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TECNOLOGIAS DO IMAGINÁRIO

A sociedade do
espetáculo
revisitada DETENTORA DE GRANDE valor simbólico, a
no ção de autenticidade se firmou, ao
longo do romantismo europeu, como um
RESUMO critério bá si co para o julgamento ético
O tema deste ensaio é o elusivo conceito teórico de do com por ta men to individual e para a
espetáculo. Após mencionar como a noção foi usada por avaliação do mérito dos bens culturais.
diferentes autores para descrever uma sociedade dominada Opunha-se, de um lado, à divisão
por imagens, signos e inautenticidade, concentro minha consciente entre ser e parecer; do outro, à
atenção no muito citado (mas pouco estudado) La société criação artística pautada primordialmente
du spectacle (1967), clássico em que Guy Debord traça a por “interesses comerciais”.
emergência e o desenvolvimento histórico de um estágio A reivindicação da autenticidade
posterior do capitalismo, organizado em torno de novas cultural por parte da intelligentsia européia
formas de dominação e abstração. Na conclusão, procuro do final do século XVIII e início do XIX
rechaçar criticamente o fatalismo das análises de Debord, expressava o mal-estar romântico diante
dando destaque à ampla rede de movimentos artísticos e da modernidade, avaliada como prosaica
políticos contemporâneos que, inspirada pelas teses e práticas e competitiva, eivada de artificialidade na
dos situacionistas, se opõe ao espetáculo globalizado. linguagem, no comportamento e na arte
– o ocaso da sensibilidade e dos genuínos
ABSTRACT valores humanos. A partir de meados do
The subject of this essay is the elusive theoretical concept of século XX, a nostalgia da autenticidade
spectacle. After mentioning how the term was used by different res sur ge, com sin gu lar destaque, em
authors to describe a society dominated by signs, images and miríades de textos acadêmicos ou
inauthenticity, I shall focus more intently upon Guy Debordʼs jornalísticos que buscam des cre ver (e
La société du spectacle (1967) – the much cited but little read censurar) a “sociedade da imagem” ou “do
classic which traces the emergence and historical development espetáculo” – uma sociedade onde, por
of a later stage of capitalism organized around new forms of todos os lados, lamentou Daniel Boorstin
domination and abstraction. In the conclusion, I try to respond ([1961] 1987), “ilusões” e “pseudo-eventos”
critically to Debordʼs fatalist remarks, by emphasizing a wide varreram da vida o “natural”, o “autêntico”
range of contemporary artistic and political movements that e o “espontâneo”, a tal ponto que a própria
opposes the globalized spectacle inspired by the Situationistsʼ realidade se converteu em encenação.
thesis and practices. De acordo com o historiador norte-
americano, seus compatriotas viviam num
PALAVRAS-CHAVE (KEY WORDS) mundo onde a fantasia era crescentemente
- Espetáculo (Spectacle) mais real do que a realidade – “Much
- Guy Debord of our interest come from our curiosity
- Internacional Situacionista (International Situationist) about wheter our impression resembles
the images found in the newspapers, in
movies, and on television. (...) We go not
to test the image by the reality, but to test
reality by the image (116)”. Pior: o universo
das re pre sen ta ções e das tramóias
midiáticas, trans fi gu ra do em referencial
primário, despontava, amiúde, como mais
João Freire Filho cativante, mais sedutor do que o mundo

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concreto – “The Grand Canyon itself os laços comunitários, outrora urdidos
becomes a disappointing reproduction of por tradições e valores morais autênticos,
the Kodachrome original” (240). se jam hoje forjados por manchetes de
A culpa desse quadro desolador tablóides e mexericos a respeito daqueles
era atri bu í da, um tanto vagamente, às que fornecem entretenimento convencional
“grandes forças históricas” e aos avanços (ar tis tas, apresentadores) e daquelas
tecnológicos responsáveis por espantoso pessoas que viraram “entretenimento
au men to na di fu são de material visual humano” – as celebridades.
(processo iniciado com a “Revolução Mais do que aos efeitos dos sistemas
Gráfica” da segunda metade do século XIX, políticos ou econômicos, devemos creditar
que inundou de ilustrações publicações até aos efeitos corrosivos do entretenimento,
então limitadas ao texto); a ênfase da crítica no en ten der de Gabler, o “admirável e
incidia, no entanto, sobre os mecanismos estranho” mundo novo em que vivemos
de consentimento popular – “Advertising – o “mundo da pós-realidade”, onde todos
men”, frisou Boorstin, “are at most our nós nos tornamos atores e platéias do
collaborators, helping us make illusions for gran di o so e inin ter rup to espetáculo do
ourselves” (idem). O culto aos “pseudo- “filme-vida”: “De fato, Karl Marx e Joseph
eventos hu ma nos” (as ce le bri da des, Schumpeter parecem ter errado ambos.
tautologicamente definidas como “a person Não se tra ta de nenhum ʻismoʼ, mas
who is known for his well-knownness” (57)) talvez seja o entretenimento a força mais
ratificava a inconseqüência e a vacuidade poderosa, insidiosa e inelutável de nosso
do público em geral. Na conclusão, o autor tempo – uma força tão esmagadora que
sugere que a “ameaça da irrealidade” acabou pro du zin do uma metástase e
era muito maior do que a ameaça da luta virando a própria vida” (17).
de classes, da ideologia, da pobreza, da Para Gabler, a “Revolução do
doença, do analfabetismo, da demagogia Entretenimento” foi desencadeada durante
ou da tirania. o pe rí o do otimista e festivo da belle
Os clamores liberais de Boorstin por époque, nos Estados Unidos. Naquelas
uma auto-reforma dos cidadãos (“each of paragens, o en cai xe entre democracia
us must disenchant himself”) inspiraram, social e estética não só insuflou a
recentemente, o conterrâneo Neal Gabler quantidade de entretenimento, desde o
a redigir o também impactante Vida, o século XIX, como lhe forneceu apoio contra
filme (1999). Analista cultural do New os ataques elitistas dos árbitros do gosto.
York Times e do Los Angeles Times, Ao transformar o conceito indefinido do
Gabler sustenta que a lógica do show entretenimento em princípio ex pli ca ti vo
business produziu ramificações por toda geral, a perspectiva analítica de Gabler
a esfera pública norte-americana: política, retoma, numa linguagem mais jovial, as
religião, imprensa, arte... tudo, sem preocupações da intelectualidade européia
exceção, se rendeu ao ritmo, às técnicas de meados do século XIX em diante acerca
e aos truques da indústria de diversão da aparente incompatibilidade (de gênios)
popular. Neologismos como politainment e entre a Cultura e a democracia à americana
infotainment sinalizam a magnitude de tal (encarada não apenas como abertura da
submissão: nas convenções partidárias de cidadania política, mas como doutrina em
democratas e republicanos, no jornalismo que as preferências culturais de todos são
das grandes redes de TV, a palavra de potencialmente tão válidas e respeitáveis
ordem é atrair e manter a atenção do quanto às das elites tradicionais). Em apoio
público, satisfazendo seu apetite pelo à sua argumentação, o autor invoca, a
sensacional, pelo espalhafatoso, pela certa altura, um célebre lamento de Ortega
fofoca. Nostálgico, o jornalista lastima que y Gasset, datado dos anos 20:

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origem, em última análise, a infeliz união
“A nota característica de nos sos – numa con jun tu ra “hiperdemocrática”
tempos, uma triste verdade, é que – do ex po nen ci al desenvolvimento da
a alma medíocre, a mente rasteira, velha e da nova mídia com o congenial
sa ben do-se medíocre, tem o mau gosto da massa (conceituada à
des ca ra men to de reivindicar seu Ortega y Gasset como um conjunto de
direito à mediocridade e sai por aí se pessoas não especialmente qualificadas,
impondo onde consegue” (28). englobando, portanto, não apenas, nem
principalmente, as “massas operárias”, mas
Não obstante efeitos de estilo e também o “homem médio”) – uma legião de
anedotas atraentes, os estudos de Boorstin espectadores predisposta geneticamente
e Gabler (como outros tantos, da mesma a preferir “emo ções ba ra tas”, “lixo
linhagem) cometem um grave equívoco: sensacionalista”, “apelos sen su ais” e
tendem a preferir a crítica impetuosa e a “estímulos visuais” à criação artística e à
condenação moral à pesquisa e à reflexão atuação política reflexiva e responsável.
sistemáticas. Fragmentários, teoricamente “É praticamente im pos sí vel re sis tir ao
pouco desenvolvidos, enquadram-se dentro impulso de transformar qua se tudo em
da qui lo que Guy Debord ([1967]1997, entretenimento, quando é entretenimento
127-132) classificou de crítica espetacular que todo mundo parece querer”
do espetáculo – uma crítica não dialética (111), pondera Gabler, subscrevendo,
cujo “falso desespero” era idêntico, como tacitamente, o já familiar argumento de
pensamento submisso, ao “falso otimismo” defesa dos donos de empresas jornalísticas
da apologia do espetáculo. e dos marketeiros políticos.
Empreendida, pioneiramente, pela Se os dois autores norte-americanos
mo der na sociologia norte-americana, trataram de atualizar a longeva associação
a crí ti ca es pe ta cu lar do espetáculo entre decadência social e cultura de massa
ostentava – nas palavras de Debord (in ter pre ta da como o efeito cultural do
– uma índole “sinceramente reformista”; processo de democratização, urbanização
ancorada em apelos à moral, ao bom e industrialização) (Brantlinger, 1983), Guy
senso, à moderação, essa “boa vontade Debord e seus colegas da Internacional
indignada” se restringia a cen su rar as Situacionista se dedicaram a revigorar a
conseqüências externas do sis te ma, teoria e a prática revolucionária marxistas,
des cre ven do o espetáculo como “uma no contexto da rápida modernização da
espécie de excedente negativo”. Boorstin, França após a Segunda Guerra Mundial e
por exemplo, teimava em contrapor, ao da explosão do consumo nos anos 60.
reino superficial das imagens (conceituado, Inspirado na crítica de Marx
em termos de juízo psicológico e moral, ao tra ba lho ali e na do e ao fetiche da
como o produto de “nossas extravagantes mercadoria, no conceito de reificação de
pretensões”), a base “normal” da sociedade Lukács, na teorização sobre a vida cotidiana
– a vida privada ou a noção de “mercadoria em Lefebvre e nas reflexões da Escola de
honesta”. Era incapaz de atinar que a Frankfurt sobre o “mundo administrado” e a
sociedade baseada na indústria moderna “sociedade unidimensional”, Debord situa o
não é fortuita ou superficialmente espetáculo dentro do quadro de referência
es pe ta cu lar – ela é fundamentalmente do capitalismo avançado e seu imperativo
“espetaculoísta” (#14). estrutural de acumulação, crescimento
Conforme destaquei antes, os relatos e lucro me di an te a transformação em
de Da ni el Boorstin e Neal Gabler nos mercadorias de setores previamente não
tentam persuadir que as desventuras da colonizados da vida social e da extensão
sociedade norte-americana tiveram como da racionalização e do controle burocrático

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às esferas do lazer e da vida cotidiana. reconheceram como importante, ainda não
Repetidamente evocado nas 12 encontrei um só que se tenha arriscado a
edi ções do periódico Internationale dizer, mesmo de forma sintética, do que
Situationiste (1958-1969) e em vários dos ele trata; para eles, o que contava era
panfletos da IS, o conceito de espetáculo dar a impressão de que sabiam de sua
foi elaborado, de modo mais minucioso, existência”, registra o prefácio à quarta
em La société du spectacle (1967). Sua edição italiana, lançada em 1979 (Debord
publicação ajudou a sedimentar a posição [1979] 1997, 148).
de Debord como porta-voz da IS, e Referências esparsas à teoria do
introduziu a categoria crítico-teórica central espetáculo se tornaram, hoje, de rigueur
do movimento para um público mais amplo. nas discussões sobre a horrenda glória dos
A influência dessa obra polêmica nas reality shows, a cobertura televisiva das
atividades contestatórias de Maio de 68 não campanhas bélicas norte-americanas ou a
pode ser negligenciada – dois anos depois, submissão das instituições e do processo
o Le Nouvel Observateur a qualificava de “o político aos es tra ta ge mas do show
Capital da nova geração” (Jay, 1993, 425- business. Numa notável ironia histórica,
426; Jappe, 1999, 19). Debord – sempre obstinado em conferir
Composta de nove capítulos à sua biografia uma aura de pensador e
divididos em 221 teses, A sociedade do artista maldito (cf. Debord [1989] 2002;
espetáculo é um pri mor de entrelinhas Jappe, 1999, 67-68, 136-151) – acabou
e subentendidos. Al ter na, de maneira virando uma espécie de celebridade, foco
estratégica, um dis cur so pu ra men te de homenagens para além dos mu ros
analítico com alusões cifradas a outros acadêmicos (um território, aliás, que ele se
pensadores, ambigüidades po é ti cas dizia orgulhoso de não habitar); seu nome
e assertivas inapeláveis à moda dos é lembrado, de passagem, por exemplo,
manifestos das vanguardas históricas. Sua no roman-verité de Ellis (2001, 252) sobre
configuração traz à tona os laços estreitos o culto à moda e aos ícones midiáticos
de Debord e dos demais componentes da nos Estados Unidos. Tais menções
IS com os círculos artísticos do dadá, do honrosas costumam simplificar o conteúdo
surrealismo e do letrismo (Marcus, 1989; e esmaecer o radicalismo da crítica de
Kaufmann, 2001); a justificativa, porém, Debord, reduzindo a noção de espetáculo
oferecida pelo próprio autor, a posteriori, à mera ferramenta descritiva acionada para
para as ocultações, elipses e negaças de festejar ou reprovar o estado hodierno da
seus textos foi outra: o receio de que suas Cultura (nesse sentido, Gabler fez bem em
reflexões fossem pervertidas e apropriadas ignorar – por completo – a obra do filósofo
como uma espécie de manual por aqueles e agitador cultural francês, no seu Vida, o
que se esforçavam para manter o sistema filme).
de do mi na ção espetacular – “Devo ter Na formulação sui generis de Debord,
cautela para não ensinar demais” (Debord a “es pes sa bruma conceitual chamada
[1988] 1997, 167). es pe tá cu lo” (Berman et al, 1990-1991,
Seja como for, tal opção estilística 84) unifica e explica uma considerável
pode mas ca rar, para o leitor menos variedade de fenômenos aparentes. Ao
em pe nha do, o real escopo da análise contrário do que nor mal men te indicam
histórica e política de Debord, além de compêndios e cursos de teoria da
constituir-se num con vi te a citações comunicação, o autor francês não escreveu
levianas. A sociedade do es pe tá cu lo mais uma arenga contra os pecados veniais
integra, sem dúvida, o vasto rol das dos veículos de comunicação de massa,
obras muito reverenciadas e pouco lidas nos moldes das críticas efetuadas inclusive
– “De todos os que citaram este livro e o pela própria mídia, com certa regularidade

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– seja na forma bem-in ten ci o na da dos Citada na epígrafe, A essência
observatórios da imprensa, seja na forma do cris ti a nis mo (1841), de Feuerbach,
auto-indulgente e hipócrita dos debates descreveu como o homem se separara
encenados por Larry King e epí go nos de sua essência, ao projetá-la num Deus
a propósito, por exemplo, dos “abusos” – o espelho in ver ti do da verdadeira
no acompanhamento de casos como humanidade no qual o homem venera
o julgamento de O. J. Simpson ou as seu próprio poder virado contra si. Essa
infidelidades matrimoniais de Bill Clinton. separação generalizada engendrou a ilusão
No ponto de vista de Debord, o caráter religiosa – um conteúdo profano invertido; a
problemático dos meios de comunicação negação do humano onde o homem afirma
de massa não decorria de eventuais como outro aquilo que nega em si mesmo.
des li zes éticos, da cupidez infrene de Essa ilusão che ga ria ao fim uma vez
executivos e funcionários das empresas que a humanidade, educada pela crítica,
de mídia, mas do uso generalizado dos redescobrisse a verdade inerente em suas
meios de comunicação de massa como ilusões – sua própria essência previamente
um instrumento de obstrução do diálogo alienada na forma fantástica de Deus ou da
– fator de integração altamente propício ao ideologia.
“automovimento total” da sociedade: A tese de que a teologia é a
an tro po lo gia virada de ponta-cabeça
Se as necessidades sociais da serviu de pedra de toque para a crítica
época na qual se desenvolvem marxista da religião. Marx concordava
essas técnicas só podem encontrar que a religião é apenas a imagem deste
satisfação com sua mediação, se a mundo projetada nas nuvens; sua obra,
administração dessa so ci e da de e porém, enfatizava um elemento ausente
qualquer contato entre os homens no materialismo individualista e estático
só se podem exercer por intermédio de Feuerbach: a idéia de que a função da
dessa força de comunicação religião é reconciliar os homens com uma
instantânea, é por que essa ordem social injusta. O desmantelamento
“co mu ni ca ção” é es sen ci al men te da religião envolveria necessariamente a
unilateral; sua con cen tra ção demolição da sociedade iníqua que lhe
equivale a acumular nas mãos da dava sustentação e era sustentada por
administração do sistema os meios ela. A liberação das ilusões te o ló gi cas
que lhe permitem prosseguir nessa e a liberação da opressão econômica
precisa administração. (#24) formariam um único processo.
Na trilha do relato marxista, Debord
De qualquer forma, os mass media con si de ra o espetáculo um herdeiro
são, para Debord, uma manifestação ou sucedâneo da religião – a soma de
importante mas epidérmica destes tempos “todos os subprodutos da eternidade que
es pe ta cu la res. Numa perspectiva mais sobreviveram como armas no mundo dos
ampla e fun da men tal, o conceito de dirigentes” (De bord [1961] 2003, 151).
espetáculo se refere tanto à experiência Trata-se de um agente de manipulação
prática da realização (sem obstáculos) dos social e con for mis mo político, uma
desígnios da “razão mercantil” quanto às permanente “Guerra do Ópio” (#44)
novas técnicas de governo usadas para que visa a entorpecer os atores sociais,
avançar o empobrecimento, a sujeição e turvando-lhes a consciência acerca da
a negação da vida real e, como alertara natureza e dos efeitos do poder e da
Gramsci, conquistar o controle social por privação capitalista. O espetáculo é, em
intermédio mais do consenso do que da síntese, a reunião de todas as formas de
força. representação e de produção material que

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impedem que a consciência do desejo e do homem. Provinham da prática social
o desejo da consciência alcancem seu co le ti va, mas se com por ta vam como
“projeto” (tal qual ele é identificado, claro, seres reais e au tô no mos, motivadores
sob a ótica marxista): a abolição, por meios de um com por ta men to contemplativo e
revolucionários, da sociedade de classes mesmerizado (#18).
– condição histórica que permitiria a todos Diferente do que propunha Boorstin,
desenvolver a plenitude das capacidades os ci da dãos, no entendimento de
humanas como fins em si mesmas, Debord, con tri bu em para a causa da
envolvendo-se ativamente com o mundo espetacularização da sociedade não devido
dos objetos, transformando-os e criando-os às suas falhas mo rais, mas de forma
a partir de seu trabalho intelectual e prático. compulsória, como peça das engrenagens
O espetáculo de que trata Debord das forças produtivas: “O homem separado
deve ser compreendido como um de seu produto produz, cada vez mais
desdobramento da abstração generalizada e com mais força, todos os detalhes de
ine ren te ao funcionamento da ordem seu mundo. Assim, vê-se cada vez mais
capitalista. Segundo Marx, a acumulação separado de seu mundo. Quanto mais sua
do dinheiro, quando supera um patamar vida se torna seu produto, tanto mais ele se
qualitativo, se transforma em capital; separa da vida” (#33).
segundo Debord, o espetáculo é o capital A institucionalização da divisão
em tal grau de acumulação que se torna técnica do trabalho obrigou o homem a
imagem (#34): “O resultado concentrado do concentrar-se em atividades fragmentárias
trabalho social, no momento da abundância e sem sentido para ele; o produto final
econômica, torna-se aparente e submete de seu trabalho já não lhe pertencia e,
toda realidade à aparência, que é agora portanto, apa re cia-lhe como uma força
o seu produto. O capital já não é o centro independente e hostil, fora de seu domínio.
invisível que dirige o modo de produção: À medida que essa eco no mia que se
sua acumulação o estende até a periferia move por si mesma se expande, cresce
sob a forma de objetos sensíveis. Toda a a alienação que estava em seu núcleo
extensão da sociedade é o seu retrato” original. Com a circulação do dinheiro
(#50). (a linguagem uniforme da va lo ra ção),
Não por acaso, pois, a visão foi da mercadoria e da lógica quantitativa,
privilegiada, na contemporaneidade, em um pro ces so geral de des subs tan ci
detrimento de outras faculdades, como o alização envolve a sociedade. A economia
tato; “o sentido mais abstrato e mais sujeito capitalista se mostra radicalmente formal e
à mis ti fi ca ção” corresponde, de acordo desarraigada no que diz respeito ao mundo
com Debord, à abstração generalizada substantivo do valor de uso; o valor de
que informa a sociedade do espetáculo. troca e sua lei de equivalência dissolvem
É fácil dis cer nir, na argumentação do toda diferença qualitativa na identidade
autor, afinidades com o discurso antiocular dos va lo res quantitativos. O dinheiro
formulado pelo pensamento francês, ao domina a sociedade como representação
longo do século XX (Jay, 1993, 427-430; da equivalência geral, isto é, do caráter
Jappe, 1999, 21, 173); Debord, contudo, intercambiável de todos os bens, cujo uso
não acalentava uma ojeriza metafísica em permanece incomparável; como uma forma
relação ao olhar e à imagem enquanto abs tra ta, cor ro si va e disseminada, ele
tais – incomodava-o, isto sim, a maneira determina a natureza da própria realidade,
como elas funcionam na so ci e da de e constrói o seu império sobre as fantasias
do espetáculo. O cerne do pro ble ma e ilusões da mercadoria.
estava na independência obtida pelas Mais e mais, o homem se converte em
imagens, que escapuliam ao controle espectador do automovimento fascinante e

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fremente das mercadorias – esse “célebre Ondas de entusiasmo por
enig ma metafísico”, esse “fenômeno de ter mi na do pro du to, açuladas pela
esquizóide e autocontraditório”, tal qual mídia, se propagam com enorme rapidez.
definiu Eagleton (1993, 155), na esteira de “Vedetes do espetáculo” sobressaem como
Marx: modelo de iden ti fi ca ção, representando
tipos variados de papéis e estilo de vida.
Como puro valor de troca, a O princípio do fetichismo da mercadoria
mer ca do ria apaga de si qualquer se realiza completamente – na coleção
resíduo de matéria; como um objeto de gadgets como chaveiros de brinde e
aurático se du tor, ela ex põe o seu outros supérfluos que foram produzidos
próprio ser sensível singular numa justamente para se rem colecionados
espécie de es pe tá cu lo espúrio de verifica-se a “manifestação de uma entrega
materialidade. Mas esta materialidade mística à transcendência da mercadoria”:
é ela mesma uma forma de abstração, “O homem reificado exibe a prova de sua
servindo para esconder as relações intimidade com a mercadoria. Como nos
sociais concretas da sua produção. arroubos dos que entram em transe ou dos
De um lado, a mercadoria espiritualiza agraciados por milagres do velho fetichismo
a substância daquelas relações até religioso, o fetichismo da mercadoria atinge
fazê-las de sa pa re cer; e de outro, momentos de excitação fervorosa” (#67).
investe as suas próprias abstrações Se Marx investigou a primeira fase
com uma densidade material da dominação da economia sobre a vida
plausível. No seu esote-rismo, como social, que acarretara, no modo de definir
na sua hostilidade raivosa contra a toda realização humana, uma degradação
matéria, a mercadoria é uma paródia do ser para o ter, Debord vai fixar-se
do idealismo metafísico; mas ela é numa fase posterior, em que ocorre um
também, enquanto fetiche, a forma deslizamento generalizado do ter para o
perfeita da materialidade degradada. parecer, do qual todo “ter” efetivo deve
extrair seu prestígio imediato e sua função
Forma visível de processos sociais última. O objeto material puro e simples
cu jas ra í zes na produção humana dá lugar a “uma multidão crescente de
foram es que ci das ou reprimidas, as imagens-objetos” (#15), valorizada e
mercadorias se oferecem ao consumidor consumida como imagem.
em autonomia imediata e ganham vulto Dentro desse sistema de abstração,
como os ídolos adorados no lugar de um a aparência da mercadoria é mais decisiva
Deus invisível. Não mais encaradas como que o verdadeiro valor de uso (sua
um produto so ci al do tra ba lho humano utilidade espontânea e não mediada) e
dotado de pro pri e da des sen su ais úteis seu empacotamento simbólico gera uma
para a vida prática das pes so as, as indústria da imagem e uma nova “estética
mercadorias passam a ser tratadas como da mercadoria”, conforme qualificou Haug
algo naturalmente munido de faculdades, ([1971] 1997). O conceito se refere, na
propriedades, valores e sig ni fi ca dos descrição do autor marxista alemão,
intrínsecos (masculinidade, feminilidade, à maneira mediante a qual a beleza
elegância, sex appeal, ousadia, inteligência, (uma “segunda pele” da mercadoria,
modernidade), transferíveis ao consumidor independente de seu corpo material) é
mediante as relações místicas e abstratas desenvolvida tecnicamente a serviço da
de compra e posse (a mediação mágica do realização do valor de troca. A construção
dinheiro) e não por intermédio das relações (mediante a embalagem, a di vul ga ção
orgânicas do fazer e do construir (por meio publicitária, a estética das lojas e vitrines)
da práxis) (Slater, 2002, 97, 112). de uma “promessa de valor de uso”,

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indispensável para impulsionar as vendas, suas necessidades. Como a sociedade
envolve o apelo cientificamente calculado moderna se caracteriza pela transformação
aos sentidos (à visão, sobretudo) e aos em mercadoria e pela racionalização, as
desejos e às ansiedades do consumidor, necessidades do homem (suas preferências
transfigurando o comércio moderno numa e escolhas) são, elas próprias, alvos de
verdadeira “tecnocracia da sensualidade”. intensa pressão social, tanto em relação
Assim sendo, como sinalizara previamente à sua forma (as necessidades sem pre
Debord, o valor de uso (pertencente ao precisam ser necessidade de mercadorias)
domínio da diferença e da diferenciação) quanto a seu conteúdo (competição por
é ressuscitado como um referente da status, marketing pessoal, imagens de estilo
produção: “O valor de uso que estava de vida etc.). Quando as necessidades do
im pli ci ta men te compreendido no valor indivíduo são determinadas pela sociedade
de troca deve ser agora proclamado de e são definidas como necessidades de seu
forma explícita, na realidade invertida produto, os indivíduos simplesmente se
do es pe tá cu lo, justamente porque a identificam com a sociedade e consideram-
realidade efetiva desse valor de uso na satisfatória, não porque ela satisfaz suas
está corroída pela eco no mia mercantil necessidades, mas porque definiu suas
superdesenvolvida; uma pseudojustificativa necessidades em termos das satisfações
torna-se necessária para a falsa vida” que oferece (Slater, 2002, 127).
(#48). Em outras palavras: o valor de O senso da inautenticidade da vida
troca (o domínio das identidades) ainda contemporânea não suscita, em Debord,
prevalece, mas o valor de uso é, agora, os sus pi ros nostálgicos característicos
empregado de uma forma ideológica que de con ser va do res, de reacionários e
explora as necessidades do consumidor. de certos críticos culturais de esquerda
O domínio espetacular está diante da integridade das sociedades pré-
diretamente vinculado, segundo Debord, modernas e dos supostos resquícios de
à fabricação ininterrupta de “pseudobens”, sua organicidade nas atuais sociedades
“pseu do ne ces si da des” e “pseudogozos” não-européias. Pelo contrário: a ausência
pelo con su mo moderno, numa ruptura de romantismo e uma dose considerável
ab so lu ta do de sen vol vi men to orgânico de preconceito dis tin guem a descrição
das ne ces si da des sociais. Na fase das aldeias ali nha va das pelo autor
primitiva da acu mu la ção capitalista, a – nada há a exaltar-se em tais unidades
economia política se fixara nos meios e sociais invariavelmente “dominadas pelo
métodos de exploração do homem como conformismo, pelo isolamento, pelo controle
operário, como força de trabalho; jamais o mesquinho, pelo tédio, pe los mesmos
considerava em seus momentos de ócio, mexericos sobre as mesmas famílias”
em sua humanidade. Esse ponto de vista (Debord [1988] 1997, 192-193).
da classe dominante se inverteu assim que Somente numa sociedade pós-
o grau de abundância atingido na produção capitalista encontraríamos as condições
das mercadorias exigiu uma “colaboração” de possibilidade de uma vida efetivamente
a mais por parte do operário. Na sociedade au tên ti ca. Na visão do autor, a forma
do espetáculo, o ope rá rio ganha uma política sob a qual a emancipação podia
existência fora do universo da produção; ser realizada tomara uma forma nítida,
passa a ser adulado, por im pe ra ti vos no primeiro quar to do século XX, nos
estruturais, como consumidor (#43). conselhos operários revolucionários. Em
Segundo Debord, o sistema contraste com o comunismo burocrático,
es pe ta cu lar, que define o trabalhador os conselhos (ao mesmo tempo, os
como um con su mi dor, tenta moldar e instrumentos de luta e a es tru tu ra
posteriormente explorar seus desejos e organizadora da futura sociedade liberada)

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concentravam, nos trabalhadores, as afora três ou quatro erros tipográficos –
fun ções decisórias e executivas. Seus “Não duvido que a confirmação encontrada
defensores postulavam que a organização por todas as minhas teses continue até o
re vo lu ci o ná ria não podia reproduzir as fim do século, e além dele” (Debord [1979]
con di ções de cisão e de hierarquia da 1997, 152). A sociedade do espetáculo
so ci e da de dominante; daí a ênfase na estava com os dias contados; só os
necessidade de os cidadãos controlarem tolos poderiam acreditar em algum outro
democraticamente cada esfera de suas desfecho menos “ra di cal men te realista”
vidas – da fábrica à comunidade. Em tais (idem, 162).
circunstâncias, por intermédio de uma O próprio autor, contudo, já não se
intervenção coerente na história, o sujeito revela tão seguro assim de suas teses
proletário podia emergir de sua luta contra e pre vi sões nos Comentários sobre a
a contemplação (#117). sociedade do es pe tá cu lo, redigidos em
Debord conferia ao proletariado um 1988. Não há, aqui, nem som bra do
papel bem demarcado numa construção otimismo revolucionário e da tensão
teleológica da história – o de inimigo do dialética da obra original. As clas ses
espetáculo por natureza. O seu ser não fora mé di as – que Debord vaticinara que
suprimido, permanecia “irredutivelmente” seriam ab sor vi das pelo proletariado
exis ten te na alienação intensificada do (“A vi tó ria do sistema econômico da
capitalismo moderno. Ele trazia em si “a separação é a proletarização do mundo”
revolução que não pode deixar nada de fora (#26)) – ocupavam, agora, todo o espaço
dela mesma”, a exigência da dominação social. Suas condições de vida, de fato,
permanente do presente sobre o passado se proletarizaram, em termos de privação
e a crítica total da separação (#114). Cabia de qualquer poder sobre sua própria
ao conjunto desses sujeitos inalienáveis existência; elas careciam, entretanto, da
e revolucionários em sua essência, em consciência de classe do pro le ta ri a do.
si, “instaurar a verdade no mundo” (#221) Não havia vestígio de nenhuma força
– uma “missão histórica” que nem o organizada atuando contra o sistema
indíviduo isolado nem a multidão solitária espetacular; as únicas forças organizadas
podiam realizar. A explicação para o fato eram as que queriam sua manutenção
de que quase todas as ações concretas (Debord [1988] 1997, 183).
do proletariado (“a imensa maioria dos No plano teórico, um Debord
trabalhadores que perdeu todo po der res sa bi a do fri sa, de saída, que seus
sobre o uso de sua vida” (#114)) pudessem comentários não se reportam ao que é
ser tachadas de “reformistas” era que “desejável”, nem “preferível” – limitam-se
ele ainda não alcançara o seu ser para a registrar os fatos (169). Dentre eles, o
si, à consciência de seu ser verdadeiro, mais significativo é o nascimento de um
por causa de suas ilusões e por culpa novo e bem mais pujante tipo de poder
daqueles que o manipulavam em proveito espetacular: o es pe ta cu lar integrado,
próprio. De qualquer forma, continua difícil desenvolvido, de início, na França e na
de entender como um proletariado, em si Itá lia, e que doravante tendia a impor-
revolucionário, tenha podido, durante tantas se mundialmente. Em 1967, nosso autor
décadas, deixar-se levar na conversa pelas dis tin gui ra duas formas (sucessivas
“burocracias operárias” dos sindicatos e e rivais) de domínio espetacular: a
partidos... (Jappe, 1999, 118). con cen tra da e a difusa. A primeira, ao
No prefácio à 4a edição italiana de destacar a ideologia concentrada em torno
A so ci e da de do espetáculo, Debord se de uma per so na li da de ditatorial, havia
rejubilou ao constar que nada, na primeira acompanhado a contra-revolução totalitária
versão da obra, necessitava ser corrigido, na Alemanha e na Rússia. A segunda,

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ao instigar os assalariados a escolherem bastante dis cu tí veis, consubstanciadas,
livremente entre uma grande variedade de por exemplo, nas re fe rên ci as-clichê
mercadorias novas que se confrontavam, ao “império da pas si vi da de moderno”
representara a americanização do mundo. (#13) e as condições de isolamento das
Combinação das duas formas anteriores, “multidões solitárias” (#28). A profissão
o espetacular integrado, como o próprio de fé no potencial revolucionário do
nome antecipa, tem como característica proletariado, ratificada nas teses finais, não
essencial o fato de ter-se inteirado da consegue aplacar totalmente o senso de
própria realidade social e da vida cotidiana; inexorabilidade do sistema espetacular.
nenhum aspecto da existência foge a seu A atmosfera fica ainda mais lúgubre,
domínio: é ób vio, com a chegada desse híbrido
fatal que atende pelo nome de espetáculo
Quando o espetacular era integrado – nele, “as forças terríveis da
con cen tra do, a maior parte da rede de tirania” foram capazes não só de
sociedade periférica lhe escapava; obs cu re cer a ex pe ri ên cia concreta, ao
quando era difuso, uma pe que na excluí-la do sistema de representação,
parte; hoje, nada lhe es ca pa. O mas de erradicá-la in tei ra men te. Já
espetáculo confundiu-se com toda a não existe ágora, co mu ni da de ge ral,
realidade, ao irradiá-la. (...) Exceto nem comunidades restritas a gru pos
uma herança ainda considerável, mas intermediários ou a instituições autônomas;
com tendência a diminuir, de livros tampouco existe qualquer lugar onde
e construções antigas – que são, o debate de idéias possa liberar-se, de
aliás, cada vez mais selecionados forma duradoura, da opressiva presença
e considerados de acordo com as do discurso midiático. Já não existe o juízo
conveniências do espetáculo – já não – com garantia relativa de independência –
existe nada, na cultura e na natureza, daqueles que constituíam o mundo erudito.
que não tenha sido transformado Nenhum partido ou fragmento de partido
e poluído segundo os meios e os tenta, sequer, manifestar a pretensão
interesses da indústria moderna. A de mu dar alguma coisa substancial. A
própria genética tornou-se plenamente cons tru ção de um presente perpétuo
acessível às forças dominantes da promove o desfazimento da memória e do
sociedade. (173) sentido histórico geral (esse tema, como
se sabe, reaparecerá, com outra inflexão,
Berman (Berman et al., 1990- no centro das seminais discussões de
1991, 82) argumenta, com propriedade, Jameson (1997) sobre o pós-modernismo).
que os Co men tá ri os empobrecem, de A dissolução do pensamento lógico
várias formas cruciais, a tese original do é deliberadamente in je ta da, em altas
espetáculo; as observações posteriores doses, na população, pelos “anestesistas-
não corrigem as impropriedades do relato reanimadores” do espetáculo (homenagem
publicado em 1967 – na realidade, só as subliminar e inopinada ao cediço modelo
agravam: “Debord was both right and wrong funcionalista da “agulha hipodérmica”?).
in the original text; now he is less right and Referências obsessivas a
more wrong”. A sociedade do espetáculo “sociedades ve la das”, arquivos
delineara, a meu ver, um retrato apropriado confidenciais, “estatísticas incontroláveis”,
de certas características tendencialmente especialistas em vi gi lân cia, complôs,
dominantes do mundo contemporâneo; boatos programados, ati vi da des de
ao longo do li vro, no entanto, a força serviços secretos, maquinações da polícia
tendencial (e tendenciosa) do espetáculo e da “gente da mídia” só vêm reforçar
vai ganhando intensidade e abrangência a impressão de que os Comentários

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inauguram a crítica paranóica da sociedade em Por to Alegre, Rio de Janeiro, Belo
do es pe tá cu lo. Para Berman (Berman, Horizonte, Fortaleza, São Paulo e Brasília
1990-1991, 86), Debord parece um “Adorno – que se apropriam de estratégias
tresloucado”, anunciando aos quatro ventos situacionistas dos anos 60, num ataque
o reino supremo do capitalismo e o fim de contra a máquina da globalização neoliberal
qualquer acesso à experiência concreta; (em sintonia com as manifestações de
a mim, pessoalmente, os últimos escritos Seattle e Gênova) e o ca ni ba lis mo da
do autor francês trouxeram à memória os produção artística pelo sistema comercial
delírios persecutórios do professor Charles (Monachesi, 2003).
Kinbote, criação impagável de Nabokov, Igualmente inspirados pelos
em Pale Fire. Num plano menos anedótico, expoentes da IS, praticantes da culture
é possível afirmar que a aparente perda jamming em todo o mundo criam e
da crença num proletariado autônomo e disseminam paródias mordazes de peças
vigoroso e na inevitabilidade da derrocada publicitárias e modificam drasticamente as
do capitalismo levou Debord a sucumbir, mensagens dos cartazes e outdoors que
de certa maneira, ao fatalismo da arena as corporações multinacionais difundem,
pós-moderna. O teor de suas conclusões de forma insolente, em calçadas, prédios,
acerca da marcha do capitalismo ainda ônibus, quadras de basquete e banheiros
mantém pontos de colisão relevantes com de universidade. A in ten ção dessa
as do último Baudrillard; o tom resignado crescente rede de artistas de guerrilha é
e ominoso da argumentação, no entanto, denunciar o consumismo incentivado pela
aproxima os dois autores (Best, 1995, 62- mídia, o caráter invasivo do ma rke ting
64; Best e Kellner, 1997, 118). das marcas globalizadas e as normas de
Debord ([1988] 1997, 191) se mostra trabalhos antiéticas adotadas, em países
desiludido, em especial, com os integrantes do Terceiro Mundo, por empresas como a
das novas gerações. Formados sob os Nike e a Wal-Mart.
ditames do espetáculo, eles se colocam de Em vez de duas garrafas de cerveja
antemão a serviço da ordem estabelecida; em um banco de neve com a legenda
desde pequenos, começam, com grande “Frio Demais”, um outdoor que parodiava a
en tu si as mo, pelo “Saber Absoluto da campanha da Miller apresentou a imagem
informática”, enquanto ignoram, cada vez de dois trabalhadores congelados em
mais, a leitura, que exige um verdadeiro um banco de neve com os dizeres “Frio
juízo a cada linha e é a única capaz de Demais: a Miller despediu 88 trabalhadores
dar acesso à vasta experiência humana de St. Louis”. O Billboard Liberation Front
antiespetacular. “A conversação já está colou o rosto do assassino em série
quase extinta, e em breve também estarão Charles Manson num outdoor de 11 metros
mortos muitos dos que sa bi am falar” da Leviʼs (o maior de São Francisco); na
(189), profetiza, dando asas a outro lugar- declaração deixada na cena do crime, os
comum bem do agrado de Postman (1985), jammers afirmavam que tinham escolhido
Sartori (2001) & Cia. Em A sociedade a foto de Manson porque os jeans eram
do espetáculo, o autor já atestara que o “Costurados por pri si o nei ros na China
próprio conceito de juventude, no sentido e vendidos para pe ni ten ci á ri as nas
de “mudança daquilo que existe”, era uma Américas”. Em 1983, a Billboard Utilizing
espécie de anacronismo (#62). Graffittis Against Unhe al thy Promotions
Fico imaginando, a propósito, qual (BUG-UP) causou danos de US$ 1 milhão a
seria a reação de Debord caso pudesse outdoors de tabaco dentro e nos arredores
testemunhar os trabalhos de perfil político de Sidney. Nos Estados Unidos, Rodriguez
e antiinstitucional de dezenas de “coletivos” Garcia (reputado como um dos mais
de jovens artistas brasileiros – sediados habilidosos criadores da culture jamming)

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substituiu as mensagens de consumo das transação comercial no dia seguinte
empresas de tabaco por suas pró pri as ao Dia de Ação de Graças, quan do
mensagens políticas, mais per su a si vas tradicionalmente canadenses e americanos
– além de transformar meticulosamente aproveitam o feriado para fazer as compras
as faces dos modelos de cigarro, de modo de Natal) e a TV Turnoff Week (movimento
que parecessem doentes e re pul si vos, abstencionista que conclama as pessoas
alterou o conteúdo original do Surgeon a desligarem seus televisores durante a
General Warning (equivalente ao nosso “O semana em que as emissoras dos Estados
Ministério da Saúde Adverte”): “O Diretor Unidos avaliam os índices de audiência
Nacional de Saúde adverte: Negros e com intuito de definir preços de espaço
latinos são os principais bodes expiatórios comercial para o restante do ano).
para drogas ilegais, e os principais alvos Alguém, decerto, vai objetar que tais
das drogas legais” (Klein, 2002, 307-337). tentativas de usar a linguagem e a força
A influência da doutrinação do espetáculo contra ele mesmo podem
situacionista acerca da necessidade de resultar em zombaria inócua, assimilável
retomada e reformulação do espaço público pelo sistema. Este, porém, é um fantasma
e da força di rup ti va do détournement 1 que sem pre rondou todos os atos de
é or gu lho sa men te assumida pelos “pro vo ca ção sistemática”, “abstenção
culture jammers. Debord, por exemplo, é es pa lha fa to sa”, “de cep ção radical”,
mencionado, com destaque, em editorial conforme já observara o próprio Debord
da revista Adbusters, principal veículo de ([1955] 2003, 40): “(...) [A] maior dificuldade
divulgação da Adbusters Media Foundation desse projeto é mesclar propostas
(http://adbusters.org/ma ga zi ne/23/ aparentemente delirantes com uma dose
blueprint). Criada em 1989, a organização suficiente de sedução séria”. Todavia, mais
canadense se define como uma rede global do que aquilatar a eficácia insurrecional
de artistas, ativistas, escritores, fanfarrões, dos movimentos con tem po râ ne os
estudantes, educadores e empreendedores anticonsumismo e an ti cor po ra ções,
que almeja levar adiante o movimento interessa-me, por ora, registrar a circulação
de ativismo social da era da informação, de um entusiasmo e de um ati vis mo
a fim de derrubar as estruturas de poder crítico que, felizmente, não condiz com as
existentes e forjar uma grande mudança profecias apocalípticas proclamadas nos
na maneira como viveremos no século últimos escritos do pensador francês.
XXI (http://adbusters.org/in for ma ti on/ Se os Comentários sobre a sociedade
foundation). Idealizador e diretor da ONG, do es pe tá cu lo podem ser julgados
o estoniano Kalle Lasn afirma que seu essencial e irredimivelmente equivocados,
objetivo era unir feministas, ambientalistas, a obra original continua – entre erros e
esquerda po lí ti ca e jovens rebeldes, acertos candentes, implacáveis, fiéis ao
reconfigurando as for ças fragmentadas estilo e à personalidade de seu autor –
das políticas de identidade em um novo e auxiliando-nos a refletir sobre os crescentes
poderoso movimento de contestação (Lasn, contornos mercadológicos da sociedade
2000, xii). contemporânea. O poder de sedução
Além de elaborar e disseminar das teses debordianas não deve, porém,
pa ró di as de peças publicitárias, a deixar-nos hipnotizados a ponto de perder
Adbusters coordena campanhas mundiais de vista o que se passa fora dos bastidores
de conscientização como o Buy Nothing do espetáculo. Neste particular, toda a safra
Day (conjunto de performances, marchas, recente de estudos sobre a riqueza da vida
protestos e détournement de ícones da cotidiana e o papel das mediações culturais
cultura de consumo que visa a persuadir na relação com a mí dia; as pesquisas
a população a não realizar qualquer qualitativas e as etnografias que avaliam o

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grau de autonomia das audiências diante da deriva: escritos situacionistas sobre a cidade, p. 143-152.
dos dispositivos de co mu ni ca ção; as Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003 [1961].
teorizações sobre consumo e cidadania
podem figurar, do ponto de vista analítico, _______. A sociedade do espetáculo: comentários sobre a
como um bem-vindo corretivo aos culs-de- sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997
sac a que Debord nos conduz . [1967].

_______. “Prefácio à 4a edição italiana de A sociedade do


Notas espetáculo”. In: A sociedade do espetáculo: comentários
sobre a sociedade do espetáculo, p. 143-164. Rio de Janeiro:
1 Reunião de materiais artísticos ou midiáticos preexistentes Contraponto, 1997 [1979].
num contexto novo, cujo impacto está di re ta men te
relacionado à lembrança consciente ou inconsciente do _______. Comentários sobre a sociedade do espetáculo. In:
contexto original dos elementos. A colagem de slogans A sociedade do espetáculo: comentários sobre a sociedade
e textos revolucionários nos balões de personagens de do espetáculo, p. 165-237. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997
histórias em quadrinhos é, talvez, o exemplo mais famoso [1988].
do uso dessa técnica adaptada do dadá e do surrealismo.
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