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Salvador, Bahia

2007

Direitos desta edição reservados à: Carlos Reis Agni

Ilustração da Capa:
Black Novais
Gilson Santos

Digitação:
Edvando Souza Santos

Revisão:
Edmundo Peixe
Helvécio Meira
Carla de Quadros

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Agni, Carlos Reis.


Lágrimas de um Espermatozóide / Carlos Reis Agni
2ª edição – Salvador, Ba. 2007.
107 páginas; 14,0x21,0 cm.

ISBN 978-85-907173-0-0

1. Literatura Brasileira – Romance; Ficção. I Título. 2ª edição.

CDD 869-3B
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Preâmbulo

Estava caminhando em meio a transeuntes que se deslocavam de um lado para o


outro, ansiosos, com pressa de chegar a algum lugar. De repente, parei, olhei para todos os
lados e percebi que eu não tinha lugar nenhum onde ir. Estava só, no meio de uma
multidão. E, sem destino, sentei-me ao canto, n’um canto da vida, observando aqueles que
eram levados por suas ansiedades. Nesse momento, passa uma criança chorando; tomado
por uma ligeira emoção, eu a questiono:
– Por que choras?
Ela nada me responde, continuando seguindo pela calçada.
Em meio as minhas observações, pensei comigo mesmo: “Quantos de nós queria ter a
sua coragem, para que alguém ouvisse os nossos gritos”.
Naquele momento, fiquei olhando à distância. E nos meus pensamentos vi a trilha dos
meus passos se desmoronando sobre mim, cobrando que me erguesse, pois o amanhã
começa na ansiedade do agora. Mas eu me senti só... Encolhi-me naquele canto, quando fui
invadido por um profundo pensamento: “A lágrima da dor aduba a raiz da personalidade,
desabrocha a consciência para uma maior evolução interior”. Nesse momento as lágrimas
escorrem em minha face como tinta descristalizando o meu profundo silêncio, ecoando em
mim um grito calado, rasgando no vazio um incansável por quê, umedecendo a minha face
como orvalhos transcendentais, a resposta que me cobra a interpretação da alquimia desta
breve existência. Nos meus pensamentos, começo a caminhar na árdua estrada do
autoconhecimento de mim mesmo e confronto-me com o temor do medo. Minhas fraquezas
questionam-me, levando-me a um ilusório apego a transitória existência. E as minhas
ansiedades, tolas ansiedades, negam a inevitável participação do tempo nos pequenos e
grandes acontecimentos de minha vida. Meus desejos e meus sentimentos não me ouvem.
Minha carência insana teme morrer no vazio dessa solidão. E em todos os espelhos em que
vejo a minha imagem, tu és o único espelho em que a minha imagem tem liberdade para
amar. Então, vem pigmentar a transparência da minha alma com a tonalidade forte da tua
sensibilidade. Assim como as cores se buscam numa aquarela para encontrar a liberdade, na
tela em que pinto a Vida, preciso de tua suavidade como cor, para dar forma à minha
imaginação. Logo, questiono-me e me enclausuro, escalando o ponto mais alto do meu
silêncio. E, lá, ouço a melodia do vento, que fala:
– Por que te questionas? Por que te negas, se os átomos – a primeira expressão física
de tua existência – buscam na dualidade da atração, o amor, para formarem suas moléculas?
Nesse momento, ouço a voz do meu silêncio que me questiona:
– O que tu vês?
– Vejo ruas, vejo que aqui fora tudo está frágil: sentimento, computador, programa,
almas de plástico. Vejo ainda mil beijos, cheiros e desejos, mas não sinto a verdadeira
fragrância da alma. E por essas ruas os meus passos ganham vida.
São ruas desertas, ruas dos sonhos de buscadores do verdadeiro sentimento que
galgam à única real ficção: “subestimar o Tempo”. Nesta metafórica caminhada, encontro
um lago de águas cristalinas que excitam a minha sequiosa sede. Ao bebê-la, surpreendo-
me com o sabor agressivo de lágrimas. Observo o sol, que a terra, em sua perfeita
coreografia, o conduz ao encontro do crepúsculo, dando vida e liberdade às sombras. Nesse
instante, diante do silêncio, no templo do meu ser, as lágrimas deságuam inundando o vazio
dos meus olhos. Escorrendo em minha face, acariciando-a e, sem disfarce, eu choro. Ergo-
me, então, ao infinito, numa contemplação ao Universo. E assim, as últimas sínteses de luz
se entregam por vencidas à penumbra, privando-me de degustar o sabor do nefasto líquido
cristalino. Meus passos levaram-me pelos distantes caminhos em busca do raro: a flor que
queima semelhante ao fogo transformador da alquimia, decompondo os labirintos de minha
ansiedade e, como prisma, desperta em mim a consciência psíquica do meu Ser, a buscar a
quintessência da minha unidade, pois tudo vive numa eterna busca. A ilusão procura uma
miragem como razão para as alucinações da vida, eu a persigo como a um oásis, porque
preciso de suas sombras para proteger-me do ardente sol da solidão. O véu da noite cai
sobre mim e o sol se curva à sua majestade. E, na predestinada busca do escurecer, surge o
sol, semelhante a uma flor. Sinto-me na meia-noite de um novo dia, em que no templo do
seu corpo brota a flor – portal de seu prazer – que se excita ao desabrochar as pétalas,
seduzindo-me no ritual vício da vida. Então vem, deixa-me tocar no teu silêncio e, com
carinho, beijar tua flor e sentir o néctar de tua vida. E, com a luz de teu ser, enaltecer o
maior sentimento dos imortais... Imortalizando-me no teu sonho. Pois já não sei se o sonho
é realidade desta existência, ou se tal existência é realidade de um sonho. Não importa;
apenas vem; resgata-me dos meus pesadelos e leva-me até os teus sonhos... E não me
acordes! Deixa-me viver neles, pois os meus se perderam nas neblinas de um acidente de
percurso. Minha alma está despida e em meus desejos sinto a expressão de Deus. Envolve-
me nos teus desejos e, por favor, deixa-me tocá-la, porque a minha saliva cobra de minha
língua que acaricie a nobre arte que são as curvas do teu corpo. E com a habilidade de um
oleiro, quero tocar a perfeita escultura dos teus seios; e meus lábios, sem nenhuma palavra,
rompem os tabus do preconceito que tem criado o que chamam de pecado. Por favor, leva-
me ao único destino dos meus desejos: a flor do teu sexo, princípio do teu prazer, portal da
vida. Em meio aos nossos delírios e ansiedades, conspiraremos em um só desejo. Nesse
momento, encaixo-me em teu ventre e, num ritmo frenético, perdemos o domínio. Somos
apenas um, a dor se transforma em vício. Insisto, involuntariamente, em sair de mim para
encontrar-me dentro de ti. Minha consciência se esvazia no processo intrínseco da
transformação, minha mente viaja no espaço e no tempo para me encontrar na unidade de
um orgasmo que, numa repulsão, desfaz as partículas subatômicas de minha existência,
dividindo-me, levando-me à contínua e incansável luta de vencer a mim mesmo e
encontrar, no teu interior, parte de mim: a vida – o ópio da continuação. Passam-se dias e
meses e o templo do teu ventre me acolhe concebendo-me nesta primeira iniciação. A
expressão de Deus nos fascina em cada momento da transformação. As ansiedades e a dor
preparam o teu ser e corpo, te levando a rasgar o ventre, rompendo limites da flor do teu
sexo. E numa segunda iniciação, nascerei. Despertando com um choro e arrebentando o
silêncio com um grito, o som da Vida. O impulso da inocência instintiva levou-me a
procurar e acariciar os teus seios, buscando encontrar a nascente, fonte primária da vida,
que fortalece o princípio desta minha breve existência, onde o tempo descortina, a cada
momento, uma nova descoberta, e a fragilidade de meu corpo procura a proteção em teus
braços. E o tempo me lapida, a cada momento na transformação da continuidade do sonho
de Deus, levando-me a escrever, no livro silencioso do Universo, a poesia da vida – a arte
da transformação, que nem mesmo a mais profunda reflexão consegue decifrar.
Enquanto despertava da profunda reflexão, diante de mim, o efêmero reflexo da
paisagem transitória e seus elementos mostravam-me o quanto é vulnerável tudo a nossa
volta. Naquele momento, senti leve mão repousar no meu ombro e uma voz calma que
comentou:
– Mestre, por que estás envolvido em profundo silêncio?
– Estava pensando nos enigmas da vida e adentrei labirintos buscando desvendar
mistérios.
– E quanto a ti, nobre andarilho, por onde andaste?
– Eu conheci o mundo, naveguei pelos oceanos e descobri povos, raças e costumes
diferentes. Vivi paixões, amei e acredito que fui amado. Agora estou aqui, buscando o
sentido da vida.
– Mestre, preciso fazer-te uma pergunta: De onde viemos e qual é a razão da vida e do
livre arbítrio?
De súbito, fomos tomados por silenciosa pausa e, olhando para o céu, observamos a
suavidade do vôo dos pássaros.
Ele questiona:
– Só os pássaros podem mostrar o verdadeiro sentido da liberdade?
– Vou contar-te uma lenda grega sobre todos os migrantes do Universo e uma fábula,
a parábola que ilustra a razão da liberdade: “Em algum lugar distante dos limites de nossa
consciência objetiva, onde o tempo se intercala ao espaço, sete luas se fixavam como jóias
soltas no espaço de um céu, a subestimar nossa imaginação. E três estrelas incandescentes,
semelhantes ao sol, regem a trajetória dos seres que têm um único objetivo: esclarecer o
segredo da Vida. Os habitantes daquela enigmática civilização contemplam uma das
estrelas que os alimenta com intensa luz de um conhecimento jamais compreendido pelos
mortais. No meio daquele povo, um vidente dos sonhos fala a respeito de uma civilização
que habita em um sistema solar alimentado por uma só estrela incandescente, a qual é
chamada de sol. E para aquela civilização muitos imigram de várias partes do Universo,
sendo levados pelo cordão umbilical da atração, semelhante à força gravitacional, a qual
chamam de desejo. E assim, nesta viagem, todos perdem a noção da realidade e navegam
em meio ao oceano biológico do desconhecido, sendo aprisionados ao verso da existência,
seguindo a ordem que faz tudo mover-se em círculo. O nascimento é o fluxo primário dos
que imigram para aquela civilização solar. Inevitavelmente eles se apegam em tudo à sua
volta, até mesmo à sua forma física, acreditando ser a sua única realidade. O seu dia-a-dia
move-se em círculo, em um amanhecer e anoitecer constantes, alienando os seus
pensamentos a uma satisfação ilusória a que chamam de felicidade, prometendo-a
encontrar, no que eles apontam como futuro, o sanar de seus medos e de suas ansiedades,
sempre conflitando entre si, pois eles disputam espaços como espermatozóides movidos
pela força desconhecida chamada desejo. Apenas choram as lágrimas de uma árdua
trajetória onde os leva ao refluxo, final de uma trajetória biológica do círculo da existência.
E assim, os imigrantes do tempo, levados pela causa e efeito, materializam “o vale da
morte”, com os seus desejos e medos, no paraíso azul – o planeta movido pela ordem
elíptica em volta de uma estrela que chamam de sol. Eles são meros habitantes transitórios
de uma realidade chamada Terra.”
E o vidente voltou-se para o pequeno grupo:
– Logo, a quarta lua estará em linha paralela à segunda estrela ao leste, será aberto o
portal eclipse, onde todos os que foram escolhidos para migrar devem lembrar-se de que lá
o ódio, o medo, a ilusória ambição já transcenderam as nuvens e aquele que amar corre o
risco de ser crucificado, assassinado, simplesmente porque amou. Não importa, vão,
ensinem que “a razão da Vida só se encontra quando conhecemos o amor”.
Agora ouçam a fábula da liberdade na linguagem dos elementos da Natureza:
“Um dia, um pássaro voava pelos céus, rompendo os limites da liberdade. Sendo
tomado de um grande vazio, pousou numa árvore, lamentando-se. A árvore perguntou-lhe:
– Por que choras, pássaro? Por que te lamentas?
E o passarinho lhe responde:
– Tu já me deste o abrigo na sombra de tuas folhagens, os frutos e o suficiente para a
minha sobrevivência; é o suficiente.
Não posso exigir de ti que me expliques a razão da liberdade, se tu não te moves para
nenhum lugar.
E a árvore:
– Por que me subestimas, se através de ti eu cumpro a razão da minha existência? Tu
levas as sementes dos meus frutos que te alimentam, semeando a minha continuação e
dando liberdade à minha razão de existir. Tu não notaste que essa é a razão da tua
liberdade? Voa! Leva-me a lugares mais longínquos e serei sombras, frutos e sementes da
continuação!”
– Esta é a razão, meu amigo. A razão maior da liberdade é servir.
E ele, surpreso, questiona-me:
– É tão simples assim?
E com o olhar brilhando intensamente, fala-me:
– Viajei por lugares longínquos, vivi e aprendi muitas coisas e tive de voltar aqui para
ouvir a simplicidade da tua sabedoria. Agora está claro para mim, a linguagem do Cosmo é
desmistificar com simplicidade, o que para nós é inexplicável.
De forma impulsiva, ele apanha papéis e caneta, olha para mim e diz:
– Mestre, fala-me sobre a tua vida, sobre os teus pensamentos, pois escreverei e
publicarei para que outros possam conhecer a tua sabedoria.
– Sobre a minha vida, filho, existe tão pouco a falar! Meus pensamentos não são meus
pensamentos, mas sim a expressão de Deus. Entretanto, contar-te-ei uma história, a história
de Donai. Um ser que, um dia, aqui viveu.
– Conta-me e a escreverei.
Capítulo I

– Foi aproximadamente em 1940, que a madrugada daquela noite se entregou à sutil


suavidade dos primeiros raios da luz de um novo amanhecer. A neblina que encobria aquela
cidade foi desvirginada com o despertar da luz do dia, levando a população daquela cidade
à natural e rotineira ansiedade do seu cotidiano.
Em um bairro comum, entre a casas sem nenhum destaque, num aposento de tamanha
humildade que agrediria o luxo da nobreza social, despertei para contemplar mais um dia.
Dirigi-me à porta que dava acesso à entrada da casa; ao abri-la, passei a observar o céu.
Mais uma vez fui tomado por leve sensação e me interroguei: “Quem sou eu? Qual a razão
da minha vida e do despertar para mais um dia nesta existência?”
Sei que a resposta estava à minha volta, como o vento, e dentro de mim, adormecida
na fonte de meus pensamentos... E lá fora senti a harmonia da liberdade e de todos os seus
elementos. Também senti que, se levantasse o braço e apontasse para o infinito, tocaria na
alma do mundo contida dentro de mim, chamando-me para fazer parte da coreografia da
eterna liberdade. As corriqueiras ações do dia-a-dia me chamavam. Comecei a me preparar
para mais um dia de atividade; contentando-me com modesta refeição matutina, apanhei a
mochila contendo alguns objetos pessoais e segui em direção à rua, onde me entreguei à
busca de atividades. Em meio ao percurso, surgiu um jovem que em seus rápidos passos
mostrava-se apressado, passando a acompanhar-me. Logo, começamos a conversar a
respeito de coisas peculiares. Após um longo percurso, ele notou que eu estava descalço e
questionou-me:
– Andar com os pés descalços não te incomoda?
Eu lhe respondi que naquela manhã decidi não pisar na terra, mas acariciá-la com os
pés e fazê-la sentir nossa unidade, e dessa forma contemplar a vida que mantém a minha
vida. Ao chegar ao meu destino, nos separamos. Abri o portão de uma notável e
extremamente luxuosa residência, dirigi-me à porta e adentrei-a. No centro da sala, um
brinquedo chamou a minha atenção, passei a tocá-lo, admirando-o. Naquele instante, ouvi
uma voz chamando; logo notei a cozinheira:
– Levante-se, pois já temos atividades para você. Vá até a casinha do cachorro, pegue
Fúria, dê-lhe um bom banho.
Dirigi-me ao cão que latia e me olhava como se estivesse saudando um velho
companheiro. Ao ver o balde em minhas mãos, ele recuou. Senti então o temor dele em ser
molhado. Peguei a sua corrente, tentando acalmá-lo, quando sussurrei:
– Somos iguais! Terei prazer em refrescá-lo, pois o banho fará bem a você. A
diferença que nos separa está na consciência e na aparência e o que nos torna iguais é o
fluxo da vida.
Ao molhá-lo, ele abanou a cauda, passou a lamber as minhas mãos como se estivesse
dizendo sim. Novamente ouvi a voz da cozinheira, notei rapidamente que mais atividades
me esperavam. Apanhei os aparatos necessários para mais um serviço cotidiano, peguei o
meu amigo Fúria pela corrente e o levei para me fazer companhia. Enquanto ele se aquecia
ao sol, passei a lavar um luxuoso carro. Seus latidos me faziam sentir que estava
acompanhado, apontando para o veículo, voltei-me para ele e falei:
– Fúria, aqui está a nossa diferença: no passado, cavalos conduziam carruagens, você
e seus antepassados eram cães. Nós, homens, inventamos “cavalos” e eles fazem parte
dessa “carruagem”. Quanto a você, meu amigo, continua sendo cão.
Dei um sorriso e continuei:
– Nada mudou! Estes são símbolos da transformação. É aqui que começamos a nos
separar, em consciência. Só não saberia viver sem a sua companhia.
Ao terminar, o conduzi rumo ao seu habitat, dei-lhe alimento e o deixei só. Retornei a
uma luxuosa sala de estar. Observando aquele brinquedo, sentei-me perto e o apanhei.
Logo, fui tomado por uma observação: “Quando aquela vitrine nos separou tocar em você
era como um sonho... Hoje você está aqui num canto qualquer, sem nenhuma razão, vítima
das ansiedades por algo novo; quantos como você que pensam e têm sentimento, estão num
canto, ansiosos por um pouco de atenção, querendo ser tocados, acariciados e ouvir ao
menos uma palavra”. Toquei-lhe levemente e pensei: “As ansiedades... tolas ansiedades!”
Acredito que se todas se juntassem de uma só vez, criar-se-ia uma bomba cuja explosão
afetaria os limites da fronteira do universo. Por acaso, serei eu a acender o pavio dessa
bomba? Tantos homens notáveis e de uma inteligência brutal, distantes da lapidação da
consciência, quase acenderam esse pavio. Naquele instante, ouvi a voz da cozinheira
chamando por meu nome, não para mais uma atividade, e sim para uma refeição. Segui até
a cozinha, peguei o prato e dirigi-me para o quintal onde me sentei entre as plantas. Logo,
notei a presença dos pardais vindo para perto de mim, disputar os grãos de arroz que eu
atirava ao chão. Fiquei fascinado pela sincronia de seus vôos e comecei a sorrir. A
cozinheira se aproximou e perguntou-me:
– Por que tu sorri tanto com os pardais? O que notas de tão interessante neles?
– A liberdade! A liberdade leva a minha imaginação e eu me vejo neles. Chego a
pegar carona nas asas de Ícaro e vou a limites impossíveis, onde não existe o medo. E lá
sinto que o meu destino é voar.
Ela continuou a indagar-me:
– Tu não sentes medo?
– Não. Só sinto medo do medo que nasce dentro de mim, pois ele limita meus sonhos.
– Por medo, eu não segui a quem mais amava e não sei se sou ou serei feliz.
– O medo se sacia na mesa da dúvida e a dúvida, por si mesma, ofusca a busca do
sonhador.
Naquele momento, ela me olhou com um olhar cabisbaixo. Entreguei-lhe o prato, com
um sorriso, dirigi-me ao quarto, troquei de roupas, apanhei a mochila onde meus lápis e
cadernos me acompanhavam para uma nova atividade. Segui em direção à porta que me
conduziria à saída da casa, e comecei a caminhar. Senti uma vontade imensa de correr...
corri muito. O vento invadiu a minha boca, impregnando-me com frescor e suavidade, logo
observei à minha frente um velho que se agarrava a um saco como se segurasse a si mesmo.
Ao passar, ele me gritou:
– O que tu pensas que és? O vento? Pois saiba, eu já tentei parar o tempo para que ele
esperasse que eu saciasse os meus desejos e as minhas ansiedades. Foi quando vi entre os
pássaros uma águia, e suas garras afiadas preparando-se para golpear a sua presa.
Surpreendi-me com a presa que não dava nenhuma atenção a seu predador, mas se
preocupava em golpear uma presa menor. E esta não se preocupava com seu predador, mas
sim em golpear sua presa. Também vi germes devorarem presas e seus predadores, até
mesmo aqueles que voavam. Vi ainda minhas ansiedades se quebrarem como vidraças, que
protegiam a mansão dos meus sonhos. E parte de mim está nos cantos, jogada nas calçadas
em ruas do nada. Apenas te pergunto: É o tempo predador de mim?
E a velocidade de meus passos diminuiu lentamente. Dirigindo-me então ao homem,
retirei da mochila meu lanche, oferecendo-lhe. Ele estendeu uma das mãos trêmulas, tomou
o lanche, falando-me:
– A minha fome já devorou a minha sede de viver, só tenho para te dar em troca o que
com a vida aprendi: “A maior missão dada ao homem aqui, é criar seu próprio destino”.
E os seus olhos invadiram os meus. Notei que ele via seu passado em mim. E meus
olhos viram, nos seus, o caminho de um futuro incerto. Voltei a caminhar em passos lentos.
Meus pensamentos me questionavam, levando-me a uma incógnita onde os “nãos” e os
tantos “sins”, dentro de mim, levavam-me a labirintos de dor e prazer. Logo questionei-me:
“Por quê?” Notei que já estava perto do colégio onde estudava. Abri os portões e encontrei
um amigo segurando um violão que chamou a minha atenção, avisando-me:
– Donai, estás atrasado! A peça irá começar e só tu faltas. Há muitas pessoas
influentes presentes e logo será a tua vez de participar.
Ao subir no palco notei que todos me aguardavam. Logo, meu amigo começou a se
preparar com o violão para fazer o fundo musical... Uma de minhas colegas, sorrindo, fez
um sinal, alertando-me de que eu logo entraria em cena. Ocupando um lugar num canto do
palco, fiquei preocupado por ter esquecido de minha fala na peça. As cortinas se abriram e
minha colega apresentou-se com uma rosa na mão oferecendo a uma das principais
autoridades presentes, passando a se expressar:
– Minha face está oculta por um véu, simbolizando a carência daqueles que não
podem gritar. Doei a eles a minha voz e grito ao vosso silêncio, incomodando até mesmo a
vós, na tentativa de desnudar as vossas consciências, para que possam estender vossas
mãos, e com isso, acabar com as indiferenças entre nós.
Ao finalizar sua fala, ela se retirou. Os olhares se dirigiram a mim. Havia chegado a
minha vez, mas eu não sabia o que dizer. Mesmo assim, dirigi-me ao centro do palco, e sem
nenhuma palavra, atirei-me ao chão. Entre gestos e expressões desordenados, passei as
minhas mãos na face e levantei-me lentamente, dizendo:
– Não tenho palavras a dizer. Quero apenas que ouçam o grito das expressões caladas
dos surdos-mudos, que clamam pela atenção de vós, “normais”, mortais, cheios de sutis
imperfeições. Eles só querem um pouco de atenção e que noteis que, por trás de suas
deficiências, existem seres de grande eficiência levando-vos para a evolução.
Apanhei então uma rosa, dei uma pétala a cada autoridade presente e lhes disse:
– Que essas pétalas se tornem uma rosa em cada um de vós, fazendo desabrochar as
vossas consciências.
Não conseguindo conter as lágrimas, retirei-me do palco, deixando-os em total
silêncio.
Capítulo II

Meus gestos e expressões ecoaram naquele salão, invadindo os labirintos e gerando


interrogações em muitos que ali estavam. Podia até sentir os rumores telepáticos que se
autoquestionavam:
“Que fiz eu por aqueles de quem foram tiradas as vozes e as expressões? Não são os
excepcionais o reflexo de nossa imagem abstrata? Sim, são as suas imagens que se tornam
reflexos para os normais. Normais-deficientes, ricos em gestos e tão pobres de expressão!
Livres para gritar, mas nenhuma palavra se ouve deles, pois sua liberdade e suas vozes
limitam-se apenas a se lamentarem. Passaram-se anos e poucas coisas mudaram; só o
tempo, Senhor das Transformações, pode derreter o gelo da expressiva ignorância da
humanidade. O véu ainda encobria a sensibilidade daqueles e de tantos que ouviram a voz
de Helen, que doou as suas expressões aos mudos, incomodando a todos que encarceraram
as suas emoções e cristalizaram seus sentimentos.”
Passei a acreditar que só nos restava o tempo para transformar as pessoas, mesmo se
demorasse dias ou séculos, não importa; que seja um sonho. Só espero que um dia
descortinem-se todos os véus e todos os chadores que encobrem as faces. E que as palavras
deixem de ser apenas expressões lingüísticas, tornando-se uma só comunicação telepática.
Posso afirmar que houve sutis mudanças em minha vida, estas vieram como presentes.
Quando Helen retirou literalmente o véu, observei que, por trás dele, não havia um único
sorriso, mas sim a formação de uma grande mulher. Sempre acreditei que as pessoas se
encontram para se ajudarem e conduzirem, uma à outra, em suas buscas. Sim, posso afirmar
que são presentes que o próprio Cosmo nos traz como luz e ajuda na provação do percurso
de nossa evolução. Ter conhecido Helen não foi diferente; as coisas nas quais ela
acreditava, os valores que buscava, fascinavam-me. Lembro-me de um dia, como também
de muitos outros onde eu a acompanhava. Estava chovendo, era uma forte chuva de verão.
Saímos naquele final de tarde do colégio e começamos a correr. Depois de algum tempo,
procuramos abrigo embaixo de uma árvore. Estávamos muito molhados e a sua blusa
tornou-se transparente, deixando desnudos os seus seios. Ela, envolvida em uma profunda
timidez, cruzou os braços na tentativa de ocultá-los; fiquei apreensivo, sem jeito para falar-
lhe ou fitar-lhe naquela delicada situação.
Ela sorria, enquanto falava:
– Estou toda molhada.
Eu a olhava e pensava: “meu Deus, eu preciso falar algo para ela, mas não sei como”.
Em seu olhar, eu sentia que ela queria ouvir algo de mim. Como por impulso, disse-
lhe:
– Tenho sede.
Surpresa, ela questionou-me:
– Sede?
– Sim, e só tu podes sanar a minha sede; só teus lábios podem saciar-me.
Ela aproximou-se e olhando-me nos olhos, disse:
– Já beijaste a minha alma, mas para ter o meu beijo, terás que roubá-lo. Se
conseguires, serei tua.
Após pronunciar tão sedutoras palavras, deixou-me e saiu correndo... A uma certa
distância, ela parou e gritou:
– Serei tua, se me alcançares.
Sem hesitar, corri atrás dela, ignorando a chuva. Depois de uma longa distância,
consegui alcançá-la. Tropeçamos um no outro e caímos. Fiquei praticamente por cima dela.
Olhamo-nos envolvidos por sorrisos e sua voz fluiu suavemente:
– Tens apenas um segundo para me beijares; beija-me, nós nos pertencemos!
Naquele momento, um laço muito forte nos envolveu. Levantamos e começamos a
caminhar. Ainda chovia, mas não nos importávamos com a chuva. Ela, sorriu, dizendo-me:
– Quero que amanhã tu venhas comigo a um vilarejo para conhecer um amigo.
Fascinado com aquele alucinante momento de prazer, aceitei seu convite. Ao nos
aproximarmos de sua casa, combinamos:
– Sairemos amanhã, com o nascer do dia.
Eu lhe respondi:
– Amanhã trarei para ti um presente tão antigo quanto a própria História.
Soltei sua mão e com um beijo caloroso me despedi de Helen e voltei para casa. A
noite, que nos vem de graça, caiu sobre o dia. Despertei com o surgimento dos primeiros
raios do sol preparando-me para a viagem. Dirigi-me ao pomar próximo à minha
residência, apanhei o presente para Helen e parti ao seu encontro. Ao chegar ao local
combinado, encontrei-a esperando-me. Rindo, perguntou-me:
– Que reino saqueaste para trazer-me um presente tão antigo quanto a própria
História?
Sorrindo, abri a mochila, retirei um cacho de uvas e lhe respondi:
– Saqueei o reino da natureza. Através destas uvas, quero chegar ao céu da tua boca,
ser aquecido por tua saliva e fazer parte de ti.
Ela recebeu as uvas, dizendo:
– Tu já habitas em mim.
Em seguida, dirigimo-nos a um ponto de ônibus e fomos conduzidos ao vilarejo onde
iríamos nos encontrar com o seu amigo. Durante os vários quilômetros percorridos,
conversamos sobre muitas coisas. Helen me falou dos seus sonhos, das suas buscas e das
coisas em que acreditava. Tomada por impulso, agarrou-se à minha camisa, falando:
– Quero que faças parte dos meus sonhos. – Por alguns segundos, nossos olhos se
fitaram e ela soltou a minha camisa, dizendo:
– Desculpa-me por minhas fantasias.
Tomei uma de suas mãos e falei:
– Que seria desta realidade, se não fossem as fantasias? Como poderíamos superar os
obstáculos e os limites? O que seria do amanhã se não fossem nossos sonhos? Se estamos
aqui é porque alguém sonhou antes de nós.
Logo, percebemos que já estávamos entrando no vilarejo. Na pracinha, observei um
pequeno jardim, uma paróquia, alguns camelôs e algumas pessoas, circulando por ali. Senti
o clima de um vilarejo colonial. Helen levou-me em direção a uma rua, cuja saída
terminava num pequeno cais. Esperamos, por alguns minutos, a chegada da canoa que fazia
a travessia. Enquanto estávamos navegando naquele rio, Helen molhava sua mão na água,
logo, perguntou ao canoeiro:
– Estas águas são profundas?
E o canoeiro lhe respondeu:
– Há muitos mistérios sobre este rio. Conta a lenda que todo ano uma voz, semelhante
ao som de uma harpa, entoa um canto; se o pescador que a ouvir, tiver o coração puro,
realizará todos os seus desejos, conquistando muitas riquezas; mas aquele que tiver o
coração impuro, enlouquecerá. – Rindo, o canoeiro continuou: – É verdade, meus filhos,
acreditem!
Notamos que já havíamos chegado perto do cais de um vilarejo. Tivemos o privilégio
de contemplar uma paisagem formada por pedras e árvores antigas. Subimos uma ladeira
que nos levava ao interior do vilarejo e observamos, à distância, uma casa antiga. Ao nos
aproximarmos, percebi uma olaria. Fiquei na porta e Helen entrou. Logo encontrou um
ancião, abraçou-o e ele lhe disse:
– Há quanto tempo não te vejo, minha filha! Convida aquele que te acompanha, a
aproximar-se.
À distancia, eu senti a profundidade dos olhos daquele ancião e, em meu ser, uma voz
ecoou:
– Paz profunda! Estava te aguardando.
Eu olhei de maneira tensa para um jovem que colocava alguns vasos de cerâmica em
um cesto. Com a mão ele fez um gesto para que eu me aproximasse. Dirigi-me até aquele
homem de aparência madura e Helen me apresentou:
– Este é meu amigo. Seu nome é Donai!
Ele pegou em minha mão e na mão de Helen, falando-nos:
– Vós sois mais que amigos. Sois almas gêmeas que se encontraram e, em breve, irão
separar-se. Pois a vida preparou caminhos diferentes para vos lapidar.
Helen, ansiosa e com o olhar tenso, perguntou-lhe:
– Como?
E o ancião com uma voz serena, respondeu-lhe:
– Somos vasos, a vida, o barro, e Deus, o oleiro. Esta existência é o fogo que fortalece
a argila e amadurece o nosso Ser. Somos transformados e continuamos barro, trabalhados
pelo oleiro, até que um dia não precisaremos mais ser vasos nem barro, mas sim a própria
essência. A cada um é dada uma missão. A minha foi encontrar a luz em meio à escuridão.
Não podeis imaginar, meus filhos, o quanto caminhei para poder tocar na infinita cortina da
escuridão e poder rasgá-la para ver a luz. Eu já não sabia o que era mais escuro: se a minha
cegueira ou a minha angústia.
Nesse momento, ele nos pediu para sentar ao seu lado e continuou a falar:
– No dia em que me questionava e lamentava por não poder ver a luz do dia, entrou
uma jovem aqui em casa, lamentando-se, chorando, dizendo já não mais suportar a sua
vida, pois nada mudava: os dias eram os mesmos, as pessoas, a vegetação, os rios... nada
mudava. E que ela precisava viver algo novo. E continuou a lamentar-se: “Sédrik, preciso
ver pessoas e lugares diferentes.”
E eu lhe disse:
– São as cores que embelezam a vegetação e não mais satisfazem os teus olhos, que
eu tanto quero ver; são as águas dos rios e as pedras que jamais mudam, porém embelezam
o cenário da vida, que teus olhos estão cansados de ver, que eu tanto busco contemplar; são
os olhos e o sorriso das pessoas que te cercam e não mais te completam, que eu tanto quero
ver para poder conhecer o rosto daqueles que estão tão próximos.
Naquele instante, ela parou de chorar e me falou que não sabia que a vida a dotara de
tantos privilégios. E se retirou, deixando-me com mais interrogações.
Fiquei perguntando-me:
– Meu Deus! O que é ver senão a razão e a satisfação de sentir? Quantos vêem e são
cegos de consciência? Só agora descobri que a luz que eu buscava está dentro de mim; e foi
nos vasos, na olaria, no barro amassado, que eu dei forma aos meus sentimentos. E é assim
que consigo ver. Eu posso ver Deus através do fogo que nos lapida e que fortalece a argila
de nossa personalidade...
Ele parou de falar por alguns segundos e, com um sorriso, convidou-nos para amassar
o barro e tentar dar-lhe uma forma. E nos disse:
– Senti o barro como se estivésseis tocando em vós mesmos.
Depois de termos passado a manhã na companhia de Sédrik, preparamo-nos para
retornar à nossa cidade. Helen retirou de sua mochila algumas coisas para presentear-lhe:
pão integral, frutas e um livro escrito em braile. E ele retribuiu-lhe com um vaso. Para
mim, ele entregou uma taça adornada e entalhada. Uma verdadeira perfeição:
– Esta taça simboliza o nosso encontro.
E eu lhe respondi:
– Vou guardá-la como algo de muito valor. Jamais me separarei dela.
E Sédrik, abaixando a cabeça por alguns instantes, segurou minha mão e falou:
– A tua sensibilidade será mais forte que o apego desenvolvido por esta taça, pois
chegará o momento em que a dor clamará por um alívio e esta taça será o antídoto. Tu a
entregarás nas mãos daquele que açoita e tortura, condenando o vício com o seu próprio
jugo. Ela será enchida várias vezes, transbordando e julgando aquele que condena o vício
com a mesma condenação.
E naquele momento confuso, abracei-o.
Helen também o abraçou e, com lágrimas nos olhos, falou-lhe:
– Retornaremos, meu amigo Sédrik.
E ele nos disse:
– Ide, meus filhos, procurai ver pelos olhos da razão e encontrai satisfação nesta vida.
Deixamos a casa do nosso amigo, voltamos para o cais, pegamos a canoa e, durante a
travessia, Helen me perguntou de forma tensa e com o olhar assustado:
– Por que temos que nos separar? Por que Sédrik nos falou aquelas coisas que eu não
compreendi? Parecia que vocês já se conheciam há muito tempo e que eu fui o meio para
você chegar até ele. Explique-me, por favor!
Naquele momento, eu não tinha palavras, apenas abracei-a e disse-lhe:
– Eu nunca te deixarei.
Quando a canoa chegou ao cais daquele vilarejo, saímos e começamos a caminhar
para o ponto de ônibus, sem falar palavra. Ao chegarmos à metade daquela rua, fomos
despertados por gritos – alguém pedia socorro. Corremos para tentar ajudar. Ao nos
aproximarmos, presenciamos um homem de estatura gigantesca com uma vara na mão,
torturando, açoitando um rapaz; aos gritos expressava palavras torpes:
– Você merece ser morto, verme miserável! Seu viciado inútil!
Diante daquela cena, não me contive. Na tentativa de ajudar aquele rapaz, segurei o
braço de seu agressor para evitar mais um açoite. Este arremessou-me para longe. Helen me
levantou e, chorando, pediu-me para irmos embora. Falei que não podia deixar aquele rapaz
continuar sendo espancado. Persisti na tentativa de deter a agressividade daquele ser
impiedoso. Implorei para que parasse. Ele, então, voltou-se para mim, perguntando o que
eu tinha a ver com aquele miserável viciado. Sem conseguir detê-lo, fiz-lhe uma proposta:
– O que tu queres para deixá-lo em paz?
– Ele me respondeu com agressividade:
– O que tens para me convencer a parar de espancar esta inútil criatura?
Por impulso, abri a mochila, mas só havia ali a taça, da qual havia prometido nunca
me separar. Tomei-a, mas fiquei num impasse: se entregava ou não. Enquanto isso, o rapaz
gritava de dor. Eu, quase sem voz, lhe disse:
– Só tenho esta taça.
– Não é muito! – respondeu o agressor com risos sarcásticos, e continuou: – mas me
servirá para enchê-la de vinho e para lembrar de ti, um jovem estúpido que trocou seu único
bem por um viciado inútil.
No momento em que ele parou de espancá-lo e o deixou, aproximamo-nos do jovem e
tentamos levantá-lo, questionando-o:
– Onde moras?
Chorando, ele só dizia que não conseguia andar. Abracei-o de um lado e Helen do
outro. E começamos a conduzi-lo pelas ruas que ele nos indicava. Ao chegarmos em frente
a sua casa, um homem de aparência madura veio ao nosso encontro, com o olhar assustado:
– Meu filho, o que fizeram contigo?
O jovem em profundo desespero, respondeu-lhe:
– Pai, alguém me espancou; açoitou-me.
Seu pai o abraçou, dizendo-lhe:
– Filho, eu fiz tudo por ti. Dei educação, amor e tudo que estava ao meu alcance.
Agora sofro muito por saber que tu és um dependente de drogas.
Voltando-se para nós, agradecendo. Ajudamos a levar o rapaz para dentro da casa e
este nos disse:
– Não tenho como vos agradecer, mas vos darei um caderno onde anoto os meus
delírios e as minhas alucinações; quem sabe, um dia não irão ajudá-los!
Seu pai, então, começou a falar, demonstrando profundo desgosto:
– Luto tanto para curar meu filho do vício!
Naquele momento, o jovem, chorando, levantou-se e rasgou a camisa gritando:
– O que é o vício senão os nossos próprios desejos? E o que é o desejo senão a força
que empurra a nossa continuação? Eu só existo, meu pai, porque um dia tu desejaste
primeiro. E tu só existes porque alguém desejou antes de ti.
Apontando para nós, ele continuou:
– O que é o vício senão desejar o olhar, o sorriso e o corpo da mulher que vós amais;
ela é viciada em estar presa aos vossos braços? O que é o pecado senão átomos viciados por
si mesmos que se desejam, dando assim origem às moléculas – princípio de nossa
existência física? Por favor, não me condeneis! Ajudai-me a encontrar a luz em meio às
noites turbulentas e frias de minhas alucinações.
Assim, ele inclinou a face e, lentamente, se ajoelhou. Seu pai ajoelhou-se ao seu lado,
abraçando-o. Enquanto nós, tensos, observávamos. Helen me abraçou, segurando o caderno
em uma das mãos. Retiramo-nos e, em passos lentos, trilhamos o caminho que nos levaria
ao ponto de ônibus.
Capítulo III

Era noite, eu estava sentado num canto do quarto, lendo anotações feitas no caderno
que me fora entregue por aquele rapaz, que muito me ensinou. Folheava-o, quando me
deparei com um de seus profundos pensamentos: “Quero acreditar que irei acordar amanhã
e as nuvens negras que pairam sobre minha cabeça não mais existirão; e amanhã será um
novo dia, porque ainda pinto dentro de mim, na tela dos meus sentimentos, um coração
abstrato, embriagado de paixão pela vida. Lúcido, caminho dentro da noite, em meio à
escuridão dos inconscientes, buscando encontrar, entre densas neblinas, a fonte de água
límpida, para saciar a sede dos meus pesadelos, na água viva dos sonhos de Deus”. Ao
terminar de ler o pensamento, lembrei-me das palavras do mestre Sédrik, que em mim
ficaram guardadas: “A minha missão é encontrar a Luz em meio à escuridão”. Pude
observar, neste pensamento, a ansiedade da busca e a necessidade de encontrar a Luz. Eu
acredito que esta é a razão primária de todo ser: encontrar a Luz em meio à escuridão de
sua consciência. Este é o caminho que arduamente todos nós temos que trilhar: tocar a
infinita cortina escura de nossa cegueira e rasgá-la para ver de outro lado, dentro de nós
mesmos, o clarão da Luz que nos leva à eternidade. Passaram-se sete meses após ter o
privilégio de conhecer um ser tão notável como Sédrik. Aprendi a ver valores nas coisas
simples e construir personalidade edificada numa filosofia de vida. Passei a me relacionar
de maneira mais intensa comigo mesmo. Abri portas dentro de mim e naveguei num
profundo sentimento. Lá, encontrei liberdade para observar e aprender a dar o melhor de
mim a cada dia ou, pelo menos, tentar tornar-me melhor. Voltei a folhear o caderno,
parando em outro pensamento que me chamou a atenção: “Sou matéria lançada ao fogo;
sou fumaça, apenas fumaça; folha, a natureza me esculpiu com sentimentos, formas e cores;
o tempo me queima e tornar-me-ei cinzas; refletirei, na fumaça, a força que eleva a minha
imaginação. Estou em meio da noite e não há lua nem estrelas; só vejo o sol conspirando,
com a escuridão, o nascimento de um novo dia. Eu, um simples mortal, receio cair ao chão
e acordar, no outro dia, temendo a lucidez que me cobra a lógica e a razão. Que razão? A
vida? Eu preciso de uma razão para viver.” E, naquele momento, ouvi os galos cantarem e
percebi que já era muito tarde, dirigi-me ao meu quarto, deitei-me sobre as almofadas e
adormeci segurando o caderno. Envolvi-me em um sonho, no qual eu estava numa
carruagem em companhia de dois homens com vestes brancas, tendo suas cabeças envoltas
por capuzes. Um deles estirou-me uma das mãos, passando-me um manuscrito. Enquanto
observava vilarejos e planícies por onde passávamos, numa carruagem imprimindo bastante
velocidade, percebi que me encontrava num século por volta da Idade Média e que também
usava túnicas. Ao chegarmos ao nosso destino, pude observar que era um mosteiro. Dois
monges aproximaram-se e nos saudaram com gestos de reverência. Convidaram-nos a
entrar. Caminhamos por um longo corredor iluminado por tochas. Ao chegarmos a uma
grande porta, encontramos outro monge: um guardião, que nos pediu para pronunciar a
palavra secreta. Um dos monges, que me acompanhava, pronunciou enigmática palavra – a
qual não posso revelar. Aquela grande porta abriu-se e adentramos um grande salão, onde
muitos monges aguardavam o início de um evento. Sentando-me com aqueles que me
acompanhavam, pude observar a sombria claridade das luzes das tochas, dispostas em
lugares estratégicos. Soou, então, o gongo e entrou no salão um monge subindo a um lugar
de destaque; tinha nas mãos um manuscrito, que desenrolou e começou a ler em voz alta:
“Meus caminhos não são vossos caminhos; meus pensamentos não são vossos
pensamentos; Deus é perfeito e nós somos uma cópia imperfeita”.
Dirigindo-se a uma tocha, apanhou-a e nos mostrou, dizendo:
– Há quanto tempo o fogo aquece nossos corpos e conforta nossas almas? Quem de
nós pode decifrar a sua fórmula? Os alquimistas levaram metais inferiores várias vezes ao
fogo, em suas experiências, com o sonho de transformá-los na quinta essência – o ouro. O
Cosmo, alquimista da vida, nos tem levado ao fogo das várias existências para transformar-
nos, não no amor, mas na própria essência.
E, mais uma vez reverenciando-nos, assentou-se em meio aos outros monges.
Naquele momento, alguém me convidou, acenando. De posse dos manuscritos, dirigi-me à
parte de destaque do salão. Saudando a todos, abri um dos manuscritos e comecei a ler: “A
clausura condena, o amor liberta. Subestimei os meus desejos e me enclausurei, negando-
me a compartilhar as minhas carências com a carência dos lábios de uma mulher; ser que
sana o vazio desta existência. Neguei-me aos meus desejos. Somos, por acaso, fortes ou são
as nossas fraquezas que fortalecem a nossa continuação?”
De repente, uma grande mudança no sonho subestimou o tempo e o espaço. Já não
mais estava no mosteiro. Tudo aconteceu muito rápido. Encontrei-me numa planície em
meio a muitas árvores. Senti que era primavera, pela suavidade do clima. Caminhava,
trazendo em uma das mãos uma rosa. Logo notei, à distância, alguém aproximar-se. Ao
chegar mais perto, percebi que era Helen, com trajes que remontavam a séculos passados.
Logo estávamos próximos. Olhando em seus olhos, dei-lhe a rosa e, envolvendo-a num
cálido abraço, pude ouvir o murmurar de sua voz, clamando por meu corpo. Beijamo-nos
com muita ansiedade. Com carinho, comecei a desnudá-la. Eu era só sede e ela a fonte de
água límpida que saciaria meu ser sequioso pela vida. Beijando seu corpo, ultrapassei todos
os limites. Como abelha, acariciei as pétalas da flor do seu sexo, e molhado no néctar dos
seus desejos, percebi que já não éramos dois, mas apenas um. Éramos a fome e o próprio
saciar. Nós nos encaixávamos perfeitamente em nossas ansiedades. Na busca de saciar as
nossas carências, ouvi a sua voz trêmula e ofegante contar-me uma história:
– As tuas mãos, que acariciam a minha face, esculpirão no tempo a continuação do
nosso sentimento, subestimando a transformação dos vendavais do destino, que a tudo
separa.
E naquele momento começou a ventar muito forte. Uma ventania tão agressiva que
chegou a separar os nossos corpos, como se todos os acontecimentos de uma vida
estivessem resumidos apenas naquele nefasto vendaval. Tentamos segurar-nos pelas mãos.
Gritamos, mas nada pôde impedir a separação, pois tudo se separa. Num grito, acordei no
meio da noite:
– Não!...
Assustado, fiquei em claro, observando a madrugada passar. As lágrimas escorriam
pela minha face. Em dado momento, levantei-me sufocado, questionando-me com
perguntas que gritavam em meu ser, mas não havia respostas. Dirigi-me à porta; ao abri-la,
olhei para a escuridão da noite e comecei a caminhar a esmo. Fazia muito frio. O orvalho
molhava-me, e a brisa forte soprava em minha face, trazendo som suave e misterioso que
impregnava os meus ouvidos. Ao me dar conta, já estava bem distante de casa, quando fui
surpreendido por uma luz à distância, em área bastante isolada. Sem pensar, fui
aproximando-me e logo percebi que era uma fogueira. Um homem que se aquecia,
segurando uma caneca, me ofereceu um pouco de chá, passando a falar em seguida:
– Vem e senta-te ao lado da fogueira. Ela aquecerá o teu corpo e confortará a tua
alma.
Eu então lhe disse:
– Só um observador do céu noturno conhece o mistério do fogo e o enigma da noite.
Ele respondeu:
– Tudo que sei, aprendi com a noite.
– Com a noite?
– Ela é a minha amante, a minha única companhia. É preciso que te harmonizes com
seu silêncio. Sente sua quietude e ela te responderá a todas as tuas dúvidas; revelará todos
os segredos do mistério dos teus sonhos, pois a noite é eterna e nela estão registrados os
acontecimentos mais sutis desta existência. Nela estão marcadas as lágrimas dos esmagados
pela solidão; nela ecoam os gritos dos torturados que foram e são vítimas da ignorância.
Sim, nela eu também posso ouvir os gemidos de prazer daqueles que se amam e, sem
perceber, trilham caminhos da transformação. Nela ainda posso ver aqueles que estão em
claro, acariciados pela saudade da distância com que o destino os separou. Aprendi, com
seu silêncio, que tudo se separa. Fascino-me com a lua, sua nudez de luz, excita o uivo dos
lobos que contemplam a majestade do silêncio.
De repente, os primeiros raios de luz do dia começaram a surgir. A fogueira se apagou
em cinzas e o homem se levantou, apanhou a viola e uma grande mochila, dizendo-me:
– Tenho que ir, meu amigo, observar as ansiedades da coletividade em mais um dia.
Eu fiquei parado ali, sem conseguir me mexer, olhando a imensidão do céu, vivendo o
sentido das cores da luz do novo dia. Podia ver a face de Deus preparando mais um cenário
que formava sons e vida, como um artista que expande eterna aquarela nesta tela, palco da
nossa continuação, em que seremos atores de histórias que virão. As nossas lembranças são
filmes que nos ensinarão a folhear as páginas dos livros esquecidos, onde encontraremos
respostas para as incógnitas dos obstáculos que virão no amanhã. E o dia aconteceu. Depois
de contemplar o amanhecer, comecei a caminhar lentamente. Ao atravessar algumas ruas,
notei uma barraca de frutas. Aproximei-me, comprei uma maçã e passei a comê-la ao lado
da barraca. O barraqueiro, surpreendido pela presença matutina de um comprador faminto,
perguntou-me:
– Tu conheces a história de um rio que secou, depois que os moradores de um
povoado, à sua margem, o deixaram, em busca de novos sonhos na cidade grande?
Respondi-lhe que não, e perguntei-lhe:
– O que tem a ver a vida da nascente de um rio com aqueles que lhe cercavam?
O barraqueiro me disse:
– Ele transbordou várias vezes. Podíamos sentir que ele chorava e, quando a nascente
secou as suas lágrimas, a vida daquele rio se esgotou. Acredito que aqueles, que da pesca
saciavam sua fome, eram a razão da vida da nascente daquelas águas. Sinto-me como
aquele rio: sem vida. Pois é preciso ter uma razão, um objetivo para estar vivo e eu não sei
se estou. Meus amigos morreram; meus irmãos já não mais estão aqui. Eu sou apenas um
velho, sufocado pelas lembranças, semelhante àquele rio: sem razão para estar aqui. –
Olhando nos seus olhos abatidos, falei:
– Tu viveste até agora para saciar minha fome com esta maçã. E tantos outros que
aqui chegarem terão as tuas frutas; saciarão as suas almas vazias com a tua experiência e as
tuas lembranças.
Trêmulo, ele pegou em minhas mãos, dizendo:
– É bom poder estar vivo e ouvir estas palavras. Digo-te que aprendi muito, hoje.
Naquele momento, chegou uma criança para comprar frutas. Eu a coloquei no colo e
disse-lhe:
– Existe um velho homem que saciou a minha fome e ainda viverá muito para saciar a
tua e a de muitas outras pessoas.
E da face daquele homem, marcada pelo tempo, nasceu um sorriso. Deixando a
criança a sorrir, retirei-me lentamente. Sem notar, já caminhava há quase uma hora em
direção à montanha, denominada “Luzes da Cidade”, localizada a alguns quilômetros de
distância. Nesse ínterim, passaram-se alguns dias que eu encontrara o “observador
noturno”. Lembrei-me de vários acontecimentos e, principalmente, de que ele havia me
ensinado a escutar o silêncio da noite e dele poder obter respostas para meus sonhos e para
todas as minhas perguntas. Contemplei o amanhecer como se o tivesse visto pela primeira
vez e descobri o verdadeiro sentido da formação do cenário de um novo dia. Vi, com a
visão da observação, as cores e as formas do amanhecer. Sim, eu vi a face de Deus.
Caminhei em direção àquela montanha para observar o dia, esperar o pôr-do-sol e, em seu
crepúsculo, contemplar o nascer da noite para sentir a plenitude dos seus mistérios. Como
fazia muito calor, retirei a camisa e amarrei-a na cintura. Estava com sede, com muita sede.
Por sorte, avistei de longe um riacho que ficava fora da estrada. Desci um pequeno
despenhadeiro e atirei-me naquelas águas cristalinas que ali estavam, como um presente do
Cosmo, sem me importar que molhassem todas as minhas vestes. Mergulhei minhas mãos e
bebi, saciando, assim, a minha sede. Agradeci ao Deus do Universo por aquela nascente ter
rebentado o solo e brotado esse riacho, com a única razão: servir. Naquele instante, um sutil
pensamento invadiu-me, deixando-me paralisado a observar as águas do riacho que, como
um espelho, o seu brilho refletia a imensidão dos céus. Lembrei-me então das palavras do
mestre Jesus: “Eu sou a água da vida e aquele que beber de mim nunca mais terá sede”. De
repente, fui despertado por um barulho. Era uma carroça que ia passando na estrada
imprimindo grande velocidade. Depois de algum tempo, ouvi o som de um tombo que
chamou a minha atenção. Subi correndo a encosta em meio aos arbustos do despenhadeiro.
Chegando à estrada, vi uma carroça sem uma das rodas e quase tombada, havia um homem
ao seu lado tentando erguê-la. Ao ver-me, fez sinais de forma apreensiva. Notando seu
desespero, corri em sua direção. Ele me falou:
– Jovem rapaz, por Deus, ajude-me!
Sem hesitar, passei a ajudá-lo. Apanhamos a roda que se havia soltado. Em seguida,
começamos a colocá-la no eixo com muita dificuldade, conseguindo consertá-la. E ele me
disse:
– Minha mulher está grávida. Eu a estou levando para o acampamento de sua família,
em uma fazenda muito distante.
Logo notei pelo seu sotaque, que ele era cigano. Subindo na carroça apressadamente,
ele falou-me que sua esposa daria à luz naquele dia. Por esse motivo, deveria apressar-se,
pois a sua primeira mulher morreu de parto e ele temia que o mesmo viesse a acontecer
com a sua nova companheira. Desejei-lhe, então, boa sorte. Ele prosseguiu sua viagem e eu
continuei a minha solitária caminhada. Por volta de quinhentos metros de distância, a
carroça parou. Aproximei-me rapidamente e o cigano, com a expressão tensa, desceu da
carroça desesperado e falou-me:
– É inacreditável, meu amigo. A roda deu um grande estalo. Tenho que tentar
consertá-la novamente.
Naquele momento, ouvimos o gemido de sua esposa. Imediatamente ele aproximou-
se dela, notou que as dores aumentavam e que ela já estava entrando em trabalho de parto.
Assustado, ele voltou-se para mim:
– Ajude-me! Ela não pode ir mais longe e pode vir a ter a criança aqui mesmo.
Atônito, perguntei-lhe em que poderia ajudar.
– Consiga água neste caldeirão, enquanto apanho lenha para acender uma fogueira.
Enquanto a água aquecia, os gemidos e os gritos daquela jovem mulher aumentavam.
Ele, desesperado, me chamou:
– Venha, entre na carroça. Iremos precisar de sua ajuda, pois já deve estar chegando a
hora.
Olhei para a face agonizante daquela mulher, quando me perguntou:
– Quem és tu?
– Sou um amigo. Estou aqui para ajudá-los. Nós vamos conseguir.
Ela, então, segurou minha mão com firmeza, enquanto seus gritos ecoavam,
demonstrando-se fragilizada pelas dores. Enquanto isso, seu marido se preparou para fazer
o parto, que logo se iniciou. Segurei-a pelos ombros, enquanto ela agarrou-se com muita
força em meus braços, procurando seguir o ritmo das contrações. Naquele momento, eu
tentava passar-lhe toda a energia. Logo, ouvi o grito daquele que se encontrava dividido
pela tensão e emoção, no momento da chegada do seu rebento:
– Está nascendo!
E da face daquela mulher escorreram lágrimas que transbordaram dos seus olhos. Seu
rosto, contraído de dor, logo se desfez num sorriso, ao ver aquele ser tão esperado nas mãos
do pai. Com leves palmadas, ele tentou despertá-lo para a vida, mas, sem conseguir,
começou a sua aflição. A mãe, ao perceber que seu filho não reagia, passou a chorar de
forma desesperadora. Não sabendo o que fazer, fui tomado de pavor. Por intuição, tomei a
criança nos braços levando imediatamente os lábios às suas narinas, soprando-as, sem
poder conter minhas lágrimas, que molhavam toda sua face. Naquele momento, um choro
forte rebentou do seu ser, rompendo o silêncio de nossas angústias, em um grito para a
vida. Envolvido pela emoção daquele momento, entreguei a criança nas mãos do pai que,
tomado por lágrimas, ergueu-a para o alto, dizendo:
– Este é meu filho! A minha continuação!
Subitamente, invadiu-me a lembrança das palavras do monge que esteve em meu
sonho: “As fraquezas dos nossos desejos fortalecem a nossa continuação”. Enquanto isso, o
pai preparava a criança, entregando-a à mãe que, ansiosa, esperava-a para acolhê-la em seus
braços. Em seguida, amamentou-a, saciando assim, sua primeira necessidade. Era evidente
o seu sorriso e o seu olhar de satisfação por estar cumprindo sua missão: ser mulher e
tornar-se o portal cósmico desta existência. Aquele homem colocou uma das mãos no meu
ombro, fitando-me, com os olhos brilhando de satisfação, enquanto falava:
– Reforçaremos a roda da carroça e você virá conosco, pois faço questão que
compartilhe comigo de um vinho fresco que nos espera no acampamento.
Após ter consertado a carroça, partimos estrada a fora. Percorremos quase todo o
caminho sem palavras. De repente, ele quebrou o silêncio, dizendo:
– Senti medo de que os vendavais da vida separassem, de mim, a mulher que mais
amo, e este filho que é uma dádiva de Deus.
Com leve sorriso, acrescentou:
– Nessa estrada da vida há muitos mistérios. Na noite anterior tive um sonho, no qual
encontrei na estrada um monge que ajudou minha mulher a dar à luz e, também, soprou nas
narinas da criança, despertando-a para a vida. Acredito que você, meu amigo, não é um
monge, mas é alguém que Deus enviou para ajudar-nos.
E complementou:
– A vida é mesmo um grande mistério!
Já perto do acampamento, aproximaram-se de nós dois homens montados a cavalo.
Ao chegarem até a carroça, um deles perguntou:
– Quem é o estranho que está contigo?
O cigano respondeu:
– É um amigo. Vão e preparem aquele vinho fresco, pois nasceu mais um homem em
nosso povo.
Os dois ciganos saíram em disparada gritando de alegria. E ao entrarmos no
acampamento, fomos recebidos com festa. Aquele povo de costume estranho me
cumprimentava cheio de alegria. Um deles se aproximou de nós com canecas
transbordando de vinho e nos serviu, dizendo:
– Brindemos o nascimento de teu filho, Nicolas.
Com a caneca cheia, Nicolas a ergueu em um brinde a mim, dizendo:
– Este rapaz me ajudou em um momento difícil. Salvou meu filho. Ele agora é um
irmão entre nosso povo e será sempre bem-vindo em nosso meio.
Um deles gritou:
– Brindemos à vida!
E todos gritaram, num coro eufórico:
– Viva! Viva! Viva!...
Nicolas convidou-me até sua barraca, ofereceu-me algumas frutas, passas e mel,
passando-me a contar a sua história. Logo descobri que ele era o líder de seu povo. Depois
de ouvi-lo atentamente, levantei-me e disse-lhe:
– Gostaria de ficar mais tempo contigo e com teu povo, mas tenho que ir.
Nicolas colocou as mãos nos meus ombros:
– Não sei qual o teu destino, mas te desejo boa sorte e te dou um dos meus melhores
cavalos para que sigas a tua caminhada.
Saímos a caminhar pelo acampamento, ele me mostrou os seus cultivos e suas
criações, quando se aproximou de nós um velho, com um cajado, que pegou em minha
mão, dizendo:
– Apressa-te, pois logo o sol começará a se pôr e a montanha fica um pouco distante.
Assustado, questionei-o:
– Como sabes que estou indo para a montanha contemplar o pôr-do-sol?
O velho me respondeu:
– Quem aprende a linguagem do silêncio da noite, nunca mais é o mesmo. Aquele que
nasceu hoje em nosso povo foi batizado com tuas lágrimas, pois ele veio para libertar essa
gente da clausura da inconsciência, trazendo no futuro, uma visão maior. Quanto a teus
sonhos não são simples sonhos; são lampejos de tuas vidas passadas. O Cosmo, eterno
alquimista desta existência, nos dosou com a porção certa, no tempo e espaço, para que nos
encontrássemos.
Sem poder conter as lágrimas, ele me abraçou, dizendo:
– Acompanhar-te-ei até a montanha.
Despedi-me de Nicolas e de seu povo. E cavalgamos em direção ao pôr-do-sol.
Capítulo IV

Passaram-se algumas horas numa cavalgada sem descanso e, finalmente, atingimos o


topo da montanha. Desmontamos dos cavalos e os levamos próximo a uma fonte, onde
retiramos as celas e os deixamos livres, em meio às árvores. Caminhei então, em direção
aos limites da montanha, enquanto aquele que me acompanhava tomou caminho oposto,
sumindo entre as árvores. Subi numa pedra, de onde pude ver o clarão das luzes da cidade,
e fiquei a observar o entardecer, em sua aquarela, a ocultar-se em meio às cores fortes,
derivadas do crepúsculo vespertino. O vento soprava forte, tocando-me e imprimindo as
digitais daquele momento em minha consciência. Tomado pela angústia que lacrava o meu
peito, ajoelhei-me, ergui os braços ao vazio da imensidão em um grito:
– Deus! Responde-me!
Mas só ouvi a minha voz ecoar distante, repetindo a minha palavra:
– Deus! Encontro-me e me perco em ti. Quem sou eu em meio a toda esta enigmática
existência?
Mas não ouvi resposta; apenas o silêncio que conspirava com a noite, zombando da
minha angústia. Curvando-me sobre a pedra, passei a autoquestionar-me: “Quem sou eu
para ouvir de ti uma resposta; senti a tua presença no nascimento daquela criança que tomei
nos braços e, com o ar dos meus pulmões, soprei suas narinas despertando-a para a vida!
Senti a tua essência e infinita existência nos lugares da eternidade em que me levaste em
sonhos. Que incrédulo que sou!” Naquele momento, uma mão tocou em meu ombro e uma
voz calma falou-me:
– Levanta-te e me acompanha.
Eu me assustei e notei ser aquele que me acompanhou até a montanha. Dei-lhe uma
das mãos e desci da pedra, fitando sua face, quando ele me disse:
– Presenciei a tua angústia. Vem, acompanha-me!
O segui em meio às árvores.
Depois de caminharmos por algum tempo entre a vegetação rasteira e as pedras
espalhadas pelas trilhas, avistei uma gruta. Na sua entrada vi um clarão que rompia a noite,
facilitando a nossa visão. Entramos e começamos a percorrer um longo corredor de pedras,
que minava água de suas paredes rochosas. O brilho daquela luz ia tornando-se cada vez
mais intenso e, seguindo-a, chegamos a um dos cômodos daquela caverna, onde fui
surpreendido por um cenário que se perdia no tempo. Cenário aquele que subestimava até
mesmo o tempo. Fiquei parado por alguns minutos, observando cada detalhe: uma fogueira
num canto aquecia todo o ambiente; três tochas acesas, posicionadas em pontos
estratégicos; couros de diversos tipos, forrando o chão e paredes. Então, meu amigo
convidou-me a sentar, dizendo:
– Existe lugar melhor para quem quer viajar no tempo e descobrir-se?
Eu lhe respondi:
– Aqui tudo é silêncio e qualquer época do passado se aproxima como o agora.
– Então, senta-te e repousa, enquanto te sirvo uma porção de ervas e raízes que te
fortalecerão na longa viagem que irás percorrer entre o tempo e o espaço.
Eu o questionei:
– De que viagem tu falas?
Ele sorriu, serviu-me uma porção no prato esculpido em pedra, dizendo-me:
– Alimenta-te, filho!
Logo, ele sentou-se à minha frente, cruzou as pernas, curvou a face e fez um
agradecimento usando uma primitiva linguagem que fugia à minha compreensão. Em
seguida, começamos a nos saciar daquela porção, que tinha o sabor de raízes e ervas da
terra. Depois de levarmos algum tempo em silêncio, perguntei-lhe:
– Perdoe-me minha ignorância, mas quem és tu?
Olhou nos meus olhos e respondeu, sorrindo:
– Não sou nem mais, nem menos diferente de ti.
– Como podes me dizer que não és diferente de mim? Tu és um mestre ou um
eremita? Quanto a mim, já nem sei mais quem sou!
– Somos mestres!
– Que mestre por acaso eu sou, se não sei decifrar as minhas angústias e as cobranças
do meu silêncio?
Ele continuou:
– Todo Ser que aqui veio, foi ou está sendo cobrado para um dia se tornar mestre de si
mesmo.
– Qual é o teu nome?
– Há muito tempo que me chamam de Médriks, mas não é o meu nome que importa e
sim o que somos. Pois trazemos conosco grandioso dom: o dom da luz! Ele voltou-se,
pegou sua mochila de couro e apanhou um vasilhame de vidro contendo um líquido lilás.
Veio em minha direção e falou:
– As respostas para tuas angústias estão em teu passado, pois de lá é que vêm as
lembranças invasoras de teus sonhos, ao dormires nas noites frias dessa Existência.
Erguendo as mãos com o vasilhame, ele continuou:
– Bebe apenas uma dose!
Sem questionar, tomei de suas mãos o vasilhame e bebi o líquido. Tinha sabor de uma
essência. Em seguida acrescentou:
– Busca sempre elevar teus sentimentos. Pensa só no Amor!
Ao levantar-se, apanhou uma tocha flamejante e falou:
– Olha para o fogo e o leva para dentro do teu Ser. Observa-o e tenta conter a sua
forma, deixando que ele te guie a um tempo que ninguém jamais poderá voltar.
Ao ouvir essas palavras, perdi a consciência daquele lugar. Vi apenas o fogo, segui a
sua luz e adormeci. De repente, despertei em um confuso sonho que me levou a um
corredor imaginário. Acredito, então, que fiz uma viagem no tempo; um regresso de mim.
Logo, tudo ficou claro e me deparei com as chamas de uma fogueira, aos poucos, me
trazendo à lucidez. Passei a olhar em volta e notei que estava numa aldeia, em uma época a
qual não sei descrever. Num átimo, o silêncio daquele local fora quebrado com a entrada de
alguns homens e mulheres, que traziam em seus braços um homem enfermo. Uma das
mulheres pegou nas minhas vestes de maneira brusca, implorando-me aos prantos:
– Senhor, não deixes o meu marido morrer!
Eu lhe pedi calma. E ela, juntamente com as pessoas que a acompanhavam, deitou
aquele homem no chão, aos meus pés. O enfermo estendeu-me as mãos, implorando:
– Por Deus, cura-me desta dor!
Eu segurei sua mão e ajoelhei-me ao lado daquele homem agonizante. Impulsionei
minhas mãos sobre o seu peito e invoquei a Deus numa prece. Ao terminar, convidei-o a
levantar-se. Ele, sentindo que havia aliviado o seu sofrimento, abraçou-me dizendo:
– Como posso agradecer-te?
Respondi:
– Aliviando a dor e o sofrimento de outros.
– Ensina-me a fazer isto.
– É simples! Divide com os famintos um pouco do que tens em tua mesa. Dá também
de ti mesmo, confortando com palavras aqueles que se encontram tristes e desesperados,
pois eles estão precisando de consolo.
Logo, retirei-me daquela pequena cabana, com aquelas pessoas, e passei a
acompanhá-las pelas ruas. Passado algum tempo, um jovem se esbarrou em mim, agarrou-
se em um dos meus braços e falou-me:
– Por favor, vem comigo até a praia.
Eu, correndo, o acompanhei. E todo aquele povo também nos acompanhou. Passamos
por um declive que dava acesso à praia. Ao chegar perto da margem, notei homens e
mulheres discutindo entre si, de uma forma desesperada. Quando me aproximei, um deles
sacou uma faca e foi em direção a um homem que estava à sua frente. Rapidamente eu
corri, segurei o seu braço questionando-o:
– Por que tu queres tirar a vida deste homem?
Ele me respondeu:
– Ele tentou me roubar.
E aquele que estava sendo agredido, assustado, falou:
– Eu só queria dividir os peixes em partes iguais. O meu irmão está impossibilitado de
trabalhar e eu preciso lhe dar algo para que se alimente.
O outro homem, envolto em cólera, falou:
– Eu sou o dono do barco. Devo ficar com a maior parte e nada tenho a ver com teu
irmão.
Aproximei-me, então, daquele Ser de expressões agressivas e perguntei:
– E o que tem o mar a ver contigo? – Ele, confuso, respondeu:
– Nada.
– Mas mesmo assim, além de saciar a tua fome ele ainda te dá lucro.
Virei-me, apontando para o mar:
– Olha para aquelas águas. Elas estão ali para te servir e nada cobram de ti. Aprende
com elas, ingrato pescador. Não só atires a rede e extraias delas a vida que te sacia e que
mantém a tua vida, mas aprende também com elas a servir. Ou queres que o mar cobre de ti
da mesma forma que tu cobras, deste homem, estes peixes?
Ele olhou para minha face, respondendo:
– Não, senhor. Eu não quero que o mar cobre de mim, pois não tenho como lhe pagar,
a não ser com a minha vida. E eu não quero perdê-la.
– Então, aprende a amar também a vida de teu próximo.
Lentamente, me entregou a faca e curvou sua face. Observando-o, disse-lhe:
– Vai! Abraça o teu amigo e lhe pede perdão.
– Não! Ele jamais vai me perdoar.
Então, o outro pescador aproximou-se com a voz trêmula, dizendo:
– Eu te perdôo!
E os dois se abraçaram.
Naquele momento, eu os deixei e voltei a subir a colina em passos lentos, percorrendo
o caminho que me levaria até a aldeia, em total calmaria. Chegando ao centro da aldeia,
sentei-me num tronco em frente a um estábulo e passei a observar aquele povo em suas
ansiedades. Notei as mulheres tecendo cestos artesanais de palha para suas necessidades.
Os pescadores costuravam suas redes que se romperam, enfraquecidas de tanto serem
lançadas ao mar como instrumento de busca na manutenção da vida. Vi os cães que
ladravam, perambulando pelas ruas. Notei também o aguadeiro com seu animal cansado, e
seus barris cheios, cuja missão era levar água a algum lugar, em busca de saciar a sua sede
de lucro. Ao meu lado, ouvi o barulho do ferreiro, transformando ferro bruto em arado.
Aproximaram-se naquele instante algumas crianças da aldeia. Uma delas, com uma harpa
na mão, falou-me:
– Senhor, dá-me algo para comer e eu entoarei uma canção para ti.
Abri o alforje, apanhei um dos pães que trazia comigo e lhe dei. Ela repartiu com seus
irmãos. Eles sentaram-se ao meu lado e um deles me pediu:
– Senhor, conta-nos uma história!
– Sim, vou contar-vos uma história que começa assim: “Era uma vez, um mágico que
viajava pelas cidades e povoados fazendo mágicas e criando ilusões.”
Logo, um deles interrompeu:
– Ele tirava coelhos do chapéu e fazia pedras flutuarem?
– Sim, ele fazia tudo isso. Ele conseguiu ganhar muito dinheiro, ficou muito rico,
comprou um castelo e conquistou tudo o que sonhava. Um dia ele foi tomado por um
profundo sentimento de tristeza. Quando estava viajando em sua carruagem, passou em
frente a pomares e vinhedos, viu um lavrador cantando e cuidando da terra. Parou e ficou a
observá-lo. No outro dia, tornou a passar pela mesma estrada, que levava ao vinhedo, e
mais uma vez viu o lavrador cantando e sorrindo alegremente. Ele pediu ao cocheiro que
parasse a carruagem imediatamente. Desceu e dirigiu-se ao humilde lavrador que, surpreso,
lhe perguntou: “Em que posso servi-lo, grande mágico?” E ele respondeu: “Ensina-me, por
favor, a tua mágica.” E o lavrador disse: “Mas eu não sou mágico. Quem sou eu para
ensinar uma mágica ao grande mágico que tu és?” Daí, o mágico falou: “Sim, tu podes. Tu
podes me ensinar a mágica que te faz trabalhar, sorrir! Essa mágica que te dá tanta
satisfação.” Disse o lavrador: “Eu sou apenas um lavrador. Cuido do solo, do pomar e do
vinhedo. Semeio e colho, servindo ao solo e a quem dele se alimenta. A minha satisfação e
alegria é servir.” O mágico falou: “Mas não sou lavrador, não sei semear nem colher.” E o
lavrador continuou: “Vai! Torna-te um lavrador da Vida e semeia a paz.” E que o teu
próximo seja sempre o pomar. Assim, tu descobrirás a maior mágica: a satisfação de
servir!”
Após ter ouvido aquela história, o garoto tocou a harpa e falou:
– Vou servir-te com a minha melodia, agradecendo pelo pão que saciou a nossa fome
e pela tua história, como mágica para os nossos ouvidos.
E aquelas delicadas mãos exploraram as cordas da harpa, entoando melodia, fazendo-
me deleitar e contemplar as notas metafísicas nas quais um mortal, por alguns momentos,
se eterniza. Naquele instante, desabou uma angústia em meu Ser. Meu interior inundou-se
de medo, como se uma tempestade estivesse por vir e eu não tivesse onde me abrigar. E
aquela melodia chegara aos meus ouvidos de maneira suave. Despertei de meus
pensamentos quando dois homens, montados a cavalo, entraram no povoado de forma
brusca. Agressivamente, um deles desmontou, indo em direção à torre mais alta, fez soar o
sino atraindo todo o povo. O outro cavaleiro veio em minha direção, pegou minhas mãos e,
de modo aflito, recomendou que eu fugisse. Eu lhe pedi calma. Ele respirou fundo e
começou a falar:
– Por favor, senhor, fuja! Os cavaleiros inquisidores estão saqueando todas as aldeias
e queimando na fogueira todos os que são acusados de bruxaria e heresia. Fuja, senhor!
Pois eles estão a menos de duas horas daqui. Ouvimos rumores de que estão vindo para
queimar e destruir o Mosteiro da Luz. Eles condenam todos vós como hereges.
Depressa, ele me dá um dos cavalos, dizendo-me:
– Vai! Não pára! Leva este cavalo e não te preocupes. Pois muito mais tu tens feito
por nós. E não temos como te agradecer.
Naquele momento ele me abraçou e suas lágrimas eram visíveis. Todo o povo se
aproximou tentando proteger-me. Agradeci e pedi que procurassem abrigar-se em suas
casas, que ficassem em silêncio e orassem pela paz. Logo, montei o cavalo deixando o povo
em profunda angústia, que também assolou o meu peito, seguindo em disparada entre
bosques e serras. Ao me aproximar do mosteiro, notei que um dos irmãos cavalgava em
minha direção. A velocidade nos aproximava. Ao nos encontrarmos, paramos os cavalos,
seguramo-nos pelas mãos e ele me falou:
– É chegado o momento, Efraim.
Eu lhe disse:
– Sim, aqueles que nos condenam se aproximam. Vamos, o mestre nos espera.
Precisamos reunir-nos.
Em silêncio, partimos para o mosteiro. Ao chegarmos, os demais irmãos já nos
esperavam. Dava para notar o pesar nas suas faces. Ao atravessar o portão, soltamos os
animais e caminhamos em direção ao interior do mosteiro. Diante do mestre, curvamo-nos
aos seus pés e colocamo-nos à disposição da Luz. O mestre pegou as minhas mãos, olhou
em meus olhos, com suavidade na face, e disse:
– Temos pouco tempo. Pois as trevas persistem em sufocar a Luz. Segui-me!
E nós o acompanhamos em direção à câmara de meditação. Logo, juntamo-nos aos
outros. Depois de algum tempo em silêncio, uma aura azul clareou toda a sala. O mestre
levantou-se e falou com palavras que transmitiam paz e tranqüilidade:
– Aqui finalizamos a nossa missão. Nós nos separamos em corpo e manteremos em
espírito a Ordem da Luz. E tu, Efraim, foste o escolhido entre nós para proteger e entregar
os manuscritos em segurança, pois eles um dia servirão de antídoto para curar a escuridão
daqueles que buscam a Luz de uma nova consciência. Mas lembra-te, Efraim: tu serás
perseguido e te confortarás com os teus sentimentos, e serás torturado pela paixão, porque
tu conhecerás em tua carne a fraqueza que fortalece a continuação da humanidade. Tu
encontrarás a tua outra metade e conhecerás a separação de ti mesmo. Lembra de usar o
dom e o poder da tua consciência, para proteger os manuscritos e para servir. Quando estes
manuscritos estiverem em segurança, deixa que o destino seja o teu caminho.
Dizendo isto, o mestre apanhou um cálice e mandou que eu bebesse. Levei-o aos
lábios e senti o sabor da separação. Sem poder evitar as lágrimas, passei-o ao irmão que
estava ao lado. Ele tomou um pouco, passou para outro, e assim sucessivamente. O mestre
se aproximou de mim com os manuscritos num alforje e falou-me:
– Tu encontrarás um mercador e entregarás, em suas mãos, parte desses manuscritos.
Ele os levará ao seu destino, para que sejam guardados em segurança. Tu também
encontrarás uma caravana de viajantes que te dará abrigo e logo tu repassarás, a mãos
seguras, a outra parte dos manuscritos, que os levarão ao seu destino.
Todos nós nos levantamos e saudamos uns aos outros pela última vez. Logo, ouvimos
o barulho da violência dos nossos acusadores, na tentativa de arrombar os portais do
mosteiro. Um monge falou um tanto assustado:
– Cefas, perdoa a minha ignorância. Mas, por que nós não confundimos a mente
daqueles que nos perseguem? Por que não fazemos com que eles se confrontem entre si e
destruam a si próprios? O mestre virou-se e falou:
– Não se podem furar os olhos para conter as lágrimas, pois muitas serão as lágrimas
que molharão a face da humanidade. Só o tempo poderá retirar o véu da ignorância e só
assim existirá luz em suas consciências.
Deixamos os nossos irmãos em meditação, enquanto o mestre e eu seguimos o
caminho que nos levaria a um poço. Separei-me dele com muito pesar e desci o poço, o
qual me levaria a passagem secreta para fora do mosteiro.
Comecei a caminhar pela gruta e a minha angústia tornava-se cada vez mais forte em
meu peito. Sem pensar, retornei ao mosteiro e segui em disparada pelo corredor. Logo,
encontrei Cefas, no caminho que levava à câmara de meditação. Ao chegar até ele, abracei-
o e falei:
– Mestre!
Ele calou minha boca, dizendo:
– Todos somos mestres. Não sou maior ou menor que tu. Vimos para esta existência,
a fim de nos tornarmos mestres de nós mesmos. Este é o destino de todo Ser, não importa o
tempo. E quanto à nossa separação, não temos por que temer. Tudo que se separa no físico,
une-se em espírito. E o Cosmo irá dosar-nos na porção certa, no tempo e espaço, e assim
nos encontraremos novamente.
Segurei em suas mãos e lhe falei com forte expressão:
– Nós nos encontraremos de novo! Eu prometo!
Ele curvou a face e as lágrimas rolaram no seu rosto. Eu o deixei, segui em passos
rápidos em direção ao poço e comecei a travessia da gruta para fora do mosteiro, cuja saída
ficava próxima à margem de um rio. Ao sair, encontrei uma canoa oculta entre os arbustos.
Puxei-a apressadamente para o rio, peguei seus remos e comecei a remar. Já estava
anoitecendo e pude ver à distância, no alto da montanha, a fumaça e o fogo que consumia o
mosteiro. Com muito pesar, fui distanciando-me cada vez mais em um navegar solitário no
meio da noite. Depois de algumas horas, adormeci na canoa e o rio se encarregou de me
conduzir. Quando despertei, já estava amanhecendo e a canoa estava atracada entre galhos
de árvores, próxima a uma das margens do rio. A minha imagem abatida refletia naquelas
águas que pareciam um espelho. Tomando um pouco em minhas mãos, molhei minha face
e, em seguida, peguei o alforje com os manuscritos. Deixei a canoa e segui em uma árdua
caminhada. O dia estava chegando ao seu curso final. Não suportava mais a fome, a sede e
o cansaço, quando, à distância, notei a luz de uma fogueira e tentei aumentar os passos, mas
meus pés não mais obedeciam ao meu comando. Ao chegar perto, vi um homem sentado,
aquecendo-se em volta das chamas da fogueira e, ao seu lado, uma carruagem e alguns
cavalos. Ao notar a minha presença, ele apanhou uma arma, indagando-me:
– Quem vem de lá?
– Sou de paz!
– O que tu queres de mim?
– Apenas um pouco de comida e água para saciar minha fome e minha sede.
Observando-me, com olhar sombrio, ele voltou a falar:
– Aproxima-te, homem, que eu dividirei contigo um pouco da minha comida e do
meu vinho – e ficou tomado de espanto ao observar as minhas vestes: – O que faz um
monge aqui perdido por esses arredores e no meio da noite?
– É uma longa história meu amigo!
Sem hesitar, convidou-me a sentar ao lado da fogueira, servindo-me pão e vinho.
Enquanto comíamos e degustávamos de tão precioso vinho, ele começou a contar sua
história, como um solitário que precisa de alguém para conversar e, em meio à narrativa,
falou:
– Meu destino é o Tibet, pois lá serei iniciado. – Voltando-se para mim, ele
questionou: – E qual é o teu destino?
Fitando os seus olhos, eu lhe respondi:
– Dividirei contigo parte do meu destino.
Sorrindo, ele falou-me:
– Como podes dividir o teu destino comigo?
Eu apanhei os manuscritos no alforje e lhe disse:
– Meu destino é entregar em mãos seguras estes manuscritos. Fui predestinado a
encontrar-te aqui. Por isso, entrego parte desses manuscritos em tuas mãos.
Assustado, ele exclamou:
– Sonhei na noite passada que levava para o Tibet os pergaminhos do despertar de
uma nova consciência!
– Pois já os tens em tuas mãos. Protege-os como à tua própria vida! Esse é o teu
destino; essa é a tua missão.
– Sacrificarei a minha vida, se preciso for para proteger o que tu me confiaste. Mas
responde-me: ao chegar ao Tibet, o que eu direi ao guardião de manuscritos, quando o
encontrar? E o que ele me responderá?
– Dize apenas: “a renúncia é o encontrar do portal”. E ele te responderá: “o amor é o
adentrar o portal”. Estas são as palavras que tu irás pronunciar e que irás ouvir.
Sentamo-nos e ele disse:
– Fala-me de tua origem.
Fiquei em silêncio por alguns momentos, respondendo-lhe em seguida:
– Éramos quatorze monges, guardávamos o mistério da ciência da alma e fomos
condenados como hereges. Saquearam e queimaram o mosteiro, e meus treze irmãos foram
condenados à morte, sendo queimados na fogueira. Apenas eu escapei por uma única razão:
“proteger estes manuscritos”.
E o mercador, expressando tristeza no olhar:
– Por toda terra que percorri ouvi rumores a teu respeito. Comentários sobre
“fazedores de milagres” estão por toda parte. Sinto grande pesar em saber que o mosteiro
foi destruído e seus irmãos, queimados.
Percebemos que já era muito tarde. Deitei-me ao lado da fogueira e o mercador,
recostando-se ao lado da carruagem, começou a tocar uma flauta. Ouvindo aquela melodia,
tentei refugiar-me no silêncio do meu Ser e passei a meditar. Logo adormeci. Quando
despertei, o dia já estava no seu princípio e o amanhecer em busca de novos
acontecimentos. Levantamo-nos e preparamos a carruagem. E eu passei a acompanhar o
mercador em sua longa jornada. Já havíamos viajado horas, quando chegamos ao local
onde teríamos de separar-nos. Despedimo-nos e o mercador seguiu na sua caminhada ao
longo da estrada.
Eu tomei outro caminho, continuando minha árdua viagem por entre pedras e árvores,
que formavam longa trilha, levando-me a algum lugar do destino. Já fazia muito tempo que
meus pés eram surrados, mas ainda assim acariciava aquele solo onde minha sombra se
refletia, fazendo-me companhia. Senti sede. O cansaço se misturava com a vontade de
encontrar um pouco de água para refrescar a secura de minha garganta. Logo percebi, à
distância, a aproximação de um tropel de cavalos levantando bastante poeira.
Aproximaram-se muito rápido e logo estavam à minha volta. Eram cinco homens e um
deles me perguntou o que fazia naquela estrada distante. Respondi-lhe que era um andarilho
sem destino, que precisava de um pouco de água, pois estava me esvaindo em sede. Um
deles esboçou mórbida gargalhada e o outro apanhou um chicote desferindo um golpe em
minha face. Ambos açoitaram-me nas costas, com varas, e eu caí sem entender o porquê de
tanta violência. Apenas lhes pedira um pouco de água. Tentava erguer-me, mas eles
continuavam a açoitar-me. Quando estava prestes a perder a consciência, comecei a me
harmonizar com o vento e com todos os elementos naturais em volta de mim. Logo,
iniciou-se uma ventania que foi se tornando cada vez mais forte até formar um vendaval,
trazendo pavor àqueles que me agrediam. Como o vendaval tornava-se cada vez mais
intenso, eles começaram a correr de um lado para o outro, foi quando um deles caiu perto
de mim. Levantei-me e estirei um dos braços, abrindo a mão, e formou-se um furacão no ar,
cuja extremidade veio pairar na palma de minha mão, criando assim, um cenário
assustador, e aquele homem, caído aos meus pés, começou a clamar por misericórdia.
Então, voltei-me para ele, dizendo:
– Vai antes que o vento aumente a sua ira contra ti. O erro não está só em ti, pois a
maior doença da Humanidade é a ignorância.
O homem saiu em disparada. O vento foi cessando seu furor e eu caí sobre as pedras,
exausto. Depois de algum tempo, levantei-me e caminhei sem direção com passos
vacilantes em meio às árvores, caindo e levantando. Foi quando encontrei um rio e atirei-
me em sua margem para beber um pouco de água. Percebi não muito distante, a presença de
um servo que, ao notar-me, saiu em disparada. Então eu falei:
– Foge! Nós, homens, somos mais selvagens do que tu, que habitas no paraíso da
consciência.
Logo, senti alguém aproximar-se de mim e perdi os sentidos.
Capítulo V

Depois de algum tempo, olhei em minha volta e tudo pareceu muito confuso.
Naquele instante, percebi que me encontrava em uma tenda e notei no seu interior uma
decoração com luxuosos tapetes. Em meio a observação, senti a aproximação de uma
mulher, ao chegar mais perto, abriu-me um sorriso de contentamento por eu ter despertado,
servindo-me algo para beber:
– Beba um pouco desta porção, vai ajudar a recuperar-te.
Tomei das suas mãos aquele cálice e, enquanto bebia, olhei para a sua face, fitando
seus olhos e os mesmos brilhavam como um cristal lapidado pelo tempo, forçando-me a
questioná-la, de súbito:
– Quem és tu? E o que faço aqui nesta tenda?
Ela sorriu, indagando-me:
– E quanto a ti, estranho, que fizeste para ter sido tão açoitado assim?
Eu lhe respondi:
– Não é preciso fazer nada aos homens para que eles agridam, pois são como
escorpiões: o seu ódio semeia a dor; está em sua natureza. Eu acredito que só o tempo
poderá transformá-los. Quanto a mim, sou apenas um viajante procurando uma caravana,
para entregar algo que me foi confiado, e poder selar parte do meu destino.
Então ela tomou uma de minhas mãos, falando-me:
– O meu destino é ver o destino de outros. Deixe-me ver o mapa das linhas de tuas
mãos.
Enquanto segurava as minhas mãos, ela começou a tremer, dizendo:
– Eu vejo fogueiras e chamas; também vejo muitas perseguições e vejo mais...
Inclinando sua face inundada de lágrimas, ela olhou para mim, questionando:
– Dize-me quem tu és. E por que o meu destino está junto ao teu?
– Engana-te, mulher. Meu destino não está ligado a ninguém; só à minha missão.
Ao dizer isso, levantei-me apressadamente e apanhei o meu alforje que estava ao meu
lado. Ela também levantou-se. Naquele momento, toquei em sua face, enxuguei-lhe as
lágrimas dizendo-lhe que tinha de partir, pois os caminhos da minha vida já estavam
traçados, quando entrou alguém em total desespero, dizendo:
– Zanir, ajuda-me! Vem comigo, pois minha mãe está morrendo.
Ela saiu acompanhando o rapaz apressadamente. Eu os segui.
Ao sair do interior daquela tenda, percebi que estava em meio a um grande
acampamento, onde inúmeras pessoas demonstravam temor em suas faces.
Percebendo o desaparecimento de Zanir no meio do povo, comecei a procurá-la,
quando me deparei com uma mulher caída ao chão, cercada de muitas pessoas tentando
reanimá-la. Ao aproximar-me, vi Zanir tomar a mulher em seus braços. Ajoelhei-me perto
dela e pedi-lhe que a colocasse nos meus. Com olhares tensos, Zanir fitava-me. Já
segurando aquela mulher, pedi a Zanir que me trouxesse um pouco de água e logo alguém
me trouxe em um odre. Tomei-o em uma das mãos, ergui-o aos céus, em seguida molhei a
face da mulher enferma. Logo, ela começou a tossir despertando aos poucos. Ao terminar
de molhar todo o seu corpo, ela despertou completamente. Olhando-a nos olhos, disse-lhe:
– Quando o sol secar a água com que molhei a tua face e o teu corpo, tu estarás
curada.
Então, peguei em suas mãos e ajudei-a a levantar-se. Chorando, ela me agradeceu. Eu
a deixei, caminhando entre os olhares do povo que murmurava entre si, espantado com o
que havia presenciado. Zanir aproximou-se de mim, falando:
– Não te vás. Sou a vidente deste povo; eles precisam de mim e eu preciso conhecer o
teu dom de curar. Ensina-me!
– O dom não pertence a mim, mas à Vida. Esta é a ciência que um dia todos
dominarão.
– Fala-me deste raro conhecimento.
– Esta é a ciência da Alma... A renúncia de si mesmo é o caminho que leva ao seu
domínio.
– Por favor, peço-te que não vás, ensina-me a dominar este precioso dom e ajudar-te-
ei a ver o futuro, a prever as pragas que virão no amanhã.
– O futuro é como uma colheita. É preciso saber plantar agora, para colher amanhã. E
o meu amanhã está traçado na minha missão.
– Também se encontra traçado nos astros – ela fala. – E a caravana que tu buscas está
com o caminho entrelaçado com o do meu povo. Fica e a encontrarás.
Ela tomou as minhas mãos e eu, sem palavras, fiquei a olhá-la.
Passaram-se dias, semanas, meses... E eu aprendi os costumes e os hábitos daquele
povo que defendia uma única pátria: a Liberdade. Eram fugitivos das cercas que os
impediam de serem cidadãos de um só país e de uma só nação – buscadores que têm como
único destino serem totalmente livres. Igualmente, tornei-me um fugitivo condenado por
amar e por ter a liberdade como única razão na vida. A liberdade que tem tantas faces e
tantas expressões! O dia-a-dia com Zanir ensinou-me a ver a liberdade com a face da
simplicidade. Enquanto isso, eu lhe mostrava a beleza de ser livre, profundamente livre na
meditação. Com simplicidade, em um dia, ela me falou:
– Vem que te mostrarei as borboletas, pois nos campos, elas mostram o que é ser
realmente livre. Tu verás as cores com as quais o Universo pintou nas suas asas, sem
pincel, confundindo a imaginação dos artistas e inspirando poetas. E elas ainda voam! É o
universo falando da liberdade sem usar palavras.
Naquele momento, ela puxou-me pelo braço, apontou para o céu e disse:
– Vê os pássaros. Não sei quem são mais livres: eles ou os astros. Os astros me falam
do amanhã e no amanhã eu buscarei a liberdade. A coreografia do vôo dos pássaros me diz
que no amanhã poderemos voar. Eu imagino um dia poder tocar o céu e lá plantar uma
semente; uma semente de vida. E ser livre, subestimando até mesmo a imensidão.
Mais uma noite estava por vir como tantas outras que passei com aquele povo e,
enquanto retornávamos ao acampamento, Zanir me falava de quão especial seria aquela
noite:
– Hoje, a noite tentará cobrir a nudez da lua, na tentativa de ofuscar o seu corpo de
luz. O nosso povo irá cantar e dançar diante da fogueira para que nossos ritmos e o entoar
dos nossos cantos emanem expressão de liberdade para a Senhora da noite.
Surpreso, questionei-a na tentativa de encontrar esclarecimento para os preparativos
daqueles ritos tão enigmáticos. Logo, ela passou a explicar-me:
– Existe uma tradição herdada de nossos antepassados e que se tornou uma de nossas
crenças mais populares: nós não devemos deixar que a liberdade seja ofuscada, pois se um
dia um dos elementos da natureza perder a sua expressão de liberdade, todo o nosso povo
passará a viver em vão e não mais guardará o tesouro da liberdade, mas será escravo
simplesmente, sem nenhuma razão.
Naquele instante, segurei em seus braços, olhando dentro de seus olhos, como se eu
estivesse vendo toda a sua alma, dizendo-lhe:
– Toda esta crença é um labirinto e você se encontra em meio aos seus corredores.
Assustada, ela perguntou-me:
– Qual é a razão do labirinto?
– A razão é a de nos aprisionar e nos confundir.
– Não, a razão do labirinto é desafiar-nos a encontrar uma saída. Não notas que
estamos presos num labirinto e que adentramos o seu interior, assim que nos conhecemos?
E também não percebes que precisamos encontrar uma saída no labirinto de nós mesmos?
Não sentes que a razão maior do meu destino era a de cruzar com o teu, para vivermos com
liberdade o amor que Deus nos doou, mas que os homens, com suas leis, condenam e
chamam de pecado?
– Os meus caminhos não são iguais aos teus caminhos. Tu não entendes Zanir?
Voltando a face para mim, ela falou:
– Eu só entendo que somos semelhantes e que nossa busca é a liberdade.
Sem palavras, soltei os seus braços e ela seguiu caminhando em minha frente. Após
algum tempo, ela parou e virou-se falando com o olhar carregado de sentimento:
– Quando a noite tiver caído sobre nós, estarei te esperando ao lado da luz da
fogueira.
Após dizer isto, ela seguiu, deixando-me só com os meus conflitos, pois dentro de
mim uma razão me condenava enquanto a outra me excitava a querer viver a sua liberdade.
A noite se curvou sobre a terra, e ao chegar ao acampamento, percebi que aquele povo
estava preparando-se para dar início a uma festividade. Enquanto isso, dirigi-me até a tenda
e a adentrei, à procura de Zanir, mas não a encontrei. Apanhei uma fruta num cesto e saí
comendo enquanto a procurava. A noite já estava em seu ponto máximo, quando olhei para
o céu, vi a lua sendo tomada por um eclipse. Naquele instante, procurei compreender o
porquê das palavras enigmáticas de Zanir; percebi que ela se referia simplesmente a um
eclipse.
Por alguns minutos, fiquei a observar aquele fenômeno celeste e me perdi nas
palavras de Zanir falando-me da liberdade, tomando por empréstimo a inspiração daquele
fenômeno da lua que, por horas, levou-me a pensar: se não fossemos livres, que razão
haveria para querermos continuar pela espera do amanhã?
Continuei a procurá-la em meio ao povo. Chegando ao centro do acampamento
deparei-me com uma fogueira cujas chamas criavam uma coreografia de luz. À sua volta, o
povo dançava, tocava e cantava. O entoar dos cânticos deixava a todos hipnotizados
naquele ritmo que parecia até mesmo afetar a lua.
Ao ver Zanir, movimentando todo seu corpo, numa sedutora coreografia, atraiu a
minha atenção a ponto de sentir-me hipnotizado. Então ela veio em minha direção e,
quando me dei conta, já estava ao seu lado. Em meio àquele ritmo, ela pegou minhas mãos
e, com gestos, convidou-me a compartilhar dos seus movimentos ritmados, deixando-me
envolvido pela sua energia e expressão. Logo, eu estava bailando, segurando o seu corpo e
seguindo seu ritmo. Neste momento, não sabia se dançava ou se voava ao seu lado. Só sei
que estava com ela e nela eu via a liberdade ganhar forma, subestimando o tempo.
De repente, os ritmos pararam, todos ficaram em silêncio e ergueram suas faces para
o céu em direção à lua, que já estava livre, na sua nudez total. E, em meio àquele silêncio,
um ancião daquele povo ergueu a voz, dizendo:
– Enquanto um de nós for livre, dançará e cantará pela liberdade.
E todos gritaram:
– Liberdade! Liberdade!
Aos poucos, aquele povo começou a se afastar da fogueira. Zanir buscou-me,
convidando-me para fora do acampamento. Então, começamos a caminhar entre as árvores,
sem conseguirmos soltar as mãos e sem termos coragem para dizer uma só palavra. Depois
de algum tempo, Zanir arriscou-se a falar com voz trêmula:
– O que tu sentiste?
– Senti algo muito forte que ainda está em mim.
Sem percebermos, esbarramo-nos num tronco de árvore. Ela ia caindo quando
apressei-me na tentativa de segurá-la e acabamos por tombar ao chão. Em meio aos risos,
percebemos que os nossos lábios estavam muito próximos. Logo, surgiu um silêncio entre
nós, levando nossos olhos a se fitarem. Sem conseguirmos evitar, nossos lábios tocaram-se
num ardente beijo, em seguida me afastei um pouco e pedi-lhe perdão, pois não era minha
intenção. Ela respondeu-me:
– Eu não te perdoaria, se não me tivesses beijado.
Confuso, eu lhe disse:
– Vejo em ti caminhos que eu nunca trilhei.
– Tu vês trevas nesse caminho?
– Não! Não vejo trevas nesse caminho. Vejo trevas em trilhar por esse caminho e ter
que te deixar.
Ela se aproximou de mim olhando com ternura em meus olhos. Toquei em sua face,
falando-lhe:
– Zanir, o fogo de teus olhos me consome. Pulsa em meu Ser a lei de minha renúncia
que se confronta com a lei desta liberdade, fazendo vibrar o meu corpo quando estou diante
de ti.
– Por que tu te negas? Não vês que estás negando a mim e à nossa continuação?
– Deixar uma continuação de mim não está em minha missão de vida. Pois eu, Zanir,
enclausurei-me num mosteiro e só saí por uma única razão: a de pregar o amor e a paz.
– E o que estamos pregando aqui senão o amor? Pois te digo: esse amor só irá
continuar no Ser que der continuidade ao nosso amanhã, pregando a continuação da
profundidade de tua filosofia de vida e vivendo a simplicidade de minha liberdade. Este Ser
terá capacidade de até ver o futuro.
Afastei-me um pouco, ficando de costas para ela, que veio em minha direção
colocando uma das mãos em meu ombro, quando lhe falei:
– Zanir, os meus sonhos estão além dos meus desejos e do meu amor. A minha
missão está além do meu querer.
Foi quando ela me interrompeu, dizendo:
– Mas o amor maior tu só conhecerás quando conheceres o amor dos mortais. Deixa
que a lei que está além de todas – a lei da vida – nos conduza, pois, só assim, todas as leis
conspirarão para vivermos o que está em nosso ser, queimando as nossas almas: o amor.
Por alguns momentos ficamos em silêncio. Só prevalecia o som natural da floresta,
onde animais noturnos cultuavam a noite. Logo, as palavras forçaram-me a quebrar o
silêncio que estava entre nós:
– Zanir, em toda a minha vida fui preparado para renunciar às minhas ansiedades e
aos meus desejos, pois o corpo é o templo dos desejos, sendo a dor a realidade última.
Ao ouvir isto, Zanir afastou-se de mim e virou-se falando:
– Esta vida é para os fortes. Só consegue ser livre quem vai além de seus limites. É lá
que está a liberdade. Quanto a dor, sabe que é efeito da causa: a Vida. E tu sabes que a
nossa busca é superá-la.
Aproximei-me dela, coloquei as mãos sobre seus ombros e fitamo-nos com olhares
tensos, quando eu lhe falei:
– Compreenda-me! Preciso ficar só.
Logo a deixei, caminhando pela floresta, tentando achar algum sentido no conflito
que estava dentro de mim. As palavras de Zanir ecoavam em meu ser, quebrando o silêncio
da clausura de minha missão. As árvores, os arbustos, o vento e todos os elementos da
floresta pareciam falar a mesma linguagem de Zanir. Até mesmo a liberdade do morcego
não parecia ser mais tão livre diante da cobrança de liberdade sem limites. Naquele
momento, caí de joelhos curvando-me, buscando na meditação uma resposta. Mas, o
silêncio parecia querer devorar-me. Levantei-me e comecei a caminhar em direção ao rio,
pois precisava molhar a minha face. Ao chegar à margem, abaixei-me entre as pedras e
passei a me molhar. Ao erguer a cabeça, deparei-me com algo que congelou todo o meu
ser, estremecendo o meu corpo. A lua, naquele instante, parecia conspirar com a noite,
criando com sua luz um véu dourado sobre aquelas águas. A nudez do corpo de Zanir se
misturou com a cor dourada da lua, deixando-me perplexo, sem palavras. Então, ela ergueu
as mãos para o alto, convidando-me:
– Vem, pois as águas, sem nenhuma palavra, molham o meu corpo, falando-me de
liberdade. O vento, mestre da liberdade, sopra em meus ouvidos, acariciando o meu corpo e
dizendo que somos livres.
O céu e a imensidão da noite nos mostravam que tudo passa, pois tudo é a eternidade.
Zanir estirou os braços para mim, dizendo:
– Vem! Para que neste momento possamos conhecer a eternidade.
E sem pronunciar uma palavra, comecei a caminhar para dentro do rio. Era uma força
desconhecida conduzindo-me a té Zanir. Seu corpo nu, todo dourado, fazia pulsar dentro de
mim a vida, encontrando no seu corpo uma razão para a vida que eu desconhecia. Nossos
corpos se encontraram. Entregamo-nos em um sentimento e desejo que nos tornou apenas
um. E sem limites, nos sentimos livres... Depois, deitamos na relva da margem do rio, onde
ficamos a contemplar a lua. Entre tantas coisas que conversamos, Zanir me questionou:
– Por que os monges se enclausuram?
Eu lhe respondi:
– Existe uma lenda sobre uma civilização que evoluiu em todos os sentidos e em
todas as áreas. Eles dominavam todas as coisas à sua volta. Não precisavam mais do som
das palavras para se comunicarem, pois usavam a mente, por meio de telepatia, mas eles
não conseguiram dominar a ansiedade dos seus desejos por suas companheiras. Achavam
que os seus desejos lhes impediam de atingir o cume de sua evolução. Resolveram, em um
conselho, superar-se, esvaziando-se dos seus desejos. Então, entregaram-se às suas
mulheres em dias e noites a fio para tentar saciar as suas carências sexuais. Muitos não
suportaram, esvaziaram-se e morreram. Os que sobreviveram, descobriram que tudo na
matéria é dor. E até mesmo o prazer do orgasmo arrebenta dentro de nós uma dor sutil e
viciosa, que tem como uma única razão: a continuação de nossa espécie. Eles se dividiram,
construíram mosteiros e se enclausuraram para tentar superar seus desejos, e assim
encontrar o verdadeiro prazer: o prazer da alma. Estava próximo o amanhecer, quando
Zanir e eu retornamos ao acampamento, aproveitando a claridade dos primeiros raios de um
novo dia. Percorremos todo aquele caminho de mãos dadas, entrelaçadas por uma força que
nos unia, testificando que a profundidade da liberdade está na simplicidade de ser livre,
deixando-me cativo e responsável por este sentimento que faz de nós, metades opostas,
tornar-nos uma unidade.
Ao chegarmos ao acampamento, deparamo-nos com a caravana que havia chegado
recentemente, e todos ali se preparavam para levantar acampamento. Notei que Zanir tinha
certa familiaridade com os recém-chegados, pois todos eles a abraçavam, cumprimentando-
a. Logo, ela me apresentou a todos. Um ancião de insólita aparência aproximou-se,
chamando minha atenção. Ele pegou em uma de minhas mãos, olhou-me profundamente
nos olhos e falou-me:
– Luz!
E eu lhe respondi:
– Há muita luz!
Enquanto isso, Zanir, tensa, nos observava. Ainda segurando a minha mão, o ancião
continuou:
– Em uma noite fria, enquanto dormia nas estradas, eu tive um sonho que encontraria
um homem com uma grande missão, e o sentido maior de sua missão seria entregue em
minhas mãos. E eu o reconheceria pelo brilho e pelo mistério que haveria nos seus olhos.
Então, eu o questionei:
– Onde o teu destino te levará?
– Até a Índia, onde serei preparado e lapidado como ouro que vai ao fogo para ser
refinado. E lá serei iniciado. Agora, convido-te a acompanhar-me até a tenda de Zanir.
Já no interior daquela tenda, enquanto Zanir nos servia frutas e vinho fresco, apanhei
o alforje que estava guardado no meio de suas tecelagens. Após algum tempo, em meio ao
degustar daquele raro vinho, o ancião começou a me contar a sua história; falou-me de seus
difíceis momentos e de suas alegrias, passando-nos força e sabedoria. Logo, eu também lhe
relatei todos os acontecimentos passados que me trouxeram até aquele exato momento.
Apanhando os manuscritos de dentro do meu alforje, entreguei-os aos seus cuidados,
enquanto ele me falava:
– Eu os protegerei como à minha própria vida.
– Tu sabes, no futuro, a fome e a sede de ouvir uma palavra que cure a alma serão
muito grandes. E esses manuscritos serão como bálsamo para úlceras da alma da
humanidade, e em tuas mãos confio esta missão.
Então, ele fitou-me com o olhar tenso, levantou-se e abraçou-me, falando com voz
trêmula, tomada por forte emoção: – A Luz não deixará que se apaguem as trilhas dos
passos daqueles que doaram as suas próprias vidas, para que a Luz da semente da sabedoria
alimentasse os sábios, que são e serão pontos de luz no amanhã. Naquele momento, alguém
gritou alertando que a caravana estava partindo. Ele abraçou Zanir, enquanto falava:
– Filha, nas linhas das mãos do destino há transformações e muitos vezes não
conseguimos perceber. Só te peço para tomares cuidado, pois nos caminhos por onde passei
havia rumores de que os inquisidores vinham para estas terras trazendo o fogo como
condenação.
Ela respondeu:
– Não te preocupes, pois amanhã partiremos para um lugar seguro.
Dizendo-lhe isso, Zanir o acompanhou até a caravana para despedir-se de seu povo
que já estava partindo. Enquanto isso, apanhei minhas vestes de monge. Foi quando meus
pensamentos levaram-me ao passado, deixando-me ver as trilhas daqueles que lutaram por
esta mesma missão: a missão de servir. Naquele instante, Zanir retornou à tenda e
encontrando-me com as vestes nas mãos, questionou-me:
– Tu ainda a vestirás ou deixarás de ser monge?
Eu lhe respondi:
– O monge nunca deixa de ser monge.
Estirei-lhe os braços, falando:
– Entrego estas vestes em tuas mãos. Nelas está registrada toda a minha vida e só a
você eu posso confiá-las. Pois minha alma despiu-se e, desnuda, vestiu-se com a tua
liberdade.
Zanir recebeu das minhas mãos aquelas vestes e curvou a cabeça com os olhos
úmidos de lágrimas. Eu me aproximei dela e a abracei. Os seus olhos envolveram-me,
dizendo:
– Vem comigo ao povoado mais próximo. Lá, nós venderemos tapetes e tecelagens ou
os trocaremos por alimentos, pois teremos que fazer uma longa viagem para outras terras.
Enquanto Zanir arrumava os tapetes e as tecelagens, fui pegar os cavalos e preparar a
carruagem. Arrumamos tudo e logo partimos. Fizemos longa viagem. No caminho,
contemplávamos a floresta e suas grandes árvores. Surpreendíamo-nos com cada animal,
cada pássaro que cruzava o nosso caminho. Em alguns momentos, Zanir me olhava com
brilho intenso nos olhos. Tudo mostrava ter uma grande unidade: Zanir, a floresta, os
pássaros e a sutileza de cada momento com que a vida nos presenteava. E eu estava ali,
conhecendo uma parte da vida que eu sabia que existia, mas que nunca tinha vivido.
Logo, lembrei-me das palavras do mestre Cefas, quando disse que, um dia, conheceria
a outra metade de mim. Também lembrei-me, com pesar, de quando ele me falou que eu
sentiria a dor da separação de mim mesmo. Os olhos de Zanir e a sua força faziam com que
estivéssemos tão próximos, a ponto de não acreditar e não aceitar que algo nesta vida
pudesse separar-nos.
Após árdua caminhada,percebemos estar chegando a um povoado e seguimos em
direção à feira. Ao chegar, começamos a retirar os tapetes e as tecelagens chamando a
atenção de todos que, por ali, circulavam. Zanir pegou algumas peças e dirigiu-se a outras
barracas oferecendo-as em troca de frutos. E eu falava com voz alta, chamando a atenção
daqueles que trafegavam, para comprar os tapetes e as tecelagens. As pessoas começaram a
comprar e a trocar por frutas, roupas, peças de couro e provisões necessárias para o nosso
sustento. E em meio àquela multidão que nos cercava, aproximou-se de mim uma garota
aparentando ter, aproximadamente, sete anos de idade, cujos olhos eram negros como a
noite e com um sorriso que chamou a minha atenção. Eu a convidei a aproximar-se e ela
veio até mim. Abaixei-me um pouco, perguntando-lhe:
– Aceitas uma fruta?
Ela balançou a cabeça com sinal afirmativo. Eu a tomei no colo e a levei até a
carruagem. Enquanto ela comia a fruta, perguntei-lhe o seu nome:
– Meu nome é Luz da Manhã, pois nasci nos primeiros raios da luz do dia.
Então eu lhe disse:
– Tu és tão bela quanto o teu nome.
Ela sorriu. Enquanto isso, eu vendia tapetes e tecelagens. Gesticulando com uma das
mãos, Luz da Manhã pediu que eu me agachasse, quando ela me falou, baixinho:
– Ontem à noite eu tive um sonho. Eu não quero contar a mais ninguém, só a você.
Sorrindo, falei-lhe:
– Então, conta-me!
– Sonhei que eu estava em uma floresta e vi uma rosa azul. Ela era a mais bela de
todas as rosas daquela floresta. Mas a floresta foi invadida por alguns homens maus e eles
com suas espadas, golpearam a rosa, cortando o seu talo e ela tombou ao solo, sem vida. O
homem que cuidava dela correu em sua direção e a apanhou do chão, chorando, pois aquela
rosa era a única razão de sua vida. Os homens maus o pegaram e o lançaram ao fogo. Ele
morreu. Então houve uma grande tristeza na floresta. Tudo que era livre ficou triste, porque
aquela rosa azul simbolizava a liberdade.
Quando ela terminou de contar o sonho, escorriam lágrimas de seus olhos. Ela me
pediu para não contar a ninguém. Naquele momento, surgiu uma mulher, chamando-a:
– Luz, onde estás? O que fazes nessa carroça de estranhos? – ela respondeu:
– Não são estranhos, mamãe; são meus amigos. O moço me deu frutas e eu lhe contei
o meu sonho.
A mulher a apanhou, dizendo-lhe:
– Não contes teus sonhos a ninguém, filha!
Agradeceu-me pela fruta, e logo mãe e filha somem em meio do povo. Eu tentei
pará-las, mas não me derão atenção. Tomado de pavor e assustado com o sonho contado
pela garota, saí no meio da multidão à procura de Zanir e logo a encontrei, lendo a mão de
uma mulher. Peguei-a pelo braço, dizendo-lhe:
– Por favor, vem comigo!
– Espera um pouco. Não vês que estou olhando o futuro desta senhora?
Eu insisti:
– Vem comigo, agora, pois é justamente sobre o futuro que quero te falar.
Eu a puxei pelo braço, mas a mulher, a qual ela estava lendo a mão, segurou-a e
pediu-lhe para falar sobre o amanhã. E antes de Zanir lhe dizer algo, eu lhe falei:
– O amanhã será devorado pelas ansiedades do agora!
Saí com Zanir em direção à carruagem. Apanhamos os restantes tapetes e tecelagens,
os mantimentos que havíamos trocado, e retornamos com a carruagem de volta ao
acampamento.
No meio do caminho, Zanir, com o olhar e a voz demonstrando aflição, questionou-
me querendo saber o porquê de tanta pressa, o que estava acontecendo. Então passei a
contar-lhe sobre a garota e sobre o seu sonho. Ela me pediu para parar a carruagem. Tomou
uma das minhas mãos, juntou com as suas e ficou a olhar as linhas das palmas de nossas
mãos. Não conseguindo conter-se, ela começou a chorar, dizendo que aquilo não poderia
acontecer. Com desespero no olhar, falou-me:
– Efraim, não deixes que isso aconteça!
Sem conseguir mais conter-me, eu a abracei e, chorando, disse-lhe:
– Não tenhas medo, pois não vou deixar que nada nos separe; nem a vida e nem
mesmo a morte irão separar-nos.
Seguimos viagem pela estrada. O vento batia em nossos rostos secando as lágrimas de
nossas faces que insistiam em escorrer. Ao chegarmos ao acampamento, começamos a
desarmar a tenda e Zanir se deu conta de que as minhas vestes de monge haviam sumido.
Procuramos na barraca, mas não a encontramos. Ela percebeu que seus aparatos de
astrologia também haviam desaparecido. Desesperados, saímos da tenda e quando
erguemos nossas cabeças, estavam à nossa frente alguns homens montados a cavalo. Um
deles tinha as minhas vestes de monge, atravessadas em sua lança; outro jogou aos nossos
pés os aparatos de astrologia de Zanir. Eu peguei firmemente numa das mãos de Zanir,
puxei-a e saímos correndo pela floresta. Atrás de nós, vinham os cavaleiros em seus cavalos
que galopavam com fúria. Zanir chorava. Eu já não temia mais pela minha vida e sim pela
dela. Em meio a essa fuga desesperada, senti Zanir tombar ao chão, golpeada pela frieza do
cavaleiro que se aproximava. Caí sobre Zanir, abraçando-a. Em meio aos gritos, saíram
palavras desesperadas de meu peito:
– Não vás! Não morras!
Ainda restando-lhe algumas forças, ela colocou as mãos em minha face e falou-me
com a voz trêmula e baixa:
– O aço que rompe a minha vida e cala a minha voz não impedirá o amanhã, pois o
amanhã pertence à liberdade e eu estarei contigo.
Após pronunciar tais palavras, sua face curvou-se sobre o seu corpo. Eu a apertei em
meu peito, não acreditando no que estava acontecendo. De repente, senti duas cordas, uma
entrelaçou o meu pescoço e outra, o meio do corpo. Fui puxado pela agressividade dos
cavalos em meio a pedras, árvores e arbustos daquela floresta. Tocos de árvores rasgaram a
minha boca, pedras cortaram a minha pele. Subitamente, os cavaleiros pararam os seus
cavalos e um deles se aproximou com uma tocha em uma das mãos. Um outro ergueu a
minha cabeça, puxando-me pelos cabelos. E a tocha fora trazida até a minha face com uma
chama flamejante sobre os meus olhos. Quando eles começaram a queimá-la, perdi a
consciência e comecei a seguir a luz de um fogo que me guiava no tempo e espaço,
levando-me a percorrer uma trajetória entre o sonho e a realidade. Despertei-me numa
caverna, olhando para uma tocha que estava na parede. Quando tentei levantar-me
desesperadamente, um homem que estava ao meu lado, falou-me:
– Calma, filho! Tu estás de volta à realidade.
Depois de algum tempo, tomei consciência de que havia feito uma viagem no tempo.
Capítulo VI

Senti o clarão do dia agredir os meus olhos ao sairmos da caverna. Dirigimo-nos em


direção aos cavalos, montamos e começamos a trajetória de descida da montanha. Enquanto
isso, lembrei-me dos fatos que haviam acontecido durante a viagem que eu havia feito no
tempo e passei a contar a Médriks, que cavalgava ao meu lado. Ele indagou-me a respeito
dos manuscritos, demonstrando profunda preocupação com o destino que lhes fora dado.
Passei a contar-lhe toda a trajetória e ele balançava a cabeça; eu podia notar que ele estava
extremamente surpreso com cada detalhe. Ao terminar de contar-lhe o que havia
acontecido, Médriks me revelou que sempre sonhara com os manuscritos e que a sua maior
busca era no sentido de um dia encontrá-los para tentar decifrar suas mensagens, o que não
seria fácil, pois foram escritos em um dialeto primitivo, esquecido no tempo. Olhando para
mim e fazendo gestos de quem havia encontrado uma pista mais reveladora para as suas
buscas, ele continuou:
– Encontrar-te é de um valor incalculável. Tu contribuíste muito revelando a trajetória
dos manuscritos, que já foram apagados pelo tempo. Neles, meu jovem, estão escritas as
revelações de muitos mistérios da Vida, esperando simplesmente o momento do
desabrochar da consciência de uma parte da Humanidade que, há muito, tem buscado o
despertar da evolução. Eles levarão as mensagens de uma nova busca àqueles que ainda não
atingiram a adultidade de suas consciências. Assim, estes serão acolhidos como filhos
menores, que encontraram nos seios da mãe o alimento para o saciar de sua sede.
Logo percebemos que já estávamos finalizando a trajetória de descida da montanha.
Ao chegarmos à estrada, paramos os cavalos, quando ele colocou uma das mãos no meu
ombro, falando:
– Aqui nós nos separamos.
– Voltaremos a ver-nos?
Ele ergueu a cabeça, respirou fundo e falou:
– Sim, voltaremos a encontrar-nos. Quando? eu não sei. Só o Cosmo sabe. Pois
somente essa energia maior pode traçar os nossos caminhos.
Naquele momento, ele tomou as minhas mãos de uma maneira forte, dizendo:
– Ouve, com atenção, o que te digo: chegará o momento em que necessitarás, como
nunca, da sabedoria que trazes contigo. Então terás que buscar, profundamente, em teu Ser,
a essência. Pois só assim, encontrarás ajuda para a tua metade. Pois o seu sofrimento trará
muita dor.
Sem compreender as suas palavras naquele instante, subitamente fui tomado pelo
sentimento de separação que me invadiu, deixando nítida a lembrança dos acontecimentos
que vivenciei no mosteiro. Naquele momento de despedida, as palavras silenciaram em
mim. Disse-lhe apenas que era grato a Deus por nos termos reencontrado e por ele me
haver ajudado, induzindo-me a desvendar enigmas de minha existência. Ao desmontar do
cavalo, acrescentei:
– Entregue este cavalo a Nicolas e agradeça-lhe por mim. Daqui irei andando, pois
tenho muito em que pensar nesta estrada.
Sorrindo, ele me falou:
– Até um dia, amigo!
Depois de longa caminhada, e com o pensamento distante, observei, no céu, nuvens
carregadas estavam se formando; logo, começou a chover. Após ter caminhado por algum
tempo debaixo da chuva, surgiu um caminhão na estrada. Imediatamente fiz gestos com as
mãos para o motorista parar. Um dos homens, na cabine, acenou para que eu subisse na
carroceria. Após subir, sentei-me num canto e o caminhão seguiu viagem rumo à cidade.
Assim que ergui a cabeça, notei havia um homem sentado em minha frente, com vestes
maltrapilhas, abraçado a um saco, como se ali estivesse todo o valor de sua vida. Após
fitarmo-nos por algum tempo, ele abriu o saco, pegou um pão e, dividindo-o ao meio,
ofereceu-me:
– Tu aceitas? – Surpreso, com seu gesto, balancei a cabeça e agradeci dizendo-lhe
não. Ele guardou um dos pedaços do pão e, ao comer o outro pedaço, o fez com os olhos
fixos em mim, como se eu tivesse rejeitado algo de muito valor.
Logo, ele voltou a falar:
– Tu não sabes o quanto foi difícil! Não imaginas o quanto tive que lutar para
convencer alguém a dar-me este pão! Mas mesmo assim, foi mais fácil do que disputá-lo
com os cães, num vaso de lixo.
Subitamente, ele se calou e continuou a me olhar fixamente, enquanto comia aquele
pão. Depois de algum tempo calado, ele continuou:
– Um dia, um homem sábio apanhou alguns pães e alguns peixinhos e alimentou uma
multidão. Mas, a fome daquele povo era tão voraz em alimentar os seus corpos que suas
ansiedades o levavam a esquecer que eram as suas almas que estavam famintas. E que ali,
nas palavras daquele sábio, estava o alimento.
E ainda olhando-me friamente, ele falou:
– Como buscamos tanto alimentar os nossos corpos e deixamos as nossas almas
morrerem, famintas?
Surpreso com as palavras que saíam da boca daquele homem, respondi-lhe:
– Sim! Instintivamente somos levados a alimentar os nossos vícios e necessidades,
deixando famintas as nossas almas.
Logo, ele inclinou a sua face para mim, e falou:
– Perdi muito tempo de minha vida buscando saciar as minhas ansiedades por posses.
Mas um dia os meus bens e posses desmoronaram-se sobre mim, devorando-me. Naquele
dia descobri que eu continuava faminto e pobre de espírito. Sim, isso aconteceu no dia em
que meu filho, o filho de minhas ansiedades, o fruto da paixão vivida, apontou uma arma
para a minha face exigindo a sua parte dos bens ou então me mataria. Naquele instante,
descobri que eu era pobre, e não sabia o valor de um pão; valor também desconhecido por
meu filho.
Naquele momento, a chuva molhava as nossas faces e o homem continuou a comer o
pão. Aproximei-me dele e perguntei-lhe seu nome. Surpreso, ele me olhou e respondeu:
– Meu nome? Não sei! Há muito tempo que ninguém me chama pelo nome. Ele se
apagou no tempo com as trilhas dos meus passos presos no passado. Meu nome... Eu não
sei... Chamam-me de mendigo.
Ele abraçou o saco com mais força e, me olhando, falou:
– Se não queres me chamar de mendigo, então me chama de Mágoa, que eu te ouvirei.
Eu lhe estendi a mão num ato de confirmação de minha amizade. Desconfiado, ele
levou algum tempo olhando dentro de meus olhos e depois estirou a sua mão, fechando
assim um laço de amizade. De repente, percebemos que o caminhão já estava entrando na
cidade. Assim que parou, descemos e começamos a caminhar pelas ruas. Ele chegava de
casa em casa pedindo alimento e, ao receber, agradecia àquelas pessoas que doavam. Eu o
acompanhava passo a passo, descobrindo que a vida nos mostra – a cada momento – uma
nova lição.
Já era final de tarde, quando paramos no final de uma rua para nos despedirmos.
Então lhe falei:
– O céu está mostrando que esta noite será de chuva. E tu, Mágoa, para onde vais?
Ele me respondeu:
– O filho de Deus uma vez disse que as raposas tinham os seus covis e os pássaros os
seus ninhos, mas que Ele não tinha lugar para descansar a sua cabeça. Eu não sei para onde
vou. Deixarei que a noite me leve. Quem sabe, ela não será generosa e eu encontrarei um
lugar quente para me aquecer!
Sorrindo, eu o abracei e cheguei a perceber as lágrimas escorrerem pela sua face.
Quando estávamos nos separando, surgiram alguns homens, acompanhados de uma mulher,
acusando meu amigo de roubo. Ele tentou provar que não havia roubado nada. Olhou-me
com temor nos olhos, como se estivesse querendo dizer que estava comigo. Presenciando
tão injustas acusações, aproximei-me, defendendo-o:
– Não, ele não roubou nada. Estava comigo o tempo todo.
A mulher que o acusava com a língua afiada como a de uma serpente, falou:
– Quem anda com mendigos são iguais a eles.
Os homens começaram a chutá-lo e esmurrá-lo. Tentei defendê-lo novamente, mas
também recebi golpes de socos e pontapés. Perdi a consciência e, quando despertei, já era
noite. Encontrava-me em uma ruela com o meu amigo me segurando, tentando me
reanimar, quando ele me falou:
– Temi por tua vida. Senti-me culpado ao te expor a esses agressores. Mas que bom
que eles nos deixaram. Vem comigo. Vamos passar a noite num casarão abandonado, que
fica do outro lado da praça.
Começamos a caminhar em direção ao casarão e, ao chegarmos, percebi que era uma
antiga construção inacabada de uma biblioteca, que se tornou aposento para mendigos. Ao
entrarmos, ele me disse:
– Minha mãe me falou que ouvira a minha voz quando eu ainda estava em seu ventre.
Pousando uma das mãos sobre o meu ombro, ele continuou:
– Se eu a encontrasse, sabe o que lhe diria? Que era o choro das lágrimas de um
espermatozóide. Já no interior do casarão, comecei a chocar-me com situações as quais
nunca tinha visto antes. Pessoas jogadas pelos cantos como se fossem um verdadeiro lixo
humano. O que mais me chocou é que algumas delas comiam os cascões de suas próprias
feridas; outras sorriam para mim como se estivessem rindo da própria vida. Novamente
meu amigo Mágoa colocou uma das mãos em meu ombro e falou:
– Aqui está uma das realidades que muitos desconhecem. A realidade última: a dor!
Ao dizer isto, ele me conduziu pelos vãos daquele prédio, levando-me a uma sala no
final do corredor, onde me apresentou a um de seus amigos, um negro alto de cabelos
trançados, dizendo:
– Melodia, este aqui é um amigo. Ele passará a noite conosco.
E aquele homem nos convidou para sentarmos e nos ofereceu um pouco de café
quente. Enquanto tomávamos o café, ele falou:
– Agora fiquem em silêncio e apenas ouçam.
Abrindo uma caixinha de madeira ele pegou um instrumento de sopro e começou a
entoar uma melodia que eu jamais tinha ouvido. Depois parou, dando um intervalo,
dizendo:
– O som cura o corpo e a alma, pois ele é eterno. Foi a primeira expressão de Deus.
Acreditem, o som cura!
E, assim, passamos a noite conversando a respeito da vida. Ouvimos aquele som que
parecia ser soprado pela vida, na flauta da Existência. Em meio a tantos assuntos
conversados, perguntei a Mágoa:
– Tu não sentes a falta de um lar?
– Um lar não é feito de paredes e telhados, mas sim de amor. Pois um verdadeiro lar é
edificado com amor e vasta compreensão do conceito de lar.
Gesticulando com as mãos, Mágoa me olhou fixamente e, em seguida, apontou para
Melodia:
– Não existe lar maior do que este que estou vivendo neste momento, pois tudo aqui é
uma questão de momento. Vós formais aqui o lar que eu não conhecia. O amanhã virá e, se
eu não estiver mais convosco, levarei sempre comigo a lembrança de um verdadeiro lar que
conheci durante alguns momentos.
Após falar essas coisas, ele pegou mais um pouco de café e recostou-se num canto,
enrolando-se com um cobertor que trazia no saco. Eu me encolhi perto de uma fogueira,
tentando aquecer-me. Melodia, aproximando-se de mim, deu-me um pedaço de cortina para
que eu me enrolasse. Sentou-se ao meu lado e levou a flauta próxima ao calor das chamas
para aquecê-la. Ele me olhou e, voltando-se para a flauta, soprou-a como se estivesse
observando algo mágico e falou:
– Um dia os homens encontrarão no som o caminho para o domínio do átomo e então
descobrirão uma nota que talvez esteja perdida entre as outras notas musicais. Quando eles
descobrirem esta nota, certamente terão descoberto a cura para as dores do físico e da alma.
Esta nota será como luz que sairá da flauta através das mãos de Deus. Acredita! Ao entoar
esta nota de luz, a sua melodia acabará com toda cegueira e toda a escuridão e até mesmo
os cegos verão. Não mais haverá cegueira nem dor.
Voltando-se para mim, com os olhos tensos, Melodia acrescentou:
– Acredita, filho!
Eu lhe respondi:
– Acredito.
Ele me deu a flauta dizendo:
– Leve-a contigo. Toque-a quando te sentires só e sopra-a como se estivesses dando
destino ao vento. Mas sopra com todo o teu sentimento. E assim, quem sabe, tu não
descobrirás a nota perfeita que está perdida entre tantas outras?
Ao falar isso, ele recostou-se num canto ao lado da fogueira, enquanto eu, segurando
a flauta, comecei a pensar nestas lições e em tudo que a Vida me ensinou com linguagem e
gestos silenciosos, até adormecer. Ao despertar, observei que não havia ninguém à minha
volta, nem sinal de Mágoa e nem de Melodia; apenas eu, deitado sobre aqueles papelões.
Em minhas mãos estava a flauta com que Melodia me havia presenteado. Segurando-a
firmemente, tomei consciência de que não foi um sonho. Ao levantar-me, encontrei num
canto um papel escrito por Mágoa, onde dizia:
– Amigo, encontrar seres como tu é o que dá razão à nossa riqueza – a de nada
possuirmos neste mundo; faze, de nós, andarilhos, na busca de encontrar um lar nesta
instância chamada Terra, onde aprendemos com a dor, com a renúncia e com os gestos
bruscos e sutis daqueles que nos humilham, e de outros que nos enaltecem, fazendo com
que nos sintamos iguais, sequiosos da mesma sede: a Vida.
“Um andarilho sem destino”, pensei, enquanto apertava com força o papel em minhas
mãos, lembrando-me das palavras de Mágoa e de tudo o que nos uniu em tão pouco tempo.
Mesmo tentando conter as lágrimas, enrolei o papel escrito na flauta e, segurando-a,
comecei a caminhar, traçando uma longa jornada até minha casa; meu humilde lar. Nos
caminhos, minha mente retornava ao passado, a um passado distante, de vidas que não me
lembro. Também a um passado próximo, quando ajudei a mulher de um cigano dar à luz
uma criança, compartilhando com eles o dom mágico e a alegria de trazer a vida através de
nós mesmos. E, assim, minhas lembranças me levaram até a montanha, onde compartilhei
com um Ser tão distante, mas tão próximo de mim. Um ser que me mostrou, através do
fogo, um portal; uma resposta para os meus medos, minhas incógnitas e ansiedades. Agora
estou aqui, exausto e renovado a cada segundo, de um renascimento que é a descoberta do
enigma da razão da Vida. Sinto que percorri longo corredor de uma escola, cuja saída é o
adentrar ainda mais por nova porta, onde encontraremos um Mestre sutil que nos ensinará,
sempre. Naquele momento, falei para mim mesmo: “Esta é a Vida. E viver não pertence aos
fracos”. Então, comecei a sorrir do drama e da comédia que é esta Existência. Percebendo
que já estava perto de casa, senti necessidade de adiantar os passos e logo corria em direção
a uma bica que fica no quintal, de onde cai água límpida. Coloquei a flauta e o papel no
chão e molhei a minha face, pois precisava muito envolver-me no frescor daquelas águas.
Passei a molhar todo o meu corpo e, tomado pela emoção, comecei a gritar; pois rebentava,
de meu Ser, um sentimento incontrolável: a sensação da liberdade.
– Sou livre! – Gritava cada vez mais alto: – Sou livre!
Dizia para mim mesmo, porque sou escravo de uma razão. Assim que saí do banho,
apanhei a flauta e o papel e dirigi-me ao interior da casa, onde não encontrei ninguém.
Faminto, peguei um pão e um pouco de melaço. Dirigi-me ao quarto, deitei-me sobre as
almofadas e passei a degustar aquela rápida refeição. Ao olhar para o lado, deparei-me com
um caderno, o qual continha os pensamentos daquele rapaz viciado que se encontrava
sobrecarregado pelos vícios da Vida. Abrindo-o, vi algo escrito que chamou a minha
atenção. Dizia assim: “A maior fome vem depois de se ter saciado; a maior sede vem
depois de se ter bebido um pouco de água da Vida. Essa sede é a sequiosa vontade de
compartilhar com outros um pouco do que nos sacia”. Fechei, então, o caderno e senti que
precisava compartilhar com alguém tudo o que vivi. Naquele momento, lembrei-me de
Helen e a vontade de vê-la era mais doce que o melaço. Estava muito cansado, mas aquela
vontade de compartilhar gritava mais forte em mim, não me deixava dormir. Como estava
chovendo, apanhei a jaqueta e saí à procura de Helen. Depois de ter caminhado uns
quinhentos metros pela rua, encontrei-me com um colega de escola e ele iniciou nossa
conversa, questionando-me:
– Por que tu sumiste?
– Estava em outro lugar, a procura de algo. Agora estou à procura de Helen. Viste-a?
– Não sabes o que aconteceu com ela?
– Não!
– Ela sofreu um acidente.
Assustado, segurei em seus braços, perguntando-lhe:
– Como isso aconteceu?
– Não sei! O que sei é que ela perdeu a visão.
– Meu Deus! Não pode ser verdade!
Ele continuou:
– Vamos a sua casa e ela te contará tudo. Dar-te-ei uma carona na bicicleta, mas
primeiro passaremos no presídio, pois preciso visitar meu tio para entregar-lhe estas
encomendas.
Montamos na bicicleta e seguimos caminho. Uma grande angústia tomava todo o meu
Ser e os meus pensamentos levavam-me a Helen sem aceitar que ela tivesse perdido a
visão. Ao chegarmos ao presídio, logo entramos, pois já era horário de visitas. Começamos
a caminhar pelos corredores e meu colega encontrou a cela em que seu tio encontrava-se
encarcerado. Enquanto eles conversavam, saí pelos corredores olhando outras celas e fiquei
aterrorizado com a situação de cárcere. Foi quando um homem de aparência agitada e
agressiva se agarrou nas grades, assustando-me. De repente, ele começou a pronunciar
palavras aos gritos:
– Por que me olhas como se me condenasse ou como se estivesse com pena de mim?
Eu nada fiz perto da força do vendaval . Mas eles não podem condenar o vento; não podem
aprisionar o vento, pois ele é livre. Ele agita o mar e, na sua fúria, destrói embarcações,
arranca árvores pelas raízes, devasta cidades e ninguém sabe de onde ele vem e nem para
onde ele vai. Ele é livre!
Assustado, perguntei-lhe:
– Por que estás preso?
Furioso, ele me respondeu:
– E tu, por que estás preso? Tu pensas que és livre? As prisões não são feitas apenas
de muros e de grades. O teu corpo é uma prisão; a dor é uma prisão; a cegueira também é
uma prisão e a ignorância é o cárcere maior, pois cega os olhos e algema a consciência. Tu
pensas que és livre? Digo-te: só é livre quem pode seguir o caminho do vento.
E estirando os braços entre as grades, ele me pediu, chorando:
– Dá-me um cigarro, por favor. Dá-me alguma coisa que me ajude a esquecer de mim
mesmo!
Naquele momento, fiquei parado, tenso, sem poder fazer nada; sem ao menos poder
dizer uma palavra. Em meio aos gritos daquele homem, saí correndo pelos corredores do
presídio. Chegando do lado de fora, encostei-me numa parede e fiquei olhando para a rua.
Lembrei-me das palavras turbulentas e agressivas daquele encarcerado. Então, fiquei a me
questionar em silêncio. Logo o meu amigo tocou em meu ombro e perguntou-me, rindo:
– Por que saíste correndo? Ficaste com medo?
– Não foi o medo que me fez correr; foi ver a profundidade desta realidade.
Ele apanhou a bicicleta e seguimos em direção à casa de Helen. Depois de um longo
percurso, avistamos sua casa. Ao aproximar-nos, eu a vi sentada numa cadeira, na varanda.
Empurrei o portão e meu amigo me deu um sinal, avisando que teria que ir. Lentamente,
então, aproximei-me dela, enquanto à distância podia sentir o pulsar de seu coração; parecia
despertar com a energia que a envolvia, a cada passo que me levava ao seu encontro,
subestimando até mesmo o limite da visão; era inegável que estávamos ligados pelo
cósmico cordão umbilical que liga todas as almas gêmeas. Logo, curvei-me ao seu lado,
tomei suas delicadas mãos e sob a recíproca energia que nos envolvia, beijei-a. Com a voz
impregnada de ternura, ela falou-me:
– És tu, Donai?
Chorando, ela me abraçou.
– Por onde andaste?
– Estava pelos corredores da Vida, a procura de mim mesmo.
Ela, envolvida pela força e pelas mudanças que surpreenderam o nosso reencontro,
abraçou-me fortemente, falando:
– Não sei do que falas, mas me deixes tocar-te para que eu possa me lembrar dos
suaves traços de tua face.
Vendo-a com os olhos inundados de lágrimas, disse-lhe:
– Isso não deveria ter acontecido contigo.
– Por favor, ajuda-me a sair desta escuridão! Eu preciso voltar a ver a luz do dia;
preciso ver o teu rosto novamente; preciso ver a Vida em volta de mim.
Beijando a sua face, disse-lhe:
– Eu vou ajudar-te! Prometo!
Após algum tempo abraçados, passei a contar-lhe, com detalhes, todas as coisas
acontecidas comigo. Surpresa e sem entender, ela, segurando firmemente a minha mão,
pediu que eu não me afastasse, pois todos os seus amigos haviam se afastado. Eu a abracei
fortemente e falei:
– Não me afastarei de ti. Sabes o quanto eu te amo.
O tempo passou sem que notássemos, pois já estava escurecendo quando a deixei. Lhe
prometi voltar logo. Comecei a caminhar pelas ruas, impregnado pelo sentimento de
angústia, sentindo-me impotente, pois não sabia como ajudá-la. Senti forte necessidade de
voltar ao passado; mas como voltar? Necessitaria regressar em minha essência, vestir-me
com as vestes da sabedoria e ser monge para, assim, poder dominar a ciência da alma e
trazer o alívio àqueles que sofrem e agonizam de dor. Ser a liberdade para os que estão – de
alguma forma – encarcerados. Mas como fazer isso? Quando voltei para a minha realidade,
vi apenas um sonho na realidade de um sonhador. Sonhadores como Melodia, que acredita
na possibilidade de encontrar a perfeição nas notas musicais e assim transformá-las num
antídoto capaz de curar todas as dores da vida. Foi naquele momento de dor que comecei a
descobrir os mais fortes sentimentos, forçando-me a tomar decisões, pois eu não tinha mais
nada em que acreditar; a não ser nos sonhos e na força vinda de onde ela não mais existe.
Esta crença que extraio de mim e que renasce das dúvidas, da escuridão de minhas
angústias, é que me levará a tocar aquela flauta. E assim a soprarei, enchendo-a do ar da
vida na desesperada tentativa de entoar a nota perfeita para atrair a luz. E nesta perfeita
fusão, trazer a cura para os olhos de Helen. Eu preciso acreditar nisso! E assim, os dias, as
semanas e os meses se passaram. Eu me tornei para Helen os seus olhos e ela se tornou uma
luz que me fez ver além dos meus limites. Extraí forças de mim para convencê-la a vir
sentir a vida fora dos muros de sua casa, o que não foi fácil. Tentei convencê-la a ler e
escrever em Braile para ela poder registrar seus sentimentos de luz emergentes da escuridão
de sua visão. Os especialistas da área já não davam mais esperanças de ela voltar a ver de
novo. Mas eu lhe dava esperança em minhas esperanças. Em meio a tudo isso, eu conseguia
a mágica de extrair dela um sorriso. Fato que me fazia acreditar que nós poderíamos
conseguir muito mais.
Passaram-se alguns anos. Naquele dia o céu estava repleto de nuvens carregadas. A
energia que conspirava com raios e com relâmpagos parecia comunicar-se comigo. Deitado
em meu quarto, sobre as almofadas, entoando uma melodia com a flauta, fui invadido por
profunda lembrança nas palavras soltas que ficaram adormecidas em mim. Então tentei
arrumá-las e, assim, descobri que precisava encontrar-me em essência. Naquele momento,
levantei-me, peguei a mochila, coloquei dentro dela tudo que iria precisar para poder
acampar na montanha. Saí pelas ruas, debaixo daquele céu furioso e segui em direção à
casa de Helen. Ao chegar, dirigi-me até a janela de seu quarto e bati várias vezes. Quando
ela abriu, acariciei o seu rosto e a beijei, dizendo-lhe:
– Tu precisas vir comigo.
– Para onde? Não vês que lá fora está se formando um grande temporal?
– Sim, mas é preciso que venhas comigo.
– Para onde?
– Não importa. Logo tu saberás.
Pulei então a janela, peguei sua mochila e coloquei as coisas que ela iria precisar. Ao
deixarmos sua casa, tomei sua mão, seguimos em direção à estrada e passamos a fazer uma
longa caminhada. De repente surgiu um caminhão. Fiz sinal e, para nossa sorte, o motorista
parou e perguntou-nos para onde estávamos indo. Eu lhe pedi que nos levasse a uns quinze
quilômetros naquele curso da estrada. Ele abriu a porta da cabine e nos convidou a entrar.
Aquele homem, percebendo o problema da visão de Helen, lamentou-se, contando
que tinha uma filha com problemas mentais e, colocando a mão direita sobre meu ombro,
falou:
– Eu acredito que, de alguma forma, ela será curada.
Voltando-se para Helen, ele continuou:
– Acredita filha! Mesmo que ninguém acredite. Apenas acredita e voltarás a ver de
novo.
– Ela segurou minha mão com força, falando:
– Eu acredito!
Naquele momento, senti a confirmação do Cosmo nas palavras daquele homem que
fortaleceu a minha crença certificando-me de estar no caminho certo. Depois de termos
percorrido longa trajetória na estrada afora, notei a montanha já próxima e lhe pedi para
parar. Nós lhe agradecemos e descemos do caminhão. Ele nos desejou boa sorte e
continuou o seu destino. Ao chegarmos ao início da montanha, eu me assegurei da árdua
trajetória que iríamos percorrer e começamos a caminhar, subindo a montanha. Não foi
fácil conduzir Helen por aquelas trilhas tão acidentadas. Caímos muitas vezes, mas
buscávamos forças, pois tínhamos certeza na força que desfazia as nossas dúvidas;
tínhamos esperança. E buscávamos senti-la com mais intensidade. Pois quem acredita,
constrói os seus sonhos no Universo e Ele os materializa. Acreditávamos na possibilidade
de encontrar o ponto máximo de nosso sonho e transformá-lo em realidade. Quando
percebi, já estávamos no topo da montanha. Abracei Helen e falei:
– Nós conseguimos! Vem comigo! Vou levar-te a um lugar que costumo chamar de
Luzes da Cidade.
Caminhamos em meio a pedras, galhos e arbustos. Ao chegarmos próximo às rochas
que ficavam nos limites da montanha, eu a deixei sentada numa pedra e comecei a armar a
barraca. Logo que terminei, peguei alguns galhos secos e fiz uma fogueira. Aproximei-me
de Helen e, tomando suas mãos, a levei para perto da fogueira. Sentamos e, enquanto eu
pegava a flauta na mochila, ela me falou:
– Não te culpes se não conseguirmos.
Voltei-me para ela, acariciei sua face e lhe falei:
– Chegar até aqui já me fez acreditar que conseguiremos.
Ela sorriu dizendo que sim. Naquele momento eu a deixei e subi nas pedras. Com a
flauta nas mãos, ergui os braços para o infinito e comecei a harmonizar-me com o silêncio,
buscando o som do vento que vinha de todas as direções, em perfeita harmonia,
impulsionando-me a tocar a flauta. Comecei a tocá-la, em busca da perfeição, como nunca
antes havia tocado. À distância, nos céus, os raios surgiam formando no ar uma coreografia
de luzes. Todos os sons naturais da montanha formavam uma só harmonia com as notas da
flauta. Nesse ínterim, comecei a ouvir sons que pareciam romper os céus. Eu estremeci ao
olhar para minhas mãos e vê-las tomadas por energia áurea, que as deixava com uma
tonalidade violeta. Aos poucos, foi envolvendo todo o meu corpo trazendo-me a sensação
de leveza e paz. Quando parei de tocar a flauta, senti o som continuar em harmonia com o
vento. Então, desci da pedra, dirigi-me até Helen, peguei em sua mão e, sem dizer palavra,
a conduzi até as pedras. E, assim, sentamo-nos na pedra mais alta que ali se encontrava.
Assustada, ela me perguntou:
– De onde vem esse som envolvente?
Eu lhe respondi:
– Está surgindo do fluxo da nascente da Vida. Apenas deixe a tua alma flutuar em
meio a essa harmonia perfeita.
Ela então me abraçou e toda aquela energia que nos envolvia ligava-nos ao Cosmo,
através daquela áurea de luz. Sem poder conter as lágrimas que começaram a escorrer em
sua face, levei a flauta aos meus lábios e soprei-a como se estivesse soprando a própria
Existência. A força que nos envolvia fazia com que ficássemos leves, permitindo-nos sentir
o éter de nossa existência. Era como se não sentíssemos a nossa forma física, naquele
momento, como se fossemos a nota perfeita do som; a primeira expressão de Deus.
Envolvidos por aquela energia enigmática, aos poucos, fomos perdendo os sentidos.
Quando recobramos as nossas consciências, já estava surgindo o amanhecer. E Helen,
soluçando, me falou:
– Há tempos não via um amanhecer como este!
Olhando em sua face, logo vi que seus olhos brilhavam como um cristal ao sol. E com
lágrimas escorrendo sobre a minha face, levantei-me. Em seguida, tomei uma de suas mãos
para que ela também se levantasse. Em silêncio, ficamos a contemplar o renascimento da
Vida no surgimento de mais um novo dia. Passaram-se algumas horas e o sol já estava em
sua máxima intensidade. Começamos a descer a montanha pela trilha de pedras e por
alguns momentos, eu observava Helen apanhando, no chão, galhos e pequenas pedras. Ela
os acariciava contemplando suas formas. Naquele momento, pensei: “Ver é contemplar a
glória da luz e voltar a enxergar é renascer para a luz. É uma pena que só poucos são
despertados ao sentir o grande valor da visão!” Ao terminarmos de descer a montanha,
Helen pegou algumas flores silvestres e, estirando as mãos, com um leve sorriso me
ofereceu, dizendo:
– Elas são tão lindas! – E eu não sabia, pois nunca havia observado.
Coloquei uma das mãos em seu ombro e começamos a percorrer a estrada. Depois de
termos caminhado por longas horas, notei ao longe o riacho onde já me havia refrescado e
saciado minha sede. Convidei Helen para descer o despenhadeiro comigo. Logo que
chegamos à margem do riacho, livramo-nos dos nossos calçados e entramos naquelas águas
frias e cristalinas. Tomávamos aquelas águas com as mãos, bebíamos e molhávamos nossas
faces. Em seguida, sentei-me numa pedra e, com o rosto inclinado para o céu, comecei a
contemplar a Vida. Logo fui surpreendido por Helen, jogando água em minha face. Ela se
aproximou, sentou-se em minha frente e, com as mãos ainda brincando com a água, falou-
me:
– Conheço-te há pouco tempo e descobri que és um iluminado.
Por alguns instantes ficamos em silêncio; enquanto isso, eu atirava pedras no riacho.
Helen, então, quebrou o silêncio, surpreendendo-me:
– Quem és tu, Donai, que tanto amo e me perco diante dos mistérios que te
envolvem?
– Quem tu achas que sou?
Helen respondeu-me:
– A pura encarnação da Liberdade!
– Nós trazemos conosco a essência da Vida. Eu sou apenas um buscador de mim.
E ela continuou:
– Ao teu lado, sinto-me forte e livre!
Respondi-lhe:
– Quem caminhou em meio à escuridão e rasgou as suas cortinas, encontrando de
novo a Luz, já é livre em essência; e a Vida nos deixou muitos caminhos para trilharmos.
Naquele instante, Helen levantou-se e falou:
– Tu falas como se fôssemos separar-nos... mas não iremos nos separar outra vez!
Tomei Helen pela mão e começamos a caminhar pela estrada. Eu lhe falei:
– O amor não se separa, apenas cumpre a sua missão. Há muitas trilhas nesta vida, as
quais teremos que percorrer. Em alguns momentos estaremos juntos; e em outros, apenas
com a solidão. Nesta vida, Helen, as lágrimas de muitos molharão nossas faces e nós
viveremos as suas angústias. Pois tentaremos caminhar ao lado daqueles que estão sós para
lhes ensinar a razão do silêncio. Pois muitos são os que gritam e poucos são os que
observam o silêncio da transformação.
E assim, passaram-se os anos. E seu país de origem foi assolado pela destruidora
Segunda Guerra. A devastação trouxe incontáveis divisões. Donai foi recrutado
involuntariamente e partiu para campos de batalha. Negou-se a empunhar armas. Foi preso
e torturado sob diversas acusações. Quando escapou, tornou-se fugitivo. Um clandestino
migrante em outras nações.
Movida pela esperança de encontrá-lo, Helen recrutou-se voluntariamente como
enfermeira. E em ambos ficou registrada a frase que marcara as suas vidas: “O Amor não se
separa; apenas cumpre sua missão”.
Epílogo

– Fantástica história, mestre!


– Esta é a história que ilustra a grande busca do sentido da vida.
– Quanto a nós, meu caro amigo - exclamou o mestre - estamos todos nós juntos a
uma multidão, onde cada um escreve sua própria história, vivendo o aqui e o agora. Pois
quem somos, de onde viemos e para onde vamos? As respostas que buscamos ficaram na
densa neblina do nosso esquecimento, onde o sol e nem mesmo uma única estrela poderá
romper esse mistério. Está em nossa consciência o poder de romper as barreiras entre o
tempo e o espaço, o possível e o impossível. Pois somos a manifestação do maior milagre,
por isso não devemos esquecer que trazemos, na essência de nosso pensamento e
sentimento, uma força. Um poder indecifrável que poderá nos destruir ou abrir a porta das
realizações de todos os nossos sonhos. Tudo é apenas uma questão da escolha que fazemos
em nossas vidas.
Natural de Santo Antonio de Jesus, Bahia - Carlos Reis Agni escreveu, em 1998,
seu primeiro romance, Lágrimas de um Espermatozóide, já em segunda edição; em março
de 2000, publicou O Prelúdio do Desejo, pela Editora Helvécia; e em fevereiro de 2002
brindou-nos com o também romance Síndrome do Emocional; Em 2004, escreveu os
pensamentos poéticos: Uma Janela Para o Nosso Cárcere (ainda inédito, em breve será
publicado);

Em sua jornada, como escritor cadeirante, ele segue em meio a superação de


diversos obstáculos, buscando promover a divulgação de suas obras, publicadas por
editoração independente.

Carlos Reis é escritor e palestrante de auto-ajuda.

e-mails para contato:


carlosreisagni@hotmail.com
fflaviobass@hotmail.com

tel.: (75)8181-9452

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