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A EDUCAÇÃO DENTRO DO SISTEMA PRISIONAL, COMO FATOR DE INCLUSÃO SOCIAL E RESSOCIALIZAÇÃO DOS APENADOS,

A EDUCAÇÃO DENTRO DO SISTEMA PRISIONAL, COMO FATOR DE INCLUSÃO SOCIAL E RESSOCIALIZAÇÃO DOS APENADOS, EM REGIME FECHADO

Emilinha Luz / URCAMP Bagé

RESUMO: Há na sociedade atual uma preocupação muito grande no sentido de contribuir para o processo de ressocialização das pessoas que se encontram privadas de liberdade no sistema prisional. Incluí-las socialmente, tornou-se na última década, tema central de vários estudos, seminários, conferências e fóruns que acontecem em âmbito regional, nacional e internacional. Justifica-se a realização deste estudo, especialmente por entender que o sistema prisional apresenta características e especificidades próprias e, pelo desejo de investigar essa realidade, trazendo à luz os efeitos da educação nesse contexto, pesquisando- se realmente se o que está sendo oferecido pode ser importante, ou não, na ressocialização e na inserção social dos detentos. Como problema de pesquisa, optou-se por investigar: A educação proporcionada aos detentos pelo sistema de Educação de Jovens e Adultos constitui-se como alternativa de ressocialização e reinserção no mercado de trabalho? O objetivo geral é, portanto, analisar os processos de educação e ressocialização dentro do sistema prisional, com os apenados que se encontram em regime fechado. Entre os objetivos específicos, destacam-se: - Descrever o sistema prisional brasileiro a partir de sua situação atual; - Contextualizar a educação inclusiva no sistema prisional; - Investigar o processo de interação social do Núcleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos Julieta Villamil Balestro/ NEEJA, em Bagé/RS. Foi desenvolvida uma pesquisa de campo, de cunho descritivo, avaliativa, embasada em fundamentos teóricos oriundos de leituras feitas, inclusive em fontes documentais, tendo como instrumento de investigação um questionário, com questões fechadas e abertas, que foi aplicado a um universo de 30 (trinta) detentos. Concluiu-se que a educação prisional, no contexto do Núcleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos Julieta Villamil Balestro é entendido pelos detentos como fundamental para contribuir na sua reinserção social, atendendo às expectativas de melhoria das condições de vida por ocasião de sua volta a sociedade e contribuindo para melhorar as expectativas com relação à empregabilidade. Constatação essa que faz sugerir sejam ampliados os Núcleos Educacionais nos Sistemas Prisionais, em especial no Estado do Rio Grande do Sul, onde existem 12 Núcleos, num universo de 91 Penitenciárias.

Palavras-chave:Educação de jovens e adultos. Educação prisional. Ressocialização

ABSTRACT: This study's main objective is to analyze the importance of education within the prison system as a factor of social inclusion and rehabilitation in the opinion of prisoners in secure detention. The foundations of this research are the answers that students inmates reported in the survey which was presented. It took time and give voice to the individuals involved, to give us full visibility of the situation of those individuals who are within the margins of society in a situation of total exclusion, and while temporarily away, can not distance himself from it, because it makes part. The study shows that the vast majority are aged and economically productive, has little education and see education in the light of hope, an opportunity to remain, to date, psychologically healthy and seek certification of education which will facilitate their reintegration into society and are aimed at employability and improving living conditions. Considered good classes and conditions of study and emphasizes the importance of studying the prison system.

Keywords: Youth and adults education - prison education - inclusion - NEEJA

INTRODUÇÃO

A busca por alternativas que diminuam os altos índices de reincidências dos

apenados em regime fechado, reintegrando-os plenamente a sociedade, após o

cumprimento da pena, fez com que os legisladores vissem na educação e na

profissionalização, alternativas para atingirem esse objetivo, diminuindo

consideravelmente essa chaga social. Para obterem êxito foi instituído através da

Lei de Execuções Penais de 1984, que os estabelecimentos prisionais, mantenham

em seu interior, escolas ou núcleos educacionais, para que os detentos, tenham

acesso a escolarização, ficando a cargo de cada Estado através das secretarias da

Educação e Justiça organizarem sua estrutura dentro do sistema penitenciário. No

estado do Rio Grande do Sul funcionam atualmente doze Núcleos de Educação de

Jovens e Adultos dentro de unidades prisionais.

Nesse sentido, foi necessário, dar voz aos detentos para saber o que eles

pensam, como percebem e vivenciam o conhecimento dentro da penitenciária. Este

trabalho foi desenvolvido com os alunos detentos do Núcleo Estadual de Educação

de Jovens e Adultos, Julieta Villamil Balestro do Presídio Regional de Bagé, Estado

do Rio Grande do Sul.

A escolha pelo tema baseia-se nas muitas alternativas criadas no sentido de

ressocializar as pessoas que se encontram privadas de liberdade no sistema

prisional. Incluí-las socialmente, tornou-se na última década, tema central de vários

estudos, seminários, conferências e fóruns que acontecem em âmbito regional, nacional e internacional. Assim, projetou-se como problema da pesquisa a resposta à seguinte questão: Qual a importância da educação proporcionada aos detentos pelo sistema de Educação de Jovens e Adultos, como alternativa de ressocialização e reinserção no mercado de trabalho? Neste trabalho de pesquisa buscou-se analisar se os detentos realmente consideram a educação ministrada dentro desse sistema como um fator de ressocialização, ou apenas como uma forma de saírem um pouco das celas, entrarem em contato, com os detentos de galerias diferentes ou até mesmo como uma maneira de somente conseguirem a remissão da pena, isto, porque pela justiça Estadual a cada seis dias de freqüência as aulas eles ganham um dia a menos na pena.

Para isso, determinou-se como objetivos específicos:

- Descrever o sistema prisional brasileiro a partir de sua situação atual.

- Contextualizar a educação inclusiva no sistema prisional.

- Analisar a realidade do Núcleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos,

Julieta Villamil Balestro.

- Caracterizar o perfil dos detentos do sistema prisional quanto à idade, sexo

e escolaridade. - Investigar a percepção dos detentos sobre a educação no sistema prisional. - Pesquisar os aspectos positivos da educação Núcleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos, Julieta Villamil Balestro na visão dos detentos.

1 REFERENCIAL TEÓRICO

1.1 AS PRISÕES: DEPÓSITOS DE SERES HUMANOS OU POSSIBILIDADES DE RESSOCIALIZAÇÃO?

Conforme Goffman (1974), as prisões são denominadas como um tipo de “instituições totais” seu controle total, ou seu fechamento é simbolizado pela barreira física á relação total ao mundo externo e por proibição a saída que muitas vezes

estão incluídas no esquema físico, por exemplo: portas fechadas, grades, paredes altas, arames farpados, poços, fossas, águas, florestas ou pântanos. Diz o mesmo autor:

Uma instituição total pode ser definida como um local de residência ou trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla, por considerável período de tempo levam uma vida fechada e formalmente administrada (GOFFMAN, 1974, p. 12).

As prisões fundamentam-se por seu papel disciplinador, que possuem o caráter suposto ou exigido de transformar os indivíduos. Nas palavras de Baltard (apud FOUCALT, 2001, p. 198):

A prisão deve ser um aparelho disciplinar exaustivo. Em vários sentidos deve tomar a seu cargo todos os aspectos do indivíduo, seu treinamento físico, sua aptidão para o trabalho, seu comportamento cotidiano, sua atitude moral, suas disposições a prisão muito mais que a escola, a oficina, ou o exército, que implicam sempre numa certa especialização é “onidisciplinar”.

De acordo com dados da pesquisadora Fátima Souza (2009), “o sistema prisional brasileiro é o quarto no mundo em número de presos (437.596) e só perde para os Estados Unidos (92,2 milhões de pessoas em cadeias) China (1,5 milhão) e Rússia (870 mil)

A sociedade dos prisioneiros, não é só fisicamente comprimida, mas

também psicologicamente, pois ao entrar na prisão seus direitos civis são retirados,

bem como seus pertences pessoais, desse modo entra pobre na instituição, em termos materiais.” Ele se torna, portanto um organismo semi-humano, um organismo com um número.” (ONOFRE, 2007, p. 18).

1.2 RESSIGNIFICANDO A EDUCAÇÃO INCLUSIVA NUM CONTEXTO SOCIAL AOS PRIVADOS DE LIBERDADE

O adjetivo inclusivo é usado quando se busca qualidade para todas as

pessoas, pois como salienta Pereira (2001, p. 123): “O termo inclusão já traz implícito a idéia de exclusão, pois só é possível incluir alguém que já foi excluído.”

Quando se faz referência a alunos detentos, essa realidade se apresenta de forma explícita porque, quando chega na prisão, ele “ao ser privado de bens pessoais de uso e consumo cotidiano, o recém-chegado perde com eles não só os elementos de expressão, mas também componentes estruturais de sua identidade” (SÁ, 1986, p. 83), componentes estes que, para o autor, fazem parte da sua história e não podem ser esquecidos numa ação pedagógica inclusiva. E como salienta Carvalho (1998, p. 170), a inclusão na escola “pressupõe conceitualmente, que todos, sem exceção devem participar da vida acadêmica, em escolas ditas comuns e nas classes ditas regulares, onde deve ser desenvolvido o trabalho pedagógico que sirva a todos indiscriminadamente”. Na opinião de Julião (2007, p. 30):

A opção por tirar da ociosidade uma grande massa da população carcerária, levando-a a sala de aula, não constitui privilégio, como querem alguns, mas, sim uma proposta que responde ao direito de todos á educação e atende aos interesses da própria sociedade.

A singularidade do ambiente prisional, bem como suas especificidades, fazem

da ressocialização um grande desafio, que além de preocupar-se com o saber propriamente dito precisa, conforme Teixeira (2007, p.14), ser “uma educação que contribua para a restauração da auto-estima e para a reintegração posterior do

E como afirma Freire (1987, p. 35): “Não há outro

caminho senão o da prática de uma pedagogia humanizadora em que a liderança revolucionária, em lugar de sobrepor aos oprimidos e continuar mantendo-os como coisas, com eles estabelece uma relação dialógica, permanente”. Por isso, há de se conhecer a realidade onde atuar, bem como a estrutura do pensamento do aluno, produzindo-se conhecimento e relacionando-o a novas culturas, fazendo o possível para incluí-los na sociedade, porque como diz Onofre (2002, p. 174):

individuo a sociedade (

)”.

A escola, visto ser apontada como local de comunicação, de interações pessoais, onde o aprisionado pode se mostrar sem máscaras, afigura-se, portanto, como oportunidade de socialização, na medida em que oferece ao aluno outras possibilidades referenciais de construção de sua identidade e de resgate da cidadania perdida.

A singularidade do ambiente prisional pressupõe que se considere as experiências escolares anteriores dos alunos e se promova uma educação que contribua para a restauração da auto-estima, bem como para a finalidade da educação nacional, ou seja: realização pessoal, exercício da cidadania e preparação para o trabalho.

Os problemas na área de educação são complexos, exigindo permanentes estudos, reflexões e, especialmente a formulação de projetos sociais e educacionais

voltados para os excluídos, os marginais, os insatisfeitos, os não clientes, a maioria perdedora.

O princípio fundamental que deve ser preservado e enfatizado é que a

Educação no sistema penitenciário não pode ser entendida como privilégio,

beneficio ou, muito menos, recompensa oferecida em troca de bom comportamento. Educação é direito previsto na legislação brasileira (TEIXEIRA, 2007, p. 14). A educação no presídio deverá estar sempre preocupada com a promoção

tornar o homem cada vez mais capaz de conhecer

os elementos de sua situação para interferir nela, transformando-a no sentido de uma ampliação da liberdade, da comunicação e da colaboração entre os homens” (SAVIANI, 1980, p. 41) Freire (1981), afirma: ”Somente os seres que podem refletir sobre sua própria limitação são capazes de libertar-se desde, porém, que sua reflexão não se perca na vaguidade descomprometida, mas se dê no exercício transformador da realidade condicionante”. É essa reflexão que liberta, que a educação exige de seu educador, em ambiente tão hostil, além do domínio das técnicas pedagógicas o profissional da educação precisa de coragem diante da possível violência ali presente. A prática docente nas prisões encontra-se impregnada de problemas, o que pode dificultar o acesso e o bom desempenho, pois deverá sempre estar atrelada a segurança das penitenciárias, o que por conseqüência traz reflexos nos mecanismos de produção de identidade dos indivíduos que ali se encontram inseridos.

O aluno preso traz consigo singularidades e especificidades diferentes dos

alunos das escolas regulares, porque:

humana, procurando sempre “[

]

diferentemente dos alunos de uma escola extramuros regular, está condicionado a dispositivos específicos, que são mais rigorosos do que em outras escolas, que dizem respeito a manutenção da ordem na instituição penitenciária na qual esteja custodiado (HORA; GOMES, 2007. p.34).

Além das dificuldades enfrentadas na adequação de propostas pedagógicas transportadas de escolas extramuros, existe também a dificuldades de espaços e tempo dentro da prisão.

1.3 CONTEXTUALIZANDO O NÚCLEO ESTADUAL DE EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS E CULTURA POPULAR (NEEJA-CP) JULIETA VILLAMIL BALESTRO

O Núcleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos e Cultura Popular (NEEJA-CP) Julieta Villamil Balestro, local da pesquisa de campo deste trabalho, está situado dentro do Presídio Regional de Bagé, segue as orientações recebidas de sua mantenedora, a Secretaria Estadual de Educação, e pertence a 13ª Coordenadoria Regional de Educação. Atualmente, o presídio regional de Bagé conta com 364 apenados em regime fechado, sendo 92 inscritos para estudarem no NEEJA-CP assim distribuídos: 32 nas totalidades 1 e 2 referentes - Alfabetização séries iniciais do Ensino Fundamental; 48 nas totalidades 3, 4, 5 e 6, referentes às séries finais do Ensino Fundamental, e 16 nos totalidades 7, 8 e 9 referentes ao Ensino Médio. As turmas são dividas em, no máximo, 16 alunos por questões de segurança, funcionam três turmas por turno, sendo ministradas aulas pela manhã e a tarde.

Do total de apenados da instituição, 92,7% são do sexo masculino e 7,3% do sexo feminino, sendo que as turmas que funcionam no período da tarde são mistas. Destes, 60,3% tem até 35 anos de idade, o que não difere da realidade dos presídios nacionais. Além das três salas de aula, conta ainda com uma biblioteca e uma sala de professores, onde funciona também a secretaria e sala da Direção. Atualmente trabalham no Núcleo cinco professores regentes, um secretário de escola e um Diretor. O Plano de Estudos é desenvolvido pelas Áreas de Conhecimento, seguindo a Orientação Nacional da ENCCEJA (Exames Nacionais de Competências e Certificação da Educação de Jovens e Adultos), sendo cada área trabalhada por um professor devidamente habilitado e concursado para tal. Os dados acima descritos foram extraídos junto a Secretaria do presídio regional de Bagé, e a Direção do Núcleo Educacional, estando todos devidamente registrados nesses locais.

2 METODOLOGIA

2.1 CARACTERÍSTICAS DA PESQUISA

Foi realizada uma pesquisa bibliográfica, na tentativa de subsidiar teoricamente o estudo feito, bem como uma pesquisa documental no NEEJA-CP e nos documentos oficiais do Presídio Regional de forma descritiva, exploratória, de levantamento de dados na qual o pesquisador, através da observação, aplicação de instrumento de pesquisa (questionário) e análise de documentos oficiais do Núcleo, como a Proposta Político-Pedagógica e os planos de Estudos, levantou os dados necessários para respostas à questão problema da pesquisa. Como universo da pesquisa, foi selecionado, por amostra aleatória 30 (trinta) dos 56 (cincoenta e seis) alunos, detentos do Presídio Regional de Bagé, e que freqüentam as aulas no Núcleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos, Juleita Villamil Balestro, o qual funciona dentro da instituição prisional.

2.2 RESULTADOS DA PESQUISA

Os dados foram analisados com abordagem predominantemente qualitativa, utilizando-se as análises descritivas sobre as questões referidas da forma significativa à interpretação dos dados e consequentemente sua discussão. A primeira parte do questionário foi relacionada à identificação dos 30 respondentes da pesquisa, cujo anonimato foi mantido por questões éticas, mas que definiu o perfil dos mesmos. Os dados da pesquisa revelam que 73,33% dos pesquisandos são do sexo masculino, enquanto 26,67% do sexo feminino. Os dados são congruentes com a população carcerária brasileira, que apresenta um quadro de supremacia absoluta da população masculina sobre a feminina (PEREIRA, 2001; SOUZA, 2009). Também estão de acordo com as informações do Ministério da Justiça (BRASIL,

2001).

Os mesmos instrumentos apontam para a correlação de idade dos detentos pesquisados neste estudo e a população carcerária brasileira, cuja maioria está formada por indivíduos jovens, em plena idade produtiva, sendo um dado significativo a alta freqüência de jovens até 25 anos. A população carcerária em estudo se constitui, em sua maioria (73,33%) de indivíduos que não completaram o ensino fundamental, corroborando com o que diz Onofre (2001) e Teixeira (2007), para quem o problema carcerário está na falta de

qualificação dos detentos que, ao voltarem ao convívio social, tendem a reincidir no crime por falta de oportunidades.

.

A segunda parte do questionário, que se configurou a pesquisa propriamente

dita, foi realizada com dez questões fechadas e abertas referentes à importância da educação no sistema prisional e os objetivos dos detentos em freqüentar as aulas. Verificou-se pelas respostas que grande parte dos pesquisados (43,33%) tem como propósito a melhoria das condições de empregabilidade, o que sugere a visão de futuro fora do presídio. Além disso, um número considerável de entrevistados (26,67%) apontou como objetivo fazer as provas de qualificação, ou aprender a ler e escrever (23,33%), sendo apenas dois indivíduos (6,67%) que tem como propósito a atualização ou se empregar melhor quando sair. Julião (2007) destaca que o interesse pelo detendo nos estudos deve ser voltado aos interesses futuros de empregabilidade e ressocialização, atendendo ao interesse da sociedade como um todo. A segunda questão aborda a adequação do tempo de aula na visão dos pesquisados, perguntando-se, a opinião dos questionados sobre o tempo de duração dos períodos de aula. A maioria dos respondentes (50%) considerou o tempo de aula suficiente, enquanto uma considerável parcela (23,33%) avalia como razoável, outros (20%) consideraram muito pouco, e um número reduzido (6,67%) julgaram insuficiente. Nas duas questões existe uma quase unanimidade nas respostas dos pesquisados, tanto sobre a qualidade das aulas, como sobre a grande importância dos conteúdos desenvolvidos pelos professores, bem como dos recursos utilizados para o desenvolvimento dos mesmos. Os dados da pesquisa coincidem com os dados levantados por Onofre (2002), cujo trabalho semelhante mostrou que os detentos consideram muito importantes a aprendizagem e a escolarização para aplicar em situação de liberdade na busca de emprego ou melhores condições de

vida.

As questões seguintes abordaram a importância das relações de convivência trabalhadas nas aulas como forma de melhoria de relacionamentos no presídio. Na primeira questão da série, investigou-se essa melhora entre os próprios alunos, pelo que se constatou que todos concordam que as formas de trabalho no

núcleo contribuem significativamente para o aprofundamento das relações entre os alunos.

Verifica-se que a partir do trabalho educativo, os detentos (alunos) aprendem a ter uma nova visão de si e dos outros com quem convivem, elevando a amizade entre eles o que, segundo Souza (2009), pode contribuir para sua volta à sociedade em condições bem melhores. Sobre a melhoria dos relacionamentos entre alunos e professores, verificou- se que, apesar de um tanto vagas, as respostas apontam para a importância da convivência, da aprendizagem e da forma como os docentes tratam os detentos (alunos), sendo este ponto de extrema relevância para o trabalho educativo na prisão (PEREIRA, 2001a). Com relação ao relacionamento entre os alunos e demais profissionais que atuam no Presídio, observou-se que, 96%, praticamente todos os pesquisados, apontam que há melhoria nas relações interpessoais e nas situações de convivência com os demais profissionais que atuam na instituição, a partir do trabalho escolar. Pereira (2001a) e Souza (2009) comentam a importância da educação prisional para a melhoria das relações humanas. Julião (2007) aponta o tratamento humanizado como importante na busca de melhores condições de convivência entre detentos, enquanto Foucault (2001) diz que essas condições só são possíveis a partir da educação e da visão de perspectiva do apenado. Foi questionada a importância das aulas dentro dos presídios, na visão dos detentos. Destacaram-se 88% falas que demonstraram a melhoria na auto-estima e no valor próprio de cada um, a partir de uma visão de “crescimento”, tendo em vista que a educação projeta alcançar metas que não haviam sido atingidas na vida em liberdade. Assim, verifica- se que a visão dos detentos aponta na mesma direção do pensamento dos autores consultados neste estudo. Sobre a relação da educação com a ressocialização do detento, questionou- se: “Você vê a educação oferecida em sala de aula como um meio de ressocialização?” A unanimidade dos pesquisados (100%) reconheceram a importância da educação e creditam à ela o papel de contribuir com a ressocialização do interno penitenciário. Com base nas respostas dos pesquisados percebe-se que eles compreendem o conceito de ressocialização, como sinônimo de reinserção social e

de inclusão social da mesma forma que Freire (1983) entende que só a educação pode proporcionar a autonomia e a cidadania. Questionou-se, também, que atividades desenvolvidas dentro do presídio, além das aulas, proporcionam melhores momentos de convivência, onde se encontrou uma grande variedade de respostas. Analisando as respostas dos pesquisados, foi possível observar que as atividades que envolvem convivências com as pessoas que não se encontram na mesma situação de privação de liberdade como eles, são as mais citadas, confirmando o que diz Gadotti (1993, p. 34), que “a liberdade é a única força que move o preso”. Na comunicação com outras pessoas, ele sai um pouco do isolamento e reflete. Observou-se também a falta de atividades para as detentas, que precisam se adaptar a um ambiente criado para atender necessidades e interesses do sexo masculino, sentindo-se cada vez mais excluídas pelo próprio contexto onde se encontram. É unânime o entendimento de que o papel do professor no processo de ressocialização dos detentos, como agente de educação, é fundamental. Onofre (2007 p.14) questiona: “Como pode o homem encontrar significado numa escola nesse espaço arquitetônico de violência, onde a rede de relações internas o despersonaliza e o anula?” As respostas a esse questionamento ficam em parte respondidas pelos pesquisados, que apesar de todas as suas mazelas, vêem na

figura do professor e no ato de ensinar, reflexos de esperança, de continuidade de uma vida extra muros. Os agradecimentos, os votos de boa sorte e todas as outras manifestações

mostram que a educação, como diz Freire (1999), é um ato

Num

ambiente tão inóspito e cruel, fazer educação é um grande desafio, recompensado pelas expressões de quem vê a esperança da liberdade no trabalho.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O perfil para o presidiário brasileiro é de alguém majoritariamente pobre, do sexo masculino, de até 35 anos, com baixa escolaridade e baixa capacidade de inserção no mercado de trabalho. Este estudo veio a confirmar o que decorre no

resto do país, em que os detentos são, em sua maioria, indivíduos que foram marginalizados, excluídos de uma sociedade segregante e alienadora. Este estudo buscou analisar a importância da educação prisional como forma de ressocialização do detento, a partir de sua preparação para o reingresso na comunidade externa ao presídio. Constatou, pelos estudos feitos e respostas colhidas na pesquisa de campo que os detentos tem objetivos definidos com o estudo, tendo em vista a visão de liberdade e a necessidade de emprego como forma de sustento. Dessa forma, a educação prisional na realidade investigada, tem se projetado como alternativa de melhoria das condições de vida, servindo como pilastra para a inserção em um novo estilo de vida a partir da liberdade. Discutindo a importância da educação, dos conteúdos trabalhados, do tempo de escolarização e a relação destes com a reintegração social, verificou-se que os questionados apontam o estudo, dentro do sistema carcerário, como um dos mais promissores caminhos para a volta à sociedade e o crescimento pessoal, sendo fundamental para o alcance de seus objetivos, quando em liberdade. Dessa forma conclui-se, em reposta ao problema da pesquisa feita que, a educação prisional, no contexto do Núcleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos Julieta Villamil Balestro é entendido pelos detentos como fundamental para contribuir na sua reinserção social, atendendo às expectativas de melhoria das condições de vida por ocasião de sua volta à sociedade, e contribuindo para melhorar as expectativas com relação à empregabilidade.Constatação esta que nos faz sugerir sejam ampliados os Núcleos Educacionais nos Sistemas prisionais, em especial no Estado do Rio Grande do Sul, onde existem 12 Núcleos, num universo de 91 Penitenciárias

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