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FRANCÊS, CRIOULO E VODU: A RELAÇÃO ENTRE LÍNGUA E RELIGIÃO NO HAITI

Luiz Carlos Balga Rodrigues

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro como parte dos requisitos necessários à obtenção do Título de Doutor em Letras Neolatinas (Estudos Lingüísticos Neolatinos Língua Francesa)

Orientador: Professor Doutor Pierre François Georges Guisan

RIO DE JANEIRO

Junho de 2008

II

FOLHA DE APROVAÇÃO

FRANCÊS, CRIOULO E VODU: A RELAÇÃO ENTRE LÍNGUA E RELIGIÃO NO HAITI

Luiz Carlos Balga Rodrigues

Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Letras Neolatinas (Estudos Lingüísticos Neolatinos - Língua Francesa). Aprovada por:

Professor Doutor Pierre François Georges Guisan Orientador

Professora Doutora Monica Maria Guimarães Savedra PUC-RJ

Professor Doutor Xoán Carlos Lagares Diez UFF

Professora Doutora Maria Aurora Consuelo Alfaro Lagorio UFRJ

Professora Doutora Márcia Atálla Pietroluongo UFRJ

Professor Doutor Fernando Afonso de Almeida UFF (Suplente)

Professora Doutora Angela Maria da Silva Corrêa UFRJ (Suplente)

RIO DE JANEIRO Junho de 2008

III

A todos os haitianos analfabetos, monolíngües e voduístas, que sob o silêncio e o desdém do mundo, constroem sua História.

e

À memória de meu irmão Jorge Luiz Balga Rodrigues, que não pôde presenciar a defesa desta tese. Que cada palavra, cada parágrafo, cada página deste trabalho possam ser a singela expressão de todo meu amor e saudade.

IV

AGRADECIMENTOS

Gostaria de agradecer a todos aqueles que, de alguma forma, contribuíram para a realização deste trabalho, em especial a toda minha família e a Adriana pelo apoio e paciência que tiveram com minhas constantes ausências, mergulhado na redação desta tese. A meu professor e orientador, Pierre François Georges Guisan, pelo acompanhamento e revisão do presente estudo. A todos os meus professores do curso de Doutorado: Angela Maria da Silva Corrêa, Marcelo Jacques de Moraes, Márcia Atalla Pietroluongo, Maria Aurora Consuelo Alfaro Lagorio e Sonia Cristina Reis.

V

Dans un coin de notre cœur Gardons notre charmant créole Et sur nos lèvres sans rancœur Parlons la langue de Voltaire.”

(Trecho de uma canção tradicional ensinada nas escolas do Haiti até bem recentemente)

VI

SUMÁRIO

RESUMO

 

VII

RESUME

VIII

ABSTRACT

IX

INTRODUÇÃO

1

PARTE I ASPECTOS TEÓRICOS E CONCEITUAIS

1

A TEORIA DE BOURDIEU

12

2

ATITUDE LINGÜÍSTICA REPRESENTAÇÃO IMAGINÁRIO LINGÜÍSTICO

24

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LÍNGUA E NAÇÃO

45

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LÍNGUA E RELIGIÃO

56

 

PARTE II A DIGLOSSIA FRANCÊS CRIOULO

5

O HAITI E A DIGLOSSIA

66

6

OS ASPECTOS LEGAIS DA QUESTÃO

73

7

OS USOS ATUAIS DO CRIOULO E DO FRANCÊS

80

7.1

O Uso do crioulo na escola

84

8

HISTÓRICO DO CRIOULO HAITIANO

89

9

A ELABORAÇÃO DE UMA ORTOGRAFIA PARA O CRIOULO HAITIANO

100

9.1 Breve histórico das notações ortográficas

102

9.2 A Escolha de uma ortografia para o crioulo haitiano

109

9.3 É posssível e necessário escrever em crioulo ?

114

9.4 Do crioulo oral ao crioulo escrito: aspectos da transição

123

9.5 Escrita e léxico

127

10

O STATUS SOCIOLINGÜÍSTICO E ORTOGRÁFICO DO CRIOULO: A DUPLA ILUSÃO

131

 

PARTE III

O VODU

11

BREVE HISTÓRICO DO VODU

140

12

O VODU E A SOCIEDADE HAITIANA

169

CONCLUSÃO

 

186

BIBLIOGRAFIA

200

VII

RESUMO

RODRIGUES, Luiz Carlos Balga. Francês, crioulo e vodu: a relação entre língua e religião no Haiti. Orientador: Pierre François Georges Guisan. Rio de Janeiro:

UFRJ, 2008. Tese (Doutorado em Estudos Lingüísticos Neolatinos Língua Francesa).

A crescente valorização do crioulo haitiano e sua introdução em domínios antes reservados ao francês redefinem a diglossia no Haiti. Revela-se um novo crioulófono, consciente da importância do francês, mas que exige o reconhecimento de sua identidade crioula, lutando para remodelar o mercado lingüístico em que vive. Na construção desse novo mercado, o vodu exerceu uma importância fundamental: os terreiros (hounfors) constituíram-se no único meio social onde o predomínio do crioulo haitiano sempre foi maciço e incontestável. O reconhecimento do vodu como religião nacional em 2003 e a adoção de uma ortografia padronizada visando à criação de uma sociedade de tradição escrita revelam uma nova sociedade em que as práticas religiosas e as manifestações lingüísticas começam a se dissociar, devendo cada uma trilhar seu próprio caminho rumo à sobrevivência.

VIII

RESUME

RODRIGUES, Luiz Carlos Balga. Francês, crioulo e vodu: a relação entre língua e religião no Haiti. Orientador: Pierre François Georges Guisan. Rio de Janeiro:

UFRJ, 2008. Tese (Doutorado em Estudos Lingüísticos Neolatinos Língua Francesa).

La croissante mise en valeur du créole haïtien et son introduction dans des domaines auparavant réservés au français redéfinissent la diglossie à Haïti. On voit apparaître un nouveau créolophone, conscient de l‟importance du français tout en exigeant la reconnaissance de son identité créole, luttant pour reformuler le marché linguistique où il vit. Dans la construction de ce nouveau marché, le vaudou a joué un rôle fondamental: les temples (hounfors) étaient devenus le seul milieu social où la prédominance du créole haïtien a toujours été massive et incontestable. La reconnaissance du vaudou en tant que religion nationale en 2003 et l‟adoption d‟un système d‟orthographe standardisé – visant à la création d‟une société de tradition écrite révèlent une nouvelle société où les pratiques religieuses et les manifestations linguistiques tendent à se dégager les unes des autres pour que chacune puisse suivre son propre chemin vers la survie.

IX

ABSTRACT

RODRIGUES, Luiz Carlos Balga. Francês, crioulo e vodu: a relação entre língua e religião no Haiti. Orientador: Pierre François Georges Guisan. Rio de Janeiro:

UFRJ, 2008. Tese (Doutorado em Estudos Lingüísticos Neolatinos Língua Francesa).

The growing recognition of Haitian Creole and its introduction into domains before reserved to French redefine the diglossia in Haiti. There is the emergence of a new Haitian-Creole-speaking population, aware of the importance of French, but who demand the recognition of their creole identity, struggling to remodel the linguistic market in which they live. In the construction of this new market, Voodoo played a crucial role: the temples (hounfors) constituted the only social environment where the predominance of Haitian Creole was always solid and unquestionable. The recognition of Voodoo as a national religion in 2003 and the adoption of a standard orthographic system in order to create a literate tradition reveal a new society in which religious practices and linguistic expressions begin to dissociate, with each tracing its own path toward survival.

INTRODUÇÃO

A orientação mais difundida de análise estrutural da linguagem baseia-se nas idéias expressas por Ferdinand de Saussure, mais precisamente no conceito de “langue”, vista como “o aspecto social da linguagem” e que não existe senão em virtude de um tipo de contrato acordado entre os membros de uma comunidade. Na construção de seu modelo lingüístico Saussure preferiu considerar o código comunicativo como algo que existe e subsiste independentemente de seus utilizadores (sujeitos falantes) e de suas utilizações (“parole‖). Tal concepção parece não dar conta da língua como um fato social, uma vez que não considera suas condições sociais de produção, reprodução e utilização.

Entendemos como Pierre Bourdieu (1982) que a língua é um mercado no interior do qual as trocas lingüísticas são também relações de poder simbólico onde se atualizam as relações de força entre locutores ou seus grupos respectivos. Este mercado lingüístico funciona como um mundo social dotado de suas próprias leis e regras que são apropriadas pelos indivíduos e se tornam habitus, assegurando por essa razão a seus agentes os meios de atuar nesse mundo. Contudo, levando-se em conta as estruturas de produção e de reprodução do meio, percebe-se que os agentes não são dotados igualmente destas disposições que se evoluem em seu meio e se encontram em posições sociais diferenciadas, que são objeto das lutas de posição e de classe.

Esta espécie de guerra social se dá principalmente no plano simbólico e gera dois produtos: o poder simbólico e a violência simbólica. Destinados a assegurar a posição simbólica dos dominantes, eles se exercem em parte através dos discursos e das instituições oficiais para produzir um efeito de distinção em

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proveito de seus detentores. As relações sociais, entre elas as relações lingüísticas, são interações simbólicas, ou seja, relações de comunicação que implicam o conhecimento e o reconhecimento. Com efeito, todo ato de parole mobiliza de um lado o habitus lingüístico constituído pela capacidade de falar e pela capacidade social que permite utilizar adequadamente esta competência em uma determinada situação e, por outro lado, as estruturas de mercado lingüístico, que se impõem como um sistema de sanções e de censuras específicas.

Fundando a língua como um código comunicativo independente de seus utilizadores e de suas utilizações, Saussure ou mais precisamente, uma determinada interpretação do pensamento saussuriano contribuiu para a codificação, a generalização e o reconhecimento das categorias da língua oficial, criando assim uma “comunidade lingüística” dominante do ponto de vista simbólico. Mas é em sua ligação com a constituição do Estado que o “mercado lingüístico” unificado e dominado pela língua oficial aparece e estabelece a chamada “língua padrão” a partir da qual todas as práticas lingüísticas serão objetivamente medidas. De fato, um certo número de instituições, as gramáticas e os professores estão encarregados de impor e controlar a apropriação de uso da língua oficial.

É esta operação de medida dos diferentes dialetos (de classe, de região ou de etnia) ou de usos da língua que vai permitir unificar o mercado lingüístico e impor a língua oficial como a única legítima. Levado pelas instituições dotadas de força de imposição e de sanção (a escola, por exemplo), ela está na fonte da integração das línguas “ilegítimas” numa mesma comunidade lingüística e por isso mesmo da instauração de relações de dominação lingüística. Sem essas operações de codificação, as línguas são reduzidas à sua existência prática e oral, sob a forma do habitus lingüístico.

A necessidade de normalizar este habitus lingüístico aparece correlativamente ao nascimento do Estado Nacional em seu sentido moderno,

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enquanto grupo abstrato e fundado sobre o direito. O dicionário e as gramáticas 1 são o resultado exemplar deste trabalho de codificação e de normalização, cumulando pelo registro da totalidade dos recursos lingüísticos reunidos no decorrer do tempo e em particular de todas as utilizações possíveis do vocábulo, marcando assim um sinal de exclusão. Ele dá conta de uma língua padrão, de um código universal no sentido saussuriano, que funciona fora das situações sociais, e das posições e aptidões a produzir ou a decifrar locutores e receptores. Esta imagem corresponde à previsibilidade e ao cálculo burocráticos, que supõem funcionários e clientes universais, sem outra qualidade que não aquelas que lhes são asseguradas pela definição administrativa de seu Estado.

Toda força integrativa deste sistema lingüístico é conferida na França pelo sistema de ensino, no sentido durkheimiano de “instrumento de integração intelectual e moral”, onde a língua escrita, identificada como a língua correta, adquire força de lei e onde os usos orais ou incorretos são desclassificados.

Com efeito, a língua oficial não exerce sua dominação por um constrangimento conscientemente ressentido. Sua legitimidade é reconhecida através das leis e das sanções do mercado lingüístico e, em particular, pelo proveito que ela oferece aos detentores de um certo capital lingüístico. Assim, o esforço de correção dos dominados para alcançar a língua normatizada é fruto desta violência simbólica que pode levá-los muitas vezes à recusa em falar sua própria língua.

A constituição de um mercado lingüístico é concomitante da atribuição de um valor à prática lingüística, descartando tudo aquilo que se constitui na prática

1 A Gramática Castellana (1492) de Elio Antonio de Nebrija, é um bom exemplo disso. Foi a primeira gramática espanhola a ser registrada oficialmente. Nebrija foi o primeiro a normatizar o castelhano, a língua “padrão‖ do novo país. Com essa gramática, inicia-se a Historiografia da Lingua Espanhola. Além disso, a intenção desta gramática foi de servir como um depósito organizado de informações sobre a tradição filológica espanhola e registrar devidamente a língua espanhola dentro do contexto universal.

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“ilegítima”. Encontram-se assim desvalorizados usos como jargões, patois ou outra língua preconceituosamente considerada “vulgar” ou inculta (como as línguas crioulas), os usos populares da língua oficial. E não são as oposições lingüisticamente pertinentes que fundam este “sistema de oposições lingüísticas”. Estas oposições não podem então ser completamente apreendidas pelos lingüistas, e isto se dá porque, fundamentalmente, traduzem um “sistema de diferenças sociais”.

Duas formas de capital são necessárias para assegurar a produção das trocas lingüísticas, cuja particularidade é a de estar destinada a outros produtores. Com efeito, para produzir um discurso escrito digno de ser publicado, quer dizer, oficializado, não apenas é necessário dispor de um capital lingüístico mais ou menos legítimo, mas também de um capital de instrumentos de expressão que suponha a apropriação de recursos materializados nas bibliotecas: os livros. E em particular nos clássicos, nas gramáticas, nos dicionários.

Exemplo perfeito da situação teórica acima descrita parece ser a República do Haiti, cuja situação diglóssica embora atenuada, mas ainda existente já era citada por Charles Ferguson em 1959 quando este autor cunhou o termo “diglossia”, definindo-o como a relação estável entre duas variantes lingüísticas, uma dita “alta” e a outra “baixa”, e que se situam numa distribuição funcional de usos. A língua baixa é aprendida espontaneamente no lar, enquanto que a língua alta considerada própria para a transmissão da herança literária se transmite pelos canais de comunicação formais, a escola em particular. A língua alta constitui a norma e a língua baixa é vista como um desvio da norma ou, pelo menos, um objeto lingüístico com o qual a noção de norma é incompatível. Dentro dessa perspectiva, pode-se dizer que o Haiti é um país diglóssico, pois ao lado da língua vernácula (crioulo) existe uma outra língua aparentada a esta, mas cujo status social é mais elevado (o francês).

Segundo Louis-Jean Calvet (1987), todo estado de diglossia só começa a

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ser contestado quando se desencadeiam mudanças sociais tendentes a introduzir um certo grau de mobilidade social e que conduzem a uma redefinição das funções e dos status. A revalorização do crioulo língua baixa seria apenas um dos sintomas de uma grave situação social acompanhada necessariamente de conflitos lingüísticos. As funções e os domínios do emprego atribuídos às duas línguas são requestionados, pelo menos por certos segmentos da comunidade. É o que se percebe hoje no Haiti, uma vez que os domínios de uso dos dois idiomas já não são mais tão mutuamente exclusivos.

Durante muito tempo sustentou-se a tese de que o crioulo seria apenas um patois, um dialeto oriundo do francês, inapto a expressar conceitos abstratos, científicos e, por isso, indigno de reconhecimento, devendo se limitar ao domínio musical, às piadas ou às conversas informais. Esta percepção do crioulo como um patois embora em escala bem menor ainda se encontra em todos os níveis da sociedade. O senso comum acusa equivocadamente o crioulo de ser desprovido de uma estrutura gramatical. Além disso, reprova-se-lhe favorecer o isolamento de um país já por demais mal visto pela opinião pública internacional, como se fosse uma idéia estapafúrdia utilizar o crioulo numa América sobretudo hispanófona e anglófona.

Esta tendência, porém, se contrapõe cada vez mais a uma revalorização do crioulo no Haiti. Símbolo da especificidade nacional, o crioulo atinge domínios anteriormente reservados ao francês. É visto pelo que se pode notar nas declarações feitas por escritores haitianos e nos depoimentos recolhidos em foros de discussão na internet, por exemplo como uma expressão da alma haitiana, reconhecido como a língua materna verdadeira, motivo de orgulho”.

A Constituição haitiana de 1987 tornou co-oficiais o francês e o crioulo,

obrigando o Estado haitiano a publicar todos os documentos oficiais nessas duas línguas. No momento, as leis, os códigos, os formulários, as peças administrativas ainda são redigidos quase que exclusivamente em francês. A

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maioria dos funcionários tem um conhecimento limitado do francês e uma ignorância quase total da leitura e da escrita do crioulo que todos falam. Isto porque só depois deste diploma legal é que se começou a pôr em prática um esforço de padronização da escrita no Haiti. Escrita, aliás, que o Haiti já conhecia há muito tempo (p. 103). Faltava, contudo, uma padronização e sobretudo uma decisão política que, ao transformar o crioulo em língua oficial, estimulasse sua valorização identitária.

Pode-se afirmar que o crioulo tem hoje uma escrita em construção. No plano lexical, por escassez de dicionário, o investimento na língua é parcial. O escritor só pode recorrer ao uso quotidiano da língua e à memória. Na verdade só apareceram e continuam a aparecer no Haiti alguns poucos léxicos e um único dicionário monolíngüe e seus autores só repertoriaram um número muito restrito de vocábulos para um uso limitado. Os antigos vocábulos se perdem, enquanto aqueles recentes, continuam seu percurso, e desaparecem por falta de uma fixação na escrita ou de ter encontrado novos campos de aplicação. No plano sintático, o escritor deve explorar a todo momento as possibilidades intrínsecas do crioulo e verificar se os sintagmas que ele imagina não estão contaminados pelo francês língua escrita do Haiti em todos os níveis do saber.

É claro que o status lingüístico de seu idioma é uma noção abstrata para o locutor não escolarizado, mas é muito comum ouvi-lo dizer que o crioulo não é uma língua, uma vez que ele associa língua a grafia e que o idioma vernáculo é para ele um fato exclusivamente oral.

Esta supervalorização da escrita pelo senso comum leva a uma visão de supremacia das culturas com escrita ou até mesmo dos grupos que dominam a escrita dentro de uma sociedade estratificada. Separa as culturas “civilizadas” das ditas “primitivas”. Este aspecto deu origem a hipóteses muito fortes sobre a escrita, criando dela uma visão quase mítica, associando-a ao desenvolvimento, gerando preconceitos em relação à oralidade, fazendo reconhecer em todas as

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sociedades de base essencialmente oral, como a haitiana, as marcas do atraso e do subdesenvolvimento. Daí a necessidade ou, mais precisamente, o desejo apressado de se definir ortografia para línguas de sociedades de tradição oral situação há muito presente no Haiti. Argumenta-se inclusive que, com a desestruturação da vida social e a morte das gerações mais antigas, se deva buscar o registro e a documentação e não apenas o aprendizado oral como forma de perpetuação cultural, o que já manifesta, por si só, uma mudança na tradição. De qualquer forma, a busca de valorização do crioulo através da escrita, que se nota no Haiti, significa que um número crescente de crioulófonos não aceita mais a estrita diglossia herdada do regime colonial escravista e as imposições que restringem o uso do crioulo.

Apesar de já ser uma língua escrita há muito tempo (apenas a definição de uma ortografia padrão data de pouco tempo) o crioulo haitiano continua sendo considerado uma língua ágrafa. E é tratada como tal. Sua escrita não conta como escrita, não configura um “documento”, digamos assim. Os últimos dados oficiais só consideravam analfabetos aqueles que não sabiam escrever em francês, por exemplo.

Se pensarmos então na relação entre a oralidade e a escrita ou, mais precisamente, na introdução em massa da escrita na sociedade haitiana, devemos indagar quais as transformações sociais e até estruturais que esta passagem tem acarretado e, conseqüentemente, sua repercussão na atual situação de diglossia do país. Tudo indica que, em vez de se caminhar para um bilingüismo social, como teoricamente se pretende, estaria sendo acirrada a “guerra das línguas”, na expressão de Louis-Jean Calvet, ao se fomentar a formação de “diglossias encadeadas”, distanciando o crioulófono alfabetizado do crioulófono analfabeto, seja do campo, seja da cidade.

É nesse mercado lingüístico diglóssico, nesse embate entre a tradição oral e a tradição escrita, que vai se construindo o novo crioulófono haitiano,

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consciente de que sua língua não é mais um patois a ser evitado, mas um idioma como qualquer outro que precisa se fixar (daí a preocupação de que sejam editados mais dicionários e gramáticas o mais rápido possível) e construir seu status lingüístico, não apenas como língua oficial (que já o é), mas sobretudo através da incrementação de seu uso nos aparelhos de Estado, tão essenciais para a consolidação da “legitimidade lingüística” (escolas, universidades, documentos oficiais e até mesmo a criação de uma Academia de Letras, conforme previsão constitucional).

No processo de construção desse novo crioulófono entendemos que o vodu, a religião nacional de origem africana, teve uma importância fundamental pela sua especificidade, diríamos até, originalidade, em solo haitiano. Se compararmos a trajetória da religião vodu e da língua crioula no Haiti veremos serem inúmeros os pontos em que se tocam. O vodu e o crioulo formam o contexto onde todas as contradições da sociedade haitiana afloram.

Símbolo por excelência da cultura haitiana, religião de base exclusivamente oral, os terreiros de vodu (hounfors) se constituíram e ainda se constituem no único meio social onde o predomínio do crioulo haitiano é maciço

e incontestável. Perseguido durante alguns regimes ditatoriais, usado por outros

como forma de repressão, vitimado por todo tipo de preconceito, dentro e sobretudo fora do Haiti, o vodu resistiu como a expressão cultural e religiosa mais forte do país e como centro irradiador da língua “baixa”, “ilegítima”. Apenas em 2003, no governo de Jean-Bertrand Aristide, viu-se reconhecido legalmente como uma religião, com direito à proteção do Estado para os locais de culto e seus participantes.

No recrudescimento das questões políticas e sociais acirrou-se a “guerra

das línguas”, na expressão de Louis-Jean Calvet (1987). O francês já não é mais

a única língua oficial, o crioulo já começa a ocupar alguns espaços que lhe eram anteriormente negados. O vodu, paralelamente, já não é mais perseguido.

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Firmou-se e levou em seu esteio a língua na qual sempre se manifestou. Parece, porém, que ambas língua e religião já conseguem traçar seu caminho de forma independente.

Visando ao melhor desenvolvimento de nossa tese, optamos por abordar numa primeira parte não apenas a teoria de Pierre Bourdieu, mas também alguns conceitos fundamentais como imaginário lingüístico, identidade, atitude lingüística, representação, nação e as relações existentes entre língua e religião.

Na segunda parte do presente trabalho analisamos o caso concreto do Haiti. Estudamos a situação diglóssica em que este país se encontra desde a colonização, focalizando o momento atual, em que o abismo entre o francês e o crioulo já não é tão abissal. Momento, aliás, em que o reconhecimento do crioulo como língua oficial já completa duas décadas, gerando, juntamente com os esforços de padronização da escrita e alfabetização, uma valorização identitária.

Na última parte tratamos do vodu, observando sua trajetória na sociedade haitiana, as perseguições de que foi vítima até seu reconhecimento como religião nacional em 2003. Procuraremos mostrar como estes dois aspectos da sociedade haitiana crioulo e vodu traçaram seus caminhos de forma tão interligada e o quanto precisam se dissociar para garantir sua sobrevivência na nova sociedade que se anuncia.

Tendo em vista nossa linha de pesquisa e nossa proposta de estudar um aspecto sociocultural envolvendo duas línguas em contato, inserimos nosso trabalho no campo da sociolingüística de linha francesa, principalmente a desenvolvida por Louis-Jean Calvet e Marie-Christine Hazaël-Massieux. Como queremos observar o vínculo entre as línguas faladas no Haiti e suas comunidades, não podemos nos limitar à lingüística, nem deixar de lado diversos fatores extralingüísticos. Por esta razão abordamos também aspectos da história e da sociologia, pois a representação da língua e da identidade, bem como de todo

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o imaginário que a cerca, não puderam ficar de fora de nossas observações.

Esta pesquisa baseou-se na análise de textos legais, jornalísticos, entrevistas publicadas com crioulistas e escritores haitianos, declarações de haitianos em foros de discussões na internet sobre vodu, língua e cultura crioulas, representativos dos fenômenos lingüísticos e socioculturais a serem enfocados. Para isso aplicamos procedimentos de análise qualitativa que nos possibilitaram lançar mão de considerações inerentes à sociolingüística, à sociologia da linguagem e a outras ciências sociais.

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PARTE I

Aspectos Teóricos e Conceituais

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1. A TEORIA DE BOURDIEU

É indiscutível que a língua é parte integrante da vida social. Podemos dizer que grande parte de nossa vida consiste justamente na troca rotineira de expressões lingüísticas durante o fluxo quotidiano da interação social. As trocas lingüísticas expressam de muitas maneiras as relações de poder. Somos sensíveis às variações de sotaque, de entonação e de vocabulário que refletem as diferentes posições na hierarquia social.

Bourdieu em seus trabalhos Ce que parler veut dire e Langage et pouvoir symbolique descreve as trocas lingüísticas quotidianas como encontros que se dão entre os agentes portadores de recursos e de competências socialmente estruturadas. Assim, toda interação, por mais pessoal e insignificante que possa parecer, carrega traços da estrutura social que expressa e contribui para reproduzir. Este autor se opõe categoricamente a todas as formas de análise “semiótica” ou “semiológica” inspirada em Saussure por considerá-las puramente “internas”, ou seja, põem quase que exclusivamente a ênfase na constituição interna de um texto ou de um corpus em detrimento das condições sociohistóricas de sua produção e recepção. A língua é um fenômeno sociohistórico e nenhuma teoria lingüística pode prescindir dessa dimensão prática. As formas conjuntas de poder e de autoridade que atravessam implicitamente todas as situações de comunicação, são geralmente ignoradas pelos lingüistas, que consideram a troca lingüística como uma simples operação intelectual de codificação e decodificação de mensagens gramaticalmente bem formuladas.

Apesar das diferenças que separam as abordagens saussuriana e chomskyana, ambas obedecem, segundo Bourdieu, a um mesmo princípio: o de

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ver a língua como um objeto autônomo e homogêneo, suscetível de se curvar a uma análise meramente lingüística. Em Saussure, temos a distinção entre langue

e parole, a “langue” sendo um sistema de signos concebido como auto-

suficiente, e a “parole”, a atualização desse sistema pelos locutores particulares.

Chomsky, por sua vez, estabelece uma distinção um pouco similar entre a “competência”, que leva ao conhecimento da língua manifestada por um locutor- auditor ideal no seio de uma comunidade lingüística totalmente homogênea, e a “performance”, que designa o uso efetivo que é feito dela em situações concretas.

Bourdieu critica esse tipo de abordagem que leva o lingüista a crer na existência de uma língua ou de uma comunidade lingüística totalmente homogênea: trata-se da idealização de um conjunto particular de práticas lingüísticas que, na verdade, emergiram historicamente, e cuja aparição implica certas condições sociais. A essa idealização Bourdieu chamou, de modo um pouco provocador, “ilusão do comunismo lingüístico”. Tomando como modelo normativo de uso correto um conjunto particular de práticas lingüísticas, o lingüista produz a ilusão de uma linguagem comum, negligenciando as condições sociohistóricas que instituíram um conjunto particular de práticas como dominante e legítima. Através de um processo histórico complexo, envolvendo

às vezes conflitos maiores (em particular em contextos coloniais), uma língua ou

um conjunto de práticas lingüísticas particulares se impuseram como dominantes

e legítimos, eliminando ou submetendo dessa forma outras línguas ou dialetos. Essa língua dominante e legítima, essa língua “vitoriosa” é a mesma que os lingüistas consideram comumente como adquirida. Sua língua ou sua comunidade lingüística idealizada é um objeto pré-construído por uma série de condições sociohistóricas que lhe conferiram o status de língua legítima ou de língua “oficial” de uma comunidade particular”. Este processo pode ser examinado observando-se atentamente as diferentes evoluções em que línguas específicas se impuseram historicamente como dominantes em áreas geográficas particulares, freqüentemente em conjunção com a formação dos Estados Nacionais modernos.

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A política de unificação lingüística, elevando a língua oficial ao status de

língua nacional, isto é, de língua oficial do Estado-nação em plena emergência, terá desde então como efeito reforçar a posição daqueles cuja competência lingüística incluía o conhecimento da língua oficial, enquanto que os demais se sentirão constrangidos a fazer parte desta nova unidade política e lingüística onde sua competência lingüística tradicional será subordinada e depreciada. A normalização e a imposição subseqüentes da língua oficial, bem como sua

legitimação enquanto língua oficial do Estado-nação, não é apenas uma questão estritamente política: trata-se igualmente de um processo gradual que depende de todo um conjunto de outros fatores, como o desenvolvimento do sistema de ensino e a formação de um mercado de trabalho unificado. A elaboração de manuais de gramática, de dicionários e de um corpus de textos exemplificando os usos corretos, é apenas uma manifestação mais visível desse processo de normalização progressiva. De modo talvez mais decisivo, graças à instalação de um sistema educacional padronizado e independente das variações regionais, e com a unificação de um mercado de trabalho onde as posições administrativas dependem de um nível de instrução, a escola termina por se constituir no principal meio de acesso ao mercado de trabalho, em particular nas regiões fracamente industrializadas. Assim, pelo jogo combinado das diferentes instituições e dos diversos processos sociais, as populações que falam dialetos locais seriam levadas, segundo Bourdieu, a colaborar com a destruição de seus instrumentos de expressão.

O conceito maior empregado por Bourdieu ao desenvolver sua abordagem

é o de habitus, termo muito antigo, do qual se conhecem as origens aristotélicas,

mas do qual aquele autor faz um uso completamente distinto e específico. O habitus designa um conjunto de disposições que levam os agentes a agir e a reagir de uma certa maneira. As disposições engendram práticas, percepções, e comportamentos que são “regulares”, sem serem conscientemente coordenados e regidos por nenhuma “regra”. As disposições que constituem os habitus são inculcadas, estruturadas, duráveis. São adquiridas graças a um processo gradual

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de interiorização no seio do qual as experiências da primeira infância ocupam um lugar bastante determinante. Por isso, assiste-se a uma multiplicidade de processos de formação e de aprendizagem como, por exemplo, a aprendizagem de boas maneiras (fique quieto, não fale de boca cheia, etc.) através dos quais os indivíduos adquirem uma série de disposições que modelam seus corpos e seus comportamentos e se tornam uma espécie de segunda natureza. As disposições assim produzidas são por isso igualmente estruturadas, no sentido de que refletem inevitavelmente as condições sociais no seio das quais são adquiridas. Um indivíduo das classes populares por exemplo terá assim adquirido disposições muito diferentes daquelas de outro indivíduo educado em um meio burguês. As semelhanças e as diferenças que caracterizam as condições sociais dos indivíduos se refletirão nos habitus, os quais poderão parecer relativamente homogêneos entre indivíduos pertencentes a um mesmo meio social. Essas disposições estão enraizadas nos indivíduos de tal forma que perduram ao longo de toda sua existência, operando de uma maneira quase inconsciente e por isso mesmo dificilmente acessível a uma reflexão e a uma transformação conscientes.

O habitus fornece também aos indivíduos o sentido da ação e do

comportamento oportunos no curso de sua vida quotidiana. Ele “orienta” suas ações e suas inclinações sem por isso determiná-las estritamente. Ele lhes dá o

“senso do jogo”, o senso do que é ou não apropriado em certas circunstâncias, um “senso prático”.

Os indivíduos agem sempre em contextos e quadros sociais específicos.

As práticas e as percepções particulares deveriam desde então ser concebidas não

como o produto dos próprios habitus, mas como o produto da relação entre os habitus de um lado e do outro os contextos sociais específicos ou os “campos” no seio dos quais os indivíduos agem. Bourdieu emprega termos diferentes para designar os contextos sociais ou os campos de ação. Embora prefira o termo “campo”, os termos “mercado” e “jogo” também são empregados, sobretudo nas acepções metafóricas. Um “campo” ou um “mercado” pode ser encarado como

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um espaço estruturado de posições, dentro do qual estas mesmas posições ou suas interações são determinadas pela distribuição de diferentes espécies de recursos ou de “capital”. E para Bourdieu há diferentes espécies de capital: não apenas um “capital econômico” no sentido estrito (quer dizer, uma riqueza material sob a forma de dinheiro, de bens e de valores mobiliários, etc.), mas também um “capital cultural” (constituído de saberes, de competências e de outras aquisições culturais, cujas qualificações técnicas e educativas fornecem um exemplo), um “capital simbólico” (que leva à acumulação de prestígio e de honras), etc. Uma das principais propriedades do “campo” é a capacidade que ele permite a uma certa espécie de capital de ser convertida em outra certas qualificações educativas podem, por exemplo, se converter em empregos lucrativos.

Um “campo” é sempre um lugar de conflito entre indivíduos que procuram manter ou modificar a distribuição das formas de capital que lhe são específicas. Os indivíduos que participam dessas lutas terão objetivos diferentes alguns procurarão preservar o status quo e outros, modificá-lo e chances diferentes de ganhar ou de perder, que dependerão de sua posição dentro do espaço estruturado pelas diferentes posições.

É portanto possível que campos que não sejam necessariamente econômicos no sentido estrito do termo não sejam regidos por uma lógica estritamente econômica. Eles podem todavia obedecer a uma lógica econômica num sentido mais abrangente se são orientados em direção ao aumento de um certo tipo de capital (cultural ou simbólico, por exemplo) ou a maximização de um certo tipo de “lucro” (honra ou prestígio).

Os indivíduos estão predispostos, em virtude do habitus, a agir de uma certa maneira, a perseguir certos objetivos, a cultivar certos gostos, etc. Sendo oriundos de histórias particulares que perduram através dos habitus, suas ações não poderiam ser adequadamente analisadas como o resultado de um cálculo

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deliberado. As práticas devem ser encaradas como o produto de um encontro entre um habitus e um “campo”, mutuamente compatíveis ou conformes a um grau variável, de tal forma que um indivíduo possa não saber como agir, e as palavras lhe faltarem nas circunstâncias onde aparece uma falta de conformidade (por exemplo, quando um estudante originário de um meio popular se encontra em um estabelecimento escolar freqüentado pela elite).

Desenvolvendo sua abordagem da língua e das trocas lingüísticas, Bourdieu sustenta que os enunciados ou as expressões lingüísticas devem ser compreendidos como produto da relação entre um habitus lingüístico e um mercado lingüístico. O habitus lingüístico é um subconjunto das disposições constitutivas dos habitus: trata-se deste subconjunto adquirido no curso do processo de aprendizado da língua nos contextos particulares (família, escola, etc.). Estas disposições regem ao mesmo tempo as práticas lingüísticas próprias a um agente e a antecipação do valor que receberão os produtos lingüísticos em outros campos ou mercados no mercado de trabalho, por exemplo, ou nas instituições de ensino secundário ou superior. O fato de que grupos e classes diferentes tenham sotaques, entonações e maneiras de falar é uma manifestação, no contexto lingüístico, do caráter socialmente estruturado do habitus.

Os diferentes locutores de uma sociedade são com efeito providos de um “capital lingüístico” desigual e, por essa razão, não manifestam a mesma capacidade para produzir expressões que caem muito bem no seio de um mercado em particular. Além disso, a distribuição do capital lingüístico remete sempre de modo específico à distribuição de outras espécies de capital (capital econômico, cultural, etc.) que definem a posição de um indivíduo no espaço social. As diferenças de sotaque, de sintaxe ou de vocabulário constituem índices das posições sociais ocupadas pelos locutores e reflexos da quantidade de capital lingüístico (e outros capitais) de que dispõem. Quanto mais o capital lingüístico de um locutor for importante, mais este último se mostrará capaz de explorar a seu benefício o sistema de diferenças e de se assegurar assim de uma certa

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distinção. Pois são as formas de expressão mais desigualmente distribuídas que recebem o maior valor e asseguram o maior lucro, não apenas porque as condições da aquisição da capacidade de produzi-las são restritas, mas igualmente porque essas expressões são bastante raras no mercado onde elas aparecem.

Bourdieu nos dá um exemplo bem claro dessa dinâmica, ocorrido na cidade de Pau, na região de Béarn, sul da França, onde se fala um dialeto local, o bearnês. Em 1974, por ocasião da celebração do centenário do poeta bearnês Simin Paly, o prefeito pronunciou seu discurso em bearnês, provocando uma comoção profunda da população local, segundo um jornal da região. Como explicar o porquê dessa comoção? Tal reação pressupõe por parte da população o reconhecimento implícito de uma lei não escrita que impõe o francês como única língua aceitável em cerimônias oficiais. O prefeito de Pau lança mão de uma estratégia de condescendência, graças à qual, no próprio ato de negar simbolicamente a relação objetiva de poder entre as duas línguas que coexistem no mercado, ele tira proveito simbólico dessa relação. Se ele pode tirar proveito desta situação é porque todos sabem que ele dispõe, como prefeito, de todos os atributos que lhe garantem seu status na língua dominante. Em virtude de sua posição, ele pode negar a hierarquia sem a romper, transgredir a lei não escrita e a partir daí explorar a seu benefício a hierarquia no mesmo processo em que a reafirma (BOURDIEU, 1982: 33-4).

Situação semelhante à acima descrita ocorreu no Haiti. Durante um discurso nas Nações Unidas em 1991, o presidente Aristide foi o primeiro que deu uma dimensão mundial à sua língua materna, dirigindo-se em crioulo a seu povo, que muito o aplaudiu por isso. Este fato imprevisível contribuiu para o reforço e o reconhecimento internacional dessa língua. Em 1992, as Nações Unidas decretaram o dia 28 de outubro como Dia Internacional das Línguas Crioulas.

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Os indivíduos de classes sociais diferentes podem se relacionar nos diversos mercados lingüísticos de diferentes maneiras. Bourdieu estudou certas práticas lingüísticas características observadas entre os indivíduos oriundos de meios diferentes quando se encontram em situações formais ou oficiais (uma entrevista, um debate em sala de aula, uma cerimônia pública). Os indivíduos oriundos das classes superiores são dotados de um habitus lingüístico que lhes permite enfrentar com relativa destreza as solicitações que regem a maior parte das circunstâncias formais ou oficiais. Assiste-se a uma adequação ou a uma certa conformidade entre seus habitus lingüísticos e as exigências dos mercados oficiais. Expressam-se com distinção, na maior parte das circunstâncias públicas e se distinguem assim de todos aqueles que são dotados de um capital lingüístico mais “pobre”, ou seja, menos hábil.

Por outro lado, os indivíduos de um meio pequeno-burguês devem geralmente se esforçar para adaptar suas expressões lingüísticas às exigências dos mercados oficiais. Assim, seu discurso é freqüentemente acompanhado de manifestações de tensão, ansiedade e de uma tendência a retificar e a corrigir suas expressões de modo que coincidam com as normas dominantes. Esta hipercorreção do discurso pequeno burguês é a marca de uma classe cujos membros procuram com certa ansiedade, produzir expressões lingüísticas que levem a marca de um habitus diferente do seu. Entre os membros das classes inferiores, cujas condições de existência são menos propícias à aquisição de um habitus que coincida com os mercados oficiais, numerosas são as ocasiões em que um valor limitado é atribuído a seus produtos lingüísticos. Daí essa tendência observada entre as crianças dos meios populares a se excluir do sistema escolar ou o silêncio que pode assaltar alguns indivíduos das classes inferiores durante circunstâncias definidas como oficiais.

Assumindo certos aspectos da hierarquia estabelecida mesmo quando rejeitam abertamente a maneira de falar dominante, os indivíduos das classes populares traem o fato de repartirem, até certo ponto, um sistema de valores que

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lhes é desfavorável. A este fenômeno Bourdieu deu o nome de “poder simbólico” (ou, às vezes, de “violência simbólica”). Bourdieu emprega o termo “poder simbólico” para designar não tanto uma forma específica de poder, mas um aspecto das numerosas formas de poder que estão correntemente em jogo na vida social. No dia-a-dia, raramente o poder é exercido através do uso declarado da força física: ele se faz mais presente numa forma simbólica, investindo-se dessa forma em uma sorte de legitimidade que ele não teria de outra maneira. O poder simbólico é um poder “invisível”, “desconhecido” como tal e desde então “reconhecido” como legítimo. Os termos “reconhecimento‟ e “desconhecimento” desempenham aqui um papel importante: destacam o fato de que o exercício do poder através da troca simbólica se apóia sempre numa crença compartilhada. A eficácia do poder simbólico pressupõe estas formas de conhecimento e de crença através das quais os indivíduos são levados a participar, até certo ponto, de sua própria sujeição. Assim reconhecem ou admitem implicitamente a legitimidade do poder ou das relações hierárquicas de poder e se mostram inevitavelmente impotentes para compreender que a hierarquia é antes de tudo uma construção social arbitrária que serve aos interesses de certos grupos. Dessa forma, para compreender a natureza do poder simbólico, é essencial compreender que ele pressupõe um tipo de cumplicidade ativa da parte dos que lhe são submetidos. Os indivíduos dominados não constituem corpos passivos sobre os quais o poder simbólico se aplica, à maneira, por assim dizer, de um bisturi sobre um cadáver. O poder simbólico pressupõe muito mais, como condição de seu sucesso, que os indivíduos que lhe são submetidos creiam na legitimidade do poder e daqueles que o exercem.

A língua oficial está associada ao Estado. É no processo de construção do Estado que se criam as condições da constituição de um mercado lingüístico unificado e dominado pela língua oficial. Obrigatória nas ocasiões e nos espaços oficiais (escola, administração pública, instituições políticas, etc.), a língua do Estado francês, por exemplo, tornou-se a norma teórica a partir da qual todas as práticas lingüísticas são objetivamente mensuradas. Ninguém pode ignorar que a

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língua tem seu corpo de juristas, os gramáticos, e seus agentes de imposição e de controle, os professores, investidos do poder de submeter universalmente a exame e à sanção jurídica do título escolar o desempenho lingüístico dos sujeitos falantes.

Para que um modo de expressão entre outros (uma língua no caso do bilingüismo, um uso da língua no caso de uma sociedade dividida em classes) se imponha como única legítima, é necessário que o mercado lingüístico seja unificado e que os diferentes dialetos (de classe, de região ou de etnia) sejam praticamente submetidos à língua ou ao uso legítimo. A integração em uma mesma “comunidade lingüística” – que é um produto da dominação política incessantemente reproduzido por instituições capazes de impor o reconhecimento universal da língua dominante é a condição da instauração de relações de dominação lingüística.

No processo que conduz à elaboração, à legitimação e à imposição de uma língua oficial, o sistema escolar pode preencher uma função determinante:

Fabriquer les similitudes d’où resulte la communauté de conscience qui est le ciment de la nation.” 2

O sistema de ensino na França, que se intensificou ao longo do século XIX, contribui sem dúvida diretamente para a desvalorização das formas de expressão populares, rejeitadas ao estado de jargão ou de “charabia3 e para a imposição do reconhecimento da língua legítima. Mas é sem dúvida a relação dialética entre a Escola e o mercado de trabalho ou, mais precisamente, entre a unificação do mercado escolar (e lingüístico), ligado à instituição de títulos escolares dotados de um valor nacional, independente, ao menos oficialmente, das propriedades sociais ou regionais de seus usuários, e a unificação do mercado

2 DAVY, G. Elements de sociologie. Paris: Vrin, 1950, p.233 apud BOURDIEU, P. Ce que parler veut dire: l’économie des échanges linguistiques. Paris: Fayard, 1982, p. 32. “Fabricar as semelhanças de onde resulta a comunidade de consciência que é o cimento da nação.” (tradução minha)

3 Termo francês usado para designar língua ou estilo incompreensível ou grosseiramente incorreto.

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de trabalho (como entre outras coisas, o desenvolvimento da administração e do corpo dos funcionários) que desempenha o papel mais determinante na desvalorização dos dialetos e a instauração da nova hierarquia dos usos lingüísticos.

Dessa forma, as trocas lingüísticas, bem como os discursos sejam políticos, religiosos, científicos ou filosóficos não podem ser entendidos apenas do ponto de vista lingüístico. Só fazem sentido porque são produzidos em um mercado lingüístico que permite a seus produtores beneficiarem-se de um lucro simbólico, sendo esse lucro basicamente um lucro de distinção.

Elas são a expressão de uma verdadeira relação de força que traduz toda a estrutura social na qual essas trocas acontecem. Com efeito, o valor no mercado das produções simbólicas depende certamente da competência lingüística do emissor, mas também de sua competência legítima, quer dizer, de seu poder simbólico de imposição, de sua autoridade oriunda de sua posição no espaço social. Vale dizer que o mercado lingüístico, as lutas pelos lucros simbólicos que nele se produzem e que o produzem, traduzem e reproduzem os efeitos de dominação existentes no espaço social.

Os lucros da distinção obtidos nas trocas legítimas estão assim em estreita relação com o capital simbólico dos agentes produtores, sendo o mercado favorável aos detentores do maior capital, isto é, o mais próximo da língua legítima.

Este capital lingüístico e legítimo se adquire e se expressa no seio da família e do sistema escolar: os principais lugares da produção da competência legítima. Ele é produto do habitus lingüístico, adquirido a custo de reforços e de negações ao longo das situações práticas de comunicação e que organiza toda nossa percepção dos produtos lingüísticos, quer dizer, o senso do valor de nossas produções lingüísticas em função dos mercados.

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Além do mais, essas relações de dominação simbólica que se constituem em parte fora da consciência e do constrangimento contribuem para produzir nas representações e nos comportamentos dos dominados as condições da imposição da língua legítima pelos dominantes e suas estruturas de imposição.

Sendo assim, a lingüística, se tomada como ciência do discurso, não pode desejar como objeto o discurso em si e para si. Ela deve considerar por um lado as condições sociais de sua produção, e por outro lado, o mercado para o qual o discurso é produzido, isto é, a posição social ocupada por seu autor no campo em questão, e o lucro simbólico do qual ele poderá se beneficiar.

Seria muito pertinente pensar também sobre a perda de sentido do discurso político, assim como do discurso dos professores, ainda que estes estejam entre os mais fortes lugares da imposição simbólica da língua legítima (dominante). É possível que as lutas no campo lingüístico, principalmente através da língua da periferia, traduzam hoje uma resistência dos dominados, que não acreditam mais nas forças de imposição da instituição educativa. Tomaram consciência, vítimas da ausência de mobilidade social de que nenhum lucro simbólico de distinção será por eles adquirido e que sua submissão à língua legítima enriqueceria os agentes que a impunham. A análise de Bourdieu nos ensina que em todos os casos, esta oposição à língua padrão cria de fato seu próprio mercado, uma espécie de mercado negro lingüístico, que exclui os indivíduos que não manejam suas formas de expressão.

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2. ATITUDE LINGÜÍSTICA REPRESENTAÇÃO IMAGINÁRIO

LINGÜÍSTICO

Para melhor entendermos o porquê da preferência por uma determinada língua numa sociedade plurilíngüe, sua política lingüística ou até mesmo o ensino de idiomas, devemos observar as atitudes lingüísticas. Uma atitude favorável ou positiva pode fazer com que uma troca lingüística se cumpra mais rapidamente, que em certos contextos predomine o uso de uma língua em detrimento de outra, que o ensino-aprendizado de uma língua seja mais eficaz, que certas variantes lingüísticas se confine a contextos menos formais e outras predominem em estilos mais cuidados. Uma atitude desfavorável ou negativa pode levar uma determinada língua ao abandono e ao esquecimento, bem como impedir uma troca lingüística ou a difusão de uma variante.

A atitude lingüística é uma manifestação da atitude social dos indivíduos, caracterizada por centrar-se e referir-se especificamente tanto à língua como ao uso que dela se faz em sociedade. Ao falar “língua” incluímos qualquer tipo de variante lingüística: atitudes em relação a estilos diferentes, socioletos diferentes, dialetos diferentes ou línguas naturais diferentes. A atitude diante da língua e de seu uso torna-se ainda mais evidente quando se percebe que as línguas não são apenas portadoras de formas e atributos lingüísticos determinados, mas que também são capazes de transmitir significados ou conotações sociais, além de valores sentimentais. As normas e marcas culturais de um grupo se transmitem ou se enfatizam por meio da língua. É possível afirmar que as atitudes lingüísticas têm a ver com as próprias línguas e com a identidade dos grupos que as manejam. Conseqüentemente, é lógico pensar que, uma vez que exista uma relação entre língua e identidade, esta há de se manifestar nas atitudes dos indivíduos em relação a estas línguas e seus usuários.

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Compreendemos como identidade o sentimento de pertencer a uma tradição religiosa, a uma nacionalidade, a um grupo étnico ou lingüístico, etc. A identidade é aquilo que permite diferenciar um grupo de outro, uma etnia de outra, um povo de outro. Há várias maneiras de se definir uma identidade: de forma objetiva (caracterizando-a pelas instituições que a compõem e as pautas culturais que lhe dão personalidade), de forma subjetiva (antepondo o sentimento de comunidade compartilhado por todos os seus membros e a idéia de diferenciação a respeito dos demais) e até mesmo pela alteridade, já que muitas vezes é mais fácil se definir por aquilo que não se é. Dentro do conceito de identidade, definido de quaisquer maneiras, há um lugar para a língua, porque uma comunidade também se caracteriza pela variante ou pelas variantes lingüísticas usadas em seu interior e, além disso, porque a percepção do comunitário e do diferencial se faz especialmente evidente por meio dos usos lingüísticos.

As atitudes lingüísticas são atitudes psicossociais. Se as línguas têm significados ou conotações sociais, é natural que sejam apreciadas e avaliadas de acordo com o status ou as características sociais dos usuários. Por isso não é fácil delimitar onde começa a atitude em relação a uma variante lingüística e onde termina a atitude em relação ao grupo social ou ao usuário dessa variante. Embora as línguas sejam entidades objetivamente comparáveis, o que freqüentemente provoca diferenças de atitude é a posição dos grupos sociais ou etnolingüísticos.

O habitual é que sejam os grupos sociais mais prestigiados, mais poderosos socioeconomicamente, os que ditam as normas das atitudes lingüísticas das comunidades de fala. Por isso as atitudes costumam ser positivas em relação à língua, aos usos e às características dos falantes com maior prestígio e de mais alta posição social.

Conceitos fundamentais a serem tratados são também os de representação

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e de imaginário lingüístico. Representações correspondem a tudo aquilo que os locutores dizem ou pensam das línguas que falam (ou da maneira como falam) ou das que os outros falam (ou do modo como as falam).

Com relação ao imaginário lingüístico, Cécile Canut deu-lhe em 1995 a seguinte definição: “conjunto das normas avaliativas subjetivas que caracterizam as representações dos falantes sobre as línguas e as práticas lingüísticas, observáveis através dos discursos epilingüísticos. Ele engloba a relação pessoal que o falante estabelece com a língua” 4 [tradução minha]. Acredita-se então compreender que os discursos epilingüísticos sejam o significante do imaginário lingüístico, o que faria deste último uma parte (ou equivalente) das atitudes. Quanto às “normas avaliativas subjetivas”, trata-se daquelas que são tomadas pela “descrição das atitudes dos locutores e mais diretamente de seus discursos epilingüísticos”.

Anne-Marie Houdebine-Gravaud definiu imaginário lingüístico como sendo “a relação do sujeito com a língua a sua e a da comunidade que ele integra como sujeito falante-sujeito social ou na qual ele deseja ser integrado, pela qual ele deseja ser identificado por e na sua palavra; relação enunciável em termos de imagens, participando das representações sociais e subjetivas; dito de outra forma, de uma parte das ideologias (vertente social) e por outro lado imaginárias (vertente mais objetivo)” [tradução minha] (HOUDEBINE- GRAVAUD, 2002:10)

Dominique Lafontaine define atitude lingüística como “a maneira como os falantes avaliam línguas, variantes, variáveis lingüísticas ou, mais freqüentemente, locutores expressando-se em línguas ou variantes lingüísticas

4 CANUT, C. Dynamique et imaginaire linguistiques dans les sociétés à tradition orale: le cas du Mali. Thèse sous la direction d‟Anne-Marie Houdebine, Université de Paris III, p.708 e p. 41-42. apud CALVET,L.-J. Pour une écologie des langues du monde, Paris: Plon, 1999, p.155-6.

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particulares” 5 [tradução minha]. Na mesma obra, Nicole Gueunier, tratando de representações linguísticas sublinha que “há muito tempo a noção de representação lingüística se confunde com a de atitude”, distinguindo-as um pouco mais adiante, da seguinte maneira: “Se representação e atitudes lingüísticas têm em comum o traço epilingüístico que as diferencia das práticas lingüísticas e das análises metalingüísticas, elas se distinguem teoricamente pelo caráter menos ativo (menos orientado em direção a um comportamento), mais discursivo e mais figurativo das representações”. (CALVET, 1999: 75)

As representações são então constituídas pelo conjunto das imagens, das posições ideológicas, das crenças que têm os locutores a respeito das línguas em presença e das práticas lingüísticas, suas e dos outros. São em parte fundadas sobre uma auto-avaliação da prática do locutor, e se coloca então o problema de saber em que medida este conhece realmente o que fala; em outros termos, como ele se auto-avalia. A nominação de uma língua, o fato de lhe dar um nome é já uma tomada de posição, uma representação para o locutor como para o lingüista.

As noções de representação ou de imaginário lingüísticos designam o conjunto das imagens que os locutores associam às línguas que praticam, quer se trate de valor, de estética, de ideologia, de sentimento normativo ou, mais largamente, metalingüístico.

Não se pode esquecer o papel pragmático da língua na construção das crenças coletivas. A consciência do significado que os fatos sociais têm para os sujeitos falantes impõe-se particularmente quando se trata da noção de língua, realidade resultante de intervenções múltiplas onde se intrincam técnicas de fixação conjuntamente descritivas e prescritivas. Aliás, antes de ter estabelecido a estrutura abstrata dos signos que justifica que ele fala de um sistema, o lingüista é obrigado a tomar como dado referencial certas entidades tais como o francês ou o

5 LAFONTAINE, D. “Attitudes linguistiques” in MOREAU, Marie-Louise. Sociolinguistique, concepts de base. Mardaga, 1997, p.56-57 apud Calvet, L.-J. op. cit. p.157)

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inglês. Ele precisa então lidar com fenômenos geopolíticos considerados como um fator importante na definição da identidade coletiva e na formação do sentimento nacional. Entretanto, é raro que coincidam completamente Estado e língua. O plurilingüismo é uma situação banal mesmo na Europa e os Estados modernos vêem coexistir inúmeras línguas como na Índia, onde se contam pelo menos quinze línguas demograficamente muito significativas. Mesmo na França, o trabalho editado por G. Vermes e J. Boutet 6 sublinha a vitalidade das comunidades lingüísticas que falam outras línguas que não o francês.

Quando a distância lingüística entre duas variantes é fraca, somos levados

a nos perguntar sobre as operações através das quais elas foram constituídas em

línguas distintas ou, ao contrário, são consideradas como dois níveis do mesmo sistema. É fácil saber se um antilhano utiliza o crioulo ou o francês, se os juramentos de Estrasburgo estão em latim ou em romance ? Se um arabófono 7 que lê o Alcorão e fala no mercado um árabe dialetal é bilíngüe ? De modo radical, P. Wald 8 ou G. Manessy 9 consideram que um falar manifesta sua autonomia quando ele se torna o suporte de categorias percebidas pelos locutores.

Os historiadores das teorias da linguagem contribuíram para questionar o dogma atribuído a Saussure de uma massa falante, que não poderia agir voluntariamente sobre uma língua, e de um sistema lingüístico sempre pronto

que os locutores se limitariam a atualizar. A história dos eventos lingüísticos que são, por exemplo, a invenção dos primeiros dicionários monolíngües realça

a capacidade criativa dos lexicógrafos que não se reduzem ao papel de simples

descritores da estrutura da língua já que seus dicionários agem como modelo e

6 VERMES, G. e BOUTET, J. France pays multiple, Paris: L‟Harmattan,1987.

7 O Dicionário Houaiss grafa unicamente essa forma, ao passo que o Dicionário Aurélio só reconhece a forma “arabiófono”.

8 WALD, P. Catégories de locuteurs et catégories de langues dans l‟usage du français en Afrique. Langage et société, p. 52, jun. 1990.

9 MANESSY, G. Pratique du français en Afrique noire francophone. Langue française, p.104,1994.

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modificam o uso. De forma mais genérica, insistindo sobre o que Habermas chamou de agir humano, esta perspectiva resgata toda importância dos sujeitos falantes empíricos, certamente ancorados em uma época determinada e num determinado sistema de comunicação, mas que são capazes de inovações históricas e que intervêm sobre o curso das coisas. Para Saussure, as línguas têm suas regras próprias e conhecem evoluções que ultrapassam os limites da consciência individual. No novo modelo, a ação dos homens pode dirigi-las e melhorá-las. Surge daí o papel das gramáticas, das observações e outras descrições que “instrumentalizam” tecnicamente as línguas e lhes conferem uma identidade. S. Auroux 10 propôs o termo de “gramatização” para designar o processo intencional, consciente de construção de uma koinè escrita, mais tarde koinè falada para depois se instrumentalizar a língua sobre a base de duas tecnologias sempre situadas no cerne de nosso saber lingüístico: a gramática e o dicionário. Assim, as línguas aparecem em parte como um produto da relação reflexiva dos sujeitos falantes com seus usos lingüísticos. Exemplo dessa situação, como veremos mais adiante, deu-se no Haiti, onde a afirmação da língua crioula passou necessariamente pela urgência tão bem sentida e difundida por muitos escritores de se criarem dicionários e gramáticas que fixassem o léxico e as normas da língua haitiana.

O paradigma língua nação resulta então da fixação dos discursos pela escrita. A simples adoção de um sistema de caracteres pode entrar em jogo. Na Sérvia e na Croácia, repúblicas da ex-Iugoslávia, a diferença entre o alfabeto cirílico e o alfabeto latino simboliza uma fronteira entre duas formas muito próximas e sentidas desde então como diferentes, o servo e o croata, o que conforta a demanda de um Estado para cada uma destas línguas, providas de uma escrita própria. A religião, aliás, no caso dos Bálcãs, tem um papel fundamental. O alfabeto cirílico foi o adotado pelos ortodoxos e o alfabeto latino, adotado pelos muçulmanos.

10 AUROUX, S. Le Processus de grammatisation et ses enjeux: Histoire des idées linguistiques. Mardaga, t.2, 1993.

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A escrita é também uma poderosa ferramenta de unificação lingüística que resulta de um compromisso entre as tradições gráficas anteriores, a expressão das particularidades locais e a busca de uma estabilização limitando a variação. Na origem do francês pode ser visto o trabalho dos letrados que misturaram grafias latinas e traços dos diferentes falares galo-romanos constituindo assim uma língua escrita. Esta, largamente espalhada na zona d’oïl, incorporou calques, empréstimos, interferências, o que obriga a conceber a língua, desde a origem, como uma fabricação em parte artificial.

As línguas resultam assim, muitas vezes, de esforços de Estados unificadores e centralizadores. A França mais ainda que o resto da Europa considerou muito cedo que a língua manifesta o poderio do Estado. Além disso, a unidade da língua foi vista como necessária ao funcionamento administrativo. O decreto de Villers-Cotterêts que exige em 1539 o emprego jurídico da língua materna francesa, regulando até mesmo a comunicação jurídica entre sujeitos reunidos em torno da autoridade do rei, é apenas o resultado de uma tendência antiga da administração real. Por isso, é natural que a Academia Francesa mais tarde tenha conjugado a idéia da monarquia absoluta e a possibilidade de fixar a língua e de pô-la representada num dicionário.

Os franceses elaboraram então uma concepção política e jurídica de sua

relação com a língua. O francês do rei, necessário ao exercício do direito e juridicamente instituído pela Academia, é autodefinido. Não se funda sobre o povo, mas o precede de alguma forma. Tudo que a revolução fará é convidaros franceses a se reunir como nação em torno dessa língua de Estado.

A língua pode ser definida como um corpus e um sistema de

nomenclaturas, de terminologias, de campos de conhecimento, de saberes empíricos ou científicos, de sabedoria popular feita de ditados e de provérbios, de associações de idéias e de noções mais elaboradas, como de entonações e de harmonias vocais particulares.

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As funções da língua se situam em dois níveis: o do indivíduo falante e o da sociedade que criou tal língua e que é unida por ela. No plano individual, há antes de tudo a função comunicativa; depois as funções expressiva (emotiva), estética e lúdica, mas também essencial senão primordial está a função referencial: a da formação, suporte e organização do pensamento e do raciocínio, que permite a descrição informativa, como a argumentação polêmica, a reflexão e o questionamento, que são próprios ao homem pois, caso contrário, a língua em nada se diferenciaria do sistema de gritos dos animais.

Toda língua é também e, anteriormente ao indivíduo, a língua do grupo, de um dado grupo, que a transmite ao indivíduo formando seu pensamento. A partir da língua, pode-se então elaborar, acima dela e transcendendo-a, um sistema metalingüístico, visando a regular, a normatizar a expressão correta do grupo: a língua falando da língua, sobre a língua. E os membros do grupo, para identificar-se com ela farão da língua seu principal símbolo identitário: quem não conhece a língua está fora do grupo, quem a domina, pertence ao grupo, ou pelo menos faz um esforço considerável para aceder ao grupo. A língua não é apenas a ferramenta própria de cada membro da sociedade, mas sua posse significa pertencer ao grupo.

Por essa razão é que todas as situações diglóssicas são caracterizadas por uma dupla oposição: lingüística e social. As massas criam espontaneamente seu falar, mais ou menos misto, e o grupo dominante fica apegado à norma, geralmente antiga. Oposição transgredida pela necessidade de se comunicar: em geral a classe alta se torna bilíngüe para se dirigir a seus serviçais, mas somente uma pequena minoria oriunda das classes mais baixas tem acesso, através da instrução, à língua de seus superiores.

Através das gerações, a pressão do meio vai forçar escolhas que podem levar à eliminação gradual dos usos lingüísticos menos rentáveis e menos considerados. É difícil ser um perfeito bilíngüe, pois em uma sociedade

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diglóssica a língua superior já é valorizada, a língua minoritária estará, em contrapartida, no seio das minorias, autóctone ou imigrante, suficientemente desprestigiada, e seu uso desencorajado pelo meio exterior, para que ela enfim desapareça. Para que isso não aconteça é necessário que se ponha em prática uma política lingüística que leve à revalorização da língua minoritária, muitas vezes associada a situações sociais próprias de cada lugar, como aconteceu no Haiti.

As decisões tomadas em matéria de planejamento lingüístico têm por objetivo regular os problemas criados pela presença de mais de uma língua ou de mais de uma variante lingüística da mesma língua sobre o mesmo território. Mesmo se a definição que dá Uriel Weinreich 11 da expressão “línguas em contato” pareça privilegiar o aspecto individual da questão duas línguas são ditas em contato se elas são utilizadas em alternância pelas mesmas pessoas nem por isso deixa de ser o aspecto coletivo o que provoca a intervenção do Estado para regular as relações entre duas ou mais línguas. Em outras palavras, é a existência da concorrência lingüística e, mais precisamente, a tomada de consciência desta concorrência que leva à intervenção política.

A enorme insistência que sempre se deu aos dados demográficos pode

fazer perder de vista o fato de que, muito freqüentemente, a difusão de uma língua pode se fazer de modo muito desigual segundo a situação em que os locutores a utilizam. A mobilidade lingüística, para ser possível no sentido coletivo supõe a existência de fatores (sociais, econômicos, culturais e políticos) que favorecem uma língua em detrimento de outra.

O conceito “bilingüismo” se aplica “ao emprego concorrente de dois

idiomas por um mesmo indivíduo ou no interior de uma mesma comunidade” 12 O

11 WEINREICH, U. Languages in contact. New York: Publications of the Lingusitic Circle of New York,

1953.

12 MARTINET, A. “Bilinguisme et diglossie. Appel à une vision dynamique des faits”. La Linguistique. 18/1, p.5-16,1982.

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bilingüismo pode então ser encarado seja sob o ângulo individual, seja sob o ângulo social.

Preferimos a posição de Fishman 13 que propôs diferençar o aspecto individual, objeto da psicolingüística, utilizando o termo de “diglossia”, já empregado por Ferguson em um outro sentido, para designar o fato social cujo estudo diz respeito à sociolingüística. Fishman define a diglossia partindo de funções diferentes que duas línguas dividem na mesma sociedade. Mas como essas funções são dotadas de prestígio e que o domínio de uma variante lingüística pode a longo prazo influenciar o status social de um locutor ou de um grupo de locutores, preferiu-se com o tempo incluir no conceito de diglossia o aspecto conflitante das mudanças sociais, dinamizando um conceito que se achava muito estático. Dessa forma passou-se a falar em língua dominante e língua dominada, enquanto que Fishman só fala de língua alta e baixa sem mencionar as relações conflitantes entre as duas línguas. Atualmente é cada vez mais corrente chamar essas línguas de dominadas 14 , minoradas 15 , minoritárias 16 .

Há conflito lingüístico quando duas línguas claramente diferenciadas se enfrentam, uma como politicamente dominante (uso oficial, uso público) e outra como politicamente dominada. As formas de dominação vão desde a repressão pura e simples (exemplo do estado Espanhol franquista que proibia o uso de qualquer outra língua no território espanhol que não fosse o castelhano) até aquelas que são tolerantes no plano político e cuja força repressiva é essencialmente ideológica.

13 FISHMAN, J. “Bilingualism with and without diglossia; diglossia with and without bilingualism”. Journal of social issues 23/2, p. 29-38, 1967.

14 (KREMNITZ, G. “Du bilinguisme au conflit linguistique, cheminement de termes et de concepts”, Langages, 61, p. 63-74, 1981.

15 GUESPIN, L. et MARCELLESI, J.-B. “Pour la glottopolitique”, Langages 83, p. 5-34, 1986.

16 HAUGEN, E., McCLURE, J. D. et THOMSON, D. Minority languages today, Edinburgh: University Press, 1981.

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Numa situação de conflito lingüístico pode acontecer de haver um grupo de locutores que procura se identificar com o grupo dominante negando a própria existência do conflito. Esse grupo procura adquirir a língua dominante e os modelos de comportamento social e cultural que ela veicula abandonando seus próprios valores e sua identidade social.

A língua é muito mais do que um simples instrumento para a comunicação

de mensagens e isto se mostra especialmente evidente em comunidades plurilíngües onde vários grupos têm sua própria língua. O grupo pode se distinguir através de sua língua e é por meio dela que suas normas e valores culturais são transmitidos e formatados. Os sentimentos grupais são enfatizados mediante o uso da sua própria língua e os membros que não pertencem ao grupo são excluídos de suas transações internas.

O fato de que as línguas não são apenas instrumentos objetivos e

socialmente neutros que transmitem um significado, mas que estão relacionadas com as identidades dos grupos sociais ou étnicos, tem conseqüências para a avaliação social das línguas e para as atitudes que estas provocam. Se há uma relação intensa entre língua e identidade, esta relação deveria se manifestar nas atitudes dos indivíduos em relação a essas línguas e seus usuários.

A assunção subjacente é que em sociedade os grupos sociais (ou étnicos)

adotam determinadas atitudes em relação a outros grupos segundo suas diferentes posições sociais. Estas atitudes influem em atitudes em relação a instituições ou modelos culturais que caracterizam esses grupos, tais como a língua, e conduzem

a atitudes em relação aos membros individuais desses grupos.

Os membros dos grupos sem prestígio social ou de minorias lingüísticas

parecem ser perfeitamente conscientes do fato de que certas línguas, as línguas sem prestígio ou línguas minoritárias, não são úteis para conseguir mobilidade social ascendente. O espanhol nos Estados Unidos, o quéchua no Peru, o crioulo

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no Haiti não estão associadas à preparação acadêmica e ao sucesso econômico. O fato de os falantes de línguas minoritárias mostrarem em muitos aspectos uma atitude negativa em relação à sua própria língua não implica que não a tenham em grande consideração. A língua pode ser valorada por razões sociais, subjetivas ou afetivas, especialmente no caso de falantes das gerações jovens em contextos de imigração ou por pessoas que se sintam orgulhosas de sua cultura minoritária. Esta forma de lealdade lingüística reflete as estreitas relações existentes entre a língua e a identidade social dos grupos etnolingüísticos. Na realidade não existe necessariamente uma relação direta entre identidade e língua. Uma identidade étnica, cultural ou social diferenciada nem sempre vai unida a uma língua diferenciada, uma vez que existem grupos com distintas línguas que possuem identidades fortemente interrelacionadas. Além do mais, nem as línguas, nem as identidades são globalidades monolíticas, mas são claramente diferentes, heterogêneas e variáveis.

Em muitas comunidades não se fala apenas uma língua, mas várias. Nessas comunidades o plurilingüismo é a norma, não a exceção. O uso de duas ou mais línguas requer o emprego de uma série de normas concretas e a especialização funcional dessas línguas. Um bom exemplo dessa multiplicidade lingüística é a Ilha Maurício. Nesta república de cerca de um milhão e duzentos mil habitantes (dados de 2002), há mais de dez línguas com um número razoável de falantes. A maioria está associada a grupos étnicos concretos, com freqüência descendentes de imigrantes do sudeste asiático e, além de uma língua colonial, o francês (que praticamente divide o status com o inglês, língua oficial). No meio está o crioulo que, por um lado é a língua étnica de um grupo particular, chamado por Moorghen e Domingue de população geral, e por outro lado funciona como língua franca. 17 Nesta situação, para usar o exemplo dado por Appel 18 um empresário de ascendência étnica bojpuri pode empregar o inglês ao telefone

17 MOORGHEN, P. M.; DOMINGUE, N. Z. “Multilingualism in Mauritius”. International Journal of the Sociology of Language, 34, p.51-66, 1982 apud APPEL, R.; MUYSKEN, P. Bilingüismo y contacto de lenguas. Barcelona: Ariel Lingüística, 1996, p. 37.

18 APPEL, R.; MUYSKEN, P. op. cit. p. 37

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para tratar com uma grande companhia, francês para negociar com um funcionário do governo uma autorização para construção, brincar com seus colegas de trabalho em crioulo, depois ir para casa e falar hindi com sua esposa e ambos hindi e crioulo com seus filhos: crioulo ao brincar com eles, hindi para mandar que eles façam seus deveres.

Para melhor compreendermos a divisão das funções das línguas implicadas e o problema da escolha de uma delas podemos partir de uma série de perspectivas diferentes. As duas primeiras perspectivas, calcadas nos conceitos de âmbito e diglossia são chamadas de deterministas: a ênfase está muito mais numa série de normas sociais concretas do que no modo como os falantes constroem, interpretam e transformam ativamente a realidade social. Duas outras perspectivas tomam o indivíduo como ponto de partida. Vejamos:

1. Perspectivas deterministas:

O âmbito adota a organização social como base conceitual. Quando os falantes usam duas ou mais línguas, é óbvio que não usam as duas em todas as circunstâncias: em determinadas situações empregam uma língua e em outros momentos, a outra. Esta percepção geral foi analisada por Joshua Fishman em vários artigos, quando estudava os porto-riquenhos de Nova York 19 . O ponto de partida para Fishman foram as perguntas: quem fala que língua ? Com quem e quando ?

Há um tipo de resposta que obriga enumerar os distintos fatores implicados na escolha lingüística, tais como a pertença ao grupo, a situação e o tema. Evidentemente, ao poder usar a língua para expressar a própria identidade, a identidade imposta pela pertença ao grupo resulta ser um fator crucial na escolha lingüística. Um índio ocidental em Londres desejará marcar sua origem

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étnica de algum modo através da fala. Da mesma forma, a situação como a interação se produz também terá uma influência importante. Dois mexicanos podem falar inglês durante o trabalho nos Estados Unidos; porém, mais tarde, eles se encontrarão em um bar e empregarão o espanhol. Finalmente também o tema da conversação pode influenciar na escolha lingüística. Na maior parte das sociedades bilíngües há temas, como a situação da economia ou a taxa de desemprego, para os quais se prefere outra língua que não seja a mesma empregada para as piadas e as brincadeiras.

Elencar todas as situações geradoras de uma escolha lingüística seria uma tarefa hercúlea e muito exaustiva. Por essa razão Fishman concebeu a noção de âmbito como algo mais abstrato: um acúmulo de contextos ou situações características ao redor de um tema central que estrutura a percepção que o falante tem dessas situações. De tal forma que uma visita a uma repartição municipal ou uma entrevista com o médico compartilham traços que os fazem pertencer a um âmbito institucional que geralmente exige uma escolha lingüística concreta. Cabe ao sociolingüista que investiga as comunidades bilíngües ou plurilíngües determinar que âmbitos são relevantes e que podem variar de uma comunidade para outra. Nas sociedades caribenhas, por exemplo, a rua desempenha um papel muito diferente do da Alemanha ou da Grã-Bretanha urbanas: a divisão casa / rua é muito menos rígida no Caribe e a escolha que rege o comportamento lingüístico para o lar, serve também para a rua.

A noção de diglossia desenvolvida por Ferguson (1959) foi bastante elucidativa. Não apenas é possível enfocar o tema do comportamento bilíngüe do ponto de vista da situação. Também é importante centrar-se nas línguas implicadas. Sua definição de diglossia se referia a duas variantes de um mesmo sistema lingüístico faladas em uma comunidade de fala: uma variante formal, denominada alta e uma forma popular ou vernácula, chamada baixa. Cada variante tem suas próprias funções na comunidade de fala, funções que oscilam dos discursos políticos até as conversas informais com amigos. O estilo de fala

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formal tem também um prestígio muito mais elevado, associado com freqüência às funções religiosas e como herança literária e histórica. A variante alta está padronizada, inclusive internacionalmente, e é relativamente estável e se adquire na infância como primeira língua, senão mais tarde. Finalmente Ferguson defende equivocadamente que a variante alta costuma ser mais complexa gramaticalmente que a variante baixa: costuma possuir mais diferenças gramaticais obrigatoriamente marcadas, um sistema morfofonêmico mais complexo, menos flexões simétricas e menos marcas regulares de caso. Exemplo clássico de um sistema diglóssico é o mundo árabe, já que em todos os países árabes existem formais vernáculas locais do árabe oral junto ao tradicional e internacional árabe clássico, que se aproxima do árabe do Alcorão.

Existem entretanto muitos casos nos quais o conceito de diglossia se torna menos adequado para descrever situações bilíngües estáveis. No Paraguai, por exemplo, parece haver uma divisão clássica entre o espanhol e o guarani. Embora o guarani seja a língua de base indígena e o espanhol a língua colonial, muitos paraguaios, inclusive aqueles que não são de origem indígena são bilíngües. Dessa forma, no tocante às características lingüísticas, a situação é diferente daquela esboçada por Ferguson. Não apenas as duas línguas não estão relacionadas, como também dentro dos critérios esboçados por Ferguson o guarani poderia ser considerado muito mais complexo que o espanhol.

2. Perspectivas centradas no indivíduo:

Podemos também pensar a questão da escolha lingüística centrada no indivíduo. Fatores como a origem étnica do interlocutor, o estilo ou o tema da conversação determinam a língua finalmente eleita pelo falante.

A idéia principal dessas perspectivas é a de que a escolha lingüística não pode ser explicada apenas por fatores situacionais. Há aspectos da relação interpessoal que devem ser levados em conta. Este modelo que surgiu para

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explicar a mudança de registro dentro de uma mesma língua, enfatiza a relação entre os participantes. A origem da teoria de Giles 20 provém da investigação da psicologia social sobre a atração por semelhança que sustenta que um indivíduo pode conseguir um melhor desempenho reduzindo o número de diferenças entre

si e seu interlocutor. Os falantes se adaptarão automaticamente um a outro, tanto

em gestos e colocação do corpo quanto no tipo de fala. Isto pode ser aplicado em contextos bilíngües e um dos modos de interpretar a escolha de uma língua

concreta é através da identidade e da língua do outro falante.

O processo de adaptação tem sido denominado de acomodação. Na verdade, a acomodação pode funcionar de dois modos opostos. O primeiro modo é a convergência: o falante emprega a língua que o ouvinte conhece ou prefere. Por exemplo, um habitante bilíngüe de Bruxelas se dirige a alguém de Flandres em holandês, ainda que este saiba algo de francês além de holandês. A segunda

forma de acomodação é a divergência: o falante tenta criar uma distância entre si

e o ouvinte aumentando as diferenças no uso lingüístico. Pensemos em um

ocidental que fale com um funcionário tanzaniano. Quando o ocidental começa a falar em suaíle, esta forma de acomodação não gera a reação que o falante espera porque o funcionário pensará que o ocidental não o considera competente em inglês, o que poderia ser interpretado como um insulto. Exatamente a mesma situação pode acontecer no Haiti, se um estrangeiro se dirigir a um haitiano em crioulo. A acomodação, se produziria na seqüência seguinte: primeiro o ocidental empregaria o francês, assim o haitiano pode mostrar sua destreza nessa língua e depois o ocidental muda para o crioulo para expressar solidariedade.

Hoje em dia podemos notar em muitas regiões bilíngües ou plurilíngües do mundo uma tendência no sentido de que cada vez mais falantes adotem a língua majoritária ou de prestígio em âmbitos onde antes se utilizava a língua minoritária. Adotam a língua majoritária como veículo habitual de comunicação

20 GILES, H. et al. Towards a theory of interpersonal accommodation through language: Some Canadian data. Language in Society, 2, p.177-192, 1973 apud APPEL, R.; MUYSKEN, P. op. cit. p. 45.

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porque quase sempre esperam que falar essa nova língua possa lhes proporcionar melhores oportunidades de mobilidade social ascendente e de sucesso econômico. É preciso apresentar-se como membro da maioria nacional para adquirir uma posição (empregos, postos de responsabilidade, possibilidades educativas. Nesses casos, a língua minoritária corre o risco de se tornar obsoleta. Este não é, porém, o caso do Haiti, onde o crioulo vem ganhando terreno, pois embora seja a língua de menos prestígio, é a língua majoritária do ponto de vista demográfico: todos falam crioulo, mas só 10% da população é capaz de falar e compreender francês.

Quando uma comunidade deixa de falar uma língua minoritária, a língua nem sempre tende a se extinguir. Há casos de substituição da língua majoritária através de um uso mais extenso da língua minoritária. Muitas vezes, depois de um período de substituição da língua minoritária pela majoritária, a tendência costuma ser a de inverter o processo, porque parte da população se conscientiza de que a língua minoritária está desaparecendo e tentam promover o seu uso. Estes defensores da língua minoritária costumam ser membros jovens e ativos de organizações políticas e culturais que defendem os interesses culturais, econômicos e sociais do grupo minoritário.

Quando uma língua vê reduzida suas funções, e isso ocorre nos casos de substituição pela língua majoritária, é habitual que os falantes acabem por se tornar menos competentes nela, quer dizer, produz-se uma perda lingüística. A substituição lingüística unida à perda lingüística culminará muitas vezes numa extinção lingüística: não necessariamente da própria língua, mas do uso daquela língua naquele contexto geográfico.

Para compreendermos melhor os fatores que influenciam a manutenção lingüística, podemos adotar o conceito de vitalidade etnolingüística, criado por Giles. Para este autor, a “vitalidade de um grupo etnolingüístico é o que o torna suscetível de se comportar como uma entidade coletiva diferenciada e ativa em

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situações intergrupais. Daí se deduz que as minorias etnolingüísticas que têm uma vitalidade de grupo muito escassa, ou que carecem completamente dela, deixarão finalmente de existir como grupos diferenciados. Por outro lado, quanto mais vitalidade tenha um grupo lingüístico, mais fácil será que sobreviva e desfrute de boa saúde como entidade coletiva em um contexto intergrupal” 21 [tradução minha]. No tocante à língua minoritária, isto implica que uma vitalidade alta a conduzirá à sua manutenção (ou inclusive a substituição por um uso mais estendido) e uma vitalidade baixa acabará em substituição pela língua majoritária ou, em alguns casos, por outra língua de maior prestígio.

A primeira categoria de fatores se refere ao status. O status econômico é um fator relevante em quase todos os estudos sobre manutenção e substituição lingüística. Nos lugares onde os falantes da língua minoritária possuem um status econômico relativamente baixo, há uma forte tendência a substituir sua língua pela língua majoritária. Por exemplo, a maior parte dos falantes de espanhol dos Estados Unidos pertence a setores de nível social baixo e associam falar inglês ao sucesso acadêmico e ao progresso econômico. O espanhol ostenta o estigma de ser a língua dos pobres e os pais, que geralmente possuem um domínio muito pobre do inglês, procuram recomendar a seus filhos que falem inglês, porque já interiorizaram as atitudes sociais em relação ao espanhol. Os trabalhadores imigrantes da Europa Ocidental também crêem que a causa de seu baixo status econômico se dá, principalmente, pelo fato de que falam uma língua minoritária, por exemplo, o turco, o servo-croata ou o romeno. Os imigrantes que desejam prosperar socialmente concedem uma grande importância ao fato de falar a língua majoritária. Isto afetará negativamente o uso de sua própria língua.

As trocas econômicas, a modernização, a industrialização e a urbanização são fatores relevantes na descrição da manutenção e da substituição lingüística. Em períodos de modernização as línguas minoritárias costumam sofrer um duplo

21 GILES, H. et al. Towards a theory of language in ethnic group relations, Londres: Academic Press, 1977, p. 308 apud APPEL, R.; MUYSKEN, P. op. cit. p. 52.

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estigma: seus falantes são vistos como pessoas pobres, tradicionais e antiquadas que não são capazes de suportar a realidade da vida econômica moderna.

O status social está muito ligado ao status econômico e possui,

provavelmente, a mesma importância com respeito à manutenção lingüística. O status social de um grupo, que nesse caso se refere à auto-estima do grupo, depende de seu status econômico. Os falantes de quéchua no Peru, Equador e Bolívia costumam considerar-se de baixo nível social e tendem a substituir sua língua pelo espanhol, que tem a conotação de status social alto.

O status sociohistórico provém da história etnolingüística do grupo.

Muitos grupos podem fazer remissão a períodos em que tiveram que defender sua identidade étnica ou sua independência. Estas circunstâncias históricas podem se converter em símbolos mobilizadores que inspirem os indivíduos a lutar por seus interesses comuns como membros de um grupo etnolingüístico, assim como fizeram seus antepassados. Tupac Amaru, o rebelde peruano do século XVIII, contrário ao regime colonial espanhol, consolidou o quéchua como símbolo do glorioso passado inca junto a seus seguidores.

O status lingüístico pode ser uma variável importante em comunidades

bilíngües ou plurilíngües. Por exemplo, o francês, o russo, o inglês e o espanhol

têm um elevado status como línguas de comunicação internacional. Devemos, porém, distinguir o status dentro de uma comunidade do status fora dessa comunidade. O francês tem um status elevado fora do Canadá, mas no Canadá o inglês é mais respeitado. Também o árabe tem um status elevado no mundo árabe, por ser a língua do Alcorão. Contudo, na Bélgica, França ou Holanda, por exemplo, a maior parte da população não tem o árabe em grande estima.

A língua e o status social estão intimamente ligados no sentido de que o

segundo influi diretamente sobre o primeiro. A auto-avaliação do status lingüístico será baixa, sobretudo se o grupo minoritário fala um dialeto da língua

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em questão. Este sentimento de inferioridade lingüística é particularmente forte nos casos de línguas minoritárias que já não têm um status muito alto no seu próprio local de origem. Por esse motivo, o crioulo haitiano terá um baixo status em Nova York, onde há uma grande quantidade de imigrantes e refugiados haitianos. Daí a enorme resistência que se observa entre os pais de origem haitiana para que seus filhos aprendam crioulo. Eles não vêem necessidade alguma nesse aprendizado.

O terceiro grupo de fatores é o dos fatores de apoio institucional que se

referem a como está representada a língua do grupo minoritário nas diferentes instituições da nação, região ou comunidade. A manutenção prevalece quando a língua minoritária é empregada nas instituições do governo, na igreja, nas

As línguas minoritárias costumam ser veículos de

expressão de grupos minoritários politicamente bem organizados. Os meios de

comunicação podem influir consideravelmente na substituição lingüística.

organizações culturais, etc

Quando a língua minoritária é também a lingua da religião, isto servirá de ímpeto para sua manutenção. Por exemplo, o alemão manteve uma posição bastante forte nos Estados Unidos durante muito tempo, se compararmos com outras línguas de imigrantes como o holandês ou o sueco, porque era a língua da igreja luterana. 22

Proporcionar serviços governamentais ou administrativos na língua minoritária pode estimular sua manutenção. Nas sociedades modernas cada indivíduo tem de interagir freqüentemente com representantes de autoridades locais ou nacionais. Se a forma de comunicação é sempre a língua majoritária, diminuirá a utilidade da língua minoritária.

A educação também é muito importante com relação à manutenção

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lingüística. Se a escola favorece a competência lingüística das crianças na língua minoritária e se aprendem a ler e a escrever nessa língua, contribuir-se-á para sua manutenção.

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3. LÍNGUA E NAÇÃO

Conceitos como identidade nacional, nação, Estado que há algumas décadas poderiam soar como discurso antigo, ultrapassado, anacrônico são constantemente retomados ainda que isto ocorra num mundo onde as fronteiras se tornam cada dia mais difusas, em que as clássicas noções de espaço e tempo estão sendo redefinidas graças aos grandes avanços da tecnologia, ao deslocamento permanente de enormes contingentes de pessoas de e para diversas regiões do planeta. É bem verdade que a própria noção de língua nacional, tal como tradicionalmente a concebemos, está sendo modificada à luz do surgimento das chamadas línguas francas de comunicação universal, como o inglês. No entanto, a nação continua a ser um símbolo de identidade profundamente arraigado. Sentimo-nos fazendo parte de uma comunidade, compartilhando características, formas de ser e de pensar. Identificamo-nos com certos símbolos nacionais, criamos uma determinada imagem acerca de nós, cidadãos de um país, de uma nação. Temos uma idéia do significado de ser “brasileiro”, “haitiano”, “francês” e com a sensação de estarmos partilhando os mesmos traços culturais, aderimos a uma determinada cultura como forma comum de pensar e de viver.

Esse sentimento, em nome do qual conseguimos amar ou odiar, matar ou morrer, parece fazer parte da natureza humana. Contudo, nada há de natural na identidade nacional, que se constrói historicamente. É formada e transformada no interior da representação. Cada nação tem formas particulares de contar a sua história, cada uma cria e recria os seus mitos de origem e seus símbolos, seus próprios laços de solidariedade e lealdade. E é no próprio processo de criação dessas identidades que se constrói uma cultura nacional que dá sentido a nossas ações e influencia nossa concepção acerca de nós mesmos.

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O conceito de nação tem sua origem no século XVIII na Europa Ocidental e posteriormente se tornou, como afirma Benedict Anderson (1993) “o valor mais universalmente legítimo na vida política do nosso tempo”. É a partir de sua difusão que o sentimento de nacionalidade generalizou-se.

O termo “nação”, tal como o concebemos atualmente, ou seja, o vínculo mais universal de comunhão entre seres humanos, tem sua afirmação moderna na Revolução Francesa. É quando a nação se vincula a um Estado particular e este à soberania popular e as nações associam-se a territórios. O Estado moderno francês, que se conformou na Revolução Francesa, constituía uma novidade, já que o mesmo se definia como um território que incluía todos os seus habitantes e estava separado de outros territórios por fronteiras e limites. Politicamente, o domínio sobre seus habitantes era exercido diretamente e se fazia cada vez mais necessária a participação dos cidadãos pelo voto e pela expressão das suas opiniões, já que o Estado precisava do seu consentimento ou de sua atuação. O sentimento de pertencer a uma nação determinada vai deslocando o poder que antigamente tinham as religiões e as comunidades territoriais menores enquanto principais laços de unidade e fidelidade humanas. Neste sentido, a língua tem a importante função de unificação e de expressão dos valores democráticos.

Benedict Anderson, em sua obra “Comunidades Imaginadas” define assim nação 23 :

“uma comunidade política imaginada como inerentemente limitada e soberana. É imaginada porque por menor que seja a nação, seus membros jamais conhecerão a maioria de seus compatriotas, não os verá nem ouvirá sequer falar deles, porém na mente de cada um vive a imagem de sua comunhão. A nação se imagina limitada porque nenhuma nação se imagina com as dimensões da humanidade. Imagina-se soberana porque as nações sonham em ser livres. A garantia e o emblema desta liberdade é o Estado soberano. Por último, imagina-

23 ANDERSON, B. Comunidades imaginadas: reflexiones sobre el origen y la difusión del nacionalismo. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 1993, p. 23.

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se como comunidade porque, independentemente da desigualdade e da exploração que com efeito possam prevalecer em cada caso, a nação se concebe sempre como um companheirismo profundo, horizontal”.

Segundo Anderson, a nação é então uma comunidade imaginada. Para este autor, a própria idéia de comunidade associada às nações é imaginada, já que, embora existindo uma impossibilidade material de que a maioria dos membros de uma nação se conheça, há em cada um deles a imagem da comunhão com seus compatriotas. Ou seja, a nação se imagina como comunidade porque, mesmo existindo em toda nação relações de exploração e desigualdade, seus membros são vistos como unidos por laços de fraternidade, idéia esta que constituiu o grande ideal da Revolução Francesa.

A “comunidade nação” se imagina soberana e limitada porque este

conceito nasce com o ideal de liberdade da Revolução Francesa, em oposição ao poder divino dos monarcas. A garantia dessa liberdade encontrava-se no Estado soberano. Por outro lado, as nações têm limites que as separam de outras nações.

O Estado deixa de ser um domínio dos príncipes para teoricamente pertencer ao

povo, definindo-se, portanto, num conjunto de cidadãos, já não de súditos. Ele é a pátria de todos os cidadãos. A nação só pode ser pensada a partir da perda progressiva de legitimidade das certezas que até então explicavam a organização

da sociedade como naturalmente governada por pessoas com poderes divinos e

da decadência das próprias religiões como elementos aglutinantes dos indivíduos.

O capitalismo e junto com ele o declínio das línguas sagradas e a difusão das

línguas vernáculas teve um papel central nas transformações que deram origem ao surgimento das nações e da consciência nacional.

Até o século XI, a Igreja ainda que dividida e múltipla era a única instituição mundial estável e utilizava-se, para sua atividade, do latim como única língua de comunicação. As antigas comunidades clássicas concebiam as suas línguas como sagradas, já que os textos sagrados que estavam escritos nessas

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línguas ligavam as comunidades a um poder de natureza metafísica. O prestígio

do latim era devido, então, a seu caráter sagrado. A característica do latim, que o

diferenciava de todas as outras línguas, era que, além de ser uma língua sagrada, era uma língua de bilíngües. Quase ninguém a tinha como a sua língua materna; relativamente poucos aprendiam a falar em latim: era uma língua de caráter sagrado e elitista. No entanto, mesmo na época do Império Romano, o latim se encontrava em situação diglóssica, existindo um latim culto (da oratória, da prosa

e da administração) e outro utilizado na vida cotidiana, falado com

particularidades locais. Mas a situação do latim como única língua de prestígio

começa a mudar a partir do século XVI.

A convergência de diversas variáveis fez com que o latim fosse perdendo gradualmente a sua posição de privilégio, face às línguas vernáculas do ocidente europeu. Porém, o que mais claramente contribuiu para esta decadência foi o movimento da Reforma religiosa. O protestantismo desempenhou um papel fundamental na consolidação de diversas línguas vernáculas, principalmente no Centro e no Norte da Europa. Lutero, com o propósito de chegar a um grupo cada vez mais amplo de seguidores, traduz e difunde a Bíblia em alemão. A repercussão da Reforma e com ela, o avanço da consolidação das línguas vernáculas não teriam sido alcançados sem a sua conjunção com a acelerada difusão do capitalismo impresso. A atividade editorial, na sua intensa busca de mercados cada vez mais amplos de leitores, tem sido uma das primeiras formas

de expansão da empresa capitalista (ANDERSON, 1993).

Assim, o restrito e elitista mercado inicial, composto pela pequena proporção de europeus alfabetizados em latim, paulatinamente e graças à própria lógica do capitalismo amplia-se com a edição de obras escritas em línguas vernáculas, sendo a Bíblia de Lutero a primeira a alcançar uma ampla difusão.

Por

outro

lado,

desde

o

Renascimento,

as

monarquias

começam

a

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generalizar o uso das línguas vernáculas nos escritos administrativos e certas variantes lingüísticas iniciam o caminho em direção à sua estabilização e consagração. É importante destacar que o mecanismo de ascensão das línguas vernáculas não se confunde com o processo de imposição consciente das línguas nacionais. Para que isso ocorra, será preciso esperar até meados do século XVIII e começos do XIX, processo que se consolida com a constituição dos Estados Nacionais europeus. O interessante é que a Reforma, assim como o desenvolvimento progressivo e não planificado das línguas vernáculas administrativas, contribuíram para o declínio do latim como única língua de prestígio e, paulatinamente, vão ocupando o lugar privilegiado do latim. Todos esses elementos, ao se combinarem com o capitalismo impresso que cria mercados cada vez mais amplos de leitores, tiveram uma influência decisiva na possibilidade de se imaginar a nação.

Mas o que levaria Anderson (1993) a considerar a fatalidade da diversidade lingüística humana como um dos elementos que influíram para originar as nações modernas ? Em primeiro lugar, a linguagem humana é inevitavelmente variável: não temos como fugir às variações (regionais, sociais, profissionais, etc.) que seus próprios falantes criam e recriam no uso cotidiano. Por outro lado, e em intima relação com isto, o capitalismo, através da imprensa, contribuiu para consolidar a legitimidade de certas línguas e variantes lingüísticas na letra impressa, ao mesmo tempo em que possibilitou a comunicação mais rápida e efetiva entre os consumidores do mercado editorial.

A generalização de documentos administrativos e a produção de obras literárias escritas em línguas vernáculas contribuíram para a consolidação e consagração de certas variantes lingüísticas. No decorrer da Idade Moderna, a relação entre língua e poder político se fortalece cada vez mais. As diversas línguas ou variantes de língua associadas a esse poder adquirem paulatinamente prestigio e esse prestígio torna-se fundamental quando o poder político começa a expandir-se a territórios nos quais se falam línguas ou variantes

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de línguas diferentes.

Ao longo do século XIX estreitaram-se as relações entre a autoridade central dos Estados modernos e os lugares mais distantes, graças às transformações nos transportes e nas comunicações. Como analisa Hobsbawn (1999), essas revoluções trouxeram dois grandes tipos de problemas para os Estados e suas classes dirigentes. O primeiro vinculava-se às questões de ordem técnico-administrativa relativas à criação de uma nova forma de governo que ligasse diretamente cada indivíduo ao governo estatal. Isto implicava na construção de uma imensa máquina administrativa que levantava a questão da língua ou línguas de comunicação dentro dos Estados. O segundo grande problema referia-se à propagação da identificação dos cidadãos ao Estado e a seu sistema dirigente.

Certos Estados, como a França, precisavam “inventar” tradições e símbolos nacionais e se utilizar da máquina administrativa (principalmente das escolas primárias) com o fim de difundir uma imagem de “nação” que possibilitasse o surgimento de sentimentos de adesão e lealdade a ela. Nesse sentido, essa identificação implicava uma homogeneização e padronização de seus habitantes, a qual foi possível, em parte, mediante a implementação das línguas nacionais. A questão da língua nacional podia ser tudo, menos um assunto pragmático e tranqüilo. A língua significava a alma da nação e o critério fundamental da nacionalidade.

Línguas nacionais são quase sempre construtos semi-artificiais e ocasionalmente, como no caso do hebraico moderno, virtualmente inventadas. São o oposto do que a mitologia nacionalista supõe, ou seja, fundações primordiais da cultura nacional e as matrizes na consciência nacional. São geralmente tentativas de se construir um idioma padronizado entre uma multiplicidade de idiomas falados, que são depois disso, considerados dialetos. O principal problema na construção dessa língua nacional geralmente é saber que

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dialeto escolher para ser a base da língua padronizada e homogeneizada. O problema subseqüente de padronizar a gramática e a ortografia e de adicionar novos elementos ao vocabulário são secundários. Muitas vezes essa escolha é arbitrária, mas quase sempre essa escolha é política e tem obviamente implicações políticas. Na verdade, a identificação mística de nacionalidade com um tipo de idéia platônica de língua existente por trás e acima de todas as suas variantes e versões imperfeitas é muito mais característico da construção ideológica de intelectuais nacionalistas do que dos verdadeiros usuários do idioma. É mais um conceito literário do que existencial.

Nesse sentido a língua não deve ser vista como um elemento diretamente ligado à formação do proto-nacionalismo, mas nem por isso pode ser considerado um elemento irrelevante. Entretanto, indiretamente, a língua tornou-se fundamental para a moderna definição de nacionalidade e, por essa razão, também importante para a percepção popular desse conceito. Onde quer que exista uma elite literária ou administrativa, ainda que seja pequeno o número de seus verdadeiros usuários, a língua pode se tornar um importante elemento de coesão proto-nacionalista por três razões que foram bem explicitadas por Benedict Anderson (1993).

Em primeiro lugar, a língua cria uma comunidade de falantes que, caso coincida ou possa vir a coincidir com uma zona territorial particular, pode ser uma espécie de modelo ou plano piloto para uma comunidade maior e ainda não existente, a “nação”. A essa altura os idiomas falados não serão irrelevantes para a futura nacionalidade. Línguas clássicas consideradas “mortas” ou línguas ritualísticas, entretanto prestigiadas, podem ser reabilitadas para se tornarem línguas nacionais. Contudo, uma vez que o dialeto que forma a base da língua nacional seja realmente falado, pouco importa que aqueles que o falem constituam a minoria, desde que seja uma minoria com suficiente peso político.

A segunda razão é que a língua comum, exatamente porque não se

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desenvolveu naturalmente, mas foi construída e principalmente quando se tornou impressa, adquiriu uma nova estabilidade que a fez parecer mais permanente e cada vez mais eterna do que realmente era.

Em terceiro lugar, a língua da elite cultural se torna a verdadeira língua dos Estados modernos através da educação pública e outros mecanismos administrativos.

O caso francês é, sem dúvida, o modelo mais representativo de expansão e codificação de uma língua ligada ao processo de unificação política. E é esse modelo que vai inspirar a maioria das nações européias na constituição dos Estados e na tentativa de unificação lingüística associada a esse processo.

No território francês, inicialmente e até o século XIV, falavam-se várias línguas regionais diferentes, plurilingüismo que convivia com as línguas de cultura, geralmente escritas. No período compreendido entre os séculos XIV e XVI, a variante lingüística que se foi elaborando em Paris, baseada na língua escrita, vai adquirindo legitimidade de língua oficial e substituindo os falares locais, paralelamente relegados à condição de dialetos.

A Academia Francesa (que data de 1635) tinha nesse contexto, como função principal, velar pela pureza da língua, tarefa que é realizada com o apoio do Estado, já que manter a correção idiomática era considerada uma de suas responsabilidades no intuito de atingir a desejada unidade lingüística no território francês.

Com a Revolução Francesa implementa-se a política de unificação lingüística e o francês de Paris é considerado a língua do progresso e da razão, a língua que melhor expressa os ideais da Revolução, enquanto as línguas e variantes regionais representam o passado obscuro e retrógrado da nação.

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A imposição da língua legítima contra os idiomas e os dialetos faz parte das estratégias políticas destinadas a eternizar as conquistas da Revolução pela produção do homem novo. Ao fazer da língua um método, a teoria de Condillac permite identificar a língua revolucionária com o pensamento revolucionário:

reformar a língua, expurgá-la dos usos ligados à antiga sociedade e impô-la assim purificada é o mesmo que impor um pensamento igualmente depurado e codificado. Não se trata, em suma, apenas de comunicar, mas de fazer reconhecer um novo discurso de autoridade, com seu novo vocabulário político, termos de estilo e referência, metáforas, eufemismos e a representação do mundo social por ele veiculada. Estando vinculado aos novos interesses dos grupos emergentes, esse discurso se revela indizível nos falares locais moldados por usos ligados aos interesses específicos dos grupos camponeses. (BOURDIEU, 1982: 34)

Para lograr estes objetivos, fazia-se necessária a difusão mais ou menos generalizada da língua revolucionária e esta função estava reservada, principalmente, ao sistema educacional, já que todo cidadão devia dominar a língua comum, universalizando-se a língua nacional através da educação obrigatória. Com a finalidade de expandir o bom uso da língua, surgem as gramáticas e dicionários escolares, baseados na língua escrita, modelo de correção lingüística e referência do uso oral.

Desde a época da Conquista e Colonização, começa na Europa Ocidental o interesse pelo estudo das línguas e se elaboram os primeiros dicionários que recopilam palavras de origem indígena a partir dos escritos dos viajantes. Porém, no fim do século XVIII, inicia-se o estudo cientifico comparado das línguas com

o trabalho metódico de gramáticos e filólogos de línguas vernáculas. A primeira gramática é publicada na Espanha por Elio Antonio de Nebrija casualmente em 1492, ano da chegada de Colombo à América. Estes profissionais da palavra

serão os detentores do saber legítimo sobre a língua unificada do Estado; eles têm

a autoridade de dizer como é essa língua e suas gramáticas simbolizam a unidade

lingüística e a identidade nacional através dela. O surgimento de gramáticas e

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dicionários (gramatização das línguas) é uma peça fundamental no processo de unidade lingüística associada à constituição dos Estados Nacionais.

Dessa forma, a língua nacional serve tanto como quadro de referência para

o uso da fala em geral tornando-se a norma codificada considerada medida de

correção quanto como símbolo de unidade e igualdade dos cidadãos de um Estado particular. A consolidação da unificação lingüística viu-se favorecida, também, pela expansão da alfabetização, do comércio e da indústria, pelo melhoramento nas comunicações e pelo crescimento das burocracias estatais. Isto contribuiu para que, em meados do século XIX, todas as dinastias européias estivessem usando alguma língua vernácula como sua língua de Estado, e em todas elas evidenciava-se uma tendência à identificação nacional.

É interessante destacar aqui que a cidadania podia ser conquistada pela adoção da língua unificada, nacional, oficial. Assim, a língua tornou-se um elemento essencial na construção da nacionalidade.

“[

um francês e como poderia sê-lo se a própria Revolução gastou tanto tempo provando que poucas pessoas na França realmente dela se utilizavam ? e sim a

Em certo sentido, adotar o francês era

uma das condições da plena cidadania francesa (e, portanto, da nacionalidade),

da mesma forma que adotar o inglês se tornou condição da cidadania americana. (HOBSBAWN, 1999: 34)

disposição de adotar a língua francesa [

na teoria, não era o uso nativo da língua francesa que fazia de uma pessoa

]

]

A partir da segunda metade do século XIX, as migrações de grandes

quantidades de pessoas dentro dos Estados e entre eles favoreceu o surgimento e

a consolidação de ideologias nacionalistas tendentes a acentuar as diferenças

entre os grupos. Tal como afirma Hobsbawn (1999), foi durante essa etapa que o

termo nacionalismo adquiriu força, baseado, principalmente, em critérios étnicos

e lingüísticos, e surgem diversas teorias científicas que explicam as diferenças entre as raças junto com movimentos que defendem a pureza racial e a

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purificação das línguas nacionais. Assim, o nacionalismo étnico e o nacionalismo lingüístico reforçavam-se mutuamente.

há uma evidente analogia entre a insistência dos racistas na pureza racial e

nos horrores da miscigenação e também a insistência de tantas formas de nacionalismo lingüístico a maioria, talvez sobre a necessidade de purificar a

língua nacional de elementos estrangeiros. [

a “nação” mais perto ainda foi a prática de usá-las como sinônimos possíveis,

generalizando, de modo igualmente inexato, o caráter "racial /nacional", como era então a moda”. (HOBSBAWN, 1999: 132)

Contudo, o que trouxe a “raça” e

[

]

]

O momento de maior apogeu do “princípio de nacionalidade” ocorreu, na Europa, com o fim da Primeira Guerra Mundial. O objetivo de construir um continente constituído por Estados nacionais homogêneos, tanto étnica quanto lingüisticamente, teve como conseqüência a expulsão ou aniquilamento de minorias. O surgimento e a expansão da moderna comunicação de massa com a televisão e o rádio contribuíram para a afirmação das identificações nacionais. Através dela era possível transmitir e padronizar a ideologia nacionalista, ao mesmo tempo em que foi utilizada como um elemento importante de propaganda dos interesses nacionais. No entanto, no período entre guerras, o esporte se tornou um meio fundamental para a identificação nacional ao pregoar e estimular fortes sentimentos nacionalistas. Cada Estado-nação estaria, assim, representado pelo esporte para competir contra outros Estados em lutas de auto-afirmação nacional. (HOBSBAWN, 1999)

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4. LÍNGUA E RELIGIÃO

Com base no pensamento de Manuel Maria Carrilho 24 , podemos entender a linguagem mediante a lógica de um jogo no qual todos os participantes devem estar, de fato, aptos a “jogar”. Sem o conhecimento, a compreensão e o domínio das regras em causa, não se é, efetivamente, parceiro no jogo. Qualquer questão relativa ao jogo centra-se no campo da definição das regras, das lógicas, das racionalidades que possibilitam ser “parceiro”, ou seja, entrar em jogo.

“A linguagem, perspectivada pela metáfora do jogo, aparece como um tipo de actividade indissociável da vida de quem a usa, como um instrumento que se utiliza conforme regras determinadas e fins que se procuram atingir, como comportando sempre elementos extremamente diversos”. 25

A linguagem é assim um campo de racionalidade, um jogo autônomo capaz de criar as regras de cada momento, de cada jogada, de cada situação: a condição base é a sua percepção por todas as partes que queiram “jogar”. A linguagem só existe num quadro de indivíduos em que ela apresente uma funcionalidade clara: a comunicação enquanto uma lógica que possibilita o discurso. As predefinições, a semântica assumida, o léxico aceito, são os elementos desta lógica, as regras do jogo da linguagem. Tal como num jogo, o pleno domínio das regras possibilita a participação nos esquemas de encontro entre participantes, nas situações, na comunicação.

Sendo assim, a linguagem, ou melhor, a possibilidade de linguagem, nasce

24 CARRILHO, M. M. Itinerários de Racionalidade. Porto: Asa, 1994.

25 CARRILHO, M. M. op. cit. apud PINTO, P. M. Linguagem e religião: um jogo de racionalidade, de identidade, de fundamentos. Revista de Estudos da Religião. Lisboa, n. 4, p. 81-98, 2002, p. 82.

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e está baseada numa lógica de individualização que possibilita o conhecimento: à comunicação subjaz um ato, uma atitude de cognição. A individualização é uma atividade cognitiva que usa como matéria prima um corpus já criado de categorias. As ferramentas do jogo estão exatamente no campo do cruzamento entre a inevitabilidade da atitude cognoscível e o seu resultado mediante o uso de categorias já previamente estabelecidas; isto é, que já pré-existiam ao processo de conhecimento: a linguagem está, assim, entre a pura cognição e o simples reconhecimento

A imagem que resulta desse tratamento mental e cognoscível, usada no discurso, não é mais que a efetivação de um meio para a comunicação, nunca a transmissão da própria realidade: tudo o que é percebido e comunicado, na medida em que é resultante de uma cognição, é referente a uma realidade, mas nunca a realidade em si, embora já nos tenhamos habituado erradamente a sempre associar verdade a realidade, num esquema de pura racionalidade cartesiana. Dito de outra forma, a realidade não é o real, mas sim a percepção do real.

Uma idéia é sempre percebida como realidade para quem a representa. Todo o discurso religioso é uma realidade de valor teológico, donde uma verdade nesse sistema de compreensão do mundo e de racionalidade, sem que para o compreender o investigador necessite de entendê-la enquanto verdade cartesiana. A nuance entre realidade e verdade toma aqui um peso tremendo: a realidade, construída pela cognição, é sempre realidade para quem a constrói ou a toma como tal.

Neste sentido, temos de tomar como perfeitamente aceito o fato de que, no contexto cultural e mental em que cada fenômeno religioso se desenvolve, se afirma e se vivencia, toda a linguagem usada para efetivar a relação entre os fiéis, os crentes e o divino em que acreditam, corresponde à construção de um patamar de realidade, de verdade para os que nesse sistema de crença se integram. Toda a

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forma usada como comunicação num sistema de relação religiosa é uma realidade de valor teológico porque encerra em si uma lógica, uma racionalidade própria; não uma racionalidade cartesiana, mas uma racionalidade que se verifica no seu sistema de regras, de coerências.

Vista desse modo, a linguagem é, essencialmente, um jogo onde se afirma uma normalidade que possibilita a comunicação e a argumentação dentro de uma lógica e de um conjunto de regras assumidas: a possibilidade da linguagem é a afirmação da normalização do pensamento. Em religião, o sentir, o viver, o ser religioso que é passível de ser codificado através da linguagem é, em si, um ato de normalização e de abertura ao outro: se a religião necessita de ser expressa em comunicação para outrem, então essa religião já não é a religião do simples indivíduo, mas do grupo que a assume num quadro discursivo específico. A verbalização para a compreensão é a assunção de um quadro de referentes lingüísticos que possibilita a comunicação: a religião expressa em mecanismos de linguagem é, naturalmente, um processo de conhecimento e uma atitude teológica segundo um quadro social específico.

Dentro dessa lógica é facilmente compreensível porque o vodu e a língua crioula trilharam durante muito tempo o mesmo caminho, sendo um o esteio do outro. Numa sociedade tão estratificada, onde as crenças populares foram perseguidas, ridicularizadas, impedidas de serem praticadas e a língua crioula vista com olhos não menos preconceituosos e eurocêntricos, a sobrevida da língua e da religião dependia de uma tomada de posição bem clara. Era preciso não ceder à pressão do colonizador, conservar o terreiro do vodu como o local onde a língua crioula poderia ser falada livremente, pois só através dela poder-se- ia perpetuar a tradição do vodu, guardando suas histórias, seus segredos, seus ritos. Sobretudo numa sociedade de tradição oral, numa religião oral, desprovida de livro sagrado, a língua cumpre uma função primordial. Manter a língua viva passa a ser a única forma de manter vivos seus valores, suas tradições e suas crenças.

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O universo da religião tem de ser transportado para uma outra

racionalidade, a teológica, não a científica; trata-se de outra, igualmente racional,

detentora de regras, de funções e de um discurso próprio os discursos religiosos comportam tudo isto: uma lógica própria, uma funcionalidade própria, um léxico específico. A linguagem no campo religioso tem uma racionalidade própria:

trata-se de um jogo em que as regras são, efetivamente, as de uma linguagem expressa no campo teológico, nos ritos e na noção de integração, de pertença a uma comunidade de indivíduos que “se lançam ao jogo”, ou melhor, “se lançam aos ritos”.

A nomeação dos deuses, das divindades de um determinado grupo

humano, é um dos mais profundos campos de formulação de uma racionalidade religiosa: é a identificação dos deuses em causa num quadro de ritual ou de culto que possibilita ao crente perceber onde, de fato, está. Porém, mais que a aparentemente simples constatação do horizonte religioso em que o crente se encontra, a essa chave que lhe possibilita a identificação está associado um conjunto de significações que vão muito além desse fenômeno. Os nomes e os epítetos, as invocações e as exclamações, são uma textualidade em que o participante integra uma vivência clara do próprio momento. A excepcionalidade do momento de contato com o texto sagrado é corroborada pelo fato de, até para a simples leitura e escrita desse mesmo texto, serem necessários profissionais dos textos quem saiba ler. Os profissionais do culto eram, inevitavelmente, em todo o Mundo Antigo, especialistas da escrita entenda-se, dominavam a leitura da escrita e a sua recitação. Nas religiões de tradição oral surge a necessidade dos griots26 , dos feiticeiros, daqueles a quem foram transmitidos e que transmitirão os segredos, as histórias, as lendas.

Ora, através da linguagem, a explicitação e a categorização de todo o real implica a representação desse mesmo real. Neste campo, parece que podemos

26 Nome que se dá na África ao membro da casta dos poetas músicos, depositários da tradição oral.

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encontrar duas formas a que as Culturas Antigas recorreram para categorizar e representar o sagrado: a imagem e a palavra. Longe de serem meios distantes de representar, verificamos que até chegam a ser simbióticas: a imagem pode usar como que a mesma semântica estética da palavra escrita, criando ambas uma interdependência total. A imagem é sempre discurso, e o discurso, passado para suporte não perecível, é sempre imagem. A gênese da própria escrita e a sua complexidade o denotam: os primeiros signos inventados seriam de timbre ideográfico pictogramas ideográficos e tinham um universo de significação que se restringia ao objeto representado. Por exemplo, a escrita, com especial imagem na hieroglífica, tomada como pictografia quer na sua forma ideográfica, quer na sua forma alfabética e silábica é simultaneamente todas as dimensões da escrita e da arte antigas: comunicativa, estética e simbólica 27 .

Vale lembrar que não podemos tomar como absoluta uma ruptura cultural entre o oral e o escrito, podendo textos escritos manter a sua “oralidade”, definidora da sua natureza e da forma como, na prática, foi transmitido o seu conteúdo: no caso dos textos rituais antigos, e apesar da sua passagem a escrito, a “oralidade” ritual continuou a ser a forma quase exclusiva de comunicação centrada nesses textos a leitura individual dos principais textos sagrados e mitológicos é rara.

Partindo do princípio de que os textos sagrados são vividos, essencialmente, num quadro da coletividade, somos levados, obrigatoriamente, a pensar no rito. O poder do ritual está na força existente no seu conteúdo e na eficácia da sua comunicação. Segundo Hatzfeld 28 , os ritos “não são feitos para que a eles se assista, mas para que neles se tome parte”. Quer dizer, só se compreende um determinado ritual participando dele; a simples observação de

27 RODRIGUES, L.C. B. A Introdução da escrita e sua repercussão na diglossia (francês- crioulo) na República do Haiti. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, dissertação de mestrado em Estudos Lingüísticos Neolatinos, 2005.

28 HATZFELD. As Raízes da Religião. Lisboa: Instituto Piaget, 1997, p.111-114 apud PINTO, P. M. op. cit. p.97.

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gestos e movimentos rituais numa lógica científica não permite aceder, de fato, à essência do ritual e da religião: tratam-se de duas lógicas diferentes, mesmo que em igual suporte (a linguagem).

Quando um ritual é realizado e dirigido a uma assembléia, as mensagens rituais só poderão ser assimiladas pelo grupo se houver uma “doutrinação” sobre a matéria que está codificada, uma identificação automatizada, ou seja, a capacidade do ritual para atingir o seu objetivo junto daqueles a quem se dirige, a força de mobilização que é ou não capaz de transmitir, está essencialmente na competência da transmissão dessa mensagem e na preparação dos receptores para a entender. A relação entre o indivíduo e o rito é a da participação, não a do espectador.

Somos, assim, conduzidos para a noção de parole en acte que nos parece importante no sentido em que transforma a leitura, a declamação e a escuta de textos rituais num momento ativo por parte dos presentes em relação ao próprio texto. O ouvinte de uma declamação ritual é muito mais que ouvinte, é um participante numa espécie de ritual que é o próprio ato de recitação do texto sagrado por um profissional / especialista na leitura e declamação, num local e momento próprios. A questão toma ainda uma vertente importante quando supomos que parte das nomeações ou, generalizando, parte do próprio discurso ritual, poderia já não corresponder à linguagem corrente. Ora, neste momento, quem declama ou lê um texto canonizado encontra-se dentro de um sistema valorativo que é a própria linguagem utilizada: trata-se de uma langue des dieux. Um texto afirma-se como um momento de encontro, de relação, com o divino cultuado: a dimensão de conhecimento em causa não é a científica, mas sim a teológica.

Os textos consignados pelo tempo e pela cultura são patrimônio de todos os fiéis. Participar desse texto é participar do ritual, da sua declamação, da sua audição, da recriação cíclica do texto. Mais que perante um texto, com

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conteúdos, estamos perante forma, estamos perante uma langue des dieux que vale enquanto tal, pela sua natureza, pela comunicação e cognição que automaticamente se estabelece entre a comunidade de crentes, enquanto entidade orgânica e enquanto entidade constituída pelos seus indivíduos, e o divino que cultuam.

A questão da identidade é, essencialmente, lingüística; não porque é pela língua que se transmitem os conteúdos culturais e de identificação, mas porque, à partida, é a possibilidade de integração numa comunidade de falantes que se compreendem que possibilita essa chave, essa não-solidão, esse não-abandono. A linguagem está no campo daquilo que não se aprende, daquilo que é inato aos elementos de uma comunidade: quando se aprende a falar a língua materna aprende-se, mais que isso, a pensar segundo uma lógica lingüística.

Segundo Paulo Mendes Pinto (2002) a centralidade da língua no quadro das identidades de um grupo religioso aflora em alguns fenômenos e para isso ele equaciona, de forma interdependente,

“três níveis em que a identidade religiosa e cultural de uma comunidade assenta, em grande parte, no suporte lingüístico da mensagem religiosa: a) a relação simbiótica entre o aparecimento de um Texto Sagrado, canonizado numa certa língua, e a centralidade de culto num santuário muito específico; b) a centralidade de culto como uma ratificação e consignação da hierarquia social na qual ela se espelha e na qual tem pleno significado, correspondendo este fenômeno a uma codificação só possível porque tem a ferramenta que a torna possível (uma língua evolutivamente estabilizada e perceptível por toda a comunidade); c) e porque consigna e congela as duas anteriores, a linguagem estabelecida nos Textos Sagrados e no culto é a base da matriz cultural da comunidade de crentes”.

Para qualquer população um Texto Sagrado é, por natureza, inalterável. Trata-se de um contentor de verdade divina comum ao todo social, qualquer que

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seja o grau de compreensão que cada grupo social e cultural mantenha com esse texto. A construção de textos canônicos implica, para além de uma profunda identificação e relação entre comunidade de crentes que os utiliza e os tem como seus, a própria caracterização do divino que eles transmitem, de uma autoridade estabelecida e aceite. A afirmação de um texto enquanto canônico implica a sua tomada enquanto modelo para diversos campos da visão que o homem tem de si, nomeadamente da organização social que retrata. O processo de canonização de um texto é diretamente proporcional à canonização da estrutura social nele contida. Talvez não haja imagem dependente, mas sim enfoques, interdependências. Canonizar um texto, torná-lo sagrado, é efetivar uma dimensão de inalterabilidade que lhe confere um superior grau de eficácia um texto com uma larga carga valorativa não é passível de ser alterado, pelo menos no quadro de um tempo curto. A noção de formulae tem nestes textos um peso muito grande, quer na dimensão funcional e de relação com o divino em que o texto não pode ser desrespeitado porque desrespeitaria o divino e anularia a funcionalidade pretendida, quer na dimensão prática de fórmula rítmica que possibilita a memorização e a declamação. Assim, canonizar um texto é concorrer para o fortalecimento de processos de identificação cultural e lingüística da comunidade em causa, na medida em que essa canonização implica uniformização de textos e, acima de tudo, sistematização da língua.

Para os crentes, e num sentido estrito, o Livro é, quase sempre, o resultado de uma Revelação / comunicação divina feita pela pessoa do próprio Deus a um homem / profeta escolhido, seja ele Moisés, Maomé, outro profeta bíblico qualquer, ou um dos evangelistas. O texto em causa é, na mais direta acepção, a “palavra de Deus”, portanto, inalterável, imutável, perfeita. É assente nesta relação em que cada uma das partes depende das restantes que tudo se forma:

corpo de crença, teologia, instituições e identidade da comunidade de crentes. O profeta em causa surge como a cabeça do movimento religioso nascente, criando um triângulo entre: o Deus, o profeta eleito, o Texto Sagrado.

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A questão toma uma vertente ainda mais acentuada quando verificamos que muitos dos Textos Sagrados declamados pelo mundo foram redigidos em línguas que os fiéis já não dominam, que já não corresponde à linguagem corrente. Ora, neste momento, quem declama ou lê um texto canonizado encontra-se dentro de um sistema valorativo que é a própria linguagem utilizada:

trata-se de uma langue des dieux, um “continente” de valoração e de identidade. Logo, a construção de textos inalteráveis implica, para além de uma profunda identificação e relação entre comunidade de crentes que os utiliza e os tem como seus, a própria caracterização do divino que eles transmitem, de uma autoridade estabelecida e aceite.

A nível social, canonizar um texto é concorrer para o fortalecimento de processos de identificação cultural e lingüística da comunidade em causa, na medida em que essa canonização implica uniformização de textos e, acima de tudo, congelamento e sistematização da língua. Não podendo ser alterado o texto, é a própria língua usada na transmissão da mensagem divina que é também canonizada; deste fato decorre que as línguas usadas para grafar os Textos Sagrados foram muito pouco alteradas desde esse momento tal se passa quer com o árabe, quer com o hebraico.

Ora, a língua é, desta forma, o veículo e o próprio motor da crença: é nela que esta se formula, é nela que esta se transmite e se vivencia. Central na formulação do pensamento, das categorias mentais, a língua é indissociável da formulação da identidade coletiva; estejamos falando da identidade religiosa, cultural, social, ou até lingüística. De fato, o fundamental catalisador da identidade religiosa reside na capacidade de a linguagem colocar em comum um conjunto de regras, de lógicas racionais que pressupõem uma forma de pensar o mundo, uma atitude.

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PARTE II

A Diglossia Francês - Crioulo

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5. O HAITI E A DIGLOSSIA

O Haiti é um país situado na parte oeste da Ilha de Hispaniola, da qual ocupa cerca de 35% (mais precisamente 27.750 Km 2 ). É a segunda maior ilha das Antilhas, logo atrás de Cuba. Segundo dados da United Nations Development Programme (UNDP) e da Central Intelligence Agency (CIA), conta com cerca de 8.710.000 habitantes (est. 2007), dos quais 95% negros, 5% mulatos e brancos. Cerca de 63% da população vive na zona rural. Estima-se que quase 400 mil pessoas (cerca de 5%) falem francês. Resumindo, praticamente toda a população do país tem o crioulo haitiano como língua primeira. Com uma história marcada por ocupações, golpes de Estado, profunda instabilidade política, regimes ditatoriais, e constantemente esquecido pelas demais nações latino-americanas, trata-se, ainda hoje, de um dos países mais pobres do mundo. Aliás, o mais miserável do Hemisfério Ocidental. A imensa maioria da população (cerca de 80%) vive com menos de dois dólares por dia e mais da metade da população ativa está desempregada ou subempregada. O país apresenta um PIB de US$ 500 por habitante (dados de 2004), expectativa de vida de menos de 55 anos para os homens e de 58 anos para as mulheres. Segundo dados de 2003, 52% da população haitiana sabe ler e escrever, o que já é um progresso considerável face aos dados de alfabetização registrados em 1970 (estimado em 22%) e em 1982 (36%). Esta melhoria é essencialmente resultado do aumento da escolarização no setor primário, desde 1980. Segundo índices da ONU, quanto ao IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do ano de 2004, divulgado no RDH (Relatório de Desenvolvimento Humano de 2006), o Haiti se classificaria em 154 o lugar, entre os 177 países pesquisados.

O Haiti é um Estado oficialmente bilíngüe. Este “bilingüismo”, porém, não reflete a realidade. É desigual e até mesmo desequilibrado em certos meios

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socioeconômicos. Apesar de seu status de língua oficial há tão pouco tempo alcançado o crioulo não é, de forma alguma, um idioma de prestígio. É por esta razão que vamos nos servir, para a análise do caso haitiano, do termo diglossia”, da forma como remonta a Charles Ferguson (1959) 29 e conforme foi desenvolvido por Louis-Jean Calvet (1987) 30 , qual seja, uma situação em que uma forma mais prestigiada de língua (língua alta) convive com outra de menor status (língua baixa) e estabelecem entre si uma distribuição funcional de usos. Os termos “bilingüismoe bilíngüeserão aqui empregados apenas nos casos em que se fizer necessária menção aos textos oficiais ou à denominação tradicional do termo. No Haiti, bilíngüe, na realidade, só o Governo o é, assim como uma pequena elite. Trata-se, portanto, de uma diglossia que parece ainda favorecer indevidamente o francês, em detrimento do crioulo, língua da imensa maioria da população.

Assim, usando as categorias de Ferguson, dir-se-ia que no Haiti, por exemplo, o francês é a língua alta, utilizada na escola 31 , na igreja, na universidade, nos discursos políticos, etc., enquanto que o crioulo é a língua baixa, utilizada na vida quotidiana, nas conversações particulares, nas telenovelas, nas relações com os “inferiores”. A diglossia coloca então face a face duas línguas ou variantes da língua, onde uma é valorizada, “normatizada”, veículo de uma literatura reconhecida, mas falada por uma minoria, enquanto a outra é desprezada, desprestigiada, mas falada pelo maior número de falantes.

É no Haiti que se encontram 3/4 dos crioulófonos do mundo e é o país onde as relações entre o crioulo e a língua base são as mais complexas. Os

29 FERGUSON, C. “Diglossia”, Word, 15 (1959), p. 325-340. apud CALVET, Louis-Jean. La guerre des langues et les politiques linguistiques, Paris: Payot, 1987.

30 CALVET, Louis-Jean. op. cit, p. 44.

31 Muita coisa mudou desde o estudo de Ferguson. Desde 1979, por exemplo, o crioulo já é utilizado nas escolas. No entanto, autores como Chaudenson, por exemplo, afirmam que, apesar das medidas recentes, cujo alcance e futuro são igualmente incertos, a repartição funcional das línguas (francês e crioulo) em nada mudou e é muito próxima da que se pode observar ainda nos DOM-TOM franceses. (CHAUDENSON, 1989, p. 10).

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franceses imaginam o Haiti como um país francófono. Ora, se é verdade que os intelectuais e a classe dominante do Haiti sempre se sentiram ligados à cultura e à língua francesa, entre os milhões de indivíduos da população atual, somente 10%, segundo as estimativas atuais mais otimistas, compreendem ou se expressam com alguma fluência em francês. As massas rurais e o subproletariado urbano são monolíngües e crioulófonos.

A diglossia haitiana tem como particularidade o fato de que uma das duas línguas empregadas é oriunda da outra e que, embora as duas línguas sejam mutuamente ininteligíveis, possuem um fundo lexical comum e são intimamente imbricadas, senão do ponto de vista de sua estrutura, pelo menos do ponto de vista de suas funções.

Para os membros bilíngües da elite haitiana, a escolha entre o crioulo e o francês decorre do contexto, da situação em que as duas línguas possam se alternar. Corresponde, respectivamente, à escolha entre o estilo familiar (francês popular) e o estilo rebuscado da parte dos franceses cultos. Manifesta-se hoje, como veremos, um avanço contínuo do vernáculo que poderia levar à substituição da diglossia atual por um bilingüismo mais generalizado onde o crioulo urbano de Porto Príncipe, enriquecido por seu contato com o francês, coexistiria com este sem no entanto retirar-lhe o papel de língua dominante.

As quatro últimas décadas viram em todos os territórios crioulófonos de expressão francesa um grande movimento de valorização da língua vernácula. Quatro etapas se discernem nesta corrente reivindicatória: (1) o reconhecimento do crioulo como língua; (2) a adoção do crioulo como símbolo da identidade cultural e nacional; (3) o reconhecimento do crioulo como instrumento literário; (4) a utilização do crioulo na administração e no ensino.

Para Ferguson (1959) a situação lingüística no Haiti ilustrava a diglossia clássica: duas variantes de uma língua geneticamente aparentadas, em relação

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hierárquica (uma sendo considerada a variante elaborada ou alta e a outra, a variante baixa, tendo cada uma funções e domínios de emprego determinados e mutuamente excludentes. Ferguson descreveu a situação lingüística do Haiti com a ajuda do seguinte esquema 32 :

Situações de Uso

Francês

Crioulo

Sermões, cultos

Sermões, cultos  
 

Ordem aos operários, serviçais

 
Ordem aos operários, serviçais  

Correspondências

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Discursos políticos, assembléias

Discursos políticos, assembléias  
 

Cursos universitários

Cursos universitários  
 

Conversas c/ familiares e amigos

 
Conversas c/ familiares e amigos  

Jornais e revistas

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Novelas de rádio e TV

Novelas de rádio e TV  
 

Canções locais

 
Canções locais  

Poesia

Poesia  
 

Literatura popular / Folclore

 
Literatura popular / Folclore  

A desigualdade dos dois idiomas (ou variantes de línguas) coexistentes na

diglossia mostra claramente traços sociolingüísticos enumerados: o prestígio e o

caráter oficial, a função normativa conferida à língua padrão, alta, contrastam com o caráter de inferioridade e de trivialidade dos usos (quotidianos) que se associam ao idioma crioulo (língua baixa). Ferguson acrescentou que a diglossia refletia uma estratificação social estável, uma sociedade dividida em castas relativamente estanques às quais correspondiam funções e status rigidamente definidos.

O estado de diglossia só é contestado quando se desencadeiam mudanças

sociais que tendem a introduzir um certo grau de mobilidade social e que conduzem a uma redefinição das funções e dos status. A revalorização do crioulo

língua baixa na situação de diglossia clássica que caracterizava o regime

70

escravista seria apenas um dos sintomas de uma situação social conflitante acompanhada necessariamente de conflitos lingüísticos. As funções e os domínios do emprego atribuídos às duas línguas são requestionados, pelo menos por certos segmentos da comunidade. E é o que se percebe hoje no Haiti, uma vez que os domínios de uso dos dois idiomas já não são mais tão mutuamente exclusivos, como vamos constatar adiante.

O próprio Ferguson (1959) já dizia que o estado de diglossia clássica se transforma em situação lingüística conflitante quando se elaboram entre os grupos sociais redes de comunicação mais densas, quando se desenvolve a alfabetização e quando se faz sentir no seio da comunidade a necessidade de uma língua nacional ou comunitária verdadeira.

Já se sabe que o Haiti é um Estado diglóssico, onde a maioria da população é monolíngüe e uma ínfima minoria, bilíngüe. Pode parecer à primeira vista paradoxal que o estado de conflito lingüístico atualizado pela revalorização do crioulo, quer dizer, a reivindicação por certos grupos sociais de seu emprego nos domínios anteriormente reservados exclusivamente ao francês, torna-se mais agudo à medida em que se estende uma competência efetiva em francês. Este paradoxo se explica pela ambivalência dos locutores bilíngües em relação à língua oficial e ao idioma vernáculo, ele próprio o reflexo de atitudes ambíguas a respeito dos dualismos socioculturais e políticos e de um duplo sistema de valores.

Em contrapartida, só pode haver situação conflitante quando uma escolha se apresenta no emprego de um ou de outro entre os idiomas presentes. Isso explica o crescimento dos conflitos lingüísticos à medida em que aumenta o número de locutores bilíngües para quem uma escolha pode efetivamente se impor. Por outro lado, a situação conflitante resulta também da reabilitação do crioulo, abrindo assim a este idioma domínios de emprego reservados

71

anteriormente apenas ao francês. Valdman 33 , por exemplo, em 1978, refez o esquema da repartição de funções preconizado por Ferguson, a partir de suas próprias observações:

Situações de Uso

Francês

Crioulo

Sermões, cultos

Sermões, cultos ( )
( )
(
)

Ordem aos operários, serviçais

 
Ordem aos operários, serviçais  

Correspondência

Correspondência ( )
( )
(
)

Discursos políticos, assembléias

Discursos políticos, assembléias ( )
( )
(
)

Cursos universitários

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Conversas c/ familiares e amigos

 
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Jornais e revistas

Jornais e revistas ( )
( )
(
)

Novelas de rádio e TV

Novelas de rádio e TV ( )
( )
(
)

Canções locais

 
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Poesia

Poesia ( )
( )
(
)

Literatura popular / Folclore

 
Literatura popular / Folclore  

(O emprego de parênteses revela um domínio mais recentemente adquirido pelo crioulo)

A multiplicidade das situações lingüísticas é, além do mais, atravessada por um outro critério de diferenciação: o modo em que as diversas culturas geram o problema de sua memória social, o problema da transmissão de seu saber ancestral, quer dizer, particularmente, sua relação com a coisa escrita.

Todo mundo sabe que existe na superfície do planeta civilizações da oralidade e civilizações da escrita que, mais do que pela presença formal de um sistema de transcrição da linguagem, se distinguem pelo modo como conservam a memória da experiência e do saber humanos. Deste ponto de vista, podem-se distinguir quatro tipos de situações, conforme classificação de Calvet (1987).

As sociedades de tradição escrita antiga, nas quais a forma lingüística escrita é a transcrição da forma lingüística quotidianamente falada: é o caso da língua francesa, em que o saber passa essencialmente pelo livro;

33 VALDMAN, Albert. Le Créole: structure, statut et origine. Paris: Editions Klincksieck, 1978, p. 316.

72

As sociedades de tradição escrita antiga nas quais a forma lingüística escrita não é a forma falada, mas uma língua de prestígio. Uma parte do saber passa pelo livro, uma outra parte passa pelo canal da oralidade.

As sociedades nas quais recentemente se introduziu o alfabeto: é o caso

das sociedades de tradição oral penetradas por uma grafia que lhes foi adaptada, mas que ainda não veicula o saber (caso do Haiti).

As sociedades de tradição oral, nas quais a memória social não repousa

sobre a grafia, mas sobre o narrador, o feiticeiro, etc. Caso cada vez mais raro nos dias de hoje.

E estas diferenças participam desta descrição cursiva do mundo

plurilíngüe, não apenas como tais, mas também porque a presença ou a ausência de escrita em uma cultura tem sido freqüentemente utilizada para valorizar ou desvalorizar esta cultura, dentro de uma visão ideológica, que faz da transcrição gráfica o suporte do conhecimento. Não foi à toa que ocorreram tantos debates no Haiti com vistas à implantação de uma escrita única, padronizada, que facilitasse o aprendizado da língua escrita, permitisse um aumento significativo da alfabetização e de sobra, garantisse ao crioulo um maior status perante a outra língua oficial, o francês. As sociedades de tradição oral são comumente

consideradas, de modo especial, como sociedades sem escrita, o que é uma forma não apenas muito reducionista de defini-las, mas também uma forma de desprezá-las, através da comparação com as sociedades ocidentais. Mas a escrita e a oralidade coexistem freqüentemente e esta coexistência participa das mais diferentes formas de plurilingüismo. Não nos esqueçamos de que nos exemplos de diglossia dados por Ferguson, as variantes “altas” eram todas escritas, enquanto que somente algumas variante “baixas” o eram.

73

6. OS ASPECTOS LEGAIS DA QUESTÃO

A preocupação em se estabelecer legalmente uma língua oficial para o

Haiti só apareceu pela primeira vez na legislação deste país em 1918, durante a

ocupação americana. É provável que os haitianos tenham desejado com isso manifestar sua oposição à ameaça que a língua do ocupante (o inglês) representava. Eis a redação deste artigo na Constituição de 1918:

―O francês é a língua oficial. Seu emprego é obrigatório em matéria administrativa e judiciária.‖

Como se pode perceber, a Constituição de 1918 e todas as que a sucederam, não fizeram nenhuma alusão ao crioulo. Somente em 1964 uma nova Constituição (art. 35) fez pela primeira vez menção ao crioulo:

―O francês é a língua oficial. Seu emprego é obrigatório nas repartições públicas. Entretanto, a lei determina os casos e as condições nos quais o uso do crioulo é permitido e mesmo recomendado para a salvaguarda dos interesses materiais e morais dos cidadãos que não conheçam suficientemente a língua francesa.‖

A Constituição de 24 de agosto de 1983 dava, por sua vez, ao crioulo, o

status de língua co-nacional, ao lado do francês. Diz o art. 62:

―O francês é a língua oficial. Seu emprego é obrigatório nas repartições públicas. Entretanto, a lei determina os casos e as condições nos quais o uso do crioulo é permitido e mesmo recomendado para a salvaguarda dos interesses materiais e morais

74

dos cidadãos que não conheçam suficientemente a língua francesa. As línguas nacionais são o francês e o crioulo. O francês mantém seu lugar de língua oficial da República do Haiti.‖

Constituição de 1987 (art. 5 o ) melhorou radicalmente o status do

crioulo, que deixou de ser apenas a língua vernácula, nacional, para se tornar, ao lado do francês, a língua oficial do país.

A

―Todos os haitianos estão unidos por uma língua comum: o crioulo. - O crioulo e o francês são as línguas oficiais da República.‖

Uma análise deste artigo revela de antemão que ele engloba três aspectos:

o primeiro é uma observação sociolingüística que satisfaz à condição de exatidão,

de validade descritiva da qual não se deve subestimar a importância. Trata-se do

reconhecimento público diante de um país e do mundo de um fato inegável: toda

a população do Haiti é crioulófona. Isto significa dizer que todos os haitianos,

enquanto seres pensantes, dividem um instrumento comum de reflexão, de pensamento, de raciocínio, de apreensão do real, de interpretação de fatos, sentimentos, sensações. Este caminho comum da atividade intelectual, moral, psicológica e sensorial cria a possibilidade de uma comunicação direta, imediata, sem intermediário, de pessoa a pessoa, de indivíduo a indivíduo, sobre os 27.750 Km 2 do território nacional. Em crioulo, um haitiano pode, em princípio, comunicar-se com qualquer outro haitiano. Os haitianos de todas as crenças, de todas as religiões, de qualquer opinião política, com qualquer nível de escolaridade ou de conhecimentos teóricos ou práticos, possuem o mesmo sistema lingüístico fundamental com a complexidade de sua fonologia, de sua sintaxe, de sua morfologia, de sua semântica. Concretamente, todos os haitianos, de todos os cantos e recônditos do Haiti, podem falar crioulo entre si. Implicitamente, a primeira parte do artigo 5 o insinua, então, que o francês não é um meio de comunicação à disposição de todos os setores da população.

75

O segundo aspecto decorre logicamente da constatação de que “todos os haitianos estão unidos por uma língua comum, o crioulo.” É um processo histórico normal, imperativo que esta língua comum seja enfim proclamada língua oficial. Isto significa o quê ? Trata-se principalmente da afirmação implícita de uma obrigação moral do Estado, dos governantes, dos membros dos serviços públicos, dos parlamentares encarregados de legislar aos escreventes redigindo os processos verbais, de falar e de escrever na única língua compreendida e falada por todos. Nem todos sabem ler e escrever, mas todos podem compreender um texto claro em crioulo, lido inteligentemente por outros.

O terceiro aspecto não tem nenhuma ligação com o que o precede, quer

dizer, com a importante constatação de que o crioulo constitui por todos os haitianos um laço comunitário incontornável justificador de sua oficialização. O

texto legal não dá nenhuma explicação à proclamação do francês como língua oficial no contexto do artigo 5 o 34 . Para melhor compreendermos o aparecimento do francês na redação do referido artigo, devemos nos reportar ao preâmbulo da Carta Magna, que diz:

―O povo haitiano proclama a presente Constituição:(

)

Para fortalecer a unidade nacional, eliminando todas as discriminações entre as populações das cidades e do campo, pela

aceitação da comunidade de línguas e de cultura (

)‖

O texto legal acima esconde uma sutileza que prepara a irrupção do

francês no artigo 5 o . É um simples plural ortográfico. A eliminação das discriminações entre urbanos e rurais se fará também “pela aceitação da comunidade de línguaS e de cultura”. Esta formulação pode nos levar a pensar que existe uma comunidade de duas línguas, crioulo e francês, entre populações

das cidades e do campo no Haiti. Ora, é necessário não aceitar a dicotomia

34 É óbvio que existem os aspectos políticos e culturais que deixam claro o uso do francês no Haiti como herança da colonização.

76

simplista de: população das cidades / população do campo, do preâmbulo, sobretudo com o corolário de que a primeira é francófona e bilíngüe e que somente a segunda é crioulófona e monolíngüe. É o conjunto da população que é crioulófona e monolíngüe. As cidades, incluindo a capital, contam com uma minoria bilíngüe restrita, francófona em diferentes graus. No campo, os bilíngües contam-se nos dedos. Se nos encontramos em presença de um cochilo tipográfico, acrescentando um S à palavra língua, obteve-se então uma frase admirável exortando a reconhecer a unidade lingüística inata de toda a população haitiana e a tirar daí as conseqüências no domínio da administração pública, da justiça e do sistema escolar.

A República do Haiti é, então, juridicamente bilíngüe, tendo o francês e o crioulo como suas línguas oficiais. Em virtude disso, as duas línguas, em princípio, deveriam ser empregadas em todos os órgãos do Estado. Na realidade, o “bilingüismo” do Haiti é oficialmente simbólico, pois mesmo a Constituição foi redigida unicamente em francês, não havendo, por enquanto, nenhuma versão oficial em crioulo da lei fundamental 35 . É claro que não se poderia esperar de um texto constitucional o uso do termo “diglossia”, nem de seus derivados. Diglossia implica diferenciação de status, prestígio e desprestígio, ou seja, estratificações sociais e valorativas que não caberiam no corpo de uma constituição que se pretende democrática e justa.

As práticas administrativas herdadas da França sempre favoreceram o francês em detrimento do crioulo. Isto porque o francês se manteve como língua de prestígio e o crioulo, como língua do povo.

No dia-a-dia dos tribunais, as deliberações podem ser tomadas em crioulo e os processos verbais, que antes de 1987 só apareciam em francês, já podem ser feitos em crioulo. Fora da capital, os magistrados utilizam prioritariamente o

35 Toda versão crioula do texto constitucional é extra-oficial, fruto de iniciativas pessoais. A tradução mais difundida da Constituição em crioulo é de autoria de M. Pòl Dejan, Éditions Libète, Port-au- Prince: Imprimerie Deschamps, 1996.

77

crioulo. No art. 24 § 3 o da Constituição, que trata das prisões e das detenções, reza a obrigatoriedade de se proferir formalmente em crioulo e em francês, os motivos da prisão ou da detenção:

―Para que este mandado possa ser executado, é necessário:

a) Que se expresse formalmente em crioulo e em francês o ou os motivos da prisão ou da detenção e o dispositivo legal que pune o fato imputado.‖

O art. 40 da Constituição trata da questão da publicidade dos atos oficiais.

O Estado se engaja em difundir ao mesmo tempo em francês e em crioulo as

informações relevantes à vida de seus cidadãos. Diz o artigo:

―É obrigação do Estado dar publicidade por meio da imprensa falada, escrita e televisionada, nas línguas crioula e francesa, às leis, decretos, acordos internacionais, tratados, convenções, a tudo o que diz respeito à vida nacional, exceção feita às informações concernentes à segurança nacional.‖

A Constituição haitiana de 1987 obriga o Estado a publicar todos os documentos oficiais em francês e em crioulo, as duas línguas oficiais do país. No momento, as leis, os códigos, os formulários, as peças administrativas ainda são redigidos quase que exclusivamente em francês. Porém, a maioria dos funcionários tem um conhecimento limitado do francês e uma ignorância quase total da leitura e da escrita do crioulo que todos falam. Isto porque só depois deste diploma legal é que se começou a pôr em prática um esforço de padronização da escrita no Haiti e ainda são incipientes as iniciativas de alguns ministérios para alfabetizar seus funcionários em crioulo, através de um programa especial do “Biwo lang kreyòl(Bureau de la langue créole).

A língua francesa, tendo sido adotada como língua oficial do novo Estado

78

haitiano, faz com que todos os documentos oficiais (leis, atas, formulários, peças administrativas e outros) continuem a ser redigidos em francês.

Para enfim satisfazer a Constituição de 1987, é necessário proceder a uma reformulação do sistema jurídico, “haitianizar” o Código Civil, redigir as leis, e reescrever os formulários e as peças administrativas em crioulo haitiano. O ministro haitiano da Justiça deve encarar a redação de novos textos para as certidões de nascimento, de casamento, de óbito, de notário e outras peças legais mais comumente utilizadas pela população. Seria desejável que os novos documentos fossem redigidos em crioulo ou traduzidos com urgência para que se tornem compreensíveis à maioria dos haitianos, como quer a Constituição.

Os outros artigos da Constituição que tratam de aspectos lingüísticos são os artigos 211 e 213. Diz o art. 211:

―A autorização para o funcionamento das universidades e das escolas superiores particulares está subordinada à aprovação técnica do Conselho da Universidade do Estado e a uma participação majoritária haitiana ao nível do capital e do corpo docente, bem como à obrigação de ensinar na língua oficial do país.‖

Ora, na prática, o dispositivo legal não atribuiu à língua crioula o status que se poderia esperar de uma língua oficial, qual seja, o de ser usada no ensino superior de um país. Não mencionando especificamente o crioulo, deixou espaço para que a tradição se mantivesse e a outra língua oficial (o francês) conservasse sua presença exclusiva neste setor.

O art. 213 da Constituição, por sua vez, determina:

―Uma Academia haitiana é instituída visando a normalizar a língua crioula e a permitir seu desenvolvimento científico e harmônico.‖

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Vale lembrar que a legislação complementar ou ordinária é praticamente omissa quanto ao emprego das línguas no Haiti. De fato, com exceção dos artigos constitucionais supracitados, os únicos textos jurídicos que tratam levemente desta questão estão contidos no Código Rural e no Código do Trabalho, ambos herdados do regime Duvalier. Estes códigos não só estão hoje em desuso, como são também incompreensíveis para a grande maioria da população, que não os pode ler.

Na realidade, a “legislação lingüística” mais importante se encontra no campo da educação. Podem ser citados alguns documentos: Lei de Planejamento da campanha de alfabetização (1961), Lei Orgânica do Departamento da Educação Nacional (1979), Lei autorizando o uso do crioulo nas escolas como língua de ensino e objeto de ensino (1979), Decreto organizando o sistema educativo visando a oferecer oportunidades iguais a todos e a refletir a cultura haitiana (1982).

O Programa pedagógico difundido pelo Ministério da Educação Nacional (1987-1988) define os papéis respectivos do francês e do crioulo na formação fundamental das crianças e seu lugar no sistema escolar. A função instrumental do crioulo primeira língua nacional no processo de aprendizagem, é a de desempenhar um papel de integração sociocultural. Ele assegura igualmente a base sociolingüística da unidade nacional. Quanto ao francês, constitui a segunda língua nacional dos haitianos. Seu lugar privilegiado no programa da escola fundamental, da mesma forma que o crioulo, visa à instauração de um bilingüismo equilibrado. O ensino do francês deve permitir principalmente a aquisição dos conhecimentos científicos e o acesso à cultura universal.

80

7. OS USOS ATUAIS DO CRIOULO E DO FRANCÊS

O crioulo haitiano é a língua mais utilizada no rádio. Este é um dos raros

setores onde o progresso do crioulo se deu de modo incontestável, sobretudo a partir de 1986, ano da saída de Jean-Claude Duvalier. Entre cerca de quarenta estações situadas na capital, as mais regulares dedicam mais da metade do número total de horas de antena a emissões em crioulo. As informações são dadas sistematicamente nas duas línguas. Mesmo que a maior parte delas tenha um nome francês (Radio Antilles Internationales, Radio Cacique, Radio Caraïbes, Radio Céleste, Radio Galaxie, Radio Haiti-Inter, Radio Mélodie, etc.), é o crioulo que domina maciçamente. Nenhuma estação de rádio é monolíngüe francesa. Quanto à televisão, o começo do uso regular do crioulo neste veículo remonta aos anos 1990. Atualmente um terço dos programas é transmitido nessa língua, sendo os outros dois terços divididos entre francês e inglês. Este uso do inglês se explica pelo fato de que um grande número de canais de televisão difundem programas americanos.

A imprensa escrita é majoritariamente de língua francesa. Os dois principais jornais do país: Le Matin e Le Nouvelliste, ambos diários, são publicados apenas em francês, assim como as revistas, semanais ou mensais (Haïti en Marche, Haïti Observateur, Haïti Progrès, Le Messager du Nord- Ouest, Le Moniteur, L'Union, etc.). Alguns poucos jornais são publicados em crioulo, entre os quais Libèté (semanal), Boukan, Bon Nouvèl, Solèy Leve, etc. Certos jornais dedicam regularmente ao crioulo uma ou duas páginas. Três semanais são redigidos em três línguas: 70% francês, 15% crioulo e 15% inglês.

A liberdade completa de expressão e de uso reina no domínio dos cartazes,

painéis, indicações de rua e placas, no Haiti. As indicações nos prédios

81

governamentais só aparecem em francês. Os edifícios e órgãos municipais levam inscrições monolíngües francesas na capital Porto Príncipe e, às vezes, bilíngües nas cidades do interior. A moeda, os selos, a toponímia e a sinalização do trânsito são feitas em francês.

A diversidade é muito grande no tocante à publicidade comercial. As grandes lojas e empresas da capital só fazem sua publicidade em francês. As médias empresas, em francês e crioulo; as pequenas, em crioulo. As empresas de exportação e importação e todas as empresas que fazem comércio exterior utilizam o inglês e o francês, assim como as lojas para turistas. Donde se conclui que o uso do inglês, sobretudo em Porto Príncipe e do espanhol (no interior, próximo à República Dominicana) tem sido cada vez mais freqüente.

No seio das famílias, constata-se que os escolarizados tentam falar francês com suas crianças. Esta prática está circunscrita a certos campos do discurso. Ela pode ser limitada às ordens: “vá se lavar”, “vá fazer seu dever”. As conversas mais animadas e divertidas e qualquer outra troca entre familiares são feitas em crioulo. É por isso que certas crianças expressam claramente o desejo de se tornarem adultos para que possam falar crioulo sem problemas. A situação é inicialmente formal quando um visitante sem laço com a família chega. A conversação começa em francês para continuar em crioulo assim que a familiaridade se instala. O nível social das famílias atingidas aqui vai das classes médias menos favorecidas até às famílias mais ricas. Nas classes mais baixas, o francês é praticamente inexistente.

Nas relações dos funcionários entre si ou entre funcionários e administrados vindos para tratar de um determinado assunto, a conversação se faz 90% em crioulo. O francês é praticado seja para marcar a distância ou a superioridade, seja em uma situação formal: por exemplo se dois interlocutores ainda não atingiram o estágio da familiaridade. Na escrita, o francês ainda é utilizado quase em 100% das situações.

82

Ao lado do vodu, duas religiões são oficiais no Haiti: a católica e a protestante. A primeira durante muito tempo utilizou o francês e/ou o latim para os serviços religiosos e isto muitas vezes diante das camadas monolíngües e mais desfavorecidas. A segunda, introduzida em particular pelos americanos, sempre praticou o crioulo e atingiu muito rapidamente uma boa parte das camadas menos favorecidas. A religião católica, por sua vez, se “indigenou” e se adaptou à realidade. Hoje o crioulo é usado tanto quanto o francês e até mesmo mais do que este.

Desde 1978 uma reforma foi engajada prevendo a utilização na escola das duas línguas. Na escola, entretanto, o ensino era dado em francês, ainda que muitos mestres, desejosos de assegurar a compreensão de suas matérias, utilizassem paralelamente e como um facilitador, o crioulo. Alguns, é verdade, dominam muito mal o francês. Os professores em geral se dirigem aos pais dos alunos em francês, afim de marcar seu status e de provar sua competência em relação a esses últimos. Na escola os professores falam francês entre si. Fora da sala de aula, falam crioulo, onde quer que estejam. As crianças utilizam com mais freqüência o crioulo. Na universidade, os cursos são feitos sobretudo em francês.

O que se observa hoje em dia é que cada vez mais a língua crioula penetra

com força nas áreas tradicionalmente reservadas à língua francesa: discursos ou pronunciamentos oficiais, primeiros encontros, ensino, usos jurídicos, serviços religiosos, etc. Apesar de alguma resistência por parte de certos indivíduos, a língua crioula conquista solidamente o mercado lingüístico, seja na Diáspora, seja no próprio Haiti.

A decisão de aplicar o que reza a Constituição vai ter uma repercussão na

preparação de documentos privados. Assim, os contratos de trabalho e de seguro, as notas fiscais, os depósitos bancários, os empréstimos, os formulários de emprego, tudo o que atinge a vida nacional deverá ser redigido em crioulo, o que

83

vai exigir a presença de muitos tradutores, redatores, revisores, etc.

A partir de nossas observações sobre os atuais usos das duas línguas no Haiti podemos atualizar os quadros das funções estabelecidos por Ferguson

os quadros das funções estabelecidos por Ferguson (1959) e refeito por Valdman (1978), onde marcaremos com

(1959) e refeito por Valdman (1978), onde marcaremos com um ponto ( ) a língua que predomina atualmente.

Situações de Uso

Francês

Crioulo

Sermões, cultos

*

Sermões, cultos *

Ordem aos operários, serviçais

 
Ordem aos operários, serviçais  

Correspondência

*

Correspondência *

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*

Discursos políticos, assembléias *

Cursos universitários

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Conversas c/ familiares e amigos

 
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Jornais e revistas

Jornais e revistas *

*

Novelas de rádio e TV

 
Novelas de rádio e TV  

Canções locais

 
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Poesia

*

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Literatura popular / Folclore

 
Literatura popular / Folclore  

Não se pode esquecer que, assim como a cor da pele, a língua continua sendo no Haiti um fator decisivo de diferenciação. A elite se recusa há muito tempo a empregar, fora do meio familiar, uma língua falada pelas massas analfabetas. Prefere utilizar o francês, ainda que um pouco “démodé”, transmitido por padres bretões nas escolas de Porto-Príncipe e muito pouco atingido por crioulismos. A maioria da população que não freqüenta escolas ou então freqüentam as escolas cujos professores não dominam o francês não tem acesso ao francês. Na cidade, a população se expressa num crioulo afrancesado, facilmente compreendido por um francófono; no campo, este último terá muita dificuldade diante do “gros créole” dos camponeses.

Numa preocupação de eqüidade, os governantes decidiram em 1987 que o crioulo assim como o francês seriam as línguas oficiais e de ensino. Para isto deram-lhe uma ortografia mais próxima do alfabeto fonético internacional do

84

que da ortografia francesa pois até então o crioulo era pouco escrito. Estas reformas suscitaram calorosos debates. Acusaram os lingüistas encarregados de estabelecer a ortografia do crioulo de querer afastá-lo do francês e de favorecer assim, a médio prazo, o inglês. Temeu-se que um ensino dispensado exclusivamente em crioulo seja um obstáculo à continuidade dos estudos superiores. Trataremos dessas questões mais adiante.

Não se deve perder de vista que o uso do crioulo ou do francês ultrapassa largamente o quadro lingüístico. Ainda que se fale crioulo ou que se tenha dele apenas algumas noções, é desaconselhável, por exemplo, dirigir-se diretamente nessa língua a alguém que se encontre pela primeira vez. Isto pode levar a crer que esta pessoa não é suficientemente instruída para falar francês.

7.1 O USO DO CRIOULO NA ESCOLA

A política haitiana vem se orientando há um certo tempo em direção à utilização do crioulo no ciclo elementar da educação. O francês no Haiti é ensinado após uma “iniciação” escolar em crioulo – como língua segunda, primeiramente oral, depois escrita, antes de se tornar língua única ou principal de ensino à medida em que se avança nas séries escolares. Retirou-se assim a proibição de se utilizar o crioulo na escola. Em outros casos, sem ser realmente utilizado como meio de ensino, seria tolerado no ciclo pré-elementar (expressão livre, atividades para despertar o interesse das crianças, etc.) de modo a fazer desaparecer as proibições a este modo de expressão primeira das crianças para não fazer da escola um mundo irreal, afastado do universo da realidade quotidiana. O francês seria, nessa perspectiva, ensinado primeiramente como

85

língua oral para evitar o sistema até então absurdo que consistia em ensinar às crianças a ler e a escrever numa língua que eles não falam.

Em 18 de setembro de 1979 o crioulo é introduzido na escola por decreto presidencial. Em 1980 um manual fixando os princípios da escrita do crioulo haitiano é publicado. Em 30 de março de 1980 o crioulo é decretado língua de ensino e língua ensinada ao longo da escola fundamental. Em 29 de março de 1987 é reconhecido como língua oficial da República do Haiti, ao lado do francês.

Quanto à população, pode-se dizer que a resistência ao emprego do crioulo na rede escolar é muito mais marcante entre os pais do que entre os professores. Esta diferença de atitude teria duas causas: A primeira reside na confusão que se cria entre os pais quanto ao emprego do crioulo como língua de abordagem pedagógica no desejo de facilitar a aquisição de matérias escolares, incluindo o francês, e o ensino do crioulo enquanto matéria escolar propriamente dita.

A ambivalência do haitiano em relação ao crioulo se manifesta particularmente na sua atitude em relação ao papel que a escola deva atribuir ao vernáculo. Pesquisando sobre a instrução e a formação profissional no Haiti, Michel Saint-Germain (1988) 36 mostrou a baixa consideração que certos haitianos da Diáspora demonstravam pelo crioulo. O interessante é que passados vinte anos, podemos perceber através de certos foros de discussão na internet que pouca coisa mudou em relação a esse aspecto.

Percebe-se entre os pais haitianos de alunos recentemente incorporados à rede escolar da cidade de Nova Iorque uma forte resistência a um método de ensino segundo o qual professores auxiliares se serviriam do crioulo para ensinar

36 MOROSE, Joseph P., « Pour une réforme de l'éducation en Haïti », thèse de doctorat, Suisse, Fribourg, 1970, 176 f. apud SAINT GERMAIN, Michel. La situation linguistique en Haïti: bilan et prospective. Montréal: l‟ Institut de recherche sur l‟ avenir du français (IRAF), 1988. Disponível na internet no site

http://www.cslf.gouv.qc.ca/Publications/PubD128/D128ch1.html#table.

86

inglês, matemática, ciências, etc. Os pais haviam entendido que se ensinariam seus filhos a ler em crioulo, o que para eles não tem nenhuma utilidade (já que a maioria não consegue imaginar como um idioma vernáculo possa ser representado graficamente) e, além do mais, isso prejudicaria a aquisição do francês. Declarando sua preferência por um ensino bilíngüe francês-inglês, demonstram sua percepção do sistema americano de instrução em relação ao haitiano, sem se dar conta de que a aquisição do francês, por sua vez, não teria nenhuma utilidade direta nos Estados Unidos.

A segunda causa é mais profunda: A proibição que estabelecem os pais a seus filhos de falar crioulo e a recusa em aceitar seu emprego no setor escolar refletem simplesmente seu reconhecimento do lugar preponderante ocupado pelo francês na hierarquia dos valores socioculturais e seu papel na promoção social.

É uma outra manifestação da ambivalência dos crioulófonos em relação a sua

língua materna, ambivalência que apresenta implicações sociais e econômicas.

No final das contas, a valorização do crioulo que se nota em todos os territórios crioulófonos significa que um número crescente de crioulófonos não aceita mais a estrita diglossia herdada do regime colonial escravista e as imposições que restringem o uso do crioulo. Não apenas querem reabilitar o crioulo na escala dos valores sociais e culturais, mas querem também por

intermédio da escola, precisamente que o bilingüismo crioulo-francês se estenda

a todas as camadas sociais. A extensão dos domínios de emprego do crioulo

caminha ao lado de uma generalização da prática corrente do francês e da alfabetização. As modalidades desta extensão e generalização simultâneas variam de um território crioulófono para outro e estão submetidas a diversos fatores de ordem demográfica, política, econômica e sociocultural. Em todos os casos, a extensão dos domínios de emprego do crioulo e a generalização de uma competência efetiva em francês tendem a apagar a função simbólica do francês na diferenciação das categorias socioculturais e são então geradoras de situações lingüísticas conflitantes.

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Em todos os territórios crioulófonos, não apenas no Haiti, muitos profissionais do ensino continuam refratários ao emprego do crioulo. Os professores aceitam bem a utilização do vernáculo como língua de aproximação pedagógica ou como auxiliar, mas a apresentação das matérias em crioulo e a alfabetização nesta língua são ainda fortemente proscritos. Além disso, os pais da classe média se opõem vigorosamente ao uso do idioma nas relações familiares língua primeira verdadeira da maioria dos locutores e no domínio escolar.

Ao nacionalizar o sistema francês de educação, os sucessivos governos haitianos contentavam-se em copiar freqüentemente as iniciativas educativas de Paris, infelizmente, com décadas de atraso, sem levar em conta a realidade social dos haitianos. Quando, finalmente, o Ministro da Educação Nacional propôs, em 1980, uma reforma do ensino primário devendo levar progressivamente a uma reforma do ensino secundário e superior, deparou-se, desde o início, com a oposição, tanto da elite quanto do povo, que não queriam aceitar o crioulo como língua de ensino.

Para acalmar os ânimos de uns e a inquietude dos outros, o plano de estudos da escola fundamental de base previa, no primeiro ano, sete horas de ensino oral e escrito do crioulo por semana e quatro horas de ensino oral do francês. Podia-se supor que o crioulo deveria ser a língua de ensino das outras matérias, mas nenhuma diretiva foi dada neste sentido. Em geral, o crioulo era ensinado como segunda língua. Foi por decreto de 18 de setembro de 1979, que o governo haitiano havia aprovado o uso do crioulo como língua de ensino no primário. De acordo com este decreto, o Departamento de Educação Nacional do Haiti publicou em 31 de janeiro de 1980 uma circular para as escolas na qual reiterava o uso do crioulo como língua de ensino. Vale lembrar que Georges Sylvain já reconhecia em 1901 que a solução do problema do ensino das massas passa obrigatoriamente pelo emprego do crioulo como língua de ensino.

Nos seis anos do ensino fundamental, o crioulo e o francês têm o mesmo

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peso, pelo menos do ponto de vista teórico, como língua de ensino. As crianças recebem toda a sua educação nas duas línguas. Trata-se de um ensino bilíngüe, mas as práticas escolares não parecem ser uniformes. Conforme as cidades, os vilarejos, os bairros, ou os professores, a língua de ensino pode ser quase que exclusivamente o francês ou o crioulo. Assim, na capital, o ensino se dá sobretudo em francês; nas cidades pequenas e nos vilarejos do interior, dá-se em crioulo; nas escolas dos meios mais favorecidos da capital, ensina-se em francês.

A

língua do ensino médio e da universidade continua sendo o francês. Em todas

as

escolas, os manuais escolares são quase todos redigidos em francês, à exceção

das gramáticas do crioulo e dos livros didáticos do ensino fundamental.

Quanto aos estudos superiores, o art. 211 da Constituição diz que todo estabelecimento deve estar subordinado à aprovação técnica do Conselho da Universidade do Estado e a uma participação majoritária haitiana ao nível do corpo docente, bem como à obrigação de ensinar na língua oficial do país, sem mencionar especificamente nenhuma delas.

Por decreto datado de 18 de setembro de 1979, o Governo Haitiano aprovou o uso do crioulo como língua nacional de ensino e publicou em 31 de janeiro de 1980 uma circular para as escolas, na qual reiterava o uso do crioulo como língua oficial e definiu as particularidades da língua. Destacando, então, que o crioulo tem sons e sinais para escrever estes sons, o Departamento autorizou a mostrar como escrever o crioulo, “que deve ser escrito da mesma forma em todos as escolas”. Devemos lembrar que o alfabeto atualmente adotado está longe de representar um consenso. Ainda recebe severas crítica e ainda é motor de debates e discussões acaloradas no meio intelectual local, levando a crer que novas reformas possam vir a ser adotadas futuramente.

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8. HISTÓRICO DO CRIOULO HAITIANO

O crioulo haitiano (Kreyòl Ayisyen) faz parte do grupo de crioulos de base francesa, porque uma parte importante de seu léxico deriva ou vem diretamente do francês. Porém, sua sintaxe, seu sistema semântico e sua morfologia diferem consideravelmente do francês. É certamente o idioma crioulo mais falado pela maioria dos falantes de crioulos no mundo. São cerca de oito milhões e setecentas mil pessoas no Haiti. Na diáspora, o crioulo haitiano também é falado por mais de um milhão de pessoas, vivendo na América do Norte (Estados Unidos e Canadá), na América do Sul (principalmente na Venezuela e na Guiana francesa), no Caribe (República Dominicana, Martinica, Guadalupe e Bahamas), na Europa (França) e em alguns países da África. Juntamente com o francês, é hoje idioma oficial da República do Haiti (desde 1987), embora só uma minoria de haitianos fale o francês fluentemente. Desde 1980, o crioulo haitiano foi equipado com um ortografia oficial e escritores haitianos já produziram uma literatura interessante e consistente.

Historicamente, é difícil precisar quando o crioulo haitiano apareceu. Sabemos que em 1697, a França cuja presença na ilha data de 1629 ocupou oficialmente a parte ocidental da ilha de Hispaniola, conhecida como Santo Domingo, até então uma possessão espanhola.

O crioulo foi por muito tempo uma língua exclusivamente oral, daí a dificuldade de se conciliar uma abordagem científica de sua gênese com a quase ausência de documentos escritos, de traços que permitissem compreender sua formação original. O primeiro texto conhecido a ser escrito em crioulo data de 1757 e se intitula “Lisette quitté la plaine”. Vem em seguida um texto que contém aproximadamente dez linhas e apareceu em 1786 no livro Voyage d’un

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Suisse dans différentes colonies d’Amérique, de Justin de Girod Chantrans, um viajante suíço que viveu em Santo Domingo, entre maio de 1782 e julho de 1783. Reproduzimos aqui o texto tal como apareceu no livro de Chantrans. É uma carta escrita por uma Negra ao seu amante, para se desculpar da infidelidade de que havia sido acusada:

― Moi étais à la case à moi; moi étais après préparer cassave à moi; Zéphir venir trouver moi, li dit que li aimer moi, et qu’il voulait que moi aimer li tout. Moi répondre li que moi déjà aimer mon autre et que moi pas capable d’aimer deux. Li dit moi, que li mériter mieux amour à moi que matelot à li. Moi répondre li, que li capable de mériter li mieux, mais que li pas te gagner li encore. Li dit moi que li va gagner li, et tout de suite li faire moi violence… Ah, toi connais comment li fort! Juger si gagner faute à moi! Le ciel témoin, cher dombo, de l’innocence et de fidélité à moi!‖.

Apesar de sua importância histórica, este texto deve ser visto com muita cautela e não deveria ser considerado como uma boa amostra do crioulo falado em Santo Domingo naquele momento. De Girod Chantrans viveu em Santo Domingo só um ano e não possuiu uma real competência em crioulo haitiano. Além do mais, salta aos olhos a dificuldade de se distinguir o que é francês e o que é crioulo. Em seguida, surgiu o texto legal da Abolição da Escravatura em 1791, depois um catecismo publicado em Cap Haïtien, em 1828. A língua crioula já era então o veículo de comunicação mais empregado em Santo Domingo, desde metade do século XVIII, conforme se pode notar nesses poucos textos, aos quais poder-se-iam juntar algumas passagens de obras francófonas da época, em que se observam expressões crioulas, mas que não nos permitem ter uma idéia clara da forma como se elaborou a língua.

As hipóteses concernentes à aparição do crioulo se opõem quanto à sua paternidade, mais ou menos francesa ou africana segundo os lingüistas e seus

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preconceitos ideológicos atrelados principalmente à idéia que alguns destes fazem da nação haitiana. Se os primeiros privilegiam a herança francesa, parte integrante da “haitinidade”, os segundos insistem nas raízes africanas do que se chamou de “Primeira República Negra”. Em seu livro Philologie créole (1933), Jules Faine descreve o crioulo como “uma língua neo-românica oriunda da langue d’oïl, passando pelos antigos dialetos normando, picardo, angevino, poitevino e composto além disso, de palavras tomadas de empréstimo ao inglês e ao espanhol e, em menor escala ao indígena caribenho e aos idiomas africanos”. Suzanne Sylvain em ―Le Créole haïtien: morphologie et syntaxe,‖ (1936), esclarece melhor a gênese do crioulo reabilitando suas origens africanas, mostrando os elementos comuns existentes entre o crioulo haitiano e as línguas da África Ocidental, como a posposição dos determinantes.

No seu “Débats sur le créole et le folklore” (1947), Charles Ferdinand Pressoir aprofundou bastante esta tese mostrando não apenas a importância da herança técnica das línguas africanas como a invariabilidade, os traços de gramática ou da nasalização que não se encontram em francês, mas também a importância de uma herança do pensamento africano, então de um certo espírito, uma simplicidade não necessariamente mensuráveis. Assim, escreve 37 :

―Quelle douleur pour des oreilles et des yeux français qu’une phrase comme ―Je veux que tu viennes‖ perdant son subjonctif pour se muer en ―Je veux toi venir‖ (m’vlé ou vini) ! Cette construction créole, qui semble malhabile ou enfantine aux nombreux, trouve sa raison dans l’ensemble des grammaires de l’Ouest-Africain, symboles de la simplicité du génie Noir.‖

Da mesma forma, o tom significativo dos falares africanos domina a pronúncia do crioulo haitiano, particularmente no campo. Esta tese sustenta,

37 PRESSOIR, Charles Fernand. Débats sur le créole et le folklore. Port-au-Prince: Imprimerie de l‟Etat, 1947, p.12. “Que dor para os ouvidos e olhos franceses uma frase como: “je veux que tu viennes”, perdendo seu subjuntivo para se transformar em “je veux toi venir (m’vlé ou vini). Esta construção crioula, que a tantos parece desajeitada ou infantil, encontra sua razão de ser no conjunto das gramáticas da África Ocidental, símbolos da simplicidade do raciocínio negro.” (minha tradução)

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então, que os traços mais evidentes da língua, quer dizer, o léxico, provêm da antiga metrópole e de seus falantes, enquanto que suas estruturas, o verdadeiro arcabouço da língua haitiana, tem suas fontes na África. O que não contraria a visão clássica dos crioulos em geral. A herança francesa do crioulo é apenas a parte visível do iceberg. Exatamente como a cultura francesa está para a cultura haitiana. Aliás, por muito tempo se acreditou que o crioulo era apenas uma deformação do francês. Ora, a língua francesa seria apenas a parte aparente e superficial, tal como freqüentemente percebida do exterior, da sociedade haitiana.

Segundo lingüistas como Robert Chaudenson (1989), o crioulo seria o resultado de uma evolução acelerada do francês popular do século XVII, liberado de qualquer coerção normativa dos meios escolares e intelectuais. Os lingüistas canadenses Claire Lefebvre 38 e John Lumsden 39 vão mais além, na tese de uma relexificação das línguas africanas fon e ewe a partir do francês. Finalmente, a hipótese menos representativa prioriza a evolução de um pidgin original. O nascimento do crioulo em Santo Domingo teria resultado de uma desestabilização lingüística, uma espécie de vazio lingüístico, provocado por um plurilingüismo marcado, causando a aparição, numa situação de necessidade urgente de comunicação apesar das barreiras lingüísticas, de um pidgin multiforme e instável, mas espalhado e tornado o único sistema lingüístico empobrecido ao qual as crianças puderam ser expostas. Assim, Bickerton (1981) vê nas línguas crioulas os traços principais da faculdade de linguagem do homem. Segundo Yves Déjean 40 , estas três hipóteses são insuficientes. Para este famoso lingüista haitiano ainda não existe hipótese que explique de maneira

38 LEFEBVRE, Claire. Creole Genesis and the Acquisition of Grammar: The Case of Haitian Creole. Cambridge, England: Cambridge University Press, 1998.

39 Claire LEFEBVRE / John LUMSDEN: ―Des différences entre le créole haïtien et le français‖. Français-créole, créole-français (études présentées par Robert DAMOISEAU et Pierre PINALIE), éd. PUC / GEREC. N°8. Paris: L‟Harmattan, 1994, 249 p.

40 DÉJEAN, Yves. Créole, école, rationalité. Texte à paraître dans la Revue Chemins Critiques 20 ème Journée Internationale de la Langue et de la culture créoles, realizada em Port-au-Prince, 28/10/2002, organizado pelo Réseau Haïtien de Communication et de Culture Créole (REKK). Disponível em:

http://www.medialternatif.org/alterpresse/. Acesso em 14 de setembro de 2003.

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satisfatória a gênese do crioulo no Haiti. Cada uma apresenta uma explicação parcial que a torna sedutora. Tendo em vista o estado atual do debate sobre a gênese dos crioulos, apaixonada tanto no plano ideológico quanto no plano científico, esta posição parece ser a mais sábia. Constata-se que, diferentemente das gêneses lingüísticas indo-européias ou romanas, o contexto histórico-social da aparição do crioulo é conhecido. Daí o interesse particular que os lingüistas têm por esta língua. Um interesse, segundo Déjean, às vezes levado por uma vontade de reconhecimento profissional, daí a aparição de uma multidão de teorias fantasistas que, na verdade, não ajudam a uma melhor compreensão do fenômeno crioulo.

Certos adversários do crioulo sustentam (cada vez menos, aliás) que se trata apenas de um patois, de um dialeto oriundo do francês, inapto a expressar conceitos abstratos, científicos e, por isso, não digno de reconhecimento. Encaram o crioulo como um elemento folclórico, devendo se limitar ao domínio musical, às piadas ou às conversas informais.

É necessário primeiramente precisar que esta percepção do crioulo como um patois se encontra em todos os níveis da sociedade. São, aliás, as classes populares que parecem constituir os primeiros inimigos de uma crioulização exagerada, freqüentemente vista como um meio de deixá-las para sempre na ignorância. Acusa-se, assim, o crioulo de não ter gramática, nem estruturas definidas. Por outro lado, reprova-se-lhe favorecer o isolamento de um país já por demais mal visto pela opinião pública internacional, como se fosse uma idéia estapafúrdia utilizar o crioulo numa América sobretudo hispanófona e anglófona.

Ao primeiro argumento, exaltando a ausência de estruturas da língua crioula, respondemos que, com efeito, o processo de codificação e de instrumentalização do crioulo ainda não terminou. Dito isto, como escreveu com

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muita propriedade Pradel Pompilus 41 , a comparação com outras línguas não o envergonha. Mesmo porque, um pouco de recuo histórico nos permitiria justificar a existência de um prazo entre o reconhecimento de uma língua e o emprego de todas as ferramentas que permitem a sua melhor exploração possível. Não nos esqueçamos de que a língua francesa só teve seu primeiro dicionário não-oficial em 1690 (dicionário de Furetières) e seu primeiro dicionário oficial, o da Academia, somente em 1694, quer dizer, cerca de 850 anos depois do Serment de Strasbourg, primeiro texto escrito conhecido na langue d’oïl. Observando assim a lentidão da codificação da língua francesa, permitimo-nos apreender, com o devido recuo, a dificuldade de instrumentalização de um vetor de comunicação como uma língua.

Quanto aos que julgam que o crioulo só pode servir como um fator de isolamento do Haiti, deveriam considerar que o país que atualmente possui o maior número de multinacionais por habitante (a Suécia), conservou sua língua ainda que ela não possa ser considerada uma língua de alcance internacional. Se os habitantes da Suécia, da Noruega, da Finlândia e da Islândia, embora tenham suas economias inovadoras e abertas ao mundo, conservaram o direito de falar suas respectivas línguas nacionais, por que os mais de oito milhões de haitianos deveriam renunciar a se expressar em crioulo ? Os exemplos de conservação ou de reapropriação de línguas nacionais não faltam: Malta com seus 300 Km 2 e seus 400.000 habitantes soube impor o maltês como língua oficial e de ensino, após a independência negociada com a Grã-Bretanha nos anos 60. Ora, esta atitude se revelou verdadeiramente voluntarista, pois o maltês não era escrito antes da independência. Foi necessário então dotá-lo de uma grafia e enriquecê-lo de vocábulos técnicos. Isto não impede a população maltesa de conservar um excelente domínio do inglês e do italiano.

Finalmente, a última crítica clássica consiste em afirmar que o crioulo

41 POMPILUS, Pradel. “Price-Mars et le problème linguistique haïtien” et “Colloque de l„été 1979 sur l‟emploi du créole dans l‟enseignement primaire”, dans: Le problème linguistique haïtien, Port-au- Prince, Haïti: 41-48, 147-167, 1985.

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haitiano é apenas um subproduto da língua francesa. Tendo em vista o estudo prévio da origem do crioulo, sabemos que isto é completamente inexato. Se é verdade que o léxico crioulo provêm em 85% do francês, sabemos que a sintaxe está muito distante dele (posposição do determinante, etc.). Por outro lado, das 2.750 palavras que Pradel Pompilus destaca no léxico haitiano, parecidas pelo significante a palavras do francês contemporâneo, há algumas que apresentam variantes mais ou menos importantes, face à palavra francesa de origem, e centenas que mudaram completamente seu sentido em crioulo.

O crioulo é uma língua viva, que se enriqueceu sempre de vocábulos tomados de empréstimo e vindos de outros lugares, trazidos do espanhol, do inglês, das línguas caribenhas e africanas. Por exemplo, “plug”, “call”, “clutch”, “switch‖ são, no momento, palavras de uso corrente no Haiti. Alguns destes empréstimos tomados do inglês se transformaram, crioulizaram-se com o tempo. É o caso, por exemplo, de “my ass”, tornado “mayas”, designando “pés que cheiram mal”.

Dizer que o crioulo é uma língua inferior, pois dotada de um léxico insuficiente, é inaceitável. Com efeito, uma língua é antes de tudo um instrumento de comunicação adaptado ao quadro no qual ela evolui. Fica claro então que algumas palavras não existem em crioulo, pois não se reportam a nada no Haiti. Do mesmo modo como em certas comunidades das regiões árticas, há muitas palavras diferentes para designar a neve, segundo o momento do dia, em francês há um único vocábulo. Certas palavras do campo lexical do inverno (granizo, por exemplo) não existem em crioulo, pelo fato de o Haiti ser um país tropical. Estas diferenças entre línguas não implica de forma alguma no estabelecimento de uma hierarquia, mas apenas refletem os diferentes modos de vida das diferentes sociedades do mundo. É claro que a insuficiência de termos haitianos no domínio científico não pode ser negada. Daí a necessidade de se trabalhar a língua “por cima”, para usar a expressão de Déjean (2002), ou seja, através de uma instituição do tipo Academia Francesa, encarregada de produzir

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neologismos a fim de enriquecer a língua haitiana e de lhe dar uma nova amplitude.

Não há nada na sua estrutura lingüística que descredencie o crioulo como uma língua de cultura. Deve-se considerar que, desde que um trabalho de base seja exercido na língua crioula, esta poderá ter um brilhante futuro. Tanto isto é verdade que o crioulo é uma língua antes de mais nada, utilizada hoje tanto na sua forma oral quanto na escrita. Sua capacidade de expressão é revelada por sua utilização crescente na escrita. Cabe aos haitianos fazer com que o crioulo se torne verdadeiramente uma língua de educação e de cultura. E para tal, o primeiro passo já foi dado recentemente, ao se introduzir o crioulo no sistema escolar.

Todo lingüista que aborda o estudo do crioulo em seu contexto sociolingüístico real, termina por se perguntar que papel esta língua é capaz de assumir nos diversos territórios onde ela é empregada por uma proporção importante da população, como no caso do Haiti.

As funções que uma língua pode assumir, não dependem nem da natureza de seu sistema gramatical, nem da riqueza de seu léxico. Com efeito, toda comunidade pode moldar sua língua, seja por empréstimos, seja pela criação interna, de modo a que responda a suas necessidades comunicativas, expressivas

e integrativas. Para este último termo, referimo-nos à função de qualquer língua

a rigor, de qualquer variante de língua de permitir a uma comunidade, por um lado, indicar o fato de pertencer a um certo grupamento supralocal e, por outro lado, de se destacar de qualquer outra comunidade.

Mas as línguas crioulas diferem das outras línguas em vários aspectos e estas diferenças implicam certos limites a seu desenvolvimento. Certos lingüistas estimam que a ausência de processos eficazes de derivação reduza a capacidade de criação interna no enriquecimento lexical. Mas os maiores obstáculos para o

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desabrochar das línguas crioulas são de ordem sociolingüística.

Qual pode ser a sorte de uma língua crioula ? O crioulista americano DeCamp 42 examinou o ciclo vital das línguas crioulas e concluiu postulando quatro resultados possíveis:

O desaparecimento caso do Negerhollands, crioulo de base holandesa, antigamente falado nas Ilhas Virgens Americanas;

A continuação caso do crioulo haitiano, que se mantém sob uma forma mais ou menos imutável;

A fusão com a língua base – o crioulo se “descriouliza” e não pode mais se destacar de seu superstrato. É o caso do Jamaican Talk.

A evolução em uma língua dita “normal” – caso teórico ainda não atestado.

Um dos fatores determinantes de uma língua crioula é a coexistência com sua língua base e que é, com efeito, o caso do crioulo no Haiti. Segundo este autor, para que o crioulo possa continuar a existir no Haiti, enquanto língua distinta do francês, uma das duas situações deve estar presente: primeiramente, as duas línguas devem coexistir numa situação de diglossia absoluta, sendo o emprego de cada uma delas reservado a uma série de domínios específicos. Isto não exclui o bilingüismo parcial, quando uma parte da população (algo em torno de 5%) pode, como é, aliás, o caso do Haiti, se servir das duas línguas. Na primeira eventualidade o crioulo continuaria a ser o que ele é atualmente em quase todos os territórios crioulófonos do mundo: uma língua vernácula excluída da administração e da escola. Na segunda eventualidade o crioulo, acedendo aos domínios geradores de prestígio, tornar-se-ia uma língua padrão.

Para aceder ao status de língua padrão, um vernáculo deve, segundo

42 DeCAMP, David. Toward a generative analysis of a post-creole continuum in HYMES, Dell (org.). Pidginization and creolization of languages. Cambridge: Cambridge University Press, 1985, p.349-70.

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Fishman 43 , responder a cinco critérios principais. Ele deve ter:

Uma certa vitalidade deve ser empregado por uma parte considerável da população;

Uma certa historicidade laços com um movimento nacionalista, uma ideologia, um passado glorioso, etc.;

Um certo prestígio junto aos locutores (em particular junto aos membros da elite ou da administração);

Atingir um certo grau de autonomia em relação às línguas com as quais coexiste;

Atingir um certo nível de organização lingüística.

Falado por todos os haitianos e língua única de 95% da população, o crioulo demonstra uma forte vitalidade no Haiti. Trata-se do único território crioulófono onde o número de crioulófonos monolíngües permanece relativamente estável. Como o status do crioulo não mudou entre a época colonial e a pós-revolucionária, o vernáculo não tem nenhuma ligação direta com a luta de independência. Comparado a certas línguas, como a langue d’oc, que foi outrora uma das grandes koinès literárias da Europa, é claro que o crioulo tem uma história muito recente. No que concerne a atitude dos locutores em relação ao crioulo, vimos que ela reflete a ambivalência em todos os níveis. Expressão da alma haitiana, o crioulo é reconhecido como a língua materna verdadeira, mas é só através do francês que se pode realizar a promoção social do indivíduo no estado atual das coisas.

Pensamos que o futuro do crioulo haitiano depende sobretudo de suas relações com a língua francesa e a possibilidade de elaboração de um programa de organização lingüística que não levaria a uma fusão entre as duas línguas. Isto quer dizer que é necessário se perguntar se a organização lingüística do crioulo não levaria inevitavelmente a uma perda de sua autonomia em relação ao francês

43 FISHMAN, Joshua. Sociolinguistics. Rowley, Mass:Newbury House Publishers in VALDMAN, Albert. Le Créole: structure, statut et origine. Paris: Editions Klincksieck, 1978, p. 347.

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e à criação de uma situação de continuum, tal como a que existe entre o inglês e o Jamaican talk, na Jamaica.

É comum entre os crioulistas opor a situação da Jamaica à do Haiti. Na Jamaica, o inglês e o Jamaican talk constituiriam uma gradação onde seria impossível traçar uma linha de demarcação entre as duas línguas ou atribuir um enunciado a uma ou a outra. No Haiti, o crioulo se demarcaria nitidamente do francês:

―Para um haitiano culto, as alternâncias freqüentes do francês ao crioulo e do crioulo ao francês tem a maioria dos traços psicológicos e sociais da alternância entre duas línguas totalmente estranhas.‖ 44

44 DeCAMP, 1968 Apud VALDMAN, op. cit. p.348.

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9. A ELABORAÇÃO DE UMA ORTOGRAFIA PARA O CRIOULO

HAITIANO

Ligada ao poder, a escrita contribui para criar o status social da língua, mas seu uso é freqüentemente afastado da fala. No Haiti o crioulo é falado pela totalidade da população. Baseado na oralidade, sua transcrição na vida quotidiana é reduzida. Por outro lado, apresenta-se com freqüência na poesia e no romance. Sua utilização escrita corresponde geralmente à afirmação de uma identidade e a um posicionamento militante. Por sua vez, o francês é a língua da educação, da administração e da maioria dos meios de comunicação. Ele é falado e compreendido por uma pequena parte da população.

Apesar de já ser uma língua escrita há muito tempo (apenas a definição de uma ortografia padrão data de pouco tempo) o crioulo haitiano continua sendo considerado uma língua ágrafa. E é tratada como tal. Sua escrita não conta como escrita; não configura um “documento”, digamos assim. E a que devemos atribuir essa situação ? Ao suposto bilingüismo ? Ora, no caso haitiano, o bilingüismo está restrito a um setor bastante minoritário da sociedade e isto contribui sensivelmente para afastar a escrita da esmagadora maioria da população, o que acentua a situação de diglossia, como num círculo vicioso. A diglossia acaba por apoiar a escrita em uma das línguas ou “conspira contra uma delas”. A medida que se é mais bilíngüe, menos se escreve na língua de menor prestígio e, concomitantemente, se desestimula a leitura nesta língua. E numa situação de bilingüismo em que uma das línguas conta com uma grande tradição escrita, enquanto a outra foi tradicionalmente ágrafa, é fácil perceber que a escrita ou não-escrita é um fator determinante de discriminação.

No Haiti, por mais que a escrita e a leitura em língua crioula venham a

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estar cada vez mais ao alcance de um número maior de pessoas, dada a situação diglóssica presente no país, os cidadãos bilíngües que dela se utilizassem, fariam- no mais como uma prova de reconhecimento e de fidelidade a uma língua amada do que como recurso informativo ou meio de emoção estética.

Continua existindo uma dificuldade quase insuperável para fazer do crioulo uma língua verdadeiramente “oficial”. A declaração que consta da nova Constituição (1987), art. 5º, de que “são idiomas oficiais o francês e o crioulo” poderá, a longo prazo, criar um sentimento de frustração nos usuários deste último, se se condicionar excessivamente a “oficialidade” à visibilidade e ao exercício da escrita.

Elaborar uma ortografia para o crioulo haitiano trouxe à tona vários problemas a serem considerados. Em primeiro lugar, é uma língua vernácula socialmente inferiorizada. Como não é unanimemente bem vista em nenhum dos domínios de emprego que conferem um certo prestígio (documentos administrativos, instrução superior, etc.), seus locutores dificilmente se sentem motivados a aprender a lê-lo e, mais ainda, a escrevê-lo. Em segundo lugar, ele coexiste com o francês, sua língua de base lexical, a língua da qual se originou cerca de 90% do seu vocabulário. Embora o crioulo difira do francês em seus sistemas fonológico e morfofonológico, seus laços estreitos com sua língua-base no plano lexical tornam sedutor qualquer sistema de notação etimológica. Com efeito, durante muito tempo, algumas tentativas de representação autônoma (dita fonética) provocou vivas polêmicas entre a elite haitiana.

É no Haiti que existe o maior número de textos escritos em crioulo e onde foram feitas certas experiências ortográficas interessantes. Foi igualmente nesse país que se encontrou o maior número de textos redigidos em crioulo nas mais diversas épocas.

Mais do que estudar detalhadamente cada proposta de notação ortográfica,

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como já fizemos em nossa dissertação de mestrado, 45 optamos por uma brevíssima apresentação histórica, mostrando suas repercussões na sociedade haitiana.

9.1 BREVE HISTÓRICO DAS NOTAÇÕES ORTOGRÁFICAS

Dois períodos se desenham nitidamente na elaboração das notações etimológicas: o período colonial, abarcando o fim do século XVIII e o início do século XIX, e o período moderno, que se instala do final do século XIX até aproximadamente 1940.

Poder-se-ia pensar que a independência do Haiti seria acompanhada de um maior emprego do crioulo no domínio administrativo, sobretudo pelo fato de que um grande número de chefes de Estado crioulófonos e iletrados dirigiram o país entre 1804 e o período moderno. Ora, o único texto político que temos desse período é um discurso do presidente Salomon, pronunciado em 1915. No campo literário, a safra é mais abundante. No final do século XIX, Oswald Durand compôs uma canção em crioulo, “Choucone”. Massillon Coicou escreveu peças de teatro nas quais se misturavam o francês e o crioulo e Justin Lhérisson introduziu expressões crioulas nos romances de costumes locais. Todos esses autores se ativeram a uma ortografia etimológica diferindo muito pouco daquela que encontramos nos textos do período colonial.

Foi Georges Sylvain quem deu um passo decisivo na direção de uma

45 RODRIGUES, Luiz Carlos Balga. A Introdução da escrita e sua repercussão na diglossia (francês- crioulo) na República do Haiti. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, dissertação de mestrado em Estudos Lingüísticos Neolatinos, 2005.

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ortografia sistemática, permitindo recuperar, de forma precisa, a pronúncia de então. Inspirando-se na adaptação em crioulo das Fábulas de La Fontaine, composta pelo martinicano F. Turbot, Georges Sylvain escreveu “Cric ? Crac !”, em 1901. Foi redigido numa ortografia cujo objetivo era, segundo o autor, conservar o máximo possível a fisionomia francesa das palavras derivadas do francês, sem sacrificar a expressão fonética. Vejamos como exemplo as duas primeiras estrofes:

Loup ac mouton

“Douvant poul' ravett pas janmain G'ain raison. Grann moin té connin Dit ça souvent : eh ! ben gadé Si mots longtemps pas vérité.

Gnou mouton tout piti, gnou jou, T 'apé bouè d' leau nan la-riviè. Nan mainm moment, gnou gros bitt loup Soti nan bois tou, pou li bouè.”

Tradução francesa

Le Loup et l’agneau

“Devant une poule, ravet jamais N'eut raison." Ma grand'mère avait coutume De dire souvent cela : eh ! bien, voyez Si les propos d'autrefois ne sont pas vérité !

Un tout petit mouton, un jour, Buvait de l'eau dans la rivière. Au même moment, un énorme loup Sortit du bois, pour boire aussi.”

Deve-se a primeira ortografia autônoma do crioulo haitiano ao pastor metodista irlandês McConnell, originário da Irlanda do Norte. Esta ortografia se inspirava na descrição de Suzanne Sylvain (Le créole haïtien, 1936) que continha formas transcritas do alfabeto da Associação Internacional de Fonética. De acordo com este sistema de grafia, elaborado entre 1940 e 1943, cada fonema do crioulo era representado por um único símbolo e cada símbolo só assumia um único valor fonético.

A ortografia de base fonológica do reverendo McConnell provocou uma indignação geral entre os intelectuais do Haiti. Charles-Fernand Pressoir, o mais bem intencionado entre os críticos do irlandês, reprovava-lhe sua falta de sensibilidade aos aspectos culturais da elaboração de uma ortografia.

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E hoje em dia, parece que os estudiosos do assunto são unânimes em dar razão a Pressoir nas suas críticas. Com efeito, toda inovação neste domínio deve levar em conta duas séries de dados. Primeiramente, deve-se levar em conta os princípios científicos. A estrutura fonológica e morfofonológica da língua determina um sistema de base fonológica segundo o qual se estabelece uma relação de bi-unicidade entre fonema e símbolo. E em segundo lugar, a ortografia proposta não pode se esquecer dos processos psicológicos que implicam no processo da escrita e da leitura. Além disso, os símbolos propostos devem se prestar aos métodos modernos de reprodução tipográfica.

Os lingüistas e os especialistas em alfabetização tendem a negligenciar os aspectos sociológicos da elaboração de uma ortografia. Entre esses aspectos, é preciso perceber: a) o status da língua (nacional, vernácula, de cultura, etc.); b) as atitudes das diferentes classes sociais em relação à língua; c) a relação da língua em questão com as outras línguas faladas no território; d) a situação dialetal, quer dizer, as relações sociolingüísticas e lingüísticas entre as variantes da língua.

No Haiti, o crioulo é uma língua vernácula inferiorizada e é necessário, primeiramente, fazer com que estes locutores o estimem digno de ser representado graficamente. Ainda há haitianos, inclusive entre os crioulófonos monolíngües, que julgam que qualquer ortografia destinada a grafar o crioulo deveria se calcar naquela que se emprega para representar a língua de prestígio e a língua oficial, o francês. É preciso determinar se esse sentimento não vai de encontro às necessidades econômicas e as realidades socioeconômicas e políticas do país.

Quando o alfabeto McConnell-Laubach foi lançado, o Haiti saía de uma ocupação americana que havia durado cerca de vinte anos. Uma vez que os autores do alfabeto eram anglófonos, foram acusados de terem pesquisado uma ortografia destinada a tornar o crioulo mais acessível sobretudo aos ingleses e aos americanos. Apesar de tanta crítica, este alfabeto teve uma certa difusão. Foi

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empregado na tradução dos Evangelhos, na redação de um jornal semanal e num projeto de instrução fundamental financiado pela UNESCO.

Em 1947 Charles-Fernand Pressoir e L. Faublas apresentaram uma modificação do alfabeto “fonético” alinhando-se em certas convenções da ortografia francesa compatíveis com a bi-unicidade entre som e letra. A ortografia Pressoir-Faublas goza até hoje de um status semi-oficial; ela é empregada por todos os organismos engajados na luta contra o analfabetismo: o Comitê Protestante de Alfabetização, o clero católico e também o ONAAC (Office National d’ Alphabétisation et d’Action Communautaire), organismo governamental encarregado da alfabetização de adultos. Este último financia uma Associação para as Pesquisas Científicas sobre o Crioulo e sua Utilização, que publicou uma lista de sugestões visando a eliminar certas variações no emprego do alfabeto Pressoir-Faublas (conhecido atualmente pelo nome de ortografia do ONAAC).

É bom aqui abrirmos um parêntese para lembrar que os anos entre 1970 e 1990 foram o grande período do crioulo. Em 1975 surgiu o primeiro romance escrito em crioulo haitiano: Dezafi, de Franketienne, obra, aliás, que se enquadra ao mesmo tempo como romance e poesia. Trata-se de um texto bastante original e que vai marcar profundamente o desenvolvimento da literatura crioula no Haiti. Sua importância se deve sobretudo ao fato de utilizar exclusivamente o crioulo, ao longo de toda obra (312 páginas na edição original).

Neste período também aparecem no Haiti numerosas obras que vão dar um impulso importante à literatura crioula, ainda que as dificuldades econômicas do Haiti não permitissem uma difusão muito grande dessas obras. Ao lado de Franketienne, aparecem obras de Morisseau-Leroy, Célestin-Mégie, G. Castera, J.M. Etièn, Carrié Paultre, etc.

Também data desta época (1985) a tradução da Bíblia em versão integral

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para o crioulo haitiano. Sabemos muito bem a importância que a tradução da Bíblia teve para o desenvolvimento das línguas, dada a necessidade de ser traduzida segundo os mais diversos gêneros, em estilos os mais variados. É também a época da tradução de numerosos autores franceses, inclusive clássicos como Molière, Corneille.

E é sobretudo o momento dos diversos debates em torno das grafias crioulas. Nos anos 80 florescem as publicações de seleções de novelas de autores diversos, contos, numerosas peças de teatro e algumas antologias poéticas. Surgem também alguns ensaios, livros para fins educativos, histórias em quadrinhos. É também o período das teses e dos grandes trabalhos sobre os crioulos em geral, como os trabalhos de Chaudenson, Valdman, Bernabé, Marie- Christine Hazaël-Massieux e tantos outros.

Depois de 1990 surge uma situação paradoxal. O interesse dos autores é de ter cada vez mais leitores, publicar na França, inscrever-se na francofonia e portanto, escrever em francês, mas em um francês que comporte uma forte couleur locale”. O uso cada vez mais sistemático deste francês leva a um certo abandono relativo do crioulo na literatura, embora na vida quotidiana, o recurso crescente a esta língua, fazendo com que seus locutores a falem com muito menos incômodos e complexos do que no passado, nos pátios dos colégios e até mesmo nas salas de aula mas também na administração pública e nas ruas. É verdade que no campo educacional o crioulo ainda não conseguiu conquistar um lugar tranqüilo e estável, sobretudo devido à resistência de certos pais que ainda não estão convencidos de que o crioulo é uma verdadeira língua e que temem que o ensino do crioulo perturbe ainda mais suas crianças, que já têm dificuldade de dominar o francês, visto como único meio de acesso a profissões favoráveis.

Ainda no final dos anos 70, o debate sobre a ortografia foi reaberto no Haiti por pessoas munidas de conhecimentos lingüísticos profundos e

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apreciadores de uma ortografia autônoma de base fonológica para o crioulo haitiano. Trata-se, particularmente de Pradel Pompilus, eminente lingüista haitiano e de Paul Berry, educador americano que residiu muitos anos no Haiti. Pompilus e Berry propuseram algumas modificações na ortografia do ONAAC que têm por objetivo aproximar a forma gráfica das palavras do crioulo às formas correspondentes do francês. Estes partidários de uma ortografia etimológica modificada se apoiaram sobre quatro princípios:

Para não afastar o apoio da elite haitiana bilíngüe, todo sistema de grafia do crioulo deveria ser de fácil acesso ao leitor francês: qualquer pessoa que saiba ler em francês deveria poder se adaptar facilmente ao sistema proposto.

O crioulófono alfabetizado numa ortografia crioula deveria poder facilmente aprender a ler em francês.

Pelo menos, o novo alfabetizado deveria poder decifrar cartazes, painéis ou manchetes de jornais escritos em francês.

Como todo sistema de ortografia é destinado principalmente aos crioulófonos monolíngües em vias de alfabetização, sua aprendizagem deve ser fácil para os analfabetos.

As modificações propostas por Pradel Pompilus eram bastante modestas e objetivavam estender ao crioulo certos aspectos sistemáticos da ortografia francesa e de tornar a ortografia do ONAAC diafonológica, quer dizer, capaz de representar diversas variantes da língua.

Para Paul Berry, tratava-se de dotar o crioulo de uma ortografia segundo a qual, na maior parte dos casos possíveis, as formas crioulas e francesas correspondentes teriam uma representação idêntica. Sua ortografia difere das diversas representações empregadas pelos defensores de uma ortografia etimológica, pela preocupação em proceder sistematicamente pela regra. Com efeito, o objetivo de Berry é ensinar aos alfabetizandos crioulófonos os princípios

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sistemáticos da ortografia francesa.

Qualquer representação do crioulo que não é nem francamente etimológica, nem rigorosamente fonológica, é necessariamente arbitrária. Se o objetivo fundamental de uma representação gráfica do crioulo é o de facilitar aos novos alfabetizados a passagem para o francês, não se consegue ver muito bem em quê a aquisição dos princípios da ortografia francesa possa ajudar um crioulófono a compreender um texto francês. É muito provável que lhe seja mais útil poder identificar os vocábulos franceses que se aproximam pela forma e pelo sentido às palavras de sua língua. O argumento dominante invocado por Berry é que seu sistema de grafia facilita a passagem ao francês por parte do crioulófono recentemente alfabetizado. Mas ele não traz nenhuma prova concreta do papel facilitador de seu sistema em relação aos outros crioulófonos.

Além disso, na elaboração de uma ortografia para o crioulo haitiano é necessário se perguntar quais são os usuários aos quais ela é destinada. Os defensores das ortografias “intermediárias”, bem como os da ortografia etimológica, insistem na importância da adesão da elite bilíngüe letrada ao movimento tendente à revalorização do crioulo. Isto poderia levar a pensar por que os bilíngües haitianos, que já escrevem em francês se interessariam em aderir a um projeto de ortografia que os levasse a escrever de maneira diferente palavras que designam as mesmas coisas em crioulo e em francês.

Como se pode constatar ao observar pinturas murais, indicações de ruas, ônibus, propagandas, o crioulo haitiano é largamente escrito. Na verdade, provavelmente sempre foi escrito. Quando antigamente, em meados do século XVIII, alguns autores quiseram conservar traços do crioulo, adotaram espontaneamente em sua maioria, uma grafia afrancesada que levava em conta a etimologia, a origem francesa das palavras.

Como

vimos

acima,

no

início

dos

anos

quarenta

do

século

XX,

109

preocupados com o grave problema do analfabetismo, pesquisadores e pedagogos, tomando consciência do fato de que o crioulo não era francês, adotaram uma grafia nova fundada sobre um princípio muito simples: uma letra (e alguns grupos de duas letras) para cada som. Diferentes ajustes e modificações foram propostos até que finalmente o crioulo se viu dotado em 1979 de uma grafia oficial, portanto há apenas 29 anos.

Com o princípio inicial sendo mantido, temos então uma ortografia de base fonológica. Diferentemente do francês, no crioulo haitiano tudo o que se escreve se pronuncia, tudo o que se escreve corresponde a um som. Esta correspondência tão estreita entre o oral e o escrito, torna a ortografia do crioulo muito simples de ser dominada: o crioulo pode ser facilmente lido e escrito.

9.2 A ESCOLHA DE UMA ORTOGRAFIA E SUAS IMPLICAÇÕES

IDEOLÓGICAS

A escolha de um sistema gráfico para o Haiti criou discussões apaixonadas, geradas, segundo Robert Chaudenson (1989), por um erro no foco da questão. Para este autor, não se trata de definir como escrever o crioulo, mas sim, para quê, ou seja, com que finalidade e em que perspectivas econômicas, sociais e culturais.

A grande causa deste equívoco seria o fato de se querer ideologizar uma questão que deveria se ater a fatores objetivamente analisáveis. Yves Déjean, por exemplo, famoso lingüista haitiano no seu livro “Comment écrire le créole haïtien” (1980), já comentava o forte ataque lançado à grafia de MacConnel,

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vista como herdeira do imperialismo americano, dando-nos a justa medida do nível ideológico que tomou a discussão 46 :

―Il y a quelque ironie à noter que l'orthographe RD [René Descartes- Université de Paris V] venue de Paris en 1975, reprend à

son compte le graphème w, ce ―compromis rejeté par le peuple‖, selon

] Il y a trente ans

ces graphies [bwa, pwa], prônées aujourd'hui par les agents de la francophonie portaient des Haïtiens bilingues à repousser avec horreur la système de McConnell au nom et pour la défense de l'aspect français de la culture locale et à crier à la mainmise américaine.‖

l’expression fort peu vraie de Pressoir (1947: 70) [

O lugar eventual do crioulo na formação em geral depende certamente de fatores sociolingüísticos e socioculturais ligados às situações de diglossia, mas depende também, e sobretudo, de objetivos econômicos. É necessário saber em primeiro lugar o lugar desejado pelo crioulo (na escola, na alfabetização dos adultos, na educação informal, etc.) e a função atribuída a ele (meio de ensino em que limites e até que nível , objeto de ensino e lugar das outras línguas se há ou não lugar).

Estes aspectos são particularmente importantes para os problemas posteriores de escolha de grafia. Assim, no caso limite, onde um sistema optaria pelo crioulo como meio único de ensino sem aprendizagem posterior de L2, as escolhas gráficas perderiam uma parte de sua importância, sendo as únicas objeções técnicas, a coerência interna e a simplicidade de emprego. Nos casos em que o ensino de uma L2 é visado e sobretudo, se no estágio escolar, pretende-se mudar de meio de ensino (passando do crioulo empregado nos dois ou três

46 DEJEAN, Yves. Comment écrire le créole haïtien. Montréal: Collectifs Paroles, 1980, p. 181. apud CHAUDENSON, R. op. cit. 1989, p. 175. “Que ironia quando se percebe que a ortografia RD [René

Descartes Universidade de Paris V] vinda de Paris em 1975, retoma por sua conta o grafema w, este “compromisso rejeitado pelo povo”, segundo a expressão muito pouco verdadeira de Pressoir (1947:

há trinta anos, estas grafias [bwa, pwa], elogiadas hoje pelos agentes da francofonia, levavam

os haitianos bilíngües a rejeitar horrorizados o sistema de McConnell em nome e defesa do aspecto

francês da cultura local e a gritar contra a intervenção americana.”

70) [

]

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primeiros anos para uma L2), o problema muda radicalmente. É particularmente importante se, como no Haiti, por exemplo, a L2 é o francês.

Na verdade, o francês e o crioulo haitiano têm relações evidentes (mesmo sendo línguas diferentes) e é fácil compreender que o problema seria totalmente diferente caso se passasse por exemplo, do crioulo haitiano ao árabe ou ao chinês.

Qualquer instrumentalização do crioulo (e a decisão de um código gráfico é etapa essencial do processo) implica então integração de três ordens maiores de fatores:

Econômicos (que papel o crioulo vai ter particularmente na formação de seus falantes e como se realiza a articulação entre formação e emprego; que tipos de formação visa-se assegurar, a que empregos conduzem e como a política geral de desenvolvimento nacional integra esses dados ?).

Sociais (sociolingüísticos e socioculturais). Qual a percepção que se tem desses problemas ? Quais são os pontos de consenso, de impasses? Quais são as reações e as posições das categorias socioprofissionais particularmente envolvidas ?

Lingüísticos. Problemas de variação geográfica e/ou social. Existe ou não sistemas já em uso? Como será a organização da estratégia de transição “um meio a outro, por exemplo, se o sistema educativo utiliza, simultânea ou sucessivamente vários meios ?

O lingüista só deve intervir nessas questões uma vez que tenha obtido as respostas prévias a toda escolha de código gráfico. É evidente, por outro lado, que estas investigações liminares são essenciais não apenas para o ajuste do código gráfico, mas sobretudo para o conjunto de toda política de planejamento lingüístico (normalização, neologismos, etc).

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E é justamente a não-explicitação dos antecedentes das escolhas gráficas o que dá livre curso aos processos de “ideologização” do debate. Nessas condições, os interesses reais e maiores dos Estados e das populações não são levados em conta (mesmo que o acaso possa conduzir a escolhas que não sejam necessariamente más).

Escolher um código gráfico para o crioulo haitiano levando em conta elementos que o aproximam do sistema francês, pode não ter nada a ver nem com a escolha de uma grafia etimológica, nem com qualquer imperialismo lingüístico do francês.

A justificativa dessas escolhas pode não ser nem histórica (relação genética do francês com o crioulo) nem estrutural (parentesco relativo dos sistemas), mas se ater a uma escolha econômica e política eventual (lugar do francês, por exemplo).

O papel do lingüista não é nem vaticinar sobre o futuro do crioulo, nem lançar operações de preservação “de espécies lingüísticas em vias de extinção”, mas de dar os meios técnicos de uma política aos objetivos claramente definidos. Uma vez determinadas as funções das duas línguas (crioulo e francês), torna-se, senão fácil, ao menos possível, fazer escolhas claras e justificadas visando a atingir da forma mais eficaz os objetivos desejados.

Chaudenson (1989), por exemplo, defende que o francês é para os crioulófonos a língua internacional, de alguma forma “natural” e que a cultura francesa (no sentido antropológico) é uma componente maior das culturas crioulas. Por essa razão o francês seria mais fácil de ser aprendido por crioulófonos como língua L2 do que por locutores de qualquer outra língua. Daí resulta segundo esse autor que, se o Haiti adota um sistema educativo onde coexistam o crioulo haitiano e o francês (como meio), parece-lhe razoável fazer a escolha de um código gráfico relativamente próximo do francês (que tem a

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vantagem de não bater de frente com os formadores alfabetizados em francês por um sistema tão diferenciado; de pôr em prática estratégias adotadas de aquisição de L2 (francês) em relação a L1 (crioulo haitiano): um dos elementos dessas estratégias pode ser uma relativa compatibilidade dos códigos gráficos das duas línguas.

Louis-Jean Calvet, em artigo bastante conhecido 47 afirma que não é ao acaso que o problema da grafia do crioulo está hoje no centro de muitas polêmicas. Com efeito, segundo o sistema dotado, insiste-se seja sobre a filiação do crioulo a uma outra língua seja sobre a autonomia e faz-se, portanto, passar através da grafia escolhida aquilo que se pensa do crioulo. Este autor cita o exemplo de uma canção do reunionês Daniel Waro transcrita de duas maneiras:

bann créol avan zot iéné lé paré pou anbarké pou la frans dann péi la fré pou angrès bézér d paké

bane créole avant z'aut i est né l'est parés pou embarquer pou la France dan pays la frais pou engraisse baiseur d'paquet

É nítido que certas unidades facilitam a leitura da segunda (à direita) por um francófono, ao passo que a versão da esquerda tende a fazer do crioulo uma forma lingüística diferente do francês. Os estudos lingüísticos ajudam então o lingüista a centrar sua análise no problema fundamental: o das relações entre forma lingüística, sentimento lingüístico e função social.

47 CALVET, L-J. Ce

que la linguistique doit aux études créoles in Etudes créoles, vol.XV, n. 2.

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9.3 É POSSÍVEL E NECESSÁRIO ESCREVER EM CRIOULO ?

Se fizermos um passeio pelos mais variados foros de internet que discutem a questão da língua crioula no Haiti, notamos que um sentimento comum para grande parte dos crioulófonos, antes de qualquer reflexão sobre o assunto, é simplesmente que o crioulo não pode ser escrito. Enquanto muitos se envolvem no debate que procura discutir o melhor nome para a língua crioulo haitiano ou simplesmente haitiano , o que já evidencia o nível de ideologização do debate, outros ainda questionam até o fato de se chamar o crioulo de língua.

Da parte de muitos escritores é comum a queixa do “vazio lexical” da língua crioula. Vazio, aliás, do qual se queixava Ronsard, por exemplo, em relação à língua francesa do século XVI, quando falava no Prefácio de La Franciade da dificuldade de se escrever em francês:

"Il est fort difficile d'écrire bien en notre langue si elle n’est enrichie autrement qu’elle n'est pour le présent de mots et de diverses façons de parler. Ceux qui écrivent journellement en elle savent à quoi leur en tenir; car c'est une extrême gêne de se servir toujours d’ ―un même mot.‖ 48

Da dificuldade de se escrever em crioulo49 é, aliás, o título de um artigo do poeta haitiano Georges Castera. Neste artigo, Castera faz um desabafo da dificuldade de ser escritor hoje no Haiti, por conta desta escrita ainda em

48 apud HAZAEL-MASSIEUX, Marie-Christine. Ecrire en créole. Paris: L‟Harmattan, 1993, p. 11

49 CASTERA,

Georges.

De

la

difficulté

d’écrire

en

créole.

Disponível

na

internet

no

site:

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construção. No plano lexical, por escassez de dicionários 50 , o investimento na língua é parcial. O escritor deve apelar ao uso quotidiano da língua e à memória. As palavras antigas se perdem por falta de uso e as novas continuam seu percurso até desaparecer por falta de uma fixação escrita ou de ter encontrado novos campos de aplicação. E como a língua escrita está em construção, cabe também ao escritor haitiano inventar seu leitor. A grande questão que se impõe a Castera é pensar se no futuro o Haiti terá uma literatura sem leitor ou uma literatura sem língua.

Cabe abrir um parêntese para tratarmos da questão dos dicionários. Ao contrário do que afirma Georges Castera, já há dicionários para quase todos os crioulos franceses, mas é necessário precisar o que se entende por este nome, pois a maior parte dos documentos são constituídos de fato por listas de palavras, às vezes relativamente importantes (7.000 ou 10.000 palavras ou mais), mas nem sempre são verdadeiros dicionários: privados de estrutura, redigidos sem respeito às regras de base em lexicografia, deixam sempre o leitor indeciso ou perplexo. São sempre dicionários bilíngües e não escapam à influência da língua de referência, francês ou inglês. Os dicionários destas línguas servem freqüentemente de modelo, o que leva absolutamente a se procurar uma tradução para todas as palavras do dicionário europeu e deixa forjar uma palavra crioula não atestada para corresponder a uma entrada, ou a ignorar formas crioulas específicas, uma vez que não tenham equivalente em francês ou inglês. É claro que esses dicionários já apresentam uma utilidade inegável e serão utilizados largamente para estudar os crioulos. Dicionário monolíngüe de crioulo haitiano até o momento só existe um. Vejamos quais são os principais dicionários existentes em crioulo haitiano:

Jules Faine, 1974 : Dictionnaire français-créole, Canada, Ottawa, Léméac, 479 p. [primeiro trabalho lexicográfico de grande

50 Queremos dizer aqui dicionário monolíngüe. Tudo o que há até hoje são alguns glossários e dicionários bilíngües. O primeiro dicionário monolíngüe de crioulo haitiano foi editado em 2006, já está na segunda edição e consta de 20.000 palavras.

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envergadura, publicado postumamente. Esforço no sentido de demonstrar que esta língua tem uma capacidade de expressão igual à do francês padrão. A metodologia peca pela ausência de controle rigoroso dos termos crioulos junto aos locutores e pela escolha de um termo francês padrão como ponto de partida. Representa todavia um recurso lexicográfico de grande valor].

Bentolila, Alain, et al., 1976 : Ti diksyonnè kréyol-franse, Haïti, Port- au-Prince, Ed. Caraïbes, 511 p. [primeiro dicionário crioulo-francês elaborado segundo um procedimento sistemático. Este dicionário, fundado sobre um corpus recolhido junto a falantes da zona de Gonaïves, ilustra a ortografia proposta pela equipe da Universidade de Paris V e oficializada em 1979 pelo Departamento de Educação Nacional. O dicionário apresenta o vocábulo crioulo haitiano em ortografia e em transcrição fonética, a tradução francesa, e um exemplo acompanhado de sua tradução em francês padrão].

L. Peleman, 1976 : Dictionnaire créole-français, Haïti, Port-au-Prince, Bon Nouvèl, 209 p. [Adaptação francesa de um dicionário crioulo- holandês anterior. Este dicionário emprega a ortografia Faublas- Pressoir, trazendo em particular precisões sobre o crioulo do Norte].

Albert Valdman et al., 1981 : Haitian Creole-English-French Dictionary, 2 vol., USA, Blommington, IN, Creole Institute, 582 p. + 142 p. [Embora já antigo e sumariamente impresso, este primeiro dicionário trilíngüe para o crioulo presta ainda grandes serviços. A primeira parte contém cerca de 12.000 entradas, apresentando o vocabulário crioulo em ortografia oficial (IPN - Departamento de Educação Nacional), suas variantes fonológicas, seus equivalentes franceses e ingleses e uma frase ilustrativa. A segunda parte contém um índice francês-crioulo e inglês-crioulo].

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Albert Valdman, Charles Pooser, Rosevel Jean-Baptiste, 1996 : A Learner's Dictionary of Haitian Creole, USA, Bloomington, Creole Institute, Indiana University, 529 p. [Concebido para a aprendizagem dos anglófonos, e então, dicionário inglês-crioulo, este dicionário constitui entretanto uma documentação rica e completa para descobrir o crioulo haitiano. Numerosos exemplos ou expressões, apresentados a partir da forma inglesa, já que tal é o objetivo de um tal dicionário, são da maior utilidade. Muito completo].

Bryant Freeman, Jowel Laguerre, 1996 : Haitian - English Dictionary, USA, Lawrence, Kansas / Haïti, Port-au-Prince, Institute of Haitian Studies, University of Kansas / La Presse Evangélique, 621 p. [Publicado no mesmo ano do dicionário anterior, totalmente desprovido de exemplos, mas partindo da forma crioula, ele completa agradavelmente o dicionário anterior, permitindo consultar entradas em crioulo; pode-se em seguida completar a análise, e encontrar exemplos de empregos a partir da tradução inglesa, retornando ao dicionário de Valdman. Apesar da "simplicidade" deste dicionário, da limitação des sons repertoriados, do incômodo engendrado pelas categorizações às vezes um pouco abusivas, pela ausência completa de exemplos, ausência de qualquer dado etimológico, etc.), a rica nomenclatura deste dicionário é muito apreciável já que contém 35.000 palavras].

Vilsaint, F. & Hertelou, M. Diksyonè Kreyòl Vilsen. Port-au-Prince:

Areytos, 2006. Primeiro dicionário monolíngüe de crioulo haitiano. Já está na segunda edição e traz vinte mil verbetes.

O reconhecimento de uma língua (reconhecimento sociolingüístico que precede, de fato, em parte, a entrada da escrita dessa língua) e sua escrita não se faz do dia para a noite, nem mesmo em um século. Às vezes são necessários

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vários séculos de trabalho paciente, de contestações, de tenacidade. Poder-se-ia dizer que hoje o crioulo se encontra bem anterior ao estágio que acabamos de evocar à propósito do francês clássico: se fosse o caso, poderíamos dizer que ele estaria um pouco como esteve o francês no início do Renascimento: as potencialidades da língua ainda não foram totalmente exploradas. Os que ousam escrever se queixam da pobreza da língua e se encontram freqüentemente numa posição muito desconfortável em relação a todos aqueles que, mais prudentes, preferem só escrever na língua reconhecida como apropriada para este uso (no século XVI, o latim: no Haiti de hoje, o francês).

No momento em que muitos locutores estariam dispostos a devolver prontamente o crioulo a seu status de língua destinada exclusivamente às comunicações orais, vale lembrar, entretanto, que os testemunhos escritos não faltam no que diz respeito ao crioulo. Desde o início da colonização (fins do século XVII), dispomos de textos escritos em crioulo. É verdade que não são muito numerosos no período que vai do século XVII ao século XIX e podem ser classificados em três categorias:

As diversões dos letrados: é lá que devemos situar as seleções de textos de literatura oral (contos, provérbios,etc.), mas também, um certo número de poemas escritos em crioulo, como o famoso “Lisette quitté la plaine” de Duvivier de Mahautière. Estes textos são escritos por autores todos letrados em francês, quer dizer, por pessoas que têm sobretudo um conhecimento excelente do francês escrito e que se esforçam, às vezes com certo talento, para criar também uma literatura crioula, afim, precisamente, de divertir outros letrados que não deixam de apreciar a transcrição. Dirigem-se a pessoas da mesma categoria social delas. Não se trata de modo algum de literatura popular (não nos esqueçamos que naquela época o povo não sabia ler).

Textos destinados à evangelização: trata-se de catecismo, de traduções

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de passagens dos Evangelhos. Os autores aqui são missionários que visam a formar na religião e a converter populações iletradas que eles alfabetizam ao mesmo tempo. Através do crioulo, procura-se tornar mais acessível às pessoas que não falam francês e, conseqüentemente, que também não o escrevem, alguns aspectos fundamentais da doutrina cristã.

Os documentos destinados à informação das populações. É nessa categoria, cujo aparecimento é mais tardio (século XIX) que se devem situar as famosas proclamações de Napoleão Bonaparte ou os textos anunciando a abolição da escravatura. No mesmo filão e acessíveis ao conjunto da população, informações práticas importantes para a saúde, os trabalhos agrícolas, que são numerosos no Haiti.

Paralelamente a esses textos, no curso da história do crioulo, efetuam-se pouco a pouco um certo trabalho sobre a língua. Dos glossários, passa-se progressivamente aos dicionários e às gramáticas. Aparentemente, tudo isto não é suficiente para constituir o crioulo haitiano em uma língua escrita, pois as críticas dos locutores face às tentativas de escrita são importantes. Por outro lado, os trabalhos existentes, continuam a ser trabalhos de “especialistas”, atingindo muito pouco o grande público, que continua a se perguntar, paradoxalmente, se os crioulos são verdadeiramente línguas.

Diante dessa constatação do caráter ainda essencialmente oral do crioulo para os locutores, mesmo quando são produzidos dicionários, gramáticas e outras ferramentas simbólicas e praticamente úteis para a instrumentalização da língua, pode-se ensaiar uma explicação: Segundo Marie-Christine Hazaël-Massieux (1993), o acesso à escrita por uma língua se faz por etapas sucessivas num processo cujo desenrolar é longo. De uma língua oral falada, passa-se a uma língua oral simplesmente transcrita, que ainda está muito distante de uma verdadeira escrita: é mais ou menos a etapa onde se situa o crioulo nos dias de

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hoje, em que se procura, pela grafia, às vezes até mesmo um pouco “caricatural”, ser fiel ao transcrever a pronúncia precisa de cada crioulófono, procurando preferentemente o crioulo dos monolíngües, o “verdadeiro” crioulo, “le gros créole”. Para que se esteja certo de que não há nenhuma contaminação do francês.

A língua escrita supõe que não haja mais simplesmente uma transcrição do