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ISSN 1676-9791

ANO 14 | n o 164 | R$ 13,90 | 4,90 €

Janeiro 2016

www.sciam.com.br

10 ideias

mundo

Grandes avanços para melhorar a qualidade de vida, impulsionar a computação, reduzir a poluição e promover a sustentabilidade

ASTRONOMIA

Rivalidade entre grupos de pesquisa prejudica projeto de grandes telescópios

DINOSSAUROS

Impacto de asteroide foi de fato devastador, mas o momento foi um dos piores possíveis

AMBIENTE

Após se alastrar pelo Sul e Sudeste, o mexilhão-dourado chegou ao Rio São Francisco

INOVAÇÃO

BRASIL

24

Ideias para mudar o mundo

10 grandes avanços para melhorar a vida, transformar a computação e talvez até salvar o planeta. Os editores

MEIO AMBIENTE

36

O invasor dourado

Originário da Ásia e detectado na América do Sul em 1991, o molusco mexilhão-dourado foi encontrado no Rio São Francisco. Arthur C. Almeida, Newton P. U. Barbosa, Fabiano A. Silva, Jacqueli- ne A. Ferreira, Vinícius de Abreu e Carvalho, Marcela D. Carvalho e Antônio V. Cardoso

PALEONTOLOGIA

42

O que matou os dinossauros

O impacto do asteroide foi ruim, mas seu momento foi pior. Stephen Brusatte

ASTRONOMIA

JANEIRO 2016

NÚMERO 164, ANO 14

49

Guerra de telescópios

J

nei o 2016

www s iam om br

Antigos rancores entre três equipes de astrônomos têm ameaçado a sobrevivência do maior e mais ousa- do projeto de astronomia em solo. Katie Worth

 

ANO 14 | n

64 | R$ 13 90 | 4 90 €

 

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para mudar o

mundo

Grandes avanços para melhorar a qualidade de vida, impulsionar a computação, reduzir a poluição e promover a sustentabilidade

 

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ASTRONOMIA

DINOSSAUROS

AMBIENTE

 
 

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validade entre grupos de

mpacto de asteroide foi de fato

Após se alastrar pe o Sul e

 

pesquisa prejud ca projeto

devastador, mas o momento foi

Sudeste, o mexilhão-dourado

de

grandes telescóp os

um dos piores possíveis

chegou ao R o São Francisco

 

MEDICINA

55

Genômica para as pessoas

NA CAPA

 

Clínica infantil fundada e financia- da por amish e menonitas mostra que a pesquisa genética de alta tec- nologia pode ser direcionada para prevenir doenças. Kevin A. Strauss

A edição atual de “Ideias para mudar o mundo” mostra o levantamento da de avanços da ciência e da tecnologia com entre os principais a serem enfrentados pela sociedade em áreas como energia, segurança ambiental, informática, exploração espacial e outras. Ilustração de Tavis Coburn.

7

9

20

BRASIL

ESPECIAL

Já está nas bancas o volume 2 de “A Ciência de Cães e Gatos” (à direita), edição especial da Scientific Ame- rican Brasil. Além de temas

SEÇÕES

5

Carta do editor

 

6

Cartas

CIÊNCIA EM PAUTA

7

O preço da poluição

Está na hora de taxar combustíveis fósseis. Pelo Conselho de Editores da Scientific American

 

8

Memória

 

9

Avanços

Dinheiro fala e tuíta.

O

curioso cortejo rotativo de uma espécie de morcegos.

Neutrinos do início dos tempos. Químico desenvolve técnica para identificar odores.

 

CIÊNCIA DA SAÚDE

 

16

A dor no cérebro

Nova teoria sobre a enxaqueca dá origem a medicamentos que evitam crises. David Noonan

TECNOLOGIA

 

18

A guerra digital

O

que fazem as grandes companhias desse setor para atrair

você para seus ecossistemas. David Pogue

 

OBSERVATÓRIO

19

Pingue-pongue e raios cósmicos

 

Ao rebater e impulsionar partículas, campos magnéticos funcionam como raquetes. Otaviano Helene

DESAFIOS DO COSMOS & CÈU DO MÊS

 

20

Civilizações superdiscretas

 

Se houver vida inteligente fora da Terra, talvez seus sinais sejam muito recatados.

21

Cometa vem com chuva de meteoros

 

Catalina atinge brilho máximo e se exibe na constelação do Boieiro, antes de se esconder em definitivo no Hemisfério Norte. Salvador Nogueira

CIÊNCIA EM GRÁFICO

 

66

O jogo da bactéria

Análise do pó revela como a presença de homens, mulheres, cães e gatos afeta a variedade de microrganismos domésticos. Mark Fischetti

 

EDIÇÃO ESPECIAL CÃES E GATOS 2

científicos sobre os dois animais do-

que peso um cão pode ser conside-

http://www.lojasegmento.com.br

www sc am com br

mésticos mais presentes na vida humana, os artigos abordam também

 

rado obeso? Os gatos veem seus donos como familiares? Os volumes 1

de A

ciência

Cães

A Como

a dos vida

interior

felinos

evitar

gestação

Animais

nossa relação com eles. Como é o mundo visto pelos cães? A partir de

e 2 também estão à venda no site

O por da partir O

problema

obesidade

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visto

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lobo

sentem

empatia?

Gatos

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I S N 1 79 5 22 9

N

º 67 R$ 13,90 4,50

NEWTON P. U. BARBOSA

é editor da .

CARTA DO EDITOR

Os sotaques brasileiros do molusco asiático

Há alguns anos, pescadores em rios de algumas das bacias da regiões Sul, Sudeste e Centro-oeste do Brasil às vezes têm uma sur- presa desagradável. Ao limpar, antes de assar, piaparas, mandis, piaus cascudos, pacus e outras espécies que fisgaram, eles encon- tram estranhas conchas nas vísceras desses peixes. Na verdade, por não poderem excretar esses moluscos que foram ingeridos ainda na forma de minúsculas larvas, muitos peixes acabam mor- rendo devido ao entupimento de seu trato intestinal. Essa surpresa indesejada tem acontecido também em instala- ções de captação de água para abastecimento e geração de energia hidrelétrica, prejudicando inclusive usinas de grande porte, como a de Itaipu, na fronteira entre Brasil e Paraguai no Rio Paraná, a de Ilha Solteira, no mesmo rio, na divisa entre São Paulo e Mato Gros- so do Sul, e a hidrelétrica de Água Vermelha, no Rio Grande, na di- visa de São Paulo e Minas Gerais. Como não é possível desentupir tubulações atingidas por essa praga, o jeito é substituí-las. Esse invasor é o mexilhão-dourado, originário da Ásia e conhe- cido pelo nome científico Limnoperna fortunei. A mortandade de peixes e o estrago em tubulações são apenas parte de danos de ex- tensão muito maior devidos à infestação desse molusco, explicam pesquisadores do Centro de Bioengenharia de Espécies Invasoras (CBEI) e da Companhia Energética de Minas Gerais (CEMIG), em seu artigo nesta edição de Scientific American Brasil. Limitada no Brasil até então às regiões Sul, Sudeste e Centro- oeste, a presença dessa espécie invasora foi detectada em junho do ano passado por técnicos do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), ao procederem a uma vistoria no reservatório da usina hidrelétrica de Sobradinho, na Bahia. Ou seja, a infestação chegou ao sertão nordestino e em pleno Rio São Francisco, que passa por cinco estados – Minas Ge- rais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas – e 521 municípios bra- sileiros, por isso conhecido como “Rio da Integração Nacional”. E próximo a um dos canais da enorme obra de transposição, em um momento especialmente grave, marcado pela prolongada estia- gem que tem prejudicado a economia e a população dessa região.

Até o início de dezembro, o Ibama não havia divulgado esse fato para o público em geral. Em nota para meu blog no site do jornal Folha de S.Paulo, o órgão afirmou a necessidade de que “o MMA [Ministério do Meio Ambiente] conduza os debates, sendo o Ibama não mais que o executor das políticas daquele ministé- rio. No momento, nem sequer existem recursos no Ibama desti- nados ao controle de espécies exóticas invasoras”. Felizmente, em outubro, a equipe de pesquisadores do CBEI e da CEMIG foi a Sobradinho e confirmou a presença do molusco invasor. E divulgou um boletim de alerta nos dias seguintes. Em dezembro, em Paris, na COP-21, a ministra do Meio Am- biente, Izabella Teixeira, falou que, graças à atuação do Brasil, o acordo sobre a mudança do clima, então em finalização, iria ter “sutaque brasileiro” [sic]. Infelizmente, após todos esses anos de- baixo do nariz do MMA, a infestação do mexilhão-dourado já tem vários sotaques brasileiros, entre eles o gaúcho, o caipira do Sul de Minas e São Paulo e, agora, o baiano. Por enquanto. Boa leitura!

ALGUNS COLABORADORES

Arthur C. Almeida, , , e

é analista de meio ambiente da Companhia Energética de Minas Gerais (CEMIG) em Belo Horizonte, MG.

é colunista- âncora do Yahoo Tech e apresentador das minisséries NOVA na PBS.

é doutor pela Faculdade de Medicina da Universidade Harvard e diretor médico da Clínica para Crianças Especiais em Strasburg, Pensilvânia

trabalhado em áreas que incluem tratamento estatís- tico de dados experimentais. Tem se dedicado também a trabalhos de

é paleontólogo da Universida- de de Edimburgo, na Escócia. Ele pesquisa evolução e anatomia de dinossauros. No artigo anterior que

são

pesquisadores

escreve

Katie Worth é uma repórter do Frontline, uma produção

escreveu para a

do Centro de Bioengenharia de Espécies Invasoras (CBEI) em Belo Horizonte, MG.

sobre ciência e medicina. Ele abordou tratamentos para vertigem na edição de setembro.

televisiva da WGBH, em Boston. Ela passa tempo pensando em política, ciência e suas intersecções.

mestre e doutor em física pela Universidade de São Paulo, onde é professor, tem

é jornalista de ciência especializado em astronomia e astronáutica.

American ele analisou a ascensão dos tiranossauros.

SN

CARTAS

REDACAOSCIAM@EDITORASEGMENTO.COM.BR

Dez mbro 2015

www c am com br

ANO

4 | n

163 | R$ 13 90 | 4 9

Dez mbro 2015 www c am com br ANO 4 | n 163 | R$ 13

O EFEITO PIRÂMIDE

Achei muito esclarecedora a matéria sobre como foi possível há milhares de anos os egípcios construírem esses gigantescos monumentos que são as pirâmides. Enfim, não existe mistério nenhum. O “segredo”, como

bem explicou a revista, existia apenas por desconheci- mento, que muitas vezes deu espaço para charlatões aproveitarem para fomentar o ocultismo oportunista e vender livros mistificadores. É muito bom poder contar com a divulgação de informações esclarecedo- ras e desmistificadoras como essas, deste mês de dezembro (edição nº 163), da Scientific American Brasil. Obrigado!

O

segredo

das

pirâmides

Por

trás dessas grandes obras

m

lenares existia uma complexa

organização social capaz de unir todos

os

recursos e esforços do ntigo Egito

MEDICINA

Nanossessores estão cada vez mais próximos de diagnos icar infecções em m nutos

COSMOLOGIA

Os primeiros passos do proje o para expl car a expansão cada vez mais rápida do Universo

AGRICULTURA

e cientistas agrava praga que atinge olivais italianos

EDIÇÃO 163

CHIPS EVITAM TESTES COM ANIMAIS

Parabéns aos pesquisadores alemães que estão desenvolvendo essa maravilhosa tecnologia que permite à ciência, sem maltratar seres vivos, continuar o desenvolvimento de novos medicamentos e até mesmo de novos cosméticos – pois a vaidade faz muita gente esquecer ou descon- siderar a crueldade cometida contra os animais em experimentos. Para- béns aos brasileiros que estão trazendo essa tecnologia para nosso país. E parabéns para a Scientific American Brasil [edição de novembro (nº 162)] por divulgar essa informação.

Sensacional a revista de novembro [edição nº 162] sobre os chips feitos por cientistas para livrar animais da crueldade em experimentos científicos.

A edição de vocês de novembro foi show também. Eu a li toda e em pouco tempo.

100 ANOS DA RELATIVIDADE GERAL

Adorei a edição da Scientific American Brasil de outubro [nº 161], que comemorou os 100 anos da teoria da relatividade geral de Albert Einstein. Fiquei espantada por saber das informações sobre as dificul- dades enfrentadas por ele na elaboração dessa teoria e também dos pre- conceitos dele sobre outros conhecimentos da ciência.

CORREÇÕES

A ScientificAmerican dos Estados Unidos publicou as seguintes cor- reções que correspondem à nossa edição de outubro (nº 161). 1) No artigo “Onde Einstein errou”, na pág. 46, está errada a afirmação “Einstein tinha feito os mesmos cálculos da curvatura da luz em 1912”, pois o fato se deu em 1911. 2) Esse erro de data se repetiu na pág. 48, no infográfico complementar ao mesmo artigo, “Os grandes erros de Einstein”, em seu item “Lentes gravitacionais”.

POR RESTRIÇÃO DE ESPAÇO, A REDAÇÃO TOMA A LIBERDADE DE ABREVIAR CARTAS MAIS EXTENSAS.

6 Scientific American Brasil | Janeiro 2016

Brasil

Edimilson Cardial Carolina Martinez, Marcio Cardial, Rita Martinez e

Rubem Barros

ANO 14 – Nº 164 JANEIRO DE 2016 ISSN 1676979-1

Rubem Barros Maurício Tuffani João Marcelo Simões Jullyanna Salles (web) Luiz Roberto Malta

e Maria Stella Valli (revisão); Aracy

Mendes da Costa, Laura Knapp, Marcio G. B. Avellar, Regina Cardeal, Suzana Schindler (tradução)

Paulo Cesar Salgado Cinthya Müller Sidney Luiz dos Santos

Almir Lopes almir@editorasegmento.com.br

Brasília – Sonia Brandão (61) 3321-4304/ 9973-4304 sonia@editorasegmento.com.br Paraná– Marisa Oliveira (41) 3027-8490/9267-2307 parana@editorasegmento.com.br

Paulo Cordeiro Diego de Andrade

Carolina Martinez Carolina Madrid Lila Muniz Jonatas Moraes Brito Lucas Carlos Lacerda

e Lucas Alberto da Silva Gabriel Andrade

Mariana Monné Ana Lúcia Souza Cláudia Santos Cleide Orlandoni

Roseli Santos Simone Melo Weslley Patrik Cláudia Barbosa Cinthya Müller Viviane Carrapato

SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL é uma publicação mensal da Editora Segmento, sob licença de Scientific American,

SCIENTIFIC AMERICAN INTERNATIONAL Mariette DiChristina Fred Guterl Ricki L. Rusting Philip M. Yam Mark Fischetti

Christine Gorman, Anna Kuchment, Michael Moyer, George Musser, Gary Stix, Kate Wong Michael Mrak Monica Bradley Steven Inchcoombe Michael Florek

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O preço da poluição

Está na hora de taxar combustíveis fósseis

Dos editores

Na Colúmbia Britânica, a poluição do ar diminui, enquanto a economia cresce. Em 2008, a província canadense começou a taxar usuários de combustíveis fósseis, de grandes fábricas a pro- prietários de automóveis. Desde então, a economia vem crescen- do, em média, cerca 2% ao ano, apesar da grande recessão nacio- nal que atravessou em 2009, superando o resto do Canadá. No mesmo período, o consumo de gasolina, carvão e outros combustí- veis à base de carbono diminuiu 16%, com redução paralela dos gases estufa. O imposto sobre o carbono é de 30 dólares canaden- ses por tonelada cúbica. Como compensação, indústrias e cida- dãos têm redução no imposto de renda e outros benefícios. A Colúmbia Britânica copiou a ideia de sua vizinha produtora de petróleo, a província de Alberta. Agora é a hora certa para os Estados Unidos copiarem esse exemplo. Carvão, gás e petróleo estão tão baratos atualmente que mesmo com um imposto adicio- nal, o custo dos combustíveis permanecerá mais baixo que o valor que a população e as empresas pagavam há apenas alguns anos. Isso é economia básica de mercado: se for cobrado um valor sobre o uso do ar, as pessoas não o tratarão mais como um depósito de lixo. A ideia é antiga. Em 1920 o economista Arthur Pigou suge- riu que obrigar poluidores a pagar pelo ar que poluíam desencora- jaria uma descarga abusiva de poluentes, no mesmo modelo dos impostos sobre artigos supérfluos como bebidas alcoólicas e cigar- ros. Anos depois, o já falecido economista Ronald Coase, Nobel de

CIÊNCIA EM PAUTA

OPINIÃO E ANÁLISE DO CONSELHO EDITORIAL DA SCIENTIFIC AMERICAN

Economia em 1991, aprimorou a ideia. Ele propôs que o governo vendesse às companhias e pessoas o direito legal de poluir, for- mando uma espécie de mercado da poluição. Todos podiam con- correr para comprar essas permissões, o que elevaria o preço do ar sujo. A ideia de Coase convenceu até o ícone conservador Milton Friedman de que comercializar, comprar ou vender direitos de poluir eram o meio racional de resolver problemas ambientais. Mais recentemente, os EUA usaram esse mecanismo de merca- do para combater um problema específico de poluição: a chuva ácida. Nos anos 1990 a administração George Bush impôs um limite máximo na quantidade de dióxido de enxofre que poderia ser emitida pelas chaminés das usinas de energia elétrica. Cotas dessas quantidades foram divididas entre os poluidores. Para se

manter dentro da cota, os proprietários de usinas de energia deve- riam instalar equipamentos para filtrar os poluentes ou usar com- bustíveis menos poluentes. Ou poderiam desembolsar uma boa quantia para aumentar sua cota, comprando permissões de outros poluidores que já tivessem reduzido suas emissões. Para combater o dióxido de carbono nove estados do nordeste dos EUA aderiram a um programa similar para usinas de energia,

e a Califórnia até incluiu veículos, como fez a União Europeia. Mas as tentativas em nível nacional foram rejeitadas pela oposição como um imposto a mais, o que poderia custar empregos. Uma abordagem mais direta – cobrar imposto sobre o carbono

– poderia ter benefícios imediatos para os negócios e não signifi-

caria uma conta final mais alta. Como foi feito na Colúmbia Britânica, o imposto sobre o carbono poderia substituir outros impostos. Uma taxação de US$ 25 por tonelada de carbono emiti- da por queima de carvão, gás e petróleo, por exemplo, resultaria em mais de US$ 100 bilhões que poderiam ser compensados reduzindo impostos na folha de pagamento, estimulando créditos que seriam deduzidos do imposto de renda, financiando pesquisas em inovação ou revertendo em melhoria de infraestrutura, ou qualquer combinação dessas medidas. Foi por isso que a proposta recebeu apoio de economistas dos partidos Democrata e Republi- cano. O imposto também não penalizaria os consumidores. Na Colúmbia Britânica a cota de impostos na bomba de gasolina é de apenas cerca de sete centavos de dólar canadense a mais por litro. Se a palavra “imposto” continua assustando os políticos, não há outro jeito, se não o mais direto, para criar um verdadeiro merca- do de carbono: parar de gastar dólares arrecadados em impostos para subsidiar combustíveis fósseis. Segundo o Fundo Monetário Internacional, mais de meio trilhão de dólares são gastos, no mun- do todo, para tornar o preço do carvão, gás e petróleo mais barato para a indústria explorar ou para os consumidores queimarem. Esses subsídios dão uma falsa impressão de que os combustíveis fósseis são baratos. Qualquer abordagem que pare de mascarar o preço verdadeiro, seja um imposto, um limite de comercialização ou uma revisão dos subsídios, ajudaria a limpar o ar.

SCIENTIFIC AMERICAN, VOL. CXIV, N O 1; JANEIRO DE 1916.

50, 100 & 150 ANOS DE MEMÓRIA

INOVAÇÕES E DESCOBERTAS NARRADAS PELA SCIENTIFIC AMERICAN

Janeiro 1966

Teste com laser

“O anúncio, em 1960, de que um modelo funcio- nal de laser havia sido obtido foi celebrado com entusiasmo por militantes de diversas áreas. Como a luz produzida por essa ra- diação é coerente e monocromática, o laser foi considerado, na época, como a resposta para as preces dos engenheiros de comuni- cação. Embora um sistema funcional e prático de comunicação de longa distância por laser ainda deva ser construído, o en- tusiasmo inicial não diminuiu.”

Japoneses antes de Colombo?

“À medida que civilizações do Novo Mun- do se tornaram mais bem conhecidas ar- queologicamente, paralelos surpreenden- tes foram observados na arquitetura, práti-

cas religiosas e em estilos de arte da Ásia. Foi sugerido que esses paralelos são evi- dências de ‘descobertas’ da América, não registradas, anteriores à chegada de Co-

lombo. (

centes na costa do Equador, no entanto, le-

vam a uma única conclusão: um barco car- regado de viajantes do Japão perambulou intencionalmente pelas costas do Novo Mundo, cerca de 4.500 anos antes de Cor- tez chegar ao México. — Betty J. Meggers.”

)

Investigações arqueológicas re-

Janeiro 1916

Rodovia nacional

“Passei minhas férias deste ano numa viagem de carro para a Costa do Pacífico pela Lincoln Highway (construída em 1913). Há dois anos, quando realizei essa mesma viagem, foi um fato inusitado — talvez um dos 50 turistas que fizeram a mesma viagem. Não creio que seja exagero afirmar que nos úl- timos meses eu fui um dos cinco mil que

8 Scientific American Brasil | Janeiro 2016

tentaram chegar à Costa do Pacífico de car- ro, e realmente cheguei lá depois de uma série de experiências que fariam o autor de um popular suspense moderno corar de vergonha por falta de imaginação. É a me- lhor estrada de rodagem, a única, que liga o Atlântico ao Pacífico.”

Alguns trechos da Lincoln Highway permaneceram sem asfalto até os anos 1930.

Carros mais rápidos

“O desenvolvimento mecânico mais inte- ressante do ano foi o aumento da populari- dade dos carros com vários cilindros, re- presentados pelo motor de quatro cilin- dros duplos e de seis cilindros duplos, o primeiro formando um motor de oito cilin- dros e o último de 12 cilindros. As vanta- gens desses carros com vários cilindros são tão notáveis em todos os sentidos que não precisam de mais elaboração. (Ver ilustração.)”

Por volta de 1916, os carros motorizados tornaram- corridas esportivas em pistas de alta velocidade

Janeiro 1866

Cometa de 1861

“M. (Emmanuel) Liais, famoso astrônomo, pu- blicou cálculos provan- do inquestionavelmen- te que em 19 de junho de 1861 a Terra realmente havia passado por uma das caudas do cometa. O momen- to do contato foi aos 12 minutos depois da seis da manhã, horário do Rio de Janeiro, e segundo as dimensões calculadas por M. Liais, a Terra deve ter permanecido total- mente imersa em sua cauda por cerca de quatro horas! Essa imersão não representa efeitos perceptíveis no clima, um fato notá- vel, acrescentando mais uma razão às vá- rias que já existem, para a suposição de que a matéria cometária é um milhão de vezes mais rarefeita que nossa atmosfera.”

Em 1880 Heinrich Kreutz calculou que o período orbital do cometa era de 409 anos.

Manias

“Estranhas paixões se apoderam da humanidade em certos momentos. Moedas têm seu valor, quadros são ansiosamente adquiridos, tulipas ho-

landesas atingem preços exorbitantes

e,

ultimamente, selos postais têm sido

o

alvo das atenções. Todas essas ex-

centricidades humanas são explora- das por pessoas espertas com mentali- dade especulativa que desejam obter lucros, honestamente ou não. Alguns ilustradores de selos franceses pensa- ram que valeria a pena o esforço de desenhar novos selos postais, como ja- mais tinham sido vistos antes. Os se- los foram desenhados para serem dis- tribuídos pelo correio das ‘Ilhas Sand- wich’, e por isso foram avidamente adquiridos por compradores crédulos que imaginavam que naquela região nada seria absurdo. Os selos havaia- nos, não genuínos, são laranja, violeta, verde e outras cores do arco-íris.”

AVANÇOS

CONQUISTAS EM CIÊNCIA, TECNOLOGIA E MEDICINA

NÃO DEIXE DE LER

• Dinheiro fala e tuíta

• O curioso cortejo rotativo de uma espécie de morcegos

• Neutrinos do início dos tempos

odores

A naja indiana, Naja naja, abre seu “capuz”, ou “manto”, quando ameaçada. Ela é uma das serpentes mais mortíferas no subcon- tinente indiano.

SAÚDE

Antídotos mais eficazes

Pesquisas trazem novas perspectivas para tratar picadas de cobras

A medicina moderna é capaz de cultivar rins a partir do zero, impedir a propagação de doenças infecciosas como Ebola e diagnosticar a causa de uma tosse com um smartphone. Mas picadas de cobras ainda frustram a ciência. Todos os anos, o veneno de serpentes mata quase 200 mil pessoas e deixa outras centenas de milhares desfiguradas ou incapacitadas, tornando esses répteis escama- dos rastejantes o segundo animal mais mortífero do mundo. Só mosquitos talvez matem mais pes- soas todos os anos (ao disseminarem os protozoá- rios que causam malária). Cobras venenosas recentemente deslizaram novamente para as manchetes noticiosas quando foi revelado que líderes do mundo farmacêutico haviam decidido suspender o desenvolvimento de antídotos. A empresa farmacêutica francesa Sanofi Pasteur, por exemplo, foi destaque em setembro de 2015, quando a ONG internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) anunciou que o lote final do soro antiofídico FAV-Afrique, o único que provou tratar efetivamente vítimas de pica-

PÁGS. ANTERIORES: SURESH SHARMA Getty Images

AVANÇOS

das peçonhentas na África Subsaariana, expirou em junho. A Sanofi, único fabri- cante, suspendeu sua produção em 2014 porque a droga não compensava financei- ramente. Outras empresas já tinham tomado medidas similares, inclusive a Behringwerke, alemã, e a Wyeth Pharma-

ceuticals dos EUA (agora parte da Pfizer).

A situação terapêutica agravou-se tan-

to que a MSF agora descreve picadas de cobras como “uma das emergências de saúde pública mais negligenciadas do mundo”. E, em outubro, dezenas de espe-

cialistas que participavam do 18º Congres- so Mundial da Sociedade Internacional de Toxicologia, em Oxford, na Inglaterra, pediram que a Organização Mundial da Saúde (OMS) listasse picadas de cobras novamente como doença tropical carente de atenção. A maioria desses incidentes ocorre na África e no Sudeste Asiático.

O desenvolvimento de antídotos enca-

lhou no século 19 porque o campo é subfi- nanciado, diz David Williams, toxicologis- ta clínico e herpetólogo da Universidade de Melbourne e também dirigente da ONG Iniciativa Global contra Picadas de Cobras (Global Snakebite Initiative). Para isolar compostos para tratamentos, pes- quisadores normalmente injetam veneno em níveis subtóxicos em animais, coletam os anticorpos formados pela resposta imune e os depuram. Antídotos precisam ser customizados para diversas toxinas de diferentes espécies de serpentes por região. Não existe um antídoto universal. Apesar de obstáculos e restrições, gru- pos de pesquisa de várias partes do mun- do trabalham discretamente em soluções novas e empolgantes à espera de um sub-

sídio inesperado de dinheiro e impulso para prosseguir. Entre as novas possibili- dades se destaca um antídoto desenvolvi- do especialmente para a África Subsaaria- na, que poderia servir como modelo para a produção de compostos mais baratos para combater picadas de cobras veneno- sas de outras regiões. Pesquisadores do Reino Unido, Costa Rica e Espanha come- çaram com um “antídoto básico” compro- vado para três serpentes e já fazem sua

10 Scientific American Brasil | Janeiro 2016

triagem contra toxinas de mais cobras. Proteínas da toxina que não se ligam ao

antídoto-base são examinadas sobre sua toxicidade; somente as toxinas identifica- das como perigosas são incorporadas ao coquetel imunizante usado para produzir

o próximo lote de antídoto mais eficiente. Essa triagem seletiva e os testes iterati-

vos de proteínas específicas resultam em um antídoto direcionado mais forte em comparação com outros convencionais, que neutralizam indiscriminadamente as proteínas tóxicas e as inócuas do veneno.

O grupo também planeja reduzir custos

com um método pioneiro desenvolvido na Costa Rica, que requer menos etapas no

processo de produção. “Nossa meta é

10 por ampola. “Estou tentando fazer isso em bactérias porque podemos intensificar [a produção] mais economicamente”, diz. Para financiar sua pesquisa, Komives ape- lou ao serviço de crowdfunding (financia- mento coletivo) Experiment.com. Grupos de pesquisa em outros lugares se afastaram completamente do desenvol- vimento de antídotos tradicionais. Mat- thew Lewin, diretor do Centro para Exploração e Saúde em Viagens da Acade- mia de Ciências da Califórnia, começou a triar medicamentos aprovados pelo FDA – órgão dos EUA que controla alimentos e medicamentos – para ingredientes quími- cos que poderiam formar a base de uma injeção ou pílula que estabilize pessoas picadas no campo ou que pelo menos lhes dê

tempo para chegarem a um hospital. “Se existis- se um antídoto farma- cêutico, a pessoa sem- pre poderia levá-lo consigo”, argumenta

Lewin. Muitas mortes decorrentes de picadas de cobras peçonhentas acontecem justa- mente quando as vítimas não conseguem chegar a hospitais ou clínicas para rece- ber um antídoto intravenoso. Da mesma forma, Sakthivel Vaiyapuri, pesquisador farmacológico na Universi- dade de Reading, na Inglaterra, está trian- do moléculas que bloqueiam os efeitos de venenos de serpentes. Ele também espera acabar conseguindo desenvolver um coquetel de inibidores químicos que poderiam levar a um antídoto universal. Tratamentos modernos contra vene- nos seriam um sólido primeiro passo para reduzir mortes resultantes de picadas de cobras. Mas até as melhores terapias do mundo falharão sem financiamento e dis-

tribuição adequada. “Se os ministérios de saúde responsáveis pelo bem-estar físico das pessoas não priorizarem tratamentos contra picadas de cobras, você está baten- do sua cabeça contra uma parede de tijo- los”, resume Williams da ONG Global Snakebite Initiative. —Jeremy Hsu

O desenvolvimento de

antídotos encalhou no século 19 porque o

criar um produto mais barato, ou tão barato quanto US$ 35 por ampola, para a África Subsaariana”, diz Robert Harrison, diretor da Escola de Medicina Tropical de Liverpool, na Inglaterra. O soro antiofídi- co da Sanofi custa US$ 150 por frasco. Outros animais, e bactérias, podem fornecer antídotos alternativos. Uma pro- teína de gambá, identificada originalmen- te na década de 1990, já provou proteger camundongos contra toxinas ofídicas capazes de provocar hemorragia interna generalizada. Além disso, a proteína neu- tralizou toxinas hemorrágicas de cobras venenosas nos EUA e no Paquistão. A des- coberta sugere que ela talvez possa prote- ger contra todas as toxinas ofídicas hemorrágicas, observa Claire Komives, engenheira química na Universidade Estadual de San José, na Califórnia. Ela já demonstrou que pode modificar genetica- mente bactérias Escherichia coli para que produzam a proteína; o que poderia redu- zir o custo terapêutico para cerca de US$

APRENDIZADO DE MÁQUINAS

Dinheiro fala e tuíta

Internautas deixam pistas de seu status socioeconômico

Como sexo, dinheiro é um tema que

a maioria das pessoas evita discutir publi- camente. No entanto, deixamos regular- mente rastros digitais de nossa situação econômica, mesmo quando nos expres- samos nos 140 caracteres do Twitter. Uma análise de cerca de 10,8 milhões de tuítes postados por mais de cinco mil usuários da rede de mídia social on-line constatou que as sucintas mensagens revelar a faixa de renda de uma pessoa. Daniel Preo iuc-Pietro, pesquisador de pós-doutorado em processamento de lin- guagem natural, e seus colegas na Uni- versidade da Pensilvânia se basearam em

90% de suas amostras em grupos de ren- da correspondentes. Eles usaram um pro- grama capaz de aprender a partir de dados e fazer previsões baseadas neles, grupo. Aplicado aos outros 10% de amos- tras, o modelo previu com sucesso os Conforme os pesquisadores descreve- ram na PLOS ONE, pessoas com rendi- mentos mais altos tenderam a discutir

COMPORTAMENTO ANIMAL

Bat karaokê

Machos de morcegos cantam em rodízio para ampliar cortejos

restas ecoam guinchos e chiados de ma- chos de morcegos de cauda curta (Mystaci- na tuberculata), que cantam até 100 mil “canções românticas” por noite, mais do que qualquer outro animal, para atrair uma companheira. Eles executam suas serenatas do alto de um poleiro especial, usado exclu- sivamente para exibição sexual. Após estudar os hábitos desses mamí- feros noturnos durante três anos, Cory Toth, da Universidade de Auckland, constatou que os machos fazem uso compartilhado em quase metade dos 12 poleiros de canto que observou na Ilha do Norte. “Um macho estará can- tando, sairá de lá, e apenas três segun- dos depois outro concorrente entrará no

poleiro e começará a cantar”, explica Toth. Ao todo, de dois a cinco machos se apre- sentarão todas as noites em um poleiro, cantando durante algumas horas cada um. Em termos gerais, os “palcos” comparti- lhados transmitem mais músicas que os ocupados por apenas um único morcego durante a noite toda, aumentando as chan- ces de que uma fêmea que esteja passando por perto pare por ali. De início, Toth teori- zou que os morcegos praticantes de time-

lucrativos. Usuários em faixas de ren- das mais baixas se ativeram principal- mente a assuntos pessoais, como dicas de beleza e experiências. “Pes- soas de renda mais alta usam o Twit- ter como meio para divulgar informa- ções; as de rendas mais baixas o usam mais para comunicação social”, explica Preo iuc-Pietro. A análise também reve- lou que tuítes de usuários que ganham mais dinheiro são mais propensos a expressar temores ou indignação. Em estudos anteriores, Preo iuc-Pietro e seus colegas foram capazes de prever o gênero, a idade e a tendência política de usuários do Twitter. Eles conseguiram até detectar sinais de depressão pós-parto e transtorno de estresse pós-traumático. “O aprendizado de máquinas só é tão poderoso quanto os dados que podemos acessar”, diz Preo iuc-Pietro. “As pessoas devem estar cientes do quanto revelam inadvertidamente sobre elas mesmas”. —Rachel Nuwer

-share eram aparentados e trabalhavam juntos para garantir o sucesso reprodutivo quando os machos em três de quatro polei- ros de cantoria revelaram não ter vínculos de parentesco, ou eram apenas distante- mente aparentados, a atenção dele se vol- tou para o tamanho dos morcegos: os machos que se revezavam no palco eram bem maiores que os que cantavam sozi- nhos. Machos maiores gastam mais ener- gia nas tarefas diárias de sobrevivência e, portanto, talvez poupem suas forças à noite ao se alternarem na cantoria, sugere Toth. De fato, testes de DNA revelaram que o sucesso reprodutivo de morcegos maiores e menores dentro da colônia era mais ou menos igual, sugerindo que o esquema de “time-share” dos poleiros ajuda os maiores a competir com os pequenos. O conhecimento dos hábitos repro- dutivos da espécie poderia fornecer informações valiosas para os esforços de conservação. — David Godkin

CORTESIA DE ANAT MEIR ET AL.

AVANÇOS

Quando sentiam que era segu- ro atravessar uma rua virtual, as crianças apertavam um botão para indicar “atravessar”

perigo, ela recorreu à realidade virtual. Em 2013, Meir e seus colegas simularam 18 ruas prototípicas em Israel e utilizaram um disposi- tivo de monitoramento ocular para estudar como 46 adultos e crianças (com idades entre sete e 13 anos) avaliavam quando era seguro atravessar. Eles constataram que crianças entre sete e nove anos demonstravam menor cuidado, decidindo tipicamente pisar, ou entrar na rua virtual com pouca ou nenhuma hesitação, mesmo quando seu campo de visão era restrito.“Tínhamos pais observando que reagiram com expressões como ‘Uau! não vessar ali’”, conta Meir.“Isso os levou a reava- uma rua.”As crianças mais velhas não tiveram um desempenho muito melhor, embora por na calçada por tempo excessivo, uma indica- ção de que são menos capazes de distinguir entre situações seguras e perigosas que adul- tos e, em entrevistas, não expressaram uma compreensão de como fatores como velocida- de de carros e campo de visão afetam uma travessia segura. Intervenções parecem melhorar o desempenho. No estudo mais recente de Meir, descrito em Accident Analysis & Prevention, 24 crianças, com idades entre sete e nove anos, passaram por um treinamento de 40 minutos para aprender a detectar perigos. Depois disso, Meir e seus colegas compararam o comportamento das crianças treinadas com o de um grupo de controle não treina- do na tarefa de atravessar uma rua virtual. Os jovens que recebe- no cruzamento do que os do grupo de controle, a ponto de suas habilidades de travessia se assemelharem às de adultos. Agora, Meir e formuladores de políticas pretendem descobrir como traduzir essas constatações para o mundo real.“Esses tipos de resultados são importantes porque não se pode elaborar inter- venções sem uma compreensão do problema”, observa Joseph Kearney, professor de ciência da computação e diretor associado de pesquisa e infraestrutura na Universidade de Iowa, que não esteve envolvido no trabalho.“Agora cabe a pessoas ‘que estão com seus pés no chão’ determinar como podem desenvolver pro- gramas de treinamento para crianças e pais sobre bons hábitos para atravessar ruas e avenidas.”—Rachel Nuwer

TECNOLOGIA

Faixas de pedestres sem riscos

Treinamento poderia melhorar a habilidade de crianças para atravessar ruas

“Olhe para os dois lados antes de atravessar a rua!”“Olhe para a

esquerda, para a direita e novamente para a esquerda!” Essas clássi- cas lições de segurança da infância se estendem por gerações e culturas.Ainda assim, acidentes de trânsito continuam sendo uma das fontes mais comuns de ferimentos e fatalidades para crianças ao redor do mundo. Na União Europeia, menores de 14 anos res- pondem por uma proporção bem mais elevada de mortalidade de pedestres do que qualquer outro grupo etário, exceto o dos idosos; nos EUA, entre as crianças mortas por carros, quase 25% estavam a pé. Os números são particularmente assustadores em Israel, onde elas representam 20% das mortes de pedestres. Estudos passados constataram que jovens são menos hábeis catedrática em engenharia e gestão industrial na Universidade Ben-Gurion do Negev e no Instituto Holon de

precisão quais comportamentos levavam a acidentes, com o objetivo de encontrar meios para corrigi-los. Para fazer isso sem colocar ninguém em

Crianças com idades de sete a nove anos demonstraram menor cuidado ao atravessar, decidindo tipicamente entrar na rua virtual com pouca ou nenhuma hesitação

12 Scientific American Brasil | Janeiro 2016

GETTY IMAGES (FLUXO DE LAVA); FONTES: “BROAD PLUMES ROOTED AT THE BASE OF THE EARTH’S MANTLE BENEATH MAJOR HOTSPOTS”, SCOTT W. FRENCH E BARBARA ROMANOWICZ, EM NATURE, VOL. 525; 3 DE SETEMBRO DE 2015 (PRIMEIRO ITEM); “MANTLE PLUMES SEEN RISING FROM EARTH’S CORE”, ERIC HAND, EM SCIENCE, VOL. 349; 4 DE SETEMBRO DE 2015 (ITENS DOIS E TRÊS)

CORTESIA DO CONSELHO DE DIRETORES DA UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA

MEIO AMBIENTE

Reservatórios subterrâneos

Hidrólogos testam técnica agrícola que poderia aliviar as secas

A Califórnia está estorricada. Sem chuva para irrigar terras agrícolas, produtores recorrem a aquíferos subterrâneos, mas o bombeamento excessivo já teve sérias consequências, ao fazer com que os lençóis freáticos caíssem drasticamente. da Califórnia em Davis estão realizando experimentos com o chamado groundwa- ter banking, uma ferramenta de gestão hídrica desenvolvida para aumentar a con- feros. No verão, esse excesso de água absorvida no inverno pode, então, servir para irrigar culturas em desenvolvimento, explica Helen Dahlke, da universidade. Durante dois meses neste inverno Dahlke e sua equipe inundarão pomares de amendoeiras no Central Valley, perto de Davis, até uma profundidade de 60 cm, ao redirecionarem as águas pluviais por uma rede de canais concebidos originalmente para desviar águas de enchentes para longe. Testes anteriores da técnica provaram ser bem-sucedidos. Em 2011, Don Cameron, gerente-geral da Terranova Ranch Inc. desviou águas de enchente do Rio Kings, em Fresno County, para pouco mais de 97 hectares de vinhedos e outras terras agrícolas, inundando-os durante cinco meses. ser bombeada de volta para as lavouras durante o ciclo de crescimento seguinte. gia arbórea e em que medida sais e nitratos de fertilizantes poderiam migrar para a água potável. Os custos do desvio de águas pluviais e questões legais, inclusive a quem pertence a água captada, também precisam ser resolvidos. Ainda assim, cer- ca de 1,45 milhão de hectares de terras agrícolas na Califórnia poderiam servir como pontos de recarga de águas subterrâneas. E, como climatologistas esperam uma única estação de fortes chuvas de inverno, um número crescente de fazendei- ros está mais que interessado nas novas possibilidades para suas terras. Como observa Cameron: “A seca torna as pessoas mais criativas”. —Jane Braxton Little

Inundação intencional de terras agrícolas, como o pomar de nogueiras, abaixo, tem o potencial para reabastecer os aquíferos da Califórnia

GEOLOGIA

Calor interno da Terra

Geólogos têm debatido há décadas a causa das chamadas xos de rochas superaquecidas que escapam e ascendem do núcleo da Terra, ou em reserva- tórios de calor mais rasos no manto superior. Sismólogos da Universidade da Califórnia em Berkeley e do Laboratório Nacio- nal Lawrence Berkeley recente- das entranhas do planeta. E encontraram mais de duas deze- rando continuamente do núcleo para a superfície; muitas delas alimentando hotspots direta- mente. As plumas, relatadas na revista Nature, fornecem a pri- meira evidência direta de que essas colunas de calor geram pontos quentes vulcânicos, como a Islândia e a cadeia de ilhas do arquipélago do Havaí. — Shannon Hall

28

do núcleo terrestre

600 a 800 km 44 terawatts

Largura média das plumas.

(44 trilhões de joules por segundo)

Calor liberado pela Terra por meio de plumas mantélicas

MITCH WAXMAN

AVANÇOS

EMPREGOS ESTRANHOS

Ned, o nariz

Um cientista e engenheiro de odores sabe como “farejar” aromas ruins

O nariz de Ned Ostojic o levou a lugares que variam de estranhos a repugnantes. Ele inalou o ar de fábricas de conservas de atum na Samoa Americana, cheirou ração canina moída e pegajosa em fábricas de pet-food no Canadá, e “farejou” tanques de esgoto no Brooklyn. Globalmente, só existem poucas pessoas como ele: especialistas em diagnosticar odores ofensivos. Seus clientes em geral estão desesperados para eliminar um mau cheiro

que incomoda vizinhos ou representa um risco para funcionários. Treinado como químico analítico, seu trabalho é encontrar a fonte de um odor desagradável e então descobrir como corrigi-lo.

que] atingimos a nossa meta”, resume Pynn, que chama Ostojic um “herói silencioso”. Os próximos projetos de Ostojic incluem mapear as pegadas odoríferas de vapores de tinta em fábricas de automóveis em Michi- gan e de lixo em decomposição enterrado em aterros sanitários no

nas de receptores olfativos no nariz humano, cada um associado à detecção de diferentes moléculas de odor. Cheiros são a percepção de combinações dessas moléculas e, como tais, difíceis de manipu- lar e registrar. O ato de cheirar em si tem sido há tempos um “senti- do órfão”, especialmente quando comparado a uma capacidade mais dominante como a visão, observa Ostojic.“Podemos repre- sentar o mundo inteiro em nossas televisões usando apenas três mos ver um único átomo”, argumenta ele, mas o odor continua sendo evasivo, fugidio. Como resultado, Ostojic aborda seu trabalho com uma mistura de ciência e arte. Em campo, ele emprega um olfatômetro com um nome de marca agressivo: Nasal Ranger. Pressionado contra seu rosto, ele funciona inicialmente como uma máscara de gás. Assim acresce quantidades controladas do ar circundante para mapear a intensidade e o raio de propagação de um odor fétido. Milhares de nova-iorquinos podem agradecer a Ostojic e ao seu Nasal Ranger por tornarem a maior estação de tratamento de esgoto da cidade inodora (acima). “Tivemos um histórico horren- do”, admite Jim Pynn, que recentemente se aposentou como supe- rintendente da Estação Newton Creek de Tratamento de Água Residual, no Brooklyn. “Tínhamos um cheiro tão repugnante, pútri- do, que até eu sentia ânsias de vômito com alguns odores na usina.” Nesse caso, todo mundo sabia de onde vinha o cheiro ruim: dos tanques de aeração. Então Ostojic desenvolveu um jeito para cobri- -los e depois ventilar o ar fétido através de largos cilindros de car- bono poroso, que absorve odores. Agora, o local tem um cheiro

Salt, estrelado por Angelina Jolie; as equipes de uma estação de tratamento de esgoto, alegra-se Pynn. “Quando

mas esses dados não esclarecem se pessoas tolerarão qualquer ma quando as pessoas se queixam dele. “Tudo leva de volta ao nariz humano”, resume Ostojic. — Megan Gannon

FÍSICA

O brilho de partículas do Big Bang

Astrônomos detectaram indiretamente neutrinos que surgiram apenas um segundo após o nascimento do Universo

A luz mais antiga do Universo não fez um “pit stop” durante 13,82 bilhões de anos, a partir do início de sua jor- nada, somente 380 mil anos após o Big Bang. Essa luz, a chamada radiação cósmica de fundo (CMB, na sigla em inglês), serve como um terreno conhecido de caça para astrônomos que procuram entender o Universo em sua infância. Infelizmente, ela também obscurece o que jaz por trás dela: as primeiras centenas de milhares de anos do Universo. Agora, astrônomos acreditam ter espiado além da própria CMB ao captarem evidências de neutrinos que viajam desde o instante em que o Cosmos tinha apenas um segundo de idade. Os neutrinos, partículas fundamentais sem carga elétri- ca e pouquíssima massa, escaparam do Big Bang quase imediatamente. Sua natureza evasiva, fugidia, lhes permite passar despercebidos por quase todas as barreiras físicas, raramente interagindo com a matéria comum. Nas raras ocasiões em que se chocam com fótons, no entanto, eles

14 Scientific American Brasil | Janeiro 2016

CORTESIA DE AGÊNCIA ESPACIAL EUROPEIA (concepção artística do Planck)

FAZENDO NOTÍCIAS

Notas

rápidas

alteram sutilmente as temperaturas das partículas. Foi essa mudança de temperatura que astrônomos da Universidade da Califórnia em Davis notaram recentemente em mapas de CMB produzidos pelo satélite Planck, da Agência Espacial Europeia. Eles descreveram esse “fundo cósmico de neutrinos” em um recente artigo publicado no periódico Physical Review Letters. Modelos do Big Bang previram o fundo cósmico de neutrinos há décadas. Mas essa nova observação indireta é a mais robusta prova disso até agora. A des- coberta “nos proporciona uma nova janela para o Universo”, comemora Lawrence M. Krauss, codiretor da Iniciativa de Cosmologia da Universidade Estadual do Arizona, que não participou do estudo. A detecção também restringe as propriedades de neutrinos, que são, de longe, os “animais mais estranhos no zoológi- co de partículas”. Ela prova, por exemplo, que neutri- nos não podem interagir com eles mesmos, como muitas outras partículas fazem. Se pudessem, eles deixariam assinaturas dife- rentes das observadas dentro da CMB. Futuras detecções desses neutrinos primordiais talvez expli- quem por que existem 10 bilhões de partículas de matéria no Universo para cada partícula isolada de antimatéria. A assimetria foi produzida no Universo incipiente e especialistas acreditam que os neutrinos tiveram algo a ver com isso; nem que seja só

Agora aposentado, o obser- vatório Plank mapeou a CMB de 2009 a 2013

porque são tão misteriosos. “Como sabemos menos sobre neutri- nos, podemos ser mais criativos com os tipos de física que apre- sentamos”, reconhece Lloyd Knox, coautor do estudo. Embora essas partículas sejam incrivelmente difíceis de detectar direta- mente, Knox antecipa que dicas obtidas por meio de observações cosmológicas ajudarão a resolver muitos quebra-cabeças de neu- trinos e, portanto, fornecer uma ideia mais reveladora de como o Universo era em seus primórdios. —Shannon Hall

CIÊNCIA

DA SAÚDE

escreve sobre ciência e medicina. Ele abor- dou tratamentos para vertigem na edição de setembro.

A dor no cérebro

Nova teoria sobre a enxaqueca dá origem a medicamentos que evitam crises

da enxaqueca nos EUA, inclusive custos médicos diretos e dias de trabalho perdidos, é estimado em US$ 17 bilhões ao ano. Nos 5.000 anos desde que os sintomas da enxaqueca foram descritos pela primeira vez em documentos na Babilônia, os trata- mentos têm refletido, ao mesmo tempo, a evolução de nossa com- preensão e nossa quase cômica ignorância sobre a doença. San- gria, trepanação e cauterização do couro cabeludo raspado com uma barra de ferro em brasa eram tratamentos comuns no perío- do greco-romano. O ponto mais baixo dos remédios equivocados provavelmente foi atingido no século 10º, quando o oftalmologista Ali ibn Isa recomendou atar uma toupeira morta à cabeça. No sé-

culo 19, a eletricidade medicinal se tornou moda e os pacientes de enxaqueca eram rotineiramente estremecidos por diversas inven- ções, incluindo o banho hidroelétrico, que era basicamente uma banheira de água eletrificada. No início do século 20, clínicos voltaram sua atenção para os vasos sanguíneos, inspirados em parte por observações da forte pulsação das artérias temporais em pacien- tes com enxaquecas, assim como descrições

de dores latejantes e alívio que os pacientes conseguiam com a compressão das artérias carótidas. Por décadas, a enxaqueca foi atri- buída sobretudo à vasodilatação no cérebro. Essa ideia foi reforçada no fim dos anos 1930 por um estudo sobre o tartarato de er- gotamina. Apesar de efeitos colaterais, como vômitos e dependência, a droga vasoconstri- tora evitou crises em alguns pacientes. Mas, se a vasodilatação era parte do que-

bra-cabeça, não era a única coisa que acon- tecia no cérebro dos pacientes, como a onda seguinte de tratamen- to sugeriu. Na década de 1970, pacientes cardíacos que também so- friam de enxaqueca começaram a relatar aos médicos que betabloqueadores que tomavam para desacelerar os batimentos cardíacos também reduziam a frequência das crises. Pessoas com enxaqueca que tomavam medicamentos para epilepsia e depres- são, e outros que recebiam injeções cosméticas de Botox, também relataram alívios. Assim, os especialistas em cefaleia começaram a prescrever essas drogas “emprestadas” para enxaqueca. Cinco des- ses medicamentos foram por fim aprovados pela FDA para a dor. Infelizmente, ainda não se sabe exatamente como as drogas adota- das (eficazes em apenas cerca de 45% dos casos e com diversos efeitos colaterais) ajudam nas enxaquecas. Dodick opina que elas podem atuar em vários níveis do cérebro e tronco encefálico para reduzir a excitabilidade do córtex e vias de transmissão da dor. As primeiras drogas específicas para enxaqueca, os triptanos, foram introduzidas nos anos 1990. Richard Lipton, diretor do Cen- tro de Cefaleia Montefiore, em Nova York, conta que os triptanos foram desenvolvidos em resposta à antiga ideia de que a dilatação

David Noonan

O principal executivo, aos 63 anos, não conseguia fazer o seu

trabalho. Ele havia passado toda a vida adulta debilitado pela en- xaqueca e estava no meio de uma nova onda de ataques. “Eu tenho só uns poucos momentos pela manhã em que consigo ler ou escre-

ver ou pensar”, escreveu a um amigo. Depois disso, ele tinha de se trancar em um quarto escuro até o anoitecer. Dessa forma, o presi- dente Thomas Jefferson, no início da primavera de 1807, em seu segundo mandato, ficava incapacitado todas as tardes pela mais comum deficiência neurológica no mundo.

O coautor da Declaração da Independência nunca subjugou o

que ele chamava sua “dor de cabeça periódi- ca”, embora as crises pareçam ter diminuído após 1808. Dois séculos depois, 36 milhões de norte-americanos lutam contra a dor que ele sentia. Como Jefferson, que costumava se tratar com uma infusão de casca de árvore com quinino, eles tentam diferentes terapias, que vão de drogas cardíacas, a ioga e ervas. Agora, neurologistas acreditam ter iden- tificado um nervo hipersensível que desen- cadeia a dor, e estão nos estágios finais de testes de medicamentos que acalmam suas

células demasiadamente ativas. São as pri- meiras drogas para especificamente evitar as dores incapacitantes antes que elas comecem. E podem ser aprovadas no próximo ano pela FDA, agência que controla alimentos e medicamentos nos EUA. Se cumprirem a promessa de estudos com cerca de 1.300 pa- cientes, milhões de dores de cabeça poderão ser evitadas. “Isso muda completamente o paradigma de tratamento da en- xaqueca”, comenta David Dodick, neurologista do campus da Clí- nica Mayo, no Arizona, e presidente da Sociedade Internacional de Cefaleia. Embora existam drogas específicas para enxaqueca que freiam os ataques depois que estes começam, o Santo Graal para pacientes e médicos tem sido a prevenção. As crises de enxaqueca afetam quase 730 milhões de pessoas no mundo e costumam durar de quatro a 72 horas. A maioria dos pa- cientes tem crises esporádicas de até 14 dias por mês. Os que so- frem da forma crônica – quase 8% da população com enxaqueca – têm 15 dias ou mais de dor de cabeça por mês. Os ataques são, em geral, precedidos por fadiga, mudanças de humor, náusea e outros

sintomas. Cerca de 30% dos pacientes apresentam distúrbios vi- suais, as chamadas auras, antes das dores. O peso econômico total

Células superativas respondem a luzes, sons e odores tipicamente benignos liberando substâncias que transmitem sinais de dor e causam enxaqueca

16 Scientific American Brasil | Janeiro 2016

Ilustração de Julia Yellow

dos vasos sanguíneos é a causa primária da enxaque- ca; triptanos deveriam inibi-la. Ironicamente, estudos posteriores mostraram que a droga de fato interrom- pe a transmissão de sinais de dor no cérebro e que a vasoconstrição não é essencial. “De qualquer forma, funciona”, comenta Lipton. Uma pesquisa de 133 estu- dos detalhados dos triptanos descobriu que eles ali- viam a dor em duas horas em 42% a 76% dos pacien- tes. Pessoas os usam para bloquear o ataque depois que ele começa, e eles entraram para a linha de frente dos tratamentos confiáveis para milhões de pacientes. O que os triptanos não podem fazer – e o que Peter Goadsby, diretor do Centro de Cefaleia da Universida- de da Califórnia em São Francisco, sonha em conse- guir há mais de 30 anos – é evitar que a enxaqueca co- mece. Nos anos 1980, buscando esse objetivo, Goadsby se concentrou no sistema do nervo trigêmeo, há muito conhecido como o caminho da dor no cérebro. Era ali, suspeitou, que a enxaqueca fazia seu trabalho sujo. Es- tudos em animais indicaram que em ramos do nervo que saem de trás do cérebro e se estendem por várias partes da face e da cabeça, células superativas respondem a luzes, sons e odores tipicamente benignos liberando substâncias que transmitem sinais de dor e causam enxaqueca. A sensibilidade intensificada dessas células pode ser herdada; 80% dos pacientes têm histórico familiar de enxaqueca. Goadsby foi coautor do primeiro estudo sobre o tema em 1988. Outros pesquisadores, inclusive Dodick, se uniram ao esforço. O objetivo era encontrar uma forma de bloquear os sinais de dor. Uma das substâncias encontradas em altos níveis no sangue de pessoas com enxaqueca é o peptídeo relacionado ao gene da calci- tonina (PRGC), um neurotransmissor que é liberado de uma célu- la nervosa e ativa a próxima em um ataque. Mirar e interferir no PRGC não foi fácil. Difícil foi encontrar uma molécula que funcio- nasse nesse neurotransmissor e não tocasse em outras essenciais. Com o avanço da capacidade de engenheiros de biotecnologia controlarem e projetarem proteínas, várias empresas farmacêuti- cas desenvolveram anticorpos monoclonais para combater a enxa- queca. Essas proteínas criadas se ligam fortemente às moléculas PRGC ou seus receptores nas células do nervo trigêmeo, evitando a ativação celular. As novas drogas são “como mísseis guiados com alta precisão”, compara Dodick. “Vão diretamente ao seu alvo.” Essa especificidade e o fato de que os cientistas na verdade sa- bem como as drogas funcionam animaram Dodick, Goadsby e ou- tros. Em dois testes controlados com placebo com um total de 380 pessoas que sofriam de enxaqueca severa até 14 dias por mês, uma única dose com um medicamento PRGC reduziu os dias de dor mais de 60% (63% em um estudo e 66% no outro). Além disso, no

CIÊNCIA

DA SAÚDE

primeiro estudo, 16% dos pacientes continuaram livres da enxa- queca por 12 semanas no teste de 24 semanas. Testes clínicos mais amplos para confirmar essas descobertas estão sendo feitos. Até agora, as PRGC funcionam melhor na prevenção que qualquer droga de doenças cardíacas ou epilepsia e têm menos efeitos cola- terais, ministradas em uma única injeção mensal. Especialistas também exploram outros tratamentos, inclusive cirurgia da fronte e pálpebras para descomprimir ramos do nervo trigêmeo, e estimulação magnética transcraniana (EMT), uma for- ma não invasiva de alterar a atividade das células nervosas. Lipton afirma ter conseguido bons resultados com EMT. Ele também encaminhou pacientes para cirurgias, mas conta que a experiência “tem sido decepcionante”, e não as recomenda. Goads- by, de seu lado, vê cirurgias e esforços de alta tecnologia como um certo desespero. “Eles me soam como um grito de ajuda. Se enten- dermos mais sobre a enxaqueca, saberemos melhor o que fazer.” Embora a causa agora pareça estar enraizada no sistema do nervo trigêmeo, a origem de suas células hiperativas ainda é um mistério, diz Goadsby. “Qual é a natureza do que você herdou com a enxaqueca?”, pergunta. “Por que você e por que não eu?”, prosse- gue. Se desvendarem a genética da enxaqueca, a “dor de cabeça pe- riódica” de Jefferson pode aliviar sua dolorosa tenaz moderna.

TECNOLOGIA

A guerra digital

O que fazem as grandes companhias desse setor para atrair você para seus ecossistemas

David Pogue

A pergunta não é mais “Que celular devo ter?”. Essa era uma questão importante logo após a chegada do iPhone e seus concor- rentes. Agora é hora de admitirmos que os smartphones (e tablets) estão quase idênticos. Apple e Google (fabricante do sistema ope- racional Android) se copiaram tão completamente que seus apare- lhos têm incrível semelhança em aparên- cia, preço, velocidade e funcionalidades. Apples, Googles e Microsofts do mun- do se enfrentam atualmente em outro campo de batalha: a corrida para o melhor e mais sedutor ecossistema. Cada uma está montando um imenso arquipé- lago de produtos e serviços interconecta- dos. São algemas de veludo para fazê-lo abraçar suas ofertas e dificultar ao máxi- mo a mudança para o concorrente. Um ecossistema típico inclui hardware (celu- lar, tablet, laptop, relógio inteligente, televisão), lojas on-line (música, filmes, tevê, livros eletrônicos), sincronização de seus dados em aparelhos (calendário, favoritos, notas, fotografias), armazena- mento em nuvem (discos on-line gratui- tos para arquivos) e sistemas de paga- mentos (acene com o relógio ou celular em vez de passar o cartão de crédito). Ao consumidor cabe escolher que pacote de produtos ele prefere. Mas para as companhias a decisão é difícil: elas devem abrir seus serviços para usuários de produtos de seus concorrentes? Dei- xar, digamos, um usuário de iPhone car- regar um calendário Outlook ou alguém com uma pulseira inteli- gente Microsoft Band sincronizar dados com um tablet Android. Tornar seu software acessível fora de seu ecossistema pode, por um lado, mostrar ao resto do mundo a superioridade de seus pro- dutos e atrair novos consumidores. Em contrapartida, pode-se perder o atrativo da exclusividade desses serviços. Por que alguém mudaria se já pode ter o melhor que um concorrente oferece? Que postura as gigantes estão adotando em relação aos seus ecossistemas? Trata-se de uma cesta variada.

18 Scientific American Brasil | Janeiro 2016

é colunista-âncora do Yahoo Tech e apresentador das minisséries NOVA na rede pública de tevê PBS.

A Apple é a mais fechada. Em geral, desenvolve aplicativos ape-

nas para iPhones e iPads. Você não pode fazer uma chamada Face-

Time para um Android ou Windows Phone, por exemplo, ou exe- cutar o Apple Maps nesses aparelhos (não que você fosse querer).

E não se pode usar o Apple Watch com nada a não ser um iPhone.

Você pode, no entanto, usar o iCloud (serviço de armazenamento e sincronização de arquivos on-line da Apple) em um dispositivo Windows, mas não em um que use o Android, da Google.

A Google se esforça para tornar seus produtos acessíveis em

outras plataformas. Se você tem um iPhone, pode usar aplicativos Google (Gmail, Chrome, Google Maps), serviços (Docs, Sheets, Sli-

des) e mesmo lojas digitais (Books, Music Newsstand). Os serviços

e lojas também estão disponíveis para usuários de Mac, Windows

e Linux. Você pode até ligar um relógio

inteligente Android Wear a um iPhone. Por fim, a Microsoft, cujo Office é acessível a tudo que tenha tela, assim como muitos de seus aplicativos móveis. Por que essa inconsistência? Os motivos corporativos individuais ajudam a entender. Embora essas três companhias ofereçam tantos dispositi- vos e serviços similares (OK, quase idên- ticos), cada uma, de fato, usa um modelo de negócios completamente diferente. A Apple está sobretudo no negócio de ven- der hardware; Microsoft, software; Gog- gle, publicidade. Cada uma considera

diferentes fatores ao calcular o que abrir. E Apple e Google continuam se rami- ficando; ambas oferecem agora, acredi- te, software para painel de instrumentos de carros e sistema de automação doméstica projetados para seus respec- tivos smartphones. Seguramente a Microsoft não ficará muito atrás. A Sam- sung ostenta seu próprio grupo de pro- dutos competitivos e serviços interliga- dos. E a Amazon – que já foi uma livraria

– agora produz telefones, tablets e tevês.

O rumo das coisas deve deixar você, consumidor, satisfeito. Tal-

vez incomodado com toda a duplicação de esforços, mas feliz que haja concorrência, que sempre gera inovação (e, com frequência, preços menores). E você deve ficar contente que a tendência seja, aparentemente, de essas companhias tornarem mais serviços acessíveis, não importa que celular ou computador você tenha. No fim, os ecossistemas poderão bem ser quase idênticos, também. Talvez nesse ponto a questão volte a ser: “Que celular eu devo ter?”.

Ilustração de Jori Bolton

mestre e doutor em física pela Universidade de São Paulo, onde é professor, tem trabalhado em áreas que incluem problemas relacionados ao tratamento estatístico de dados experimentais. Mais recentemente, tem se dedicado

Pingue-pongue e raios cósmicos

Ao rebater e impulsionar partículas, campos magnéticos funcionam como raquetes

Otaviano Helene

Se os choques entre raquetes e bolinhas de pingue-pon- gue fossem totalmente elásticos e a massa da raquete fosse muito, muito maior que a da bolinha, ao rebater uma delas, mandando-a de volta exatamente na mesma direção da qual ela veio, sua velocidade seria igual àquela com a qual ela chegou à raquete mais duas vezes a da própria raquete. Os choques entre bolinhas de pingue-pongue e raquetes não são, de fato, totalmente elásticos. Há uma pequena per- da de energia mecânica nesse choque, no qual o coeficiente de restituição é da ordem de 0,9. A massa da raquete (e daquilo que a segura) também não

é infinitamente maior que a massa da bolinha, embora seja

muito maior, pois bolinhas de pingue-pongue têm menos que 3 g. Por causa desses dois fatores, o ganho pela raqueta- da não chega a dobrar a velocidade da raquete, mas chega bem perto disso. Depois de uma raquetada, uma bolinha de pingue-pon- gue pode atingir, segundo publicações especializadas nesse esporte, de 30 m/s a 40 m/s. Com essas velocidades, ela pode- ria chegar até o adversário em cerca de um décimo de segun- do ou pouco mais. Entretanto, por causa da resistência do ar, a velocidade da bolinha é reduzida para a metade a cada cerca de meio segundo. Assim, o tempo entre uma raquetada e a seguinte, dada pelo adversário, varia de 0,5 s a 1,0 s, dependendo, cla- ro, de quão afastados da mesa estão os jogadores. No tênis, a situação é similar. A cada raquetada, supondo um choque totalmente elástico entre a bolinha e a raquete e que a massa da raquete (mais mão e braço do atleta) seja bem maior que a da bola, esta adquire, após ser rebatida, velocidade igual à sua inicial mais duas vezes a da raquete. Como no pingue-pongue, a resistência do ar reduz a veloci- dade da bolinha. Se não houvesse o ar, as velocidades das bolinhas de tênis

e de pingue-pongue aumentariam indefinidamente a cada rebatida. Se as bolinhas e raquetes fossem infinitamente resistentes e os jogadores infinitamente hábeis e rápidos, as bolinhas atingiriam velocidades relativísticas e não conse- guíramos analisar a situação usando apenas as equações de Newton, precisando das equações relativísticas.

OBSERVATÓRIO

Vários esportes têm batidas de coisas contra bolas e pete- cas, como o badminton, a pelota basca, o golfe, o beisebol, entre outros. Em todos esses esportes, o efeito físico de transferência de velocidade para a bola é similar à do tênis e do tênis de mesa. E, claro, se a bola estiver parada, ela é lan- çada com o dobro da velocidade daquilo que a atingiu – des- de que sua massa seja bem pequena e o choque seja elástico. Pancadas são formas eficientes de transferir energia para bolas, petecas e outras coisas. E é mais ou menos isso que, possivelmente, também ocorre com alguns raios cósmicos ultraenergéticos. Neste caso, as coisas rebatidas não são bolinhas, mas, sim, núcleos atômicos, como núcleos de ferro ou hidrogênio, e no lugar das raquetes, as coisas que batem são campos magnéticos, como aqueles criados por explosões de supernovas, por exemplo. Esses campos magnéticos funcionam como raquetes ou, no jargão dos físicos, como espelhos magnéticos, já que “refletem” as partículas: os raios cósmicos são rebatidos por esses campos magnéticos, ganhando velocidade a cada vez que isso ocorre. Como os raios cósmicos viajam por regiões do Universo onde não há nada que os possa frear, eles ganham energia a cada encontro com os campos magnéticos, diferentemente do que acontece nos esportes aqui na Terra, onde o ar freia as bolas. Como essas raquetadas podem se repetir inúmeras vezes durante as longuíssimas viagens que essas partículas fazem, elas acabam por atingir velocidades e energias altíssimas. A energia cinética de algumas dessas partículas, apesar de suas massas extremamente pequenas, pode ser compará- vel à de uma bolinha de pingue-pongue. (Para somar uma massa equivalente àquela de uma bolinha de pingue-pongue seriam necessários núcleos de ferro em quantidade de apro- ximadamente dez elevado à vigésima terceira potência.) Sabemos bem de onde vêm as bolinhas de tênis ou de pin- gue-pongue (embora vez ou outra não saibamos bem para onde elas foram). Quanto aos raios cósmicos, uma questão é saber de onde eles vêm. Outra questão é saber, detalhadamente, o processo pelo qual ganham tanta energia, inclusive porque algumas partículas têm energias mais elevadas do que o processo de raquetadas por campos magnéticos permite estimar. Para responder a essas e outras questões, vários grupos de pesquisa pelo mundo afora estudam os raios cósmicos ultraenergéticos. A maior instalação construída com esse propósito, o Observatório de Raios Cósmicos Pierre Auger, está instalado em Mendoza, na Argentina. Essa colaboração conta com a participação de pesquisadores de vários países, inclusive do Brasil.

NASA/JPL-CALTECH

DESAFIOS DO COSMOS

é jornalista de ciência especializado em astronomia e astronáutica. É autor de oito livros, dentre eles Rumo ao e .

Civilizações

superdiscretas

Se houver vida inteligente fora da Terra, talvez seus sinais sejam muito recatados

teriores conduzidas pelo Instituto SETI com o Allen Telescope Array não detectaram nenhuma transmissão artificial, e um estudo subsequente coordenado por Massimo Marengo, da Uni- versidade Estadual de Iowa, com o telescópio espacial Spitzer, confirmou que a obstrução da luz pela destruição de uma família de cometas era mesmo a explicação mais razoável. Nada de supercivilização alienígena em ação. Mais do que falar algo sobre a existência de vida inteligente no Universo, o episódio realça como cultivamos ideias retrógradas sobre o que significa ser uma civilização avançada. Em 1964, o astrônomo soviético Nikolai Kardashev imaginou que pudés- semos classificar a evolução de sociedades cósmicas com base no seu consumo de energia. Aquelas capazes de usar o equivalente ao total de radiação incidente em seu planeta seriam do tipo I. Já as que lançassem mão da energia total produzida por sua estrela (as potenciais construtoras de esferas Dyson) seriam de tipo II. Indo

mais longe, civilizações capazes de consumir uma fração significa- tiva do total de energia de uma galáxia inteira seriam do tipo III. A premissa é que civilizações progridem necessariamente para consumir cada vez mais energia. Afinal de contas, foi exatamente isso que aconteceu com a humanidade até agora. Contudo, ainda que a passo de tartaruga, a mentalidade por essas bandas parece estar mudando. A noção de um futuro recheado de energia abun- dante está sendo gradualmente trocada por um amanhã de sus- tentabilidade e eficiência energética, onde se faz mais com menos. Convenhamos, nossa progressão rumo ao tipo I na escala Kar- dashev (seríamos no momento algo como tipo 0,7) veio à custa da mudança climática e da degradação do ambiente. Seria uma péssi- ma ideia continuar nessa trajetória de consumo desmedido. Um caminho alternativo que parece mais razoável, diante do que estamos fazendo com a Terra, é o aventado por Amâncio Fria- ça, astrônomo da Universidade de São Paulo. Ele aposta que o con- sumo energético das civilizações atinja um pico e depois comece a cair, conforme elas aprendem as limitações ambientais dos planetas que ocupam e avançam na direção da sustenta- bilidade. Ao fim das contas, civilizações mui- to avançadas seriam ainda mais discretas do que nós mesmos – o que pode ajudar a explicar por que é tão difícil encontrar qualquer

Salvador Nogueira

Os últimos meses foram tomados por um frisson quando pes- quisadores envolvidos com o projeto de ciência-cidadã Planet Hunters encontraram, em meio aos dados do satélite Kepler, uma estrela que sofre apagões significativos sem periodicidade defini-

da. Em certos momentos, o brilho dela chega a cair para menos de 80% do normal. Ordinariamente, o Kepler detecta planetas em torno de estre- las quando eles passam à frente delas, obstruindo parcialmente sua luz. Mas nenhum planeta seria capaz de bloquear um quinto do total da luz de sua estrela-mãe. Algo muito estranho estava acontecendo no jovem astro conhecido como KIC 8462852. A astrônoma Tabetha Boyajian, da Universidade Yale, nos Estados Unidos, coordenou a primeira análise do fenômeno e aventou, em artigo publicado nos Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, que a explicação mais provável para o apagão fosse a passagem de uma família de cometas destroça- dos pela frente da estrela. Isso, contudo, não impediu que seu colega Jason Wright, da Universidade Estadual da Pensilvânia, sugerisse uma explicação mais arrojada – uma gigante obra de engenharia espacial conduzida por uma civilização alienígena. Wright estava se referindo a uma ideia proposta pela pri- meira vez nos círculos científicos pelo físico britânico Freeman Dyson, em 1960. Ele indicou que uma civi- lização avançada com muita “fome” de ener- gia poderia construir uma efetiva cápsula em torno de sua estre- la — de forma a colher 100% da radiação emi- tida por ela. No caso de KIC 8462852, como ora vemos a estrela, é fortemente bloqueada, poderíamos imaginar uma esfera parcial.

Concepção artística do sistema KIC 8462852. Apagão da estrela foi associado a possível

Mas observações pos-

sinal delas por aí.

20 Scientific American Brasil | Janeiro 2016

NEWTON CESAR FLORÊNCIO

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CÉU DO MÊS

JANEIRO

Cometa vem com chuva de meteoros

Catalina atinge brilho máximo e se exibe na constelação do Boieiro, antes de se esconder

O mês de janeiro marca o momento de máxima aproximação

do cometa Catalina (2013 US10), mas em posição desfavorável para observadores do Hemisfério Sul. Ainda assim, é possível

tentar vê-lo se você estiver disposto a madrugar. O pico de brilho deve ser atingido no dia 4, quando o cometa terá magnitude 4,8, ou seja, visível a olho nu – mas apenas em céus livres de poluição luminosa. Cruzando acima do horizonte depois das 3h, na cons- telação do Boieiro (Boötes), na direção norte, ele permanecerá visível, mas nunca muito alto no céu, até o amanhecer. No mesmo dia, teremos o máximo da chuva de meteoros Quadrantídeos, que também tem seu radiante na mesma região do céu. O nome é derivado de uma antiga constelação criada em 1795 pelo astrônomo francês Jérôme Lalande, o Quadrante, depois descartada pela União Astronômica Internacional. Hoje, no mapa das constelações, aquela região pertence à do Boieiro.

A origem das Quadrantídeas foi atribuída pelo astrônomo

Peter Jenniskens ao asteroide 2003 EH1, que completa uma volta em torno do Sol a cada 5,5 anos e provavelmente é um cometa

extinto – um astro que já esgotou seu material volátil após múlti- plas passagens pelas redondezas do Sol. Uma peculiaridade dessa chuva é que seu pico de atividade é bem rápido: se dá em apenas algumas horas, durante as quais o número de meteoros rivaliza com o de chuvas famosas, como as Perseidas e os Geminídeos. Agora, quem não pode madrugar e procura atrações celestes nas primeiras horas da noite poderá se deleitar em janeiro com um passeio pela constelação de Órion, que estará no alto do céu logo após o pôr do sol durante o mês. Trata-se de um dos mais famosos conjuntos de estrelas, facilmente reconhecível pelas “Três Marias”, que compõem o cinturão do caçador Órion. Aliás, a estrela mais a oeste desse trio, Delta Orionis, na ver- dade é ela mesma um grupo estelar, com cinco membros – duas estrelas solitárias e um astro trinário composto por outras três estrelas. Um estudo recente feito com obser- vações do Telescópio Espacial Chandra de Raios X, da Nasa, revelou detalhes da dinâmica desse sistema complexo. Ao norte das Três Marias, você há de notar uma estrela brilhante e avermelhada – Alfa Orionis, ou, como é mais conhecida, Betelgeuse. Trata-se de uma supergigante vermelha, um astro muito mais massivo que

o Sol e no fim de sua vida útil. Localizada a 640 anos-luz daqui, ela deve detonar como uma supernova em breve – mas esse “em

breve” é na escala astronômica, ou seja, em algum ponto do próximo milhão de anos. Por fim, ao sul das Três Marias, você pode encontrar uma suave mancha difusa, visível

a olho nu – a famosa nebulosa de Órion, um

berçário estelar a 1.500 anos-luz da Terra. Com telescópios amadores, trata-se de uma das mais magníficas visões que se pode ter. Bons céus a todos! (S.N.)

Newton Cesar Florêncio, astrofotógrafo de Londrina (PR), registra a nebulosa escura Cabeça de Cavalo (Barnard 33) e sua vizinha mais famosa, a nebulosa de Órion (M42). Imagem é

VISIBILIDADE DOS PLANETAS

Em Capricórnio e depois Sagitário. Visível ao anoitecer, cada dia mais baixo, na direção do por do Sol. Em conjunção inferior com o Sol em 14. Volta a ser visível pela

Visível ao amanhecer na direção do nascer do Sol. Primeiro Vênus em 9.

Visível na madrugada, a leste do meridiano, primeiramente na direção da constelação de Virgem e depois Libra. Próximo da Lua em 3.

Visível durante toda a noite entre as estrelas da constelação de Leão. Perto da Lua em 27.

em 7. Em conjunção com Vênus em 9.

Em Peixes. Visível no início da noite, logo após o por do Sol, a oeste do meridiano.

Visível ao por do Sol, a oeste, em Aquário. Próximo da Lua em 13.

O

DESTAQUES DO MÊS

Passagem da Terra pelo Periélio

Máximo da chuva de meteoros quadrantídeos (Böotes - Boie

Máximo da chuva de meteoros quadrantídeos (Böotes - Boie Máxima brilho do Cometa C/2013 US10 (Catalina)

Máxima brilho do Cometa C/2013 US10 (Catalina) com a Terr

Conjunção inferior de Mercúrio.

Máxima aproximação do Cometa C/2013 US10 (Catalina) com

de Mercúrio. Máxima aproximação do Cometa C/2013 US10 (Catalina) com 22 Scientific American Brasil | Janeiro
de Mercúrio. Máxima aproximação do Cometa C/2013 US10 (Catalina) com 22 Scientific American Brasil | Janeiro

22 Scientific American Brasil | Janeiro 2016

N

A carta celeste anexa corresponde à projeção das estrelas visíveis na latitude de 23°27’ Sul (Trópico de Capricórnio) às 21h do dia 15 de JANEIRO. Exceto pela posição dos planetas, a mesma também corresponde à projeção do céu aproximadamente às 22h no início do mês e às 20 vigorando o Horário de Verão.

Sagitário de 18/12/2015 à 20/01/2016

Capricórnio de 20/01/2016 à 16/02/2016

DIA

HORA*

EVENTO

2

02h31

Lua quarto minguante.

2

08h46

Lua no apogeu, maior distância à Terra. Dis- tância 404.302 km. Diâmetro aparente 29,9’.

2

17h24

Terra passa pelo periélio, menor distância ao Sol - 147,1 milhões de quilômetros.

2

22h57

Lua passa a 5,3°N a estrela Spica (Alfa de Virgem).

3

16h43

Lua passa a 1,8°N de Marte.

4

---

Máximo da chuva de meteoros quadrantídeos (Böotes)

4

17h51

Cometa C/2013 US10 (Catalina) exibe seu brilho máximo, 4,8 magnitudes.

6

02h15

Melhor ocasião para visualizar o brilho da falcada (luz cinérea). O horário refere-se ao nascer da Lua em São Paulo, sem contar o horário de verão.

7

00h28

Lua passa a 3,9°N de Saturno (conjunção).

9

00h59

Vênus a 0,1°N de Saturno.

9

22h31

Lua nova.

12

18h40

Melhor ocasião para visualizar o brilho da Terra (luz cinérea). O horário refere-se ao por do Sol em São Paulo, sem contar o horário de verão.

13

10h12

Lua passa por Netuno.

14

10h59

Mercúrio em conjunção inferior com o Sol – planeta entre o Sol e a Terra.

14

21h11

Lua no perigeu, menor distância à Terra. Dis- tância 369.656 km. Diâmetro aparente 32,4’.

16

03h52

Lua passa por Urano.

16

20h27

Lua quarto crescente.

17

02h09

Cometa C/2013 US10 (Catalina) mais próximo da Terra. 108,44 milhões de quilômetros.

19

04h01

Lua a 8,6°S do aglomerado estelar de Plêiades (Messier 45).

20

00h44

Lua passa a 1,1°N da estrela Aldebaran (Alfa de Touro).

23

22h46

Lua cheia.

24

09h16

Lua passa a 4,9°S do aglomerado estelar de Praesepe (Messier 44).

26

02h36

Lua passa a 2,1°S da estrela Regulus (Alfa de Leão).

27

20h34

Lua passa a 0,8°S de Júpiter (conjunção).

30

06h03

Lua no apogeu, maior distância à Terra. Dis- tância 404.583 km. Diâmetro aparente 29,9’.

30

10h20

Lua passa a 5,0°N a estrela Spica (Alfa de Virgem).

(*) No horário de verão some uma hora

* O limite das constelações foi estabelecido pela União Astronômica Internacional em 1930, o que permite estabelecer, com grande precisão, o instante de entrada e saída do Sol de cada uma das 13 constelações que são atravessadas pela trajetória anual aparente do Sol, a eclíptica.

INOVAÇÃO

10 grandes avanços que

irão melhorar a vida,

transformar a

computação e talvez

até salvar o planeta

Em 1878, Thomas Edison recorreu às páginas de Scientific American para esclarecer algumas concepções equivocadas sobre uma nova invenção sua: o fonógrafo. Setenta anos mais tarde, um de nossos correspondentes escreveu sobre um substituto para o tubo a vácuo, um dispositivo que poderia resultar em “aparelhos auditivos menores, rádios por- táteis realmente pequenos [e] componentes eletrônicos mais compactos para aeronaves”. A nova invenção chamava-se transístor. Para comemorar seu aniversário de 170 anos, a Scientific American selecionou 10 dos maiores avanços de 2015. Talvez alguns deles entrem na coletânea dos maiores sucessos daqui a 170 anos. Os editores

IDEIAS QUE MUDARÃO O MUNDO

Máquinas controladas pelos olhos

No início deste ano, Erik Sorto, um tetra- plégico, usou seus pensamentos para guiar um braço robótico a levar uma cerveja até seus lábios. O problema dessa façanha impressionante é que sua tecnologia, um chip repleto de eletrodos implantado no cérebro, é cara e invasiva, e muitas vezes requer meses de treinamento. Pior, poucas

e físico exigido pela técnica. Em vez de criar uma ligação direta entre

a atividade elétrica do cérebro e máquinas,

Aldo Faisal, professor associado de neuro- tecnologia no Imperial College de Londres, quer usar movimentos oculares para contro- lar cadeiras de rodas, computadores e jogos de videogame. Ele e seus colegas construí- ram óculos especiais que registram os movi- mentos dos olhos do usuário e transmitem

26 Scientific American Brasil | Janeiro 2016

esses dados para um computador. Em seguida, um software traduz essas informa- ções em comandos para máquinas. Quase qualquer pessoa pode usar a tecnologia, inclusive amputados, tetraplégicos e aqueles que sofrem de Parkinson, esclerose múltipla menos de US$ 50. Em uma exposição de ciências, a maioria de milhares de voluntá- bem após 15 segundos para jogar o video- game Pong, sem necessidade de instruções. Baseando-se em 70 anos de pesquisas sobre a neurociência de movimentos ocula- res, Faisal e seus colegas escreveram algorit- mos que transformam um olhar em um comando para uma cadeira de rodas, uma piscada em um clique do mouse, ou o movi- mento rápido de uma pupila [contração ou

dilatação] em uma guinada de um game paddle, ou joystick, o dispositivo de controle de jogos. Para prever intenção, os algorit- mos dependem de treinamento com dados do mundo real, adquiridos através do regis- tro dos movimentos oculares de voluntários enquanto eles dirigiam uma cadeira de rodas com um joystick ou operavam um braço robótico. Gradativamente, o software aprendeu a diferenciar entre, por exemplo, o jeito como as pessoas olham para um copo quando estão avaliando seu conteúdo e quando querem pegá-lo para dar um gole. Antes que Faisal possa comercializar quaisquer dispositivos médicos baseados na para ensaios clínicos. Enquanto isso, um sub- sídio de 4 milhões de euros da União Euro- peia apoiará seu grupo enquanto este desenvolve exoesqueletos robóticos que pessoas paraplégicas poderiam controlar utilizando o software de monitoramento ocular que criou. —Rachel Nuwer

Foguetes a micro-ondas

Modelo de baixo custo pode impulsionar exploração espacial

Há mais de 50 anos, cerca de 90% do peso dos foguetes usados para atingir a órbita terrestre é constituído de combustível e material de propulsão, deixando pouco espaço para cargas. Se fosse possível dimi- nuir esse peso, se reduziriam também os custos de programas espaciais. Em 1924, o cientista russo Konstantin Tsiolkovsky expôs um jeito para fazer isso acontecer ao sugerir que raios de micro-on- das disparados por transmissores baseados em terra poderiam fornecer a energia necessária para a subida de um foguete. Tsiolkovsky propôs usar espelhos parabóli- cos para apontar “um feixe paralelo de raios eletromagnéticos de curto comprimento de onda” para a “barriga”, ou parte de baixo, de um foguete, aquecendo o material de pro- pulsão para produzir empuxo sem a neces- sidade de grandes quantidades de combus- mente alcançou a visão de Tsiolkovsky. Os

de micro-ondas por emissão estimulada de radiação) foram inventados na década de 1950, mas foi só após surgirem geradores melhores e mais acessíveis, chamados giro- trons, eles conseguiram atingir níveis de energia em escala megawatt necessários para lançamentos espaciais. Recentes avan- ços em baterias e outros sistemas de arma- zenamento de energia também possibilita- grandes sem sobrecarregar a rede elétrica. Kevin Parkin comandou um estudo pio- neiro sobre esse conceito em 2012, no Insti- tuto de Tecnologia da Califórnia (Caltech). Baseada em parte no trabalho de Parkin, a empresa Escape Dynamics está realizando testes para desenvolver um sistema reutili- zável, acionado por micro-ondas, que pode- ria levar satélites, e, futuramente talvez até humanos ao espaço. Em julho a Nasa adi- cionou a tecnologia de foguetes impulsio- nados por radiação ao seu roteiro para o desenvolvimento de tecnologia futura. — Lee Billings

Cerca de 90% do peso de foguetes é formado por combustível e materiais de propulsão

2

1

3

downrange

6

downrange

SCIENCE SOURCE ( vírus )

IDEIAS QUE MUDARÃO O MUNDO

Sondas cerebrais

Dispositivos eletrônicos macios podem impulsionar a neurociência

Para desvendar os mistérios do cérebro, cientistas precisam monitorar neurônios delica- da e em objetos de estudos vivos. Mas, em termos gerais, sondas cerebrais têm sido ins- trumentos de força bruta. Uma equipe na Universidade Harvard, liderada pelo químico Charles Lieber, espera que implantes de malhas de polímeros, macias como seda e cheia de sensores eletrônicos incrustados, em camundongos vivos. Uma vez que tenha provado ser segura, ela poderia ser utilizada em pessoas para estudar como a cognição brota da ação de neurônios individuais e para tratar de doenças como Parkinson. —Seth Fletcher

O H1N1 INFLUENZA é um de muitos vírus detectados por um único novo teste inédito.

Arrasto de vírus

com quase 100% de precisão

infecção, médicos geralmente usam a rea- ção em cadeia da polimerase (PCR), que “amplia” fragmentos de DNA em uma dada. Mas a técnica exige do médico ter alguma previsão de quais vírus procurar. Em setembro passado, uma equipe da Universidade Columbia, em Nova York, criou um método para eliminar essas suposições, detectando todos os vírus em nal com precisão de quase 100%. O méto- do permite fazer 21 análises simultâneas em menos de 48 horas a um custo esti- mado de apenas US$ 200 por amostra. Além disso, a técnica também detecta sejam pelo menos 40% idênticos aos conhecidos. “Quando alguém vai a um pronto-socorro e é submetido a todos os tipos de exames, isso custa milhares de dólares”, observa W. Ian Lipkin, professor de epidemiologia na Escola Mailman de Saúde Pública da universidade. “Esse método é muito barato e nos permite per- sonalizar a medicina ao lhe dizer exata- mente o que você tem.” Lipkin e seus colegas criaram primeira- mente um banco de dados de mais de mil

28 Scientific American Brasil | Janeiro 2016

1

(vermelho)

amarelo

2

vírus de vertebrados. Em seguida, sinteti- zaram sondas genéticas para combinar com todas as cepas de todos os vírus —

do tubo. Depois de isolar e lavar os con-

to DNA de 25 a 50 nanômetros. Quando uma sonda encontra um vírus correspon- dente, ela se liga a ele. Para extrair esses vírus, técnicos adicionam “pérolas” mag-

néticas que medem de um a três mícrons de diâmetro à mistura; um ligante quími- co então liga essas “pérolas” ou grânulos às sondas genéticas e vírus que captura-

ram. Depois disso, os pesquisadores põem tubo com a mistura em um suporte mag- nético, que atrai as sondas para as paredes

juntos sonda-pérola-vírus, eles sequen- ciam geneticamente os vírus, eliminando o risco de falsos positivos. Lipkin e seu grupo agora procuram formar uma parce- ria comercial para distribuir a tecnologia a hospitais e clínicas. Eles também planejam adicionar sondas para todas as bactérias e fungos infecciosos conhecidos. — R.N.

Ilustração de Don Foley

CORTESIA DE GENERAL FUSION

PROTÓTIPO em uma esfera central.

Fusão encolhe para crescer

Após décadas de lento progresso e investimentos pesados, alguns grupos de pesquisa de energia estão mudando sua estratégia

Defensores da energia de fusão podem ser acusados de serem excessivamente oti- mistas, mas jamais de pensar “pequeno”. A fusão ocorre quando dois átomos se fundem para, juntos, formarem um terceiro, conver- tendo matéria em energia. Esse é o processo

que alimenta o Sol, e os principais projetos do mundo da fusão são igualmente grandes

e grandiosos. Um consórcio de sete países

está construindo na França o Reator Termo-

nuclear Experimental Internacional (ITER, na sigla em inglês). Seu reator de US$ 21

bilhões em forma de “rosquinha” usará mag- netos supercondutores para criar plasma

vés do programa Aceleração de Plasma

a fusão. Quando concluído, o ITER pesará 23

mil toneladas, três vezes o peso da Torre Eif- fel, em Paris. Seu principal concorrente, a National Ignition Facility (NIF), do Laborató- rio Nacional Lawrence Livermore, na Cali- fórnia, é igualmente complexo: ele dispara

192 lasers contra uma pequena “bola” de combustível, até esta ser submetida a tem- peraturas de 50 milhões de graus Celsius e pressões de 150 bilhões de atmosferas. Apesar de tudo isso, uma usina de ener- gia por fusão operacional, baseada nas tec- nologias do ITER ou da NIF, continua a décadas de distância. Uma nova safra de pesquisadores está seguindo uma estratégia diferente: encolher em vez de expandir. Em 2015, a ARPA-E, a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada–Energia dos EUA, inves- tiu quase US$ 30 milhões em nove projetos menores visando uma fusão acessível atra-

com Aquecimento e Montagem de Baixo Custo (Alpha, na sigla em inglês). Um proje- to representativo, executado pela empresa Magneto-Inertial Fusion Technologies, de Tustin, na Califórnia, está sendo concebido para atingir um plasma com uma corrente

para induzir a fusão. A abordagem tem pedi- gree: cientistas do Laboratório Nacional de Los Alamos empregaram esse efeito em 1958 para criar a primeira reação de fusão sustentada em um laboratório. Empresas não afiliadas ao projeto Alpha também estão nessa corrida. A General Fusion, no Canadá, construiu um dispositivo que usa ondas de choque que se propagam por metal líquido para induzir fusão. A Tri Alpha Energy está construindo um reator de 23 metros de comprimento que dispara par- tículas carregadas umas contra as outras. E a gigante da defesa Lockheed Martin diz que terá um reator de fusão magnética do tama- nho de um contêiner de transporte que será comercialmente disponível em uma década. O histórico da fusão sugere que esses projetos devem ser vistos com ceticismo. Mas, se qualquer uma dessas abordagens conseguir produzir energia limpa e abun- dante, sem resíduos radioativos, ela poderia resolver males que vão da pobreza energéti- ca a mudanças climáticas com uma única inovação. —David Biello

IDEIAS QUE MUDARÃO O MUNDO

Segurança para transgênicos

Interruptor genético pode evitar contaminação ambiental

Números incalculáveis de bactérias Escherichia coli produzem pelo mundo coisas úteis como insulina medicinal, polímeros sintéticos e suplementos alimentares. Após cumprirem seus papéis, elas são descartadas como resí- duo industrial ou reusadas como fertilizante. Esse descarte atualmente constitui pou-

co risco ambiental, pois a E. coli transgênica

é

fraca comparada a suas primas selvagens

e

não sobreviveria por muito tempo fora do

laboratório. Mas e se no futuro bactérias transgênicas mais resistentes forem libera- das por acidente? Ou se elas compartilha- tência a antibióticos, por transferência horizontal de genes? Ou se uma empresa dos no DNA de uma bactéria patenteada? temas de segurança à prova de falhas. Em 2009, Brian Caliando, bioengenheiro

à época na Universidade da Califórnia em

São Francisco (UCSF), começou a trabalhar em uma forma de garantir a destruição do bactéria antes de ela escapar ou ser rouba- da. Ele havia lido recentemente sobre o método CRISPR [sigla, em inglês, de repeti- ções palindrômicas curtas agrupadas e regularmente interespaçadas], uma defesa que bactérias usam para picotar e destruir o DNA de vírus invasores, e percebeu que poderia usá-lo como um “interruptor assas- sino” embutido em bactérias transgênicas. Primeiro na UCSF e depois no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Caliando desenvolveu o DNAi, um sistema

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ainda não inventados, podem ir parar onde são indesejados. Cientistas desenvolvem sistemas para evitar contingências desse tipo

baseado em CRISPR que leva bactérias a programou plasmídeos, pequenos círculos de DNA que se replicam autonomamente formam o interruptor. Em seguida, ele inse- riu esses plasmídeos em E. coli genetica-

dir a polinização cruzada entre organismos

e infectaram as bactérias com seus progra- mas mortais. A adição do açúcar chamado arabinose à cuba de cultura aciona o inter-

ruptor matador, e o dispositivo DNAi come- O trabalho de Caliando foi publicado em Nature Communications, em 2015. Os mes- mos princípios poderiam ser adaptados para funcionar em diversos organismos e condi- ções. O DNAi poderia, por exemplo, impe-

lavouras, ou campos próximos, sugere Caliando. — Jennifer Abbasi

 

(à direita):

(cinza) (preto)

(acima)

Termoaspirador

Espelho versátil absorve calor e o irradia para o espaço exterior

Aparelhos de ar-condicionado respon- dem por quase 15% do consumo energético de edifícios nos EUA. O número de dias com calor recorde pode aumentar muito nas próximas décadas. Como arrefecer nossas casas e locais de trabalho e, ao mesmo tem- po, reduzir o consumo de energia? Para pesquisadores da Universidade de Stanford, parte da solução é um espelho que absorve o calor de edifícios banhados pelo Sol e o irradia para o espaço sideral. O con- ceito básico, conhecido como resfriamento radiativo, se originou na década de 1980, quando engenheiros descobriram que cer- tos tipos de coberturas de metal pintado “extraíam” calor de edifícios e o irradiavam

em comprimentos de onda que passam livres pela atmosfera. Mas o processo nunca funcionou durante o dia, pois ninguém tinha feito um material que irradiasse energia tér- Em ensaios sobre o telhado de seu labo- ratório, a equipe de Stanford testou seu dis- positivo, feito de camadas de dióxido de háf- nio e dióxido de silício sobre uma base de solar. Os átomos de dióxido de silício se comportam como pequenas antenas que absorvem calor do ar de um lado do painel e emitem radiação térmica do outro. O mate- rial irradia principalmente em comprimen- tos de onda entre oito e 13 nanômetros. Como a atmosfera da Terra é transparente a esses comprimentos de onda, em vez de aquecer o ar ao redor do prédio, o calor escapa para o espaço. Mesmo exposto à luz solar direta, a temperatura da “bolacha” de 20 centímetros de diâmetro do grupo é cer-

ca de 5 o C mais baixa que a do ar. Shanhui Fan, engenheiro elétrico de Stanford e autor sênior de um artigo de 2014, publicado em Nature, descrevendo o trabalho, imagina que painéis desse material poderiam cobrir edifícios. Com seu telhado expelindo continuamente calor, o ar-condi- cionado de um prédio poderia funcionar a uma taxa mais módica e consumir menos energia. Outras aplicações também seriam possíveis. Remover o componente espelho e combinar o material com células solares, por exemplo, poderia arrefecer as células foto- voltaicas, permitindo, ao mesmo tempo, que cientes. “É muito interessante pensar sobre como seria possível acessar esse enorme recurso termodinâmico que o Universo representa como um sumidouro de calor”, comenta Fan. “Realmente só estamos muito no começo do reconhecimento dessa fonte de energia renovável subexplorada.” — R.N.

IDEIAS QUE MUDARÃO O MUNDO

Máquinas

autodidatas

As redes de aprendizado profundo têm mui- to mais camadas que as neurais convencio- nais. Quanto mais profunda é a rede, mais camadas ela tem e mais elevado é o nível de abstração em que ela é capaz de operar. O aprendizado profundo ganhou impul- so em meados dos anos 2000 com o traba- Toronto, Yoshua Bengio, da Universidade de Montreal, e Yann LeCun, da Universidade de Nova York. Mas só recentemente a tecnolo- gia começou a fazer incursões comerciais. Um exemplo disso é o Google Fotos, lança- do em maio. O software é capaz de carregar

didata, capaz de ensinar a si mesmo a jogar

minimizadas. Ele consegue fazer isso porque

ção a milhões de imagens analisadas pelo sistema. Uma vez que tenha treinado em narizes e as bocas de pessoas individuais em imagens que nunca viu antes. O aprendizado profundo pode fazer mui- to mais que organizar fotos. Ele pode mar- que exibe comportamentos praticamente indistinguíveis dos de humanos. Em feverei- ro, a DeepMind (comprada pela Google em 2014 por US$ 617 milhões), sediada em Lon- dres, informou ter usado o aprendizado pro- fundo para construir um computador auto-

dezenas devideogames da empresa Atari. Após muita prática, o software teria vencido humanos peritos nesses jogos. O passo é pequeno, mas a era das máquinas tem de começar em algum lugar. — Gary Stix

Tecnologia de aprendizado profundo ajuda inteligência

A Google, o Facebook e outros gigantes corporativos estão dando importantes pas- sos na construção de tecnologia capaz de aprender por conta própria. Seus esforços dependem fortemente de algo conhecido como aprendizado profundo. Enraizadas na ideia existente há décadas de que computadores seriam mais inteli- gentes se operassem mais como o cérebro humano, as redes de aprendizado profundo consistem em camadas sobrepostas de uni- dades de processamento conectadas, cada uma das quais executa uma operação dife-

aprendeu a reconhecer rostos com a exposi-

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Química em câmera lenta

Simulações computadorizadas e espectroscopia no infravermelho revelam o mundo oculto das reações em líquidos

As ligações de hidrogênio de nosso DNA parte da química ambiental de nosso plane- ta ocorre nas águas. A maioria das drogas é sintetizada em solventes. No entanto, quí- micos em geral só estudam a mecânica liga- ção a ligação na fase gasosa, em que as moléculas são relativamente esparsas e fáceis de rastrear. Em um líquido há mais moléculas e mais colisões entre elas, com reações rápidas, confusas e complicadas. O processo a ser observado parecerá um bor- rão indistinto, a menos que se possam tirar fotos instantâneas da reação em poucos tri- lionésimos de um segundo. Andrew Orr-Ewing, da Universidade de Bristol, na Inglaterra, usa lasers para estudar reações químicas. Ele sabia que reações em líquido catalisadas por calor criam vibrações que podem ser observadas no espectro infravermelho. Em experimentos conduzi- dos de 2012 a 2014, ele e o então estudante de doutorado Greg Dunning dispararam um pulso ultravioleta ultrarrápido contra molé- vente chamado acetonitrila, ou cianeto de metila. O pulso de laser desbastou, como um bisturi, átomos de flúor altamente reati- vos que, por sua vez, roubaram átomos de deutério das moléculas do solvente, forman- que as reveladoras vibrações de infraverme- lho apareceram e sumiram após o primeiro pulso de laser, revelou a rapidez com que as ligações entre átomos se formavam e com que velocidade a reação atingia equilíbrio. Os experimentos foram uma prova de conceito para observar os detalhes, em fra- ções de segundo, de reações em líquidos. cas, a maioria dos químicos usa simulações computadorizadas em vez de detectores e lasers caros. Para eles, David Glowacki e Jeremy Harvey, também de Bristol, dese- nharam um software de simulação que pre-

1

Câmera

2

Visão em curva

Fótons ajudam a captar imagens além do campo visual

Se câmeras“enxergassem”em ângulo, elas poderiam alertar motoristas para perigos após uma curva, ajudar bombeiros a vasculhar prédios em chamas e permitir a cirurgiões visualizar áreas de difícil alcance no interior do corpo. Há alguns anos, pesquisadores do Media Lab, no MIT, construíram um protótipo precoce e caro, que software memorizava o tempo de chegada de cada fóton, calculava distâncias e tecnologia.Agora ela consegue registrar objetos em movimento. Um LED e um sen- — Larry Greenemeier

viu os resultados dos experimentos com um nível extraordinário de precisão. “Podemos usar essas simulações para investigar mais profundamente o que está acontecendo, pois elas nos dão informações mais precisas do que as que podemos obter dos experimentos”, explica Orr-Ewing. Em conjunto, os experimentos e as simu- lações fornecem os melhores insights até

agora de como uma reação química realmente acontece em um líquido. Desen- volvedores de novas tecnologias já estão começando a incorporar métodos da equipe em simulações computadorizadas para uso acadêmico e industrial, que poderiam bene- de doenças, desenvolvimento de medica- mentos e estudos ecológicos. — J. A.

MEIO AMBIENTE

O invasor

DOURADO

Originário da Ásia, o mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei) foi detectado na América do Sul em 1991 na foz do Rio da Prata, na Argentina. Nas décadas seguintes ele se dispersou pelas bacias do Sul e Sudeste do Brasil, prejudicando a fauna e flora aquáticas e instalações de captação de água e geração de energia. Em 2015 foi confirmada sua presença no Rio São Francisco, trazendo o risco de a invasão se alastrar para a Amazônia.

Arthur C. Almeida, Newton P. U. Barbosa, Fabiano A. Silva, Jacqueline A. Ferreira, Vinicius de Abreu e Carvalho, Marcela D. Carvalho, Antônio V. Cardoso

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Microscopia Eletrônica de Varredura/CBEI

Arthur C. Almeida, , , , são pesquisadores do Centro de Bioengenharia de Espécies Invasoras (CBEI) em Belo Horizonte, MG Marcela D. é analista de meio ambiente da Companhia Energética de Minas Gerais (CEMIG) em Belo Horizonte, MG.

O MEXILHÃO-DOURADO É UM PEQUENO MOLUSCO DE COLO-

ração dourada do Sudeste Asiático. Em seu hábitat

de origem, a bacia do Rio Yang Tsé, na China, essa

espécie aquática compete por nutrientes com

outros organismos e ainda sofre predação e ação de parasitas. Assim, as suas populações se encontram relativamente controla- das nessa região. Entretanto, ao ser inserido em outras bacias hidrográficas, a sua elevada capacidade de reprodução faz desse organismo um excelente invasor. Na década de 1960, o pequeno molusco já havia se estabelecido em diversas regiões do Japão, Taiwan e Hong Kong, causando vários prejuízos ambientais e eco- nômicos, entre eles a introdução de parasitas de peixes.

ausência de grandes predadores e parasitas, por exemplo, oferece uma vantagem considerável ao mexilhão- -dourado, em comparação com as espé- cies nativas de moluscos e crustáceos. As densas populações de mexilhões- -dourados aderem a esses organismos, prejudicando a captação de alimentos

e provocando a morte de um grande número de indivíduos. Devido à grande densidade das populações estabelecidas e à sua eficiência na filtração de água, os agrupamentos de mexilhões-dourados podem também inter- ferir no equilíbrio fisico-químico local dos corpos d’água, reti- rando grande quantidade de partículas em suspensão, alteran- do a zona fótica (a que recebe luz suficiente para haver fotossíntese) e as populações planctônicas que dela dependem diretamente. O resultado é a completa alteração da cadeia ali- mentar nesses locais, que muitas vezes pode resultar na extin- ção de diversas espécies nativas de moluscos, peixes, micro- crustáceos, dentre outros organismos.

A primeira ocorrência oficial do mexilhão-dourado (Limnoper- na fortunei, Mitilidae) na América do Sul foi registrada em 1991, na foz do Rio da Prata, Argentina. Desde então, a espécie tem se alastrado por diversos rios do continente. Os primeiros registros no Brasil aconteceram por volta do ano de 1998, no Rio Grande do Sul e no Mato Grosso do Sul. A principal hipótese acerca da inva- são dessa espécie em nosso continente é de que ela teria chegado por meio da água de lastro de navios mercantes, que é devolvida ao ambiente enquanto o navio é abastecido com mercadorias. Após se estabelecerem, as minúsculas larvas do mexilhão-dou- rado se dispersam rapidamente pela água e a sua invasão também é potencializada por atividades humanas, tais como a pesca e o transporte fluvial, que transportam ativamente essas larvas e tam- bém as colônias incrustantes de mexilhões adultos. Além disso, algumas espécies de peixes nativos já incluíram o mexilhão-doura- do em suas dietas, intensificando ainda mais a dispersão do inva- sor. Já existem, por exemplo, relatos de indivíduos de mexilhão- -dourado consumidos e excretados vivos nas fezes de abotoados (Pterodoras granulosus) na bacia do Rio Paraná. Por esses e outros motivos, as populações de mexilhão-dourado se dispersaram a uma velocidade de aproximadamente 240 quilô- metros anuais continente adentro, apenas entre os anos de 1991 e 1998, até chegar ao Brasil. São inúmeros os impactos ecológicos resultantes do seu estabelecimento nos rios sul-americanos. A

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PREJUÍZOS DA INVASÃO

Acredita-se que populações densas de mexilhões-dourados pos- sam também favorecer a proliferação de cianobactérias tóxicas. Similarmente, diversos trabalhos têm demonstrado que outro molusco invasor, o Dreissena polimorpha, conhecido como mexi- lhão-zebra (causador de problemas similares aos do mexilhão-dou- rado, em diversas regiões da América do Norte), tem provocado o aumento das florações de cianobactérias tóxicas em grandes lagos e reservatórios. Na baía de Saginaw e no lago Erie, na região dos Grandes Lagos, na América do Norte, ocorrências de florações de Microcystis aeruginosa, que não eram mais registrados após o con- trole da entrada de fósforo no sistema, voltaram a ocorrer após o estabelecimento do mexilhão-zebra.

FABIANO SILVA

Trabalhos recentes têm demonstrado que o mexi- lhão-dourado filtra as células individuais de Microcys- tis sp. tóxicas, excretando-as através das suas pseudofe- zes. Entretanto, na presença de um outro alimento disponível, o mexilhão-dourado funciona como um agente seletivo, reduzindo a abundância dos organis- mos competidores e também favorecendo a ocorrência de florações tóxicas da cianobactéria Microcystis aeru- ginosa nos ambientes invadidos. Estas florações podem potencializar ainda mais os efeitos negativos do proces- so de invasão, tais como a mortalidade de peixes e de outros organismos aquáticos, e ainda inviabilizam a utilização dessas águas para o abastecimento humano. O mexilhão-dourado possui uma concha nacarada, composta por aproximadamente 95% de matriz mine- ral. Os indivíduos podem chegar a 5 centímetros de comprimento, mas já são capazes de se reproduzir com apenas 0,5 centímetro, atingindo populações extremamente densas de até 200 mil indivíduos por metro quadrado, aderidos ao substrato e também uns sobre os outros, em gerações consecutivas. Esse pequeno molusco adere a praticamente qual- quer substrato sólido, inclusive vidros, PET e teflon. O pé, órgão com funções táteis e locomotoras, é coberto por cílios que podem atuar temporariamente como estruturas de adesão. O mexilhão se fixa de forma definitiva por meio do bisso, que é composto por um conjunto de polímeros secretados pelas glândulas do pé. Do bisso um conjunto de emaranhados fibrosos se projeta individualmente de cada bainha, em forma de fios. Estes são compostos por um eixo interior flexível

de colágeno revestido por uma proteína polifenólica curada e endurecida, que compõe a cutícula bissal. Para diversas atividades humanas, a presença do mexilhão-dou- rado é sinônimo de prejuízos financeiros. Eles podem, por exemplo, se incrustar nos tanques-rede utilizados na piscicultura, prejudican- do o fluxo de água entre os tanques e o rio, provocando acúmulo de metabólitos dentro dos tanques e eventualmente causando um aumento na mortalidade dos peixes. Os mexilhões-dourados podem também invadir estruturas industriais de captação de água, inter-

rompendo atividades de irrigação e fornecimento de água, como já foi observado em Rio Pardo, no Rio Grande do Sul, e em Presidente Epitácio, em São Paulo. Esses moluscos invasores também se acu- mulam nos encanamentos das usinas hidrelétricas, causando o entupimento dos trocadores de calor, provocando a parada das máquinas para manutenção e limpeza. Além disso, a decomposição de mexilhões mortos dentro de câmaras de passagem de água de uma usina hidrelétrica provoca a liberação de gases que oferecem risco aos trabalhadores envolvidos com a limpeza das estruturas. O acúmulo de mexilhões nos cascos dos veículos aquáticos aumenta a força de arrasto na água resultando em maior consumo de combustível, que também pode ser afetado com incrustações no interior dos motores. Somados, os prejuízos causados por esse inva- sor nos últimos anos já somam centenas de milhões de dólares ape- nas no Brasil.

O SALTO DO SUDESTE AO NORDESTE

Nos últimos anos as áreas invadidas se expandiram do sul do país até o Pantanal Mato-grossense e também o Triângulo Minei- ro, regiões limítrofes da bacia do Paraná. Até então a maior preo- cupação dos pesquisadores envolvidos com esse tema era como fazer para impedir o mexilhão de se dispersar para as bacias do São Francisco, Amazonas e Tocantins, regiões de enorme diversi- dade biológica e cultural, a partir das áreas infestadas ao sul. Entretanto, assim como os alemães se desviaram da linha Magi- not para invadir a França, em 1940, o mexilhão, de alguma forma, teria circundado o que chamávamos de linha do Cone Sul, e che- gou à Caatinga, a 1.500 km da área infestada mais próxima. Em junho deste ano foi relatada a presença do mexilhão-dou- rado no reservatório de Sobradinho, no submédio São Francisco. Em outubro, uma equipe do Centro de Bioengenharia de Espécies Invasoras (CBEI), sediado em Belo Horizonte (MG), foi à região para confirmar. Foram encontradas larvas e adultos no reservató- rio, indicando que o mexilhão já estava bem estabelecido. Ainda é cedo para se mensurar os impactos da chegada do mexilhão-dourado na bacia do Rio São Francisco. Entretanto, diversos impactos ambientais e sociais devem se intensificar no médio e longo prazo nessa região.

FABIANO SILVA

A presença de populações de mexilhões-dourados no Rio São Francisco pode causar a alteração da cadeia alimentar das áreas afetadas, podendo também desencadear florações de cianobacté- rias e o deslocamento de espécies nativas de peixes e outros orga- nismos. As comunidades de pescadores serão impactadas e a cap- tação de água em pequenas comunidades e em pivôs de irrigação poderá ser seriamente afetada devido à presença de incrustações de mexilhões que poderão entupir as tubulações. Para uma região já gravemente afetada pela falta de água, esses problemas terão um peso ainda maior. A Caatinga é uma região extremamente seca, e por isso, grandes projetos de captação de água estão em andamento, tais como o eixo norte do canal de transposição do São Francisco, a aproximadamente 150 km do

AQ U I C U L T U R A

Larvas pegam carona

A piscicultura em tanques rede, localizados em rios e reser- vatórios, assim como as atividades de peixamento, que consistem no povoamento ou repovoamento de um rio ou reservatório por rior à pós-larval), são atividades de alto risco à introdução de espé- cies exóticas invasoras. O risco de invasão pelo mexilhão-dourado é altamente potencializado já que durante o processo de introdução de alevinos, águas contaminadas com larvas microscópicas do mexilhão servem de propágulos que podem cul- minar na invasão do organismo. Na fase larval, o mexilhão é microscópico e, por isso, mesmo uma água cristalina pode conter larvas que permitam a invasão pelo molusco. Assim, as larvas de mexilhões podem pegar carona na água utilizada para o trans- porte de alevinos. Por isso, é de suma importância que as empre- sas responsáveis por estas atividades estejam bem informadas e adotem medidas de biossegurança que garantam a ausência de espécies invasoras nas águas que transportam alevinos. Além dis- garantir que a origem dos alevinos para estas atividades sejam de áreas livres, não infestadas pelo mexilhão-dourado.

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reservatório de Sobradinho. Infelizmente, a equipe do Centro de CBEI também coletou indivíduos e larvas de mexilhão-dourado na entrada do eixo norte do canal de transposição do São Francisco. O eixo norte do canal de transposição do rio irá levar água para diversos açudes do Nordeste, tais como o de Entremontes a alguns quilômetros dali, no estado de Pernambuco.

RISCO DE NOVAS INVASÕES

A presença do molusco invasor nessas localidades é altamente prejudicial, pois afetará a captação de água pelas comunidades adjacentes, agravando o que já é grave: a falta de água. Por essa razão, é extremamente urgente que essas localidades comecem a ser monitoradas desde já. A identificação da presença do mexilhão- dourado na fase de estabelecimento é de suma importância para serem tomadas medidas de controle. Um organismo invasor geralmente só é identificado quando as suas populações já estão bem estabelecidas e podem ser

visualizadas com facilidade. Entretanto, após o estabelecimento, o controle se torna muito mais custoso e difícil. Por isso, técnicas de detecção rápida devem começar a ser utilizadas imediatamente nessas regiões e em outras localidades do país, assim como já é realizado na América do Norte, por exemplo, e também já utiliza- da pela Companhia Energética de Minas Gerais (CEMIG), por meio do CBEI. Somando a isso, torna-se real a possibilidade de o mexilhão- -dourado subir o São Francisco até a região central de Minas Gerais, de onde poderia se alastrar para diversas sub-bacias. Uma destas é a do Rio das Velhas, que é de extrema importância para o fornecimento de água para a região metropolitana de Belo Hori- zonte, com cerca de seis milhões de habitantes. Além disso, a nova ocorrência fez soar o “alerta vermelho”, pois foi observado que o molusco asiático pode entrar no Brasil por novas rotas. Os portos do Norte e Nordeste, por exemplo, conti- nuam sendo uma provável via de entrada para o mexilhão-doura- do. Nos últimos anos o fluxo de navios mercantes nessas regiões aumentou consideravelmente, o que pode resultar em uma nova onda de invasões do mexilhão-dourado e de outros organismos aquáticos invasores. Por essas razões, é imprescindível que medi- das emergenciais sejam tomadas para o controle dessa espécie, que é extremamente nociva para os ecossistemas e para a econo- mia de nosso país. Os episódios de invasão pelo mexilhão-dourado podem ser identificados de diversas maneiras. Geralmente, o problema é identificado quando as populações já se encontram grandes e bem estabelecidas. A observação de larvas ou indivíduos isolados

é extremamente difícil, e é um problema comum para o manejo

de diversas espécies invasoras. Além disso, muitas vezes os orga- nismos vindos de outras regiões se mantêm em um determinado

lugar por anos antes de se tornarem invasores. Dessa forma, a detecção rápida destes organismos na fase de preestabelecimento

é de extrema importância para o controle das populações invaso-

ras. A utilização de um protocolo de detecção rápida periódico em regiões não afetadas assegura que um episódio de invasão seja controlado em suas fases iniciais, o que potencializa as chances de sucesso no controle populacional da espécie.

NEWTON P. U. BARBOSA / VINICIUS DE ABREU E CARVALHO

O CA M I N H O DA I N VA S ÃO

Da Ásia ao São Francisco

O mexilhão-dourado foi detectado na América do Sul pela primeira vez em 1991 na foz do Rio da Prata, na Argentina, pro- vavelmente por meio da água de lastro despejada por navios mercantes vindos da Ásia. Nas duas décadas seguintes ele se alastrou pela região Sul, chegando à divisa de São Paulo com Minas Gerais e ao sul de Mato Grosso do Sul.

Diversas técnicas de identificação podem ser empregadas, como a microscopia óptica. Também pode ser usada a amplifica- ção do DNA do mexilhão em amostras de água por reação da cadeia da polimerase (PCR), além de equipamentos de identifica- ção de larvas por reconhecimento automático de imagens. É de extrema importância a fiscalização de embarcações, pois

o mexilhão-dourado se dispersa com relativa facilidade através

das incrustações. Por isso, é sugerida a limpeza frequente dos cas-

cos com o uso de jatos de água, água sanitária, além de tintas anti- -incrustantes, nas embarcações que frequentam áreas infestadas. Restos de plantas e outros organismos, como moluscos e peixes, não podem ser descartados nos rios e reservatórios – devem ser descartados fora dos cursos d’água, enterrados ou incinerados. Na piscicultura os cuidados devem ser redobrados. Telas e outros equipamentos usados nessa atividade muitas vezes são levados a regiões diferentes. E muitas vezes a água usada para transportar alevinos carrega larvas de mexilhões-dourados. Do ponto de vista estratégico, é necessário que os órgãos públi- cos fiscalizem o trânsito de embarcações e de turistas. O turismo de pesca pode ser um vetor de alastramento importante, uma vez que as iscas artificiais, boias e outros equipamentos podem carre- gar larvas de mexilhão-dourado entre regiões distintas. Nesse contexto, a educação ambiental tem um papel primordial. É importante que as populações dos locais invadidos e daqueles que apresentam risco de invasão conheçam o organismo invasor

e os impactos decorrentes de seu estabelecimento.

A regulação da água de lastro e os protocolos internaciona- is para reduzir o potencial de transporte de espécies potencial- mente invasoras são relativamente recentes. O Brasil participa do “Programa Global de Gerenciamento de Água de Lastro” (GLOBALLAST), criado pela Organização Marítima Internacio- nal (IMO) para evitar invasões como a do mexilhão-dourado.

Em novembro passado, em Belo Horizonte, o 2º Fórum de Debates sobre os Problemas Ambientais e Econômicos das Espé- cies Invasoras (http://www.cbeih.org/forum) discutiu a articula- ção do setor de geração de energia hidrelétrica para enfrentar o problema das espécies invasoras aquáticas, com atenção especial ao mexilhão-dourado. Organizado em parceria entre o CBEI e a CEMIG, o evento teve participação de representantes da indús- tria, do meio acadêmico e do poder público. Ficou claro para todos os participantes que só a ação coordenada das empresas e órgãos públicos será efetiva para controlar as espécies invasoras. Além disso, torna-se indispensável uma aliança com instituições ambientais e de pesquisa, inclusive com o acompanhamento pelo Ministério Público, para esse problema deixar de ser visto de for- ma isolada e ser colocado na agenda ambiental brasileira .

PARA CONHECER MAIS

Centro de Bioengenharia de Espécies Invasoras (CBEI) – Andrade et al., em Materials Science and Engineering 54, págs. 32-42; 2015. Riera et al., em Revista de Pesquisa e Desenvolvimento da ANEEL n o 6 ; 2015. 3 Limnoperna fortunei Nakamura et al., em Materials Research 17, págs. 15-22; 2014. M. D. Oliveira, D. M. R. Ayroza, D. Castellani, M. C. S. Campos e M. C. D. Man- sur, em Panorama da Aquicultura 24, vol. 145; págs. 22-29; 2014.

PALEONTOLOGIA

O que os matou

O impacto do asteroide foi ruim, mas o momento foi pior

Stephen Brusatte

EM SÍNTESE

dos dinossauros é um dos maiores mistérios da ciência. proposta há algumas décadas sugere que o impacto de um asteroide foi a cau- sa do desaparecimento desses animais. es-

peculam se outros fatores podem ter contribuído para sua destruição. sugere que na época em que a gigantesca rocha espacial atingiu o planeta, as comunidades de dinossauros já estavam vulneráveis.

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Ilustração de Jon Foster

é paleontólogo da Universidade de Edimburgo, na Escócia. Ele pesquisa evolução e anatomia de dinossauros. No artigo anterior que escreveu para a American ele analisou o ascensão dos tiranossauros.

IGREJA DO SANGUE DERRAMADO, EM SÃO PETERSBURGO, NA RÚSSIA, PARECE TER SAÍ- do de um conto de fadas. Situada às margens de um canal gelado, de uma floresta de cúpulas em forma de cebola que se elevam na direção do céu, ela é revestida com mosaicos coloridos que cobrem cada centímetro quadrado de seu interior. Esse não é o tipo de lugar que paleontólogos costumam visi- tar, mas eu estava na cidade para estudar um novo dinossauro, e insisti em conhecer o lugar. A visita tinha caráter pessoal. A igreja foi construída no local onde o czar Alexandre 2º foi assassinado pelos revolucionários em 1881, dando início a uma série de eventos que acabaram chegando até mim. A morte do czar foi o estopim para um frenético extermínio antissemita. Judeus em situação de risco no império russo estavam muito assustados, e uma família na Lituânia entrou em pânico e enviou o filho mais jovem para a América, que era mais segura. Esse homem foi meu bisavô. Se não fosse essa sucessão de fatos que começou há mais de 100 anos em São Petersburgo, hoje eu não estaria aqui.

Todas as famílias têm histórias como essa para contar — estranhas guinadas do destino num passado distante. Sem elas o presente seria muito diferente. A evolução também funciona assim. As histórias de vida são contos inesperados, sujeitos a serem redirecionados a qualquer momento. Na verdade, foi exatamente isso o que aconteceu há 66 milhões de anos, no final do período Cretáceo. Nos 150 milhões de anos anteriores, os dinossauros dominaram o planeta, atingindo dimensões gigantescas e prosperando em praticamente todos os ambien- tes terrestres imagináveis. Mas então alguma coisa mudou, e tiranossauros, triceratopes e seus parentes desapareceram. A extinção dos dinossauros é um dos maiores mistérios da ciência e foi o que me entusiasmou na adolescência. Na década passada, enquanto ou coletava fósseis de dinossauros pelo mundo, isso ficou martelando na minha cabeça: como criaturas tão bem-sucedidas simplesmente desapareceram? Uma teoria popular que se desenvolveu nos anos 1980 defende que um asteroide foi a causa. Mas os céticos especulam que outras for- ças podem ter contribuído para seu desaparecimento. À medi-

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da que os pesquisadores descobrem novos espécimes e apren- dem mais sobre a evolução desses animais, se aproximam mais de uma resposta conclusiva. Recentemente, organizei um grande encontro internacional de paleontólogos para reunir exatamente todo o conhecimento disponível e chegar a um acordo sobre a extinção dos dinossau- ros. Utilizamos os inventários de diversidade mais atualizados sobre esses répteis para examinar tendências evolucionárias ao longo do tempo, revisamos as últimas informações sobre o momento da extinção e analisamos atentamente as várias mudanças ambientais que ocorreram na época em que eles desapareceram. Para nossa surpresa, nossa equipe de quase uma dezena de especialistas em dinossauros — um grupo bas- tante inquisidor — chegou a um claro consenso: como era do conhecimento geral, a extinção foi um processo abrupto, e um asteroide foi o principal causador. Mas isso não é tudo: o aste- roide atingiu a Terra num momento que já era desfavorável para os dinossauros, quando os ecossistemas estavam vulnerá- veis devido a uma mudança ambiental anterior.

FONTE: “THE EXTINCTION OF THE DINOSSAUROSAURS”, POR STEPHEN L. BRUSATTE ET AL., EM BIOLOGICAL REVIEWS, VOL. 90, Nº 2; MAIO DE 2015.

Essa é uma nova e inesperada guinada da antiga narrativa, extremamente relevante para o mundo moderno e para nossa própria descrição evolucionária.

O MISTÉRIO CONTINUA

Como a maioria dos adolescentes, eu fiz coisas impetuosas

na época da escola. Talvez nada tenha sido mais atrevido que apanhar o telefone, num dia na primavera de 1999, e ligar sem nenhum constrangimento para Walter Alvarez, geólogo da Uni- versidade da Califórnia em Berkeley. Eu era um garoto de 15 anos obcecado por dinossauros. Ele era um eminente membro da Academia Nacional de Ciências que, cerca de 20 anos antes, tinha proposto a ideia de que o impacto de um enorme asteroi- de havia acabado com os dinossauros.

A hipótese de Alvarez começava com uma observação curio-

sa. O registro geológico preserva uma fina faixa de lama que marca o limite entre os sedimentos propícios para o desenvolvi- mento de dinossauros do período Cretáceo, que se estende entre 145 milhões e 66 milhões de anos atrás, e sedimentos impróprios para a proliferação de dinossauros do período Paleogêneo, entre 66 milhões e 23 milhões de anos. Alvarez des- cobriu que a faixa de lama estava saturada de irídio, elemento raro na Terra, mas comum em objetos extraterrestres como cometas e asteroides. Ele observou essa anomalia, pela primei- ra vez, num desfiladeiro rochoso perto do vilarejo medieval de Gubbio, na região da Úmbria, Itália. Por coincidência, minha família estava se preparando para viajar para a Itália para comemorar o aniversário de 20 anos de casamento de meus pais. Eu atormentei meus pais para fazerem uma pausa nas

visitas a basílicas e museus de arte e ir para Gubbio por um dia para ver os aspectos geológicos que criaram o famoso cenário destruidor de dinossauros de Alvarez. Mas eu precisava de indi- cações, por isso decidi ir diretamente à fonte.

O fato de Alvarez não só ter respondido ao meu telefonema,

mas também de ter me fornecido as indicações detalhadas sobre o local exato do desfiladeiro onde ele detectou os picos de irídio ainda me intrigam. Eu não esperava que aquele gênio da ciência fosse tão gentil e generoso com o tempo que me dedi- cou. Publicada na revista Science, em 1980, com Luis, seu pai, físico, ganhador do Nobel, e dois colegas de Berkeley, sua teoria do asteroide desencadeou uma década de debates acalorados. Dinossauros e extinções em massa estavam constantemente nos noticiários. A ideia do impacto aparecia em vários livros e nos documentários da televisão. E centenas de artigos científi- cos discutiam o que realmente tinha matado os dinossauros,

com paleontólogos, geólogos, químicos, ecólogos e astrônomos, todos discutindo o tema científico mais quente do dia. No final dos anos 1980 era incontestável que um asteroide ou cometa tinha se chocado contra o planeta há 66 milhões de anos. A mesma camada de irídio tinha sido observada no mundo todo. E outros aspectos geológicos formados durante impactos extraterrestres, como pequenas pedras de vidro, chamadas tectitos, e grânulos deformados de quartzo, conhecidos como quartzo de impacto, apareciam junto com o irídio.

U M A T E N D Ê N C I A V E L A DA

Herbívoros em dificuldades

Análises de dinossauros da América do Norte mostram que, no geral, eles estavam prosperando em termos do número total de espécies – uma métrica conhecida como diversidade – quando o asteroide atingiu a Terra há 66 milhões de anos (acima). Mas uma análise mais apurada revela tendências veladas de redução. Um grupo maior, os terópodes, estava se desenvolvendo bem (abaixo). Mas outro grande grupo, formado pelos ornitísquios, estava diminuindo tanto em diversidade como em disparidade, métrica que mede a variação da anatomia e tamanho das espécies presentes (meio). Dois subgrupos de ornitísquios – os dinossauros de chifre e os dinossauros bico de pato – foram duramente atingidos. É quase certo que seu declínio teve consequências para outras espécies de dinossauros.

Todos os dinossauros

 

20%

Variação porcentual

0%

-3,3%

Diversidade

( linhas azuis )

-40%

-15,1%

Ornitísquios (herbívoros)

Todos os

20%

ornitísquios

0%

(incluindo dinossauros

-36,9%

-34,0%

de chifre, bico de pato, entre outras espécies)

-60%

Dinossauros

20%

de chifre

0%

 

-23,3%

Disparidade

( linhas verdes )

 

-80%

-61,3%

Dinossauros

20%

bico de pato

0%

 

-47,2%

 

-100%

 

-100%

Terópodes (carnívoros)

 

Terópodes

40%

 

+12,6

 

0%

+20,0

-20%

Terópodes

20%

+2,3%

+1,4%

0%

-20%

CRETÁCEO

TARDIO

Campaniano

Maastrichtiniano

75

Milhões de anos

74

73

72

71

70

69

Impacto do asteroide

68

67

66

Além disso, geólogos até localizaram a cratera que data da mesma época da extinção dos dinossauros — cratera Chi- cxulub, com 180 quilômetros de diâmetro, no México. Algu- ma coisa imensa e inesperada com cerca de 10 quilômetros de extensão veio do espaço e desencadeou um cataclismo de erupções vulcânicas, incêndios em florestas, tsunamis, chu- va ácida e poeira que bloqueou a luz solar, selando o destino dos dinossauros. No entanto, os cientistas tinham pouquíssimas informa- ções sobre como os dinossauros estavam evoluindo no perío- do anterior ao impacto repentino, e exatamente como eles e o ecossistema responderam a esse extraordinário desastre ambiental. O debate continuou acirrado para descobrir se o asteroide destruiu os dinossauros de repente, enquanto eles ainda estavam na sua melhor fase, ou se foi o golpe de mise- ricórdia para um grupo moribundo que estava sendo dizima- do aos poucos e que acabaria se extinguindo de qualquer maneira. Afinal, o asteroide não atingiu um planeta estático, mas um mundo que estava passando por terríveis flutuações no nível dos oceanos, mudanças de temperatura e vulcanis- mo extremo. Alguns desses fenômenos podem ter contribuí- do para a extinção?

NOVAS DESCOBERTAS

Eu não consegui ir para Gubbio naquela viagem para a Itália com a família. Inundações fecharam a principal estra- da de ferro de Roma, e eu fiquei desolado. O destino pode ser cruel (pergunte aos dinossauros), mas ele também pode ser promissor. Imagine então minha surpresa quando, cinco anos depois, eu voltei à Itália para um curso de geologia de campo da universidade. Nós estávamos alojados num peque- no observatório nos montes Apeninos, dirigido por Alessan- dro Montanari, um dos vários cientistas que se promoveram nos anos 1980 estudando a extinção do fim do Cretáceo. No primeiro dia de nossa permanência, passamos pela bibliote- ca, onde uma figura solitária examinava um mapa geológico sob uma luz bruxuleante. “Eu quero que todos vocês conhe- çam meu amigo e orientador, Walter Alvarez”, disse Monta- nari com seu carregado sotaque italiano. “Alguns de vocês devem ter ouvido falar dele.” Alguns dias depois estávamos no desfiladeiro de Gubbio, sob o escaldante sol do Mediterrâneo e carros velozes zunindo ao redor. Alvarez estava diante de uma turma de alunos univer- sitários, apontando para o exato lugar onde a teoria do asteroi- de foi concebida. Meus colegas começaram a zombar de mim, porque, depois que me apresentei a Alvarez, e ele se lembrou de nossa discussão cinco anos antes, eu não parava de sorrir. Aquele dia ficou gravado na minha memória como um dos momentos mais importantes do início de minha carreira. Eu soube então que o mistério da extinção dos dinossauros tinha tomado conta de mim. Talvez paradoxalmente, como aluno de pós-graduação minha pesquisa focaliza principalmente a ascensão dos dinos- sauros até o ápice, e a origem e início da evolução das aves (que se originaram desses répteis e, portanto, são o único gru-

46 Scientific American Brasil | Janeiro 2016

po originado deles que não foi extinto). Mas finalmente tive a oportunidade de con- tribuir para o debate sobre a extinção dos dinossauros em 2012, quando estava termi- nando a pós-gradua- ção. Meu colega Richard Butler, da Universidade de Bir- mingham, na Ingla- terra, que usava esta- tística para estudar tendências evolucio- nárias, teve uma ideia brilhante: que tal se nós concentrássemos nosso conhecimento de diferentes grupos de dinossauros e dife- rentes técnicas de

análise para obter uma visão atualizada das mudanças que os dinossauros sofreram durante os 15 milhões a 10 milhões de anos antes da extinção? Decidimos examinar as tendências de diversidade de dinossauros usando uma métrica chamada disparidade mor- fológica. A disparidade é, essencialmente, uma medida anatô- mica da biodiversidade — ela quantifica a variabilidade de dimensões, forma e anatomia do corpo de um grupo ao longo do tempo ou em seus ecossistemas. Imagine dois ecossiste- mas, um com 15 espécies de pequenos roedores e outro com um morcego, uma gazela e um elefante. O primeiro pode ter mais espécies, mas o segundo tem um conjunto de espécies com diversidade de tamanho, forma e comportamento muito maior. A disparidade geralmente fornece um quadro mais completo da vitalidade e biodiversidade de grupos que a sim- ples contagem de uma espécie, e queríamos descobrir se havia quaisquer tendências óbvias nos dinossauros. Disparidade estável ou crescente durante o Cretáceo tardio indicaria que os dinossauros estavam vivenciando um período de prosperi- dade, quando o asteroide brutalmente interrompeu seus dias de glória, enquanto uma disparidade decrescente sugeria que eles estavam enfrentando problemas, antes do impacto. Encontramos alguns resultados intrigantes. A maioria dos dinossauros mostrou disparidade relativamente estável duran- te os 15 milhões a 10 milhões de anos anteriores ao impacto, inclusive os carnívoros terópodes (como o tiranossauro e o velociraptor), os saurópodes de pescoço longo, e os herbívoros de médio e pequeno porte (o cefalossauro com cabeça em for- ma de domo coriáceo, por exemplo). Mas dois subgrupos apre- sentavam disparidade decrescente quando o asteroide atingiu

IMPACTO MAIOR

O declínio de toda a cadeia alimentar

Modelagens por computador das cadeias alimentares de dinossauros do Cretáceo tardio, de Careless Creek Quarry, no estado de Mon- tana, e o mais jovem Lull 2 Quarry, no Wyoming, sugerem que a grande redução de dinossauros de chifre teria afetado drasticamente outras espécies. Por serem herbívoros de corpos avantajados, eles eram espé- cies chave, que serviam de presas para dinossauros carnívoros. Seu desaparecimento desestabilizou as cadeias alimentares, deixando todos os dinossauros mais vulneráveis aos efeitos devastadores do impacto do asteroide.

FONTE: STEPHEN BRUSATTE

Cadeia alimentar forte

Careless Creek Quarry Campaniano 78 milhões – 75 milhões de anos

Dromeossauro

Ornitomimossauro

Coritossauro*

Euoplocéfalo

Carnívoro topo de cadeia Carnívoro médio Pequeno predador/insetívoro Médio onívoro Médio herbívoro Grande herbívoro

Avaceratopo

*Dinossauro bico de pato Dinossauro de chifre

Tiranossauro

Mamíferos

Anfíbios

Lagartos

Troodonte

Richardoestesia

Cadeia alimentar fraca

Lull 2 Quarry Maastrichtiniano 71,6 milhões – 66 milhões de anos

Dromeossauro

Ornitomimossauro

Insetos

Hipsilofodonte

Estegoceratopes

Tiranossauro

Mamíferos

Anfíbios

Lagartos

Insetos

Troodonte

Richardoestesia

Paquicefalossauro

Tescelossauro

Hadrossauro*

Parassaurolofo*

Centrossauro

Anquilossauro

Edmontossauro *

Triceratopes

Vegetais

Vegetais

a Terra: o dinossauro de chifre (triceratopes e seus parentes) e o de bico de pato. Os dois grupos eram herbívoros de grande por- te que consumiam enormes quantidades de vegetação. Se vivês- semos na Terra há 66 milhões de anos, rapidamente teríamos notado que esses dinossauros eram os mais abundantes. Eles eram o gado do Cretáceo — os herbívoros mais importantes de cadeia alimentar. Praticamente na mesma época em que publicamos nossos resultados, outros pesquisadores estavam examinando a extinção dos dinossauros sob outros ângulos. Equipes lide- radas por Paul Upchurch, da Universidade College de Lon- dres, e Paul Barrett, do Museu de História Natural de Lon- dres, realizaram um censo da diversidade de espécies de dinossauros ao longo do tempo e descobriram que esses ani- mais, em geral, ainda eram muito diversificados na época do impacto do asteroide, mas que estava minguando o grupo que incluía aqueles que tinham chifre e os de bico de pato. Essas descobertas concordavam claramente com nossos cál- culos de disparidade. Como o declínio da riqueza de espécies e a disparidade de grandes dinossauros herbívoros afetou o resto do grupo? Os insigths surgiram de estudos inovadores de modelagem por computador, realizados por Jonathan Mitchell, na época alu- no de pós-graduação da Universidade de Chicago. Mitchell e sua equipe criaram cadeias alimentares para vários ecossiste- mas de dinossauros do Cretáceo e simularam o que acontece- ria se algumas espécies fossem eliminadas. O resultado foi surpreendente: as cadeias alimentares que existiam quando o asteroide se chocou com a Terra, que continham menor quan-

Gráficos de Daisy Chung

tidade de grandes herbívoros por causa da diminuição da diversidade, colapsaram mais facilmente que cadeias alimen- tares mais diversificadas a partir de alguns milhões de anos antes do impacto.

MOMENTO ERRADO

Com a publicação de todas essas novas ideias sobre a extin- ção dos dinossauros nos periódicos científicos, Butler e eu tivemos uma ideia um tanto perigosa: talvez pudéssemos reu- nir um grupo de elite de especialistas em dinossauros dispos- tos a sentar, discutir todo o conhecimento acumulado até o momento sobre a extinção dos dinossauros e tentar chegar a um consenso sobre por que desapareceram. No início foi qua- se que por brincadeira. Os paleontólogos discutiram esse pro- blema por décadas. Quem éramos nós para pensar que podía- mos resolvê-lo? Provavelmente nosso pequeno gráfico subversivo acabaria em um beco sem saída, ou pior, em uma gritaria. Na verdade, aconteceu exatamente o oposto. Nosso grupo, que incluía 11 cientistas dos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, na verdade chegou a um acordo. Publicamos nosso estudo em maio passado na revista Biological Reviews. Ao reanalisar todas as evidências, descobrimos que os dinossauros pareciam estar prosperando muito bem na parte final do Cretáceo. Não há sinais de que sua diversidade geral (tanto em número de espécies como em disparidade) tenha diminuído gradualmente ao longo de milhões de anos. Todos os grandes grupos de dinossauros subsistiram até o fim do Cretáceo e, pelo menos na América do Norte, onde os regis- tros fósseis de dinossauros da fase tardia desse período são

www.sciam.com.br 47

mais completos, sabemos que tiranossauros, triceratopes e seus clãs estavam todos lá para testemunhar o impacto do aste- roide. Essa descoberta descarta a hipótese, antes bem difundi- da, de que os dinossauros desa- pareceram aos poucos, em eta- pas, provavelmente por causa das flutuações de longo período do nível dos oceanos, da tempe- ratura que alterou as massas continentais e dos tipos de ali- mento a que tinham acesso. Mas ao contrário, a extinção dos dinossauros foi abrupta em ter- mos geológicos. Então é razoá- vel pensar que o impacto do asteroide – um evento súbito e inesperado – causou a extinção. Mas, como suspeitávamos com base em estudos anterio- res, o impacto do asteroide não explica toda a história. Os gran- des herbívoros sofreram um certo declínio bem no fim do Cretáceo. A razão exata desse decaimento não é conhecida,

mas pode estar relacionada a uma queda do nível dos oceanos de período mais curto, que alterou significativamente a área continental disponível para os dinossauros durante seus últi- mos milhões de anos — pelo menos na América do Norte, que, sem dúvida, preserva os melhores registros fósseis desse período. Por serem os herbívoros mais abundantes, os dinos- sauros de chifre e os de bico de pato seriam os primeiros a sentir os efeitos das mudanças na extensão territorial e na vegetação. Seu declínio aparentemente teve consequências:

tornou os hábitats mais vulneráveis ao colapso, desestabili- zando a base da cadeia alimentar e aumentando a probabili- dade de que a extinção de apenas algumas espécies desenca- dearia um efeito cascata no ecossistema. Considerando tudo isso, parece que o impacto do asteroide ocorreu num momento crítico para os dinossauros. Se tivesse ocorrido alguns milhões de anos antes – antes da queda da diversidade de grandes herbívoros – os ecossistemas de dinos- sauros teriam sido mais robustos e mais capazes de resistir ao impacto. Se tivesse ocorrido alguns milhões de anos depois, a diversidade de herbívoros talvez tivesse se recuperado, como aconteceu inúmeras outras vezes ao longo dos primeiros 150 milhões de anos de evolução dos dinossauros. Nunca é uma boa hora para um asteroide de dez quilômetros de extensão cair do céu. Mas, para os dinossauros, há 66 milhões de anos, pode ter sido o pior momento. Apenas um ligeiro desvio na cronologia e os dinossauros ainda poderiam estar por aqui.

Nunca é uma boa hora para um asteroide de dez quilômetros de extensão cair do céu. Mas, para os dinossauros, há 66 milhões de anos, pode ter sido o pior momento.

O que aconteceu há 66 milhões de anos, quando um bloco de rocha e gelo vindo do espaço colidiu com a Terra no momento mais inoportuno para os dinossauros, ecoa até nossos dias. Extinções em massa são trágicas, mas elas também abrem espaço para novos vege- tais e animais evoluírem e se tornarem dominantes. A morte dos dinossauros abriu as possi- bilidades para os mamíferos, que viveram nas sombras por mais de 100 milhões de anos, mas passaram a ter a chance de evoluir livremente. Os mamífe- ros prosperaram quase que ime- diatamente após a extinção dos dinossauros, evoluindo em tamanho, variedade de novos hábitos alimentares e compor- tamentos, e se espalharam pelo mundo todo. Esse florescimento acabou levando ao surgimento dos primatas, chegando até nós. Se qualquer elo dessa reação em cadeia histórica tivesse sido eli-

minado, provavelmente não haveria seres humanos. Mas podemos tirar uma grande lição da extinção dos dinos- sauros. Não é apenas uma questão de mudança de rumo da contingência evolucionária – mais um daqueles eventos no pas- sado distante que nos permitem fazer conjecturas do tipo “e se”. De forma simples, o que aconteceu no fim do Cretáceo nos ensi- na que mesmo grupos de animais dominantes podem ser extin- tos e muito rapidamente. Os dinossauros dominaram por mais de 150 milhões de anos até chegar sua hora decisiva – uma coli- são de segundos entre a Terra e um objeto do espaço. E sua extinção foi facilitada, talvez até possibilitada, pela perda da biodiversidade que precedeu o impacto do asteroide.

Os seres humanos modernos têm vagado por aí, no máximo, há algumas centenas de milhares de anos. E estamos alterando o ambiente a uma velocidade tão grande que, com o rápido declínio da biodiversidade global, a chamada sexta extinção já está ocorrendo. Como saber o quanto estamos nos tornando vulneráveis nesse processo?

PARA CONHECER MAIS

Stephen L. Brusatte et al., em B iological Reviews , vol. 90, n o 2, págs. 628-642; maio de 2015. David E. Fastovsky e Peter M. Sheehan, em GSA Today , vol. 15, n o 3, págs. 4-10; março de 2005. Walter Alvarez. Princeton University Press, 1997.

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ASTRONOMIA

Antigos rancores entre três equipes de astrônomos têm ameaçado a sobrevivência do maior e mais ousado projeto de astronomia em solo

Katie Worth

DE TELESCÓPIOS

CORTESIA DE L. CALCADA European Southern Observatory

Katie Worth é repórter do Frontline, produção televisiva da WGBH, em Boston. Ela passa seu tempo pensando em política, ciência e suas interseções.

Por 15 anos, três grupos concorrentes de astrônomos têm perseguido um único sonho: construir o maior telescópio do pla- neta. Esses gigantescos dispositivos seriam três vezes maiores que o maior telescópio óptico do mundo, e seriam poderosos o suficiente para tirar fotos de planetas em órbita de outras estre-

las e espreitar toda a amplitude do Universo, olhando para o pas- sado, quase até o Big Bang. Esse observatório dos sonhos viria em três versões: o Giant Magellan Te- lescope (GMT), desenvolvido por um consórcio que inclui a Carnegie Institu- tion for Science; o Thirty Meter Telesco- pe (TMT), desenvolvido pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech, na sigla em inglês), pelo sistema da Uni- versidade da Califórnia e outras insti- tuições; e o European Extremely Large Telescope (E-ELT), desenvolvido pelo European Southern Observatory (ESO).

A construção dos três custaria cerca de

US$ 4 bilhões, mas até agora o mundo tem frustrado os projetos, deixando cada um com pouco dinheiro e desespe- rados por mais. Não fosse isso, pelo menos um telescópio gigante já estaria olhando para os céus; em vez disso, existem apenas hardwares parcialmen- te construídos, aguardando a entrega em canteiros de obras estéreis. Os três telescópios têm grande

probabilidade de falhar até a linha de chegada dessa corrida tecnológica e começar a operar apenas em algum momento da década de 2020, com atraso e acima do orçamento. Como isso aconteceu? Como três projetos separados, mas com objetivos comuns, competem entre si por financiamento?

E o que os impediu de unir forças para minimizar a chance de

um fracasso coletivo?

Essas perguntas vêm sendo feitas repetidamente, inclusive por um perplexo painel de âmbito nacional dos EUA que está conside- rando dois dos telescópios para receber financiamento federal. De- zenas de cientistas entrevistados para este artigo ponderaram o que poderia ter sido se, em vez de três empreendimentos, fossem apenas um ou dois. Quase todos concordaram que a humanidade

estaria muito mais perto de construir a próxima e maior geração de observatórios se grupos concorrentes de astrônomos não tivessem repetidamente desdenhado das chances de colaborar. Essa compe- tição começou nas primeiras décadas do século 20 e se mantém ao longo dos anos por conflitos pessoais, falhas de comunicação, tec- nologias concorrentes e um universo de amargura em expansão.

estão atualmente em construção e com previsão para iniciar suas operações na década de 2020.

50 Scientific American Brasil | Janeiro 2016

EM SÍNTESE

terá um espelho primário de cerca de 30 m de diâmetro, que permitirá aos astrônomos estudar o Cosmos com uma clareza sem precedentes.

ciamento. Críticos perguntam por que es- tão sendo construídos simultaneamente

três telescópios gigantes em vez de ape- nas um ou dois. A resposta está em uma rivalidade desde os primeiros grandes telescópios do início do século 20.

CORTESIA DO THIRTY METER TELESCOPE (esquerda) ; CORTESIA DA ORGANIZAÇÃO DO GIANT MAGELLAN TELESCOPE (direita)

O NEGÓCIO

A história começa em 1917, quando George Ellery Hale, um ambicioso astrônomo e diretor de observatório, revelou algo in- teiramente novo para a ciência, um telescópio óptico de 100 po- legadas (2,54 metros). No mundo da construção de telescópios, o tamanho importa:

quanto maior for o espelho deles, mais longe se vê. O novo teles- cópio, alocado em Mount Wilson, naquela época ainda conside- rado um “céu escuro” na região de Los Angeles, ofuscava todos os outros na Terra. Seu tamanho revolucionário rapidamente produziu resultados revolucionários. Edwin Hubble utilizou-o para descobrir que nossa galáxia é apenas uma entre muitas e, em seguida, para reunir provas de que o Universo está se expandindo. Mas Hale não estava satisfeito. Ele queria um telescópio de 5 metros. O telescópio de 2,5 metros estava construído e sen- do gerenciado pela então denominada Carnegie Institution de

máquina perfeita, um livro sobre o telescópio de 5 metros. “Foi assim que os problemas chagaram a uma sinuca de bico.” Hale veio com uma solução: Rockefeller daria o dinheiro do telescópio como um presente para o Caltech, que acabara de ser instalado a apenas duas milhas (cerca de três quilômetros) do observatório de Carnegie, sediado em Pasadena, Califórnia. O Caltech era ainda tão embrionário que não empregava um único astrônomo sequer, e muito menos um departamento de astrofí- sica. No entanto, a Fundação Rockefeller financiou para o Cal- tech a construção do novo telescópio de Hale no novo Observa- tório Palomar, no Condado de San Diego. Hale acreditava que os líderes da Carnegie achariam irresistível trabalhar nessa magní- fica ferramenta para esquadrinhar os céus e emprestariam sua expertise para projetar e construir o novo telescópio. Hale estava enganado. Segundo Florence, o negócio enfure- ceu John Merriam, o presidente da Carnegie Institution, que en- xergou essa situação como um dolo imperdoável. Ele trabalhou

GIGANTES DE VIDRO: O Telescópio de Trinta Metros (TMT, acima à esquerda) e o Telescópio Gigante de Magalhães (GMT, acima à direita) serão aproxim-

Washington, uma entidade filantrópica criada pelo barão do aço Andrew Carnegie, que não estava preparado para gastar milhões a mais em um novo telescópio. Desse modo, Hale ma- liciosamente sugeriu o projeto para uma organização finan- ciada pelo rival de Carnegie, o magnata do petróleo John D. Rockefeller. Em 1928, Rockefeller pessoalmente aprovou o te- lescópio de 5 metros de Hale, fornecendo, por fim, US$ 6 mi- lhões em financiamento – na época, a maior soma até então doada para um projeto científico. Houve um problema: os astrônomos da Carnegie Institution eram os únicos no mundo com a experiência necessária para construir o novo telescópio, mas Rockefeller não financiaria o seu velho rival de ações beneficentes. “Isso certamente não aconteceria”, diz o historiador Ronald Florence, que escreveu A

para sabotar o projeto, não permitindo que os cientistas da Car- negie ajudassem e pressionando a Fundação Rockefeller a ir embora. Desesperado, Hale recorreu ao diplomata Elihu Root, um velho amigo de Rockefeller e de Carnegie. Root sensibilizou Merriam, que finalmente assinou contrato para o projeto. Mas a discórdia estava apenas começando: Merriam ainda estava com raiva e tentou por anos assumir o controle do teles- cópio do Caltech, diz Florence, até que a desconfiança institu- cional tornou-se mútua e profunda. Depois que Merriam se aposentou, as instituições de carida- de que viviam em guerra finalmente acordaram uma trégua. A Fundação Rockefeller se aproximou de seus adversários com um acordo: o Caltech possuiria o telescópio, quando ele abrisse seu olho de 5 metros em 1949, mas Carnegie iria operá-lo.

T E L E S C Ó P I O S

G I GA N T E S

Grande, maior e gigantesco

Telescópios cresceram em tamanho desde 1917, quando debutou o primeiro gigante, o telescópio de 2,5 metros de George Ellery Hale. Atualmente, ele está ofuscado pelos grandes observatórios modernos, como os telescópios gêmeos Keck, de 10 metros, e os mais modestos telescópios Magellan, de 6,5 metros. Os gigantes de amanhã (em azul, abaixo) serão ainda maiores, utilizando arranjos de espelhos para se aproximar de 40 metros de tamanho total. Embora esses gigantes não sejam construídos até a década de 2020, os astrônomos já estão discutindo seus sucessores: telescópios de 100 metros.

492 hexágonos, com 1,44 m de diâmetro cad

Cada com 8,4 m de diâmetro

36 hexágonos, com 1,8 m de diâmetro cada

2,5 m

6,5 m

10 m

24,5 m

30 m

Escala humana

798 hexágonos, cada um com 1,44 m de diâmetro

39,3 m

Telescópio de

Telescópio

Telescópio

Telescópio

Telescópio

European Extremely

2,5 m de Hale

Magellan

Keck

Giant Magellan

Thirty Meter

Large Telescope

Califórnia

Chile

Havaí

Chile

O frágil relacionamento entre as instituições inevitavelmente contaminou a ciência, especialmente após a identificação dos “ob- jetos quase estelares” – quasares – no início dos anos 1960 pelo as- trônomo holandês-americano Maarten Schmidt. Embora esses objetos parecessem, a princípio, estrelas fracas no céu, outros es- tudos mostraram que quasares tinham um brilho quase impensá- vel, vindo do Universo distante. Os objetos misteriosos rapida- mente se tornaram o assunto mais apelativo da astronomia, e os pesquisadores do Caltech e da Carnegie disputavam tempo no maior telescópio do mundo para estudá-los, às vezes, recorrendo à “mesquinhez infantiloide de alto nível”, diz Florence. Em 1979, após meio século de tensões, o Caltech finalmente procurou acabar com a tensa guarda compartilhada de Palomar. A separação não correu bem e se provou intensamente pessoal. O fa- lecido Allan Sandage, lendário astrônomo da Carnegie, que havia alcançado o trabalho de sua vida em Palomar, se recusou a pôr o pé no observatório outra vez. “Foi o tipo de divórcio em que você tem de escolher o marido ou a esposa”, diz Florence. “Não houve aquele negócio de manter a amizade com ambos.”

CONFLITO DE PROJETOS

Durante as duas décadas seguintes, as instituições trilharam caminhos separados. Nos anos noventa, o Caltech criou uma par- ceria com a Universidade da Califórnia para desenvolver os teles- cópios gêmeos de 10 metros Keck em Mauna Kea, no Havaí, usan- do o que era então um novo projeto de espelho segmentado no qual muitos espelhos pequenos criavam um maior. O risco valeu a pena: o projeto funcionou perfeitamente, e seus astrônomos des- frutaram anos de proeminência científica antes que alguém mais construísse algo competitivo. Enquanto isso, Carnegie ainda usava a velha tecnologia de espelho único, mas se aventurou no Hemis- fério Sul, construindo os telescópios gêmeos de 6,5 metros Ma-

52 Scientific American Brasil | Janeiro 2016

Havaí

Chile

gellan no deserto de Atacama no norte do Chile. A Carnegie completou esses telescópios apenas em 1999, quan- do o Caltech e a Universidade da Califórnia anunciaram a sua in- tenção de construir um telescópio de 30 metros. O ESO, uma orga- nização intergovernamental de astrônomos europeus, já falava de algo ainda mais ambicioso, um telescópio de 100 metros, apro- priadamente chamado OverWhelmingly Large Telescope. Para a maioria dos astrônomos, saltar de um telescópio de 10 metros para um de 100 metros era absurdamente ambicioso. Mas um telescópio de 30 metros parecia viável, para a conster- nação de Gus Oemler, então diretor dos observatórios de Carne- gie. Ele se lembra de acordar se sentindo doente com o anúncio do Caltech. “Estávamos lutando para terminar os telescópios Magellan, que finalmente nos dariam algum tipo de paridade com o Caltech depois de muitos anos e, de repente, eles estavam começando a próxima fase.” Depois de muito debate, Carnegie e Caltech acordaram uma colaboração. Ambos os lados estavam hesitantes, mas os comi- tês de cada instituição pensaram que era hora de superar o anti- go rancor que os separava e trilhar novos caminhos. “Reconhe- cemos que seria uma espécie de loucura ter dois telescópios gi- gantes centrados em duas instituições a três quilômetros uma da outra”, diz o astrônomo da Carnegie Alan Dressler. Então, em 21 de junho de 2000, dois cientistas do Caltech – os falecidos Wal Sargent, astrônomo, e Tom Tombrello, chefe da cadeira de física – e dois de Carnegie – Oemler e Dressler – se reuniram para discutir a parceria. Por todos os lados, a discussão foi terrível. A reunião foi tensa, desarticulada e cheia de mal-entendidos. Ambos, Wendy Freed- man, que mais tarde se tornaria diretor dos observatórios Carne- gie, e Richard Ellis, agora um cientista sênior no ESO, que estava então prestes a substituir Sargent como diretor do Observatório

Gráfico por Daisy Chung

Palomar do Caltech, falaram com os quatro homens imediata- mente após a reunião e ouviram uma história diferente cada um:

Dressler sentiu que os homens do Caltech não estavam levando a proposta da Carnegie a sério, enquanto Tombrello acreditou equivocadamente que Carnegie não tinha realmente dinheiro a contribuir. Oemler disse que Sargent ficou em um silêncio gelado durante a maior parte da reunião. Sargent disse, mais tarde, que estava preocupado em perturbar o delicado relacionamento do Caltech com a Universidade da Califórnia. Mas Sargent não ha-

via explicado a preocupação durante a reunião, diz Ellis. Assim, “claro que o pessoal da Carnegie ficou ofendido”. No dia seguinte, Tombrello enviou um e-mail “para resumir nossa desmedida discussão”. O Caltech não estava interessado em trabalhar com a Carnegie no telescópio naquele momento, escreveu Tombrello, embora ele não tenha excluído a possibili- dade no caso de o trabalho ficar caro demais. Os astrônomos da Carnegie sentiram-se inferiorizados e insultados. A colaboração nascente morreu, e a longa tradição de relacionamento áspero entre as instituições cresceu por mais tempo. Essa reunião é, agora, parte do folclore do telescópio gigante. Ellis é um dos muitos astrônomos que se perguntam o que po- deria ter acontecido se a reunião corresse de forma diferente. “Quando você revê esse momento, que tragédia!”, diz. “Com alguns telefonemas e um pouco de diplomacia, poderíamos ter trazido Carnegie. E se tivéssemos trazido, provavelmente tería- mos um telescópio agora.” Garth Illingworth, astrônomo da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, diz que ainda permanece “apenas ressentimento

e infelicidade residuais” da velha rivalidade para descarrilar

uma conversa construtiva. “Você pensa: nossa, por que não hou- ve supervisão de um adulto na sala para ajudar essas pessoas a superar isso?”, acrescenta.

DIVIDIDOS, TODOS PERDEM

Após essa fracassada reaproximação, a rivalidade só aumen-

tou. O Caltech e o sistema da Universidade da Califórnia desen- volveram o TMT, a ser construído próximo dos telescópios Keck, no Havaí. Enquanto isso, a Carnegie projetou o GMT, um teles- cópio de 24,5 metros, para coroar o seu Observatório Las Cam- panas, no Chile. Na mesma época, os europeus reduziram seus sonhos em relação ao “esmagadoramente grande” para apenas “extremamente grande” e planejaram a construção do E-ELT, te- lescópio de 39 metros, no Chile. Os três projetos vasculharam o mundo procurando por finan- ciamento, por vezes, pesquisando nos mesmos lugares. Desem- bolse dinheiro e, como consequência, aos seus astrônomos será garantido tempo de telescópio. Astrônomos canadenses, por exemplo, foram cortejados tanto pelo grupo da Carnegie como do Caltech-UC, e escolheram a segunda opção. A Universidade Harvard também foi cortejada por ambos, mas se comprometeu com Carnegie. Pelo menos uma vez, as duas equipes dos EUA desconfortavelmente se cruzaram em aeroportos em suas via- gens para reuniões com os mesmos parceiros em potencial. E os europeus não estavam acima da briga: inicialmente garantiram

o apoio do Brasil, cujo presidente concordou em participar do

ESO e subscrever uma grande fatia do E-ELT. Mas a confusa e di- vidida política brasileira paralisou o acordo. A Carnegie se apro- veitou dos problemas do ELT: em julho de 2014, a Universidade de São Paulo (USP) se juntou ao projeto GMT, e de acordo com Dressler, as lideranças do GMT esperavam que o governo brasi- leiro logo seguisse, embora esse não tenha sido o caso.

O segundo mais procurado parceiro de todos tem sido o go-

verno dos EUA, que poderia abrir seu cofre de financiamento fe- deral para financiar um telescópio gigante e fornecer acesso para todos os astrônomos americanos. Em 2000, a Astronomy and Astrophysics Decadal Survey (a Avaliação Decenal sobre Astronomia e Astrofísica), um painel nacional que orienta fi- nanciamentos federais dos EUA, havia declarado um telescópio gigante da próxima geração como a prioridade mais alta do país em astronomia óptica terrestre. Com esse apoio, a Fundação Nacional da Ciência (NSF) co- meçou, em 2003, a discutir uma parceria com o Caltech-U.C. para o projeto TMT. Mas, poucos meses depois, os astrônomos do GMT escreveram uma carta dizendo que o acordo injusta- mente favoreceria o TMT. A carta foi eficaz: a NSF empacou, não

estando disposta a tomar partido na cada vez mais divisiva polí- tica de astronomia óptica de alto nível. Na realidade, de qualquer maneira não havia muito dinheiro federal a ser fornecido, segundo Wayne Van Citters, conselheiro sênior da NSF. Mas a rixa não ajudou, diz ele: “Precisávamos que a comunidade viesse junta para decidir qual deles ela que- ria fazer. Não podíamos fazer ambos, afinal”.

A comunidade, por sua vez, tentou várias vezes fazer exata-

mente isso, mas os esforços foram infrutíferos. Astrônomos europeus discutiram colaborações com ambos os rivais, mas finalmente só concordaram em compartilhar insights tecnoló-

gicos. E, em 2007, por insistência de seus comitês, os líderes do TMT e do GMT realizaram várias reuniões com frieza cor- dial para discutir caminhos em que poderiam trabalhar jun- tos. Não deu em nada.

A situação confundiu os membros do comitê da avaliação de-

cenal de 2010, que questionou por que a comunidade astronô- mica dos EUA estava sendo convidada a apoiar dois projetos de grandes telescópios ópticos separados, ambos liderados por americanos. No final, a NSF não tomou lados, chutando os pro- jetos para o fim da lista de prioridades, efetivamente anulando financiamentos federais por mais 10 anos. Rivalidade não é algo raro na ciência: mentes brilhantes são frequentemente acompanhadas por grandes egos com uma pro- pensão para o confronto. Às vezes, a discórdia pode produzir inovações; outras vezes ela pode transformar a mais iluminada busca pela descoberta em uma série de conflitos pessoais mes- quinhos. Algumas disciplinas convenceram, com sucesso, po- tenciais rivais a unir forças: físicos de alta energia trabalham em grandes grupos internacionais em aceleradores de partícu- las. Radioastrônomos têm colaborado na maior ferramenta de próxima geração da sua área, o Atacama Large Millimeter/Sub- millimeter Array, de US$ 1,4 bilhão. Em contraste, a astronomia óptica nos EUA ficou dividida pela rivalidade. O astrônomo ítalo-americano e Prêmio Nobel Riccardo

Giacconi descreveu a situação como um problema sociológico em um discurso na Academia Nacional de Ciências em julho de 2001. Para o historiador W. Patrick McCray, da Universidade da Ca- lifórnia em Santa Barbara – que escreveu Giant Telescopes, livro sobre a comunidade de astronomia óptica dos EUA –, o que é impressionante com relação à inimizade entre o Caltech e a Car- negie é a sua longevidade: eles disputam grandes telescópios desde 1928. “Você pensa: ‘não aprenderam nada?’”, diz McCray. Mas a rivalidade sozinha não explica o estado de coisas. Exis- tiram motivos racionais para trabalhar em telescópios separa- dos, observa o astrônomo Ray Carlberg, da Universidade de To- ronto, que faz parte de uma associação envolvida com o projeto TMT. Inicialmente, os astrônomos acreditavam que haveria di-

nheiro para os três, e telescópios gigantes em ambos os hemisfé- rios garantiriam a cobertura integral de todo o céu. “O mundo tinha acabado de construir um punhado de telescópios de oito e

10 metros, e não parecia absurdo ter alguns desses grandes tam-

bém”, diz Carlberg. Naquela época, estava claro que o Caltech poderia usar a ajuda da Carnegie, mas a Carnegie tinha investi- do pesadamente em seu próprio projeto para abandoná-lo.

TELESCÓPIOS DEMAIS

Na ilha maior do Havaí, um pedaço do imenso pico de Mauna

Kea foi aplainado para abrir caminho para o TMT. O espelho de

30 metros do telescópio, com o diâmetro do domo do capitólio

dos EUA, será composto por 492 segmentos hexagonais de 1,44 metro em forma de favo de mel, todos alojados em uma estrutura de 18 andares sobre o vulcão adormecido. Ao projeto foram con- cedidas licenças de uso da terra, embora ainda enfrentem a opo- sição vocal e desafios legais de nativos havaianos e ambientalis-

tas. Para ajudar a pagar por esse esforço de US$ 1,5 bilhão, o Cal- tech e a UC asseguram parcerias internacionais com a Índia, China, Japão e Canadá. Eles ainda estão à procura de um adicio- nal de US$ 270 milhões; o atual melhor palpite para a estreia do telescópio está em algum momento no início dos anos 2020.

A onze quarteirões da sede do TMT em Pasadena, Carnegie e

seus parceiros estão trazendo o GMT, de 24,5 metros, à vida. Ele será composto de sete espelhos de 8,4 metros, com seis espelhos

dispostos como pétalas de flor ao redor de um espelho central – uma abordagem muito diferente e incompatível com a do TMT com seus numerosos espelhos hexagonais. Quatro espelhos já foram projetados em um laboratório na Universidade de Arizo- na. O tamanho menor e design um pouco mais simples vêm com um custo mais modesto: pouco abaixo de US$ 1 bilhão. A Carne-

gie obteve o apoio de universidades da Coreia do Sul, Austrália e Brasil, bem como de várias universidades nacionais. Elas levan- taram cerca de metade do dinheiro necessário para a constru- ção do telescópio no seu canteiro de obras no âmbito do Obser- vatório Las Campanas. E se tudo correr como planejado, o GMT começará a coletar luz até 2022.

A 12 horas de carro pela Rodovia Pan-americana a partir de

Las Campanas está Cerro Armazones, a montanha deserta onde o E-ELT um dia estará. O site foi inicialmente estudado por as- trônomos do TMT, que passaram anos monitorando a atmosfera acima de Cerro Armazones em transparência e turbulência an-

54 Scientific American Brasil | Janeiro 2016

tes de concluírem que preferiam construir o TMT no Hemisfério Norte; os europeus se aproveitaram disso e reivindicaram Ar- mazones para seu próprio projeto. Hoje, uma recém-pavimenta- da estrada leva ao cume da montanha, que foi raspado com di- namite e maquinaria pesada em uma planície do tamanho de um campo futebol. Visível a leste da montanha, o firmamento se encontra com o vulcão andino Llullaillaco, com 6.723 metros, onde os incas sacrificavam crianças aos deuses. Ele e o resto do panorama árido desvanecem-se ao cair da noite, abrindo cami- nho para um grande campo de estrelas acima. Com um espelho de 39 metros de largura, o E-ELT será o te- lescópio mais grandioso de próxima geração. Como o TMT, o E-ELT terá um design segmentado, mas em vez de 492 espelhos hexagonais, ele contará com 798. Em dezembro de 2014, o ESO votou para avançar com a construção da primeira fase. Uma se- gunda fase ainda não foi financiada. As lideranças do E-ELT pla- nejam que o telescópio comece a olhar para o céu em 2024, com um custo total de construção de 1,1 bilhão de euros. Uma vez construídos, os três telescópios terão forças sinérgi- cas, diz Roberto Gilmozzi, do E-ELT. O E-ELT será especializado em zooming para fornecer imagens de alta resolução de peque- nas regiões do céu; o GMT vai sobressair em astronomia de campo largo. E o TMT se localizará em um hemisfério diferente, observando um céu diferente. Gilmozzi, como a maioria dos astrônomos entrevistados para esta matéria, acha que se fossem dois telescópios, em vez de três, ambos estariam em fase de conclusão atualmente, a um custo de centenas de milhões de dólares a menos. “Se você não conside- rar o problema de encontrar o dinheiro, é maravilhoso ter mais de um”, ele diz. “Cientificamente falando, eu poderia usar 100 te- lescópios, se eu tivesse recursos para construí-los.” Infelizmente, a construção de telescópios é apenas o primei- ro passo. Nem o GMT nem o TMT têm, atualmente, dinheiro su- ficiente para sustentar sua operação, uma vez construídos. Am- bos esperam que o governo federal acabe por entrar em cena para ajudar, mas Van Citters diz que não está claro com quanto dinheiro o governo será capaz de contribuir. Estima-se que os telescópios custarão dezenas de milhões de dólares por ano para manter a operação. “Isso é o suficiente para dar às pessoas pesa- delos”, McCray diz. Mesmo assim, o problema de muitos telescópios tem uma fresta de esperança: o mundo poderia, um dia, ter três olhos gi- gantes olhando para o Cosmos. Esta seria uma grande vitória para a ciência, diz McCray. “E se esta situação é uma tragédia, é uma tragédia com um ‘t’ minúsculo.”

PARA CONHECER MAIS

W. Patrick McCray. Harvard University Press, 2004.

DOS NOSSOS ARQUIVOS

Michael West, agosto de 2015. Robert Irion, novembro de 2010. Roberto Gilmozzi, junho de 2006.

MEDICINA

GENÔMICA PARA AS

PESSOAS

Clínica infantil fundada e financiada por amish e menonitas mostra que a pesquisa genética de alta tecnologia pode ser canalizada, mesmo agora, para prevenir doenças

Kevin A. Strauss

Levi e Emma Kinsinger administram uma pequena estufa no sul da Pensilvânia. Em 6 de novembro de 2002, viajaram 720 km de táxi, ida e volta, a uma taxa de cerca de R$ 2,5 por quilômetro, para levar seu filho mais velho – Mark – até a Clínica para Crianças Especiais, em Strasburg, na Pensilvânia. Com quatro anos, Mark era frágil e deslocado socialmente. Ele ficava deitado no chão em constante movimento e agitação. Seus olhos vagavam, mas não se fixavam em nada, e ele não reagia a sons. De tempos em tempos, um som gutural escapava de sua garganta e ele se chacoalhava de forma violenta. A pergunta dos Kinsinger, pergunta que ouvi inúmeras vezes em meu trabalho como pediatra, exprimia seu calmo desespero:

“O que podemos fazer para ajudar nosso filho?”

Fotografias de Grant Delin

www.sciam.com.br 55

Nossa clínica é um lar médico para crianças como Mark. (Por questões de privacidade, mudei os nomes de todos os pa- cientes e de suas famílias.) Sua estrutura robusta de madeira, erguida por mãos amish e menonitas, abriga consultórios pe- diátricos modernos, equipados com um arsenal de ferramentas de sequenciamento de genes de alta tecnologia. Atendemos às chamadas comunidades Simples, descendentes dos anabatistas europeus que fugiram para o Novo Mundo entre 1600 e 1800 em busca de asilo religioso. Os Simples hoje vivem pela Améri- ca do Norte em povoados cristãos pequenos e isolados e evitam os meios modernos. Eletricidade e telefone são comumente proibidos nas casas. O código de vestimenta e de conduta enfa- tiza a coesão do grupo. Seguros privado ou do governo são rejei- tados. E os membros dessas comunidades desconfiam de tecno- logias que minam a interdependência social. Os Simples escolhem viver de modo diferente no mundo moderno, mas cada pai sabe o que significa temer por um fi- lho doente: “Minha filha algum dia vai andar?” “É possível acabar com as convulsões?” “É autismo?”. Essas são as pergun- tas que nos fazem traduzir a linguagem complexa da bioquí- mica e da genética modernas para dar respostas significativas para as crianças e suas famílias. Até agora, nosso laboratório já identificou mais de 170 diferentes mutações genéticas que causam doenças desproporcionalmente representadas entre os Simples. Quase metade delas coloca em perigo o cérebro em desenvolvimento e, caso não sejam tratadas, levam à mor- te ou causam deficiências nas crianças. Testes moleculares rá- pidos, acessíveis monetariamente e feitos no local abrem um caminho precioso; permitem que possamos descobrir futuras

EM SÍNTESE

em

Strasburg, Pensilvânia, em colaboração com as famílias amish e menonitas que serve, aproxima o conhecimento da gené- tica e suatradução em cuidadosmédicos.

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, colhida por meios

de alta tecnologia e baixo custo, permite à dezenas de condições genéticas com po-

doutor pela Faculdade de Medicina de Harvard, é diretor médico da Clínic para Crianças Especiais em Strasburg, Pensilvân

Clínic para Crianças Especiais em Strasburg, Pensilvân ameaças à saúde, elaborar terapias mais precisas e

ameaças à saúde, elaborar terapias mais precisas e prevenir as doenças antes que se instalem. Nosso relacionamento de colaboração com os Simples tam- bém oferece um vislumbre de como a pesquisa genômica vai transformar nossa compreensão sobre doenças mais comuns. Com a cooperação de algumas famílias amish dedicadas, recen- temente descobrimos uma variação genética específica que pa- rece estar ligada ao transtorno bipolar (maníaco-depressivo), que afeta entre 2% e 4% das pessoas no mundo inteiro e, de ma- neira lamentável, permanece não diagnosticada e não tratada. Ligar uma variação genética ao transtorno bipolar aproxima um pouco a genômica da medicina convencional; desafia a co- munidade de pesquisa médica a fechar a lacuna entre o que sa- bemos sobre as causas do sofrimento humano e o que podemos fazer para as pessoas que precisam de nossa ajuda.

PROGRESSO, UMA CRIANÇA POR VEZ

Os Kinsinger precisavam de clareza. Em poucos dias, detec- tamos uma constelação de anormalidades químicas no sangue de Mark, que implicavam como a causa de sua deficiência a de- ficiência de uma enzima – 5.10-metilenotetra-hidrofolato redu- tase (MTHFR). O diretor do laboratório, Erik Puffenberger, tra- balhou rapidamente a fim de descobrir um erro em ambos os genes de codificação da MTHFR de Mark. Esse conhecimento permitiu que diagnosticássemos outras três crianças que so- friam do mesmo mal no povoado dos Kinsinger. Pesquisei a literatura médica e encontrei a primeira descri- ção acerca da deficiência de MTHFR, publicada 30 anos antes por S. Harvey Mudd e colegas. Mudd era lendário no pequeno

com a colaboração das famílias de pacien- tes é considerada um modelo para melho- rar os cuidados médicos em comunidades carentes emtodo omundo.

liderado pela clínica liga uma mutação genética à desordem bi- polar e mostra como a pesquisa em comu- nidades isoladas pode enriquecer a com- preensão e otratamento de doenças.

MARK KINSINGER (esquerda) e sua irmã mais nova, Ruth (direita, não são seus nomes verdadeiros), nasceram com a mesma doença genética. Mark, que não foi diagnosticado até fazer quatro anos, sofre danos cerebrais irreversíveis. Desde então, um programa piloto de avaliação e intervenção precoce evitou totalmente que outras crianças com a mesma condição, inclusive Ruth, desenvolvessem

mundo de pesquisa dedicada ao metabolismo intermediário, que envolve os processos coletivos que convertem alimentos

em energia e componentes essenciais das células. Ele elucidou

o que veio a ser conhecido como via de transulfuração – uma

rede complexa de reações químicas que recicla um aminoácido essencial, metionina, enquanto simultaneamente fornece gru- pos metila (CH 3 ) para moléculas em todo o organismo. A me-

tionina é indispensável para o crescimento do cérebro e de ou-