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com adaptações em relação à época.de Guilherme II, uma reforma de envergadura é empreendida: todos os grandes serviços são unificados, O pai dessa reforma é Matthias Erzberger, quando de sua passagem pelo Ministério das Fi- nanças em 1919-1920. Para muitos alemães, o Estado não

é mais representado por sua pequena pátria. O Estado é

Berlim. Os correios, o exército, as estradas de ferro, tudo é centralizado em Berlim. Não importa onde se viva, na Saxô- nia, na Baviera ou na Prússia, os funcionários pertencem não a uma ou a outra dessas províncias, mas ao Estado ale- mão. O recolhimento dos impostos passa por Berlim. De lá,

a seguir, eles são distribuídos de acordo com as necessidades das diferentes regiões.

A tomada de consciência de que a Alemanha forma agora um corpo, e que esse corpo tem uma cabeça, é facili- tada também pelo desenvolvimento da rede aérea. A partir dê 1927, a 4 quilómetros do centro, Berlim possui no antigo campo de manobras de Tempelhof um aeroporto moderno que garante as ligações com Budapeste, Constantinopla, Mos- cou, Londres, Paris. No próprio interior do país, voos diários ligam-na a Frankfurt, Hamburgo, Breslau, Munique. Graças ao avião, seus grandes jornais são distribuídos todas as ma- nhãs em todo o território nacional.

artificial,

a sede do governo central. É ela que efetivamente detém

Berlim não é apenas, de modo inteiramente

os poderes.

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CAPÍTULO

IV

CAOS, REERGUIMENTO E RETORNO DA CRISE

"Estamos no dia 3 de novembro de 1923. O maço de

cigarros custa 4 bilhões de marcos. A maioria das pessoas

." Esse comentário de apre-

sentação abre O ovo da serpente, realizado pelo cineasta sueco Ingmar Bergman, e o título desse filme indica clara-

.Os

espectadores mergulham numa Alemanha onde, sobre o humo da miséria, todas as coisas não passam de objeto de tráfico, inclusive as vidas humanas. Esse período do pós-guerra pareceu a Ingmar Bergman o ponto de partida do nazismo. Suas imagens mostram o crescimento do anti-semitismo, as manifestações de violência dos grupos nazistas, o terror sem- pre latente, a impotência e o desespero da população. O objetivo de Ingmar Bergman, seguramente, não foi proceder a uma reconstituição histórica fiel dos primeiros anos da República de Weimar, Ele tinha necessidade, antes de tudo, de um fundo de desordem moral que pudesse jus- tificar a situação de confusão, de solidão e de angústia sobre a qual se projetavam suas personagens. Como em todos os seus filmes, está preocupado com a presença do mal num mundo que, segundo ele, se conformou ao esquecimento de Deus. O homem não pode deixar de ser presa do medo e da morte. Assim, o herói de O ovo da serpente, o acrobata judeu Abel Rosenberg, se encontra natural e tragicamente aprisionado pelos laços das forças maléficas.

mente que significado seu autor desejou lhe

perdeu toda a fé no

emprestar.

Essa visão fatalista é mais ou menos comandada pela evolução ulterior da Alemanha, como se a crise dos anos 30 se houvesse superposto à evocação dos anos 20. Ora, o Par- tido Nazista fora fundado em 1920, e suas seções de assalto (SÁ), em 1921. Mas ele conta com apenas 9000 membros

em 1923; e só obtém, nas eleições legislativas de maio de

alemã não estava ge-

rando, quase imediatamente após a Primeira Guerra Mun- dial, um regime fascista. Em contrapartida, O ovo da serpente consegue traduzir com força e verossimilhança, um aspecto da atmosfera con- secutiva ao fenómeno da inflação. Esse aspecto é o da misé- ria em que se debatiam milhares de cidadãos, reduzidos a expedientes para sobreviver. Uma das sequências mais suges- tivas do filme apresenta, num fim de noite, um cavalo morto em plena rua, que ainda atrelado à sua carroça é logo des- membrado por duas ou três pessoas e cuja carne é imediata- mente oferecida aos raros notívagos, a preço exorbitante, por uma mulher de cujas mãos escorre sangue.

1928, 2,6%

dos votos.

A sociedade

Desilusão e falta de

confiança

Essa crise não se abateu subitamente sobre a Alemanha.

a

partir de 1914. Antes da guerra, os depósitos de dinheiro nos bancos e nas caixas económicas eram consideráveis. Atingiam 4 bilhões de marcos em 1913. Junto aos peque- nos poupadores, as caixas económicas de crédito, com as suas 17 000 filiais e os seus 2,5 milhões de membros espa- lhados por todo o território alemão, favoreciam a poupança e estimulavam o investimento. O Estado imperial foi obri- gado a endividar-se durante a guerra. Embora os depósitos

Ela resulta de uma

situação financeira que

se degradou

tivessem quadruplicado, a circulação da moeda foi ainda superior. Ela se multiplicou quase por seis. Além disso, uma enorme quantidade de títulos do Tesouro foi emitida. Essas medidas provocaram uma inflação.-de .crédito. No final de

1918, o marco perdera 40%

de seu valor.

Depois, o governo se mostra incapaz de erradicar essa depreciação. Inquietos diante do armistício e dos eventos revolucionários, diante da instabilidade social, muitos ale- mães que dispunham de economias compram então títulos do Tesouro. Na proporção de três quartos, os depósitos vão

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ser constituídos por esses títulos. A queda do marco se ace- lera, apesar de uma pausa nos seis primeiros meses de 1921. Pois as necessidades de crédito acabam por exibir capitais líquidos que o Banco da Alemanha não tem mais condições de fornecer. Em razão de uma economia tão abatida quanto o seu poderio militar, a Alemanha se torna vítima de uma grave desorganização. No início de 1920, os habitantes de uma grande cidade como Frankfurt não podiam obter carvão para se aquecer; os bondes e o gás funcionavam no máximo uma hora por dia. De julho a dezembro de 1919, em seis meses apenas, o preço dos produtos de primeira necessidade do- brara. Forçados a restringir suas necessidades, a maioria dos alemães fora levada, em 1920, a deixar de lado metade do que era indispensável a uma alimentação normal. Em certas empresas, por falta de carvão e óleo, as má- quinas estavam avariadas e retornava-se ao trabalho manual.1 Solução que o desagradava aos patrões: o sendo muito elevados os salários dos operários, a mão-de-obra o ficava cara, sobretudo comparada com o preço das matérias-primas. E, mesmo quando o carvão estava disponível, tratava-se de um produto de tão má qualidade, com tantas escórias, que

a fiscalização dos fornos, nas fundições e nas fábricas, obri-

gava os foguistas a redobrar os esforços para manter a inten-

sidade do fogo.2 Quando das eleições de 19 de janeiro de 1919, para

a formação de uma assembleia nacional, o Partido Socíal-

Democrata recebera mais de 37% dos votos. Nas eleições legislativas de 6 de junho de 1920, de onde saí a primeira Câmara de Deputados, ele só obtém pouco mais de 21%, enquanto os independentes passam de 7% para 18%. Essas cifras, que mostram o avanço dos partidos de direita, lan- çam luz sobre a insatisfação da população. Em poucos meses, as promessas de uma vida melhor apresentadas pelas refor- mas propostas pelo Partido Social-Democrata haviam desa- parecido como bolhas de sabão. "A socialização está em marcha", proclamavam em 1919 numerosos cartazes nas ruas. Mas que socialização? Sobre o seu sentido, poucos estavam de acordo. Para uns era preciso nacionalizar a economia. Para outros, simplesmente organi-

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zá-la de forma diferente. Para os comunistas, era necessário transformá-la de acordo com o modelo da Rússia soviética. Os responsáveis pelos sindicatos falavam em socializar os setores essenciais da produção, a fim de torná-los suficiente- mente sólidos. De qualquer forma, o governo organizou uma comissão de socialização, composta por eminentes peritos. A palavra perdeu a sua magia quando a "socialização" se manifestou concretamente. A lei de 23 de março de 1919 estabelecia simplesmente um controle do Estado sobre a pro- dução e a distribuição das matérias-primas, assim como da energia natural O Estado podia, por meio de indenização, destinar à comunidade qualquer empresa que tivesse por objeto a extração das riquezas do solo e a utilização da ener- gia natural. A gestão dessa empresa podia ser confiada às municipalidades ou aos governos regionais. Mas essas medidas não passavam de eventualidades. O controle do Estado consistia, estipulava a lei em questão, em organizar "conselhos" (conselho da potassa, conselho do carvão) que reuniam proprietários de fábricas, díretores, ope- rários, empregados e consumidores. Seu papel consistia em regulamentar a produção e a distribuição da melhor for- ma possível, de acordo com os interesses coletivos. Essa socialização tão esperada não tocava portanto, de- finitivamente, no direito de propriedade. Assim, os indepen- dentes votaram contra a lei de 23 de março de 1919, denun- ciando uma operação de subterfúgio, de logro. Luta travada em vão, já que a Constituição de Weimar ratificou, em seu artigo 156, as disposições adotadas anteriormente. As organizações operárias e sindicais haviam obtido vantagens em outros pontos. O direito de associação era doravante reconhecido a todos, e os empregados domésticos, os operá- rios agrícolas e os funcionários haviam finalmente adquirido

a possibilidade legal de se sindicalizar. Mas, além do direito de greve recusado aos funcionários, a socialização se redu- zira a um compromisso entre os interesses públicos e pri- vados. Outra palavra-chave era "conselho". Em 1918, ele é apanágio* de uma corrente revolucionária que designa assim um sistema político equivalente mais ou menos ao dos só- viets na Rússia do final de 1917. Para muitos independentes

e mesmo spartakistas, a ideia é bastante vaga. Por isso, eles pensam sobretudo no controle da classe operária sobre o Estado e sobre a economia nacional. Pretendem que, através dos conselhos operários, o proletariado se torne senhor do poder político e económico. A Constituição de Weimar, no seu artigo 165, retoma

o termo "conselho", mas esvaziado de sua substância revo-

lucionária. Operários e empregados devem ser representados por conselhos de empresa, depois, ao nível regional, por con- selhos de trabalhadores, e finalmente, num nível mais alto ainda, por um conselho nacional. As duas últimas instituições são chamadas, em colaboração com delegados patronais, a formar em cada região e no conjunto do território alemão conselhos económicos cuja função deve ser definir as tarefas de acordo com as leis de socialização e cuidar do cumpri- mento das convenções coletivas de salários e às condições de trabalho. Assim, encontrava-se uma solução que satisfazia o Zen- trum e os partidos de direita. Não se faz mais referência aos soviets. Além disso, essa nova concepção dos "conselhos" permitia estabelecer um equilíbrio entre patrões e operários. Embora continuasse a exercer um certo fascínio, a palavra alterada ia perder, pouco a pouco, assim como "socialização", uma parte do poder mágico que milhões de alemães lhe em- prestavam em novembro de 1918. A partir de 1920, os con- selhos se reduziram a órgãos de negociação sobre os conflitos de trabalho, as licenças, os lucros e as perdas nas empresas. Sua autonomia pertencia agora ao reino das reivindicações utópicas. Em virtude das convenções coletivas, eles depen- diam inteiramente das organizações profissionais e dos sin- dicatos.

As reformas sociais concebidas em 1918-1919, muito audaciosas para as forças conservadoras, foram minadas por elas logo que possível. Já em 1921, o patronato se esforçou por pôr em questão os contratos coletivos. A ofensiva foi especialmente conduzida contra a enorme conquista que re- presentava a jornada de trabalho limitada a oito horas. No Ruhr, os industriais solicitaram que a duração fosse elevada para oito horas e meia nas minas, e para dez horas nas outras indústrias. O pretexto era que precisavam aumentar a pro-

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dução a fím de restabelecer na Alemanha condições de vida normais. A 21 de dezembro de 1923, um decreto confirmou

a jornada de oito horas, mas com tantas exceções que a

semana de 48 horas se encontrava praticamente legalizada. Para os funcionários, prevía-se que, em 1924 e em 1925, a duração mínima do trabalho semanal seria de 54 horas.

Um recuo notável do governo verificou-se, igualmente, diante do que fora chamado dejei de colonização^ Essa lei,

estipulava que a pro-

priedade fundiária deveria limitar-se a 10% da superfície agrícola de cada região. Tendo em vista que, no território

situado a leste do Elba, esse limite fora ultrapassado, uma redivísão das terras, por arranjo ou expropriação, deveria

proprie-

dades. Algumas cessões de terra foram realizadas. Mas, nas províncias em que o problema era maior, as propriedades

agrícolas foram pouco lesadas. Na Pomerânia, as terras dos fidalgos representavam 51% do solo, mais de l milhão de hectares. As cessões deveriam ter-se elevado a 300000 hectares, mas apenas 20 000 foram atingidos. Essas propor- ções podem ser generalizadas para o conjunto do território.

A lei de colonização não foi respeitada. Segundo as estatís-

ticas de 1922, a nova repartição da propriedade fundiária não passava de 2% do que a lei permitia. Tanto na agri-

cultura como na indústria, as conquistas sociais trazidas pela

progressi-

vamente apagadas. Já em 1920, o filósofo Bernard Groethuysen, que, an- tes de instalar-se definitivamente em Paris, lecíonava nessa época seis meses por ano em Berlim, descrevia os alemães,

na Nouvelle Revue Française, como um povo de náufragos:

promulgada a 11 de _agçjsto-de

1219,

incidir sobre

um terço da superfície das grandes

instauração da República tinham sido, portanto,

!t "Há algo que parece ter-se perdido hoje, e que é a esperan-

; ca na vida e a confiança no momento

."3 Para

um dos colaboradores da revista Claríé, no fim de 1921, por ocasião de uma viagem, a visão da Alemanha deixa nele um gosto amargo: "SÊnti.fm Berlim", escreve ele, "um sentimento confuso de opressão e quase de desespero".4

Mas como ter esperança na vida quando a situação se degrada diariamente, destruindo o que fora adquirido na

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véspera? O preço dos produtos de primeira necessidade au- menta mais depressa do que os salários. Em 1922, um ope- rário qualificado perde cerca de 25% do valor de seu salá- rio. A remuneração de um professor universitário represen- tava em 1913 quase sete vezes o do mesmo operário quali- ficado. Em 1922, só representa o dobro. Prisioneiro das contradições políticas e sociais que con-

tribuiu para exacerbar através de suas incessantes concessões

e de seus recuos, o governo socíal-democrata, que dispõe no

entanto de uma imensa força de milhões de adeptos, está destinado à impotência. A desilusão, o rancor, a desmorali- zação se apossam dos que, em todas as camadas da popula- ção ativa, se sentem mais ou menos lesados, frustrados,

despojados.

Crescimento ao desemprego

"Com esse assassinato, um novo período da história alemã começa ou deveria começar", observa nos seus Cader- nos o conde Harry Kessler a 24 de junho de 1922, no mo- mento em que é informado do assassinato de Walther Rathenau.5 Havia meses, a imprensa de direita se mani- festava contra o fato de a política externa da Alemanha ter sido confiada a um judeu. Uma canção de um corpo voluntário da Alta Sílésia tinha até por refrão: "Derrube- mos Rathenau,/ Esse maldito judeu sujo".6 O fato de esse ministro das Relações Exteriores, numa demonstração de

realismo, ter tido a audácia de assinar, em abril de 1922,

o Tratado de Rapallo, que estabelecia com a União Soviética

relações normais de boa vizinhança, levara ao paroxismo a indignação dos reacionarios e dos conservadores. Mas o conde Harry Kessler esperava que a mudança que previa como inevitável fosse provocada pelas manifes- tações populares, por um sobressalto republicano que deve- ria acabar com os agitadores nacionalistas: "A cólera contra os assassinos de Rathenau é profunda e sincera, bem como

a vontade de defender a República"7, escreve ele. E, com

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efeito, de terça-feira 27 de junho até quarta pela manhã, todo o trabalho foi suspenso na Alemanha em sinal de luto. Milhões de alemães desfilaram atrás da bandeira republica- na em Berlim, em Munique, em Chemnitz e em Hamburgo. Para nenhum de seus cidadãos a República de Weimar or- ganizara honras iguais. O presidente Ebert pronunciara pessoalmente o elogio fúnebre, declarando que o atentado perpetrado contra Rathenau visava à Alemanha inteira. No entanto, em lugar de passar por uma reviravolta, a Alema- nha mergulhou cada vez mais na desordem e no caos. Até meados de 1922, a desvalorização do marco se de- sencadeava com relativa lentidão. O assassinato de Rathenau

teve o efeito de um detonador. No exterior, a desconfiança em relação à Alemanha e à sua moeda se intensificou. A 2 de novembro de 1922, o dólar valia 9 000 marcos. No final do ano, o orçamento tinha cifras de bilhões e a Comissão de Finanças da Câmara dos Deputados estimava o déficit em

7 bilhões. Em março de 1923, o governo presidido por

Wilhelm Cuno tentava estabilizar o marco na proporção de 22000 marcos por dólar. Medida ineficaz. No dia seguinte, o dólar subia para 29 500 marcos. Atingiu mais de 40 000 marcos no fim de abril, l milhão em agosto, depois, rapi- damente, 3, 6, 10 milhões. A 1.° de novembro de 1923, valia l bilhão de marcos. Com essa cifra inimaginável, a

moeda

beira da catástrofe. Mais ainda, o desemprego crescera num prazo muito curto. No final de 1918, como consequência do retorno dos soldados da frente, o número dos desempregados aumenta-

ra, para estabilizar-se nos primeiros meses de 1919 e, de- pois, diminuir progressivamente. Em 1920, oscilava entre

2 e 6% da população ativa; em 1921, entre 1,2 e 4,7%.

Em fevereiro de 1922, era somente de 3%, contra 16% na mesma data na Inglaterra. Mas em 1923, subiu vertiginosa- mente. No fim do ano, estava avaliado em 25%. Em janeiro de 1924, atingia 27% da população ativa, enquanto 52% dos alemães empregados não dispunham de um trabalho em tempo integral.

Através de um sistema de cotizações impostas aos empregadores e aos empregados, um serviço de assistência

alemã recebia o golpe fatal. A Alemanha estava à

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aos desempregados foi organizado. As municipalidades rece- beram a missão de assegurar o seu funcionamento. Elas dispunham aliás da possibilidade, durante os meses em que

o

desempregado recebia um abono, de confiar-lhe trabalhos

de

utilidade pública: ele não devia trabalhar mais de 24 ho-

ras por semana, ou dezesseis em caso de trabalho penoso,

e recebia, em troca, suplementos que completavam o seu

abono. Muitas cidades instituíram, dessa maneira, uma espé- cie de trabalho obrigatório reservado aos desempregados, que eram encarregados das obras de terraplenagem, da construção de estradas, da derrubada de árvores. Em Frankfurt, esse serviço de assistência propunha aos jovens desempregados que ajudassem os inválidos, as viúvas

e os pensionistas de guerra em suas compras e em trabalhos

domésticos. Eles também eram empregados nas associações filantrópicas, nas instituições de caráter social. Por vezes,

eram utilizados como auxiliares nas oficinas, nas empresas

ou nos escritórios, com a obrigação de completar sua forma- ção profissional e de seguir um curso de doze horas por semana. Em compensação, recebiam refeições e roupas. Em toda a Alemanha, o total 4os desempregados aten- didos se elevava a 400 000 em 1.° de outubro de 1923, e

a 1,5 milhão no dia 1.° de janeiro de 1924. Depois, seu

número diminuiu pouco a pouco, passando para 700 000 aproximadamente a 1.° de abril de 1924, e caindo para 200 000 a 1.° de junho do mesmo ano. Duas razões expli- cam esse resultado. A primeira era a ligeira melhoria do mercado de trabalho. A segunda, condições novas e rigoro- sas para gozar do abono-desemprego. Malgrado essa ajuda, a situação do desempregado con- tinuava material e moralmente insuportável. Alexander Sten- bock-Fermor, aristocrata que combatera com os corpos vo- luntários nos países bálticos, contou sua experiência como mineiro no Ruhr em 1923, e como, reduzido ao desempre- go com milhares de outros, compartilhou da sua sorte hu- milhante: "Nós, que estávamos alojados numa casa para sol- teiros, onde recebíamos ao meío-día e à noite uma refeição, tínhamos um abono de 2 bilhões e meio de marcos por semana. Um pão custava l bilhão e meio e, com o resto, podíamos apenas obter um pouco de manteiga, de geléia

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ou algo parecido. Isso teria sido suportável se a refeição

nos tivesse

Como único alimento, esclarece Alexander Stenbock- Fermor, a casa oferecia uma sopa que parecia água e algu- mas batatas meio estragadas. O pão que eles compravam durava quatro dias no máximo. E a fome que lhes atormen- tava o estômago impedia-os de ler ou de escrever. Atordoa- dos, tentavam matar o tempo dormindo ou na expectativa do próximo abono semanal: "Nós nos levantávamos cedo, para tentar chegar em primeiro lugar. E tínhamos de entrar numa fila gigantesca de operários para receber nosso dinhei- ro. Frequentemente, a pontualidade não era rigorosa. Éra- mos convocados para as dez ou onze horas, e só às três ou quatro horas nosso abono nos era entregue. Mostrávamos os nossos documentos profissionais e recebíamos cédulas de bilhões desvalorizados, que no entanto segurávamos firme nas mãos. Logo eu me precipitava na direção de uma pada- ria para comprar pão. De volta à casa, comíamos com avidez. Alguns engoliam tudo de uma só vez para depois vomitar mais tarde; outros gastavam todo o seu dinheiro em bebida, a fim de fugir da miséria por algumas horas! Normalmente, eu devorava a metade de um pão, para experimentar pelo menos uma vez por semana a sensação de saciedade. Depois, minha semana se desenrolava de novo num estado de tor- por embrutecido"9.

."B

Um turbilhão de

cifras

apenas

nham do mínimo vital. A situação só fez piorar com a ace- leração da inflação. Em um ano, de março de 1922 a março de 1923, os preços foram multiplicados por 100. Nos res- taurantes, a garrafa de vinho passara de 50 para 100 000 marcos, uma caneca de cerveja de 10 para 500 marcos. Em Berlim, o preço do bilhete de metro multiplicara-se por 30. Tornara-se quase impossível encontrar açúcar. Não se podia

10% dos alemães dispu-

No início de

1922,

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obter água mineral, mesmo pagando. Na maioria das famí- lias, a carne só aparecia na mesa uma vez por semana.

A subalimentação das crianças era a regra dramática.

Segundo uma pesquisa feita nas escolas, de 15 a 40% dos

alunos apresentavam diversos sintomas de desnutrição. Em Kassel, somente 46% tinham o peso médio correspondente

à sua altura. A proporção era sensivelmente a mesma na

Saxônia. De uma maneira geral, uma ínfima minoria recebia três refeições por dia, e de 15% a 20% iam para a escola de manha sem ter ingerido o que quer que fosse. Com rela- ção às roupas, as condições não eram melhores. Em Mag- deburgo, 20% não possuíam casaco. Em Nuremberg, 15% não estavam convenientemente calçados. Em Berlim, 24 000 crianças tinham roupas rasgadas ou insuficientes, 16 000 não tinham camisa, l 700 não tinham mais meias, 57 000 esta- vam calçadas com sapatos em péssimo estado, 35 000 usa- vam simples chinelos, e l 700 não tinham absolutamente

nada nos pés.10 Em Berlim, a vida era particularmente difícil para as famílias modestas e pobres. Era a cidade mais cara da Ale- manha, pelo fato de receber a visita de estrangeiros. Cada desvalorização do marco repercutia imediatamente nos pre- ços dos comerciantes. De janeiro a novembro de 1923, os preços mudavam de um dia para o outro, até de uma hora para a outra. Um produto vendido por mil marcos valia 10 000 muito pouco tempo depois. As lojas haviam chegado

a formar equipes especiais cujo único trabalho era mudar as etiquetas das mercadorias expostas.

A queda do marco provocava o aumento dos preços,

que por sua vez determinava a reavaliação dos salários, tor-

nando necessária nova impressão de papel-moeda. Era um círculo vicioso. Dia e noite, três equipes se alternavam na impressão de cédulas, até mesmo no domingo. Não apenas os cofres de reserva não eram mais suficientes para conter essa impressionante massa de papel, mas também os diri- gentes do sistema bancário chegavam a temer que, num certo momento, a impressão da cédula viesse a custar mais do que o seu próprio valor. Tendo em vista, por outro lado, que só as notas de valor elevado ofereciam efetivamente possibilidades de com-

pra, as cédulas de valor médio não podiam mais ser encon- tradas no dia-a-dia. Por vezes, os bancos chegavam até a propor brindes de 10% a quem as encontrasse. As cédulas mais comuns eram as de 10 000 e de 50 000 marcos. E quase em lugar nenhum, em loja alguma, era possível rece-

ber troco! Exemplo característico do absurdo que reinava era o caso dos cartões postais. Tivessem eles sido impressos pela administração ou por casas privadas, tinham-se tornado inu- tilizáveis. Na medida em que era impossível imprimir, ao ritmo do aumento dos preços, novos selos de tarifa adequa- da, era necessário, no momento da franquia, recobrir todo

o cartão (e por vezes até mais) com os selos antigos que ain- da tinham curso. De maneira que não sobrava qualquer espaço em branco para indicar o endereço do Muitas cenas absolutamente reais, cotidianas, pare- ciam gâgs cómicas, embora fossem vividas como pesadelos. Nas ruas, casais puxando carroças ou transportando baldes de limpeza cheios de cédulas se cruzavam a todo momento:

uns iam ao banco para depositar o seu dinheiro, outros acabavam de retirá-lo. Mal os salários tinham sido pagos e já todo mundo se precipitava na direção das lojas para com- prar o que comer. Com a massa de cédulas correspondentes

a uma semana de mais de cinquenta horas de trabalho e

carregadas em imensos cestos de roupa, obtinha-se comida para dois ou três dias!

da França, o paga-

mento por cheque começara a generalizar-se. Depois, em razão do excesso de papel-moeda, os pagamentos por cheque haviam mesmo sido impostos aos negociantes, aos particu- lares cujos salários eram elevados. Pouco a pouco, também os serviços públicos tinham adotado os cheques para pagar seus empregados. Em 1922-1923, a circulação dos cheques acabou por tornar-se hábito. Todas as classes sociais utiliza- vam esse sistema de pagamento, e na Saxônia, por exemplo, 90% dos operários dispunham de uma conta corrente. Não obstante, a massa de dinheiro líquido em circulação aumen- tara em proporções muito mais consideráveis e era mil vezes maior que em 1913.

Antes

da guerra, diferentemente

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Transformação

dos costumes

,A inflação teve repercussão até nos casamentos, que se tornaram mais numerosos, sobretudo nas cidades, em rela- ção ao período anterior à guerra. No início do século e até 1914, especialmente nos meios operários, os jovens que pretendiam casar-se geralmente esperavam que o rapaz tives- se feito o serviço militar e encontrado uma profissão es- tável. Por seu lado, a moça trabalhava no seu enxoval. Mas, como a Alemanha estava limitada pelo Tratado de Ver- salhes a um exército profissional, o serviço militar não existia mais. Quanto à confecção de um enxoval, não passa- va de uma quimera, e o emprego estável tendia a tornar-se também um sonho! Miséria por miséria, o temor de que a espera durasse anos impelia os jovens a correr o risco de casar-se mais cedo. A recrudescência dos roubos foi outra consequência da inflação. Padarias eram pilhadas, não em busca de artigos preciosos, mas simplesmente de pão. Nos restaurantes de luxo, os clientes só recebiam os talheres após terem feito um depósito no caixa, porque a louça desaparecia regular- mente. Quanto aos imóveis e apartamentos, o medo dos assaltos conduzira a complicados sistemas de proteção: ca- deados de segurança, portas duplas, grades de ferro. Esse medo não impedia os ocupantes de apartamentos mais espaçosos, no entanto, de tentar alugar um quarto ou dois a quem quer que lhes oferecesse um bom preço. O comércio desses quartos florescia. Praticava-se clandestina- mente, sem declaração à polícia municipal. Assim, não havia nenhuma taxa a pagar. A locação era cobrada por dia e acer- tada por intermédio de um conhecido ou de um motorista de táxi, que recebia, naturalmente, uma pequena porcenta- gem. O cliente ideal era o turista estrangeiro. Se pagasse em dólar, teria direito a um tratamento especial e a preços substancialmente mais baixos que os dos hotéis. Em vista da rentabilidade desse comércio, alguns auda- ciosos não hesitavam em alugar ou sublocar cómodos nos apartamentos burgueses luxuosos para certos encontros pri- vados. Mesmo quando eram surpreendidos por ocasião de

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um controle policial, seus lucros continuavam valendo a pena. Após terem cumprido rapidamente a sua pena, nada os impedia de recomeçar alhures. A incerteza do amanha desenvolvera, com efeito, entre os que possuíam dinheiro, uma sede de prazeres, de divertimentos. E entre os que não tinham nada, havia sempre quem estivesse disposto a se vender em troca de alguma coisa! Nos pequenos anúncios de certos jornais, não faltavam jovens propondo levar a fe- licidade a viúvas afortunadas, enquanto moças de quinze anos estavam dispostas a encontrar, nas suas horas de lazer,

velhos

senhores.

A dissolução dos costumes fora decuplicada pelas difi- culdades económicas. Ao lado de organizações sérias que, sob o impulso do dr. Magnus Hirschfeld, travavam uma luta científica e política a fim de que os homossexuais não sofressem mais processos penais, cafés, cabarés ou clubes especializados em noitadas recreativas de um género inteira- mente particular se haviam multiplicado nas grandes cida- des. Em Berlim, o Eldorado era frequentado por travestis;

o Admirável, por homossexuais; e uma outra boate só re- cebia lésbicas. Fora até mesmo fundado um teatro ambulan- te, o Teatro de Eros, que dava espetáculos onde fosse aco- lhido, ocupando-se de festas, de conferências, de projeções de filmes. Para as lésbicas, um clube, O Escorpião, tinha igualmente atividades teatrais. Abundavam em Berlim os lugares de prazer. Para lá acorria a Alemanha dos novos-ricos, dos pequenos e gran- des traficantes e dos bilionários. Orgias e espetáculos de nudismo eram apresentados habitualmente. Enquanto um operário ou um empregado precisava trabalhar um mês para ganhar o equivalente ao preço de um par de calçados, pratos pantagruélicos, garrafas de champanha e coquetéis refinados eram consumidos! São testemunhos dessas cenas de comezai- na certos desenhos de George Grosz: confortavelmente sen- tados à mesa, vêem-se homens barrigudos de cabeça raspada, acompanhados de suas esposas ou de suas amantes, vestidas com roupas generosamente decotadas e cobertas de jóias. Nas ruas da capital próximas da Kurfurstendamm, todas as perversões podiam ser satisfeitas desde que se ti- vesse dólares ou mercadoria de valor, Para os apreciadores

98

de chicote, prostitutas passeavam pelas calçadas, com longas botas vermelhas. Algumas indicavam ainda mais claramente

a

sua especialidade carregando uma chibata na mão. Cocaína

e

espetáculos pornográficos eram propostos por mercadores

ocasionais aos passantes que tinham a aparência de turistas estrangeiros. Berlim, como observa o escritor austríaco Stefan Zweig em O mundo de ontem, se transformara numa Babilónia:

"Nem mesmo a Roma de Suetônio conheceu orgias seme- lhantes às dos bailes de travestis de Berlim, onde centenas de homens com roupas de mulher e de mulheres vestidas como homem dançavam sob o olhar benevolente da polícia. Nessa ausência de todos os valores, foram justamente os círculos burgueses, até então inabaláveis em seus princípios de ordem, os primeiros a serem tomados por uma espécie de delírio. As jovens se vangloriavam de sua perversão; em todas as escolas de Berlim, ser suspeita de ainda ser virgem

aos dezesseís anos era uma vergonha; cada uma queria ter

suas aventuras para contar e, quanto mais exóticas, melho-

." " A permuta reinava. Médicos e advogados preferiam,

como pagamento de seus honorários, receber carne e ovos

em lugar de cédulas sem valor. Ou

caro; cigarros! Era possível obter os que provinham da Re- nânia ocupada, mas apenas no mercado negro. É por isso que muitas prostitutas não resmungavam quando eram pa- gas com essa moeda. Jóias, objetos de arte e peles consti- tuíam também bons elementos de troca. Era frequente ver velhos famélicos, porém com aspecto de burgueses e de gente distinta, oferecê-los aos passantes em troca de ali- mento. Nos bairros populosos, centenas de pessoas permane- ciam durante horas diante das padarias, das mercearias, das leiterias. Filas se formavam diante dos albergues do Exér- cito da Salvação em busca de uma sopa, diante dos escritó- rios de distribuição dos abonos-desemprego ou diante das bancas de jornais. Tendo o jornal atingido um preço exor- bitante, muitos operários e empregados não podiam mais comprá-lo. Para tentar manter-se a par das novidades, eles se agrupavam diante dos números em exibição.

res

ainda, produto

raro e

Como compensação

ao desespero,

ao tédio ambiente,

à solidão em apartamentos miseráveis e frios, os mesmos populares eram atraídos pelos profetas de seitas religiosas que repentinamente apareciam. O misticismo oriental pene- trava até nas camadas populares. Monges errantes percor- riam os campos em busca de adeptos, que não eram raros. Por toda parte, as religiões católica e protestante perdiam os seus fiéis. Uma parte destes, largamente minoritários todavia, cediam ao fascínio de falsos magos e hábeis comer- ciantes do absoluto. Espiritismo, astrologia, telepatia floresciam na alta so- ciedade. Thomas Mann descreve numa de suas novelas, Experiências ocultas, as sessões noturnas organizadas em seu hotel particular, em Munique, por um barão apaixona- do pelas comunicações com o além. Professores universitá- rios, filósofos, psicólogos, físicos e médicos, conta Thomas

Mann com humor, deslizavam clandestinamente pelas ruas mal-Íluminadas para assistir aos encontros mediúnicos de M. von Schrenk-Notzíng! Nos meios populares, a preferên- cia recaía sobre todas as espécies de pseudo-sábios e insti- tutos com nomes pomposos, que pretendiam prever o futuro ou dar a cada um a possibilidade de encontrar o caminho do sucesso.

Especulação e

xenofobia

A crise provocada pela inflação estava na origem de todos esses comportamentos. Outra consequência ainda mais natural da inflação, que a carregava consigo como uma se- gunda natureza, era a especulação. Os alemães, quando ti- nham os meios para isso, corriam na direção de tudo o que não se desvalorizava. Os mais ricos, como o industrial Hugo Stinnes, compravam fábricas e imóveis. Outros se conten- tavam com diamantes, pedras preciosas, dólares. Os agricul- tores investiam em máquinas e equipamentos. Os que de- pendiam do dia-a-dia tentavam, com dificuldade, formar um estoque de quilos de açúcar e de latas de conserva.

300

A especulação se tornara uma profissão. Os espertos utilizavam marcos para comprar dólares, depois se desem- baraçavam dos dólares comprando mercadorias não-perecí- veís e facilmente transformáveis em moedas. Sem muito es- forço, conseguiam viver confortavelmente. É assim que se desenvolveu toda lima categoria de novos-ricos, que vinha se somar aos que se haviam endividado logo após a guerra pela compra de propriedades fundiárias e que agora, sem qualquer iniciativa da sua parte, se tinham transformado,

de

verdadeiras fortunas. O Sarre era uma região ideal para especular. O marco se mantivera como moeda corrente, mas os empregados e operários que trabalhavam sob a administração francesa eram pagos em francos. Os mineiros que subiam do fundo

do poço não desejavam mais boa sorte aos seus camaradas que desciam, mas utilizavam a nova fórmula ritual: "Quan-

to está?" Era do franco que se tratava! Só se falava em

comprar ou vender francos. A cada baixa do marco, os em- pregados e operários pagos em franco se precipitavam para

as lojas para comprar todo tipo de mercadorias. A Alemanha se tornara um paraíso para os estrangeiros. As férias eram tão proveitosas que, em 1922, 300 000 ame- ricanos para lá viajaram. No mesmo ano, todos os hotéis da Floresta Negra estavam ocupados por suíços, enquanto a Renânia tinha a preferência dos holandeses. Nas grandes lo- jas de Berlim, Frankfurt ou Leipzíg, os principais clientes eram geralmente estrangeiros, de maneira que, acompanhan- do-os à caixa, os vendedores e as vendedoras perguntavam- lhes automaticamente em que hotel suas compras deveriam ser entregues. Os trens expressos comportavam então três

classes, e os ônibus, quatro, mas a terceira e a quarta eram praticamente reservadas aos alemães, enquanto a primeira e a segunda, bem como os vagões-restaurantes, recebiam quase exclusivamente viajantes estrangeiros. Na verdade, numerosas eram as taxas que deviam ser pagas apenas pelos estrangeiros. Assim, nos museus, a en- trada lhes custava oito vezes mais do que para os. alemães.

com o reembolso

de seus empréstimos, em possuidores

O

mesmo acontecia na ópera, no teatro. Em contrapartida,

as

mercadorias nas lojas eram vendidas livremente. Os brin-

301

quedos, os artigos esportivos, o material de ótica eram nota- damente mais baratos e de melhor qualidade na Alemanha do que nos outros países europeus. Pagos em marcos, eles eram comprados por preço ainda maís baixo pelos possuido- res de dólares, de libras esterlinas, de florins holandeses, ou mesmo de francos. Disso resultara um avanço da xenofobia na população alemã. Os estrangeiros, acusados de despojar a Alemanha, eram malvistos. O ostracismo se havia infiltrado até mesmo nas práticas comerciais. Era frequente que, nas cidades e nas regiões turísticas, dois preços existissem para produtos idênticos: um, bem em evidência, dirigido aos estrangeiros; outro, dissimulado, reservado aos alemães. Era o que ocorria por exemplo na Baviera, onde as tendências xenófobas eram muito fortes e onde os preços eram sistematicamente au- mentados em 50% para os estrangeiros, a fim de compen- sar a depreciação do marco.

Vítimas e aproveitadores

Os mais atingidos pela inflação foram os possuidores de pequenos rendimentos e os aposentados. Dispondo regu- larmente de uma soma fixa que até então lhes permitia viver, eles foram forçados, com mais de sessenta anos, a en- contrar expedientes para não sucumbir à miséria. Uns ven- diam tudo o que lhes pudesse trazer algum proveito: jóias, quadros ou móveis. Outros alugavam ou sublocavam uma parte do seu apartamento. Os mais desprovidos esperavam a morte ou arriscavam-se a antecipar-se a ela. Nas suas Memórias de um' alemão, Ernst Erich Noth relata que seu avô, a fim de permitir-lhe mais tarde realizar seus estudos, acumulara dinheiro toda a sua vida, tostão por tostão. Após sua morte, Noth recebera a soma de 8 000 marcos como herança, a qual fora depositada num banco. Mas não foi com esse dinheiro que ele pôde frequentar a universidade. Em 1923, seus pais apressaram-se em retirá- lo do banco para que não perdesse todo o seu valor. Ele

102

só serviu para comprar um pão, 500 gramas de margarina e 60 gramas de café.

Muitos estudantes passaram também por dificuldades. Tradicionalmente, a maioria deles provinha da média bur- guesia. Ora, particularmente entre as profissões liberais, as famílias passaram por problemas financeiros. A consequên- cia disso foi uma diminuição da frequência nas universida- des e um desinteresse em relação aos cursos. Eles preferiam dar aulas particulares, de preferência pagas com ovos, man- teiga e batatas, para não morrer de fome.

A situação das mulheres que trabalhavam nos escritó-

rios ou nas fábricas degradou-se consideravelmente. Propor- cionalmente, os salários femininos haviam aumentado um

pouco mais do que os salários masculinos durante a guerra, em virtude da necessidade de mão-de-obra. Muitas empre- gadas haviam sido contratadas nos serviços postais e nas estradas de ferro. Depois de 1918, esse crescimento foi duplamente comprometido. Mediante afastamento, de início em favor dos soldados desmobílizados, as mulheres cujos maridos dispunham de um salário regular tiveram de retor- nar aos seus fogões. Depois, em razão de um aumento de salários em proveito dos empregos masculinos.12 Os trabalhadores intelectuais, por outro lado, parecem

ter sido mais lesados

taxa de sindicalização era baixa, e a defesa comum de seus interesses se tornara muito difícil. Além do mais, o merca-

do não estava muito propício para o escoamento do produto do seu trabalho. Por parte dos fidalgos, dos industriais ou dos novos-ricos — os únicos que poderiam garantir finan- ceiramente a sua sobrevivência —, a curiosidade intelectual era fraca. E nem as camadas médias nem os operários esta- vam em condições, tendo em vista as atuais privações, de satisfazer suas necessidades de cultura.

do que os braçais. Com efeito, sua

A Alemanha estava condenada a um isolamento cultu-

ral. A compra de jornais, de livros ou de revistas no exterior não era mais possível. O abastecimento das bibliotecas cien- tíficas se reduzia a quase nada. Inversamente, a exportação dos livros alemães era muito onerosa em razão do pagamen- to de taxas suplementares exigidas pelos livreiros. Além dis- so, as tarifas postais haviam aumentado tanto que qualquer

103

remessa dentro da própria Alemanha era inviável, e mais ainda para um país estrangeiro! Para muitos escritores, os contatos se tinham tornado raros. Eles precisavam privar-se de alimento para franquear suas cartas. O romancista Kasímir Edschmid define a Alemanha do início de 1923 como um hospício para devoradores de cifras. Não se lêem mais livros, queixa-se ele. Quase ninguém mais pode comprá-los. Seu preço médio equivale a um dia de salário de um alto funcionário. Não há mais peças de quali- dade, só tolices. Fora do brilho superficial de Berlim, que busca deslumbrar os estrangeiros, a Alemanha racha por todos os lados. Apenas 3% da população, estima ele, me- rece ser chamada de rica. O resto sobrevive sob privações ou morre de fome. Essas apreciações são um tanto exageradas, sem dúvida, porque a vida artística de qualquer forma prosseguiu, mas contêm uma parte de verdade e mostram sobretudo como podia reagir um jovem escritor atormentado por uma situa- ção que julgava sem saída. O preço do papel e as despesas de impressão haviam provocado, efetivamente, um forte au-. mento no preço do livro. E os editores foram obrigados a diminuir, na sua programação, a proporção de obras de jo- vens autores. Casas editoras como as de Ernst Rowohlt e Kurt Wolff, que se interessavam por eles anteriormente, ti- nham retornado aos clássicos e haviam se lançado na publi- cação de obras de Balzac e de Zola. No entanto, esse período de inflação não foi um cal- vário para todo mundo. Alguns — os que dispunham de fundos — constituíram fortunas colossais através da aquisi- ção de bens sólidos. O industrial Hugo Stinnes é o exemplo mais característico disso. Fundou um verdadeiro império. Em 1923, quadruplicara seus bens graças a empréstimos bancários e possuía 4 500 empresas. Tinha participação em ramos tão diversos quanto o aço, a imprensa, a hotelaria, os transportes marítimos, as fábricas de cigarro e a produção do açúcar! Era, dizia-se, mais rico do que Rockefeller. Quando morreu, em 1924, os herdeiros não puderam con- tinuar no seu ritmo. Viram-se na impossibilidade de gerir um tal excesso de bens. Essa potência, igualmente política,

104

já que Stinnes era deputado do Partido Populista, não so- breviveu ao seu promotor. Apesar da inflação, ou graças a ela, indústrias como as dos Krupp, Thyssen e Klõckner também não passavam por dificuldades. As perdas sofridas por todas as empresas ligadas às altas finanças internacionais foram inferiores aos seus lucros. A economia nacional alemã não registrou, em definitivo, perdas significativas. A associação dos industriais alemães estimava, pelo contrário, em 1924, que um investi- mento considerável pudera ser feito em fábricas ou produ- ções novas. Um ramo destinado a um desenvolvimento extraordi- nário, a indústria radiofónica, data dessa época tão difícil para a maioria da população. Telefunken, Lorenz e Huth se lançaram na construção de postos receptores. Ao lado deles, e para opor-se ao seu monopólio, surgiram pequenos fabri- cantes e comerciantes, que fundaram por sua vez uma asso- ciação profissional. Desde que as primeiras emissões de rá- dio foram difundidas, em outubro de 1923, a compra de postos representou um mercado a conquistar. E ele será conquistado rapidamente. Em 1926, o número de um mi- lhão de proprietários de postos é ultrapassado. Em 1932, eles são mais de 4 milhões. A Alemanha ocupa então o ter- ceiro lugar no mundo, atrás dos Estados Unidos e da Ingla- terra. A França chega em quinto lugar, mas com apenas 900 000 postos. E durante esses mesmos anos de inflação que um terço da frota comercial é restaurado e que um reagrupamento de diferentes companhias de navegação se efetua no interior das poderosas sociedades Hapag e Norddeutscher LIoyd. O material ferroviário, as estações, as vias férreas e os vagões são recuperados e melhorados. Em vista do aumento da cli- entela e da complicação das operações contábeís, os bancos desenvolvem seus serviços, contratam pessoal, compram prédios para abrir outras agências ou constróem novas ins- talações. Excetuando-se os cereais, cujos preços caíram, os agri- cultores foram beneficiados na venda dos seus produtos no imediato pós-guerra. Em 1921-1922, o preço dos cereais che- gou a subir, de maneira que seus lucros foram ainda mais

l 05

substanciais. Em 1922, um agricultor médio podia, com o produto de suas vendas, obter em mercadorias o dobro do que obtinha em 1913. A partir de 1923, ele foi afetado, como as outras categorias sociais, pela desvalorização do marco. Mas seu prejuízo foi muito menor porque ele logo compreendeu que precisava investir em material e numa transformação de suas condições de vida. Tecidos, imóveis, pianos e muitas mercadorias desconhecidas até então no campo tomaram o caminho das herdades. A instalação do telefone em muitas delas quebrou o isolamento rural. Não era por acaso que a rede telefónica ficava tão sobrecarregada em certas horas, em 1923. A razão era simples: os agriculto- res se informavam regularmente sobre o valor do dólar e transmitiam instruções a seus banqueiros.

diferentes

de acordo com os grupos sociais. De região em região, por

vezes de cidade em cidade, a situação económica apresen-

tava diferenças. As imagens dessa época certamente se fixa- ram demais sobre Berlim, onde os extremos se encontravam.

A exibição de luxo e desperdício convivia com a fome e

a indigência. Geralmente, os contrastes eram menos mar-

cantes nas cidades de província. Não faltavam ali a miséria e

a riqueza insolente, mas elas saltavam muito menos aos

olhos. Sobretudo nas pequenas cidades que contavam com uma grande proporção de funcionários nos correios ou fer- rovias. Com efeito, seus salários acompanhavam quase sem excessivas perdas o custo de vida, graças a abonos compen-

A inflação portanto

gerou

situações

muito

satórios dados pelo Estado. Nas cidades que viviam do comércio,

particularmente

do comércio com os estrangeiros, podia-se ter até mesmo a

impressão de uma relativa prosperidade. Foi assim que a fei-

ra de Leípzig quase não conheceu esmorecimento nos seus

negócios. Em 1921, ela acolhia 135 000 visitantes, e 15 000 a mais em 1922. Com relação a Frankfurt, ocorreu processo semelhante. Sinal dessa prosperidade: a estação. Já imensa, com 24 vias, e sem dúvida uma das mais vastas da Europa,

ela se alargou com duas alas de construções.

106

Uma prosperidade relativa

De resto, por mais desiguais que fossem as privações, a Alemanha não podia suportar essa inflação sem marchar para a catástrofe'. Em face da resistência liderada pelos indus- triais no Ruhr em protesto contra o pagamento das repara- ções e a ocupação franco-belga, o governo de Wilhelm Cuno compensara as perdas de produção fazendo funcionar a im- pressão das cédulas monetárias. Como o marco de papel não valia mais nada, era preciso encontrar uma solução para res- taurar a moeda e estabilizá-la. A 11 de agosto de 1923, a Câmara dos Deputados, por iniciativa dos socíal-democratas, retirava a sua confiança ao chanceler Cuno. Um governo de grande coalizão era forma- do por Gustav Stresemann, membro do Partido Populista, com o socíal-democrata Rudolf Hílferdíng como ministro das Finanças. A 26 de setembro, Gustav Stresemann, que aliás ocupava o posto de ministro das Relações Exteriores, decidiu suspender a resistência passiva no Ruhr. Uma co- missão de reforma financeira se ocupou da tarefa. A 16 de outubro de 1923, novas decisões foram tomadas. A ideia fora hipotecar os bens alemães. Todas as em- presas comerciais, industriais ou bancárias, assim como os terrenos destinados à agricultura, eram onerados com uma dívida. Seus proprietários garantiam o capital e as reservas de um novo banco, que emitia letras de garantia de quinhen- tos marcos-ouro cada uma. Essa letras de garantia, conserva-

das

cédulas que ele podia pôr em circulação. Mais ainda, o proprietário tinha de pagar juros de 6% sobre o capital hipotecado. E quando as empresas ou socie- dades comerciais não possuíam imóveis e terrenos, deviam subscrever obrigações em marcos-ouro.

nos

cofres do

banco,

representavam a

segurança das

Os alemães conheceram assim, durante todo o ano de 1924, o uso de uma dupla moeda: o antigo marco-papel e o marco-fundiário, chamado marco-renda, equivalente a um marco-ouro. Uma revalorização foi estabelecida definitiva- mente. O dólar foi fixado a pouco mais de 4 trilhões de marcos-papel, enquanto um marco-renda valia l trilhão

107

de marcos-papel. A partir de abril de 1924, um marco novo

substituía finalmente o marco-renda, que tinha sido apenas uma moeda de transição. Na mesma data, as duas comissões de peritos, encarre-

gados de examinar a possibilidade de a Alemanha pagar as reparações, entregam os seus relatórios. Disso resulta o Pla- no Dawes. Por um lado, o montante dos pagamentos a efe- tuar é determinado. Por outro, milhões de dólares são inje- tados na economia alemã por empréstimos americanos. Essas operações permitem uma restauração financeira do Estado alemão. Mais de 2 bilhões de marcos-ouro se encontravam nas caixas do Banco Nacional no final de 1924. A estabiliza- ção do marco era facilitada pela importação de capitais es- trangeiros, que em valor líquido representavam o dobro dos montantes devidos a título de reparações. Daí por diante, a Alemanha adquire a imagem de um país que parece seguir um bom caminho. A recuperação na- cional se torna uma espécie de palavra de ordem. A situação financeira do Estado se equilibra em janeiro de 1925. Os industriais, preocupados em produzir e em tornar rentáveis

as empresas, tomam as técnicas americanas por modelo. In-

troduzem o taylorismo nas fábricas, a fim de evitar o des- perdício de energia e desenvolver a racionalização. A vita- lidade dos Estados Unidos, sua modernização, são oferecidas como exemplo e estimulam uma propaganda que anuncia por toda parte, após a crise, a felicidade para todos.

Terminara o terror da inflação. Mas já era a hora da euforia? O desemprego, em 1924, atingia ainda 11,4% da população ativa, e só baixou em 1925, para voltar a subir de forma rápida, atingindo quase 18% em 1926. Essa situa-

ção de crise que marca 1926 foi provocada pela vontade de racionalizar a economia a qualquer preço. Só os anos 1927

e 1928, antes da nova quebra mais grave que se esboça em

1929, foram desse ponto de vista relativamente favoráveis,

e nesse período o número de desempregados mantém-se

inferior a 10%. No conjunto, com exceção de uma estagnação em 1926, os salários tiveram um crescimento mais favorável durante

o mesmo período. A partir de 1925, aumentos foram con-

cedidos progressivamente à classe operária, que recuperou

108

o seu nível de 1913. Os menos favorecidos foram os assala- riados agrícolas, os mineiros e os operários da metalurgia. Os que tiveram mais vantagens foram os operários da cons- trução civil. Muitas municipalidades, dispondo de créditos, se haviam lançado, com efeito, à construção de habitações. Um pedreiro ganhava então bastante bem a sua vida, e sua família estava segura de que poderia comer carne várias ve- zes por semana. De todas as categorias profissionais, o grupo das pro- fissões liberais foi o que teve a mais nítida melhora de seus rendimentos. Advogados e médicos, que tinham chegado, em razão do atraso do pagamento de seus honorários, a ga- nhar o mesmo e às vezes menos que um operário, saíram do seu abismo material. Ao lado dos funcionários superiores, eles voltaram a formar, corno antes da guerra, os pilares das camadas médias. Todos os que, no geral, viviam da sua pena, conheceram também condições melhores. Os direitos autorais não sofriam mais depreciação sistemática. Além disso, subvenções do governo central, dos governos regio- nais ou das municipalidades permitiam ajudar na edição de livros ou de revistas, sustentar a atividade de sociedades culturais, conceder bolsas de viagem, favorecer os trabalhos de pesquisa. Só para o ano de 1927, o Estado financiou a restauração da Opera de Berlim, do Museu de Higiene de Dresden e uma exposição consagrada à imprensa em Co- lónia. Pintores e escultores, todavia, não se beneficiaram da estabilização da moeda da mesma maneira que as outras pro- fissões liberais. Para os mais famosos, o mercado pouco se modificou. Tinham uma clientela segura. Mas para muitos que viviam penosamente, sobretudo os artistas académi- cos, a inflação não lhes tinha sido desfavorável. A fim de se proteger contra a desvalorização do marco, uma parte dos alemães afortunados se havia orientado para a compra de quadros ou de estátuas, frequentemente sem averiguar as diferenças artísticas entre seus autores. Eles só visavam ao investimento, e não ao papel de apreciadores de arte ou de colecionadores. Por outro lado, a organização dos diferentes grupos sociais se viu alterada por um fenómeno que se manifestava

109

desde o final do século XIX: o crescimento do número dos empregados. Em 1895, eles eram apenas um milhão, repre- sentando 7% da população ativa. Essa proporção passa para mais de 11% em 1907, e para cerca de 17,5% em 1925.

O

que equivale portanto, nessa última data, a 3,8 milhões

de

pessoas, das quais 1,3 milhões eram mulheres. Enquanto

o

número dos operários não havia ainda dobrado, o dos

empregados se quintuplicara, A população ativa contava do- ravante com um empregado para cada cinco operários, Meta-

de desses empregados trabalhavam nos bancos, no comércio,

nos transportes públicos. A indústria utilizava 1,35 milhões;

o setor comercial, mais de 2 milhões. A maioria, 80% das

mulheres e 56% dos homens, tinha idade inferior a quaren-

ta anos. Esse proletariado de colarinho postiço não tinha pers-

pectiva de ascensão social mais brilhante do que a classe operária, contrariamente aos slogans difundidos pelo patro- nato para justificar a racionalização, que apresentavam as camadas médias corno beneficiárias do pretenso progresso em curso. Os empregados só tinham, no conjunto, uma for- mação intelectual rudimentar, que não lhes permitia subir

a altos postos. Menos da metade deles havia passado por

escolas secundárias ou especializadas. Menos de 10% ocupa- vam cargos de responsabilidade. Seu trabalho era, com mais frequência, rotineiro, automático. As mulheres, das quais uma grande parte era constituída por estenodatílógrafas, eram as mais desfavorecidas. Mais de 72% exerciam os em- pregos menos remunerados, contra 32% dos homens. Eles haviam sido menos atingidos pela inflação que os operários. Além disso, viviam diferentemente deles. Gasta- vam menos com alimentação e mais corn alojamento, rou- pas e distrações. Gozavam de melhores garantias sociais, eram pagos mensalmente, não por dia ou por semana, e continuavam a receber uma parte de seu salário em caso de doença. Todas essas particularidades explicam sem dúvida que, malgrado sua função na sociedade, eles tinham muito menos consciência de pertencer ao proletariado do que os operários. É por isso talvez que foram muito mais permeá- veis ao nacionalismo e ao nazismo do que a classe operária. Todas as eleições que tiveram lugar sob a República de

110

Weímar mostram que a porcentagem de empregados que votaram nos nazistas foi quase quatro vezes mais alta do que entre os operários. A adesão ao Partido Nacional-Socia- lista revela a mesma proporção. Juntamente corn os comer- ciantes, os artesãos e os membros das profissões liberais, os empregados formaram, a partir de 1925, a base social de penetração do nazismo.13 Esse período, dito de estabilização económica, ou cha- mado ainda de Era Stresemann, é geralmente considerado

o

mais próspero que a Alemanha conheceu durante a primei-

ra

metade do século, mesmo que essa prosperidade só fos-

se

superficial e muito vulnerável. É nela que pensam os me-

morialistas quando falam de uma idade de ouro dos anos 20.

O progresso técnico se apresentava por toda parte. No trem

de luxo Berlim — Hamburgo, frequentado por homens de

negócio, telégrafo e telefone permitiam a comunicação com

o exterior. Construções audaciosas de concreto e aço desa-

fiavam a monotonia das cidades. Nas fábricas, o trabalho em cadeia era exaltado como uma vitória de Prometeu. Até os espetáculos seguiam o diapasão da nova exibição de opulên- cia, à moda da escola de Hollywood e das revistas ameri-

canas

Um desemprego único

No início de 1929, Stresemann reclamou, para que fos-

se resolvido especialmente o problema das dívidas da Ale-

manha para com os Aliados, medidas destinadas a substituir

o Plano Dawes. Um comité de peritos, sob a presidência do americano Owen Young, foi então constituído. Em junho

de 1929, um novo plano estava pronto. Deveria começar a ser aplicado em maio de 1930. Reduzia, entre outras coisas,

a dívida alemã a 10%. No pensamento de Stresemann, que

morreu em outubro de 1929, antes de ver o Plano Young entrar em execução, era preciso esforçar-se por pagar essas dívidas interaliadas não como antes, através de créditos es-

111

trangeiros, mas mediante um excedente das exportações alemãs. Com a crise económica nos Estados Unidos, tudo o que fora previsto pelo governo alemão desabou. Na medida em que a Alemanha vivera de créditos americanos, foi logo in- díretamente afetada pela crise. Os empréstimos não lhe po- diam ser renovados, o reembolso dos antigos lhe eram recla- mados. Com a retirada dos capitais estrangeiros e o êxodo dos capitais privados alemães, a Alemanha se encontrava de novo diante de um sistema financeiro paralisado, e logo diante de uma economia completamente transtornada. Terminou a trégua de prosperidade. Pouco a pouco, certas cenas de 1923 voltam a ser familiares. Não a loucura dos preços mudando de forma vertiginosa, nem a ruína ou a miséria de milhões de alemães pela desvalorização do mar- co, mas o desemprego, as filas diante dos escritórios de for- necimento de abono e as sopas populares. Em Berlim, 4 000 pessoas dormem regularmente nos abrigos noturnos. Os as- saltos se multiplicam. A criminalidade aumenta. A prosti- tuição também, masculina ou feminina. Pela manhã, alguns milhares de jovens sem trabalho esperam em vão no escri- tório de colocação de pessoal. E à noite, nas ruas, ficam à espera de clientes. Em 1929, o número dos desempregados representa 14,6% da população ativa. Em 1930, mais de 22%. Em 1931, o aumento é de 12%. E em 1932, chega-se a quase 45%: 5,5 milhões de pessoas sem emprego! De que vivem elas? Durante vinte semanas, elas têm direito a um seguro- desemprego que equivale a cerca de 35% do salário. De- poís, durante quarenta semanas, recebem o auxílio de crise, ou seja: 20% do salário apenas. Finalmente, como é ge- ralmente impossível encontrar trabalho, recebem a assistên- cia municipal, uma esmola que evita apenas que morram de fome. Em 1932, essa ajuda oscila entre quarenta e sessenta marcos por mês, e, no entanto, é preciso contar no mínimo com vinte marcos para o aluguel de um pardieiro, e o pão de 1,5 quilo custa 51 pfennige, mais da metade de um marco. Na realidade, 2 milhões de desempregados em média não recebiam ajuda alguma. O limite de idade que dava di- reito a um abono fora elevado, com efeito, de dezesseis para

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21 anos. E as mulheres casadas deviam fornecer provas de que sua situação familiar necessitava de um socorro finan- ceiro. A única perspectiva que se oferecia a homens e mulhe- res cujas famílias passavam necessidades era buscar o que

comer nos detritos das latas de lixo, prostítuír-se ou mendi- gar. Ou então suicidar-se. Nas estações de metro, relata Alexandre Arnoux a pro- pósito de uma viagem a Berlim em 1931, mendigos abordam os passantes. "Meretrizes com botas ou botinas, algumas das quais, ao que parece, são homens travestidos", chamam

os clientes sob as luzes da rua desde que cai a noite. Senho-

res corretamente vestidos ou mães com suas crianças pedem alguns pfennige para comer. Há tantos suicídios na cidade, conta ainda Alexandre Arnoux, que os jornais foram proibi- dos de noticiá-los para não desencorajar ainda mais a popu- lação. Para a maioria dos que dispunham de um trabalho regu- lar, as condições de vida se haviam igualmente degradado. Entre 1930 e 1932, os salários sofreram uma perda de 20 a 30%. Os impostos tinham aumentado. As aposentadorias e as pensões de guerra não tinham sido reajustadas. Muitos pequenos camponeses, reduzidos à miséria pelo pagamento de empréstimos e de hipotecas bancárias, eram obrigados a abandonar suas terras e empregar-se como criados em gran- des propriedades, ou a emigrar para as cidades. Os emprega- dos eram forçados a privar-se das aparências que eles tanto apreciavam e que os distinguiam dos operários. Nos bairros de Moabit, de Weddíng ou de Neukõll, em Berlim, assim como em todos os subúrbios de cidades operárias, as ruas se enchiam, no final de cada mês, de car- roças sobre as quais se amontoava todo um bricabraque de pouco valor: famílias deixavam seu antigo alojamento por- que não mais podiam pagar o aluguel. Partiam em busca de um lugar onde instalar-se, um casebre, ou pelo menos de um pórtico de imóvel ou um pátio de fundos. Durante esse tempo, as revistas exibiam fotos de moda

e anúncios publicitários dos últimos Ford, Chevrolet ou Mercedes. Os primeiros gravadores eram apresentados ao público. Químicos haviam obtido, a partir de gafanhotos que faziam razias na África, a extração de uma gordura que

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podia servir para a fabricação de sabão. E, cúmulo do pro- gresso técnico na vida cotídiana, certas construções de Ber- lim tinham sido dotadas de distribuidores automáticos que, com a introdução de cascas de batatas destinadas depois à alimentação do gado, ofereciam um feixe de lenha e um bi- lhete de loteria! Ainda em Berlim, mas também em Frankfurt e em Ham- burgo, as cervejarias, os mustc-halls, os cinemas estavam cheios de uma clientela que os frequentava sobretudo para aplacar a sua sede de esquecimento. O pessoal não mais re- cebia salário fixo, apenas o que comer. Nos dancings, que eram muitos, jovens sem trabalho ficavam horas diante de um copo e de um pedaço de pão, escutando música. Um pouco mais adiante, luxo e bem-estar pareciam não ter de- saparecido. Automóveis cruzavam as ruas. Abundavam mer- cadorias nas lojas.

O anúncio do terror

Quanto ao resto, a República de Weimar se caracteri-

Brúning à Chancelaria

em março de 1930, pelas medidas autoritárias contra o mo- vimento operário, pela falência das empresas e pela regres- são social. Dos 4 milhões de jovens de dezoito a 25 anos com que contava a Alemanha, mais de um quarto estava de- sempregado no final de 1931. Desses desempregados, de 40 000 a 45 000 eram portadores de diplomas universitá- rios.

O único remédio encontrado para atenuar a crise em relação a essa juventude foi a criação de um serviço civil em campos de trabalho. No final de 1932, eles abrigavam cerca de 200 000 voluntários, distribuídos em canteiros nas estradas e nas ferrovias. Esse serviço civil era apenas a fase intermediária para um serviço militar obrigatório reclamado pelos nazistas. Aliás, seu controle já estava completamente sob o comando da extrema direita. Tinha por principal res-

zava, desde

a ascensão de Heinrich

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ponsável o coronel Híerl, futuro sub-secretário de Estado para a Educação da Juventude no governo de Hitler.

Em contrapartida, os fidalgos do leste tinham sido efe- tivamente socorridos por ajudas financeiras substanciais. Diante das revelações sobre o montante dessas somas e sua utilização para fins inteiramente diversos de uma melhoria da situação agrícola, surgiram protestos no Parlamento. Isso ocorreu no final de 1932, sob o governo Schleicher, assassi- nado dezoito meses mais tarde por ordem de Hitler. Mas, de imediato, nada houve além de um escândalo, abafado assim que revelado, já que o próprio presidente Hindenburg se achava diretamente implicado nele. Recebera como presen-

te o domínio e o castelo de Neudeck, por meio de uma doa-

ção feita através de seu filho Oskar. Um dos artigos da Constituição de Weimar continha

um parágrafo segundo o qual o trabalho estava colocado sob

a proteção particular do Estado. Parágrafo ineficaz, como

tantos outros. Em outubro de 1929, quando chegou à Eu- ropa a notícia de que a Bolsa de Nova York quebrara, uma

história divertida circulava pela Alemanha. "Acabo de re- ceber uma carta de meu tio da América", dizia a um ami- go um berlinense. "Formidável! E o que ele conta?", per- guntava o outro. "Ele quer que eu lhe envie dez dólares!",

respondia o

em relação ao famoso paraíso americano não estará mais em

Três anos mais tarde, essa ironia

uso,

infelizmente. Em julho de 1932, os social-democratas perdiam 3%

nas

eleições legislativas em relação a 1930. Os comunistas

ganhavam um pouco mais de 1%. Os nazistas passavam de 18,3% para 37,3%, e seu partido se tornava o mais forte no Parlamento. Nas ruas de todas as cidades, e mesmo das

aldeias, os homens de suas seçÕes de assalto exibiam a sua força. Serviam-se dela contra os piquetes sindicais, contra os comunistas, os judeus, tudo o que lhes fazia oposição, pro- vocando brigas contínuas. A resposta às dificuldades sociais

se anunciava pelos golpes e pelo terror,

i Havia anos a sociedade alemã conhecia a brutalidade

aberta. Uma violência cega pesava sobre ela. Crimes horríveis alimentavam o fascínio e o medo. Ambos eram fomentados

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pelos nazistas, que os utilizavam para reclamar frenetica- mente a ordem e castigos exemplares contra os culpados.

A pena de morte existia ainda juridicamente, embora

não fosse mais aplicada. Em 1931, reapareceu. Haarmann, apelidado de Açougueiro de Hanôver, assassino de rapa- zes, foi enforcado. Na saída da escola, as crianças canta-

vam: 35 "Espera, espera um pouco,/ Vai chegar a vez de Haarmann te agarrar!/ Corn o machado vai ser bem fácil,/

Vaí fazer de tí um picadinho!" Ainda em 1931, mesmo destino teve aquele que fora chamado de Vampiro de Dusseldorf e que, em 1929, fizera estremecer toda a Alemanha. Peter Kurten, um operário então desempregado, não podia dominar o impulso sexual que o levava a matar. Cometera nove assassinatos contra mu- lheres jovens ou meninas, e várias tentativas de homicí- dio.16 Nesse caso, que os jornais relataram em suas colunas num estilo próximo do delírio, Fritz Lang baseou seu filme Aí, com Peter Lorre^no papel do criminoso.

A moda da astrologia estava no ápice. Nas bancas, pu-

lulavam títulos como O vidente, O profeta, A nova Ale- manha, O futuro da Alemanha, Olhar sobre o futuro, que profetizavam a chegada ao poder de um homem forte, de um novo césar. Os magos se chamavam Joseph Weissen- berg, que se considerava um apóstolo, ou Max Moecke, que aderira ao nazismo após ter sido social-democrata, ou Erik Jan Hanussen, que balizara sua casa em Berlim de Palácio do Ocultismo. Através de Hanussen, é possível ler sobre a decadência da República de Weimar. Nascido na Hungria de uma famí- lia de gente de teatro, de ascendência judia, ele se chamava na realidade Hermann Steinschneider. Seu sucesso em Berlim datava de 1930. Mágico, ilusionista, hipnotlzador, exibía-se inicialmente nos palcos em números de variedades. Depois adquiriu casa própria e um escritório, onde suas sessões de telepatia e hipnotismo eram frequentadas pela melhor socie- dade. Entre seus íntimos figuravam nazistas, membros in- fluentes das seçÕes de assalto. É verdade que após ter apos- tado brevemente em Hugenberg, ele clamava distintamente a todos os ventos o nome do Messias tão esperado: Adolf Hitler.

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Alguns afirmam que ele foi um dos responsáveis, em fevereiro de 1933, pelo incêndio do Reichstag, maquinação anticomumsta urdida por Goering. Ele fez mal, em todo caso, de navegar em tão altas esferas. Quinze dias após ter misteriosamente desaparecido, seu cadáver foi encontrado num bosque, a 7 de abril de 1933. Ele estava irreconhecível e não tinha nada nos bolsos, nenhum documento. O caso foi rapidamente arquivado. O inquérito não permitiu jamais saber quem o havia matado.17

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