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Resumo

A dissertação de Mestrado em Ciências da Educação que a seguir se apresenta, intitulada A Participação Cívica e Política dos Jovens em Contexto Educativo na Região Autónoma dos Açores, procura desenvolver e aprofundar alguns aspectos mais relevantes da participação cívica e política dos jovens em contexto educativo no arquipélago dos Açores. O nosso estudo começa (Cap. I) com uma revisão bibliográfica sobre a evolução do conceito de cidadania desde a antiguidade clássica até aos nossos dias, abordando criticamente algumas das concepções mais pertinentes como a cidadania social e a cidadania pós-nacional. Em seguida (Cap. II) dedicamos a nossa atenção aos Açores, à sua idiossincrasia geográfica, histórica, social e cultural, descrevendo todo o processo de implantação e desenvolvimento do regime autonómico até chegarmos ao problemático impasse cívico das mais elevadas taxas de abstenção eleitoral que se verificam no território português. A parte que se segue (Cap. III) refere-se à participação cívica e política entre os jovens que frequentam o 9º e o 11º ano em escolas públicas da Região Autónoma dos Açores. A nossa análise incidiu sobre um conjunto de questões, realizadas através de 263 inquéritos válidos, pelas quais procuramos aferir os conhecimentos cívicos e políticos; os comportamentos cívicos; a disposição para a participação cívica futura; a cidadania na escola; as atitudes políticas; e os alinhamentos ideológicos e partidários dos alunos. Feita a análise dos dados obtidos apresentamos algumas conclusões e recomendações para potenciar a cidadania na escola como meio dinamizador da participação cívica e política na sociedade, ou seja, dando oportunidade de participação aos alunos de hoje, cidadãos activos e participativos de amanhã.

Abstract

The Master thesis in Science Education that the following text, entitled The Civic and Political Participation of Young People in Educational Context in the Azores, seeks to develop and deepen some of the most important aspects of civic and political participation of youth in an educational context in Azores. Our study begins (Chapter I) with a literature review on the evolution of the concept of citizenship since classical antiquity to the present day, addressing critically some of the most relevant concepts of social citizenship and the post-national citizenship. Next (Chapter II) turn our attention to the Azores, their idiosyncrasies geographical, historical, social and cultural, describing the whole process of implementation and development of the autonomic system until we reach the impasse civic problem of the highest rates of voter turnout that occur in Portuguese territory. The remaining part (Chapter III) refers to the civic and political participation among young people in the 9th and 11th grade in public schools in the Azores. Our analysis focused on a range of issues, made with 263 valid surveys, for which we seek to measure the civic and political knowledge, civic behavior and the provision for future civic participation, citizenship at school, political attitudes, and the ideological and partisan alignments of students. After analysis of the data present some conclusions and recommendations to enhance the citizenship at school as a means to foster civic and political participation in society, ie, giving opportunity for participation to students today, active and involved citizens of tomorrow.

Résumé

La thése en Science de l’Éducation que le texte suivant, intitulé La participation civique et politique des jeunes à l'éducation Contexte dans les Açores, cherche à développer et approfondir certains des aspects les plus importants de la participation civique et politique des jeunes dans un contexte éducatif dans Açores. Notre étude commence (Chapitre I) avec une revue de littérature sur l'évolution de la notion de citoyenneté depuis l'Antiquité jusqu'à nos jours, s'adressant de façon critique certains des concepts les plus pertinents de la citoyenneté sociale et la citoyenneté post-nationale. Page suivante (Chapitre II), tourner notre attention vers les Açores, de leurs particularités géographiques, historiques, sociaux et culturels, en décrivant tout le processus de mise en œuvre et le développement du système neuro-végétatif jusqu'à ce qu'on atteigne l'impasse problème civique des plus hauts taux de participation qui se produire dans le territoire portugais. La partie restante (Chapitre III) se réfère à la participation civique et politique des jeunes en 9e année et 11 dans les écoles publiques dans les Açores. Notre analyse a porté sur un éventail de questions, fait avec 263 enquêtes en cours de validité, pour lequel nous cherchons à mesurer les connaissances civiques et politiques, le comportement civique et la provision pour la participation communautaire dans le futur, la citoyenneté à l'école, des attitudes politiques, et le idéologiques et partisanes des alignements d'étudiants. Après analyse des données présente des conclusions et des recommandations visant à renforcer la citoyenneté à l'école comme un moyen de favoriser la participation civique et politique dans la société, c'est à dire, en donnant la possibilité de participer aux étudiants d'aujourd'hui, les citoyens actifs et engagés de demain.

Agradecimentos

À Professora Doutora Isabel Menezes que generosamente aceitou o meu pedido de orientação de tese sobre uma temática onde não existem estudos anteriores, sendo uma orientadora no sentido completo da palavra pela atenção, simpatia e paciência que sempre me contemplou especialmente na feitura e recolha de dados dos inquéritos.

À psicóloga Sara Quaresma cuja disponibilidade, atenção e dedicação foi fundamental na recolha de informação na Escola Secundária das Laranjeiras, abordando vários professores no sentido de proporcionar a realização dos inquéritos sem nenhum interesse além do auxílio a um amigo recente.

Ao professor Rui Pedro Mendonça e ao responsável do Corpo Nacional de Escutas João Flores, amigos de longa data, que provaram que uma amizade antiga e agora à distância é sempre uma amizade verdadeira e a todo o momento disponível na ajuda a um amigo de sempre e para sempre.

Ao professor Domingos Neto, Presidente do Conselho Executivo da Escola Secundária Domingos Rebelo, pela preciosa atenção que me concedeu na recolha de dados na “minha” antiga escola, sem o qual a realização desta tese nunca teria sido possível.

Aos professores Margarida Gomes, Conceição Mendonça, Helena Quaresma, Susana Ponte, Miguel Maurício e ao padre João Maria Brum pela simpatia e prontidão com que me receberam nas suas aulas possibilitando-me a recolha de informação junto dos alunos.

À minha mãe, Teresa Mateus, que nunca me deixou desistir desta empreitada, incentivando-me a continuar e prestando-me o apoio necessário para que a realização deste trabalho fosse possível.

Índice Geral

 

Resumo

1

Abstract

2

Résumé

3

Agradecimentos

4

Índice Geral

5

Índice de Quadros

7

Apresentação geral do trabalho

9

Capítulo I. A Cidadania

12

1.

A evolução do conceito de cidadania

13

1.1. As concepções clássicas de cidadania

13

1.2. A concepção moderna de cidadania

17

2.

O desafio ao conceito de cidadania

20

2.1. A cidadania social

20

2.2. A cidadania pós-nacional

26

Capítulo II. A Região Autónoma dos Açores

31

1.

A implantação e desenvolvimento do regime autonómico

32

1.1.

Antecedentes históricos

32

1.2. Implantação e desenvolvimento da autonomia açoriana

36

1.3. Governos e símbolos da Região Autónoma dos Açores

42

2.

A abstenção eleitoral

45

Capítulo III. A participação cívica e política dos jovens nos Açores

49

1. Caracterização geral do estudo

50

2. Caracterização geral da amostra

51

3. Conhecimentos cívicos e políticos

56

4. Participação cívica

58

5. Disposição para a participação cívica futura

68

6. A cidadania na escola

72

7. Atitudes políticas (informação e debate político)

78

8. Sistema político regional e nacional

84

9. Alinhamentos ideológicos e partidários, reformas e religião

88

Considerações finais

95

Bibliografia

101

 

Anexos

104

Índice de Quadros

Quadro 1.1 Lista de Presidentes do Governo Regional dos Açores

42

Quadro 1.2 Números da abstenção nos Açores (1975-2009)

48

Quadro 2.1 Distribuição da amostra por ano de escolaridade

51

Quadro 2.2 Distribuição da amostra por idade

51

Quadro 2.3 Distribuição da amostra por sexos

52

Quadro 2.4 Distribuição do total da amostra por local de nascimento

53

Quadro 2.5 Distribuição da amostra por local de nascimento paterno

53

Quadro 2.6 Distribuição da amostra por local de nascimento materno

53

Quadro 2.7 Escolaridade paterna

54

Quadro 2.8 Escolaridade materna

54

Quadro 2.9 Presença de jornal em casa

55

Quadro 2.10 Quantidade de livros em casa

55

Quadro 3.1 Conhecimentos cívicos e políticos

57

Quadro 4.1 Confiança nas instituições

60

Quadro 4.2 Envolvimento cívico continuado

63

Quadro 4.3 Envolvimento cívico mais significativo

64

Quadro 4.4 Avaliação do envolvimento

65

Quadro 4.5 Participação em actividades

66

Quadro 4.6 Frequência de debates

67

Quadro 5.1 Disposição para a participação cívica futura

70

Quadro 6.1 Participação Cívica na Escola

73

Quadro 6.2 Participação Cívica na Escola

75

Quadro 6.3 Temas cívicos

76

Quadro 7.1 Confiança na Informação

79

Quadro 7.2 Exposição a notícias políticas

81

Quadro 7.3 Debate político

82

Quadro 8.1 Interesse político

85

Quadro 8.2 Funcionamento político e democrático

86

Quadro 9.1 Alinhamento ideológico

88

Quadro 9.2 Importância da ideologia

89

Quadro 9.3 Simpatia partidária

90

Quadro 9.4 Simpatia por partido

90

Quadro 9.5 Atitudes em relação a reformas políticas

91

Quadro 9.6 Atitudes em relação a reformas políticas

92

Quadro 9.7 Pertença a religião

93

Quadro 9.8 Culto religioso

93

Quadro 9.9 Religiosidade

93

Apresentação geral do trabalho

Apresentação geral do trabalho

O nosso estudo começa com uma abordagem ao conceito de cidadania, percorremos a evolução do conceito desde a antiguidade clássica (grega e romana) até chegarmos à concepção moderna de cidadania. Este trajecto procura evidenciar alguns aspectos basilares como a importância participação cívica na Grécia antiga. Contudo, o que realmente nos interessou foi demonstrar o caminho que o conceito de cidadania percorreu, começando a ser percebido em função de deveres para gradualmente começar a ser entendido em função de direitos. Na concepção moderna de cidadania abordamos a confusão que a época moderna se encarregou de estabelecer entre os conceitos distintos de cidadania e nacionalidade que perdura até aos nossos dias.

Em seguida procuramos desafiar o próprio conceito através da exposição de duas das mais pertinentes concepções de cidadania: a cidadania social e a cidadania pós-nacional. Na cidadania social prestamos um devido reconhecimento à influente exposição da cidadania enquanto direitos (civis, políticos e finalmente sociais) concebida pelo sociólogo inglês Thomas Humphrey Marshall, sem que isso seja impeditivo para que lhe façamos algumas críticas. Enquanto na cidadania pós-nacional, foi nosso objectivo expor a necessidade de separar os conceitos de cidadania e nacionalidade no sentido em que essa separação conduza a um maior respeito pelos direitos humanos e sugerimos os Açores como o laboratório ideal para que a primeira experiência pós-nacional de cidadania fosse concretizada.

Sendo o autor deste estudo um açoriano atormentado com os problemas da sua terra, em seguida debruçamo-nos sobre os Açores, que constitui o pano de fundo do nosso trabalho. Começamos por descrever como se processou a conquista da autonomia política pelo arquipélago desde o primeiro Decreto Autonómico de 1895 até à criação da Região Autónoma dos Açores depois do 25 de Abril, sem nunca darmos o processo autonómico como terminado. Abordamos a construção simbólica do conceito de Região e da unidade entre

todas as ilhas paralela à construção política, até chegarmos ao grave problema cívico que os Açores atravessam com as maiores taxas de abstenção eleitoral de todo o território português.

Procuramos nos alunos (do 9º e do 11º ano) da Escola Secundárias das Laranjeiras e da Escola Secundária Domingos Rebelo, ambas em Ponta Delgada e ambas frequentadas pelo autor, respostas aos problemas de participação cívica e política da Região através de 263 inquéritos válidos. Nestes analisamos: os conhecimentos cívicos e políticos; a participação cívica (nomeadamente as atitudes, comportamentos cívicos e oportunidades de participação); a disposição para a participação cívica futura; a cidadania na escola (as atitudes e oportunidades de participação); as atitudes políticas (como a informação e o debate político); as atitudes face ao funcionamento do sistema político regional e nacional; e os alinhamentos ideológicos e partidários; atitudes em relação a reformas políticas e à religião.

Os resultados que obtivemos foram de um modo geral animadores quanto ao futuro e estamos convencidos que com este trabalho, nomeadamente com a análise realizada e com as sugestões apresentadas, fizemos um serviço aos Açores e aos açorianos.

Capítulo II

A Cidadania

1. A evolução do conceito de cidadania

1.1 As concepções clássicas de cidadania

Embora a cidadania seja “tão velha como as comunidades humanas sedentárias”, surgiu desde logo sob o estigma da dialéctica inclusão-exclusão definindo “os que são e os que não são membros de uma sociedade comum” (Barbalet, 1989: 11). Note-se o paradoxo: numa “sociedade comum” uns são “membros” outros não, isto é, participam mas não fazem parte. Por isso, José Machado Pais (2005: 55) considera com propriedade que “tradicionalmente o conceito de cidadania estabelece fronteiras e margens entre sociedades e grupos. Uns são enquadrados (os “incluídos”), outros desenquadrados (os excluídos, os marginais) ”.

As origens mais profundas das concepções de cidadania remontam à cidade-estado grega, no século VI a. C., onde ser cidadão contemplava a dupla exigência do direito e, principalmente, do dever de participação efectiva nos assuntos políticos da sua comunidade, ou seja, da polis 1 (Cidade, a comunidade política principal, ou Estado como hoje lhe chamamos). Esta matriz, cujo principal teorizador foi Aristóteles (séc. V a. C.) com o seu inesgotável tratado “Política”, constitui um modelo para a posteridade junto com a matriz da Roma republicana (esta especialmente a partir do Renascimento). Parte significativa das ideias essências destas matrizes, a que chamamos “herança clássica”, prevalece até aos nossos dias. (Sobral, 2007: 137; C. Amaral, 2007: 162; F. Amaral, 2007: 30).

Todavia, não poderíamos deixar de frisar que em ambas as sociedades eram sociedades guerreiras e, por isso mesmo, militarizadas cujo modelo económico, social e político se baseava na inclusão total ou parcial de alguns poucos, cerca de 10% (Paixão, 2000: 4) que constituíam uma elite privilegiada, principalmente pelo nascimento, e pela exclusão da grande maioria dos demais por intermédio do escravatura ou da servidão – sistemas que espoliavam a esmagadora maioria da

1 Na Grécia antiga durante a época arcaica, clássica ou no helenismo nunca houve uma unidade política a uma escala que hoje diríamos nacional, ou seja, de acordo com a concepção moderna de Estado-nação. Neste período, por Grécia entendemos o aglomerado de cidades-estados (Atenas, Esparta, Corinto, Tebas, etc.) que partilhavam uma cultura e identidade comum num determinado mas vasto território. A única comunidade política que os gregos antigos conheceram foi a cidade-estado, a polis.

população de qualquer espécie de direitos, nomeadamente, civis, políticos e sociais. Não obstante o facto de o Império Romano ter utilizado a cidadania enquanto função integradora de assimilação dos homens livres das regiões conquistadas, o que era realizado outorgando a qualidade de cidadão a um cada vez maior número de pessoas (Paixão, idem), Conceição Nogueira e Isabel Silva classificam a concepção romana de cidadania como: “um primeiro exemplo da utilização da cidadania como estratégia de normatividade para garantir o controlo social” (2001: 18).

Tendo em conta este contexto, tanto a matriz de cidadania grega como a romana não poderiam deixar de padecer de, embora distintas, exclusões. Assim, e de acordo com Aristóteles, enquanto na polis grega ficavam excluídos da cidadania as crianças, os velhos, os escravos, os condenados, os metecos e outros estrangeiros e as mulheres (F. Amaral, 2007: 30; Paixão, 2000: 4), na Roma republicana havia ainda uma outra forma de exclusão consubstanciada na distinção social entre patrícios e plebeus que era o suficiente para inviabilizar qualquer direito político aos segundos, que embora gozassem do estatuto de cidadãos romanos era-lhes vetada a possibilidade de participação política exclusiva aos patrícios sobretudo por intermédio do senado (Fieschi e Varouxakis, cit in Sobral, 2007: 138).

Desde o seu início, a cidadania tem estado intrinsecamente ligada à pertença a uma entidade política territorial, isto é, a um Estado (ou polis, como lhe chamavam os gregos). Existe portanto uma irrefutável interdependência histórica entre as concepções de cidadania e de Estado. Na Grécia: “a cidadania e a polis eram uma e a mesma coisa” (Nogueira e Silva, 2001: 16). E por cidadania entende-se a situação política de qualidade ou privilégio perante o Estado de quem é cidadão. (F. Amaral, 2007: 29). Assim ser cidadão significa pertencer na qualidade de membro completo ao Estado – algo que o distingue do escravo, que tem um dono e funciona como instrumento deste, ou do súbdito, que depende de um soberano ou patriarca (Maltez,

2009: 1). E intrínsecos à cidadania estavam o dever de participação na vida do Estado

e a possibilidade de ser eleito para cargos públicos. Estes deveres “eram percebidos

pelos cidadãos como oportunidades para serem virtuosos e servirem a sua comunidade.” (Nogueira e Silva, 2001: 17). Porém, como argumenta Maria Praia (1999: 10) “esta concepção grega de cidadania fazia a distinção entre o cidadão e o

súbdito, considerando-os desiguais e dando primazia ao cidadão-homem”.

A

categoria qualitativa de cidadão-homem era no entanto uma categoria de exigência

e

de obrigações. Os “cidadãos eram aqueles que, diariamente, eram convocados a

participar do exercício concreto do poder político” (C. Amaral, 2007: 163) que podia assumir uma variedade de facetas, desde a adopção de normas reguladoras ao planeamento e coordenação política, militar, económica, social e cultural da vida comunitária, além da execução da justiça. Os gregos entendiam o exercício do poder político como a mais nobre e prestigiada actividade que alguém poderia efectuar e a política como o mais importante dos saberes. Deste modo, a vivência política activa em comunidade assumia um profundo significado para quem possuía o estatuto de cidadão; além de conferir distinção social (só os cidadão podem exercer a política) era por este meio que se podia participar na definição dos valores que formam a comunidade, na sua direcção e no estabelecimento de um nível de qualidade de vida para os cidadãos e para os não cidadãos, além de definir quem pode e quem não pode usufruir do estatuto de cidadão.

Sendo assim, aqueles que embora cidadãos se distanciavam voluntariamente da participação cívica condenavam-se a uma existência sem brilho nem glória, afastada do estatuto elitista, mas de dever e responsabilidade, de “cidadão-homem”. Para este afastamento da actividade política, isto é, para a ausência de uma efectiva participação cívica comunitária, os gregos definiram um conceito para designar os que se alheavam ou se deixavam alhear dos seus direitos e deveres cívicos: a idiotia. Logo, por idiotas eram tidos todos os cidadãos que não contribuíam para o bem-estar colectivo, ou seja, os que abdicando do seu direito/dever de cidadania não participavam na condução e definição do desempenho público do Estado (idem: 165).

Contudo, desta ligação entre cidadania e exercício do poder político criava com naturalidade uma situação de extrema desigualdade. As mais extravagantes exibições de desmesurada riqueza ocorriam num ambiente de miséria absoluta. Os mais ricos eram os que exerciam o poder, ou seja, os que rodeavam os soberanos, possuíam cargos administrativos e faziam parte da oligarquia das grandes cidades. A pujança do comércio mediterrânico associado à produção de leis que regulam esse mesmo comércio por parte dos mesmos actores origina uma confusão entre a ideia de poder e a ideia de riqueza – do que resultava o afastamento de quase toda a população do poder. (Blázquez, 2006: 200).

Estas antigas e ultrapassadas, mas não de todo obsoletas sobretudo no que respeita aos deveres cívicos, concepções de cidadania da Grécia antiga e da Roma republicana cunharam para a posteridade uma inegável influência que perdura até aos nossos dias, nomeadamente ao nível das constituições dos actuais países e serviram

de alicerce à concepção de cidadania do republicanismo cívico (Ferreira, Miranda e Alexandre, 2002: 2). No nosso entender, alguma desta herança é negativa como o carácter exclusor e limitado do conceito de cidadania, a ligação conceptual entre cidadania e Estado, além do facto destas concepções de cidadania incidirem essencialmente em termos deveres e não tanto de direitos (Kymlicka, 2003: 2; Nogueira e Silva, 2001: 17). Contudo, também entendemos como justo sublinhar que parte significativa dos deveres de participação cívica dos cidadãos encontra o seu berço nas ideias e teorias da antiguidade clássica.

Além da revelação do perigo que pode decorrer da confusão entre poder político e poder económico, podemos ainda retirar destas matrizes constatações importantes como a de que o afastamento das populações em relação ao poder e à produção de leis origina pobreza e desigualdade. Dito de outro modo, aqueles que estão excluídos do exercício dos direitos e deveres de cidadania estão também excluídos económica e socialmente. Este ponto em particular encontra-se perfeitamente actualizado se tivermos presentes as actuais dificuldades para acesso à condição de cidadão que enfrentam numerosos imigrantes residentes (muitos dos quais durante prolongado período) em Portugal e nos Açores sem nenhum tipo de direitos cívicos e sociais e, portanto, vitimas do que esta ausência significa.

O desprestígio da condição – idiotia – a que eram votados os cidadãos que, apesar de usufruírem dos seus direitos de cidadania, deles se alhearem voluntariamente ou por displicência é compreensível face à realidade de que “sem a participação dos cidadãos na governação não há política, até porque a polis não passa de uma colectividade de cidadãos” (Maltez, 2009: 1). E é também uma ideia igualmente a reter tendo em conta os níveis de abstenção eleitoral elevados, a crise do associativismo e da participação cívica e política e ainda o excesso de individualismo/egoísmo e da quase ausência de participação pública e social que tão negativamente afectam as sociedades contemporâneas.

1.2

A concepção moderna de cidadania

Depois das invasões bárbaras que determinaram a queda de Roma em 476 d. C., estas concepções de cidadania desapareceram do pensamento político europeu,

permanecendo ausentes durante todo o feudalismo 2 medieval, período durante o qual

a anterior ligação cidadão-Estado fora substituída pela ligação de vassalo-senhor, sendo esta baseada na fidelidade pessoal e individual do vassalo para com o seu senhor ou suserano. Algo que significa uma ruptura completa com as concepções clássicas de cidadania.

A partir do século XVI, o absolutismo monárquico 3 , um pouco por toda a parte, começa

a suceder ao feudalismo enquanto sistema político dominante, o que acarreta a

substituição da ligação vassalo-senhor pela ligação súbdito-soberano, mais de acordo com a dominação absoluta do monarca. No entanto, com o renascimento e o republicanismo que este desencanta, a cidadania volta timidamente a entrar no léxico político resultado da sua consciencialização por parte dos indivíduos da sua condição de cidadão – o que muito se deve à doutrina do Humanismo.

Todavia, teríamos de aguardar pelo surgimento da Revolução Inglesa (1688) e, sobretudo, da Revolução Americana (1776) e da Revolução Francesa (1789), que marcam o início da modernidade, para que o conceito moderno de cidadania fosse desencadeado penetrando definitivamente no quotidiano da humanidade (Paixão, 2000: 5). De acordo com José Manuel Sobral (2007: 139), a partir da Revolução Americana foi substituída a ideia de súbdito pela de cidadão, enquanto a Revolução

2 O sistema feudal de sociedade que teve o seu início após a queda do Império Romano (séc. V) vigorou, embora de forma distinta consoante as regiões, até ao final do Antigo Regime, em 1789 (séc. XVIII). Este sistema assentava num contrato de fidelidade entre um vassalo e um senhor com a denominação de homenagem, no qual o vassalo fazia um juramento, sobre a Bíblia, de fidelidade pessoal total ao senhor que, por sua vez, concedia ao vassalo um benefício ou feudo, que poderia assumir várias formas como um domínio, cargo, emprego ou mesmo a simples permanência de residência em propriedade do suserano. Tudo dependia da importância social do senhor e do vassalo. O acordo ficava selado com um beijo – o beija-mão. Toda a sociedade se encontrava enredada nestes vínculos de fidelidade que uniam de forma hierárquica todos os indivíduos sem excepção, desde o servo até chegar ao rei. 3 O absolutismo monárquico consagra uma tendência para a centralização do Estado que já se vinha a verificar desde o final de idade média. Neste sistema, a autoridade do rei sobre toda a sociedade era total, e todos os indivíduos, independentemente da sua condição social, eram antes de mais súbditos do rei. Esta fidelidade sobreponha-se a todas as demais e o monarca só devia responder pelos seus actos perante Deus.

Francesa transformou a cidadania num conceito-chave da mudança revolucionária, definidor de igualitarismo antifeudal, de estatuto de cidadão com direitos individuais consagrados pela Declaração do Direitos do Homem e do Cidadão (1789), além da identificação da soberania popular com a universalidade dos cidadãos.

No entanto, e sem exagero, podemos considerar o Estado-nação como o principal legado da concepção moderna de cidadania. “Parece inquestionável que a centralidade institucional do Estado-nação foi a referência maior, no plano jurídico- político da modernidade” (Pureza, 2007: 74). Realmente a modernidade consagrou a afirmação da comunidade nacional, a centralidade do Estado e a soberania territorial enquanto conceito-chave determinante para uma representação do mundo baseada na segmentação territorial e jurisdicional. O que nos coloca perante o facto irrefutável de que “o labor principal da modernidade consistiu na construção da comunidade nacional como comunidade imaginada por excelência” (Ibid.).

A matriz da cidadania moderna radica, portanto, na condição de pertença a uma

determinada comunidade nacional. Alicerce sobre o qual se ergueu o Estado moderno, resultado de duas condições fundamentais: a progressiva centralização

governamental, conseguida pelo absolutismo monárquico entre os séculos XVI e XVIII,

e a ascensão do nacionalismo enquanto ideologia agregadora de um grupo social

habitante num determinado território (Carvalhais, 2004: 46). Independentemente da ideia que façamos da modernidade é incontestável que este período foi dominado “pela persistência aglutinante do facto nacional como aglutinante, mesmo perante clivagens como as de classe, também relevantes no mesmo período.” (Sobral, 2007:

142).

Assim, por Estado-nação podemos entender uma entidade política que, num determinado território, representa um povo que constitui uma nação. “O tríptico Estado-Povo-Território constitui o quadro de possibilidades de expressão da cidadania moderna. A correspondência espacial e temporal entre os três vértices desse triângulo foram assumidos como condição de normalidade do exercício da cidadania.” (Pureza, 2007: 75). Construção que, diga-se de passagem, obteve um êxito generalizado e duradouro: “aquele tipo de Estado que se originou das revoluções francesa e americana impôs-se mundialmente.” (Habermas, 2001: 80).

O moderno Estado-nação caracteriza-se desde logo pela construção simbólica de uma

identidade nacional partilhada em exclusivo pelos cidadãos de um determinado território. “A identidade nacional assenta no sentimento de se pertencer a uma nação,

com os seus símbolos, lugares sagrados, cerimónias, heróis, história, cultura e território” (Guibernau, cit. in Sobral 2007: 142). O que obriga a uma laboriosa edificação realizada pelo poder do Estado.

Assim, nessa produção de uma identidade nacional pelo Estado implica ter em conta o papel determinante das ideologias nacionalistas. Estes discursos começam por criar uma separação entre “nós” (os nacionais) e “eles” (os não nacionais) para depois associar aos primeiros a adopção de uma única língua, cultura e destino colectivo comum e, preferencialmente, uma única religião partilhada pelos habitantes de um território delimitado por fronteiras e administrado por um só Estado. Por outras palavras, trata-se de dividir a humanidade em diferentes nações, cada qual com a sua identidade particular (Sobral, 2007: 145).

A partir do exemplo português, podemos conferir que essa edificação simbólica da nacionalidade necessita de recorrer a uma multiplicidade de pequenas construções simbólicas como: mitos ancestrais (“nós”, os portugueses, descendentes dos lusitanos, povo que habitou a península ibérica e que se opôs ao domínio dos “outros”, os romanos); heróis nacionais (Afonso Henriques, o “nosso” fundador da nação, contra os “outros”, os muçulmanos), feriados nacionais (o 1 de Dezembro, dia da restauração da “nossa” independência face aos “outros”, os espanhóis); hino nacional (que na sua versão original de 1890 estipulava: “Contra os bretões marchar, marchar!”, ou seja contra os “outros”, os britânicos); além da presunçosa admissão de uma singular especificidade de pensamento (a portugalidade) e de comportamento (o povo dos “brandos costumes”) como algo natural e não questionado. Tudo em benefício da criação do simbolismo cultural de um povo. “Somente a construção simbólica de um povo faz do Estado moderno o Estado nacional” (Habermas, 2001: 82). Deste modo, a história do Estado moderno revela-nos que no seu processo de construção e consolidação de poder estabeleceu o critério da nacionalidade como condição indispensável para o acesso à cidadania, do que resulta a “maquinação de uma sinonímia artificial entre cidadania e nacionalidade” (Carvalhais, 2006: 109).

Contudo, é a partir da edificação do Estado moderno que os direitos civis e políticos deixaram de ser um privilégio restrito a determinados grupos sociais ou pessoas para se disseminarem pela generalidade da população no contexto da nação. E foi a Revolução Francesa que, em 1789, sob a influência das ideias de Jean-Jacques Rousseau instituiu uma nova concepção de cidadania enquanto estatuto universal e

igualitário consagrando a centralidade dos direitos dos cidadãos através da

Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (Nogueira e Silva, 2001: 42).

No entanto, para uma apresentação mais detalhada da cidadania enquanto conquista

de direitos temos necessariamente que fazer referência à influente exposição de

Thomas Humphrey Marshall intitulada “Cidadania, Classe Social e Status” (1950), que

é o objecto de estudo do nosso trabalho que se segue.

2. O desafio ao conceito de cidadania

2.1 Cidadania Social

Como vimos, a cidadania começa, na Grécia antiga e na Roma republicana, por ser

vista em termos de deveres – os cidadãos eram legalmente obrigados a assumir

cargos públicos em detrimento da atenção concedida à sua vida privada. Só com o

advento da modernidade é que a cidadania começa a ser vista em função de direitos –

os cidadãos têm o direito de dar prioridade aos seus compromissos privados em

detrimento da sua participação política (Kymlicka, 2003: 2). Mas se houve coisa que a

nossa época (que vários autores designam como pós-moderna) trouxe de positivo em

termos de cidadania foi o facto de ter finalmente colocado a tónica nos direitos em vez

dos deveres.

Para isso, foi decisiva a influente exposição “Cidadania, Classe Social e Status” (1950)

concebida, no imediato pós-guerra, pelo sociólogo inglês Thomas Humphrey Marshall.

Neste ensaio, que embora nem sempre devidamente reconhecido se tornou referência

incontornável no panorama da sociologia ocidental moderna (Picó, 2002: 10), Marshall

divide os direitos de cidadania em três elementos distintos: direitos civis, direitos

políticos e direitos sociais, aos quais atribui um período temporal correspondente e

instituições sociais pelas quais esses direitos são exercidos.

Assim os direitos civis surgiram no século XVIII e compreendem as liberdades

individuais de pensamento, opinião e religião, o direito à propriedade e a entrar em

contratos válidos e o direito à justiça (que permite defender e afirmar todos os direitos

em situação de igualdade). “Isto nos mostra que as instituições mais intimamente ligadas com os direitos civis são os tribunais de justiça.” (Marshall, 1967: 63). Enquanto os direitos políticos surgiram no século XIX e compreendem o direito de participar no exercício do poder político, como eleitor e como membro de um organismo político. “As instituições correspondentes são o parlamento e o governo

local.” (ibid.). E por fim os direitos sociais que se estabeleceram no século XX e asseguram uma gama de direitos que incluíam o direito a um certo nível de bem-estar

e a uma segurança garantida em termos de saúde, educação, desemprego e reforma,

além do direito de participar do património comum da sociedade e a levar uma vida civilizada de acordo com os padrões que prevalecem nessa sociedade. “As instituições mais intimamente ligadas são o sistema educacional e os serviços sociais”. (ibid.). De acordo com Barbalet (1989: 19), “o ponto principal de tudo isto é que os diferentes elementos de cidadania têm diferentes bases institucionais e, em alguns aspectos significativos, histórias diferentes.”

O trabalho de T. H. Marshall teve como referência a situação britânica e foi desenvolvido numa época de esperança universal – a II Grande Guerra terminara em 1944 e em 1948 a ONU decretou a Declaração Universal dos Direitos Humanos como

o ideal comum a atingir por toda a humanidade. Neste período de 1945 a 1951, o

Reino Unido começou a edificar o seu Estado-Providência depois do Partido Trabalhista liderado por Clement Attlee e profundamente influenciado pelas teorias económicas de John Maynard Keynes ter derrotado o Partido Conservador de Winston Churchill. Numa época em que se processava uma recuperação depois da devastação social provocada pela brutalidade do conflito militar, Marshall teve o extraordinário mérito de ter sido o primeiro a colocar a cidadania social no léxico da cidadania.

No seu excepcional ensaio, Marshall apresenta a evolução histórica da cidadania numa sequência temporal de conquista de direitos pelos cidadãos que se teria iniciado no século XVIII (direitos civis, como o direito à liberdade de trabalho), passando pelo século XIX (direitos políticos, com o alargamento do direito de voto) e culminado no século XX (direitos sociais, com o passo fundamental do crescimento da educação pública elementar). Embora tenha chamado a atenção que estes períodos a que correspondem cada um dos elementos devem ser “tratados com uma elasticidade razoável” (Marshall, 1967: 66), uma vez que estes desenvolvimentos separados têm tendência para se sobreporem, em especial os direitos políticos e direitos sociais; devem ainda ser entendidos como exclusivamente referentes à realidade britânica e

não à realidade mundial. É, por exemplo, patética qualquer tentativa de extrapolação

da tipologia de Marshall aplicada à realidade portuguesa.

Marshall entendeu que, embora o desenvolvimento da cidadania no Reino Unido

coincida com a ascensão do capitalismo, no século XX a cidadania e o capitalismo

entraram em guerra. As diferenças insanáveis derivadas do facto de ambos

representarem princípios diferentes – o capitalismo a desigualdade, a cidadania a

igualdade – vieram ao de cima (Sobral, 2007: 140). Deste modo, ao denunciar que a

cidadania se pode tornar numa fonte de desigualdade social legitimada (Araújo, 2007:

90), a sua proposta defende que o enriquecimento da cidadania através da cidadania

social poderia contribuir para a diminuição das desigualdades económicas.

“O objectivo dos direitos sociais constitui ainda a redução das diferenças de classe, mas adquiriu um novo sentido. Não é mais a mera tentativa de eliminar o ónus evidente que representa a pobreza nos níveis mais baixos da sociedade. Assumiu o aspecto de acção modificando o padrão total da desigualdade social. Já não se contenta mais em elevar o nível do piso do porão do edifício social, deixando a superestrutura como se encontrava antes. Começou a remodelar o edifício inteiro e poderia até acabar transformando um arranha-céu num bangaló.” (Marshall, 1967:

89).

Marshall, portanto, não defendia um igualitarismo absoluto e entendia as diferenças de

estatuto como legítimas, especialmente as associadas à educação e à ocupação

profissional, desde que não fossem excessivamente profundas nem a expressão de

um privilégio adquirido por via hereditária (Sobral, idem). Respeitando a inviolabilidade

da propriedade privada e dos mecanismos de mercado (Fraser e Gordon, 1995: 32)

compreendeu que as sociedades hierarquizadas podem trazer uma melhoria da

situação dos grupos sociais mais desfavorecidos ao mesmo tempo que mitigava as

tensões entre classes sociais desiguais (Araújo, 2007: 91), uma vez que acreditava

que esta relação antagónica entre cidadania e desigualdade poderia contribuir para

que se modificassem uma à outra (Barbalet, 1989: 24).

De todo o contributo de Marshall importa retermos sobre a Cidadania Social, porque é

este o contributo fundamental do autor para a posteridade. Ao contrário dos direitos

cívicos e dos direitos políticos que possuem uma base universal, os direitos sociais

estão organizados segundo as necessidades económicas e sociais concretas dos

cidadãos. Ou seja, funcionam como mecanismos institucionais compensatórios da

igualdade política dos cidadãos em relação às desigualdades económicas decorrentes

das relações de mercado (Mozzicafreddo, 1997: 181). Deste modo, os cidadãos

portadores de condições económicas e sociais precárias podem, através dos direitos sociais que lhes são atribuídos e lhes possibilitam o acesso a serviços sociais públicos (na educação, saúde e segurança social), adquirir as condições políticas necessárias para uma desejada participação cívica e política na sua sociedade. Como refere Mozzicafreddo (idem: 182), “o elemento social de cidadania não se refere à capacidade de executar os direitos de cidadania, mas sim às possibilidades de atribuição de recursos e capacidades necessárias ao exercício desses direitos”.

Todavia, a concretização desta igualdade entre todos os cidadãos por intermédio dos direitos sociais encontra-se dificultada em virtude de os serviços públicos nas nossas sociedades sofrerem de uma estigmatização por terem um carácter de assistência gratuito ou semi-gratuito. E em sociedades capitalistas reguladas pela lógica do mercado o que é pago é sinónimo de qualidade e o que é gratuito da falta dela. Chavões como “o que é caro é bom” ou “se fosse bom não era dado” banalizaram-se completamente entre nós, contando com a nossa conivência ou com a nossa passividade perante os mesmos – algo que se repercute num comportamento pernicioso da nossa parte perante serviços públicos essenciais à cidadania como as escolas ou os hospitais públicos. “No domínio dos serviços sociais a palavra «público», que o mesmo é dizer, «estatal» tem amiúde um sentido pejorativo” (Fraser e Gordon, 1995: 28).

Neste aspecto, o que desde logo importa mudar é a mentalidade das populações em relação ao serviços públicos e de quem deles legitimamente usufrui. Para o efeito, é indispensável reabilitar a ideia de «serviço público» que tem vindo a sofrer uma sistemática descredibilização. Muito desse desvalor provém do facto de serem os cidadãos mais carenciados que fazem uso preferencial desses serviços. E a necessidade de distinção social das classes sociais mais favorecidas passa pelo distanciamento e desprezo perante o «público», isto é, perante o que é de todos em benefício do que é apenas para alguns. Daqui resulta uma hostilidade perante o Estado-Providência que, sublinhamos, deriva do seu carácter assistencialista, tendencialmente gratuito e do seu acesso universal.

O Estado-Providência é a instituição política e social basilar para promover a igualdade e o respeito pela dignidade humana entre todos os cidadãos, era esse o ideal de cidadania de Marshall, ou seja o Estado-Providência social-democrata que ao garantir direitos civis, políticos e sociais a todos assegura que todos os membros da sociedade possam participar plenamente na vida comum da sociedade (Kymlicka,

2003: 2). Por isso, a sua existência deve ser entendida como um direito inalienável de todos os cidadãos e um compromisso com os princípios da liberdade, igualdade e fraternidade (Picó, 2002: 19). E não como uma qualquer espécie de serviços de “segunda categoria” para cidadãos também de “segunda categoria” financiados a contra-gosto pelos cidadãos de “primeira categoria”, como entendem os conservadores.

A cidadania social, consubstanciada pelo Estado-Providência, surge-nos na figura de direitos sociais essenciais, como o direito a uma provisão social que garanta um padrão de vida decente a todos os cidadãos, onde se incluem o direito à educação, à saúde e à segurança social em caso de desemprego e pobreza. Todavia, a generosidade destes argumentos não é suficiente para mobilizar todos os cidadãos para a sua edificação, nem sequer para a manutenção dos direitos sociais já adquiridos. Trata-se de uma batalha onde todos os contributos são necessários para que a cidadania social se torne uma conquista civilizacional. Esta batalha da cidadania social, ou antes, a batalha pelos direitos sociais não só não está ganha como ainda pode ser perdida. A conquista dos direitos sociais é apenas uma aspiração e não o fim da história do conceito de cidadania conforme considerou Marshall (Nogueira e Silva, 2001: 30). A recente tentativa de reformar o sistema de saúde norte-americano, pelo Presidente Barack Obama, de modo a possibilitar o acesso a cuidados de saúde públicos a 47 milhões de norte-americanos que não dispõem de cobertura médica privada e a poderosa resistência conservadora que esta medida tem enfrentado é disto um cabal exemplo.

Os argumentos dos conservadores assentam na lógica do contrato civil, como de forma brilhante expuseram Nancy Fraser e Linda Gordon (1995: 33). Nesta forma contratual “os beneficiários de assistência recebem algo a troco de nada, enquanto que os outros têm de trabalhar, violando assim os princípios da troca igualitária.” O que nos remete para a preponderância duma lógica comercial mesmo em questões de dignidade humana. Algo moralmente inaceitável que reclama por uma mudança de mentalidade no sentido de que “quem goza de «cidadania social» é de «direitos sociais» que deve beneficiar e não de «esmolas».” (idem: 28).

Porém, os conservadores argumentam com a virtude da auto-suficiência, segundo a qual para que a cidadania activa seja promovida é necessário reduzir as regalias do Estado-Providência dando mais responsabilidade aos cidadãos sobre o destino das suas vidas, considerando este aspecto fulcral para a auto-estima individual e para a

aceitação social (Kymlicka, 2003: 3). Alegando que as provisões típicas do Estado- Providência não são dignificantes nem libertadoras para as pessoas sendo, pelo contrário, “causadoras da sua continua pobreza e de uma dependência doentia que as incentiva ao ócio, à alienação de si mesmas e à maior degradação da sua condição humana” (Carvalhais, 2004: 90). Um argumento muito perigoso a nível social, potencial fonte de ódio e estigmatização social, uma vez que coloca a pobreza e a exclusão social como uma opção individual e não como uma fatalidade, além de persuasor da superação da miséria como uma obrigatoriedade (ibid.). Como vemos, a cidadania social ainda está longe de ser concretizada e já estamos no século XXI.

Embora o brilhantismo da proposta de T. H. Marshall seja por demais evidente, isto não significa que a devemos aceitar acriticamente. Desde logo por não compreender outros direitos fundamentais como os direitos culturais, económicos e ecológicos, além de nos remeter para uma perspectiva evolucionista que a realidade se encarregou de negar a validade, sobretudo no que toca à consolidação da cidadania social (Lima, 2005: 74). Além da pouca consistência e coerência dos seus três elementos de cidadania com a sua evolução temporal, boa parte da sua análise conceptual também não resistiu à passagem do tempo, isto é, à mudança das circunstâncias políticas e sociais dos últimos 50 anos (Picó, 2002: 20).

Outra crítica ao legado de Marshall relaciona-se com o facto de conviver com a exclusão das mulheres da cidadania, condenadas a uma cidadania parcial, centrando a sua atenção, quase em exclusivo, na integração social dos operários brancos (Araújo, 2007: 91) e nacionais, relegando ao esquecimento os cidadãos de outras raças e nacionalidades. É, aliás, lamentável que tenha faltado a Marshall o arrojo de uma concepção de cidadania liberta da lógica moderna da nacionalidade, chegando inclusive a reiterar que “a cidadania (…) é, por definição, nacional” (1967: 65).

Contudo, é nosso dever sublinhar que os aspectos positivos da proposta de Marshall superam em larga medida os negativos. A concepção de cidadania social foi um contributo teórico fundamental para a justiça social nas sociedades capitalistas. O que por si só eleva T. H. Marshall ao estatuto de um dos maiores teorizadores sociais não apenas do século XX, mas de sempre. A atenção académica que a sua obra tem merecido um pouco por todo o mundo é um justo tributo que lhe prestamos, ao qual nós, neste nosso trabalho, honradamente nos associamos.

2.2 Cidadania Pós-Nacional

A atenção concedida neste trabalho à pertinente concepção pós-nacional de cidadania, defendida quase isoladamente por Isabel Estrada Carvalhais (2004; 2006), deve-se ao facto de pretendermos unir a nossa voz à da autora na reabilitação da cidadania política enquanto dimensão fundamental da cidadania. Tarefa que não tem contado com muitos apoiantes, uma vez que a dimensão social de cidadania ocupa, neste momento, a atenção da maioria dos investigadores em detrimento da cidadania política.

Não entendemos esta disputa pela atenção académica como se de uma guerra entre cidadania política e a cidadania social se tratasse. Nem é nosso objectivo escolher um dos lados da barricada para tentar descredibilizar ou desacreditar o outro. Simplesmente entendemos que a cidadania só pode ser completa se compreender simultaneamente as dimensões política e social (além da cívica) e não consideramos a cidadania política como uma dimensão já adquirida da cidadania, porque não o é. E não são poucos 4 os que embora vivendo entre nós não partilham connosco os mesmos direitos políticos. Refiro-me obviamente aos imigrantes não-nacionais ou nacionais de outros países para quem a aquisição de direitos políticos semelhantes aos cidadãos nacionais é a primeira das prioridades, como iremos demonstrar.

A origem deste mal radica num problema de natureza conceptual, isto é, na confusão entre os conceitos de cidadania e de nacionalidade (Sobral, 2007: 139) que se verifica desde a época moderna e que continua a se reflectir no plano do direito, embora conceptualmente sejam conceitos distintos. A título de exemplo, o próprio autor deste trabalho somente é portador de um Cartão do Cidadão que lhe confere a nacionalidade/cidadania portuguesa em virtude de reunir um dos dois critérios fundamentais para a atribuição da nacionalidade: o jus sanguinis (descendente de nacionais). Isto porque quem nasceu em Joanesburgo (África do Sul) não pode

4 Só nos Açores, estima-se que residam cerca de 5500 imigrantes portadores de 44 nacionalidades diferentes. A comunidade cabo-verdiana, que conta com a presença mais antiga no arquipélago, é a mais numerosa com cerca de 961 residentes, seguida da comunidade brasileira que tem registado um significativo acréscimo nas últimas duas décadas. Também a imigração vinda do Leste da Europa tem vindo a acentuar-se. De acordo com a Associação dos Imigrantes nos Açores (AIPA) a vinda de cada vez mais pessoas para o arquipélago deve-se em primeiro lugar a motivações laborais e, em menor número, de formação académica ou profissional.

invocar o critério do jus soli (natural de território nacional) para acesso à nacionalidade/cidadania portuguesa. Aliás, a Lei de Nacionalidade 5 é bem clara sobre este ponto quando determina na sua alínea a) do artigo nº 1 que: “são portugueses de origem os filhos de mãe portuguesa ou pai português nascidos no território português”.

Embora seja de certo modo evidente a ligação entre cidadania e democracia – não obstante o facto das teorias democráticas se centrarem sobretudo nas instituições e processos políticos ao passo que as teorias da cidadania se centram nos atributos individuais dos cidadãos (Kymlicka, 2008: 1) – podemos aferir que os critérios do jus soli e do jus sanguinis de acesso à cidadania nada têm de democrático, uma vez que ninguém escolhe a sua ascendência nem o seu local de nascimento.

Este aspecto não democrático da atribuição da cidadania ocorre do facto da atribuição do estatuto legal de direitos e deveres cívicos desde o surgimento do Estado moderno estar dependente de dois princípios incontornáveis para o indivíduo: a vontade do Estado enquanto gestor absoluto da sua atribuição; e a contingência do sujeito ser nacional de um determinado Estado-nação. Disto resulta que o Estado, enquanto gestor dos mecanismos de inclusão e exclusão, transforme o acesso à cidadania num privilégio praticamente exclusivo dos que são nacionais do território que administra (Carvalhais, 2006: 112).

Este paradigma de cidadania foi erigido sob uma lógica de aversão ao “outro”, isto é, em consequência de uma rejeição face à diferença e ao diferente, face ao estrangeiro. Um modelo exclusor por natureza e, portanto, antidemocrático e totalmente obsoleto tendo em conta a diversidade populacional e o consequente grau de exposição ao “outro” existente nas sociedades contemporâneas. E a resposta aos desafios da globalização não pode nem deve passar por aquilo a que Habermas (2001: 103) designa por “Politik des Einigelns” (Política de Porco-Espinho), ou seja uma espécie de

5 A quarta alteração da Lei da Nacionalidade (Lei Orgânica n.º 2/2006, de 17 de Abril) foi elaborada e aprovada no decurso de um conflito diplomático entre Portugal e o Canadá a propósito da ordem de deportação de mais de 70 famílias portuguesas (na sua maioria açorianas) daquele país. A iniciativa legislativa foi tomada com o objectivo de agilizar os processos de aquisição da cidadania portuguesa por parte de cidadãos não-nacionais após o ministro dos Negócios Estrangeiros, Diogo Freitas do Amaral, que reclamava contra a “falta de humanidade” da legislação canadiana sobre imigração, ter sido confrontado com os critérios “bastante mais razoáveis” desta pelos ministros Peter MacKay (Negócios Estrangeiros) e Monte Solberg (Cidadania e Imigração) quando comparados com os critérios da legislação portuguesa que estavam em vigor até ao final do primeiro trimestre de 2006.

proteccionismo neonacional que procura salvaguardar as identidades nacionais à custa do fechamento aos cidadãos não-nacionais.

Deste enquadramento e não sendo nosso objectivo sugerir a radical solução de abolição do Estado enquanto mecanismo regulador da sociedade, uma vez que o Estado “preenche importantes pressupostos para o sucesso do autocontrole democrático da sociedade que se constitui nas suas fronteiras” (Habermas, 2001: 80), apenas pretendemos dissociar as, distintas mas profundamente interligadas, concepções de nacionalidade e de cidadania, ou seja, desnacionalizar a cidadania.

Esta proposta de desnacionalizar a cidadania surge como resposta às manifestas limitações da capacidade inclusora da lógica nacional de acesso à cidadania, feita a expensas da integridade de outras identidades nacionais, algo inaceitável do ponto de vista democrático e condenável do ponto de vista moral. É compreensível que cada sociedade deseje preservar a sua identidade nacional, mas já não é tão compreensível que essa mesma sociedade imponha essa sua identidade nacional aos seus habitantes não-nacionais como condição sine qua nom de acesso aos direitos e deveres de cidadania. Como acertadamente sugere Isabel Carvalhais (2006: 113) existe nas sociedades democráticas do século XX uma “necessidade de proceder a uma desnacionalização da sua cidadania, de forma a torná-la num conceito dependente já não da nacionalidade mas da inalienável condição humana do indivíduo”.

Deste modo, com a concepção pós-nacional de cidadania pretende-se reequacionar o modo como as sociedades contemporâneas incluem os seus habitantes independentemente da sua nacionalidade, isto é, possibilitando-lhes a integração plena com direitos cívicos, políticos e sociais sem exigir em troca adopção da nacionalidade – que geralmente ocorre pela naturalização ou pela dupla nacionalidade (Carvalhais, 2006: 114). Contudo, isto envolve uma mudança de fundo na relação estado-indivíduo além de uma alteração da acção do Estado no sentido em que esta se desloque da ideia de pertença nacional para a ideia de direitos humanos, o que implica a mudança estrutural de deixar cair o conceito de Estado-nação permanecendo somente o conceito de Estado. Assim, “o estado legítimo, o estado de direito, é agora o estado que respeita e promove os direitos humanos” (idem: 113).

A história da cidadania é inegavelmente “uma história de inclusão e de exclusões” (Sobral, 2007: 138). O que colocamos em causa é o princípio de imposição de uma exclusão, ou seja, a validade de uma exclusão. Algo que passa por essa exclusão ser

consentida e não imposta, negociada e não ditada, flexível e não absoluta” (Carvalhais, 2004: 201) porque, desde sempre, a dimensão não democrática da cidadania reside precisamente no facto de as exclusões serem impostas e não discutidas, indesejadas em vez de desejadas. Isto decorre do facto dos critérios de admissão (como o jus sanguinis e o jus soli) à cidadania serem historicamente definidos em função da nacionalidade.

Todavia, nada justifica que a cidadania continue a ser definida em função da nacionalidade. A cidadania deve, pelo contrário, ser definida em função da racionalidade e da democraticidade. O que passa pela substituição conceptual de um modelo de cidadania nacional por um modelo de cidadania pós-nacional. Sendo este “um modelo que define o direito de admissão de um indivíduo não em função da sua nacionalidade ou de qualquer outra lealdade grupal, mas em função da sua vontade em participar na esfera das decisões públicas da sua sociedade” (Carvalhais, 2004:

202). É esta a solução para que a exclusão deixe de ser algo imposto e passe a ser algo objecto de discussão, em benefício da democracia e da inclusão social.

No nosso entender, a concepção pós-nacional de cidadania não pretende inverter ou contrariar a ordem sequencial de conquistas de direitos proposta por T. H. Marshall (1950). Todavia, consideramos que Marshall definiu toda a sua linha clássica prisioneiro da lógica nacional de cidadania (Sobral, 2007: 140) sem ter em consideração que esta não se aplica aos cidadãos não-nacionais. Os quais possuem somente alguns direitos cívicos faltando-lhes conquistar os direitos políticos para só então verem consagrados os seus direitos sociais, porque sem direitos políticos não existem direitos sociais. Nesse sentido, “o resgate da cidadania política surge como fundamental na dignificação das restantes dimensões da sua cidadania” (Carvalhais, 2006: 116). E os imigrantes não estão alheados desta irrefutável circunstância.

“São necessárias políticas e aqui, na Região, poderíamos assumir um papel pioneiro e têm, de facto, sido dados passos importantes nesta matéria. Mas há um patamar a ser atingido e há que continuar a trabalhar para que estes “novos açorianos” possam fazer, verdadeiramente, parte da sociedade açoriana num sentido mais amplo. Seja no acesso ao mercado de trabalho, a questão da educação, da saúde, sendo que a questão política é, na minha opinião, um ponto essencial. Aqui, em especial, a Região poderia dar um passo ousado e servir de referência ao País, permitindo que as pessoas pudessem participar e dar o seu contributo na política. No fundo, são

questões que acabariam por fazer com que a integração pudesse, efectivamente, ser uma realidade.” (Paulo Mendes, Expresso das Nove, 30-4-2009)

Como se pode verificar nestas declarações de Paulo Mendes 6 , os imigrantes, nomeadamente nos Açores, percebem perfeitamente a importância da conquista dos direitos políticos. E não foi por acaso que a Associação de Imigrantes dos Açores (AIPA) lançou, em Agosto de 2007, a campanha “Quem não vota não conta” para sensibilizar os cidadãos estrangeiros sobre a importância do recenseamento eleitoral.

A adopção de um modelo pós-nacional de cidadania permitiria que todos os indivíduos que manifestam interesse em participar na comunidade política da sociedade da qual fazem parte pudessem fazê-lo de forma livre e voluntária. Algo que entendemos como justo, uma vez que se quem vive numa determinada sociedade está inevitavelmente sujeito às decisões políticas dos seus decisores políticos porque motivo não pode participar nessas mesmas decisões?

A cidadania pós-nacional é o meio pelo qual uma sociedade podia potenciar a participação política de todos os seus cidadãos na construção do bem-estar comum e – de acordo com a sugestão de Paulo Mendes – os Açores poderiam funcionar como o laboratório ideal para que uma efectiva experiência pós-nacional de cidadania se realizasse em Portugal.

6 Paulo Mendes, natural de Cabo Verde, é formado em Sociologia pela Universidade dos Açores e desenvolve a sua actividade profissional na área da economia solidária e das migrações sendo fundador e presidente da Associação de Imigrantes dos Açores (AIPA) e coordenador da Plataforma das Estruturas Representativas das Comunidades Imigrantes em Portugal. Autor do estudo "Ponte Insular: a Comunidade Cabo-Verdiana nos Açores" (2007) recebeu, em 2008, o prémio “Empreendedor Imigrante” atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian como reconhecimento do trabalho que tem vindo a desenvolver em prol dos imigrantes a residir no arquipélago e também no resto do país.

Capítulo II

A Região Autónoma dos Açores

1. A implantação e desenvolvimento do regime autonómico

1.1. Antecedentes históricos

A história da autonomia açoriana começa a escrever-se durante o final da monarquia constitucional portuguesa, mais concretamente nas últimas décadas do século XIX, numa altura em que o sonho romântico e liberal de uma Europa das nacionalidades começa a soçobrar perante a definitiva afirmação dos Estados-nacionais que, por regra, impõem os padrões sócio-culturais dos grupos sociais dominantes aos restantes sem respeitarem as especificidades etnoculturais das populações que submetem sem apelo à sua vontade política (João, 1991: 13).

A tendência centralizadora no plano político-administrativo, típica do Estado moderno, coadjuvada com o estrito controlo financeiro sobre todos os recursos públicos, conduziu a uma paralisia do investimento público no arquipélago num contexto de crise financeira que se sentiu de forma agravada em todo o território nacional nos primeiros anos da década de noventa. Os Açores sentiram com particular intensidade essa crise devido ao atraso estrutural, ao nível de técnicas agrícolas e industriais, da sua economia e à dependência desta em relação à economia nacional.

Neste cenário, de profunda carestia de subsistência que levaram a uma acentuado aumento da emigração, um conjunto de medidas tomadas pelo governo central de José Dias Ferreira e entendidas como contrárias aos interesses açorianos, entre as quais a uniformização da moeda (com a abolição da moeda insulana) como forma de compensação pela construção do cabo submarino que asseguraria as comunicações telegráficas com o continente, despoletou nos Açores a afirmação de uma “consciência insular” (idem: 247) que se caracterizou por um agudizar de tensões numa crescente e contundente animosidade para com o “metrópole”, numa altura em que o regime

monárquico constitucional agonizava com o desencanto patriótico decorrente do episódio do “ultimato inglês” (1890).

É neste contexto, com os jornais açorianos a falarem abertamente em independência ou em ligações de soberania com Inglaterra ou com os Estados Unidos da América, que surge o primeiro movimento em prol da autonomia política capitalizando o profundo descontentamento da população açoriana. Os seus principais dinamizadores foram Mont’ Alverne Sequeira e Aristides Moreira da Motta e o seu palco foi o distrito de Ponta Delgada, “o centro e a alma do movimento autonomista da década de noventa” (idem: 263).

Embora não existisse uma unidade política ao nível do arquipélago, estando os Açores divididos, desde 1836, em três distritos (Angra do Heroísmo, Horta e Ponta Delgada), evidencia-se uma efectiva consciencialização de uma identidade própria comum a todos os açorianos. A consciência de uma identidade pressupõe uma distinção em relação aos demais e a atribuição de um significado que lhe confira um valor concreto, cuja afirmação leva inevitavelmente a procurar uma expressão política que se estabelece num território e se afirma pela autonomia (Reis Leite, 2008: 147).

Estavam portanto reunidas as condições políticas e culturais para que em 1893 surgisse o primeiro movimento autonomista organizado subordinado ao lema “livre administração dos Açores pelos açorianos” que se consubstanciou na criação de uma lista política de candidatos autonomistas à Câmara dos Deputados pelo distrito de Ponta Delgada. Lista que após vencer o sufrágio logrou, após longas e difíceis negociações, obter junto do chefe do governo nacional, o açoriano Ernesto Hintze Ribeiro, o Decreto de 2 de Março de 1895, ou Decreto Autonómico como ficou conhecido na gíria política, que estabeleceu um sistema de autonomia administrativa para o distrito de Ponta Delgada e para os distritos açorianos que o desejassem (Monjardino, 1999: 150). Estava dado o passo político fundador da autonomia dos Açores.

No entanto, teríamos de esperar pelo início do século XX para que tivesse lugar o primeiro diploma com sanção parlamentar sobre o regime autonómico açoriano: a Carta de Lei de 12 de Outubro de 1901. Até ao final da Monarquia

Constitucional, em 1910, foi o tempo da criação e organização de novas estruturas distritais, as juntas gerais, sem que nenhum progresso autonómico significativo se registasse nos quinze anos de experiência de descentralização do regime monárquico. As juntas gerais eram uma espécie de “autarquias em ponto grande” (Reis Leite: 2008, 166) sem capacidade política e administrativa para resolver os problemas económicos e sociais do arquipélago.

A I República manteve praticamente inalterável o regime de descentralização já

consagrado durante a Monarquia Constitucional através da Lei nº 88 de 7 de Agosto de 1913. Neste período conturbado da política portuguesa, o projecto autonómico não conheceu avanços nem recuos, não obstante as várias incitativas de descentralização administrativa, algumas de índole federalista, concebidas pelos novos actores políticos republicanos no arquipélago (idem:

171).

O golpe militar de 28 de Maio de 1926 que instaurou a Ditadura Militar no país

foi bem aproveitado por promotores da autonomia açoriana como Feliciano António da Silva Leal, Luís Bettencourt de Medeiros e Câmara e José Bruno Tavares Carreiro que, num contexto de relativa desorientação política e financeira, conseguiram junto do governo de Vicente de Freitas um novo decreto autonómico, o Decreto n.º 15.035 de 16 de Fevereiro de 1928, em substituição do celebrado em 1895. O novo decreto permitiu uma reforma na organização das juntas gerais que lhes trouxe algum desafogo financeiro, atribuindo-lhes novas receitas e dispensando-as de algumas despesas (Monjardino, 1999: 151, Reis Leite, 2008: 177). Contudo, este avanço na administração distrital autónoma durou pouco. Ainda nesse ano, António de Oliveira Salazar ascende a ministro das Finanças e incute de imediato uma rígida política de controlo financeiro, elaborando um novo decreto, o Decreto 15.085 de 31 de Julho, em substituição do anterior que novamente cerceou financeiramente os distritos açorianos.

A afirmação do Estado Novo trouxe aos Açores, através da Constituição de

1933, o reconhecimento dantes inexistente da sua especificidade pois previa

uma lei especial para a administração das então chamadas ilhas adjacentes

que atendia às circunstâncias da insularidade, o que foi confirmado pelo Código Administrativo de 1936 (Reis Leite, 2008: 179). No entanto, o novo regime inaugura um negro período nas pretensões autonómicas açorianas.

O Estado Novo não admitia qualquer veleidade de autonomia política. A dureza do regime dissuadiu os próprios autonomistas açorianos de tomarem qualquer iniciativa nesse sentido, ao que se acrescenta a ascensão de uma nova classe de políticos no arquipélago, “todos antiparlamentaristas, antidemocráticos, fascizantes” (ibid.) alinhados com o regime e fervorosamente nacionalistas que chegaram mesmo a rejeitar, numa altura em que se discutia a divisão do território em províncias, a criação da província dos Açores.

Mas, a decisiva machadada que o Estado Novo empreendeu contra a autonomia política açoriana foi com a elaboração, por Marcelo Caetano, do Estatuto dos Distritos Autónomos das Ilhas Adjacentes de 31 de Dezembro de 1940 que perdurou, com algumas alterações de pormenor, até ao 25 de Abril de 1974. O Estatuto pode ser descrito como um conjunto encadeado de normas reflectindo a natureza autoritária e centralista do regime impondo uma autonomia limitada assente numa filosofia corporativista do Estado, prevendo uma divisão administrativa em três distritos (Angra do Heroísmo, Horta e Ponta Delgada) totalmente independentes entre si contrariando desta maneira uma possível unidade regional (Monjardino, 1999: 151). Deste modo, os Açores “passavam de novo a integrar-se na orgânica política e social do território continental” (Reis Leite, 2008: 182), enquanto aguardavam pela mudança que só poderia chegar pela revolução.

1.2. Implantação e desenvolvimento da autonomia açoriana

A revolução chegou a 25 de Abril de 1974 aniquilando o sistema político do Estado Novo e inaugurando um novo capítulo na História de Portugal. As colónias tornaram-se países independentes, a ditadura cede lugar à democracia, o municipalismo emerge como nova forma de organização democrática do território português e nos Açores a na Madeira consagra-se a autonomia política regional pela Constituição de 1976.

Como vimos, até à revolução de Abril os Açores permaneceram divididos em três distritos (Angra, Horta e Ponta Delgada), com três governadores civis nomeados pelo poder central, totalmente independentes entre si e que apenas respondiam perante a Lisboa. Divisão que não era ocasional nem inocente. De Acordo com António Barreto (1994: 275) tratou-se de uma “perversão paracolonial” que o Estado central alimentou para impedir que se criasse qualquer sentimento de unidade regional entre todas as ilhas. Como se já não bastasse a geografia…

Todavia, o facto da Igreja Católica no arquipélago estar organizada numa só diocese liderada por um só bispo serviu de exemplo de que uma unidade regional entre todas as ilhas não era uma quimera mas sim algo perfeitamente exequível. “A Igreja, sobretudo depois da criação da diocese em 1534, foi responsável pelo avanço da uniformização, contribuindo, mais do que qualquer outra instituição, para formar os Açores como território e unidade” (Reis Leite:

2008, 149).

Mas o que simbolicamente tornou possível a concretização da autonomia política açoriana foi a conjugação do conceito de autonomia com o conceito de região (Ferreira, 2008: 325). Apesar de diversas acepções, por autonomia podemos entender a capacidade de se governar a si próprio, determinando a sua vontade segundo as suas leis e costumes. Autonomia significa liberdade e dignidade da pessoa ou da comunidade, cooperando em vez de obedecendo, além de independência identitária (Barreto: 1994, 270). Enquanto região é um conceito histórico-geográfico, cultural, económico e político organizacional.

Mas, “acima de tudo, a região é também um edifício humano e uma construção identificacional” (C. Amaral, 1990: 75).

A passagem dos três distritos entre si desligados a uma unidade político-

administrativa, com um governo e um parlamento regional, foi no entanto um processo político conturbado. Os acontecimentos revolucionários no continente e a independência das antigas colónias, em especial, pela analogia insular, as independências dos arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, tiveram consequências nos Açores.

O clima de liberdade instaurado com o derrube da ditadura gerou uma onda de

euforia sem precedentes em todo o país. Nos Açores, depois de quase meio

século de alienação, a liberdade recentemente conquistada dava a sensação

de

que todos os caminhos para o arquipélago podiam ser possíveis no futuro.

E todos e tudo se lançaram a propor projectos, a situar-se perante os acontecimentos e as escolhas. Uns queriam a manutenção da portugalidade nacionalista, outros pretendiam apoiar-se no novo poder de Lisboa, para melhor introduzirem reformas políticas, sociais e económicas no arquipélago, mais alguns procuraram reatar o fio condutor das lutas autonómicas, e também surgiram os que preconizavam a independência. Todos procuravam uma nova identidade.” (Ferreira, 2008: 335)

O

desenrolar do processo revolucionário em Portugal, sobretudo durante o

período do “Verão Quente” de 1975, acirrou a animosidade entre os diferentes

projectos. Os conservadores, adversários do novo regime, provocam desestabilização nas ilhas e apoiam-se em movimentos separatistas como a Frente de Libertação dos Açores (FLA), que surge em Março do mesmo ano, um movimento que preconizava a independência do arquipélago e ganha protagonismo por intermédio da exploração da profunda religiosidade da população num espírito de cruzada contra o comunismo ateu que grassava em Portugal continental (Almeida, 1996: 45). Tem então lugar uma onda de agitação e violência nunca antes vista com manifestações separatistas, atentados bombistas e todo o tipo de agressões a pessoas e a bens, com carros e casas destruídos e incendiados. Os mais atingidos eram pessoas e partidos de esquerda como o PCP, o MDP e também o PS.

É neste contexto que a 6 de Junho de 1975 ocorre em Ponta Delgada uma

gigantesca manifestação de lavradores a pretexto do descontentamento com a situação da lavoura insular, que contou com a adesão de vários outros sectores da população, onde os manifestantes acabaram por derivar para reivindicações independentistas e pela exigência de demissão do governador civil, António Borges Coutinho, que aceita demitir-se e transfere as suas competências para

o comandante militar dos Açores, o general Altino de Magalhães, que tinha

conseguido controlar a manifestação servindo de intermediário nas negociações entre os manifestantes e o governador. José Medeiros Ferreira (2008: 342) classifica a manifestação de 6 de Junho como “ambivalente nos seus propósitos”, uma vez que “tanto pretendeu moderar e domesticar a revolução desencadeada em Lisboa, como desenvolver uma perspectiva independentista, para se cristalizar no regime de autonomia político- administrativa regional”.

Acalmados os ânimos, ainda nesse mês, numa reunião em Lisboa que contou com a presença de representantes açorianos, foi elaborada uma proposta de criação de uma Junta Governativa dos Açores que substituiria os governos civis e as juntas gerais lançando as bases para a existência de órgãos de governo únicos no arquipélago. A proposta, embora muito alterada, veio dar origem ao Decreto-Lei n.º 458-B/75 de 22 de Agosto, publicado pelo V Governo Provisório de Vasco Gonçalves, que criou a Junta Administrativa e de Desenvolvimento Regional, que rapidamente ficou conhecida por Junta Regional dos Açores. A partir daqui as várias ilhas dos Açores configuram-se politicamente unidas por um só poder.

A Junta Regional assumiu funções em Setembro de 1975, sendo presidida pelo

general Altino de Magalhães e composta por vogais escolhidos entre todas as forças políticas, mas não possuía competências próprias nem delegadas limitando-se ao exercício da gestão corrente nas áreas de intervenção herdadas das juntas gerais e dos governos civis dos distritos autónomos (idem:

353). Contudo, em Dezembro desse ano apresentou uma anteproposta de Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores que em

Janeiro de 1976 foi transformada em proposta a qual deu origem ao Estatuto Provisório de 1976, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 318-B/76 de 30 de Abril.

Na sequência da aprovação da Constituição da República Portuguesa de 1976 que, no seu Título VII, consagrou pela primeira vez o direito à autonomia política dos Açores é publicado Estatuto Provisório da Região Autónoma dos Açores pelo Decreto-Lei n.º 318-B/76 de 30 de Abril. Oitenta e um anos depois do Decreto Autonómico de 1895 estava assim criada a Região Autónoma dos Açores. Praticamente desaparecida a violência e acalmadas as tensões separatistas, realizaram-se, a 27 de Junho de 1976, as primeiras eleições para a Assembleia Legislativa Regional dos Açores (ALRA). O Partido Popular Democrático (PPD) vence o sufrágio e João Bosco Mota Amaral toma posse a 8 de Setembro de 1976 como o primeiro Presidente da Região Autónoma dos Açores.

Conseguida a autonomia, as entidades políticas regionais dedicaram-se de imediato a um processo de criação simbólica da identidade açoriana: a açorianidade. Os Açores passaram a ter uma bandeira, um hino e um brasão de armas que simbolizam a união entre todas as ilhas e entre todos os seus habitantes. E assiste-se a um esbatimento da ilha enquanto primeira referência identitária. Nenhuma das nove ilhas açorianas possui bandeira própria. A edificação de um canal de televisão regional, a RTP-Açores, enquadra-se nesse objectivo, mostrando os Açores aos açorianos, criando com a partilha noticiosa insular uma unicidade entre as ilhas.

A procura dos critérios «objectivos» de identidade «regional» ou «étnica» não deve fazer esquecer que, na prática social, estes critérios (por exemplo, a língua, o dialecto ou o sotaque) são objecto de representações mentais, quer dizer de actos de percepção e apreciação, de conhecimento e reconhecimento em que agentes investem os seus interesses e os seus pressupostos, e de representações objectais, em coisas (emblemas, bandeiras, insígnias, etc.) ou actos, estratégias interessadas de manipulação simbólica que têm em vista determinar a representação mental que os outros podem ter destas propriedades e dos seus portadores.” (Bourdieu, 1994:

112).

Com a instauração da autonomia política iniciou-se um processo de rápida e profunda transformação da sociedade açoriana. As primeiras grandes empreitadas do novo poder regional foram a criação de órgãos e serviços públicos regionais, ao mesmo tempo que vão sendo construídas infra- estruturas básicas necessárias ao desenvolvimento do arquipélago como novas estruturas (portos e aeroportos) de comunicações inter-ilhas e com o exterior. Reestrutura-se a rede rodoviária e a rede eléctrica e o saneamento básico chega a todas as zonas. Constroem-se novos hospitais e centros de saúde. Na educação, que até 1975 apenas a rede básica de escolas primárias estava completa, processa-se a uma autêntica “revolução” com a criação de várias escolas básicas, secundárias e profissionais, além do Instituto Universitário dos Açores, que antecedeu a Universidade dos Açores. Com a autonomia política o progresso chegou aos Açores. O sucesso das autonomias regionais é tal modo evidente que mesmo no território continental já se tentou, em 1998, criar a regionalização administrativa.

A autonomia política é no entanto um processo em permanente construção. O definitivo Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores, uma espécie de “constituição regional”, chega em 1980 pela Lei n.º 39/80 de 5 de Agosto. E desde então já conheceu três revisões (em 1987, 1998 e 2009) sempre no sentido do aprofundamento da autonomia açoriana na medida em que as sucessivas revisões constitucionais o permitem.

Todavia, desde os seus primeiros anos até aos dias de hoje a autonomia açoriana tem sido marcada por vários conflitos de competências entre os órgãos nacionais de soberania (especialmente o Tribunal Constitucional) e os órgãos de poder autonómico. Em causa estão dois entendimentos diferentes sobre as autonomias regionais, um que defende a “autonomia progressiva” e outro que argumenta que a “autonomia tem limites” (Ferreira, 2008: 356).

A propósito destes dois diferentes entendimentos ocorreu, aquando da terceira revisão ao Estatuto Político-Administrativo, um grave conflito institucional que opôs o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva ao Presidente do Governo Regional, Carlos César, com o Primeiro-ministro, José Sócrates, a

alinhar pelo segundo em defesa do Estatuto. A querela assumiu contornos alarmantes e motivou mesmo uma comunicação ao país, a 31 de Julho de 2008, por parte do Presidente da República alegando que o diploma colocava em causa as “competências dos órgãos de soberania consagrados na Constituição”. Cavaco Silva vetou por duas vezes o Estatuto aprovado por unanimidade de todos os partidos na Assembleia da República e na Assembleia Legislativa Regional dos Açores. Mas o diploma seria novamente aprovado no parlamento (desta vez com a abstenção do PSD) e encontra-se em vigor. Contudo, o Tribunal Constitucional fiscalizou o documento e deu razão aos argumentos do Presidente da República considerando inconstitucionais alguns dos artigos.

Deste modo, a luta dos açorianos por um cada vez maior aprofundamento da autonomia política continua.

Honrando a memória dos primeiros autonomistas que afirmaram a identidade

açoriana e a unidade do seu Povo e homenageando o ingente combate de todos quantos, sucedendo-lhes no tempo, mantiveram e mantêm vivo o ideal autonomista” (Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores, Lei n.º 2/2009, de 12 de Janeiro)

1.3. Governos e símbolos da Região Autónoma dos Açores

Governos da Região Autónoma dos Açores

Desde a criação da Região Autónoma, os Açores já conheceram dez governos e três presidentes. De 1976 a 1995 o Partido Social-Democrata foi o partido responsável pela governação do arquipélago sendo sucedido pelo Partido Socialista em 1996, que se mantém em governação até ao presente.

Quadro 1.1 Lista de Presidentes do Governo Regional dos Açores

Governo

Presidente

Período

I Governo Regional

João Bosco Soares da Mota Amaral

1976-1980

II Governo Regional

João Bosco Soares da Mota Amaral

1980-1984

III Governo Regional

João Bosco Soares da Mota Amaral

1984-1988

IV Governo Regional

João Bosco Soares da Mota Amaral

1988-1992

V Governo Regional

João Bosco Soares da Mota Amaral

1992-1995

VI Governo Regional

Alberto Romão Madruga da Costa

1995-1996

VII Governo Regional

Carlos Manuel Martins do Vale César

1996-2000

VIII Governo Regional

Carlos Manuel Martins do Vale César

2000-2004

IX Governo Regional

Carlos Manuel Martins do Vale César

2004-2008

X Governo Regional

Carlos Manuel Martins do Vale César

2008-

Bandeira do Açores

Bandeira do Açores Na bandeira dos Açores dominam as cores: azul-escuro (do lado da haste, que

Na bandeira dos Açores dominam as cores: azul-escuro (do lado da haste, que ocupa 40% do total) e branca (60%). Ao centro, sobre a linha divisória, figura um açor brilhante de oiro em forma estilizada naturalista protegido, em semicírculo, por nove estrelas com cinco raios de cor de oiro que representam cada uma das ilhas do arquipélago. Junto da haste, no canto superior esquerdo, encontra-se o escudo nacional português que simboliza a ligação dos Açores a Portugal. Aprovada pelo Decreto Regional n.º 4/79/A de 10 de Abril e regulamentada pelo Decreto Regulamentar Regional n.º 13/79/A de 18 de Maio foi oficialmente hasteada pela primeira vez a 12 de Abril de 1979.

Brasão de Armas

Brasão de Armas No brasão de Armas da Região Autónoma dos Açores o açor estendido justifica

No brasão de Armas da Região Autónoma dos Açores o açor estendido justifica

o nome do arquipélago preenchido com nove estrelas que representam

numericamente as ilhas. A divisa reza Antes morrer livres que em paz sujeitos

e simboliza o período de resistência, em 1582, da ilha Terceira ao domínio

filipino. As lanças que exibem dois toiros negros acorrentados a oiro, invocando

a batalha da Salga travada naquele período, retratam a principal actividade económica insular e representam o animal ao serviço do açoriano, são

encimadas com bandeiras que traduzem a importância da Ordem de Cristo no povoamento do arquipélago (Cruz de Cristo) e o culto ao Espírito Santo (pomba branca) que singulariza religiosamente os Açores. A versão definitiva do brasão foi publicada em anexo ao Decreto Regulamentar Regional n.º 41/80/A de 31

de Outubro.

2. A abstenção eleitoral

A Região Autónoma dos Açores defronta-se com um problema desmotivante face a todo o percurso político que atravessou até alcançar a autonomia política. As elevadas taxas de abstenção eleitoral que se têm vindo a registar, cada vez com maior intensidade, nos Açores distinguem politicamente pela negativa o arquipélago em comparação com o restante território português.

Embora autores como André Freire e Pedro Magalhães possam desdramatizar o fenómeno:

“Uma elevada abstenção eleitoral não tem de ser vista necessariamente como algo de «mau» para a democracia, nem o seu aumento como um sintoma de crise e deslegitimação das instituições de competição e participação políticas. A abstenção pode mesmo indicar uma diminuição dos conflitos sociais e políticos, a estabilização dos regimes e um elevado nível de confiança depositada pelos cidadãos naqueles que concorrem pela delegação do poder.” (Freire e Magalhães, 2002: 16)

Os mesmos politólogos também admitem que “nem todas as interpretações possíveis são tão benignas” (ibid.). Nós, por nossa vez, também encontramos dificuldades em relativizar a perversão da abstenção em relação ao sistema político democrático, que foi concebido para possibilitar a participação igualitária de todos os cidadãos através do voto, funcionando como princípio de legitimação dos dirigentes políticos e como técnica de regulação da vida pública. Somente pelo voto podemos condensar os valores de liberdade e de igualdade que estão na base da sociedade democrática (Baudouin, 2000: 191).

A importância que o momento eleitoral assume em todos os regimes democráticos pode ser confirmada pela dureza das batalhas que acompanharam a universalização progressiva do direito de voto ao longo dos séculos e pela repugnância que o voto livre sempre causou a todos os totalitarismos políticos. Portugal só quase no final do século XX atingiu esse objectivo, talvez por isso não deva abdicar dessa conquista com tamanha facilidade, como paulatinamente tem vindo a acontecer de eleição em eleição.

Todavia, o aumento da abstenção não é um fenómeno exclusivamente português. O aumento generalizado da abstenção nos últimos anos nas democracias industrializadas é objecto de consenso entre os académicos que se detêm sobre este fenómeno. As suas causas e consequências é que permanecem em grande medida desconhecidas e objecto de intensa especulação teórica. (Freire e Magalhães, 2002: 19).

Não existindo nenhuma explicação consensual para o fenómeno da abstenção, existem no entanto alguns estudos (Franklin, 2003; Freire, 2000; Magalhães, 2008; Freire e Magalhães, 2002) que avançam com algumas explicações pertinentes para o fenómeno. Contudo, nenhuma dessas explicações permitem-nos diagnosticar a “doença” e muito menos ainda apontar a “cura” para o dramático aumento dos números da abstenção eleitoral nos Açores.

Aliás, a abstenção eleitoral nos Açores já pode ser caracterizada como uma “imagem de marca” açoriana no sistema eleitoral português, como se confirma pelo Quadro 1.2. Desde 1976 até 2009, somente nas eleições para a Assembleia da República, em 1979, e para o Parlamento Europeu, em 1994, os Açores apresentam valores de abstenção mais baixos do que a média nacional. E mesmo nessas eleições as diferenças entre a participação eleitoral nos Açores em relação à média nacional são mínimas.

A regra é que a abstenção nos Açores supere sempre a abstenção nacional, independentemente do aumento que se verifique a nível nacional, os Açores conseguem sempre a “proeza” de aumentar ainda mais, como no primeiro referendo à interrupção voluntária da gravidez, em 1998, quando a média de abstenção nacional atingiu os alarmantes valores de 68,06%, na Região atingiu os 72,7%. Aliás, são nos referendos que o eleitorado açoriano se mostra menos participativo. Nunca se efectuou nenhum cuja abstenção eleitoral nos Açores ficasse abaixo dos 70%.

Quando falamos em “imagem de marca” não estamos a dramatizar nem a exagerar. Note-se que apenas dois anos depois do 25 de Abril a taxa de abstenção nos Açores já se situava acima dos 30%. Embora tenha registado um decréscimo nos sufrágios seguintes, decorridos nos anos de 1979 e 1980,

a partir de 1983 situa-se definitivamente acima dos 33%. Em 1987 dá-se o

ponto de viragem para acima dos 40% que, se exceptuarmos as eleições para

a Assembleia Regional de 1992, se manteve até ao ano 2000. De 2001 em diante os valores não desceram abaixo dos 51%.

Se analisarmos individualmente cada eleição constatamos que, tal como em Portugal continental, são nas eleições para o Parlamento Europeu que a abstenção atinge valores mais elevados e sempre crescentes. Nas últimas, em 2009, o eleitorado açoriano mostrou que é possível atingir a percentagem de 78,3% de abstencionistas. Nas eleições para a Assembleia da República verifica-se um aumento da abstenção de 1980 a 1987, interrompido por uma ligeira descida em 1991, continuando a aumentar desde então até 2009. Nas eleições presidências o cenário não é mais animador, aumentou sempre de 1980 até 2006, onde conheceu um decréscimo para os 55,92%.

Deixadas propositadamente para o fim, as eleições para a Assembleia Legislativa Regional dos Açores, o órgão legislativo regional pelo qual lutaram gerações de açorianos durante dois séculos, só por uma vez (23,95% em 1980) obteve uma taxa de abstenção inferior a 30% e desde 1996 não desceu abaixo dos 40%. Embora sejam as eleições com maior adesão eleitoral, as diferenças de participação em relação às restantes eleições não são verdadeiramente significativas.

Estamos convencidos que a abstenção açoriana enquadra-se numa “abstenção passiva ou sociológica”, isto é, consubstanciada na não participação eleitoral dos cidadãos na escolha dos seus representantes através do voto e que é explicável pelo seu isolamento geográfico e social e pelo seu interesse nulo pela política (Freire, 2000: 177).

Mas também estamos convencidos que a resposta a este comportamento eleitoral passivo do eleitorado açoriano pode estar nos jovens, porque o eleitor só enfrenta verdadeiramente o dilema da abstenção no momento em que vai exercer o seu direito de voto pela primeira vez. Portanto, se uma geração de novos eleitores decidir pela participação na sua primeira oportunidade de voto

então assistiremos a um declínio geracional da abstenção (Franklin, 2003:

324). No capítulo que se segue vamos verificar se isso pode ser possível.

Quadro 1.2 Números da abstenção nos Açores (1975-2009) 7

Eleição

Abstenção

Abstenção

Data

Açores

Nacional

Assembleia Constituinte

9,31%

8,34%

25-4-1975

Assembleia da República

22,12%

16,47%

25-4-1976

Assembleia Regional (ALRA)

32,45%

-

27-6-1976

Presidência da República

32,19%

24,53%

27-6-1976

Assembleia da República

16,91%

17,13%

2-12-1979

Assembleia Regional (ALRA)

23,95%

-

5-10-1980

Assembleia da República

23,81%

16,06%

5-10-1980

Presidência da República

25,91%

15,61%

7-12-1980

Assembleia da República

33,51%

22,21%

25-4-1983

Assembleia Regional (ALRA)

37,64%

-

14-10-1984

Assembleia da República

39,94%

25,84%

6-10-1985

Presidência da República (1V.)

38,50%

24,62%

26-1-1986

Presidência da República (2V.)

36,09%

22,01%

16-2-1986

Assembleia da República

46,17%

28,43%

19-7-1987

Parlamento Europeu

45,85%

27,58%

19-7-1987

Assembleia Regional (ALRA)

41,15%

-

9-10-1988

Parlamento Europeu

59,44%

48,90%

18-6-1989

Presidência da República

48,21%

37,84%

13-1-1991

Assembleia da República

42,13%

32,22%

6-10-1991

Assembleia Regional (ALRA)

37,63%

-

11-10-1992

Parlamento Europeu

63,35%

64,46%

12-6-1994

Assembleia da República

43,50%

33,70%

1-10-1995

Presidência da República

49,19%

33,62%

14-1-1996

Assembleia Regional (ALRA)

40,98%

-

10-10-1996

Referendo IVG

72,7%

68,06%

28-6-1998

Referendo Regionalização

77,9%

51,71%

8-11-1998

Parlamento Europeu

69,11%

60,07%

13-6-1999

Assembleia da República

49,74%

38,91%

10-10-1999

Assembleia Regional (ALRA)

47,04%

-

15-10-2000

Presidência da República

62,84%

49,08%

14-1-2001

Assembleia da República

51,93%

38,52%

17-3-2002

Parlamento Europeu

69,42%

61,40%

13-6-2004

Assembleia Regional (ALRA)

44,34%

-

17-10-2004

Assembleia da República

51,81%

35,74%

20-2-2005

Presidência da República

56,92%

38,47%

22-1-2006

Referendo IVG

70,50%

56,1%

11-2-2007

Assembleia Regional (ALRA)

53,38%

-

19-10-2008

Parlamento Europeu

78,30%

62,95%

7-6-2009

Assembleia da República

55,94%

39,40%

27-9-2009

7 Fontes: Vice-presidência do Governo Regional dos Açores; Comissão Nacional de Eleições.

Capítulo III

A Participação Cívica e Política dos Jovens nos Açores

1. Caracterização Geral do Estudo

O objecto de estudo do nosso trabalho é a participação cívica e politica dos

jovens açorianos em contexto educativo. Nesse sentido, efectuamos um total de 263 inquéritos a alunos do 9º Ano (131) e 11º Ano (132), com idades compreendidas entre os 13 e os 20 anos, da Escola Secundária Domingos Rebelo e da Escola Secundária das Laranjeiras, ambas situadas no concelho de Ponta Delgada, ilha de S. Miguel, Açores. O nosso estudo baseou-se em instrumentos utilizados em estudos anteriores (Menezes, Afonso, Gião e Amaro, 2005 e Magalhães e Moral, 2008) e foi desenvolvido no âmbito da realização do mestrado em Ciências da Educação da Faculdade de Psicologia

e de Ciências da Educação da Universidade do Porto sob a orientação da

Professora Doutora Isabel Menezes e tem como finalidade ajudar a tentar compreender os comportamentos e atitudes cívicas da juventude açoriana.

Para o efeito, isto é, para a construção de instrumentos de observação válidos e fiáveis o nosso desenho metodológico concebeu os inquéritos divididos em oito itens: 1 (Caracterização da amostra: dados pessoais e familiares); 2 (Conhecimentos cívicos e políticos: e. g. Direitos Humanos, Sistema Político, União Europeia, Democracia, interpretação de mensagens políticas, Açores, Autonomia açoriana); 3 (A participação cívica: atitudes e confiança em instituições, comportamentos cívicos e oportunidades de participação); 4

(Disposição para a participação cívica futura); 5 (Cidadania na escola: atitudes

e oportunidades de participação); 6 (Atitudes políticas: informação e debate

político); 7 (Atitudes face ao funcionamento do sistema político regional e nacional); 8 (Alinhamentos ideológicos e partidários; e atitudes em relação a reformas políticas e à religião).

2. Caracterização geral da amostra

O nosso estudo incidiu sobre um total de 263 inquéritos válidos, dos quais 131 foram efectuados a alunos do 9º ano e outros 132 a alunos do 11º ano de escolaridade, ou seja obtivemos uma representação praticamente equitativa entre o total da nossa amostra de acordo com o nosso objectivo inicial.

Quadro 2.1 Distribuição da amostra por ano de escolaridade

Ano

Frequência

Percentagem

131

49,8%

11º

132

50,2%

Total

262

100

Género e ano de nascimento

Relativamente à idade da amostra cumulativa (9º e 11º anos) inquerida esta compreende idades que vão dos treze aos vinte anos. Embora a grande maioria dos inqueridos (82,5%) se situe entre as idades dos catorze aos dezassete anos.

Quadro 2.2 Distribuição da amostra por idade

Idade

Frequência

Percentagem

13

1

0,4

14

50

19,0

15

52

19,8

16

59

22,4

17

56

21,3

18

29

11,0

19

13

4,9

20

3

1,1

Total

263

100,0

No que respeita à repartição por sexos da nossa amostra verifica-se uma ligeira predominância de inqueridos do sexo feminino (53,2%) face a inqueridos do sexo masculino (46,8%).

Quadro 2.3 Distribuição da amostra por sexos

Sexo

Frequência

Percentagem

Masculino

123

46,8

Feminino

140

53,2

Total

263

100,0

Local de nascimento

Quanto ao local de nascimento da nossa amostra, podemos verificar, através do Quadro 1.4, que a esmagadora maioria dos inqueridos (91,6%) é natural dos Açores. Somente 5,3% nasceu no continente ou na Madeira e apenas 3%

é natural de um outro país. Daqui podemos concluir que raros são os jovens nascidos em Portugal continental ou na Madeira e mais raros ainda os que nasceram no estrangeiro entre os inqueridos.

A naturalidade paterna (Quadro 1.5) e materna (Quadro 1.6) revela igualmente

que os progenitores dos nossos inqueridos são sobretudo naturais dos Açores. Pelo Quadro 1.5 verificamos que 82,1% dos pais nasceram no arquipélago, enquanto 8% nasceu no continente ou na Madeira e 9,9% num outro país. Números que são ainda mais elevados se tivermos em consideração a

naturalidade materna, onde 88,6% nasceu no Açores, 9,1% no continente ou Madeira e 2,3% num outro país. Do que se pode constatar que são mais as mulheres açorianas que se casam ou se unem com homens não naturais do arquipélago do que o contrário.

Se tivermos em conta que o nosso estudo se restringiu a Ponta Delgada, a cidade açoriana mais populosa e motor económico da região, podemos facilmente confirmar que o cosmopolitismo está muito longe de constituir uma realidade nos Açores, onde se verifica uma clara predominância de naturais e

descendentes de naturais das ilhas. O isolamento geográfico do arquipélago face ao restante território nacional e o facto de apenas recentemente constituir um destino de imigração podem ajudar a explicar estes resultados.

Quadro 2.4 Distribuição do total da amostra por local de nascimento

Local de nascimento

Frequência

Percentagem

Açores

241

91,6

Continente ou Madeira

14

5,3

Outro país

8

3,0

Total

263

100,0

Quadro 2.5 Distribuição da amostra por local de nascimento paterno

Local de nascimento

Frequência

Percentagem

Açores

216

82,1

Continente ou Madeira

21

8,0

Outro país

26

9,9

Total

263

100,0

Quadro 2.6 Distribuição da amostra por local de nascimento materno

Local de nascimento

Frequência

Percentagem

Açores

233

88,6

Continente ou Madeira

24

9,1

Outro país

6

2,3

Total

263

100,0

Recursos académicos da família

As qualificações académicas dos familiares directos da nossa amostra são relativamente baixas, com valores mais baixos nos pais quando comparados com as qualificações das mães, como se pode comprovar pelos quadros 1.7 (escolaridade paterna) e 1.8 (escolaridade materna).

A maioria dos progenitores resume as suas qualificações até ao 9º ano: 66,2% dos pais e 58,6% das mães. Apenas 19,8% dos pais e 21,3% das mães

frequentaram o ensino secundário e somente 14,1% dos pais e 20,2% das mães frequentou o ensino superior. Valores baixos que podem ser agravados se tivermos em conta que 31,2% dos pais e 27% das mães não foi além do 1º ciclo.

Tudo isto remete-nos para uma necessidade urgente de qualificação da população adulta açoriana. No entanto, a introdução na Região do Programa Novas Oportunidades que permite de forma facilitada e rápida o incremento de qualificações junto da população adulta pode, num período de tempo muito reduzido, alterar radicalmente estes valores.

Quadro 2.7 Escolaridade paterna

Nível de escolaridade

Frequência

Percentagem

Percentagem acumulada

Nunca andou na escola

1

0,4

0,4

Até ao 1º ciclo

81

30,8

31,2

Até ao 3º ciclo

92

35,0

66,2

Até ao ensino secundário

52

19,8

85,9

Até ao ensino superior

37

14,1

100,0

Total

263

100,0

100,0

Quadro 2.8 Escolaridade materna

Nível de escolaridade

Frequência

Percentagem

Percentagem acumulada

Até ao 1º ciclo

71

27,0

27,0

Até ao 3º ciclo

83

31,6

58,6

Até ao ensino secundário

56

21,3

79,8

Até ao ensino superior

53

20,2

100,0

Total

263

100,0

100,0

Recursos culturais da família

A análise dos recursos culturais da família é baseada na disponibilidade de um jornal diário e na quantidade de livros em casa. Como se pode observar no Quadro 1.9 a maioria dos inquiridos (65,4%) não possui um jornal diário em casa. No entanto, o facto de 34,6% possuírem é revelador de uma população de certo modo informada, o que é um indicador que contraria a ideia, que

muitos se esforçam por fazer passar, de que os cidadãos são passivos e não procuram informação.

Quadro 2.9 Presença de jornal em casa

Resposta

Frequência

Percentagem

Sim

91

34,6

Não

172

65,4

Total

263

100,0

Quanto ao livro, esse suporte de saber que nas palavras de Umberto Eco “é como a colher, o martelo, a roda ou o cinzel. Uma vez inventados, não se pode fazer melhor” (2009: 20), a sua presença nas casas da nossa amostra é igualmente reveladora de alguma busca pelo conhecimento. Apenas 20,5% possui bibliotecas privadas medievais, isto é, com menos de 10 livros. Enquanto 39,5% possui até 50 livros e 19,4% até 100. É de frisar que 20,5% possuem bibliotecas particulares com quantidades de obras bibliográficas superiores aos 200 exemplares. Pelo que se pode concluir que, com maior ou menor grau, a presença do livro nas moradias dos inquiridos é uma constante.

Quadro 2.10 Quantidade de livros em casa

Quantidade de livros

Frequência

Percentagem

Até 10

54

20,5

Até 50

104

39,5

Até 100

51

19,4

Mais de 200

54

20,5

Total

263

100,0

Em síntese

A população da nossa amostra é muito pouco diversificada constituída na sua esmagadora maioria por naturais e descendentes de naturais dos Açores. As poucas qualificações dos progenitores é também um dado a reter, embora isto não se reflicta de todo sobre o consumo de informação (jornais) e cultura

(livros). O que enfraquece a ideia que as pessoas com menos estudos são naturalmente avessas à leitura de jornais e livros.

3. Conhecimentos cívicos e políticos

Nesta secção procuramos aferir os conhecimentos básicos que os alunos possuem sobre um conjunto genérico de questões relacionadas com: os direitos humanos; o sistema político; o funcionamento democrático; a União Europeia; a capacidade de interpretação de mensagens políticas; o 25 de Abril; os Açores e a autonomia política açoriana. Os resultados (Quadro 3.1) que obtivemos revelam uma maioria de respostas correctas em quase todos os itens, excepto no conhecimento do 6 de Junho de 1975.

Os valores mais altos de respostas correctas ocorreram no conhecimento da finalidade da Declaração dos Direitos Humanos, do que foi o 25 de Abril e o que são os Açores. A abordagem ao conceito de democracia regista igualmente valores elevados de respostas correctas. De salientar que os alunos conseguiram folgadamente passar no “teste” da interpretação de mensagem política, que até não era muito fácil, relacionado com a abstenção eleitoral, através da descodificação de um cartoon de Luís Afonso.

A União Europeia foi um dos itens cuja margem de respostas correctas foi menor. O motivo pelo qual muitos dos alunos (40,7%) não ter conseguido acertar no número actual de Estados-membros pode estar relacionado com

facto de este número (27) só recentemente estar fixado, em 1 de Janeiro de

2007.

A autonomia açoriana foi a temática em que os alunos revelaram menores conhecimentos. Somente uma minoria (37,3%) da nossa amostra conhece o significado do 6 de Junho de 1975 – o ponto de viragem da história autonómica açoriana. E um número alargado (46,8%) desconhece que o primeiro

Presidente do Governo Regional dos Açores foi João Bosco Mota Amaral. O facto da Região Autónoma dos Açores ser governada, desde 1996, pelo Partido Socialista não é do conhecimento de muitos (35,7%) dos alunos açorianos.

Convém, no entanto, salientar que os itens de conhecimentos autonómicos não são abordados nos programas escolares do ensino básico ou do secundário. O que significa que os alunos apenas os poderiam adquirir em conversas informais com os pais ou outros adultos, ou através da leitura de jornais regionais. Há décadas que nos Açores se debate a introdução de uma disciplina de “História dos Açores” nos programas curriculares das escolas da Região, projecto que nunca se concretizou. É neste contexto que devemos compreender estes resultados.

Quadro 3.1 Conhecimentos cívicos e políticos

Pergunta

Respostas correctas (%)

Respostas erradas (%)

Direitos Humanos

210

(83,3%)

42

(16,7%)

Constituição da República

180

(68,4%)

83

(31,6%)

União Europeia

156

(59,3%)

107

(40,7%)

Democracia

209

(79,5%)

54

(20,5%)

Interpretação de mensagem política

183

(69,6%)

80

(30,4%)

História política (25 de Abril)

233

(88,6%)

30

(11,4%)

Açores

236

(89,7%)

27

(10,3%)

Autonomia (primeiro presidente)

140

(53,2%)

123

(46,8%)

Autonomia (actual governo)

169

(64,3%)

94

(35,7%)

Autonomia (6 de Junho)

98 (37,3%)

165

(62,7%)

Em síntese

Os conhecimentos cívicos e políticos dos alunos são, de forma geral, positivos. Os alunos conseguiram obter respostas positivas em quase todos os itens, o que é revelador de um expressivo conhecimento de alguns temas fundamentais como os direitos humanos, a democracia ou o sistema político

português. Em relação aos menores conhecimentos sobre a autonomia açoriana, especialmente sobre história autonómica, devem ser entendidos pela pouca oportunidade dos alunos em obterem informações na escola e fora desta sobre estes temas. Só assim se entende a enorme disparidade entre o conhecimento do 25 de Abril de 1974 em relação ao 6 de Junho de 1975.

4. Participação Cívica

Confiança em instituições

A confiança que os cidadãos depositam nas instituições tem vindo, desde o

final da década de 90, a tornar-se um tópico de crescente interesse académico,

uma vez que a prevalência de atitudes de desconfiança institucional pode contribuir para minar a participação democrática (Magalhães, 2003: 443). Sendo de assinalar que a investigação junto dos jovens portugueses tem vindo

a registar baixos níveis de confiança nas instituições políticas (Machado Pais, cit. in Menezes, Afonso, Gião e Amaro, 2005: 73), algo que o nosso estudo confirma.

Inquiridos sobre a confiança que depositam no desempenho das funções de um conjunto de instituições, os resultados (Quadro 4.1) obtidos junto do conjunto dos alunos (9º e 11º ano) da nossa amostra revelam que as instituições entendidas como de confiança positiva (acima do ponto 4, numa escala de 0 a 7) são: hospitais e centros de saúde; comunidade científica; forças armadas; organizações ambientais; União Europeia; e as escolas. Se compararmos os resultados dos alunos do 9º ano com os do 11º ano chegamos à conclusão que existe uma maior confiança nas instituições entre os alunos do 9º ano do que entre os alunos do 11º ano. Pelo que concluímos que a desconfiança nas instituições aumenta conforme aumenta a idade – o que se reflecte em demasia na relação de confiança dos alunos do 9º ano com

as igrejas e a polícia quando comparada com a mesma relação nos alunos do 11º ano.

De salientar que entre as instituições que gozam de menor confiança entre os alunos de ambos os anos encontram-se as instituições políticas em geral e os partidos em particular. Assembleia Legislativa Regional dos Açores, Assembleia da República, Presidente da República, autarquias, Governo Regional e Governo da República são tidas como instituições pouco confiáveis.

No entanto, tendo em conta o carácter localizado do nosso trabalho, importa comparar a confiança atribuída às instituições políticas regionais comparativamente às nacionais. Comparando os parlamentos, a Assembleia

da República (o órgão político que goza de maior confiança entre os inquiridos

e que inclusive chega a atingir valores positivos entre os alunos do 9º ano) é entendida como de maior confiança do que a Assembleia Legislativa Regional dos Açores. Do mesmo modo, também o Governo da República obtém uma confiança superior àquela que é atribuída ao Governo Regional. Quanto aos valores extremamente negativos dos partidos (2,42) podem estar relacionados com o facto de estes serem entendidos como instituições arcaicas e desactualizadas sem capacidade de representarem os seus interesses e preocupações (Mair, 2003: 277-278).

A União Europeia é de resto a única instituição política que goza de confiança

positiva entre os inquiridos, o que se pode dever ao maior conhecimento que os alunos possuem sobre esta instituição resultante das escolas difundirem muita informação e promoverem várias actividades sobre a importância da construção europeia, além do consenso generalizado sobre o reconhecimento dos benefícios resultantes da entrada de Portugal na União Europeia. Por outro lado, a ausência de conhecimentos sobre a Organização das Nações Unidas pode explicar a pouca confiança atribuída pelos alunos a esta instituição.

Sobre órgãos de soberania não políticos, os baixos valores atribuídos aos tribunais parecem confirmar que o descrédito na justiça também se faz sentir entre os mais jovens.

Quadro 4.1 Confiança nas instituições 8

Instituições

Ano

Frequência

Média

Escolas

131

4,45

Escolas

11º

132

4,20

Escolas

Total

263

4,33

Comunidade Científica

131

4,45

Comunidade Científica

11º

132

4,66

Comunidade Científica

Total

263

4,56

Igrejas

131

4,15

Igrejas

11º

132

3,42

Igrejas

Total

263

3,78

Organizações ambientais

131

4,51

Organizações ambientais

11º

132

4,40

Organizações ambientais

Total

263

4,46

Partidos Políticos

131

2,65

Partidos Políticos

11º

132

2,20

Partidos Políticos

Total

263

2,42

Polícia

131

4,22

Polícia

11º

132

3,39

Polícia

Total

263

3,80

Forças Armadas

131

4,74

Forças Armadas

11º

132

4,30

Forças Armadas

Total

263

4,52

Tribunais

131

3,68

Tribunais

11º

132

3,36

Tribunais

Total

263

3,52

Hospitais/C. de Saúde

131

5,11

Hospitais/C. de Saúde

11º

132

4,20

Hospitais/C. de Saúde

Total

263

4,65

Autarquias

131

3,75

Autarquias

11º

132

3,39

Autarquias

Total

263

3,57

ALRA

131

3,52

ALRA

11º

132

3,27

ALRA

Total

263

3,40

AR

131

4,15

AR

11º

132

3,42

AR

Total

263

3,78

Governo Regional

131

3,48

Governo Regional

11º

132

3,09

Governo Regional

Total

263

3,29

Governo da República

131

3,58

Governo da República

11º

132

3,45

Governo da República

Total

263

3,51

8 A pergunta do questionário era: “Qual é a confiança que tens nas seguintes instituições, no que diz respeito ao desempenho das suas funções?

Presidente da República

131

3,40

Presidente da República

11º

132

3,22

Presidente da República

Total

263

3,31

ONU

131

3,35

ONU

11º

132

3,14

ONU

Total

263

3,24

União Europeia

131

4,40

União Europeia

11º

132

4,50

União Europeia

Total

263

4,45

Envolvimento cívico continuado

O nosso estudo procurou conhecer o envolvimento cívico que os alunos já experimentaram. Nesse sentido colocamos um conjunto de oportunidades de participação cívica às quais os inquiridos poderiam ter ou terem tido alguma ligação. As respostas (Quadro 4.2) que obtivemos revelam que o maior envolvimento que os alunos conheceram esteve relacionado com associações desportivas, onde 74,9% da nossa amostra está ou já esteve ligado, mesmo que apenas pontualmente. Sublinhe-se que mais de metade (57%) manteve ou mantém uma participação em associações desportivas superior a um período de seis meses. As actividades que seguidamente envolvem um grau de maior participação são os grupos culturais e recreativos, os escuteiros e os grupos de jovens religiosos. Com valores residuais aparecem as associações de estudantes e as associações sociais ou de solidariedade. A actividade cívica que os alunos menos experimentaram foi a militância em juventudes partidárias.

Procuramos igualmente apurar qual dos envolvimentos cívicos foi mais significativo para os alunos. Face aos valores anteriores (Quadro 4.2) verificamos (Quadro 4.3) sem surpresa que a experiência mais significativa foi a participação em associações desportivas, seguida a larga distância pelos escuteiros e pelos grupos culturais ou recreativos. Registe-se que apesar de 28,9% ter experimentado uma participação em grupos de jovens religiosos, apenas 8% considera que foi esta a sua experiência mais significativa. Com valores muitos baixos surgem as associações sociais e as associações de estudantes. As juventudes partidárias obtêm valores nulos, enquanto 6,8% da nossa amostra não entendeu como significante a sua participação.

Quadro 4.2 Envolvimento cívico continuado 9

Escuteiros

Frequência

Percentagem

Nunca

182

69,2%

Apenas pontualmente

6

2,3%

Menos de 6 meses

13

4,9%

Mais de 6 meses

62

23,6 %

Total

263

100%

Associação de Estudantes

Frequência

Percentagem

Nunca

241

91,6%

Apenas pontualmente

6

2,3%

Menos de 6 meses

5

1,9%

Mais de 6 meses

11

4,2%

Total

263

100,0%

Grupo de Jovens Religioso

Frequência

Percentagem

Nunca

187

71,1%

Apenas pontualmente

18

6,8%

Menos de 6 meses

16

6,1%

Mais de 6 meses

42

16,0%

Total

263

100,0%

Grupo Cultural / Recreativo

Frequência

Percentagem

Nunca

151

57,4%

Apenas pontualmente

18

6,8%

Menos de 6 meses

27

10,3%

Mais de 6 meses

67

25,5%

Total

263

100,0%

Juventudes Partidárias

Frequência

Percentagem

Nunca

258

98,1%

Apenas pontualmente

2

0,8%

Menos de 6 meses

2

0,8%

Mais de 6 meses

1

0,4%

Total

263

100,0%

Associação Desportiva

Frequência

Percentagem

Nunca

66

25,1%

Apenas pontualmente

19

7,2%

Menos de 6 meses

28

10,6%

Mais de 6 meses

150

57,0%

Total

263

100,0%

Movimentos Sociais

Frequência

Percentagem

Nunca

212

80,6

Apenas pontualmente

30

11,4

Menos de 6 meses

11

4,2

Mais de 6 meses

10

3,8

Total

263

100,0

9 A pergunta do questionário era: “Estás ou já estiveste alguma vez ligado a…

Quadro 4.3 Envolvimento cívico mais significativo 10

Actividade Cívica

Ano

Frequência

Percentagem

Escuteiros

24

18,3%

Escuteiros

11º

22

16,7%

Escuteiros

Total

46

17,5%

Associação de Estudantes

2

1,5%

Associação de Estudantes

11º

2

1,5%

Associação de Estudantes

Total

4

1,5%

Grupo de Jovens Religioso

8

6,1%

Grupo de Jovens Religioso

11º

13

9,8%

Grupo de Jovens Religioso

Total

21

8%

Grupo Cultural / Recreativo

25

19,1%

Grupo Cultural / Recreativo

11º

19

14,4%

Grupo Cultural / Recreativo

Total

44

16,7%

Juventudes Partidárias

0

0%

Juventudes Partidárias

11º

0

0%

Juventudes Partidárias

Total

0

0%

Associação Desportiva

67

51,1%

Associação Desportiva

11º

55

41,7%

Associação Desportiva

Total

122

46,4%

Movimentos Sociais

0

0%

Movimentos Sociais

11º

4

3%

Movimentos Sociais

Total

4

1,5%

Nenhuma

4

3,1%

Nenhuma

11º

14

10,6%

Nenhuma

Total

18

6,8%

Outra

1

0,8%

Outra

11º

2

1,5%

Outra

Total

3

1,1%

10 A pergunta do questionário era: “das experiências de participação de envolvimento continuado que já tiveste qual foi a que consideras ter sido a mais significativa na sua vida?

Participação em actividades

Procurando avaliar o envolvimento dos nossos inquiridos através da realização de determinadas actividades, elaboramos um conjunto de questões relacionadas com a procura de informação, a participação e organização de actividades e a capacidade de iniciativa e de liderança.

Não obstante os alunos avaliarem o seu envolvimento nas suas experiências de participação cívica de forma bastante positiva (Quadro 4.4), os resultados (Quadro 4.5) que obtivemos revelam uma tendência passiva de envolvimento, excepto na tomada de decisões individuais ou em grupo. A procura de informação impressa ou junto de pessoas mais experientes é escassa; a participação em actividades como petições, protestos, debates ou tomadas públicas de posição é negativa; e a organização de idênticas actividades é ainda mais negativa. A capacidade de liderança chega a atingir valores extremamente baixos. Entre os alunos do 9º e 11º ano as diferenças destes comportamentos são diminutas e pouco relevantes, pelo que se pode concluir que a participação dos alunos não deve ser propriamente definida como activa.

Quadro 4.4 Avaliação do envolvimento 11

Ano

Frequência

Média

131

5,40

11º

132

5,15

Total

263

5,27

11 A pergunta do questionário era: “Como avalias o teu envolvimento?

Quadro 4.5 Participação em actividades 12

Pergunta

Ano

Frequência

Média

Procurar informação em livros, bibliotecas, jornais, internet ou junto de pessoas mais experientes

131

3,15

Procurar informação em livros, bibliotecas, jornais, internet ou junto de pessoas mais experientes

11º

132

3,52

Procurar informação em livros, bibliotecas, jornais, internet ou junto de pessoas mais experientes

Total

263

3,33

Participar em actividades (como petições, protestos, festas, reuniões, assembleias, debates, tomadas públicas de posição)

131

3,66

Participar em actividades (como petições, protestos, festas, reuniões, assembleias, debates, tomadas públicas de posição)

11º

132

3,56

Participar em actividades (como petições, protestos, festas, reuniões, assembleias, debates, tomadas públicas de posição)

Total

263

3,61

Organizar actividades (como por exemplo, petições, protestos, festas, reuniões, assembleias, debates, tomadas públicas de posição)

131

2,96

Organizar actividades (como por exemplo, petições, protestos, festas, reuniões, assembleias, debates, tomadas públicas de posição)

11º

132

3,17

Organizar actividades (como por exemplo, petições, protestos, festas, reuniões, assembleias, debates, tomadas públicas de posição)

Total

263

3,06

Orientar ou gerir uma equipa encarregue da organização de actividades (como, por exemplo, petições, protestos, festas, reuniões, assembleias, debates, tomadas públicas de posição, etc.)

131

2,57

Orientar ou gerir uma equipa encarregue da organização de actividades (como, por exemplo, petições, protestos, festas, reuniões, assembleias, debates, tomadas públicas de posição, etc.)

11º

132

2,74

Orientar ou gerir uma equipa encarregue da organização de actividades (como, por exemplo, petições, protestos, festas, reuniões, assembleias, debates, tomadas públicas de posição, etc.)

Total

263

2,66

Tomar decisões (sozinho ou em grupo)

131

4,78

Tomar decisões (sozinho ou em grupo)

11º

132

4,47

Tomar decisões (sozinho ou em grupo)

Total

263

4,62

Frequência de debates

A nossa análise ao envolvimento dos alunos pretendeu aferir se a discussão e o debate de opiniões eram correntes durante as suas experiências de participação cívica. As respostas (Quadro 4.6) que obtivemos apontam positivamente nesse sentido, ou seja que havia diferentes pontos de vista em

12 A pergunta do questionário era: “Quando colaboraste, realizaste alguma destas actividades?

discussão e eram analisadas diferentes opiniões que poderiam originar novos pontos de vista. O que pode ter influência sobre a importância que essa participação teve nos alunos, francamente positiva.

Quadro 4.6 Frequência de debates 13

Pergunta

Ano

Frequência

Média

Havia diferentes pontos de vista em discussão

131

4,20

Havia diferentes pontos de vista em discussão

11º

132

4,22

Havia diferentes pontos de vista em discussão

Total

263

4,21

Havia reflexão e eram analisadas as diferentes opiniões

131

4,46

Havia reflexão e eram analisadas as diferentes opiniões

11º

132

4,34

Havia reflexão e eram analisadas as diferentes opiniões

Total

263

4,40

As opiniões em debate produziam novos pontos de vista

131

4,12

As opiniões em debate produziam novos pontos de vista

11º

132

4,10

As opiniões em debate produziam novos pontos de vista

Total

263

4,11

Eram abordados problemas reais e/ou do teu quotidiano

131

3,80

Eram abordados problemas reais e/ou do teu quotidiano

11º

132

3,91

Eram abordados problemas reais e/ou do teu quotidiano

Total

263

3,86

A participação era muito importante para ti enquanto pessoa

131

4,76

A participação era muito importante para ti enquanto pessoa

11º

132

4,80

A participação era muito importante para ti enquanto pessoa

Total

263

4,78

Em síntese

Os alunos revelam níveis baixos de confiança em todas as instituições políticas, excepto a União Europeia, e os órgãos de governo regional gozam de menor confiança comparativamente aos órgãos de soberania. O que pode significar que a proximidade do poder não tenha repercussão sobre a confiança. Outra constatação é que os órgãos autonómicos não se distinguem pela positiva entre o conjunto dos órgãos políticos, tidos como pouco confiáveis pelos alunos.

A experiência de envolvimento cívico com maior significado e participação está relacionada com associações desportivas, cujos elevados valores de participação deixam entender que a nossa amostra tem no desporto a sua principal plataforma de relacionamento social, além da escola. A relativa

13 A pergunta do questionário era: “Enquanto colaboraste, com que frequência sentiste que…

tendência passiva detectada na participação em algumas actividades, como a procura de informação e a participação em petições, protestos, assembleias e tomadas públicas de posição, pode estar relacionada com a natureza da participação que conheceram na sua maioria, ou seja ligada à prática do desporto.