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  A Formação da Filosofia Contemporânea é fruto de pesquisa desenvolvida no Grupo A V
  A Formação da Filosofia Contemporânea é fruto de pesquisa desenvolvida no Grupo A V
 

A Formação da Filosofia Contemporânea é fruto de pesquisa desenvolvida no Grupo A VIVÊNCIA PÓS- MODERNA, ligado ao tema Estudos Transdisciplinares em Línguas e Literaturas, na Linha de Pesquisa:

Língua Portuguesa e suas respectivas Literaturas sob o influxo de outras disciplinas, artes e mídias, da Faculdade CCAA.

Contato:

luis.carlos@faculdadeccaa.edu.br

 

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  SUMÁRIO | A PRESENTAÇÃO | C APÍTULO 1: O PROBLEMA DA DEFINIÇÃO DO TERMO
  SUMÁRIO | A PRESENTAÇÃO | C APÍTULO 1: O PROBLEMA DA DEFINIÇÃO DO TERMO
 

SUMÁRIO

| APRESENTAÇÃO

| CAPÍTULO 1:

O

PROBLEMA DA DEFINIÇÃO DO TERMO “FILOSOFIA

 
 

|

CAPÍTULO 2:

 

FILOSOFIA E CONHECIMENTO: DESENVOLVIMENTO E ABRANGÊNCIA

 
 

|

CAPÍTULO 3:

 

A

POLIS GREGA: DEMOCRACIA E FILOSOFIA

 
 

|

CAPÍTULO 4:

 

O

EXERCÍCIO DA SOFÍSTICA

 

|

CAPÍTULO 5:

 

FILOSOFIA E VERDADE

 

|

CAPÍTULO 6:

 

FILOSOFIA E MODERNIDADE: SUJEITO E CONSCIÊNCIA

 
 

|

CAPÍTULO 7:

 

HISTÓRIA E CIÊNCIAS HUMANAS

 

|

CAPÍTULO 8:

 

O

CONTEXTO CULTURAL NA ERA CONTEMPORÂNEA

 
 

|

CAPÍTULO 9:

 

O

DESENVOLVIMENTO DA FILOSOFIA ANALÍTICA, ANTECEDENTES

 

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  | C APÍTULO 10:   O P ENSAMENTO F ENOMENOLÓGICO   | C APÍTULO
  | C APÍTULO 10:   O P ENSAMENTO F ENOMENOLÓGICO   | C APÍTULO
 

|

CAPÍTULO 10:

 

O PENSAMENTO FENOMENOLÓGICO

 

|

CAPÍTULO 11:

 

DA ESTRUTURA AO PÓS-ESTRUTURAL

 

|

CAPÍTULO 12:

 

A TRANSIÇÃO AO SÉCULO XXI

 

|

ANEXO:

PÓS-MODERNIDADE, MULTICULTURALISMO E

 

CIÊNCIAS HUMANAS

 

|

BIBLIOGRAFIA

 

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APRESENTAÇÃO Em A Formação da Filosofia Contemporânea serão examinadas as fontes que influenciam decisivamente o

APRESENTAÇÃO

Em A Formação da Filosofia Contemporânea serão examinadas as fontes que influenciam decisivamente o pensamento atual. Seria preciso, inicialmente,

indagar sobre a relação inusitada que vemos se estabelecer entre estes dois qualificativos, o contemporâneo e o atual, no interior de uma reflexão acerca dos pressupostos que orientam o nosso percurso. Não há dúvida de que esses termos são sinônimos. No entanto, o contexto filosófico parece impor alguma oscilação entre eles. Sabe-se que, em História geral, entre esses dois termos verifica-se uma oposição máxima. Ali, a Revolução Francesa, instaurando o predomínio da burguesia, enuncia com precisão a transformação de época, de modo que faz sentido pensar em termos de uma “contemporaneidade”, que abrange o século XIX. Poderia assim, em filosofia, parecer usual a extensão histórica do termo, de modo que não ofereceria problemas a ideia de uma conexão óbvia com a Era Contemporânea. Todavia, os acontecimentos decisivos aqui são em maior número. Eles seriam melhor captados, se fosse o caso de escolher algum enfoque limítrofe, no campo do saber, na proximidade dos estilos literários. Após o Iluminismo do século XVIII, o Romantismo e o Realismo completam o século XIX, como momentos irredutíveis do encaminhamento conceitual.

Se os manuais de filosofia geralmente escolhem tratar o período posterior

à Revolução Francesa pela delimitação dos séculos, consagrando volumes

separadamente ao XIX e ao XX, a sinonímia do contemporâneo e do atual supõe o relativo posicionamento do autor.

O consensual é observar que a filosofia se transforma na proximidade da

sociedade industrial, onde o campo do saber se torna caracterizado pelo predomínio das ciências. Mas, o que é contemporaneidade, isso permanece problemático. François Châtelet, por exemplo, registra a mudança da filosofia no momento em que a sociedade se transforma e se torna científica e industrial, no século XIX. Aqui há manifesta irredutibilidade ao período anterior, que se pode associar à era histórica moderna. Mas ele reserva o epíteto “contemporâneo” apenas ao conjunto da filosofia do século XX, estendendo, ainda assim, um campo de observação que abrange várias décadas desde o ponto de vista

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  estrito da produção da obra coletiva, por ele organizada e intitulada História da Filosofia
  estrito da produção da obra coletiva, por ele organizada e intitulada História da Filosofia
 

estrito da produção da obra coletiva, por ele organizada e intitulada História da Filosofia. Émile Bréhier é ainda mais ambíguo. Inicialmente, escusa-se pela necessidade de tratar o período posterior a 1850 de um modo puramente classificatório, devido à impossibilidade de “escrever uma história do pensamento contemporâneo”, o que parece subentender que a proximidade dessa produção conceitual, inteiramente rotulada como contemporânea, impede que dela se possa fornecer um tratamento mais sistemático. Porém, Bréhier inclui um artigo especialmente consagrado à “filosofia contemporânea”, em que o eixo da progressão textual se apoia sobre a irredutibilidade que o pensamento da época de publicação de sua História da Filosofia, posterior a 1930, exibe, em relação a premissas geralmente aceitas no século XIX e na transição ao século XX, como se aqui somente fizesse sentido a mais estrita equivalência ao “atual”.

 

O

problema é mais realçado por nosso posicionamento, já no século XXI,

 

com os manuais vindo do século precedente, e o contexto sendo muito mutável, principalmente observando-se a transformação cultural verificada na transição do quadro político bipolar, determinado pela guerra fria, ao cenário multipolar de nossa época (conflito norte-sul). Em todo caso, problematiza-se a sobreposição à periodização da história geral, restando ainda a questão tangenciada por Bréhier: em face do atual,

seja como for que se o conceitue, como separar o transitório e o permanente,

o

comum e o relevante, a fim de constituir propriamente a nossa

“contemporaneidade”?

 
 

A

proposta de situar “tendências” (Bréhier) ou “motivos do pensamento”

 
 

(Jürgen Habermas), que caracterizam a ruptura com a tradição,

desencadeando a contemporaneidade, mostra-se conveniente ao tratamento da multiplicidade que informa a atualidade.

 

A

tendência ao concreto, superando o atrelamento do conceito à

 

metafísica, é algo tão presente que pôde nomear o contemporâneo como

a

região do “pós-metafísico”. A isso se relaciona o motivo da

temporalização da razão, já que o pensamento humano não mais se propõe independente da sua contextualização histórica e social, determinando a impossibilidade de uma postura de isenção e o necessário esclarecimento quanto ao engajamento pessoal do observador. No entanto, mesmo essa razão situada é agora menos uma faculdade de produzir teorias do que um entrelaçamento de práticas, o que impõe a tendência que impede a separação entre pensamento e mundo da vida, as

 

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relações pré-científicas que constituem o sentido na interação social e nos meios da cultura. Supera-se

relações pré-científicas que constituem o sentido na interação social e nos meios da cultura. Supera-se assim o que se designou com Jacques Derrida o “logocentrismo” ocidental. A caracterização do pensamento contemporâneo pode ainda ser bem conduzida se salientarmos a localização dos movimentos filosóficos que permitem delinear centros de envolvimento conceitual e implicam alternativas, como pontos nodais cujo traçado conflituoso repõe a fisionomia do tempo. Com base nessas perspectivas, preferimos desenvolver uma exposição de conjunto, enfeixando processos desencadeados por movimentos nucleares, cuja tessitura permitirá recompor a formação das tendências que vemos ser hoje tão constantes. Por um lado, temos como um desses pontos nodais o confronto entre os aportes fenomenológico e analítico, que estendem respectivamente o mais atual do pensamento existencial e dos investimentos pós-empírico de Quine ou pós-analítico de Rorty. Por outro lado, há a viragem da estrutura ao pós-estrutural, compactando nessa trajetória a multiplicidade disciplinar da área humana e social. Esse périplo se relaciona de modo novo com aquilo a que se opõe. Pois, se o confronto da estrutura é principalmente com o marxismo tradicional, a oposição aqui não se oferece de modo tão direto como ocorre no caso de filosofias existencial e analítica. Com efeito, o estruturalismo envolveu o marxismo renovando-o, mas também se colocando como alternativa frente às opções mais ortodoxas da esquerda. Contudo, como se pode ainda afirmar que o estruturalismo envolveu a totalidade da problemática social, o que se verifica é que isso conduziu à sua superação como algo vindo do interior de seu próprio percurso, não como uma contestação de “outros” a partir de conquistas conceituais que ele porventura teria apresentado. Os nomes ligados ao pós-estruturalismo se mantêm no registro do movimento de que procederam. Estes focos teóricos e de práticas historicamente localizadas são comuns em obras que tratam o pensamento contemporâneo. Sempre que possível incluímos a referência à obra fundadora, anteriormente ao século XX, com que o movimento estudado mantém algum vínculo, como no exemplo de Hegel e Feuerbach, com relação ao marxismo, e Nietzsche, na ambiência do pós-estruturalismo. Os processos que selecionamos são constantes do momento, sua escolha se impondo de modo relativamente independente ao posicionamento dos historiadores de filosofia, ainda que esse posicionamento seja decisivo com

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de filosofia, ainda que esse posicionamento seja decisivo com A formacao da filosofia 3 - 16x23.pmd
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relação a alguns itens: quanto à ênfase com que se avalia tanto o sentido de sua importância quanto o seu potencial de influir no desenvolvimento futuro do pensar; e quanto aos outros aportes que se devem acrescentar a esses núcleos históricos fundadores. Nesse nosso livro, conservamos apenas essas referências como motivações

à ampliação de suas pesquisas, pois postulamos uma equivalência quanto ao vigor conservado por qualquer dessas vertentes. Não obstante, consideramos que a problematização pós-estrutural apresenta temáticas mais relevantes ao pensamento de hoje, quando há ainda

a tendência a contornar as oposições demasiado marcadas no passado para

mostrar certas convergências de intenções que se revelariam mais básicas e comuns a campos que se desenvolveram como teorizações opostas. Isso, naturalmente, com o intuito de superá-las, instaurando polêmicas ainda mais cerradas. Contudo, aqui a intenção é favorecer a sua capacidade de julgamento, pois a amplitude de informações é, de modo manifesto, importante na formalização dos critérios através dos quais você estará apto a participar da conjuntura atual, inevitavelmente votada à tarefa dessa avaliação do pensamento contemporâneo.

A Formação da Filosofia Contemporânea foi integralmente redigido em 2007,

para atender aos nossos alunos universitários, e revisado para publicação em

2014.

SUGESTÃO DE LEITURA

“O que é um Conceito?”, in DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. O que é a Filosofia? Trad. Bento Prado Jr. E Alberto Alonso Muñoz. São Paulo: 34, 1992, p. 25-47.

Jr. E Alberto Alonso Muñoz. São Paulo: 34, 1992, p. 25-47. A formacao da filosofia 3

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  C APÍTULO 1   O PROBLEMA DA DEFINIÇÃO DO TERMO “FILOSOFIA”     Apresentar
  C APÍTULO 1   O PROBLEMA DA DEFINIÇÃO DO TERMO “FILOSOFIA”     Apresentar
 

CAPÍTULO 1

 

O PROBLEMA DA DEFINIÇÃO DO TERMO “FILOSOFIA”

 
 

Apresentar a definição de “Filosofia” não é algo simples. Mesmo o exame do termo não revela tão imediatamente do que se trata. “Filo” em grego

significa algo como “amor”, e “sofia” pode ser traduzido como “sabedoria”. Filosofia, literalmente, significa “amor à sabedoria”. Mas a palavra “sabedoria”

habitualmente associada a dois significados possíveis. Um deles relaciona- se com a “sabedoria” que se apreende no cotidiano, enquanto o outro se relaciona com o conhecimento científico. Vamos examinar cada um desses sentidos separadamente.

é

.

O CONHECIMENTO COMUM

 

A

sabedoria que se apreende com o cotidiano é aquela que se acumula em

 
 

termos de vivência. Esse aspecto recobre o que se adquire de uma cultura e

é

designado senso-comum. A cultura assim se mostra variável. Ela compreende não só o que pode haver de local, referente às práticas costumeiras de um povo, como algo mais geral, um conteúdo de crença, uma explicação religiosa da realidade. Em outros termos, o senso comum pode abranger tanto o que se considera

como conhecimento de aspectos práticos e comezinhos da existência, quanto uma fé a que se adere sem haver a necessidade de explicação. Assim, o que caracteriza o senso-comum é um discurso que não demonstra o porquê de seu fundamento.

 

O

que se enuncia no interior do discurso filosófico, porém, não pode ser

 

simplesmente dado sem um processo de demonstração de sua validez. Portanto, filosofia não se confunde nem com a sabedoria, que se apreende do cotidiano, nem com doutrinas religiosas, que se apoiam na pura crença.

.

O CONHECIMENTO CIENTÍFICO

 

A

palavra ciência tem um sentido geral de conhecimento especializado,

 
 

como um saber. Atualmente, porém, a palavra se relaciona a um campo de

 

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disciplinas específicas que produzem um saber caracterizado por um método.   O conhecimento científico não
disciplinas específicas que produzem um saber caracterizado por um método.   O conhecimento científico não

disciplinas específicas que produzem um saber caracterizado por um método.

 

O

conhecimento científico não se confunde com o senso-comum, pois

apresenta uma necessidade de demonstrar a validez do que enuncia. O processo de validação do discurso científico se apoia no método experimental, isto é, depende da evidência dos fatos, manifesta no interior de experiências controladas que visam comprovar uma teoria e as leis que a constituem. Em geral, as ciências trazem no próprio nome o enunciado que as define. Isso porque cada ciência é como um Logos do seu objeto. Pelo termo grego “logos” entendemos um discurso racionalmente articulado, o que pode ser aproximado à ideia de um estudo sobre algo bem determinado. Assim, podem ser citados inúmeros exemplos: socio-logia (estudo da sociedade), bio-logia (estudo da vida) etc. Tanto por ser sempre conhecimento centrado em um objeto preciso, quanto por ter seu processo de validação dependente da experiência, o conhecimento científico não se confunde com o exercício da filosofia.

 

. O CONHECIMENTO FILOSÓFICO

 

A

palavra “filosofia” se tornou amplamente utilizada a partir de Platão,

 

que assim definia algo como o projeto de um enunciado integralmente legitimado. Com isso, temos o indício de que a sabedoria desejada ou almejada (“amada”), no sentido da filosofia, é aquela que desfruta de um certo “status”. Não se tem por esse nome nenhum enunciado que não forneça a sua própria demonstração, que não manifeste por si a sua própria inteligibilidade. Pode-se afirmar que a filosofia é uma produção de conhecimento que se exige válido, isto é, que se manifesta através de um discurso que deve demonstrar sua verdade. Mas vimos que ter que demonstrar a validez do que enuncia é algo em comum entre ciência e filosofia. O que não permite confundi-las é que só na filosofia o processo de validação depende apenas da inteligibilidade intrínseca e sistemática do pensamento, inteligibilidade manifesta pelo discurso.

Compreende-se então que possa haver não uma só, mas várias definições de filosofia, tantas quanto há filósofos. Ou seja, tantas definições de filosofia quantos sejam os critérios propostos como prévios à aceitação de um discurso como válido.

 

O

que poderia reunir todas essas definições, sob a qualificação da atividade

comum de todos esses filósofos?

 

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. D EFINIÇÃO CONTEMPORÂNEA DE “F ILOSOFIA ” A maturação de uma definição pessoalmente formada

. DEFINIÇÃO CONTEMPORÂNEA DE “FILOSOFIA

A maturação de uma definição pessoalmente formada de filosofia requer

um envolvimento longo com a matéria, e qualifica alguém como um filósofo. Mas a contemporaneidade tem aceito que a filosofia é um conhecimento por conceitos. Dessa maneira, o discurso filosófico se expressa através de conceitos que

cada filósofo apresenta, através dos quais enuncia algo que considera essencial

à realidade. Conceitos como os de ser, de mundo, de Deus, propostos por um filósofo, podem não coincidir com os mesmos termos, quando apresentados como

conceitos de outro filósofo. Assim, estudar filosofia consiste em conhecer os conceitos, que se interligam na obra de cada filósofo, formando um corpo consistente, uma “doutrina”, isto é, um sistema filosófico. Mas, a formação dos conceitos por um filósofo sempre manifesta influências, interdependências ou mesmo conflitos manifestos com relação aos conceitos de outros sistemas filosóficos. Assim, a filosofia consiste nesse conjunto de sistemas que apresenta interligações complexas e articuladas. Para que essa definição se torne algo mais compreensível, será necessário

o desenvolvimento do curso, que deve favorecer uma aproximação à atividade filosófica, manifesta através do tempo. O procedimento consiste em acompanhar o surgimento histórico da filosofia, em compreender o sentido de sua manifestação contrastante com as outras formas de saber existentes no tempo e no lugar de sua origem. E observar as transformações que se verificam indispensáveis à atualidade, ao que ela veio a ser na contemporaneidade.

É por isso que devemos inicialmente nos aproximar do ambiente grego

antigo, pois, como veremos, é aí que se registra o nascimento da filosofia.

SUGESTÃO DE LEITURA

“A atitude filosófica”, in CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2000, p. 8.

Convite à filosofia . São Paulo: Ática, 2000, p. 8. A formacao da filosofia 3 -

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E XERCÍCIOS 1) Você já teve algum contato com o estudo de filosofia? Em caso

EXERCÍCIOS

1) Você já teve algum contato com o estudo de filosofia? Em caso afirmativo, comente sobre a sua impressão a propósito. 2) Escreva um pequeno texto comparando senso-comum, ciência e filosofia.

pequeno texto comparando senso-comum, ciência e filosofia. G ABARITO 1) e 2) Resposta pessoal. A formacao

GABARITO

1) e 2) Resposta pessoal.

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  C APÍTULO 2   FILOSOFIA E CONHECIMENTO: DESENVOLVIMENTO E ABRANGÊNCIA     . E
  C APÍTULO 2   FILOSOFIA E CONHECIMENTO: DESENVOLVIMENTO E ABRANGÊNCIA     . E
 

CAPÍTULO 2

 

FILOSOFIA E CONHECIMENTO: DESENVOLVIMENTO E ABRANGÊNCIA

 
 

.

EXERCÍCIO DA FILOSOFIA NA GRÉCIA ANTIGA

 
 

A

origem da filosofia circunscreve-se à Grécia antiga (desde o séc. VII a.

 
 

C.), por ser aí que vemos surgir um conjunto complexo de textos e referências

produzidos em um meio social no qual se delimita o seu exercício. Essas referências abrangem outros textos, como a dramaturgia (o teatro clássico grego), que se reportam, de um modo ou de outro, à atividade filosófica. Em seu desenvolvimento na Grécia antiga, o exercício da filosofia se destacou das explicações míticas e tornou-se coeso por apresentar a necessidade de demonstração e de crítica, não sendo indiscutível (dogmático) no sentido das crenças e dos mandamentos religiosos.

 

.

ABRANGÊNCIA DISCIPLINAR DA FILOSOFIA ANTIGA

 
 

A

filosofia foi se desenvolvendo, na Grécia e a seguir em todo o mundo.

 
 

Um corpo de doutrinas pertencendo a vários filósofos passou a se ramificar em escolas de comentadores e seguidores desses sistemas. Constituíram-se também várias disciplinas, isto é, áreas específicas de estudo propriamente

filosóficas. As principais disciplinas na Antiguidade eram a Física, a Lógica e a Ética ou moral. FÍSICA – conhecimento da origem e natureza do mundo e das coisas existentes (O Ser). LÓGICA – conhecimento das regras do raciocínio e do discurso verdadeiro

(O

Pensamento). ÉTICA – conhecimento da virtude, do Bem, da política e da sociedade

(O

ser humano).

 

.

DA FILOSOFIA ANTIGA À FILOSOFIA ATUAL

 
 

Com o seu desenvolvimento, a Filosofia abarcou praticamente todas as áreas do saber. Aquilo que hoje se entende por ciência, distinguindo-se pelo método experimental; anteriormente à adoção deste método costumava ser

 
 

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  associado a uma parte da filosofia. A Filosofia caracterizou-se, dessa maneira, como um conjunto
  associado a uma parte da filosofia. A Filosofia caracterizou-se, dessa maneira, como um conjunto
 

associado a uma parte da filosofia.

A

Filosofia caracterizou-se, dessa maneira, como um conjunto de

 

conhecimentos teóricos sobre o real, desde o seu nascimento até aproximadamente o início da idade moderna (séc. XV d. C.). Nesta época, temas que se agrupavam sob o seu conceito se transformaram, originando formas autônomas de pesquisa. Inicialmente, a adoção do método

experimental determinou a autonomia das ciências da natureza (sécs. XV a XVII).

entre os séculos XVIII e XIX, podemos observar a atuação independente

de disciplinas como a psicologia, a linguística e a sociologia, que abrangem o campo geral das ciências humanas. Embora as ciências humanas nem sempre

sejam caracterizadas pelo método experimental, sua definição em termos de um objeto específico as torna independentes da filosofia.

. A BRANGÊNCIA DISCIPLINAR DA FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA

Vimos que a filosofia não se define por um objeto dado. Porém, considerando que a filosofia se constitui como um exercício de inteligibilidade aplicado aos mais variados temas, podemos agrupar a formação de conceitos filosóficos por grupos de temas característicos. Desse modo, se formam atualmente disciplinas que, mesmo não sendo consideradas como ciências autônomas, apresentam uma especificidade em sua atuação. Essas disciplinas costumam se interligar no interior de um sistema

filosófico completo. Um sistema filosófico sempre apresenta teorias relacionadas a todas, ou, pelo menos, a algumas, dentre estas áreas de estudo.

:

LÓGICA – Conhecimento das formas e regras gerais do pensamento

correto e verdadeiro.

EPISTEMOLOGIA – Análise crítica, avaliação dos métodos e resultados das ciências.

:

 

:

TEORIA DO CONHECIMENTO – Estudo das várias formas e

modalidades do conhecimento humano (Gnosiologia).

 

:

ÉTICA – Estudo dos valores morais.

FILOSOFIA POLÍTICA – Estudo sobre a natureza do poder e da autoridade.

:

 

FILOSOFIA DA ARTE OU ESTÉTICA – Estudo sobre as formas de arte e do trabalho artístico.

:

:

FILOSOFIA DA HISTÓRIA – Estudo da dimensão temporal da

existência humana como existência sócio-política e cultural.

 

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  FILOSOFIA DA LINGUAGEM – Estudo das formas da linguagem, da Expressão e da comunicação
  FILOSOFIA DA LINGUAGEM – Estudo das formas da linguagem, da Expressão e da comunicação
 

FILOSOFIA DA LINGUAGEM – Estudo das formas da linguagem, da Expressão e da comunicação humanas.

:

:

FILOSOFIA DA NATUREZA – Estudo das concepções da natureza.

: ONTOLOGIA OU METAFÍSICA – Conhecimento dos princípios ou fundamentos de toda a realidade e de todos os seres.

:

HISTÓRIA DA FILOSOFIA – Estudo dos vários períodos da filosofia

e dos grupos dos filósofos, conforme os temas e problemas que abordam.

 

SUGESTÃO DE LEITURA

 

“A Invenção da Razão”, in CHÂTELET,François. Uma história da razão: entrevistas com Émile Noël. Trad. Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994, p. 15-33.

 
 

EXERCÍCIO

 

Escreva um texto sucinto, comparando doutrina religiosa e sistema filosófico.

 
 

GABARITO

 

Demonstrar as diferenças de proposta e método entre a doutrina religiosa, que se baseia na crença, e a Filosofia, que procura estabelecer enunciados plenamente fundamentados na razão.

 
 

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C APÍTULO 3 A POLIS GREGA: DEMOCRACIA E FILOSOFIA . A U NIDADE C ULTURAL

CAPÍTULO 3

A POLIS GREGA: DEMOCRACIA E FILOSOFIA

. A UNIDADE CULTURAL DA GRÉCIA

Os Gregos não possuíam unidade política nacional. Porém, entre os séculos IX e VIII a. C., já se pode considerar a Grécia sob o ponto de vista de sua unidade cultural. A consciência dessa unidade étnica como comunidade de cultura foi favorecida pela arte dos poetas. O universo mítico que caracterizou a religiosidade helênica formou-se através das narrativas registradas em seus poemas. Os mitos originalmente faziam parte do patrimônio das famílias nobres que encarnavam a autoridade dos GENOS (organização social patriarcal anterior ao surgimento da Polis). Juntamente com os rituais associados, os mitos distinguiam-se como atributos do poder político, partilhado entre os soberanos, patriarcas e a casta sacerdotal, os quais instituíam as leis e proclamavam a verdade. Posteriormente, os poetas compilaram estas antigas narrativas tradicionais, mas, à feição do seu estilo próprio, mesclando-as à imagem do que era típico da época e da tendência de cada um. Deste modo, suas obras formaram um público em comum em toda a Grécia, favorecendo a noção da identidade cultural. Os mitos fundamentavam o poder dos Genos (famílias nobres), pois os heróis personificavam o ideal dos nobres e a hierarquia social, que se tornavam assim considerados como sagrados. Principais entre estes poetas são Homero (talvez século IX a. C., autor das epopeias Ilíada e da Odisseia) e Hesíodo (século VIII a. C., autor da cosmogonia Teogonia e do poema Os Trabalhos e os Dias).

. SURGIMENTO DA POLIS

As Cidades-Estados (Polis) surgem, entre os séculos VIII e VII a. C., como forma de organização social caracteristicamente grega. São cidades independentes e autônomas umas em relação às outras. Seu surgimento se

e autônomas umas em relação às outras. Seu surgimento se A formacao da filosofia 3 -

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e autônomas umas em relação às outras. Seu surgimento se A formacao da filosofia 3 -
relaciona a um modo novo de compreender as relações sociais. Não existe mais a noção

relaciona a um modo novo de compreender as relações sociais. Não existe mais a noção de uma pessoa ou de um grupo de pessoas predeterminado para governar os outros. Embora mantendo as práticas e as crenças religiosas, agora os gregos as separam, de certa forma, do nível estritamente político. Assim, a organização da Polis se desenvolveu de modo

a abranger uma sociedade propriamente política, com uma repartição do poder entre os cidadãos. Estes se compreendendo como iguais, em grego ISOS, palavra da qual deriva a denominação do ideal da ISONOMIA (a igualdade política entre os cidadãos). Observe que a palavra “política” deriva de “Polis”. Na Grécia se forma, através de um longo período entre os séculos VIII e V, a experiência pioneira de uma sociedade que será característica do mundo ocidental. Neste período, o ideal isonômico evoluiu para a instituição da democracia, instituída por Clístenes, em 507 a. C. O poder progressivamente se torna passível de ser delegado a representantes aptos a exercê-lo. Surgem inúmeras questões novas, relacionadas à maneira pela qual este poder pode ser conceituado, até que ponto ele pode ser considerado legítimo e como deve ser exercido.

.A PRÁTICA DA CIDADANIA

A Polis é o espaço de uma prática de cidadania. Na Ágora (a Praça pública) os cidadãos são chamados a deliberar sobre o que será aprovado para todos ou não, além de resolver aí as disputas legais. É um novo uso que se faz da palavra: LAICIZADA (para uso público e corrente), assim como as demais práticas sociais, não mais sacralizada (de uso reservado a uma classe sacerdotal). Há agora um exercício institucionalizado do direito. Antes da formação da Polis, ainda no âmbito da palavra mítica, mágico- religiosa, a verdade era instituída conforme a posição daquele que a enunciava. Não havia necessidade de provar uma afirmação. As técnicas de julgamento eram ordálicas: ordálias são procedimentos rituais garantidos pela autoridade do mito, encarnada naquele que possuía a competência de sua aplicação. A Polis institui o regime jurídico, em que há a necessidade de se demonstrar

a validez de uma afirmação perante um tribunal de cidadãos que não se distinguem por sua posição, mas que compartilham a mesma racionalidade, que deve se encarregar da decisão judicial. A palavra se submete assim a uma possibilidade de contestação, devendo provar sua legitimidade. Tudo isto, aliado ao desenvolvimento do comércio e ao progresso técnico

e artístico, leva a indagações e problemas, que antes a organização mágico-

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  religiosa se encarregava de resolver por meio dos mitos, ou mesmo a questões que
  religiosa se encarregava de resolver por meio dos mitos, ou mesmo a questões que
 

religiosa se encarregava de resolver por meio dos mitos, ou mesmo a questões que anteriormente não existiam.

.

NASCIMENTO DA FILOSOFIA

Entre os séculos VII e VI a. C., aparecem os FILÓSOFOS, homens capazes de formular uma compreensão do mundo e do sentido da vida humana, sem o recurso único da autoridade das lendas, isto é, procurando compreender o modo de ser das coisas em si mesmas. Pode-se compreender que o desenvolvimento da Polis, com as exigências correlatas de uma sociedade política e comercial, relaciona-se estreitamente ao nascimento da filosofia, pois favorece a atenção aos problemas práticos e soluções concretas, em vez de limitar as indagações a dogmas fornecidos pela autoridade religiosa. E vários problemas tratados pelos filósofos originam-se exclusivamente do contexto político, como aqueles que vimos ligados ao exercício da cidadania.

 

.

INÍCIO DO EXERCÍCIO DA FILOSOFIA:

Vimos que a sociedade política, desenvolvida na Cidade-Estado grega, favoreceu o nascimento da filosofia. Os primeiros filósofos, designados Pré-Socráticos, entre os séculos VII e VI a. C., começaram por desenvolver uma especulação sobre a natureza, procurando explicações racionais sobre os fenômenos, isto é, explicações desvinculadas dos mitos. Eles buscavam um princípio que pudesse ser conceituado, tanto como a origem das coisas, quanto como aquilo que mantinha a ordenação entre elas, conjugando-as como natureza ou inter-relação inteligível de fenômenos. Esse princípio seria a “arché”, que cada filósofo conceituou ao seu modo:

 

para Tales de Mileto (o segundo nome é o da cidade de nascimento da pessoa, entre os gregos antigos), a ARCHÉ é concebida como uma unidade, a Água; para Anaximandro de Mileto é algo impalpável denominado ÁPEIRON (infinito); para Anaxímenes de Mileto é o Ar e para Heráclito de Éfeso é o Fogo. Os conceitos de Arché foram se multiplicando, abrangendo a dualidade (discórdia e amor, como em Empédocles de Agrigento) e a multiplicidade (como, por exemplo, os átomos de Demócrito de Abdera), até surgir a tendência a considerar somente o princípio ordenador, não materializado ou personificado, como preponderante para a compreensão da arché. É o caso

 

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do número (Pitágoras de Samos) e do SER (Parmênides de Eleia) como princípio ou realidade
do número (Pitágoras de Samos) e do SER (Parmênides de Eleia) como princípio ou realidade

do número (Pitágoras de Samos) e do SER (Parmênides de Eleia) como princípio ou realidade além da qual nada mais pode ser afirmado.

 

A

concepção pela qual a natureza se resolve em um elemento ou

organização de elementos atinge um grau de abrangência maior com Demócrito de Abdera (460 a. C.) e o conceito de ÁTOMO. Conforme a perspectiva atomista, a qual provavelmente ele veio a conhecer através de

seu mestre Leucipo, há um conjunto de corpúsculos que, chocando-se e se agregando entre si, origina infinitos mundos. Átomo em grego quer dizer indivisível e a composição é feita entre os átomos de acordo com relações de tamanho e forma. Para os atomistas estas partículas coexistem em meio ao vazio. Chega-se assim a uma pluralidade total como realidade natural subjacente à organização do mundo.

 

É

já sob esta perspectiva pluralista que Anaxágoras de Clazômenas (500

a. C.) havia concebido as HOMEOMERIAS (homos, igual e meros, parte), ou

SEMENTES (spermata). São partículas infinitamente divisíveis e misturadas, das coisas, de maneira que só a predominância de um tipo determinado permite distinguir uma coisa como tal coisa determinada. Mas é também característica da concepção pré-socrática da Physys (natureza), a convicção de que lhe é inerente um sentido de inteligência presente em todas as suas manifestações e que é responsável por sua ordem e estabilidade.

 

O

próprio Anaximandro intui a necessidade de um princípio ativo que

ordena as misturas e forma o cosmos, o universo dotado de leis eternas e imutáveis. Este elemento, para ele, é a própria INTELIGÊNCIA, ou mente, “Nous”, (Espírito). Afirma-se então uma tendência a considerar somente o princípio ordenador como preponderante para a compreensão da arché, como na concepção de Pitágoras de Samos (570 a. C.), para quem as leis da natureza podem ser expressas em termos puramente matemáticos. O número seria

assim a medida das coisas, como razão da relação ou da harmonia entre elas. Princípio da realidade intrínseca a cada coisa particular e à ordenação do todo, seriam as relações numéricas também a força geradora do devir.

 

O

período Pré-Socrático chega a um impasse básico. Há uma concepção

ligada ao ser, ao eterno, ao imóvel, como único REAL além do qual tudo é opinião e aparência, como em Parmênides, e há uma concepção que vê no devir, no fluir e na transformação, mais do que meras aparências, e sim a própria realidade. Esta é a perspectiva mais amplamente exposta por Heráclito de Éfeso, que, como vimos, estabelecia o Fogo como unidade originária. Mas o fogo,

 

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para Heráclito, é a expressão, não apenas de um elemento, sendo mais como a imagem

para Heráclito, é a expressão, não apenas de um elemento, sendo mais como

a imagem do eterno vir-a-ser (devir). É LOGOS ou razão, medida da

transformação dos elementos uns nos outros, harmonia como tensão entre os opostos que coexistem e se fundem, para voltar a fluir em um ciclo eterno, que é característico do devir. Mesmo considerando-se que soluções como as de Anaxágoras e Empédocles são tentativas de conciliação entre SER e DEVIR , é irredutível

a oposição, e encontra-se aí o limite da especulação teórica do período Pré-

Socrático. Mas, convém aqui aperceber-se do grande salto representado por estas especulações. Nasce um sentido completamente novo no questionamento do modo de ser das coisas. Não se procura mais uma origem da natureza em um outro nível fantástico ou maravilhoso. Neste sentido, ARCHÉ como princípio não é necessariamente algo cronologicamente primeiro ou anterior às coisas, mas algo que é inerente a elas, funcionando como um princípio ativo que nos permite apreender a maneira pela qual elas são efetivamente. O que é aceito aí é que o conhecimento, não mais entendido apenas como revelação restrita a uma classe, agora, enquanto saber, deve ser submetido à exigência da confrontação, através da linguagem. É partilhável e tem assim a necessidade da demonstração daquilo que estabelece como verdadeiro. É a compreensão do real como podendo ser objeto do conhecimento humano. Esta pressuposição nova está bem claramente expressa em uma frase de Parmênides: “É o mesmo o pensar e o Ser”. Alguns filósofos Pré-Socráticos nada escreveram, como Tales e Pitágoras, e conhecemos seu pensamento por intermédio de outros autores, cujos textos chegaram a nós. Todos os outros filósofos que estudamos deixaram textos dos quais nos chegaram alguns fragmentos. Quanto a Anaxímenes de Mileto, porém, há somente um fragmento, de autoria duvidosa.

SUGESTÃO DE LEITURA

“O universo espiritual da Polis”, in VERNANT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. Trad. Ísis Borges da Fonseca. 5 ed. Rio de Janeiro: Difel, 1986, p. 34-47.

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  E XERCÍCIO   Escreva sobre como você compreendeu a relação entre o surgimento da
  E XERCÍCIO   Escreva sobre como você compreendeu a relação entre o surgimento da
 

EXERCÍCIO

 

Escreva sobre como você compreendeu a relação entre o surgimento da sociedade política e o nascimento da filosofia.

 
 

GABARITO

 

Os dois acontecimentos estão profundamente interligados, e,

 

neste capítulo, o leitor encontra vários dos elementos importantes

a

destacar, no caso.

 
 

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C APÍTULO 4 O EXERCÍCIO DA SOFÍSTICA . S URGIMENTO DA S OFÍSTICA : O

CAPÍTULO 4

O EXERCÍCIO DA SOFÍSTICA

. SURGIMENTO DA SOFÍSTICA:

O século V é o apogeu da antiga civilização helênica. Já em 507,

Clístenes havia introduzido a democracia em Atenas, centro da vida cultural grega, desde o seu papel decisivo na vitória dos gregos e sua sociedade política contra os persas, que se organizavam tradicionalmente numa monarquia. Existe agora uma realidade de mobilidade social, a possibilidade dos cidadãos acederem ao poder político e à prosperidade por seus próprios méritos, não mais apenas por direitos nobiliárquicos permanentes, hereditários. Neste contexto, a filosofia apreende uma nova orientação em seu exercício. Aparecem os sofistas. Levando ao extremo a concepção do DEVIR, não se interessam por prosseguir no tipo da especulação anterior, pré-socrática, rumo ao conhecimento do que é por si mesmo enquanto natureza. É no espaço social, da lei e das convenções humanas, que os sofistas atuam e concentram seu interesse especulativo, atendo-se a uma concepção do homem como ser que vive em sociedade, em comum. Quase não restam textos autênticos dos sofistas. O que sabemos sobre eles nos vem de comentários e citações feitas por outros autores, a maioria com o intuito de combater o seu ensinamento. Mesmo assim, é possível reconstituir o sentido de sua concepção original. Este tem sido o objetivo de vários estudiosos contemporâneos que vêm revitalizando o interesse pela sofística, ao recolocar as questões por eles

tratadas no contexto de sua perspectiva própria, ressaltando a sua atualidade, principalmente nos setores de pesquisa da linguagem.

Os sofistas mais famosos são Protágoras de Abdera e Górgias de Leontinos.

Aqui não examinaremos a sua produção individual. Mas podemos destacar de seu ensinamento os seguintes pressupostos:

subjetivismo (a verdade é relativa ao sujeito individual); • relativismo (cada coisa aparece de acordo com um ponto de vista);

(cada coisa aparece de acordo com um ponto de vista); A formacao da filosofia 3 -

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(cada coisa aparece de acordo com um ponto de vista); A formacao da filosofia 3 -
  • ceticismo (não há uma verdade em geral e portanto não há possibilidade de
  • ceticismo (não há uma verdade em geral e portanto não há possibilidade de
 

ceticismo (não há uma verdade em geral e portanto não há possibilidade de conhecê-la como tal). Consideram o critério da conduta exclusivamente como o que é pessoalmente útil e proveitoso, doutrina que prefigura o moderno utilitarismo.

A

concepção utilitária afirma que se cada um se esforçar no sentido de

alcançar a sua felicidade pessoal, isso conduzirá à sociedade, como um todo, feliz.

 

.

A RETÓRICA E A DIALÉTICA

 

.

A RETÓRICA

 

A palavra Sofista vem da expressão Sophós, sábio, mas no sentido de hábil ou perito em alguma arte ou oficio e não como alguém que detenha um tipo de conhecimento das coisas em geral. Como vimos, esse conhecimento geral era negado como algo que tivesse algum sentido, pelos sofistas. Eles

 

são professores itinerantes pagos para ensinar a RETÓRICA, a arte do discurso.

A

habilidade ou proficiência do sofista era especificamente a arte retórica.

A invenção da retórica é tradicionalmente atribuída a Córax (Siracusa, por volta do século V a. C.) e Tísias (Siracusa, século V a. C.), e seu objetivo não é alcançar ou demonstrar a verdade da tese em questão, porém convencer, persuadir, levando ao assentimento pela manipulação do discurso. Consiste no estudo dos tropos (modos da expressão), das sonoridades, da pertinência

e

das partes do discurso. Como na Polis democrática as decisões da assembleia e as instituições

legais são votadas pelos próprios cidadãos, não basta mais atribuir as leis à natureza ou ao seu caráter sagrado e imutável. Também a expansão marítima

e

comercial dos gregos os fez descobrir a relatividade dos costumes, de modo

que aquilo que em alguns lugares pode não ser aceitável, em outros pode ser considerado correto e plenamente aceito. Portanto, é preciso provar a legitimidade das leis, compreender sua

aplicação e propósito, e só assim pode haver decisão quanto a ser uma lei boa ou não, conforme o interesse daqueles aos quais se aplica. A linguagem

passa a ser vista como a chave do poder político e os sofistas propõem ensinar

o

seu uso nesta acepção. Nas assembleias dos cidadãos, é preciso convencer

os

outros a votar, a favor ou contra, a adoção de uma lei ou a aplicação de

uma sanção. A atividade dos sofistas inclui o ensino da linguagem, de cidade em cidade,

e

a composição de manuais de retórica. Os alunos dos sofistas serão aqueles

 

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que irão se pronunciar nas assembleias, em nome dos seus compatriotas, a fim de obter
que irão se pronunciar nas assembleias, em nome dos seus compatriotas, a fim de obter

que irão se pronunciar nas assembleias, em nome dos seus compatriotas, a fim de obter leis favoráveis aos interesses de sua região ou grupo social. Como vimos, eles eram professores pagos, mas há registros de ensinamentos públicos de sofistas. Geralmente eles eram homens pessoalmente comprometidos com a causa da democracia ateniense. Essas atividades de ensino propiciam aos sofistas desenvolverem técnicas

de argumentação e mostrar o relativismo da linguagem através de paradoxos. Alguns dos problemas que descobriram nesse campo ainda hoje são objeto de controvérsias, por colocarem problemas lógicos. Exemplo de paradoxo sofístico: contando de grão em grão, em que momento podemos afirmar tratar- se de um montão? Observe que pela lógica ordinária não há como responder a essa questão, e, no entanto, ela não é sem sentido.

 

A

sofística mantém uma visão contrária à superstição e a toda atitude

meramente contemplativa. O que apresentam como resposta às indagações

fundamentais sobre o ser e o sentido das coisas existentes, pela afirmação do devir, não provém de uma formulação puramente teórica, mas embasa o seu interesse pedagógico prático.

 

O

ensino da linguagem estava relacionado a algo mais fundamental. Os

sofistas afirmavam exercer pessoalmente e ensinar aos outros a ARETÉ, isto é, a virtude conceituada em sentido ateniense e democrático: habilidade política ou cidadania. Pelo que vimos da democracia grega, podemos compreender como o cultivo da retórica e da sociabilidade deviam ser valorizadas na educação do cidadão.

 

. A DIALÉTICA

 

A

dialética consistiu na Grécia, desde o período pré-socrático, em uma

 

espécie de torneio verbal entre contendores. Um deles se encarregava da sustentação de uma tese, enquanto o outro, por meio de perguntas habilmente formuladas, procurava induzir o oponente à contradição. Mas a dialética era uma contenda verbal em que os mesmos jogadores deviam trocar os lugares, de modo que cada um devia poder sustentar ou refutar a mesma tese, com o mesmo êxito. Os torneios dialéticos vigoravam na Grécia desde a época dos pré-socráticos. Zenão de Eleia foi um dos mais famosos dialéticos dessa época. Observe como a dialética é um elemento de laicização do pensamento. O conteúdo do discurso não está preso à forma, a afirmação pela linguagem não obriga à crença pelo pensamento, nem a opinião é algo sagrado, que não pode ser posto como objeto de interrogação e exame imparcial.

 

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Os sofistas professavam o ensino de técnicas capazes de induzir à vitória nesse tipo de
Os sofistas professavam o ensino de técnicas capazes de induzir à vitória nesse tipo de

Os sofistas professavam o ensino de técnicas capazes de induzir à vitória nesse tipo de jogo, e utilizavam o torneio verbal também como meio de adestramento à prática de confrontos em tribunais.

 

.

D ESENVOLVIMENTO DA SOFÍSTICA :

.

PHYSIS (NATUREZA) VERSUS NOMOS (CONVENÇÃO)

 

Os sofistas, mestres de retórica, podem também exercer o ofício de “advogados”, isto é, no contexto grego, representantes de cidades ou de particulares, em assembleias ou tribunais. Sua prática os leva a constatar que a verdade no mundo dos seres humanos é relativa a um consenso produzido pelo discurso, não podendo ser designada como uma realidade prévia, assim como uma lei da natureza. Vimos que os pré-socráticos haviam chegado a um impasse básico entre SER e DEVIR. Agora, a sofística desenvolve a oposição, característica do

 

clima intelectual do quinto século, entre os domínios da natureza e da cultura. Essa oposição se expressa no contraste entre os termos PHYSIS, como domínio de tudo o que é por natureza, e NOMOS, a esfera das leis e costumes enquanto artifício humano, isto é, a convenção.

 

É

no domínio do Nomos, das leis, que os sofistas atuam e concentram

seu interesse especulativo, atendo-se a uma concepção do homem como ser que vive em sociedade, em comum. No contexto do século V a. C., não acreditavam ser possível produzir qualquer conhecimento indubitável sobre o ser ou sobre a natureza.

 

.

O NOMOS E A DÓXA

Os sofistas apresentam seu ensinamento como uma arte de manipulação do discurso, a retórica, de modo a produzir o consenso, isto é, a opinião

 

partilhada pela maioria dos ouvintes. O cerne de sua atividade se concentra assim na opinião, na “dóxa”, como a circunscrição daquilo que é produzido pelo discurso e partilhado como verdade entre os seres humanos no âmbito da sociedade.

 

A

sofística não vê a dóxa ou opinião como algo oposto à verdade, mas

sim como aquilo que se torna a verdade, enquanto consenso afirmado e partilhado entre todos os que o adotam, através de um acordo produzido e

garantido pela prática comum, social, da linguagem.

 
 

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S UGESTÃO DE L EITURA “Dificuldades da linguagem comum e formação da linguagem geométrica”, in

SUGESTÃO DE LEITURA

“Dificuldades da linguagem comum e formação da linguagem geométrica”, in GEYMONAT, Ludovico. Elementos de filosofia da ciência. Lisboa: Gradiva, 1987. “Imagens da cidade e modelos para um consenso”, in CASSIN, Bárbara. Ensaios sofísticos.Trad.Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. São Paulo: Siciliano, 1990, p. 75-102.

EXERCÍCIO

1) defina retórica e dialética; 2) componha um pequeno texto descrevendo o sofista; 3) escolha alguns aspectos do ensinamento dos sofistas e exponha o seu conteúdo.

GABARITO

1) Retórica é a arte da palavra, com vistas à persuasão do ouvinte, podendo ter vários usos como "oratória": forense, educativo (palestras), terapêutico, estilístico.A dialética em geral é sinônimo de argumentação frente a opositores. Originariamente era um jogo entre um interrogante e um respondente, no qual o primeiro tentava induzir o segundo à contradição, mas desde Sócrates e Platão, transformou-se numa forma de raciocínio demonstrativo, com vistas à definição de um conceito, até que, com Aristóteles, se tornou sistematizada como "lógica". 2) Do texto deve constar: professor de retórica,pela chave na educação da cidadania democrática, personagem que laiciza a cultura, por tornar o seu ensino público e não como antes, restrito aos costumes das famílias nobres. 3) Os sofistas ensinavam a diversidade das opiniões, a impossibilidade do conhecimento da natureza (physis) e a necessidade de manter nossos conhecimentos relativos ao que é convencionalmente humano (nomos = lei). Eles se baseavam na

convencionalmente humano (nomos = lei). Eles se baseavam na A formacao da filosofia 3 - 16x23.pmd

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convencionalmente humano (nomos = lei). Eles se baseavam na A formacao da filosofia 3 - 16x23.pmd
relatividade (diversidade) dos costumes entre os povos, assim como das impressões subjetivas e formação social

relatividade (diversidade) dos costumes entre os povos, assim como das impressões subjetivas e formação social entre os seres humanos. A retórica e o consenso obtido por deliberação conjunta seriam os meios pelos quais, no plano público, as opiniões e interesses múltiplos conviriam, numa lei votada, democrática. Assim como, no plano privado, não há legislação cabível, somente liberdade da escolha pessoal – princípio de toda democracia.

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C APÍTULO 5 FILOSOFIA E VERDADE O século V a. C. é o período da

CAPÍTULO 5

FILOSOFIA E VERDADE

O século V a. C. é o período da preponderância de Atenas, que se torna importante após haver atuado decisivamente na Guerra da Grécia contra a Pérsia. Garantindo a autonomia das cidades gregas contra a ameaça da subjugação à monarquia persa, Atenas representou o ideal da liberdade, o que favoreceu a imagem de seu regime, a democracia. Mas, durante o século IV a. C., inicia-se um processo de desagregação no interior do território grego. As outras cidades-estados disputam com Atenas a hegemonia comercial, cultural e mesmo política. Agora o ideal democrático começa a ser severamente contestado, pois a principal opositora de Atenas é Esparta, onde prevalecem instituições mais conservadoras, de modo que as decisões pertencem apenas a um grupo tradicional de cidadãos e os esforços são canalizados para a instituição militar. Enfraquecidas por tais rivalidades internas, as cidades-estados gregas sucumbem ante a invasão do Império Macedônio, que impõe progressivamente o seu domínio sobre a Grécia antiga. A Hélade não consegue recuperar sua autonomia política. Os Macedônios mantêm-se no poder até o séc. II a. C., quando os romanos incrementam o movimento expansionista, que os fará abarcar o domínio de praticamente todo o mundo antigo. Nesse ambiente conflituoso, a prática retórica sofística, que depende fundamentalmente da instituição democrática, começa a ser contestada, juntamente com o ideal da democracia. A classe mais tradicional da sociedade ateniense, composta pela nobreza, encontra agora argumentos contra as instituições democráticas, a que sempre havia se oposto, por razões óbvias. A sociedade democrática é móvel, admite a ascensão social através da atividade comercial e relaciona a influência política com a habilidade e o mérito pessoais. A sociedade tradicional, onde os nobres são dominantes, não admite mudança, baseando-se na fixidez das relações sociais instituídas por nascimento. Dessa maneira, torna-se compreensível que uma época de valorização democrática seja também um tempo de valorização das teorias do devir, enquanto que uma época de valorização da nobreza ou da monarquia se

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relacione a um pensamento mais ligado ao ser e à permanência imutável do real. Enquanto

relacione a um pensamento mais ligado ao ser e à permanência imutável do real. Enquanto a sofística, no século V, lida com a DÓXA ou opinião, como algo mutável e moldável através da persuasão e da arte de influenciar pela palavra, há no século IV uma preocupação com a EPISTEME ou verdade, enquanto conhecimento da realidade imutável das coisas. Ao estudar o pensamento que se desenvolve no período que abrange os séculos V a III a. C., vamos constatar a transição pela qual a ênfase se desloca da sofística à filosofia, da relatividade da opinião à fixidez de certos princípios gerais considerados como a verdade – não qualquer verdade sobre qualquer coisa banal no mundo, mas a verdade como os princípios gerais do Ser. Quando a preponderância da questão da verdade se impõe, a filosofia começa a se definir como exercício racional que conduz ao conhecimento válido daquilo que se expressa como o verdadeiro. Qualquer afirmação banal sobre as coisas do mundo estaria, assim, de acordo e como exemplo daquilo que é fundamental, a verdade sobre o Ser. Esse período pode ser considerado então como a fundamentação da filosofia, pois ela consolida o seu exercício através dessa definição que só virá a ser seriamente contestada na contemporaneidade, após Nietzsche, no século XIX. Atualmente, a posição da filosofia como conhecimento de princípios absolutos não se mantém geralmente observável. Vimos como se trata, agora, de pesquisas e desenvolvimentos teóricos em campos específicos que procuram problematizar e desenvolver certos temas conforme conceitos, na limitação de uma teoria. Não se trata mais de fornecer dogmas “metafísicos”, isto é, que dizem respeito a realidades puramente ideais e indubitavelmente demonstráveis pela razão. Um dos fatores mais importantes quanto a isso é que na Antiguidade, ao estabelecer-se a filosofia como metafísica, ao mesmo tempo se forneceu um modelo de pensamento universal que durante todo esse tempo, até o século XIX, era usado para “provar” a superioridade da cultura ocidental, derivada dos gregos, sobre os outros povos. Esse era o pensamento racional, que atingia a verdade, enquanto os outros, não. Hoje, a filosofia conserva a premissa da relatividade cultural. Mesmo a lógica é considerada relativa ao campo epistemológico (relativo à produção do saber) específico da cultura ocidental, aceitando-se que as demais culturas desenvolvem outros modos de aproximação ao real, igualmente válidos conforme seus pressupostos existenciais. Três pensadores gregos são decisivos na consolidação da filosofia como uma forma de conhecimento fundamentado pela racionalidade e tendo por

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objeto o discurso verdadeiro: Sócrates, Platão e Aristóteles. É somente a partir da intervenção de

objeto o discurso verdadeiro: Sócrates, Platão e Aristóteles. É somente a partir da intervenção de Sócrates que o problema da filosofia se torna legitimar o conhecimento enquanto lugar da verdade. O conjunto da produção desses três filósofos é por vezes, por isso, designado como “a socrática”, nos manuais de filosofia. Mas não se deve reduzir o pensamento de cada um deles a esse início proporcionado por Sócrates, pois Platão e Aristóteles apresentam teorias originais e fundamentais ao exercício posterior da filosofia. Observe que, mesmo quando se quer criticar o pensamento dogmático antigo, esses pensadores se tornam importantes, pois mostram com clareza os pontos que o apoiam. Se quisermos antepor uma crítica válida, são esses tópicos que precisamos mostrar como não fundamentados, para manter a argumentação dentro daquilo que designamos como exercício de pensamento filosófico.

. SÓCRATES

Ateniense, nascido em 470, filho de um escultor e da parteira Fenareta, a figura de Sócrates causava estranheza nos meios intelectuais da cidade, dominados pela sofística, cujos representantes experimentavam então o ápice do prestígio. Cultos e refinados, famosos, exibindo-se em meio ao luxo e ao poder, os sofistas eram vez por outra surpreendidos pela intervenção de Sócrates:

vestido com uma túnica grosseira, descalço, ascético, ostentando um semblante destituído de atrativos físicos, nariz chato, olhos saltados, muito robusto. Ele não lhes vinha contestar o saber em nome de um outro saber maior. Pelo contrário, o que Sócrates lhes antepunha era uma exigência única, a de mostrar a VALIDADE de seus discursos, fundamenta-los, estabelecer a sua UNIVERSALIDADE, isto é, o reconhecimento por todo ser racional da verdade ou da falsidade do que eles afirmavam. Podemos avaliar a importância de Sócrates pelo fato de ele ser considerado um marco entre toda reflexão anterior e posterior a ele. Após a atuação de Sócrates, a filosofia adquire a forma pela qual a reconhecemos ainda hoje, em seus temas e formulações fundamentais. Sócrates introduz a exigência da universalidade do conhecimento e assim estabelece o âmbito no qual evolui toda indagação a seguir. Os sofistas estavam preocupados com a aparência da realidade a que a linguagem poderia conduzir e por isso desenvolviam a retórica como uma arte da persuasão. Sócrates realizava em seu meio um exercício de crítica,

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  pois não contestava uma afirmação através de outra afirmação, mas procurava, através de perguntas
  pois não contestava uma afirmação através de outra afirmação, mas procurava, através de perguntas
 

pois não contestava uma afirmação através de outra afirmação, mas procurava, através de perguntas habilmente formuladas, mostrar que o ensino da retórica não estava fundamentado no conhecimento real sobre as coisas. Acercava-se ele dos cidadãos com quem dialogava, visando principalmente os sofistas. Examinando-os, pondo-os à prova através de suas perguntas, mostrava que não só desconheciam a essência do que afirmavam poder

ensinar, como ainda eram ignorantes a respeito de si mesmos, pois pensavam que sabiam o que na verdade desconheciam. Ao sofista que afirma ensinar a virtude, Sócrates interroga: que é a virtude? Aos que se destacam como exemplos notórios de cidadãos justos e corajosos, ele pergunta: que é a justiça, que é a coragem? E assim em cada caso: que é

 

a

beleza, o conhecimento, o bem? Sócrates não aceita exemplos como

 

resposta, ele exige uma DEFINIÇÃO em geral, válida em todos os casos particulares, que expresse o CONCEITO, a essência mesma destes termos aparentemente conhecidos por todos. Sócrates não afirma possuir a resposta a essas indagações, não defende uma tese sobre sua própria opinião. Apenas coloca o problema essencial da necessidade de fundamentação do conhecimento sob uma perspectiva imparcial e universal. É a exigência da legitimação do conhecimento, colocada

a partir do postulado de um MÉTODO que se mostre apto a validá-lo. Sócrates nomeia o seu método como sendo a Maiêutica (a arte da obstetrícia). Ele o afirma como a arte de partejar a alma dos homens em seu

trabalho de conceber a verdade. Sócrates mesmo nada sabe, mas pode, através do seu método, conhecer a verdade ou a falsidade do que assim vem à luz, não dele, mas daquele a quem assiste. Este método é aplicável por meio da DIALÉTICA, a arte de formular os problemas e as questões apropriadas em cada caso, interrogando o ouvinte e levando-o a construir o discurso verdadeiro a respeito do seu próprio pensamento. Vimos que até a época da sofística a dialética era uma espécie de jogo de perguntas e respostas em que os oponentes tentavam induzir um ao outro à contradição. Sócrates utiliza seu método de perguntas com outro intuito, o de encontrar a verdade. Assim, aquilo que ele denomina como dialética é agora o exercício de formular os problemas e as questões apropriadas em cada caso, interrogando

 

o

ouvinte e levando-o a construir o discurso verdadeiro a respeito do seu

 

próprio pensamento. A Maiêutica de Sócrates é na verdade o método dialético, que desloca o sentido da filosofia, conduzindo-a como interrogação sobre a verdade.

 

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  O elemento no qual se dá a conversação é a IRONIA, com a qual
  O elemento no qual se dá a conversação é a IRONIA, com a qual
 

O

elemento no qual se dá a conversação é a IRONIA, com a qual Sócrates

 

desmente toda pretensão a um pré-saber possuído por ele mesmo ou pelo interlocutor, mostrando assim que nenhum dos dois sabe de antemão aquilo que examinam. Mas, enquanto Sócrates reconhece a própria ignorância, sua ironia leva-o

a

demonstrar a do interlocutor, que pensa que sabe algo de antemão e a

quem todos atribuem este saber. É então que Sócrates pode ser considerado

mais sábio de todos os homens. Por reconhecer que nada sabe, demonstra que o saber verdadeiro (Episteme) não equivale à simples opinião (Doxa), enquanto os outros não o percebem e costumam aceitar uma coisa pela outra.

o

 

A

aplicação deste exercício de conversação tem um resultado prático. É

 

sua “missão” junto aos semelhantes. E tem também um sentido teórico mais abrangente que, como vimos, influenciará toda reflexão posterior. Sócrates mesmo não escrevia. Sobre ele há testemunhos hostis como do comediante Aristófanes (As nuvens, peça teatral), e de Porfírio (História dos Filósofos). Todavia, surge um gênero literário de diálogos em que seus discípulos procuravam transcrever episódios de suas conversações, atribuindo-lhe o papel principal. É o caso de Platão, que sistematiza a doutrina Socrática a ponto de atribuir-lhe um verdadeiro conjunto teórico organizado, o qual constitui na verdade a filosofia platônica – o primeiro sistema filosófico completo, que estudaremos a seguir. Toda a obra de Platão é escrita em nome de Sócrates, inclusive uma

Apologia (defesa), que ele faz de seu mestre. Mas, naturalmente, as concepções assim ordenadas devem ser consideradas como elaboradas pelo próprio Platão, embora admitindo que devem partir da influência exercida sobre ele por Sócrates. Há também alguns fragmentos de Fédon e Esquines reproduzindo diálogos, alguns dados proporcionados por Aristóteles e uma obra denominada Memoráveis, na qual Xenofonte procura reproduzir o discurso do mestre. Sócrates recoloca o pensamento no âmbito do ser. O devir é a aparência contraditória das opiniões, que desconhecem a natureza do que exprimem. Porém, o ser que devemos conhecer é a verdade daquilo que afirmamos.

 

O

sofista afirma qualquer coisa: ele fala por falar. Mas, à razão repugna

 

que algo seja assim e não assim, ao mesmo tempo. Eis porque Sócrates, mesmo sem ter uma resposta prévia, pode identificar o discurso verdadeiro e apontar o discurso falso. Uma afirmação conforme à razão, válida em si mesma, é dotada de total coerência intrínseca e não porta contradição alguma.

 

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  À Retórica contrapõe-se a Maiêutica. Não é qualquer afirmação que é válida, mas, apenas
  À Retórica contrapõe-se a Maiêutica. Não é qualquer afirmação que é válida, mas, apenas
 

À

Retórica contrapõe-se a Maiêutica. Não é qualquer afirmação que é válida,

mas, apenas aquela que satisfaz aos critérios da razão, comum a todos.

Mesmo no sentido prático, Sócrates cria uma consciência ética, que aponta para a identidade fundamental dos seres dotados de razão. A virtude é o conhecimento do que é conforme à razão e o erro se deve à ignorância, sendo involuntário e devido ao ater-se à aparência e à simples opinião particular.

 

O

“Saber que não sabe” equivale à recusa de identificar o conhecimento

 

com a simples opinião além de uma veemente oposição ao relativismo dos sofistas. É uma denúncia da ilegitimidade de sua erudição e uma demonstração de que convencer ou crer não equivale a conhecer, nem deve substituir ou

denegar essa necessidade da validez, do conhecimento verdadeiro enquanto tal. Por tudo isso, Sócrates se distanciou demais do que era considerado comum e aceito pelos poderosos da época, afrontando a sofistica e o próprio regime democrático. Assim, foi julgado e condenado, aos 71 anos de idade, a envenenar-se com cicuta. Recebendo oferta de condições de fuga, Sócrates recusa-a,

identificando-se totalmente com as leis da cidade. A acusação era de corromper a juventude, levando-a a negligenciar os deveres para com a família

o culto cívico aos deuses. No entanto, a recusa de Sócrates equivalia para ele a uma comprovação de sua própria liberdade. Sócrates durante toda a vida fora um CIDADÃO, isto é, um indivíduo que, por sua livre escolha e consciência, atestava a legitimidade dos atos e decisões da cidade. Aceitar a condenação nada mais era do que fazer valer essa autonomia, comprovando assim a verdade

e

subjacente a tudo o que ele viveu.

 
 

. PLATÃO

O

século IV é um período de irremediável decadência na antiga civilização

 
 

helênica. Desde o final do século V, começa o processo de desagregação, com as guerras entre as cidades-estados que disputam com Atenas a preponderância, a hegemonia sobre as outras. Enfraquecidas por tais rivalidades internas, elas sucumbem ante a invasão do Império Macedônio, cujo rei Filipe II impõe progressivamente o seu domínio sobre todos os gregos (338 a. C.). A Hélade não consegue recuperar sua autonomia política. Os Macedônios são mantidos no poder até o séc. II a. C., quando os romanos incrementam o movimento expansionista que os fará abarcar praticamente todo o mundo antigo.

 

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Mas o séc. IV é também o século socrático por excelência. Nele se constituem as

Mas o séc. IV é também o século socrático por excelência. Nele se constituem as reflexões de Platão e Aristóteles, ambos marcados indelevelmente da influência de Sócrates e objetivando o desenvolvimento de suas questões mais básicas. Neste sentido, a obra de Platão é decisiva. É o fator que inverte a direção decadente historicamente determinada pela desagregação política da Grécia antiga, a ser definitivamente subjugada pelos impérios Macedônio e Romano. Tendo plasmado na filosofia as bases fundamentais do exercício teórico necessário ao desenvolvimento do conhecimento humano, à Grécia é assegurada uma ascensão em influência cultural garantida pela própria filosofia, cuja abrangência e importância é, a partir daí, cada vez maior. Platão estabelece, através da delimitação conceitual da ESSÊNCIA, um domínio próprio ao exercício filosófico – o INTELIGÍVEL. Agora, a filosofia adquire autonomia como forma de conhecimento, podendo distribuir seus objetos em áreas organicamente articuladas de acordo com o modo pelo qual é constituído este domínio. A filosofia Platônica é ainda hoje considerada por muitos estudiosos como a filosofia originária, estando toda a produção neste campo em íntima conexão com o platonismo e de uma forma ou outra, sendo-lhe tributária. Platão nasce em 427 a. C. Quando completa quatro anos, começam as guerras entre as cidades, rivalizando com Atenas e entre si pela disputa da hegemonia. Aos 23 anos, assiste à vitória de Esparta sobre Atenas e a substituição da democracia por uma tirania, composta de trinta homens representantes da aristocracia, sendo Crítias, o chefe, tio de Platão. Esparta é caracterizada por seu regime avesso à democracia e à liberalidade atenienses. É o núcleo exemplar da mentalidade aristocrática e conservadora. Os trinta tiranos sobem ao poder em 404 a. C. Mas já em 407 a. C., aos 20 anos, Platão tornara-se discípulo de Sócrates. Platão, ao que parece, não pretende se por à parte da atividade política direta, como Sócrates, que almejava apenas o interior dos homens, mas, não uma liderança institucional sobre eles. No entanto, talvez influenciado pela impecável retidão da moral socrática, Platão recusa os convites que recebe para participar no governo dos trinta. Com efeito, já em 403 a. C., os trinta tiranos são destituídos do governo de Atenas, em meio às maiores revoltas, devidas à sua inescrupulosa administração. Com a aquiescência de Esparta, a democracia volta a ser exercida em Atenas. Porém, é sob esta forma de organização política, que, em 399 a. C., Sócrates

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  é condenado. Tamanha injustiça não pode deixar de impor a revolta e a perplexidade
  é condenado. Tamanha injustiça não pode deixar de impor a revolta e a perplexidade
 

é

condenado. Tamanha injustiça não pode deixar de impor a revolta e a

perplexidade entre seus amigos e discípulos. Há indicações no sentido de

que estes, entre os quais Platão, até mesmo abandonam Atenas na ocasião, em repúdio a tal ato, estabelecendo-se em Mégara. Em todo caso, alguns anos depois, Platão inicia uma série de viagens. Dentre os lugares que visitou, Platão trava conhecimento, em Siracusa,

com Díon, cunhado do novo tirano local, e procura então aplicar aí o seu anseio de ação política, ao tentar, através de sua influência, fazer do tirano o rei filósofo, de acordo com o seu modelo do estado perfeito. Mas este não se ajusta à exigência platônica e não encarna as qualidades do rei filósofo. Após uma série de peripécias, Platão torna-se alvo da hostilidade do tirano, que inclusive chega a vitimar o próprio cunhado. O fato é que Platão é em seguida resgatado por amigos, voltando a Atenas, aos quarenta anos, e fundando uma escola de filosofia, às portas da cidade, nos jardins de Academos, a qual é, devido a isto, denominada Academia. Esta escola perdurará até o ano 529 da nossa era. Anotando as lições do Sócrates, Platão dá forma literária a essas anotações, transformando-as em diálogos, nos quais apresenta Sócrates exercitando a Maiêutica entre sofistas e demais cidadãos atenienses. Torna-se, assim, uma questão problemática saber até que ponto o que Platão apresenta como sendo

a

doutrina de Sócrates deriva apenas do mestre ou incorpora elementos do

próprio pensamento platônico. Em todo caso, podemos afirmar que há em comum com Sócrates a preocupação com a formulação da filosofia em termos de exercício racional

discurso verdadeiro. Platão não pretende pôr-se à parte da atividade política direta, como Sócrates, que almejava apenas o interior dos homens, não uma liderança institucional sobre eles. Platão também não se contenta com a constatação da necessidade do conceito a partir de um estado de ignorância. Ele pretende,

e

ao mesmo tempo, fornecer um projeto político e uma doutrina filosófica da verdade, fazendo com que esse projeto pareça tanto mais aceitável quanto mais garantido pelo conhecimento do real.

 

A

intenção socrática de possuir o conhecimento real daquilo sobre o que

 

a

linguagem se expressa corresponde em Platão à necessidade da posse de

um conceito, ideia ou significado, como realidade da coisa expressa através da palavra. Além da atividade docente, Platão escreve uma vasta obra, caracterizada pela forma do diálogo. Costumam ser classificada do seguinte modo:

 

Diálogos Socráticos ou Aporéticos (problemáticos), por ter sempre

 

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Sócrates como personagem central e pela posição costumeiramente assumida por Sócrates da recusa da enunciação
Sócrates como personagem central e pela posição costumeiramente assumida por Sócrates da recusa da enunciação

Sócrates como personagem central e pela posição costumeiramente assumida por Sócrates da recusa da enunciação de uma resposta conclusiva às questões

e

problemas por ele propostas: A Apologia de Sócrates, Críton, Laques, Lísis, Carmides, Eutifron, Hípias Menor, (e, talvez, o Hipias Maior), Íon, Protágoras e Górgias.

 

Diálogos da Transição, marcando a progressiva conquista da formulação

de uma filosofia própria, para além das posições genuinamente socráticas:

Menon, Fédon, o Banquete, a República, o Fedro, o Eutidemo, o Menexemo, o Crátilo.

 

Diálogos da Maturidade, que caracterizam o esforço de Platão em

reordenar e reestruturar sua filosofia: Parmênides, o Teeteto, o Sofista, o Político,

Timeu e Crítias.

 
 

A

influência filosófica principal de Platão é, como vimos, Sócrates. À

 

diferença dos sofistas, que ensinavam por meio de discursos preparados para um grande público ao qual eles esperavam seduzir, Sócrates conversa com seus semelhantes, quase que informalmente. Preocupado em contar com a participação do interlocutor que lhe responde, confirma ou contradiz, ele também se esforça por se fazer compreender, exercitando em si e nos outros

capacidade natural da razão. No entanto, o interesse de Sócrates limita-se ao domínio da ética e dos valores humanos. O que Sócrates produz assim abrange ao mesmo tempo uma ruptura – a recusa da Doxa (opinião), como conteúdo do saber – e uma

a

exigência – a determinação do conceito como definição universalmente válida pelo critério da razão.

 

É

aí que encontramos a origem da reflexão platônica. Para ele, o exercício

da filosofia é a construção da linguagem integralmente justificada, a busca do LOGOS, que em grego significa linguagem, mas também a razão, isto é, a linguagem dotada de sentido. O diálogo, gênero literário genuinamente platônico é, assim como a conversação socrática, a tentativa de falar o que é verdadeiro, o que equivale

a atingir o conhecimento possível do real. Esta natureza racional da linguagem

é

exercida como dialética, isto é, a capacidade de articular a repartição

adequada das questões e termos pertinentes a cada assunto, ao passo que permite a delimitação entre o que é justo, como verdadeiro e o que é falso, pela repugnância à contradição, e pela forma da relação entre as ideias. Até certo momento, Platão limita-se a estabelecer a filosofia no âmbito socrático, ainda que, formalizando-o através da composição crítica e textual dos diálogos. Assim, no Laques, no Protágoras, no Górgias, vemos Sócrates aplicando o seu método maiêutico na busca de uma definição da coragem, da virtude, do ensino retórico, respectivamente, sempre recusando a objetivar

 

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  sua própria resposta, apenas propondo a necessidade do conceito, desconhecida por seus interlocutores atrelados
  sua própria resposta, apenas propondo a necessidade do conceito, desconhecida por seus interlocutores atrelados
 

sua própria resposta, apenas propondo a necessidade do conceito, desconhecida por seus interlocutores atrelados à certeza de suas próprias opiniões. A República é o texto em que Platão se emancipa da tarefa de meramente descrever os encontros e conversas de Sócrates com os cidadãos atenienses. Agora, ele é induzido, pela exigência socrática, a “responder” ao apelo das questões que Sócrates havia lançado, sem resolver. Na República o tema é central: trata-se de postular a necessidade, no caso

de

se quererem formular as bases do Estado ideal, de uma definição da justiça.

Ao mesmo tempo que se mantém na mais característica motivação socrática, esse é também “o” tema propriamente filosófico, já que a justiça é o equivalente da própria racionalidade. Platão estabelece a relação entre a justiça e a racionalidade, uma vez que a justiça constitui a medida certa da repartição harmônica. Essa repartição justa ou racional é a mesma que se encontra entre as partes da alma (intelectual, volitiva, instintiva), e as classes sociais do estado perfeito (governantes sábios, guerreiros corajosos, trabalhadores dotados de autodomínio). Mas a justiça ou razão atua também na conformação de cada parte ou classe ao seu próprio âmbito. Na formação histórica do estado jurídico e democrático na Grécia, caracterizava-se a justiça como a virtude (Areté) por excelência, que resumia todas as outras. Era a própria legalidade constituída como tal. Platão, de certo modo, mantém essa noção, mas a ampliando, por sua identificação expressa enquanto racionalidade. Dessa maneira, para ele a justiça é o elemento capaz de embasar um modelo de Estado perfeito, e, ao mesmo tempo, deve fundamentar-se no mais íntimo do homem, em sua própria alma, não sendo compreensível como simples legalidade resultante do acordo ou norma humana (NOMOS), mas como natureza (PHYSIS) fundamental do universo e do ser humano. Platão situa, dessa forma, a motivação ética socrática na mais abrangente imbricação das ordens social, pessoal e cósmica, instâncias equiparadas por sua relação com a justiça, isto é, com a racionalidade. A ordem justa tem que valer para o domínio interior do homem, como para o âmbito das relações exteriores, porém, sendo racionalidade, atua também como critério filosófico

do conhecimento. No livro VI da República, após ter estabelecido a excelência e a necessidade da justiça, e em seguida ao planejamento dos estatutos da cidade

perfeitamente justa, Platão principia a apresentação de sua teoria das ideias.

O

que determina, no desenvolvimento narrativo do diálogo, a exposição da

 

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teoria, é a necessidade de princípios imutáveis, que sirvam de modelo ao rei- filósofo, governante
teoria, é a necessidade de princípios imutáveis, que sirvam de modelo ao rei- filósofo, governante

teoria, é a necessidade de princípios imutáveis, que sirvam de modelo ao rei- filósofo, governante da cidade perfeita.

 

É

assim que Platão responde ao apelo socrático da exigência do conceito.

É legítimo postular tal necessidade da validez do conhecimento em geral, uma vez que é perfeitamente delimitável um domínio fundamental do conhecimento no qual se situam tais princípios imutáveis como aquilo que é

por si mesmo. São as ideias (EIDOS) ou essências (OUSIA), que existem sem serem visíveis. É o domínio do SER, do puramente inteligível como tal. Enquanto das demais ideias temos condições de intuir a essência através do modo pelo qual elas modelam o mundo sensível, sendo compreensíveis através do exercício dialético, o Bem como princípio supremo das próprias ideias é irredutível ao domínio empírico (da experiência), como também ao discurso. Podemos indiretamente compreender o que é o Bem, apenas por analogia ou comparação, e a melhor imagem que podemos utilizar para isso é o sol que ilumina e dá vida aos seres, organizando-os no sistema da natureza e tornando as coisas visíveis.

 

O

Bem, ideia das ideias, fundamenta e ordena a existência das essências,

possibilitando teoricamente a imbricação a que nos referimos, efetuada através do conceito da justiça, entre os domínios da ação individual, social e em relação ao cosmos. Neste sentido, saber não é somente conhecer o que é, mas também apreender o que vale, equivalendo a agir bem. Como as coisas materiais são cópias modeladas pelas ideias ou essências, os seres humanos são almas eternas revestidas pelo corpo material. A alma provém do mundo das ideias, que é o mundo real, enquanto a matéria é um mundo de aparência, o sensível sendo apenas imagem do inteligível. O exercício dialético oferece o ensejo para a reminiscência, a recordação da

alma daquilo que ela conhece do mundo inteligível, de onde veio. Por isso, para Platão o conhecimento é inato.

 

A

realidade do inteligível como domínio das ideias permite a constituição

da filosofia como saber fundamental. A postulação deste domínio das ideias separadas do sensível possibilita o juízo, a afirmação ou a negação, como categoria lógica e modelo da inteligibilidade, enquanto que o princípio do Bem fundamenta e ordena o sistema das ideias. As coisas materiais são apenas aparências ou cópias do modelo real, as ideias. A matéria é o domínio do devir, do não inteligível. Só a ideia é o domínio do ser, da racionalidade ou do cognoscível. O conhecimento aparece como verdadeira liberdade em relação ao engano e à coação dos sentidos. O sistema filosófico platônico pode ser apreciado sob dois aspectos

 

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complementares. Quanto ao modo da exposição, Platão engloba nos diálogos as múltiplas influências que recebe

complementares. Quanto ao modo da exposição, Platão engloba nos diálogos as múltiplas influências que recebe em sua formação pessoal, amalgamando- as harmoniosamente à riqueza das formas presentes no meio cultural da Grécia. Platão compõe então uma obra impressionante por sua beleza e pela abundância das referências das quais se nutre e que são habilmente entrelaçadas. Vemos, por exemplo, o artista que nos diálogos constrói mitos capazes de iluminar o sentido da intuição, o dramaturgo capaz de situar toda a ambiência da conversação socrática, o erudito que retrata as concepções e tendências da época, o político que, preocupado com a ordem urbana, idealiza a constituição ideal do estado. E quanto ao que se refere ao conteúdo original da concepção platônica, é aqui o momento em que podemos observar o traço da genialidade de Platão. Pois a esta apresentação tão relacionada ao ambiente cultural do tempo, faz surgir um conteúdo totalmente inovador, surpreendente mesmo, por ser capaz de criar uma ambiência nova na qual a filosofia vai situar-se em um nível autônomo do seu exercício. Platão situa a motivação ética socrática na mais abrangente imbricação das ordens social, pessoal e cósmica, instâncias equiparadas por sua relação com a justiça. A ordem justa tem que valer para o domínio interior do homem como para o âmbito das relações exteriores, mas também como critério da própria filosofia enquanto critério do conhecimento. Platão demonstra então como as possibilidades do acesso ao conhecimento supõem graus, que estão articuladas à repartição entre os domínios sensível (das coisas efêmeras sempre em devir) e inteligível (das ideias eternas e imutáveis como o ser ou o real). Seria como uma reta, na qual visualizamos quatro seguimentos. O primeiro, mais inferior, é o domínio do não-ser, dos reflexos, das representações ou imitações, das imagens (EIKASIA). É o grau da conjuntura, onde só é possível a impressão vaga e fugidia, mas nenhuma asserção. Em seguida temos o domínio das realidades naturais, do devir, da experiência perceptiva e da crença (PÍSTIS). É o domínio a que pertencem as técnicas empíricas, as asserções que não possuem a exigência da legitimidade e da validez em geral, referindo-se apenas ao local e aparente. Estes dois seguimentos referem-se ao mundo sensível, das coisas visíveis, correspondendo ao grau da opinião (DOXA). Os próximos seguimentos relacionam-se ao domínio do inteligível. Assim, temos o grau imediatamente posterior, ao qual pertencem a geometria e ciências correlatas, que procedem por raciocínio e prova, partindo

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  de hipóteses (DIANÓIA). É um domínio que possui um critério de verdade, pois se
  de hipóteses (DIANÓIA). É um domínio que possui um critério de verdade, pois se
 

de hipóteses (DIANÓIA). É um domínio que possui um critério de verdade, pois se estabelece como relação entre ideias, mas apoiando-se ainda em imagens das coisas sensíveis, assim como os matemáticos utilizam figuras para construir postulados geométricos. É no domínio seguinte que a filosofia se estabelece, pois neste residem as ideias, sendo o puro inteligível ou real como grau do verdadeiro conhecimento (NOESIS). O objeto do discurso da filosofia, do diálogo como linguagem filosófica, alcança aqui um domínio positivo e não se limita mais, como em Sócrates, a apontar para a necessidade dele, sem, no entanto, chegar a apresentá-lo como tal. Pois,sendo ontologicamente fundamentado (isto é, sendo concebido como real), o mundo das ideias estabelece também a base de fundamentação das hipóteses científicas e explica a constituição de todos os outros domínios, fornecendo, através da dialética, a inteligibilidade do ser. Dessa maneira, os graus do conhecimento se modelam sobre os graus do ser e neste sentido a dialética não é apenas uma argumentação do bom senso, mas é a articulação das ideias entre si a um princípio, permitindo a formulação de uma teoria, que em grego significa contemplação e em sentido platônico

é

a contemplação das ideias. A realidade do inteligível, como domínio das

ideias, permite a constituição da filosofia, como saber fundamental e a postulação deste domínio, das ideias separadas do sensível, possibilita o juízo como categoria lógica e modelo da inteligibilidade, enquanto que o princípio do bem fundamenta e ordena o sistema das ideias. Chama-se processão ou procedência, a esta composição das coisas a partir

do seu modelo ideal. Platão, no Timeu, descreve o modo pelo qual o mundo sensível é plasmado a partir do inteligível. Admite ele aí duas ordens fundamentais da realidade. Há a matéria, desordenada e sem limitação,

domínio destituído de forma ou inteligibilidade. Há, separado deste, as ideias,

o

domínio do inteligível puro, porém destituído de materialidade. Platão faz

intervir entre ambos a ação do Demiurgo ou artífice divino, que estampa ou imprime na matéria, concebida como receptáculo, matriz ou lugar, a forma ou ideia. Ele utiliza aí o exemplo pelo qual o artífice seria como o pai e o receptáculo seria a mãe. O que assim é gerado é o devir onde as imagens das ideias estão em incessante alternância, sendo imitadas ou copiadas em razão da atração irresistível que exercem sobre o sensível e sendo o resultado deste processo de participação o mundo das coisas sempre transitórias como MISTO do princípio inteligível com a base sensível. Quanto aos corpos formados pelo Demiurgo, são em seguida dotados

 

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  com uma alma, força da consciência que vivifica a matéria. Se o que se
  com uma alma, força da consciência que vivifica a matéria. Se o que se
 

com uma alma, força da consciência que vivifica a matéria. Se o que se apresenta como o mundo é deste modo um misto da matéria ilimitada e da

determinação formal, o que é constituído nesta ordenação do mundo é a vida, como residência da alma em corpos transitórios. Platão recupera aqui as crenças do seu tempo, notadamente como apareciam na formulação da seita órfico-pitagórica, a qual ensinava a crer na transmigração da alma como processo de purificação. Dessa forma, para Platão, de algum modo, por processos naturais ou para expiação de culpas, a alma se reveste do corpo material e, devido a esta contingência, ao mesmo tempo é afetada pela aspiração ao conhecimento, ao inteligível puro com o qual comunga o seu próprio ser, e é também limitada pela materialidade, a qual, embora participando da ordenação da ideia, é em si mesma desordenada

e,

em relação ao modelo, degradada e imperfeita.

 
 

O

conhecimento, conforme o platonismo, que é intuição ou iluminação

 
 

como teoria (contemplação) da ação do inteligível, não é jamais total e completo, pois está sempre delimitado pela circunstância material. Platão retrata esta aspiração e limitação da alma no mito do Eros, no

diálogo denominado O banquete. Ali vemos o Amor (EROS), filho da Pobreza

e

do Engenho, ser como o meio entre a coação do sensível (a beleza do

corpo, a atração erótica) e a contemplação do inteligível (a beleza da alma, o anseio pelo conhecimento). A intuição de uma beleza puramente ideal impulsionaria a filosofia e traria

confiança em um mundo além dos sentidos, como verdadeira pátria da alma. Aparece aqui o sentido do conhecimento como reminiscência

a

(Ananmesis). No Mênon, como também no Fédon, Platão afirma que, sendo eterna e tendo visto as ideias no mundo do qual procede, contando também com o que aprendeu em suas vidas anteriores, a alma obtém, pela prática da filosofia e das ciências, a lembrança das ideias. Platão propõe a este respeito, no Fedro, um mito no qual narra a viagem da alma pelo céu, antes de vir ao mundo. Algumas, mais observadoras, viram uma quantidade maior de ideias em uma região supraceleste, enquanto outras, mais apressadas, viram só um pequeno número delas.

Portanto, o que conhecemos do mundo sensível é lembrança daquilo que vimos no mundo inteligível e as ideias nos são inatas, sendo a filosofia, como também as ciências, processos pelos quais somos levados a esta lembrança.

 

O

conhecimento aparece assim como verdadeira liberdade em relação ao

 

engano e à coação dos sentidos. Platão utiliza-se, no livro VII da República, de outro mito para exemplificar este processo. Em concordância com esta narrativa, imagina-se uma caverna onde os homens, feito prisioneiros, estariam

 

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  com as costas voltadas para a abertura, onde arde um fogo. Eles estão de
  com as costas voltadas para a abertura, onde arde um fogo. Eles estão de
 

com as costas voltadas para a abertura, onde arde um fogo. Eles estão de frente para a parede interna da caverna e no espaço às suas costas passam

algumas pessoas carregando coisas, as quais, não sendo diretamente visíveis pelos prisioneiros são, no entanto, observáveis por estes, na forma de sombras, assim projetadas pela luz do fogo, na parede à sua frente. Se um deles pudesse ser liberto e subisse através da abertura da caverna, contemplaria o sol e, após ter acostumado a visão à luz, se deslumbraria ante

 

a

beleza e a claridade que veria então. Este homem é comparado ao filósofo

que alcança o conhecimento do bem. No entanto, Platão insiste em que o filósofo, exemplificado no prisioneiro que se liberta, deve voltar à caverna e instruir os outros homens a respeito do sol. Não obstante, ele poderia até ser

considerado louco e ser atacado por seus semelhantes, que duvidariam do seu testemunho. Através dos mitos, Platão procura compensar a contingência material da linguagem para expressar o inteligível. Assim, idealiza também a utopia do

 

estado perfeito, governado pelo rei-filósofo. Platão identifica, como vimos, três tipos de pessoa: os seres de ouro, escolhidos entre os guardiões da cidade para ocupar o cargo do governante; os seres de prata, que seriam os guardiões da cidade, os guerreiros; e os seres de bronze, que trabalhariam no artesanato

 

e

na agricultura. Embora sendo avesso à democracia, Platão sugere, em sua

 

República, a igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres. Mas, é principalmente em sua obra As leis, escrita na velhice, que Platão especificamente se propõe a aplicar a sua concepção de ciência à política. Como vimos, o exercício dialético permite a contemplação das ideias enquanto produção teórica. Porém, há duas aplicações dialéticas possíveis. Uma, ascendente, como constituição propriamente filosófica do conhecimento, considera a multiplicidade inerente ao misto sensível para daí extrair uma definição como unidade ideal, isto é, para reduzir a multiplicidade sensível à unidade da ideia, através da divisão desta em suas espécies e conforme suas articulações naturais. Já a dialética descendente permite tornar os fenômenos do mundo objetivo pensáveis, através da análise do próprio misto sensível com o intuito de construir modelos de inteligibilidade como constituição das ciências. Enquanto na República a cidade ideal era quase um mito, no sentido de ser concebida para além da objetividade, e Platão mesmo afirma que tal estado só seria possível para os deuses e os filhos dos deuses, nas Leis Platão pretende formular uma ciência da legislação plenamente aplicável à cidade “de segunda ordem”, isto é, cidades deste mundo, misto entre sensível e inteligível. Nesta obra, além de estabelecer a educação (Paideia) como núcleo da

 

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organização do estado, que deve zelar por ela em todos os seus matizes, desde a

organização do estado, que deve zelar por ela em todos os seus matizes, desde a infância à própria geração das crianças, Platão afirma também uma fé em Deus que inspiraria todas as instituições do estado por ele preconizadas. Neste sentido, fala-se mesmo de um teocentrismo das Leis. Platão estabelece também a atribuição do poder em uma espécie de assembleia composta por magistrados, e, de um modo geral, podemos afirmar que a política é a motivação que permeia toda a obra de Platão, no sentido da possibilidade de uma organização do estado fundamentada em princípios oriundos da filosofia. Também da época da maturidade é a reordenação, efetuada por Platão, em sua teoria das ideias, identificando-as com números, à semelhança dos pitagóricos, mas, diversamente destes, concebe as ideias-número como arquétipos absolutos, limitando-os à série da década, a qual não derivaria de operações e relações matemáticas. Assim, como cada número é uma ideia e cada ideia é a causa da existência das coisas sensíveis, os números – ideias são causas das coisas existentes. Porém, dessa forma concebidos, os números ideais não se confundem com os números matemáticos, capazes de entrar em relação entre si. Há, pois, três classes de seres: as ideias-número, os seres e números matemáticos e as coisas sensíveis numeráveis. Para melhor estabelecer a natureza da ideia e a participação das coisas em seus modelos ideais, Platão estabelece uma repartição de elementos básicos que confor mariam a existência das próprias ideias: O uno, limite, determinação numérica fixa e finita, e a dualidade, como par do infinitamente grande e do infinitamente pequeno, enquanto instância do ilimitado. O uno e o múltiplo seriam elementos plásticos ideais capazes de recompor também nos mistos a relação numérica formal fixa da ideia com a fluência ilimitada. Platão desenvolve seu sistema através de numerosos diálogos, todos conservados. Sua doutrina é elaborada ao longo desta extensa produção textual, na qual procura também afastar as objeções possíveis. Dessa maneira, ele próprio antepõe as críticas e dificuldades prováveis, inerentes ao conteúdo de sua teoria. Tal procedimento aparece claramente no diálogo Parmênides, no qual figura, ao lado do jovem Sócrates, o personagem do velho filósofo Parmênides, que empreende a crítica à doutrina das ideias. Realmente, a proposta dos princípios ideais imutáveis como modelos dotados de uma existência separada, independente do mundo sensível, isto é, transcendente, este domínio do puramente inteligível ontologicamente fundamentado, é tanto a ordenação autônoma da filosofia como também uma espécie de divisor de águas.

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  Há a partir daí entre os filósofos, aqueles que aceitam esta transcendência, esta dualidade
  Há a partir daí entre os filósofos, aqueles que aceitam esta transcendência, esta dualidade
 

Há a partir daí entre os filósofos, aqueles que aceitam esta transcendência, esta dualidade dos mundos, e há os que a rejeitam, postulando apenas uma ordem do mundo como real embora situando nesta uma possibilidade de exercício do inteligível, como âmbito filosófico e científico. Em todo caso, o platonismo permite esta delimitação da filosofia, fundando-a mesmo, a qual vem a ser como tal, para além das especulações pré-socráticas limitadas à PHYSIS, da retórica sofistica como domínio da DOXA, e, mesmo tendo sido inspirada e impulsionada por ele, também da limitação socrática às questões da ética. Ordenada como um conjunto orgânico, atinge o limiar de um domínio próprio, enquanto forma especificamente filosófica do conhecimento e conquista assim o futuro, para além da polis grega.

. ARISTÓTELES

Aristóteles, filho de Nicômaco, nasce em 385 a. C. Nicômaco é médico e conselheiro do pai de Filipe II, o rei da Macedônia, que, como vimos, estenderá sua soberania também à Grécia. Aristóteles vive assim sua infância na corte, mas, aos seis anos, tornando-se órfão pelo lado paterno, retorna a Estagira, sua cidade natal, Entre os dezessete e os dezoito anos, viaja para Atenas, tornando-se discípulo de Platão na Academia. Aristóteles escreve, provavelmente à época da sucessão de Platão na Academia, o tratado Da Filosofia, no qual inicia a sua crítica à teoria das ideias de Platão, notadamente em sua formulação matemática da maturidade. É, inclusive, devido à sua particular discordância a esta direção de pesquisa que se deve principalmente a sua saída da Academia, pois Espeusipo, que sucede o mestre, imprime justamente esta feição matemática aos estudos no estabelecimento. Além da crítica às ideias separadas e notadamente às ideias-número, precedida por uma exposição histórico-crítica da filosofia, esta obra contém ainda uma teoria teológica astral, considerando como deidades os corpos celestes e postulando a existência do Deus supremo da qual fornece uma prova ontológica e que Aristóteles concebe como um motor imóvel, origem de todo movimento. Há também aí uma cosmologia, a qual desenvolverá posteriormente em outros livros, na qual faz o mundo, como extensivo ao ato do Deus supremo, também eterno e divino, em franca oposição ao platonismo. Parece se situar ainda nesta fase um tratado Das ideias e o início da composição da sua obra lógica com Tópicos, seguido de um primeiro esboço das Categorias.

 
 

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  Estas obras iniciais são as únicas que conhecemos destinadas ao público.   O maior
  Estas obras iniciais são as únicas que conhecemos destinadas ao público.   O maior
 

Estas obras iniciais são as únicas que conhecemos destinadas ao público.

 

O

maior e mais importante conjunto de obras de Aristóteles são na verdade

apontamentos organizados para os cursos que ministrava em sua atividade docente, nos quais a crítica contemporânea não hesita em demonstrar colaborações e trechos inteiros que seriam anotações de alunos, sobre suas lições. Após esta primeira estada em Atenas, em que frequentou a Academia de

Platão, Aristóteles viaja, por volta de 345 a. C., a Assos, em Tróia, e é aí recebido pelo governante local Hermias de Atarnea. Embora começando já

a

delinear a tendência mais própria ao seu pensamento, Aristóteles move-se

ainda na esfera do platonismo, pois o que pretende é um aperfeiçoamento da determinação do âmbito próprio ao exercício da filosofia como inteligível e universal o qual, proposto já em Platão, necessitaria agora de um desenvolvimento que o levasse à superação das dificuldades referidas no

tratado Da Filosofia. Em Assos, acompanhado por outros discípulos de Platão como Xenócrates

e

Corisco, descontentes como ele da orientação particularmente voltada à

matemática adotada por Espeusipo, Aristóteles participa das atividades da escola platônica local. Hermias, o governante, é pai adotivo de Pítias, com quem Aristóteles se casa posteriormente em Mitilene, onde encontram-se refugiados, por ocasião da queda do governo de Hermias. Em Assos e Mitilene, Aristóteles compõe os escritos da Política, Da física,

Do céu, Da geração e da corrupção e Os analíticos, onde desenvolve a construção

 

da

Lógica como sistematização aperfeiçoada da dialética de Platão. Acumula

 

também observações biológicas, que fundamentam a História dos animais, e

alguns dos livros integrantes do Partes dos animais. Também deste período é o tratado da Ética a Eudemo e a parte inicial da Metafisica. É nesta época que recebe o convite de Filipe II para exercer a atividade de preceptor do jovem príncipe Alexandre. Aristóteles aceita a tarefa e permanece na corte da Macedônia por algum tempo, em uma espécie de universidade construída especialmente para este objetivo no Bermion, o Santuário das Ninfas próximo à cidade de Mieza. Logo Alexandre é chamado

a

preparar-se para assumir o império e Aristóteles volta a Estagira, com a

missão de reconstruir a cidade, que havia sofrido a invasão dos Macedônios. Agora, com o apoio da corte, Aristóteles restaura a cidade e desenvolve a atividade de legislador. Nesta fase escreve ele o tratado Da realeza e a Compilação das constituições, além de duas obras sobre questões estéticas (Sobre os poetas e o Homero). Em seguida volta a Atenas.

 

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Já tendo assumido as características mais próprias ao seu pensamento, afastando-se em definitivo das concepções

Já tendo assumido as características mais próprias ao seu pensamento, afastando-se em definitivo das concepções genuinamente platônicas, embora nunca tendo deixado de reconhecer no mestre o impulso pioneiro de suas pesquisas, Aristóteles não retorna à academia nem a outro centro de estudos do platonismo. Funda ele próprio a sua escola, o Liceu, que deriva seu nome da proximidade do templo de Apolo Líceo, e que é mais tarde denominada também o Perípato, devido ao costume que tinha Aristóteles de ministrar suas lições enquanto passeava (peripateo, em grego), conversando com os alunos, aos quais, devido a isso, costumavam chamar Peripatéticos. Alexandre, a partir de 335 a. C., torna-se rei da Macedônia e, com seu apoio, Aristóteles organiza sua biblioteca e desenvolve as atividades da escola. É então que redige a Ética a Nicômaco, a Poética e a Retórica, a Constituição de Atenas, os tratados Da alma e Da geração dos animais, cursos sobre O sono, Os sonhos, A sensação, A memória e em geral completa seus escritos de física com Meteorológicos, completa a Política e a obra lógica na qual agora acresce o título Da interpretação. A extensa coleção de seus escritos, que inclui ainda outros títulos, foi organizada por Andrônico de Rodes, que dirigiu a Escola Peripatética no Séc. I a. C. Por volta de 321 a. C., Aristóteles é alvo de um processo movido pelo partido nacionalista de Atenas, o qual, acusando-o de impiedade, na verdade buscava incriminá-lo, devido à sua ligação com o príncipe Alexandre, como se ele fosse um colaboracionista da causa Macedônia. No entanto, a própria produção dos escritos de Aristóteles desmente tal acusação, pois sua preocupação aí é sempre com a Pólis grega, a qual busca, de uma perspectiva teórica, reformar para justamente lhe permitir reerguer-se e reconquistar a soberania. Mesmo assim, para escapar à condenação, exila-se em Eubeia, em uma propriedade da qual é herdeiro por lado materno. Nesta época, Aristóteles vive uma segunda união, com Herpilis. Aí permanece até 322 a. C. Aristóteles vive até os 62 anos, legando à humanidade uma das mais abrangentes obras em Filosofia. A ordenação do conhecimento é feita, conforme Aristóteles, entre as ciências classificadas como Teoréticas (a Física, a Matemática, a Metafisica e a Teologia), Práticas (a Ética e a Política) e Poéticas. Costuma-se estudar o conjunto de sua produção filosófica repartindo-o em partes consideradas principais como a Lógica, a Metafisica, a Física e a Ética. Sua filosofia conceitua o Devir é como o real, no qual se inserem a universalidade e a inteligibilidade, requisitos da ciência e do conhecimento.

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Aristóteles considera a delimitação platônica, entre o vir a ser e o ser, inútil e

Aristóteles considera a delimitação platônica, entre o vir a ser e o ser, inútil e supérflua. Tal demarcação, porém, se mantinha na obra de seus predecessores, e em muitos sucessores de Platão. Aristóteles desenvolve a pioneira história da filosofia, uma exposição crítica das teorias anteriormente apresentadas. A crítica aos pré-socráticos abrange a constatação de que nenhum deles enunciou todas as causas que poderiam justificar uma teoria da origem das coisas. Já a crítica a Platão consiste em afirmar que, apesar de Platão ter corretamente apreendido a exigência socrática do conceito, ele errou ao separar as ideias das próprias coisas, o que equivale a uma duplicação destas em supostos arquétipos de si mesmas. Em Aristóteles, o conhecimento não é inato, como na doutrina platônica das ideias, sempre as mesmas, que compõem a racionalidade, informam a razão. Inversamente, Aristóteles afirma que a percepção sensível, a apreensão dos objetos dos sentidos, é a fonte real da distinção dos dados do conhecimento, uma vez que corresponde à assimilação das características dos objetos particulares. A percepção sensível é o grau mais básico do conhecimento. A partir daí, no grau seguinte, a memória atua no conjunto das percepções, abstraindo, como soma das mesmas características, a imagem sensível, que corresponde à FORMA comum a todos os objetos considerados semelhantes. Em seguida, a experiência torna-se capaz de formular, baseada na observação dos casos particulares, regras práticas que poderão constituir as técnicas e o uso corrente das coisas. Gera-se assim a arte, como conhecimento organizado destas regras práticas, aperfeiçoado agora por uma fundamentação destas regras em princípios gerais. Na Grécia antiga, a palavra “arte” (tekhné) não significava apenas a produção de obras de arte, mas abrangia a noção de ofícios em geral. No estágio superior do conhecimento, compõem-se então as ciências. Aristóteles define ciência como conhecimento das causas que condicionam os fenômenos observáveis, isto é, das causas fundamentais e mais universais de todas as coisas. A doutrina das ideias platônica limitava o intelecto como faculdade puramente intuitiva, isto é, caracterizado como saber sempre aproximado, porque dependente das condições sensíveis do homem no mundo material, constituído em radical oposição ao mundo real das ideias. Aristóteles critica essa limitação. Por sua teoria do conhecimento, podemos concebê-lo como passível de ser formulado através de juízos completos e confiáveis sobre a natureza. Isso porque o intelecto opera, como dedução, através do

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  conhecimento da causa (princípios universais), até o conhecimento, o controle e a previsão do
  conhecimento da causa (princípios universais), até o conhecimento, o controle e a previsão do
 

conhecimento da causa (princípios universais), até o conhecimento, o controle

e

a previsão do efeito (casos particulares).

 

O

conhecimento, como ciência, efetiva-se na esfera da razão e torna-se

 

compreensível a necessidade da lógica ou instrumento, que permite formular

a análise e equação correta dos fenômenos, a partir de um sistema que garanta

a formalização e verificação do raciocínio. Baseando-se em premissas válidas

através de regras determinadas, o raciocínio alcança conclusões igualmente válidas. Aristóteles concebe a “dialética” em um novo sentido. Não mais apenas

e

como um “exercício” de perguntas e respostas, mas, como exposição geral das regras que governam o exercício intelectual, ou seja, exposição das regras

princípios do raciocínio correto. Neste novo sentido da palavra, a “dialética” abrange uma “lógica”, palavra que surgirá posteriormente, significando o estudo das regras da correção do raciocínio, que Aristóteles sistematizou principalmente na obra em cinco

e

volumes Organon. Esse termo, em grego, significa “instrumento”. Aristóteles concebeu a lógica como ferramenta (instrumento) de todas as ciências, pois ela permite enunciar as condições de verdade de qualquer raciocínio expresso na linguagem. Trata-se de regras do raciocínio, formulado como um silogismo, conjunto de proposições composto de certas premissas de que se segue uma certa conclusão. O silogismo é o processo que faz ver ao pensamento a união de um atributo a um sujeito.

A

forma do silogismo, isto é, o modo e o lugar em que se dispõem os

termos de cada proposição, premissa ou conclusão, é o que permite identificar

raciocínio e verificar se ele é legítimo ou não. Aristóteles estabeleceu todas as combinações possíveis de silogismos válidos, o que se pode aprender com

o

o

estudo da Lógica. As formas de raciocínio apenas aparentes, que não são

válidas, são designadas “falácias”. Exemplo de falácia: Sócrates é homem. Sócrates é grego. Logo, todo homem é grego. Exemplo de raciocínio válido: Todo homem é racional. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é racional. Aristóteles formulou também uma teoria da substância, como resposta à pergunta fundamental da filosofia, “o que é o ser?”. Ele desenvolve um conjunto de textos que expõem uma doutrina do ser enquanto ser, a Metafísica.

Atualmente, designamos esse tipo de exposição como compondo a “Ontologia”, disciplina que tem o Ser como seu objeto. Aristóteles pretende fundamentar a inteligibilidade do devir, e, para isso,

preciso compreender como as coisas são o que são. Ele compreende a realidade de cada coisa como sendo composta de forma e matéria. Cada

é

 

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coisa singular é uma substância (OUSIA), em que uma essência imutável está implícita em uma
coisa singular é uma substância (OUSIA), em que uma essência imutável está implícita em uma

coisa singular é uma substância (OUSIA), em que uma essência imutável está implícita em uma porção de matéria. O composto, a substância, apresenta assim algo que é variável, devido à matéria, e algo que é fixo, eterno, sua essência. Exemplificando, o ser humano singular apresenta algo que é sempre

humanidade, porém, a variação material compreende a multiplicidade de atributos como baixo ou alto, gordo ou magro, criança ou adulto etc.

a

 

O

conhecimento das coisas enquanto isso ou aquilo, isto é, nosso

discernimento do ser das coisas, é devido à nossa capacidade de abstração. Vimos que a percepção sensível apreende os seres singulares, mas que, devido

memória, somos capazes de identificar a característica comum de um conjunto de seres que apresentam uma semelhança perfeita.

à

 

O

Universal é a essência da coisa assim como abstraída por nossa

capacidade intelectual. Na substância singular a essência não está separada

da

matéria, e nossa percepção não lida apenas com a semelhança, mas também

com as diferenças. Todavia, nosso intelecto pode abstrair as diferenças e

identificar a essência, separando-a, no pensamento, do composto substancial.

A

substância primeira é o composto singular, a substância segunda é a

enunciação da definição, da essência ou do Universal. Enquanto Platão fundava a racionalidade na imbricação do conhecimento

e

da moral, Aristóteles distingue um domínio de conhecimento científico,

em que se aplicam as leis da lógica (episteme), e um domínio prático, em que imperam o acordo entre as pessoas e as convenções (nomos). Assim, nesse âmbito prático, a Retórica conserva a sua importância, como arte de argumentação e persuasão.

 

O

âmbito prático é aquele da Ética ou da moral, em que devem ser

formulados raciocínios apropriados, como juízos éticos. Esse raciocínio moral consiste em encontrar o meio termo entre atitudes extremas, por exemplo, a coragem entre a temeridade e a covardia. A Ética deve produzir a ação correta, não apenas o discurso correto sobre a ação devida. Quanto à Política, Aristóteles não almeja fundar um Estado ideal, mas, observando as formas de organização social existentes, constata ser a democracia o regime mais adequado por sua moderação, sua capacidade de conciliar os interesses opostos.

 

. A LÓGICA

 

Aristóteles concebeu a lógica, não como fazendo parte especificamente

 

da

filosofia ou da ciência, mas como um instrumento necessário utilizado

por ambas em seu desenvolvimento e elaboração. Assim, formulou ele, para

 

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  seus tratados de lógica, o título “órganon”, que em grego significa “instrumento”. Estes escritos
  seus tratados de lógica, o título “órganon”, que em grego significa “instrumento”. Estes escritos
 

seus tratados de lógica, o título “órganon”, que em grego significa “instrumento”. Estes escritos repartem-se em cinco títulos, distribuídos em seis livros,

com

a seguinte ordenação temática: as Categorias, que estudam os elementos do discurso, os termos da linguagem; Sobre a interpretação, a respeito do juízo e da proposição; os Analíticos (em dois volumes: primeiros e segundos), tratam do raciocínio formal, o silogismo, e da demonstração científica; os Tópicos, elaboram um método geral da argumentação, aplicável tanto às discussões práticas quanto à indagação científica; e Dos argumentos sofísticos, que expõem os tipos principais de argumentos capciosos. Porém, o próprio Aristóteles, embora tenha sido o criador da lógica enquanto doutrina organizada, não formulou qualquer termo para designá- la.

A dialética, tal como praticada na antiguidade, caracterizava-se em seu

uso prático como exercício oral de disputa. Aristóteles demarca, no capítulo

VIII

dos Tópicos, a diferença entre este tipo de controvérsia cuja tônica reside

na competição, e a discussão cujo objetivo é voltado exclusivamente para a investigação da verdade, isto é, em um espírito tanto do exame e pesquisa, como do ensino e aprendizagem. Para este último, ao tempo de Aristóteles, não havia, segundo ele, regras gerais determinadas como princípios universais que governassem o seu uso. Dessa maneira, ele procura formular uma “dialética”, no sentido deste todo orgânico, composto por tais princípios e regras da argumentação. Mas, uma tal sistematização, como vimos, por si mesma vai além do uso argumentativo dialético comum, no sentido da disputa e mesmo da simples discussão, para apresentar-se como sistematização das regras do próprio raciocínio, pois, é este o domínio pelo qual se exerce qualquer argumentação. Era já assim que Platão compreendia a dialética como instrumento “teórico”, isto é, que levava à contemplação da ideia. Todavia, sem uma prévia sistematização dos seus princípios, toda discussão recaía ou em simples persuasão, ou, como em Sócrates, em limitar-se a um procedimento aporético (apresentação de uma dificuldade, sem resolvê-la), ou como em Platão, em uma divisão mais ou menos arbitrária do conceito proposto. Aristóteles concebe a “dialética” em um novo sentido. Não mais apenas como um “exercício” dialético, prático, mas como exposição geral das regras que governam este exercício, ou seja, das regras e princípios do raciocínio correto. Neste novo sentido da palavra, “dialética” tornou-se sinônimo de “Lógica” palavra que surgirá posteriormente, mas cujo significado vai referir-se àquilo

 

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  que se constitui como regra da correção do raciocínio, a qual começa a ser
  que se constitui como regra da correção do raciocínio, a qual começa a ser
 

que se constitui como regra da correção do raciocínio, a qual começa a ser sistematizada somente a partir de Aristóteles. Dessa forma, mais tarde passou- se a repartir os dois sentidos da palavra conforme os dois termos adotados e

a

regra do raciocínio verdadeiro passou a constituir o âmbito da definição

exclusivo da lógica. Logo no início dos Tópicos, no livro 1, Aristóteles distingue o raciocínio dialético daquele a que chamou “demonstração”, ou “demonstrativo”. Assim, enquanto o raciocínio dialético, que parte de opiniões geralmente aceitas por todos, situa-se no âmbito do problemático e do provável, costumando a limitar-se aí, o raciocínio demonstrativo parte das premissas verdadeiras e fundamentais, como aquelas nas quais cremos por si mesmas, por sua evidência, e somente deste modo se constituem.

Embora no Órganon os livros chamados Analíticos tratem apenas dos raciocínios e regras da demonstração, a obra considerada em seu conjunto ocupa-se de ambos os tipos de discurso. Aristóteles considera-os formalmente idênticos, como procedimentos da argumentação entendida como a dedução necessária de certas coisas, uma vez que delas se estabeleçam outras coisas determinadas. Somente na elaboração filosófica dos Estoicos aparece o termo “Lógica”, mas considerada ainda como arte do discurso persuasivo em geral, isto é, incluindo tanto a demonstração mesma quanto a retórica. Mais tarde, porém, os comentaristas de Aristóteles e alguns filósofos como Cícero e Galeno

utilizaram este termo “lógica” para designar estritamente a disciplina que constitui o tema dos Analíticos aristotélicos, isto é, os procedimentos e regras exclusivas da demonstração e do discurso demonstrativo em geral.

 

É

assim que Boécio dará o título Lógica à sua tradução do Órganon, a qual

 

é

apresentada como uma introdução geral à obra denominada Isagoge de Porfirio,

e

é utilizada por toda a Idade Média como fonte e referência desta disciplina.

 

A

proposta desta sistematização está, em Aristóteles, estreitamente

 

vinculada à sua concepção do conhecimento. Como Platão, Aristóteles descreve uma progressão em graus dos procedimentos e tipos característicos do saber, mas sua perspectiva não é de modo algum semelhante à platônica, pois, mesmo que ambos iniciem pelo grau mais inferior da percepção sensível, esta não conserva neles o mesmo sentido e amplitude. Em Aristóteles o conhecimento não é de todo inato e a percepção sensível,

grau correspondente aos objetos dos sentidos, é considerada como fonte da distinção dos dados do conhecimento assimiláveis ao homem, uma vez que corresponde à apreensão sensível das características dos objetos particulares. A partir daí, no grau seguinte, a memória atua no conjunto das

o

 

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  percepções abstraindo, como soma das mesmas características, a imagem sensível que corresponde à FORMA
  percepções abstraindo, como soma das mesmas características, a imagem sensível que corresponde à FORMA
 

percepções abstraindo, como soma das mesmas características, a imagem sensível que corresponde à FORMA comum a todos os objetos considerados

semelhantes. Em seguida, a experiência torna-se capaz de formular, baseada na observação dos casos particulares, regras práticas que poderão constituir as técnicas e o uso corrente das coisas. Gera-se assim a arte, como conhecimento organizado destas regras práticas aperfeiçoado agora por uma fundamentação destas regras em princípios gerais. Chega-se então à ciência como conhecimento das causas que condicionam os fenômenos observáveis, isto

é,

das causas fundamentais e mais universais de todas as coisas.

A possibilidade do conhecimento não está, assim como em Platão, limitada ao intelecto como faculdade puramente intuitiva, isto é, caracterizado como

saber sempre aproximado, porque dependente das condições sensíveis do homem e do mundo, constituídos em radical oposição ao mundo real das ideias. É concebido agora como passível de ser formulado através de juízos completos e seguros sobre a natureza e os fenômenos, uma vez que opera,

como dedução, através do conhecimento da causa (princípios universais) até

o

conhecimento, o controle e a previsão do efeito (casos particulares). Neste sentido, a ciência como conhecimento efetiva-se na esfera da razão

e

torna-se compreensível a necessidade da lógica como instrumento que

permite formular a análise e equação correta dos fenômenos, a partir de um sistema que garante a formalização e verificação do raciocínio, o qual, baseado em premissas válidas e através de regras determinadas, permite chegar a conclusões igualmente válidas. Existem, deste modo, para Aristóteles, dois modos em relação à aquisição do conhecimento, que correspondem a dois meios de confirmar a validade dos elementos apresentados: a indução, como procedimento que, partindo da observação dos casos particulares, chega a um princípio universal, a qual

prevalece no domínio da experiência, e a dedução que, como vimos, pertence ao âmbito exclusivo da ciência como tal. Em uma explanação científica ou em uma discussão de teses propostas como verdades da ciência, ambos os meios são utilizáveis, mas o estudo da lógica orienta-se, como vimos, no sentido da organização sistemática das formas da dedução. Esta opera através de premissas as quais, uma vez ordenadas em forma correta, resultam na conclusão, que encerra um conteúdo novo em relação ao que as premissas originalmente afirmavam. Embora aqui apenas iremos delinear os seus temas principais, pois um estudo mais completo abrange o campo de uma disciplina especificamente voltada para este

 

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  objetivo, podemos destacar duas partes básicas no estudo da lógica: aquela que se refere
  objetivo, podemos destacar duas partes básicas no estudo da lógica: aquela que se refere
 

objetivo, podemos destacar duas partes básicas no estudo da lógica: aquela que se refere à natureza das premissas e regras que lhe correspondem e a parte referente às formas válidas pelas quais se apresentam as conclusões. Quanto à natureza das premissas, é possível observar que elas sempre são dadas na forma de proposições. Assim, podemos considerar as proposições em si mesmas e verificar o modo pelo qual se apresentam no âmbito da argumentação. Uma proposição (Prótasis) é uma afirmação (Catáfase) ou uma negação (Apófase), em todo caso uma asserção ou declaração, que se submete a um interlocutor. É composta como uma atribuição, isto é, relacionando-se ao sujeito um atributo, como predicado do sujeito.

A

questão será então saber se o atributo afirmado do sujeito lhe pertence

ou não, no todo ou em parte. Como tanto o sujeito como o predicado são formados por termos ou nomes, o primeiro cuidado de Aristóteles é mostrar que devemos evitar a homonímia isto é, a designação de coisas diversas sob um mesmo termo. Dessa maneira, ele correlaciona algumas listas de nomes com respeito aos quais costuma haver ambiguidade, e, de um modo geral, mostra que a preocupação inicial na argumentação deve ser relacionada à precisão e ao conhecimento comum entre os participantes do significado exato dos termos. Os elementos que compõem a atribuição, como materiais de que partem os argumentos, formam os cinco tipos de atributo ou predicáveis. São eles: o gênero, como o primeiro constituinte da definição, referindo-se à classe mais ampla a que o sujeito pode pertencer. É predicado como essência e responde à indagação do tipo “O que é”? No caso do homem a pergunta “o que é?” deve ter como resposta o termo “animal”. A diferença específica é o que permite situar o sujeito nas classes

subordinadas em que se divide o gênero e, se ao homem é atribuído o gênero animal, a diferença é “racional”. A espécie constitui a síntese do gênero e da diferença e temos então “animal” enquanto gênero e “racional” como diferença compondo o termo “humanidade” como espécie. Vemos deste modo que o gênero é um predicado essencial comum a várias coisas que diferem na espécie.

É

assim que podemos formular uma definição, a qual é constituída como

totalidade do gênero mais a diferença específica, e definimos o homem como “animal racional”. Além do gênero, da espécie e da diferença, há a propriedade

ou o próprio, que é um predicado que não indica a essência de uma coisa e, no entanto, lhe pertence exclusivamente, como apenas ao homem se pode atribuir a capacidade de aprender gramática. E há também o acidente, que é

 

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alguma coisa que pode pertencer ao sujeito ou não, sem que a coisa deixe de

alguma coisa que pode pertencer ao sujeito ou não, sem que a coisa deixe de ser o que ela é, como a posição sentada em relação a alguém ou a brancura em relação a algo. Os termos que compõem as proposições podem tomar vários sentidos, os quais correspondem às dez categorias. Podem ser dados no sentido de substância (a definição ou essência), de quando (tempo) e onde (lugar) se encontra um ser, da qualidade (como) de alguma coisa, da quantidade (o quanto), da relação (duplo, meio), da situação (sentado, deitado), da posse (tem tal coisa ou outra), da ação (o que faz) e da paixão (o que lhe é feito). Não é suficiente, para a clareza da argumentação, saber se um atributo é gênero, diferença, espécie, propriedade ou acidente, mas é preciso ainda saber em qual das categorias ele entra. Se um termo é gênero e é, por exemplo, qualidade como cor, sua diferença e espécie deverão também ser qualidades. Uma mesma palavra pode ter vários sentidos, cada um dos quais pertencendo a uma categoria, como por exemplo, o termo “bom” pode estar na categoria de produção (o remédio produz saúde), da qualidade (virtuoso), do tempo (boa ocasião) ou da quantidade (boa medida). A variedade das categorias pode permitir até diferenciar a propriedade do acidente, pois, se alguém está sentado em uma reunião, embora o fato de estar sentado seja um acidente por si mesmo, enquanto a reunião está se efetivando, converte-se em uma propriedade, com relação aos assistentes. Considerando as proposições em si mesmas, Aristóteles classificou-as em quatro tipos fundamentais, fazendo uma repartição básica entre o que se afirma ou nega (qualidade) universalmente, isto é, do sujeito tomado na totalidade, como quando afirmamos “todo é”, ou apenas particularmente, isto é, considerando apenas uma parte do sujeito, como quando afirmamos “algum é” (quantidade). A cada um dos tipos foi atribuída uma letra para nomeá-la simbolicamente. Assim, temos os seguintes tipos: as proposições universais afirmativas (todo A é B) ou tipo A, as universais negativas (nenhum A é B) ou tipo E, as particulares afirmativas (algum A é B) ou tipo I, e as particulares negativas (algum A não é B) ou tipo O. Aristóteles estabeleceu também os casos em que as proposições são passíveis de conversão, isto é em que casos uma afirmação (A é B) ou uma negação (A não é B), pode supor a sua inversão, como por exemplo, B é A ou B não é A. No caso das proposições afirmativas, tal reciprocidade é possível quando o atributo pertence exclusivamente ao sujeito, como definição ou propriedade, mas, quando o atributo pode pertencer a termos que não estão no sujeito, o que é mais comum é convertermos a afirmativa universal em particular. No

é convertermos a afirmativa universal em particular. No A formacao da filosofia 3 - 16x23.pmd 66

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é convertermos a afirmativa universal em particular. No A formacao da filosofia 3 - 16x23.pmd 66
caso das proposições negativas, a reciprocidade é possível, sem haver necessidade de mudar a proposição.

caso das proposições negativas, a reciprocidade é possível, sem haver necessidade de mudar a proposição. Aristóteles também estabeleceu as relações entre as proposições, conforme os modos da oposição lógica que se estabelecem entre elas. Há relação de contrariedade entre as proposições universais que se opõem entre si quanto à qualidade como afirmação e negação de um predicado a um mesmo sujeito. Ainda que não possam ser verdadeiras ao mesmo tempo (ou todo homem

é racional ou nenhum homem é racional), duas proposições contrárias podem,

no entanto, ser falsas ao mesmo tempo (todo homem é loiro, nenhum homem

é loiro). Há relação de subcontrariedade entre as proposições particulares que se opõem entre si também quanto à qualidade. Ainda que não possam ser falsas ao mesmo tempo (ou algum homem é racional ou algum homem não é racional), duas proposições subcontrárias podem, porém, ser verdadeiras ao mesmo tempo (algum animal é quadrúpede, algum animal não é quadrúpede).

Há relação de contraditoriedade entre proposições que, possuindo o mesmo sujeito e o mesmo predicado, diferem entre si tanto em quantidade quanto em qualidade. É a oposição mais forte entre as proposições, pois entre elas não há nada que possa convir em comum e não podem nem ser verdadeiras nem falsas ao mesmo tempo (ou todo livro é instrutivo ou algum livro não é instrutivo). Há também um tipo de relação entre proposições que não encerra oposição. E o caso de proposições subalternas, as particulares (I e O) em relação às universais (A e E).

Todas estas relações podem ser visualizadas no quadrado lógico:

Contrárias

Todo x é y (A) Nenhum x é y (E) Subalternas Subalternas Contraditórias Algum x
Todo x é y
(A)
Nenhum x é y
(E)
Subalternas
Subalternas
Contraditórias
Algum x é y
Algum x não é y
(I)
Subcontrárias
(O)
Algum x é y Algum x não é y (I) Subcontrárias (O) (A) = Universais Afirmativas

(A) = Universais Afirmativas

(E) = Universais Negativas

(I) = Particulares Afirmativas

(O) = Particulares Negativas

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(I) = Particulares Afirmativas (O) = Particulares Negativas A formacao da filosofia 3 - 16x23.pmd 67
  Quanto ao estudo das formas pelas quais, partindo das premissas de que estudamos as
  Quanto ao estudo das formas pelas quais, partindo das premissas de que estudamos as
 

Quanto ao estudo das formas pelas quais, partindo das premissas de que estudamos as principais regras, se apresentam conclusões válidas, Aristóteles sistematizou o raciocínio rigoroso à maneira do silogismo, isto é, uma argumentação em que, de um antecedente que une dois termos a um terceiro,

é

deduzido um consequente que une estes dois termos entre si. Assim, na

estrutura do silogismo, as premissas formam o antecedente enquanto o consequente compõe a conclusão:

Todo homem é racional – premissa maior Pedro é homem – premissa menor Pedro é racional – conclusão No silogismo apresentado temos três termos: homem, Pedro e racional. Homem e racional são afirmados de Pedro. Em lógica, afirmar é identificar, enquanto que desidentificar equivale a negar. O ato de afirmar ou negar chama-se juízo, expresso em cada premissa.

Cada termo possui uma extensão, isto é, uma referência ao número de indivíduos aos quais o termo é atribuído, e uma compreensão, que se refere

conteúdo ou noção do termo. Podemos observar que, no exemplo proposto, os termos não possuem a mesma extensão, pois “racional” tem extensão maior que homem ou Pedro, do mesmo modo que “homem” tem extensão

ao

maior do que Pedro. Há, portanto, três termos logicamente hierarquizados e

o

termo médio permite reunir os termos maior e menor. A premissa que

contém o termo de maior extensão chama-se premissa maior, e à que contém

o termo de menor extensão chamamos premissa menor. Resulta assim que se

A é afirmado de todo B (maior) e B, de todo e qualquer C (menor), A é

necessariamente afirmado de todo C. Do mesmo, modo se A é negado de todo B e B afirmado de todo C, A é negado de todo C. Este é o chamado silogismo perfeito, que extrai imediatamente suas conclusões, através da hierarquia estabelecida entre A, B, C. A posição do termo médio nas premissas determina a forma do silogismo,

a

qual é denominada figura. Quanto à disposição das proposições na

argumentação há várias, chamadas “modos do silogismo”. Além da primeira figura, que corresponde ao exemplo proposto, há outras igualmente válidas. Somente alguns modos são legítimos, dentre as possíveis combinações de termos dados nas premissas, os quais se repartem por três figuras. Na primeira figura, o termo médio ocupa a posição de sujeito na premissa maior e de predicado na premissa menor. O caso inverso, estando o termo médio ocupando a posição do predicado na premissa maior e do sujeito na

premissa menor, considera-se como primeira figura indireta, a qual às vezes

é

identificada como quarta figura.

 

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  Na segunda figura, o termo médio está no predicado em ambas as premissas, e
  Na segunda figura, o termo médio está no predicado em ambas as premissas, e
 

Na segunda figura, o termo médio está no predicado em ambas as premissas, e na terceira figura o termo médio está no sujeito. Aqui não há necessidade de examinar detalhadamente os modos que compõem cada figura, nem o procedimento de conversão ao silogismo perfeito em cada caso, o que, no entanto, é inerente ao desenvolvimento do estudo específico da lógica.

 

É

suficiente compreender, neste âmbito, que os modos correspondentes

 

à

segunda e terceira figuras, embora imperfeitos, são legítimos e podem ser

demonstrados por conversão à forma do silogismo perfeito. Para atestar a validade do silogismo, porém, devemos nos ater às leis que regem o seu uso. Assim, as regras que regem os silogismos são:

(1) Todo silogismo contém somente três termos, o maior o médio e o menor. (2) Nunca na conclusão os termos podem ter extensão maior que nas premissas. (3) O termo médio não pode entrar na conclusão. (4) O termo médio deve ser universal ao menos uma vez. (5) De duas premissas negativas nada se conclui e (6) de duas premissas afirmativas não pode haver conclusão negativa. (7) A conclusão segue sempre a premissa mais fraca e (8) de duas premissas particulares, nada se conclui.

Através destas regras, podemos observar formas falsas de argumentação silogística, pois, basta uma incorreção com relação a uma delas, para mostrar que o silogismo não é válido.

 

A

argumentação dedutiva caracteriza-se formalmente como silogismo que

 

tem em vista a forma como conexão necessária que rege a relação dos termos

entre si e entre as premissas, não se preocupando com o conteúdo destas, verdadeiro ou falso.

 

A

lógica visa unicamente à correção ou incorreção da forma do pensamento.

 

Para isto a argumentação silogística norteia-se por alguns princípios

fundamentais: o princípio da contradição, segundo o qual não é possível que

a

mesma coisa convenha e não convenha a um objeto, ao mesmo tempo e

sob a mesma relação (A não é não A); o princípio da identidade, conforme o

qual uma coisa é idêntica a si mesma (A é A) e o princípio do terço excluído, pelo qual entre a afirmação e a negação não cabe intermediário (A, ou é B ou

não B). Estes princípios fundamentais não são passíveis de demonstração, pois são evidentes por si mesmos. Mas, no silogismo, a verdade da conclusão

é

 

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  está fundada sobre a verdade das premissas, as quais devem ser deduzidas, como conclusões,
  está fundada sobre a verdade das premissas, as quais devem ser deduzidas, como conclusões,
 

está fundada sobre a verdade das premissas, as quais devem ser deduzidas, como conclusões, da verdade de outras premissas, através de outro silogismo, e o processo poderia remontar ao infinito, sem demonstrar algo fundamental. Por isso é necessário apresentar um método positivo para alcançar definições que embasem as premissas, e, como só podemos aprender algo a partir de um conhecimento prévio, a definição tem como ponto de partida a percepção sensível, a observação, o procedimento indutivo. Mas deve haver algo que garanta e fundamente a validade das proposições assim estabelecidas, sem o quê não poderiam ser matéria da ciência, que é considerada por Aristóteles sempre ciência do universal e não dos indivíduos particulares. É devido a isto que se estabelecem os três princípios mencionados, os quais embasam a legitimidade do conhecimento. Assim, a ciência demonstrativa opera a partir da metafisica, a ciência que apresenta os princípios e causas do ser enquanto ser e seus atributos essenciais, e tem necessidade de premissas indemonstráveis e auto-evidentes, cuja formulação envolve toda a filosofia de Aristóteles.

b) Metafisica

Sócrates havia determinado a questão do conhecimento a partir da exigência da validez e da legitimidade, isto é, da necessidade de fundamentação. Isto se evidenciava, enquanto proposta do conhecimento, como domínio do universal expresso por conceitos enquanto definições estáveis e determinadas sob o critério da razão. Platão responde à argumentação socrática, fundada no âmbito da ética, separando o domínio do puro inteligível em geral, como real, deste outro reino material passivo, lugar do devir do qual não há conhecimento possível. Aristóteles, porém, não concebe esta separação – entre o que é eterno, determinado, passível de ser conhecido e afirmado por si mesmo e o que não tem determinação intrínseca, mas é fluente e mutável – como fazendo parte da estrutura do próprio real. Para ele o real é aquilo que é necessariamente o que é, aquilo que existe necessariamente. A substância ou tudo o que se apresenta como totalidade autônoma e individual. No interior do real dá-se a vivência e a existência das coisas substanciais por si mesmas, mas também se dá a experiência e o conhecimento que podemos ter sobre elas. Esta repartição dos modos fundamentais pelos quais as coisas são, isto é, o seu ser mesmo enquanto ser e o conhecimento de que constituem o objeto não recupera a dicotomia platônica como cisão em nível

 
 

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  ontológico entre material e ideal, mas apenas se apresenta como sentidos efetivos do ser.
  ontológico entre material e ideal, mas apenas se apresenta como sentidos efetivos do ser.
 

ontológico entre material e ideal, mas apenas se apresenta como sentidos efetivos do ser. O ser pode ser afirmado em vários sentidos, mas não há

cisão no próprio real enquanto tal, como em Platão. Da substância primeira, que é por si mesma individual, “este homem”, por exemplo, destaca-se a sua definição como substância segunda. A substância compõe-se de matéria e forma, sendo que a definição é a expressão da essência ou da forma substancial, a qual é dada, como vimos, na síntese do gênero e da diferença específica, como reunião do gênero e da espécie.

A

substância, enquanto essência necessária e sujeito, é dada na primeira

acepção e, enquanto considerada como definição universal ou espécie, é dada na segunda acepção. A ciência não é das coisas individuais particulares,

mas, somente do universal. O que ultrapassa este nível, como puramente individual, não é objeto da ciência, mas, apenas, da própria vivência ou existência. O conhecimento científico é assim uma concepção do universal e do necessário, como também das causas pelas quais surgem os fenômenos. Possui como pressupostos axiomas e princípios da demonstração: como vimos, os princípios da contradição, da identidade e do terço excluído. O estabelecimento de tais princípios fundamentais do conhecimento como

princípios da demonstração silogística pertence à filosofia e mais precisamente à metafisica.

É

esta a ciência que considera o ser enquanto ser e as condições que lhe

são intrínsecas, enquanto estes princípios se aplicam a todos os seres e não a um gênero separadamente dos outros. Estes princípios, porém, são os pressupostos das ciências particulares, que circunscrevem um certo gênero e ocupam-se deste. As formas lógicas do pensamento científico implicam o juízo (como discurso de afirmação ou negação sobre alguma coisa), a indução (passagem dos particulares para os universais), a definição (concernente ao que uma coisa é e à sua essência), a demonstração (relacionada à causa pela qual algo é ou não verdadeiro), a classificação (divisão por gêneros). Estes princípios, axiomas e formas básicas da ciência são por si mesmos indemonstráveis, isto é, deles temos inteligência e não ciência. A filosofia é neste sentido sabedoria, pois lhe compete, e especificamente à metafisica, estabelecer tais princípios, conhecê-los e às suas consequências, como também à sua realidade indemonstrável. Enquanto o sujeito é capaz de entreter no devir todo o tipo de relação passível de atribuição categorial, próprias e acidentais, a necessidade pela qual ele age é a mesma pela qual uma substância é o que é. Forma-se assim

 

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  a ordem necessária do mundo no qual todos os eventos encontram o seu lugar
  a ordem necessária do mundo no qual todos os eventos encontram o seu lugar
 

a

ordem necessária do mundo no qual todos os eventos encontram o seu

lugar e a sua concatenação causal. O que é determinado como universal e passível de ser objeto do conhecimento é aquilo que na substância corresponde à forma ou essência a qual é eterna e imutável. Mas o que corresponde ao fluente e indeterminado no devir é a variedade dos acidentes que entram em relação com a essência, os quais podem ser apreendidos no processo de atribuição da linguagem através das categorias. Assim os vários

sentidos do ser como gêneros supremos são as categorias e os atributos essenciais próprios, mas todos estes sentidos supõem o ser fundamental como sujeito ou substância.

 

O

conhecimento, fundamentado no âmbito do universal ao qual pertence,

 

não se estende indefinidamente de uma definição a outra, mas opera ao nível das causas. Porém, mais uma vez, o erro estaria na redução daquilo que possui vários sentidos a um só destes, como entre os filósofos Pré-Socráticos que, conforme Aristóteles, ao pretender explicar a origem do devir e do movimento, oferecem razões que se prendem a um dos sentidos causais, sem considerar que a palavra causa se propõe em quatro sentidos e que compreender qualquer fenômeno é fazer convergir todas as causas, das quais este depende. Dessa maneira, há uma causa considerada como a substância e a essência (formal ou essencial), aquela considerada enquanto matéria ou substrato (material), uma causa considerada como princípio do movimento (eficiente, motora ou motriz) e aquela considerada quanto ao objetivo ou fim ao qual a coisa corresponde (final). Ao considerarmos, por exemplo, uma estátua,

verificamos ser a figura idealizada a causa formal, a matéria da qual é feita é

a

causa material, o artífice que a fez é a causa eficiente e o homenagear ou

adornar o seu objetivo ou causa final. Embora exista uma identificação possível a ser feita entre as causas formal

e final, há no processo de surgimento das coisas estágios que correspondem

a uma e outra separadamente. E, geralmente, a causa formal ou essencial

costuma ser a causa considerada como tal, pois corresponde ao próprio ser da coisa. No entanto, no âmbito aristotélico, o conhecimento se completa

como tal, a partir da compreensão da causa final.

 
 

Se

a substância é composta no par matéria-forma, a sua unidade é garantida

 
 

como resultante desta união e cada aspecto do par só pode ser considerado como um ponto de vista sobre o sujeito, o qual corresponde apenas a esta unidade denominada sínolo. Mas, se a forma é eterna e imutável, a matéria tem a capacidade de mudança, e, se um sujeito ou substância é capaz de receber alternadamente atributos contrários, como frio e quente, seco e úmido,

 

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  esta capacidade pertence à matéria, a qual permanece, porém, como um terceiro termo, além
  esta capacidade pertence à matéria, a qual permanece, porém, como um terceiro termo, além
 

esta capacidade pertence à matéria, a qual permanece, porém, como um terceiro termo, além dos contrários, subjacente à toda mudança. Assim, considerando cada aspecto do par reservadamente, verifica-se que

à

forma corresponde a existência da realidade quando está em ação ou em

ato, enquanto que à matéria corresponde um ser propriamente potencial ou

em potência. Ainda que o ser em potência possa ser considerado um não ser em ato, e assim poder-se-ia afirmar que algo vem do não ser, efetivamente o que vemos é que tudo nasce do ser, no sentido da ação daquilo que está ou

é

em potência, como o dormir está em potência em relação ao estar acordado

em ato, o estar com os olhos fechados está em potência em relação ao ver em ato.

O devir torna-se possível somente a partir da preexistência da matéria como potência do que vem a ser, mas o ato é anterior à potência quanto ao conceito e quanto à substância. A realização em ato daquilo que está em potência na matéria é aquilo mesmo que torna possível o devir como o vir a ser da potência ao ato e consideram-se neste processo de geração do devir

três princípios intrínsecos: dois formados pelo par dos opostos como a forma

a privação da forma e o terceiro como a matéria ou substrato potencial. Enquanto a matéria é não ser apenas em sentido relativo, como vimos, participando com a forma da causa daquilo que nasce, a privação é não-ser em sentido absoluto, correspondendo ao desejo da forma na matéria, como se esta aspirasse à forma, assim como o que está em potência deseja a realização em ato. O devir como produção pode ser natural, como na geração das espécies sexuadas, artística, como na produção das coisas a partir da ciência e da tecnologia, e ainda espontâneo, como acontece na produção casual de coisas ou na geração de espécies assexuadas. Além dos três princípios causais da forma e privação (opostos) em relação

e

à

matéria, como causalidade interna ao devir, há também três princípios de

causalidade externa como a causa motriz próxima (por exemplo, o genitor na produção natural ou a arte na produção artística), a causa motriz remota (o sol em relação à geração ordenando as estações) e a causa motriz última (desejo e amor como tendência à realização do movimento). Quanto ao movimento, podemos afirmar que é a realização da potência como vir a ser da potência ao ato. Assim, o movimento tem os sentidos

referentes ao deslocamento, como mudança de lugar, à alteração qualitativa como mudança de qualidade, ao crescimento ou à diminuição como mudança do tamanho e à geração e destruição. Também a matéria pode ser considerada como matéria local ou da locomoção, da alteração, da mudança do tamanho ou da geração e destruição.

 

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Há ainda um quinto sentido da matéria como extensão espacial, correspondendo ao que Aristóteles denomina

Há ainda um quinto sentido da matéria como extensão espacial, correspondendo ao que Aristóteles denomina matéria inteligível, que é a mais próxima da forma. Esta corresponderia à maior abstração que se pode fazer da coisa mesma em relação aos outros sentidos materiais, sem, contudo, chegar a destacar-se exclusivamente a sua forma. Não é tanto o material do qual as coisas são feitas, mas o espaço, no qual se torna possível a sua existência. Em todos estes sentidos materiais podemos ainda verificar uma repartição fundamental no conceito aristotélico da matéria, a partir da sua consideração ora como material que compõe as coisas (substrato, matéria primeira, indeterminada, incognoscível e sem forma, mas que não tem existência além das coisas que compõe passivamente), ora como potência operativa (apetência a produzir, ativa no sentido daquilo que determina o ato, uma vez livre dos obstáculos). Dessa maneira, toda coisa existente é produto da união da forma com, pelo menos, a matéria local, a qual é logicamente independente das outras, podendo existir separadamente destas, como no caso das esferas celestes, mais próximas da divindade do que as coisas terrenas. Somente a matéria inteligível como extensão espacial é, como vimos, uma espécie ainda mais atenuada da matéria e podemos considerá-la a partir do seguinte exemplo: abstraindo das coisas terrenas e celestes tanto as qualidades quanto a capacidade da rotação, o que delas derivaria seriam as relações matemáticas. Considerando-as como objetos matemáticos e ainda abstraindo destes todas as características materiais, não se chegaria diretamente à forma, mas pelo fato de estarem incorporados à extensão, é que uma reta ou um plano ou um sólido particulares são como tal, sem reduzir-se somente à sua forma. O movimento do devir está assim como relação da potência material em ato pela qual se constituem os sujeitos como substâncias, hierarquicamente sobreposto a uma organização do mundo que parte da matéria, existindo unicamente em união com um dos contrários fundamentais, calor e frio, e com um dos outros contrários fundamentais, sequidão e fluidez. Os corpos mais simples correspondem aos quatro elementos (terra, água, ar, fogo), os quais formam primeiro os minerais e as partes menos organizadas das plantas e dos animais, os tecidos. Em seguida, são compostos, a partir dos tecidos, as partes mais complexas dos animais e plantas, os órgãos, e estes formam o corpo ou organismo. No homem, o mais altamente organizado dos animais, aparece uma forma a mais, que é a razão a qual não corresponde a nenhum princípio de estrutura ou órgão do corpo, podendo mesmo sobreviver

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ao corpo. No homem há uma razão passiva, que se identifica com o pensamento comum,

ao corpo. No homem há uma razão passiva, que se identifica com o pensamento comum, mas a razão que nele é dada como eterna é a razão ativa, impassível e exterior como puramente em ato. Acima do homem encontram-se as inteligências que regem as esferas planetárias, as quais, como vimos, são compostas da forma em união apenas com a matéria local. Para Aristóteles as esferas constituem-se a partir da mais alta, a que contém as estrelas que giram em volta da terra, em seguida aparecendo aquelas que correspondem aos planetas, descendo progressivamente até a esfera lunar, aquém da qual se estabelece o nosso mundo, formado por espécies e indivíduos e que, devido a isto, é chamado sublunar. Tais esferas movem-se umas às outras, sendo o movimento de cada uma delas provocado pelo toque da esfera que lhe é superior, e assim, temos, no ápice do sistema, um motor que, ele mesmo imóvel, é a origem ou princípio do movimento, o qual, por uma atração irresistível ou amor, provoca o movimento da esfera que lhe é mais próxima, a do céu, cujo movimento é perfeito, circular. Ato puro, Deus é o motor imóvel, em relação ao qual tudo o mais é movido, localizando-se na periferia extrema do sistema, o qual tem no centro a terra. O motor imóvel é inteligência pura, não tem grandeza como extensão espacial, sendo causa final em um universo considerado teleologicamente, isto é, sendo todo regido a partir da tendência a um objetivo. Notamos assim a continuidade característica do universo Aristotélico, expressa já na maneira pela qual as esferas imprimem o movimento umas às outras, determinando reciprocamente seus movimentos. Esta característica reflete-se também na coordenação existente entre os ramos do conhecimento. É dessa maneira que toda a ordenação do universo e suas partes configura- se como continuidade entre o domínio dos seres móveis e corpóreos, objeto da física, dos seres corpóreos eternos e do ser supremo, objeto da teologia, e supõe a explanação do fundamento substancial como natureza própria de todos os seres, objeto da metafisica como tal, definida como “ciência do ser enquanto ser”. A esta ciência fundamental Aristóteles não denominou expressamente como metafísica, limitando-se a defini-la constituindo o seu objeto, o “ser enquanto ser”, fundamento comum a todas as ciências, isto é, o objeto ao qual todas se referem. A expressão “Metafísica” é normalmente atribuída a Andrônico de Rodes que, no século 1 a.C., editou a coleção dos escritos de Aristóteles. Ao ordenar os livros, Andrônico teria estabelecido o grupo de escritos que se refere à “ciência do Ser enquanto Ser”, logo após os escritos da Física, e assim se derivaria o nome dos escritos que apareciam “depois da

se derivaria o nome dos escritos que apareciam “depois da A formacao da filosofia 3 -

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física”, que é o mesmo que “metafísica”. Coincidentemente ou não, o nome que se referia

física”, que é o mesmo que “metafísica”. Coincidentemente ou não, o nome que se referia à ordem dos escritos retrata bem a natureza do objeto da ciência em questão, a qual trata justamente da realidade última, subsequente ou superior àquela da natureza física. Assim, vemos também que, como o objeto da metafisica se refere aos princípios dos quais dependem todas as ciências, ela implica em uma espécie de enciclopédia das ciências, determinando a cada uma os seus objetos e princípios, seu lugar na hierarquia do saber e as relações de coordenação entre elas.

LEITURA

“Aristóteles e o Liceu, principalmente III –VI”, in BRÉHIER, Emile. Histoire de la philosophie. I Antiquité et moyan age. 5 ed. Paris :

Quadrige/PUF, 1989, p. 151-230.

LEITURAS COMPLEMENTARES

PLATÃO. A República. Trad. Enrico Corvisieri. São Paulo: Nova Cultural, 2000. ARISTÓTELES. Órganon. Trad. Edson Bini. 2 ed. Bauru: Edipro,

2010.

Ética a Nicômaco.Trad. Edson Bini. 3 ed. Bauru: Edipro,

2009.

Metafísica.Trad. Leonel Vallandro. Porto Alegre, Globo,

1969.

EXERCÍCIOS

1) Escreva sobre o método maiêutico de Sócrates. 2) Como Platão responde à exigência socrática do conceito, enquanto validação do conhecimento? 3) Que relação Sócrates estabelece entre ética e razão? 4) Escreva sobre a teoria das ideias platônica, relacionando-a com sua conceituação da filosofia. 5) Escreva sobre a teoria aristotélica do conhecimento.

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  G ABARITO   1) Com este método, Sócrates interrogava os interlocutores, visando a que
  G ABARITO   1) Com este método, Sócrates interrogava os interlocutores, visando a que
 

GABARITO

 

1) Com este método, Sócrates interrogava os interlocutores, visando a que eles mesmos provassem já saber aquilo que se pretendia descobrir, ainda que, por si mesmos,não fossem capazes de apreender o seu saber como tal. Maiêutica significa em grego a arte da parteira, e, por analogia, Sócrates pensava estar atuando como parteiro do saber alheio. 2) Por meio da teoria das ideias, que, nos diálogos platônicos, é posta na boca de Sócrates, como de sua autoria, a qual implica a

 

assunção de que toda realidade é ideal e a ideia dos seres humanos

é