmente poder reflectir sobre o funcionamento social e cultural geral e evidenciar categorias analíticas universais, capazes de explicar simultaneamente a diversidade das sociedades humanas e a unidade do género humano. É este projecto que corresponde à finalidade fundamental e permanente da antropologia social ecultural.

o tundo. do ponto de vista cultural, é necessário evidenciai' e relacionar saberes e discursos culturais particulares com saber global e discurso geral sobre a humanidade. Porém, para tanto, não é desejável encerrar a disciplima

59

60

na classificação de costumes estranhos ou culturas em vias de desaparecimento em sociedades distantes ou próximas, embora esta actividade corresponda a uma necessidade evidente de registo e arquivo, na lógica de uma etnografia e etnologia ditas de urgência.

Na vertente mais marcadamente social da antropologia, para atingk os princípios gerais enunciados, esta estabelece, na sua etapa etnológica, o estudo de mecanismos sociais precisos. Tal, dando maior importância - na perspectiva da autonomia do social, segundo os autores Durkheim eMauss - a um quadro teórico independente da explicação histórica (naperspectivaevolucionista); ^explicação geográfica (naperspectivadifasionista); ^explicação biológica (na perspectiva funcionalista de Malinowski); da explicação psicológica (do ponto de vista do estudo dos comportamentos). Por outras palavras, a antropologia na sua vertente social apresenta-se como uma ciência autónoma que estuda as relações das relações sociais, a partir de contextos etnológicos"" locais metodologicamente adequados, tal como foi referido anteriormente.

-

Para melhor compreender o que subtende este quadro teórico, dou o seguinte exemplo concreto de uma investigação realizada há uns anos nos Estados Unidos sob o tema: a universidade como instituição de formação de competências de alto nível, a partir da observação das relações sociais parciais entre professores e estudantes. Nesta hipótese de trabalho, o investigador não se interessou unicamente pelas relações existentes entre o professor e um aluno, mas antes entre o professor e todos os alunos, ou melhor ainda, interessou-se menos pelas relações entre o professor e o conjunto dos alunos que pelas relações entre professores e alunos da instituição universitária. Este procedimento diminui os acontecimentos particulares e aleatórios, fazendo emergir o modelo estatístico médio do substrato sociológico contido neste tipo de relações . Mas a investigação não acaba aqui. Na fase seguinte, tratou- se de conhecer as implicações do género das relações universitárias com outras instituições, em contacto umas com as outras, directa e, ou, indirectamente. Se fosse repetida no caso português, esta investigação poderia, numa fase posterior, após evidenciar os mecanismos que presidem às relações nas instituições universitárias do país, proceder à comparação com outras instituições universitárias estrangeiras e dar a compreender o que têm de comume diferente. As ditas relações não são aqui consideradas no sentido dos comportamentos relacionais interpessoais entre os diferentes protagonistas - embora seja através deles que se procede ã observação - mas sim enquanto conteúdo de um quadro de relações instituídas de funções sociais. A finalidade da investigação seria compreender os mecanismos de dependência e interdependência funcional da referida instituição relativamente à sociedade, através (e não como objectivo) dos comportamentos relacionais entre os diferentes protagonistas em causa. Tratar-se-ia de evidenciar (como forma de explicação sociológica) o

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funcionamento da referida instituição assim como a sua função (ou grau de disfunção) na sociedade global.

Assim, a mesma investigação aplicada ao contexto português, permitiria verificar - entre outras questões se a universidade portuguesa produz realmente conhecimento e o nível desse conhecimento. Em concreto, permitiria saber se produz os efeitos esperados pela sociedade e que tipo de efeitos. Ou seja, se responde às funções esperadas pela sociedade. E quais funções? Se torna a sociedade mais culta, competente e competitiva. Ou; ao contrário, se a universidade está reduzida a prestar emprego aos seus membros permanentes -e--a ser-uma espécie de almofada contra o desemprego, ao manter durante algum tempo os alunos fora do mercado de trabalho, graças a uma consequente taxa de insucesso (contribuindo assim a reduzir os índices estatísticos do desemprego). Para, final e comparativamente, apurar ern que medida a situação é comparável à das suas congéneres estrangeiras. E, ainda para, no quadro comparativo das relações bilaterais entre sociedades, avaliar as perspectivas de paridade científica e competitividade entre sociedades diferentes.

'3.2.2

'O fim dos selvagens

Corno deixámos entender anteriormente, a antropologia depara-se com um desafio que na origem não se punha de modo tão evidente aos investigadores. Trata-se de um fenómeno inédito na história da humanidade: o processo

generalizado de transformação das próprias sociedades ditas primitivas e Jxadicionais. No melhor dos.casos, estas sociedades encontram-se actualmente confrontadas com um processo de transformação acelerado, no sentido da adopção do modelo de desenvolvimento económico e tecnológico ocidental. No pior dos casos, não chega a haver a mínima transformação positiva (mudança no sentido desejado pelos implicados), mas mera degradação das - condições de vida tradicionais em resultado do contacto descontrolado e inexorável com o mundo ocidental. Nestas situações, a vida ancestral ™^s.^50na~se & resulta em condições de degradação social e cultural

ao modo de

irreversíveis, sem conseguir

qualquer

aproximação

'/desenvolvimento das sociedades ditas modernas.

-; de transformação- desigual segundo os casos ~ e tentativa de aproximação da generalidade das sociedades ao modelo industrial-urbano e tecnológico da sociedade do antropólogo, reduz consideravelmente o campo : i--ac? ° tra^Ícional dos antropólogos, obrigando-os a repensar a disciplina.

•-^ ntretanto, apesar destas alterações, parece ser pertinente colocar algumas interrogações a este propósito. Será que o fenómeno de globalização económica

61

conduzirá inevitavelmente à uniformização cultural e social? Se tal for o caso será esta total? Ou limitar-se-ã a alguns aspectos das sociedades. Sabemos

que as sociedades

não são estáticas nem esperam umas pelas outras

relativamente à mudança, manifestam sobretudo aptidões de criatividade na

elaboração constante de diferenças.

3.2.3 Ã inclusão do universo ocidental no campo antropológico

O movimento de imposição de um modelo de desenvolvimento universal (com a introdução de relações comerciais, monetárias e capitalistas nas generalidade das sociedades), conduziu a antropologia a integrar a modernidade no seu campo de análise habitual; ou seja, a considerar igualmente —para.alér sociedades "primitivas" - o estudo do espaço da nossa vida quotidiana ocidental, as nossas condutas sociais correntes. Emergiu assim, uma antropologia adicional que se interessa pela análise das instituições administrativas, das relações de trabalho, das grandes concentrações urbanas e das situações de violência que daí resultam, das novas formas de religiosidade, das inéditas formas de agrupamento em associações de todo o género.

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Porém, a disciplina continua a interessar-se pelas sociedades "primitivas" ou "tradicionais"- que naturalmente não desapareceram bruscamente embora se encontrem sob pressão externa, permanente e inédita na história da humanidad_e^ De facto, não se trata de abandonar terrenos em substituição de outros, tal não corresponderia à vocação da disciplina como ciência geral da sociedade. Pelo contrário, mais que nunca o alargamento do campo de intervenção disciplinar corresponde à necessidade permanente depensar o funcionamento do social e do cultural no seu todo humano, para poder aceder à finalidade principal da disciplina: evidenciar categorias analíticas universais capazes de explicar a unidade do género humano.

Com efeito, com a inclusão gradual e diferenciada das sociedades de tipo ocidental no campo antropológico, a disciplina atingiu uma maturidade científica globalizante que lhe permite, pela primeira vez desde as origens, pretender proceder à prática dos seus fundamentos teóricos corno ciência social universal.

No entanto, este alargamento gradual do campo da disciplina não acontece sem dificuldades. Por razoes diversas, (designadamente etnocêntricas) existem ainda muitas sociedades ocidentais que não se vêem como objecto de estudo antropológico. Se tomarmos ern consideração as sociedades europeias, constatamos que a situação é muito desigual no domínio da investigação antropológica; a par de países com. centros de grande actividade científica, existem outros em que as escolas de antropologia ou são inexistentes ou têm

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uma actividade e importância reduzidas3. Acresce ainda que alguns destes países, apesar de possuírem núcleos de estudo"etnológico, nunca tiveram, pelo menos de forma significativa, uma experiência exótica. Porém, independentemente de a terem conhecido ou não, têm alguma dificuldade em inserir-se plenamente no campo antropológico enquanto objecto de estudo científico. Quando muito vêem-se como fundamento legítimo de estudo folclórico e museografie o, na medida em que realça e exalta a especificidade das suas culturas nacionais e ajuda a definir a identidade, mas com muitas "reticências enquanto objecto de estudo antropológico4.

-Ora, depreende-se de tudo quanto foi dito até aqui, que o projecto antropológico não pode corresponder ao exclusivo conhecimento dos outros mas igualmente ao conhecimento de si —e para o qual contribui pela mesma ocasião o dos outros. Assim, a antropologia é necessariamente uma ciência comparativa, "rilÉfmedida em que se impõe ao investigador a tarefa de elaborar uma teoria geral da vida em sociedade. Para atingir este objectivo, segundo C. Lévi- Strauss, o antropólogo "esforçar-se-á, voluntária e conscientemente também "(sem que"seja certo que "alguma vez o consiga) formular um sistema aceitável, tanto para o mais longínquo indígena como para os seus concidadãos ou contemporâneos" [1958:396-397].

3 Jean Poirier, na sua Eshnologíe Generais [1968], refere nove escolas europeias de etnologia de importância desigual: britâ- nica, americana, francesa, alemã, belga, portuguesa, italiana, russa. Referente a outros continentes, o autor menciona também países como o Japão, a América do Sul.

4 Para uma avaliação suple- mentar da situação recente da antropologia ver Aniltrop ologie: éiat dês lieux, L'Homme, Revue française d'anthropologie, Paris: Navari n/Livre de

Poche,1986.

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Europa incluindo-a —com as reticências que são conhecidas - na sua área de conhecimento. Todavia, esta inclusão não se tendo feito de forma homogénea,

entanto, só.com o fim. dos colonialismos a antropologia refluiu para a

a sua intervenção incidiumuito particularmente no Sul europeu, permanecendo

o Norte, implícita e praticamente, fora do campo da antropologia. E nos países do Sul da Europa a investigação recaiu, inicialmente sobretudo, sobre as

camponesas, passando durante algum tempo ao lado dos meios

^sociedades

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urbanos.

Esta visão, resulta da ideia de que a distância cultural obtida pela distância geográfica é absolutamente indispensável do ponto de vista metodológico e episternológico. Juntamente com algum etnocentrismo, leva ainda a considerar • .implicitamente que em alguns países do Sul as suas sociedades camponesas estariam mais perto das condições etnológicas anteriormente conhecidas, no

destas

.-sociedades têm algumas semelhanças com esse universo: essencialmente uma rorte tradição oral, uma relativa autonomia em relação à sociedade nacional e, ,1.-.n.alniaJ°"a s casos, excluídas do conhecimento histórico, reservado aos acontecimentos de Estado e outras ocorrências sociais influentes.

•••universo' extra europeu. De certo modo, algumas das condições

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^ I2er-se para concluir que a ciência antropológica tem sido uma ciência

epratica desigual desde a origem. Desigual, na troca de conhecimentos entre

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ocidente e o universo não ocidental; desigual, pode acrescentar-se, no equilíbrio quanto ao sexo dos investigadores com - até há pouco tempo -

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uma real maioria de antropólogos de sexo masculino; mais recentemente, F desigual na captação de conhecimentos do Sul por investigadores do Norte da Europa. De facto, os investigadores do Sul têm-se confinado ao olhar de si

. próprios, partilhando o seu espaço com outros sem ousar alargar o seu campo '" de intervenção a outras regiões que não as suas - é uma prática alienada da antropologia europeísta que impede por natureza a comparação. -

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3.2.4

Ciência do tradicional e da modernidade

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Segundo a perspectiva referida, Portugal, por exemplo, seria hoje ainda-para

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alguns observadores, como cheguei a ouvir - um conservatório desses mundos T " ' desaparecidos ou em vias de desaparecimento. Ora, não é cientificamente ^-™ correcto considerar Portugal, nem outros países em condições semelhantes, t- como um conservatório de um passado imutável e, por essa razão, não pode f constituir refugio para etnólogos passadistas que pensam ser apanágio da j

etnologia o estudo exclusivo de sociedades arcaicas. Como todas as sociedades europeias, Portugal há muito que se encontra em mutação e onde desde algum

tempo, a dicotomia rural/urbano se esbate fortemente. Os mundos rural e urbano f constituem cada vez mais, também no nosso país, um todo—sociologicamente difícil de recortar - ern cujas características os seus habitantes se reconhecem.

Mais rapidamente do que há uma vintena de anos atrás, Portugal acelera a sua . l plena integração no modelo de sociedade de massa ocidental (de modo desigual -j— —- -••

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segundo as zonas do país, é certo, mas o seu caso não é o único) e é nesta l

perspectiva dinâmica que deve ser incluído no campo da antropologia, tal

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como deve ser incluída toda a Europa.

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Com efeito, na medida em que queremos atender aos objectivos gerais da disciplina, enunciados mais atrás, não é possível reservar zonas geográficas especiais ao estudo antropológico e excluir do seu campo de estudo outras tantas sob o pretexto, vão, de que as primeiras seriam o conservatório de í particularismos tradicionais, desaparecidos nas segundas. |

Sejam quais forem as variantes sociais de sociedade, a sociedade industrial moderna, cuja origem é europeia mas que se estende actualmente por uma g grande parte do planeta, repousa onde quer que seja eni estruturas semelhantes | e desenvolve, ern todo o lado, mais ou menos o mesmo tipo de relações. Em contrapartida, as diferenças entre,, por exemplo, as sociedades tropicais-da América do Sul e o Japão moderno são diferenças mais profundas, são diferenças de espécie.

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Para saber mais:

-EVANS-PRITCHARD, Edward Evan:

1999 Antropologia Social, Lisboa: Edições 70.

LÉVI-STRAUSS, Claude,

1985 Antropologia Estrutural, Rio de Janeiro: Biblioteca TempoUni- versitário.

POIRIER, JEAN (Ed.),

1968 Ethnologie Génémle, Paris: Editions Gallimard, Encyclopédie de Ia Pleyade.

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