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1

1

S

I'FLES

E

17'

R E

SAGOGE

ta obrinha , destinada a quem

t i

je iniciar-se na lógica formal ,

i nt e rmediário

da Lógica de

Ari tót e les para a modernidade. Porfí rio escreveu o texto com o p ro pó s ito de facilitar a introdução

no s problemas suscitados pelo est udo das Categorias lógicas.

C o m a i dade de quase dois rnil é - ni o s, e sta obra permanece viçosa , se ndo de agradáv e l leitura , e e scla- rece dora quanto às formas de pen- sa r e d e ex primir o pen s amento c om todo o rigor , p e lo conheci- me nto d a s cinco vozes: género , es p éc i e, diferença , próprio e aci- d en t e .

ISAGOGE

Co py rig h t . P inhar a nd a Go m es

G u i m a r ães E dit ores Lda .

T o dos os direitos reservados para a pr(smt( traduç ã o .

J. a e dição: 1 994

PORFfRIO

ISAGOGE

( E (oaywYlÍ)

[INTRODUÇÃO

ÀS CATEGORIAS

DE ARIST6TELES]

TRA DU ÇÃ O , PR EFÃCIO E N OTAS

D E

PINHARANDA GOMES

LISBOA

GUIMARÃES

EDITORES

1994

SU MÁ RIO

Prefá c io ISAGOG E d e P o rfí rio, o Fení c i o , d isc ípul o de Pl o tin o d e Li c óp o lis

o o o •••••• •• ••• • • •• •• •••••••

o • •••• •• ••• • •

' 0

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o o • • ••• ••• •• ••••••

00

o, •• ••••••• • ••••

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o

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I I

49

52

Do Cá l e r o Da E sp é c i

5 8

Da Dif e r e nça

68

Do Pr ó pri o

77

Do A c id e nt e

79

Do s Cara c t e r e s comum

o às Vo ze s

 

80

Dos C ara c teres c omum

ao Cáz e ro e à Dif e ren ç a

81

Da dif e ren ç a entre Genero e Dif er en ç a

 

8 2

Dos Caracteres c omum ao C é llero e à Esp éc ie

84

Da d i f e r mç a e ntre G ê nero e E s p éc ie

84

Do s Cara c t e re s c omum ao C é llero e ao Pr ó p r i o

85

Da dif e r e nça entr e o Cénero e o Próprio

86

Do s Cara c t e r es comum ao Ch u r o e ao A c ident e

8

7

Da dif e r e /I ç a e ntr e Cénero e A c idente

8

7

Dos Cara c ter e s c omum à Dif e r e nça e à Espé c ie

90

Da dif e r e n ç a e ntre E sp éc ie e Dif e rm ç a

90

Dos C ara c ter es c omum à Dif e rm ç a e ao Própri o

92

Da dif e r e n ç a entr e Próprio e Dif e rença

92

C

ara c t e r es

co mum à Dif e rm ç a e ao A c idente

9 3

Do s C ara c t e r es pr ó prios à Dif e r e nça e

ao A c ident e

,

9 3

o

Dos Cara c ter e s comuns à Espéc ie e ao Próprio Da d i f e r e n ç a entr e Esp éc ie e Pr ó prio Do s Car ac tere s c omum à E s pé c ie e ao Acid e nt e

94

95

96

8

PORFfRIO

Da di f e ren ç a entre Espé c ie e Acidente . Do s Caracteres comum ao Próprio

96

e ao A c idente Inseparáuel

97

Da di f e ren ç a entr e Próprio e Acident e

97

J

I .

PREFÁCIO

1. PORFfRIO, ou Basílio, é o nome grego de Meleq (significa : rei) em latim transcrito Malco, homónimo desse outro semita, servo do pontífice ao qual o apóstolo Pedro teria cortado a orelha,

quando Jesus Cristo

Oliveiras

tendo nascido em Tiro, ou Batania da S í ria, cerca do ano 232 da era cristã . A cultura grega vive o período helenístico, o pensamento mediterrâneo vive uma renovação da escola platônica, forja-se o ciclo, que se prolongará em Roma, e noutras

cidades,

L O N G IN O (fal . 273), neoplatónico, que estudara

em Alexandria na escola de Amónio Saccas , e fora mestre de Retórica em Atenas, fixou-se na S í ria , onde continuou o ensino. Longino é o presumí -

vel autor de um tratado

estética, o TIEpL U'l'o'UÇ, Das Alturas, ou Do Sublime, escrito magistral de toda a Retórica posterior . Meleq frequentou as aulas de Longino, personalidade importante, uma vez também desempenhar as funções de ministro de Zenóbia, rainha de PaI mira. Decerto que Porfírio pertencia

foi preso no Jardim

Porfírio

das

(I) . Com efeito,

era fenício,

do Pl ato n is m o Ecléctico.

Cássio

de funda repercussão

12

PORFfRIO

a família de posição social e de algum poder eco- nómico. Longino morreria em 273, condenado à morte por Aureliano, que o acusou de cumplici- dade nos interesses da mencionada rainha de

Palmira. Nesse ano, já Porfírio se encontrava longe, em Roma, e talvez nunca soubesse do triste fim do seu antigo professor de Retórica. Teve, porém, outros mestres de retórica, como Orígenes (não é o célebre Orígenes de Alexandria, embora

o pudesse ser, em termos cronológicos, mas um

outro Orígenes) e Apolónio, figuras acerca das

ISAGOGE

13

para a filosofia moderna (I ) , homem

tera, de mística corporatura

vocação pedagógica, a pontos de abrir a sua casa a sucessivas levas de jovens romanos, a quem ensi-

nava, e cujos interesses defendia.

como Plotino,

Egipto)

se

criou entre ambos. Pio tino tinha então a idade de

59 anos e socorreu-se de atender as aulas

alguns trabalhos administrativos

de vida aus-

e de irreprimível

Porfírio era,

um sernita (Pio tino nascera no

e, por isso, uma especial atmosfera

muito de Porfírio que, além do mestre, ainda assumia

e de pesquisa,

quais pouco sabemos.

tendo contraído um estado de neurastenia, que o

Motivado pelas hipóteses

de futuro

que

colocou em risco de suicídio.

Corria

Roma oferecia aos professores gregos, saiu de Tiro

267 ou 268, e Plotino, adivinhando

o ano de o que ia na

para a cidade imperial, quando rondava a idade

alma do amigo, aconselhou-o

a sair de Roma, a

de trinta anos, ou seja, por volta do ano 263,

afastar-se do trabalho por algum tempo,

e

depois

de ter escrito uma primeira obra, consi-

Porfírio aceitou a ideia, saindo para Lilibeia,

na

derada perdida, e inritulada A Filosofia segundo os

Oráculos, que Gustavo Wolff tentou, em 1856, reconstituir, a partir de fragmentos citados em vários autores, sobretudo na Preparação Evan-

gélica (Preparatio Evangelica) de Eusébio de

Cesareia,

e na De Ciuitate Dei, de Santo

Agostinho.

Já em Roma, entra na escola de Pio tino de

Licópolis (205-266),

nismo e pontífice da transição da filosofia clássica

fundador do Neoplato-

ilha de Sicília, onde permaneceu

270, por isso que não assistiu à morte de Plotino, o qual, doente, encerrara a escola, cujos alunos se dispersaram, e partiu para a Campânia, onde

até ao ano de

(1) Cf Porfírio , Vito Plotinii , que antecede todas as ediçõ e s das Enéadrs, de Plotino . Citamos, a título de breve infor- mação , a de E. Bréhier, Paris, G . Bud é, 1924-1938 . A bibliografia portuguesa é escassa , mas registamos , como excelente introdução, Carlos Henrique do Carmo Silva, "Plotino ", in Lagos, Euciclopédia Luso-Brasileira de FiLosofia, vo\ . 4 , P : 271-306 , e a abundante bibliografia aduzida.

14

PORFfRIO

viveu os últimos tempos ,

Eustáquio

discípulo s . No remanso campestre procurou resu- mir por escrito as s ua s lições orais , interpolando questõe s su s citadas pelos discípulos, ma s sem cui- dar, nem da composição, nem do e s tilo . Antes de

que, a

regressou a

seguir ao falecimento

morrer, legou o manuscrito

na companhia

de

e, talvez de Arn é lio , outro s dos seus

a Porfírio,

de Plotino,

Roma , onde , após valioso trabalho na salvação da obra do mestre, viria a falecer no ano de 305 , com a idade de setenta e três anos ( I ) . Contraíra, entretanto, matrimónio com Marcela, uma viúva

já com sete filhos, que adoptou.

uma das cartas mulher .

que Porfírio

Ad Marcellam é

escreveu

a sua

2 . Porfírio revelou-se e s critor produtivo, ao

considerarmos os 77 título s que teria composto , embora muitos dele s não tenham chegado na

íntegra à posteridade.

antigo e s crito

A Filosofia segundo os Oráculos, anterior à saída de

Tiro para Roma. E s ta obra, em fragmentos

rada, foi editada por Gu s tavo Wolff com o título

O seu primeiro

e mais

terá sido , como já indicámos,

apu-

( I )

C]

. J. Bidez,

Vir d« Po rphyr e, Ir. Pbilosopb e

Néoplatoni c ien . Leipzig, 1913, que se considera a melhor bi o grafia.

ISAGOG E

15

De Philosophia ex-oraculis haurienda (I856) ( I ) ,

compõe-se de três livros, um sobre teologia divina e do culto , outro sobre demonologia, e outro sobre a teoria dos heróis e do heroís mo. Alguns autore s pretendem identificar esta perdida obra com uma outra, intitulada De Regressu Anime , con s tituída pelo s fragmentos que J. Bidez reco- lheu no livro Da cidade de Deus, de Santo

Ago s tinho , mas a proposta continua na e s fera das hipóte s e s ( 2 ) . Ainda na fase pr é -plotiniana escreveu vários opúsculos, como o Questões Homéricas, em que submete a poesia de Homero a uma exegese alegórica, obtendo o efeito de uma intelecção metafísica do poema homérico. Da época pré- plotiniana, e dos primeiros tempo s da influência

de Pio tino s ão os s eguinte s

Philosopbie Fragmenta , Vita Pythagort t , De Antro

ad

Mar c ellam, opúsculos selecco s editado s por A. Nauck, numa erudita edição (Leipzig, 1886) . Da época plotiniana, e do ambiente romano são outro s e scrito s, un s de natureza filo s ófica , como

Ny mpb aru m , De Abstinentia ,

escrito s : Historie

e Epi s tola

( I ) P o rfí rio, De Philosophia ex Oraculis bauri e nda , re co n s- riruição e e di ção c r í tic a d e G . W o lf , n o v a e di ção, Olm s:

Hildes h e im, 1962 .

(2) P o rffrio ,

D« Regr e ssu Animtl r . ,

r ec on s riru í da e m

G . Bid e z , V i r . de Porpbyre, ed . cit o C f . Pie rr e Hadot, Reou«

des Études Augustinie1l1lt:S, vol . VI , 1960 .

16

PORFfRI O

um Coment á rio do Parm é nides 0>, cuja positiva

origem porfiriana se situa ainda no domínio de hipóte s e, embora os fragmentos salvos e editados

evidenciem uma tese cara a Porfírio, qual e s sa da identificação do Uno puro e do Ser puro e do Intelecto em repouso; e na reserva posta à compi- lação do s Oráculos Caldeus, aparecida no tempo de Marco Aurélio e de J uliano, o T eurgo . Porfírio participa do movimento romano contra a implantação do Cristianismo e , com

efeito, é o autor de um tratado , ou manifesto

trinal, Contra os Cristãos (Ka " tà XPtOUavlov), cons-

tituído por quinze epístolas, em que visa refutar a

valia da doutrina cristã. Só di s pomos de fragmen- to s, regi s tado s por autore s que s e lhe opu s eram, uma vez que as referida s epí s tolas foram manda-

da s de s truir por

são , e pelos suces s ores , os imperadores Valenriniano III e Teodoro 11, já tarde , no ano de

448 . Pierre de Labriolle (l) procurou recon s tituir

a s epí s tolas , baseado nos fragmento s recolhidos em escrito s de S . J erónimo e de Euséb io ,

Apolinário e Método.

dou-

Constantino, apó s a s ua conver-

01 C f . P . H a d o t ,

" Fragm e nt s

d ' un C o mm e ntair e

d e

P o rphyr e s ur l e Parrn é nide " , in R e uue d e s Ét ud e s Gre c ques ,

vol . 74 , Paris , 1961 .

121 P . d e Labri o lle , Ia R é a c tion Paiéune. Paris , 1948 .

I S AG O G E

17

Vem ao eito o tema de Porfírio ter sido cris -

tão. Alguns

e s critore s

ecle s iás ticos ,

como

Aristócrates e Sócrates de Con s tantinopla

infor-

mam que Porfírio foi cri s t ã o, motivo pelo qual o

no sso Pedro da Fon s eca

- De t a l modo o fora, e de t a l

modo se tornara inimigo do s Cri s tão s , que o Imperador Con s ranrino , numa carta ao povo

s obre a condenação

determinou que o s s equaze s de Ário

mado s porfiriano s , di scípulo s de Porfírio, "ímpio

o con s idera " pérfido

p erfidi deserto ris

desertor

da fé cri s tã "

Cbri s tiane fidei ( 1 ) . -

de Ário e do Arianismo , fo ss em ch a -

e

inimigo capital da s ociedade " -

« ••• impium, et

c

apitalem pietatis ho s tem " ( 2 ) . Que s e opô s ao

Cri s ti a ni s mo ,

tive sse sido cri s t ã o , pode duvidar-se. Nada ob s t a a

que

Tiro , s em re s ultado baptismal.

uma forte comunidade

fora erecta no tempo de Paulo, como s abemos

p e la s E s critura s . Viajando de Rode s, Paulo e o s companheiro s chegaram a Tiro, onde o navio

havia de fazer-se à carga , e encontrou

com os quais viveu uma s emana, e que o avis aram

não há dúvid a;

que a lguma

vez

fize sse uma caminhada de catec ú rneno , em

Em Tiro exis tia

cri s tã, e ss a mes ma qu e

cristão s ,

[ %111 P e dro da Fon sec a , I s agog e F i lo só f ic a , e d . d e J oa quim

l ! : erre ira Gomes, Coimbra , 1965 , p. 9. 121P e dro da Fon s eca , ibidem .

18

PORFfRIO

para não ir a Jerusalém ( I). Tiro era, na época de

Porfírio, sede de arquidiocese, e, dado o espírito curioso, bem pode ter frequentado uma comuni- dade eclesial . Se cbegou a baptizar-se é matéria

ignorada, mas considerável número de apologis- tas - Apolinário de Laodiceia, Eusébio de Cesareia, Metódio de Olimpo, Macário de

Magnésia, S. Jerónimo e Santo Agostinho - consideraram-no adversário do movimento cris- tão, "christianorum accerrimus inimicus' (2) , sem

prejuízo da sua nobre qualidade de filósofo. Todavia, Porfírio não se limitou a combater a religião cristã, opôs-se também aos cultos egípcios, conforme patenteia na Epistola ad Anebanem 0>, sacerdote egípcio, em que o sujeita a um teste de perguntas e de respostas sobre teologia e dernono- logia. Esta carta teológica terá sido a causa da

Resposta do Mestre Abammon e também do tra- tado Dos Mistérios (De Mysteriis) que se atribui a

Jâmblico, aluno de Porfírio,

em que o

prima na área da filosofia da religião,

e que é uma obra

auror propõe um anri-inrelectualismo, assumindo

que o conhecimento

do divino e da salvação é

( I ) Actos dos Apóstolos, 21 , 3- 5.

(2 ) Santo Agostinho, De Ciuitate Dei, Liv. X, capo IX. (3) Edição G. Parthey, Berlim, 1857.

ISAGOGE

19

anterior a todo o conhecimento, sendo congénito a quanto o homem é enquanto homem. Chega confuso, difuso, e instável, à Sicília. Já foi escrito que a Lógica de Aristóteles, substante e formal no Organon, é a medicina do juízo perfei- to, um caminho para os descarriados, a medicina da alma confundida. Talvez por isso, enquanto na Sicília, e como exercício terapêutico, Porfírio deu-se ao rigor ascético. E que melhor via além

da compreensão

Aristóteles? Datam deste breve período de vilegia-

tura, duas obrinhas de uma alma que, ao perigo da dispersão opõe o exercício da disciplina: uma espécie de catecismo, de perguntas e respostas, em que o aprendiz pergunta e o professor res-

ponde, acerca das Categorias: Aristotelis Categorias Expositio per Interrogationem et Responsionem (I ) ; e,

por fim, o tratadinho que maior celebridade deu

ao autor, a ELoayury1í, Üagoge.

Regressado da Sicília, dedicou-se a salvar a obra de Plotino. Convém referir que um outro discípulo, Amélio Genriliano, fizera assento escri- to de várias lições de Plotino, que chegou a enviar a Longino. Essas notas, ou assentos, teriam ser-

dos esquemas categoriais

de

( I ) A. Busse, Porphyrii lsagoge et in Aristotelis Categorias

Commwtarium .

Academia

de Berlim,

1887.

É o 4.0

volume da série Commentaria in Aristotelem Greca.

20

PORFfRI O

vido de base ao tratado Teologia de Aristót e les,

como

tendo uma ori g em muçulmana. Este tratadinho , para a lém d a s ua beleza , tem a utilidade de com-

muito lido na Idade Média , e a s sumido

plementar

o enrendimenro d as ideia s de Pio tino ,

na forma

como no s foram leg a da s por Porfírio .

De po ss e dos manuscrito s do me s tre , Porfírio

tr a tou-o s , ordenou - o s ,

tema

n ove

~v v Eá ç , éneás, de onde o tírul o univer sal Enéades,

obr a aparecida no ano de 3 01 , depoi s perdida,

s end o recuperada n a ver s ão l a tin a, em 1492, p e lo

f1orenrino Mar c ílio

t o rn a ndo c onh ec id a no Ocid e nte em 1580.

fil ós ofo s foram

c

vezes, de quem lhes organizass e a obra por e s cri-

t o.

num s i s -

de 54 tratado s, ag rupado s em s ei s livro s d e

tratado s ca d a um , ou se j a, e m s ei s noven as,

e compilou-o s,

Fi c in o, a ve rsã o gr eg a s ó s e

Nem se mpr e o s ilumin a d os

on s i s tente s

e s critore s , nece ss itando ,

alguma s

Tal é o ca s o de Je s u s de Nazaré , de Sócrate s,

de Ari s t ó tele s

(algum Ari s t ó tele s ) ,

d e Heg e l ,

e

t

a mbém de Pio tino. O que de s te conhecemo s

de

ma g i s tral acha-s e na s Enéades, ma s e s ta obra é o

pen s amento de Plotino s egundo Porfírio, de modo que , o que de Plotino herdámo s é um Plotino / Porfírio. A s agrada arquirectura d a da por Porfírio ao s manu s crito s de Plotino releva de s aber iniciá- tico e de inteligência orgânica, com pleno domí-

ISAG OGE

2 1

nio técnico da divi s ion e pbilosophie, da Ética para

a Física , conforme

Xenócrate s e de Ari s t ó tel es. A divis ão do tra tado é

obra de Porfíri o, por i sso qu e s e re i s ta a s e

cia d as E né ad es: I ) M o ral; 2) Fí s i ca 3) Providên c i a; ) Alma ; 5) Int e lecto; 6) O Uno . m mooo prefac i al , Porfírio redigiu , para

ante c eder

fonre p a ra a

bio g r a fi a do fil ós of o neo p lató ni c o , a qu a l a p a rece

em tod as as edi ç õ es daqu e l a obr a de Plotin o, tes-

temunh a ndo

capaz do exer c ício e s peculativo , c omo d a di g re s-

são hi s t ó ri c a e literári a . Um outro bre ve esc rito ,

a cer ca d o p e n sam e nto

d

Ati ngir o s I nte li gíve i s,

Sent en t ie a d i n t e lli g ibil ia du cen t es (ÀqJOPIlat. I l p àç

- r ã v o r rc é ) ( I ), uma e s pécie de

em qu e, d e fo r m a re s umid a, ou e l e m e nr a r , ex p õe

à tradição

herd a da

de

uên-

a s E néa de s, uma

V ita Plotin i i,

um a

Vid a d e P lot in o , a m a i s imp o rta nt e

a ver s atilidade

do bió g r a fo ,

tão

de Pio t i no , é um a es p é cie

P ontos de Pa r t ida pa r a

ou ,

n o dizer

l a tino ,

inrr o du çã o a Pl o tin o ,

e epí s t o l a,

intitul a d a

as prin c ip a i s te ses do m est r e, so br etud o

de s te ses d as Enéa d es, so br e o Uno e o M ú l tip l o, a

as g r a n -

a

lm a e a catárse,

o u purifi cação. Admite-se que

e

s ta s S e nten ças for a m o s eu último e s crit o, e ntre

o

s que c h ega r a m à p os te r id a d e .

( I ) P orfí rio , S e utentia ad I nt e /LigibiLia Du c ent es , ed . B . Mommert , L e ipzig , 1 907 .

22

PORFfRIO

3. A carência dos textos integrais de Porfírio

abstém-nos de construir um sumário definitório das suas teses. Na qualidade de mestre-escola da

Escola de Plotino, e ainda mais no encargo

publicar, por escriro, rou orientar-se numa

foi também a sua, propriamente sua, a de uma visão religiosa, rnístico-especulativa e teúrgica -, característica do pitagorismo segundo o entendi- mento neoplatónico do plotinismo - a qual se constitui herança dos que foram seus alunos, Jâmblico incluído, mas já não um Boécio, que, mais tardio, mas estudioso de Porfírio, deste só escolheu a lectio aristot é lica, desenvolveu o misti- cismo especulativo do plotinismo, sem o alterar de modo notório, prestando especial atenção às questões e às problemáticas da Mitologia e da Religião mormente na perspectiva da herrnenêu- tica da axiologia religiosa grega, num instante em que uma nova doutrina, o Cristianismo, abria profundos sulcos na sociedade clássica, depressa transitando da penumbra temerosa das catacum- bas para a modéstia dos currais e dos pátios e, logo, para os poderes dos salões, dos balneários e dos palácios, criando uma nova aliança entre ser- vos e senhores, entre escravos e cidadãos, entre patrícios e plebeus.

de

as ideias de PIo tino, procu- via que, sendo a de PIo tino,

ISAGOGE

23

Enquanto

caloiro

da escola

de Plotino,

enfrentou diversas dificuldades, pois não lhe foi de imediato concedido entender as doutrinas da identidade do Espírito e dos inteligíveis, por isso,

segundo se julga, tendo contraído o estado de exaustão mental , agravado com o cansaço de

outros trabalhos que houvera de fazer na Escola. Entregou-se, uma vez vencida a fase dispersiva, a explicar e a definir as questões plotinianas que lhe pareciam de maior obscuridade, ou de mais sus- ceptível litígio, e trazendo, com isto, um conside-

rável enriquecimento in terpretativo às

mestre, sobretudo na teoria das hipóstases, pre- cursoras das complexas urdiduras misteriosas de

j â mblico, de Pro c lo, e dos mais tardios represen-

teses do

tantes da tradição neoplatónica. Permanece no misticismo e s peculativo, opõe-se, sendo assim, às vias do puro ra c ionalismo e do puro vivencia- lismo, de modo que se equidistancia, já da reli- gião cristã, já das religiões orientais, uma vez que, no ver do neoplatonisrno, a religião passa através

da Filosofia. Ou, para se dizer com mais aguda noção: o Neoplatonismo é em si mesmo uma Religião, distanciada das " religiões populares " , como as orientais e, nesse momento, o Cristia- nismo, que se radicava como religião do povo, um exoterismo, distanciado da iniciação esoté rica

24

PORF[RIO

e selectiva que a primada da Mi s tério . exercia na

Neopl a toni s mo .

nomen c l a tural decorrente da e s peculação . patrís-

da

nava civilização. O conhecimento religio s o (fila- sófico) não . s e re s umiu ao . c onhecimento intelec-

tivo, s erá t a mbém um conhecimento agente , uma aliança da doutrina e da praxis. Talvez par in -

na I g rej a

fluência cri s tã (e sem

das Fiéi s ) propõe quatro . princ í pio s de vida e s piri -

tual: a Fé (JT.Louç), a Verdade (áÀlí8ELU),

( t p wç ) e a E s per a nça

análogo da trilátero

E

de

s perança e a C a rid a de (Amar) , com a diferença que Por f irio , em vez de unifica r as t e rma s d e

F é de Verdade, as s epar a, par efeito d a nece ssi-

d a de filosófica de introdu z ir

a s aber

( Verdade) , uma vez que a Verd a de , meno s da

que um d a da,

humana . Ele não . pad e a b a ndon a r um a r a d ica ç ã o .

cultural ,

nova forma de c ultura que as paí s e s it á li c o s a dap -

t a m . Permanece leal à mediação . teúrgica, peculia r

a o . N eoplatoni s mo, a que a f a z incorrer na a cidez

de Santa Agosrinho , aduersus baeresibus: " T ã o . depress a na s previne contra e s ta arte (a teur g i a ) ,

Porém,

face a uma nova anda

rica, Parfíria a proxima -s e das indicad o re s

que haja entrada

a Amar

(ÉÀntç), um quadrilátera da cateque s e cri s t ã, a Fé, a

um a di s tin ç ão . entre

d a Raz ã o .

da pradí g ia

rev e lada

(Fé)

e a s aber

é um a a qui s iç ã o .

que lhe fora mátria

e matriz, par uma

I S A GOGE

2 5

alegand o . que é pérfida , perigasa n a pr á tic a e proi- bida p e l as lei s; c ama lo g o , c edendo . a o s p a ne g iri s-

tas , a d ec lara

alm a,

conhe c e a verdade de s t as realidade s intelig ívei s

que n ã o . t ê m qualquer

ma s a a lm a e s piritu a l em que ela c a pt a as image n s

útil p a ra purificar

int e lectu a l ,

uma p a rte da em qu e e l a

sen ã o . a alma

sem e lh a nç a com a car pa ,

d as c oi sas co rporai s "

que n as é d a da ver cama Porfírio d e tinh a a r g u -

mento p a ra s ep a rar a F é ( própria d a a lma es piri -

( 1 ) . É par S a nto A gos tinh o

tu

a l ) d a V e rd a d e (acessív e l à a lma inte l ec tu a l , ou

ra

c ion a l ) . A lib e r tação . d a a lm a, e n c erra d a n a i n vó lu c ro

carn a l , e f ec ru a-se medi a n te a S a nt a Sofia, a sa be -

d a r ia, s up e rio r a qu a lqu er c ulro, r i t o . ou liturg i a.

N ã o . h á at e u s, tod a a c ri a tur a es t á ind iss oluvel -

m e n te unid a ( m esm a qu e

e s t a r eg r a of e re c e mai s va li a, quand o . a plic ad a a o .

filósofo:

a incult o, e mbora

reze e of e r eça sacrif íc io s, ofend e

há c omportamento rel i gio s o s em inic i açã o . filosó-

fi c a, d e m o d o que só a s ábia

(tEPEÚÇ), s ó a sábia s abe

divind a d e .

a o .

rez a r , s ó e l e sa be a m a r a

a i g nor e) ao . C r iada r , e

" O sábia ,

m esma em sil ê n c i o . (owêrv)

a d i vin a " . Nã o .

é a sa cerd ore

honr a a di v indade , enqu a nto

O amar

a diu i ni s e s tá ved a da

( I ) Sa nt o Agos t i nh o,

De Ciuitat e D e i , L iv . X , ca p o I X .

26

PORFfRI O

comum, as mas s as são irnpiedo s as, só o sábio

recebe o dom da piedade . Se, num acervo dourrinal como este , e le vi s a

o populi s mo

alguma utilidade

cri s tão , noutra in s tância achará

no s rito s teúrgico s da cultura

ISAGOGE

2 7

alma em plenitude, comendo toda a potên c ia psí- quica, uma infinita potência, (éinELPOÔ'ÚVUf-lOç), uma

apeiron dunamo s . Todas a s almas s ão uma Alma e, e s ta Alma, por s ua vez, é di s tinta da s alma s dita s s ingulare s ou individuais. Uma p s icologia

do

s Caldeu s , por isso que, Santo Ago s tinho -

emana c ionista,

de radicação neoplatónica, no -

o

incrimina por dubiedade de critério . Segundo

men c laturada segundo as gnoses pitagórica e plo-

Porf í rio . o s rito s caldaicos

a c tuarn, já na alm a

tiniana .

int e le c tu a l , já numa entid a de intermédi a s itu a d a

A a lm a,

acom e tid a p e lo pneum a, (nvEv!ill),

s e a tr a ída p e la s forç as ob s cura s do s pod e re s c ó s-

ou s opr o, v ê--

e ntre o c orpo terreno e a a lma ce le s te.

mi c o s e c ai no e s tado de pe s ad e lo. O s demónio s e

as neg a tiva s i m a ginaçõe s e c on g emin a çõe s arr as-

t

a m a a lm a p a r a

o infe r no . A fun çã o po si tiv a da

t

e ur g i a

res ide n a s u a ca p ac id a d e p a r a e xo r c iz a r o

m a li g n o, e e l eva r a a lm a d a ob sc uridad e

vont a d e de um a

tica , rumo à luz . A alma , medi a nte a s con s agra-

ç õe s teur g ica s (c hamad as

põe- s e a acolher o s e s pírito s e o s a njo s e a ver a

divind a de ( I ) . Em

de Plotino , admite que o s corpo s, em v e z de c on - tribuírem para a di s tinção individual d as a lma s ,

d a

Alma una . Cada parte da a lma é , t o d a vi a, a lma total ,

p a r a a ou catár-

vi a gem purificatória,

teletas, 1:EÀ1Ttl1, í i ç ) di s-

conformid a d e c o m a d o utrina

s ó s ervem para a destruição , ou fragment a ção

( I ) l d . , id.

A

s doutrin as

de Pio tino se undo

Porfírio

prevale c I e s colas neo latónica s, s obre - tudo a Oriente, onde tiveram longa vida e múlti-

com real c e para filó s ofo s como

Jâmblico

de Cal c ídia (fal . 330) , autor do belís-

p lo s seguido ~ s ,

simo tr a tado teúrgico De Mysteriis; Siri a no , Pro c lo ( fal . 4 85) , Amónio , Simpl í ci o, Jo ã o Filipon o, Eli as, Da v id e Damá s cio , ( que v iveu até meado s do s éculo VI) . Todo s ele s , Porfí rio in c lu-

ído, al é m da apologi a da filo s ofia mís tica de c a riz

e s pecul a tivo, viveram ou tentar a m viv e r em

a s ce s e , c on s tituíd a por exer c ício s, mortifica çõe s e regime de ab s tin ê ncia. Como vimo s , Porfír i o

e s creveu a epí s tol a Da Abstinência, endere ça d a a o romano Cas tr fc io , que acon se lh a a s eguir o regime veget a riano, na ance s tral prática alimentí- cia das cultura s s emítica s .

seguidore s de

Porf í rio , como Manlio Bo é cio e Mário Vitorino ,

N o Ocidente,

o s principai s

28

PORFfRIO

deram preferência ao Porfírio lógico, ao especia-

lista

na Lógica Formal de Aristóreles

uma vez

que,

tendo aderido ao Cristianismo,

difícil lhes

seria conciliar a doutrina evangélica com a gnose

neoplatónica.

4. Os biógrafos de Porfírio noticiam que ele

redigiu comentários e introduçóes a todos os livros do Organon de Aristóteles. Perderam-se, ou

ignora-se o seu paradeiro,

à

lógica aristotélica, a posteridade recebeu dois tex-

mas, da iniciação

tos: In Aristotelis

Interrogationem et Responsionem; e a epístola a

Crisaório, intitulada Isagoge (EloaYC.úY1í), que sig- nifica introdução, iniciação. O título mais com-

pleto é:

Categorias

Expositio per

Introdução de Porjlrio, o Fenicio, Discípulo de Plotino de Licópolis

norevnor EI~A YQYH TOY ct>OINIKOY TOY MA8HYOY nAQTINOY TOY AYKOlIOAITOY .

dos copistas, dos de cada época,

também aparece nominada Quinque Voces, ou

Pentáfono

editores

mas, conforme a preferência

e dos usos e costumes

(AÍ , nEVtE qxovot)

ou Tratado

dos

Cinco Universais (nEpt nsvts qJC.úVÕ.N), ou ao gosto

ISAGOGE

29

latino, Institutiones Porphyrii. Nas Escolas chegou- -se a abreviar, dando o nome aOaütOr pela obra, e

mim se determinava --

~ curso filosófico, os alunos aprendessem em Porfírio.

que, no primeiro

a~o do

~

Nominação latina mais corrente é, porém,

a de

Porphyrii Isagoge, ou apenas Librum Porpbyrii.

se curava da

neurastenia, ou do cansaço cerebral que o afec-

tara, a Isagoge constitui uma epístola, endereçada

a Crisaório, um presumível discípulo da escola de

Platina, fornecendo as chaves para a compreen- são do primeiro livro do Organon, ou Categorias. Embora extenso, e sistematizado em sete livros, o Organon é, por vezes, muito esquernático, como se compendiasse os tópicos que o mestre, ou pre- lecror, desenvolveria na aula, mediante exemplos de ocasião, ou glosas, ou comentas suscitados pelo auditório. Haja em vista que, no Categorias,

Aristóteles utiliza termos universais, como género

e espécie, demonstra-os com exemplos, mas não

define os termos, pelo que os estudances encon- travam certo obstáculo no caminho através da combinação das dez categorias, por não lhes ser dado, desde logo, o elenco das vozes, nominaçóes ou universais, e sendo tolhidos no passo por carên- cia de uma prévia definição dos conceitos de ul~i- versal, gera l , particular e singular, ou individual .

Redigida na Sicília, enquanto

30

PORFfRIO

Com efeito, Aristóteles só versaria, (e de modo exaustivo quanto aos exemplos, mas de forma sinté- tica quanto à explanação teórica), só versaria, dize- mos, estas vozes no rimeiro livro dos Tóp)cos (I) limitando-se a definir, não as cinco vozes, mas ape-

nas quatro: a definição, o género, o próprio e o aci- dente. Excluindo a espécie e a diferença, sendo estes

os modi predicandi, ou predicamentos com os

quais, segundo Aristóteles, se constroem as propo- sições e os argumentos. Quer isto significar que o aparentemente mais fácil dos lógicos de Aristóteles propunha dificuldades aos aprendizes. Quem sabe se o próprio Porfírio não sofreu essas dificuldades em devido tempo, e se dispôs a socorrer, ou a ir em socorro, dos que viviam análogo entrevamento. Universal é o que, sendo algo de uno, é apro, por sua natureza, a existir em vários, enquanto par- ticular é qualquer uno subordinável a algum uni- versal, e, por fim, singular é o que, sendo a l go de uno, não pode estar em vários . As vozes universais são cinco: o énero (YÉvoç),a es écie (E[ÔOÇ)a dife- r$nça (ôcorpopú), o ró rio (lÔIOU) e o acidente (aw0EI3'1KÓç), sendo elas o tema capital da Isa o e. Porfírio baseou-se em diversas passagens do livro

dos Tópicos para elaborar as definições de

nome e a respectiva explanação teorética e terrni-

I

-

-

cada

( I ) Aristóteles, Tópicos, I, capo V, 1 01 b .

ISAGOGE

31

no l ógica, por forma a aplanar o caminho dos aprendizes da Lógica, aos quais faculta um texto quase digesto, acessível e descomplexizador dos ter- mos em auro.

A estrutura do texto é tripartida: a introdução, ou vocação, ao destinatário, com a proposição do tema; uma segunda parte, com as definições expla- nativas de cada uma das quinque voces, ou predicá- veis; e, na terceira parte, uma análise comparativa das comunidades e das diferenças entre cada um dos termos. Em princípio, a Isagoge não deveria ser causa de novos problemas para os destinatários, por se tratar de um guia prático e pragmático, sem intencionalidade tética quanto aos problemas do conhecimento e do discurso lógico. Todavia, logo na proposição, e decerto com o intento de obstar à dispersão do leitor, Porfírio acaba por deixar no caminho uma disjuntiva - se os géneros e as espé- cies são, ou reais, ou conceptuais, introduzindo, com essa disjunriva, na posterior elaboração lógica, o problema dos Universai& que, sob múltiplas apa- rências, emerge e reemerge em todo o destino da Filosofia, sendo lícito questionar-nos se a diferença das esco l as, e a própria liberdade de filosofar, não dependem do modus situandi de cada pensador em relação à ideia de Universais. Será possível listar os múltiplos ismos do pensamento filosófico e dividi-

32

PORFfRIO

-lo s em três tradições, o Re a lismo , o Nominalismo

e o Conceptualismo? O inventário da s con s tantes e

da s variantes talvez nos permita verificar que, na varied a de da s i ntelecções , toda a filo s ofia reverte a

e sse problemático nú c leo inicial .

5. A lsa o e de P

intermediário da

Lógi ca de Ari s tótele s ara a Idade Média

Ren as cença .

m e nto da filo s ofia de Aristóteles, m a l s e conhecia a

sua obra , ma s ela estava sendo de algum modo

rr a n s mi ss a p e la ini c iação porfiri a na . E s ta afirm aç ão vale s obretudo quanto a o Ocidente, ond e este tex-

tozinho ganhou o direito de fazer parte do corpus ari s tot e li c u s, conforme s e prova p e lo facto de, a partir do Ren asc imento , s e haver c ri a do o co s tume de iniciar toda s a s grande s ediçõe s do Organon com a iniciação segundo Porf í rio. Manu s crito, ao depoi s impre sso ; copiado recopiado na s escol as; interpelado , por me s tre s e

e

e ara . a rena s ci-

Ainda s e estava lon g e do

a lunos com múltiplas glosas, aditamentos e cornen-

dos exem- a idade de

qua s e dois milénios e permanece viçosa . Está fora

plo s , a go s to

to s ; a lterado, por uns e outro s, no teor

de cada um ; a Isagoge tem

do nosso dever enumerar os exemplares impres s o s

e manu s critos

exi s tentes por e s se mundo fora ( I ) ,

( I ) A . Bu sse ob . c it . ; P o rf í ri o, I s agog e , trad . e notas d e J. T ri c ot . Pari s, 1947 .

ISAGOGE

33

pelo que no s limitamo s

a breve re s enha s obre

algun s acto s significante s para a nos s a tradição . Sendo um texto produzido no Ocidente, ele mere-

ceu , logo no s tempos imediato s , trê s coment á rio s grego s ; o de Amónio (di sc ípulo de Proclo ) - Ammonii Porpbyrii lsagogen sive V Voces ( I ) - ; o de Elias - Eliae in Porpbyrii l s agogen et Ari s totelis

Commentaria (2 ) -;

e o de David , filó s ofo arrn é nio

do s éculo VI - Davidi s Prolegomena Porphyrii lsagogen Commentarium ( 3) .

et in

No Ocidente , o rimeiro tradutor de Porfírio

neoplatónico M á no

ca . 380) , o africano , que entrou na Igreja nos mea - do s do s éculo IV. A s u a tradução , a liás comentada , perdeu -s e ( 4 ) ma s 01 com fundamento nela que

itorino (fal .

foi o retóric

Aní c io Manlio Severino Boé c io, ou Boethius (480 -

1 -

- 525) s e tornou o iniciador

LógICa e Aristóteles. Ba s eado n a tradução Mário Vitorino, corrente ainda na sua época,

da Medievalidade na

de

( I ) E d . A . Bu sse, B e rli m , 1 8 9\ .

( 1 ) E d . A . Bu sse, B e rlim, c E d . A . Bu sse, B e rlim,

19 0 0 . 19 2 1 .

( 4 ) M á rio Vir or in o , Co mm e utar i u m i n Porph y rii l s a goge .

Co mo s e sa b e ; B oéc i o e f ec tu o u a s u a ver são t o m a nd o p o r

r e f e r ê n c ia a d e M á rio Vit o rin o . Se rv i nd o-se d o co m e nt á ri o

d e B oéc i o , P . M o n cea u x r es t a b e l ece u o t ex t o d e Vit o rin o .

Cf P . Mon ce aux , M é l a /l ge s , P a ri s : H a v e r , 1 9 09 , p . 296 - 3 10 .

A ce rca das r e laçõ es Porfí rio I Vit o rin o , cf P . Had o t ,

P o r p h y r e e t Victorinu s . P a ris , 2 , 0 v o l . , 196 8.

34

PORFfRI O

Boécio e laborou um comentário

à tradução

de

Vitorino,

intitulado

1n Porphyrium

Dialogi a

Victorini

Tra nsla ti, em que , pela primeira

vez ,

da chamada escala predi-

camental; ou árvore de Porfirio, que era o de s e-

apres entou um e s quema

nho , ou e s quema ,

para ainda mai s facilmente

o

aprendiz do s Univer s ai s obter uma percepção ,

e

c larí ss ima, da s voze s ari s totélica s s egundo a arqui-

rec ruta porflriana . E s te Coment á rio

de Boé c i o

teve uma utilidade extra : a de, em tempo , tornar

po

ss ív e l a recon s tituição do texto da tradução d e

M

á rio Virorino, embora tal recon s tituição mereça

algumas re s erva s qu a nto à plenitude textual, não deixando , em todo o ca s o , de s e apre s entar como

um ex e r c í c io de c redibilid a de .

I n s ati s feito . porém ,

com a ver s ão vito rin a ,

Boé c io ef ec tuou

conotada

uma outr a tr a du ç ão ,

muito

à anterior ,

que inritulou de Porpbyrii

I n troductio in Aristotelis Categorias a Boethio

Translata ( I > , de s tin a da a s er v ir de c ompêndio ,

ou

de manual ini c i a tivo , em tod as a s e sc ol as mediev a i s,

a ntes de s e conhecer

todo o Organon, ou logica

i n P or p byri u m a se Tr a n s l a t a , in

( I ) B o é c i o, C om m mta n a

Mi g n e , Patrologia L a t i na , v o l . LXIV , co l . 71 - 1 58 ; A . Bu sse,

B e r lirn , 1 887 . Cf H . vo n Campenh a u sen ,

tr a d . fran cesa: E d . d e [ ' O r a n te , P a ris , 1 96 7 ,

Kirc h m s vii t er ,

L a t ei ni s c b e

p

. 3 22- 3 6 2 ; Cf E . Gil son , L a Philosopbie a u Mo ye n Âge ,

P

ari s , 19 7 6 . v o l . I , p . 1 3 8-1 5 \ .

I S AG OGE

35

nova, e me s mo depoi s de s te integral descobrimento de Aristóteles por virtude da filosofia arábica. O elenco de autores em que Porfírio é apre s entado

como chave , de s de A Fonte do Conhecimento ou

Dialéctica, de S . João Dama s ceno, é va s tíssi~lO , havendo tr a du ç õe s árabe s. s íriaca s, hebraic as, lati - nas, e em muita s língua s da modcrnidade .

do Corpu s

. O ~ ~ me

de

ir a s ed j ç õe s

Aristotelicum c om o tratadinho de Porfírio foi intro-

duzido pelo cornentador , Giovanni ArgiropuJo (~onstantinopla , 1410 - Florença , 1491) , Aoren~ tln? por adopção, me s tre de Marc ílio Ficino, que assim procedeu para a edição intitulada Aristotelis Stagirite Opera (Lugduni , 1601).

6. O Libmm Por h rii lido em Paris no s in í -

c i , o ~ do s , éculo XIII , tornou-se vademecum obriga -

XVIII ,

em ora, como veremo s , o je s uíta Pedra da Fonseca go fize sse para lhe tolher o pa ss o . De s de o s éculo ~u~, por informação colhida em Boécio, algum Anstoteles devinha fundamental na vertebrização do ~en ~a mento e s c~lá s tico, conhe c endo -se a pena s

o Arisróteles grarn ã tico e lógico , atr a vé s de Porfírio

/ B . oécio, ~ue fo~maram no Ocidente a lógica

antig a , logica annqu«. ou logica uetus, a ss ente na .

Isagoge de Porfírio s egundo a leitura de Boécio e nos doi s primeiros livros do Organon, o Categorias

tono

ate ao s éculo

na aula de Lógica,

36

PORFfRIO

e o Periermeneias, ou Da Interpretação. A logica

nova, que já conhece os re s tantes livros orgânicos,

s

ó se tornou efectiva no século XIII. Não ob s -

r

a

nte o de s cobrimento

de todo o Ari s rót e les ,

Porfírio continuou obrigatório na s e s cola s mona-

c ai s, catedrai s e universitárias , em cujos Regula- mento s era nominalmente preceituado , uma s vezes designado como veterem logicam, outra s

p e lo nome próprio, librum Porfirii. Faltam - nos

invemário s pre c i s o s de códice s medievai s portu-

g ue s e s , ma s, do século XVI em diante , e até à reforma pombalina, abundam a s po s rilas e a s

cópia s porfirianas

( I ) . Tome- s e

como exem

10

p a radigmárico o J ugar _

õ cu a na s Summulae Lo icales, do li s bonen s e

ue o tratado de Porfírio

"

" Pedro

Hi s ano,

ue acabou a vida

fal . 12 atado , rudad a

)

A c omo Pa a oão XXI em

ue o s e undo

ob

ão

do s doze que iutegr

durante mai s de três s éculos ras escol as.-, euLOpeia s ,

con s ta apena s do Tractatus de quinque uniuersali- bus correspondens libro PrtEdicabilium Porphyrii:

A fix a ção da nomen c latura latina do s univer s ai s

_ genus, species, proprium, differentia, accedentia

( 1 ) Cf. P . Go m es,

" Ari s t o t e li s m o

e m P o rtu ga l ",

i n

Dicionário da História da Igreja em Portl/gal, v o l . I , P: 26-

- 34; Id e m , Dicionário da Filosofia Portuguesa, Li s b o a , 1 98 7 ,

P: 2 6 - 35; J o aquim P e rr e ira Gom e s : Intr o du ç ã o à Isagoge

Filosófica, d e Pedr o da Fon s e ca , ed. ci t . , P: IX - XX .

I S AGOG E

37

- foi moro s a , e deveu- s e à s e s cola s e , talvez mai s ainda, a e ssa longa plêiade de manuai s e s colare s , que formam a lógica compendiária da Medieva- lidade e da Rena s cença .

O

s tratado s

de Boécio, De Diuisionibus,

e

De Deffinitionibus

terão sido impress o s ( 1534)

nos pr e lo s de Santa Cruz

de Coimbra ( I ) , embora

o De Consolatione Pbilosophie, tão citado no s no s -

sos escritores medievais, só fo s se impre ss o mais tarde, em 1 592 .

. No s ~ neado s _ do s éculo XVI, o meio pari-

sien s e ass i s te a uma onda de anti - aris torelis rno

esco ásti Cü ."" c lanao-se

por

nece ssidade pedagógica do Colégio de Santa Bárbara, ~raduz a epístola de Porfírio - Porpbyrii Introdu c tio ad Chrisaorium; corria o ano de 1541,

Antóni . o de Gouveia 0510-156

em Ly õ r í," o n o tável

), decerto

num in s tante em que s e agudizava o movimento

de destruição do magistério aris totélico na s cadei- ras de Lógica e de Dialéctica. Em 1536 , Pierre de Ia Ramée (Pedra Ramo) , aluno do Col é gio de

FJ " avarra, apre s entara- s e como candidato a Me s tre

em Artes , com uma tese em que arguia que tudo quanto Ari s tóteles ensinara era falso. O evento despoletou uma sequência polémica, agravada

( I ) C:f.J.M. da Cruz Ponte s, in Verbo, Enciclopédia Luso- -Brasileira de Cultura, v o l . 3 , co l . 1492-1493 .

38

PORFfRIO

com a publicação, por Pedro Ramo , do planfetá- rio escrito, A ri stot dT c tf Anim a av e r s io n es (1543), erante a qual, num ambiente er lexo, António de Gouveia tomou a ei sa da doutrina de

de

Pedro Ramo, e, mais, pela demonstração de que o

referido, se estudara Aristóteles, nada conse guira entender . A réplica, obra prima de saber e de argúcia, intitula-se Pro Ari s totele Responsio , aduer-

7 us Petn Rami Calu[m]nias

Mencionamos este episódio e este livro, por causa de Porfírio. Pierre Ia Ramée, um tanto ao irracio- na l , desvalorizou Porfírio de rodo em rodo, por- que a destruição de Aristóteles exigia a destruição da cadeia aristot é lica, que passa por Porfírio. Não achou predicado mais corrupror do que esse de apelidar Porfírio de " porteiro de Aristóreles" iseruum Aristotelis) . A defesa merece ser memorada, nos termo s em que An n io de Gouveia a efecruou :

( ~

Arist ô tele s , pela refutação dos argumentos

(Paris,

1543)

( I ) Antonio ou e ani . Pro Ari s t o tl e

R espoJzs ioad u e r s u s P e t ri

Rami Calumnias. Paris , 1543 . Tr a d . p o rt o com text o l a tin o :

i m Dt ' f ts a d e Arist ô t e lrs c ontra as Ca lúni as de Pedro R a m o ,

p o r Migu e l Pinto de M e n ezes, c om Intr o du ç ão de Artur

M o reira de Sã . Li s b o a , 1966 . C f J o aquim de C arvalh o,

Ant ô nio d e Go uueia e

o Arist o t e lism o da R e na sce nç a .

C o irnbra, 1916; J . Veríssim o S e rr ã o, Ant ô nio d e Gouu e ia e o

s e u T e mpo , C o irnbra , 1966 .

"

Porque (

ISAGOGE

39

) qui s este saudar Porfírio, porreiro

(como dize s ) de Aristót e le s , falar-re-ei, de início ,

um pouco a respeito de s te porteiro , cujo tratado não aprova s , pelo facto de n e le não s e explicar a invenção completa , ma s apena s cinco vo c ábulos , conter noçõe s inúteis, muita s fals idade s, e várias coi s a s vã s e in s ensata s , e o s eu m é todo de ensino ser e s tranho e confuso.

" Quanto ao primeiro reparo, fica s abendo

que Porfírio nunca pen s ou em ensinar as regra s da invenção , não podendo a s sim , s er censurado

como perfeição; apenas quis

expôr como se deveriam entender aqueles cinco vo c ábulos. Com efeito, tendo tomado o encargo de in s truir nesta arte a Crisaório, jovem inteira - mente inexperiente, e re s olvido começ a r por ensi- nar-lhe a s Categorias de Ari s tóte les, a s quai s difi- cilmente s e podem entender s em s e perceber o

que s ej a m e s tas cinco palavra s , g é nero , e s pécie , diferença , próprio e acidente, Porfírio teve nece s -

s idade de proceder

explicação. E, embora e s tes en s in a menro s se pude ssem colher do primeiro livro do s Tópico s

de a s não ensinar

a leitura de Ari s tótele s de ss a

de

Aristóteles, a verdade é que não podiam sê-I o

na

totalidade ; a lém di s so , não era f á cil a Porfírio

alterar a ordem

dos livros de Aristótele s;

cuja s

noçõe s , aliá s , careciam,

para um discípulo

in -

40

PORFfRIO

culto, de ser explanadas

que os do seu autor" ( I ) . Excelente prefácio para a /sagoge, excelente isagoge à /sagoge, pois Gouveia continua expli-

cando a Ramo o significado das quinque voces, no pressuposro de que Ramo, afinal, tal ignorava, e concluindo por o chamar à pedra, quando, num repto de ironia lhe diz que Porfírio, sendo um latónico era, afinal, correligionário de Ramo. U ma edição das Porphy ri i In s titution es ad Chr ys aor i um , na interpretação do beneditino

Joaquim Periónio, viu a luz em Coimbra,

1548; e, no ano seguinte, Melchior Beliago edi- tava a Logica Aristo telica ab Eru.ditissimis Hominibus Conversa (1549), que inclui a /sagoge,

também, por alguns, intirulada Ant e pr e di ca m e nta ; por já ser consuetudinária a colocação do texto de Porfírio antes do livro dos Predicamentos, ou Categorias, de Aristóreles. Numas anotações de Simão Vieira, à Lógica, a /sagoge de Porfírio vem

em termos mais claros

em

como anrepredicamenros, e o comentarista,

mesmo passo que o apelida de «superstitione b e r e-

ticum», louva nele a qualidade do intérprete. Um . esuíta dos finais do século XVI, Manuel de

Almeida coloca

do

Porfírio na abertura, ou introdu-

-

( I ) Ant ô nio de Gouv e ia, Em Defrsa d e Ar is t ô t d e s , e d . por t o

c it . , p . 83 e 85 .

I

S A GOGE

41

çâo , por considerar que, sendo embora «di./ficilem et plenam labori » , dá fruto doces, «ftuctll suauem». Enfim, a determinação dos Gouveia na concepção e na dinâmica pedagógicas do Colégio das Artes, aplicando o esquema à experiência coimbrã, encontrou-se com Porfírio. No regulamento do Colégio das Artes (I 552), assinado por D. João 1I1, determinou-se que, no primeiro ano do curso

filosófico,

Porfírio" ( 1 ) . Idêntica norma foi dada em 1559 nos

Estatutos da Universidade de Coimbra, em que continuaram a ler-se os «Predicáveis de Porfírio», de novo assinalados pelos Estaturos Filipinos de

além do mais se leria

"todo

o

1591.

este mesmo ano, como que por coincidên- cia, Sdirou-se en Lisboa a /sa oge Philoso hica do P. Pedro da Fonseca, S. J., que, se em lemos, o autor desejaria que substituísse, nas escolas, pelo menos nas dos Jesuítas, a obrinha de Porfírio. No Prólogo, alude a numerosos temas supérfluos do livrinho do Fenício, desconhecedor dos muito vastos horizontes abertos à problemática filosófica. E, no mesmo prólogo, admite que os Jesuítas esperavam que, mediante obra mais adaptada ao

( I ) A . J. T e ix e ira , Do c um e nt os para a História do s [e s uita s

em Portu g al , Coi rnbra , 1 89 9 , p . 9 9; Pinhar a nda G o m es ,

Os Conimbri ce n ses ,

Li s b o a , 1992 , ca p o III , r e l a tiv o aos

" Regime nt os de Es tudo s" d o Co l é gio da s Art es .

t

42

PORFfRIO

uso geral das ciências, Porfírio " fosse banido das

escolas de filosofia cristã " -

" ta a Christiane

Pbilosophie scholis

liber exploderetur" 111. Com

essa motivação, e com o seu vínculo de originali- dade autoral, Pedro da Fonseca, com ôs uma

~ ntroduçãO

é um livro diferente, com alguma reestrutura do

às Categorias. A Isagoge Filosófica

e xto p orfiriano,

mas co

QUlLO desenvolvi :

m . ~!lto> OUtrO aparato, e outra intencional idade.

O tratadinho de Fonseca divide-se em três partes, ordenadas em onze capítulos. Na primeira parte aduz seis capítulos especiais para matérias franca- mente omissas em Porfírio: definição do conceito de universal, quantos géneros há de universais, dos particulares, da abstracção dos universais a partir dos singulares e da tríplice consideração dos universais e dos particulares em relação à Dia-

léctica. Todo este contexto problemático é novo , de redacção original e, aliá s , necessária e útil . Segue-se um grupo de capítulos em que, Fonseca,

Isagogo, define e

regendo-se mais de perto pelo

expõe a doutrina porfiriana do género, da espécie,

da diferença, do próprio e do acidente. Só por estes cinco capítulos dizemos que Fonseca pro-

cede a uma reescrita do texto de Porfírio,

cuja

1 0 P . da Fon s e c a , lsagoge Filosófica. Edição de Joaquim Ferreira Gomes, Coimbra , 1965 , P : 9 .

ISAGOGE

43

segunda parte, sobre as relações entre os cinco conceitos, abandona, por lhe parecer matéria excessiva e supérflua, tanto mais que intercalará

essas edições no contexto capitular de cada nome universal . Por fim, no capítulo XlI, trata de algu- mas outras espécies de universais, que os filósofos pagãos não conheceram, aí in s tituindo de que modo os universais se predicam da natureza de Jesus Cristo, Deus humanado, defendendo que

no caso da incarnação

imediata entre essência e acidente . Pedro da Fonseca recorre direcrarnente mai s a Aristóteles do que a Porf í rio, embora a remissão

para este seja também frequente no tratado

Instituições Dialécticas ( I ) . O projecto de substitui-

divina não há oposição

ção

de Porfírio

não se realizou

na íntegra .

A Isa o e de Fonseca foi reeditada umas dezoito vezes entre 1591 e 1623, mereceu a leitura de ~árias escolas, principalmente jesuítas e outras, o apreço dos filósofos de Além-Pirenéus mas, em Coimbra, no âmbito do Colégio das Artes egido pela Companhia de Jesus, quando finalmente se decidiu levar a efeito o compêndio de Lógica do

Curso Conimbricense, Fonseca seria preterido em favor de Porfírio. A confecção do compêndio de

>'

1 1 1 P . da Fonseca , Instituiç õ es Dialécticas, texto latino e tra-

dução port. de J . Ferreira Gomes , Coirnbra, 1964.

44

PORFfRIO

Lógica sofreu demoras e demoras, houve quezílias e desacordos, até que, um dia, a tarefa da confec- ção do volume foi atribuída, e com evidente

acerto, ao P. Sebastião

-1639 , que assim se notabilizou como redactor do

-- último dos Co mentarii Colle ii Conimbricensú,

que na prática

do Couto

S. J. (1567-

deveria

ter sido o primeiro:

/n Universam Dialecticam 1

( I ) . O volumoso

in-folio abre com a explicação textual da Isagoge de Porfírio, embora com alguns cortes, intercalado ou emoldurado pelo comentário do Colégio, ocu- pando as primeiras 170 páginas do volume, desti- nado a amplo sucesso na Europa, onde teve diver- sas reedições na Alemanha e na França ( 2 ).

a

Como

é sabido, a decisão de se publicar

nossa /n Universam Dialectam deve-se muito ao

estranho aparecimento,

simultânea em Veneza, Colónia Hamburgo

em 1604, numa edição

e

Francoforre, de uma /n Aristotelis Logicam, como

( 1 1 C o mmmtt1rii Collegii Conimbricrnsi, S . l 111 Uniuersam

Dialecticam. Coimbra , 1606 . Conforme à praxe dos Conimbricenses , o nome do redactor , P . Sebastião do Couro , é omisso , para que a obra assuma uma autoria cole- gial .

~ ( lI Acerca de Porfírio e Conimbricenses , cf: A . de Pinho Dias , "A Isagoge de Porfírio e a Lógica Conimbricense", in

Revista Portuguesa de Filosofia ,

p . 108-130; Joaquim F . Gomes,

Isagoge de Porfírio", in Brotéria,

vol . XX, Braga, 1964,

"Pedro da Fonseca e a vol . 81, Lisboa, 1965 ,

ISAGOGE

45

sendo da autoria do Colégio Conimbricense,

embora

«Lógica Furtiva», para a distinguir da Lógica ortó-

nima do Colégio das Artes . O plano desta Lógica

Furtiva tem muitas semelhanças

as

o não fosse. A esta edição se chamou

com

Annotationes in uniuersam Aristotelis Dialecticam ( I ) ,

atribuídas ao ex-'esuita Gaspar Coelho, em oito

capítulos, o segundo dos quais é ocupado com o

texto da /sagoge Porphyrii e respectivos comentários

do autor, que talvez houvesse sido outro que não o mesmo Gaspar Coelho.

mais altos e mais baixos, a

excursão pelo tema Porfírio na cultura filosófica portuguesa poderia alongar-se, pelo menos até à erradicação do magistério de Aristóteles do curso

filosófico. No tempo, e por graça da nebulosa ousadia do Senhor Marquês de Pombal. Porfírio

é, na condição portuguesa, um cooperador e um

Com momentos

P : 180-186 ; Amândio A . Coxiro , O Probl e ma dos Universais 110 Curso Couimbricense. L o urenço Marques . 1966 .

Para uma visão de síntese , ri Pinharanda

Gomes ,

Os COllimbri r mses , Lisboa, 1992 .

46

PORFfRIO

preceptor da nossa aventura de fidelidade ao rigor de Aristóreles, Príncipe Perfeito.

edição tem por base o texto de

- numa edição existente na Biblioteca Nacional de Lisboa, sem local e sem data, confrontada com uma outra, Porpbyrii lsagoge, de João Valentino, em Paris, 1588. Para contraste referencial, e para estruturaçâo do texto segundo A . Busse, seguimos a edição, a todos os tírulos didáctica, de] . Tricot,

Paris, 1947. No relativo aos a3Jectos nornencla-

Gilles de Gourmont

A presente

Porpbyrion Isagoge -

rurais, seguimos

N o só tca, e nas . Instituições Dialécticas, obra - ; - a

que tarn bérn recorremos para o esclarecimento de várias passagens, sem excluir os escritos de Aristóteles. Para melhor compreensão, italicizá- mos palavras e expressões que Porfírio indica como exemplos, por forma a facultar melhor per- cepção das regras e, em notas explicamos os casos menos óbvios.

Pedro da Fonseca,

na Isagoge

PINHARANDA GOMES.

r

ISAGOGE

DE PORFfRIO, ° FENfcIO, DISCfPULO DE PLOTINO DE LICOPOLIS

C 01110 é necessário, ó Crisa~rio ( 1 1 , pa~a ~onhe- [1) cer a razão das Categorias de Atistóreles,

o que é a diferença, o que

é a espécie, o que é o próprio, e o que é o aci- dente (2 ), e como este saber é também necessário

saber o que é o género,

50

PORFfRIO

para formular as definições ( I ) , e, de um modo

geral , para tudo quanto abrange a divi s ão (2) e a

demon s tração

(3) , cuja teoria (4 ) é devera s útil , far -

re- ei uma breve exposição (5), e tentarei em pouca s

palavra s, como que numa e s pécie de introdução ,

percorrer o que s obre i s to dis s eram

filó s ofo s, ab s tendo - me de indagações dem asiado profundas, e não abordando , s enão c om parcirnó- nia , me s mo a s mai s s imples. Ante s de mais, no que s e refere a o s g é nero s e às e s p éc ie s , a que s t ã o

o s antigo s

O ) D e fini ção (ÔPIOll ó ç. ÓpLO'tlXOÇMyo ç ) é um a o r ação que

sig nif ica o que o s uj ei t o da d e fin ição é ( A r i s t ó t e l es,

1 , 5, 1 02a) ; é a o r ação qu e d e c lar a a n a tu reza d e um a essê n c i a

( P e d r o d a Fo n seca, In st i t u ições Dial/ c ti c as, V , 1 ) . Ari s t ó t e l es

des e n vo l ve

emA l1 a l íticos P os t t.nom . II . 1

p a r a n ão se r , n em e n ganosa,

U

T ópicos ,

a t eo ri a d a d e fini ção

e respe c tiv os

m eca ni s m os

O , e no liv r o VI d os Tópi c o s.

n e m f a laciosa ,

m a d e f i n ição,

d

e v e c ont e r , n o mínim o , o g é n e r o e a d ife rença d o s uj ei t o .

I ' ) I s to é, a div isão do g é n e r o m e diant e

as difer e n ças

que

o

ri g inam as es p éc i es .

! . I ) D e m o n s tra ção ,

d r r óÔEL ! ;LÇt e,m p o r o b jec t o um a co n c lu -

são n ecessá ria , util iza nd o

os t e rm os pr ó pr ios d a es p éc i e

m

e di a nt e

as dif e r e n ç a s, e vit a nd o o r ec ur so aos ac id e nt es,

o u

co

nting e nt es , qu e n ã o co ntribu e m para o c onh ec im e n to

d o

qu

e,

p o r essê n c ia ,

p e rt e n ce

ao s u j eito .

C f Ari s t ó t e l es ,

A

n a l l t ic o s P os t e ri ores , t o d o o Livr o I , 7 1 a -8 9b . ( 4 ) 6rw p ía o u yv WO L Çt,eo r i a o u g n ose , n a a ce p ção

d e

es tudo , e n ão pr o pri a m e nr e d e

b c a tífi c a . 151 M e lh o r dito , uma tr a n s mis s ã o,

ç ã o.

co nt e mpla ção,

o u d e vi são

I l o p c ô o o i . ç , uma ini c ia-

I S AG O G E

5 1

de saber se elas s ão

a P e na s simples concepções do intelecto, e, adrni-

tin o que sejam realidade s

corpórea s ou incorpóreas se , enfim, são separadas

ou se apenas subsistem

estes , é assumo de que evitarei falar: é um pro- blema muito complexo, que requer uma indaga- ÇãO e m tudo diferente e mais extensa ( I ) . Procura-

r e i mostrar-te

realidade em si mesma s, ou

substanciai s ,

s e s ão

nos sensíveis e segundo

aqui o que os antigos e, entre eles,

52

POR F fRI O

sobretudo o s Peripat é rico s , conceberam de mai s

acomodado

tema s ( 1 ) e acerca do s outro s que me propu s e s tu- dar .

à lógica

( I ) acerca

deste s último s

Ao

DO G t N E R O

que parece, nem o género nem a e s p é cie

s

ão termo s s imple s

( 3) ,

O

énero

redic a - s e

( 4 ) ,

c

o m efe it o, e m primeiro

lu ga r , de um a c ole cçã o

" di ' gi ' ll erib l/ S r t s p ecie bu s-si t ) i ' sub s i s t a n t s i ue in so /i s Iludis

in tr ll ec t i bu s p osi t a s im , s i u e s ub s i s t e ut ia , c orp o ral ia 1111 in co r-

p ora /ia ,

posita et c irca b arc cons t s t e nt ia

rt utr u m se p a rat a a se n s ibilibu s an in sr n s ib i l ib u s

" (Scho l . in Arist . , I a 8) .

( 1 1 O t e rm o ÀOY I . I ;:« ( n : q : lOvfoi tr a di ciona lm e nt e

co m o

Ô ! . aÀH. ' tIK ÓÇ. (21 Os gé n e r os e a s e s p éc i es .

m ag i s a d l og i c am acco mo dat r, se nd o

e nt e ndid o si n ó n i m o

d e

(31 E m a cep ção si mpl es, se m d is tin ção, Ú JtÀ WçÀ t Y E O(lm .

(

. ) T o rn o u -se

co mum o e mpr e g o

d o v e rb o a t ribu t ar e d o

s ub s t a nt ivo atr i but o co m o e quiv a l e nt es

es t a s in o n í mi a ,

muit o d e v i da aos a utor es fran ceses . Tamb é m d e m o d o

pl e s e x ar a m os qu e at r ibuto é o qu e se di z d o se r e nqu a nt o

se r , e xprim i nd o - se

e

pr e di c ad o ,

ex pr i m e d e pr e f e r ê n ci a é r ac i o n a l ) .

d o s ub s t a nt i v o p rrd i ca do . N ão part i lh a m os

do v e rb o pred i ca r e

d

si m -

(p o r o se

d e preferê n ci a

p o r um sub s tantiv o

xempl o:

D e us é B o ndad e,

co n v ind o

B e l e za, V e rdad e ) , e nqu a nt o

e a os ind iví d uos,

a os un ive r s ai s

p o r um a d jec t i v o (p o r ex .: o h o m e m

I

SAGOGE

53

de indivíduo s ( I ) que se comportam

de um deter-

mina o modo em re aç ã o a um só s er e em rela-

ção un s a o s ourro J . É por cau s a de s ta s i g nificação

que f a l a mo s da r aça do s H e rá c lid as,

o modo do s eu c omport a mento

uma úni c a cepa , i s to é , de Hércule s,

que a ssim no s referimo s a todo s o s qu e entre ele s

têm um ce rto p a rente sco em r e l aç ão ao comum ance s tr a l , e o n o me qu e se Ihe s d á s epar a - os tota l - mente d e tod as a s outr as r a ça s, G é nero a ss ume- s e

aind a e m o ut ra ac e psão: é o prin c í

ção d e Z a d a um a d as coi sas, / / s eja do ger a dor em [2)

um a vez que

é o de s aírem de

e uma vez

io ( 2) da ger a -

s i me s m o, s ei a do lugar

ger ad a, P o r i sso diz e m os

riã " çã o d e T â nt a l o, e H i l o n a de H érc ul es; dizemo s

a

Pínd a ro é d a r aça do s T e b a no s, e Plarão

da ra ça do s At e ni e n s e s, um a ve z que a p á tri a (3) é

e m que uma coisa foi que Or es t es se ger a n a

ind a qu e

também , em s i m esm a, uma e s p é cie de prin c ípio

(o) " Si n g u lar

o u i nd iví d uo

é a qu i l o

q u e , se nd o

a l go de p o d e

un o , n ão ~p o de esta r e m

pr e d ica r -se

i

ma pt e n a tur a pr ae d icar i

l

vár i os , n em d e sua n a tur eza

de v ár i os " -

"Singu l are a u trm i nd iui d uum es t

d , qu o d uu um

al i qu id c um s it , in pl u ribus esse , ri de pl u r ib us

11 0 / 1 p o t es t " ( P e dr o

d a Fo n seca,

d e fi -

s ago g e Pbil os ophi c a , ca p o 11I) . 2 ) O t e rm o do t ex t o é CxPXlÍ, arqu é , p o r Ari s t ó t e l es

(

nid o co m o se gu e : " Prin c í pi o

d e um a co i s a ", ( M e t a f ts i c a , Livr o s , I , I O l2b 34) .

di z-se d o in í c i o d o m o vim e nt o

01 P á tri a, o u m ãe- p á tria ,

M á tr ia.

54

PORFfRIO

de

geração das coi s a s , à semelhança

do próprio

pai. É e s ta, ao que parece , a acepção mai s popular :

denominam-s e Her ác lid as o s descendente s da raça

de

Ce c rope s, e bem a ss im o s s eu s próximo s . Denorni -

~

çã o de

io , d e e ao

s epararmo - lo do s outro s , a firmamo s que todo e s te

era -

de

Hércule s, e Cecrópida s o s de s cendentes

género

antes de mai s, o

rin c ípio da

no s

cada uma da s c oi s a s, e, a se uir , a multidão

eram

rum

rin c í

de ç oi s a s $ lue s e

Hércule s , por exemplo ; ao delimitarmo - lo

grupo con s titui a raç a do s Herác lid as .

uma

o u a l s e ordena a e s écie, tendo - lhe

s ido atribuíâo

cas o s preced e nt es: em tal ace ç ã o o é nero é uma

H á ainda

ara é nero , é o univ e r sa l s ob

ace

ão

e s te nome

p e la re s pe c t i v a se m e lh a n ça c om o s

e

s pé c ie de prin c ípio p a r a t o d as as e s p éc i es

u e lh e

s

ão s u or 1I1a as

o

lSS

ue

arece c ont e r tod a

a multitude s ob ele ordenada ( I).

O género apre s ent a - s e, poi s, em tr ês a cepç õ e s,

s endo que a terceir a ( 1) é a e M U! a a e lo s filó s ofo s :

é a ela que ele s definiram e de s crever a m ao defini -

rem o g é nero , afirm a ndo que e le é um c a te g orem a

( I ) G é n e r o

"é o qu e se pr e d ic a p or essê n cia d e m ú lt i pl os

s u jei t os qu e dif e r e m e m espécie" ( Ar is r ó t c l es ,

Tó p icos , 1,5,

10 2a ) .

(2) P e dr o d a F o n sec a , qu e ampl io u

o l e qu e d as a ce p ç ões,

e l e vou a t e r eei r a a qu a rta e di z : "Q /lar ta pre ci puaq ue sig llifi -

c at i o , pbilosophisque maxim e f o mil i aris est , qu a ge m ts id di c i -

tur , c ui s ub iiciu u t u r species' -

"O quart o e p r in ci p a l

s i g ni -

I

S A GOGE

55

e ssen c i a l ( I) predi cá vel a uma plur a lid a de de s ujeito s

que têm diferença s e s pe c íficas , como o animal por exemplo . Devera s , entre os cate or e mas, un s s ó se predi c am de um úni c o ser , como o s indivíduo s ( 1) ,

P o r exemplo Sôcrates,

d e vário s s ere s, s endo o ca s o

do s g é nero s, da s e s p éc i es, da s diferenç as, do s pró-

outro S r edicam- s e

este homem, esta coisa; ~

prio s e do s ac ident es, qu e po ss u e m ca r ac tere s

comun s e n ã o p a rti c ul a r es a um indivíduo . Animal

por e xe mplo , ( g é n s o ;

homem é e

éc ie; a ~

ren ça é racional;

o pr ó prio ,

a faculdade do riso;

fi cado,

qu a l o es écies"

esse / Ill1zlersa l em q uiddam, quod nr c e s sario , et srcuud u m essen-

tia m pr ae di c a t u r d e d iff e rm tibw

q

coisas dife r e n tes em es p é c i e

- quiddam sub q / lo spe c ies col l ocatut" (Fonseca , In stituições

D i a l é c ticas , 11, ca p o 3).

ve r sa l sob o q u a l se co l oca

e se . g~ndo a esse l ~cla , s e p~ , e d, ca d . e

e o q u e é m ais fa m i l iar aos fil ósofos, é aq. u e l e p e l o

é n ero o n seca ,

di z a uil o a

u e es t ão s ub o r d ll1 adas

l sagogr , cap o V II ) , E m sín t ese :

as e u us

spt' c ie ~ -:

I) un ~ve r sa l

(Fo n seca , a espéc i e"

zb.). Ou:

é o uru -

" es t un iuersa l e

u e , n ecessariame n te

( I ) KaTljyOpOúILEVOVd eve t rad u zir-se por p r edi c ame n to , t al co m o os aná l ogos s ub s t a nti vos K anjyÓp1 l f . Ule K an w opLa .

A p r edicame n t a çã? é a ~ r m a t i v a . o u n ega ti v a , co n soa ~t : o

pr edica d o é · p r? prr o

o~ I m ~ r ó~r r o d o ~ u Je l to da ?~fil 1l çao.

A ex pr essão Ev.oo · d eou S I g nIfi ca qmd est, a qu,d,~ a d e,

a

essê n cia (obo , o . ) , d e o n de o t e rm o ca t ego r e ma

p

o

s uj e it os,

re di cado esse n ci a l. (2) O u í nfim os

.ã < X' O f . Ulterm,

esse n c i a l , o u

. an á l ogo

d e

í nfim a es p écie , <x.of . UlEi:ôl ] .

7

56

PORFfRIO

o aciden e branco ne ro, oder sentar-se. Por conse-

guinte, os géneros diferem, por um lado, dos predi- cados de um único indivíduo enquanto se predi- cam de uma pluralidade; e por outro lado diferem

dos predicados de uma

espécies, enquanto as espécies, sendo predicadas de

vários indivíduos,

sejam diferentes entre eles segundo a espécie, mas apenas segundo o número. É por esta razão que homem, que é u~a espécie, se predica de Sácrates e de Platão, que são diferentes um do outro, não

segundo a espécie, enquanto animal

plural idade, a saber das

só o são a indivíduos que não

mas segundo

o número,

que é um género, se predica de

[3] homem, de boi e de cavalo, / / os q uais são entre eles diferentes segundo a esPé C ie, e não somente segundo o número . O género é diferente do pró-

prio, por sua vez, porque ~ próprio

uma só espécie, da qual ele é próprio, e dos indiví-

duos situados sob esta espécie, por exemplo: a

se predica de

faculdade do riso é só próprio dos homens em par-

ticular; pelo contrário, o género não se prs: dica

uma só es écie, mas a uma luralidacL de termos

diferentes segundo a espécie. Enfim, o género difere da di erença e dos acidentes comuns em que,

ainda que as diferenças e os acidentes

sejam predicáveis a múltiplos termos e diferentes pela espécie, eles não são predicáveis de modo

de

comuns

ISAGOGE

57

essencial . Se nos interrogarmos a ue termo se re- dicam a diferença e o acidente, respondemos que

êlêS Er~icam

mas de modo qualitativo: se perguntarmos, por exemplo, qual é homem! respondemos que ele é racional , .qual é o corvo, dizemos que ele é pretõ ; i1 ' O

e S s ; t~lO ! não

de modo essencial,

primeiro caso, racional é uma diferença, e, no

\

segundo caso, preto é um acidente . No entanto, se nos perguntarem o que é ( I ) o homem, responde-

mos que é um anIlnal, an imal

antes dissemos, o género de homem. Con c lusão :

ser redicável de uma

que distin ue o género dos predicados in ividuais l

predicáveis

termos i erentes na espécie eis o que o distingue dos termos predicáveis como espécies ou como próprios; enfim, o constituir um redicado essen-

cial eis o

dentes comuns redicáveis dos sujeitos dos quais são res ectivamente os redica os, nao segundo a essência, mas segundo a qualidade ou segundo

ue o distin : rue das diferenças e dos aci-

sendo aqui, tal como

luralidade de termos, eis o \

e um so 111 iví uo; ser predicável de

( I ) Género

é também

"aquilo

que se predica

de vários,

diferentes em espécie , na pergunta

o que é?" -

"quod de

pluribus species differentibus in quaestione quid esr praedi-

catur"

iferença .

(Pedro da Fonseca ,

Isagoge, cap o VII) ; A ~estão

mas a

ua

/ta/e {'St envolve , não o género,

edro a onseca , I/lSlÍtuiçoes Dialêcticas,

Na terminologia

lI , . cap . 3) .

aristorél

ica , q ui d (·d. EOU) e quale

(nolOV).

58

P O RFfRIO

r

ourra r e lação qu a lquer . A noção de género (I ) , t a l

como acabámos de a definir não peca, neste ca s o, nem por excesso, nem por defeito.

I

S AG O G E

59

de énero, mencionámos a e sl:~ -

cie, afirmando s er ela o predicado que s e predica de

-modo essenci a l a uma plural idade de termos dife- rentes em espécie, enquanto agora afirmamos que a

E s e, I ~ nição

Da Espécie

e

s pécie é o que s e subordina

ao género, convém

s

aber que o género , sendo o género de alguma

E s écie ( 2 ) diz- s e da forma de cada coisa, no

( 4 )

f '}f

sentido do provérbio:

" Primeiro uma beleza digna da re a leza " (3) .

Também denominamo s por e s pé c ie o que s e

coi s a , e, a e s pécie , e s pécie de alguma cois a , o s ~

termo s são relativo s um

, ' J ç ão de um, devemos s ervir-no s da definição do

a defi-

outro

elo que,

outro. A es é c ie também s e define de s te modo: a

s

ubordina a um dado género, na a c epç ã o em que

e

s pécie é o que se ordena sob o género e iss o de que

temo s o costume de dizer que ho j nem é uma espé-

o

én

or essên c ia ( I ) . Ainda podemos

~ de animal , s endo animal o género, branco uma

ulo U1 !!L e s p é á da figura .

e s pé c ie da cor , e o ~

( 1 1 Gra u s d o géne r o : s upr e m o,

s

u ba lt erno o u i nt e rm é di o,

pr óxi m o e í nfim o . Ta m bé m a es p éc i e se a pr ese nt a seg und o

es t es g r a u s. A d e fini ção d eve co nt e r o d ef i ni d o e nad a m a i s

d o qu e o d e finid o .

a ri s t o t é-

li co, a es p éci e é a f o rm a i r n a n e nt e

tran sce nd e nt e, co m o e m at ão . A m ais l o ng a exp os i ç ã o

ari s t o t é li c a so bre a E~c i e,

Livr

A eo lu s,

a

se

Eíôo ç , e nquant o

(2 1 Es p éci e, dÔ<>ç plur a l Et&IlNJ

N

o v oca bulári o

a o se n s ív e l , e n ão ~ a f o r ~a

o u Idei a , a c ha -se na M e t t /( i s ic4, -

15, 2 . P e dr o da F o n sec a

e -

V e r s o d e E ur í p e d es,

d a pt o u

r di g n a de mand a r "

o v e r so d es t a f o rm a : "a f o rm os ura

( P . da Fo n sec a ,

é a prim e ir a

a

lsa goge, ca p o VII ). bel ez a , f o rm os ura .

es p éc i e, s ignifi ca

-

dizer: espécie é o predicado

e ssência de uma pluralidade de termo s diferente s

entre ele s s egundo

última definiç ã o s ó se diri a da ínfima qu e é apen as esp éc ie ; a s outr as, pelo

que se predica por

e s ta

a e s pécie. No entanto ,

(2 ) e s p éc ie,

c ontrá rio,

( ' 1 " S p ecies est , q u al' ge /l eri i n qu aes ti o n e quid es t s ubii ci tu r , rt d e qu a ge lllt S in qu as t io n e qui es t , praedicatur" - "Es éc i e

é a quilo que s e s ub o rdina

(F o n se ca ,

Dialé c ti c a s, u, c ap o 3) .

(21 O t e rm o es p ec i a l í ss ima ,

são i/ l flma es p é c ie, h e rdada d a E sco l ás ti ca . " E s p éc i e í nfim as são aqu e la s qu e, se nd o e s p éc i es d os s up e rior es, n ão são

a o g é n e r o n a p e rgunt a

C f . F o n sec a ,

se traduz

o qu e é". ln s tit uições

p o r e s p éc i e

I sa go ge, ca p o VIII .

à:t0I1<X dÔ1l tamb é m

ma s, na tradi ção oc id e nt a l fix o u -se a ex pr es -

O

adj ec tiv o

es p ec i oso/a) t e m essa a ce pç ão, e mb ora h aja

g

é n e r os d os sup e ri o r es

e ab a ix o da s qu a i s n ão

h á o utra s

qu

e m ut i li ze o ad jec tiv o co m o v a l o r d e ex qu is it o/a) , Um a

es p éc i es" -

" Tnfim a ue ro s unt , qu al'

c u m s int s p ec i es sup er io-

fl o r es p eci os a dir-se-ã d e um a fl o r b e la e, p o rv e lltur a,

r a r o

rum , non s unt illf t riorum ge ll er a : et illf ra qua s /lOIZs unt ali«

60

I'ORFfRIO

também são predicáveis das espécies subalternas. Quanto dizemos poderia exprimir-se com clareza da seguinte forma: em cada categoria, há certos termos que são os éneros mais gerais, outros que são as espécies mais especiais, outros ainda que

são intermédios

espécies ínfimas. É mais geral , o termo acima do

entre os géneros mais gerais e as

ISAGOGE

61

género; homem é ínfima ( I ) espécie, sendo somente

espécie; o cor o é espécie de substância e género

de corpo animado; quanto a corpo espécie de corpo e género de animal;

por sua vez,

animal é espécie de corpo animado e género de animal racional; animal racional é espécie de ani-

animado,

é

mal e género de homem:, l!Q!.nem é espécie

de ani-

qual não pudesse haver outro género superior; é

mal

racional

ras já . não é género de h~lS

em

mais especial o termo acima do qual não pudesse

-

arti~lar,

sendo a enas es écie' e tudo o

ue,

haver outra espécie subordinada; são intermediá-

colocado

antes d

' imediata-

 

rios entre o mais geral e o mais especial outros

mente

redicável só ode ser es écie / / não sendo

[5]

termos que são ao mesmo tempo géneros e espé-

----

ao mesmo

tem o

énero. O mesmo

uanto

à

cies, entendidos, é verdade, relativamente a ter-

substância,

que, sendo o termo

su erior,

não

mos diferentes . Procuremos esclarecer quanto

havendo

outro género antes dela, era o zénero

dizemos tomando apenas uma categoria. A subs-

tância é em si mesmo um

acha-se o cor O; abaixo do cor o, o cor o animad ,

abaixo do

anima l , o animal racional: abaixo do animal racio- nal, o homem:, abaixo do homem, enfim, Sócrates e 'latão, e os homens particulares ( I ) . De to os estes

termos, substância é o mais eral, e ele é somente

énero; abaixo dela

o animal; abaixo do

-

rpo animado,

(11 Foi a partir deste painel que Boécio desenhou a famosa

Escala

Predicamental , que tanto se lê por ascendente , como por descendente:

«árvore de Porfí rio», ou Scala predicamentalis ,

Géneros Espécies e sub o rdinados

I

Substância (géllero mpremo)

Corpo

Corpo animado

Animal

Animal racional

Homem (espécie infima)

S ó crates (indivíduo)

( I ) "Homo , qui ita est species animalis, IIt 1l01l si! gellus sin-

a se inui-

guIo rum bominum :

neque mim bomines diffonmt

"Homem, de tal modo é

espécie de animal que não é género de cada um dos homens; com efeito, os homens não diferem entre si espe- cificamente, mas apenas em número" (Fonseca, ISdgoge ,

cap o VIII).

cem specir, sed solo numero" -

62

PORFIRIO

ISAGOGE

63

~upremo

(1 ) , e o mesmo quanto a homem,

que é

vez, o termo ínfimo só tem uma face: não tem

uma es écie a ós a

ual não I ' outra es écie,

relação a não ser com os termos que lhe são ante-

nem

ual uer termo ca az de ser divisível em

(porque dize-

riores, dos quais ele é espécie, enquanto mantém

es écies mas a enas de indivíduos

com os termos posteriores uma relação que é

mos indivíduo de Sácrates, de Platão, desta coisa

sempre a mesma, e que também se denomina

branca) , homem

não poderia

ser mais do que

espécie dos indivíduos .

Mas diz-se espécie dos

espécie, espécie ínfima, espécie especialíssima. Quanto aos intermédios, para os termos anterio-

res a eles, só podem ser espécies e, quanto aos ter- mos posteriores a eles, géneros. Por conseguinte

estes termos têm dois comportamentos

voltado para os que os precedem, os quais são as suas espécies, outro voltado para os que se lhe

seguem, e os quais são os seus géneros. Quanto ao s extremos só têm uma face: o termo mais geral não tem relação a não ser com os termos que lhe são subordinados, uma vez ele ser o género supe- rior a todos eles; ele não pode mais ter relação

com os termos anteriores,

superior,

sendo, como dissemos, o género acima do qual não poderia haver outro género superior . Por sua

(2) ,

um

uma vez ser o termo

tendo a função de primeiro princípio

( 1 ) Género supremo, ou género dos géneros. "Summum

gt:1l1tS est, quod supra se gt:111tSalil/d 110ll habel ' - "O género

supremo é o que acima de si não tem outro género" (Pedro da Fonseca, lsagoge, cap, VII) . ( 2 ) OXÉOl C ;, ou faces, ou modo de ser, ou modo de fun-

cionar .

indivíduos enquanto ela os contém, e, por outro

lado, em sentido contrário, espécie dos termos anteriores, enquanto é contida por eles.

Definimos

énero supremo

do se uinte

modo: o que, sendo género, não é espécie, e

J

outro género superior . E ínfima

sendo es écie, não é énero e ue, sendo espé c l e,

não é por sua vez divisível em espécies, e também:

o que se predica or essência de uma pluralidade de termos numericamente diferentes Quanto aos intermédios entre os extremos, denominamo-los género s e espécies subordinados, e cada um deles

propõe-se

todavia em relação a termos diferentes . É por isso

que os termos anteriores às espécies últimas,

remontando

-inda -

o que, acima do qual

não pode haver espécie é o que,

à vez como género e como espécie,

até 11 ao género mais geral, se cha- [6]

marn ou géneros ou espécies subordinados:

Agamémnon é Àtrida, Pelôpida, Tantalida e, por

fim, relativo a [úpiter. Nas genealogias, é a um

único princípio,

por exemplo

a [úpiter, que se

64

r

às e s pécie s já não é a ss im, porque o s er não ~ é U~1

s ere s , ~ ~odo s nao s ao

homog é neo s r e lativ a mente a um UI1lCOter~10 qu e

de

Ari s tót e le s .

P O R F fRI O

e laciona a s mai s d as vezes. Quanto aos género s e

género comum a todo s o s

s e r ia o g eral mai s alto , e tal é a .d . ourn na

Conv é m

todavia admmr ,

em obe -

ê n c i a à liç ã o da s Categorias, que a s dez primei -

di

ras cat e goria s s ão corno que dez rimeiro s

pio s; e, a dmitindo

ri ~ cí- pre :c~r

que s e pude ssem

I

S A GOGE

Q

detivéssemo s ne s ta s e s pécie s, procurando de s cer

d e la s atravé s de termo s intermédios, que s ão divi-

s ívei s em conformidade

e s p~ c iai s; quanto à infini~ ude

en

haver ara eles uma ciência

cemo s

nece ssariamente

quando , pelo contrário , a s cendemo s ao s género s

com a s s ua s diferença s

dos indivíduo s,

\ ~

s 1l1a que o s

evemo s

elxar de lado , por não ~

o s sível . Quando des- a divis ão procede

à s e s pécie s última s,

no s entido de multiplicidade;

~os

do s s ere s, p e lo meno s é por homonuTIl a

 

mai s gerai s, reduzimo s nece ssariamente a rnulti-

que

ass im

s e denomin a rão ,

no dizer

de

plicidade à unidade: com efeito , a e s pécie, e aind

(

Ari s tót e le s, e n ã o por s inonímia ( I ) . Se de fact~ ?

ser fosse o úni c o g énero , c omum a todo s o s. s UJe~ - to S todo s e s te s s e denominari a m s ere s por S 1l10111-

mia, M as como d eve ra s h á d e z é nero s

es t a comunid a d e d e d e nomina ç ão é puramente

verb a l , e n ão s e a plic a à definição

rimeiro s,

e x pre ssa por

e

s

s ta denominaç ã o .

ão em número de

Port a